«F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 DA VULNERABILIDADE À RESPONSABILIDADE NA PARÁBOLA DO HOMO VIATOR ( Lc 10 , 25 - 37 ): SEGUNDO O PENSAMENTO DE LEVINAS FROM VULNERABILITY TO RESPONSABILITY ACCORDING TO HOMO VIATOR PARABLE (LC 10 , 25 - 37 ): BY THE SENSE OF LEVINAS J OSÉ H ENRIQUE S ILVEIRA DE B RITO R AMIRO D ÉLIO B ORGES DE M ENESES Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional de Braga jhsilveirabri[email protected]
[email protected] Resumo A vulnerabilidade é analisada como responsabilidade, de acordo com a interpretação da parábola do Bom Samaritano. Neste estudo, é apresentada uma análise conceitual da vulnerabilidade, sob dois aspectos: a vulnerabilidade passiva e ativa de vulnerabilidade e a vulnerabilidade como responsabilidade para com o Outro. Este outro, querendo a solidariedade do Outro, recebe a sua vocação. O cuidado é a responsabilidade. Em minha responsabilidade que responde pela liberdade do outro (impotente), na fraternidade humana surpreendente em que a fraternidade segundo o Bom Samaritano, não explica por si só a responsabilidade entre os seres separados. A responsabilidade para o outro é o lugar em que está situado o não-lugar da subjetividade do samaritano ao Helpness (Lc 10, 30). Palavras-chave: bom samaritano, a passividade, a responsabilidade para o outro, e de vulnerabilidade. Abstract The vulnerability is analyzed as responsibility,according to the interpretation of the Good Samaritan parabola. In this study, is presented a conceptual analysis of the vulnerability, under two aspects: the passive vulnerability and active vulnerability ,and the vulnerability as responsibility to the Other. This Other, wanting the solidarity of Another, who receives its vocation. The care is responsibility. In my responsibility that answers for the freedom of the other (helpless), in the astonishing human fraternity in which fraternity according the Good Samaritan, would not by itself explain the responsibility between separated beings it calls for. The responsibility for the other is the locus in which is situated the non-place of subjectivity from Samaritan to the Helpness (Lc 10, 30). Keywords: Good Samaritan, passivity, responsibility for the other, and vulnerability.
68 J. H. S ILVEIRA – R. D. B ORGES «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 Introdução vulnerabilidade traz ontologicamente a marca da potencialidade do existir. Esta é in fieri como imperfeição do ser, do agir e do fazer, tal como surge na narrativa – conto do Bom Samaritano. A vulnerabilidade é um fieri das feridas do coração. Revela-se como cedência da espiritualidade do coração, que tem uma resposta. A Vulnerabilidade, naturalmente, refere a grande instabilidade, em que se estrutura o existir, que se implica na essência dos nossos comportamentos, como responsabilidade por aquilo que não fui eu que fiz ou não me diz respeito. A vulnerabilidade é uma forma de responsabilidade do Desvalido no Caminho . A vulnerabilidade é do domínio do patético e o patético da vulnerabilidade é um esse préfilosófico. Trata-se de uma metáfora vivente, que se centra no Desvalido no Caminho e que é o “rosto da vulnerabilidade “. O des-valere, ausência de valor, de dignidade, de ser e de fazer, tem a sua metáfora no “semi-morto”, que ía de Jericó a Jerusalém, onde no Gólgota realizará a passividade da passividade. O “Desvalido no Caminho da parábola é além do Homo Viator, o homo pateticus, que carrega per se a vulnerabilidade pela cedência do ser Outro, como um compromisso soteriológico. A fragilidade do Desvalido no Caminho é referida pelo versículo: Certo Homem (quidam homo) descia de Jerusalém para Jericó e caiu às mãos dos salteadores que depois de O despojarem e encherem de pancadas O abandonaram, deixando - O meio-morto. A vida da vulnerabilidade anárquica, é aquela que vem do Pai das Misericórdias e vive-se na Paixão e Morte do “semi-morto”. A vulnerabilidade é a vida e o caminho da cruz 1 . Podemos ver que a vulnerabilidade tem um “rosto”. O Rosto pede-me e ordena-me. Assim, é a vulnerabilidade como um pedido de cuidado. A vulnerabilidade conleva este pedido responsável. O Desvalido é sofredor e está aniquilado pela fragilidade da angústia existencial. Na vulnerabilidade, o coração está quebrantado pela dor e pelo sofrimento. Há uma cedência do coração, o Samaritano da parábola ao cuidar do Desvalido será o pastor do vulnerável. Na parábola da vulnerabilidade do Homo Viator, encontraremos pelo caminho do nosso existir, a passividade e a proximidade do vulnerável (nu, doente marginal, etc.) 2 . 1 Meneses, R. D. B. (2008), pp. 106-107 2 Id. pp. 108-110. A
DA VULNERABILIDADE À RESPONSABILIDADE 69 «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 25-26. ISSN 1132-3329 A vulnerabilidade possui uma morada, onde “habita” a falência do estar, do ser e do agir. A vulnerabilidade implica uma relação de cedência do ser e do fazer. Assim, encontramos o Samaritano , que se tornou vulnerável e se revelou no seu ponto fraco, porque o Desvalido no Caminho era um ser passivo, que lhe despertou o “fazer esplancnofânico”. A vulnerabilidade poderá significar uma falta de consistência ontológica e revelar a natural precariedade do ser e do agir. O Desvalido no Caminho apresentava uma certa debilidade física ou falta de vigor, com aspecto delicado. O Samaritano, pelo “fazer esplancnofânico”, apareceu como o restaurador do vigor, diminuindo a fragilidade do Desvalido. A vida do Desvalido no Caminho é determinada pela debilidade ontológica, onde esta está e age. Naturalmente que a vulnerabilidade está condicionada pela solidariedade. Quanto mais vulnerabilidade, maior será a solidariedade. Pela vulnerabilidade , o Desvalido está no enfraquecimento do existir e do fazer. A solidariedade, em sentido espiritual, de um Samaritano, casa com a vulnerabilidade de um Desvalido no Caminho. A parábola do Bom Samaritano aponta para que a solidariedade apresente a vulnerabilidade como sinónimo. A solidariedade é a outra face da vulnerabilidade. Onde acaba a vulnerabilidade, começa a solidariedade e aqui temos a outra lição da parábola. Se a vivência exemplar do Samaritano se revê na solidariedade, então a vulnerabilidade estampa-se no Desvalido pela dor e pelo sofrimento. Estas realidades têm expressão na solidariedade e vulnerabilidade da vida. 3 Na parábola, a solidariedade transforma-se num modus operandi de unidade entre pessoas, cuja expressão mais acertada será da “comunhão” do Desvalido ao Samaritano. A solidariedade foi a resposta – com atitude aretológica – que o Samaritano, no empenho esplacnofânico, prestou ao Desvalido. A solidariedade transforma a mútua desconfiança em colaboração que, junto com a liberdade, constitui o marco, onde se realizará o desenvolvimento do Desvalido. A perfeição perfectível, tal como se apresenta “certo homem”, consiste em tornar-se “perfeição defectível”, ou numa imperfeição pela sua vulnerabilidade, como “meio morto”. Este é o lado regressivo do Desvalido, que se revelou na fragilidade do ser, do estar e do agir. Mas aqui, naturalmente, articulam-se os dois termos: solidariedade e vulnerabilidade que são determinados pelo Desvalido. O Samaritano é chamado à solidariedade pela comoção das vísceras (Lc 10, 33) ao ajudar o Desvalido (certo homem) (Lc 10, 30). A vulnerabilidade será ser responsável 3 Osswald,W. (2005), pp. 51-65.
70 J. H. S ILVEIRA – R. D. B ORGES «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 por Outrem, sem esperar a recíproca. Toda a vulnerabilidade é um cuidado plesiológico. E, naturalmente, segundo a parábola do Bom Samaritano ( Lc 10, 25 – 37 ) diz uma relação xenoplesiológica. Quanto mais vulnerável for o ser humano, mais necessitado estará de cuidado, como solicitude do “ outroestranho”, representado no Samaritano. Segundo a parábola do Desvalido no Caminho é um ex-sistere (estar a partir de qualquer coisa) lábil como se revela no “semi-morto” 4 . A vulnerabilidade é in fieri como imperfeição do ser, do agir e do fazer, tal como surge na narrativa – conto do Bom Samaritano, a vulnerabilidade é um fieri das feridas do coração. A vulnerabilidade está plenamente condicionada por esta passividade, que permanece no ser do seu sofrer. Poderemos dizer que esta experiência é necessária in passo, (no padecimento) 5 , tal como se descreve pelo acontecimento soteriológico da parábola do Homo Viator em Lucas 6 . A vulnerabilidade é uma forma de passividade. 1. A Vulnerabilidade activa e passiva, em Lévinas, pela parábola do Bom Samaritano. O Desvalido está às ordens do Samaritano, para que este “cuide d’Ele” 7 . A sensibilidade surge como passividade, vulnerabilidade, exposição interminável, que não resulta de qualquer decisão 8 . O Desvalido no Caminho manifesta-se num “apelo”. O “semi-morto” não grita, não geme e não tem voz. É a voz sem voz. No seu silêncio faz um apelo: cuida de mim. Este apelo é a vocação da vulnerabilidade, dado que o Samaritano respondeu: Eis-me aqui. O apelo do Desvalido vem da vulnerabilidade activa, que é ele mesmo, o indefeso, o pobre, o peregrino, e o estrangeiro, que exige a presença da vulnerabilidade passiva: o Samaritano. A manifestação do rosto despido, como apelo no mundo do Samaritano é a revelação do Outro (semi-morto), que exige de todos nós (enfermeiros, médicos, paramédicos, etc.) respeito e acolhimento, porque como diz Lévinas esse Outro é doente, pobre e fraco. São as figuras da vulnerabilidade 9 . A passividade do sujeito indica a afecção “traumática”, que 4 Bíblia Sagrada (2003), p.1693. 5 Id., p.13 6 Bíblia Sagrada (2003), pp.169-1693. 7 Id., pp.1692-1693. 8 Brito, J.H.S. (2002), p. 214. 9 Meneses, R.D.B.(2008), p. 201.
DA VULNERABILIDADE À RESPONSABILIDADE 71 «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 25-26. ISSN 1132-3329 vem de fora, sendo a impossibilidade em que se encontra o sujeito de assumir esta. O extremo da passividade é o sujeito enquanto bondade 10 Há uma assimetria na relação entre o Samaritano e o “semi-morto”. O Desvalido (Outro) é que dá a ordem (é activo), sendo o Samaritano uma vulnerabilidade passiva, porque, recebe o mandamento: cuida de mim!…Ajuda-me!... 11 . A passividade do sujeito, como vulnerabilidade, não se anula porque responde ao Bem. A subjectividade humana, extrema passividade, é uma obsessão irremediável pelo Outro (desvalido). Interpretando a parábola do Homo Viator, pelo pensamento de Lévinas, o Samaritano não está voltado sobre si mesmo. Este é um Eu aberto, porque foi levado a responder pelo Outro e para o Outro (Desvalido no Caminho). O Samaritano responde pelo Outro e dá conta do Outro 12 . A passividade, que nenhuma actividade do sujeito pode reassumir, constitui o sujeito como origem de tudo. Aparece como impossibilidade de uma auto-identificação do sujeito, que faça d’Ele substância contemporânea a si mesma. Segundo Lévinas, a unicidade irredutível do sujeito é a contracção do sofrer pelo outro, que já é um sofrer para o Outro. “Na parábola, ao aplicar-se o sentido levisiano do sujeito, o Samaritano vive na doação do “pelo outro” no “para o outro”, desde a proximidade ao acolhimento desinteressado” 13 . O primeiro evangelho da vulnerabilidade revela-se na parábola do Desvalido no Caminho, uma vez que o Desvalido no Caminho simboliza a vulnerabilidade activa, que habita no Pai das Misericórdias, enquanto a vulnerabilidade passiva tem um rosto pela comoção das vísceras. O Samaritano sofreu uma acção, de fora para dentro, pelos rahamim (as entranhas), que motivaram esta vulnerabilidade, porque sofreu uma revolução pelo “estremecimento das entranhas” 14 . As acções plesiológicas do Samaritano são cuidados (…ligou-lhe as feridas, derramando azeite e vinho...). Na verdade, tendo-o feito sair, colocou-o sobre a montada, levou-O para uma estalagem, para cuidarem d’Ele) e são marcadas pela fragilidade activa do Desvalido (certo homem). Todas as conotações plesiológicas da “comoção das vísceras” aparecem e manifestam-se nos significados do fazer vulnerável 15 . Esta narrativa - conto revela a conduta 10 Lévinas, E.(1974), pp.74-75. 11 Meneses, R. D, B. (2008), p. 123-124. 12 Id., p. 125. 13 Meneses, R. D. B. (2008), p. 128. 14 Koster, H. (1971), p.57 15 Meneses, R. D. B. (2006), p. 25.
72 J. H. S ILVEIRA – R. D. B ORGES «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 exemplar e provocante da fragilidade. A parábola do Bom Samaritano é uma narrativa deliberativa da vulnerabilidade. O Samaritano, segundo este encómio, é a expressão fenomenológica da vulnerabilidade, porque houve uma outra vulnerabilidade retratada no “ semi-morto“ 16 .O Sacerdote e o Levita eram senhores de si e do seu mundo e eram fiéis seguidores de Torah, nunca, nos seus corações, sentiram a vulnerabilidade. A vulnerabilidade do Desvalido nada lhes diz. A parábola do Bom Samaritano enquadra-se num discurso sobre a vulnerabilidade xenológica, originada numa “esplancnofania” como novo ethos do “fazer moral”. A morada da conduta humana, segundo a parábola, reside na vulnerabilidade passiva de um Samaritano, que é xenológica e plesiológica, porque vem de outra morada: Verbum caro factum est (a palavra fez-se carne) 17 . A vulnerabilidade é condição e conduta da morada do fazer plesiológico, logo a vulnerabilidade como passividade determinará um novo elemento plesiológico 18 . Deste modo pode ser entendida como uma categoria inerente à existência e à compreensão do ser humano, uma vez que exprime a própria finitude da condição humana. O facto da vivência da vulnerabilidade ser perspectivada e sentida de forma negativa, a forma como o Homem se confronta com a sua própria vulnerabilidade, poderá determinar uma orientação positiva, na medida em que a fragilidade da contingência do ser humano abre a perspectiva do Outro. 2. Vulnerabilidade como responsabilidade : entre o Samaritano e o Desvalido. Segundo Lévinas, é na subjectividade que o Eu, sempre posterior à alteridade, se manifesta ao Outro, que existe necessariamente antes do Eu e que chama o Eu à existência. Pela sua corporeidade, o ser humano é um ser encarnado capaz de afectividade, de acção e desejo e de tomar consciência de si, como ser mortal. Inerente à sua corporeidade reconhece-se a capacidade de transcender o estatuto de objecto ou de algo manipulável. Corporeidade e transcendência sustentam-no como consciente de si, capaz de se reconhecer como finito vulnerável e como agente moral. O pathos próprio do homem faz dele um ser de múltiplas potencialidades e de fragilidades. Por outros termos, ser 16 Id. ,p. 25 17 Bíblia Sagrada (2003),p.1730. 18 Meneses, R. D. B. (2006), p.26
DA VULNERABILIDADE À RESPONSABILIDADE 73 «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 25-26. ISSN 1132-3329 corpóreo, será aquele que se projecta para fora de si e se relaciona com o Outro 19 . A vulnerabilidade, no cenário do existir humano, tem permitido a expressão de uma ética de solicitude ao Outro. Na situação do cuidado, a vulnerabilidade indica o anseio de ser auxiliado, de receber as ajudas no sofrimento da doença. A primeira intenção ética é dar prioridade ao Outro para aliviar-lhe a dor e o sofrimento. O Rosto do próximo significa uma responsabilidade irrecusável, precedendo todo o consentimento livre, todo o pacto e todo o contacto. Ele permanece absolutamente assimétrico em relação a mim. Refere-se como responsabilidasde nunca totalmente responsável, não sendo o contacto com Outrém, que anularia a “alteridade”. Esta proximidade não se revela com carácter espacial, mas sublinha, naturalmente, o carácter contingente desta relação, porque próximo é o primeiro que chega 20 .O próximo mais próximo, segundo a interpretação da parábola, pela leitura de Lévinas, é aquele que chegou primeiro. O responsável é o desenraizado, o apátrida, o exposto ao frio e ao calor das estações, o que, em suma, está despido de dignidade ou de valor, aquele que é Desvalido e vulnerável. E a responsabilidade é ditada, não pela distância, pelo espaço ou pelo tempo, de que o seu ser, como “vulnerável”, me incumbe, me acusa de uma falta, que não cometi livremente, obrigando-se a um despojamento de si mesmo, para cuidar do Outro como frágil. A vulnerabilidade é uma responsabilidade de responsabilidade, com o Outro, e a responsabilidade é uma vulnerabilidade do Samaritano. Daqui se infere que a vulnerabilidade do Outro (quidam homo) será um “aniquilamento plesiológico”. Surge como um proprium plesiológico do Desvalido no Caminho da vida 21 . O Sacerdote e o Levita significaram uma ruptura de solidariedade com o Outro (semi-morto). Foi o Outro (desvalido) que apareceu primeiro no caminho da proximidade, tendo levado o Samaritano (vocação do cuidado) à proximidade, acolhendo-O e respondendo aos Seus apelos. A responsabilidade surge como relação sem relação não mediada, na imediatez do Outro, que é subjectividade anárquica como implicação, recepção e aceitação vulnerável, que vem a mim (Samaritano), como aquele que presta cuidados, significando mais do que a origem e mais do que a consciência 22 A responsabilidade converte-se em sujeito, chega ao superlativo, quando 19 Zuben, N.A.V(2006), p. 442. 20 Lévinas E.(1977), p. 106 21 Meneses, R. D. B. (2008), p. 134. 22 Costa, M.L.(2000), p. 170.
74 J. H. S ILVEIRA – R. D. B ORGES «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 desencadeia a “inquietude” que não cessa, convertendo-se em única e,desde este momento, esquecendo-se completamente da reciprocidade. A responsabilidade é vulnerabilidade, fazendo com que esta seja uma plesiologia quenótica. Na vulnerabilidade há quenose do sujeito. O “aniquilamento plesiológico” é a quenose da vulnerabilidade, que teve o seu epílogo no Gólgota, pela Paixão e Morte, e apresentou o seu prólogo no proto - evangelho da Cruz: parábola de Bom Samaritano 23 . A responsabilidade é presença do vulnerável (semi-morto), como Desvalido, que olha e chama o Samaritano. Cuida de mim! … É o mandamento. A responsabilidade tem dois acusativos: vulnerabilidade e cuidado. A responsabilidade é a resposta indeclinável pelo “outro” e um dar inexorável. Existe o paradoxo de uma responsabilidade da qual eu não sou responsável. Tal asserção leva-nos a pensar que existem três concepções de responsabilidade. Por um lado, a concepção corrente, a de uma “responsabilidade por imposição” e, por outro, a de uma “responsabilidade assumida”, e, finalmente, a concepção de “responsabilidade anárquica”, que precede toda a iniciativa pessoal e toda a intervenção prévia da liberdade. 24 . O fundamento da responsabilidade, para Lévinas, reside naquilo que a “eleição” confere. Sentir-se como “eleito” é fazer parte da Aliança e ser único, como sujeito-escolhido, na condição de “refém”. 25 A eleição, expressão da responsabilidade, nomeia-se nas seguintes flexões: consumar-se, entregar-se, etc. 26 A responsabilidade supõe o reconhecimento da Aliança, dado que somos recebidos como “dom”. Exige-se, assim, uma responsabilidade que faça da “resposta” uma tarefa (Aufgabe). Perante esta responsabilidade, o Desvalido no Caminho (semi-morto) constitui-se como “Gabe” (dom) e o Samaritano apresenta-se como “Aufgabe” (contra-dom / tarefa). A responsabilidade é uma “Vorgabe” (afirmação), aparecendo como “condição para a misericórdia”, que vem de Deus-Pai, através do Des-valido, para o Samaritano. Finalmente, há uma “Eingabe” (petição / apelo) pelo silêncio e pelo sofrimento do Outro (des-valido). Porém, o Samaritano, pela eleição do Desvalido, realiza uma “Vergabe” (entrega) pela comoção ou estremecimento das vísceras, aplicando óleo e vinho e curando-Lhe as feridas (Lc 10, 33-34). O Samaritano, pela responsabilidade, “entrega-se” ao Desvalido no Caminho, porque Este se entregou primeiro ao Samaritano. O 23 Meneses, R. D. B. (2008), p. 135 24 Simon, R. (1995), pp.17-18. 25 Wenin,A. (1999), p. 53.
DA VULNERABILIDADE À RESPONSABILIDADE 75 «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 25-26. ISSN 1132-3329 Sacerdote e o Levita foram a ausência do dom e realizaram a “Űbergabe” (rendição) e perderam-se na responsabilidade de “identidade”. Logo, a responsabilidade pelo Outro refere-se como uma “eleição”. O eleito nada faz para ser bom, ele é solicitado pelo Bem na proximidade. Assim se passou com o Samaritano que foi “eleito” pelo Outro, no caminho, porque Este o chamou. O protagonista é o Desvalido. A minha responsabilidade é anterior à minha liberdade na medida em que sou chamado a responder ao “amor”. A responsabilidade do vulnerável cria-me uma ordem (pela ética normativa) e vivencia-me, pelos cuidados, pela “esplancnofania plesiológica” (acção da misericórdia ao próximo), actualizando uma aretologia soteriológica. A responsabilidade é a soteriologia da vulnerabilidade pelo cuidado. A responsabilidade é “dar prioridade “ao vulnerável. A responsabilidade de identidade marca as condutas dos assaltantes, do Sacerdote e do Levita e mesmo do legista, de maneiras diferentes, vivendo todos para si e a partir de si, “agindo”, no seu comportamento, pelo interesse, auto-estima, autoconservação, auto-extensão, autorealização e autosatisfação, precisamente naquilo que Lévinas denomina “egoísmo alérgico”, que são os individualismos em guerra uns contra os outros. Todos contra todos. 27 O Samaritano foi responsável pela dor e pelo sofrimento do Desvalido. A responsabilidade é uma esplancnofania do Samaritano para com o Desvalido no Caminho ( meio-morto ). A comoção das vísceras, de baixo para cima, será a responsabilidade pelo Outro, segundo a parábola do Bom Samaritano ( Lc 10, 25 – 37 ). A comoção das vísceras do Samaritano é uma responsabilidade poiética do mesmo, perante a responsabilidade anárquica, do Desvalido no Camimho. Ninguém pode substituir o Eu ( Samaritano ) nessa responsabilidade indeclinável. Ele deve ser responsável pelos outros e a presença deles assim o exige. O “des-valido” é considerado um ser sem categoria, sem dignidade, sem posição, como um estranho. Isto quer dizer que aquelas duas personagens do Templo de Jerusalém representam o “amor de identidade”. 28 Trata-se de um amor que deseja o Outro, se pertencer ao seu mundo, enquanto ignora o “des-valido”: “viu, desviou-se e passou ao lado” (Lc 10, 31-32). O Sacerdote e o Levita amam aqueles que já estão dentro do seu mundo afectivo pelo sangue, pelo parentesco ou pelo interesse, mostrando-se desinteressados e desconhecedores dos demais. Estes são os 28 Di Sante, C. ( 1995), pp. 59-60.
82 J. H. S ILVEIRA – R. D. B ORGES «F RAGMENTOS DE FILOSOFÍA », nº 12 (2014), pp. 67-82. ISSN 1132-3329 MENESES, R. D. B. – “O Vulnerável segundo a parábola do Bom Samaritano” in: Revista de Cultura Teológica.56 (2006). ZUBEN, N.A.V.,- Vulnerabilidade e Decisão: tensão no pacto médico. Revista O Mundo da Saúde - São Paulo, ano 30v. 30 n.3 Jul/Set (2006). SIMON, R.“Vers une nouvelle approche de la responsabilité”, in: Église et Théologie, 26 (1995). WENIN, A. L’Homme biblique, trad. do alemão, Paris, É. du Cerf( 1999). DI SANTE, C. – Il Padre Nostro, l’esperienza di Dio nella tradizione ebraicocristiana, Assisi, Cittadella Editrice (1995). RADERMAKERS J. et al. – Lectura Pastorale del Vangelo di Luca, E. Dehoniane, Bologna( 1986). LOPES NUNES, E.P. – O Outro e o Rosto: problemas de alteridade em Emmanuel Lévinas, Publicações da Faculdade de Filosofia, Braga(1993). SANDHER.S. – Die heimliche Geburt des Subjekts, W. Kohlhanimer-Verlag, Stuttgart(1998). JOÃO PAULO II – Epistula Apostólica Salvifici Doloris, in: Acta Apostolicae Sedis 76 , 3 (1984).