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Comentário a Juan Vázquez Sánchez

Mendes, João

Abstract

Este texto constitui uma versão quase imodificada da apreciação da conferência do Professor Juan Vázquez, no dia 27 de Outubro de 2005 no âmbito do colóquio internacional «A Filosofia Hoje», organizado pelo Departamento de Filosofia e Cultura.

Full text

Aminha primeira nota é de felicitação ao Professor Juan Vázquez Sánchez pela sua magnífica ponencia,que nos permitiu ver, através de uma abordagem periodológica, as grandes transformações doutrinais de uma das disciplinas mais respeitadas no actual quadro dos saberes filosóficos: a Filosofia da Ciência. Mas, intentar produzir um comentário à sua meridiana exposição é, confesso, uma tarefa que encaro como algo temerária. De facto, não consigo impedir que me venha à mente um anexim do lógico renascentista Petrus Ramus – parafraseado na expressão italiana «traduttore, tradittore» – a relembrar-me, em tom de advertência: «Commentatio, commentitia», comentar é, de algum modo, deturpar2.Peço, pois, alguma indulgência para as observações e interrogações que seguidamente farei. —————————— 1Este texto constitui uma versão quase imodificada da apreciação que fiz da conferência do Professor Juan Vázquez, na sequência da sua apresentação no início da tarde do primeiro dia (27 de Outubro de 2005) do memorável colóquio internacional «A Filosofia Hoje», organizado pelo Departamento de Filosofia e Cultura – a que me honro de pertencer – e realizado na Universidade do Minho. Decidi mantê-la no seu registo original, quiçá mais próximo da oralidade, por respeito aos factos. 2Cfr. Antoine Compagnon,La seconde main ou le travail de la citation.Paris : Éditions du Seuil. 1979: 236 e ss. DIACRÍTICA, FILOSOFIA E CULTURA, n.º 20/2 (2006), 69-74 Comentário aJuan Vázquez Sánchez1 JOÃO RIBEIRO MENDES (Universidade do Minho) 1. A Filosofia da Ciência é uma disciplina com uma curta história, um longo passado e um promissor futuro. Na sua locução, o Professor Juan Vázquez, seguindo uma interpretação que se tornou consensual na comunidade daqueles que investigam o devir deste domínio de estudos, (a) situa a génese da constituição da Filosofia da Ciência qua disciplina filosófica autónoma por volta da década de 20 do século passado, como efeito, em boa medida, do labor de uma corrente de pensamento intitulada «Positivismo lógico», (b) mostra como todo o seu desenvolvimento posterior se realiza, de uma forma ou de outra, na senda ou a contrapelo do ideário epistemológico desta última e (c) faz entrever, na parte final da sua apresentação, as novas veredas praxiológicas por onde a sua inquirição caminha. Embora esteja persuadido de que o percurso delimitado pelo Professor Juan Vázquez tenha sido constrangido, mais não seja parcialmente, por necessidades de economia de exposição, não posso deixar de colocar a seguinte questão: que razão ou razões substantivas podem ser invocadas para inscrever na certidão de nascimento desta disciplina a data de ascensão à cátedra de «filosofia das ciências indutivas» na Universidade de Viena por Moritz Schlick (1922) – criada 27 anos antes propositadamente para ser ocupada pelo físico Ernst Mach – ou, em alternativa, a data da publicação do opúsculo Wissenschaftliche Weltausfassung (1929) pelo autodesignado Wiener Kreis?Dito de outro modo: porque não fazer remontar a sua génese mais atrás no tempo? Não digo até ao Teeteto de Platão ou aos Segundos Analíticos de Aristóteles, nem sequer ao Novum Organum (1620) de Bacon ou ao Discours de la méthode (1637) de Descartes, ou, mesmo, à Kritik der reinen Vernunft (1781/1787) de Kant 3ou ao Apreliminarydiscourse on the study of natural philosophy (1820) de John Herschel, um inventário mínimo de obras que, em todo caso, ilustra o riquíssimo passado da disciplina; mas, pelo menos, até à Wissenschaftslehre (1837) de Bernardo Bolzano e à Philosophy of the inductive studies (1840) de William Whewell, ambas publicadas no segundo terço do século XIX4. DIACRÍTICA 70 —————————— 3Amagnífica antologia editada por Joseph Kockelman, Philosophy of Science: The historical background (Somerset (N:J.): Transaction Publishers. 1999), por exemplo, assume a obra de Kant Fundamentos metafísicos de ciência natural (1786) como momento inaugural da disciplina. 4Cfr., e.g., Robert Blanché, AEpistemologia.Trad.: Natália Couto. Lisboa: Presença. 1988: 11. 2. A Filosofia da Ciência constituiu a disciplina filosófica que mais intensamente se desenvolveu no decurso do último século Os progressos que realizou durante esse período, com efeito, talvez só sejam igualados pela lógica e pela filosofia da linguagem, disciplinas, aliás, com as quais tem vindo a manter estreitas relações. Feita esta afirmação, que alguns assumirão como provocatória, tornase quase inevitável colocar a seguinte questão: que razões permitirão explicar este sucesso? Estou certo que o Professor Juan Vázquez, que segue o seu trajecto há já várias décadas – apesar da sua conservada juventude! – se encontra numa posição privilegiada para lhe dar um resposta. Contudo, gostaria de tentar enfrentá-la de um outro modo. Para o efeito, refaço a sua formulação nos seguintes termos: para que serve, afinal, a Filosofia da Ciência? Ao escutar e observar continuadamente colegas que se dedicam a fazer ciência, empírica ou teórica, formei a convicção de que as inquirições filosóficas sobre a sua actividade são entrevistas, por muitos deles, como desprovidas de qualquer utilidade manifesta para a sua vida profissional. A maior parte deles, com efeito, parece prosseguir com assinalável êxito as suas carreiras sem, em contrapartida, revelar omínimo interesse ou preocupação por questões epistemológicas. Aimpressão que retenho é a de nos seus domínios a Filosofia da Ciência se apresenta como uma espécie de instrumento musical sem uso ou, como afirmou Étienne Klein, que o estatuo que ela aí detém «(…) é quanto muito o de um ruído de fundo intelectual que não provoca quaisquer consequências»5. Alguns deles sustentam mesmo, de forma mais ou menos despudorada, que a ausência da Filosofia da Ciência dos lugares em que a ciência é produzida, traz mais benefícios que malefícios. Efectivamente – não hesitam em relembrar-me – não é verdade que as ciências se encontram, desde há muito, emancipadas da filosofia? E não foi precisamente por se terem conseguido gloriosamente libertar da sua «canga metafísica», acrescentam, que acabaram por conquistar o seu poder e a sua eficácia? Outros, ainda, recordam-me, sem rodeios, que os filósofos da Ciência não parecem conseguir evitar chegar sempre tarde ao «campo de batalha» (depois das descobertas ou das revoluções), mas que, asseCOMENTÁRIO A JUAN VÁZQUEZ SÁNCHEZ 71 —————————— 5«Les dégâts sonores d`une silencieuse separation» in Rue Descartes,n.º 41 (À quoi sert la philosophie des sciences?), 2003: 101. guram-me em tom complacente, é ainda assim possível atribuir-lhes uma função – a única, por sinal – nessa ordem das coisas: a de introduzirem alguma organização no campo das ideias. Todavia, em clara dissonância com as posições retratadas parece estar o Rapport recentemente tornado público pelo epistemólogo Dominique Lecourt – realizado a pedido do ministro da educação francês, Claude Allègre – sobre o ensino da Filosofia da Ciência nos cursos universitários de ciências (ao nível de graduação e pós-graduação) que, com base na consulta efectuada a um número muito significativo de alunos desses cursos, conclui que a sua grande maioria entende que a sua formação é realizada de um modo bastante dogmático e que gostaria de beneficiar, nos seus cursos, de momentos de reflexão sobreoseu domínio de estudos6. Sem entrar em mais detalhes, deixo a questão no ar: a Filosofia da Ciência constitui um «luxo do pensamento» ou uma necessidade básica da actividade científica? Razão para Richard Feynman, «A filosofia da ciência interessa tanto aos cientistas como a ornitologia aos pássaros» ou para Immanuel Kant, «A filosofia sem a ciência é vazia; aciência sem a filosofia é cega»? 3. AFilosofia da Ciência não tem um lugar claramente definido no actual quadrodos saberes Ouvimos o Professor Juan Vázquez dizer-nos que ela se posiciona, hoje, no domínio dos Estudos Metacientíficos ou, se se preferir a forma mais simples, da Metaciência; um domínio constituído por várias disciplinas que partilham um mesmo objecto de estudo, a Ciência enquanto fenómeno cultural, abordando-o, nas suas várias dimensões, a partir de uma perspectiva meta-reflexiva e meta-linguística. Todavia, que significa isso? Que não tendo encontrado acolhimento favorável no campo das ciências – onde outrora procurou instalar-se, emulando a sua objectividade e rigor, como instância tutelar do saber aí produzido, como «Ciência da Ciência» – e já não se revendo como disciplina tipicamente filosófica – pense-se no conjunto de competências que um filósofo da Ciência precisa hoje de deter para exercer DIACRÍTICA 72 —————————— 6Dominique Lecourt, «L`enseignement de la Philosophie des Sciences» (Rapport au Ministre de l`Éducation nationale, de la Recherche et de la Technologie). 2000. [consultável em http://www.education.gouv.fr/rapport/lecourt/default.htm] decentemente a sua actividade: sólida preparação em lógica de primeira ordem, bons conhecimentos de teoria dos conjuntos e teoria dos modelos, razoável proficiência nalguma das principais linguagens de programação informática, para não falar de uma considerável familiarização com o estado actual e pretérito da Ciência – migrou para uma região mais ou menos etérea dos saberes? Com efeito, não raramente se ouve a crítica de que a Filosofia da Ciência não é nem verdadeira Filosofia nem verdadeira Ciência. E também não raramente se ouve a crítica de que os filósofos da Ciência procurando servir duas senhoras por ambas são desprezados. Deixo assim uma questão mais em aberto: em que sentido se pode ainda considerar a Filosofia da Ciência uma disciplina filosófica? 4. AFilosofia da Ciência não se esgota na tradição epistemológica austro-anglo-americana Sobressaiu da exposição do Professor Juan Vázquez que a Filosofia da Ciência constitui uma especialidade intelectual, exportada para oresto do mundo, manufacturada por pensadores austríacos, inicialmente e, posteriormente, por pensadores anglo-americanos. Bastará, aliás, consultar uma qualquer obra que retrata a história desta disciplina, do vasto conjunto que tem sido publicado, para disso nos darmos conta. Contributos provenientes de outras tradições epistemológicas são aí olimpicamente ostracizados. As duas únicas figuras – vinculadas a uma outra igualmente poderosa tradição epistemológica – referidas pelo Professor Juan Vázquez, eainda assim na qualidade de precursores, foram Pierre Duhem e Henri Poicaré. Que aconteceu a Émile Meyerson, Gaston Bachelard, Fernand Gonseth, Jean Cavaillés, Alexander Koyré, RobertBlanché, Jules Vuillemin, René Taton, Suzanne Bachelard, Jean-Toissant Desanti, François Dagnognet, entretantos outros? Por que são, pois, sistematicamente ignoradas pelo main stream da Filosofia da Ciência as suas ideias?7 COMENTÁRIO A JUAN VÁZQUEZ SÁNCHEZ 73 —————————— 7Cfr., por exemplo, a este propósito, o notável trabalho de Anastasios Brenner, Les origines françaises de la philosophie des sciences.Paris : P.U.F. 2003. 5. A Filosofia da Ciência ainda não arranjou uma cura eficaz para o seu «teorocentrismo» Disse-nos o Professor Juan Vázquez que, de uma forma ou de outra, a Filosofia da Ciência centrou os seus esforços, entre as décadas de 20 a 80 do século passado, na análise da estrutura e dinâmica das teorias científicas. É um facto inegável, muito embora no âmbito da chamada concepção historiográfica alguns autores tenham procurado sobrepassar esse estrito plano, introduzindo unidades de análise de natureza macro-teórica, como os paradigmas ou as matrizes disciplinares de Thomas Kuhn, as teorias globais de Paul Feyerabend, os programas de investigação científica de Imre Lakatos ou as tradições de investigação científica de Larry Laudan. Contudo, disse-nos igualmente o Professor Juan Vázquez, desde o início da década de 80, sensivelmente, a Filosofia da Ciência anda à procura de uma cura eficaz para o seu «teorocentrismo» ou, se se preferir, uma via para tentar solucionar os principais problemas em que a Filosofia da Ciência pós-kuhniana se deixou enredar, em especial os que concernem ao declarado irrealismo e à apregoada irracionalidade da Ciência. Inquestionavelmente, muitas vias de inquérito se estão a abrir, na última década, na Filosofia da Ciência. Isso augura-lhe um promissor futuro. A reflexão sobreanovo modo de produzir Ciência iniciado no pós-Segunda Guerra Mundial, sobreocomplexo tecnocientífico, notavelmente conduzida em Espanha por Javier Echeverría, por exemplo, constitui uma dessas vias. Contudo, não me parece que no seu âmbito se possam vir a resolver adequadamente os referidos problemas clássicos que a disciplina enfrenta. Para tal será preciso elaborar, em meu entender,uma filosofia da experimentação científica muito mais robusta que aquela de que actualmente dispomos e que nos clarifique opapel da teoria na experimentação, o alcance filosófico dos instrumentos científicos, o modo como a experimentação interfere no mundo material, etc.8.Num certo sentido será preciso fazer uma espécie de retorno às origens modernas da Filosofia da Ciência, ao projecto epistemológico baconiano9.Eeste não seria, por certo, um percurso invulgar, aquele que vai ao buscar ao passado energias para projectar o seu futuro. DIACRÍTICA 74 —————————— 8Cfr., e.g., a colectânea de ensaios editada por Hans Radder, The Philosophy of Scientific Experimentation.Pittsburgh: University of Pittsburgh Press. 2003. 9Uma proposta retomada no texto seminal de Ian Hacking, Representing and Intervening. Introductory topics in the philosophy of natural science.Cambridge: Cambridge University Press. 2003.