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As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico

Alves, Ana Margarida Gonçalves

Abstract

As praxes académicas têm sido associadas sobretudo a vivências negativas e a comportamentos abusivos e inadequados. Não obstante, também constituem práticas que continuam a mobilizar e a envolver os estudantes universitários, por perspetivarem as experiências positivas que podem advir das mesmas. Deste modo, com o presente estudo pretendemos desenvolver e validar um questionário que permitisse melhor conhecer e caracterizar as eventuais experiências positivas associadas à participação e envolvimento dos estudantes universitários nas praxes académicas – Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica (QEPA). Um segundo objetivo do estudo foi analisar a relação entre as experiências positivas e negativas e o bem-estar psicológico dos participantes. A amostra integrou 408 estudantes da Universidade do Minho que admitiram ter participado nas praxes académicas, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos (M= 20.8, DP=2.19), na sua grande maioria mulheres (71.4%). Os resultados revelaram que o QEPA apresenta características psicométricas adequadas, tanto a nível de validade como a nível de fidelidade. Verificou-se ainda existir uma correlação positiva e significativa entre as experiências positivas na praxe académica e o bem-estar psicológico; e uma correlação negativa significativa entre a experienciação de comportamentos inadequados e o bem-estar psicológico. Aceder às experiências positivas associadas às praxes académicas revela-se fundamental para auxiliar e fundamentar as políticas de prevenção e intervenção neste contexto.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Margarida Gonçalves Alves A s Experiências (Des)favoráveis Associadas às Praxes Académicas e a Sua Relação com o Bem-Estar Psicológico junho de 2022 As Experiências (Des)favoráveis Associadas às Praxes Académicas e a Sua Relação com o BemEstar Psicológico Ana Margarida Alves UMinho | 2022 Universidade do Minho Escola de Psicologia Junho de 2022 Ana Margarida Gonçalves Alves As Experiências (Des)favoráveis Associadas às Praxes Académicas e a Sua Relação com o BemEstar Psicológico Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação de Sónia Caridade E Rui Abrunhosa Gonçalves ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii Agradecimentos A presente tese marca a conclusão de mais uma etapa do meu percurso de carreira sendo que, não posso deixar de agradecer às pessoas que, direta ou indiretamente, auxiliaram-me nesta jordana árdua, mas repleta de aprendizagens. Assim, agradeço à minha Orientadora Professora Sónia Caridade, pela disponibilidade, assistência, compreensão, enorme apoio, aprendizagens proporcionadas e orientação marcada pela partilha de conhecimentos e rigor científico. Ao meu Orientador Professor Rui Abrunhosa, pela assistência, compreensão e pelas oportunidades de aprendizagem proporcionadas. À minha família por me apoiar e tornar possível esta etapa de formação académica. Aos meu amigos e colegas por permanecerem a meu lado e ouvirem-me. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. (Ana Margarida Alves) Assinado por: Ana Margarida Gonçalves Alves Num. de Identificação: 15369989 Data: 2022.06.06 11:14:39 +0100 v As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico Resumo As praxes académicas têm sido associadas sobretudo a vivências negativas e a comportamentos abusivos e inadequados. Não obstante, também constituem práticas que continuam a mobilizar e a envolver os estudantes universitários, por perspetivarem as experiências positivas que podem advir das mesmas. Deste modo, com o presente estudo pretendemos desenvolver e validar um questionário que permitisse melhor conhecer e caracterizar as eventuais experiências positivas associadas à participação e envolvimento dos estudantes universitários nas praxes académicas – Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica (QEPA). Um segundo objetivo do estudo foi analisar a relação entre as experiências positivas e negativas e o bem-estar psicológico dos participantes. A amostra integrou 408 estudantes da Universidade do Minho que admitiram ter participado nas praxes académicas, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos (M= 20.8, DP=2.19), na sua grande maioria mulheres (71.4%). Os resultados revelaram que o QEPA apresenta características psicométricas adequadas, tanto a nível de validade como a nível de fidelidade. Verificou-se ainda existir uma correlação positiva e significativa entre as experiências positivas na praxe académica e o bem-estar psicológico; e uma correlação negativa significativa entre a experienciação de comportamentos inadequados e o bem-estar psicológico. Aceder às experiências positivas associadas às praxes académicas revela-se fundamental para auxiliar e fundamentar as políticas de prevenção e intervenção neste contexto. Palavras-chave: experiências positivas; experiências negativas; bem-estar psicológico, praxe académica; validação. vi The (un)favorable experiences associated with academic hazing and their relationship with psychological well-being Abstract Academic hazing have been mainly associated with negative experiences, abusive and inappropriate behaviors. However, they are also practices that continue to mobilize and involve university students by predicting the positive experiences that can arise from them. Thus, with the present study we intend to develop and validate a questionnaire that would allow a better understanding and characterization of possible positive experiences associated with the participation and involvement of university students in academic hazing – Questionnaire of Positive Experiences in Academic Hazing (QEPA). A second objective of the study was to analyze the relationship between positive and negative experiences on participants' psychological well-being. The sample included 408 students from the University of Minho who admitted having participated in academic hazing, aged between 18 and 30 years (M= 20.8, SD=2.19), most of them women (71.4%). The results revealed that the QEPA has adequate psychometric characteristics, both in terms of validity and reliability. There was also a positive and significant correlation between positive experiences in academic hazing and psychological well-being; and a significant negative correlation between experiencing inappropriate behavior and psychological well-being. Accessing the positive experiences associated with academic hazing is fundamental to support and support prevention and intervention policies in this context. Keywords: positive experiences; negative experiences; psychological well-being, academic hazing; validation. vii Índice Introdução Geral …………………………………………………………………………………………………………….….… 8 Enquadramento Teórico .......................……………………………………………………………………………….…... 9 Objetivos do Estudo ……….…………………………………………………………………….............……………………. 14 Método ………………………………………………………………………………………………………………………………. 15 Participantes …………………………………………………………………………………………............…………………. 15 Instrumentos …………………………………………………………………………………………............…………………. 17 Procedimento …………………………………………………………………………………………............………………… 18 Análise de Dados ……………………………………………………………………………………............…………….…… 18 Resultados ………………………………………………………………………………………………………………………..... 19 Discussão …………………………………………………………………………………………………………………………… 24 Conclusão …………………………..……..…………………………………………………………............……….…………. 26 Referências …………………………………………………………………………………………………………….………….… 28 Anexo: Parecer da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas …………….…. 32 Índice de Tabelas Tabela 1 – Caracterização sociodemográfica dos participantes ...............………………...............…………… 16 Tabela 2 – Pesos Fatoriais do Itens, Eigenvalue e Variância Explicada …………………………………….………. 20 Tabela 3 – Alfa de Cronbach, Média das Correlações Inter-Item e Amplitude das Correlações Item-total Corrigidas ……………………………………………………………………………………………………………………………. 21 Tabela 4 – Validade Convergente ……………………………………………………………………………………………… 21 Tabela 5 – Validade Divergente .............................................................................................................. 21 Tabela 6 – Validade de Grupos Conhecidos ………………………………………………………………………………… 22 Tabela 7 – Modelos de Regressão para o Fator 1 do QEPA e subescalas EMMBEP ……....…………………... 22 Tabela 8 – Modelos de Regressão para o Fator 2 do QEPA e subescalas EMMBEP ……....…………………... 23 Tabela 9 – Modelos de Regressão para o Fator 1 e 2 do QEPA as Duas Dimensões do QPIPA …………….. 23 Tabela 10 – Motivações para a Desistência das Praxes Académica ......................................................... 24 As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 13 questão (Cimino, 2011). A praxe poderá ter também como função a instrução de competências e atitudes relevantes para o grupo aos novos membros (Keating et al., 2005). Neste sentido, tem sido documentado (Nuwer, 1999; DeSantis, 2007) que, em contexto académico, a praxe pode ser usada para garantir que os membros recémchegados aprendam as informações necessárias antes da sua iniciação, como a história do grupo. Por outro lado, Allen e Madden (2008) referem que os estudantes, que frequentam a praxe, relatam frequentemente um aumento de competências como a gestão do tempo e do estudo, como resultado da participação na praxe. O estudo de McCreary e Schutts (2019), realizado com 2833 estudantes universitários, revelou resultados que sugerem que estes quatro fatores (dominância social, solidariedade, lealdade/compromisso e educação instrumental) explicam 74% da variância geral dos mecanismos motivadores da praxe. As Praxes Académicas e o Bem-Estar Psicológico Segundo Diener e Lucas (2000) a felicidade e o bem-estar não se caracterizam, por si só, na ausência de doença. Deste modo, vários psicólogos como Rogers (1951), Maslow (1954, 1962), Jahoda (1958), Erikson (1963, 1982), Vaillant (1977), Deci e Ryan (1985) e Ryff e Singer (1996) (citados por Monteiro et al.,2012), dedicaram-se ao estudo de como, porquê e em que condições os traços positivos individuais (virtudes, força e carácter) e as experiências positivas (bem-estar, esperança, felicidade, emoções positivas, alegria) se desenvolvem (Seligman et al., 2005). Neste contexto, é reconhecido que a saúde mental deve ser avaliada com uma integração de medidas de satisfação com a vida e de emoções positivas e não só contemplar a avaliação de reações negativas (Diener, 1994). Nessa perspetiva, o bem-estar psicológico é conceptualizado por Bizarro (1999 citado por Figueira, 2013), na qualidade de indicador de adaptação, como a presença ou maior frequência de sintomas positivos, simultaneamente com a menor frequência ou ausência de sintomas negativos. Estudos realizados com estudantes do ensino superior, em Portugal, revelam que o bem-estar psicológico está associado positivamente com a qualidade de vida (Santos, 2016), a satisfação com a vida (Ramos, 2016), com a qualidade percebida de saúde (Soares, 2014) e que variáveis como satisfação sociorelacional, satisfação curricular, apoio económico, ano de frequência, capacidade para lidar com as emoções, expressão emocional e amizades íntimas são preditoras do bem-estar psicológico (Lopes, 2014). Concomitantemente tem sido documentado que os estudantes universitários constituem uma população vulnerável a um conjunto alargado de ameaças que podem interferir com o seu bem-estar (Monteiro et al., 2012). Por exemplo, destacam-se os problemas de saúde derivados do consumo de drogas ilícitas e tabaco (Sousa, 2014; Webb et al., 1996), álcool (Clements, 1999; Costa et al., 2016; Webb et al., 1996), de comportamentos sexuais de risco (Brown & Vanable, 2007) e, a nível de questões psicológicas, problemas As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 14 de ansiedade e stress também são comuns neste grupo (Eisenberg et al., 2007; Pereira & Williams, 2001; Pereira, 1997). Na mesma linha de investigação, Kadison e DiGeronimo (2004) afirmam que os estudantes universitários vivem, no contexto académico, em “crise” e esta vivência está relacionada com os níveis de stress dos jovens, de tal modo que é comum estes apresentarem problemas como abuso de substâncias, depressão, entre outros. Estas situações (questões psicológicas e comportamentos inadequados) podem ocorrer, também, no contexto de praxe académica, como já referido anteriormente (Finkel, 2002; Freitas, 2021; Nirh, 2014). Contudo, a participação na praxe académica também pode promover a autonomia, a relação positiva com os outros, o crescimento pessoal, o conhecimento do meio, entre outros (e.g., Cegonho, 2011; Nirh, 2014). Tais fatores são considerados dimensões centrais para o desenvolvimento e avaliação do bem-estar psicológico (Ryff, 1995). Tais evidências reforçam, assim, a necessidade de uma maior exploração do lado mais positivo associado à praxe académica, mais concretamente, da perceção que os estudantes universitários têm acerca da existência ou não de violência nas praxes e das vantagens, experiências positivas, que podem usufruir por participar na mesma. Explorando, também, se esta vivência de experiências mais negativas ou positivas tem impacto no bem-estar psicológico dos estudantes universitários. Objetivos do Estudo O principal objetivo deste estudo envolve o desenvolvimento de um questionário denominado “Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica (QEPA)”, que possibilite a exploração dos aspetos positivos das praxes académicas e, seguidamente, a exploração do bem-estar psicológico dos estudantes universitários que participem na praxe académica. Por outro lado, procura-se compreender em que medida o bem-estar psicológico dos estudantes pode ou não predizer as experiências positivas e desfavoráveis nas praxes académicas. Como principais hipóteses do estudo estabelecemos: (H1) o QEPA terá uma consistência interna adequada; (H2) o QEPA apresenta uma boa validade externa e (H3) O relato de experiências positivas na praxe estará associado a maior bem-estar psicológico. Pretende-se, deste modo, contribuir para uma compreensão mais alargada/holística do fenómeno das praxes académicas e estimular a investigação nesta área, uma vez que é um fenómeno pouco investigado no país apesar da sua dimensão e impacto na sociedade. Considerando as evidências que documentam uma perceção favorável dos estudantes a respeito da sua participação na praxe académica, importa não só atender aos aspetos negativos das experiências mas também os aspetos positivos e de como estes poderão ajudar a planear e/ou reformular as práticas existentes, com especial atenção ao facto que um melhor conhecimento das vantagens proporcionadas pela praxe académica, em Portugal, poderá ser um grande contributo para a compreensão do motivo pelo qual os estudantes participam em tais rituais. As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 15 Método Participantes Responderam ao protocolo de questionários um total de 480 participantes. Após a consideração dos critérios de inclusão, ou seja, ser maior de 18 anos, pertencer à Universidade do Minho, ter participado nas praxes académicas ou ter indicado o motivo pelo qual desistiu de participar nas praxes académicas, a amostra final é constituída por 402 participantes. Para efeitos da validação do Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica (QEPA) foram utilizadas 379 respostas, dado que23 participantes só indicaram o motivo de abandono da praxe não procedendo ao preenchimento dos restantes instrumentos; dos 379 participantes 61 eram caloiros, 118 foram praxados, mas não praxaram e 200 foram praxados e praxaram. Relativamente ao sexo e idade dos participantes, 287 (71.4%) reportaram ser do sexo feminino e 115 (28.6%) do sexo masculino com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, com uma média de idades de 20.80 e um desvio padrão de 2.19. No que concerne à nacionalidade, a maioria dos participantes é de nacionalidade portuguesa 396 (98.5%) sendo que, os restantes 6 são de nacionalidade brasileira (1.5%). No que se refere ao curso frequentado, todos os Institutos e Escolas da Universidade do Minho estão representados (Tabela 1). Sendo que, na sua grande maioria, os participantes afirmaram o frequentar: o 1º ano do curso (32.4%); o 2º ano (18.5%); 3º ano 17.5%; o 4º ano 16.5% (Cf. Tabela 1). As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 16 Tabela 1 Caracterização sociodemográfica dos participantes N (%) Sexo Feminino 287 (71.4%) Masculino 115 (28.6%) Nacionalidade Portuguesa 396 (98.5%) Brasileira 6 (1.5%) Ano do Curso 1º 2º 3º 4º 5º 6º PhD 128 (32.4%) 73 (18.5%) 69 (17.5%) 65 (16.5%) 51 (12.9%) 4 (1%) 5 (1.3%) Escola/Instituto Escola de Engenharia Escola de Economia e Gestão Escola de Ciências Escola de Medicina Escola de Psicologia Instituto de Ciências Sociais Escola de Direito Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Escola Superior de Enfermagem Instituto de Educação Escola de Arquitetura, Arte e Designe 145 (36.4%) 66 (16.9%) 50 (13%) 31 (8%) 22 (5.6%) 20 (5.1%) 16 (4.2%) 14 (3.7%) 12 (3.1%) 10 (2.6%) 5 (1.4%) Nota. n = número de participantes As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 17 Instrumentos Questionário de Dados Sociodemográficos . O questionário de dados sociodemográficos foi desenvolvido com o propósito de recolher informações acerca de variáveis como, o sexo, a idade, nacionalidade, se a residência em tempo de aulas coincidia com a residência permanente, o curso, ano e Universidade dos participantes. Este questionário era seguido de algumas questões relativas à participação nas praxes académicas: se frequentaram as mesmas, se concluíram ou desistiram, porque motivo desistiram, se chegaram a praxar e, por fim, o período letivo em que os participantes foram praxados. Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica (QEPA). O QEPA é um instrumento composto por 21 itens, dividido em duas subescalas: Fator 1 intitulado de “Desenvolvimento Pessoal, Social e Académico” (16 itens) e o Fator 2 designado de “Bem-estar Individual” (5 itens). Trata-se de um instrumento de resposta tipo likert de 5 pontos, que vai desde (0) nunca a (4) sempre. O QEPA possibilita aceder aos aspetos e dinâmicas positivas experienciadas no contexto de participação nas praxes académicas, através da análise de frequências. O presente estudo, teve como objetivo a validação psicométrica do instrumento, deste modo, a informação relativa à consistência interna e fiabilidade da escala será apresentada posteriormente. Escala de Medida e Manifestação de Bem-Estar Psicológico (EMMBEP; Monteiro et al., 2012). A EMMBEP é uma escala de medida de bem-estar psicológico, composta por 25 itens e dividida em seis subescalas: autoestima (4 itens), equilíbrio (4 itens), envolvimento social (4 itens), sociabilidade (4 itens), controlo de si e dos acontecimentos (4 itens) e felicidade (5 itens). É um instrumento de resposta tipo likert de 5 pontos, que vai desde (1) nunca a (5) quase sempre. A versão original da escala de Massé e colaboradores (1998) obteve, ao nível de consistência interna, um alfa de Cronbach de .93. No presente estudo, foi usada a versão traduzida para a língua portuguesa por Monteiro et al. (2012) com um alfa de .93 (pontuações de alfa nas subescalas: Felicidade 0.89; Sociabilidade 0.83; Controlo de Si e dos Acontecimentos 0.85; Envolvimento Social 0.67; Autoestima 0.83 e Equilíbrio 0.69). Neste estudo, obtevese um alfa de .97 na sua totalidade (pontuações de alfa nas subescalas: Felicidade 0.95; Sociabilidade 0.90; Controlo de Si e dos Acontecimentos 0.92; Envolvimento Social 0.81; Autoestima 0.90 e Equilíbrio 0.75). Questionário de Práticas Inadequadas na Praxe Académica (QPIPA; Freitas et al., 2021). Este instrumento é constituído por duas partes, com 10 itens cada: a Parte A relativa às situações onde os indivíduos foram praxados e a Parte B alusiva às situações em que praxaram. É um instrumento de resposta tipo likert de 5 pontos, que vai desde (0) nunca a (4) sempre. Através da medição de frequências de práticas que podem ser vivenciadas em contexto de praxe, o questionário avalia se os indivíduos ao praxar realizam comportamentos inadequados (ex. forçar o consumo de substâncias, humilhações, violência...) e, por outro lado, se os indivíduos consideram que foram submetidos às mesmas condutas. A versão original da escala As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 18 obteve, a nível da consistência interna um alfa de Cronbach de .89 nas suas duas subescalas (Parte A e Parte B) sendo que, no presente estudo, foi obtido um alfa de .87 na Parte A e um alfa de .72 na Parte B. Procedimentos Numa primeira fase, foi construído o QEPA com base na literatura existente. De seguida foi realizado um estudo de pré-teste, acompanhado de reflexão falada junto de um pequeno grupo de potenciais participantes, para analisar a qualidade dos itens construídos. Este teve como principal objetivo identificar problemas ao nível da linguagem e assim melhorar a qualidade do instrumento e torná-lo mais compreensível. Seguidamente foi realizado um pedido de autorização para a utilização dos questionários QPIPA (Freitas et al., 2021) e EMMBEP (Monteiro et al., 2012), na investigação, aos respetivos autores. Posteriormente foi elaborado o protocolo de investigação que foi enviado para a comissão de ética. Após a apreciação do protocolo pelo comité de ética o processo foi iniciado com a recolha de dados dos questionários: QEPA, QPIPA (Freitas et al., 2021) e da EMMBEP (Monteiro et al., 2012). A recolha ocorreu em formato online através do email institucional da Universidade do Minho. Os questionários, foram acompanhados do devido consentimento informado, onde estavam especificados os objetivos do estudo e os termos de confidencialidade e anonimato dos dados pessoais, e o respetivo questionário sociodemográfico. Após a resposta aos questionários, deu-se por concluído o procedimento. Análise de Dados A análise de dados foi realizada a partir do software IBM SPSS, versão 27.0 (IBM SPSS, 2020). Para avaliar as propriedades psicométricas do instrumento em análise procedeu-se, primeiramente, à análise da medida de adequação da amostra Kaiser-Mayer-Olkin (KMO) e o Teste de Esfericidade de Bartlett (BST). Procedeu-se a uma análise fatorial exploratória (AFE) sobre a matriz de correlações, com extração de fatores pelo método das componentes principais (ACP), seguida de uma rotação Varimax. Os fatores comuns retidos foram aqueles que apresentavam um eigenvalue superior a 1, em consonância com o Scree plot e a percentagem de variância retida, uma vez que a utilização de um único critério pode levar à retenção de mais ou menos fatores do que aqueles relevantes para descrever a estrutura latente (Marôco, 2018). Para verificar fiabilidade das medidas calculou-se o Alfa de Cronbach, que foi considerado adequado acima de .70 (DeVellis, 2016). Calculou-se as correlações médias inter-item (MCII; consideradas boas dentro do intervalo de .15-.50), bem como a amplitude das correlações item-total corrigidas (ACITC; consideradas boas acima de .20) também para avaliar a fiabilidade da medida (Finch et al., 2016). As correlações de Pearson (consideradas moderadas dentro do intervalo de .25-.5, fortes no intervalo .5-.75 e fortes acima de .75) foram calculadas para verificar a existência de relações entre as variáveis (Marôco, 2018). Além disso, foi realizado um Teste U de Mann-Whitney para verificar se existiam diferenças entre géneros. Foram também realizadas Regressões Lineares Múltiplas para verificar se as variáveis As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 19 independentes (itens dos questionários QPIPA e EMMBEP) permitiam predizer a ocorrência de experiências positivas no contexto de praxe académica. No que diz respeito às respostas abertas, acerca dos motivos que levaram à desistência da participação nas praxes académicas, foram criadas categorias centrais através da análise das respostas, com o auxílio de um perito, partindo das ideias e temas identificados no material. Resultados A análise psicométrica do instrumento QEPA foi iniciada através do teste KMO (KMO=.967) e do teste de Esfericidade de Bartlett (χ2=9631.66; p ≤.001), para avaliar a adequação dos dados para a realização da análise fatorial exploratória, pelo que concluímos estarem reunidas as condições para realizar uma AFE. Após a realização de uma extração de fatores, foi determinada a existência de dois fatores que podem ser observados na Tabela 2. Os resultados obtidos sugerem que o Fator 1, nomeado “Desenvolvimento Pessoal, Social e Académico” (DPSA), explica 69,33% da variância total e o segundo Fator, intitulado de “Bem-estar Individual” (BEI), explica 5.27% da variância dos dados. Dessa forma, 74,6% da variância total é explicada pelos dois fatores. As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 20 Tabela 2 Pesos Fatoriais dos Itens, Eigenvalue e Variância Explicada Item Fator 1 DPSA 2 BEI 1. A praxe foi útil para estabelecer novas amizades. .81 2. A praxe permitiu-me conhecer outras pessoas. .72 3. A praxe contribuiu para a minha integração no curso. .81 4. A praxe contribuiu para a minha integração na universidade. .88 5. A praxe permitiu fomentar a minha ligação à turma. .65 6. A praxe contribuiu para o meu desenvolvimento pessoal. .82 7. A praxe foi útil na integração e familiarização com a cidade. .84 8. A praxe permitiu obter um melhor conhecimento dos espaços e serviços da universidade. .79 9. A praxe proporcionou momentos de diversão e convivência social. .58 10. A praxe permitiu conhecer e familiarizar com as tradições académicas. .74 11. A praxe ajudou a gerir as saudades de casa. .84 12. A praxe ajudou a gerir a solidão. .91 13. A praxe permitiu desenvolver certas competências individuais (ex. autonomia). .90 14. A praxe proporcionou o acesso a ferramentas/materiais de apoio ao estudo (ex.: acesso a apontamentos, bibliografia...). .80 15. A praxe ajudou na minha identificação com o curso. .82 16. A praxe permitiu o desenvolvimento de competências sociais (ex.: liderança, interação interpessoal). .86 17. Durante a praxe foram respeitadas as minhas opções/decisões (ex.: de não querer realizar determinada atividade). .86 18. Durante a praxe sempre fui respeitado/a. .94 19. Durante a praxe experiencieis sempre bem-estar. .83 20. Durante a praxe senti-me considerado/a. 21. Durante a praxe senti-me valorizado/a. .70 .62 Eigenvalue 14.56 1.11 Variância explicada 69.33% 5.27% Nota. Os valores dos fatores são apresentados apenas acima de .40. As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 21 Os valores da consistência interna do alfa de Cronbach são apresentados na Tabela 3 sendo que o fator 1 apresenta um alfa de .97, o fator 2 revelava um alfa de .93 e na sua totalidade o alfa é de .97. Na Tabela 3, também pode ser observado as médias das correlações inter-item (MCII) e a amplitude das correlações item-total corrigidas (ACITC) que obtiveram valores adequados. Tabela 3 Alfa de Cronbach, Média das Correlações Inter-item e Amplitude das Correlações Item-total Corrigidas Alfa de Cronbach MCII ACITC Total .97 .72 .65-.88 Fator 1 Fator 2 .97 .93 .72 .77 .66-.88 .65-.81 Nota. Alfa= Alfa de Cronbach; MCII= Média das Correlações Inter-item; ACITC= Amplitude das Correlações Item-total Corrigidas A Tabela 4 apresenta a validade convergente que foi efetuada com a EMMBEP, que revelou associações estatisticamente significativas nos dois fatores e na totalidade da escala. Tabela 4 Validade Convergente Fator 1 Fator 2 Amostra total Total EMMBEP Felicidade Sociabilidade Controlo de Si e dos Acontecimentos Envolvimento Social Autoestima Equilíbrio .38** .35** .39** .31** .32** .36** .25** .41** .36** .41** .36** .34** .34** .34** .40*** .36** .41** .34** .34** .37** .28** Nota. Fator 1 e Fator 2 – QEPA= Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica; EMMBEP= Escala de Medida e Manifestação de Bem-Estar Psicológico; **p ≤ .01; ***p ≤ .001 Na Tabela 5 é possível observar a validade divergente que foi efetuada com o QPIPA, que revelou associações estatisticamente significativas nos dois fatores e na totalidade da escala. Tabela 5 Validade Divergente Fator 1 Fator 2 Amostra total Ser Praxado Praxar -.64** .27** -.81** .15** -.70** .25** Nota. Fator 1 e Fator 2 – QEPA= Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica; Ser Praxado e Praxar - QPIPA= Questionário de Práticas Inadequadas na Praxe Académica; **p ≤ .01 Os resultados obtidos com o Teste U de Mann-Whitney revelaram não existir diferenças estatisticamente significativas através da comparação entre os sexos, seja ao nível do total ( U = 13675.5, p As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 22 =.17), do fator 1( U = 13667.0, p =.15), e do fator 2( U = 14448.5, p =.17) (cf. tabela 6). Tabela 6 Validade de grupos conhecidos Masculino M (DP) Feminino M (DP) U (p) Fator 1 45.26(17.74) 46.24(18.86) 13667.0 (.15) Fator 2 Total 14.27(5.89) 59.52(22.67) 14.69(5.39) 60.94(23.30) 14448.5 (.17) 13675.5 (.17) Nota. M= Média; DP= Desvio Padrão; U= Teste U de Mann-Whitney Para verificar se as subescalas (Felicidade, Sociabilidade, Controlo de Si e dos Acontecimentos, Envolvimento Social, Autoestima e Equilíbrio) da EMMBEP predizem a existência de experiências positivas no contexto de praxe académica, procedeu-se à realização de uma regressão linear múltipla, que identificou a Sociabilidade como o único preditor de experiências positivas na praxe académica do QEPA (cf. Tabelas 7 e 8). Em relação ao Fator 1, o modelo é significativo obtendo-se um Ra2 = 41,4% de explicação da variabilidade. No que concerne ao Fator 2, o modelo é novamente significativo apresentando um valor de Ra2 = 43% de explicação da variabilidade. Tabela 7 Modelo de Regressão para o Fator 1 do QEPA e subescalas da EMMBEP Modelo I Variáveis R2 B β t Fator 1 Sociabilidade .17 1.38 .26 2.39** Controlo de Si e dos Acontecimentos -.45 -.07 -.63 Envolvimento .66 .10 1.23 Autoestima Equilíbrio .55 -.65 .10 -.10 .95 -1.10 Nota. Fator 1 – QEPA= Questionário de Experiências Positivas na Praxe Académica; EMMBEP= Escala de Medida e Manifestação de Bem-Estar Psicológico; R2= coeficiente de determinação, β= coeficiente beta padronizado, t = teste t de Student ; **p ≤ .017 As experiências (des)favoráveis associadas às praxes académicas e a sua relação com o bem-estar psicológico 29 of Maryland. Estanque, E. (2017). A práxis do trote : breve etnografia histórica dos. Em Sociologia Antropológica (Vol. 07, Número 02). Universidade de Coimbra. Fávero, M., Pinto, S., Ferreira, F., Machado, F., & Del Campo, A. (2018). Hazing Violence: Practices of Domination and Coercion in Hazing in Portugal. Journal of Interpersonal Violence , 33 (11), 1830– 1851. https://doi.org/10.1177/0886260515619748 Ferreira, M., & Moutinho, F. (2007). «Histórias» de Praxe, Fragmentos da Vida Associativa e da Sociabilidade Estudantis . Figueira, C. (2013). 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Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, a Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) nada tem a opor à realização do projeto nos termos apresentados no Formulário de Identificação e Caracterização do Projeto, que se anexa, emitindo o seu parecer favorável, que foi aprovado por unanimidade pelos seus membros. Braga, 14 de janeiro de 2022. O Presidente da CEICSH (Acílio Estanqueiro Rocha)