Full text
Universidade do Minho
Instituto de Ciências Sociais
Lina Moscoso T eix eira
janeir o de 2022
Ativismo em rede: crítica das mídias
alternativas à atual política de Brasil,
Espanha e P or tugal
Lina Moscoso T eix eira Ativismo em rede: crítica das mídias alternativas
à atual política de Brasil, Espanha e P or tugal
UMinho|2022
Lina Moscoso T eix eira
janeir o de 2022
Ativismo em rede: crítica das mídias
alternativas à atual política de Brasil,
Espanha e P or tugal
Univer sidade do Minho
Instituto de Ciências Sociais
T r abalho efe tuado sob a orientação do
Professor Doutor Luís António Mar tins dos Santos
e da
Professora Doutora Ana Margarida F erreira
Rato Jorge
T ese de Dout orament o
em Ciências da Comunicação Doutor amento
ii
DIREIT OS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIR OS
Este é um t rabalho académico qu e pode ser utiliz ado por terceiros desde que respeitad as as regras e
boas práticas intern acio nalmente aceites, no que conc erne aos direitos de autor e direitos conexos.
Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada.
Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não
previstas no licenciamento indicado, deverá contact ar o autor, através do RepositóriUM da Universidade
do Minho.
Licença concedida aos utilizadores deste trabalho
Atribuição-Nã oComercial -Co mpartilhaIgual
CC BY- NC -SA
https://creativec ommons.or g/licenses /by- nc -sa/4.0/
iii
AGRAD ECIMENTOS E A POIO FINANCEIRO
Aos pr ofessores Luís Santo s e Ana Jorge pela dedicação e atenção ao meu trabalho ; pelas partilhas e
discussões que en r iqueceram a pesquisa.
Aos docentes que integram o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), em nome do
coordenador, professor Moisés de Lemos Martins, pelo acolhimento da minha pes quisa e pelo apoio .
Ao profess or Alejandro Barranquero, da Univ e rsida de Carlos III (UC3M), pelo acolhimento , pelo
interess e neste trabalho e pelas partilhas.
À professora Janna Joceli Omena pelas indicações de referências bibilográficas re lativamente aos
métodos digitais para pesquisa dos
social media
e à jorn alista e coor denadora geral do Fórum Nacional
pela Democratização da Com unicação e Secretária Geral do Centro de Est udos da Mídia Alternativa
Barão de It araré, Renata Mielli, por nos conceder uma entrevis ta que contribuiu co m as reflexões sobre
mídias alternativas.
Aos produtores das mídias alternativas pe la di sponibilidade de conceder en trevistas e esclarecer
dúvidas: Raí ssa Galvão e Uirá Porã, da
Mídia NINJA
; Laura Capriglione e Bruno Falci, do
Jornalistas
Livres
; M iguel Mora e V anesa Jim énez, do
Contexto y Acción
; Ol m o Go nzález e Jo se Durán, do
El Salto
;
Pedro Santos e Ricardo Ribeiro, do Fumaça; Duarte Guerreiro e Pedro Nemrod, da
Guilhotina.info
.
À A inize Txopitea, Aluíz io de Azevedo, Ana Caro, A na Isabel Sousa, António Ló, Bárbara Fonseca,
Carlos Callón, Cat arina Caetano, Daniel Canario, Débora Arag ão, Dirceu Melo, Edinir Ribeiro, Edson
Martins, Erick Ma rtins, Fernanda Freitas, I nês Vieira, Jhon Douglas, José Marí a Madariaga, Laura
Yustas, Lola Ordônes, Lourdes Uquillas, Luciana Ma rtins, Luis B elda, Ma nuel Vilar, M aría Mat res, Marta
Corado, Melanie Silva, Mig uel Felício, Patrick Ribeiro, Paulo C asimiro, Paulo Jorg e Silva, Pedro Prola,
Pery Negreiros, Raimu ndo Renan Ribeiro, Raquel Miragaia, Raul Ortega, Rosanna Martins, Sandra
Tavares, Sergio Silva, Shirlei Couto, Thaís Souza e Xose Seren que concederam as entrevistas
necess ár ias à pesquisa.
À amiga Joana Angélica pelo apoio nas r evisões e corre ções da tese.
Esta dissertação foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através da
concessão de uma bolsa individual de Doutoramento ( SFRH/BD/133885/2017 ).
iv
DECLARAÇÃO DE INTEGRID ADE
Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo q ue não
recorri à prática de pl ágio nem a qual quer forma de utilização in de vida ou falsificação de informações
ou resultados em nenhuma das etapas conduce nte à sua elaboração.
Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v
Ativismo em rede: crítica das mídias altern ativas à atual polít ica de B rasil, Espanha e
Portugal
Resumo
Assiste-se a uma crise do modelo de negócio do jornalismo adotado pelos meios de comunicação
tradicionais em um cenário permeado pela desinformação e pela instabilidade financeira. Além disso, o
fenômeno das redes e de crises globais econômicas e políticas – com a ascensão de governos radicais
de direita eleitos democrat icamente, ondas nacionalis tas, fascistas e pop ulistas – atravessam o
panorama comunicacional atual. Neste quadro, surgem as mídias alternativas dig ita is. Essas mídias,
que são independen tes, utilizam as redes sociais e as plataformas digit ais como modelos de produção,
distribuição e circulação de seu s conteúdos. O at ivismo é o modelo de produção das mídias
alternativas concomitantemente com o jornalismo. Na perspectiva de ouvir a s com unidades e produzir
informação emancipada e contestatária, as mídias alternativas alinham -se aos m ovimentos sociais de
protesto para questionar e promover transformações nas sociedades, à medida em que tratam de
temas relativos aos direitos humanos – até então omitidos pelos
mainstream media
.
Este trabalh o contribui para o avanço do conhecimento n o campo de estudos da Comun icação – Mídia
e Jornali smo – , por trazer reflexões e comparações de práticas de mídias a lternativas ativistas de três
países com cenários polític o e comunicacional distinto s: B rasil, Espa nha e Portugal. A lém disso, nos
países lat inos e ibéricos ainda n ão há volume ext enso de estudos sobre as produções midiáticas
alternativas, uma lacuna preenchida por esta investigação.
Esta disser tação analisa o at ivismo d as mídias alt ernativas digitais de esquerda contra políticas
neoliberais aplicadas no B rasil, na Es panha e em Portugal . O bjetiva com preender qu a l o papel
formador das mídias na cultura política e in term édio de relações sociais de grupos; bem como a
produção midiática e suas repercussões na s agendas governamentais e recepção da produção
jornalística alternativa pelas audiências.
A investigação, pautada pelo paradigma in terpretativista , foi guiada pelo desenho metodológico misto
direcionado aos três níveis do processo m idiático : produção (entrevistas aos meios de comunicação e
observação da atividade jornalística), con teúdo (análise dos conteúdos das páginas do Facebook) e
recepção (entrevistas ao público).
A investigação traçou um enquadramento das mídias alternativas relativamente ao cenário político do
país de origem , sua economia política e ideologia, pass ando pelos modelos de financiamento adotados.
Para tanto, utilizamos conceitos dos movimentos sócio-políticos: movimentos soc iais, neoliberalismo,
populismo e nacion al ismo; Comunicação e Política: Economia Política da Com unicação; e dos meios
de comunicação alternativos digitais de esquerda e de direita. Demonstra que estes meios
estabeleceram-se enquanto instrumen tos de mobilizações políticas e fontes de informação contra -
hegemônicas, utilizando críticas a governos, ao sistema capitalista e a partidos, através da linguagem
digital, mas mantendo os valores do jornalismo tradicional. Consideramos que os meios de
comunicação alternativos são dirigidos às audiências que se identificam com s eus posicionamentos
políticos; no entanto, conseguem garantir a manutenção das at ividades jornalísticas através de
subscrições, doa ções e microfinanciamentos coletivos. Assim, os alternativos são meios que h oje
encontram ecos mais alargados de atuação e, portanto, conseguem intervir nas agendas
governamentais por ca usa do modelo ativista e crítico adotado por eles, um novo tipo de jornalismo
que se a propõe informar , mobilizar e pressionar. Po r fim, consideramos que as m ídias alternativas
digitais, ao produz irem conteúdos aprofu ndados e orie ntados pela ét ica jornalís tica , podem plurari zar e
democratizar o ambiente virtual e promover as transformações sociais necessária s.
Palavras-chave : ativismo; ciberespaço; mídias alternativas; movimentos sociais.
vi
Network activism: criticism of alternative me dia to the current politics of B razil, Spain
and Portugal
Abstract
We are witnessing a crisis in t he journalism business mo del adopted by traditional media in a scenario
permeated by misin formation and financial i nstability . Furthermore, the phenomenon of networks and
global economic and political crises – with t he rise of right -wing radical governments democratically
elected, nationalis t, fascist and populist waves – per meate the cu rrent communication al panorama.
Within t his framework, alternative digital media emerg e. These m edia, wh ich are independent, use
social networks and digital platforms as models for the production, d istribution and circulation of their
content. Activism is t he production model of alternative media concurren tly with journalism. From t he
perspective of li stening to communities and producing emancipated and contesting information,
alternative media align themselves with social protest movements to question and promote
transformations in societies, as th ey address issues related to h uman right s – hither to omitted by the
mainstream media .
This wo rk contributes t o advance the knowledge in the field of Comm unication studies – Media and
Journalism – by bri nging refl ections and comparisons of alternative media activist practices from three
countries with different political and communicational sce narios: Brazil, Spain and Portugal.
Furthermore, in Latin and Ib erian countries th ere is still not an extensive volume of s tudies on
alternative media productions, a gap fill ed by th is investigation.
We aim t o understand th e formative role of the media in political culture and intermediary of social
relations between g roups; as well as media production and its repercussions on government agendas
and reception of altern ative journalistic production by audiences.
We carried out a comparati ve study of these media fro m Brazil, Spain and Portugal. The in vestigation,
guided by the interpretive paradigm , followed by a mixed meth odological design aimed at three levels of
the m edia process : produ ction, content and reception. Through the observation of pieces from
alternative m edia on Face book and i nterviews wit h media producers , usin g virtual ethnography and
content analysis t echnique, it was possible to perceive the media production; and conducting interviews
with readers and non- readers, u sing content analysis, allowed us to u nderstand the reception of m edia
production by the audiences.
The investigation drew a framework of alternative media in relation to the political scenario of the
country of origin, its pol itical economy and ideology, passing through t he financin g models adopted.
Therefore, we use conce pts from socio-political movements: social movements, neoliberalism, pop ulism
and nationalis m; Communication and Politics: Political Economy of Communication ; and the left -wing
and righ t-wing digital alternative media. We demonstrate that these media have established themselves
as instrumen ts of political m obilizations and counter -hegem onic sources of inform ation, using criticisms
of governments, th e capitalist system and parties, through digital language, while m aintaining the
values of traditional journ ali sm. We believe that a l ternative media are aimed at au diences that identify
with th eir political positions, h owever, they manage to secure the m aintenance of journalistic act ivities
through su bscriptions, donations and crowdfunding. Thus, alternatives are media that today find
extended echoes of action and, therefore, manag e t o interven e in government agendas because of t he
activist and critical model adopted by them, a new type of journalism that aims t o inform, mobilize a nd
pressure. Finally, we consider that alternative digit al media, by producing in-dep th content guided by
journalistic ethics, can pluralize and democrat ize the virtual environment and prom ote the necessary
social transformations.
Keywords: activism; cyberspace; alternative media; social movements.
vii
Sumário
Capítulo 1
Introdução
.......................................................................................................................... 1
Capítulo 2
Movimentos sócio-políticos
.................................................................................................. 7
2.1 Sistemas e relações globais .................................................................................................. 7
2.1.1 Neoliberalismo e dimensões da vida social .................................................................... 8
2.1.2 Nacionalismo e seus co ntornos atuais ......................................................................... 12
2.1.3 Incorporação e retomada do populis mo ...................................................................... 17
2.1.4 Populismo e representação antidemocrática ............................................................... 22
2.1.5 Populismo midiático: efeitos e discurs o s ..................................................................... 25
2.2 A eclosão dos movimentos populares ................................................................................. 30
2.2.1 Marchas indignadas .................................................................................................... 34
2.2.2 “Nós somos os 99%” .................................................................................................. 36
2.2.3 Manifestações amplas de cidadania ............................................................................ 38
2.2.4 Geração precarizada ................................................................................................... 40
2.3 Síntese do capítulo ............................................................................................................. 41
Capítulo 3
Comunicação e política
................................................................ ..................................... 43
3.1 Comunicação e poder nas sociedades contemporâneas neoliberais .................................... 43
3.1.1 Mídia, política e eleições ............................................................................................. 49
3.1.2 Meios de produção midiáticos ..................................................................................... 52
3.1.3 Gestão de recursos e produtos culturais ...................................................................... 58
3.2 Ideologia e audiências ................................ ........................................................................ 64
3.3 Síntese do capítulo ............................................................................................................. 72
Capítulo 4
Meios noticiosos alternativos
............................................................................................. 74
4.1 Conceitos e discussões ...................................................................................................... 74
4.1.1 Práticas alternativas de transmissão da informação ..................................................... 77
4.1.2 Participação construtiva, interativa e plural .................................................................. 83
4.1.3 Modelo “autogerenciado” de conteúdos ...................................................................... 86
4.1.4 Arquitetura em rede das novas mídias ........................................................................ 90
4.2 Comunicação e sociedade no ecossistema digital ............................................................... 92
4.3 Ativismo midiático online e offlin e ....................................................................................... 99
4.4 Síntese do capítulo .......................................................................................................... 106
xiv
Aos movimentos sociais, coletivos, indivíduos e grupos de mídia independente que resistem e lutam
por um mundo melhor nu m cenário de enfraquecimento da dem ocracia e fomento das desigualdades.
1
1 Capítulo 1
Intr odução
O panorama político do século XXI é ma rcado por ondas de ext remismos
1
, populismos
2
, nacionalismos
3
e movimentos radicais no enqu adramento de regimes democráticos ; bem como, por governos eleitos
legitimamente e que em alguns ca sos propõem agendas políticas com conotações extremistas e apego
a ideias que se julgavam ultrapassadas. Neste panor ama, as mídias alternat ivas desempenham um
papel de contra-informação, ou seja, propõem abordagens opostas às dos
mainstream media
qu e são
pautados pelas agendas dos grandes grupos econômicos e dos governos anti-democráticos. Na
contramão dos movimentos ext remistas de di reita, e stão os movimentos populares que se organizam
nas redes sociais e em plataformas digitais, em defesa do estado de bem -estar s ocial e cont ra as
medidas governamentais de austeridade. O século XXI t em sido solapado por desequilíbrios políticos,
possivelmente ocultados pelas vagas das instabilidades financeiras ocorridas a part ir de 2007 /08 na
Europa e nos Estados Unidos.
Assim sen do, as mídias
4
alternativas digitais têm figurado como import antes mecanismos de divulgação
da informação desses movimentos populare s, bem como de questionamen tos às medidas
governamentais. Aqui vale ressaltar, porém, que algumas m ídias alternativas, por exemplo o
Brasil
247
, que assume postura em defesa do P artido dos Trabalhadores (PT), com o um univer so
heterogêneo, também se p osicionam a favor de partidos políticos ; e há ainda as mídias que apoiam
movimentos extremistas, fun damentalistas, movimentos liberais, e de propagação de notícias falsas.
O cenário da com unicação não é es tático; pelo co ntrário, nos últimos 20 an os o ecossistema do
jornalismo, por exemplo, tem sofrido sign ificativas alter ações. As mudanças mais substanciais foram a
adaptação dos meios de comunicação do impresso par a o digital e a utilização das redes sociais como
espaços de produção, circulação e distribuição de not ícias por prat icamente todas as mídias. T ais
mudanças trouxeram alt ernativas aos
mainstream,
q ue perderam audiê ncias a partir da abertura de
1
O governo de Alexander Lukashenko, da Bielorússia, cuja legitimidade te m sido cont estada por denúncia de fraude nas eleições presidenc iais de agosto
de 2020, atua com ex tremismos , a exemplo da intercepção de um avião pa ra pr ender Roman P rotasevich, jornalista de opo sição ao governo bielorusso.
Font e: https://www.rtp.pt/not icias/mundo/presidente- da -bielor russia-acus ado- de -ordenar-desvio- de -aviao-pa ra-deter-protasevic h_n1322338
2
O nda de populismos de direita que teve início em 2010, como instrumento eleitor al e de poder, a exemplo de Donald Trump eleit o em 2016, que utilizou
o populismo em sua campanh a. Bem co mo os populismos d e esquerda de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela e de Fujimori, no Pe ru. Font e:
https:/ /brasil.elpais.com/brasil/201 6/11/14/int ernacional/14791506 07_2823 38.html
3
Política ant imigração e p romessas de controle dos meios de comunic ação e de organizaç ões independ entes de Vik tor O rbán, chefe do governo de
Budapeste, Hun gria. Fonte: htt ps://www.dn.pt /mundo/vitoria- de - viktor-orban-reforma-t endencias-nac ionalistas-e-euroc eticas- 9260080.html
4
Esta tese foi redigida segundo a nova ortografia da Língua Portuguesa (Português de p ráxis do Brasil) e seguiu o Manual de Estilo das Publica ções d o
Centro de Es tudos de Comunica ção e Soc iedade, baseado no est ilo APA.
2
espaços na internet para a transmiss ão de notícias . Novos m eios de comunicação oriundos da internet
conquis tar am públicos co m posicionamentos políticos opostos aos das m ídias tradicionais ou que
buscam contra-narrativas.
A este meios, denominados de alternativos, impõem -se desafios como a manutenção da
susten tabilidade f inanceira, promover estrat égias de fidelização da s audiênc ias, ser at rativo no
ambiente virtual saturado de blogues, páginas, sites, meios de comunicação, podcasts, etc; e realiza r
um jornalismo ativista, ético e de qualidade.
Os modelos de produção jornalística diferem entre os meios, enquanto os tradicio nais ainda utilizam o
formato de venda de anún cios, m esmo na internet, que m anteve a lógica comercial. Nes te í nterim, as
mídias alternativas procuram manter a independência com o propósito de p ublicar t emas que e ram
omitidos pelos
mainstream
.
As audiências estão divididas, ou seja, continuam a informar-se através dos t radicionais, mas estão a
descobrir novas formas de buscar ou receber as notícias: pelos
social media
uti lizados como vitrines
vistas nos smartphones ou nos computadores; formadores de opinião (jornalistas, acadêmicos, figuras
públicas,
influencers
); newsletters recebidas por e -mail. O público que acessa as mídias alternativas é
específico: indivíduos de esquerda que bus ca m a cont ra-informação ou quer em confron tar as notícias ,
embora cidadãos que se inden tificam com a ide ologia oposta visitem as pág inas do s órgãos
alternativos para criticar.
As mídias alternativas selecionadas para o estudo s ão originárias de países difere ntes, portanto, foram
criadas e atuam em context os dis tintos. Os cenários sócio-políticos e culturais influenciam a p rodução
midiática. No B rasil, as cri ses política e econômica e as instabilidades, desde 2 015, no governo de
Dilma Rousseff, e após o
impeachment,
em 2016,
quando as instabilidades cresceram e as medidas
de austeridade foram aplicadas, como a retirada de inves timentos na cultura e n o s ocial,
principalmente, os meios de comunicação intensificaram ações de protesto , coletivamente com os
movimentos sociais com o propósito de questionar o r egime neoliberal imposto, sobretudo no governo
de Jair Bolsonaro, entre 2018 e 2022.
Na Espanha, o governo de esquerda eleito em janeiro de 2020 – coalizão entre o Partido Socialista
Operário Espanhol (PSOE) e o Podemos, t endo como presidente de Governo o socialista Pedro San ch èz
– foi resultado de uma aliança de partidos da esquerda da mobilização de coletiv os e de mídias, entre
elas o
Contexto Y Acción
, com o intuito de promover t ransformações sociais e contestar as m edidas de
austeridade do governo anterior, de Mariano Rajo y, envolvido em corrupção. Rajo y esteve à frente do
Governo da Espanha entre 2011 e 2018, tendo sofri do uma moção de censura por não ter maioria
3
absoluta no Parlame nto. A s mídias alternativas e spanholas critica vam ações de au steridade do governo
de Mariano Rajoy e continuam a pression ar por medidas que atendam as minorias.
Em Portugal, apesar de t er havido um governo socialista – a chamada G er ingonça, entre 2015 a 2019,
uma coalizão das esquerdas, com posta pelos partidos PS, PCP, B E e Verdes; e a partir de 20 19, com
a continuidade do governo do socialis ta A ntónio Costa como P rimeiro Min istro e do social-democrata
Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente -, m ídias alternativas de esquerda que defendem o anti -
capitalismo e combatem o liberalismo surgiram para questionar medidas de austeridade, anti-
populares e a falta de investimentos na cultura . No momento em que terminamo s esta dissertação, o
país prepara-se para eleições legislativas antecipadas.
Os co ntextos político, econ ô mico e social são e ntraves ao funcionamento do jor nalismo, na medida em
que não h á investimentos p úblicos na com unicação. A s concessões pe rtencem a a lgumas fam ílias que
detêm grandes grupos midiáticos, no Brasil, por exemplo, que ficam com a maior fatia de mercado e
de audi ência. O Brasil nun ca adotou a Lei dos Meios q ue prev ê a regulação de pe rcentuais de acesso
ao mercado pelos veículos. A Constituição de 1988 de termina que a comunicação não pode, direta ou
indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. Ma s este artigo nunca foi regulamentado pelo
Congresso brasileiro.
Em Portugal, a lei impõe a todos os operadores de rádio e televisão (gener alistas ou temáticos
informativos de cobertura nacional) que assegurem uma informação que res peite o pluralismo, atenta
a forma imediata e generalizada com o ch egam aos espectadores e o comprom isso assumido no s
respetivos process o s de licenciamento ou de autorização.
Na Espanha e em Portugal, a lei garante que h aja par ticipação da sociedade civil na mídia, o que é
chamado de ‘direito à antena’, garantindo espaço nos canais aos movimentos e grupos orga nizados da
sociedade civil.
Assim, as mídias alt ernativas esbarram nas dificuldades financeiras para promoverem informaç ão
acessível e de q ualidade.
O jornalismo pensado n o viés mercadológ ico ainda preocupa pela omissão de fatos que devem ser de
acesso à população. A comunicação é um direito humano e não uma questão de m ercado. O Estado
precisa intervir para garantir est e direito. Isso impõe limites à concessão e favorecimento da
pluralidade de voze s com o intuito de abrir canais pa ra o surgimento dos independen tes que trazem
informação não comprometida com a lógica do capital.
O jor nalismo ativista prod uzido pe los meios i ndependentes, que co nsiste em críticas a gover nos,
políticos, g rupos finance iros e s istema; bem com o as estratégias de financi am ento e os modos de
4
produção através das redes sociais, aplicativos de mensagens e sites são os mot es que integram a
inves tiga ção intitulada: “At ivismo em rede: crítica das mídias alternativa à atual política de Brasil ,
Espanha e Portugal”, de senvolvida no Doutoramento em Ciências da Comunicação: Media e
Jornalismo, na Universidade do Minho, através do financiamento da FCT. Portanto, esta inves tigação
inser e- se nos estudos de C iências da Com unicação, mais especificamente Mídia e Jornalismo, na li nha
temática das mídias alternativas digitais.
A pesquisa quis res ponder à seguinte questão central de investigação: Em qu e medida as mídi as
alternativas com uma agenda que contraria políticas neo -liberais cons egue m criar um discurso
consisten te e capa z de atingir audiências mais alargadas no Brasil, na Es panha e em Portugal? A
pergunta que orientou a investigação consubstanciou o objetivo principal de analisar conteúdos das
mídias alternativas no Facebook que se ocupam da crítica à política atual, e de outros objetivos
secundári o s, como investigar a rotina de produção das mídias alternativas e como atuam nas redes
sociais; perceber o s posic ionamentos políticos das mídias alternativas e que efeitos eles têm no
público; observar q ual o pa pel das m ídias alter nativas na promoção de mudanças sociais e de ag endas
governamentais, e na criação de uma agenda alternativa com posta por temas que não estã o pres entes
nos
mainstream media
; e perceber qual o papel formador das mídias alternativas na cultura política e
no intermédio de re lações sociais de grupos e realizar um estudo comparativo en tre as mídias de
Brasil, Espanha e Portugal, t endo em conta as d iferenças de perfil dos meios de com unicação e as
realidades políticas de cada país.
Este estudo t em como objetos os meios de comunicaç ão
Mídia NINJA
e
Jornalistas Livres
, do B rasil;
El
Salto
e
Contexto y Acción
, da Espanha; e
Fumaça
e
Gu ilhotina.info
, de Portugal. Essas mídias adotam
modelos de produção independentes baseados no uso das redes sociais pa ra circulação e distribuição
das informações, c ujas pro duções jornalísticas as sumem posturas políticas c laras, de esquerda, e com
ações ativistas de mobilização das audiências nas redes para as caus a s relativas aos direitos humanos.
O estudo comparat ivo tem a finalidade de com preender o “novo” modelo de jornalismo baseado no
engajamento nas redes – que realiza críticas às estruturas de poder - e, ao mesmo tempo,
indepen de nte financeiramente dos grandes grupos empresariais e de govern o s.
A investigação, pautada pelo paradigma interpretativista, foi guiada pelo desenho met odológico mist o
direcionado aos três níveis do proces so midiático: produção, conteúdo e r ecepção. Através da
observação de peças das mídias alternativas no Facebook e de entrevistas aos produtores dos m eios
de comun icação, utilizando a etnografia vi rtual e técnica de análise de co nteúdo, nos foi possível
5
perceber a produção midiática; e a realização de entre vistas ao público leitor e nã o leitor, utilizando a
análise de conteú do, nos permitiu compreender a recepção da produção midiática pelas audi ê ncias.
O surgimento de meios de comunicação alternativos e como eles operacionalizam suas produç ões para
promover transformações no cen ário midiático e propor mudanças sociais at ravés do jornalismo
ativista de esquerda são abordagens que justificam o d esenvolvimento desta pesquisa. Além disso, as
estratégias de conquis ta das audiências e os modelos de produção, circulação e distribuição das
mídias alternativas são temas ainda pouco pesqui sados no âmbito da comunicação alt ernativa em
países não-anglófonos. Porta nto, interessa-no s compreender as experiências de mídias que trouxeram
novos formatos de produção noticiosa. Analis ar o modo como es ses meios atuam nas redes sociais e
sites, como mantêm suas at ividades e audiências p ode contribuir para alargar os conhecimentos
concernentes ao estudo do jornalismo alternativo e m país es não -anglófono s, bem como apontar
caminhos para aperfeiçoar as produções jornalísticas atuais.
O t ema de tese tam bém é proveniente das inquiet ações da investigadora, enquanto jo rnalista, a
respeito do tipo de jornalismo anti -democrát ico, anti-plu ral e mercadológico, aten dendo aos i nteresses
das grandes empr esas que vem sendo realizado nas redes e fora delas; bem c omo o fenômeno da
internet e os rumos anti -democrát icos e de desinformação que esta rede tomou. Entendemos que o
jornalismo é mola propulsora da democracia, no sentido que permite a obtenção de conhecimento e,
consequentemente, capacidade de questionar, caso s eja dem ocrático, plural e diverso. A s di scussões
propostas nesta inves tiga ção são fruto da t rajetória de at ivismo político com posicionamentos
políticos/ideológicos de esquerda, embasados no feminis mo, na defesa dos di reitos humanos e na
democracia adot ados pela i nvestigadora. Deste modo, reafirmamos o direito à informa ção, previsto por
lei, e a necessidade da compreensão pelas audiências do jornalismo como instrumento p olítico e
transformador da sociedade em conjunto com os movimentos sociais e civis. Em t empos de
fake news
,
o papel crucial das mídias independentes tem s e apresentado como o de estabelecerem -se como
alternativas aos cidadão s, como ferramentas de divulgaçã o de notícias mais pró ximas da construção
social da realidade. E sta pesquisa também quis perceber se a s defi nições de parti cipação, coo peração,
democratização e colabo ração com as mudanças de paradigmas sociais estão a penas na esfera do
discurs o o u concretizam-se de fato.
Relativamente ao Estado da Arte, o Capítulo 2 desta dis sertação traz conceitos sobre p o pulismo
(Laclau, 2007), neoliberalismo (Harvey, 2008), nacionalismo (Greenfeld, 19 92) e movimentos
populares e ativistas (Gerbaudo, 201 2), como
Occupy Wa ll St reet, Los Indignados
, Jorn adas de Junho
6
e Geração à Rasca. Estes conceitos fazem parte do cenário político atual, com a fin alidade de
caracterizar a conjun tura no Brasil, na Espanha e em Portugal.
O Capít ulo 3 aborda o cam po da Comunicação e Polít ica subsidiado pelas t eorias de Dahlgren (2018),
Couldry (2003), Lima (1996) e Figueiras (2017), levando-se em conta, para estudo, o envolvimento dos
meios de comunicação co m sistemas de governo. Dentro do campo da Comun icação e Política, a
Economia Políti ca Mosco (1996) e Economia Política da Comun icação (Fenton, 2007) são t eorias
presen tes na fundamentação teórica , com o propósito de trazer questões de propriedade e de controle
da mídia (Fenton, 2 007).
As mídias alternativas são definidas no Capítulo 4 a través das teorias de Atton (2002), Could ry &
Curran (2003 ), Co yer, Dowmunt & Foun tain (2007) , Downing (2002) e Fuchs ( 2010 ). No espectro
teórico das mídias alternativas estão também discussões sobre produção e pa rticipação (Lievrouw,
2011); ét ica (Trappel, 201 9), arquit etura em rede (Li evrouw, 2011) e ativismo midiático (Gerbaudo,
2012). Os co nceitos sobre mídias alternativas de direita e de ext rema - direita (Figen schou & Ihlebaek ,
2018) também estão pre sentes n est e Capít ulo como forma de comparar as es trut uras. No que
concerne ao ciberespaço, o Capítulo 4 traz abordagens de Castells (2009) e de van Dijk (2013).
A in vestigação é continuidade do projeto de dissertação de Mestrado realizado em Portugal, na
Universidade Nova de Lisboa, intitulado “A Repercussão dos Media A lternativos no C iberespaço: Estudo
Comparativo das Pá ginas
Outras Palavras
e
O Corvo
” , numa visão mais ampla, com novas abordagens
e percepções. Coube- nos percebe r o papel social dos objetos e suas contribuições para o que
acreditamos como saídas para a desin formação, e compreender o jornalismo a t ivista que nos traz o
outro lado da informação. En tendemos que a comunicação alternativa de esqu erda desafia formas
capitalistas de transmissão da informação, mas pelo fato de t entar romper com o modelo de negócio,
realiza um t rabalho com limitações de recursos, embora consiga emitir a mensagem e interagir com o
público, p romovendo transformações sociais e políticas e abrindo caminhos para a p rática do
jornalismo democrático, plural e divers o.
7
Parte I - Eixos te máticos
2 Capítulo 2
Movim entos sócio-pol íticos
ste pr imeiro capítulo proc ura traçar um panorama mundial nas esferas da política e da
economia e de que maneira as mídias estão inseridas nes ses contextos. Portanto, esta parte
do trabalho subdivide-se em: populismo, pop ulismo e representação democrática, populismo
midiático, nacionalismo, o espaço das mídias no neoliberalismo, movimentos populares e su as
consequências no mun do político e nos governos. O u seja, movimentos que irrompem no sistema
político-econômico, no fu ncionamento da sociedade e n as relações g lobais. Nesse cenário, levamos em
conta para estudo o envolvim ento dos meios de comunicação com sis temas de governo , proposto em
teoria, e, en tão, de que forma esses meios confront am modelos de política , e como fazem política
dentro da sociedade.
2.1 Sistemas e relações globais
O esfacelamento das de mocracias liberais e a consequente crise d e participação política e de
representações, aliados à crise política, criam um atual cenário mundial instável.
A referida crise financeira trouxe à baila as contradiçõe s do ca pitalismo e sua bu sca por readequação.
Esses desequilíbrios dão -se por fa ses. E os intervalos entre os ciclos são normalm ente períodos de
instabilidade n o pa norama não apenas econômico, mas t ambém político e social (Louçã, 20 18 ).
A fase A se estendeu at é 1970, a seguir al guns economistas entenderam que a fase B, portanto a fase
de predominância rece ssiva dessa quarta onda de Kondratiev
5
, tinha sido muito curta e que, logo nos
anos 1 980, uma r ecuperação da taxa de lucro teria permitido a entrada em um a quinta onda longa,
que terminaria na crise de 2007 – 2008. No entanto, a s ondas de Kondratiev são t otalmente irregulares,
porque cada uma é um tempo h istórico. A regularida de que há é o esgota mento do pot encial de um
determinado paradigma t ecnoecon ômico no contexto do sistema socioin stitucional em que ele vai se
afirmar (Louçã, 2018 ).
5
Ref ere-se à Teoria dos Ciclos L ongos, desenvolvida pelo economista russo Nikolai K ondratiev (1892 – 1938). De acordo com essa teoria, um ciclo d e
desenvolviment o capitalist a dura entre 40 e 60 anos, apresentando , ao longo desse tempo, duas fases bastante carac terizadas: uma fase ascendente (
fas e
A
) e uma fase descendent e (
fase B
).
E
8
Vivemos, assim, um período de instabilidade financeira que t eve início na Europa, mas já ir radia para a
América Latina. Trata-se de uma crise q ue tem seu epi centro no setor financeiro, que é sistêmica, que
reduz o crédito, que leva a políticas de ajus te, que tem custo s em termos de dívid a pública no resgate
ao sistema financeiro formal e in form al (Lo uçã, 2018).
O cenário neoliberal com põe-se por crises do ac úmulo de capital, sistema que propõe, portanto ,
inves timentos macros em detrimento do social; quebra da representatividade democrática, da
participação política, em vis ta do desinteresse das sociedades em faze rem parte dos process os
decisórios, tudo inser ido no neoliberalismo, uma atualização do capitalismo no século XXI.
Destarte, emerge desta decomposição s istemática o autoritarismo, regimes fascistas, extremistas,
nacionalis tas, ainda que no enquadramento de governos progre ssistas, eleitos pela via democrática, e,
os populismos a favorecê- los. Neste quadro, nos inte ressa pe rceber o papel da com unicação e d as
tecnologias da informaçã o nas dinâmicas de acumulação do sistema.
2.1.1 Neoliberalismo e dimensões da vida social
A relação entre neoliberalismo, democracia e comunicação e suas vertentes é o ponto fulcral a ser
tratado aqui. Portanto, é crucial trazer mos considerações sobre o neoliber alismo, em vista de ser o
modelo político em at uação nos países capitalista s h oje, uma forma at ual do capitalismo, e o espaço
das mídias nesse s istema .
É import ante discorrer sob re as ligações e ntre a crise política e o neoliberalismo, antes de entrarmos
no cam po dos conceitos. A política da cris e pode ser explicada por meio da abordagem do avanço do
neoliberalismo, a partir da crise do petróle o dos anos 1 970 e em diante.
É possível falarmos de uma forma de gover nança pós -democrática no contexto de crise, dirigida por
princípios economicistas, t ese levantada por teóricos como Ž i ž ek (2010) e Klein (2007). Destarte, o
neoliberalismo t em afetado os pilares democráticos da democracia liberal (como a soberania pop ular
dos processos decisórios), mas t ambém dos fundamentos liberais da democracia de hoje (relacionados
a direitos civis comprometidos ou isentos no contexto de emergência da de mocracia) (Mylonas, 2014).
O encolhimento dos espaços públicos o nde políticas são praticada s é uma forma de neu tralização da
democracia, que ocorre pel a fus ão do poder estatal e do poder econômico sob um modo científico de
governança que gerencia os fluxos de financiamen to e de populações.
O neoliberalismo é um sist ema de governança ligado às exigências do crescimento capitalista tardio.
Como diz Foucault (2008) “uma sociedade n eoliberal é uma sociedad e de merca do, ad ministrada por
9
fundamentos econômicos ou um sistema biopolít ico de g overnança basea do na primazia do
mecanismo de mercado” (p. 30) .
O neoli be ralismo nasceu após a II Guerra Mun dial, n a região da Europa e da América do Norte , onde
imperava o capitalismo, como uma reação teórica e política ao Estado interven cionista e de bem -estar .
O propós ito do neoliberalismo era combater o keynesianis mo
6
e o solidaris mo reinantes e prep arar as
bases de um outro tipo d e capitalismo, duro e livre de regras pa ra o futuro (Anders on, 1995). N o
entanto, o “novo” sistema político -econômico só ganhou terreno por causa da chegada da grande crise
do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando t odo o mundo capitalista avançado caiu numa
longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de cr escimento com alt as
taxas de inflação (Anderson, 1995).
A característica fundamental do neoli beralismo é sua desconstrução clandestina do
demos
(divisão
territorial, povo, no grego) ( Brown, 1955). A sub stituição de um modelo de cidadania com preocupação
com o bem público, por u m modelo que reduz o cidadão ao
homo economicus
, bem como elimina a
ideia de povo, de u m
demos
que afirma voss a soberania política coletiva. Prevalece a lógica do
mercado, da com petição e da empresa e desaparece o
homo politicus
. Quando o próprio campo da
política é “pensado” em t ermos econ ômicos, desaparecem os fundamentos para uma cidadania
vinculada à coisa pública e ao bem comum (Brown, 1955) .
As racionalidades da crise culturalist a moralizam a a usteridade como um p rograma principalmente
educativo ou disciplinar. Au steridade é, portanto, imperativa que faz part e da ree struturação neoliberal
da sociedade.
As lógicas neoliberais são baseadas em reificações que reduzem entidades compl exa s em domínios
calculáveis e controláveis (Mylonas, 20 14). A democracia é, deste modo, um problema para o
capitalismo neoliberal e a austeridade não é compatí vel com a democracia. No geral, tecnocracia e
austeridade significam a ex clusão dos cidadãos da part icipação na vida social e p olítica (Berardi, 2 009;
Marcuse, 2005, 1956).
No arcabouço conceitual, o neoliberalismo é uma teori a das práticas político - econômicas que propõ e
que o bem-estar humano pode ser melhor promovido emancipando as liber dades e ca pacidades
empreendedoras individuai s no âmbito de uma estrut ura institucional caract erizada por sólidos direitos
à propriedade priv ada, li vres mercados e livre comércio (Harvey, 2008).
6
É a teo ria econômica c onsolidada pelo eco nomista inglês John Maynard Ke ynes que c onsiste numa o rg anização político -econômic a, oposta às
concepç ões liber ais, fundamentada na afirm ação do Esta do como agente indispens ável de controle da economia, com obje tivo de conduzir a um sistema
de pleno e mprego.
16
espaço nos meios de comunicação tradicionais, ca r regam consigo discursos nacionalistas de
fechamento de fronteiras e defesa do território naciona l, a exem plo de Donald Trump qu e pretendeu a
construção de um muro para separar a divisa e ntre Estados Unidos e México, promessa da campanha
do ex -presiden te americano, em 2016, com o forma de evita r a entrada de imigrantes mexicanos em
terras norte-americanas (BBC, 2021, 25 de janeiro).
Na Europa, com o apogeu da crise migratória, em 2015, e ascenção de g overnos de extrema -direita,
líderes pop ulistas uniram- se em prol da renacionalização da política de imigração. Matteo Salvin i,
ministro italiano, e Viktor Orbán , primeiro-mi nistro h úngaro, consideraram parcerias a nti-imigraçã o,
junto com Marine Le Pen, Fren te Nacional da França, e o part ido polaco Lei e Justiça .
Mais ainda, a recepção aos refugiados da Síria ainda é questão de debate e de polêmicas sobre a
resolução do problema. U ma crise governamental foi desencadeada na Alemanh a por uma proposta
para recusar cert os refugiados na fronteira, política que vai de encontro às g overnações pr ó -imigração
de Angela Merkel, chanceler alemã (Agência Lusa, 2019, 10 de janeiro).
Desta forma, o nacionalismo está na agenda midi ática e tem conquistado express ão j unto ao
populismo, o que con tribui para a manutenção das desigualdades sociais e da anti-democracia na
conjun tu ra atual.
Neste contexto, é coerente apontarmos para os sub-nacionalismos, termo usado por Anderson (2006),
que pode ser aplicado na atualidade com a invenção de novas com unidades ou nas suas formas de
apropriação dos sub-nacionalismos, a partir do incremento das novas t ecnologias da com unicação e da
informação.
Nairn ( 1997) apre senta o nacionalismo como uma fu nção do dilema subjacente da modernização
colocando o progresso contra o lugar que frequ entemente m obili za g rupos identitários para o
desenvolvimento (e às vez es alimen ta o imper ialismo). Assim, “o nacion alism o é causa e afeto,
democrático e totalitário, e a justaposição do progres so h umano com a natureza humana” (Nairn,
1997, p. 71). Destarte, tais assertivas nos remet em à análise das transforma ções atuais do
nacionalis mo que configuram com seu recrudescimento. Na verdade, a g lobalização engendrou o
nacionalis mo e o m undo político está dividido - cada nação cercada por ela mesma na defesa de
fronteiras, conforme Nairn (1997).
Hoje são vários os mov imentos dentro do es pect ro político -ideológico que se apropriam do
nacionalis mo seja com o elemento programático, seja como forma de propaganda, assim, o seu cariz
político se forta leceu como durante o século XX, em que o nacio nalismo p ermeou movimentos radicais
17
como o fascismo, o nacional-socialismo na Alemanha, o saudosismo e o integralismo no Brasil e em
Portugal, especialmente durante o Estado Novo no Brasil e Estado Novo em Portugal.
2.1.3 Incorporação e retomada do populismo
O vácuo democrático, em razão do conjunto da s rachaduras nos sistemas político e econômico ,
permite a inco rporação do populismo no sistema inábil para a a bsolvição das demandas populares
(Laclau, 2007). O fenôme no tem se apresentado de maneira p erniciosa para a qualidade democrática,
sobretudo nos
mainstream m edia
. O populismo é, port anto, incontestavelmente significativo atributo da
atual turbu lência política porque aproveita -se dos momentos de crise de represen t atividade para servir
de alternat iva .
É importante descrever conceitos e efeitos do populismo porque faz parte do panorama at ual político
que deve ser trat ado aqui em virtude da importância da at uação da s mídias alternativas no context o de
governos e pol íticas. Historicamente, o populismo t em um padrão de ser epis ódico, como expõem
Álvares e Dahlgren (2016), e tende a aparecer em tempos de crise, muitas vezes com uma retórica
quase revolucionária. No entanto, inclina-se pri ncipalmente para o reformismo , no sentido de propor
mudanças salvacionistas para situações de crise econômica, democrática e de representação ,
restabelecendo a ordem e o progress o de uma nação .
De antemão, é re levante di scorrer sobre um dos pont os-ch ave da crise atual e d o retorno aos regimes
autoritários de extrema -direita: o enfr aquecimento da democracia liberal. A democracia é por defi nição
o governo da maioria. Segundo a interpretação “normat ivista” (Kelsen , 1 934) , a democracia tem
validade jurídica e política i ndependentemente do número de eleitores que votam, mesmo s e a maioria
não vota.
O processo democrático enfrenta desafios postos nos ce nários político e e conômico, como a
corrupção, a retirada de d ireitos como medidas de a usteridade, a falta de rep resentatividade e de
discussões s obre decisões políticas, el eições decididas por
fake n ew s
através das redes s ociais,
sanções a leis sem debate prévio com a população, falta de transparência orçam entária e de formação
política, ou seja, é possível afirmar que a democracia vive uma crescente “ crise epistêmica ” (Dahlgren,
2018):
A democrac ia é atacada, e enquanto a lguns dos perigos incorporam assaltantes direto s e visíveis ,
como o neoliberalis mo, medida s autoritárias e corrupção, outros são menos imediatos e óbvios. Entre
esses desafios mais sutis à democracia, encontramos a maneira e as circunstâncias em que nós,
como atores políticos, adq uirimos conhecim entos releva nte s para a participação na p olítica .
(Dahlgren, 201 8, p. 1)
18
A democracia liberal exige consenso quanto às deci sões e necessita também da constituição de
identidades coletivas em torno de posições clarament e diferenciadas e da possibilidade de escolher
entre alternativas re ai s (M ouffe, 1996). O chamado “pluralismo combat ivo” de Mouffe (1996) é
constitutivo da democracia moderna e, para além disto, representa a própria condição de existência da
democracia, portanto, com a fragilização do process o democrático, a pluralidade na s eara política não
está em vigor. “No dealbar do século XXI, as nossas sociedades estão a sofrer u m profundo processo
de redefinição das suas identidades coletivas e a experimen tar o estabelecimento de novas fronteiras
políticas” (Mouffe, 1996, p.14).
Deste modo, as tradições li beral e democrática, que só foram articuladas no século XIX, fazem parte do
atual funcion amento da política . A crise econômica de 20 08 acentuou a crise do sistema liberal-
democrático de repr esentação e a pujança dos populismos de extrema -direita não corrigiu tal
instabilidade, ao contrário, é produto dela. Essa já se vinha arrastando desde meado s dos anos de
19 80, com uma forte redução da participação eleitoral e com a consequente perda da
representatividade das elites polí ticas governantes e do s sistemas políticos .
Em várias democracias mais recentes, vemos deriva em direção ao iliberalis mo , como Hun gria e
Polônia (V iegas, 2018). Alé m do autoritarismo na Rússia, questão discutida pelo jornal O E stado de SP,
no artigo “A Rússia aut oritária e racista de Putin” (Llosa, 2016 , 7 de agosto ) e até ditadura na Turquia,
mostrada pela Deutsche Welle (Arikan, 2019, 24 de junho ).
Em t oda a linha, o capitalis mo neoli b eral conti nua a desviar o poder real dos cidadãos e das
instituições democráticas e colocá -lo nas m ãos de atores corporativos (Dahlgren, 2018). Houve declínio
na participação cívica nos processos políticos nas democra cias ocidentais nos últimos 25 anos, em
razão da falta de respos tas do sistema. Os partidos políticos já não se comportam como centros de
engajamento e de participação política. No lugar, s urgem movimen tos populares a partir da Primavera
Árabe
8
. Na década de 2000, ergu em- se ações ativistas em busca de direitos sociais e políticos, como
o Occupy Wa ll St reet, e antiausteridade (Castells, 20 12), além d´ Los Indignados (Espanha, 2011), as
Jornadas de J unho (Brasil, 2013), greves a favor da educação e contra a re forma da previdência e o
governo de Jair Bolsonaro (Brasil, 2019), os
Mouvement des gilets jaunes
(França, 2018), Geração à
Rasca (Portugal, 2011) e as manifes tações anti -troika ( Portugal, 2012).
8
Primavera Árabe, como é conh ecida mundialment e, foi uma onda revolucionári a de manifestaçõ es e protestos que ocorreram no O riente Médio e no
Norte d a África a partir d e 18 de dezembro de 2010. Houve revoluções na Tunísia e no Egito, uma g uerra civil na Líbia e na Sír ia; també m oco rr era m
grandes protest os na Argélia, Bah rein, Djibuti, Iraque, Jordânia, O mã, e Iêmen e protesto s menores no Kuw ai, L íbano , Mauritân ia, Marrocos, Arábia
Saudita, Sudão e Saara Ocidental. A s manifestaç ões ficaram m arcada s pelo uso d as mídias sociais, como Fac ebbok, Twitter , e YouTube, para organizar ,
comunica r e sensi bilizar a população e a comunidade int ernacional.
19
A crise desen cadeada em 2007-08 abriu caminho a dois tipos muito diferentes de contestação social: a
recuperação da capacidade mobiliz adora da es querda radical (movimentos e parti dos de raiz m arxista
e/ou de práticas neoli bertá rias que se movimentam à esqu erda da social -dem ocracia, incluídos os
partidos comunistas do Ocidente euro-americano e da Índia); e a reemergência da extrema -direita sob a
forma de populismos de vários regist ros, centrados alternativa ou cumulativamente em discursos
racistas e xenófobos (com particular ódio contra as minorias m uçulmanas e o s c iganos, por vezes
ainda contra os judeu s), u ns mais confessionais , co mo a Europa centro-ocidental, EUA, Brasil, Israel,
Índia; outros menos conf essionais, como Fra nça, Holanda, Suíça, Escandinávia, Alemanha, Grã -
Bretanha (Loff, 2018 ).
O espectro dos popul ismos está em voga nas socieda des e conduz a políticas c entralizadas em um
representante eleito democraticamente, porém concretiza-se como um risco à democracia.
O populismo é a so mbra permanente da política re presentativa. H á sempre a possibilidade de q u e um
dos seus atores fale em nome do “verdadeiro povo” como maneira de c ont estar as elites
presentemen te poderosa s (…) os popu listas não sã o contra o princíp io de repres entação política ;
insistem ape nas em que só eles mesmos são representante s legítimos. (Müller, 2017, p. 1 11)
Para Louçã (2018), o populi smo seria a doutrina ou estratégia ou forma pol ítica em que a
representação é substituída pela relação direta entre um protagonista e seu povo. Já Laclau (2007) nos
apresenta o populismo como fenômeno que deve ser mais compreendido pela ciência política, com o
uma abordagem renovada do populismo, e para resgatá -lo como objeto de estudo. O t eórico rearfi ma,
em sua tese, o termo “ denegrição ” como apt o ao populi smo, ao que desenvolve com o que tem sido
relegado junto ao que chama de “a denegrição das mass as” (Laclau, 2007, p.111).
Ainda n o compêndio de d efinições: “O populis mo é o caminho para se compreender alg o sobre a
constituição ontológica do p olítico enquanto tal” (Laclau, 2007, p.11 5). A figura de um líder emerge na
noção de populismo, ou se ja, esse modelo político pr evê um processo de identificação popular a um
líder. Além di sso, o populismo associa a dimensão da equiv alê ncia entre as demandas i nsatisfeitas e a
cristalização de todas elas em torno de certos símbolos comuns (Laclau, 2006b).
Nos Estad os Unidos, os principais movimen tos de di reita e esquerda são fundamentalmente populi stas.
Acerca disto, Mudde (2012) reflet e que “ enquanto o Tea Part y ficou do lado dos ‘ am ericanos comuns ’
em sua batalha central co ntra o ‘ corr upto Washington ’ , o Occupy Wa ll Street defende (os bons) 99%
dos (corruptos) 1% dos Estados Unidos ” (p. 17).
Assim, completa: mesmo os movimentos inicialmente favoráveis à democracia que constituem
(constituíram) a Primavera Árabe expressam fortes sentimentos populistas (Mudde, 2012).
20
Sobre as críticas ao populismo, aqui cabem alg umas discussões. Teoricamente, o populismo não é
antidemocrático, na visão de Mudde (2012), porque aceita a soberania popular e o g overno da maioria.
É, no entanto, essencialmente contrário à democracia liberal porq ue se opõ e ao p rincípio do p luralismo
e à prática da concess ão. “ É uma ideologia monista, que considera ‘ o povo ’ e ‘ a eli te ’ algo h omogêneo
e desprovido de divisões ” (Mudde, 2012, p.13) . É por isso que se opõe fundamentalmente ao
pluralismo e pe rcebe o s dir eitos das minorias como “ interesses especiais ” da “ el ite ” que se impõe à
custa do “ povo ” .
A “generalização empírica” proposta por Panizza (2005) é o modo de abordagem que pode ser usado
para conceituar o populismo. Isto porque são muitos conceitos e nem sempre precisos.
Louçã (2018) adverte que o populismo não existe co mo catego ria transver sal ao longo da h istória e os
mais importantes regimes populistas triunfantes que s ão conhecidos -os fasci smos - transformaram-se
a si próprios numa fantasmagoria política de que só sobrou o militarismo.
Já Gino Germani (1979) refere-se ao populismo como um tipo específico de movimento social e político
provocado por uma desordem assincrô nica gerada no processo de tra nsição de uma sociedade
tradicional para uma sociedade industrial.
Na concepção de Gerbaudo (20 16), o populis mo é t ermo neutro, em vez de pej orativo, que pode, em
cada ocasião específica, assumir qu al idades regressivas ou progressivas.
No século XX, no Ocidente, o populismo deu lugar aos fascismos, de Hitler e Mussolini, entre outros.
“ Foi necessário à s burgues ias para combater a revolução, estancar o m ovimento operário, en quadrar
massas, derru ba r o demoliberalismo
9
e instalar ditaduras ” (Hon ór io, 2018, pp. 16 - 17).
No Ocidente, o populis mo recrudesceu da legitimação do neoliberalismo e da g lobalização e procriou
forças de extrema-direita , nos a nos de 1980. Hoje, as respostas são s istêmicas : instalaram-se nas
regras do demoliberalismo, endureceram as políti cas de imigração e asilo, coabitaram com o
neoliberalismo (Honório, 2018). Assim, ergueram - se nacionalismos que apert aram as políticas
migratórias, impuseram prát icas racistas e xenófobas contra imigra ntes dos países em guerra e em
crises humanitárias que pa ssaram a ter dificuldades de entrada na Europa e nos Estados Unidos, e
hoje também na América Latina.
Os popu lismos não foram sempre os mesmos. As suas con figurações foram variando consoante o
maior pes o e h istória das burguesias n acionais, do c apitalism o, do espaço do demoliberalismo. As
burguesias escolheram qu ando é que a ditadura er a solução mais favorável, ou quando é q ue as
soluções autoritárias podia m ainda conviver com formas de democracia , ou quando bastava ajustar
9
Demoliberal ismo é, de aco rdo com certa s correntes de opinião polític a, uma classificaç ão sociopolítica que designa um a tendência pós-Segunda Guerra
Mundial do lib eralismo, de c ariz mais popula r.
21
mais à direita o centro político. No Ociden te, as últimas décadas revel am que o populis mo tem servido
como correção do centro político por vi a da extrema -direita, e d a esquerda por via do centro –
“endireitar” o centro, “cen tr ar” a esquerda (Honório, 2 018).
No viés da direita da Europa O cidental, os populismos t êm se manifestado em partidos como a Frente
Nacional da F rança, at ravés de Marine Le Pen ; o Partid o Republicano de Donald Trump (EUA); partidos
de caráter diretamente fascista e/ou neonazista: por exemplo, o A urora Dourada , da Gr écia; o Jobbik,
da Hun gria; o Setor Dir eito, da Ucrânia; o Partido Nacion al Democrata, na Alemanha. Partidos
semifascistas: F PÖ, da Áustria; e do Vlaams B elang, da Bélgica. Partidos de extrema-direita que não
possuem or igens fascistas, mas compartilham do seu racismo, x enofobia, retórica anti-imigrante e
islamofobia. Exemplos são a ita liana Lega Nord, o su íço UDC (U nião Democrá tica do Centro), o
britânico Ukip (Partido de Independência do Rei no Unido), o holandês Parti do da Liberdade, o
norueguês Partido Progressista, o Parti do dos Verdadeiros Finlandes e s (True F inns) e o Part ido do Povo
Dinamarquês. Partido N acional Renovador (PNR) e Chega, em Portugal. Partido Social Liberal ( PSL), o
partido que elegeu o populista Jair Bolsonaro, no Brasil.
A Ocidente e à esquer da, o espaço do populismo é recen te e sua formação exógena. A es querda n ão -
marxista, através dos teóricos Laclau e Mouffe, trouxe o populis mo para a ordem do dia. Do Sy riza ao
Podemos, e, em outras épocas, o peronismo, o varg uismo e o chavismo foram g overnos populistas
clássicos. Na atualidade, nas sociedades lat ino-americanas veio a habilitação do populismo como
alternativa (Honório, 2018).
“ No século XX, os pop ulismos da América Latina, s em burgue sias fortes e se m demoliberalis mo,
legitimaram a recomposição das elites, ajustando contas com a oligarquia te rratenente, com um
reconhecido apoio popular, e, de Vargas a Péron, t ornaram -se regimes autocráticos ” (Honório, 2018,
p. 16). Os re gimes autocráticos na América Latina foram ca pazes de inclu ir na política as classes
sociais at é então exc luídas, assim, o populismo foi, numa primeira fase, útil à burg uesia para enfrentar
a oligarquia com o apoio popular.
Na seara teórica, além e antes de Lacla u (2004), Touraine (1988) emprega a no ção de populismo, a
partir da América Latina, como uma espécie de via alt ernativa ao capitalismo e ao socialismo. Para ele,
“é uma tentativa de control e antielitista da mudança social” (Touraine, 1988).
O populismo pode ser definido como a ontologia do político , uma “lógica política” que se relaciona com
o social através da s “demandas” (Ho nório, 2018). No que concerne às questões de identificação entre
o representante e o representado, a identidade popul ar ocorre quando a s relações de equivalência se
cristalizam numa similitude . A ssim, o laço equivalencial é o “povo do populismo”. O povo é, então, a
22
“cristalização de uma cadeia de equivalências”. Um a iden tidade popular é um sign ificante vazi o; o
“nome torna - se o fundamento da coisa” (Honório, 2018, p. 25).
No quadro teorético de povo, Laclau (2004) nos oferece três variáveis: relações equivalenciais
representadas hegemonicamente através de “significa ntes vazios”; des locamento de fro nteiras internas
através da produção de “significantes flutuantes” e u ma heterogeneidade co nstitutiva que impossibilita
as recuperações dialéticas e concede centralidade à articulação política.
Na segunda m etade do século XX e no século XXI , os sujeitos coletivos estão esvaziados (Honório,
2018): “O neoliberalismo secou-os desde a década d e 1980 ” (p. 28) . O povo d o populismo é mais
“entidade orgânica” do que conjunto de cidadãos, e está nos antípodas da classe social. O “povo” é
um corpo vivo, feito de células indivisíveis, q ue pode ser representado por substituição – daí o caminho
natural para soluções autoritárias (Honório, 2018).
O populismo e se us líderes oferecem ao povo a "p romessa de emancipação após u ma jorn ada de
sacrifício" (Panizza, 2 005, p. 23). Na obra de Gramsc i (1973), o “ povo ” cons titu i uma categoria que
transcende as noções de c l asse. “ O povo é uma massa ‘ am orfa ’” (p. 72) que tem sido freq uentemente
reduzida à pass ividade ao longo da história, e cuja ativação e mobilização constituem um desafio
fundamental para a política emancipatória.
É nessa v isão do povo com o uma categoria e xpansiva e quase abrangente que La clau (2005) construiu
sua análi se do populismo. Contrariamente a outros teóricos do populismo , como Canovan (2 005) e
Taggart (2000 ), o popu lismo não é uma ideologia específica. Ao con trário, “ o populismo é uma lógica
política transversal, que gira em t orno do apelo a nti-setorial ao ‘ po vo ’ como a t otalidade da com unidade
política, e que pode ser utilizada tanto pela direita quanto pela esquerda ” (Gerbaud o, 2016, p . 6).
2.1.4 Populismo e representação antidemocrática
A representação é relevante no rol das discus sões sobre populismo ; an unciada como o pilar da
estabilidade dos regimes dem ocráticos, ca i por terra na crise atual dos sistemas políticos . A
representação está esvaziada e se refugia ao passo que o populi smo é incapaz de r epresentar o povo
porque traz con sigo a antid emocracia, a manutenção do neoliberalismo de convergências e ntre centro
e direita, os interesses de cl asses e o predomínio da razão t ecnocrática.
Assim, a representação é um t erreno de dispu ta . As classes popul ares recorrem à representação como
dispositivo de com bate pa ra enfrentar uma classe simultaneamente concentrada na produção de
poder. A repres entação pode ser encontrada na forma de partidos, sindicatos, imprens a popular e
outras formas de comunicação.
23
Ar endt (2007) condenava a representação com o uma usurpação, uma extração do poder originário do
cidadão, visto que o sujeito da detenção formal da soberania não corresponde à realidade do poder
substancial. Segundo a aut ora, o que hoje chamamos democracia é uma forma de governo em que
governa a min o ria e a filosofia pol ítica da burguesia foi sempre totalitá ria, p orque s e baseia na
identidade entre a política, a sociedade e a economia, subjugadas ao poder do mercado. Arendt (2007)
manifestou a sua inquietude s obre o vazio da representação na democracia. “ A crítica de Sartre ao
sistema representativo parte do mesmo princípio: a delegação de poder finge um poder que não exist e
e organiza a seriação dos sujeitos, para benefício de um poder delegado que, esse sim, já lá está ”
(Louçã, 2018, p. 223 ).
O populismo não contesta a ordem política nem o capitalismo, portanto , é um herdeiro da falência da
social-democracia e da unipolari zação (Hon ó rio, 2018). N o terreno da ideologia , a ven triloquia é
apontada como importante re curso para o populismo, ou seja, dis curso de esquerda e prática de
direita. Assim, concretiza-se a dubialidade do pop ulismo no campo ideológico , como aponta Honório
(2018).
No esteio de Laclau (2004) , não há “ideologia política” no popu lismo, m as h á “e stilo político”, “ lógica
política”, “discurso” ou “recurso retórico” . O populi smo não é uma ideolog ia , mas uma forma de
articulação do discurso as sente na luta pela hegemonia, concebida, sobretudo ou unicamente, na sua
dimensão política (Honório, 2018).
Em ca mpo diferente, Paul Taggart (2000) descreve o populismo com o uma espécie de “anexo”,
sublinhando que ele tem atributos de ideologia. Já Cas Mud de (2012) vi u o pop ulismo, primeiro, como
uma ideologia monista e, por isso, adversa do pluralista, classifi cou -o como ideologia de baixa
intensidade. Honório ( 2018) entende que tirar o populismo da esfera da ideologia é dar-lhe uma
essen c ialidade trans-histórica e imunizá-lo como recurso do centro político para limpar os seus
“extremos” , além de consentir-lhe que oculte a natureza do capitalismo e as suas lutas sociais.
Entretanto, populistas têm assumido posturas c o ntrast antes em termos ideológicos. O popu lismo de
esquerda defende o povo contra uma elite ou o establishment, o poder instituído , por meio de uma
política vertical, dos estratos inferiores e médios contr a o t opo. Já os populistas de direita defendem o
povo contra uma elite q ue ac usam de favorecer um terceiro g rupo, que pode ser constituído, por
exemplo, por imigrantes, islam itas, ou militantes afro -am ericanos. O pop ulismo de esqu erda é didát ico ,
o de direita é triádico.
Além disso, o populismo d e esquerda é historicamente diferente de movimentos socialistas ou social -
democratas. Não é uma política de conflito de classes e não procura necessariamente a abolição do
24
capitalismo. O populismo de esquerda é diferente de uma política progressiva o u liberal que procure
reconciliar os interesses de classes e de grupos opostos. Pressupõe um anta gonismo básico entre o
povo e uma elite no âmag o da sua política. O populismo de direita , por sua vez, é diferente de um
conservadorismo que prim ariamente se ide ntifica co m a classes do mu ndo dos negócios contra os
seus críticos e forças antagônicas de classes sociais inferiores (Judis, 2017).
Já o populismo de direita na Europa revela-se em oposição a formações sup ranacionais. “ Esse s
populistas pretendem reafirmar o controlo nacional da sua moeda , da sua política fiscal e das suas
fronteiras ” (Judis, 2017, p. 154).
O populismo emerge não a penas como uma reação às condiç ões econômicas, mas também com o um
efeito de lutas identitárias e existenciais.
Na atualidade, é poss ível asseverar que o populismo se naturalizou em virtude do quadro de
esfacelamento da democracia . O t ermo neopopulismo , utilizado po r Pureza (2018), diz respeito, na
etimologia da palavra, aos populismos i nstituídos na América Lat ina, ou seja, em um pe ríodo mais
recente do qu e os instaurados na Eu ropa Ocidental , muito embora seja usado para os populismos
empregados atualmente, sejam de esquer da ou de direi ta, ou ainda de extrema -direita.
A ascensão do populis mo na Europa Ocidental é resultado da falta de respostas dos partidos
tradicionais ao eleito rado sobre fenômenos como a globa lização econômica e cul tural, a velocidade e a
direção da integração europeia, a imigração, o declín io das ideologias e da política de classe, a
corrupção das elites. Como já referido anteriormente, é tamb ém consequên c ia do “ mal-estar polí tico”
que inclui a crise de representação.
Além diss o, a des ilusão da população com a política afetou o comportamento eleit oral, aumentando o
número de abstenções n o s pleitos. Na Europa Ocidental como em outras partes, a alt ernativa ch ama -
se populismo, at ravés de u m líder carismático disposto a “repr esentar” o povo na esfe ra política. Os
populistas oferecem sol uções diretas e de “ senso com um ” para os problemas com plexos da sociedade
e ad otam estilos de comunicação capazes de galvanizar pelo menos alguns daqueles que p erderam a
fé na política tradicional. El es oferecem uma “ política de redenção ” em contraste com a “ política do
pragmatismo ” do
establishment
(Canovan, 1999). Populistas que p rometem re cuperar o cetro para
seu dono legítimo - o 'povo' soberan o - foram capazes de se apresentar não como ameaças à
democracia da Europa Ocidental, mas como seus salvadores (Mazzoleni, 2008).
25
2.1.5 Populismo midiátic o: efeitos e discursos
Os debates em torno de conceitos e efeitos do populismo focalizam o papel da mídia n este momento
populista e particularmente na circulação de discursos populistas e notícias fal sa s, no surgimento de
um novo tipo de propaganda digital, bem como no fomento do poder popular e soberania de base
(Cammaerts, 2018).
A mídia tradicional e as m ídias sociais se tornaram os locais dominantes para o debate político nas
democracias modernas tar dias (Álvares & Dahlgren, 2016). Além disso, a mídia, com su as vária s
contingências e lógicas - técnicas, social, c ultural - co nstituem fat ores que impactam como a política
acontece e é feita.
O populismo costuma nortear a mídia em termos de conduzir discu r sos, t ratamentos e privilegiar
figuras no que diz respeito à cobert ura de telejornais, jornais, art igos, e notícias, não somente os meios
mais t radicionais seguem a linha pop ulista, mas tam bém as mídias que atuam em redes sociais e
sites. A noção de “ populismo da m ídia ” - t endências populistas dentro das pró prias instituições de
mídia (Krämer, 2014 ) – ganha espaço com o fortalecimento dos neopopulismos (Á lv ares & Dahlgren ,
2016).
Mineiro (2018 ) faz alusão às redes sociais como o grande reservatório do populismo político e social
nas sociedades ocidentais, que apesar de não serem a causa do pop ulismo, operam como um grande
fator de crescimento e consolidação. “ Funcionam com o um lubrificante para o populis mo em
momentos cruciais, dando-lhe uma rapidez de resposta aos eventos e condicionando o mundo exterior ”
(Mineiro, 2018, p. 184 ).
A mídia é capaz de salientar e forta lecer as ideias po pulistas , por meio da grande exposição . Gramsci
(1971) me ncionou, em su a obra, a mídia como um local -chave por meio do qual a guerra de posição
pode ser travada, a partir dos seus escritos nos cadernos de prisão: “ a transformação da contra -
hegemonia em hegemonia precisa ocorrer primeiro e acima de t udo por meio de uma ‘ guerra de
posição ’ cultural no nível do simbólico ” (p. 243). Isso se tornou ainda mais evidente em n ossas
sociedades hiper-mediada s com uma multiplicidade de canais e p lataformas de comunicação
(Cammaerts, 2018).
Entretanto, os líderes popu listas costuma m ser hostilizados pela mídia e precisam superar a tensão
imposta, como pontua Cammaert s (2018). Os populistas de ext rema direita entenderam, muito mais
rápido que outros políticos, que vivemos em uma democracia midiática e que in terpretar os meios de
comunicação seria de crucial importância para elevar seu peso e n ormaliza r suas idéias extremas e
excludentes. Assim, em razão da necessidade de ress o nância na mídia, os líderes de partidos
32
que muitas v ezes se sente m t raídas por se us repre sentantes. Assim, a propos ta não é de contra -poder,
mas s im uma forma de “su b - poder” “ para falar, consciente de sua sujeição às instituições do Est ado,
mas com a intenção de resistir, opor-se e transformá-la s ” (p. 13) .
Hoje, levanta-se a crítica de que a posição reformista seja um abandono dos pr incípios radicais dos
movimentos de protesto a nteriores que tinham como pauta a dissolução do capitalismo. Gerbaudo
(2016) constrói a ponderação de que é imp ortante entender essa virada como resultado da perspectiva
pragmática desses movimentos e da maneira pela qual uma s ituação de emergência social levou -os a
procurar soluções viáveis de curto e médio prazo, em vez de planos revolucionários grandiosos.
A reivindicação da cidadania radical prop iciou q ue os manifestantes i nterpelassem um elei torado
diverso e construíssem u ma forte base política par a lutar contra a c rise financeira e a p olítica de
austeridade. Assim, a lu ta de trabalho tem sido na construção do t ipo de s ociedad e participativa e
igualitária necessária em tempos de desigualdade (Gerbaudo, 2016).
A in ternacionalização é um foco dos movimen tos populares, ou seja, levar o dis curso para n íveis
mundiais, já que os pr oblemas s ociais, po líticos e ec onômicos estão infiltrados em qu ase todas as
sociedades. Nes te aspecto , as redes s ociais ajudam a criar o cooperativismo entre ativismos das
mesmas causas. Calle (2003) sugere que “a gl obalização fornece co ndição necessária para o
surgimento da mobilização, conectando espaço s de ‘ descontentamento ’” (p. 5) . Assim, a globalização
tecnológica (internet, avanços nas telecomunicações, acesso ao t ransporte da s camadas mais
privilegiadas) , mídia (informação que viaja instantaneamente entre diferentes partes do mundo, am pla
cobertura de cert os conflitos e encontros internacionais) e des tacando o protesto (grandes cimeiras
oficiais) permite unir discursos e formas de ação e coordenação em escala p lanetária .
Na visão de Calle (2003 ), que mira os movime ntos de protestos como globais, o s imbolismo
rudimentar das ações at ivistas é orientado para um radicalismo dem ocrático: incorporam seu
simbolismo midiático ao s novos movimentos, mas recuperam dos m ovi mentos operários um desafio
maior da ordem social, combinando com tarefas habi tuais de sensibiliz ação, b uscando criar condições
de expressão política direta (consultas, assembléias, rejeição poder e i nstitucionalização). Eles
exploram formas de ação culturalmente novas, mas não se percebem como uma vanguarda política.
Porém, movimentos globais podem ser conf undidos com m ovimentos pré -formatados, engessados e
pasteurizados, e até automatizados, como os chamados ativismos de sofá cunhados por Gerbaudo
(2016), ou seja, que reduzem as mobilizações ao debate online, deixando de lado os embates offline.
Sobre democracia, Gerbaudo (2012) sugere q ue os movimentos contemporâneos t razem demandas
democráticas “vinculadas a uma ideia do ‘digital’, como constituindo um novo terreno para a expansão
33
da democracia” (p.16) . Para o autor, os ativistas dos movimentos e part idos da onda popular v êem as
mídias sociais como criadoras de uma oportunidade para uma “democracia 2.0”. A saber:
Essa adaptação envolve a utilização da lógica de i nterativ idade da Web 2.0 e recursos como curtida s,
comentários, t weets e formas semelhantes de in terações e métricas conectadas como meio de uma
espécie de democrac ia de massa digital informal, seg uindo o princípio de " um como, um voto" .
(Gerbaudo, 201 6, p. 17)
A noção de democracia 2.0 baseia -se na forte ressonância entre os v alores dos at ivistas
contemporâneos e a profunda valorização da participação incorporada nas mídias sociais e no discurso
conectado. Na prática, ser ia o uso de plataforma s elet rônicas como meios de decisão e votação, além
do viés das mobiliz ações.
Cabe trazermos a reflexão de com o a mídia t radicional trata e tratou os movimentos popu lares. C omo
desafiadores do
status quo
político em diferentes países europeus e no Brasil, os protestos s ão
teorizados pela cobertura da g rande mídia como instrumentos de desordem e de vandalismo ou como
invisíveis (Gerbaudo, 201 6). No e ntanto, a pre sença de mídias alternativas nos e spaços de
mobilizações conduziu a um a “obrigatoriedade” de cobe rtura pelos
mainstream
. No Brasil, as mídias
ativistas (aquelas que informam, mas t ambém participam da mobilização enquanto grupos formados
por cidadãos comuns) provocaram a transmissão dos protestos pelos veículos mais tradicionais, sob a
justificação do “todos estão falando sobre, então nós também falaremos”. No entanto , os parâmetros
usados foram para denegrir os at os, com o linguagem, edição de imagens e fotografias. Pesquis a s
mostraram repetidamente que o modelo de relatório adotad o pela grande m ídia em sua cobertura de
protestos tende a marginalizar e difamar os manifestantes, uma observação con densada no que tem
sido amplamente divulgado conhecido como “o paradigma do protesto” (C han & Lee, 1984). Os meios
tradicionais m antêm a capacidade de legi timar (ou não) as in formações que circulam pelas redes
sociais e/ou as mobilizações por elas desencadeadas.
Ao longo da história, os mo vimentos sociais são produtores de novos valores e ob jetivos em t orno dos
quais as instituições da sociedade se transformaram a fim de os represent ar , cr iando novas normas
para orga nizar a vida so cial (Tej e rina, Perugorría, B enksi & Lagman, 2013). O processo de
comunicação autônoma dos movimentos sociais significa a cons trução de um contrapoder - a ut ônoma
no sen tido de uma com unicação e composição nas redes da internet e nas plataformas de
comunicação sem fio. As redes sociais digit ais of erecem a possibilidade de delibe rar sobre e coo rdenar
as ações.
Os movimentos populares manifestam-se como modelos de mecanismos de defesa da de m ocracia e
da jus tiça social, ações ativistas capazes de contestar modos de g overnabilidade em bu sca da
34
participação e da represen tação popular. Assim, são acontecimentos cruciais para o entendimento do
panorama at ual político, econômico e social, b em com o no contexto da com unicação, na m edida em
que se asseguram como f undamentais para a percepção sobre comportamentos midiáticos e suas
relações com o espaço democrático, sobretudo no ciberespaço.
Para o estudo, quatro movimentos populares com distintas orientações políticas g anham destaque:
Occupy Wa ll Street, Los Indignados
, Jornadas de Junho e Geração à Rasca. Esses movimentos podem
ser refe r enciados como “partidos de protesto” (Gerbaudo, 20 12). Os indignados e o
Occupy
têm sido
amplamente considerados como movimentos progr essistas, devido à sua q uestão de classe e
desigualdade e devido ao fato de alguns participantes desses movimentos não se declararem nem de
esquerda nem de direita.
Convém falarmos de
Los Indignados
e o
Occupy Wa ll Street
como propostas de uma reedição da
retórica populista tradicional, com discursos de centralidade na figura do pov o (pelo povo e para o
povo) e o radicalismo dicotômico de povo vers us
establishment
. No entanto, os apelos populistas são
atualizados para se adequar à condição da sociedade na época das redes sociais (Gerbaudo, 2012).
As es colhas dos movimentos a ser em contextualizados e defi nidos recaem sobre as repercussões
dessas manifestações m undialmente, no sentido de terem provocado transformações sociais e
políticas, de alguma forma, e também pelo uso oper acional das plataformas virtuais, sobretudo na
mobilização dos atos, o que configura o “at ivismo em rede” em análise pela pesqu isa. Sã o
manifestações de u ma ond a política comum, lutando contra o sistema finance iro e a s velhas políticas
partidárias, e por novas formas de democracia.
2.2.1 Marchas indignadas
O movimento
Los Indignados
ou 15M surgiu na Espanha com os protestos de 15 de maio de 2011
contra a crise econômica e a corrupção política. Manifestantes ocuparam a
Puerta del Sol
, no centro de
Madrid, ins pirando-se na ocupação da praça Tahrir durante a revolução egípcia. Por cerca de um mês,
eles criaram assembleia s g erais para discutir so luções para a crise, e as ocu pações se espalharam
para dezenas de outras cid ades e vila s na Espanha e no exterior. Depois que o s prin cipais campos de
protestos foram sus pensos em ju nho, o movimento s e transformou em uma série de “marchas
indignadas” por t odo o país, com vários protestos subsequen tes contra o governo espanhol e a
situação de crescente desconforto social.
Como respos ta à crise do euro e às políticas de auster idade empregadas, bem como uma crítica ao s
fracassos globais do capitalismo financeiro, o movim ento de protesto dos indignados tem sido um
35
momento decisivo no drama d a Eurozona em constante evolução. O movimento, batizado e m
homenagem ao ensaio de 2010 do diplomata francê s Stéphane Hessel (2011), colocou a indignação
no centro do engajamento político. Nascidos nas r uas e principais p raças da Espa nha, na primavera de
20 11,
Los Indignados
inspiraram protestos semelhan tes em todo o sul da Europ a, e foram mais
vividamente replicados n o caso do g rego
Aganaktismen i
(grego para indignados) , que ocuparam as
praças de várias cidades gregas durante o verão de 2011.
Com o alicerce da crise do euro e as decorrentes m edidas de austeridade como re ações dos g overnos,
cidadãos espan hó is levantam-se em forma de resistência, por meio d´ O s I ndignados. O movimento foi
ligado às revolu ções árabes de 2011 e foi celeb rado como o antecessor do movimento
Occupy Wall
Street
. Seu legado político tem sido visto como a raiz do surgimento do partido radical espanhol, o
Podemos, e os bons resultados eleitorais do Sy riza, na Grécia (Errejón & Mouffe, 2016). 15M tem suas
raízes em movimentos ime diatamen te anteriores, como o V pela Moradia, os prot estos online co ntra a
Lei Sinde / Wert, demandas para a transparência da informação na gestão pública (por exem plo,
WikiLeaks) (Barranquero & Meda , 2015) e experiências internacionais de sucesso, como as da I slâ ndia,
Tunísia ou Egito (Candón Mena, 2013; Cruells e Ibarra, 2013).
Orquestrados e m obilizados principalmente pelo uso de mídias sociais, como Facebook e Twitter
(Gerbaudo, 2012), os protestos dos Indignados são um exemplo de movimentos sociais em rede. Eles
utilizaram o Democracia Real Ya, que er a uma das prin cipais plataformas na mobilização.
Sobre as características do m ovimento, há de se pontuar o seu caráter de m assa sem precedentes,
possibilitando sua natureza como um movimento h orizon tal plural. C olocando-se em oposição direta à
política hierárquica tradicio nal, os manifestantes orga nizaram -se e definiram-se como redes horizontais
de cooperação. Assim, a coo peratividade funcionou at ravés da parcer ia com redes ativis tas
estabelecidas, mas também com a agregação de pessoas que até então não haviam se envolvido
ativamente com proces sos pol íticos, formando uma base que era amplamen te classe média e, em
menor grau, classe trabalhadora. Essa horizontalidade e abertura também foi possibi litada pelo uso das
mídias sociais. O moviment o, tanto na Espanha quanto na Grécia, foi ilustrativo de novas formas de
mobilização política através da mídia online e social, o que ampliou ainda mais o alcance dos
manifestantes (Gerbaudo, 2012) .
O 1 5M foi c lassificado como um movimento transversal (Laraña e Díez, 2012), híbrido (Candón Mena,
2013), com pretensões amplas de priorizar o social sobro o político (Fernández Buey, 2007), além
disso adm itiu ser in terpret ado como movimento de com unicação, uma vez que a comun icação
36
desempenhou e cont inua a desempenhar um papel c entral, tanto na definição da sua agenda política
como nas suas estratégias de informação, organização ou in terligação a nível internacional .
No que concer ne às formas de mobilização, os Indignados podem ser con siderados “política
personalizada”, ou seja, a “expressão de uma ação individualizada em g rande escala, coordenada
através de tecnologias de mídia digital” (Bennett & Segerberg, 2012, p. 20). Tal fo rma de ação assume
o pr essuposto da emergência do indivíduo como um importante catalisador da ação coletiva por meio
da mobilização de suas redes sociai s. Bennett e Seg erberg (2012) chamam essa mobilização em rede
de “ação conjunta” em oposição a “ação coletiva”.
Destarte,
o
15M fo i um mo vimento de expressão da a ção conectiva possibilitada pelas mídias sociai s
que foi eficaz na agregação de at ores sociais por meio do t erreno da identificação com as causas, mas
também pelo chamado para a ação coletiva via meio digital.
As respostas das mobilizações do 15M tiveram efeitos legislativo s negativos p ara os at ivistas. Por
exemplo, a Lei de Seg urança Cidadã (conhecida popula rmente como “Lei da Mordaça”) que aumentou
a quantidade de sanções e multas para qualquer tipo de protesto e ação em espaços públi co s. Ou seja,
“ além do volume das mobilizações, o efeito visível do ciclo de 15 M no sistema político não foi
proporcional à intensidade e tamanho dos protestos ” ( Romanos & Sádaba, 2015, p. 22).
2.2.2 “Nós somos os 99%”
O movimento conh ecido como
Occupy Wall St reet
começou em 17 de setembro de 2011. Os primeiros
protestos ocorreram na cidade de Nova Iorque, com o Zuccotti Park, perto da Wall St reet
,
servin do
como território “ocupado”. A notícia do movimento se espalhou rapidamente, principalmente por meio
de tecnologias digitais, e em algumas semanas dezenas de coletivos locais do
Occupy
surgiram nos
Estados Unidos. O movimento chego u a ser comparado às re voluções da Pr imavera Árabe. O protesto
inicial foi resultado da resposta a uma chamada para a ocupação d a
Wall Street
pelo
Adbusters Media
Foundation
, que é uma organização sem fins lucrativos, de cariz anticonsumista. Vídeos e mensagens
foram at ribuídas ao
hacker
coletivo
Anonymous
, o que ajudou a espalhar a
hashtag
#
OccupyWallStreet
.
A máscara de Guy Fawkes, uma imagem de resist ênci a apropriada pelos membros do
Anonymous
do
filme e novel a
V for Vendetta
, tornou-se um símbolo precoce de #
Occupy
.
O discurso principal do
Occupy
foi a “ soli dariedade para expressar um sentimento de in justiça em
massa a respeito do modo como as corpor ações coloc am o lucro sobre as pe ssoas, o i nteresse próprio
em relação à justiça e a opressão pe la igualdade governam nossos g overnos” (Assembléia Geral da
Cidade de Nova York, 2011). Com o
slogan
“Nós somos os 99%” servindo co mo um grito de guerra
37
retórico, o movimento OW S cont inuou a empregar ação direta (como acampamentos, marchas e
demonstrações), bem com o a divulgação de mídia n ão t radicional para divulga r uma base ampla ,
crítica do poder corporativo e sua influência n o p rocesso político.
Depois surgiram novos movimentos de ocupação em dezen as de cidades norte-am ericanas, a saber:
Oc cupy
Boston, Chicago, Oakland, Los Angeles, e Washington, Tupelo, Wichita, Tampa, Nashville,
Missoula, Birmingham, El Paso. O movimento atraiu pri ncipalmente os j ovens com estudos
universitários (reduzir o u p erdoar as dívidas co ntraídas para estudar era uma das exigências m ais
destacadas), mas também veteranos de lutas antiglobalização passadas, como as manifestações de
Seattle, em 1999, contra a Organização Mundial do Traba lho.
Parte da razão do sucesso inicial do movimento
Occupy
foi ter toca do n um pont o nevrálgico popular :
desmascarava a promessa do neoliberalismo de melh orar a situação do povo (Judis, 2017). Ma s o
impacto simbólico de
Occupy Wall Street
foi enorme:
Fez passar para primeiro plano a questão da desigualdade políti ca e e conômica, uma q uestão que era
central à o posição ao neolib eralismo, não só nos Estados Unidos, mas também na Europa, ond e
partidos populistas na Grécia e na Espanha se inspiraram no e xemplo do movimento. (Judis, 2017 ,
pp. 62- 63 )
É preciso lev ar mos em consideração o uso da s tecnologias no
Occupy
, como Penn ey e Dadas (2013)
descrevem como circulação digital de textos (que inclui li nks, fot ografias e vídeos). Isso t udo permitiu
aos manifestantes con struir rapidamente uma contrapart e em rede g eograficamente dispersa que pode
articular uma crítica de poder fora dos parâmetros da mídia convencional.
Os vários papéi s descritos acima dependem do hibr idismo entre os espaços fís icos e virtuais
produzidos pelo uso de
smartphones
, pois os manifestantes integram as atividades de protesto o nlin e e
offline de vá rias maneiras (como solicitar doações em resposta direta online, bem como estender o
alcance das reuniões face-a -face em m inutos de tweets ao vivo) (Penney & Dadas, 2013).
A lógica cultural generaliz ada de rede incorporada pelos movimentos globais de justiça social das
décadas de 1999 e 2000, por meio do uso da mídia digital, implicava um conjunto de disposições
sociais e culturais, moldadas pelo capit alismo informacional, que orientavam os ativi stas. A partir desse
mecanismo, eles passaram a construir laços horizontais e conexões entre diversos elementos
autônomos, colaborações c om outros g rupos, movimentos e organizações; circulação livr e e aberta de
informações; colaboração via coordenação descentralizada e tomada de decisão diretam ente
democrática. Uma lógica cultural é uma estrutura semiót ica - produzida e reproduzida através de
práticas concretas de inter pretação que são mol dadas por con textos tec n ológ icos, sociais e
econômicos específicos.
38
Em suma, os m ovimentos do #
Occupy
responderam e ajudaram a criar novas condições discursivas e
políticas de possibilidade (ou o que os estudiosos do movimento social chamam de “oportunidades
políticas”) . O ponto de situação é a manutenção da autonomia (desvinculados a partidos ou program as
partidários) desses movimentos popu lares, visto qu e cons eguiram estabelecer lógicas de agregaç ão
que reúnem indivíduos de diversas origens e tradições e que buscam causas específicas diferentes,
mas possuem uma motivação maior que é comum a todos: a bu sca por melhorias de vida.
O debate sobre #
Occupy
levanta a questão crít ica da falta de continuidade do movimento, ou seja, a
manutenção da corrente de indignação coletiva. Alguns críticos também su g erem a hipótese da
necessidade de criação de uma plataforma política mínima desses movimentos capaz de exercitar a
hegemonia social e cultural.
2.2.3 Manifestações amplas de cidadania
O termo acadêmico Jornadas de Junho
foi usado para refer ir -se a todas as manifestações ocorridas em
diferentes locai s do B rasil em Junho de 20 13. Foram novas formas de ativismo que surgiram na cena
pública brasileira com o con testação à retirada de direitos, no geral, e a outras cau sas mais es pecíficas,
como o aumento da passagem de ônibus , por exemplo.
Outros termos foram cunhados para esses movimentos brasileiros. B ringel (2013) os define com o
“levante de Junho” e Sing er (2013) como “acontecimentos de Ju nho”, enquanto Scherer -Warren
(2014) os classifica como manifestações amplas de cidada nia, t ratando - se de “agregados de múltiplos
coletivos no es paço público com reivindicações conjunturais , mas frequentemente com protestos
politicamente heterogêneos , diversificados, e poden do conter antagonismos polít icos expli citados ou
não, e mobilizados especialmente através das redes sociais vi rtuais” (p. 14 ) . Neste trabalho, o
movimento será tratado por Jornadas de Ju nho.
Os atos da Jornada de Junho foram divididos em três fases , as quais duraram cerca de uma s emana
cada uma. Nas primeiras manifestações a class e média saiu às ruas, sobretudo em São Paulo, com o
objetivo específico de reivindicar a redução do preço das passagens do transpor te público. As iniciativas
seguiram o m odelo adotado pelo Movimento Passe Livre (MPL) em anos anterio res. A seguir, outros
protestos foram organizados em Sã o Paulo e em outra s cidades b rasileiras, porém novos motes foram
surgindo, o que caracterizou uma h eterogeneidade do movimento, embora as adesões tenham sido
muito significativas em números, em vi rtude da identificação dos cidadãos à ca usa maior (luta por
melhorias de vida).
39
Na retomada do conceito de identificação e sua relação com os movimentos de protesto, aqui mais
especificamen te com as Jor nadas de Junho, Laclau (2011) nos oferece a ide ntificação como uma aç ão
não mais automática, e um processo revers ível. Portanto, diferentes projetos ou vontades com petirão
para hegem onizar os significantes vazios da com unidade ausente. O reconhecimento da natureza
constitutiva dessa lacuna e da institucionaliz ação política é o ponto de partida. Assim, a identidade com
as causas que foram posta s nas manifestações bras ileiras de 2013 foi a principal mot ivação para que
tantas pessoas s e e ngajassem nas ações ativistas.
Como já referimos ac ima, tais manifestações foram marcadas por uma fragmentação dos at ores
sociais, uma vez que os obj etivos políticos e as identidades de seu s membros per passam um processo
contínuo de fluidez ( Barbos a, 2015).
Aqui é preciso levar em conta as diversidades in trí nsecas à sociedade brasil eira. Daí a explicaçã o para
as fragmentações nas Jornadas de Junho. Em verdade, Laclau (2011) traz, com o aporte teórico, a falta
de um “exterior constitutivo” nas manifestações brasileiras. Isso pode ser decif rado como uma não
formação de identidade co mpartilhada pelos seus pa rticipantes , po r meio de um prin cípio equivalencial
capaz de articular forças diversas ao simplificar o espaço político. Foram vários espaços políticos
dentro do movimento que traduz a diversidade e deixa de considerar a sociedade com o um modelo de
“sociedade total” .
No campo ideológico, o caráter multifacetado d as Jornadas de Junho também se mostra.
Ecossocialismo, impulsos fascistas, passando por div ersas gradações de reformismo e liberalismo
marcaram os ideais levantados durante as movimentações.
Como em todos os outros movimentos já referenciados aqui, as Jornadas de J unho também contaram
com a mobilização virtual. Os protestos foram conclamados por meio das redes s ociais Facebook,
Twitter, Telegram e Wh atsApp. Entretanto, as críticas pesam sobre a descontinuidade em termos de
participação na sociedade brasileira quando o at ivismo é elaborado dentro das redes. O offline deve se r
a conclus ão pós-mobilização pelas mídias sociais. Mas, essas no vas formas de incitação
representaram e continuam a representar novos m odelos de se pensar e fazer política no mundo
contemporâneo.
Em suma, mesmo com a natureza vaga e imprecisa, as Jornadas de J unho expr essaram um aspecto
flutuante, todavia capaz de captar e incorporar diferentes demandas daquel e s movimentos e do
período das manifestações. Para além disto, atualizaram o s entido da política ao retirar os t ermos e a
resposta do conflito da are na da administração. E ain da, essas manifestaç ões, e também as outras,
acabaram por eclodir as vozes que estavam caladas em um momento de enfraquecimento
40
democrático, com a retomada da ocupação, pelo menos nos espaços políticos não institucionais,
mesmo que seja através de movimentos de protesto.
As práticas dos atores políticos expres sam um m odelo de resistên cia às formas de poder nas
sociedades de controle. Os movimentos populares indicam , assim, a emergência de uma política pré -
figurativa que reivin dica o a cesso coletivo aos bens co muns.
2.2.4 Geração precarizada
Geração à Rasca é o nome do movimento organizado por jovens em Portugal, em março de 2011, que
pode ser traduzido por m eio da própria semântica do t ermo, visto que o que levou a juventude a
realizar manifestações foi a precariedade laboral de uma geração à rasca, submetida às incertezas em
suas trajetórias profissionais que englobam as dificuldades prolongadas de inserção no mercado de
trabalho, trabalhos temporários, estág ios não-remunerados. Esse movimento foi o primeiro registro de
ação espontânea e não vinculada a partidos políticos desde a Revolu ção dos Cravos, sendo, portanto,
au to in titulado “apartidário, laico e pacífico” .
O ponto de pa rtida da m anifestação Geração à Rasca foi a criação de u m evento no Facebook e um
blogue produzidos por um g rupo de amigos . Assim como em outros mo vimentos populares, a
convocatória conseguiu t omar grandes proporções online. O resultado foi a adesão de m ais de 200 mil
pessoas que participaram do movimento em Lisboa. Para além da condição de precariedade
provocada pela crise socioeconômica, o m otor pr opulsor do protesto foi a problemática social que
impulsiona os jovens para a sua condição de “protagonistas” (Campos, Pereira & Simões, 2016) e
sujeitos políticos que exigem mudanças.
As reivin dicações estivera m na seara das melhorias nas condições de trabalho , como o fim d a
precariedade. A identificação à causa é o mote para a adesão ao m ovimento, portanto, o sentido do
termo “geração” aparece, neste contexto, com o um espaço das identidades coletivas, bem como lugar
de construção de significados (Santos, 2013). Visto que os espaços institucionais políticos já não fazem
o papel de representar os jovens, em virtude da crise instalada nos m odelos ideológicos tradicionais, os
próprios o fazem.
Destarte, a adesão e identif icação a uma causa (precariedade labo ral e social) – que deve ser t ratada
como uma categoria de mobilização política - promovem a açã o.
Baumgarten (2013) consid era a Geração à Rasca como um m omento de virage m para um novo ciclo
de protestos em Portugal. Na verdade, o movimento pode ser situa do como uma manifestação mais
ampla que se i ntensificou d urante o ano de 2012, t endo culminado na p rimeira m etade de 2013 , para
41
depois sofrer uma diminuição progressiva que continu ou durante todo o ano de 2014 (Campos, Pereira
& Simões, 2016).
As aç ões estiveram no âmbito das grandes manifes tações com impacto público, m archas,
assembleias, ocupação de espaços públicos,
sit-ins
, etc. Com efeito, desde 2011, emergiram no país o
que podemos desig nar “novíssimos movimentos soc iais” (Feixa, Pereira & Juris, 200 9). Mendes e
Seixas (2005 ) chamam a atenção para o fato de a Geração à Rasca ter contribuído para a
transformação da paisagem de participação pública em Portugal, inaugurando o que pode ser
designado “um novo ciclo de contenção” (Tarrow, 2011 ) , ca racterizado por uma nova estrutura de
oportunidades políticas. Desde então havia uma fraca tradição de envolvimento político e participação
cívica da população portuguesa.
Aqui também destacamos a import ância do digital na mobilização da Geração à Rasca. O uso do
ativismo online, por meio do Facebook e blog ue , impri miu a contemporaneidade ao movimento como
um espaço de protesto híbrido, onde a internet e as ruas se interligam de formas variadas (Castells,
2012).
Os resultados da Geraçã o à Rasca (a geração desesper ada) que se tornou a m aior manifestação em
Portugal desde a Revolução dos Cravos de 1974, são apontados por Baumgarten (2013): o nível de
mobilização dos at ores da sociedade civil aumentou, incluindo o nascimento de vários novos grupos
ativistas e redes de cooperação ; novas iniciat ivas e plataformas de movimento surgiram e vário s
eventos políticos e atividades conjuntas foram in iciadas.
2.3 Síntese do capítulo
Neste capítulo trouxemos as n uances políticas que afe tam as sociedades e os m ovimen tos midiáticos.
Centramo-nos nos com portamentos at uais e nos modelos econômicos e políticos que regulam o tempo
e o espaço con temporâne o e norteiam, portanto, a comunicação entre os sujeitos. Num p rimeiro
momento, traçamos um breve panorama econômico e, a seguir, discorremos sobre as ações no campo
político para desenhar o qu adro geral. O neoli beralismo, como sistema político-econômico, que conduz
o funcion amento social, a ssim, a mídia está inser ida e movimenta -se neste espectro. A segui r, o
nacionalis mo como mote atual de muitas políticas g overn amentais na Europa e América Lat ina, seus
contornos e consequências , e também suas relações com a comunicação. O populismo é res saltado
como m odus operandi dos governos e das mídias, concretizando -se como fenômeno em plen a at uação
ne ste século ao reger políti cas e estratégias sociais. A o final, nos val emos dos movimentos populares
para explicar as tra nsform ações da sociedade no que diz respeito às movimentações dos sujeitos
48
sido incapazes de estabelecer as bases para sistemas de mídia independentes, críticos e
representativos que articule m e respondam aos dive rsos conjuntos de preoc upações que o s cidadãos
têm em seus respectivos ambientes. Contudo, é pre ciso fazer a re ssalva do s mecanismos com os
quais essas mídias têm buscado audiências que, po r vezes, faz em parte das aç ões adot adas pelos
mainstream
– promoção de cont eúdos pagos na inter net, por exemplo. A falta de regulamentação das
mídias na maioria das sociedades é causa pa ra a aplicação centralizada das pol íticas das m ídias
corporativas.
Assim, os silêncios políticos abriram o caminho para o surgimen to de intermediários digitais poderoso s
e, ainda assim, inexpli cáveis, por meio dos quais os canais percorrem as “notícias falsas”, amplamente
aceitas pelos políticos e comentaristas conven cionais, que corromperam a política dem ocrática
(Dahlgren, 2018).
Em com plemento, Dahlgren (2018) sugere que esses silêncios de p olítica são intensificados por uma
falha regulatória para desafiar a in timidade de governos e execut ivos da mídia - um a familiaridade que
contamina ain da mais sociedades democrát icas e sim plesmente serve de munição de mãos para
populistas de extrema direit a que são capazes de atacar a mídia como representantes do poder de
elite. Dahlgren (2018) refere-se à política liberal de mídia: compromisso com as forças de mercado,
privilégio dos direitos de expres são e cumplicidade com o
establishment.
Ainda há a obsessão tecnocrática pela inovação diante do interesse público e diante da com unicação
em rede. As mídias apelam às novas t ecnologias em busca de audiê ncia, mesmo as independentes. Já
a mídia pública represent ativa e pluralista não pode ser sustentada porqu e os meios públicos
funcionam hoje como aparatos comunicacionais em def esa dos governos.
Deste modo, temos um impasse na comunicação mundial no século XXI . De um lado, uma mídia que
mantém a estrutura corpor ativa, apoia governos e sistemas em vigor, invest e em novas tecnologias e
está a adequar conteúdos aos m eios virtuais , detentora de boa parte da parcela de audiência. D e
outro, mídias reacio nárias e que es tão a pregar a independência financeira, mas lançam mão de
conteúdos pagos, permitem a participação (jornalismo cidadão e abertura para crít icas e sugestões) e a
interação do público, mas opt am por produzir conteúdos em defesa de partidos e candidatos, porém
trouxeram pautas identitárias ligadas aos direitos humanos, movimentos popu lares, organizações ci vis
e anticapitalismo e antifascismo.
Mas há ainda as mídias comun itárias que são vozes das pequenas comunidades e, muitas vezes, com
agendas identitárias específicas, e que não pretendem atingir dimensões de grandes mídias porque o
objetivo é abrir espaço para a exposição das demand as da população. As mídias públicas mantêm -se
49
ligadas aos governos. Toda via, em resu mo, a comunicação contemporânea, de modo geral, apresenta -
se como não democrática e ext remamente parcial em virtude de as novas mídias atuarem no
ciberespaço, com controle de conteúdos pelas empresas de redes sociais, além das mídias t radicionais
que continuam a investir em conteúdos comprometidos com empresas, Estado e governos que pagam
por eles. Desta maneira, o direito à informação previsto nas constituições é posto em ca usa.
Comunicação de instituições legítimas passa por organizações de imp rensa para afetar as opiniões e
ações dos cidadãos, seja no apelo às ideologias como um pr ocesso de legitimação de vozes, seja pelo
desconhecimento ou falta de opinião o que provoca, portanto , a creditação pelo público a conteúdos
pagos e, assim, mais disseminados e cons eq uentemente com maior audiência.
Muitas democracias h oje experimentam variadas formas de crises de legitimidade, à medida que as
partes centrais s e tor nam “esvaziadas” por p ressões relacionadas à globalização, à fragmentação
social e à perda do apoio social tradicional. Como resu ltado, muitas sociedades enfrentam a crescente
desigualdade, a interrupção dos m ercados de trabalho, as pressões m igratórias e o descontentamento
dos cidadãos em todo o espectro político (Bennett & Pfetsch, 2018).
Essas q uestões refletem na credibilidade dada às mídias e tam bém na polarizaçã o de conteúdos, bem
como no surgimento de mídias de cun ho at ivista e independentes.
3.1.1 Mídia, política e eleições
O debate sobre mídia e eleições faz parte do context o da s relações entre com unicação e política.
Rubim e Colling (2005) declaram que de ntre as alterações mais impactantes do campo midiático na
política tem-se a presença cada vez mais potente de um novo at or político: a mídia e seu campo
específico. Os autores ac reditam que o papel desempenhado pela mídia enquanto ator político na
contemporaneidade busca interferir nos pleitos eleitorais. Ademais, o espaço eletrônico, co nformado
pelas mídias em rede, fi gur a como um novo cenário social que entrou para a disputa política e eleitoral.
Este novo ce nário provoca o deslocamento da política e das eleiçõe s das ruas, praças e parlamentos –
ou seja, dos espaços geo gráficos da moder nidade – para as telas, tomadas como metáforas de
espaços eletrônico s. A rigor, a política e as eleições acontecem na at ualidade pri vilegiadamente , mas
não exclusivamente, em e spaços eletrônicos. Com o acontece com a vida e a cultura contemporâneas,
a política e as eleições habitam o lugar, configurado na interface entre a tela e a rua (Rubim & Colling,
2005).
Para Rubim e Colling (2005), as eleições são um mom ento singular de estudo das interações entre
comunicação e política. Tal singulari dade deriva das características marcantes das eleições. Elas são
50
um rito periódico e com plexo, instituído de modo significativo a part ir da modernidade, através do qual
a sociedade democrática, no caso de eleições competitivas, legitima seu sistema político; escolhe seus
governantes e seus progra mas de governo; continu a mente redistribui o poder político na sociedade e
renova o pacto político entre representados e represen t antes.
É rele vante compreender os imbricamentos, as sintonias e os con frontos en tre comunicação e pol ítica
para que seja poss ível refletir acerca das novas c onfigurações da política e das eleições, mais
especificamen te, em u ma contemporaneidade ambientada pela mídia. Há visões distintas sobre o
entrelaçamento entre comunicação e política. Reiser (1995) pr opõe a noção de interdependên cia ao
estudar as interferên cia s da política e da mídia na determinação de agendas e t emas em instantes
eleitorais, descartando explicitamente o mero predomínio da política ou da mídia.
De todo modo, conforme apontam Rubim e Colling (2005), há disputa pela hegem onia na relação entre
os campos, em decorrência da possibilidade sempre pres ente de alternâncias na predominância. Há
de se considerar t ambém, por conseguinte, o confronto e a complementaridade entre comunicação e
política apontados por Reiser (1995). A noção de Bourdieu (1989) po usa-se na ideia de que os campos
não são h armônicos, mas se constituem de agentes e forças com plementares e antagônicas, de
atitudes muitas vezes con tr aditórias.
Passamos às análises sob re os sistemas. Se rra (2005) aponta problemas na relação entre o sistema
político e o sistema m i diátic o na “sociedade da comunicação”. Ao sistema midiático é imputada a ação
de transformar a política num mero es petáculo, eximindo -se de apresentar aos cidadãos os p roblemas
relativos à coisa pública, às soluções e às alternat ivas políticas e, ao contrário, apostando na
divulgação dos pormenores relativos à baixa política, à vida privada, ao escândalo dos agentes políticos
(Serra, 2005).
Uma primeira consequência é a inevitável politização das mídias. Cabe lembrar da tese oposta, a da
“mediatização da política”, trat ada por Figueiras (2017) que denota a ingerência das mídias nas
questões políticas, bem como a transferên cia da lu ta política dos campos de comun icação e política –
o parlamento, o espaço público, as instituições – para o espaço das mídias.
Já a politização das mídias é a submiss ão desses veí c ulos aos governos, Estados e esferas políticas e
econômicas de poder. Luhmann (1996) emprega os termos sistemas aut opoiéticos e auto-referentes
para se reportar a comportamentos em que a política só consegue ocupar o espaço midiático t ornando -
se midiática, submetendo- se ao cód igo i nformativo / não i nformativo próprio do espaço midiático.
Assim também as mídias s ó conseguem ocupar o espaço político politizando- se, isto é, “submetendo -
se ao código governo/oposição próprio do espaço político – pelo q ue todas as críticas aos governos
51
redundam, automaticamente, em benefício da oposição e contribuem, assim, para a erosão cada vez
mais rápida dos governos e, even tualmente, para a sua queda” (Serra, 2005, p.79).
O sistema midi ático é respon sável pe la descr edibilidade da s mídias na medida em que imputa, de
forma gener alizada, as causas e re sponsabilidades da s “m ás notícias” aos ag entes políticos. Assim, o
sistema midiát ico acarreta uma erosão contínu a do sistema político em g eral e dos g overnos em
particular, situando-se sempre do lado da oposição, qualquer que esta seja (Serra, 2005). A
diversidade de fontes de informação e a pluralidade de opiniões são cr uciais para a efetividade do
debate das questões públicas e das decisõe s pol íticas nas sociedades ou para a deliberação crítica e
racional no âmbito da esfera pública. Para assegur ar condições democráticas é impr escindível que o s
meios de comunicação de massa estejam organizados numa estrutura plural e com petitiva e sejam
capazes de refletir pelo menos sobre as corre ntes mais importantes da diversidade ideológ ica, política
e cultural da sociedade (Serra, 2005).
Um sistema de mídia que abrigue a coexistência da imprensa comercial com a partidária ou
comprometida com causa s sociais não hegemônica s representa a configuraç ão ideal do campo
jornalístico, segundo Azeve do (2006). N um context o onde a imprensa com ercial é dominante, seja pela
inexistência ou pela pequena expressão da imprensa partidária, os princípios democráticos da
diversidade e da pluralidade estariam inevitavelmente dependentes do ideal normativo da objetividade
típica do jornalismo liber al .
Além disso, é n ecessário lembrar o papel estratégico dos
mainstream media
na visibi lidade das
questões públicas nas democracias contemporâneas que f uncionam em sociedades complexas,
socialmente difere nciadas e fortemente segmentadas em seus interesses políti cos e culturais por
clivagens de classe, gê nero, etnia. Essas mídias não têm se ocupado de tais temas, porém, nas
sociedades contemporâneas, as mídias independentes assumem este papel de trazer para as
discussões a pluralidade e a diversidade s ocial, confor me pondera Azevedo (2006 ).
A comunicação é entendi da hoje at ravés da crescente complexidade dos s istemas de mídias,
juntamente com o esvaziamento dos partidos, a mu dança da s lealdades políticas dos cidadãos e a
mudança dos hábitos da mídia. A era da informação (século XXI) carac teriza-se justamente pela
complexidade e pela abundância de comunicação. Por outro lado, os h ábitos de consumo das mídias
mudaram, sobretudo com o advento da internet e, portanto, da produção d e notícias nos meios
virtuais. Houve dimin uição da oferta e div ersidade de in formação de qualidade, fragmentação e
polarização do conteúdo midiático e uso da mídia, aumentando o relativismo no debate público e
opinião e consumo sele tivo de notícias pelos cidadãos.
52
Muitas s ociedades democráticas estão sofrendo desafio s profundos relacio nados à legitimidade das
instituições, à incoerência d os públicos, ao aumento da desinformação e ao alcance limitado dos fluxos
de informações . Esses sinais de alerta exigem um repensar fundamental dos cam pos da com unicação
política e da imprensa / política.
“A proliferação de mídias sociais e digit ais aumentou a dispersão e a cacofonia das vozes públicas”
(Dahlgren, 2005, p. 151) . Essa fragmentação dos públicos levo u a uma “incapacidade de se
comunicar através das diferenças” (Waisbord, 2 016, p. 2). Os desafios que a com unicação
compartilhada enfrenta para se tornar ideal são am pliados pelo declínio da co nfiança em instituições
como partidos, impr ensa e legislaturas , que serviram como centros de informações oficiais em
democracias modernas idealizadas.
A com unicação tornou- se v isível. As abo rdagens de “ mediatização” pressupõem que os sistemas de
mídia operam em uma lógica de comun icação abrangente que local iza o poder na mídia e prod uz
tensões entre mídia e política. Sistema s híbridos m a is fluidos e tran sitórios podem ser a nova norma
para entender os mecan i smos da comunicação política contemporânea (Chadwick, 2013).
Apesar da s exceções que dizem respeito às mídias alternativas e co ntra -hegemônicas que trazem à
tona o viés da participação, a comunicação política contemporânea ocorre cada ve z mais em contextos
definidos pela at enção diminuta do cidad ão e feita por meio da busca incessante pelo entretenimento e
crédito no que os amigos e fam iliares dizem e partilham (a lógica dos algoritmos do Facebook, Google,
Instagram e outros), ou sej a, sem o aprofun damento na informação e sem participação, e, do mesmo
modo, contribuindo para a não democratização da informação.
3.1.2 Meios de produção midiáticos
É pertinente destacar aqui o sen tido da Econ omia Política da Com unicação (EPC) no intuito de permitir
o entendimento sobre os p anoramas político e econô mico at uais e suas relações com a comunicação.
A Economia Política (EP) retrat a as relações sociai s, em especial as relações de poder, que constitue m
a produção, distribuição e consumo de recurs os, incluindo os fu ndos da comun ic ação. Essas relações
de poder estudadas pela corren te teórica da EP são e ssenciais para os estudos e m comunicação pois
perpassam pelos conteúdos produzidos pe las mídi as no m undo atual utilizados como meios de
produção de audiência, através do faturamento publicitário.
Uma definição mais abrangente e ambici osa de Economia Política por Mosco (1996 ) é a EP como o
estudo do controle e sob revivência n a vida social. Controle re fere -se especificamente à organização
53
interna dos e lementos dos grupos e ao processo de adaptação à mudança. Sobrevivência significa a
forma como eles produzem o que é necessário p ara a r eprodução e continuidade social.
A Ec onomia Política tem cons tantemente salientado o objetivo de com preender a mudança social e a
transformação histórica, ou seja, entender a gra nde revolução capitalista, na perspectiva de Smith
(1982). Na conceptualização de Marx (1971 , 1976), desde os estudos iniciais de 1843 à com posição
dos [
Grundrisse
] (1857-58), a Economia Política significa observar as forças dinâmicas dentro do
capitalismo e entre este e outras formas de organização político econômica, de modo a com preender
os processos da mudança social que iri am, por f im, transformar o capitalismo em socialismo.
As transformações históricas que, co m base nas teorias de Smith (1982), têm reverberado na
Economia Política mundial são a morte do comunismo, a estagnação da s sociedades capitalistas, a
dissolu ção de qualquer unidade que possa t er existido no chamado Terceiro Mundo
11
e o surgimento de
movimentos sociais , em part icular do femin ismo e do ambientalismo, que ultrapassam os limites de
categorias político econômicas tradicionais como a classe s ocial (Mosco, 1996).
Assim, essas muda nças tanto políticas, q uanto sociais , ajudaram no questionamento à centralidade do
trabalho como forma histórica fundamental. Em contrapartida, a Economia Política aplica a teoria
econômica neoclássica ao com portamento social e, desse m odo, “reduz o trabalho a um elemento
entre muitos outros n o merca do pluralista da escolha individu al” (Mosco, 1996, p. 98).
Em sentido restrito, Economia Política é o estudo das relações sociais, em especial das relações de
poder, que constituem a produção, distribu ição e c onsumo de recu rsos, incluindo os recursos da
comunicação.
A EP caracteriza-se ainda pelo interesse em estudar o t odo social ou a tot alidade das
relações sociais que formam os campos econômico, político, social e cultur al (Mo sco, 1996).
A Economia Política, ligada à filosofia m oral, interessa-se, portanto, pelos valo res que ajudam a formar
o comportam ento social e, normativamente, pelos princípios morais que deveriam guiar os esforços de
mudança deste comportamento. Smith (1982) expu nha que isto signif icava com preender valore s como
o consumismo e a libe rdade individual, q ue estavam a contribuir para o advento do capitalismo
comercial; enquanto que para Marx (1971, 1976) a filosofia moral significava a permanente luta entre
o impulso de encontrar valor individual e social no trabalh o h umano e o impulso de reduzir o trabalho a
uma mercadoria (Mosco, 1996) .
A EP contemporânea t ende a centrar - se em pon tos de vista filosófico-morai s que en fatizam a extensão
da democracia para além d o domínio político, on de é muitas vezes legitimada em instrumen tos legais
11
O termo Terceiro Mundo, já em des uso, é confundido com a no ção de subdesenvo lvimento surgida com o fim dos imp érios colo n iais e que apresenta um
caráct er econômico. O termo tem u ma c onotação geopolítica que pretende identif icar os países m ais atrasados por oposiç ão às n ações industrializadas
(capitalist as e socialist as).
54
formais para abranger os d omínios econômico, social e cultural que tendem a ser condicionados pelas
necessidades de capital (Mosco, 19 96).
Iremos compor uma conexão entre os conceitos de Economia Política com a noção de m ercado. Smit h
(1982) con siderava o s mer cados como o mecanismo necessário para a distribuição de recursos de
produção e para o equilíbrio entre a oferta e a procura. Já Marx (1971 , 1976) destacava a e xploração
sistemática do trabalho sob a aparência de igua ldade e de negócio legítimo, no cenário de produção
indus trial. Críticos cu lturais pós -marxistas já no século XX, nomeadam ente no qu adro da Escola de
Frankfurt, viam também, com profunda p reocupação, o alastramento à cultur a dos processos de
estandardização e de produção em mass a que caracterizam o ca pitalismo. Horkheimer e Adorno
(1995) se dedicaram ao e studo da indústria cultural e, portanto, a s consequências do capitalismo
avançado na esfera da cultura.
Tradicionalmen te, a Econo mia Política tendia a ler o estado e outras forças superestruturais da
configuração específica do capital a qualquer mom ento e ins iste em que es se é o ponto de partida da
análise s ocial (Fenton, 20 07). Os estudos culturais lembram à Economia Política de que a substância
de s eu trabalho, a anális e da comun icação, está e nraizada nas n ece ssidades, objetivos, conflitos,
fracassos e realizações de pessoas comuns que tentam entender s uas vidas. Os estudos culturais
reconheceram o potencial energizante de formas multifacetadas de ag ência social, cada uma das quais
traz consigo dimensões de subjetividade e consciência vitais para a prática pol ítica. “As concepções de
poder sobre os e studos cul turais tendem a s e enraizar em subje tiv idades individuais, suas ide ntidades
e ações coletivas, e nã o como Economia Política” (Fenton, 2007, p. 8).
No que concerne aos meios de com unicação, grosso modo, a Economia Política vê a mídia com o
promotora da ideologia das classes domin antes. “Os meios de comun icação de m assa modernos
contribuíram para a criaçã o de novos n íveis de estratificação social - cla sses de c omunicação que por
sua vez geram novas formas de dominação” (F enton, 2 007, p. 8).
Nessa concepção, os m eios de comunicação de massa s ão capazes de manipu lar imag ens e
informações para s e us pr óprios fins, con struir suas próprias identidades e políticas locais. Através
disso, a ag ência social e po lítica oferece a possibilidade de surgirem projetos po líticos de opo sição, as
mídias alternativas, que procuram o descolamento com a lógica da com unicação com ercial que precisa
atender a interess e s do mercado.
Fenton (2007) argumenta que os debates dos campos de economia e política são necessários para
informar uma análise aprofundada do papel da mídia na sociedade.
55
Assoma-se, aqui, o cri ticismo da Economia P olítica simboliz ado pela preocupa ção com o crescente
papel das emp resas privadas na produção cu ltural. Golding e Murdock ( 1991) lançam mão do termo
Economia Política Crítica como cam po de estudo que vê a economia como i nter -relacionada com a vida
política, social e c ultural, e não como um domínio separado, além de estar centralmente preocupada
com o equil íbrio entre a iniciativ a privada e a interv enção pública. Assim, o c onceito de Economia
Política Crítica passa pela proposição de mostrar c omo as diferentes formas de financiamento e
organização da produção cultural têm consequências tangíveis para a gama de discursos e
representações no domín io público e para o acesso do público a eles (Golding & M urdock, 1991).
A Economia Política crítica está especialmente interessada nas formas como a at ividade comunicativa é
continuamente estruturada pela distribuição desigual de recursos mat eriais e simbólicos. Tal
abordagem justifica-se pelo fato de que a produção de mídia tem sido ca da vez mais requisitada pelas
grandes corporações e moldada aos seus interes ses e estratégias (Fenton, 2007).
A mercantilização tem tomado consistência em toda s as esferas da sociedade - a comunicação é uma
delas. O resultado é a crise no sistema comunicacional, o que resulta em esforços p or parte das
empresas jor nalísticas para se m anterem ativas no m ercado competitivo, produzindo, assim,
conteúdos “ven dáve is” . As condições econômicas gerais influenciam o produto das indústrias de mídia.
Em períodos de severidade econômica, como o at ual, o s critério s de custo -benefício são provavelmente
o fator decisivo da pr odução, o resultado é uma reje ição sistemática do impopular e do não -lucrativo e
uma reversão para fórmul as testad as e comprovadas. Assim, as transformações identificadas no
âmbito da comunicação mundial são consequências dos processos de industrialização e das
mudanças econômicas (Fenton, 2007).
Parte do deba te den tro d a Ec onomia Política crí tica concentra -se em ques tões de propriedade e
controle da mídia (Fenton, 2007). “Ter o poder o u o controle sobre a mídia pode in fluenciar a
capacidade de determinar ou influenciar o conteúdo dos produtos da mídia e significados transportados
por eles” (Fenton, 2 007, p. 12). Tal abordagem baseia -se na perspectiva marx ista de que a classe que
possui os meios de produção material à su a disposição controla, ao mesmo tempo, os meios de
produção mental. O fato de a cultura ser produzida e consumida sob o capitalismo é fun damental para
entender as desigualdades de poder, prestígio e lu cro.
Fenton (2007) sublinha qu e a hipótese para e ntender as re lações de pode r dentro das m ídias com
base na Economia Política está nas ideias e conceitos que as pessoas u sam para entender o mundo e
dependem, em certa medida, da mídia. Em outras palavras, “os quadros ofere cido s pela mídia são
articulados pelo nexo de interesses que os produz” (Fenton, 2007, p. 12). Uma Economia Política
56
crítica analisa a ação int encional (por proprietários, editores etc.) e restrições estruturais ( como
recursos de tempo e dinheiro), em cada nível do processo de produção.
No rol dos conceitos de Herman e Chom sky (1994), a mídia de massa serve co mo um sistema para
comunicar mens agens e símbolos à população em geral. “É sua função divertir, entreter e informar e
inculcar os i ndivíduos com os valor e s, crenças e có digos de comportam ento que os integrarão às
estruturas institucion ai s da sociedade mais ampla” (p. 1).
A soberania do co nsumidor, no sentido de escolha ao com prar, está presente na Ec onomia Política. No
entanto, n este estudo o qu e é mais re levante é como a es colha, a interpretação do gosto dos
consumidores e as tendências do mercado impact am o produto da m ídia. De que maneira a
informação é produzi da par a ser vendida?
Em uma Economia Política C rítica, as respostas do públi co aos text os midi áticos estão relacion adas à
sua localização g eral no sistema econômico (Fenton, 2007), isso porque ni nguém tem acesso a uma
gama completa de bens culturais sem restrições. A Economia Política tenta explicar essas limitações
recorrendo a barreiras mat eriais, sociais e culturais. O ac esso às comunicações e às instalações
depende do poder aquisitiv o do indi víduo, e raram ente é gratuito. Portanto, ain da há problemas de
acesso às novas tecnologias, por exemplo. Para economistas políticos, a muda nça na provisão e
distribuição de bens cultur ais de serviços públicos pa ra
commodities
privadas sinaliza uma mudança
substancial na oportunidade de diferen tes grupos da população terem acesso a eles (Fenton, 2007).
Enquanto o acesso estiver associado ao custo, os q ue o t er ão serão aqueles com c apacidade financeira
– “a renda determinará a c apacidade de funcionar plenamente n a esfera pública” (Fen ton, 2007, pp.
14 e 15).
Diferenças c ulturais também contam na hora que o público vai ler textos de mídi a. Fenton (2007) le va
em consideração a necessidade da capacidade de interpretação da informação. É válido cit armos o
conceito de literacia midiática na perspectiva de que se trat a da educação para as m ídias em busca da
cidadania, s e, de fat o, as n otícias estão a educar e de que f orma é pos sível perceber o valor dos
conteúdos. Ou seja, a literacia para as notícias pode ser assimil ada com o o a cesso e compreensão da
informação e não é dizer às pess oas o que pensar ou fazer com a informação, é dar as ferramentas
para s erem cidadãos at ivos. As pes soas q ue são educ adas para as notícias percebem melhor o papel
das notícias na vida cívi ca (Moeller, 2009).
Lewis (2006) reflete sobre a “cidadania informada como valor notícia” (p. 310) e considera que mais
do que pensar se as notíci as estão a entreter, a i nformar, que podem interessar, se deve at entar às
suas implicações na cidada nia (pp. 310 e 3 11). Essa habilidade pode depender do capital educacional
57
e cultural, realidades socioeconômicas nacionais, loc ais e pessoais. Um estudo de Fenton de 1998
ilustra que a classe social e o sucesso educacional são det erminantes críticos das respos tas do público
aos t extos noticiosos. “Nesta análise, o leitor pode efetuar o processo de leitura, p ode resis tir à ‘leitura
preferida’ (isto é, que parece dom inante no texto) at é um ponto e, para esse fim, é um agente ativo”
(Fen ton, 2007, p. 15).
Entretanto, uma a bordagem política econômica traz à baila a imagem de uma indústria cultural na qual
corporações monolíticas governam supremamente, manipulando consumidor es e infiltrando a
consciên cia dos indivíduos a ponto de quase poderem ser considerados tot alitários em seus objet ivos,
alcance e impacto. “A m áquina corporat iva dom ina todo discu rso” ( Fenton, 2007, p. 15) e os
discurs o s opositores que desafiam o
status quo
são apropriados pela máqui na corporativa para a
mercantilização ou expurgados.
O poder pode ser desafiad o e diminuído, m as apenas por meios políticos, na avaliação da Economia
Política Crítica. Tal abordagem argumenta que as teorias que ignoram a estrutu ra e o lócus do poder
representacional e definidor e enfatizam, em vez dis so, a capacidade transformadora da mensagem do
indivídu o, ap resentam pouca ameaça à manutenção da ordem estabelecida (Fenton, 2007).
A lógica de fun cionamento da produção, recepção e interpretação dos textos é: o poder essencial dos
autores para enquadrar a r ecepção do público é aceito; o público se engaja na interpretação, mas essa
interpretação está sujeita à estrutura denotat iva do text o (Fenton, 2007). Desta maneira, a ideologia
continua sendo um pon to d e referência crucial.
Os textos das mídias de massa podem ser entendidos em termos ideológicos, como formas de
comunicação que privilegiam certos conjuntos de ideias e negligenciam outras. Portanto, h á
mensagens legitimadoras da cultura dom inante, m as há t ambém as mensagens contraditórias
lançadas sobretudo pelas mídias de contra -hegemonia (as alternativas) que apontam para o desafio de
novas políticas baseadas e m gênero, etnia e sexualidade que revelam u ma sociedade de diferença
tanto em termos de iden tidade quanto de interpretação. O poder não é análog o nem é un iformemente
aplicado e aceito. Mas enquanto a desigualdade e a diferença são cada vez mais aparentes, o conceito
de ideologia ainda tem um papel central a desempenhar na su g estão de conexões entre mídia e poder
(Fen ton, 2007).
Moraes (2013) aprofunda a manipulação da mídia ao discorre r sobre a ap ropriação de diferentes
léxicos pelo sistema m idiático “para t entar colocar den tro de si t odos os léxicos, ao serviço de seus
obje tivos particulares ” (p. 21). De acordo com o autor, palavras que pertenciam tradicionalmente ao
léxico da esquerda foram res significadas no auge da hegemonia do neoli beralismo, nos anos de 1980
64
A internet apresenta um pot encial simultâneo para a fragmentação da s esferas públicas e para a
construção de espaços não comerciais de reflexão e debate. Por um lado, a rede mundial gera a
dispers ão de interesses e esvaziamento da vida social, criando as “bolhas” de pens amentos e
discussões baseadas nos gostos, opiniões e ideais. Por outro lado, a internet e as novas mídias abrem
possibilidades únicas à organização acessível e eficaz de atores sociais que procuram alternativas às
mídias dominantes e que se empenham na transformação dos sistemas midiáticos existentes (Sousa,
2008).
3.2 Ideologia e audiên cias
A ideologia afirma-se como corpo de cren ças que assegura a relação de u m grupo com o mundo
social. De acordo com Cor reia (2004), tal corpo de crenças pode m anter uma conotação puramente
negativ a – “ideologia como corpo de crenças que assegura a legitimidade da posição social do grupo
que as partilha, graças à ocultação da dominação implícita à correlação de forças vigente, ou seja,
ideologia com o distorção” (Ricoe ur, 1991, p. 16 8). Noutra aborda gem, ideologia pode adotar
significado mais vasto: corp o de crenças que vis a a co nfigurar as várias formas possíveis de interação
entre os agentes sociais, graças a processos de mediação simbólica. A abordagem centra -se,
sobretudo, na organização política das sociedades e o seu devir.
A primeira abordagem, baseada na interpretação do marxismo e que inclui au tores como Althusser
(1980), Bourdieu (1989) e a Escola de Frankfurt (Adorno & Horkheimer, 1995) , c onceitua a ideologia
através de u ma conot ação necessariamente pejorativa relacionada com as formas de dominação
social, que resultam das posições que as dif erentes classes ocupam n o proce sso de produção. Na
segunda defi nição, partilhad a também por alguns autores marxistas, a ideolog ia é sobretudo um
sistema de crenças que diz respeito, pri vilegiadamente, à organização social e à política da s
sociedades e ao seu devir (Correia, 2004). Para Gra msci (1977), a ideologia f az parte do corpo de
normas que in tegram os recursos de combate dos antagonistas da luta de classes, ou seja, o sistema
de crenças diz respeito à o rganização política da s sociedades. Neste context o, a ideologia ganha uma
dimensão mais plural, embora continue a se re lacio nar com a
praxis
política, com os interesses de
classe e com o papel rel ativ o ocupado no processo de produção.
Sobre o uso da ideologia, Habermas (1987), Ricoeur (1991) e Thompson (1995) sublinha vam que um
corpo de ideias e de crenças pode, com efeito, servir de “cimen to social” par a a manutenção da s
relações de dominação pré -existentes, mas também pode conter um mo mento utó pico de aspiração à
transformação das relações sociais, num se ntido universalista e democrat izante. Habermas (1987)
65
segue a linha do conceito de espaço p úblico que s e reveste de um significado ideológ ico, mas q ue não
se limita a ocultar as dominações de classe. Já Thom pson ( 1995) ac redita que a s fórmulas simbólicas
se relacion am com a dominação, não pelo seu con teúd o explícito, mas pelo uso que lhes é dado.
Para Ricoeur (1991), a significação da palavra ideolog ia implica um diálogo com Marx e Engels
(1862/1992) q ue enfatiza a distorção como único aspecto possível do u so da ideologia, ou seja, um
erro que se podia ultrapassar pelo uso da razão. Entretanto, Ricoeur (1991) contrapõe -se a Marx e
Engels ( 1862/1992) ao afirmar que a ideologia desempenha uma função de m edi
a
ção constituitiva
da sociabilidade e da existência social, no interior da qu al se recon hece a dimensão simbólica
integradora da constutição básica do ser humano. O “mais básico para o contraste ideolo gia-
praxis
nã o
é a oposição; o que é m ais fundamental
não
é a dis torção ou dissimulação da pr axis pela ideologia. O
que é mais básico é uma conexão interna en tre o s dois termos” (Ricoeur, 1991, p. 78)
Outras funções da ideologia são encontradas, tais como: de legitimação para compen sar o hiat o en tre
a pretensão de legitimidade apres entad a pela aut oridade govern ante e a crença na legitim idade da
ordem, por parte dos súditos; e de integração e de preservação da identidade social (Taylor, 1991).
Finalmen te, procura-s e aludir à ideologia no âmbito da sua relação com as m ídias. Correia (2004) traz
à baila a ideia de que uma parte considerável da medi ação simbólica, designadam ente a construção de
sentidos partilhad os para a conduta social e a reprodução de enquad ramentos axiológicos e
normativos, que permitem a formação e consolidaçã o de identidades sociais e col etivas, está
dependente da in tervenção das mídias. Assim, os conceitos de ideologia e de he gemonia enquadram -
se, de maneira decis i va, na prática de representação social das mídias.
A luta política nos países d emocráticos, conforme pontuava Gramsci (1977) nas décadas de 1920 e
1930 , é, em grande m edida, uma g uerra de posição, ou seja, uma luta de ca riz simbólico cujo objetivo
é impor uma vi são do mundo, uma representação d a realidade social e u ma certa concepção da
ordem social com o intuito de conservá -la ou subvertê-la. Neste context o, a luta política é facilitada
pelas mídias q ue são capazes de impor seus ideais e, por vezes, subverter a or dem social. Na b ase
conceitual de Thompson (1995), a comunicação de massa se t ornou o m eio mais importante para a
operação da ideologia n as sociedades modernas, apes ar de não ser o ún ico. “Este fato deve -se à sua
enorme capacidade de pro duzir e t ransmitir formas simbólica s, as q uais são capazes de circular numa
escala sem precedentes, alcançando m ilhões de pe ssoas que po uco têm em com um, além das
mensagens mediadas” ( Cor reia, 2004, p. 254).
Cabe integrar a evidência de que as mídias ganha m urgência teórica na sociedade da comun icação ao
conceito gramsciano de sociedade civil, pensado como espaço conflitual de b usca de h egemonia. O
66
ponto de situação defendido por Thompson (19 95) de que a comunicação de massa aumenta
significativamente o raio de ação da ideologia nas sociedades modernas introduz um elemento novo,
no qual se repercute u m a certa atenção às concepções mais di nâmicas de sociedade civil: as
mensagens mediáticas têm de ser analisadas em rela ção aos contextos e proce ssos específicos em
que são re cebidas (Correia, 20 04). N este sentido, “admite -se qu e o funcionamento da ideol ogia
depende de circunstâncias que escapam ao controle dos produtores de formas simbólicas”
(Thompson, 1995, p . 347).
Portanto, efei tos midiáticos podem ser considerados efeitos ideológicos, com a s devi das reser vas e
cautelas. Correia (2004) coloca alguns pontos q ue ref orçam a asser tiva acima: os n umerosos valores
que acompanham discurs ivamente a desregulação dos audiovisuais e, em es pecial, a emergência e a
consolidação da sociedade de informação , passando pelos fenômenos diversos que acompanham a
mediatização do espaço público e a esp ectacularização da política; e a construção de novos mitos que
se acentuam em t orno de nódulos ideológicos por vezes esca ssamente analisados (como sejam a ideia
de d emocracia virtual). Tais colocações sugerem que “existem boas razões para pens ar que as mídias
desencadeiam efeitos de re presentação e configuração da realidade s ocial que po dem ser pe nsados à
luz do conceito de ideologia e de hegemonia” (Correia, 20 04, p. 255).
O jornalismo tem lado e procura impor reflexões e a nálises que dizem respeito a o que defendem. A s
mídias alt ernativas t êm como caracterís tica o su porte em ideologias de es querda e salvaguarda os
direitos humanos, como questões de moradia, de pessoa s com deficiê ncias, de gêner o, da j uventude,
da cultura, do m eio ambiente, e causas identitárias; movimentos sociais e democracia. Deste modo, os
conteúdos são parciais na defesa da s caus as que os produtores acreditam, mas são qu estões
discutidas em reuniões e decididas por maioria. Normalmente são m ídias contra o sis tema capitalista,
que apoiam o socialismo, a justiça social, a comunicação livre dos oligopólios, o interess e p úblico, a
diversidade cul tural, seguem a lógica colaborat iva e participativa.
Os
mainstream media
também se posicionam, porém, normalmente, ao lado da direita política, em
defesa da macro economia, do livre com ércio, do capital, dos oligopólios da com unicação, das
privatizações e da austeridade. Mas se definem como imparciais e mantêm a mercantilização da
informação, com ven das de anú ncios a grandes empresas. Porta nto, a comunicaçã o n ão é i senta. Há
posturas clara s ou não t ão claras que bu scam convencer ou legitimar os pe nsamentos das audiências.
No que concerne à hegemonia, as m ídias m ais t radicionais são consideradas hegemô nicas por meio
da imposição de um tipo de jornalis mo comercial que preza pelo produto vendável da informação,
antes da abertura para outros meios de comunicação na intern et, baseado no monopólio da
67
informação através de det enção de vár ios canais de n otícias (rádio, impresso e televisão). Já as mídias
alternativas são consideradas con tra -hegem ônicas porque n ão detêm o oligopólio, ao con trário, são
meios que s obr evivem, na maioria dos casos, de doações do público.
A partir dessa concepção relacional entre a mídia e os fatos sociais, pode -se salientar que o papel dos
meios de comunicação vai além da simples narração f atídica. A reprodução social não requer apenas a
reprodução das condições mat eriais da vida social, mas t ambém a reprodução de valores e crenças
socialmente partilhados que podem influenciar as ações e as atitudes dos indivíduos. Portanto, a
interven ção da mídia no proces so de reconstrução da realidade social (vide item 1 des te capítulo) não
acontece de forma transparente, perceptível aos olhos de um ob servador com um. É um proce sso
erigido e su stentado por tens ões que proporcionam amplos desdobramentos no curso da vida social
(Assunção, 2007).
O paradigma da objeti vidade de que a mídia serve como “fonte de inf ormação” e que seu pap el é de
bem servir a democracia de maneira imparcial e objetiva, que se trat a de um enfoqu e tradicional, é
insuficien te para o estudo da relação en tre m ídia e política, contribuindo para tornar invisíveis diversos
aspectos importantes desta relação (Porto, 2004) . As limitações do “paradigma da objetividade” têm
suscitado a busca por alter nativas conceituais, como o de enquadramento.
Na leitura de Hackett (1993), o conteúdo da mídia pode desempenhar um pape l político e ideológ ico
import ante, não apenas quando existe ou falta “objetividade” e/ou “imparcialidade”, mas também
quando este co nteúdo é produzido a partir de uma matriz ideológica limitada. O autor s ublinha que
nem sempre há uma intenção deliberada de iludir ou manipular at ravés de um conteúdo jornalís tico.
No entanto, a referida m atriz é composta por um conjunto de regras e conceitos (uma “estrutura
profun da”) que s ão ativados pelos jornalistas, nem sempre de forma consciente. Segundo Hacke tt ,
“um dos fat ores mais importantes da ‘estrutura prof unda’ que rege a produção do noticiário são os
‘enquadramentos’ apli cado s pelos jornalistas em seus relatos” (pp.120 -1 22).
Já Tankard (2001) considera que o conceito de enquadramento oferece um instrumento para examinar
empiricamente o papel da mídia na construção da hegemonia, no sentido gramsciano de u ma direção
intelectual e moral n a sociedade civil, e até a tese de que meios de comunicação são norteadores de
decisões políticas e de apoio a governos.
Como nota complementar da sín tese analítica sobre o process o ideológico das m ídias, Thompson
(1990) n o s apresenta a seguinte formulação modelar do espaço público :
Os diferentes meios de comunicação de massa, e a
natureza das quase-interações que os mesmo s
possibilitam e sustentam,
definem amplos p arâmetros no interior dos quais as mensagens
68
transmitidas
por esses meios adquirem um carácter ideológico, mas não c onstitue m
por si essas
mensagens como ideológicas. (p. 269)
A possibilidade – não inevitabilidade – de ideolog ização das mídias
traduz com rigor a complexidade do
espaço público dos nossos dias, a
partir de duas t endências concomitantes: as diversas práticas
manipulativas das mídias
(tanto
para fi ns políticos, como para fins econ ômicos) – supremacia da
ideologia ao nível da comunicação pública; e a regular produção comunicacional de poder legítimo –
neutralização dessa mesma ideologia (Porto, 2004).
A clara s upremacia de u m modelo de organiz ação das mídias
,
que pri vilegia as características
sistêmicas de práticas man ipulativas, é e ntrave para a garantia da pr odução comun icacional de poder
legítimo por parte do espaço público, como reflete Porto (2004).
A dinâmica da sociedade civil depende da possibilidade de garantir um regime de funcionamento da
mídias favorável ao aprofundamento da comunicação política e ao reforço democrático da vida pública
em geral. A comunicação precisa garantir a informação, por lei. Entretanto, não são os recursos
próprios (técnicos ou simbólicos) das mídias, por si só, q ue det erminam registros particulares de
funcionamento das sociedades.
O recrudescimento da sociedad e civil que hoje s e faz sentir e a que diferentes fo ntes da t eoria política
contemporânea se t êm m ostrado atentas é um sin al a uspicioso qua nto às possibi lidades que se abrem
ao espaço público (Porto, 2004). Existe, sim, a possibilidade de uma reconfiguração g eral da sociedade
civil dos noss o s dias , significativamente distinta da sua forma do pas sado: já não há a “sociedade
burguesa” (
bügerliche Ge sellschaft
) de Hegel ( 1820/1997) e Marx (1844/2010 ), por outro lado, há
um forte núcleo social ma is ou menos estruturado de associações voluntárias (culturais , políticas,
religiosas, educativas, e as m ídias
indepen dentes), autônomas não só em relação ao Estado, mas
também em relação à economia (mais exatam ente, ao seu núcleo institucional, o sis tema econômico
capitalista) (Porto, 2004).
A força regeneradora que a sociedade civil pode incutir ao espaço p úblico e à rede de comunicações
públicas, com as m ídias integradas, depe nde, objetivamente, de duas funçõ e s sociais , assegurada s
pelo conjunto das associações que a con stituem. Tais funções dizem respeito “à expansão da
igualdade e liberdade socia is, e à reestruturação e dem ocratização do Estado” (Keane, 1988, p. 14),
bem como à promoção de uma ação social re sponsável. A consecução destas funções constitui um
contributo es pecífico e decisivo para a comun icação pública, sob a forma de p rocessos de opinião
(Porto, 2004).
69
É relevan te apontarmos que existe uma pressão sobre as mídias na soci edade, que é muito
significativa e configura, justificadamente, a possibi l idade da sua revitalização em termos
comunicacionais – controle da s ua dependência em relação às m ídias
funcionais. O potencial de
transformação das mídias
pode ter seu significado, do ponto de vista polít ico, “no âmbito mais vasto de
uma transformação radical da s estruturas do espaço público, no sentido do exercício de uma influ ê ncia
efetiva sobre o sistema político” (Porto, 2004, pp. 167 e 168) .
A escolha dos meios de inf ormação, sobretudo da internet, no mundo co ntemporâneo, costuma ser de
acordo com os posicionamentos políticos e ideológicos. Assim, ambientes de mídia partidários
estimulam a polariz ação pol ítica ( e vice-ver sa). Es se era um dos grandes te mores do jorn alismo
tradicional. A polarização desestabiliza a democracia ao mudar o ce ntro de gravidad e da política de um
consenso “moderado” aos extremos (Freedman, 2 018).
O surgimento de uma m ídia mais partidária, sobretud o com atuação nas redes sociais, criou, de certa
forma, uma polarização. A preocupação é com o aumento do impacto da r etórica populista ou
ideológica exibida nas notícias e o uso do espaço midi ático para convencimentos e manipulações em
prol de partidos, candidatos e ideias, o que figura um processo anti -democrático. A anti-democracia ou
falsa democracia já tem tomado forma nas sociedades contemporâneas. No Bra sil, em 2018, e nos
Estados Un idos, em 2016, as notícias fals as dissipadas através das redes sociais contribuíram, de
forma significativa, para a eleição de Jair Bolsonaro e de Do nald Trump, respect ivamente, o que
compromete a democracia. Conteúdos ideologicamente ca rregados at raem cada vez mais o público
que compartilha tendências políticas dos anfitriões, reforçando as sim as visões partidárias e
contribuin do para a pol ari zação política. Do m esmo modo, orçamentos participativos, realiz ação de
plebiscitos e referendos, abertura das pautas políticas para discu ssão com as populações são
mecanismos democráticos, mas ultrapassados, sem presença n a maioria das sociedades.
As elites políticas tor naram-se mais po larizadas e os meios de comunicaçã o aproveitam para s e
afirmarem em suas posições com conteúdo ideologicamente in clinado.
Quanto às relações e ntre mídias e partidos, elas fazem o papel de mediadores entre as organizações
políticas e part idárias. E é grande a parcela de responsabilidade que lhe é debitada no processo de
esmaecimento dos vínculos de identificação partidária que tem lu gar em prat icamente todas as
principais democracias.
As organizações partidárias a que Gramsci (1978b) se referia em seus e scritos s ão os novos partidos
políticos de massa, qu e hoje estão em cris e generaliz ada, mas qu e já representaram os principais
aparelhos privados de hegem onia. As mídias acabaram por a ssumir o papel dos partidos no sentido de
70
divulgarem propostas, defi nirem agenda, supervisionarem ag ências governamentais e cri ticarem as
políticas de governo, daí a razão para a crise dos partidos.
Neste contexto, podemos destacar o “paralelismo político” (Hall in & Manci ni, 2004, p. 21 ) definido de
modo mais estrito pela natu reza e grau da relação mantida entre os meios de co municação de massa
e os partidos e orga nizações políticas, ou pela forma e extensão pelas quais o sist ema de mídia reflete
as divisões políticas exis tent es no interior da sociedade.
Na Europa, o jornalismo nasceu e se desenvolveu desempenhando um papel importante na defes a de
causas políticas e religiosas. Em m uitos casos, com o o de Portugal, os jornais eram fundados sob a
iniciativa de part idos ou out ros at ores políticos ou simp lesment e apoiavam ideias p olíticas e promoviam
partidos e candidatos, e es ses jornais continuam a existir. Em sua origem, por tanto, o jornalismo
apresentava um forte paralelismo político. No final do século XI X, quando a imprensa comercial
começou a se es truturar de modo m ais sistemático, o jorn alismo adotou a neutralidade, distanciando -
se de causas coletivas e interesses pessoais e sem coloração política ou partidária claras.
A noção de paralelismo político está fortem ente articulada aos conceito s de d iversidade externa e
interna, n a medida em q ue se refe re à propensão d e cada s istema de m ídia em refl etir de forma
equilibr ada ou desbalancea da a diversidade das orien tações políticas existentes na sociedade. Hallin e
Mancini (2004) apontam os seguin tes indicadores p ar a caract erizar o grau de paralelis mo político: as
conexões entre a imprensa e as organizações políticas (partidos, si ndicatos, asso ciações, igrejas etc.);
a intervenção da mídia na vida política, espe cialm ente nos períodos eleitorais; a visibilidade de
militantes e pol íticos nos programas de audiência na rádio, t elevisão e jor nais; o pr edomínio de
comentários e análises visando in fluenciar a opinião pú blica.
É importante inserir os meios em funcion amento na i nternet no tratado da relação da comunicação
com a política. Co m a expl osão da mídia digital, e, portanto , da sociabili dade mediada, surgiram
reivin dicaçõe s da transformação das relações entre a cidadania e os meios de comunicação e a
facilitação de novas formas de participação política ( Fenton & Bara ssi, 2011). Como as orga nizações
de ca mpanha e part idos políticos começaram a voltar sua atenção para sites de redes sociais, nos
encontramos em um momento crítico em que o interrogatório da nat ureza de pa rticipação política em
oferta por meio de práticas de mídia social torna- se fulcral, se q uisermos com preender e criticar a s
reivin dicaçõe s mais amplas feitas para a transformação da participação política na sociedade, co mo
ponderam Fen ton e Baras si (2011).
As m ídias sociais são cada vez mais parte da práti ca de campanha política contemporânea. Nos
últimos anos, tem havido uma grande variedade de exem plos de como sites de redes sociais
71
facilitaram o crescimento e ampliação de bases de movimen tos políticos ou como páginas eletrôn icas
têm impulsionado o envolvimento dos cidadãos em campanhas eleitorais. Muitos destes exemplos vêm
promover a lógica de interatividade e o engajam ento do usuário que funciona em paralelo e em
associação com os
mainstream media
(Fen ton & Bara ssi, 2011 ).
A polarização de atitude é um resultado teoricamente plausível e empi ricamente demonstrado da
exposição na mídia. O impact o dos meios de comunicação partidários sobre aqueles que o s seguem
depende de forma complexa de suas atitudes e sofisticação política pré -existentes. Além disso, a
proliferação de meios de comunicação e plataforma s dá às pessoas maior controle sobre sua
exposição midiática e, port anto, maior oportunidade de evitar mensagens contra -at itudinais (F estinger,
1957; Sears & F reedman, 1967; Frey, 1986). As sim, há públi cos q ue seguem mídias partidárias
porque se ide ntificam com a ideia política e estão cientes dos posicionamentos e até procuram
legitimação de suas falas; h á aqueles que não se inte ressam por política ou não se posicionam, mas
estão à procura da informa ção; e h á os q ue receb em as informações via aplicativos ou redes sociais e
acreditam e até partilham com outros.
Já na internet é possível o bservar o uso natural e “es pontâneo” da mídia - embora em det rimento do
controle sobre o conjunto de escolhas, por meio dos al goritmos que conduzem à formação das bolhas
que agrada m os usuários, at ravés de uma falsa noção de liberdade. “As mídias sociais levantam a
possibilidade de que a t ecnologia seleciona discretamente o conteúdo para os us uários . Importando o
conceito de ‘sel etividade de fato’ de Sears e Freedman (1967) para a era da nova mídia” (Prior, 2013,
p. 121). Gentzkow e Shapiro (2011) encontram fraca evidência de seletividade partidária no uso da
mídia online. A maioria dos sites de notícias atrai uma quantidade s emelhante de tráfego de usuários
conservadores, moderados e liberais.
É importante atentarm os para a seguin te discussão: a exposição seletiv a concent rada pode ter poucos
efeitos sobre a s preferências políticas e a polarização. Isso porque a busca po r notí cias normalmente
parte das escolhas políticas que são legitimadas ou reforçadas pelos posicionamentos das mídias.
Relativamente aos ativistas e engajados nas redes, cabe a reflexão a respeito da relação entre as
mídias e as ideias políticas originais. No entanto, não há evidências de que a mídia partidária tenha
desempenhado um papel na polarização dos at ivistas. “Se a nova exposição ideologicamente
unilateralmen te concentrada é uma causa, uma consequência o u, em grande parte, não relacionada,
futuras pesquisas devem visar a compreensão de como at ivistas partidários forte mente in teressados e
altamente informados poderiam tornar-se mais partidá rios” (Prior, 2013, p. 122).
72
Ideologicamente, a exposição de notícias unilaterais p ode ser amplamente confinada a um pequeno
segmento ativista da população, mas esse segmento t em uma infl uência polít ica sobre o seu gr upo. As
novas t ecnologias tornam mais fácil para os at ivistas não apenas consumirem ideologica mente notícias
unilaterais , mas tam bém adicionar suas próprias opi niões à mistura, a chamada participação da qual
as novas mídias lançam mão com o intuito de promover a “democratização da informação”.
Há até canais e specíficos qu e at endem a nichos ideológicos , como as platafor mas usadas para as
mensagens partidárias dos at ivistas, a exem plo do Wh atsApp, Telegram e outras plataformas virtuais ,
tanto quanto para as vozes editoriais in dependentes, forta lecendo, assim, as bolhas ou os grupos de
discussão. Porém, esses ambien tes midiáticos mais partidários podem provocar uma desconexão
crescente entre ativi stas cada vez mais partidários e massas amplam ente centristas e modestam ente
envolvidas . O que de fat o acontece é a polarização em grupos de ideias em qu e a massa não está
conectada e, portanto, são “representantes” do povo na busca pela s causas qu e es ses grupos
acreditam, sem, entretanto, haver uma junção entre a massa e os at ivistas. Muitas mídias alternativas
compõem tais grupos e atuam como a tivistas e, de fato, não estão interessadas n a adesão do público,
mas na mudança de pen samento das pessoas que possu em posicionamentos políticos diferentes das
delas.
3.3 Síntese do capítulo
As discu ssões que permearam este ca pítulo t raduzem a necessidade de reflexão sobre a comunicação
mundial e seus meios de c omunicação, dentro e fora da internet, no co ntexto político e econômico das
sociedades, no sentido do s modos de informar o público e até nas interferências nos processos
políticos; e a política e suas formas de intervir na comunicação. Abordam os as formas como as mídias
se colocam para as audiências, sobretudo no q ue concerne ao t ema político, bem como de q ue modo
elas estão inseridas no sistema social, político e econômico para que possamos compreender o lugar
dos meios de comunicação nas e sferas pública e privada.
As reflexões que ficam passam pelas questões da democracia plena nas sociedades, seja nos
pr ocessos decisórios com a ajuda da comunicação, seja no acess o à inter net; necessidade de
pluralidade e diver sidade dos conteúdos da s m ídias; posicionamentos políticos e mat riz ideológica dos
jornalistas, no sentido de ser po ssível refletir pelo m enos sobre as corre ntes mais importantes da
diversidade ideológica, política e cultural da sociedade. A s mídias alternati vas são opções ao
tradicional, organização de atores sociais e at ivistas nas causas de setores soc iais. Mas são opções
para quem? Aqui há de se t er em conta os posicionamentos políticos e ideologias que são os
73
norteadores na produção desses meios de comu nicação e, portanto, criadores de bolhas de
pensamen to. Será que essas mídias informam e democratizam a comunicação? Na medida em que
são responsáve is, em parte, pela polarização – criação de grupos ideológicos com ideias reforçadas e
legitimadas – , essas mídias não atendem à sociedade como um todo.
Os extremismos resulta m na constru ção de uma realidade interpretada , respaldada pe los
posicionamen tos, a exemplo de apoios claros a can didatos e partidos, o que exc lui audiências,
rompendo com a lógica da inclusão e, assim , da democracia. A mercan tilização da informação –
praticada pelos meios tradicionais - também entra na seara da construção de uma rea lidade por vezes
forjada. Deste modo, o processo de busca pela informação na contemporaneidade complicou -se com a
produção de notícias na i nternet, por um lado, mas ab riu para escolhas e participação das audiên cias,
por outro, pois há mídias que trabalham com a verdade e com a profundidade.
Destarte, os t emas citados acima trazem ponderações sobre as fo rmas de poder na sociedade. Há,
assim, na are na midiát ica, uma disputa incessante ent re as várias agendas post as em circulação por
diversos at ores sociais e políticos, inclusive a própria imprens a. A visibilidade/invisibilidade dos atores
depende, em larga medida, no regime democrático, do grau de plurali dade dos me ios de comunicação.
80
A noção de crít ica su bjacente ao conceito de imprensa de modo geral na obra de Marx (18 43 /20 10 ),
apresentada na I ntrodução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel de 1843, molda-se às análises
atuais para a compreens ão dos meios de comunicação alt ernativos, a saber: humanis mo radical,
orientação sobre a essência humana e oposição a toda dom inação. Portanto, a crítica marxista , feita na
década de 1800, pode ser aplicada na década de 2000, e apresenta -se não apen as com o uma crít ica
econômica que ignora formas não econômicas de dominação baseadas em, por ex emplo, gênero, raça,
etnia, nação etc., mas como uma forma de crítica n a qual todas os modelos de dominação são vistos
como inju stificados e i njustos (Fuchs, 2010). A visão geral de Marx n os serve para situar os meios de
produção independentes na sociedade capitalista, bem com o a linha de trabalho de Fuchs, que é
marxista e crítico.
A mídia crítica, sob outro aspecto formulado por Marx (1849), assume o ponto de vista das classes
oprimidas ou exploradas e considera que as estruturas de opressão e exploração beneficiam certas
classes às custas de outras e, portanto, devem ser trans formadas, o cham ado “partidari smo para os
oprimidos” (Marx, 1849, p. 23 1). O teórico exalta va que “é deve r da imprens a avançar em nome dos
oprimidos em sua vigilância imediat a” (Marx, 18 49, p. 23 4) , o que concretamente tem feito boa parte
das mídias alternativas de esquerda.
No que t ange aos conteúdos, os meios de comunicação alternativos atuam no realismo dialético. “O
conteúdo da mídia crítica é dialético e realista ” (Fuchs, 2010, p. 181). O método dialético marxista
entende que nenhum fenô meno da n atureza pode ser compreendido sep aradam ente. É preciso que o
entendimento desses acontecimentos seja realizado por meio de conexões com os fenômenos q ue o
cercam, por motivo de os f atos de qualquer campo da natureza n ão estarem imunes de converterem -
se em absurdos. Ao contrário, todo fenômeno pode ser compreendido e explicado, se exa minado em
sua conexão indissolúvel com os fenômenos circundantes e condicionado por eles, co m informações
de Stálin (1945).
Cabe, deste modo, à mídia crítica descobrir e revelar o m undo fora da cognição
(Fuchs, 2010).
Os conteúdos dos meios alt ernativos digitais são normalmente críticos. “Existe um conteúdo de
oposição que fornece alternativas aos perceptivos heter ônomos repre ssivos domina ntes que refletem o
domínio do capital, patriarcado, racismo, sexismo, nacionalismo etc. Esse con teúd o expressa pontos de
vista opostos que questionam todas as formas de heteronomia e dominação” ( Fuchs, 20 10, p.1 79).
Portanto, há contra-informação e contra-hegemonia que inclui as voz es dos e xcluídos, oprimidos,
dominados, escravizados, afastados e explorados. Um dos objetivo s é dar voz ao s meios de
comunicação sem voz e poder ao s impotentes, bem como t ranscender a filtragem e a censura da s
81
informações por monopólios corporativos de informações, monopólios estat ais ou monopólios culturais
em informações e comunicações públi cas, sob a ót ica de Fuchs (2010).
No que diz res peito aos efeitos das m ídias alternativas, u m a interpretação de que seu co nteúdo é
crítico é a noção de que causa
insights
subjetivos que permitam aos destinatários ques tionar certas
formas de dominação, desenvolver ideias de model os alternativos de existência que promovam a
cooperação e possam guiar ações transformadoras e lut as sociais.
Convém discutirmos a ag enda das m ídias alternativas. A ótica humanista do es tudo das m ídias de
Silverstone (1999) nos ofer ece a tese de que “emprego de técnicas de mídia de massa para buscar
uma agenda crítica ou alt ernativa, a partir das margens, por assim dizer, ou do ponto mais baix o da
vida social" (p. 103). Ou seja, esses meios independentes têm trazido à tona questões não antes
tratadas pelos
mainstream media
. A exe mplo de agendas s obre direitos humanos; cidadã os em
situação de rua, comunida des indígenas, favela s, imi grantes; direitos das pes soas com deficiência e
dos LGBTQIA+
13
; combate ao racismo, xenofobia, s exismo; defesa do meio ambiente e outras.
Mídia alt ernativa é frequentemente conectada a movimentos de protesto que fa zem uso dessa mídia
para pr ocessos de i nformação, comunicação, coorden ação e coope ração, assim es ses meios de
comunicação são ativistas e, na visão de Fuchs (2010), são esferas contra -públicas oponentes
dialéticos dos monopólios da mídia corporativa e dos monopólios das o piniões políticas. Mídia
alternativa é de “uma esfera contra - pública proletária at ualizada” (Fuchs, 2010, p. 185). Outrossim,
expressam as experiências dos dominados e emergem no processo da s l utas e sã o uma forma de luta
de classes e organização proletária (Fuchs, 2010).
Os meios alternativos em pregam uma filosofia ativista de criar “informação para ação” nos seus
métodos de produção e distribuição, da í a ligação daqueles com os movimentos de protesto. É da
natureza de t ais m eios ter qu estões emergentes em s eu âmago, já que é da natureza do ativismo
responder às questões sociais à medida que elas e mer gem (Atton, 2002).
Ao argumentar pela mudança social, a m ídia alternativa pode, então, n ão apenas ser entendida como
produtora de discursos ins trumentais (teóricos, expo s itivos, organizacionais), mas serem capazes de
promover t ransformações s ociais e alterações nas agendas governamentais e até nas cobert uras da
grande mídia, por meio de seus próprios meios de produção, que es tão posicionados em relação aos
meios de produção dom inan tes (F uchs, 2010) . As mudanças n as agendas dos m eios tradicionais têm
acontecido nas situações em que as mídias indepen de ntes vão fazer a cobert ura de um ato público ou
manifestação popular, por exemplo, e acabam por tornar o fato de relevância para o público.
13
A sigla signif ica lésbicas + gay s + bissexuais + transsexuais + qu eer + intersexual + assexua l e outros. F onte: https ://www.v o gue.pt/lgbtqia-glossa rio
82
Esta pes quisa re fere-e às mídias alternativas de esquerda, contudo, é pr eciso con ceituar as mídias
alternativas de direita ou ext rema -direita. Assim com o a internet beneficiou o su rgimento das mídias de
esquerda, também propiciou a criação de m eios de comunicação de direita e de extrema -direita. O
surgimento de plat aformas de mídia digital interativa tem origem nas t ecnologias da mídia social que
transformaram a política e o at ivismo. “É claro que essa t ransformação é possibilitada pelo ca pitalismo
neoliberal; mudanças tecnológicas são criadas, apoiada s e aut orizadas por entendimentos específi cos
do capital do consumidor, bem como mudanças d e noções de s ubjetividade política e cultural”
(Ouellette & Banet-Weiser, 2018, p. 3). As práticas trabalhistas neoliberais da economia digital
intensificaram o surgimento de uma mídia personalizada na qual os usuários se envolvem em trabalho
imaterial e afetivo como forma de “co - produzir” con teú do de mídia (H earn, 2008).
Conforme sugerem F ige nschou e Ihlebaek (2018), a mídia de extrema direita, que atua como uma rede
de páginas virtuais, desa fia a autoridade dos
mainstre am m edia
, no sentido de que trazem novas
abordagens e mais diversi dade de informações. Tal fenômeno foi possível graças ao fat o de as
organizações de mídia terem de enfrentar desafios em t ermos de confiança, receita e público (Newman
et al., 2017). O aumento do número de produtores de notícias garantiu maior diversidade, todavia
cresceu o impac to de informações partidárias, desin forma ções e “notícias fals a s”.
Extrema- direita, mídia de direita ou “mídia alt - direita” (Marwick & Lewis, 2017) são designações que
caracterizam provedores de n otícias alternativas classificados por posicionamentos ideo lógicos de
direita. Figen schou e I hlebaek (2018) propõem que o m odo de ação desses meios de comunicação de
direita centra-se na desconfiança das elites políticas e culturais e o que elas percebem com o o viés de
esquerda da mídia domin ante. Holt (2016) ident ificou ainda os problemas da imigração em massa
como um fator comum do que ele chamou de “mídia alternativa crítica da imigração” (p. 120).
O aumento de produções midiát icas que t endem a defender políticas de direita pode estar ligada ao
surgimento de mo vimentos e sentimentos de ext rema -direita na Eur opa, ju ntamente ao re torno dos
populismos de direita. Seg uindo a linha de pensamento de Figen schou e Ihlebaek (2018), a ascensão
da mídia alt ernativa de ext rema direita pode ser interpretada como um passo em direção a um debate
público mais diversif icado.
O motivo mais óbvio que fa z com que as mídias as sumam posições ext remistas de direita, para Ellinas
(2010), são as pressões econômicas para um público mais amplo. “Em uma era de crescente
desconfiança p ública e apat ia política, a dinâmica do mercado parece obrigar os meios de
comunicação a procurar contin uamente atores políticos que possam gerar interess e público e atrair
novos públicos” (Ellin a s, 2010, pp. 211 e 212).
83
Os indivíduos de ext rema d ireita desfr ut am de vantagen s consideráveis, se ndo a m ais importante: os
partidos da extrema direita profes sam representar os interesses das “pe ssoas co muns” contra a elite
política que conspirou contra eles ( Betz , 1994; Mudde, 2004).
Sobre os discurs os, a natureza nacionalista das mídias de extrema direita é perceptível. Os meios de
comunicação de extema dire ita concentram -se, muitas vezes, em histórias envolvendo migrant es, por
exemplo, empregando terminologias como "invasão", "inundação" e "hordas" ( Looney, 2017, p. 1 11),
o que alimenta uma a genda política de direita. Isso aconteceu durante o processo do Brexit – saída da
Grã- Bretanha da União Europeia. A mídia pass ou a criar estereótipos negat ivos de migrantes. “Esses
tipos de histórias formaram uma parte consider áve l da cobertura da mídia da direita antes e depois do
referen do do Brexit e servem para reforçar aspectos negativos e facetários” (Lonn ey, 2017, p. 111).
Quando substanciadas por sentimentos de xenofobia, racismo, homofobia e outros, as crít icas da mídia
de ext rema-direita também podem aumentar a desconfiança e a polarização (Figenschou & Ihlebaek,
2018).
Para Atton (2006), pouca at enção foi dada à mídia de direita como mídia alt ernativa. Downing (2002)
chama de “mídia radical repressiva” da extrema direita. Na visão de Couldry (2002), os valores
centrais de um tipo de mídia neonazista, por exemplo, é encerrar as habilidades de outros pa ra falar de
sua experiência, como parte da construção ou manu te nção de uma comunidade com fechamento.
No que concerne ao fun cionamento das mídias alternativas de direita, como “alter nativas” at uam por
meio de práticas de comunicação part icipativa e produzem conteúdos jornalísticos de forma
indepen de nte, maioritariamente. Outro ponto de situaç ão é o ativismo. A infr a -estrutura d e mídia digit al
que permite movimen tos ativistas progressistas habilitou e encorajo u a extrema direita (Phillips &
Milner, 2017), portanto, as novas tecnologias são ambivalentes.
4.1.2 Participação construtiva, interativa e plural
O objetivo das mídias alternat ivas é o fortalecimento d a cooperação e part icipação e a criação de u ma
sociedade participativa e cooperat iva, segundo Fuchs ( 2010). A in teratividade é ponto fulcral nas
definições das mídias alter nativas que tem s ido reco nhecida com o uma caracter ística distintiva das
novas tecnologias de m ídia e informação. A importância da interatividade está n a mudança social /
política porque contribui com a participação, que é um elemento essen cial das novas mídias
alternativas e ativi stas (Lie vrouw, 20 11) . “Novo s si ste mas de mídia não apenas fornecem cont eúdo; as
pessoas de vem ativamente usá-las para fazer algo, ou seja, pesquisar, compartilhar, recomendar,
vincular, argumentar e assim por diante” ( Lievrouw, 2011, pp. 13 e 14).
84
Assim como a interatividade, a participação t em sido um conceito central nos e studos de novas mídia s
de Lievrouw (2011), e posto em discussão aqui, q ue direciona suas teorias às novas formas de
ativismo e de comunicação alternativa. Isso porque a participação faz com que as pes soas atuem
como agentes ativos no processo de co nstrução de significado. Neste co ntexto, as novas mídias
promovem a participação construtiva e interativa, na leit ura de Lievrouw (20 11). A ssim, os m eios de
comunicação de contra-narrativa fornecem as plataformas necessárias para o jornalismo participativo,
a democracia participativa. “Participação tam bém pode ser vista como o ponto em qu e o
conhecimento de um indivídu o, ou ca pacidade de ag ir, é realmente transformado em ação
comunicativa” (Lievrouw, 2001, pp. 14 e 15). Na ótica de Fuchs e Sandoval (2014), a participação tem
a ver com a co-decisão dentro de normas e regras democráticas .
Lievrouw (2011) esclarece que a interatividade é uma condição cultural, social e tecnológica necessária
que su porta a interação, que por sua v e z é uma condição necessária para a pa rticipação. “Podemos
pensar na interatividade como u ma carac terística da infraestrutura de m ídia (art iculando art efatos,
práticas e arranjos sociais) e participação com o uma forma particular de ação apoiada por essa
inf raes tr utura; mas um depende do outro” ( Lievrouw, 2 011, pp. 14 e 15).
A com unicação participativa é necessária, mas não suficiente, para envolver e a lterar as relações de
poder (Huesca, 2003) . De fato, a comunicação participativa que não é g uiada em direçã o a um
objetivo estrutural a priori, com o mudar o ambiente da mídia ou desconstruir discursos dominantes,
corre o risco de se dissolver em um exercício auto -indulgente ou de ser cooptado por uma organização
estabelecida e elitista (Escobar, 1999). Mais ai n da: a comunicação participativa por si só é capaz de
reproduzir e struturas de poder não autoritárias, especialmente n o q ue diz re speito às relações de
gênero (Wilkins, 1999, 2000).
O pluralismo, assim com o a participação e a interatividade, é conceito rel evante no contexto das mídias
alternativas. Grosso modo, pluralismo é o re conhecimento da diversidade e das diferen ças sociais,
étnicas, raciais
.
Pluralismo constitui-se como um princípio contencioso e e lusivo na teoria política e
social (Hesmondhalgh & To ynbee, 20 08) que não p rescinde de impreci são como um valor social . Essa
imprecisão dá ao pluralismo flexibilidade ideológica p ara que ele seja capaz de significar tendências
reacionárias, de acordo com Hesmondhalgh e Toynbee (20 08).
A ideia do pluralis mo como um valor social e político crucial não é nova. O pluralismo é um dos
princípios constitutivos da democracia liberal ( Hesmondhalgh & Toynbee, 2008). Sobre suas
definições , pode-s e contar com a tese de McLennan (1995) de que o pluralismo é uma preferênci a
teorizada pela multiplicidade sobre a unidade e a diversidade sobre a u niformidade em qualquer
85
campo de investigação. Ness e sentido, com base no alicerce teórico de Hesmondhalgh e Toynbee
(2008), or ientado ao estudo social das mídias e suas transformaçõe s, quase t odos os discursos
particulares poderiam ser concebidos como refl eti ndo algum aspecto da interface pluralismo /
monismo e não como ideologia.
No context o da m ídia, o pl uralismo não apena s constit ui uma perspe ctiva para avaliar o desempenho
dos meios de comunicação, bem como uma forma de racionalidade política que afeta diretamente a
política de mídia ( Hesmondhalgh & Toynbee, 2008) . Neste aspecto, há a su po sição de qu e as mídias,
para serem alternativas, possam assumir a pluralidade, no seu âmago.
Do ponto de vista de oferecer aos cidadãos escolhas múltiplas, até mesmo contraditórias, para formar
livremente suas próprias opiniões, o pluralismo da mídia é essen cial. “Para imp edir o m onopólio de
opiniões , os cidadãos devem ter igual acesso a uma plur alidade de fonte s de informação e
conhecimento” (T rappel, 2019, p. 56). No panora ma de Trapp el (2019) , q ue está voltado às
mudanças sof ridas pela mídia de massa, há vár ias maneiras de promover a pluralidade da mídia: a
restrição da concentração de propriedad e, licenças e concessões operacionais e educação e
alfabetização críticas da mídia.
A regulamentação da mídia visa a assegurar a liberdade e o pluralismo dos meios de comunicação,
proporcionando acesso à i nformação de m aneira igualitária para todos. A r egulamentação baseia-se na
criação de meios públicos, no licenciamento de estações de rádio com unitárias e no estabelecimento
de sistemas de subsídios d e imprensa, bem como no controle ao s monopólios de comunicação através
da regulação de propriedade .
Trappel (2019) me nciona a ética da mídia, meio de autocontrole moral, como fat or preponderante e
imprescin dí vel na at uação dos meios de com unicação. Para ele , a deo ntologia pretende melhorar a
imparcialidade da mídia e ass egurar as e scolhas políticas informad as dos ci dadãos, nivel ando a
desigualdade de acesso a os canais de comunicação de massa e ass egu rando o pluralismo da
informação. A ética da mídia, portanto, ac aba por advertir os jornalistas a “não ab usarem de seu poder
comunicativo e designa os limites le g ítimos da liberdade de expressão para el es” (Trappel, 2019, p.
116). Os códigos de ética , m uitas vezes, não são seguidos no meio comunicacional, o que tem
permitido, por exemplo, a produção de notícias fals as e de deturpações de fatos.
Um corpo de “teoria ética” relevan te para a mídia deve cobrir uma série de perspectivas e ideias
díspares, m as todos devem t er em comum algum compromiss o de valor que t enha pr ecedência sobre
descrição, anális e e explicação (Bracci, 2003).
86
A teoria ética da mídia é necess ar iamente pluralista em uma sociedade livre. Portanto, nun ca haverá
um ac ordo total sobre o qu e pode ser permitido, proibido ou incentivado (Bracci, 2003). Não obstante,
questões éticas e normativas não podem ser evitada s e surgem assim que as expl orações e aplicações
da tecnologia começam a surgir.
Para Bracci (2003), a s a mplas liberdades de expressão da mídia envolvem responsabilidades no
desempenho de sua f unção democrática, que é a lógica política de suas liberdades. “O escrutínio se
concentrou em maneiras melhores e piores da m ídia de exercer suas funções democrát icas e
comerciais por meio de esforços de produção que i nformam, in fluenciam e en tretêm o público em
massa” (Bracci, 2003, p. 115) . Hoje, a s consider ações éticas, sob a ótica de Bracci (20 03),
geralmente partem dos propósitos de promover a democracia e ser comercial par a fornecer notícias e
informações relevantes e út eis ao p úblico como cidadãos e diverti -lo s como consu midores com erciais.
As preocupações contínuas que surgem dessa perspect iva funcional concentram-se em saber se as
práticas de mídia distorcem, manipulam ou frustram seus propósitos e se prejudicam pess oas (Bracci,
2003).
Entreta nt o, at ualmente, os debat es éticos também estão na esfera da internet. As preocupações estão,
portanto, am pliadas ao ciberespaço e precisam ser re solvidas, já que não h á fiscalização neste meio e,
à exceção de poucas expe riências, não há marcos civis de re gulamentação da rede concretizados.
“Cada vez mais, as análises éticas envolvem poder e priv ilégio como v ariáveis-ch ave das estruturas de
mídia tecnologicamente orien tadas” (Bracci, 2003, pp. 115 e 116).
Destarte, é possível apontarmos para uma crise de confi ança do público n o que diz re speito aos
conteúdos midiáticos, resultado da falta de regulamentação e da liberação de conteúdos na internet.
4.1.3 Modelo “autogerenciado” de conteúdos
As empres as de mídia visam prin cipalme nte a obt er lucro, no âmbito das estruturas organizacion ai s, e
funcionam, portanto, como modelo de negócio: venda de conteúdo para o público e / ou pela
publicidade, propriedade p rivada das orga nizações de mídia e estr uturas hierárq uicas com um claro
diferencial de p oder, a lém de uma divisão do trabalho dentro das organizações de mídia (Fuchs, 2010) .
Na outra ponta estão as mídias alternativa s que e nfrenta m, nas sociedades capitalistas, em que t odo o
processo com ercial é detido por grandes empresas, in clusive de com unicação, as dificuldades de
estender sua expect ativa de vida, mantendo -se em atividade sem o respaldo de fi nanciamentos
privados.
87
Deste modo, boa parte dos projetos de meios alternat ivos de comunicação são executados com os
orçamentos mais restritos, contando com trabalho volu ntário, apoio do público, por meio de doações e
permutas com movimentos sociais, organizações e a ssociações . Assim, algumas mídias alt ernativas
fazem uso de plataformas de doa ções online, mecanismos de microfi nanciamento, como o
crowdfundin g
e s ubscrições, muitas vezes somados a outros meios de subsistência, a exemplo das
permutas e apoios fi nanceiros de instit uições e at é de empresários, nes te ú ltimo caso n os refe rimos a
alguns meios que n ão pode m ser descritos como não comerciais.
As condições sob as quais a mídia alternativa é produzida exigem a doaçã o de t empo e energia dos
colaboradores. Por serem organizações de base, nesses meios independentes a propriedade é coletiva
e a tomada de decisões é realizada por con senso por parte dos que trabalham na organização, “sem
hierarquias e autoridades, distribuição simétrica de energia, nenhuma propriedade privada ext erna,
mas autog estão econômica” (Fuchs, 2010, p. 1 79), b em como financiamentos d e atividades por via
pública, divi são de trabalho sublinhada, utiliz ação de tecnologias que permitem reprodução fácil e
barata e práticas de distribuição alternativas.
Uma forma que distingue a mídia alternativa dos meios t radicionais é que o público não é tratado como
consumidor, mas como produtor e público, os chamados
prosumers
. Quer diz er, as novas m ídias
trazem a proposta de que os usuários também atuem como produtores, na m edida em que são os
atores sociais que constroem as narrativas.
O t ermo
prosumers
foi criado , em 1980, por Alvin T offler em
A Terceira Onda
para explicar o novo
papel do consu midor na sociedade pós-moderna. O autor previu que a linha que demarcava os
consumidores dos produtor es começaria a desaparecer, com o advento da internet que possibilitou a
participação e interação dos usuários nas produções j ornalísticas e também através da livre escolha . É
por meio desse canal que os
prosumers
começaram a t omar parte no processo de produção.
No que se refe re à circulação e distribuição de conteúdos da imprensa alternativa dentro de sua e sfera
pública alt ernativa, o cerne está no exame da i mprensa alt ernativa como uma e mpresa econômica que
procurou encontrar alte rnativas para as principais formas de faze r negócios, d e acordo com At ton
(2002). Uma das alternativas utilizada pel os meio s alternativos são as tecnologias reprográficas.
A impren sa alternativa re jeita ativamente as condições econ ômicas dos modelo s tradi cionais, até o
ponto de desen volver for mas inovadoras de distribuição , com o aplicativos e uso de plataformas
gratuitas.
Sobre a forma de produção de conteúdos, o jornalis mo produz ido, pensado, di stribuído p elas mídia s
alternativas é, por vezes, elaborado pelos próprios cidadã os que são o s atores das histórias. Fuchs
88
(2010) refere-se ao Jornalismo cidadão, no qual se encontra a independência dos escritores das
influências e pressões corporat ivas e políticas. Neste forma to, qualquer cidadão pode ser jornalis ta sob
o ponto de vista de estar dentro dos fatos e poder narrá - los. A ssim, “essa prática jornalística é
frequentemente parte das práticas do movimento de protesto. Portanto, o receptor n ão é mais apenas
receptor e o produtor não é tão somente produtor, a via de mão dupla é v álida nos processos
alternativos de produção jornalística.
Métodos prefigurativos de economia e orga nização sã o componentes essenciais da mídia alt ernativa.
P odemos voltar ao contexto de “mídia autogerenciada” (Downin g, 19 84), designaç ão útil, já que
confirma que a imprensa al ternativa pode ser co nsiderada ins eparável da es fera pública alternativa. O
relacionamento entre m eio independente e esfera pública é mútuo e si nérgico, a saber: a esfera
pública alt ernativa oferece oportunidades e m eios de produção e consumo para a imprensa alt ernativa,
ao mesmo tempo em qu e a própria imprensa fornece material qu e sustenta a função da esfera como
um local para a formulação, discussão e debate de ideias radicais e diss identes (Att on, 2002).
Sobre a distribuição, os meios de comunicação de contra-narrativa utiliz am um método híbrido, ou
seja, embora seus locais de distribuição sejam espaços públicos não necessariamente de cu ltura
alternativa, sua abordag em é radical de modo a abrir um espaço alt ernat ivo de ntro desses espaços,
onde atos regulares de diálogo e discussão acompanham agora uma transação comercial (Atton,
2002).
Como já pontuamos, as novas tecnologias foram ca pazes de ajudar as mídias alternativas no processo
de circulação e distribu ição de conteúdos de modo a fazer chegar ao público as informações . No que
concerne aos meios ativistas, as mídias sociais podem ser usadas com o uma ferramenta para produzir
representações mais autênticas dos movimen tos sociais das ruas, através de
live streaming
e
live -
tweeting
em smart phones
(Atton, 2002).
As transmissões ao vivo impulsionaram as visualizações dos
conteúdos das mídias de contra-narrativa nas man ifestações brasileiras de junho de 2013, por
exemplo. E esses veículos contin uam a u tilizar essas tra nsmissões do Twitter, mas também via
Facebook e Instagram.
O
modus operandi
das mídias alternativas que opt a m por modelos não comerciais, barat os e abertos
de produção e distribuição de conteúdos t raz consigo um compromisso com a descentralização e
compartilhamento de recursos, “ bem como com o po tencial educacional e empoderador dos métodos
empregados na construção de mídias alt ernativas, a fim de aumentar a p articipação em suas
atividades” (Atton, 2002, p. 51).
89
No entanto, no qu e se refere ainda ao uso das tecnologias digitais, sobretudo do s smartphones e das
plataformas de
social media
(Facebook, T witt er, YouTube), pelas mídias alter nativas, existe uma
contradição em relação ao s prin cípios pregados por esses meios: de independência, cultura livre e
combate à privatização, na medida em que as tecnologias de mídias
digitais foram produzidas no
contexto de países industrializados, com fins lucrativos baseados em novos m odelos de negócios
orientados para dados qu e dependem da criação de perfil das at ividades d os usuários para ven der
publicidade (Seoane & Ho rnidge, 2 018). Assim, os meios de comunicação alternativos reforçam a
ideologia do livre mercado, contribuin do para o proce sso de concentração e priv atização de dados ao
utilizarem plataformas digitais. Cons titui-se aí um dilema político e econ ômico , visto qu e as mídias
alternativas não co nseguem pagar por espaços de divulgação porque são meios de pequena escala,
mantidos por estratégias alternativas de financiamento.
É rele vante discutirmos a r elação da Eco nomia Política com as mídias alt ernativas. Estudios o s críticos
da mídia adot am ca da vez mais uma abo rdagem da Economia Política em relaçã o à m ídia alternativa.
Dyer- Witheford (1999), por exemplo, sugere que deve haver “novas maneiras pelas quais redes
emer gentes de m ídia são feitas para circular lutas em vez de mercadorias” (p. 60). Jeppesen (2016)
oferece um suporte a essa t ese ao acrescentar que tais lutas ocorrem através da produção e recepção
crítica da m ídia, que desafia o capitalismo neoliberal temporário. Cohen (2012) argumenta, da mesma
forma, que “uma abordagem dinâmica da Economia Política marx ista pode e xplicar os processos,
práticas e estruturas que resultaram na crescente prec arização do trabalho cultural” (p. 142), incluindo
a produção de mídia alternativa.
Os autores levantam a ques tão de que a crítica está na exploração e não remuneração (por vezes) dos
trabalhadores dos meios de comun icação, com o argumento de ser um trabalh o de colabo ração. Para
eles, a produção de mídia orga nizada coletiva mente deve ter um papel ativista na luta contra a
precarização do trabalho nos meios de comunicação e contra a prática da exploração dentro dos seus
próprios quadros. Assim, “a principal preocupação da mídia crítica é con struir um contra -público
anticapitalista global de produtores e leitores, poderoso o suficiente para derrubar o capitalis mo
neoliberal” (Jeppesen, 2016, p. 63).
Os process o s de mobilização são a peça centra l das teorias de mobilização de recu rsos,
especificamen te a colet a deliberada e estr at égica, organização e implantação de mat erial e recursos
institucionais em campanhas orga nizadas centralment e. Aqui falamos do vol untariado. Algumas mídias
alternativas lançam m ão das colaborações, tendo c omo mote o ativismo mobilizador. “Em novos
movimentos sociais, a mobilização é realizada atrav és do cultivo de identidades coletivas, valores
96
facilitam as atividades comunitárias e a participação como colaboração humana (Fuchs, 2 017). Deste
modo, as mídias alt ernativas cumprem s eu papel de promover a part icipação e a socialização ao
usarem as redes.
Van Dijk ( 2013) e nfatiza que as mídias sociais sã o centrada s no usuário e facilitam at ividades
comunitárias. Essas definições mostram que qualidades como compartilhar, colaborar e participar são
muitas vezes consideradas caract erísticas essenciais. O rápido crescimen to do u so de sites de redes
sociais pede uma reconsideração do significado da particip ação política mediada na sociedade (Fento n
& Barassi, 2011).
Com a explosão da mídia digital , houve a extensão das m ídias sociais, platafor mas que compõem o
novo ambiente de comunic ação. Est a nova prática de sociabilidade mediada (Sassen, 2004) também
trouxe com ela várias reivindicações da transformação das relações entre a cidad ania e os meios de
comunicação e a facilitação de novas formas de participação política.
No entanto, a abertura de espaços para as notícias na internet e nas red es sociai s t rouxe a
desinformação e as notícias fals as como ameaças à democracia e ao jornalismo de qualidade. A
internet e as mídias sociais estão provando ser um sol o particularmente fértil para ess e tipo de notícia
(D er Liden, Panagopoulos & Roozenbeek, 2020). A viralização inerente à internet possibi lita que m ais
pessoas tomem conhecimento das notícias fals as e com partilhem.
O fenômeno das
fake news
ganhou força após a eleiç ão de 2016, nos Estados U nidos, em que houve
circulação desse tipo de n otícia nas redes sociais de forma massiva, o que ger ou preocupação n as
sociedades (Allcott & Gentzkow, 2017). As eleições brasileiras de 2018 também foram palco para a
propagação de desinformação.
Fake news
s ão publicações viralizadas, s obretudo nas redes sociais,
normalmente com teor político de difamar alguém ou algum ór gão ou instituição. Essas notícias podem
ser definidas at ravés do conceito: “art igos de notícias que são intencionalmen te e comprovadamente
falsos e podem en ganar o s leitores” ( Allcott & Gentzkow, 2017, p. 213).
Já a desinformação é a utilização das técnicas de comunicação e informação para desvi rtuar a
realidade, mediante a su pressão ou ocultação de fatos, minimização da importância ou alteração de
sentido. A desinformação também pode se en quadrar n o conceito: processo pelo qual uma notícia
falsa ou parcialmente falsa é sistematicamente difundid a por personalidades públicas e pela imprensa,
gerando a credibilidade da informação entre os consumidores.
Relativamente às desigualdades sociais, es sas não estão apenas na forma de distribuição de renda das
pessoas nas sociedades, m as tam bém nas mídias, de sde que surgiram as comunicações públicas. As
desigualdades são aqui ap ontadas por Trappel (2019): a parcial idade dos meios de com unicação
97
tradicionais, servindo a interesses hegemônicos, acumulando poder n as mão s de conglomerados
indus triai s; o jornalismo contribuiu para a discriminação de gêner o e raça nas sa las de imprens a. Sob
o regime digital, que evoluiu em torno do es tabelecim ento da internet, no final da década de 1990, a
maioria dess as desigualdades sobreviveu e novas ocorreram (Trappel, 2019). As empr esas de
comunicação tiveram de migrar para as redes sociai s e sites, j unto com as rec eitas de publicidade,
além dis so, as lacunas de conhecimen to se t ransformaram em divisões digit ais. A fora a “seleção
algorítmica, a vigilância, o Big Data e a internet das coisas que estão cria ndo novas formas de
desigualdade que seguem os padrões tradicionais de classe, gênero, riqueza e educação” (Trappel,
2019, p. 9).
Na área de mídia e comunicação, o advento dos processos digitais, sites e redes sociais globais, bem
como a crise de 2008 , causaram baixa no modelo de negócios baseado em publicidade dos principais
meios de notícias em todo o mundo (Trappel, 2019). As desigualdades neste set or da comunicação
dizem respeito ao acesso à participação no discurso público.
O modelo de negócios, ainda em vigor no sistema midiático, baseia -se na relação de in terdependência
dos grupos empresariais qu e det êm meios de comunicação com os poderes econômicos e políticos, de
acordo com as conveniências mútuas (visibilidadade pública, inversões en publicidade, patroc ínios,
financiamen tos, insenções fiscais, par ti cipações ac ionárias, apoios em ca mpanhas eleitorais,
lobbies
,
concessões de ca nais de radiodifusão, etc.).
No âmbito econômico, as decisões editoriais sobre q uais eventos se tornam notícia são tendenciosas
por considerações comerciais e não pelo interesse e pr eferências dos leitores e espe ctadores, criando
um fator de desigualdade, como revela Trappel (2019) .
Outra fonte de desigualda de é a proclamada “lacuna de conhecimento” (Trappel, 2019, p. 19). Essa
lacuna se origina de diferentes us os da mídia pelo p úblico, re sultando em base s de conhecimento
desiguais das pessoas. “As pessoas com educação superior e status social lucra m mais com o uso da
mídia do que aquelas em posições men os privilegiadas ” (Trappel, 2019, p. 19).
Fenton (2016), que co stuma interrogar a relação en tre m ídia, democracia e mudança social em seu
acervo teórico, bases de reflexão deste estudo, acusa a mídia tradicional de servir a in teresses
hegemônicos, fr ustrando a dem ocracia par ticipativa e legitimando a desigualdade social que não
evaporou com a internet. “Estamos diante de uma des igualdade surp reendente e crescente” (Fenton,
2016 , p. 13). Para ela, as nações ricas desfrutam muito mais da internet do que a s n ações mais
pobres.
98
Novas t ecnologias de informação e comunicação estão criando novas var iedades de clivagens sociais
com o potencial de cri ar n ovas desigualdades, como afirma Trappel ( 2019), destacando o uso do s
algoritmos.
Algoritmos são uma s equência finita de ações executáveis incorporadas nos mecanis mos de busca
(Google, Bing, Yahoo, etc.), n os
feeds
das mídias sociais (Facebook, Instagram, T inder). Os algoritmos
tendem a “perpetuar nossa estratificação soc ial exist ente, com todas as suas injustiças” (O’Neil, 2 016,
p. 70). A s desigualdades provocadas pelo s algoritm os são pa utadas no a umento das ass imetrias e
desigualdades.
Ao trazermos a questão da desigualdade aos novos meios de comun icação, é possível afir mar que as
novas mídias não transformaram o m undo comunicacional em t ermos de estratificação social de
propriedade e acesso (T rap pel, 2019). Com efeito, ao invés de criar m ais concorrência, eles criaram
novos e imensamente pod erosos m onopolistas, como Goog le, Facebook e Amazon (Keen , 2015). As
novas tecnologias apenas reforçam as desigualdades existentes, is so porque a s tecnologias online
simplesmen te reproduzem as antigas desigualdades de poder (Trappel, 2019).
Fuchs (2 014) salienta que os padrões de estr atificação criados pela idade, etnia e classe moldam o
uso da mídia digit al e fazem com que as lacunas de informação aumentem em v ez de diminuir. Para o
autor, é um mito o fim da desigualdade de informação (o que é, de forma enganosa, muitas vezes
chamada de “brecha digital”) devido à rápida adoção da internet. Fuchs (2014) ar gumenta, ainda, que
a estrat ificação não se refere mais ao ac esso físico à internet, mas ao uso dess a tecnologia e às
habilidades necess ária s para esse uso. “En quanto houver uma socied ade estrat ificada, haverá
desigualdade de informação ” (Fuchs, 2014, p . 190).
No cerne do debate sobre as desigualdades, Peschanski (2007) , t eórico marxista dos movimentos
sociais, nos t raz a pertinente discussão sobre a demo cratização das mídias. Para ele, uma iniciativa
midiática que surgiu essencialmente democrática pode subsequentemente se t ornar burocrática e
conservadora, movendo inexoravelmente uma dis tância crescente de su as origens e, finalmente, ao
seu des aparecime nto (Peschanski, 2007). O autor acredita, ainda, que apenas a prática democrát ica,
de acordo com os preceitos da comunicação dialética, pode garantir a sobrevivência de uma entidade
popular da mídia.
99
4.3 Ativismo midiático online e offlin e
Ativismo e ciberat ivismo são conceitos que fazem pa rte desta pes q uisa, dadas as devidas
particularidades de cada um, porqu e os movimentos populares – el ementos da base t eórica da
pesquisa - e as mídias alternativas (objetos) militam dentro e fora do espaço virtual.
Em sua definição
15
, o at ivismo pode ser entendido como trans formação da realidade por meio da ação
prática.
Já o ciberat ivismo, tam bém conhecido como net ativismo, tem por base conceitual a tese de
movimentos como novas f ormas de ações políticas c olaborativas e novas formas de participação em
redes digitais (Amadeu, 2010). Refiro-me às novas porque há, hoje, uma outra formatação dos
movimentos ativistas, com mudanças sistemát icas na man eira de fazer ativismo. A principal
transformação se dá pelo uso das redes sociais na ação coletiva, quer seja: m obili zação e
dissemin ação de conteúdo s, manifestos, abaixo s-a ssinados online, plebiscitos e referendos e pedidos
de apoio. Além disso, os modos de organização das práticas
offline, nos espaços públicos, ganharam
novas intervenções, como grandes concertos e par ticipação de artistas milit antes,
performances,
batuques, bem com o a adição de membros das mídias alternativas que, assim, passaram a ser
chamadas de mídias ativistas que praticam o midiativismo ou o midialivri smo.
Ainda no rol dos conceitos , ciberativismo pode ser “um conjunto de práticas e m defesas de causas
políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas,
principalmente na in ter net” ( Amadeu, 2010, p. 31).
Aqui cabe destacar que os novos movimentos at ivi stas não foram mobilizados p or sindicatos ou o s
partidos, mas os próprios cidadãos conectad os à rede virtual. Ao con trário, uma das ações das
manifestações é criticar as i nstituições do establishmen t
– parlamento, partidos, sindicatos. As trocas e
o cooperativismo nas redes são eficazes. As resoluções são tom adas via mundo virtual, o que encurtou
as distâncias e tornou
o
modus operandi
mais prático e rápido (Gohn, 2013).
Os diferentes movime ntos de in dignação qu e sacudiram o mu ndo nos últim os anos - Revolução
Egípcia, o movimento 15 -M, o
Oc cupy
, e m esmo, as Jornadas de J unho - compartilham as seguintes
características entre si: rejeição ao s partidos políticos , baixa confiança nas form as convencionais de
organização política, formação e m obilização via inter net. Todos eles são considerados como
modalidade ciberativista (Barbosa, 2015).
São movimentos voltados para a mudança dos valores da sociedade, propõem uma nova utopia de
autonomia do sujeito em relação às instituições da sociedade (Lorenzotti, 2014).
15
https://www. dicio.com.br/ativis mo/
100
Na perspectiva de t ecer considerações a respeito das dimensões virtuais, Gerbaudo (20 12) , teórico na
área dos movimentos s oci ais, ativis mo e m ídia e suas relações que estão no bojo desta pe squisa,
sugere o ciberespaço como ocupante de uma posição de “não lug ar”, ou seja, for mado por indivíduos
conectados que trocam ideias entre si e com o m undo, podendo at uar como internautas que colam,
copiam, replicam, editam, sintetizam e multiplicam as redes sociais virtuais, em milhões de tweet s
e
posts
sobre notícias a respeito dos acontecimentos políticos em geral.
Neste contexto, os ciberativistas não estão na posição de deliberar comandos, apesar de que as
mensagens i nfluenciam diretam ente a maneira pela qual as pe ssoas agem em conjun to, exprimin do a
cena em que sua ação coletiva irá se mostrar. Gerbaudo (2012) nomeia esta manifestação de
choreography of assembly
(coreografia coletiva), definida como um “process o de con strução simbólica
de um espaço público que se constrói em torno de um ajuste de cena emocional e um
script
dos
participantes na a ssembleia física” (p. 12). Assim, os manifestantes ad quirem carát er participativo e
libertário de uma nova cultura de protesto (Barbosa, 2015).
Concretamente, Ge rbaudo (2012) refere - se a uma liderança indireta ao usar o termo “ coreógrafo”, de
forma análoga aos coreógrafos tradicionais da dança que organizam o ato. São “líderes que se
reportando à ideologia da horizontalidade, não querem ser vistos com o lídere s de primeira instância,
mas cuja defin ição de cena e o desenrolar da
performance
tem sido decisivo em trazer um grau de
coerência” (Gerbaudo, 20 12, p. 13). A liderança pode ser de um colet ivo e não necessariamente de
uma personificação de um i ndivíduo. Em bora não se apresentem como líderes ind ividuais, as ações do
coreógrafo são fundamentais para a preparação do movimento, tendo em vista que fixam da tas e locais
de encontro, fazem
slogans
e constroem, dessa forma, uma coreografia que compõe o imaginário do
movimento, criando a cena geral em volta da qual o protesto acontece (Barbosa, 2015).
Os modo s tradicionais de organização nos moviment os sociais (com características estruturais com o
líderes ide ntificáveis e identidades coletivas persistentes) têm sido largamente substituídos por
atividades mais distribuída s e emergentes de usuários de massa, at ivadas por plataformas de mídia
social. Através dos estudos detalhados das práticas de protestos de mídias sociais, pesqu isadores têm
demonstrado que líderes e identidades coletivas jogam uma regra vital na contenção onli ne. Com base
na exploração da arquitetura tecno-com ercial da mídia social, tem sido argumentado que estas
plataformas não somente são capazes de at ividades ativ istas, mas tam bém fundamentalmente moldar
a arquitetura da mídia social para adaptá -la ao bom fu ncionamento das ações de protesto (Poell & van
Dijck, 2018).
101
A at ividade de usuário de mídia social está no coração da fundamental transformação do ativismo.
Plataformas de mídia social habilitam mais
bottom- up
16
, formas distribuídas de mobilizações de
protestos, organização e comunicação (Poell & van Dijck, 2018).
Na visão de Gerbaudo (2012), as redes sociais virtuais são importantes como meios facilitadores pa ra
os movimentos sociais contemporâneos porque são responsáveis pela construção da
choreography of
assembly
que orientam os part icipantes da assembleia de forma dispersa e descentralizada. O
Facebook e o Twitter
ganharam destaque at ravés da construção de identi ficações comuns no
desencadeamento dos protestos. No entanto, é preciso analisar o papel que as redes so ciais ocupam
nos protestos. Elas atuam como um elemento complementar – e não substituto – às manifestações
nas ruas, além de possibilit arem a criação de novas formas de interações física s e assumirem “um
papel import ante na visibilidade, cobert ura e organi zação dessas mobilizações” (Alcântara, 2014, p.
12).
O uso e a relevância das redes sociais têm dividido opiniões. Entre os que defe ndem e acreditam na
internet (os ciber otimistas) está Gerbaudo (20 12), que postula que a rede serve como uma ampliação
dos canais de participação política. Essa ideia é partilh ada por Pierre Lévy, Ch ris A nderson, Dan Gilmor
e, sobretudo, por Clay Shirky. Já os ciberpessimistas, que defendem que a Web
enfraque ce a
participação de forma apocalíptica, fragmentando o espaço público , são representados por Evgeniv
Morozov e Malcom Gladwell. Contudo, é pr eciso ter em conta as idiossin crasias locais percebi das na
nova cultura de protestos.
As formas de ativismo são dinâmicas e i ndeterminadas. Suas p erspectivas políticas são repe nsadas
com cons tância, a partir de uma sociabilidade ativa e m ultifacetada, reven do seus sentidos, seus
sujeitos e seus marcos institucionais. São organiz ações da sociedade civil profundamente
autorreflexivas (Lorenzotti, 2014). Esses movime ntos surgem com o um pr ojeto calcado nas
experiências dos indivíduos, sob o ponto de vista de Castells (2013), a mudanç a se dá na maneira
como a organização das novas formas de ativismo é vivenciada pelos seus pa rticipantes. Destarte, os
atores sociais são capazes de partilhar interesses, ideias e valores por meio de um espírito coletivo.
Novos protestos são dirigidos por auto motivação de partilhas de ideias personalizadas e internaliz adas.
Ativistas de compartilhame nto tornam-se auto-motivados porque é uma expressão pessoal fo rmal e o
16
Estratégia de processamento de informa ção e o rdenação do c onhecimento, usada em vár ios campos, incluindo
sof tware
, humanística e teorias
científicas, e gestão e org anização . Na pr ática, eles podem ser vistos como uma abordagem de pensamento e ensino . Uma abordagem d e baixo para cima
(
botto m- up
) é a “colcha de retalhos” do sistema para dar rumo a sistemas mai s complexos. To rnando assim, a cada p asso, os si stemas originais em
subsist emas de u m sist ema final maior. Um proces samento de baixo para ci ma é um tipo de trat amento de informaçã o baseado em d ados de entrada
vindos do meio a o qual o sis tema pertenc e para formar uma percepção.
102
compartilhamento em massa de quadros de ação pessoal facilita um novo tipo de aç ão (Poell & van
Dijck, 2018).
As formas de part icipação política e ativis mo são concretizad as através de três níveis de articulação:
divulgação e disseminação de informação dirigida ao público em geral e n ão apen as aos ativistas, que
diz respeito à propagação de mensagens em sites, blogs ou páginas do Facebook. Exemplos disso são
a presen ça na internet do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem -Terra ou o EZLN - Exército
Zapatista de Liberación Nacional.
Nesta seção vale dedicar -se à ação coletiva (Bennett & Segerberg , 2012), ou seja, um conjunto de
práticas envolvidas na construção de redes e orga nização coletiva. A ação coletiva é con cebida em
vários níveis, isso porque as novas tecnologias permitem fluxos acelerados de i nformação, alcançados
sincronicamente. A construção de “identidades coletivas” é resultado dos circuitos de informação
partilhada, na medida em que possibili tam u ma identificação coletiva eficiente com c ertos
slogans
,
imagens ou ideias diss eminadas via internet, como emblemas ou causas comuns.
A aç ão conjunta não é resolvida em torno de quadros de aç ão coletiva, que exigem a negociação de
interpretações comun s de identidades coletivas. A ação conjun ta é impulsion ada pelo
compartilhamento rápido de quadros de ação pessoais através de plataformas de mídia social. Esse
sentido coletivo do eu pode ser entendido como uma m anifestação de identidade coletiva (Poel l & van
Dijck, 2018).
Há ainda repertórios de aç ões de p rotesto no espaço virtual que co nsistem na reprodução de táticas
offline comuns ou n a descoberta de formulários de conflito espe cífico para o espaço virtual. Como
exemplo, podemos citar vazamentos e divu lgação de informações privadas; espelh amento de sites, o
que torna possível contornar a censura;
mail bombing
(e -mails enviados consecutivamente que podem
ter o efeito do bloqueio de caixas de correio eletrônicas);
sit-ins
da Web e DDOS ou negação de ataques
de servi ço (bombardeamento de sites para que eles parem de fun cionar) o u desfigurar (alterar a
home
page
de um determinado site, substituindo o conteúdo original com uma mensag em provocativa). É
neste contexto que o conc eito de
hacktivismo
pode ser incluído (Cam pos, Pereira & Simões, 2016) .
Alguns coletivos, s ob retudo de mídias, têm usado esse tipo de ação.
Cammaerts (2012 , 20 13) aponta que práticas específicas de mídia podem ser consideradas como
formas de resistência e de protesto. Aqui cabe considerarmos a atuação da s mídias ativistas hoje.
Co letivos de comunicação em todo o mundo têm feito parte de ações de protesto s. Ao m esmo t empo
que reali zam coberturas d as manifestações, estão a protestar. A o que Lore nzott i (2014), que n os
oferece as progressões sobre ativismo e m ídia, designa de “mídias de multidão”, “pois também criam
103
fatos políticos, intervêm nos fatos e se tornam par tes da notícia” (p. 86). Portanto, há uma nova form a
midiática de intervenção política e participação social, um novo midiativismo e a possibilidade de
criação de uma rede de pontos de mídia articulada de forma horizontal (Bentes, 2016) .
A ligação das mídias com os m ovimentos de protesto, que antes se resumiam a jornais de diretórios
acadêmicos das universidades, hoje têm outro formato e o elo está mais estreito, visto que o s m esmos
ativistas que atuam nos meios de comunicação também são membros de movim entos sociais.
A corrente expressivis ta no século XXI deu lugar a um modelo individualista, afirmat ivo e radical de livre
expressão que ocupo u papel central no
Oc cupy Wall Street
. Prática como a valorização exa cerbada dos
diferentes estados do sujeito (o seu corpo, a sua subjetividade, a sua autonomia) já é patente no
midiativismo.
Entre as práticas de midiativismo estão o videoativismo, o uso da internet, as ações de mídia tática, o
movimento pelo
software
livre e a rede Indymedia, além do
hacktivismo
, o artivismo e as
experimentações artísticas na internet (
net art
), as aç ões
culture jamming
, a produção independente de
rádio e TV e o uso de blogs e de ferramentas de pu blica ção aberta no espaço virtual.
Deste modo, o midiativis mo, mais do que um fenômeno social o u político, representa “um laboratório
de experimentos e de in ovações de mídia e de modelos sociais que se desenvolveriam no futuro”
(Pasquinelli, 2002, n. p.). O at ivismo de ntro desse formato não busca apenas a produção de uma
informação “verdadeira”, o bjetiva e in dependente, mas a reapropriação dos meios de comunicação
como meios de produção.
O que há de novo no período contemporâneo do midiat ivismo é sua escala, a utoss uficiência e
autonomia: “Pela primeira vez na história, estas ques tões mobilizam um públi co am plo e diversificado
que tam bém inclui não especialistas” (Milan, 2 013, p. 6). Desta maneira, está feito um cenário de
(re)aproximação da aç ão política às míd ias, por meio do midia tivismo, mas ag ora com um alc ance
maior. A internet possibilita a “autocom unicação de massas” (Castells, 2013), o qu e traz autonomia na
emissão, seleção e organização de narrativas nos meios digitais.
O ativismo digit al lança mã o d e uma linguagem própria , que é da internet, modo m ais fluido e que leva
para a escrita as expressões faciais e o vern áculo popu lar.
Pois o texto contemporâne o, ali mentando correspond ências online e conferências eletrô nicas,
correndo em redes, fluido, desterritorializado , mergulhado no meio oceâni co do c iberespaço, esse
texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitament e superior, a copresença da
mensagem, e de seu contexto vivo que c aracteriza a comunicação oral. De novo, os crit érios m udam.
Reaproximam-se daqueles do diálogo ou da conversação: pe rtinê ncia em função do momento, dos
leitores e dos lugar es virtua is; brevidade, graças à possibilidad e de apontar imediatamente as
referências; e ficiência, po is pr estar s erviço ao leitor ( e em p articular ajudá-lo a navegar) é o melhor
meio de ser re conhecido sob o dilúvio info rmacional. (Lévy, 1 996, pp. 22 e 23)
104
Os di spositivos hipertextuais nas r edes digitais desterritorializaram o text o. O text o é posto em
movimento, en volvido em um fluxo, vetorizado, metam órfico. A ssim está mais próximo do próprio
movimento do pensamento, ou da imagem que hoje temos des te (Lévy, 1966).
O at ivismo t ambém utiliza ferramentas que surgiram com o advento das redes sociais, como hashtag s
e emojis, mas também peças com o memes. “ Uma h ashtag é um tipo de rótulo ou t ag de metadados
usado principalmente em sites de redes sociais e serviços de microblog” ( Veszels zki, 2016 , p. 14 1 ). A
hashtag surge com o mecanismo efetivo do ativismo porque torna mais fácil para os usuár ios
encontrarem conteúdo do mesmo tópico. O sistema de marcação foi inicialmente popularizado pelo
Twitter e, mais tarde, assumido pelo Instagram , Facebook e por outras redes sociais ( Veszelszki ,
2016) . As
hashtags
conectam us uários com interes ses semelha ntes e interli ga conteúdos diferentes.
“A hasht ag serve com o [...] um símbolo de pertencimento a uma comunidade” (Yang et al ., 2012, p.
139). Esse sis tema de m arcação é frequentemente usado como u m ins trumento por movimentos
sociais ( Veszelszki , 2016) . Nes se sentido, as hashtags são maneir as es trat égicas de grupos sobre
políticas de identidade que defen dem a mudança social, redefinição de ide ntidade e inclus ão política
(Jackson, Bailey & Welles, 2020).
Esse si stema de marcações passou, assim, a ser uma das principais estratégias do ativismo digit al. Os
ativistas de
hashtag , “ ocasion almente caluniados como ‘
slacktivistas ’
ou ‘ ativistas de poltrona ’ porque
o ativismo digital às vezes é con siderado menos válido do que a aç ão diret a e é erroneamente
considerado como concor rente dela, u sam hashtags para criar mudança social ” ( Jackson, Bailey &
Welles, 2020, p. 32 ).
Já os memes representa m um novo g ênero midiát ico (Lankshear & K nobel , 2007). Os m emes
possuem normalmente um carát er côm ico e, por vezes, podem ser t ratados como algo efêmero. O
fenômeno repre senta comportamentos na rede que influenciam as questões de cunho político.
“E nquanto para os usuár ios da internet os meme s são elementos prosaic os e mundanos, a
problematização do fen ômeno mostra que ele s reflete m profundas estruturas sociais e culturais ”
(M ian, 2016, p. 30).
Os emojis são um conjunto de ícon es e clipart da comun icação digit al para representar expressões da
interação digital escri ta. Esses ícones fu ncionam como chaves de contextualização para o
en quadramento de afirmações e estrat égias (Gallardo Paúls, 2014). O s emojis são usados
principalmente para adicionar emoção às comunicações digitais e são vistos por seus usuários como
“ divertido s” (Kerslake & We gerif, 2017, p. 179). Esses ícones são com pensações pela relativa falta de
pistas contextuais em comunicação online do tipo q ue é tão importa nte para orientar a interpretação na
105
comunicação face a face (Kerslake & Wegerif, 2017 ). O s emojis usados podem desempenhar um papel
semelhante à expressão fa cial e aos gestos e costu mam pr ejudicar a seriedade com um senso d e
humanidade compartilhada (Kerslake & Wegeri f, 201 7), bem como esses íco nes a ssumem papeis
simbólicos: pictográficos, significando exa tamente o que represen tam , ou logo gráficos, at uando com o
substitutos de palavras (Danesi, 2017).
Na retomada da discussão sobre mídias sociais e suas conexões com a ação coletiva de pr otesto,
Milan (2015) acrescenta que essas novas estruturas desempenham um novo papel de mediador no
processo de con strução de significados dos ativistas. De certo modo, elas funcionam como
“semiotecnologias” intermediárias, ou “assembléias tecnoculturais que t rabalham com e at ravés de
signos para organizar as mediações e t raduções entre dados, informações e símbolos linguísticos”,
promovendo “regimes es pe cíficos de produção e circulação de sig nificado” (Langlois, 2011, p. 3).
Milan (2015) traz a concepção de alg oritmo para decifrar os regimes utilizados pelos at ivistas.
Algoritmos das mídias sociais intervêm na produção de significados que modific am dinamicamente o
conteúdo e funcionam at ravés de rotinas program adas, medindo e manip ulando i nt erações do usuário.
Esses regimes identificam padrões específicos de transmissão e reprodução do conteúdo gerado pelo
usuário e, como tal, têm um impact o na forma como o t rabalho de significado se desdobra (Milan,
2015).
Alguns teóricos sustentam que a adoção das mídias sociais como o Facebook e o Twitt er na onda de
protesto popular seja uma ruptura e não evol ução linear do ativis mo, a exemplo dos m ovimentos
antiausteridade e anti-establishment de 2011 a 2013 - exemplificada por grupos de protesto com o o
Occupy Wa ll Street
e
Los Indignados
e a ascens ão de novos partidos digitais, com o o 5 Star Movement
na It ália e o Partido X na Espanha. Na visão deles, a essência do ativismo é mesmo a ocupação dos
espaços públicos. Gerbaudo (2016) contextualiza da seguinte forma:
A mudança em direção ao uso de plataformas comerciais de comunicação não apena s desmente
motivos p ráticos d e eficiência - como o objet ivo de alcançar mais pessoas - mas também re flete um a
visão de mundo diferent e daquela que p ermeia a política radical nas décadas anteriores .
Especificam ente, r eflete uma ruptura com a abordagem que re ssalta o movimento antiglo balização,
que enfat iza a necessidade de constr uir pla taformas aut ôno mas e autogerenciadas, sintetizadas pelo
desenvolvime nto de sites de notícias alternativos como o Indymedia e provedores alternativos de
serviços de In ternet (ISPs). (p. 1)
Gerbaudo (2016) di vide os at ivistas em duas colocações: os a ntiglobalização pa ra os quais a internet
era, em grande medida, u ma continuação de suas polí ticas de grupos pequ enos, grupos de afinidade,
coletivos e centros sociais, todos interligados em federações instáveis; e os ativist as da onda popular
que defendem que as mídias sociais corporativas fora m apropriadas e se transformaram em um meio
112
pesquisa foi feita, em parte, no ciberespaço e pretendeu -se analisar o modo de produção de mídias
que atuam exclusivamen te neste ambiente e suas relações com o público, o uso da etnografia virtual
foi pertinente. A etnografia foi também aplicada no offl ine, ou seja, reali zou-se observação participante
das atividades das mídias alternativas desempenhada em vi sitas às redaç ões d esses m eios, o q ue
resultou na produção de um diário de campo. No próximo item esmiuçamos os conceitos de etnografia
virtual.
5.4.1 Abordagem: etnografia virtual
Por ser a internet espaço ú nico de at uação das mídias alternativ as estudadas, a pesquisa foi realiz ada,
em parte, neste m eio. O traba lho empírico no ci berespaço foi crucial para a anál ise da criticidade da
imprensa altern ativa.
A internet se mani festa co mo um conjunto de tecnolog ias variadas e usadas de maneira variáv el que
têm significados diferentes para diferentes grupos de pessoas. Nesse sentido, o uso da rede é uma
experiência culturalmente localizada (Miller & Slat er, 2000). Ent retanto, a internet é um objeto
interpretativamente flexível que significa coisas di fe rent es para pessoa s diferentes, o que complica o
uso da rede como ferramenta de pesquis a.
Assim, a etnografia virtual foi utilizada porqu e o context o da anális e foi maioritariamente na internet ,
mas não exclusiv amente porque parte da pesquis a fo i realizada nas redações das mídias alternativas
(etnografia), como mencionamos. Por meio do método, foi possível obter informações úteis, analisa ndo
o comport amento das mídias e dos usuários na esfera interativa da rede. Para as pesquisas no
Facebook, a abordagem da etnografia virtual é adaptada para combinar diferentes áreas de análise ─
conversas, vídeos, fotografias, memes e cartazes ─ para considerar a distri buição e receção de
conteúdos no F acebook.
A aplicabilidade da técnica etnográfica ao estudo das i nterações comunicativas o nline é de relevância
para se entender melhor o comportamento humano no ambiente virtual.
O termo ‘ etnografia virtual ’ , que foi adot ado por Ch ristine Hine (200 0, 2005 ), surgiu para da r suporte à
pesquisa a partir do ad vento da internet. A ch egada da rede mundial colocou um desafio signif icativo
para a nossa compreensão dos métodos de pesquis a.
As soluções metodológicas ga nham grande p arte de sua autoridade por meio de precedentes, e ainda
não está claro até que ponto a he rança da metodo logia de pesquisa se aplica às novas mí dias e que
lacunas em nos so entendimen to ainda devem s er expostas. (Hine, 2005 , p. 1)
Para Hine (2005), na etno grafia virtual a con strução do campo é feita a partir da reflexividade e da
subjetividade. Segundo a autora, a etnografia virtual se dá no e através do online e n unca está
113
desvinculada do offline, aco ntecendo por meio da imersão e e ngajamento intermitente do pesquis ador
com o próprio meio.
Este modelo de estudo re vela a necessidade de p ensar a internet como um espaço s ocial que
comporta pesqu isas de campo. E de fato o meio vi r t ual é um am biente o nde a s pe ssoas convivem e
vivem. Isto posto, a e tnografia virtual consider a os comportamentos das pessoas n a internet como
fenômeno sociol ógico (Hine, 2005).
5.5 Desenho metodológico
A abordag em et nográfica virtual constituiu-se pela ob servação de peças do Facebook de seis mídias
alternativas de Brasil, Po rtugal e Espa nha (duas de cada país) e foi com plementada por entrevistas
semiestruturadas aos produtores das mídias e ao públi co leitor e não leitor. As mídias selecionadas
foram
Mídia NINJA
e
Jornalistas Liv res
, n o Brasil;
El Salto Diario
e
Contexto y Acción
(
CTXT
), na
Espanha;
Fumaça
e
Guilhotina.info
, em Portugal.
O método científico de análise de conteúdo é a variante da pesquisa qualitat iva e f oi, portanto, ut ilizado
para a avaliação das peças do Facebook e do conteúdo das entrevis tas.
Após estabelecer a questão de investigação e os objetivos do trabalh o, iniciou-se a pesquisa de campo
como forma de perceber o modo de produção midiática. Concomitantemente, o trabalho foi apoiado
pela revisão bibliográfica que deu cont a dos contextos sócio -político, econômico e da comunicação de
uma maneira geral, e do Brasil, da Espanha e de Portugal, especificamen te.
A partir da fundamentação teórica, foi possível selecion ar as mídias com perfis pró ximos aos conceitos
de meio de comunicação alternativo utilizados pe lo s autores adotados na fundamentação teórica.
Deste m odo, estabeleceu-se um desenho metodológic o misto direcionado aos t rês níveis do processo
midiático: produção (entrevistas aos meios de comunicação e observação da atividade jornalística
através da etnografia), conteúdo (análise dos cont eúdos das páginas do Facebook através da etnografia
virtual) e recep ção ( entrevistas ao público).
Abordagem
etnográfica virtual
Produção
Conteúdo
Recepção
Entrevistas com
produtores das mídias
e etnografia nas
redações das mídias
Etnografia virtual no
Facebook
Entrevistas a o
público
Tabela 1: Abordagem etnográfica adotada para a pesquisa
114
5.5.1 Objetos
As mídias alternativas s elecionadas são:
Mídia NINJA
e
Jornalistas Livres
(Brasil);
El Salto Diario
e
Contexto y Acción
(
CTXT
) (Espanha);
Fumaça
e
Guilhotina.info
(Portugal). Esses objetos foram
escolhidos para a nálise, em primeiro, po r serem classificados como mídias alternativas, ativistas, de
conteúdos críticos, independentes, sem comprometimentos com Estado, governos ou empresas,
portanto, buscam novas formas de produção e dis tribuição da informação através da lógica
colaborativa; abrem-se à p articipação e à cooperaçã o do público , receben do críticas, comentários,
opiniões , gostos e partilhas de conteúdos. Além di sso, procuram seguir o vi és da comunicação
democrática, defendendo caus as identitárias e de dir eitos h umanos. Em segundo, por focarem suas
temáticas mais especifi camente e m t emas políticos. Terceir o, por lançarem mão de vias tecnológicas
para chega r ao público e por manterem páginas do Facebook (e outras redes sociais) com intensas
movimentações de público e de postagens.
As definições das mídias são representações prod uzidas pelos próprios mei os de com unicação
retirados da secção “Sobre” dos perf is do Facebook e sites, que consiste no modo como os meios de
comunicação constroem características e identidades.
Mídia NINJA
(Narrativas Independentes, Jornalismo e Açã o) descreve- se no Facebook como “uma rede
de com unicadores que pro duzem e distribuem inform ação em movimen to, agindo e comunicando”.
Como uma Organ ização sem fi ns lucrativos, apostam na “lógica colaborativa de criação e
compartilhamento de conteúdos, característic a da sociedade em rede, para realizar reportag ens,
documentários e in vestiga ções no Brasil e no mundo”.
A respeito d os tema s, a
Mídia NINJA
revela que as paut as estão na luta social e na articulação da s
transformações culturais, políticas, econômicas e ambientais.
No que concerne ao fato de utilizarem as novas t ecnologias como modelo de produção e distribuição
de con teúdos, a
Mídia N INJA
diz que a internet mudou o jor nalismo e eles fazem parte dessa
transformação. “ Vivemos uma cultura
peer
to peer
(P2P), q ue permite a troca de informações diretas
entre as pessoas, sem a presença dos velhos intermediários. Novas tecnologias e novas aplicações têm
permitido o surgimento de novos espaços para troca s, no s quais as pes soas não só recebem , mas
também produzem informações ”, segundo descrição no Facebook .
A
Mídia NINJA
foi fundada em 2013 e ganhou repercussão internacional na transmiss ão em direto via
smartphones
dos protestos no Brasil em 2013.
115
Jornalistas Livres
é uma mídia alternativa em defesa da Democracia, da C ultura, dos Direitos Humanos
e da s Conq uistas Sociai s, com o auto declaram - se . Definem- se como uma empresa de mídia/notícia e
uma comunidade.
O
Jornalistas Livres
foi criado em 12 de m arço de 20 15 e é uma rede de coletivos originada de
profissionais d e jornalism o ou de o utras profissões que at ua em contraponto ao modelo de
pensamen to e ação do jor nalismo praticado pela mí dia tradicional. O meio at ua em todos os
social
media
.
A
El Salto
é uma revista mensal espanhola que sur giu em 2017, sem financiament o de empresas ,
democrático, descentralizado e de propriedade coletiva, ou seja, é uma cooperativa.
El Salto
é um meio
de com unicação que toma su as próprias deci sõe s dentro de três linhas: financiamento ético,
democracia interna e q ualidade jorn alística, de acor do com descri ção present e no site.
El Salto
é
composto por oito projetos territoriais (Andaluzia, Extremadura, País Valencia, País Basco, Gal ícia,
Hordago, La Rioja e Madrid) que possuem sites e administrações diferentes. Trata -se de um a mídia
que p ublica uma revista em papel com text os mais analíticos, s eguindo os preceitos jornalísticos, e
possui pág ina da Web com conteúdos factuais, bem com o toda s as redes sociais. O projeto de
El Salto
nasceu como uma continuação da
Diagonal
com o intu ito de ch egar a m ais pessoas e de melhorar as
condições de trabalho.
Contexto y Acción (CTXT )
declara-se com o jorn al e empresa de mídia que pratica jornalismo liv re e de
serviço público. E define-se como um “ m eio de comunicação independen te e crítico fun dado po r
jornalistas c om experiência em grandes m ídias europeias”.
CTXT
busca promover o debat e de ideias
com um ritmo pausado e an alítico . O lema da mídia é “
Contexto y Acción
porque queremos ajudar a
que as pessoas formem um critério próprio e que atuem de forma res ponsável” .
Contexto y Acción
é
uma revista/semanário funda da em janeiro de 2015 por 14 jornalistas de grandes jornais europeus
como
El País
,
El Mundo
e
La Rep ubblica
, que b uscam exercer um jo rnalismo livre , sem ser vidão a
interess e s políticos, edito riais ou com erciais. O objetivo é fornecer contexto polí tico e econômico às
notícias mais rele vantes, antecipar as g randes questões que definirão a agenda de notícias, estimular a
cultura e a criação e promo ver o debat e de id eias. O s v alores da mídia estão à volt a da pluralidade, da
democracia e da prática de uma imprensa verda deiramente livr e. A mídia atua no Facebook,
In s tag ram, Twitter, YouTube e possui s ite.
Fumaça
é “jorn alismo in dependente, pr ogressista e dis sidente, segu ndo a descrição no Facebook”.
“
Fumaça
é um projeto de mídia independen te, onde se fala sobre a sociedade com quem quer falar
sobre ela. Pr ocuram os dar voz a quem n ão a tem e escrutinar os assuntos aos quai s n ão é dado
116
espaço pelos media tradicionais”, segundo descrição presente no Facebook.
O
Fumaça
é um órgão de
comunicação social que aposta no jornalismo de investigação em áudio, feito com profundidade e
tempo para pensar.
Assumem- se
como um “meio de contra -poder porque querem questionar as
decisões t omadas, responsabilizar quem as toma e e scrutinar as pessoas que mandam e atuam no
sistema político- partidário”. O
Fumaça
at ua no Facebook, no Instagram, no Twitter e possui um site.
Produzem entrevistas, artigos e podcasts.
Já a
Guilhotina.info
declara- se com o “ Notícias independentes em Po rtuguês e Inglês ”. É um coletivo de
informação independente anticapitalista. A
Guilhotina.in fo
luta para “ ajudar a encontrar o caminho para
um m undo justo po r entre histórias de v itórias e derrotas, verdades e mentiras – e as l ições que estas
têm para aqueles e aquelas que estão fartos de viver no fim dos tempos e quere m de novo o fu turo”,
conforme relatam no perfil do Facebook.
Guilhotina.info
é um coletivo de in fo rmação in dependente
nascido em 15 de setembro de 2013, a dat a da sua primeira publicação. É com p osto por
revolucionários e revolucionárias que partilham a luta contra o capitalismo. A mídia alt ernativa atua no
Facebook, no Instagram, no Twitter e possui site. Em todas as plataformas produzem text os analíticos
em português e em inglês . A Tabela 2 indica o alcance das mídias no Facebook.
Mídias
Número de
seguidores
Número de
curtidas
Mídia NINJA
2.337.828
2.206.675
Jornalistas Livres
1.366.477
1.226.268
El Salto
193.398
186.719
Contexto y Acción
64.691
61.765
Fumaça
32.751
31.634
Guilhotina.info
29.313
28.595
Tabela 2: Números de seguidores e cu rtidas das págin as do Facebook das mídias em novembro de
2020.
5.5.2 Produção
A produção midiática foi investigada por meio das entrevistas aos produtores das m ídias selecionadas e
da observação participante realizada nas redações desses meios de comunicação .
As entrevistas aos integrantes dos meio s de comunicação foram executadas em s uas sedes,
juntamente com a observação participante da produção midiática , exceto no caso d o
CTXT
que, em
razão da pandemia de Covi d -19, tive de ser realizadas através da plataforma de reu niões e convers a s
online Skype. As entrevistas com a
El Sa lto
foram feitas de modo presencial porque o delocamento a
117
Madrid foi possív el em outubro e novembro de 202 1, oportunidade em que também foram realizadas
as visitas às redações das mídias espanholas.
Durante as visitas às sedes dos meios de comunicação, procurou -se observar como está setorizada a
redação; como os produtores, designers, fot ógrafos traba lham ; co mo se organizam dentro do espaço;
se realizam reuniões e quantas por dia; qual o planejamento mens al e diário ; o que conversam;
quantos m embros ficam na redaçã o e quantos são repórteres de rua ; como t odos interagem e como
estão divididos nas fun çõe s.
A re dação da
Mídia NI NJA
que foi visita da no dia 3 de setembro de 2018 (há outras em outros estados
do Brasil) fica no centro da cidade de São Paulo. O espaço, que é pequen o, está dividido entre sala de
reuniões, sala de fotografia e uma sala grande com dois a ndares o nde ficam os designer s na parte de
cima e uma recepção na parte de baix o. O s produtores costumam ficar na sala de reuniões. O s
cômodos estão situados em um andar de um p rédio comercial. A primeira impressão ao entrar foi de
ser um espaço sem identidade. Há apenas a imagem de um ninja na recepção e alguns carta zes de
projetos e de documentários realizados pela
Mídia NINJA
. Estive à espera de uma das produtoras para
entrevistá-la. Realizei a entrevista e fui passear po r t odos os cômodos. Obtive permis são para fot ografar
todos os espaços e interagi r com todos que estavam nas salas a trabalhar . A observação foi feita de
modo a não interromper o trabalho na redaçã o e, portanto, propositadamente, observar em silêncio as
produções que e stavam sendo feitas d urante as h oras que fiquei no lugar. Na sal a dos fotógrafos havia
dois ca rtazes feitos com papel carto lina com programações da s publicações e agenda, além de um
organograma do funcionamento de todos os setores da
Mídia NINJA
.
O
Jornalistas Livres
não possui redação, assim, a observação constituiu- se em acompanhar os
trabalhos da equ ipe nas ru as. Fui a uma m anifestação política no Mercado da Lapa (mercado popular
da cidade de São Paulo) chamada de “Lulaço”, em 1 de setembro de 2018, em defesa da soltu ra do
ex -presidente do Brasil, Luiz I nácio Lula da Sil va, onde havia uma banda de m úsica e pessoas a
gritarem “Lula Livre”. Lá a produtora do
Jornalistas L ivres
, Laura Capr iglione, e ntrevistou pessoas e
mostrou imagens em transmissão ao vivo para o Facebook d a mídia. Acompanhe i todo o percurs o do
ato dentro do mercado e estive ao lado da jornalista tirando fotografias e observ ando o seu t rabalho.
Outro momento em que acompanhei o trabalho dos
Jornalistas Livres
foi em uma manifestação em
defesa das lésbicas na Ave nida Paulista, São Paulo, em 29 de ag osto de 2018. A produtora Martha
Raquel, além de ajudar a organizar o at o, realizou a cobert ura pelo
Jornalistas Livres
. Ela fez
transmissão ao vivo de t odos os momentos da manifestação . Acompanhei uma parte do t rajeto tirando
fotografias e observando o trabalho da jornalista.
118
A redação de
CTXT
está sediada no Centro de Madrid, na
Calle Juan de Austria
, uma oficina cham ada
El Taller de CTXT
. É um espaço único no rés do chão com mesas para reunião e de trabalho e um
pequen o balcão. Na parte de baixo está um esp aço onde se realizam as oficinas, workshops,
concertos, e outros eventos, bem com o para receber os subscritores – por is so criou-se um espaço
físico. Encontrei, no dia 13 de outubro de 2021, no pó s -pandemia, a reda ção vazi a. Havia apenas d uas
pessoas, o s jornalistas Miguel Mora, um dos fundadores de
CTXT
, e a jornalista Mónica Andrade. Os
membros da m ídia estavam em teletrabalho desde março de 2020. A penas a partir de outub ro de
2021 é que voltaram, ao s poucos, a t raba lhar na redação. Cheguei às 12h e conversei com os dois
jornalistas. Também visitei a redação nos dias 14 e 18 de outubro de 2 021. No segundo dia, fui à
redação para fotografar e conversar com outras pessoas e no terceiro para observar e fotog rafar uma
entrevista com o c ineasta F ernando León de A ranona. Miguel mostrou-me o pr ograma que utilizam
para publicação, o
News Coop
, e como publicam, bem como o cronograma de publi cações para 15
dias e a transparência da mídia – tabelas com as receitas e despesas mensais e anuais.
A redação da
El Salto
está situada no bairro de B ela Vista,
Calle Matilde Her nández
, em Madrid, em
um prédio residencial. Cerca de 25 pes soas trabalha m na sede , que está dividi da e m quatro salas:
uma delas onde t rabalham os jornalis tas diariamente, uma qu e foi t ransformada em estúdio de
gravação dos conteúdos audiovisu ai s, uma terceira qu e está a funcionar com o sala de reuniões e que
passará a abrigar cursos e oficinas q ue a mídia realiz a , e u ma qu arta que opera com o arrecadação. A
redação atual está nes sa morada desde 2020, antes estava localizada em outro endereço. Estive na
sede de
El Salto
no dia 25 de o utubro de 2021 pa r a entrevistar o re sponsável pelas redes sociais,
Olmo González; e no dia 26 de outubro de 2021, para entrevis tar o ed itor de cultura Jose Durán e para
fotografar os espaços. No segundo dia, os jornalistas estavam a preparar embal agens para envio das
revistas às casas dos subscritores. Havia apenas doi s jornalistas a trabalhar ao computador. Somente
El Salto
Madrid possui espaço físico. Os outros núcleos territoriais de
El Salto
(Andaluzia, Ex tremadura,
País Valencia, Galícia, Hordago e La Rioja) não possuem sedes.
A redação do
Fumaça
está localiz ada no Bairro Alto, centro de Li sboa. Cheguei a o local na manhã do
dia 29 de novembro de 2019, antes de e les começarem a trabalh ar, acabei p or chegar junto com
Pedro Sa ntos, edito r do
Fumaça
. En tramos e ficamos a conversar sobre a pesquisa. O espaço é
pequen o e é dividido com um coletivo. O
Fumaça
possui apenas uma mesa em que os q ue t rabalham
todos os dias na redação acomodam -se, mas que serve tam bém para as reuniões. Há uma casa de
banho e um espaço onde acontecem a s produções das bandas sonoras e dos áudi os para os podcasts.
Comecei por en trevistar Pedro San tos en quanto as outra s pe ssoas da equi pe chegavam . Depois
119
entrevistei Ricardo Ribeiro, produtor do
Fumaça
. A seguir, fiquei sentada à mesa com eles observando
o que faziam. Ricardo estava a prep arar um disc urso para a cerimônia de entrega d e um dos prêmios
de Jornalismo que o
Fumaça
ganhou. Ele foi receber o pr êmio em nome do
Fumaça
. Depois Pedro o
ajudou a editar o discurs o. Enquanto isso, todos convers avam s obre as tarefas que tinham a fazer
naquele dia e o que estava em andamento ou não. Reuniram-se para tratar das questões pe ndentes.
Depois chegou o produtor das bandas sonoras e dos áudios. Estive também a observar o trabalho dele.
Guilhotina.info
não possui sede e nem costuma realizar coberturas de at os, manifestações ou fatos na
rua. Os membros, que sã o voluntários, escre vem os textos de casa e as reuniões são realizadas por
chat.
A presente pe squisa adot ou, como técnica de recolha de dados, a observação
in loco
das at ividades
jornalísticas das mídias alternativas estudadas , um dos principais i nstrumentos da pesqu isa qualitat iva.
“ Particularmente na pesqui sa sobre os contextos concretos do uso da m ídia, uma avaliação dos pontos
fortes de observação e entr evista, dependendo do propósito de estudo é, port anto, essen cial” ( Jensen,
2002 , p. 161). A observação participante permite produzir uma análise detalhada da mídia em um
local específico ( Je nsen, 20 02 ).
De acordo com Jensen (20 02 ), exi stem dificuldades de verificar a natureza de uma amostra contat ada
no ‘ciberes paço’ . No entanto, a recolha de dados onlin e é a mais apropri ad a para estudar interação
online ou comu nidades o nline; com o t al, “ metodologia s tradicionais, como observação e entrevista ,
assumem um novo significado em um grupo de notícias ou sala de bat e -papo, e mistura-se com a
análise de conteú do ou disc urso ” ( p. 183 ).
Nesta observação, analis a mos como é o trabalho di ário das mídias, como t ratam os temas, como
decidem pautas, com estão estruturadas suas sedes, quantos profissionais existe m e como se dividem ,
com quais equipamentos trabalham, como é a organização d o tempo e o que produzem por dia; alé m
do que fazem fora das redações e no ciberespaço e como se dá a gestão dos recursos.
A obser vação
in loco
foi realizada concomitantemente às en trevistas aos produtores das mídias.
Utilizamos um diário de campo (Anexo 5 ) que narrou todo s os aspectos da observação à produção
midiática. A Tabela 3 mostra a metodologia empregada na anális e da produção m idiática.
120
Produção
Abordagem
Método
Técnica de
recolha
Técnica de
análise
Etnografia
Qualitativo
Entrevista
Análise de
conteúdo
Etnografia
Qualitativo
Observação
participante
Tabela 3: Resumo da metodologia utilizada na anális e da produção midiát ica.
5.5.3 Conteúdo
A fase seguinte à produção foi a observação das peça s pub licadas pelas mídias alternativas em suas
páginas do Facebook para identificar con teúdo s que respondessem em q ue medida os meios de
comunicação alternativos criticam as políticas atuais neoliberais, por meio da etnografia virtual. A
observação foi realizada durante os meses de abril, maio e junho de 2020.
Analisamos n estes
posts
se as mídia s criticaram governos, políticos ou medidas/leis; como foi
produzida a crít ica (que t ipo de peça); qual a repercussão das publicações junto ao público; palavras
utilizadas, teor e contexto nas publicações do Facebook, como t ambém dos comentários, gostos,
partilhas e avaliações do público. Utilizamos a a nálise de conteúdo para avaliar o contexto. As análises
foram interpretativa e descritiva.
A análise dos
posts
teve e m conta os critérios do co nceito de Enquadramento Noticioso ou
Framing
(Goffman, 1974) adotad os por Kitzinger (2007): de onde vêm e como são os enquadramentos e como
podem ser detect ados; seleção e modelage m dos relatos; com o e a quem a cr ítica é apres entada;
quem são os agentes; como as mídias representam as minorias; como é definido e em que mão s está
o problema; quem são os responsáveis; qual o t om do discurso; e quais as soluçõ es propostas. No que
concerne à análise text ual, foram avaliadas as imagens usadas, o tipo de linguage m usada, rótulos e
definições empregadas, explanações oferecidas, na rrativa estruturada, contextualização e links,
associações históricas envolvidas, apelos emocionais, convidado s a comentar e introdução dos
oradores, descrição dos personagens, posicioname ntos e denúncias. A Tabela 4 apresenta um resumo
do desenho metodológico utilizado n a análise da observação.
121
Conteúdo
Período
Abordagem
Técnica de
recolha
Período
Técnica de
análise
Maio a
Junho de
2020
Etnografia
virtual
Observação
das páginas
das mídias no
Facebook
Abril a Junho
de 2020
Análise de
conteúdo de
todas as
publicações
(textos, fotos,
vídeos, memes,
etc.)
Tabela 4: Resumo da metodologia utilizada na anális e da observação.
As peças publicadas no Facebook das mídias foram con tabilizadas assim: total 3.938
posts
da
Mídia
NINJA
, 4.5 29 do
Jornalistas Livres
, 2.266 da
El Salto Diario
, 491 do
Contexto y Acción
, 10 2 do
Fumaça
e 91 da
Guilhotina.info
. Do total, foram analisados 370 da
Mídia NINJA
, 130 do
Jornalistas
Livres
, 61 da
El Salto
, 39 d o
CTXT
, 19 do
Fumaça
e 2 6 da
Guilhotina.info
, destes uma am ostra menor
foi utilizada como exemplos. A Tabela 5 exibe os números de
posts
recolhidos e analisados.
Posts
analisados
Número total de posts
Mídia NINJA
370
3.938
Jornalistas
Livres
130
4.529
El Salto Diario
61
2.266
Contexto y
Acción
39
491
Fumaça
19
102
Guilhotina.info
26
91
Tabela 5: Número de posts recolhidos e analis ados .
O guião de entrevistas (Anexo 1) e as grelhas (Anexo 2), que serviram de parâmet ro para a observação,
foram baseados no Enquad ramento Noticioso de Kitzinger (2007). De acordo com es sa pers pect iva, a
mídia u tiliza de certas palavras, ideias, expr essões, adjetivos que promovem um enquadramento (algo
128
telecomunic
ações
Xose Seren
X
47
Masculino
Professor e
editor
Espanhol/
Galego
Esquerda
Laura Yustas
X
29
Feminino
Produtora
de
conteúdos
digitais
Espanhola
Esquerda
Lola Ordonês
X
49
Feminino
Responsáve
l por
antendimen
to ao
cliente
Espanhola
Esquerda
Lourdes
Uquillas
X
58
Feminino
Jornalista
Espanhola
Defensora
do meio
ambiente
Luis Belda
X
45
Masculino
Professor
Espanhol
Esquerda
María Matres
X
39
Feminino
Professora
de Inglês
Espanhola
Esquerda
socialista
Manuel Vilar
X
52
Masculino
Criador de
conteúdos
digitais
Espanhol
Anarquist
a
José María
Madariaga
X
49
Masculino
Professor
Espanhol
Esquerda
Raquel
Miragaia
X
45
Feminino
Professora
Espanhola
Esquerda
soberanist
a
Raul Ortega
X
34
Masculino
Artista
Espanhol
Anarquist
a
Tabela 8: Perfil dos entrevistados.
129
5.7 Técnica de análise
A anális e de conteúdo foi a técnica u tilizada na pesquisa para a avaliação dos dados re colhidos, tanto
nas e ntrevistas ao p úblico e ao s produtores de mídia, c omo na observação dos t ext os publicados pelos
meios alternativos. M etodologias qualitativas são aplicadas em pesquisa de m ídia e comunicaçã o “ para
estudar o público e o co nteúdo da mídia, e o fazem exam inando associações entre variáveis ou
relações de causa e efeito” ( Gunter, 2002, p. 234).
Portanto, nes te trabalho, e legemos a anális e de conteúdo na cat egoria de análises temát icas qu e
revelam as representações sociais a part ir de um exame de certos elementos cons titutivos . Ass im,
avaliamos “ significantes ” ( análise lexical, análise dos procedimentos) (Bardin, 2011), empregando
pr ocedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens . No modelo de
análise apli cado observamo s as condições de produção (ou, even tualmente, de recepção) da s mídias,
levando-se em conta os objetivos pré-e stabelecidos pela pesquisa. No caso da recepção, recorremos
aos comentários no F acebo ok para chega rmos a conclu sões sobre a criticidade dos textos.
Deste modo , a investigação segui u os passos das interferências com base numa identificação
sistemática e objetiva qu e são característica s específicas das mensagens, confor me nos oferece Holsti
(1968).
Na et apa de exploração do material recolhido na s entrevistas e na observação participante no
Facebook foi realizada a an álise textual, que bu sca compreender cada conteúdo a partir de cada fr a se
ou palavras encontradas nos text os selecionadas como importantes, segundo o s o bjetivos da pesquisa.
Do ponto de vista de sua execução, a análise t extual exig iu repetiçõe s até se esgotar a seleção das
frases e pala vras significat ivas. A ssim, averiguamos n umericamente a frequênc ia de ocorrência de
determinados termos, construções e referências nos text os.
As avaliações foram centradas na escolha das pautas e finalização dos textos – que fazem parte das
rotinas de produção-aut o-entendimento dos produtore s de conteúdo (percebido por eles própr ios e por
terceiros) e o olhar externo do pesquisador, além da percep ção sobre as particularidades de cada
mídia.
O t ratamento dos dados f oi fe ito levando-se em conta os asp ectos apontados por Koz inets ( 2010):
linguagem, normas e símbolos espe cí ficos encontrados nas publicações do Facebook.
No que concerne aos motivos pelos quais utilizamos a análise de conteúdo, em p rimeiro lugar, como
realizamos um estudo de comunicação, mais especificamente de mídias, e suas atuações no que diz
respeito à produção jornalística, coube n e sta pes q uisa a anális e de conteúdo como técnica de análise
130
de dados, que parte de uma pers pectiva qualitativa. A técnica foi utilizada par a a descrição objetiva,
sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações ( Berelson, 19 52).
Embora uma vasta gama de comunicações possa ser considerada como estando sob a rubrica de
‘política’, esta discussão da aplicação da anális e de conteúdo incidi u sobre signifi cados tradicionais do
termo, in clusive de processos políticos formais, como notícias sobre política e editorialização política,
com uso das definições d e análise de conteúdo e s ua aplicação na política da comunicação de
Neuen dor f e Kumar (2015). Assim, a análise sis t emática de conteúdo foi usa da para estudar
semelhanças e diferenças e como eles se rel acio nam com as diferenças de mídia e sistemas políticos.
A análise de conteúdo é frequentemente o m étodo de primeir a escolha em estudos de enquadramento,
que é o caso de sta pesq uisa que i nvestiga o enquadramento noticioso das m ídias alternativas.
Neuen dor f e Kumar ( 2015) obs ervam que a anális e de conteúdo é utilizada para explicar como as
questões políticas complexas são apresentad as e embaladas em formas ace ssíveis ou como ‘grupos de
mensagens’ (is to é, quadros de notícias). Outra aplic ação da análise de conteú do de que lançamos
mão é o estudo de como meios online
promovem um senso de envolvimento comunitário e cívico.
Bardin (2011) apresen ta a análise de conteúdo como um conjun to de instrumentos m etodológicos
cada vez mais sutis em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a "discurs os" (conteúdos e
continentes) ext remamente divers ificados. O a utor revela que o fator comum dess a s técnicas múltiplas
e multiplicadas - desde o cálcu lo de frequên cia s q ue fornece dados cifr ados , at é a extração de
estruturas traduzíveis em modelos - é uma hermenêutica controlada, baseada na dedução: a
inferência. Enq uanto esforço de interpretação, a análise de conteúdo oscila entre os dois polos do rigor
da objetividade e da subjetividade e pode ser conceit uada como um a análise das comunicações
(Bardin, 2011).
5.8 Implementação da pesquisa
O desenho metodológico prev ia aná lises baseadas em t rês momentos da pes quisa: prod ução,
conteúdo e recepção. O conteúdo diz respeito às publicações dos meios de comunicação alternativos
no Facebook, em que a recolha foi realizada entre março e junho de 2020. Os
posts
críticos foram
selecionados p o r meio de palavras-chave a part ir do universo definido pelo tempo e pela rede social.
Concernen te à produção ( midiática), foi através da recolha dos
posts
e das en trevistas realizadas com
os produtores da s mídias que realizamos as análi ses, no que se refere ao s enquadramentos, format os,
linguagem e estratégias.
131
As pes quisas de campo abra ngeram não apenas as entrevistas ao s produt ores dos meios de
comunicação, mas tam bém visitas às suas redaçõe s, q ue resultaram em diários de campo, bem como
observação da produção midiática
in loco
. Assim, foram realizadas visitas à redação da
Mídia NINJA
,
localizada no C entro de São Paulo; do
Contexto y Acción
, situada no bairro Chamberí, em Madrid; da
El
Salto
, que está no bairro B ela Vista, em Ma drid; e do
Fumaça
, localizada no Bairro Alto, em Lisboa.
Nem o
Jornalistas Livres
nem a
Guilhotina.in fo
possuem s edes, com o dissemos. Observamos também
uma atividade do
CTXT
: entrevista com o cineasta Fer nando León de Aranona, realizada no dia 18 de
outubro de 2021, na se de d a mídia.
A respeito do
Jornalistas Livres
, foi possível observar duas coberturas de manifestaç ões políticas: um
ato político pró Lula Livre, realizado no Mercado Municipal de São Paulo e um movimento em defesa
das lésbicas na Avenida Paulista, em São Paulo.
No entanto, em virtude da pandemia do novo c oronavírus, a s entrevistas com o público espa nhol e
com um dos m eios de co municação da Espanha foram realiz adas de modo onl ine - via Skype – . No
entanto, a entrevista com a
El Salto
realizou-se in loco, em outubro de 2021. Na ocasião, visitamos as
redações dos meios espanhóis.
O planejamento da pesquisa de campo previa vi sitas a todas as mídias que possuem redações físicas,
bem com o observar a atuação delas em pautas extern as, porém, não houve agen da da
Mídia NINJA
du rante a pesquis a de campo no Brasil, bem com o n ão h avia produção externa do
Fumaça
e nem da
Guilhotina.info
, no momento da pesquisa de campo em Portugal. O
Fumaça
realiza investiga ções e
entrevistas, mas a atividade do dia a dia é produzida ma ioritariamente na redação.
5.9 Preparação dos dados
Os dados recolhidos (transcrições e áudios das ent r evistas; documentos com a lista de todas as
publicações das mídia s est udadas realizadas em maio , junho e julho de 2020) foram importados para
o software N Vivo que gerou nuvens de palavras, associaçã o de palavr as em todos os doc umentos,
percentual de utilização de palavras-ch ave (pol ítica, Bolsonaro, presidente, gover no, crise, população,
Sanchéz, saúde, educação, direi tos, neoliberalis mo , capitalismo, capi tal, trabalhador, racismo,
violência, Portugal, empresas, derecha, crisis, gobierno, denuncia, Antón io Costa, Marcelo Rebelo,
previdên cia, eco nomia, coronavírus).
Contudo, o software de an álise qualitat iva NVivo foi utilizado apenas para orga nizar os
posts
: número
de publicações de cada meio de co municação, quantos foram críticos e quantos empregaram as
palavras-chave que foram estabelecidas para detect ar, em primeiro p lano, o s julgam entos das mídias a
132
governos, partidos, medidas g overnamentais e sistema. Des te modo, foi p reciso t omar decisões a
respeito de quais palavra s -chave u sar. Essas decisões foram b aseadas na percepção do tipo de
publicação de cada meio e as repetições, compreensão adquir ida durante a observação e recolha dos
dados no Facebook, bem como por conhecer e acompanhar, desde antes da pesqu i sa, os t rabalhos
das mídias em ques tão.
O processo de análise constituiu-se, preliminarmente, na contagem de
posts
; a seguir, na eleição das
publicações críticas de ca da meio de comunicação. Os
posts
foram avaliados de acordo com as
definições e aspectos dos e nquadramentos de Kitzinge r (2007), com base na teoria d o Enquadramento
Noticioso (Goffman, 1974), como mencionamos.
Com base nos enquadramentos, foi po ssível eleger as pu blicações que foram utilizadas, embora tenha
sido necessário fazer u ma síntese dos
posts
porque o universo era amplo. As diferença s nos números
de
posts
entre as m ídias gerou o incoveniente de reduzir a am ostra de publicações utilizada no texto
final. A
Mídia NINJA
e o
Jor nalistas Livre s
po ssuem núm eros de p ublicações maiores do que o
Fumaça
e a
Guilhotina.in fo
, por sere m os meios de comunicação mais ativos das redes sociais.
Os com entários d as publica ções
foram utilizados no Ca pítulo 7 para il ustrar a interação da s audiências
com as mídias, através do uso de exemplos de memes, emojis, h ashtags e o teor dos comentários.
Quais publicações e quais com entários deveriam ser uti lizados também foram decisões que tivemos de
tomar durante as análises .
Por sua vez, a s transcrições das entrevi stas foram utilizadas de m odo a alicerçar as caract erísticas da
produção das mídias q ue iam sendo li st adas. Já no Ca pítulo 6, as entrevistas com os produtores foram
fundamentais para descrever os modelos de financiamento empregados pelos meios de comunicação,
bem com o para descrever campanhas, escolhas, futuro das mídias e espaço dos alternativos na
comunicação. Já as entrevis tas com o pú blico apoiaram a relação das mídias com as audiências em
termos financeir o s.
O Capítulo 7 utilizou quase que a totalidade d as entrevistas com as audiên cias para discorrer sobre o
consumo das mídias, os hábit os de leitura, as o piniões a respeito dos meios alternativos e dos seus
posicionamen tos, fake n ew s e comunicação digital. O s techos das entrevis tas aproveitados naquele
capítulo também foram decisões t omadas com a finalidade de selecionar o que melhor poderia
descrever as opiniões do público e diss ertar sobre s uas relações com as mídias.
133
5.10 Questões éticas
Duas que stões guiam as perguntas acerca da éti ca em etnografia virtual: “ fórun s online são
considerados p úblicos ou privados? O q ue constit ui ‘ consentimento informado ’ no ciberespaço? ”
(Kozinets , 2002, p. 35). A ética em etnografia virtual trata-se de respeitar a privacidade, a
confidenciali dade, a não ap ropriação de outras histórias pessoais e o u so do consentimento informado.
A escolha pela internet como meio de pes qui sa nos conduziu à utilização de recomendações éticas da
pesquisa online presentes no documento Internet Research: Ethical Guidelines 3.0 Association of
Internet Researchers, Unanimously approved by the Ass ociation of Internet Researchers (AoI R, 2019).
A fa cilidade de realizar e studos sociais no c iberespaço levanta questões ét icas e legais de tai s
pesquisas. O surgimento da Web 2.0 e e specialmente de sites com conteúdo g erado (por exemplo,
YouTube) e sites de redes sociais e o uso de aplicativos de
social me dia
nos telefones aumentaram
significativamente os desa fios à proteção da privacidade. “ A s informações s ão cada vez mais
partilhadas na rede de m odo público. É preciso, po rtanto, proteger essas trocas com o anônimas ou
pseudo-anônimas e / ou exigindo consent imento informad o para seu uso ” (IRE 2.0, 20 12, p. 14). O
consentimen to i nformado é a forma primária de prote ger as normas (deontológicas) de aut onomia e
igualdade.
Outra questão necessária é a proteção de dados. "Como os dados estão sen do gerenciados,
ar mazenados e repres e ntados?" (IRE 2.0, 2012, p. 9). As questões éticas envolvendo os dados passam
pela proteção , armazen amento e gerenciamento de “dados potencialmente sen síveis” ( IRE 2.0, 2012,
P. 9).
Esta pesquisa util iza o consentimento informado nas e n trevistas ao público. Na investiga ção online não
há entrevistas, mas utilizamos os com entários de
posts
do Facebook sem identifica r as pessoas, já que
é um dado não relevan te para a inves tigação. Através desta medida, evitamos a exposi ção do público
das mídias no Facebook, já que, normalmente, os co mentários são polêmicos e com posicionamentos
políticos bem marcados.
De acordo com as recomendações da Association of Internet Researchers, é importante desen volver e
articular questões de pesquis a, a fim de le var em consideração como o método e a ética sempre se
entrelaçam entre si - e provavelmente o farão ao longo do projeto de pesquisa. Nes te aspecto, a
inves tiga ção não utiliza, na coleta de dados, informações s ensíveis e pe ssoais e teve o cuidado de
garantir a privacidade e a dignidade dos suje itos.
Sobre os dados, de acordo com os regulamentos do AoIR, precisamos saber qu ando é permitido (se
houver) usar dados que, de outra forma, s eriam proi bidos de forma é tica e/ou legal por causa de
134
proteções de pr ivacidade das plataformas - mas foram tornados públicos dev ido a uma violação
acidental e/ou invasão intencional? E st e trabalh o utiliza dados colhidos de pág inas do Facebook das
mídias alternativas. Estes meios de comunicação fora m consultados e avi sados d esta pesquisa dura nte
as entrevistas. A investigaçã o us a os comentários feitos pelo público nas publicações das mídias,
porém, como já mencionamos, os nomes das pessoa s foram ocultados.
Para a recolha de dados u samos o aplicativo NVivo, qu e porventura pode col ocar o s vários conceitos de
privacidade e autonomia sob tens ão significativa , mas minimizamos o risco de q uaisquer violações de
privacidade e auton omia não divulgando in formações de confidencialidade. A identidade dos
entrevistados é revelada visto que as entrevistas e a divulgação de nomes e outros dados necessários à
pesquisa foram autorizadas através d a assinatura de um consentimento informado (Anexo 6) ,
respeitando o Código de Conduta Ética da Univers idade do Minho.
No que concerne à transparência e à explicabilidade, expli camos os fins , m eios e processos de
pensamen to que de senvolveram o código, o modelo e como os dados de pesquisa resultantes foram
modelados.
135
6 Capítulo 6
Pr oduç ão midiática alt ernativa
ste capítulo traz a primeira parte empírica do t rabalho que consiste na análise da produção
midiática avaliada através das peças publicadas no Facebook e das entrevistas com os
produtores. Com base no conceito de Enq uadramento Noticioso ou
Framing
, teoria da
comunicação formulada por Goffman (1974) , foram estabelecidos os critérios de análise, qu e
são: representação do t ema, produção e audiências , sendo que este último ponto será apresentado no
Capítulo 6 que dis co rrerá sobre a recepção aos conteúdos das mídias, conforme desenho metodológico
descrito no Capítulo 5.
6.1 Modelagem de re l atos da realidade
O principal crit ério utilizado na análise dos
posts
das mídias alternativas é a crítica. Os conceitos
revelam, na filos ofia, a crítica como análise e julgamento. A crítica como a nálise é a avaliação
sistemática sobre as condi ções e consequências de um conceito, de uma teoria ou disciplina, ou de
uma tentativa de compreen der seus limites e a validade (Kant, 2013). A crítica é um julgamento de
mérito moral, no c aso da produção midiát ica porque contempla uma conduta, e é característica dos
meios de comunicação alternativos, na medida em que es se tipo de mídia questiona a sociedade
dominante ( Att on, 20 02). As mídias alternativas digit ais costumam cons truir mensagens políticas
(Fuchs, 2011).
O ativismo é cara cterística comum a t odas as mídias e studadas. A crítica é o mais importante mote do
ativismo, portanto os meios de com unicaç ão alternativos promovem informação para ação (Atton,
2002). As críticas normal mente concentram-se nas políticas de direita, seja a partidos , g overnantes,
políticos, m embros do poder legislativo ou candidatos. O at ivismo nas rede s sociais é realizado não
apenas através das mensagens, mas também de alguns elementos que se t ornaram base da militância
virtual, a chamada lingu agem digital. Assim, as mídias alternativas utilizam hashtags ( Vesze lszk i,
2016), palavras de ordem, ch amamentos, vídeos, memes (Lankshear & Knobel, 2007) , ch arges e
divulgação de petições online. As hashtag
s
s ão usadas para tornar os conteúdos vis íveis e frequentes,
mas também para divulgar palavra s de ordem do ativismo, a exemplo dos motes utilizados nas
manifestações que são levados para a linguagem digital.
E
136
Os números de likes, partil has, comentários e vis ualizações dos
posts
do F acebook
revelam o alcance
dos meios de comunicação junto ao público, assim, podem ser considerados mecanismos de produção
e de controle da repercussão dos conteúdos. A
Mídia NINJA
e o
Jornalistas Livres
possuem mais likes e
partilhas porque são seguidos e vistos por u ma audiência maior, em virtude d o maior investimento
para obt enção de seguidores e leitores, at ravés da divulgação, da convergência de mídias e do at ivismo
(hashtags, formação de rede de colaboradores e uso d e frase s curtas, vídeos e memes); e por ser em
do Brasil, país com popula ção maior do que Espanha e Portugal
17
. Os números, que representam o
alcance das mídias, refere m-se às ações dos meios de com unicação para obt er audiências , mas
também ao contingente populacional. Portanto, a Espanha possui números que estão entre os do
Brasil e os de Portugal. No entanto, os comentários n ão seguem a mesma ló gica , mas dizem respeito
ao tema, ou seja, quanto mais polêmico for o post, mais as pessoas comentam.
De modo a mostrar as comparações entre os dados dos meios de comunicação estudado s, calculamos
as médias dos números de likes , partilhas e comentários. A Tabela 9 m ostra o número de likes das
páginas do Facebook em novembro de 2020 e o alcance das mídias (likes, partilhas e comentários).
Meios
Likes/Médias
Partilhas/Médias
Comentários/Médias
Nr de likes
da página
Mídia NINJA
422
211,39
174,53
2.206.675
Jornalistas Livres
383,44
333,32
274,12
1.226.268
El Salto Diario
117,96
105,69
10,75
186.719
Contexto y Acción
126,29
102,5
12,1
61.765
Fumaça
73,05
27,58
31,89
31.634
Guilhotina.info
71,1
80,26
13,25
28.595
Tabela 9: Dados retirados de posts do F acebook no período entre abril e junho de 2020; e números de
likes das págin as da s mídias em novembro de 2020 .
Os enquadramentos dos
posts
da
Mídia NINJA
vêm do ativismo. Trata -se de um meio de com unicação
de esquerda, portanto as críticas diretas e claras são dirigidas s obretudo à direita, na figura do
presidente Jair Bolson aro, e ao seu g overno. Por exe mplo, a postag em a segui r é uma crítica direta e
clara ao Ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles:
Ricardo Salles e sua estratégia de aproveitar o luto d e milhares de brasileiros e a crise pandêmica
para efetivar o plano de destruic a o e gana ncia foi esca ncarada em gravac a o da reunia o li berada pe lo
STF. O ministro do Meio Ambiente defendeu qu e o governo Bo lsonaro aproveitasse o foco da
imprensa na cobertura do novo coronavi rus para aprova r reformas "infralegais" de todos os tipos.
Para o mini stro, essa seria a hora de "passar a boiada”. A boiada parece já estar passando e e stá em
curso todo um plano de exter mi nio e degrada c a o do que a p ro pria pasta represe nta. Co nfira o qu e
17
O Brasil pos sui 212 milhões de habita ntes , enquanto a Espanha tem 45 milhões e Portugal, 11 milhões , aproximada mente.
137
pode ser entendido por " passar a boiada" se com parado às ações do p róprio governo.
#ninjaambie ntal #BoiadaNão VaiPassa r #PL2633NÃO #GrilagemNÃO #P LdaGrilagemNão
18
Os comentários apresentam críticas, legitimando a posição ideológica da
Mídia NINJA,
por meio da
utilização não apenas de palavras de desagrado, mas de hashtags
e emojis que expressam raiva e
nojo, que também se expõem no us o de maiúsculas para frases ou expressões.
Quem deveria proteger, quer a cabar com tudo m uito triste
Infelizmente não m e surpree nde vindo dessa “gen te”
FORA FASCIST A DO BRASIL. !!!!
Misericórdia ess e ministro não deve ter fam ília, só pensa no seu bolso ! !!
Não vejo a hora de passar é e ssa boiada aì do governo! Eles passarão !!!
#Boiada NãoVaiPassar #PL2633NÃO #Gr ilagemNÃO #PLda GrilagemNão
#ninjaambie ntal #BoiadaNão VaiPassa r #PL2633NÃO #GrilagemNÃO #P LdaGrilagemNão
#FORABOZO genoc ida câncer da nação
A cara desse tipinho, sempre aparece c om coisa ruim... o que me leva a conclu ir na cara desse c ara ,
o renascimento d um abortado .
A postagem da
Mídia NINJA
a seguir é típica do ativismo, pois contém palavras de ordem e c hamada
para a aç ão com a finalidade de fazer com que o público participe das mobiliz ações, além da
divulgação de um manifesto.
FEDERALIZAÇÃ O NÃO! Hoje é um dia importan te de mobiliz ação por Marielle e Anderson.
O Superior Tribunal de Justi ça vai votar se o caso deve s er f ederalizado e há uma ampla mobilização
contra essa medida. São 805 dias, 2 anos e 2 meses após o assassinato brutal e as i nvestigações
precisam avançar sem i nterfe rência de órgãos federais. Já há vários indícios de que o envolvimento
da família Bo lsonaro só poderia prejudicar o ava nço do caso. Se so me à mobilizaç ão contra a
federalização assinando o manifesto federalizacaonao.o rg e pressionando nas redes com a tag
#FederalizaçãoNao.
19
O
Jornalistas Livres
tem estrutura e ca racterísticas similares às da
Mídia NINJA,
ass im, é
também uma
mídia ativista e crít ica, cujas divulgação e dis seminação de informação são diri gidas ao público em
geral (Poell & van Dijck, 20 18). O s enquadramentos dos posts
do
Jornalistas Livres
vêm do ativismo de
esquerda. As críticas diret as e claras s ão fe itas ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e ao seu
governo, bem como à política de direita, partidos, governantes, políticos, membros do poder legislativo
ou candidato. No post ativi sta a seguir, a mídia critica o presidente brasileiro e ch ama para a ação,
através do uso da frase com teor apelativo: “já passou da hora de acordar desse pesadelo”.
18
Ver https://ww w.facebook.co m/MidiaNINJA/posts /1866436206847849
19
Ver https://ww w.facebook.co m/MidiaNINJA/photo s/a.16430870039395 0/1868295839995219
240
apresentam, às vezes, rea lidades qu e partem da definição da seleção de notícias a que es tam os
expostos” (Entrevista pessoal, 28 de julho, 2020).
Lola Ordônes co nsidera q ue algumas mídias conseguem ser credíveis, às vezes: “entre uma coisa e
outra eles colocam algo em você, eles te dão um p ouco de verdade com mui tas mentiras e você
acredita” (Entrevista pess oa l, 21 de julho, 2020).
Ana Isabel de Sousa tem muitas res ervas a respeito dos meios de comunicação. Sousa comenta:
posso confiar mais em u m j ornal que no outro. Conf io mais no
Expresso
do que no
Corr eio da Manhã
(...), mas também muitas vezes a primeira página do
Expre sso
é um p anfleto (...) hoje em dia para ler
a notícia é preciso muito cuid ado. Temos sempre qu e estar de pé atrás. Não t enho mui ta confiança
(...) hoje em dia oiço uma notícia sempre a pensar que aquilo p ode não ser bem assim (Ent revista
pessoal, 28 de novembro, 201 9)
Sousa sente-se incomodada com os posicionamentos políticos extremos da s mídias, quando esses
meios não esclarecem sua ideologia para o público:
Sim me incomod a pron to (...) quando nós vivíamos em ditadura (...) viv emos m uitos anos co m
partidos. Logo a seguir ao 25 de abril t ivemos coisas muito complicadas (...) de direita no Norte,
sobretudo depois foi um regime democráti co, mesmo onde a d ireit a também era d emocrática e agora
temos que confrontar com outras realidades e uma notícia para mim desse gênero irrita -me. (Sousa,
entrevista pesso al, 23 de novembro , 2019)
Rosanna Martins t ambém incomoda -se com os posicionamentos extremistas. A prof essora aponta que
as mídias esforçam-se para at acar o gover no, referindo -se ao Poder Executivo do Brasil, na figura do
presidente Jair Bolsonaro. Portanto, Martins não co ncorda com os po sicionamentos dos meios de
comunicação de esquer da, que criticam o gov erno.
eu não gosto. Não estou satisfeita com esse governo. (...) Mas eu percebo isso, existe muita pressão
né? Para que esse governo realmen te não dê certo. Só que eu penso também assim que ele é o
Presidente dos q ue gostam de le e dos que não go stam (Entrevista pesso al, 7 de agosto, 2 020)
Erick Martins declara que n ão g osta dos posicionamentos, mas “do jeito que a informação é espalhada
hoje em dia não sei se realmente há outra forma de o negócio da informação ser rentável se você não
recolher um público , m esmo que seja por ideologia, mesmo que esteja passando informa ção”
(Entrevista pessoal, 2 4 de outubro, 2018). Martins, que se considera mais próx imo da ideologia de
esquerda em razão de ser a esqu erda a preocupar-se com o social, lembra que as mídias precisam
dos acessos do público.
Já Catarina Caet ano costuma ler as m ídias de esquerda porqu e as abo rdagens v ão de ac ordo com o
que ela pensa. “Me smo qu e sejam assuntos (...) sobre a realidade do Brasil, e ntão podem s er
assuntos que eu não este ja a par (... ) Parecem -me bastante sensatos [os m eios de com unicação
241
alternativos] na abo rdagem”, indica a liv reira (Entrevista pess oal, 2 3 de novembro, 2019). Caetano
contenta-se com o conteúdo de uma mídia alternativa se vers a r sobre uma temát ica que l he interessa:
se for um assunto que me interessa, não vou a só um sítio. Vou a (...) outras fontes p ara
confirmar mas se for só u ma informação de algo que me surge no
feed
de notícias e que seja só uma
informação eu (...) posso só fi car com essa informação e nã o ir pes quisar. (Entrevista pesso al, 23 de
novembro, 201 9)
Sandra Tavares con sidera transparência a exposição dos posicionamentos políticos dos meios de
comunicação: “não tem nada de mal (...), por exemplo, toda gente sabe que a ideologia mais...
digamos assim, política do
Público
em com paração (...) com outro jornal, mas, nas mídias alternativas
acho que é muito importante ter essa trans parência” (E ntrevista pessoal, 6 de março, 2020).
Ana Caro acredita que cabe ao público interpretar as informações:
contrastando um com o outro, você lê as mesmas notícias em jornais que são completamente
opostos em ideo logia e não tem nada a ver c om o qu e um está lhe dizendo com o q ue out ro está lhe
dizendo, então realmente para saber o que acontec e você tem que ler, talvez, as d uas versões e obter
a sua verdade (E ntrevista pesso al, 5 de agosto, 2 020)
No entanto, Edson Ma rtins acredita que o pú b lico tem dificuldade de olhar criticamente para u m m eio
de comunicação, “mas o es paço é aberto para todos os tipos de mídias. Cabe ao lei tor saber discernir
a coisa”(Entrevis ta pessoal, 25 de setembro, 2018) . Edson Martins considera as mídias alt ernativas e
tradicionais tendenciosas. Para ele, “a pessoa que tá pesquisando é que tem que ter o discernimento e
o pensamento crítico e não se deixar i nfluenciar pelas mídias. Porque às vezes a mídia passa a ideia de
uma coisa que qu e r que o público siga”, explica (Entrevista pess oal, 25 de setembro, 2018).
Manuel Vilar ju lga que parte da imprensa alternativa que lê está intimamente ligada ao par ti do
Podemos. “Por isso é i nteressante t entar olhar mais l onge, (...) por que me interesso pela abordagem
da Cataluña, onde h á uma esqu erda, movimentos sociais mais fortes do que no resto do Estado”
(Entrevista pessoal, 12 de agosto, 2020). Contudo, o criador de conteúdos digitais opina que as
pessoas devem ler mais de um jornal para comparar as informações. A respeito dos meios alternativos,
Vilar diz que esses meios of erecem notícias, opinião e diversidade.
José María Madariaga crê que os posicion amentos tê m um efeito limita do pois os alternativos se
dirigem a públicos que já são pessoas q ue se identificam com suas ideologias. “Os receptores que
costumam ler meios alternativos já são pessoas que estão conscientes que vão buscar informações
que saem do s molde s que marcam os meios t radicionais”, completa o professor (Entrevista pessoal,
20 de agosto, 2020) .
Segundo Madariaga, os meios alternativos são meios voltad os à defesa das minorias, bem como se
dirigem às audiências q ue são bastante cativas, segundo Mada riaga. O professor discorre:
242
É muito raro que alguém de dire ita vá ler
El Salto
a não ser que alguém d e confiança mand e um
artigo para que a p essoa leia. Há pessoas de direita que vão aos meios alternativos para fazer
haters
,
mas eu não considero que se ja m leitores desses meios. Vão utilizar o es paço desse mei o alt ernativo
para canalizar a sua crítica. Isso acontece também nos m eios tradiciona is. Gente que comen ta para
criticar o meio . (Entrevista pessoal, 20 de agosto, 202 0)
8.3 Interação e participação
Nesta parte do capítulo, utilizamos os da dos recolh idos na observação das peças da s mídias no
Facebook, apresentando os comentários das audiência s nos
posts
– alguns já indicados no Capít ulo 6 -
, com o propósito de analisar como o público s e envo lve com o conteúdo deste meios num ambiente
de sociabilidade digital.
Os emojis (Ke rslake & Weg erif, 2017), figuras que re presentam as expre ssões na i nteração digit al, são
utilizados pelas a udiências para exprimir emoções/reações às postagens das mídias, com o formas de
interação e participação.
A demissão de Luiz Henrique Mandet ta do ministro da Saúde, de terminada de maneira irresponsáv el
por Jair Bolsonaro nes ta tarde em Brasília, re percutiu em vários â mbitos das redes socia is logo após o
anúncio do ago ra ex-comandante da pasta no Twitter confirmando a sa ída.
137
O comentário a seguir, que faz part e do post anterior, t raz as palmas que i ndicam concordância com o
conteúdo, ou seja, apoio à demissão do Minis tro da Saúde da época, Luiz Henrique Ma ndetta.
Fora Mandetta
O uso dos emojis pode ser literal, ou seja, s ubstitui uma palavra ou pode ser u ma repetição dela ou
algum termo que se relaciona com a palavra utili zada. O exemplo a seguir traz a figura de uma coroa
em substituição à palavra “rei”.
Mandetta não valia nada mas qua l o político que va le o rei os f ilhos do
No mesmo post, há outros com entários que criticam o ex -ministro da saúde e a g estão do governo do
presidente do Brasil, Jair Bolson aro, da crise sanitária provocada pela pandemia de Covid-19.
Man detta foi golpista c omo deputado federal do DEM ANT IGO PFL que sempr e ferrou o p roletariado e
o pobre..
#Somostodo sbolsonaro
volta pro estábu lo!...
Vida, SUS e Ci ência: palavras i ntoleráveis em a tual desgover no nacional!!! !
Maneira correta foi estádios e fu tebol q ue c onstruiu no lugar dos hos pital ela foi irresponsáve l
o.dinheiro que foi ga sto e roub ado na copa nos t eríamos leito s suficiente até e sobra
137
Ver https://ww w.facebook.co m/MidiaNINJA/posts /1825657757592361
243
As mídias alternativas também costumam utilizar emojis para ilustrar suas publicações. Durante a
pa ndemia de Covid-19, criou-se um emoji de um rosto com máscara, já que esse acessório passou a
fazer parte do dia a dia dos cidadãos. O post
que mostra um vídeo da at riz Nanda Costa a pedir que as
pessoas usem máscara traz o emoji citado:
Desinfeta ! Recado da @nandacosta e da @lanlanhofi cial.
😷 Use sua más cara (link na bio do @342 artes) #ForaDaqu i #cultura #ForaBolso naro
138
As publicações da
Mídia NINJA
e do
Jornalistas Livres
n ormalmente são alvos de críticas por part e do
público que possui ideologia contrária.
O post a seguir, que traz hashtags (V esze lszki, 2016 ) at ivistas contra o Presidente brasileiro
,
suscitou
uma opinião crítica à
Mídia NINJA
, utilizando u ma com paração rude.
Em sua coluna desta seman a, Juan M anuel P Domingue z traz entrevista com a deputada federal
Fernanda Mel chionna #DitaduraNun caMais #ForaBolso naroUrgente #Bolso naroNaCadeia
139
Mídia NINJA
vo cês pra mim não passa [sic] de vaso sa nitário.
As in júrias e as ofen sas são h abituais nos comen tários do público aos
posts
da
Mídia NINJA
e do
Jornalistas Livres
. Os discursos de ódio, at ravés do at aque, estão presentes nas publicações mais
polêmicas que tra zem críticas contunden tes ao s gove rnos, aos partidos, às medidas políticas, etc. Os
“internautas” costumam acess ar página s que não concordam para criticar.
O text o a seguir do
Jornalistas Livres
traz um comentário crítico ao Presidente brasileiro que util iza
termos ofensiv o s e ameaças.
Bolsonaro ame aça retirar 800 famílias das comunidades quilombolas de Al cântara no Maranhão.
Mesmo durante a pandemia, desgoverno faz mais malda des contra o povo bras ile iro.
140
Os comentários que suscitou exibem men ções ao f ascismo:
Isso é típico do fascismo que não tem nenh uma compaixão o u consideração pela v ida humana.
Esse presiden te de merda t em que paga[r] mui to caro pelo o q ele faz com povo Bolsonaro bandido.
No
post do
Jornalistas Livres
, que apresenta o noti ciário do canal argentino C5N a falar sob re o
presidente B olsonaro, os comentários são críticas aos eleitores do governante com uso de memes que
expressam espanto; mensag em de congrat ulações ao jornalista do canal argentino; mas tam bé m
comentário de apoio ao pre sidente. A publicação expõe também a hashtag “Fora Bols onaro”.
Além disso, há, nos come ntários, a utilização de memes: o primeiro com crític a a B olsonaro que é
considerado Capit ão cloroquina, em alusão à sua defesa ao uso do medicamento contra a Covid - 19; o
138
Ver https://ww w.facebook.co m/MidiaNINJA/posts /1826876790803791
139
Ver https://ww w.facebook.co m/MidiaNINJA/posts/182968251 7189885
140
Ver https://ww w.facebook.co m/jornalista slivres/posts/174018573 9438629
244
segundo, de apoio ao presidente. Os memes (Lankshear & Knobel, 2007) (Figuras 21 e 22), novos
gêneros midiáticos, são utilizados tanto pelos meios de comunicação para criticar, quanto pelo público
para levar humor aos
posts
que, muita s veze s, t ratam de temas sérios , assim como com o objetivo de
criticar.
Bolsonaro torna -se exemplo mundial de burrice, ignorância e insensatez no t rato da pandemia de
covid-19. # ForaBolsonaro
Veja como o canal argentino C 5N fala sobre o a ssassino que o cupa a Presidên cia do Brasil
141
Os comentários apresen ta m posicionamentos distintos:
Os eleitores dele têem um perfil, se irritam com facilidade, pess oas com opiniões diferen tes são vistas
como inimigos e não sabem a rgumentar, sem ofe nder as pess oas!
Parabéns ao j ornalista, exatamente isso infel izme nte, esta mos à mercê , que Deus nos proteja p ois é
o que nos res ta !
Respeite o nosso presidente, já está f azendo muito sim para o povo, só não faz mais porquê é
impedido por p essoas que qu erem a sua derrota.
Figura 21 : Meme utilizado como comentário em post do Jornalistas Livres de 18 de abril de 2020.
Figura 22 : Meme utilizado como comentário em post do Jornalis tas Livres de 18 d e abril de 2020.
Ainda sobre o uso de me mes, emojis e hasht ags, no
Jornalistas Livres
há, na publicação a seguir,
comentários que utilizam e mojis que expressam raiva e bênção, além de um m eme do ex -minis tro da
141
https://www. facebook.co m/jornalistaslivres/pos ts/1730102710446932
245
saúde Nelson T eich (Figura 23) com crítica à su a aparência. Há também críticas ao pres idente
Bolsonaro e à divulgaç ão da notícia pela mídia considerada como “terrorismo”, segundo um dos
comentários.
FINAL DO DIA E TRABALHAD ORES DE CEMI TÉRIO CONTIN UAM ABRIND O COVAS
Com a incapacidade dos governos Bolsonaro / Dória / Bruno Covas de reforçar o isolam ento soc ial,
trabalhadores do maior cemitério da América L ati na, em Sã o Paulo, passam o sábado int eiro abrindo
novas valas. O Se rviço Funerário da capital aumentou de 4 para 13 o núme ro de escavadeiras para o
serviço.
142
Os comentários evidenciam críticas:
O p ovo estão [si c] e m Brasília fazendo carreata para o Bolsonaro e enquanto isso quem tem
misericórdia de nós
Onde e stá a primeira dama e o mi to ? Deveriam visitar todos os hospitais . L evando a fil ha , 01,02,03
e 04.
Eu acho q não tem necessidade de fi car mostrando cenas c omo está isso tem um nome t errorismo
Tem q ue abri r msm , mu itos não podem pagar um crema tório ..Essa va i ser a realidade de muitos ,
terra na c ara p ara parar de tanta ignorância .O Bras il es tá certo e o mundo errado . É só uma
gripezinha ...
Deus t enha misericórdia daquela [sic] que estão seguindo o i solamento contra esses que brincam c a
vida , não va i ter dinheiro que pague vidas .
Figura 23 : Meme utilizado num comentário do post do Jornalistas Livres de 18 de abril de 2020.
A publicação a seguir apresenta uma série de hash tags utilizadas pelo público nos comentários para
reforçar o ativismo contra o presidente brasileiro, contra as medidas adotadas pelo governo e atitudes
antipopulares, bem como a favor da mobilização por direit os das minorias.
Bolsonaro fez um t otal de vários nadas para c ombater a propaga ção do novo coronavírus no Brasil.
Mas permanec e atuando para a realização de uma sequência de atrocidades em u m governo
absolutament e caótico, que trata com irresponsabilidade um país i nteiro #Fora Bolsonaro ! Tw eet
@thaynaraog
143
142
Ver https://ww w.facebook.co m/jornalista slivres/posts/172991260 0465943
143
Ver https://ww w.facebook.com/Mid iaNINJA/photos /a.164308700393950/1 858104307681039
246
#ForaBolso naroMourão
#Eleiçõesjá
Nós avisamos !!!!!!!!
#pagalogob olsonaro
#crivela geno cida
#bolsonaro piadamundial
#forab olsonaro
Na
El Sa lto
, os comentários normalmente são crít icos aos t ema s abordados, ma s há t ambém críticas
ao meio de comun icação. Nos exemplos a seguir, os j ulgamentos são ao fas cismo, ao popu lismo e ao
capitalismo, bem como à
El Salto
:
O governo demonstra uma e norme soberba ao despre zar a nova vaga de pobreza que está gera ndo a
crise do corona vírus. Por Man uel Cañada e Raf ael Juan
144
Comentários a seguir:
O populismo e o f ascismo se alimentam da ignorân cia. O po pulismo está em abu ndância e o f ascismo
coleta o descontentamento. Muitos de voc ês que comentam não distinguem subs í dio de uma rend a
vital. Que se vo cê defende as cores da sua fes ta com unhas e dentes, é assim que funcio na.
É um começo, a inércia p síqu ica pesa muito sobre os capitalistas obcecados com sua ilusã o triunfal
no final do sé culo XVII.
Todos go staríamos que a medida fo sse mais ambiciosa, m as para começar é m uito boa, em todo o
caso se o sa lto pretende ser u m meio solvente e credível, de ve, pelo menos, l er o BOE.
No post a seguir, há comentários críticos ao fila ntropismo, mas também ao meio de comunicação po r
oferecer a crítica ao capitalismo:
Filantrocapi talismo e Covid19 .
145
Os comentários trazem argumentações:
Agregar valor é oferecer soluções. É identificar as carências, os problemas e as p reocupaçõ es das
pessoas, com o o bjetivo de co ncentrar todos o s e sforços no bem comum.
Acho que o que esses bilionários fazem é muit o diferen te, embora se disfarçam de filan tropos, seu
objetivo é cor porativo e, como tal, restritivo, r epressivo e exp lorador.
Seja qual f or o ato, junte -se à crítica. Que azedo g ente daq u ele jornal. O capitalismo é o que é, ma s
pelo menos permite a ascensão social ... e ninguém pode negar isso. Nascer pobre para p od er
crescer.
Em 25 de abril de 2020, o
Fumaça
voltou a publicar entrevista realizada co m o jornalista Miguel
Carvalho, que gerou muitas críticas ao meio de com unicação, com destaque para a acusação de
aproveitamento político e tam bém com os juízos de valor: “publicação forçada e dem edida”; e
144
Ver https://ww w.facebook.co m/ElSaltoDiario/pos ts/10158014596860469
145
Ver https://ww w.facebook.co m/ElSaltoDiario/pos ts/10157799877375469
247
chamada de atenção: “Tenham juízo”. Todavia, há uma confirmação da veracidade do conteúdo
revelado pelo jornalis ta na e ntrevista.
Recorda aqui a entrevista que fizemos ao jornalista Miguel Carvalho, em novembro de 2017.
#25deab rilsempre
146
Comentários a seguir:
De acordo com os comentários, é tudo enviesamento, ma s há coincidências br utais entre o que o
Miguel Carvalho e xpõe e o que tantas vezes me foi rela tado por gente que v iveu o pós-25 de abril.
Só espero que haja alguém pr eparado para ouvir com alguma atenção a outra versão da história.
E vergonha na cara ? O Vasco Gonsalves [sic] era fascista? Tenham juizo. Não venham pa ra aqui lavar
a face do PC P e da extrema esq uerda.
Aproveitamen to polít ico nesta alt ura? Não. Publicação forçada e desmedida, tal c omo já foi re ferido
aqui.
Em publi cação polêmica do
Fumaça
, o artigo de opinião do jornalista Ricardo Ribeiro, p rodutor da
mídia, recebeu muitos comentários críticos à at uação do jornalista e do mei o com a utilização de
ofensas e i njúrias e questionamento ético do trabalho jornalístico. O meio de com unicação foi criticado
através do emprego de adjetivos, como: artigo manipula do, distorção da realidade , “gentinha”. Porém,
há palavras de apoio.
Artigo de opinião do Ricardo Esteves Rib eiro sobre o papel autoritário da PSP durante o despe jo ilegal
do Seara, em Lisbo a, na segu nda-feira.
147
Os comentários estão indicados abaixo:
Tr iste ver tantas pessoas nos comentários que colocam a lei acima da moral. Noutro tempo e lugar
teriam por c erto sido parte at iva no holocausto.
Obrigada pelo t eu empenho R icardo. Jo rnalismo independ ente é isto mes mo.
Nunca vi tanta disto rção da realidade num a rti go. Será que quem esc reveu o artigo tem alguma
ligação a uma das partes envo lvidas??? Será???
Notícia manipuladora. Lamentável. Uma co isa é a situa ção de pessoas se m ab rigo, out ra, é a
associação tê -los induzido a ocup arem um prédio em perigo de derrocada cujo já deveria t er sido
entaipado pela Protecção Civil. Se o p rédio cola psasse com gente dentro, a quem eram assacada s
culpas e qu em pagaria a feridos ou mortos? ! A Associaçã o? Os donos do p rédio? Os polícias? As
pessoas? Ev item este tipo de notícias, não são ét icas.
O e statuto de Jornalista não lhe permite te r parte activa na notícia. Se estava com um microfon e
durante uma alteração pública do lado dos prevaric adores é tão p revaricador como eles. Uma carteira
profissional dá-lhe di reitos e deveres e nenhum deles enquanto jorna lista é intervir nos factos.
146
Ver https://ww w.facebook.co m/fumacapt/po sts/2280861698 890461
147
Ver https://ww w.facebook.co m/fumacapt/po sts/2314078478902116
248
GENTINHA, será que a porcaria do sist ema que vocês tanto criticam por ser capita lista, nã o desconta
o suficiente para que o par ticular tenha que doa r um bem!!! !
A
Guilhotina.in fo
obteve c rít icas nos comentários à p ublicação a respeito da pr oibição de greves no
primeiro Estado de Emergência revogado pelo g over no português , no início da pandemia do novo
coronavírus. As opiniões ref letem a discordância com a denúncia do m eio. No entan to, a mídia r ecebeu
comentários com palavras de apoio ao seu trabalho.
Projecto de decreto presiden cial para renovação do estado de emergência contempla exclusão dos
sindicatos e comissõ es de trabalhado res de negociaçõ es legislativas num contexto em que as
suspensões e d espedimentos vão disparar. Isto j unta-se à já existent e proibição de grev es.
148
Os comentários também trazem pos icionamentos opostos aos da mídia:
É um bocadinho f orçado chamar fa cho
149
ao Marcelo.
São medidas excec ionais e bem fundamentada s em benefício de t odos. Ne m acredito que passass e
pela cabeça de alg uém fazer g reve neste momento.
Parabéns p ela postagem, qua ndo já o povo faz quarentena por si próprio, parece que alguns só se
dão auto-estima q uando são o brigados a f azer algo.
E pedem isso sem pensar nas c onsequên cias nefastas que isso traz p ara a vida de trabalhadores
precários, informais, o u sem condiçõ es labo rais de saúde, mu itos se m ser " essenci ais" (termo
propositadame nte vago do decreto, para justif icar salvar a economia e não vidas). E até atr apalhar
quem está na li nha da frente a organizar ajuda alimentar ou médica, que se vê condicionada pel a
acção da polícia.
Os comentários não são apenas críticas. Nas opiniões das audiências, h á elo gios ao t rabalho das
mídias, como no exemplo a seguir de uma postagem do
CTXT
:
REPORTAGEM | Residências, creches, abrigos para o s sem-abrigo #Floren tinoPérez.
150
O comentário é um agradecimento ao meio de comunicação:
A saúde em Madrid é um neg ócio. Doloroso . Obrigado por f azer jornalismo.
Na
El Salto
também é possível ver elogios ao s text os n os comentários, bem como palavras de
concordância: Opinião | Sem braços e cérebros, sem corações e músculos, não há co nsumo nem p rodução,
não há futuro para o vampiro do capital rentista, nem pa ra as variantes do capitalismo de Estado. Por
Raúl Sánchez C edillo.
151
Os comentários evidenciam os apoios das audiências à mídia:
Quando um es tado lança tanq ues e mili tares, isso vai cont ra direitos e liberda des!
O estado de re pressão!
Mais um golpe d e e para a democrac ia !!!
148
Ver https://ww w.facebook.co m/guilhotina.info/po sts/2850451151738009
149
“Chamar de fascista ”. Fonte: https ://www.infopedia.pt/dicionarios /lingua -portuguesa /Fachos
150
Ver https://ww w.facebook.com/re dcontexto /posts/167503982 2636310
151
Ver https://ww w.facebook.co m/ElSaltoDiario/pos ts/10157811225305469
249
Esperando o próx imo capítulo
Superfã
Grande análise
Esperando o próx imo capítulo.
O
CTXT
recebeu elogios ao seguinte texto analítico. Nos comentário s também há críticas ao governo:
As águas de Sán chez e os anõ es crescem.
152
Comentários a seguir:
Somos governado s pelo pior g overno na pior hora
Artigo magnífico , que como es perado, os grandes patriotas estão incomoda dos.
Sinal inequívoco d e que é bo m.
No post a seguir há um comentário que el ogia o conteúdo do
CTXT
.
TECETIPOS | Band eira de operação
“O momen to certo é agora e não tem história. O momento é agitar a bandeira em nome da marca
registrada da Espanha, a habitual Espanha SL, que se lançou em um ataqu e coordenado que inclu i
todas as á reas: mídia, negócio s, social, política e judicial.”
153
O comentário está assin a lado abaixo:
Perfeito, não pode ser explica do melhor!!! !!!
O
Fumaça
tam bém obteve elogios do públi co em comentários. Por exemplo, no
post
sobre o Programa
Especial de Realojamento, indicado a seguir:
Em 1993 , o Programa Especial de Realojam ento (PER) prometia terminar com todos os bairros de
barracas, realojando quem lá vivia em habitações dignas. (...) Nesta série Fumaça, vamos pe rceb er
como correram estes process os de demolição e realojamento. http://bit.ly/2T ioSpK
154
O comentário enaltece o trabalho da mídia:
Que orgulho no vosso trabalho. Jo rnalismo de fundo e livre f az falta em Port ugal. Continue m!
O
post
a seguir traz, no comentário, elogio ao trabalho da
Guilhotina.in fo
:
//O #corona vírus expõe a gro sseira estupidez do sistema capi talista.
155
O comentário está indicado a seguir:
Que gra nde t exto. Li um pouco. D epois lei o o resto. Acabei de ler u m trabalho de u ma a luna.
Beijinhos.
Na publicação a seguir, os comentários exibem cr íticas à mídia, ch amando seus membros de
“mentirosos”, ao govern o p or autorizar o
lay-off
e à gestão desse mecanismo.
#Portugal #Covid1 9 // Multina cionais com milhõ es de lucro recorrem ao “ Lay - off” sim p li fi cado.
156
152
Ver https://ww w.facebook.co m/redcontexto /posts/16 70103899796569
153
Ver https://ww w.facebook.co m/redcontexto /posts/16 88970257909933
154
Ver https://ww w.facebook.co m/fumacapt/po sts/2242152462761385
155
Ver https://ww w.facebook.co m/guilhotina.info/po sts/283516412326
256
limites de categorias político econômicas tradicionais como a classe social . Ademais, a investigação
traz a reflexão sobre a ação do públi co em pa g ar por con teúdos por considerar a informação das
mídias alternativas relevantes, ação que se constitui como o prin cipal meio de sustentabilidade dessas
mídias.
A pesquisa diz ao campo da Comunicação e Política que há meios de comunicação – os alternativos de
esquerda - qu e, ao invés de prejudicar e problematiza r a part icipação democrática, luta para a
manutenção e fortalecimento da democracia, bem como para o envolvimen to dos cidadãos na política.
Além disso, estas mídias nascem muitas vezes das crises de legitimidade da democracia em governos
neoliberais.
A investigação, que buscou com preender e mapear o modelo ativista e independente de jornalismo,
adotou o método qualitativo com abordagem netnográfica , incluindo entrevi stas, observação e técnica
de análise de conteúdo. O desenho metodológico selecion ado para est a investigação – produção
midiática (posicion amentos, modelos adotados e estratégias, pontos analisados através de entrevistas
e observação); conteúdo (observação das páginas das m ídias no F acebo ok ); e recepção (ação das
audiências consoante aos meios estudados analisada at ravés de entrevistas) – foi adequado pa ra a
compreensão dos ativis mos midiáticos e reflexões a respeito dos objetivos es tabele cidos.
A am ostra da pesquis a, tanto dos entrevista dos, quanto dos objetos, foi ideal para que conseguíssemos
chegar às constatações cit adas ac ima. A delimita ção da amostra de entrevis tados – p úblicos leitor e
não leitor; idade, nacionalidade e gêneros – foi fundamental para perceber as varia ções de hábito s e de
ações nas redes. Neste sentido, a escolha do Facebook – por ser uma rede mais ampla e popular – e o
período de observação (três meses ) – pelo fat o de ter mos obtido um volu me amplo de pu blicações –
mostraram-se apropriados. A seleção da etnografia virtual como método de pesquisa para analisar as
publicações das mídias no Facebook foi um desafio por ser uma forma nova e ainda descon hecida de
pesquisa no meio virtual, mas foi o modelo pertinente à inves tigação, já que se t rata de um estudo d e
mídias digitais. A análise de conteúdo, com base no Enquadramento Noticioso, utilizada nas
entrevistas, permitiu a com preensão dos a spectos da l inguagem, das estratégias, das abordagens, das
ações, dos posicionamentos, das críticas e das atuações das audiências.
Assim se ndo, esta investiga ção respon deu à questão de investigação, na medida em que con statou
que as mídias alternativas digitais de esquerda, mesmo com uma ag enda que contraria políticas
neoliberais, conseguem cri ar um discurso capaz de atingir audiências mais ala rgadas no B rasil, na
Espanha e em Portugal. Esses meios c umprem o papel de levar a mens agem, mesmo que seja a um
257
público que se identif ica com seus posicion amentos políticos, e, assim, questiona sistema e ações
governamentais, e mobiliza, junto com os movimentos sociais, as au diências para a c ontestação.
A pesquisa nos pe rmitiu c ompreender o novo model o de jornalismo alt ernativo e ativista e como os
meios de comunicação alternativos conseguem colaborar com a democrat ização da informação, com
as transformações sociai s e, ainda, com a pluralização, diversificação e politizaç ão do espaço público
midiático. Os objetivos pr opostos foram alcançados, na medida em que descr evemos a rotina de
produção das mídias alternativas e como atuam nas redes sociais ; percebemo s os posicionamentos
políticos das mídias alternativas e que efeitos ele s têm no público; observamos que as mídias
alternativas poss uem função na promoção de mudanças sociais e de agendas governamentais, e na
criação de uma ag enda alternativa, b em como possuem papel forma dor na cultura política e no
intermédio de re lações s oc iais de grupos ; e realizamos u m estudo comparativo entre a s mídias de
Brasil, Espanha e Portugal, apresentando suas dife renças , semelhanças, modos de atuação e papeis
nas sociedades nas quais estão inseridas.
Em suma, esta in vestigação pretendeu apresent ar a crítica da comunicação ativista e independen te às
políticas e sistema, e o fez, bem como questionou alguns m odos de operacionalização e apontou
caminhos para a consolidaç ão de uma comunicação mais dem ocrática e ética. Os contrib utos teóricos
e empíricos que a investigação apresentou para o estudo da Comunicação foram, em síntese:
mapeamento das mídias alter nativas digitais de esquerda; descrições dos modos de funcionamen to de
seis mídias alternativas digitais dos países estudados e suas repercussões no público e nas ag endas e
ações governamentais; identificação de abordagens e modelos que desafiam as formas tradicionais de
comunicação; demonstração de que os context os polít icos refletem nas atuações dos meio s de
comunicação, sendo que as contestações são mais ev identes nos cenários de austeridade e pós -
austeridade (políticas de precarização e anti-populares ); constatação de que o jo rnalismo alter nativo é
autossusten tável, mas as limitações finance iras p rejudicam o andamento periódico das atividades em
alguns casos, embora não compromet a o engajame nto e as repercus sões; co mpreensão de que o
jornalismo tradicional e seus valores co ntinuam significativos, t anto para o público co mo uma
informação credível, quanto para as produções alter nativas como base ética.
Consoante às lacu nas que foram preenchidas por esta investigação, conseguimos compreender a
lógica dos modelos de jor nalismo utilizados pe los meios de comunicação alternati vos t razendo à
discussão os fi nanciamentos público e coletivo. Os modelos de financiamen to das mídias alternativas,
sobretudo as originária s de países lat inos e ibéricos , são pouco estudados, assim com o o modo
operacional desses meios nas redes sociais. Out ro po nto importante que esta pe squisa trouxe à tona
258
foi o debate a respeito das possíveis saídas para uma comunicação efetiva, de qualidade e
transformadora – que está presen te no último item deste capítulo.
As consider ações e reflexõe s a respeito dos dados anal isados pela pesquisa estão pormenorizadas no s
próximos itens des te capítul o.
9.2 Jornalismo alternativo e ativista
Esta dissertação mostrou que o ativi smo é o modelo de produção das mídias alternativa s
concomitantemente com o jornalismo. No context o de pós-austeridade, ainda no rescaldo das políticas
de aus teridade, que foram o corolário da crise de 2008 na Europa e trouxeram a pr ecarização do
trabalho, principalmente, agravada pela crise sanitária que teve início em 2020 e que fomentou críticas
aos gestores, as contestações sociais avolumaram -se. Percebemos, a ssim, que o jornalismo at ivista,
que surge para questionar medidas antipopulares, é crítico porque nasce para contestar g overnos,
sistema, part idos pol íticos, Estado e g rupos econômicos . A s crít icas das mídia s altern ativas digitais
puderam ser comprovadas nesta pesquis a at ravés de suas publicações no Facebook, bem como
através das entrevi stas co m os produtores e com a amostra das audiências e n ão audiências dos
meios de comunicação. A s mídias est udadas são ativistas, embora a
El Sa lto
não se defina enquanto
ativista, porque são meios críticos que questionam a sociedade dominante (Atton, 2002) e desafiam
concentrações de poder ( Couldry & Curran, 2003). As mídias alternativas promovem mudanças d e
ag endas dos meios de comunicação tradicionais e co nseguem apoiar as movimentações para aprovar
leis, co nforme s e deu com a
Mídia NINJA
; e con seguem influenciar alia nças partidárias, como
aconteceu com o
CTXT
que contribuiu com a junção dos partidos espanhóis Podemos e Partido
Socialista Operário Espanh ol (PSOE) para formar g overno na Espanha , de acordo com o produtor do
Contexto
, Miguel Mora (Entrevista pessoal, 30 de julho, 2020)
.
Compreendemos que o s veículos de
comunicação alternativos também repercutem no se ntido de viabilizar ingerências nos meios de
comunicação tradicionais, na medida em que interfe rem nas agendas esses meios, ou seja, pelo fato
de re alizarem coberturas de manifestações, por exemplo, os tradicionais vêem - se “impelidos” a o
fazer. Esta é uma atuação import ante dos meios de com unicação alternativos en quanto instrumentos
de mobilização a agentes de mudanças sociais e po líticas, como se definem e que, na prát ica, estão a
assumir esse p ape l, de fato.
Os meios de comunicaçã o alt ernativos empreg am a filosofia ativista de criar “informação para ação” ,
mobilizar redes e coletivos e ch amar o público a participar, at ravés de conteúdos polêmicos e com
linguagem inflamada. Vimos n este estudo q ue a
Mídia NINJA
e o
Jornalistas Liv res
, por exemplo,
259
normalmente produzem conteúdos superficiais porque são ativistas ou midiativistas - como se definem
- e, portanto, precisam reag ir aos fatos com velocid ade por meio de frases de efeito, palavras de
ordem, retuítes, repostagens, vídeos, charg es, injúri as e t ermos de chamamen to.
Guilhotina.in fo
também é um m eio de comun icação de protesto, ma s seus conteúdos são mais aprofundados ; bem
como
CTXT
e
Fumaça
, p orém chega m tarde nas notícias, ou seja, produzem textos analíticos
comentando os fatos, como faz o
Contexto
, ou constroem g randes reporta gens investigativas e
entrevistas, que é o caso do
Fumaça
. A
EL Salto
produz conteúdos mais ativistas e factuais para o site
e analíticos para a revista em papel.
Mídia NINJA
,
Jornalistas Livres
e
El Salto
promovem polarizações, visto qu e suas n arrat ivas são
estruturadas de forma a legitimar o discurso e confrontar as opiniões cont rárias. Já o
CTXT
organiza
sua na rrativa de modo a promover as discussões nas agendas pública e política. O
Fumaça
e a
Guilhotin
a compõem suas narrativ as com denúncias.
Por repr esentarem as chamadas “minorias ”, pessoas excluídas e margina lizadas, as mídias
alternativas digitais de es querda ass umem o papel social de instrumentos de tran sformação das
sociedades. Estes meios demonstraram estar conectados a movimentos de protest o na medida em que
são utilizados por estes para processos de i nformação, comunicação, coordenação e cooperação
(Fuchs, 2010). Neste context o, a
Mídia NINJA
e o
Jornalistas Livres
e stão ligados a movimentos sociais
brasileiros, como o Movimen to dos Trabalhadores Sem -Teto (MTST), Movimento Sem-Terra ( MST ) ,
Povo Sem Medo, Articulação dos povos indígenas do Brasil (APIB); e outros. A
El Salto
é originária da
revista
Diagonal
; ambas a bordam as mesmas temá ticas do movimento 15M. Es tas temá ticas não
costumam estar na ordem do dia das ag endas dos meios de comunicação tradicionais. D este modo,
esta pesquisa assinala que o jornalismo pode s er feito de modo at ivista, seguindo as conveções do
jornalismo tradicional, a exemplo do
Fumaça
, da
Guilhotina.info
, do
CTXT
e da
El Salto,
mas também
pode haver o at ivismo definido com o jornalismo pelas próprias mídias, mas q ue cujo format o utiliza
linguagem superficial e mobilizadora, a exemplo da
Mídia NINJA
e do
Jornalistas Livres
. O s doi s casos
citados informam, criticam, pressionam e ch amam para a ação, além de compor o espectro da
diversidade n o campo da c omunicação.
9.3 Produção e obtenção de recursos
No que co ncerne à produção, a independência das mídias alternativas e, portanto, a desvinculação a
empresas e/ou gover nos possibilita a estes meios adotarem linhas editoriais estabelecidas a partir de
suas ideologias . No entanto, como vimos, as mídias alt ernativas prec isam utilizar mecanismos também
260
alternativos de obt enção d e recursos para a manutenção das suas at ividades. Por exemplo,
Mídia
NINJA
,
Jornalistas Livre s
,
El Salto
,
CTXT
e
Fumaça
utilizam ou util izaram
crowdfundin g
para iniciar
suas atividades e/ou para m anter a produção midiática. A
Mídia NINJA
mantém a plataforma Catarse
como mecanis mo de financiamen to de suas atividades; o
Fumaça
utiliza o Patreon para doações d o
público e a plataforma PPL para realizar
crowdfunding
com a finalidade de custear as reportagens.
CTXT
realizou algumas campanhas: para a fundação e para a produção de um documentário. Deste
modo, o
crowdfundin g
aliado às subscrições são os mecanismos de sustentabilidade financeira
escolhidos pelas mídias independen tes q ue funcionam .
À vista disso, demonstramos que, a pesar das l imitações de recurs os que impõem precariedade no que
se refere sobretudo à remuneração – alg uns membros das mídias alternativas sã o volun tário s – e às
condições de trabalho, t odos os meios alter nativos digitais investigados conseguem assegurar a
manutenção de suas atividades porque escolheram um modelo de produç ão baseado em doações e de
pequen a e scala, ou seja, muitas vezes sem espaço físico de trabalho ou com redações redu zidas.
Nesse sen tido, os objetos desta pesqu isa operacionalizam suas redes através d a art iculação entre as
plataformas digitais de modo a divulgar seus p rodutos e pedir que o púb lico subscreva e co ntribua nas
campanhas de
crowdfunding
, utilizando a economia da atenção . Portanto, essas m ídias tiraram
proveito da abertura de espaços na internet para as notícias, diante da crise financeira do m od elo de
negócio praticado pelos
mainstream media
.
Além disso, compreendemos que, pelo fato de dependere m das audiências, as mídias alternativas são
compelidas a provar a relevância do tipo de jornalismo que praticam e d a sua contribuição social,
cultural e política, o que resulta na tran sparência pr ati cada por esses meios, s obr etudo o
Fumaça
e o
Contexto y Acción
que divulgam as contas e despe sas por mês em seu site. As es tratégias da s mídias
alternativas para conquistar as audiências são análises imprescind íveis ao e studo do jornalismo
alternativo como forma de perceber a atuação dos meios no espaço virtual e de que maneira a
comunicação mudou com o advento da internet.
Esta dissertação reflete sobre o jornalismo digital e alternativo que lança mão dos
social media
e das
novas tecnologias para produzir, fazer circular e distribuir os conteúdos de modo a fazer chegar ao
público as informações. Assim, as novas tecnologias viabilizaram a criação de um novo ativismo,
baseado nas redes (Lievrouw, 2 011) . A natureza da com unicação praticada pelos novos meios, como
Mídia NINJA
,
Jornalistas Livres
,
El Salto
,
CTXT
,
Fumaça
e
Guilhotina
é virtual, espaço onde os
produtores de mídias expressam suas ideias, articulam seus interesses, organizam recurs os e p essoas
e alcançam seus objetivos (Lievrouw, 2011), formando redes de colaboradores e de seguidores.
261
Porém, o uso das rede s para fazer chegar os conteúdo s ao público gera dependência dos algoritm os. O
resultado é o desenvolvi mento de uma economia para o bem comum por meio de plataformas que
lucram com a necessidade de espaço para divulgar seus conteúdos dos meios alternativos.
9.4 Posturas político-ideológicas
Para refletir sobre a produção jornalística alternativa os posicionamentos políticos são dicussões
essen c iais. As mídias altern ativas analisadas são claramente de esquerda porque defendem os di reitos
humanos, como mencionamos, e vão de encontro ao modelo de negócios baseado na venda de
espaços aos grandes grupos econômicos, propondo um novo modelo de jornalismo mais in formativo e
ético. No entanto, este posicion amento limita e até impede o pot encial transformador dos projetos
comunicativos de mudança social, deste modo, os meios de comunicação ativistas dependem de uma
comunidade para garantir s ua estabilidade, independê ncia e crescimento (López -Ferrández, 2018). Isto
porque a esfera pública digit al vive um processo de fechamento de oportunidades com a concentração
dos fluxos de com unicação e a fragmentação de públi cos (López - Ferrández, 2018) vi sto que o modelo
de negócio mantém-se presente no espaço virtual, sobretudo nas redes sociais.
Assim, compreendemos que para o impacto do seu ativismo, é decis ivo o alcance público que os
meios granjeiam at ravés das redes digitais. O alcance é resultado das estratégias de com unic ação para
obter audiências. Os meios de com unicação pesquisados adotaram o modelo ati vista que permite não
apenas garantir a divulgação, em virtude da utilização das redes sociais, mas também funcionar como
chamamento ao público a través do uso das fun ciona lidades e linguagens específicas dos meios
digitais: mensagens ins tantâ neas, hashtag s, memes, e mojis, multimédia, partilhas, comentários.
No entanto, esses meio s ainda esbarram na dificuldade de adquirir mais a udiências, seja em virtude
das vinculações a ideologias e a partidos, seja em razão da insuficiên cia de recu rsos financeiros para
aumentar os quadros de pessoal e, assim, poder produ zir conteúdos de modo mai s am plo para ch egar
a audiências div e rsas, este último é o caso da
El Salto
.
Podemos considerar, à luz das anál ises da amostra da pesquis a , que maioritariamente os
entrevistados informam -se através da internet, seja por sites, newsletter ou redes sociais da s mídias ,
no entanto, o ciberespaço não pode ser considerado democrát ico porque a inclus ão digit al não
alcançou a maioria da pop ulação mundial e também porque a lógica do capital foi transferida para o
meio virtual, na m edida em que as redes sociais sã o espaços privados postos à venda e g eridos por
essas empresas at ravés dos algoritmos . A lém disso, a desinformação e as
fake news
são entraves para
a promoção da comunicação ética e de qualidade.
[Document text truncated for crawler view.]