1 de 20Revista Psychologica Recebido em 25-04-2023 e aprovado para publicação em 29-02-2024. Impacto do FAF em Cabo-Verde • e067002 DOI: https://doi.org/10.14195/1647-8606_67_2 Impacto do programa de formação e apoio familiar nas competências parentais e na qualidade de vida infantil percebida em Cabo-Verde Adriana Correia1, Cristina Nunes2, Gabriela Marotta3, Mariana Lopes4, Cátia Martins5, Victória Hidalgo6 e Saúl Neves de Jesus7. Resumo O programa de Formação e Apoio Familiar (FAF) é uma intervenção desenhada com a finalidade de promover a parentalidade positiva e prevenir o maltrato infantil. Este estudo pretende descrever alguns dados preliminares da sua implementação com famílias em risco psicossocial da Ilha da Boavista, Cabo Verde, e analisar se existe ou não uma melhoria nos domínios das competências parentais e da qualidade de vida infantil. O FAF foi dinamizado em 12 sessões grupais, com uma metodologia experiencial e participativa, numa periocidade semanal, durante quatro meses. Participaram 66 pais, maioritariamente mães (85%), com idades entre os 26 e os 56 anos (M = 35.53; DP = 7.27), distribuídos em dois grupos (de intervenção e de controlo). A avaliação foi realizada no pré e pós- -teste. O grupo de intervenção melhorou significativamente as suas pontuações após a intervenção na perceção da eficácia, da satisfação parental e na qualidade de vida das 1 CinTurs, Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email: adrianasg[email protected]m. ORCID: https://orcid.org/0000- 0002-6874-6728. 2 Centro de Investigação em Psicologia (CIP) e Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email: csn[email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1009-0519. 3 Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email:
[email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7216-8636. 4 Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email:
[email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6433-9044. 5 Centro de Investigação em Psicologia (CIP) e Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email: csma[email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1819-8516. 6 Departamento de Psicología del Desarrollo y de la Educación. Universidad de Sevilla, Sevilla, España. Email: victoria@ us.es. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9179-2722. 7 Centro Universitário de Investigação em Psicologia (CUIP), Universidade do Algarve, Faro, Portugal. Email: snjesus@ualg. pt. ORCID: http://orcid.org/0000-0003-2019-1011.
2 de 20 Adriana Correia, Cristina Nunes, Gabriela Marotta, Mariana Lopes, Cátia Martins, Victória Hidalgo e Saúl Neves de Jesus. crianças, com um tamanho de efeito moderado. O grupo de controlo não apresentou diferenças significativas entre momentos. O FAF é um programa de intervenção para o desenvolvimento da parentalidade positiva, que promove os sentimentos de eficácia parental e a satisfação parental, o que consequentemente se traduz também em melhores resultados para o desenvolvimento e bem-estar infantil nas famílias em risco psicossocial. Palavras-chave: competências parentais, famílias em risco psicossocial, formação e apoio parental, parentalidade positiva, qualidade de vida infantil percebida. Impact of the parent training program on parental competences and children quality of life in Cape Verde Abstract The Family-Based Preventive Intervention (FAF) is a program designed with the aim of promoting positive parenting and preventing child maltreatment. This work objective is to describe some of the preliminary data and its implementation on families at psychosocial risk in Boavista Island in Cape Verde, and to analyse its efficacy in the field of parenting’ competence and children's quality of life. The FAF was dynamized in 12 group sessions, with experiential and participatory methodologies, on a weekly basis, for four months. 66 parents participated, mostly mothers (85%), aged between 26 and 56 years (M = 35.53; SD = 7.27), divided into two groups (intervention and control). The evaluation was carried out in the pre- and post-test, for both groups, measuring parenting competence and children's quality of life. The intervention group significantly improved their post-intervention scores on perceived efficacy, parental satisfaction, and children's quality of life, with a moderate effect size. The control group did not show significant differences between moments. We can conclude that the FAF program is a psychoeducational intervention that promotes feelings of parental efficacy and parental satisfaction, which can produce better results for child development and well-being in families at psychosocial risk. Keywords: children's quality of life, families at psychosocial risk, parenting competences, parental training and support, positive parenting.
3 de 20 PSYCHOLOGICA VOLUME 67 • 2024 Impacto do FAF em Cabo-Verde INTRODUÇÃO Os programas de promoção de parentalidade positiva têm sido considerados das melhores inovações no campo da intervenção e prevenção em psicologia, principalmente os que se baseiam nas teorias de aprendizagem social, nos princípios cognitivo-comportamentais e nas teorias do desenvolvimento (e.g., Correia et al., 2022; Juffer et al., 2017). A sua importância destaca-se pelo impacto muito positivo que evidenciam na vida das famílias, melhorando o desempenho das práticas parentais e, consequentemente, o bem-estar e a qualidade de vida das crianças (Balcells-Balcells et al., 2016; Barlow & Coren, 2018; Correia et al., 2022; Nunes et al., 2022; Sanders, 2019). Promover e investir no bem-estar e desenvolvimento de crianças que se encontram em situação de risco, através da implementação de programas de parentalidade positiva, deve ser visto como prioridade política (Gray et al., 2018; Heckman 2006; Sanders, 2019; Rodrigo et al., 2023). O programa de Formação e Apoio Familiar (FAF) é um programa de intervenção com foco na preservação familiar e na parentalidade positiva, de caráter psicoeducativo e comunitário, que utiliza uma metodologia participativa e experiencial para melhorar as competências parentais (Hidalgo et al., 2009, 2011, 2016). Este programa tem vindo a ser aplicado em diversos contextos culturais e socioeconómicos, com especial ênfase nas famílias em risco psicossocial (e.g., Correia et al., 2022; Maya & Hidalgo, 2016/2022). As aplicações do FAF em diferentes países (e.g., Correia et al., 2022; Hidalgo et al., 2014, 2016; Maya & Hidalgo, 2016/2022) têm mostrado, por um lado, quais as melhores condições de aplicação (e.g., número e duração das sessões, módulos e atividades aplicadas, fidelidade por parte dos profissionais), bem como os principais resultados da intervenção (e.g., expetativas, satisfação e eficácia parental). O FAF apresenta como principais objetivos: (a) melhorar as práticas educativas utilizadas pelos pais; (b) fortalecer os sentimentos de segurança no seu desempenho enquanto pais e mães, melhorando o sentimento de competência parental; (c) promover a integração comunitária das famílias; e (d) melhorar a qualidade de vida dos pais e das crianças (Hidalgo et al., 2011). Os programas de promoção de parentalidade positiva estão associados ao aumento da utilização de práticas educativas eficazes, ao aumento do sentimento de competência parental, à redução da depressão e do stresse, à melhoria da qualidade da interação entre pais e filhos e do relacionamento entre o casal, melhorarias na saúde mental dos pais e da qualidade de vida das crianças e adolescentes (Álvarez et al., 2020; Coleman & Karraker, 1998; Löfgren et al., 2017; Osman et al., 2017; Sanders et al., 2014). O sentimento de competência parental é um dos fatores centrais para a parentalidade positiva, uma vez que os pais que confiam na sua habilidade para lidar
4 de 20 Adriana Correia, Cristina Nunes, Gabriela Marotta, Mariana Lopes, Cátia Martins, Victória Hidalgo e Saúl Neves de Jesus. com os filhos são mais acolhedores, responsivos e assertivos em relação à criança, o que, por sua vez, também influencia positivamente o comportamento infantil (Dekovic et al., 2010). Inclui duas dimensões fundamentais: eficácia e satisfação dos pais. A eficácia parental refere-se à perceção que os pais têm do seu desempenho em organizar e executar as tarefas parentais, para promover o desenvolvimento positivo das crianças. A satisfação parental refere-se ao sentimento de satisfação que os pais experienciam quando desempenham o seu papel parental (Jones & Prinz, 2005; Nunes et al., 2023). Numa revisão de literatura sobre o papel da autoeficácia na competência parental e no desenvolvimento infantil, Jones e Prinz (2005) mostraram que existe uma forte relação entre a autoeficácia parental e a competência parental, que pode assumir múltiplas formas ao depender de circunstâncias, mais especificamente, como antecedente, consequente ou mediadora. Como antecedente, a autoeficácia dos pais pode predizer os níveis de competência parental, o que sugere que pais com um maior nível de autoeficácia tendem a melhorar a parentalidade efetiva, mesmo em situações desafiadoras. Além do mais, o elevado nível de eficácia também pode ser consequência de uma competência parental aumentada (Jones & Prinz, 2005). Outros estudos apontam que a autoeficácia pode mediar a relação entre problemas de comportamento infantil e competência parental, assim como mediar também o impacto do ajuste parental e contexto social na competência parental (Ardelt & Eccles, 2001; Coleman & Karraker, 2000; Macphee et al., 1996). Ainda que o papel da autoeficácia possa variar entre pais, filhos e contextos culturais, a sua importância como indicador de competência parental e bem-estar infantil, ou como indicador de risco, não pode ser desconsiderada. Da mesma forma, a autoeficácia parental pode atuar como um fator protetor para as famílias que estão expostas a contextos de risco psicossocial, como a pobreza e elevados níveis de stresse. Assim, o aumento da autoeficácia parental pode servir como um potencial mecanismo para melhorar o bem-estar dos pais e dos filhos (Albanese et al., 2019), desenvolvido através da implementação de programas de intervenção para a promoção de parentalidade positiva (Jones & Prinz, 2005; Nunes et al., 2022). Um estudo de meta análise que sintetiza os resultados de 77 avaliações de programas de promoção de parentalidade positiva para melhorar o comportamento e o desenvolvimento de crianças entre os zero e sete anos, salienta os resultados positivos obtidos nos programas, nomeadamente no aumento da interação positiva entre pais e filhos, na aquisição e melhoria de habilidades de comunicação emocional, na melhoria da gestão do tempo e na importância da consistência parental, sublinhando também a importância de estudos de avaliação dos próprios programas com vista à melhoria e adequação dos mesmos (Kaminski et al., 2008). As investigações acrescentam ainda a importância da avaliação dos resultados da
5 de 20 PSYCHOLOGICA VOLUME 67 • 2024 Impacto do FAF em Cabo-Verde implementação dos programas, nomeadamente noutros contextos, no sentido de melhorar as condições de replicação e responder às necessidades de cada participante (Barth, 2009; Sanders, 2019; Shaffer et al., 2010). Em Portugal também têm sido realizados estudos sobre a implementação de programas de parentalidade positiva, nomeadamente sobre o programa “Anos incríveis” e a sua influência na perceção de competência parental e nos comportamentos das crianças (Baptista et al., 2016). Neste estudo, verificou-se um aumento significativo do sentido de competência parental das mães após a intervenção, tanto ao nível da eficácia como da satisfação percebida, e resultados estatisticamente significativos ao nível do comportamento das crianças, nos quais as mães avaliam uma melhoria nas aptidões sociais e uma diminuição dos comportamentos negativos, tanto internalizantes quanto externalizantes. Estudos realizados sobre a implementação do programa Triple P com mães portuguesas em situação de risco psicossocial, demonstrou também resultados benéficos após as intervenções, verificando-se que as mães que participaram no programa usavam práticas parentais mais positivas e envolviam-se mais em atividades, aumentaram o sentimento de competência parental, traduzido num maior grau de satisfação e de eficácia, e reportaram também nos filhos, menos problemas emocionais, menos hiperatividade e menos problemas com pares (Lima, 2018). A par do estudo dos programas parentais, é também importante avaliar a qualidade de vida infantil percebida para se determinar se efetivamente a implementação dos programas de promoção de parentalidade positiva têm impacto sobre a saúde mental das crianças, sendo este um importante indicador de aspetos psicológicos, sociais, físicos e ambientais (Saqib et al., 2017). Frequentemente, a investigação que avalia a implementação de programas de promoção de parentalidade positiva indica que estes podem melhorar significativamente a qualidade de vida infantil percebida, nomeadamente nas áreas emocionais, psicossociais e académicas (Zand et al., 2017). Assim, esta avaliação deverá ter em conta determinados fatores, de vários níveis, sejam eles de cariz individual, familiar, e do contexto social (Ayala- Nunes et al., 2017). Em Cabo Verde, e mais especificamente na Ilha da Boa Vista (onde decorreu o FAF), os dados sobre as condições de vida (Instituto Nacional de Estatística, 2018) mostram que apenas 35% das famílias tem acesso a água canalizada e que 44% das famílias tem de recorrer a luz fornecida por geradores (disponível apenas das 17h às 00h). Na média nacional 2,5 pessoas dormem na mesma divisão, sendo que 35% dos agregados familiares vivem no índice de pobreza absoluta global, ou seja, abaixo do limiar da pobreza. As crianças entre os seis e os 11 anos representam 33% do total das pessoas consideradas pobres, e as crianças entre os zero e os 12 anos são aquelas que mais sofrem de abuso sexual e maltrato. Relativamente à
6 de 20 Adriana Correia, Cristina Nunes, Gabriela Marotta, Mariana Lopes, Cátia Martins, Victória Hidalgo e Saúl Neves de Jesus. tipologia das famílias, cerca de 41% dos agregados familiares são monoparentais. Sobre as práticas educativas, verifica-se que as regras sociais são transmitidas pela mãe (50%) ou pelos avós (25%), e que 57% das crianças dos zero aos seis anos são punidas fisicamente pelos cuidadores em caso de desobediência (INE, 2018). Alguns estudos sobre fenómenos laborais e migratórios das famílias cabo-ver- dianas apontam que, quando as condições de trabalho dos pais são muito exigentes, dificultam a organização e estruturação das atividades com os filhos, podendo resultar num distanciamento emocional e na ausência de apoio parental (Semedo, 2019; Teixeira, 2014). Referem também o aumento de situações de hostilidade e de interações conflituosas entre o casal e os filhos (Semedo, 2019). No que diz respeito a programas de intervenção nestas comunidades, embora seja expetável a sua existência (e.g., transição-para-a-parentalidade.webnode.pt), do nosso conhecimento, não existem publicações que descrevam e analisem estas experiências em Cabo Verde (embora existam vários noutros países africanos, e.g., Lachman et al., 2016, 2017; Rose et al., 2018). O FAF parece assim ser um dos primeiros programas a ser implementado em Cabo Verde (e.g., Correia et al., 2019, 2022), com preocupações ao nível da avaliação dos resultados e reporte. Uma vez que os programas de promoção de parentalidade positiva têm um potencial significativo para melhorar os sentimentos de competência parental (e.g., Correia et al., 2022; Hidalgo et al., 2016), beneficiar o desenvolvimento e a qualidade de vida das crianças (Albanese et al., 2019), e contribuir para um relacionamento mais harmonioso das famílias e da comunidade em geral (Sanders, 2008), é premente que os governos promovam a implementação destes programas, sobretudo para as famílias em contextos socioeconomicamente mais adversos (Gray et al., 2018; Nunes & Ayala-Nunes, 2016; Sanders, 2019); e que se desenvolvam estudos sistemáticos sobre o seu impacto nestes contextos e a sua disseminação pelas comunidades (Cluver et al., 2016; Doubt et al., 2017; Hildalgo, 2022; Lachman et al., 2016; Sanders, 2019; Shenderovich et al., 2018; Ward et al., 2019). Neste sentido, o presente estudo tem como objetivo analisar os resultados do programa FAF em Cabo Verde, ao nível dos sentimentos de competência dos pais e da qualidade de vida infantil percebida. MÉTODO Participantes Para a implementação do programa contou-se com 66 participantes, dos quais 56 eram mães e 10 eram pais, com idades entre 26 e 56 anos (M = 35.53; DP =
7 de 20 PSYCHOLOGICA VOLUME 67 • 2024 Impacto do FAF em Cabo-Verde 7.27). Os critérios de inclusão foram: pais de filhos com idades compreendidas entre os seis e os 12 anos, residentes na Ilha da Boavista, e identificados com baixo ou moderado risco psicossocial pelos técnicos que acompanhavam a família. Cada pai identificou apenas um filho para a avaliação no momento pré e pós teste, e a média de idades das crianças foi de 8 anos (M = 8.82; DP = 2.35). De acordo com o interesse e a disponibilidade de cada pai e mãe, o grupo de intervenção contou com 42 participantes, enquanto 24 ficaram no grupo de controlo. Ambos os grupos apresentavam características similares relativamente à idade (t(69) = -0.45; p = .326) e ao nível de estudos (χ = 4.18; gl = 3; p = .243). Na sua maioria, os participantes viviam em famílias biparentais (71.43%), tratandose em 35.71% de famílias reconstituídas. Os agregados eram constituídos, em média, por 4.29 membros (DP = 1.54; Mín = 2; Máx = 8), dos quais 2.32 eram menores de idade (DP = 1.03; Mín = 1; Máx = 2.32). Relativamente ao nível de estudos, 46.81% tinha o ensino primário incompleto, 10.64% concluiu o ensino primário, 29.79% o ensino secundário, e 12.77% o ensino universitário. No que diz respeito à situação laboral, 86.36% dos participantes estavam empregados no momento da investigação e, destes, 78.33% tinha contrato de trabalho e 80.33 % possuía um trabalho estável. A maioria dos trabalhos (60.34%) era de baixa qualificação. Instrumentos Dados sociodemográficos Constituído por 13 itens, que avaliam indicadores individuais (idade, origem, nível de estudos e situação profissional) e familiares (tipologia e tamanho de família, e número de menores). Competências parentais percebidas Utilizou-se a versão portuguesa, adaptada a famílias em risco psicossocial de Nunes et al. (2023) do Parental Sense of Competence (PSOC) de Johnston e Mash (1989). Esta versão mede a competência parental percebida como progenitor através de duas dimensões: a Eficácia (7 itens: e.g., “Apesar de ser difícil, eu já sei como se pode influenciar os filhos”; α = .70) e a Satisfação com o papel parental (9 itens: e.g., “Ser mãe põe-me nervosa e ansiosa”; α = .72), respondidas numa escala de 1 a 6 (1 = “Não, totalmente em desacordo” e 6 = “Sim, totalmente de acordo”). Pontuações mais elevadas refletem níveis mais elevados em cada dimensão avaliada.
8 de 20 Adriana Correia, Cristina Nunes, Gabriela Marotta, Mariana Lopes, Cátia Martins, Victória Hidalgo e Saúl Neves de Jesus. Qualidade de vida infantil percebida Foi utilizado a versão proxi para pais do Kidscreen, Kidscreen 10, uma versão reduzida e unidimensional do Kidscreen-52 e do Kidscreen-27 (Gaspar & Matos, 2008), composta por 10 itens (e.g., “Pense na última semana… o/a seu/sua filho/a sentiu-se sozinho/a?”; α = .74), que avaliam o bem-estar e a saúde subjetiva da criança, numa escala de 1 a 5 (de 1 = “Nada” a 5 = “Totalmente”). Valores mais elevados correspondem a uma melhor qualidade de vida percebida pelos pais sobre a criança. Procedimentos Os pais e mães que participaram neste estudo foram selecionados pelos técnicos profissionais do Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente, técnicos profissionais da área social e da educação da Câmara Municipal da Boavista e professores do ensino básico da escola local. Após a apresentação do Programa FAF nas reuniões escolares de início de ano letivo, ou individualmente através dos técnicos dos serviços indicados, os pais foram contactados telefonicamente e convidados a participar no programa. A aplicação do FAF foi ainda sujeita a pequenas adaptações culturais, realizadas através da seleção das atividades do programa (e.g., com menor componente de leitura e escrita) e seguindo as propostas presentes no programa (Hidalgo et al., 2011, 2018). Desta forma, foram trabalhadas competências parentais de acordo com os seguintes módulos e atividades: desenvolvimento infantil (“Como crescem os nossos filhos”; “Calendário dos nossos filhos”; “Já todos fomos filhos”); desenvolvimento adolescente (“Quem te viu e quem te vê”; “As necessidades dos adolescentes”; “A adolescência tem salvação?”); desenvolvimento adulto (“O meu bolo”; “Gosto / não gosto”); sistema familiar (“Acontece a um, afeta-nos a todos”; “As dificuldades e os pontos fortes da nossa família”; “Construímos a história da nossa família”); estilos educativos: regras e disciplina (“Um julgamento do castigo físico”; “Valorizar as regras”), afeto e comunicação (“ Diferentes formas de dizer as coisas”; “Estou mal quando…”); resolução de conflitos (“Como evitar mal-entendidos”; “Ganharganhar”; “Aprender a negociar”); e, por fim, comportamentos sexuais de risco e consumos de substâncias (“Rebelde sim, mas com limites”; “Verdades e mentiras”; “E agora, o que fazemos?”). A implementação do FAF foi realizada por duas psicólogas, formadas pela equipa de investigadores do FAF para o efeito. A aplicação realizou-se em 12 sessões, com regularidade semanal e a duração de duas horas, no Centro de Artes e Cultura da Boavista. Durante a intervenção, os participantes foram sujeitos a um desenho quasiexperimental com pré e pós-teste, para avaliar o impacto do programa de interven-
9 de 20 PSYCHOLOGICA VOLUME 67 • 2024 Impacto do FAF em Cabo-Verde ção nas competências parentais e na qualidade de vida infantil percebida. Quando aceitaram e compareceram a duas sessões, foi-lhes realizado o pré-teste. Aos pais a quem foi proposto participar na intervenção do programa, mas que, por falta de disponibilidade ou interesse em participar nas sessões de grupo, foram agendadas entrevistas individuais para recolha de dados sociodemográficos, do perfil das competências parentais e da qualidade de vida infantil percebida (pré-teste) e integraram, deste modo, o grupo de controlo. Após a intervenção foram realizadas novamente as entrevistas de pós-teste a ambos os grupos. Em todos os casos, quer no grupo de intervenção (GI), quer de grupo de controlo (GC), foi solicitado o consentimento informado por escrito, onde se salientou a natureza anónima e confidencial das suas respostas aos questionários. Não foi oferecida qualquer recompensa económica pela participação no estudo ou no programa e ficou explícito que em qualquer momento poderiam abandonar a sua participação, sem qualquer consequência negativa. Este estudo foi aprovado pela (cego para revisão). Análise de dados O tratamento estatístico dos dados foi realizado com o software estatístico SPSS vs 28 (IBM, 2021), procedendo-se à análise de contrastes de médias (t-test) e o t-test emparelhado para comparar os resultados no pré e no pós-teste. Quando não se verificaram os pressupostos estatísticos para as análises paramétricas, segundo as recomendações de Tabachnick e Fidell (2007), foi utilizado o teste não paramétrico Wilcoxon emparelhado para comparar os dados do pré e pós-teste. Os resultados foram considerados significativos se p ≤ .05 e o tamanho do efeito (d, r) foi calculado para esclarecer o grau de precisão e confiabilidade estatística da relação entre as variáveis. RESULTADOS Competências parentais e qualidade de vida infantil percebida No pré-teste não observámos diferenças significativas entre o GI e o GC (Tabela 1) relativamente à qualidade de vida das crianças e ao sentimento de eficácia dos pais. No entanto, os pais do GC sentiam-se mais satisfeitos com o seu papel parental do que os pais do GI. Tendo em conta que a pontuação mínima e máxima no instrumento Eficácia e Satisfação é de 7-42 e 9-54 pontos, respetivamente, podemos afirmar que, em média,
16 de 20 Adriana Correia, Cristina Nunes, Gabriela Marotta, Mariana Lopes, Cátia Martins, Victória Hidalgo e Saúl Neves de Jesus. REFERÊNCIAS Albanese, A. M., Russo, G. R., & Geller, P. A. (2019). The role of parental self‐efficacy in parent and child well‐being: A systematic review of associated outcomes. Child: Care, Health and Development, 45(3), 333–363. https://doi.org/10.1111/cch.12661 Álvarez, M., Byrne, S., & Rodrigo, M. J. (2020). Patterns of individual change and program satisfaction in a positive parenting program for parents at psychosocial risk. Child & Family Social Work 25(2), 230–239. https://doi.org/10.1111/cfs.12678. Ardelt, M., & Eccles, J. S. (2001). Effects of mothers’ parental efficacy beliefs and promotive parenting strategies on inner-city youth. Journal of Family Issues, 22(8), 944–972. https://doi.org/10.1 177/019251301022008001. Ayala-Nunes, L., Jiménez, L., Jesus, S., Nunes, C., & Hidalgo, V. (2018). An ecological model of well- -being in child welfare referred children. Social Indicators Research, 140(2), 811–836. https:// doi.org/10.1007/s11205-017-1807-x Ayala-Nunes, L., Nunes, C., & Lemos, I. (2017). Social support and parenting stress in at-risk Portuguese families. Journal of Social Work, 17(2), 207–225. https://doi.org/10.1177/1468017316640200 Balcells-Balcells, A., Giné, C., Guàrdia-Olmos, J., & Summers, J. (2016). Proposal of indexes to evaluate family quality of life, partnership, and family support needs. Revista Iberoamericana de Psicología y Salud, 7(1), 31–40. https://doi.org/10.1016/j.rips.2015.10.005 Baptista, E., Major, S., Seabra-Santos, M.J., Gaspar, F., Homem, T., Azevedo, A., & Pimentel, M. (2016). Grupos de pais Anos Incríveis: O que muda na perceção da competência parental e nos comportamentos das crianças? In Actas do 3º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Lisboa, 28 Setembro 2016 a 1 de Outubro 2016 (pp. 243–251). https://www.ordemdospsicologos. pt/ficheiros/documentos/livro_de_actas_3ao_congresso_opp_final.pdf Barlow, J., & Coren, E. (2018). The effectiveness of parenting programs. Research on Social Work Practice, 28(1), 99–102. https://doi.org/10.1177/1049731517725184. Barth, R. P. (2009). Preventing child abuse and neglect with parent training: Evidence and opportunities. The Future of Children, 19(2), 95–118. http://www.jstor.org/stable/27795049 Cluver, L., Meinck, F., Yakubovich, A., Doubt, J., Redfern, A., Ward, C., Salah, N., Sachin, P., Petersen, T., Mpimpilashe, P., Romero, R., Ncobo, L., Lachman, J., Tsoanyane, S., Shenderovich, Y., Loening, H., Byrne, J., Sherr, L., Kaplan, L., & Gardner, F. (2016). Reducing child abuse amongst adolescents in low- and middle-income countries: A pre-post trial in South Africa. BMC Public Health, 16(567) 1–11. https://doi.org/10.1186/s12889-016-3262-z. Coleman, P. K., & Karraker, K. H. (1998). Self-efficacy and parenting quality: findings and future applications. Developmental Review, 18(1), 47–85. https://doi.org/10.1006/drev.1997.0448. Coleman, P. K., Karraker, K. H. (2000). Parenting self-efficacy among mothers of school-age children: Conceptualization, measurement, and correlates. Family Relations, 49(1), 13–24. https://doi. org/10.1111/j.1741-3729.2000.00013.x. Correia, A. S., Keong, A. M., Nunes, C., Hidalgo, V., & Jesus, S.N. (2019). Formação e apoio familiar em cabo verde. O relato da experiência dos técnicos e dos participantes. Revista Psicologia e Educação On-Line, 2(2), 24-32. https://hdl.handle.net/11441/129627 Correia, A., Matavelli, R., Cunha, F. F., Hidalgo, V., Jesus, S. N. D., & Nunes, C. (2022). Family education and support programme: Implementation and cultural adaptation in Cape Verde. Social Sciences, 11(6), 232. https://doi.org/10.3390/socsci11060232
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