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Universidade do Minho Escola de Psicologia Diana Ribeiro Freitas Stress parental e saúde mental na adolescência em tempo de pandemia COVID-19: Revisão Sistemática outubro de 2023 Stress parental e saúde mental na adolescência em tempo de pandemia COVID-19: Revisão Sistemática Diana Ribeiro Freitas UMinho | 2023
Universidade do Minho Escola de Psicologia Diana Ribeiro Freitas Stress parental e saúde mental na adolescência em tempo de pandemia COVID-19: Revisão Sistemática Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia Clínica na Infância e Adolescência Trabalho efetuado sob a orientação do Professora Doutora Teresa Freire outubro de 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ [Esta é a mais restritiva das nossas seis licenças principais, só permitindo que outros façam download dos seus trabalhos e os compartilhem desde que lhe sejam atribuídos a si os devidos créditos, mas sem que possam alterá-los de nenhuma forma ou utilizá-los para fins comerciais.]
iii Agradecimentos Inicio os meus agradecimentos à professora doutora Teresa Freire, por me ter apoiado e concedido a oportunidade de investigar uma temática que é alvo particular do meu interesse. Agradeço-lhe as aprendizagens, a visão atual e enérgica das temáticas exploradas, e principalmente, a paixão na abordagem da psicologia, que certamente me acompanhará no meu futuro profissional. Agradeço à Teresa e à Diana, que me apoiaram no processo e concretização da minha dissertação. Sem o vosso apoio não teria alcançado esta meta. Obrigada Patrícia, por teres sido a colega que me apoiou durante estes anos académicos. Do companheirismo nasceu uma amizade que ultrapassou os limites da universidade, e nos acompanhará no que quer que o futuro nos reserve. À Amália, à Joana, à Beta, obrigada por terem sido os meus pilares emocionais durante toda a jornada. Os desafios, renúncias, e custos pessoais da realização deste sonho, foram serenados pela vossa compreensão e presença constante. À Sandra e à Ana, que mesmo longe, estiveram sempre tão perto, e me lembraram em cada pausa para respirar, do quanto já estava cada vez mais próxima do fim, do quanto sou capaz. Por último, agradeço à minha família. Ao meu pai por me ter apoiado a começar, à minha mãe por ter sido a força e estrutura que me fez continuar, ao meu irmão por me fazer sempre sentir valorizada e admirada. Sem ti mãe, sem ti Ricardo, não seria possível estar aqui hoje, a escrever estas linhas, que tantas vezes imaginei. A ti, pai, que não conseguiste ver-me chegar ao fim, agradeço-te a memória da tua força, do sorriso meigo com que apoiavas todos os meus sonhos. Agradeço teres-me ensinado não só a lutar pelos meus objetivos, mas a não me esquecer do mais importante enquanto o faço: o amor que colocamos nos nossos dias. Que a humildade e a ternura com que davas os teus passos, se reflita em todos os meus.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 11 de outubro de 2023
v Stress parental e saúde mental na adolescência em tempo de pandemia COVID-19: Revisão Sistemática Resumo A pandemia COVID-19 representou um risco para a saúde mental dos jovens, com impactos negativos decorrentes do isolamento social. O acréscimo das responsabilidades parentais e outros fatores relacionados à COVID-19 contribuíram para o aumento do stress parental, que se mostrou associado a sintomas de internalização e externalização nos filhos. Contudo, pouco se sabe acerca do efeito do stress parental durante a adolescência, em que surgem preocupações sociais e procura por autonomia. Esta revisão investigou a relação entre stress parental e sintomas de internalização e externalização, autorregulação e bem-estar dos adolescentes, além da qualidade do relacionamento entre ambos, durante a pandemia. Seguindo as diretrizes PRISMA, foram analisados estudos publicados entre 2020 e 2022, com amostras de adolescentes de 11 a 18 anos, excluindo sintomatologia pré-pandemia. A pesquisa recorreu a 4 bases de dados, e dois revisores independentes avaliaram as fases de seleção e qualidade dos estudos. Os três estudos incluídos demonstraram uma relação positiva entre stress parental e problemas de internalização e externalização nos adolescentes, além de mudanças no relacionamento pais-filhos, em particular, relativamente ao suporte à autonomia dos filhos. Esses resultados destacam a importância de compreender o stress parental e os impactos na saúde mental dos adolescentes, e o relacionamento entre pais dos adolescentes, durante a pandemia. Palavras-chave: stress parental, adolescentes, saúde mental, COVID-19.
vi Parental stress and mental health in adolescence in covid-19 pandemic time: a systematic review Abstract The COVID-19 pandemic represented a risk to the mental health of young people, with negative impacts stemming from social isolation. The added responsibilities of parenting and other factors related to COVID19 have contributed to increased parental stress, which has been associated with symptoms of internalization and externalization in children. However, little is known about the effect of parental stress during adolescence, when social concerns and the search for autonomy arise. This review investigated the relationship between parental stress and symptoms of internalization and externalization, self-regulation, and well-being of adolescents, as well as the quality of the relationship between parents and adolescents during the pandemic. Following PRISMA guidelines, studies published between 2020 and 2022 were analysed, involving samples of adolescents aged 11 to 18 years, excluding pre-pandemic symptomatology. The research utilized four databases, and two independent reviewers assessed the selection process and study quality. The three included studies demonstrated a positive relationship between parental stress and internalizing and externalizing problems in adolescents, as well as changes in parent-child relationships regarding support for autonomy. These results underscore the importance of understanding parental stress during the pandemic and its impacts on the mental health and family relationships of adolescents. Keywords : parental stress, adolescents, mental health, COVID-19.
vii Índice Fundamentação teórica .............................................................................................................................. 8 COVID-19 e adolescentes ........................................................................................................................ 8 COVID-19 e stress parental ..................................................................................................................... 8 COVID-19 e a dinâmica familiar .............................................................................................................. 9 Objetivos do estudo ................................................................................................................................. 9 Metodologia ..............................................................................................................................................10 Critérios de elegibilidade .......................................................................................................................10 Estratégia de pesquisa ..........................................................................................................................11 Seleção de dados ..................................................................................................................................13 Avaliação da qualidade ..........................................................................................................................14 Extração de dados e síntese ..................................................................................................................15 Resultados ................................................................................................................................................17 Caraterísticas dos estudos incluídos ......................................................................................................17 Análise de dados .......................................................................................................................................17 Stress parental e bem-estar e autorregulação nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19 ..............................................................................................................................................17 Stress parental e sintomas de internalização e/ou externalização nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19 .........................................................................................................................17 Qualidade do relacionamento entre pais e filhos adolescentes, durante a fase de pandemia .................18 Promoção de intervenções no bem-estar, autorregulação e sintomas de internalização e externalização nos adolescentes, relacionadas com sintomas pós-pandemia ................................................................19 Discussão .................................................................................................................................................20 Conclusão .............................................................................................................................................22 Limitações ............................................................................................................................................22 Referências Bibliográficas .........................................................................................................................23 Índice de figuras Figura 1………………………………………………………………………………………………………………………………..14 Figura 2………………………………………………………………………………………………………………………………..16 Índice de tabelas Tabela 1………………………………………………………………………………………………………………………………..11
14 Figura 1 Fluxograma do processo de seleção de estudos. Avaliação da qualidade Com o objetivo de avaliar a qualidade metodológica, e clarificar as limitações no relatório dos estudos considerados elegíveis, foi selecionada e utilizada a ferramenta Quality Assessment for Diverse Studies (QuADS), dado permitir a avaliação de qualidade de uma diversa gama de desenhos de estudo (Harrison et al., 2021). A ferramenta QuADS é composta por 13 questões, avaliadas numa escala entre 0 e 3 (nada/muito ligeiramente/moderadamente/completamente). As questões/avaliações apresentam-se repartidas em: 1Fundamentação teórica ou concetual da pesquisa, 2Definição dos objetivos da pesquisa, 3Descrição clara do contexto da pesquisa e população alvo, 4Desenho de estudo apropriado aos objetivos da pesquisa, 5Amostra apropriada aos objetivos da pesquisa, 6Justificação para a escolha das ferramentas da recolha de dados, 7Formato e conteúdo das ferramentas da recolha de dados apropriada para os objetivos da pesquisa, 8Descrição do procedimento da recolha de dados, 9Dados acerca do recrutamento, 10Justificação para a escolha do método de análise, 11Método de análise apropriado para responder aos objetivos da pesquisa,
15 12Evidência de que as partes interessadas na pesquisa foram consideradas no método ou desenho de estudo, e 13Discussão crítica dos pontos fortes e limitações. A avaliação da qualidade dos estudos foi realizada por dois revisores independentes, e as avaliações que poderiam ter uma pontuação máxima de 39 pontos, pontuaram entre 17 e 29 pontos. A avaliação da qualidade dos estudos teve uma pontuação aquém da máxima, devido à reduzida informação acerca dos dados acerca do recrutamento, da justificação e adequação do método de análise selecionado para responder aos objetivos da pesquisa, e devido à falta de evidência de que as partes interessadas na pesquisa foram consideradas no método ou desenho de estudo. O coeficiente de kappa de Cohen (Cohen, 1968), obteve um valor de 0.73, considerado satisfatório a bom (Fonseca et al., 2007). Extração de dados e síntese Para cada estudo selecionado como elegível, foi extraído e sintetizado para uma base de dados em formato Excel, os critérios: estudo, nacionalidade da população de estudo, desenho de estudo, caraterísticas da amostra (tais como, conjuntos de idades), objetivo do estudo, variáveis analisadas, e o resultado do estudo. Os dados resultantes da base de dados apresentam-se em tabela na figura 2.
16 Figura 2 Caraterísticas dos estudos incluídos
17 Resultados Caraterísticas dos estudos incluídos Os estudos incluídos, foram realizados entre os anos 2021 e 2022, nos países de Itália (Liang, 2021), Países Baixos (Bulow, 2021), e Sri Lanka (Athapathu, 2022). Todos os estudos, aprovados pelas respetivas Comissões de Ética, foram preenchidos pelos participantes através de plataforma online, dois divulgados nas escolas locais (Athapathu, 2022; Bulow, 2021), e um, através das redes sociais (Liang, 2021). As amostras dos estudos foram compostas por adolescentes entre os 12 e os 18 anos. Um dos estudos apresentou um de desenho transversal (Athapathu, 2022), cuja recolha de dados decorreu ao longo de 2 meses, com início em outubro de 2020. Os restantes estudos, longitudinais (Liang, 2021; Bulow, 2021), reuniram recolhas de dados entre novembro de 2019 e maio de 2020. Um dos estudos teve uma amostra composta por dois informantes, pais e adolescentes (Bulow, 2021), e os restantes tiveram uma amostragem constituída apenas por pais de adolescentes (Athapathu, 2022; Liang, 2021). Um dos estudos incluídos incluiu retribuição monetária pela participação em cada um dos questionários. No que se refere aos objetivos de estudo, 2 investigaram a relação entre o stress parental e sintomas de internalização (Athapathu, 2022; Liang, 2021) e externalização (Athapathu, 2022) nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19, e 1 estudo avaliou as mudanças no relacionamento entre pais e filhos, durante a fase de pandemia COVID-19 (Bulow, 2021). Análise de dados Com base nas questões de investigação definidas para a presente revisão sistemática, apresentase a análise de cada um dos objetivos propostos. Stress parental e bem-estar e autorregulação nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19 Entre os estudos incluídos na revisão, nenhum analisou especificamente a relação entre a variável de stress parental e os níveis de bem-estar nos filhos adolescentes, nem a relação entre o stress parental e a autorregulação nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19. Stress parental e sintomas de internalização e/ou externalização nos filhos adolescentes, durante a fase de pandemia COVID-19 Entre os estudos incluídos, dois investigaram a sintomatologia de internalização e externalização nos adolescentes, durante a fase de pandemia (Athapathu et al., 2022; Liang et al., 2021). Ambos identificaram uma relação positiva entre o aumento do stress parental e sintomas de ansiedade, depressão e hiperatividade-inatenção em adolescentes. Quanto às variáveis de sintomas de internalização e externalização nos adolescentes, os 2 estudos indicaram que os pais relataram que os filhos exibiam níveis elevados de sintomas de internalização e externalização. Especificamente, 38% dos adolescentes foram classificados como apresentando sintomas no
18 nível borderline/elevado, conforme avaliado pelo instrumento Strenghts and Difficulties Questionnaire (SDQ) (Athapathu et al., 2022). De forma mais detalhada, um dos estudos observou que 31.9% dos adolescentes relataram sintomas elevados de ansiedade e 17.7% de depressão, avaliados respetivamente pelos instrumentos SCAS-P 8 e SMFQ-P (Liang et al., 2021). Além disso, outro estudo indicou que 22% dos adolescentes pontuaram no nível borderline na escala emocional do instrumento SDQ (Athapathu et al., 2022). Em relação aos sintomas de externalização, os estudos demonstraram que 29.3% dos adolescentes apresentaram sintomas no nível anormal, de acordo com a escala de hiperatividade-inatenção do instrumento SDQ (Athapathu et al., 2022). Relativamente à variável de stress parental, um dos estudos revelou que os níveis desta variável aumentaram durante o período de isolamento social, e os pais relataram mais dificuldades na relação com seus filhos, em comparação com o período anterior à pandemia (Athapathu et al., 2022). No que diz respeito à relação entre as variáveis de stress parental e sintomas de internalização nos filhos adolescentes, um dos estudos, de desenho longitudinal, observou uma correlação positiva entre o stress parental, medido cinco semanas após o início da quarentena em março de 2020, e os sintomas depressivos e de ansiedade nos adolescentes no final da quarentena em maio de 2020 (Liang et al., 2021). Além disso, um dos estudos, de desenho transversal, que analisou a relação entre o stress parental e os sintomas de internalização e externalização nos adolescentes, apresentou resultados semelhantes, demonstrando uma associação significativa entre o stress parental percebido e os problemas emocionais, bem como a hiperatividade-inatenção em adolescentes, conforme evidenciado por um teste de correlação de Spearman entre os resultados dos instrumentos SDQ e PS (Athapathu et al., 2022). Qualidade do relacionamento entre pais e filhos adolescentes, durante a fase de pandemia Apenas um dos estudos incluídos, de desenho longitudinal, abordou o relacionamento entre pais e filhos durante a pandemia da COVID-19. Os resultados revelaram que, após o período de isolamento, houve um aumento no tempo que pais e filhos passaram juntos. Por outro lado, os adolescentes passaram menos tempo com seus amigos pessoalmente, mas aumentaram o contato online ou por telefone. Os adolescentes relataram que os pais estabeleceram uma média de 13.04 novas regras relacionadas à COVID-19, enquanto os pais relataram uma média de 14.36 novas regras implementadas. A maioria dos adolescentes considerou essas novas regras como legítimas. Além disso, foi observado um nível relativamente baixo de comportamentos de oposição desafiante, tanto pelo relato dos adolescentes quanto dos pais. Constatou-se que, entre as variáveis relacionadas ao afeto, conflito, suporte à autonomia dos adolescentes, controle psicológico e controle do comportamento por parte dos pais, somente o suporte à autonomia sofreu uma mudança significativa. Segundo os adolescentes e os pais, houve uma diminuição no suporte à autonomia após o início da quarentena. Após 8 semanas, os pais relataram que gradualmente
19 diminuíram o controle de comportamento e restauraram os níveis anteriores de suporte à autonomia dos adolescentes. No entanto, os adolescentes não perceberam um aumento nos níveis de suporte à autonomia após esse período. O mesmo estudo também destacou a influência da qualidade do relacionamento entre pais e filhos antes da quarentena nas mudanças observadas durante o isolamento. Famílias que antes do isolamento apresentaram níveis elevados de afeto, após o isolamento tiveram uma diminuição, segundo os adolescentes. Por outro lado, famílias com níveis elevados de conflito antes do isolamento, identificaram um aumento desta variável após o isolamento, segundo o relato dos adolescentes, embora os pais tenham percecionado o oposto. Famílias que demonstraram níveis elevados de suporte à autonomia antes do isolamento, experimentaram menor diminuição ou maior aumento no suporte à autonomia, de acordo com os pais. Famílias que relataram níveis elevados de controle psicológico antes do isolamento também identificaram um aumento no controle psicológico após o isolamento, de acordo com os pais. Da mesma forma, famílias com níveis elevados de controle de comportamento antes do isolamento relataram um aumento no controle de comportamento após o isolamento. O estudo não encontrou associações significativas entre fatores relacionados aos pais, como ansiedade parental e preocupações relacionadas à COVID-19, e mudanças no relacionamento entre pais e adolescentes durante o confinamento. Além disso, identificou uma correlação entre uma diminuição mais acentuada no suporte à autonomia após o isolamento e níveis mais elevados de oposição desafiante às novas regras impostas pelos pais. Por outro lado, a perceção dos adolescentes de que as novas regras eram legítimas foi relacionada a um aumento no controle psicológico reportado pelos pais. Finalmente, o estudo não encontrou associações significativas entre a qualidade do relacionamento entre pais e filhos e dados demográficos. Além disso, o número de novas regras não foi correlacionado com conflitos entre pais e adolescentes, nem com oposição desafiante. Quanto à legitimidade das novas regras impostas pelos pais, estas não se correlacionaram com conflitos entre pais e adolescentes, mas foram negativamente correlacionadas com oposição desafiante. Promoção de intervenções no bem-estar, autorregulação e sintomas de internalização e externalização nos adolescentes, relacionadas com sintomas pós-pandemia Os 3 estudos incluídos na revisão sistemática não abordaram programas de intervenção relacionados à promoção do bem-estar, autorregulação e sintomas de internalização e externalização em adolescentes em relação aos sintomas pós-pandemia. No entanto, os estudos revelaram uma relação entre sintomas de internalização e externalização em adolescentes e variáveis como, o stress parental, a idade e o género dos adolescentes, ter um membro da família afetado pela COVID-19, a qualidade do relacionamento entre pais e filhos antes da pandemia, a utilização da supressão expressiva pelos pais como estratégia de regulação
20 emocional e o período de quarentena. Os estudos apontaram que os adolescentes mais jovens e do sexo masculino apresentaram níveis mais elevados de sintomas de externalização, especificamente hiperatividade e inatenção. Os pesquisadores sugerem que essa relação pode ser atribuída ao fato de que os adolescentes mais jovens necessitam de maior apoio parental, enquanto os mais velhos são mais autónomos nas suas interações sociais e administração do tempo. Adicionalmente, a maior incidência de hiperatividade em rapazes pode estar, segundo os autores, relacionada a uma maior expressão emocional, comparativamente às raparigas (Athapathu et al., 2022). Além disso, os estudos indicaram que ter um membro da família infetado com COVID-19 estava associado a níveis mais elevados de sintomas de externalização em adolescentes (Athapathu et al., 2022). O stress parental surgiu como um fator relevante nos estudos, apresentando uma correlação positiva com sintomas de ansiedade, depressão e hiperatividade-inatenção (Athapathu et al., 2022; Liang et al., 2021). Um dos estudos observou uma associação entre o stress parental, a supressão expressiva por parte dos pais, e sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes. A supressão expressiva parental foi positivamente relacionada com sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes, e funcionou como uma variável mediadora entre o stress parental e sintomas de internalização (Liang et al., 2021). Adicionalmente, um estudo longitudinal identificou mudanças ao longo do tempo nos níveis de ansiedade e depressão dos adolescentes, que não se manifestaram imediatamente, mas sim durante o período de quarentena. Esse mesmo estudo revelou que, no final do período de confinamento, os níveis de ansiedade dos adolescentes diminuíram, ao contrário dos níveis de sintomas depressivos, que permaneceram mais estáveis (Liang et al., 2021). Em síntese, esses estudos enfatizam a importância de compreender como a pandemia afetou os adolescentes, particularmente nos sintomas de internalização e externalização. Os fatores contextuais, como o stress parental, desempenharam um papel significativo nessas dinâmicas. Adicionalmente, enfatizam a necessidade de apoiar tanto os adolescentes quanto seus pais em momentos de crise, e ressaltam a importância de futuras pesquisas e intervenções para enfrentar esses desafios de maneira eficaz. Discussão A presente revisão sistemática visou aprofundar a compreensão da relação entre o stress parental e a saúde mental de adolescentes entre 11 e 18 anos, durante a pandemia da COVID-19. Especificamente, procurou informar sobre os níveis de autorregulação, bem-estar e sintomas de internalização e externalização em adolescentes em contexto de stress parental. Além disso, analisou a qualidade do relacionamento entre pais e filhos adolescentes durante a pandemia e explorou intervenções relacionadas ao bem-estar,
21 autorregulação e sintomas de internalização e externalização em adolescentes após o início da pandemia. Para os objetivos que exploraram a relação entre o stress parental e o bem-estar dos adolescentes, bem como a relação entre o stress parental e a autorregulação dos adolescentes, não foram encontrados estudos que preenchessem os critérios de elegibilidade. No entanto, em relação à investigação sobre a relação entre o stress parental e os sintomas de internalização e externalização em adolescentes, durante a pandemia COVID-19, os estudos confirmaram uma correlação positiva entre o stress parental e os níveis de ansiedade, depressão e hiperatividadeinatenção, reforçando resultados de estudos anteriores em amostras mais amplas de crianças e adolescentes (Orgilés et al., 2021; Spinelli et al., 2020). A análise da qualidade do relacionamento entre pais e filhos adolescentes durante a pandemia mostrou que, em comparação com o período pré-pandemia, houve uma diminuição significativa no suporte à autonomia dos filhos durante o isolamento social, enquanto outras dimensões do relacionamento, como afeto, conflito, controlo psicológico e controlo comportamental, permaneceram relativamente estáveis. A pesquisa revelou diferenças entre famílias, algumas beneficiando com o isolamento, com mais afeto e menos conflito, enquanto outras revelaram o oposto, com mais conflito e menos afeto, o que está em linha com estudos anteriores sobre o bem-estar de pais e adolescentes durante a pandemia (Janssen et al., 2020). Essas diferenças estão, segundo os autores, relacionadas com as características pré-existentes do relacionamento entre pais e filhos, como observado em estudos anteriores em circunstâncias normais (Laursen et al., 2010). Além disso, o quanto os adolescentes consideraram legítimas, as novas regras relacionadas à COVID-19, impostas pelos pais, foi apontado como um fator relacionado a níveis mais baixos de comportamento de oposição desafiante dos adolescentes, e mudanças menos significativas na qualidade do relacionamento entre pais e adolescentes. Embora os níveis de suporte à autonomia tenham diminuído, isso não pareceu afetar negativamente as outras dimensões do relacionamento. Tal resultado pode ser explicado pelos níveis elevados de legitimidade das novas regras, indicando que os adolescentes perceberem as regras como legítimas, ameniza possíveis impactos negativos. Os estudos incluídos na revisão não abordaram programas de intervenção para promover o bemestar entre os adolescentes, nos sintomas pós-pandemia. No entanto, revelaram dados importantes no desenvolvimento e promoção de intervenções que considerem problemas de internalização e externalização nos adolescentes, relacionados com sintomas pós-pandemia COVID-19. Os estudos sugerem que a pandemia de COVID-19 teve impactos significativos na saúde mental dos adolescentes, especialmente relacionados à internalização e externalização de sintomas. Fatores como o contexto familiar, o stress parental e a idade desempenharam papéis importantes nesses efeitos. Além disso, os resultados destacam a importância de fornecer apoio emocional tanto aos adolescentes quanto aos seus pais durante períodos
22 de crise. Os estudos incluídos na análise apresentam algumas limitações que merecem destaque. Primeiramente, é importante observar que apenas um dos estudos considerou os relatos dos adolescentes, enquanto os outros dois se basearam exclusivamente nas perceções e relatos dos pais sobre o comportamento dos adolescentes. Essa diferença de informadores pode influenciar a compreensão completa das experiências dos adolescentes. Além disso, é relevante mencionar que as amostras utilizadas nos estudos têm um tamanho moderado, não sendo particularmente amplas. Essa limitação pode afetar a representatividade das conclusões, uma vez que uma amostra maior poderia fornecer uma visão mais abrangente dos fenómenos estudados. Conclusão Os resultados desta revisão sistemática têm implicações significativas tanto para a prática como para a investigação. Do ponto de vista prático, enfatizam a importância de profissionais de saúde mental e pais estarem atentos aos sinais emocionais e comportamentais dos adolescentes, especialmente durante situações adversas como a pandemia COVID-19. Além disso, realçam o papel crucial do ambiente familiar na saúde mental dos adolescentes, sublinhando a necessidade de apoiar os pais e cuidadores na gestão do stress parental e na promoção de relacionamentos familiares saudáveis. Também destacam a relevância de as regras impostas pelos pais serem percebidas como justas pelos adolescentes, o que pode contribuir para relacionamentos familiares mais positivos. Estudos futuros devem considerar o desenvolvimento de intervenções específicas para melhorar a saúde mental dos adolescentes, considerando sintomas pós-pandemia. Além disso, encorajar a exploração de estratégias destinadas a melhorar a relação entre pais e adolescentes, bem como a avaliação do impacto de abordagens que promovam a autonomia dos adolescentes e auxiliem na gestão do stress parental, durante crises como a pandemia. Em resumo, a presente revisão realça a importância de considerar os desafios de saúde mental enfrentados pelos adolescentes durante a pandemia, e de considerar o contexto familiar e parental nos mesmos. Tanto na prática como na investigação, é essencial focar em estratégias de apoio para promover a saúde mental dos adolescentes e fortalecer o relacionamento familiar. Limitações A revisão sistemática apresenta diversas limitações que requerem uma interpretação cuidadosa dos resultados. Entre as principais limitações, destacam-se: o número reduzido de estudos incluídos, que pode limitar a generalização das conclusões. A falta de resposta a alguns objetivos da revisão. Considerando que a revisão aborda um acontecimento recente, foram incluídos estudos com um intervalo de apenas dois anos, o que pode limitar uma visão alargada das questões em estudo. E considerando também o acontecimento
23 recente, a revisão apresentou objetivos de pesquisa bastante específicos, o que pode ter limitado os estudos incluídos. O facto de apenas terem sido considerados artigos na língua inglesa pode ter resultado na exclusão de estudos que não foram traduzidos. Novamente, tendo em conta tratar-se de um acontecimento recente, a revisão apresentou critérios de inclusão rigorosos que podem ter excluído estudos relevantes. Também o facto de não terem sido considerados estudos não publicados, pode ter significado um viés ao excluir estudos recentes. Por último, o tempo decorrido entre a pesquisa e a finalização da revisão pode ter levado à desatualização das informações, considerando que novos estudos podem ter surgido durante esse intervalo. Referências Bibliográficas Achterberg, M., Dobbelaar, S., Boer, O. D., & Crone, E. A. (2021). Perceived stress as mediator for longitudinal effects of the COVID-19 lockdown on wellbeing of parents and children. Scientific reports, 11(1), 1-14. Athapathu, A., Navaratnam, D., Doluweera, M., & Liyanage, G. (2022). Child emotional and behavioral difficulties and parent stress during COVID-19 lockdown in Sri Lankan families. PLoS One, 17(8), e0271757. Brooks, S. K., Webster, R. K., Smith, L. E., Woodland, L., Wessely, S., Greenberg, N., & Rubin, G. J. (2020). The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The lancet, 395(10227), 912-920. Bülow, A., Keijsers, L., Boele, S., van Roekel, E., & Denissen, J. J. (2021). Parenting adolescents in times of a pandemic: Changes in relationship quality, autonomy support, and parental control? Developmental Psychology, 57(10), 1582. Centre for Reviews and Dissemination. (2009). CRD's guidance for undertaking reviews in healthcare . York Publ. Services. Cohen, J. (1968). Weighted kappa: Nominal scale agreement with provision for scaled disagreement or partial credit. Psychological Bulletin, 70, 213-220. Cohodes, E. M., McCauley, S., & Gee, D. G. (2021). Parental buffering of stress in the time of COVID-19: family-level factors may moderate the association between pandemic-related stress and youth symptomatology. Research on Child and Adolescent Psychopathology, 49(7), 935-948. de Miranda, D. M., da Silva Athanasio, B., Oliveira, A. C. S., & Simoes-e-Silva, A. C. (2020). How is COVID19 pandemic impacting mental health of children and adolescents?. International journal of disaster risk reduction, 51, 101845. Ellis, W. E., Dumas, T. M., & Forbes, L. M. (2020). Physically isolated but socially connected: Psychological adjustment and stress among adolescents during the initial COVID-19 crisis. Canadian Journal of Behavioural Science/Revue canadienne des sciences du comportement, 52(3), 177. Ellis, W. E., & Zarbatany, L. (2017). Understanding processes of peer clique influence in late childhood and early adolescence. Child Development Perspectives, 11(4), 227-232. Evans, G. W., Boxhill, L., & Pinkava, M. (2008). Poverty and maternal responsiveness: The role of maternal stress and social resources. International Journal of Behavioral Development, 32(3), 232-237. Fonseca, R. J. R. M. D., Silva, P. J. D. S. P. D., & Silva, R. R. D. (2007). Acordo inter-juízes: O caso do coeficiente kappa. Laboratório de Psicologia, 81-90. Harrison, R., Jones, B., Gardner, P., & Lawton, R. (2021). Quality assessment with diverse studies (QuADS): an appraisal tool for methodological and reporting quality in systematic reviews of mixed-or multimethod studies. BMC Health Services Research, 21(1), 1-20. Holly, L. E., Fenley, A. R., Kritikos, T. K., Merson, R. A., Abidin, R. R., & Langer, D. A. (2019). Evidence-base update for parenting stress measures in clinical samples. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, 48(5), 685-705.