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A Literacia Financeira entre os Alunos do Ensino Superior Jéssica Raquel Amorim Matos e Sá UMinho | 2023 Abril 2023 Jéssica Raquel Amorim Matos e Sá A Literacia Financeira entre os Alunos do Ensino Superior
Jéssica Raquel Amorim Matos e Sá A Literacia Financeira entre os Alunos do Ensino Superior Dissertação de Mestrado Mestrado em Finanças Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Benilde Maria do Nascimento Oliveira Supervisor: Professor Pedro Manuel Alves Barroso Magalhães Abril 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Começo por agradecer aos meus pais, irmã e avó: Gaspar, Raquel, Ana e Augusta, por todo o apoio emocional, sem eles não teria conseguido concluir esta etapa. Adicionalmente gostaria de agradecer à minha orientadora, Professora Benilde Oliveira, por todo o apoio, orientação e conselhos dados durante este período. Gostaria também de agradecer a todos os professores da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, que colaboraram comigo na divulgação em sala de aula do questionário associado a este trabalho, sem eles não teria conseguido uma taxa de resposta tão elevada. Seguindo a mesma linha de pensamento, gostaria também de agradecer a todos os estudantes universitários que colaboraram na minha pesquisa e em muito contribuíram para o sucesso desta dissertação. Por fim, agradeço a todos os meus amigos, colegas de trabalho e superiores hierárquicos que sempre me incentivaram e motivaram para a conclusão desta etapa académica.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Literacia Financeira entre os alunos do Ensino Superior Resumo Nos últimos anos, tem-se assistido à globalização dos mercados financeiros e a uma crescente acessibilidade e complexidade dos produtos e mercados financeiros. Assim sendo, os indivíduos necessitam de possuir conhecimentos financeiros sólidos, para que possam tomar decisões financeiras informadas sobre as suas finanças pessoais e desta forma aumentar o seu bem-estar financeiro. Dada a importância da literacia financeira para os indivíduos e para a sociedade como um todo, o presente estudo tem como principal objetivo aferir o nível de literacia financeira de um grupo específico da população portuguesa, os estudantes universitários, bem como perceber quais as variáveis sociodemográficas que explicam o nível de literacia financeira encontrado. Adicionalmente, pretende-se compreender a relação entre o nível de literacia financeira efetivo e percecionado, a experiência financeira, aversão ao risco e atitudes face à poupança. Tendo em vista a prossecução do objetivo deste estudo, optou-se por aplicar um inquérito por questionário, dividido em 3 subsecções de acordo com a temática em estudo. Obteve-se uma amostra composta por 690 inquiridos, sendo que a maioria se identifica com o sexo feminino (58.84%), possui uma idade média que se situa entre os 17 e 24 e encontra-se a frequentar uma licenciatura ou mestrado. Os resultados obtidos indicam que o nível de Literacia Financeira detido pelos estudantes foi de 77.22%, o que indica que em média os alunos acertaram mais de metade das questões apresentadas. No que respeita aos fatores sociodemográficos que contribuem para um nível mais elevado de literacia financeira, destacam-se o género, ciclo de estudos, área de estudos e rendimento mensal líquido do agregado. Por fim, conclui-se que o grau de aversão ao risco diminui com o nível de literacia financeira detido pelo inquirido. Também se verificou que o nível de literacia financeira detido influencia positivamente as atitudes perante a poupança, no entanto não se confirmou a existência de uma relação entre o nível de literacia financeira efetivo e percecionado, como seria expectável. Palavras-Chave: Conhecimento Financeiro, Estudantes Universitários, Literacia Financeira
vi Financial Literacy amongst University Education students Abstract The last few years have seen the globalization of the financial markets and an increase in the accessibility and complexity of financial products and markets. Therefore, individuals need to have sound financial knowledge, so that they can make informed financial decisions about their personal finances and thus increase their financial well-being. Given the importance of financial literacy for individuals and for society as a whole, the main purpose of this study is to assess the level of financial literacy within a specific group of the Portuguese population: College students, as well as to understand which socio-demographic variables explain the level of financial literacy found. In addition, it aims to understand the relationship between the actual and perceived level of financial literacy, financial experience, risk aversion and attitudes towards savings. In order to pursue the main goal of this study, we chose to conduct a questionnaire survey, divided into 3 sub-sections, each according to the theme under investigation. The sample size is composed of 690 respondents, most of whom are female (58.84%), have an average age between 17 and 24 and are attending a bachelor's or master's degree. The results obtained indicate that the level of Financial Literacy held by students was of 77.22%, which indicates that, on average, students got more than half of the questions right. Regarding the socio-demographic factors: the respondent’s gender, study cycle, area of study and household net monthly income all seem to contribute to higher levels of financial literacy. Finally, we conclude that the degree of risk aversion decreases with the level of financial literacy held by the respondent. It was also found that the level of financial literacy positively influences attitudes towards saving, but the existence of a relationship between actual and perceived levels of financial literacy was not confirmed, as would be expected. Key-words: Financial Knowledge, Financial Literacy, University Students
vii Índice Direitos de Autor e Condições de Utilização do Trabalho por Terceiros .................................................. ii Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Declaração de Integridade .................................................................................................................. iv Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Índice ................................................................................................................................................ vii Índice de Tabelas ............................................................................................................................... ix Siglas .................................................................................................................................................. x 1.Introdução ........................................................................................................................................ 1 2.Revisão de Literatura ........................................................................................................................ 3 2.1 Definição de Literacia Financeira.......................................................................................... 3 2.2 Mensuração da Literacia Financeira ..................................................................................... 5 2.3 A Importância da Literacia Financeira .................................................................................. 7 2.4 A Educação Financeira ........................................................................................................ 8 2.5 Determinantes da Literacia Financeira .............................................................................. 10 2.5.1 Idade ................................................................................................................... 11 2.5.2 Género ................................................................................................................ 12 2.5.3 Nível de Educação e Área de Estudos .................................................................. 14 2.5.4 Rendimento ......................................................................................................... 15 2.5.5 Outros ................................................................................................................. 16 3.Metodologia e Dados ..................................................................................................................... 17 3.1 Objetivos e Hipóteses de Investigação ............................................................................... 17 3.2 Métodos e Técnicas de Recolha de Dados ......................................................................... 18 3.3 Estrutura do Questionário ................................................................................................. 19 3.4 Pré-teste ao Questionário .................................................................................................. 20 3.5 Variáveis ........................................................................................................................... 21 3.5.1 Nível de Literacia Financeira ................................................................................ 21 3.5.2 Atitudes Financeiras ............................................................................................ 22
4 uma maneira mais simplificada, pode ser considerada como uma capacidade de gerir poupanças e realizar investimentos. A literacia financeira corresponde ao conhecimento e às competências necessárias para tomar decisões financeiras que podem afetar o bem-estar financeiro do individuo (Comissão Europeia, 2022). A mesma ideia é defendida por outros autores como Huston (2010). Este começa por argumentar que a literacia financeira, tal como a literacia em geral, pode ser dividida em 2 dimensões: a compreensão (relativa ao conhecimento de finanças pessoais) e a sua utilização (aplicação das finanças pessoais). Esta é uma definição concisa que, de uma forma geral, não contradiz as definições e resultados encontrados na literatura existente. Na definição de literacia financeira proposta por Huston (2010), existe uma clara distinção entre os conceitos de literacia financeira e conhecimento financeiro. Para este autor, tanto a literacia financeira como o conhecimento financeiro são capital humano, embora se trate de construções diferentes. Para este autor, o conhecimento financeiro é parte integrante do conceito de literacia financeira, ou seja, a literacia financeira e o conhecimento financeiro são conceitos distintos (Huston, 2010). Segundo Huston (2010), comparativamente ao conhecimento financeiro, a literacia financeira possui uma dimensão de aplicação adicional, que implica a necessidade de um indivíduo possuir a capacidade e a confiança para poder aplicar os seus conhecimentos, tendo em vista o aumento do seu bem-estar financeiro. Também Amagir et al. (2020) argumentam que o conhecimento financeiro, as atitudes perante o dinheiro e o comportamento financeiro são partes integrantes do conceito de literacia financeira. A literacia financeira constitui uma forma de conhecimento essencial para os indivíduos, mas também para a estabilidade económica e financeira global (Martins et al., 2021).Nesse seguimento, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Economico define a literacia financeira como: “Conhecer e entender/compreender os conceitos e riscos financeiros, bem como possuir a competência, motivação e confiança para aplicar esse conhecimento com o objetivo de tomar decisões acertadas perante um vasto conjunto de alternativas e contextos financeiros, tendo em vista o aumento do bem-estar financeiro individual e da sociedade como um todo” (OCDE, 2017). Nas diversas atividades como a aplicação de poupanças e o recurso ao crédito, a literacia financeira contribui para que os consumidores tomem decisões conscientes e informadas nos
5 mais variados aspetos que envolvem a rotina financeira individual, nomeadamente a gestão do orçamento familiar, controlo da conta bancária e na escolha de produtos e serviços bancários (Banco de Portugal, 2013). Assim sendo, para que os indivíduos tomem decisões relativas à contratação de empréstimos, aplicação de poupanças, recurso ao crédito ou afetação intemporal dos recursos, são relevantes as três dimensões da literacia financeira: conhecimentos, comportamentos e atitudes financeiras. Ao longo dos anos, e tendo em vista uma maior compreensão do conceito de literacia financeira, a OCDE alargou a sua definição de literacia financeira para incluir três dimensões: conhecimento, comportamento e atitudes financeiras. Desta forma, o conceito de literacia financeira fica mais completo e complexo, dado que envolve uma combinação de vários fatores necessários para os indivíduos poderem tomar decisões financeiras conscientes (OCDE,2018; Martins et al., 2021). 2.2 Mensuração da Literacia Financeira Atualmente, reconhece-se a importância de avaliar o nível de literacia financeira dos indivíduos, embora se trate de uma árdua tarefa compreender como os indivíduos processam a informação financeira e tomam decisões informadas sobre as suas finanças pessoais (Lusardi & Mitchell, 2011b). Os estudos empíricos que se debruçam sobre a literacia financeira utilizam um conjunto diversificado de metodologias, ou seja, os métodos utilizados para avaliar e mensurar a literacia financeira variam de estudo para estudo. Existem estudos que têm como público-alvo a população mais jovem, mais especificamente estudantes universitários. Potrich et al. (2016), através do seu estudo, pretendem avaliar a literacia financeira dos alunos do ensino superior, para tal adotaram o conceito de literacia financeira tendo como dimensões o conhecimento financeiro, comportamento financeiro e as atitudes financeiras. Estes autores utilizaram uma amostra de 534 estudantes de Universidades públicas e privadas, tendo-se utilizado para análise da informação recolhida equações estruturais como o SEM ( Structural Equation Modelling ). No que respeita à tipologia de perguntas, para medir a literacia financeira, utilizou-se uma escala de Likert e questões de escolha múltipla, desenvolvidas e mensuradas com base no estudo de Chen e Volpe (1998) e Rooij et al. (2011).
6 Chen e Volpe (1998) implementaram um estudo que tem por objetivo medir o nível de literacia financeira dos alunos do ensino superior, compreender a relação entre a literacia financeira e as caraterísticas dos alunos, bem como averiguar o impacto da literacia financeira na opinião dos alunos e nas suas decisões financeiras. Tendo em vista analisar os principais aspetos das finanças pessoais: conhecimento geral, poupanças, empréstimos, seguros e investimentos, elaborou-se um questionário, calculou-se a mediana das respostas corretas e agrupou-se essas percentagens em 3 categorias de conhecimento. Considera-se com elevado nível de literacia financeira os estudantes com um resultado igual ou superior a 80%; são considerados com literacia financeira de nível intermédio os que obtiveram um resultado compreendido entre 60% e 79%; e possuem um baixo nível de literacia financeira os estudantes com uma pontuação inferior a 60%. Por sua vez, a investigação de Lusardi e Mitchell (2011a) foca-se em avaliar, apenas, o conhecimento financeiro dos americanos. Para tal, desenvolve 3 grandes questões, cujos temas incidem sobre taxas de juro, inflação e risco financeiro. Rooji et al. (2011), na sua abordagem à literacia financeira, dividem a literacia financeira em dois grandes grupos: o nível básico e o nível avançado. O nível básico é avaliado através de questões, mais simples, envolvendo taxas de juro, inflação e valor temporal do dinheiro. Por outro lado, para avaliar o nível avançado, que pressupõe um maior nível de literacia financeira, utilizaram-se questões mais complexas, envolvendo a relação entre o preço das obrigações e a taxa de juro, diversificação de carteiras de ativos e risco financeiro. A perceção, segundo Allgood e Walstad (2016), trata-se de uma forma alternativa de mensurar a literacia financeira. Estes autores comparam o nível de literacia financeira efetivo com o percecionado, criando 4 categorias. Para estes autores, o indivíduo apresenta um elevado nível de literacia financeira, se o conhecimento financeiro do individuo for superior à pontuação média de literacia financeira. No que respeita ao nível de literacia financeiro percecionado aplica-se o mesmo critério. Assim sendo, foram constituídas 4 categorias: (1) alto conhecimento financeiro efetivo e percecionado, (2) baixo conhecimento financeiro efetivo e alto conhecimento financeiro percecionado, (3) alto conhecimento financeiro efetivo e baixo conhecimento financeiro percecionado e (4) baixo conhecimento financeiro efetivo e percecionado. Relativamente às fontes de informação, verifica-se tanto o recurso a dados primários (Lusardi & Mitchell, 2011a; Potrich et al., 2016), como também a utilização de micro dados secundários
7 como o questionário à Literacia Financeira da OCDE (Loke, 2016) e o National Capability study, desenvolvido nos Estados Unidos da América. 2.3 A Importância da Literacia Financeira Para o President’s Advisory Council on Financial Literacy , embora a crise financeira, que despoletou em 2007, tenha várias causas, torna-se inegável que a literacia financeira ou a falta dela encontra-se no epicentro (Lusardi & Mitchell, 2011a). No entanto, infelizmente, muitos americanos ainda não possuem as competências financeiras básicas necessárias para poderem tomar decisões financeiras consistentes e ponderadas. De acordo com o estudo de Lusardi e Mitchell (2011a), pode-se observar que uma grande maioria dos americanos não compreende conceitos financeiros básicos, tais como juros compostos, inflação e diversificação da carteira de ativos. Segundo o estudo, esta problemática tem principal incidência sobre indivíduos do sexo feminino, mais velhos e menos instruídos. Com a crescente complexidade dos mercados financeiros, a Literacia Financeira passou a ser vista como mais importante que nunca, e não apenas para as famílias. As instituições financeiras, os governos e os educadores identificaram que a educação no âmbito da gestão das finanças pessoais se trata de uma prioridade (Cude et al., 2006). Várias organizações, governamentais e não governamentais, demostraram interesse no aumento da literacia financeira dos estudantes universitários, dado que o conhecimento financeiro apreendido na universidade tem um grande impacto nas tomadas de decisões financeiras dos indivíduos ao longo da vida, assim como pode afetar o seu rendimento escolar (Cude et al., 2006). Compreender a literacia financeira entre os jovens trata-se de uma tarefa crucial para os formuladores de políticas, dado que permite a elaboração de programas de educação financeira mais eficazes e direcionados para jovens, assim como permite elaborar legislação para proteger os consumidores mais jovens (Lusardi, 2011). A investigação de Lusardi e Tufano (2009) permite concluir que indivíduos com baixos níveis de literacia financeira são mais propensos a contraírem dívidas. De acordo com dados fornecidos pelo USA Today/National Endowment for financial education (2006), 29% dos jovens deixaram de estudar por dificuldades financeiras e dívidas, bem como 40% dos jovens trabalhadores afirmam não possuir à data nenhuma conta poupança (Lusardi, 2011). Um menor nível de literacia financeira implica uma menor probabilidade de participação no mercado de ações (Rooij et al., 2011), assim como acresce a probabilidade de os indivíduos investirem os seus excedentes de
8 capital em carteiras de ativos pouco diversificadas e dessa forma possuem uma dificuldade acrescida no que refere aos planos de poupança para a reforma (Lusardi & Mitchell, 2007). “A dimensão da crise financeira global, a compreensão das causas e a gravidade da crise económica que lhe sucedeu acentuam a perceção da importância da literacia financeira quer para o bem-estar individual quer para a estabilidade económica e financeira global” (Martins et al., 2021). A OCDE (2005) argumenta que a literacia financeira representa um grande contributo para o crescimento económico mundial, ajudando a reduzir a pobreza mundial e atenuando a volatilidade dos mercados. Nestas últimas décadas, mais do que nunca, a numeracia financeira e a literacia financeira revelam-se competências necessárias para obter sucesso no complicado contexto económico atual. Nos últimos anos, observou-se uma transformação dos mercados financeiros em todo o mundo, quer ao nível do número de produtos financeiros disponíveis como à sua complexidade, tendo-se tornado adicionalmente mais acessíveis para os pequenos investidores. No entanto, muitos dos produtos financeiros disponíveis demonstram-se extremamente complexos, especialmente para investidores com pouca experiência (Lusardi, 2012). Assim sendo, atualmente, a literacia financeira deve ser considerada tão importante como saber ler e escrever, uma vez que sem estes conhecimentos os indivíduos e as sociedades em geral não conseguem aproveitar todo o potencial dos diversos instrumentos financeiros existentes no mercado. A literacia financeira deve ser vista como um direito universal para toda a sociedade e não apenas um privilégio para alguns consumidores que têm acesso a conhecimento e aconselhamento financeiro particular (Lusardi, 2019). 2.4 A Educação Financeira Para que os indivíduos possam estar mais bem preparados para enfrentar crises financeiras, torna-se fulcral fornecer educação financeira básica. Para que os indivíduos possam desenvolver e manter um orçamento familiar estável, bem como compreender o conceito de crédito e quais os veículos de investimento que têm disponíveis para assim poderem tirar um melhor proveito do próprio sistema bancário torna-se necessário possuírem bons conhecimentos financeiros (Lusardi & Mitchell, 2011a).
9 O estado da arte reúne consenso e alerta para uma lacuna ao nível da literacia financeira, mesmo em países desenvolvidos e com um mercado financeiro eficiente, tratando-se de um problema mundial e que necessita de atenção imediata por parte dos governos dos vários países (Lusardi, 2019). De uma forma geral, a literatura aponta para uma relação positiva e linear entre a acumulação de formação na área financeira, quer no ensino secundário, quer na universidade ou através de seminários e o nível de literacia financeira detido (Sebastião et al., 2021). Tal como descrito pela OCDE (2005), a educação financeira consiste no processo em que os investidores financeiros melhoram a sua compreensão acerca de produtos e conceitos financeiros, contribuindo para fazerem escolhas informadas e potenciarem o seu bem-estar financeiro. O estudo de Bernheim et al. (2001) fornece a primeira evidência sobre os efeitos de longo prazo da obrigatoriedade de unidades curriculares que abordam questões financeiras no ensino superior. Os resultados obtidos são consistentes com a visão de que a obrigatoriedade destas unidades curriculares aumentou, significativamente, a exposição dos estudantes universitários à educação financeira e, em última análise, aumentou as taxas às quais os jovens economizam e acumulam riqueza ao longo da vida. Estes resultados contribuem para a crescente evidência de que a educação financeira é uma ferramenta poderosa para as poupanças pessoais (Bernheim et al., 2001). Segundo resultados encontrados no estudo de Fernandes et al. (2014), contrariamente ao que seria expectável, os efeitos das intervenções educacionais na área financeira apresentaram um impacto pouco significativo no comportamento financeiro. Por outro lado, usando também a metaanálise, Kaiser e Menkhoff (2020) apresentaram resultados diferentes. Estes demonstram através do seu estudo que a educação financeira tem um impacto significativo no comportamento financeiro dos jovens. Adicionalmente, os resultados empíricos também evidenciam que a capacidade de assimilação e compreensão de conceitos financeiros é similar a outras intervenções educacionais em domínios como o da matemática ou leitura. Os indivíduos com maior literacia financeira, por norma, apresentam uma menor tolerância ao risco. Esta descoberta corrobora a ideia de que a educação exerce um efeito secundário nos indivíduos, promovendo uma maior consciencialização dos riscos de capital (Cameron et al., 2014). A literacia financeira em Portugal, especialmente junto dos mais jovens, é muito importante, de acordo com o inquérito: “Literacia Financeira da População Portuguesa realizada em
10 2010“(Banco de Portugal, 2011) que se baseou na análise de 5 áreas: (1) inclusão financeira; (2) despesas e plano de poupança; (3) gestão de contas bancárias; (4) escolha dos produtos bancários; (5) conhecimento financeiro. Este inquérito permite tirar conclusões importantes, sendo uma delas que 11% dos inquiridos não possuem conta bancária, tendo, metade destes, idades compreendidas entre os 16 e os 24 anos. O facto de o mundo financeiro estar em constante mudança, leva à necessidade de realizar alterações na forma como os professores lecionam a educação financeira, requerendo uma atualização constante nos conteúdos programados (Çelikkol & Çelikkol, 2015; Compen et al., 2019). Finalmente, um aumento do bem-estar do indivíduo depende da qualidade das suas escolhas financeiras. Atualmente a maioria dos investigadores que se debruçam sobre questões relacionadas com a literacia financeira concorda que o ensino da literacia financeira não deve ser apenas limitado aos indivíduos que trabalham no ramo financeiro, mas sim deve abranger toda a população. 2.5 Determinantes da Literacia Financeira A literatura existente apresenta diferentes pontos de vista relativamente a quais os fatores responsáveis pelo nível de literacia financeira do indivíduo e da população como um todo. Tal como especificado por Cameron et al. (2014), existem cinco grupos de variáveis que potencialmente influenciam o nível de literacia financeira: (1) Caraterísticas dos estudantes (idade, género, área e ciclo de estudos que frequenta); (2) Conhecimento dos estudantes (média de curso, capacidades cognitivas, conhecimento dos estudantes acerca de: taxas de juro, inflação, valor temporal do dinheiro e diversificação do risco); (3) Fatores socioeconómicos (nível de rendimento mensal, riqueza e grau de educação dos pais e perspetivas financeiras dos jovens para o futuro); (4) Inclusão no sistema bancário; e (5) Experiências financeiras (averiguar se é trabalhadorestudante e qual o seu histórico de investimento em produtos financeiros). De seguida, sistematiza-se os contributos mais relevantes em torno dos seguintes fatores explicativos: idade, género, nível de educação, área de estudos e rendimento. Adicionalmente, incluir-se-á ainda um último tópico, destinado a fatores residuais.
11 2.5.1 Idade O fator idade é amplamente usado para explicar a literacia financeira entre os vários indivíduos e populações, embora não exista consenso na literatura relativamente à sua relevância. Segundo os resultados obtidos no estudo de Rodrigues et al. (2012), os estudantes com idade igual ou inferior a 20 anos possuem menos conhecimento sobre literacia financeira do que estudantes com idades compreendidas entre os 21 e 25 anos, dado que tiveram mais oportunidades para adquirir conhecimento financeiro, tanto relativamente ao funcionamento da economia como dos mercados financeiros. Na literatura existem vários estudos que examinam a literacia financeira dos indivíduos, demostrando que esta é particularmente baixa entre jovens, mulheres e pessoas com menos anos de estudos (Lusardi & Mitchell, 2011b). De acordo com os estudos de Monticone (2010) e Kadoya e Khan (2020), a literacia financeira aumenta com a idade atingindo o seu auge na idade adulta, faixa etária dos 40-60 anos, começando posteriormente a diminuir. Este estudo demonstrou ainda que os idosos apresentam um maior nível de literacia financeira quando comparados com os jovens. Os resultados do Health and Retirement Study (HRS) revelam baixos níveis de numeracia financeira entre a população mais velha dos EUA, sendo que apenas 67% dos indivíduos com mais de 50 anos responderam corretamente a questões relativas ao módulo da numeracia financeira, tratando-se de um resultado preocupante dado que uma grande parte destes indivíduos ao longo da sua vida lidaram com muitas decisões financeiras que envolviam este tipo de cálculo (Lusardi, 2012). No que respeita aos mais jovens, regra geral, estes apresentam um menor nível de literacia financeira. De acordo com o estudo de Kadoya e Khan (2020), os indivíduos aprendem com os próprios erros, o que depreende que indivíduos que viveram mais anos e tiveram mais experiências financeiras possuam um maior nível de conhecimento financeiro. Para vários estudiosos, a experiência financeira trata-se da principal fonte de conhecimento financeiro (Hilgert et al., 2003; Monticone, 2010). Os resultados obtidos no estudo de Lusardi et al. (2017) revelam ainda que a literacia financeira muda ao longo do ciclo de vida dos indivíduos, tornando-se a idade uma variável central aquando do estudo da literacia financeira.
12 De acordo com o estado da arte, existem evidências ao longo da literatura que exibem um perfil etário côncavo, em forma de U invertido, relativamente ao conhecimento financeiro, o que reforça a ideia de que os adultos exibem maiores níveis de literacia financeira quando comparados com os idosos e com os mais jovens. Agarwal et al. (2007) argumentam que o aumento da literacia financeira associado à idade possa estar relacionado com a aquisição de conhecimento ao longo da vida, por outro lado, o declínio subsequente pode dever-se à deterioração das capacidades cognitivas. Seguindo a mesma linha de pensamento, o estudo de Monticone (2010) corrobora o facto de a idade e o conhecimento financeiro apresentarem uma relação decrescente a partir da meia-idade, apresentando como principal motivo o facto de as gerações mais velhas não terem sido expostas a serviços financeiros complexos como os atualmente presentes no mercado financeiro, razão que justifica os idosos serem frequentemente vítimas de fraude financeira. No entanto, Lyons et al. (2007) não confirmam a existência deste padrão, de acordo com o seu estudo existe uma relação ligeiramente negativa entre a idade e o conhecimento de questões relativas ao crédito. 2.5.2 Género Na literatura existem vários estudiosos que consideram o género um fator explicativo da literacia financeira, contudo ainda não existe consenso na literatura relativamente à sua relevância. Os mercados financeiros, tal como os vários setores, não ficaram imunes ao movimento de empoderamento feminino, tendo-se verificado que a percentagem de mulheres entre os investidores financeiros individuais em Portugal teve um aumento significativo (Nilesh et al., 2021). Contudo, as diferenças entre os géneros mantêm-se, nomeadamente no que diz respeito às estratégias de investimento (Chen, 2008; Saraiva, 2010). Diversas variáveis demográficas como ser do género masculino e de cor branca aparecem frequentemente associadas a um maior nível de literacia financeira. De acordo com o estudo de Bernheim et al. (2001), homens de cor branca obtém um melhor desempenho em questões relacionadas com as finanças e com a economia. Segundo a literatura, conclui-se que as mulheres e os viúvos, em média, obtêm pior desempenho no teste aos conhecimentos financeiros, comparativamente aos homens (Chen & volpe, 1998; Chen & Volpe, 2002; Lusardi & Mitchell, 2011b; Nilesh et al., 2021).
13 Segundo o estudo de Kadoya e Khan (2020), no que respeita a questões relativas a conhecimento financeiro básico, as mulheres e os homens obtiveram pontuações similares. Contudo, quando se testa o conhecimento relativo a questões mais complexas, envolvendo risco e diversificação de capitais, a pontuação obtida pelo sexo feminino baixa drasticamente. O baixo nível de literacia financeira encontrado para as mulheres deve-se ao facto de não conhecerem conceitos, terminologias ou não possuírem um bom desempenho em questões que envolvam matemática (Chen & Volpe, 2002). Frequentemente, acredita-se que as mulheres são mais avessas ao risco e que possuem menos autoconfiança do que o sexo oposto (Nilesh et al., 2021). As mulheres, de uma forma geral, revelam um menor nível de literacia financeira, contudo apresentam uma tendência para subvalorizar o seu conhecimento, julgando possuir um conhecimento financeiro inferior àquele que realmente detêm (Chen & Volpe,2002; BucherKoenen et al.2021). Seguindo a mesma linha, o estudo de Barber e Odeam (2001) demonstra que em áreas como a financeira os homens são mais sobreconfiantes do que as mulheres, sendo que habitualmente os investidores sobreconfiantes tendem a negociar excessivamente. Segundo o estudo supracitado , os homens tendem a negociar nos mercados financeiros 45% mais vezes do que as mulheres, o que implica que possuam mais experiência e consequentemente mais conhecimento financeiro. Porém, este não é um resultado unânime na literatura, uma vez que segundo os resultados obtidos no estudo da Nilesh et al. (2021), as mulheres apresentam uma maior sobreconfiança quando comparadas com os homens. Empiricamente, podemos observar que ser mulher está frequentemente associado a uma maior aversão ao risco comparativamente aos homens (Barber & Odean, 2001; Chen & Volpe, 2002; Nilesh et al., 2021). Quando comparadas com os homens, as mulheres apresentam um menor interesse, entusiasmo e preocupação relativamente a assuntos financeiros, não sendo por isso surpresa que as mulheres obtenham uma menor pontuação nas questões relativas à literacia financeira. Examinando mais minuciosamente, percebemos que os homens consideram áreas como a das ciências, matemática e financeira mais relevantes, enquanto as mulheres demonstram um maior interesse pelas áreas das humanidades e artes. Desta forma, exibem consequentemente menos entusiasmo em adquirir conhecimentos na área das finanças pessoais (Chen & Volpe 2002).
20 ii) Atitudes e Comportamentos financeiros; iii) Conhecimentos financeiros. A parte mais difícil da construção, do presente questionário, prendeu-se com a decisão de quais as atitudes face à poupança, comportamentos e conhecimentos financeiros que são expectáveis para os estudantes universitários portugueses. Assim sendo, acabou-se por privilegiar as temáticas de literacia financeiras consideradas como patamares mínimos de literacia financeira para o ensino secundário em Portugal. Dado que não é expectável que os estudantes universitários portugueses tenham um contacto frequente com os instrumentos e instituições financeiras, no seu quotidiano. Para averiguar as suas atitudes face à poupança e comportamentos financeiros, optou-se por questões envolvendo as atitudes e comportamentos financeiros mais relevantes, nomeadamente, práticas de poupança, gestão de finanças pessoais e autocontrolo sobre o orçamento familiar. Com estas questões pretende-se analisar o bem-estar financeiro e qualidade do planeamento financeiro familiar dos estudantes. Também se optou por colocar uma questão referente à escolha de serviços e produtos financeiros, tendo em vista compreender a experiência financeira dos inquiridos. Para a elaboração das questões utilizadas, no presente questionário, recorreu-se à adaptação de questões que se inseriam nos questionários desenvolvidos por Chen e Volpe (1998), Banco de Portugal (2011) e OECD/INFE Toolkit for Measuring Financial Literacy and Financial Inclusion (OCDE, 2018). No que se refere aos conhecimentos financeiros, o foco recaiu sobre questões que averiguassem o conhecimento no que refere às taxas de juro (simples e compostas), numeracia financeira, valor temporal do dinheiro, diversificação do risco e inflação. Para tal, foram adaptadas as questões conhecidas como “The Big 3”, do estudo de Lusardi e Mitchell (2011b). 3.4 Pré-teste ao Questionário A implementação do questionário foi precedida por um pré-teste, tendo em vista identificar eventuais falhas, omissões, ambiguidades, dificuldades de interpretação das questões, tempo de resposta e outros eventuais aspetos a melhorar. O pré-teste decorreu de 6 de setembro de 2022 a 15 de setembro de 2022, este foi dividido em 2 grupos de 5 alunos, escolhidos de entre amigos, familiares e conhecidos, de diferentes faixas etárias, áreas de estudo, ciclo de estudos e rendimentos do próprio e do agregado familiar. Cada participante respondeu individualmente ao questionário, demorando em média 3/4 minutos a
21 responder ao mesmo. De salientar que se recebeu de todos os 10 participantes um feedback efetivo no que respeita a aspetos a melhorar, nomeadamente na clareza das questões, recolhendose também algumas opiniões e sugestões. Depois de se encerrar a etapa do pré-teste, considerou-se pertinente realizar alguns ajustes ao questionário, nomeadamente na secção da caraterização sociodemográfica, acrescentar no género a opção “outra” e na questão referente à área de estudos acrescentar as opções Direito e Desporto, uma vez que são áreas que possuem um número substancial de alunos inscritos. No que refere à questão relativa aos produtos e instrumentos financeiros, optou-se por mudar as opções de resposta que estavam de acordo com o 3º Inquérito à Literacia financeira da População Portuguesa (Plano Nacional de Formação Financeira, 2020), uma vez que uma grande parte dos inquiridos manifestou confusão e dúvida relativamente às opções de resposta. Nesse seguimento, alterou-se as opções de resposta para (3) Pretende adquirir nos próximos 2 anos, (4) Não detém nem pretende adquirir e (5) Não sabe/Não responde. Também, se sentiu a necessidade de acrescentar a opção “Não sabe/Não responde”, em quase todas as questões tendo em vista aumentar a taxa de resposta e a veracidade e qualidade das respostas. No que respeita à secção relativa aos conhecimentos financeiros, tratou-se de alterar a taxa de inflação de 2% para 7%, de modo a aproximar da realidade vivida neste momento em Portugal e a colocação de escolhas múltiplas na questão relativa aos juros compostos, uma vez que em 10 entrevistados 9 falharam na resposta. 3.5 Variáveis Através do questionário, mencionado supra construiu-se as variáveis utilizadas neste trabalho. De seguida apresenta-se, detalhadamente, as variáveis em estudo, e a forma como foram construídas, nomeadamente a variável relativa ao nível de literacia financeira, atitudes financeiras, experiência financeira, aversão ao risco e literacia financeira percecionada. 3.5.1 Nível de Literacia Financeira Tendo em vista apurar o nível de Literacia Financeira dos alunos do ensino superior, e dado que se optou por adotar o conceito de literacia financeira, contendo apenas a componente dos conhecimentos financeiros, foram consideradas 6 questões. As questões utilizadas para aferir o nível de literacia financeira consideram-se questões basilares no que a este tema dizem respeito, sendo amplamente utilizadas em trabalhos nesta área. O uso destas questões foi pensado, tendo
22 em conta tratar-se de questões básicas de conhecimento financeiro e que correspondem a um proxy do nível de literacia financeiro efetivo (Lusardi, 2011; Lusardi & Mitchell, 2011b). Por forma a conseguir aferir o nível de literacia financeira dos estudantes, é fundamental conseguir agregar as respostas de cada inquirido, permitindo desta forma classificar o seu nível de literacia financeira. Para aferir o nível de literacia financeiro detido pelos estudantes, utilizar-seão 2 abordagens alternativas. A primeira abordagem passará pela criação do índice de Literacia Financeira, tal como descrito no estudo da OCDE (2018) e de Monticone (2010). Para o cálculo deste índice, cada inquirido respondeu a um conjunto 6 questões relativas aos conhecimentos financeiros detidos. Apenas foram consideradas as questões relativas à secção dos conhecimentos financeiros, nomeadamente as questões de 1 a 6, que poderá consultar no anexo a este documento, anexo 1. Para a construção deste índice, atribuiu-se a pontuação de 1 ponto a cada resposta correta e 0 pontos a cada resposta errada, para cada uma das 6 perguntas relativas aos conhecimentos financeiros, tendo-se de seguida somado as pontuações obtidas para cada questão criando-se, assim, o índice de literacia financeira da amostra. O índice calculado poderá assumir um valor mínimo de zero, caso o inquirido tenha errado todas as questões até um valor máximo de 6, caso o inquirido tenha acertado todas as questões. Tendo em vista aferir o nível de literacia financeira, recorreu-se também a uma segunda abordagem, utilizada no estudo de Chen & Volpe (1998), em que se apresentam as percentagens das respostas corretas, às 6 questões mencionadas supra e posteriormente se estratifica a literacia financeira em 3 categorias: • Abaixo de 60% - Literacia Financeira de nível baixo; • Entre 60% e 79% - Literacia Financeira de nível intermédio; • Igual ou superior a 80% - Literacia Financeira de nível elevado. 3.5.2 Atitudes Financeiras De forma a perceber as atitudes financeiras dos estudantes universitários face à poupança, solicitou-se que manifestassem a sua opinião face a duas afirmações: “Dá-me mais prazer gastar dinheiro do que poupar para o futuro” e “O dinheiro existe para ser gasto”. As opções de resposta
23 encontravam-se sob a forma de escala de likert com 5 opções (Discordo Totalmente, Discordo, Nem concordo nem discordo, Concordo e Concordo Totalmente). As duas questões colocadas visam, sobretudo, perceber o autocontrolo dos inquiridos face ao seu orçamento familiar, nomeadamente quanto aos gastos e à poupança. O método utilizado para criar este índice foi similar ao utilizado anteriormente, sendo atribuída a pontuação 5 para discordo totalmente, 4 para discordo, 3 para não concordo nem discordo, 2 para concordo e 1 concordo totalmente, de acordo com a postura demonstrada pelos entrevistados. De seguida, somou-se as pontuações obtidas em cada questão e dividiu-se pelo número de questões, criando-se, assim, o índice de atitudes financeiras da amostra. De realçar, que para a criação deste índice partiu-se do prossuposto que um maior nível de autocontrolo ao nível da gestão do orçamento familiar evidência uma atitude mais favorável à poupança. Assim sendo, o índice pode assumir um valor máximo de 5, caso o entrevistado demonstre uma atitude extremamente favorável à poupança e 0 caso o entrevistado demonstre uma atitude extremamente desfavorável à poupança. 3.5.3 Experiência Financeira Com o objetivo de percecionar a experiência dos estudantes na escolha e gestão de produtos e serviços financeiros, utilizou-se uma questão onde estavam listados 10 instrumentos, produtos e serviços financeiros e solicitou-se ao inquirido que assinalasse os instrumentos, produtos e serviços financeiros que detém atualmente. Considerou-se que o facto de possuir um maior número de instrumentos, produtos ou serviços financeiros trata-se de um fator indicativo de que possui um maior nível de experiência financeira. Por forma a aferir a experiência financeira detida por cada inquirido, agregou-se o número de produtos financeiros detidos, em 4 categorias: Caso detenha 0, 1 ou 2 instrumentos, produtos ou serviços financeiros, possui uma Experiência financeira baixa, sendo-lhe atribuído um ponto. No caso de o entrevistado deter 3, 4 ou 5 instrumentos, produtos ou serviços financeiros, considera-se que detém Experiência financeira intermédia, atribuindo-se 2 pontos. Se o entrevistado detiver 6, 7 ou 8 instrumentos, produtos ou serviços financeiros possui uma Experiência financeira elevada, atribuindo-se 3 pontos. Por fim, caso o entrevistado declare deter 9 ou 10 instrumentos, produtos ou serviços financeiros, conclui-se que possui uma Experiência financeira muito elevada e atribui-se 4 pontos.
24 A partir desta pergunta, que de certa forma afere o comportamento financeiro dos estudantes, pode-se concluir sobre o nível de experiência financeira que pode variar de zero, caso o inquirido não detenha nenhum dos produtos, instrumentos ou serviços financeiros listados, até ao valor máximo de 4, caso o inquirido detenha todos os produtos, instrumentos ou serviços financeiros elencados na questão 4, da secção das atitudes e comportamentos financeiros do questionário utilizado neste estudo, que pode ser consultado nos anexos a este documento, (anexo 1). 3.5.4. Nível de Aversão ao Risco No questionário em análise, existe uma pergunta 1 , relativa ao risco financeiro. Esta questão centra-se na capacidade do individuo arriscar parte do seu capital. De forma a perceber o nível de aversão ao risco dos estudantes universitários solicitou-se que manifestassem a sua opinião face à seguinte afirmação: “Estou preparado para arriscar parte do meu dinheiro quando faço um investimento num produto financeiro”. As opções de resposta encontravam-se sob a forma de escala de likert com 5 opções (1Discordo Totalmente, 2Discordo, 3Nem concordo nem discordo, 4Concordo e 5Concordo Totalmente). De realçar que a criação desta variável partiu do prossuposto que um maior nível de literacia financeira está associado a uma menor aversão ao risco, ideia corroborada no estudo de Martins et al. (2021), que conclui que os indivíduos menos avessos ao risco apresentam níveis mais elevados de literacia financeira. Assim sendo, esta variável pode assumir um valor máximo de 5, caso o entrevistado demonstre ser muito propenso ao risco; 4, caso evidencie uma propensão ao risco; 3, caso se posicione de forma neutra face ao risco; 2, caso evidencie aversão ao risco; valor mínimo de 1, caso o entrevistado demonstre ser muito avesso ao risco. 3.5.5 Literacia Financeira Percecionada No questionário em análise, existe uma questão relativa ao conhecimento financeiro percecionado. Esta questão 2 , centra-se na capacidade de o indivíduo avaliar o seu nível de conhecimentos financeiros quando comparado com a população. Para tal, foi solicitado aos inquiridos que autoavaliassem os seus conhecimentos financeiros quando comparados com a 1 “Como se identifica relativamente à afirmação: Estou preparado para arriscar parte do meu dinheiro quando faço um investimento num produto financeiro.”, questão 3, da secção das atitudes e comportamentos financeiros, que poderá ser consultada no anexo 1 deste documento 2 Questão 1, da secção dos conhecimentos financeiros, que poderá ser consultada nos anexos a este documento (anexo 1)
25 média da população universitária portuguesa. As opções de resposta encontravam-se sob a forma de escala de likert com 5 opções (bastante superiores à média, superiores à média, iguais à média, inferiores à média e bastante inferiores à média). Tendo em vista perceber o nível de literacia financeira percecionado por cada inquirido, agregou-se as 5 opções de resposta, em 3 categorias: • Baixo conhecimento financeiro percecionado, caso o estudante tenha considerado possuir conhecimentos financeiros inferiores ou bastante inferiores à média; • Intermédio conhecimento financeiro percecionado, quando o inquirido considera possuir conhecimentos iguais à média; e • Alto conhecimento financeiro percecionado, no caso de o estudante declarar possuir conhecimentos financeiros superiores ou bastante superiores à média da população. Posto isto, a variável poderá assumir um valor mínimo de um, caso o inquirido percecione possuir um baixo conhecimento financeiro até um valor máximo de 3, caso o inquirido percecione possuir um alto conhecimento financeiro. 3.6 Análise de Regressão No presente estudo, pretende-se dar resposta à questão de investigação 3 acima formulada, assim sendo torna-se fundamental definir a metodologia a utilizar, nomeadamente no que respeita aos testes às hipóteses de investigação. Posto isto, de seguida apresentam-se os modelos de regressão utilizados para testar as hipóteses de investigação. Para testar a hipótese 1 – “A literacia financeira é influenciada pelas características sociodemográficas dos indivíduos”, que está dividida em várias sub hipóteses, elencadas na secção 3.1, utilizou-se uma regressão Ordered Logit e uma Logit . Tal como referido na secção 3.5, para calcular o nível de literacia financeira utilizou-se duas abordagens alternativas. Assim sendo, para testar a hipótese 1, primeiramente utilizou-se como variável dependente o índice de literacia financeira. De seguida, para testar a mesma hipótese 3 Qual o nível de literacia financeira dos alunos do ensino superior português e quais as caraterísticas sociodemográficas com maior influência no nível de literacia financeira encontrado?
26 considerando a mediana da pontuação da literacia financeira criou-se a variável dependente binária, seguindo o critério menor ou igual à mediana e maior que a mediana, como sugerido no estudo de Chen e Volpe (1998). Seguiu-se a construção dos modelos Ordered Logit e Logit ajustado ao género, idade, ciclo de estudos, área de estudos, rendimento mensal líquido do agregado familiar e rendimento mensal líquido do próprio: 𝑁í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑙𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎 = 𝛽0+ 𝛽1(𝑔é𝑛𝑒𝑟𝑜)+ 𝛽2 (𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒)+ 𝛽3 (𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽4(á𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽5(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑎𝑔𝑟𝑒𝑔𝑎𝑑𝑜) + 𝛽6(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑝𝑟ó𝑝𝑟𝑖𝑜) (1) Para testar a hipótese 2 - “A literacia financeira percecionada dos estudantes é positivamente influenciada pelo nível de literacia financeira efetivo”, definida na secção 3.1 deste documento, utilizou-se um modelo Ordered Logit . Este modelo tem como objetivo perceber se o nível de literacia financeira percecionado, variável dependente, afeta diretamente o nível de literacia financeira efetivo do estudante, variável independente. Tendo em vista testar a robustez do modelo, acrescentou-se as seguintes variáveis de controlo: género, ciclo de estudos, área de estudos e rendimento mensal líquido do agregado, nas equações (2), (3), (4) e (5). Este modelo é expresso na seguinte equação: 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎 𝑝𝑟𝑒𝑐𝑒𝑐𝑖𝑜𝑛𝑎𝑑𝑎 = 𝛽0+ 𝛽1(𝑛í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑙𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎) + 𝛽2 (𝑔é𝑛𝑒𝑟𝑜) + 𝛽3 (𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠)+ 𝛽4(á𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽5(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑎𝑔𝑟𝑒𝑔𝑎𝑑𝑜) (2) Tendo em vista verificar a hipótese 3 – “O nível de literacia financeiro efetivo é positivamente influenciado pela experiência financeira detido pelo estudante”, que pretende perceber se a experiência financeira, variável independente, tem um impacto direto no nível de literacia financeira detida pelo estudante, variável dependente. Utilizou-se o seguinte modelo Ordered Logit :
27 𝑁í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝐹𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎 = 𝛽0+ 𝛽1(𝑒𝑥𝑝𝑒𝑟𝑖ê𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎) + 𝛽2 (𝑔é𝑛𝑒𝑟𝑜) + 𝛽3 (𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠)+ 𝛽4(á𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽5(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑎𝑔𝑟𝑒𝑔𝑎𝑑𝑜) (3) Para testar a hipótese 4 – “O nível de aversão ao risco é explicado pelo nível de literacia financeira efetiva dos estudantes", será implementado um modelo Ordered Logit , que permite aferir se o nível de aversão ao risco, variável dependente, é explicado pelo nível de literacia financeira detido pelo inquirido. Espera-se que um menor nível de aversão ao risco esteja associado a um maior nível de literacia financeira, para testar esta hipótese elaborou-se o seguinte modelo: 𝐴𝑣𝑒𝑟𝑠ã𝑜 𝑎𝑜 𝑟𝑖𝑠𝑐𝑜 = 𝛽0+ 𝛽1(𝑛í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑙𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎) + 𝛽2 (𝑔é𝑛𝑒𝑟𝑜) + 𝛽3 (𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠)+ 𝛽4(á𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽5(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑎𝑔𝑟𝑒𝑔𝑎𝑑𝑜) (4) Por fim, com a hipótese 5- “As atitudes financeiras evidenciadas pelos estudantes são explicadas pelo seu nível de literacia financeira efetivo”, pretende-se compreender se as atitudes financeiras do estudante dependem substancialmente do nível de literacia financeira efetivamente detido pelo estudante. Tendo-se criado o seguinte modelo Ordered Logit : 𝐴𝑡𝑖𝑡𝑢𝑑𝑒𝑠 𝐹𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎𝑠 = 𝛽0+ 𝛽1(𝑛í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑙𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑐𝑖𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖𝑟𝑎) + 𝛽2(𝑔é𝑛𝑒𝑟𝑜) + 𝛽3(𝑐𝑖𝑐𝑙𝑜 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠)+ 𝛽4(á𝑟𝑒𝑎 𝑑𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑢𝑑𝑜𝑠) + 𝛽5(𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑚𝑒𝑛𝑠𝑎𝑙 𝑙í𝑞𝑢𝑖𝑑𝑜 𝑑𝑜 𝑎𝑔𝑟𝑒𝑔𝑎𝑑𝑜) (5) Tal como se pode constatar supra , utilizou-se regressões Logit e Ordered Logit para realizar as análises estatísticas. A diferença entre o uso dos dois tipos de regressão prende-se com a variável dependente. Mais especificamente, em ambos os modelos, a variável dependente é categórica, contudo, no modelo Logit a variável categórica, apenas pode assumir dois valores sendo denominada de variável binária ou dicotómica (Morôco, 2014).
28 Adicionalmente será necessário verificar a fiabilidade e consistência interna do questionário, para tal utilizar-se-á o Alfa de Cronbach (Cronbach, 1951) que se encontra amplamente difundido pela literatura. Tal como mencionado por Sreinner (2003), o Afa de Cronbach apresenta a média das correlações entre os itens que fazem parte de um instrumento de pesquisa, sendo que este será considerado fiável se apresentar um valor superior a 0.7. Por fim, analisou-se a existência de multicolinearidade entre preditores, através da matriz de correlação de Pearson .
29 4.Resultados A presente secção visa apresentar e discutir os resultados obtidos ao longo deste estudo empírico, tendo em vista dar resposta à questão de investigação e aos objetivos propostos. Numa primeira fase, pretende-se apresentar a caracterização da amostra através de uma análise descritiva; foram utilizadas frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas. De seguida, realizou-se uma análise das variáveis em estudo em que, para cada questão, se apresentam as estatísticas descritivas, permitindo retirar as primeiras conclusões acerca das referidas variáveis. Por fim, serão apresentados os resultados das regressões efetuadas, permitindo dar resposta às hipóteses identificadas na secção supra , assim como à questão de investigação do presente estudo. 4.1 Análise Descritiva Conforme referido anteriormente, a amostra é composta por 690 respostas de estudantes universitários, sendo que todas as questões colocadas eram de resposta obrigatória. No que diz respeito ao género, e conforme é possível observar na tabela 1, infra , a amostra possui 279 (40.43%) inquiridos do sexo masculino e 406 (58.84%) do sexo feminino, constatandose, desta forma, que existe uma maior percentagem de respostas do sexo feminino. De realçar ainda que, apesar de pouco relevante do ponto de vista estatístico, existem na amostra 5 indivíduos que se identificaram com o género outro. Relativamente à idade, uma parte substancial da amostra, 471 estudantes, ou seja, 68.28% dos inquiridos possui entre 17 e 24 anos, tal como seria expectável. Por sua vez, a faixa etária com indivíduos com mais de 45 anos foi a que reuniu menos respostas com uma percentagem de apenas 5.51%. Os restantes inquiridos, 26.2%, possuem idades balizadas entre 24 e 45 anos. No que ao ciclo e área de estudos, diz respeito, 312 (45.22%) dos estudantes que compõem a amostra encontram-se a frequentar a licenciatura e 292 (42.32%) o mestrado, sendo que estes dois ciclos de estudos totalizam 87.54%. De realçar ainda que existem na amostra 68 indivíduos que se encontram a frequentar doutoramento ou outro grau académico. Constatou-se, ainda, que a área de estudos mais frequente entre os participantes foi a de ciências socioeconómicas, com 260 estudantes (37.68%), seguido por engenharia com 114 estudantes (16.52%), saúde com 78 (11.30%) e ciências e tecnologias com 67 estudantes, o que
36 No que respeita à segunda questão “O dinheiro existe para ser gasto”, esta visa percecionar o autocontrolo que os indivíduos possuem face ao seu orçamento familiar. A percentagem de indivíduos que declarou concordar ou concordar totalmente com a afirmação foi 30.87%. Esta trata-se de uma percentagem elevada e de certa forma preocupante e que demonstra que os inquiridos têm um autocontrolo relativamente baixo do seu orçamento familiar. Constatou-se ainda que 32.46% afirmou não concordar nem discordar da afirmação, e que apenas 253 inquiridos (36.67%) afirmaram discordar ou discordar totalmente da afirmação. Tabela 8. Questões relativas às Atitudes Financeiras Questões Frequência Percentagem (%) Percentagem Acumulada (%) Como se identifica relativamente às afirmações abaixo: 1. Dá-me mais prazer gastar dinheiro do que poupar para o futuro Discordo Totalmente 177 25.65 25.65 Discordo 241 34.93 60.58 Nem concordo nem discordo 150 21.74 82.32 Concordo 99 14.35 96.67 Concordo Totalmente 23 3.33 100 Total 690 100 Como se identifica relativamente às afirmações abaixo: 2. O dinheiro existe para ser gasto Discordo Totalmente 86 12.46 12.46 Discordo 167 24.20 36.67 Nem concordo nem discordo 224 32.46 69.13 Concordo 187 27.10 96.23 Concordo Totalmente 26 3.77 100 Total 690 100 Em seguida, na tabela 9, apresentam-se as estatísticas descritivas para o índice de atitudes financeiras, onde se pode observar que em média o valor do índice é de 3.63, superior ao valor médio da escala (2.5), com um desvio padrão de 0.93. Pode-se também observar que o valor mínimo evidenciado é 1 e o máximo 5.
37 Tabela 9. Estatísticas Descritivas para o Índice de Atitudes Financeiras Índice de Atitudes Financeiras Observações 690 Média 3.63 Desvio Padrão 0.93 Valor Mínimo 1 Valor Máximo 5 A tabela 10, abaixo, analisa o índice de atitudes financeiras e permite visualizar que 89.13% da amostra demostra possuir uma atitude extremamente favorável, favorável ou indiferente à poupança. Tabela 10. Índice de Atitudes Financeiras Índice de Atitudes Financeiras Frequência Percentagem (%) Percentagem Acumulada (%) Atitude extremamente desfavorável à poupança 8 1.16 1.16 Atitude desfavorável à poupança 67 9.71 10.87 Atitude indiferente à poupança 225 32.61 43.48 Atitude favorável à poupança 264 38.26 81.74 Atitude extremamente favorável à poupança 126 18.26 100 Total 690 100 4.1.3 Experiência Financeira Na tabela 11, apresentada abaixo, pode-se visualizar a percentagem de inquiridos que detém, cada um dos 10 instrumentos, produtos e serviços financeiros elencados.
38 Tabela 11. Percentagem de inquiridos que detém determinado produto ou serviço financeiro Produto/serviço Financeiro Detém (%) Depósitos a prazo 69.71% Certificados de aforro e/ou tesouro 42.17% Ações 10.87% Obrigações 13.33% Fundos de investimento 5.36% Cartão de crédito 10.72% MB WAY 45.22% Depósitos à ordem 75.51% Criptoativos ou ICOs 11.16% Crowdfunding 2.61% Através da tabela acima, podemos verificar que os produtos financeiros mais detidos pelos estudantes são os depósitos à ordem (75.51%), bem como os depósitos a prazo (69.71%). Estes resultados vão de encontro ao que seria expectável, uma vez que, dado a faixa etária, escolaridade e rendimentos dos inquiridos, estes produtos tornam-se os mais acessíveis. O terceiro produto financeiro detido por um maior número de estudantes refere-se aos dos certificados de aforro, com 291 estudantes (42.17%) a declarar deter este produto. Este resultado vai de encontro ao que seria expectável, uma vez que a taxa base dos certificados de aforro tem vindo a subir, decorrente da subida da taxa Euribor. Por outro lado, verificamos que existem determinados produtos e serviços financeiros que apresentam uma adesão muito reduzida, por parte dos estudantes, nomeadamente a subscrição de cartão de crédito (10.72%), fundos de investimento (5.36%) e Crowdfunding (2.61%), entre outros produtos com subscrição reduzida. De realçar que 45.22% dos inquiridos declarou deter a aplicação MB WAY. O serviço financeiro MB WAY teve o seu lançamento a 13 de outubro de 2015, veio facilitar as transferências imediatas de dinheiro e a sua adesão tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Através da tabela 12, pode-se verificar que 41.74% dos estudantes apresentam baixa experiência financeira, o que poderá ser particularmente preocupante. Também se visualiza que
39 360 inquiridos, mais de metade, apresentam um grau de experiência financeira intermédia. Contudo, apenas 6.09% apresentam uma experiência financeira elevada ou muito elevada, o que seria expectável dado o público-alvo estudado. Tabela 12. Índice de Experiência Financeira Índice de Experiência Financeira Frequência Percentagem (%) Percentagem Acumulada (%) Experiência financeira baixa4 288 41.74 41.74 Experiência financeira intermédia5 360 52.17 93.91 Experiência financeira elevada6 37 5.36 99.28 Experiência financeira muito elevada7 5 0.72 100 Total 690 100 Na tabela 13, apresentam-se as estatísticas descritivas para o índice de experiência financeira, onde se pode observar que o valor médio do índice é de 1.65, com um desvio padrão de 0.62. O que demostra que os estudantes universitários possuem pouca experiência financeira. Pode-se também observar que o valor mínimo evidenciado é 1 e o máximo 4. Tabela 13. Estatísticas Descritivas para o Índice de Experiência Financeira Índice de Experiência Financeira Observações 690 Média 1.65 Desvio Padrão 0.62 Valor Mínimo 1 Valor Máximo 4 4.1.4 Aversão ao Risco Na tabela 14 apresenta-se a questão que visa perceber o nível de aversão ao risco dos estudantes universitários. 4 Deter 0, 1 ou 2 instrumentos, produtos ou serviços financeiros 5 Deter 3, 4 ou 5 instrumentos, produtos ou serviços financeiros 6 Deter 6, 7 ou 8 instrumentos, produtos ou serviços financeiros 7 Deter 9 ou 10 instrumentos, produtos ou serviços financeiros
40 Tabela 14. Questão relativa à Aversão ao risco Como se identifica relativamente às afirmações abaixo: 1. Estou preparado para arriscar parte do meu dinheiro quando faço um investimento num produto financeiro Frequência Percentagem (%) Percentagem Acumulada (%) Discordo Totalmente 171 24.78 24.78 Discordo 254 36.81 61.59 Nem concordo nem discordo 166 24.06 85.65 Concordo 81 11.74 97.39 Concordo Totalmente 18 2.61 100 Total 690 100 Pode-se observar na tabela acima que 61,59% dos inquiridos discorda ou discorda totalmente da afirmação, o que nos indica que mais de metade dos inquiridos apresenta um perfil avesso e muito avesso ao risco. Por outro lado, apenas 18 alunos declararam concordar totalmente com a afirmação, o que está de acordo com o esperado para o público-alvo em estudo. Uma vez que, para poder arriscar grande parte do seu capital, é necessário possuir elevados conhecimentos financeiros e para os obter é necessária experiência, tal como referido na revisão de literatura. Em seguida, na tabela 15, apresentam-se as estatísticas descritivas para variável aversão ao risco, onde se pode observar que o valor médio da variável é de 2.30, inferior ao valor médio da escala (2.5), com um desvio padrão de 1.05, o que indica que os estudantes têm pouca confiança para arriscar o seu capital num investimento. Pode-se também observar que o valor mínimo evidenciado é 1 e o máximo 5. Tabela 15. Estatísticas Descritivas para a variável aversão ao risco Variável Aversão ao Risco Observações 690 Média 2.30 Desvio Padrão 1.05 Valor Mínimo 1 Valor Máximo 5 Optou-se por não incluir para esta variável a tabela das frequências por se tratar de uma tabela com resultados muito idênticos ao da tabela 14.
41 4.1.5 Literacia Financeira Percecionada Para analisar a literacia financeira, recorreu-se a uma questão que visa perceber como é que os estudantes classificam os seus conhecimentos financeiros. Através da tabela infra , pode-se constatar que apenas 28 inquiridos consideram deter conhecimentos financeiros bastante inferiores à média da população. Cerca de 40% declararam possuir conhecimentos financeiros iguais à média e apenas uma pequena percentagem, 5.36%, admitiu possuir conhecimentos financeiros bastante superiores à média. O facto de mais de 20% dos inquiridos ter declarado possuir conhecimentos inferiores e bastante inferiores à média, tratase de uma estatística relevante. Tabela 16. Questão relativa à Literacia financeira percecionada Como avalia os seus conhecimentos financeiros quando comparados com a média da população universitária Portuguesa? Frequência Percentagem (%) Percentagem Acumulada (%) Bastante inferiores à média 28 4.06 4.06 Inferiores à média 128 18.55 22.61 Iguais à média 281 40.72 63.33 Superiores à média 216 31.30 94.64 Bastante superiores à média 37 5.36 100 Total 690 100 Em seguida, na tabela 17, apresentam-se as estatísticas descritivas para variável literacia financeira percecionada, onde se pode observar que o valor médio da variável é de 3.15, superior ao valor médio da escala (2.5), com um desvio padrão de 0.92. Tabela 17. Estatísticas Descritivas para a variável literacia financeira percecionada Variável Literacia Financeira percecionada Observações 690 Média 3.15 Desvio Padrão 0.92 Valor Mínimo 1 Valor Máximo 5
42 O nível de literacia financeira, calculado supra , que pode ser consultado nas tabelas 5 e 7, foi calculado utilizando duas abordagens alternativas. Para o índice de literacia financeira, obtivemos uma média de 4.63, numa escala de 0 a 6, normalizando para uma escala de 0 a 100, obteve-se um valor médio de 77,22% para a pontuação de literacia financeira efetiva. No que se refere à literacia financeira percecionada, a média situa-se nos 3.15, normalizando para uma escala de 0 a 100, para permitir a comparação obtivemos um valor de 63.07%. Ou seja, o nível de literacia financeiro percecionado é em média inferior ao nível de literacia financeiro efetivo dos estudantes. 4.2 Análise da Consistência Interna do Questionário Tendo em vista avaliar e assegurar a consistência interna e a fiabilidade do questionário, infra , analisa-se o Alfa de Cronbach (Cronbach, 1951). O valor do coeficiente varia entre 0 e 1, sendo que o resultado do alfa deve ter um valor mínimo de 0.7; no caso de possuir um valor inferior a consistência interna é classificada como baixa. Tabela 18. Alfa de Cronbach Alfa de Cronbach 0.7693 Número de itens 34 Neste caso em concreto, optou-se por utilizar para o cálculo deste coeficiente todas as questões do questionário. De notar que o número de questões utilizadas influência o valor deste indicador. Na tabela 18, pode-se observar o valor do alfa de Cronbach obtido, 0.7693. Este valor é considerado bom, uma vez que se encontra próximo de 0.8, pelo que podemos considerar, desta forma, que a consistência interna e fiabilidade do questionário estão asseguradas. Isto leva a que os resultados retirados deste estudo sejam considerados mais sólidos, uma fez que o instrumento de pesquisa é fiável. Tal facto permite-nos dar continuidade à análise com elevado nível de confiança. 4.3 Análise à Multicolinearidade das Variáveis Independentes A multicolinariedade surge frequentemente nas bases de dados, evidenciando-se normalmente entre variáveis independentes de uma regressão. No entanto, se for tratada não põe em causa a estimação do modelo. Segundo Gujarati e Porter (2009) os problemas de multicolinariedade
43 surgem quando o coeficiente de correlação entre duas variáveis é próximo de -1 ou 1, evidenciando uma correlação muito forte. Quando assume o valor de -1, indica a existência de uma correlação negativa perfeita, o oposto para o valor de 1. Para testar a multicolinariedade, construiu-se a matriz de correlação apresentada na tabela 19, esta permite-nos observar se duas variáveis possuem altos níveis de correlação entre si. Tendo em mente a tabela 19, verifica-se que as correlações entre as variáveis não parecem preocupantes. A correlação entre as variáveis rendimento líquido do agregado familiar e rendimento líquido do próprio esperar-se-ia que fosse elevada, contudo obteve-se um coeficiente de 0.312. Em suma, tal como se pode observar na tabela 19, as correlações entre as variáveis apresentam-se fracas, para a grande maioria das variáveis, demonstrando que a multicolinariedade não é um problema neste estudo. Mesmo as variáveis com maior valor, como a correlação entre a idade e o ciclo de estudos (0.408), apresentam valores que não apresentam perigo à correta estimação dos modelos.
44 Tabela 19. Matriz de Correlação de Pearson Correlação calculada pelo coeficiente de correlação de Pearson ; A hipótese nula (H0) do teste é que a correlação entre as variáveis é estatisticamente igual a zero; *p<0.05; **p<0.01; ***p<0.001 8 Rendimento líquido do agregado familiar 9 Rendimento líquido do próprio Variáveis Género idade Ciclo de estudos Rend_agr8 Rend9 Área de estudos Índice Literacia Financeira Índice Atitudes Financeiras Índice experiência financeira Aversão ao risco Literacia financeira prece. Género 1 idade -0.077 1 Ciclo de estudos 0.007 0.408*** 1 Rend_agr -0.161*** 0.134*** 0.134*** 1 Rend -0.105** 0.677*** 0.407*** 0.312*** 1 Área de estudos -0.217*** 0.016 0.089 0.097 0.096 1 Índice Literacia Financeira -0.290*** 0.118** 0.142*** 0.234*** 0.193*** 0.226*** 1 Índice Atitudes Financeiras 0.015 0.051 0.020 -0.032 0.025 -0.019 0.060 1 Índice experiência financeira -0.139*** 0.186*** 0.134*** 0.180*** 0.310*** 0.157*** 0.276*** 0.056 1 Aversão ao risco -0.141*** -0.135*** -0.082* -0.002 -0.039 0.136*** 0.045 -0.141*** 0.197*** 1 Literacia financeira prece. -0.256*** 0.229*** 0.186*** 0.230*** 0.314*** 0.141*** 0.399*** 0.087* 0.370*** 0.140** 1
45 4.4 Resultados das Regressões Neste capítulo procurou-se fazer a análise dos dados recolhidos através de regressões Logit e Ordered Logit . Nestas regressões tentou estabelecer-se uma correspondência entre o que é demonstrado na revisão de literatura ao nível das variáveis em estudo e a realidade empírica observada neste estudo. As variáveis em estudo são os dados sociodemográficos (género, idade, ciclo de estudos, área de estudos, rendimento mensal líquido do agregado familiar e do próprio), literacia financeira efetiva, literacia financeira percecionada, aversão ao risco, atitudes financeiras e experiência financeira. H1: A literacia financeira é influenciada pelas caraterísticas sociodemográficas dos indivíduos Seguiu-se a construção de um modelo Ordered Logit ajustado ao género, idade, ciclo de estudos, área de estudos, rendimento mensal líquido do agregado familiar e rendimento mensal líquido do próprio, seguindo a equação (1), definida na secção 3.6 deste documento. Tabela 20. Modelos Ordered Logit usando o índice de literacia financeira Nível de Literacia Financeira Género Masculino 1 Feminino -0.938 *** Outro -1.04 Idade 17-22 anos 1 22-24 anos -0.153 25-34 anos 0.297 35-45 anos 0.005 > 45 anos -0.196 Ciclo de estudos Licenciatura 1 Mestrado 0.534 ** Doutoramento 0.674 * Outro 0.142 Área de estudos Outra 1 Ciências socioeconómicas 0.915 *** Ciências e tecnologias e Engenharias 0.651 *** Rendimento mensal do agregado Até 749€ 1 750€ a 999€ 0.269 1000€ a 1499€ 0.388 1500€ a 1999€ 0.727 2000€ a 2500€ 0.456 > 2500€ 1.130 *** Rendimento mensal pessoal Sem rendimento 1
52 Observa-se também que, em comparação com o nível de literacia financeiro péssimo, o nível de literacia financeira classificado como bom, se associa com níveis progressivamente mais baixos de aversão ao risco (β= - 3.698, p<0.01). Tendo em mente testar a hipótese 4 e observando a tabela 24, constata-se que o nível de literacia financeira, nas suas diferentes dimensões, apresenta um coeficiente negativo e estatisticamente significativo a 1% e a 5%. Este resultado permite-nos não rejeitar a hipótese de que o nível de literacia financeira efetivo influencia o nível de aversão ao risco dos indivíduos. Especificamente, podemos concluir que existe uma relação negativa entre o nível de aversão ao risco e o nível de literacia financeira. De facto, níveis inferiores de aversão ao risco podem ser explicados com níveis superiores de literacia financeira. H5: As atitudes financeiras evidenciadas pelos estudantes são explicadas pelo seu nível de literacia financeira efetivo. Por fim, apresenta-se os resultados do modelo Ordered Logit , cuja equação (5) poderá ser consultada na secção 3.6, do presente documento. Tabela 24. Modelo Ordered Logit com as atitudes financeiras como variável dependente Atitudes Financeiras Nível de literacia financeira Péssimo 1 Muito mau 3.517 * Mau 4.012 ** Razoável 3.765 ** Bom 3.679 ** Muito bom 3.959 ** Excelente 3.901 ** Género Masculino 1 Feminino -0.161 Outro -2.092 * Ciclo de estudos Licenciatura 1 Mestrado 0.124 Doutoramento 0.150 Outro 0.140 Área de estudos Outra 1 Ciências socioeconómicas -0.056 Ciências e tecnologias e Engenharias -0.101 Rendimento do agregado
53 Até 749€ 1 Entre 750€ e 999€ -0.345 Entre 1000€ a 1499€ -0.001 Entre 1500€ a 1999€ -0.316 Entre 2000€ a 2500€ -0.369 Mais de 2500€ -0.199 Nota: Esta tabela apresenta os coeficientes de uma regressão Ordered Logit , utilizando como variável dependente as atitudes financeiras. *p<0.05; **p<0.01; ***p<0.001 Na tabela 24 apresenta-se o resultado do modelo Ordered Logit . As categorias de referência utilizadas correspondem à primeira categoria de cada variável e encontram-se identificadas pelo valor 1. Através da tabela 24, pode-se observar que, em comparação com o nível de literacia péssimo, o nível de literacia financeira mau associa-se com atitudes financeiras mais favoráveis à poupança (β= 4.012, p<0.01). Pode-se também observar que, quando comparado com o nível de literacia péssimo, o nível de literacia financeiro excelente associa-se com atitudes financeiras mais favoráveis à poupança (β= 3.959, p<0.01). Em suma, uma vez que o nível de literacia financeira é positivo e estatisticamente significativo, em todas as suas dimensões a 1% e 5%, não se rejeita a hipótese de que o nível de literacia financeira efetivo influencia positivamente as atitudes financeiras evidenciadas pelos estudantes.
54 5.Considerações Finais Por fim, neste capítulo será apresentada uma breve síntese das principais conclusões do estudo realizado, principais limitações e ainda algumas sugestões para investigação futura. 5.1 Síntese do Estudo Este trabalho visa contribuir para a área de investigação empírica relacionada com a literacia financeira, complementando a literatura já existente sobre o, nível de literacia financeira detido pelos estudantes universitários Portugueses. A escolha do público-alvo deveu-se sobretudo ao facto de em breve muitos destes indivíduos entrarem no mercado de trabalho, necessitando de saber gerir os seus próprios rendimentos e poupar num mundo em constantes mudanças, quer devido a crises económicas, pandemias ou guerras. Assim sendo e tendo em conta a crescente complexidade dos mercados e instrumentos financeiros, criou-se a necessidade de ter indivíduos mais bem preparados financeiramente. Posto isto, o presente estudo pretendeu, essencialmente, aferir o nível de literacia dos estudantes universitários Portugueses e perceber quais os seus principais determinantes. Adicionalmente, estudaram-se potenciais relações entre o nível de literacia financeiro percecionado (autoconfiança), no nível de aversão ao risco, as atitudes financeiras e o nível efetivo de literacia financeira. Da pesquisa efetuada e apresentada na revisão de literatura, verifica-se que não existe consenso relativamente à definição e mensuração da literacia financeira. O conceito de literacia financeira difere de estudo para estudo, no entanto todos os autores alertam para a necessidade de melhorar os comportamentos, atitudes e conhecimentos financeiros. No presente estudo, adotou-se a definição de literacia financeira, proposta pela OCDE, que consiste em “Conhecer e entender/compreender os conceitos e riscos financeiros, bem como possuir a competência, motivação e confiança para aplicar esse conhecimento com o objetivo de tomar decisões acertadas perante um vasto conjunto de alternativas e contextos financeiros, tendo em vista o aumento do bem-estar financeiro individual e da sociedade como um todo.” (OCDE,2017), o que permite inferir que a literacia financeira permite tomar decisões financeiras que proporcionem aumentar o bem-estar do individuo, através da compreensão e aplicação dos conhecimentos financeiros. Os benefícios de elevados níveis de literacia financeira são inúmeros, tanto para os indivíduos como para a sociedade como um todo. Elevados níveis de literacia permitem aos indivíduos e às famílias tomarem decisões conscientes no que respeita ao recurso a crédito, subscrição de produtos financeiros
55 e aplicação de excedentes financeiros. Em última instância elevado nível de literacia financeira permite evitar encargos excessivos, práticas abusivas e inclusive exclusão social. Tendo em conta a relevância da temática, e observando os recentes indicadores que apontam graves deficiências no conhecimento financeiro da população portuguesa, tornou-se inevitável a criação e desenvolvimento de programas de incentivo à educação financeira. De acordo com o ranking do Banco Central Europeu (BCE), apurado em 2020, os portugueses ocupam a última posição no nível de conhecimento, quando comparados com os resultados apurados junto dos restantes 18 países da zona euro. A nível nacional têm-se implementado programas alusivos a esta temática, tendo a destacar a Semana de Formação Financeira (SFF), que integra o Plano Nacional de Formação Financeira (PNFF), que se encontra em curso há 11 anos. O presente estudo pretende, essencialmente, aferir o nível de literacia dos estudantes universitários portugueses, através dos seus determinantes sociodemográficos, tal como o género, idade, ciclo de estudos, área de estudos, rendimento mensal do agregado familiar e rendimento mensal líquido do próprio. Para dar resposta ao objetivo primordial deste estudo, foi elaborado um inquérito por questionário, que foi amplamente divulgado na comunidade académica, entre os dias 29 de setembro e 9 de novembro de 2022, tendo-se obtido 690 respostas válidas. Os resultados obtidos, de uma maneira geral, mostram-se de acordo com o que seria expectável e previamente difundido na literatura. O nível de literacia financeira apresentado pelos estudantes, normalizado numa escala de 0 a 100, foi de 77.22%, ou seja, em média, os alunos acertaram mais de metade das questões. De realçar que para o cálculo do nível de literacia financeira apenas se considerou a dimensão dos conhecimentos financeiros. Das hipóteses de investigação testadas, pode-se concluir que existem relações significativas entre o nível de literacia financeira e o género, ciclo de estudos, área de estudos e rendimento mensal líquido do agregado familiar. Por outro lado, verifica-se que para a idade e rendimento mensal líquido do próprio não foram encontradas relações estatisticamente significativas, o que sugere que estes fatores não contribuem para um nível mais elevado de literacia financeira da amostra em estudo.
56 Com este estudo, também se concluiu que o grau de aversão ao risco diminui com o nível de literacia financeira detido pelo inquirido, tal como seria expectável. Também se confirmou que o nível de literacia financeira influência positivamente as atitudes perante a poupança evidenciadas pelos estudantes. No que refere ao nível de literacia financeira percecionada, conclui-se que não existe uma relação entre esta variável e o nível de literacia financeira efetivo dos estudantes. Este resultado revelou-se surpreendente, contudo, poderá ser explicado pelo excesso de confiança e fatores inerentes à personalidade de cada inquirido. 5.2 Limitações do Estudo e Investigação Futura A amostra obtida trata-se de uma amostra por conveniência. Dados os constrangimentos e gastos inerentes, não foi possível recolher uma amostra estratificada. A amostra do estudo inclui indivíduos a frequentar diferentes instituições do ensino superior, tanto do ensino politécnico, como universitário, não havendo possibilidade de conhecer essa informação. Outra limitação inerente a este estudo prende-se com o facto de apenas se conhecer os resultados do nível de literacia financeira da população universitária que respondeu a este inquérito, o que não permite conhecer concretamente a realidade de todos os estudantes universitários portugueses. Dado que não existe consenso na literatura, no que diz respeito ao método de mensuração da literacia financeira, foi criado um questionário, tendo em conta estudos realizados a nível nacional (Banco de Portugal, 2011) e internacionais (OCDE, 2018). De notar que se teve sempre em consideração o público-alvo em causa, procedendo sempre que necessários às devidas adaptações. Apesar de se ter realizado um pré-teste ao questionário antes da sua divulgação, tendo em vista colmatar eventuais gralhas, o problema da má interpretação das perguntas ou a desonestidade nas respostas por parte dos estudantes pode enviesar os resultados obtidos. A literacia financeira em Portugal trata-se de um tema extremamente relevante para a sociedade em geral. Nesse sentido, torna-se fundamental o desenvolvimento de programas de formação financeira e estudos empíricos com vista a melhorar os níveis de literacia financeira detidos pela população portuguesa e pelos estudantes universitários em particular. Para uma investigação futura propõem-se a repetição deste estudo, contudo aplicado apenas a alunos do primeiro ano de licenciatura e do último ano de licenciatura. Pensa-se que seria interessante aplicar o estudo a este público-alvo em específico, uma vez que permite verificar se o percurso académico contribui para aumentar o nível de literacia financeira detido pelos estudantes.
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