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Epistemologias feministas no Mar lusófono: "navegar é preciso, viver não é preciso". Um estudo comparado da produção científica em Revistas Acadêmicas de Brasil, Portugal e Moçambique

Rêgo, Sérgio Antônio Silva

Abstract

Este trabalho centrou-se em identificar quais epistemologias as feministas acadêmicas do Brasil, Moçambique e Portugal têm utilizado em publicações periódicas virtuais e como ocorrem seus desdobramentos em termos de ações políticas em suas realidades. Definimos as revistas acadêmicas periódicas feministas enquanto um importante espaço de expressão, discussão, divulgação, formação de organismos e/ou pessoas, além de fomento e consolidação de áreas temáticas. Os anos 1990 representam um importante espaço temporal de análise para o feminismo lusófono, dado que nesse período surgem as primeiras publicações periódicas acadêmicas feministas em língua portuguesa. No Brasil, Revista Estudos Feminsitas (1992) e Cadernos Pagu (1993); em Moçambique, em 1991, a revista Estudos Moçambicanos, apresenta um trabalho ligado a temática e, em Portugal, Faces de Eva e ex æquo (1999). Estas revistas estão centradas nas discussões que versam sobre a temática dos Estudos sobre Mulher/Mulheres, Gênero e Feminismo e comprometidas, desde o início de seus trabalhos, com a qualidade das discussões. Esses periódicos passaram não só a representar um espaço de reunião de investigadoras/es da temática, ampliando-a, como também, a partir do ativismo, auxiliaram na compreensão das problemáticas locais – a partir do uso teorias já consolidadas em outros espaços – e criação de projetos políticos que possibilitaram a criação de leis que objetivam a erradicação da discriminação e garantia de direitos. Este trabalho possui uma metodologia quantitativa, com método do estudo de caso e uso de técnicas de análise de conteúdo categorial e entrevistas semi-diretivas. Reuniu artigos dispostos entre os anos de 1991 e 2019 (2334 ao total), os quais tiveram seus resumos e palavras-chave observados e sistetizados em 16 categorias temáticas que auxiliaram, juntamente as entrevistas realizadas, a perceber os processos de transformação e alterações ocorridos ao longo do tempo. Do mesmo modo que permitiram compreender as políticas de editoria de cada revista. Diante disso, concluímos que não só ocorreu uma alteração a nível epistemológico por parte dos artigos publicados ao longo desse tempo, bem como uma alteração de temáticas. Também apreendemos a importância dessas publicações na instrumentalização de pessoas que se interessam pela temática e na premissa de uma sociedade equitativa, com uma política de erradicação das desiguldades de gênero.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Sérgio Antônio Silva Rêgo julho de 2021 Epistemologias feministas no Mar lusófono: "navegar é preciso, viver não é preciso". Um estudo comparado da produção científica em Revistas Acadêmicas de Brasil, Portugal e Moçambique Sérgio Antônio Silva Rêgo Epistemologias feministas no Mar lusófono: "navegar é preciso, viver não é preciso". Um estudo comparado da produção científica em Revistas Acadêmicas de Brasil, Portugal e Moçambique UMinho|2021 Sérgio Antônio Silva Rêgo julho de 2021 Epistemologias feministas no Mar lusófono: "navegar é preciso, viver não é preciso". Um estudo comparado da produção científica em Revistas Acadêmicas de Brasil, Portugal e Moçambique Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Ana Maria Simões de Azevedo Brandão Tese de Doutoramento Doutoramento em Sociologia ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii AGRADECIMENTOS A meu ver, a gratidão é um dos sentimentos mais sublimes, especialmente por despertar a capacidade de reconhecimento que nos permite compreender que a caminhada – em meu caso, a navegação – não é realizada de maneira isolada, além de ser mais duradoura e intensa se for exercida em meio a partilhas e em companhia de pessoas especiais. Aqui, nesses breves agradecimentos, não pretendo expor hierarquias ou mesmo avaliações de maior ou menor participação, apenas o genuíno sentimento de gratulação pelo apoio prestado. Desse modo, desenvolvo essas breves linhas em agradecimento aos mares por onde me embreei, numa aventura de aprofundar em mim mesmo e naquilo em que acredito, pelas constantes (auto)descobertas, naquela intensidade em que o conhecimento estimula a transformação de mim e das pessoas com as quais convivo e além destas, principalmente devido à minha profissão, que é a docência. A partir disso, quero agradecer à Criação por todas as oportunidades de crescimento e aprendizagem que sempre são oferecidas e pela capacidade de me reconhecer nelas e, a partir delas, ser capaz de enxergar o mundo de outra forma, com a decisão de intervir. Nesse processo de entrega e construção, muitas noções sofreram alterações: a ideia de tempo, assim como os sentimentos de saudade e pertença, as noções de criação e lugar. Para tanto, penso: Sou de muitos mundos, / constituídos sob muitas formas. / Sou diverso, sou plural, / sou na construção, na caminhada. / No processo, me formo / Com outras pessoas, é que me enxergo / Me associo por ideias / Quero sempre estar na condição de aprender para poder ensinar, / numa expressão de “boniteza” e constante inquietar. / Quero ser, sendo. / Quero nunca me acabar / Inconstância, luta e vontade / Transformar é um mote criativo / Ser sendo é aventurar-se. / Pois é nesse mar que quero sempre me lançar. Isso é um pouco do que sinto nesse momento. Agradeço também à minha querida família, que ampliou de maneira significativa o sentido do termo e do sentimento de saudade, e que sempre possibilitou todo sustentáculo para que mais essa etapa de formação pudesse ser efetivada. Em especial a minha mãe, Dôra, uma mulher forte e que me inspirou/inspira, e a meu pai, Sérgio (em memória), o qual é mais que lembrança, ele é sempre presença. À Melissa, Gustavo, Cecília e Alice (que acaba de chegar) pelo carinho de vida que demonstram e ensinam a profundidade e cotidianidade através do sublime amor, ressignificado a todo instante, além de serem incentivo na luta pela efetivação de um mundo mais equitativo. À Elaine e Érica pelo pragmatismo e atenção que possuem. À minha querida Danda pela existência de puro carinho com a qual transforma de modo singular nossa própria vivência e (auto)reconhecimento. iv À dedicada orientadora acadêmica e querida Professora Doutora Ana Maria Brandão, por todo apoio, estímulo, oportunidades, conversas, sorrisos, ideias e ideais partilhados. Tenho a convicção de que tudo que foi construído se tornou mais leve porque caminhei/naveguei ao lado de uma excelente profissional e um ser humano admirável. Tudo isso demonstrado especialmente pela amizade, parceria e confiança que foi estabelecida durante essa trajetória que nos permitimos construir. A firmeza e segurança que tenho de que fizemos um trabalho ético, político e fundamentado em princípios de coerência científica é uma frequente. O meu mais sincero apreço, admiração e respeito. Aos queridos tio-padrinho José Fernandes (tio Zé), tia Inez e tia Carminha, pelo apoio incondicional, sempre presentes em todas as etapas de minha formação educativa. A minha amadíssima avó, Nita (em memória), assim como às frequentes presenças dos mais afetuosos sentimentos de meu avô Nelson (em memória) e minha querida e saudosa tia-madrinha Simone (em memória), pelo estímulo e ensino de que há várias formas de olhar as belezas que o mundo possui, inclusive criando outras, por meio do incentivo, do apoio e (auto)transformação. À Professora Doutora Allene Lage, mulher e profissional que incentiva e motiva de muitas maneiras a estabelecer pontes e perceber que a educação é um valor transformador e potencializador da humanidade, principalmente por toda sua experiência de vida, força e trabalho dedicado ao bemcomum. À família que se construiu através dessa experiência, assim como aos fortes laços (por muitas vezes, foram constituídos de nós bem atados) e íntimos que foram harmoniosamente construídos. Por meio das oportunidades de crescimento cotidianos que nos são ofertados à medida que nos permitimos e entregamos a esses prazerosos momentos. Destaco aqui os nomes de pessoas queridíssimas: Aline Albuquerque e Ciro Coelho, que trouxeram leveza desde o primeiro contato com esse “novo universo” e onde, muitas vezes, “perdidos nos encontramos”. Agradeço a constante companhia e amizade criada. À Joana (Angélica) Teixeira, terna amiga, curiosa, dedicada e disponível para todas as horas, que demonstrou ser um fidelíssimo porto, especialmente por oportunizar sorrisos (gargalhadas), além de estimular, de diferentes maneiras, a necessidade do (re)inventar-se. Muito obrigado por tudo! Já ensaio como irei servir o café e levar os livros! Além das próprias leituras conjuntas, observações levantadas e parceria construída. Ressalto também Ana “Maria” Rita Sá Leite e o aprendizado da cotidianidade das relações, sua atenção e torcida; à queridíssima amiga e mais uma sensível alma que Portugal brindou, Rafaela Ribeiro e a convicção de que seu futuro (já em construção) é repleto de beleza que estimula, além de atiçar brasas e curiosidades, agradeço pelas conversas carinhosas, reflexões, apoios, leituras, correções e ideais partilhados; à Letícia Beltrão pelas reflexões que oportuniza. A estas pessoas e aos v seus sorrisos largos, suas fartas gargalhadas, partilhas, viagens (teóricas e concretas) constituem uma bela memória. Estes seres serão “de Braga para o sempre”, e provam que a decisão tomada em navegar outros mares foi bastante acertada. Vocês estão guardadas/os nas memórias afetivas mais ternas. Do mesmo modo que estão os sons, as cores, os aromas, sabores e sensações que Braga (Bracara Avgvsta) provocou em todo o tempo em que estive morando e conhecendo seus espaços e encantos. Aos/as professores/as doutores/doutoras, sem querer ser redundante em comentar sobre a capacidade teórica destas pessoas, mas não podendo deixar de evidenciar essa dimensão, começo por Emília Araújo, Joaquim Costa, Ivo Domingues, Fernando Bessa Ribeiro, Manuel Carlos Silva, Rita Ribeiro, José Machado, Ana Paula Marques, cada qual, com sua particularidade, passou a fomentar discussões e, além disso, direcionaram estudos, questionaram, instruíram, encorajaram e estimularam a aprofundar nessa trajetória. Considero que criamos laços de amizade e, de minha parte, uma profunda admiração. Esse saber-fazer tornou-se muito mais agradável com a presença destas pessoas queridas, comprometidas e disponíveis. Ao amigo-irmão Pedro Henrique Teixeira, por todos os momentos de troca de ideias, cuja presença frequente e o fomento da (auto)descoberta foram condições reais de permanência do andamento de nosso sonho partilhado, sonho este que é de uma educação crítica como instrumento efetivo de mudança e transformação social. O desafio do “eterno retorno”, muitas vezes conversado, ainda é respondido com um sonoro “sim!”. Aos integrantes amigos/as do Observatório dos Movimentos Sociais da América Latina pela torcida frequente. Os nomes de Andrezza Rodrigues (inclusive, por todos os apoios de ordem pragmática na chegada a Braga, ao acolhimento e amizade dispensados), Otávio Rubino (Prema Sindhu Jequitaiá), Márcia Godoi Queiroz, Marciano Silva são um destaque nessa trajetória, pensada e navegada conjuntamente, de perto ou de longe, no entanto sempre com o desejo de se fazer presente. Ao diletíssimo Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciências Sociais (GEICS) composto por um conjunto de pessoas com as quais o itinerário da investigação tornou-se mais dinâmico, alegre e que incentivou, ainda mais, a partir do debate franco e constante, a força que se possui em querer construir e socializar conhecimentos de maneira coletivizada. Por motivos de não querer esquecer o nome de ninguém, preferi não confiar em minha memória, mas a vocês agradeço os nossos encontros para discutir temas, teses, leituras, além de nossas constantes e agradáveis conferências. Gratidão em poder aprender convosco. Aproveito para destacar alguns outros nomes que contribuíram bastante nessa trajetória do doutoramento e aos quais sou grato: Carla Cerqueira e a admiração pelo seu empenho, inteligência e vi humildade; a amiga Rita Moreira e o amigo Rodrigo Dominguez, para o qual estendo a equipe que constitui o corpo do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais – Polo da Universidade do Minho, o espaço de Investigação que me acolheu de maneira tão respeitosa e carinhosa, além do fomento com os congressos/seminários que pude “representar” e ampliar contatos. Sem esquecer nossos SemináriosAlmoços (deliciosos espaços de aproximação, acolhida e novos sabores e olhares) e a ComTextos . Também destaco a presença atenta e dedicada de Cláudia Martins pela incomensurável disponibilidade em relação às estatísticas. À Professora Doutora Maria do Mar Pereira pelo seu “vá além!” numa conversa que serve como estímulo até hoje e que demonstra a necessidade de se projetar. À Professora Doutora Maria Paula Meneses por ajudar, no início, a perceber que os vazios estão repletos de significados. A todas as mulheres que participaram das entrevistas e que contribuíram decisivamente para a efetivação dessa investigação, pela gentil disponibilidade em meio a um cenário mundial de profunda adversidade. De mais a mais, por toda construção e empenho no enfrentamento das assimetrias que insistem em perpetuar-se, são elas: Iara Beleli, Isabel Casimiro, Lena Lavinas, Virgínia Ferreira e Zília Osório de Castro. Pessoas que oportunizaram o contato de um investigador com muitas daquelas pessoas que conhecia e admirava apenas por seus fortes textos, para além das trajetórias profissionais e ideias, elas passaram a ser um discurso materializado nessa oportunidade de poder ouvir e aprender um pouco mais. Ao grupo Faces de Eva pela disponibilização de alguns dos números que estávamos com dificuldade de acesso. Nesse grande itinerário de navegação, pude contar com a colaboração de inúmeras pessoas, para as quais manifesto o meu mais sincero e profundo reconhecimento de agradecimento, por todo incentivo, torcida e auxílio demonstrados em diversos momentos dessa trajetória que foi criada. Pessoas das mais variadas localidades, as quais com muito prazer, pude conhecer, alimentado sempre pela curiosidade de ouvir, ver e aprender. Estou convicto de que os dias são/foram muito mais coloridos a partir das vossas presenças sempre frequentes. vii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio, nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. xiv ÍNDICE DE FIGURA FIGURA 1 Sociologia ciclope vs. Sociologia feminsita 60 xv ÍNDICE DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 Distribuição de artigos nas seções analisadas divididos por anos, nas revistas do Grupo A (1992 a 2019) 159 GRÁFICO 2 Distribuição dos textos analisados em temáticas gerais, expostas em ordem decrescente 164 GRÁFICO 3 Distribuição em temáticas gerais, números totais, divididas por gênero da primeira autoria 175 GRÁFICO 4 Distribuição em temáticas gerais, valores totais, distribuídos pelos anos de 1991 a 2019, agrupados a cada cinco anos 176 xvi ÍNDICE DE TABELAS TABELA 1 Esquema sistematizado de implementação de uma metodologia feminista em ciências sociais e humanas, oriundas de contribuições da sociologia, antropologia e filosofia/teologia. 58 TABELA 2 Mulheres no ensino superior (universidades e politécnicos, público e privado). 105 TABELA 3 Número de mulheres docentes do Ensino Superior (universidades e politécnicos, público e privado) 105 TABELA 4 Indicação de publicações por grupos, endereços eletrônicos e disponibilidade de acesso ao acervo (pesquisados em maio de 2020) 131 TABELA 5 Incidência de palavras-chaves e resumos, números totais em cada publicação 133 TABELA 6 Quadro síntese dos dados verificados para cada artigo 139 TABELA 7 Sistematização dos títulos das categorias gerais 141 TABELA 8 Grupos de publicações, números, quantidade de artigos, porcentagem individual e total e ano das consultas 157 TABELA 9 Detalhamento de países por continente 200 TABELA 10 Detalhamento de idioma por continente 202 TABELA 11 FI nos periódicos do Grupo A relativo a três anos, ano base 2019 208 TABELA 12 Lugar ocupado por país (Grupo A) no ranking mundial. SJR – Scimago Journal & Country Rank – período de avaliação (1996-2019) na área multidisciplinar 209 TABELA 13 Dados gerais da introdução à plataforma SciELO pelo conjunto de periódicos do Grupo A 209 TABELA 14 Colocação das revistas do Grupo A avaliadas pelo SJR, ano de referência de 2019 210 TABELA 15 Fator impacto para as publicações brasileiras que integram o Grupo A 211 TABELA 16 Quadro de avaliação Qualis no quadriênio 2013-2016 por áreas e ISSN na Plataforma Sucupira nas revistas brasileiras (REF e Cadernos Pagu) 212 TABELA 17 Fator de impacto para as publicações portuguesas que integram o Grupo A 213 xvii TABELA 18 Lista das temáticas gerais dos trabalhos da Anpocs durante as décadas de 1980 e princípios de 1990 313 TABELA 19 Detalhamento do processo de temáticas 317 TABELA 20 Detalhamento de países por continente 325 TABELA 21 Detalhamento de países por continentes em cada publicação 326 TABELA 22 Detalhamento de cursos com a quantidade formação individual 328 TABELA 23 Detalhamento de países em cada continente 329 TABELA 24 Relação entre países em relação a proporcionalidade para cada periódico 330 xviii Recordar é preciso O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos A memória bravia lança o leme: Recordar é preciso. O movimento vaivém nas águas-lembranças dos meus marejados olhos transborda-me a vida, salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga, mas os fundos oceanos não me amedrontam e nem me imobilizam. Uma paixão profunda é a bóia que me emerge. Sei que o mistério subsiste além das águas. Conceição Evaristo (2017: 14). xix Dedico este trabalho a todas aquelas pessoas que não desistem em romper com os grilhões de injustiças e que acreditam além de oportunizarem novas construções de equidade. Especialmente porque estas são possíveis, de modo concreto, quando navegam em mares desconhecidos, mas sonham e percorrem os trajetos de maneira conjunta. Avante! 1 Introdução Acreditar na possibilidade de ativismo intelectual é uma coisa; descobrir como fazê-lo dentro da política contemporânea de produção de conhecimento é outra. (Collins, 2013: xi) O empreendimento do ativismo feminista, especialmente observado no cenário acadêmico a partir da segunda metade do século XX, é resultante do acúmulo de experiências – políticas e intelectuais – de muitas mulheres que ousaram romper com aquilo que se considerava natural. A opressão de um amplo conjunto da sociedade – de modo especial, das mulheres – era uma prática comum e, em muitos aspectos, socialmente aceita (Wollstonecraft, 2015 [1792]). A construção de uma cidadania plena ainda faz parte da luta feminista, pois, apesar de alguns avanços a nível de direitos, essas conquistas não são observadas em todas as realidades. O que demanda uma maior articulação e observação acerca da complexidade dos fenêmenos que envolvem os processos de opressão. Foram diversas as discussões sobre o papel desempenhado pelas mulheres nas sociedades, com ênfase na produção do conhecimento. O componente político associado ao feminismo passou a ser frequente em muitos espaços e procurou visibilizar questões, até então pouco reconhecidas como importantes nesses espaços. As intelectuais fundamentavam seus trabalhos em muitas teorias e apontavam a construção de caminhos que procurassem garantir uma participação concreta na vida social, assim como a superação das opressões vividas. As discussões empreendidas por essas teóricas passaram a ser uma prática recorrente e possibilitaram a ampliação da própria ideia de conhecimento produzido, além de efetivar, em muitos espaços, sua presença (como no caso das universidades), embora que em algumas áreas ainda não seja tão visível. Diversas questões sobre a ação concreta dos movimentos feministas – em suas mais diversas realidades – e quais as agendas que eram, naquele momento, prioritárias, foram postas em causa. O acesso a educação, a participação política plena, direito sobre o corpo e sua sexualidade, a vida, a existência sem violência, a direitos básicos tais como: água e alimentação são algumas dessas agendas. Essa medida de avaliação frequente das ações dos movimentos feministas possibilitou (re)ver ações, assim como os papéis que eram desempenhados, do mesmo modo que auxiliou a delinear muitos dos caminhos que seriam seguidos. Romper com velhas estruturas de opressão – machismo, sexismo, androcentrismo – ainda é uma realidade em vários espaços. Essas estruturas opressivas, vivenciadas de múltiplas maneiras, são nutridas, muitas vezes, a partir do desconhecimento de suas ações de 2 manipulação. Por sua vez, estas ações podem ser demonstradas de variadas maneiras, e vão desde práticas evidentes até mesmo aquelas disfarçadas, mais sutis. Exercida em muitas esferas e espaços. Todas essas formas de de atuação são decorrentes de processos de violência concreta, muitas vezes respaldada como natural (Beauvoir, 1967 [1949]; 1970 [1949]; 2005; 2018). Desse modo, mantém-se a ideia de controle e acaba por procurar extrair a consciência dos processos de particpação, enfrentamento e desconstrução dessas ações. Apesar de todo esse cenário, novas ferramentas foram adicionadas a esse escopo teórico que vem sendo criado há décadas a partir da atuação de feministas no interior de espaços acadêmicos. Especialmente quando concretadas em compreender como são constituídos os processos de desigualdade/opressão entre as pessoas e os papéis sociais erigidos ao longo dos tempos. A concepção de gênero como ferramenta analítica é uma delas (Scott, 1990), indissociável de outras como a raça/etnia, classe, idade, geografia, entre outras, que passam a ser instrumentos de potencialização das análises realizadas. A observação plural acerca do fenômeno investigado é uma condição de pesquisa, assim como uma compreensão que congrega a pluralidade dos objetos estudados. Diante desse amplo cenário, estudar questões concernentes à sociologia da ciência, em especial sob o prisma das teorias feministas e de gênero, é, muitas vezes, mergulhar em mar revolto, haja vista estar-se diante de espaços ainda pouco trabalhados. Isso é especialmente verdadeiro pelo fato de muito do material investigado não se encontrar sistematizado ou ser de fácil acesso, o que sugere que ainda é uma temática que necessita de uma ampliação de espaço, assim como de valorização. Empreender uma investigação baseada na teoria feminista é uma tarefa que se demonstrou intensa e que nos trouxe novos olhares acerca das condições de produção do conhecimento feminista nas realidades de Brasil, Moçambique e Portugal. Nosso foco centrou-se na produção decorrente dos ativismos feministas ao longo de quase três décadas, de modo específico em periódicos acadêmicos. Desse modo, procuramos perceber aspectos que vão desde o estímulo à instauração desses projetos, sua produção e desenvolvimento, à observação e compreensão das alterações que são vivenciadas. Ao mesmo tempo, ratifica-se a importância desses periódicos na consolidação de uma área do conhecimento a nível local e não somente nele, destacando-se o compromisso ético e político da ciência, além do estímulo e formação de novas concepções e formas de atuação em cenários que se mostram ainda adversos. O estabelecimento desse cenário de pesquisa como ponto de partida decorre da ideia de que os países indicados possuem realidades sociais, históricas e culturais que podem ser interpretadas de forma conjunta, respeitando suas singularidades. Não apenas a partir do estabelecimento de forças de opressão 3 colonial, mas também decorrente disso e de como os processos de resistência e criação constituíram-se nesses espaços. Além disso, pretendíamos perceber se alguns dos possíveis vazios existentes poderiam ser explicados e se esses mesmos vazios são, em si mesmos, aspectos que devem ser compreendidos. Relativamente à escolha de nosso título – Epistemologias feministas no Mar lusófono: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Um estudo comparado da produção científica em Revistas Acadêmicas de Brasil, Portugal e Moçambique – podemos expor as variadas facetas que compõem os cenários analisados, que possuem uma diversidade de relações históricas que sofreram alterações ao longo dos tempos, as quais despertaram a curiosidade de buscar compreender algumas delas. A referência à frase “Navegar é preciso, viver não é preciso”, proferida por Pompeu (séc. I a.C) e utilizada por outros poetas e pensadores de tempos em tempos, ampliada pelo poema de Fernando Pessoa, remonta à necessidade de luta, engajamento, combate, ação, resistência e existência. Esses princípios, que são humanos, estão no cerne do feminismo enquanto movimento político, cultural, social, histórico e intelectual, ao longo dos séculos. São princípios que fundamentam suas práticas e procuram empreender mudanças de cenários de opressão/desigualdade. É nesse sentido que a utilizamos em nosso título. É desse modo que a interpretamos. Assim como a ideia de uma lusofonia entendida como muito maior do que a pretensa criação de um império colonial, longe disso, visa salientar traços que unem as realidades investigadas, procurando estabelecer bases comuns de análise, porém tendo sempre em conta o que disse Simone de Beauvoir (2005: 15): “É do conhecimento das condições autênticas de nossa vida que é preciso tirar a força de viver e razões para agir”. Portanto, é com esse pensamento que avançamos em nosso trabalho. A presente investigação foi conduzida pela seguinte pergunta: Que epistemologias as feministas acadêmicas do Brasil, Moçambique e Portugal têm utilizado em publicações periódicas virtuais e como ocorrem seus desdobramentos em termos de ações políticas em suas realidades? Diante disso, elaboramos quatro objetivos específicos, que nos levaram à compreensão do fenômeno analisado: mapear as principais publicações feministas, em periódicos acadêmicos de acesso virtual, de Brasil, Moçambique e Portugal, a partir de 1990; identificar as principais perspectivas epistemológicas – especialmente, feministas – que fundamentam o ativismo das feministas acadêmicas do Brasil, Moçambique e Portugal; comparar as temáticas que os feminismos suscitam no debate acadêmico das feministas do Brasil, Moçambique e Portugal e que convergências existem entre elas; e verificar se existe articulação entre as produções feministas científicas de acesso virtual. Nosso texto está dividido em quatro capítulos. Em nosso primeiro capítulo, apresentamos uma exposição de alguns caminhos que foram percorridos por feministas e como se deram seus 4 desdobramentos enquanto ativismo centrado no interior das academias. A partir disso, abrimos caminhos para problematizar os feminismos lusófonos e perceber como se processam nas realidades investigadas (Brasil, Moçambique e Portugal). O feminismo acadêmico, especialmente em sua segunda geração, representou uma ruptura, de modo especial, com o conhecimento científico produzido até aí, ampliando-o. As feminsitas desse período, ancoradas em diversas teorias, procuraram empreender um lastro teórico que, ao mesmo tempo, denunciasse as opressões vividas (machismo, sexismo, androcentrismo) e pudesse compreender a dimensão de crição de caminhos de superação. Portanto, passaram a marcar, de modo indelével, o conhecimento produzido. Nesse sentido, destacamos as epistemologias e metodologias feministas que contribuem com a dimensão política associada aos saberes científicos. Nosso segundo capítulo aborda questões mais localizadas nas realidades investigadas (Brasil, Moçambique e Portugal), nomeadamente centradas em como foi configurada e construída a área de estudos sobre mulher/mulheres, gênero e feminismo em cada uma delas. Ao mesmo tempo, procurámos ressaltar o cenário de criação dos aspectos que fundamentaram a constituição das publicações periódicas aqui trabalhadas. Esses contributos devem-se, especialmente, a uma intensa luta política empreendida tanto no interior das academias, como fora delas, no sentido tanto da mobilização humana de feministas, como da busca de financiamento para a efetivação desses projetos. Cada caso foi analisado individualmente, procurando, em alguma medida, perceber suas complexidades e traçar alguns paralelos. O terceiro capítulo é dedicado à metodologia de nossa investigação. Para tal empreendimento, fizemos uso de uma metodologia quantitativa, a fim de estabelecer alguns parâmetros para análise das realidades apontadas. O método utilizado foi o estudo de casos, focado em cinco revistas periódicas feministas, a saber: no Brasil, REF e Cadernos Pagu; em Moçambique, Estudos Moçambicanos ; e, em Portugal, Faces de Eva e ex æquo . Enquanto técnicas de investigação, recorremos à análise de conteúdo categorial para analisar os periódicos indicados. Esse processo resultou num conjunto de dados de 2334 artigos, que foram divididos em 16 categorias temáticas. Esses dados foram, depois, submetidos a técnicas de análise matemática/ estatística para sistematização. Recorremos também a entrevistas semidiretivas com ex ou atuais editoras das publicações pesquisadas. A partir das entrevistas conseguimos perceber cenários de atuação e construção dos periódicos, assim como observar e aprofundar aspectos de política interna de cada uma das revistas. A partir disso compreender como são definidas suas ações de editoria do mesmo modo que a política de publicações e os planos que são definidos em seus cornogramas de atividades. As entrevistas nos permitiu perceber as possíveis 11 estabelecer pontes entre as mulheres e procurar espaços até então concebidos enquanto masculinos e, por esse motivo, vedados às mesmas. Com isso, porém não exclusivamente sob esse ponto de vista, o feminismo trouxe o embate em torno de ideias políticas (compreendendo o termo enquanto decisão, escolha) que estabeleçam vínculos baseados na ideia de paridade entre as pessoas, pois a efetiva ascensão feminina é, por si só, uma profunda mudança social, uma alternativa para pensamentos e atitudes onde todas/os venham desenvolver suas potencialidades. Questionar a lógica androcêntrica e etnocêntrica torna-se uma condição de atuação, em especial, das teorias pós-colonialistas e implica construir episteme a partir do chamado Terceiro Mundo, dos países não centrais ou da periferia, com um olhar de valorização e de (re)invenção da própria emancipação 5 . Todavia, alerta Donna Haraway (1995: 23), essas desconstruções, críticas e proposições dos subalternizados não são, em si mesmas, fruto da mais pura verdade e como tal, devem também ser questionadas. O questionamento é a implicação básica dos saberes científicos. Não se deve romantizálos ou sacralizá-los para não incorrer nos equívocos cometidos pelo modelo hegemônico. Essa perspectiva pretende observar novos modelos e experiências – exitosas – que possuem como origem o Sul, o lugar que foi criado e que “deixou-se” ser “ocupado” pelo “subalterno”, transformando naquilo que Mirian Adelman (2007: 394) chama de “epistemologia da alteridade”. Este modelo de pensamento não deve ser compreendido enquanto homogêneo, haja vista uma profundidade de epistemologias que fundamentam suas investigações. Sandra Harding (1983: 311) destaca a introdução da categoria gênero como “revolução epistemológica”, corroborada por Rosa Cobo (s.d), Manuel Castells (2002) e Juliana Nfah-Abbenyi (2005). Sueli Carneiro (2005) destaca que essa mudança é mais profunda se for observada a incorporação dos elementos de raça/etnia e classe, corroborando as ideias trazidas por Kimberlé Crenshaw (1991), Angela Davis (2016 [1981]; 2017), Carala Akotirene (2018), dentre tantas/os outras/os. Eli Bartra e Adriana Valadés (1985) definem o feminismo como a luta consciente e organizada das mulheres contra o sistema opressor e explorador que vivemos: subverte todas as esferas possíveis, públicas e privadas, desse sistema que não só é classista, senão também sexista, racista..., que explora e oprime de múltiplas maneiras a todos os grupos fora da esfera de poder (Bartra & Valadés, 1985: 129). 5 Ver. Castro-Gómez; Grosfoguel, 2007; Curiel, 2009; Espinosa Miñoso; Gómez Correal & Ochoa Muñoz, 2014; Lander, 2005; Lugones, 2007; 2008a; 2008b; 2011; Mignolo, 2003; 2007; 2008a; 2008b; 2010; 2015; 2017a; 2017b; Mignolo & Carballo, 2014; Ochoa Muñoz, 2017; Quijano, 2005; 2014a; 2014b; Quijano & Wallerstein, 1992; Santos, 2002b, 2006a, 2006b; 2008a, 2010a, 2010b; 2018; Santos & Meneses, 2009; Santos & Mendes, 2017; Segato, 2003; 2014; 2016), não cingido a uma visão exclusivamente Ocidental, caucasiana, burguesa (Spivak, 2010a: 20; Kulpa & Mizielińska, 2011. 12 Assim, não podemos afirmar que haja apenas uma vertente feminista. Por isso mesmo, compreendemos que não devemos apontar para a existência de apenas uma forma de feminismo e sim de vários feminismos (Cf. Sterbbach, 1994). Mediante o exposto, nomear o movimento feminista no plural, enquanto feminismos, é uma significativa alteração não só de ordem política, como epistemológica. Como consequência desse processo dinâmico, é necessário um posicionamento da/o feminista ao que está sendo vivenciado, o que promove a demarcação de espaços, contudo sem absolutizar discussões ou mesmo homogeneizálas, deslocando-as dos contextos de onde são oriundas. Essa tendência de uniformização do feminismo em todas as conjunturas analisadas não é, de fato, o nosso objetivo. Com isso não podemos apresentar os feminismos do Sul geográfico e epistemológico, como os casos de Brasil e Moçambique, assim como o sul do norte geográfico no qual Portugal está inserido e face ao qual é, algumas vezes, considerado como um produtor de um feminismo periférico (Marques et al , 2003). Para além de questões epistemológicas, todos os países citados estão na semiperiferia ou na periferia do sistema econômico mundial. Essa também passa a ser mais uma característica compartilhada entre as conjunturas analisadas por nossa investigação (Barreto, 1995; Santos, 1985; Santos & Reis, 2018), apesar de um certo centralismo europeu de produção e (auto)referenciação. Portanto, os feminismos aqui analisados não são apenas constituídos de homogeneidade, como muitas vezes o quiserem/querem apresentar, criando assim mais um estereótipo, ficando conhecidos enquanto “feminismos de sobrevivência” (Mama, 2001; 2004; Salo, 2001) ou ainda de feminismo de resistência, como se apenas respondessem a comandos, sendo essa interpretação mais um aspecto do ponto de colonialidade em torno dessas práticas de liberdade que cada uma das conjunturas possui e que necessitam ser interpretadas. Baseado nas diversas concepções de feminismos, estabelecemos uma distinção face ao que se denomina por feminismo hegemônico, pois concebemos que o movimento feminista, em uma concepção popular, obrigou a uma nova compreensão de realidade (Silva, 2016). Nos identificamos com um feminismo que descolonize essas teorias, posto que acreditamos ser isso fundamental para a ampliação da própria ideia de feminismo como um todo. As populações dos países ditos não-centrais não são apenas dados brutos, como bem aponta Amina Mama (2002b: 1-2), são também produtoras de conhecimento. E, como tal, analisam e são analisadas, reinventam, criam, transforma e partilham, a fim de ampliar o processo de construção de saberes. Desse modo, vale ressaltar a existência de feminismos 13 contra-hegemônicos, como destaca Carmen Silva (2016: 15; 32-39) e de formas de atuação que visam potencializar as ações de integração e fortalecimento de grupos de mulheres e não somente. Na América Latina, destaca-se as ideias acerca da colonialidade do poder e do saber, o que nos faz perceber a ampliação das concepções epistemológicas, neste caso, especificamente ligadas ao póscolonialismo, inclusive com a incorporação, trazida por María Lugones (2008a; 2008b; 2011), de colonialidade de gênero e a concepção do sistema moderno baseado no sexo-gênero (2008a). Essa percepção do feminismo popular ou contra-hegemônico, por conseguinte, tem por ambição a inclusão das mulheres subalternizadas e estigmatizadas (Spivak, 1994; 2010a), situando a análise a partir das categorias de gênero, raça/etnia, classe, idade, localidade, orientação sexual, aspectos culturais e políticos, identidades múltiplas, dentre muitos outros. É importante deixar evidente que as mulheres não podem ser enxergadas enquanto meros receptáculos, seres passivos. Alba Carosio (2009), Raewyn Connell (1990), Francesca Gargallo (2006; 2009a; 2011), Marcela Lagarde (1996), Kate Millett (1995 [1969]), Heleieth Saffiotti (2015), ou Sylvia Walby (1989; 1990), entre outras, visam questionar as premissas do patriarcado como prerrogativa de emancipação feminina. Concordamos com Audré Lorde (1979: 98) quando afirma que “A ausência dessas considerações enfraquece qualquer discussão feminista do pessoal e do político”. A crítica aos discursos hegemônicos alimentou a ideia de criação dos estudos sobre subalternidades. A ideia de que o discurso do subalterno possa ser ouvido (Spivak, 2010a) é uma das suas grandes contribuições. Não é ouvir por si só, numa espécie de audiência vazia ou numa falsa expressão do politicamente correto. É buscar compreender a partir das formas não-hegemônicas de agir e perceber se há, ou não, nelas, assim como nas que se lhe opõem, elementos que contribuam para uma emancipação. Por serem tão dinâmicos e diversos entre si, os feminismos acabam por se reconfigurar constantemente e suas agendas são alteradas. É uma atuação no tempo presente, sendo, por isso, necessária uma tomada de registros que possam vir a apontar quais trajetórias foram sendo criadas para efetivar a participação das mulheres na construção de uma equidade concreta. O feminismo pode ser definido também como um movimento internacional 6 ou mesmo transcontinental. No entanto, ele não é um movimento global pela heterogeneidade e pluralidade que o 6 Conforme Mehmoona Moosa-Mitha e Fariyal Ross-Sheriff (2010: 107), “O feminismo transnacional surgiu de um compromisso com lutas sociais, econômicas e políticas que se relacionam com o domínio e a exploração em termos de contextos coloniais e nacionais. Enfoca o papel do gênero, da raça, da classe e da sexualidade e sobre a ‘organização da resistência às hegemonias na elaboração e desconstrução da nação Estado”. Algumas medidas e grupos feministas demonstram de forma concreta essa relação. A Marcha Mundial das Mulheres (MMM) é bastante internacionalizada, com presença em varios países, assim como a ONU Mulheres. Destacamos outras iniciativas como: Ni una Menos, a partir de 2015, na Argentina (Annanziata, et al, 2016: 39-114), empreendida por meio do ciberativismo; ainda no cenário latino-americano, a Marcha das Putas, ocorrida na Colômbia (Martínez & Avella, 2016: 241-292) onde também pode ser observada a ação cibernética, com pautas semelhantes a outras manifestações ao redor do mundo Ocidental; Me Too 14 constitui, mas no sentido de que a troca de experiências é uma condição de crescimento político-teórico dos sujeitos participantes (Giddens, 1993; 2002; Touraine, 1994). A dinamicidade desse processo, assim como os seus objetivos é que podem ser distintos. Caroline Bozzano (2019), por exemplo, aponta, em seu texto, temas como imigração, tráfico e exploração sexual e as violências como essenciais na compreensão desse trânsito transnacional de teorias. Percebe-se, assim, uma continuidade de temas, do mesmo modo que uma alteração em relação às feministas de final do século XIX e início do XX, que trocavam, dentre outras informações, formas de atuação e de resistência em espaços públicos. Enquanto movimento social, o feminismo visa também ultrapassar os limites da categorização do que vem comumente definido por feminino, em grande medida por acrescentar ao debate, através da crítica feminista (Butler, 2003a), questões como a introdução da categoria gênero 7 , em especial na esfera acadêmica a partir das décadas de 1980-90; a discussão acerca do público e do privado 8 , que remete a questões pertinentes à subjetividade feminina; as demandas referentes ao uso e prazeres dos corpos 9 ; a quebra dos binarismos, dos determinismos e da linearidade histórica (Scavone, 2008; 179); a procura por novas utilizações de métodos científicos (Amâncio, 2003; Evans, 1997; Harding, 1993a, 1996; Haraway, 1995; Scott, 1992b; 2008) com vista à mudança da ideia de ciência e de cientista (Schiebinger, 2000, 2001, 2004); a introdução, no campo da sociologia, da chamada sociologia da família (Torres, 2010; Wall, 1993); a reinterpretação dos clássicos (Haraway, 1995); a cotidianidade enquanto tema de investigação acadêmica (Oliveira, 2008: 229). Cláudia de Lima Costa (1998: 130; 2002: 202; 206; 2003a; 2003b) destaca, mais recentemente, a ideia de que o gênero, enquanto categoria analítica, favoreceu o surgimento de “movimentos despolitizados”, sendo fonte de debate no interior do feminismo. Tratam de uma espécie de feminismo sem mulheres (Hawkesworth, 2006), entre outras discussões que não são o foco dessa investigação. Há, ainda, uma profunda tensão entre regulação e emancipação por parte dos feminismos, devido aos contextos onde estão inseridos, que ainda hoje representam alguns desafios. A dinâmica de dominação masculina seria simultaneamente vivenciada com o patriarcado em muitas conjunturas mundiais, exercidos de outro modo que não aquele com que trabalharam as feministas da segunda geração, numa sofisticada alternância e roupagem. Um outro aspecto para que chamamos atenção, a partir da geração descrita, foi a crítica do modelo androcêntrico de ciência, procurando impulsionar e democratizar a construção das bases do ( #MeToo ), um movimento contra o assédio e a agressão sexuais; dentre outras. Cf. Amelia Valcárcel (2012); Bonnie Anderson (2008), Ann Taylor Allen (2008) e MMM (2008). 7 Ver. Amâncio, 2003; Butler, 2001a; 2003a; 2003b; 2006; Conover, 1988; England, 1999; Lagarde, 1996; Scott, 1990. 8 Ver. Del Priore, 2001; Matos, 2000; Perrot, 1995; 1998; 2005; 2008; Pinsky & Pedro, 2012; Sardenberg, 2007; Scott, 1992; Soihet, 1997a, 1998; Smith, 2003. 9 Ver. Foucault, 2005a; 2005b; 2010a; 2010b; 2013; 2014. 15 saber. É uma questão tanto de ordem política, quando de ordem teórica. Questionar a validade da ciência não é necessariamente negar seus contributos e, com isso, passar a valorizar “achismos”, suposições, considerações pueris e teorias não verificáveis, mas sim, é procurar compreender que aspectos contextuais, principalmente aqueles ligados a elementos históricos, culturais e sociais não são aplicáveis a todos os locais e temporalidades, como um modelo unívoco e universalmente concreto. Nesse caminho, constituíram-se anomias, hierarquias e/ou dissenções. Principalmente, com modelos menos flexíveis, como, por exemplo, o positivista, durante fins do século XIX e início do século XX, no entanto, em alguns aspectos esse padrão ainda pode ser verificado. Uma espécie de culto a uma superioridade onde o subjetivismo – bastante distinto de uma subjetividade – valora saberes e constitui aquilo que é academicamente crível durante um determinado período (Zeleza, 2005). Pelo menos, é nessa perspectiva que Ifi Amandiume (2005) trabalha em seu texto, quando do processo de criação de uma história da África. O qual também podemos encontrar em relação as civilizações existentes no continente americano antes do século XV, como por exemplo, a população Inca (Oliveira, 2012). Judith Butler (2003a: 21) destaca o elemento da auto-crítica e o perigo dos “atalhos”, especialmente no que se refere à universalização de categorias sem levar em consideração os contextos. A autora adverte: Náo há dúvida, a fragmentação no interior do feminismo e a oposição paradoxal ao feminismo — por parte de “mulheres” que o feminismo afirma representar — sugerem os limites necessários da política da identidade. A sugestão de que o feminismo pode buscar representação mais ampla para um sujeito que ele próprio constrói gera a consequência irônica de que os objetivos feministas correm o risco de fracassar, justamente em função de sua recusa a levar em conta os poderes constitutivos de suas próprias reivindicações representacionais. Fazer apelos à categoria das mulheres, em nome de propósitos meramente “estratégicos”, não resolve nada, pois as estratégias sempre têm significados que extrapolam os propósitos a que se destinam. Nesse caso, a própria exclusão pode restringir como tal um significado inintencional, mas que tem consequências. Por sua conformação às exigências da política representacional de que o feminismo articule um sujeito estável, o feminismo abre assim a guarda a acusações de deturpação cabal da representação (Butler, 2003a: 22). Essa ideia de universalidade também é questionada por Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser (2019: 75), para as quais não se passa de uma tentativa de coopetação do feminismo e sua pauta pelo sistema capitalista, que é descrito pelas autoras como um grande mal social, herdeiro de um racismo e de um colonialismo anteriores que são potencializados e ampliam as estruturas de opressão (cf. Arruzza, Bhattacharya & Fraser, 2019: 73-81). A ideia de um novo formato feminista surgido recentemente é corroborada também por Silvia Federici (2013), para quem o feminismo é 16 suficientemente amplo e capaz de responder a diversas incongruências do mundo contemporâneo, especialmente a partir da superação do sistema capitalista, potencializador de grandes assimetrias. Ochy Curiel (2007b) também questiona o modelo universalista e convoca para uma descolonização desses padrões, tomando consciência de que há uma multiplicidade de mulheres que falam de diversos lugares e com variadas formas de expressão e que todas essas construções são válidas na medida em que são experiências delas próprias. Concordamos com as autoras citadas e acrescentamos que a reparação desse processo pode ser realizada por diversas vias, uma das quais é a construção de saberes não sexistas, oriundos de prismas locais, sem desconsiderar o que foi já construído noutras estruturas e temporalidades. No entanto, é necessário gerar discussão e reflexão, possibilitando novas maneiras de atuação que passem pela construção de um modelo econômico adequado à sustentabilidade das pessoas no mundo. A Teoria Feminista remonta há quase três séculos 10 . Ela pode ser sistematizada a partir da segunda geração do feminismo (décadas de 1960-1970) e visa construir uma experiência concreta de emancipação social por meio de uma profunda alteração na agenda política a fim de estabelecer garantias legais e promover uma renovação teórica e metodológica da ciência. Como destaca Mary Evans (1997: 36), os anos 1970 impuseram, “no feminismo, a sensação de que era necessário e urgente redefinir e reinterpretar o mundo social. O mundo acadêmico rapidamente se tornou o locus mais importante deste projeto”. A partir disso, a disseminação das ideias feministas ocorre de maneira mais intensa, utilizando diversos meios de comunicação e formação. Virgínia Ferreira (2001: 12) sintetiza as suas contribuições no que descreve como três fases: primeiro, as respostas alternativas às diferenças entre sexos associada às condições sociais; segundo, os papéis sociais e sua socialização; terceiro, a perspectiva social passa a ser mais visível nas abordagens – valorizando assim as relações sociais de sexo como proposta fundamental de todas as relações sociais –, nomeadamente na relação da vida cotidiana, nas concepções de subjetividade, educação entre outros. Amiúde, os trabalhos sobre feminismos demonstram apenas a faceta da invisibilização dessa parcela da Humanidade nos textos, nas obras ou na produção intelectual. Não obstante, é preciso observar a resistência contida nesses trabalhos, produzidos e publicados em terrenos onde a germinação seria pouca ou infrutífera (Amâncio, 2003: 697) 11 . 10 Ver. Duby & Perrot, 1991; Perrot, 1992; 1995; 2005; 2008; Amorós, 2000a; Carmo & Amâncio, 2004; Amorós & Miguel, 2007; Offen, 2015; Gebara, 2017. 11 Na filosofia, ver Pietra (1997); Pacheco & Juliana (2016); Collin (1991); Joaquim (2001; 2006b); Femenías (2010). Na antropologia destaque para Mead (1935) ; Rubin (1986); Moore (1991). Na teologia destaque para Loades (1997). . 17 Assim, François Poullain de la Barre defendia, já no século XVII (1673) (cf. Amorós, 1997: 161; 2000b: 143; Cobo, s.d.; León, 2010; Valcárcel, 2000: 124), uma análise social que levasse em consideração as desigualdades de gênero, principalmente através da via do bom senso ( bon sens ). Não observar essa via, seria ignorar metade da população, sem adentrar em méritos de classe social, raça/etnia e acessos à educação. Como sabemos, esse discurso não angariou muitos entusiastas naquela altura, mantendo-se a ideia de inferioridade natural das mulheres exposta, desde a Antiguidade, nos textos clássicos, como, por exemplo, os de Aristóteles (1991) e Platão (2000, 2001) 12 . Essa ideia configurou-se numa espécie de cultura de domesticidade que era naturalizada e normatizada num estatuto inferiorizado das mulheres, assim como das crianças, das pessoas escravizadas e das estrangeiras. A política não era considerada papel social e natural das mulheres por uma certa inaptidão/incapacidade destas para essa atividade (Comte, 1978: 222), assim como para os negócios. Acrescia, ainda, a ideia de uma intensa infantilidade das mulheres que deveriam ser cuidadas por sua fragilidade, o que sugere a tutela constante e a promoção de uma dependência dos homens, considerados mais aptos aos papéis públicos. De la Barre (Cobo, s.f., 2-3) antecipa, portanto, a ideia de gênero enquanto elemento cultural. Porém, o que nos chama atenção é o fato de, já nesse momento, tais inquietações serem alvo de investigação, o que demonstra a amplitude de defesa de direitos e igualdade, pelo menos a nível teórico – o que chamaríamos, de modo genérico, de direitos humanos. Obviamente, esses discursos foram sendo minimizados ou mesmo ocultados por outras agendas, interesses e demandas consideradas “mais relevantes”, postergando as reivindicações feministas. No século XIX, principalmente nos países do centro e norte da Europa, assim como nos Estados Unidos da América (EUA), houve uma intensa troca de correspondência e viagens entre as feministas, demonstrando contato frequente, inclusive para manterem-se informadas acerca dos acontecimentos que poderiam influenciar suas próprias lutas. Nesse momento, já se pode identificar, conforme aponta Bonnie Anderson (2008: 42-43), um feminismo internacional. Este lutava, dentre outras pautas, contra a escravidão, o antissemitismo e a posição de inferioridade social das mulheres, e possuía várias vertentes de pensamento, mais liberais ou conservadoras. Essas feministas, em linhas gerais, apesar do discurso de igualdade, não apresentavam o sentimento de sororidade, pois a pertença de classe, religião, pensamento político, era uma constante 13 . Todavia, isso não invalida a luta empreendida em prol da 12 Sobre a construção do ser feminino e masculino na sociedade ver Lígia Amâncio (1994). 13 Ana Alice Costa (2005: 3-4) informa que “Esse primeiro momento do movimento feminista, em linhas gerais, pode ser caracterizado como de cunho conservador no que se refere ao questionamento da divisão sexual dos papéis de gênero, inclusive reforçavam esses papeis, estereótipos e tradições na medida em que utilizavam as idéias e representações das virtudes domésticas e maternas como justificativa para suas demandas. Segundo Molyneux, as mulheres aceitaram o princípio da diferença sexual, mas o rechaçaram como fundamento para a discriminação injustificada. As líderes dos movimentos de mulheres criticaram seu tratamento diante da lei e impugnaram os termos de sua exclusão social e política, mas o fizeram de forma que 18 construção de novas significâncias e papéis, que serviram de base para outras tantas lutas empreendidas a partir de então. Embora saibamos que o termo só viria a ter premência décadas após, não queremos cometer um anacronismo ou impor uma ideia a um tempo onde ela não era tão visibilizada, mas apenas destacar esse aspecto que julgamos importante (Evans, 1997: 20-21). Esse era um período de teste para a organização do feminismo enquanto movimento social em suas múltiplas realidades sóciohistóricas e geográficas. Não podemos afirmar que havia, por parte das feministas burguesas, um desprezo por outras pautas, especialmente pelo fato de que algumas discussões sequer chegavam às rodas de debate ou mesmo eram do cotidiano delas. Esse fato não invalida as conquistas que foram adquiridas por meio do empenho dessas mulheres, na medida em que se expandiram para quase todos os países. Essa dinâmica propiciou, dentre outros quadros, que o próprio movimento feminista realizasse autocrítica e sofresse alterações, aproximações, dissensões. É a constituição de um feminismo diferente para contextos distintos (Ergas, 1991: 583-584; Amâncio, 2003: 698). Busca-se, assim, a igualdade na diversidade, seja ela teórica, geográfica, etária, étnica ou social, pois, nos aproximando de Marcela Lagarde (2012), o feminismo é um todo sincrético, visão corroborada por Yuderkys Espinoza Miñoso, Diana Gómez Correale Karina Ochoa Muñoz (2014) e Karina Ochoa Muñoz (2017). Como define Teresa De Lauretis (1988: 14), mulheres múltiplas constroem novas teorias e formas de atuação em cenários, muitas vezes, adversos, implantados na linguagem, na cultura, nos espaços de decisão, problematizando as questões de classe, etnia/raça, entre outros, com a finalidade de propiciar equidade nas relações sociais, muito mais do que nas relações mulheres-homens. A Teoria Feminista passou por alterações ao longo desse tempo (Neves e Nogueira, 2005; Narvaz e Koller, 2006: 651), notadamente marcadas pelo que se convencionou denominar enquanto ondas. A igualdade pretendida outrora não é a mesma que se busca na contemporaneidade, principalmente porque ela ambicionava igualar mulheres a homens – nomeadamente, no aspecto político ou mais fortemente nele –, mas não definia quais mulheres e homens estavam inseridas/os. É a construção de uma agenda pública de atuação do feminismo nas instâncias governamentais. Mulheres operárias, artistas, jornalistas, profissionais liberais, burguesas, dentre outras, estavam envolvidas nessas questões, cada uma a seu modo, procurando romper com o tradicionalismo conservador que impunha a sua exclusão dos processos decisórios. reconheciam a importância do seu papel na família, um argumento que foi utilizado tanto pelas feministas quanto pelos estados, ainda que com fins distintos”. No caso específico do Brasil, destaca Margareth Rago (1996: 20) que o ato de observação da própria classe social foi rompido em raros casos, um destes é o de Patrícia Galvão, a Pagu, que exercia o trânsito entre classes. 19 Nesse interim, ainda não era frequente a discussão precisa acerca de questões como o gênero, a classe, raça/etnia, entre outras. O acesso ao voto, por si só, não seria um elemento de garantia de um estatuto de igualdade, o que não significa demover dessa luta como algo menor ou ineficaz. A amplitude da concepção de liberdade que as feministas procuravam reforçava, em alguns aspectos, o binarismo social, uma sociedade dividida entre mulheres e homens, numa concepção marcadamente mecanicista dela. No entanto, era uma maneira de se obter direitos, pelo menos para uma parcela desse grupo que até aquele momento pouco ou nada possuía. Isso resultou até na utilização da nomenclatura de femeanismo ou femismo, ou seja, uma faceta de exclusão aos homens, o que, de fato, não se coaduna com o feminismo. As estruturas conjunturais, muitas vezes, condicionam os sujeitos. No entanto, não são determinantes e inflexíveis. Estimulam, mas não podem deixar de ser encaradas e combatidas, assim como as ideias de concepção micro e subjetividade, que também são necessárias, sendo as mesmas frutos, ao mesmo tempo, de uma construção coletiva e individual. Assim, para a Teoria Feminista, deve haver uma multidimensionalidade metodológica, que costuma ser nomeada como Metodologia Feminista 14 . Para o movimento feminista, de maneira geral, não devem existir discursos ou práticas totalitárias e sim, em seu lugar, o diálogo, o contato profícuo, que pode resultar numa procura por empoderamento ( empowerment ) feminino. Este, por sua vez, pode ser compreendido em uma relação que aglutina os diversos feminismos, procurando trazer um sentido de identidade ao movimento, de maneira mais genérica, a partir de uma premissa que não seja universalista (Haraway, 1995). Desse modo, é necessária uma maior reflexão e posicionamento crítico diante dos acontecimentos a que as feministas estão sujeitas. O feminismo representa uma alteração tanto da subjetividade, como da realidade. Essa postura visa não permitir o desenvolvimento, novamente, de uma supervalorização de um modelo de razão universalista (Bourdieu e Wacquant, 2002; Wallerstein, 2001: 70). A coletividade (Freire, 1974: 97), a comunidade, o crescer com outras pessoas, faz com que, por vezes, a partir de uma consciência de ação final, ou apenas desejo de mudança, a escolha se dê como realidade. É esperança (Bloch, 2004 [1959], 27). E esse modo de pensar e agir não deve ser encoberto por teorias de exclusão ou manipulação, mas basear-se numa escolha do sujeito, de pertença, de poder e, ao mesmo tempo, de sentir-se fazer parte de algo, edificar um projeto em grupo, talvez surja da ideia de sujeitosoberano. A ideia de sujeito-soberano pode ser encontrada na medida em que o direito de fala pertence ao próprio sujeito e não pode, ou mesmo, deve ser extraído por outrem ou alguma instituição. Gayatri 14 Ver. Harding, 1987, 1993a, 1996; Mies, 1998: 64; Taylor, 1998: 358; Lagarde, 2000a: 66; Ramazanoǧlu & Holland, 2002; Gebara, 2004: 117-118. 20 Spivak (2010a: 32) trata dessa questão apoiando-se em Gilles Deleuze. Gayatri Spivak (2010a: 19; 3031) questiona a implicação e o lugar de quem pesquisa: “fazer” investigação implica colocar constantemente algumas perguntas: para que se pesquisa? Qual a intenção de se pesquisar? Karl Marx, trazido por Gayatri Spivak (2010a: 38), fala sobre um sentimento de classe, porém, como perceber esse sentimento de classe para o feminino já que a classe, em si, não é homogênea, mesmo se reduzirmos o debate para termos biológicos? Fernando Bessa Ribeiro (2010) destaca amplamente essa dimensão de participação e ação do/a intelectual em seu texto, a ideia de compromisso social que este/a deve possuir com a mudança profunda das estruturas que oprimem a maior parte da população e, em nosso caso específico, a dupla ou tripla subalternização que as mulheres sofrem quando aplicados os recortes conceituais. Para Donna Haraway (1995: 20-21), a militância é mais uma forma de atuação exercida por feministas, que consiste numa alteração dos modelos científicos exclusivistas, notadamente baseados no neo-positivismo, alicerçado na objetividade e na universalidade dos conhecimentos, por outros que valorizem múltiplas dimensões, percebendo que os saberes são localizados (Keller, 1991, 88-93; 1994; 2006; Schnitman, 1994; Harding, 2007; Góes, 2019). Ocorre, assim, uma articulação entre a prática e a teoria, pois uma sem a outra está fadada, a nosso ver, ao fracasso. 1.1.1. Feminismos lusófonos Entendemos por Feminismos Lusófonos todo aquele conjunto de experiências – práticas e teóricas – produzido nos espaços onde a língua portuguesa é o idioma oficial. Isso, por si mesmo, não significa afirmar que exista uma prática exclusivamente ligada a essas populações de maneira natural, mas revela as circunstâncias nas quais é vivenciada de modos distintos, noutras palavras, sua contextualização em relação a si mesmo e com o mundo que o cerca, demonstrando a singularidade existente na pluralidade de sua constituição. Isso nos faz indicar que, no amplo espaço geográfico onde a língua portuguesa está presente, há maneiras particulares de se empreender a compreensão e o enfrentamento contra a dominação masculina e/ou patriarcado procurando sua dissolução, não necessariamente ligadas ao idioma, mas fazendo parte de um conjunto social e histórico que permeia essas sociedades. Soma-se a isso a verificação de uma confluência cultural entre os ambientes investigados, exercido, dentre outros fatores, por meio da trocas de saberes. O uso do idioma pode servir como uma ferramenta de impulso regionalizado, entre países membros de grupos específicos, como no caso da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), por exemplo. No entanto, esbarra também na baixa representação a nível global quando se depara com 27 institucional, podem e tendem a abusar dele. É, acima de tudo, exercer um compromisso ético para consigo, assim como em relação ao coletivo. A necessidade de uma atuação cada vez mais fundamentada teoricamente é uma tônica do novo milênio, não devendo ser acirrado conflito entre quem está ou não na academia, e sim procurar aprofundar as relações entre vários campos. A leitura de mundo proporcionarda por essa intelectualidade acadêmica e seu ativismo deve ser alimentada por aquelas pessoas que possuem muito mais o aspecto prático que o teórico. Implementar e efetivamente possuir essa dimensão é, hoje, uma condição que pode auxiliar o rompimento com o modelo tradicional e excludente, além de estabelecer processos de autonomia acadêmica e novos formatos de atuação para os movimentos sociais (Mama in Salo, 2013: 20-21). Portanto, não podemos meramente afirmar que a academia é um centro reprodutor da ordem estabelecida sem perceber que há evidentes elementos que contribuem para o seu desmantelamento. O importante é ter consciência de que existe e pode contribuir para a alteração de cenários discrepantes por meio de formações e divulgação que são também constitutivos do ativismo. A universidade, enquanto estrutura societária, é também um espaço de disputa de poderes. As descrições de Diana Veléz (2000) e Maria do Mar Pereira (2017) do adoecimento proporcionado pelas intensificadas jornadas de trabalhos, grande produtividade (muitas vezes, para poder obter o mesmo status que os homens em alguns espaços acadêmicos e/ou centros de investigação), participação de pesquisas, projetos, produção e divulgação de artigos científicos em espaços cada vez mais precarizados e competitivos, para além do convívio com pessoas que sofrem de “distúrbio narcisístico” (Veléz, 2000: 312-313), que pode ser caracterizado pela abundante valorização do capital acadêmico acumulado e a “necessidade” de exposição e resposta positiva àquilo que é proposto, é também parte e decorre de um contexto social particular. Florynce Kennedy, citada por Teresa De Lauretis (1988: 7), chama de “violência horizontal” 25 , no âmbito dos movimentos e organizações feministas, a disputa pelo poder. A autora ressalta que, entre mulheres, essa agressão é mais verbal. Em relação ao feminismo brasileiro, esse choque entre gerações de feministas é caracterizado por uma disputa de poder interno, especialmente ligado à sua atuação em várias esferas, destacando-se aqui os campos acadêmicos e social 26 . María Luisa Femenías e Ofelia Schutte (2012) informam que essa é uma perspectiva presente em todo o universo acadêmico da América Latina, oriundo de diversas vertentes do pensamento feminista mais ligados à crítica social, com influências das correntes estadounidense e europeia. É nesse cenário 25 Cf. Harris (2008); Bulbeck (2010); Abrams (1994); Snyder (2008); Stevenson, Everingham e Robinson (2011). 26 Podemos identificar essas discussões também em Karla Adrião e Maria Juracy Filgueiras Toneli (2008), Eliane Gonçalves e Joana Pinto (2011) e Heloísa Hollanda (2018). 28 que se confere uma percepção de maior compreensão entre o campo social em articulação com o elemento intelectual, ligado às instituições de ensino superior e/ou centros de pesquisa. Pode ser também verificada, em algum nível, no caso moçambicano. No entanto não se encontra, da mesma maneira, na academia portuguesa, o que não significa afirmar a sua inexistência, apenas que essas dinâmicas de intervenção podem ser exercidas de outras maneiras. Essas ligações entre as realidades de cada país não são necessariamente decorrentes de uma espontaneidade imatura ou mesmo de um desejo altamente desenvolvido, a ideia de aquisição/detenção de poder (numa luta política independetemente da escala em que se deu) é uma forma encontrada para manter resistência, assim como enfrentar aquilo que era dado, para muitas, como concreto e imutável. A partir disso, foram sendo confeccionadas nas tramas das realidades contextuais que estavam sendo vivenciadas, como veremos mais adiante. María Luisa Femenías e Ofelia Schutte (2012: § 8) destacam, num primeiro plano, “as influências filosóficas e extrafilosóficas estadounidenses, as continentais e os desenvolvimentos auctótonos regionais e nacionais”. Em outras palavras, embora essa percepção seja mais visível atualmente, não foi dessa maneira que se compreendeu noutro momento, pois houve uma tendência de tentar aplicar as teorias exteriores a contextos distintos. Isso acabou sendo avaliado enquanto um insucesso e forçou a readequação ou construção de um caminho próprio por parte das teóricas feministas locais, por meio da elaboração de cursos, seminários, edição de revistas (assim como boletins), criação de associações, entre outros meios não institucionalizados. Na esfera acadêmica, podem ser percebidas algumas formas de embate entre gerações de feministas, cada qual procurando (re)afirmar espaços. Algumas acadêmicas já consolidadas em seus espaços, muitas das quais foram aquelas pessoas que abriram caminhos e, em alguns casos, percebem um certo imediatismo da nova geração, que, por sua vez, compreende o papel desempenhado por suas “antecessoras”, mas procura imprimir novos ritmos às dinâmicas de atuação. Isso, de algum modo, pode causar confrontos, como nos informa Heloísa Buarque de Holanda (2018: 11-14). Esses embates não são necessariamente conflitos “belicosos”. Muitos são embates de (auto)reflexão para ambas as partes. Com isso, a diversidade de atuação é enriquecida através do somatório da experiência acumulada e novas maneiras de encarar e reivindicar. Essa maneira de proceder com o ativismo é descrita por Maria da Glória Gohn (2017:22) como a identidade dos novíssimos movimentos, de modo geral, caracterizados por uma grande multiplicidade de suas/seus integrantes e que actuam em numerosas frentes. Dessa maneira, a criação de muitos coletivos, que a autora considera uma forma de rompimento com o tradicional formato dos movimentos sociais, especialmente em seu modelo clássico, com agendas mais dinâmicas. Segundo ela, “Coletivos 29 autodenominam-se como ativistas, e não militantes de causas, vivem experiências e experimentações que podem ser tópicas ou mais permanentes; fragmentadas ou mais articuladas” (Gohn, 2017: 23, grifos da autora). É, em nossa leitura, a procura por mudança, contendo o elemento do ineditismo e, em alguns casos, concepções anarquistas, principalmente pela tentativa de rompimentos com os formatos anteriores. Um exemplo concreto de um ativismo político exercido no interior de espaços acadêmicos é a publicação franco-suíça Nouvelles questiones féministes , que destaca que a excelência científica não pode ser dissociada de uma prática política (Roux & Delphy, 1999: 38). A perspectiva de ativismo na academia não é, necessariamente, uma prática feminista. Para tanto, basta pensarmos, especialmente a partir das mobilizações estudantis decorrentes em Maio de 1968, na intensificação do processo que ultrapassou os limites da universidade e diversos intelectuais, mulheres e homens, participaram dessas manifestações. Mediante o exposto, queremos evidenciar que o uso da dimensão política não invalida o conhecimento produzido, posto que não se pretende, a priori , direcionar resultados. 1.2.1. Empoderamento: um conceito a ser compreendido Conforme nos apresenta Manuel Carlos Silva (1998: 43), o termo empoderamento é oriundo da fusão das expressões em alemão verfugunsgs (disposição) e gewalt (poder de), que passam a formar uma única expressão verfügungsgewalt (poder de disposição). Segundo o autor, esse é o termo que será compreendido hoje como empoderamento, que, por sua vez, é a tradução do termo em língua inglesa empowerment , muitas vezes tendo sua origem atribuída apenas à administração das empresas e setores afins ou, ainda, ao tactical power . No entanto, Manuel Carlos Silva (2010: 23) adverte que a expressão deve ser utilizada com atenção, não como um modismo que pouco informa, pois está repleta de significados e usos políticos. O verfügungsgewalt é trabalhado, nas ciências sociais e, em particular, pela sociologia, originalmente por Max Weber (1999 [1922]: 14), podendo também ser compreendido enquanto controle sobre recursos pessoais ou coletivos. Esse poder de disposição é exercido sobre meios econômicos, políticos, culturais, sexuais, sociais, entre outros, tanto a nível micro, quando macro, ao mesmo tempo sofrendo e gerando ação com maior ou menor intensidade. Essa compreensão da ação, experienciando ou atuando, é importante na medida em que não retira dos indivíduos, sejam os/as camponeses/as que Manuel Carlos Silva (2010) investiga ou o próprio movimento feminista, capacidade de participação, de apropriação. Não há apenas a ideia de passividade, de espera, de imobilidade ou mesmo vitimismo. Em 30 nossa compreensão, essa é uma importante dimensão. Teresa De Lauretis (1988) denomina-a enquanto autoconsciência e Marcela Lagarde (2000a) trabalha de modo aproximado o conceito de autoestima. Christine Lagarde (2014), centrada numa discussão econômica do termo, destaca sua divisão em três níveis: o do indivíduo, o das instituições e o das economias nacionais. A ideia de empreendimento, vista apenas sob o prisma financeiro, em nossa visão, além de empobrecê-lo, não dimensiona a capacidade que lhe subjaz de, a partir da práxis, construir novos itinerários democráticos para libertação das mulheres do jugo patriarcal/ da dominação masculina, colonialista e capitalista, categoriasque foram somando-se umas às outras. Nesse sentido, associamo-nos a Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser (2019) quando tratam da construção de uma libertação feminista adquirida por meio do microcrédito, especialmente pelas “mulheres do Sul”. Essa proposta pode ser compreendida também como uma “má fama do feminismo” ( idem : 31), na medida em que é oriunda de um feminismo liberal (universalista e conservador, na maioria dos casos) (Amorós & Miguel, 2014b), que impõe uma espécie de fuga de uma opressão para outra, ou seja, a saída da dependência financeira de um companheiro para um organismo financeiro. Por sua vez, Peter Oakley e Andrew Clayton (2003: 7-14) destacam que o termo tem sua origem nos anos 1970, com maior uso a partir da década seguinte, no discurso ligado ao desenvolvimento, no campo das organizações e/ou empresas, com um sentido de capacitação e procura por independência financeira por meio de uma experiência pessoal em sociedade. Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser (2019: 16) defendem a ideia de que o “feminismo empresarial” que resultará num “feminismo do microcrédito”, como o definem, “se revelou desastroso para as mulheres trabalhadoras e que perdeu toda a credibilidade”. A proposta do microcrédito é uma tentativa adotada pelo Banco Mundial (BM), desde os anos 1990, de auxiliar as mulheres de países “menos desenvolvidos” a empreenderem. É importante observar que essa relação, no caso de alguns países africanos, pode ser considerada um duplo fator de opressão, posto que a saída das mulheres de uma situação de opressão pode implicar, muitas vezes, meter-se numa outra prisão, a das agências de fomento financeiro, que, na maior parte dos casos, priorizam apenas o lucro. Amartya Sen (2003: 53) caracteriza o microcrédito como um tipo de facilidade econômica com finalidades múltiplas – consumo, produção ou troca. Esse tipo de financiamento pode ser assegurado tanto por grandes agentes econômicos, como por pequenos, algo que pode auxiliar as mulheres em seu desenvolvimento no papel de agência 27 ativa (Sen, 2003: 201) e bem-estar. O autor (Sen, 2003: 212213) chama a atenção relativamente para a facilidade de crédito rural para mulheres, na Índia, e o aumento do número de clientes (do sexo feminino) da instituição promotora. Evidencia que é ampla a 27 Sobre agência ver. Anthony Giddens (2000; 2003) e Maria José Magalhães (2002; 2007). 31 taxa de quitação desses créditos, em torno de 98% 28 . Todavia, feministas como Nancy Fraser (2009; 2011; 2013), Isabel Casimiro e Amélia Souto (2010), entre outras, questionam o microcrédito. Nancy Fraser (2009: 25) aponta a inserção das mulheres pobres no mercado de trabalho, a partir da segunda geração do feminismo, como mais um aspecto do neoliberalismo e sua política de expansão da força de trabalho em prol do lucro, inclusive com novas adjetivações, como a de “mulher empreendedora”, com o consequente aumento da sua jornada de trabalho (dupla até quádrupla) 29 . O que a autora questiona é a ideia de emancipação das mulheres ter de estar “subordinada à máquina de acúmulo capitalista” (Fraser, 2009: 26). À data em que escreve ainda destaca que os resultados de profundas alterações do quadro anterior (de subordinação econômica, dentre outras) sobre o contrato de microcrédito é “anedótico” e que a política que enseja o microcrédito é a ausência do Estado no combate direto à pobreza 30 . Um certo modelo de feminismo está atendendo a interesses neoliberais, não contribuindo para a libertação da maioria, especialmente pelo cultivo de uma promoção individualista (Fraser, 2013). Também Isabel Casimiro (2014b: 68) ressalta o papel e impacto do que chama de “moda” do microcrédito em Moçambique e questiona esse novo papel de empreendedora que se quer definir para as mulheres desconsiderando toda sua vivência histórica, no sentido de valorização de apenas um modelo a ser seguido. E interroga: O Xitique 31 , que existe não apenas em Moçambique mas em vários países do mundo é um exemplo de como uma prática endógena de poupança bastante antiga se foi transformando e mudando a vida de mulheres e famílias, impulsionando a poupança e o investimento com meios próprios e sem recurso a crédito externo, muitas das vezes insustentável” (Grifos da autora). A autora ainda nos evidencia a demanda somada à já extensa carga de trabalho feminina, assim como a elevação da pobreza nos lares, ficando evidente a ausência de um projeto emancipador feminino a longo prazo, pois desconsidera o contexto onde estão inseridas. Ainda ressalta que, no caso de províncias tanto do Sul, como do Centro e Norte do país, a “situação de desigualdade pouco reduziu” ( idem : 68). No entanto, em relação a Moçambique, também são perceptíveis algumas ações 32 que alteram a conjuntura numa escala temporal bem mais lenta do que a desejada, mas que deve ser levada em consideração ( idem: 65). É explícita a prática das interações sociais e trocas por meio de poupanças 28 Sobre isso, ver também Santos e Carrion (2009: 61). 29 Para mais ver. Castells (2003; 168). 30 Essas críticas também podem ser observadas em Fraser (2011). 31 Xitique é um sistema tradicional de troca informal exercido através de mão-de-obra. Há, ainda, dinâmicas econômicas próprias do mercado informal que acabam por consolidar-se como mecanismos concretos de apoio ou “entreajuda” (Silva, 2002: 83). Também é possível encontrar grafado xitiki (Trindade, 2015). 32 Em seu texto, a autora não informa quais elementos são destacados. 32 sociais (xitique) (Trindade, 2015: 145-148) e esse meio tradicional é, segundo as autoras, nessa realidade, muito mais eficaz que o microcrédito . Ainda para o caso moçambicano, Isabel Casimiro e Amélia Souto (2010: 33) destacam que o microcrédito, muitas vezes, é quitado com o auxílio do xitique 33 e que as instituições de microcrédito “asfixiam as populações devido à exigência de garantias, ao invés do que acontece com as que são financiadas pelo Estado” ( idem : 51). Essa afirmação salienta o papel do Estado como um garantidor e promotor de bem-estar e agência, além de se aproximar das ideias de Nancy Fraser (2009; 2011; 2013). Teresa Cunha (2011: 92) alude ao elemento pós-capitalista que o xitique representa, pois rompe com o modelo de acumulação, tão característico do capitalismo, advindo de uma prática ancestral que, em micro escala, transforma e empodera as pessoas, especialmente as mulheres de uma dada realidade. Claire Santos e Rosinha Carrion (2009) trazem a ideia de microcrédito como alternativa para diminuição e combate à pobreza, se for observada em casos de extrema miséria, ressaltando que é algo relativamente recente. Na análise que fazerm, as autoras apontam a diversidade de pobrezas (origens, condições) e a não observação de uma saída local ser resposta a todas as demais. Indicam casos exitosos (Bolívia e Indonésia 34 ) (Santos & Carrion, 2009: 61). Todavia, se por um lado há uma alteração de cenários, por outro, podem ser apontados os limites de tal procedimento. Sobre o processo de inclusão das mulheres africanas no mercado capistalista, Amina Mama (2013) aponta que ele desfavorece ainda mais sua inserção, especialmente pela imposição de um ritmo que não é historicamente conhecido e se configura pela competividade do mercado neoliberal 35 . Afirma a autora que Os termos da integração das mulheres africanas no desenvolvimento foram baseados em uma premissa falha - de que nos sentamos como um vasto exército de trabalho subutilizado da reserva. Estratégias inclusivas de “mulheres em desenvolvimento” adicionaram trabalho às mulheres já sobrecarregadas de trabalho que fazem turnos duplos entre suas casas e fazendas. As reformas econômicas, simultaneamente, minaram / zapearam os esforços do Estado para combater a pobreza, a ignorância e as doenças - por meio da saúde pública, bem-estar e serviços educacionais necessários para sustentar e reproduzir o trabalho em uma economia baseada em salários (Mama, 2013: §18). Dessa maneira, ganha espaço, no vocabulário feminista, um intenso uso da palavra empoderamento ou derivados dela 36 . Todavia, vale salientar o sentido em que o feminismo a trabalha e 33 Dado esse também confirmado por Catarina Trindade (2015). 34 No caso do Brasil ver. Cezar, 2016. 35 Ver também Amina Mama (2002b). 36 Ver também Henriques & Pereira (2006). 33 o qual estamos utilizando em nosso texto: o de rompimento com as estruturas de opressão, enquanto forma de resistência num auto-aprendizado e auto-ordenação, tanto individual, quanto coletivo. Andrea Cornwall (2016) destaca que, a partir da década de 1970, e mais fortemente nos anos 1980 e 1990, o termo empoderamento passou a ser utilizado pelas feministas num sentido de procura de mudança de poder tanto privado, como em lutas comunitárias. Com o passar do tempo, a expressão foi somando significados, ao ponto de, na contemporaneidade, segundo a autora, estar tendo sua capacidade de expressão quase que esvaziada pelo uso desmedido. Em especial, o seu uso pelo feminismo negro 37 suscita a ideia de autoavaliação e autodefinição (Collins, 2000: 289; 2004; 2016) e a identificação em um determinado grupo, aquele composto por aquelas pessoas que possuem exclusões somadas à identidade de gênero, numa perspectiva interseccional (Collins, 2017a; Gonzalez, 1982; 1988a; 1988b; 2018; 2019). Essa é uma das discussões que, nos últimos anos, vem crescendo, pelo menos no Brasil, e com bastante representação no interior de alguns movimentos feministas e, de alguma maneira, nas academias. Carole Biewener e Marie-Hélène Bacquè (2015: 59) destacam que o termo passou a ser mais adotado pelas feministas a partir de 1975, ano inicial da década da mulher, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), nesse caso, estando seu uso atrelado a Organizações Não Governamentais (ONG) na Ásia, especificamente na Índia. Ressaltam, ainda, que, em 1985, após a II Conferência Mundial sobre as Mulheres, em Nairóbi (Quênia), a expressão passou a ser mais empregada nos textos acadêmicos. Não é sem razão que, nesse momento histórico, há uma maior instrumentalização do feminismo, em grande medida no campo científico. Isso é derivado da disseminação do uso da categoria gênero, associada a uma maior profundidade na teoria social, que investiu com mais afinco sobre os estudos das/sobre mulheres/feministas (Lovell, 1996). Todo esse processo está assentado numa intensa interdisciplinaridade (England, 1999), mais substancialmente sentida nas ciências sociais e humanas (Scott, 1990; 2009), sendo esse o elemento definidor de desenvolvimento do feminismo acadêmico. No Brasil, o uso da expressão empoderamento, inicialmente, deve-se a Paulo Freire que, em 1986, juntamente com Ira Shor, na obra Medo e Ousadia . Aí discutem o uso da palavra empowerment , nomeadamente, num sentido social e político. Como destaca Pedrinho Guareschi (2008: 186), para Paulo Freire, o ser humano é relacional e somente dessa maneira se alcança a verdadeira consciência de liberdade, no ato de aprender com o outro através do diálogo. 37 Sobre feminismo negro ver Carneiro, 2002a; 2002b; 2003a; 2003b; 2005; Curiel, 2002; 2007a; 2007b; 2009; 2019; Davis, 2016 [1981]; 2017; 2018 [1974]; Fabardo, 2012; hooks, 2014; Ribeiro, 2016; 2018; Rios & Maciel, 2018; Velasco (2012). 34 A libertação, ou uma dimensão dela, não surge como uma espécie de magia, mas do meio social no qual o indivíduo está inserido onde possa ampliar essa relação de sentido atribuído à liberdade. Ou seja, há um despertar dessa pessoa em se reconhecer enquanto membro de uma coletividade, sem necessariamente perder sua perspectiva de subjetividade, privacidade, individualidade. Isso demonstra a base dialética em que assenta a teoria freireana, enquanto característica de educação tanto de si mesmo, como do outro, numa construção de trocas. É um modelo de tomada de consciência de liberdade, que, conforme aponta Paulo Freire (Freire & Shor, 1986), somente pode ser exercido na comunidade, na relação com o/a próximo/a, posto que, de outro modo, será uma ação meramente individualizada. Como tal, afirma o autor que “Não acredito na autolibertação. A libertação é um ato social” (Freire & Shor, 1986: 135) 38 . Rosi Braidotti (1991: 36) suscita a ideia de uma “exilada planetária” que se une pelo fato de ter nascido mulher, muitas vezes, sem considerar questões tão profundas quanto estas. Afinal, a exclusão se manifesta da mesma maneira enquanto ações semelhantes? Haverá, portanto, uma cidadania global? Que passos estão sendo dados para a efetivação desse processo? Com isso, a ideia de libertação também será compreendida de maneira contextual, assim sendo mais um desafio para o feminismo. Portanto, o empoderamento possui uma conotação de subjetividade, de interiorização, de parcialidade, haja vista que a ideia implícita de autoconstrução – disposição-de-si enquanto ser – congrega essa proposição. Não obstante, há uma espécie de disposição-de-si aplicada ao grupo no ato de procurar crescer com o/a semelhante, com o diferente, que não significa desigual (Scott, 1988). No caso do feminismo, principalmente o mais popular, podemos observar essa construção nos grupos de mulheres – grupos de apoio contra as mais diversas manifestações de violência, rodas de diálogo, organizações religiosas, grupos de discussão científica, agremiações ou círculos políticos, associações diversas, movimentos sociais (Lagarde, 2005a; 2005b; 2012). Por isso a figura de um círculo – uma roda de diálogos – é tão significativa, especialmente para os feminismos considerados periféricos, como, por exemplo, o africano (Arthur & Mejía, 2006b; Osório & Silva, 2008) e o latino-americano (Garagallo, 2009b; 2012; Valdivieso, 2012), demonstrando equidade, sem prioridades ou hierarquias. Em vista disso, destacamos que, em nosso texto, o conceito de empoderamento está compreendido na acepção de coletividade, posto que não conseguimos conceber uma ação exterior à dimensão política e esta, por sua vez, com a intenção de mudança que vai do individual ao geral, experimentando influência e, ao mesmo passo, gerando-a, procurando transformar o meio onde atua, fazendo germinar a autonomia coletiva (Lagarde, 1997; 2004), empatia, laços de comunidade e, 38 Para aprofundar a compreensão do entendimento de Freire em relação ao empowerment , ver Freire & Shor (1986), especificamente o quarto capítulo. 35 possivelmente, um sentimento de sororidade. Dessa maneira, a palavra empoderamento possui sigificado tanto privado – independência, autossuficiência, autoconstrução –, quanto comunitário – garantias legais, especialmente políticas –, o que nos permite perceber a conjuntura onde está inserida e os objetivos com que se expressa. É uma procura por fortalecimento nessa dupla condição, do interior para o exterior e do pessoal ao comunitário. Considerado como um modismo, o empoderamento é fartamente utilizado por movimentos de reivindicação e participação social, como os movimentos feministas, o movimento negro, o Movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (LGBT), o movimento indígena, entre outros. Marcela Lagarde (2012: 125) define o empoderamento como o processo de apropriação plena dos “poderes vitais”, que são a “estrutura da condição de gênero das mulheres”, podendo ser exercidos em diversas dimensões humanas. As mulheres são sincréticas e polifônicas (Joaquim, 2007; Pessoa, 2017) e a constituição das pessoas – e, em especial, aqui, das mulheres – se faz a partir desse conhecimento coletivo. Marcela Lagarde (2012) destaca, nessa discussão, as dimensões da sexualidade, economia, educação, desenvolvimento social, ciências, comunicação, arte, cultura e política, que contribuem para essa constituição mútua, sem que uma seja mais importante que outra. Para a autora, Empoderamento, uma palavra que vem do inglês empowerment , é o conjunto de processos através dos quais cada pessoa integra recursos, bens e direitos obtidos como poderes em sua vida. Empoderamento é uma ação contínua no tempo, não é algo que acontece no momento; é aproveitar os recursos do mundo para a própria vida, apropriar-se de si mesmo. A chave é que eles deixam de ser recursos externos para serem seus próprios recursos, que a pessoa internaliza os recursos, ativos, direitos e poderes, e os usa para viver (Lagarde, 2000b: 46). Marcela Lagarde (2000b: 129-172) destaca a ideia mais recorrente da expressão. Para ela, a concepção de tempo está relacionada a acúmulo, à ideia de experiência, de soma de saberes para uma efetiva crítica, numa construção dialética que venha a gerar uma outra resposta, uma possibilidade de rompimento com as estruturas de opressão e subalternização. Percebemos a sua proximidade com o conceito weberiano inicial, onde a autonomia tanto pessoal, quanto coletiva é exercida numa sincronicidade. Todavia, a autora aponta que é necessário um organismo – seja este institucionalmente constituído ou não, que irá denominar Institutos Femininos 39 – que seja um elemento garantidor desses direitos, fiscalizando e atuando sobre os chamados organismos básicos, especialmente nos sistemas de democracia representativa que caracterizam a maior parte dos países do Ocidente. Marcela Lagarde (2000b: 40-41) explica a necessidade e o lugar do empoderamento das mulheres: 39 “Como instituições, têm a responsabilidade de retratar, traduzir, permear todas as instituições com essa visão, com essa perspectiva de gênero em favor das mulheres. Com o tempo, esperamos que cada instituição tenha, além disso, seu mecanismo específico e que, na sociedade civil, as organizações assumam um compromisso com a causa universal e particular das mulheres” (Lagarde, 2012: 124). 36 Muitas pessoas acreditam que o fortalecimento está falando em voz alta, sendo muito irritado, sendo muito severo, mal-humorado ou hostil, ou muito rebelde; A verdade é que depende do processo de cada um definir em que consiste o empoderamento das pessoas. Como um gênero que eu ponha em quatro áreas: bens, recursos, direitos e poderes , porque eu sei de antemão que a opressão de gênero contra as mulheres tem sido baseado na expropriação de recursos e bens para as mulheres, de qualquer tipo aos produzidos pelo as próprias mulheres. Sabemos também que a opressão patriarcal das mulheres tem sido baseada na soma de poderes e de domínio limitado de alguns poderes a eles, então há também uma expropriação política. As fileiras do empoderamento têm a ver com as da expropriação patriarcal das mulheres de acordo com os tempos, as circunstâncias, as classes sociais. Ao identificar o que é expropriado das mulheres, podemos agir para alcançar o seu empoderamento (Grifos nossos) . Percebemos, então, que, dependendo da forma como se observa, há uma maneira de o Estado regular as vidas de mulheres, suas relações sociais, os seus corpos e desejos 40 , a concepção de mulher enquanto ser em sua potencialidade não dividida em estratos, como mulher-servir, mulher-para, ser-deoutros (Lagarde: 2005a: 201) ou ser-para-outros (Lagarde, 2006: 43). Utilizamos Michel Foucault (2010b: 43) para fortalecer o argumento, especialmente quando destaca o cuidado de si, o conhecimento de si mesmo enquanto sujeito frente à tendência de universalização de hábitos e costumes naturalizados. Concordamos com ambos acerca da premissa de que exista um processo de transição para uma efetiva prática libertária. O que nos interessa é a ideia de tomada de poder para si por parte das mulheres e a mudança de posicionamento social adotada a partir de decisões que visem o rompimento com relações de subalternização nos mais diversos âmbitos. Seria a ideia de uma consciência de si e de uma espécie de reconhecimento feminino e feminista. A ideia de poder com que Marcela Lagarde (2005a) trabalha é concebida em torno de um conjunto de poderes, individuais e de grupo, fruto de muitas lutas e reivindicações feministas, que sirvam para impulsionar uma mudança das/nas estruturas sociais, especialmente a partir da ideia de pressão sobre governos para implementação de leis protetivas, em grande medida representadas no combate à violência, e de fomento da participação equânime das mulheres na sociedade. Noutras palavras, as garantias legais são um dos passos a ser dados. Para tanto, Marcela Lagarde (2000b: 53-54) afirma que esta concepção de poder está [...] baseada na cooperação solidária entre pessoas, instituições, estruturas, organizações, etc. [...] Em termos políticos isto é: precisamos de um conjunto de poderes para o desenvolvimento pessoal e coletivo. O parâmetro é eliminar a opressão 40 Michel Foucault (1985; 2005a; 2014) destaca diversas formas de controle exercidos por instituições sociais ( e.g. família, Igreja, governos), no combate ao que chamam de “comportamento desviante”. Isso passou a criar formas de ocultamento do tema além de inserir a prática sexual num espaço de tabu. Extrair essa dimensão (do indivíduo, seus hábitos e análises), era a forma encontrada para controlar afetos, condutas e desejos. Todavia, há uma intensa autorregulação, exercida desde nível interno, que é mais complexa em ser combatida, sendo esse o foco de sua produção. 43 o papel político do feminismo, podemos perceber que esse é um tema de profunda discussão ainda em nossos dias. No Brasil, destacam-se os trabalhos de Heleieth Saffioti (1976; 1989; 1993; 1994; 1997a; 1997b; 1997c; 1999a; 1999b; 2001; 2002a; 2002b; 2003; 2004; Saffioti & Almeida, 1995; 2003) e Rachel Soihet (1989), além da promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006. No contexto africano, Luam Kidane (2015) traz contribuições para o cenário de forma mais amplo e, em Portugal, destacamos os trabalhos desenvolvidos por Isabel Dias (2004) e Sofia Neves (2016), dentre outras. O contexto da segunda geração do feminismo pode ser pensado e analisado mediante essa profusão de interesses que, muitas vezes, advindos de movimentos sociais, alcançaram a esfera superior de ensino. Esse processo não pode encontrar-se deslocado do processo histórico-cultural construído no espaço-tempo, por isso, é necessário compreender como se processou sua construção e efetivação nessas realidades, sublinhando-se a temporalidade dessas discussões e dos estudos sobre feminismo e gênero nesses países. 1.3.1. Contexto e contributos feministas a partir da Segunda Geração Optamos por utilizar a expressão geração no que se refere à divisão histórica da luta do movimento feminista, concordando com a ideia de continuidade em momentos distintos caracterizados por ampla diversidade geográfica, cultural, temporal e histórica (Kristeva, 1986), assim como pela “coexistência sincrônica” dessas gerações de mulheres, como definem María Luisa Femenías e Ofelia Schutte (2012: § 17). Os feminismos, baseados em suas temporalidades, possuem características que podem ser encontradas em realidades e em tempos distintos, evidenciando uma luta complexa e desigual no que se refere ao seu processo de operacionalização. Por isso mesmo, há uma grande diferença nas agendas dos movimentos feministas das realidades que estamos investigando – Brasil, Moçambique e Portugal. De forma geral, nos anos 1960, o movimento feminista passa a caracterizar-se pela explosão acadêmica unida a outras pautas de movimentos sociais que irrompem nesse momento. Em especial, alguns textos influenciaram bastante o período, incluindo “O segundo sexo”, de Simone de Beauvoir (1949); “A mística feminista” de Betty Friedan (1963); “Política sexual” de Kate Millett (1970); “A mulher eunuco”, de Germaine Greer (1970); “A dialética do sexo”, de Shulamith Firestone (1970); “ Woman’s State ”, de Juliet Mitchell (1971); “Novas Cartas Portuguesas”, de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno; “A mulher e o trabalho qualificado na indústria paulista”, de Eva Blay (1972) e “A mulher na sociedade de classes: mito e realidade”, de Helleieth Saffioti (1976). 44 A liberdade sexual, motivada em grande medida tanto por discursos mais progressistas e menos moralistas, como pelo aparecimento da pílula anticoncepcional (1960), puseram os corpos femininos no centro das pautas, pois as mulheres passaram a ter, de fato, o controle sobre sua reprodução (Castells, 2002: 169) 47 . Além de “descobrirem” ser possuidoras de desejo e de incluir no debate as questões relativas à saúde das mulheres, o que não era comum numa sociedade identificada como bastante conservadora, o mundo Ocidental se balizava, sobretudo, por uma bússola calcada em preceitos morais religiosos, o cristianismo. Para além disso, a intensa inserção das mulheres no mercado de trabalho fez ressurgir o combate à desigualdade salarial e laboral (doméstico e nas empresas) de forma mais acentuada. De fato, esse aspecto não é recente na discussão feminista, porém, como descreve Eric Hobsbawm (1995), há um aumento da oferta de trabalho mais especificamente no período pós-guerra e as mulheres eram, naquele momento, uma força de trabalho que exercia funções a baixo custo; outrossim, o papel do matrimônio, enquanto instituição, que passava a favorecer mais os homens que a elas próprias teve sua validade “sagrada” questionada com a definição de novos formatos familiares, assim como na escolha do número de filhos/as, entre outras questões; e a própria liberdade sexual veio questionar a exigência das relações monogâmicas, em grande medida representadas pela ideia do amor romântico (Gay, 1988; 1999; Lagarde, 2001; Giddens, 2005; 2008; Herrera, 2009). O grande slogan do movimento feminista durante os anos 1970 foi “O pessoal é político”, que significava a dimensão micro sendo repercutida em larga escala de análise. Foi nesse momento também que se desenvolveu, de forma mais concreta, a ideia de uma irmandade feminina universal, uma espécie de solidariedade feminina (Ergas, 1991: 595), sisterhood (Morgan, 1970), que serve, de alguma maneira, como referência para a definição de interdependência desenvolvida por Audré Lorde (1979) e de sororidade trabalhada por Marcela Lagarde (2012). Oyèrónkẹ  Oyěwùmí (2005a: 3) demonstra a necessidade de cautela face a uma visão biologizante da ciência que muitos cientistas utilizam para conceber o corpo, exclusivista e hierarquizadora, transformando pessoas em outros, dessemelhantes (Lazreg, 2005: 68). Salienta o perigo dos exclusivismos – nesse caso, o biológico, decorrente do que se conhece sobre o corpo físico e outro sobre a visão associada à metáfora dos corpos – e, dessa maneira, todas as suas possíveis utilizações. É a partir da leitura proposta pela autora que podemos interpretar a forma de colonizar não somente física, mais também teórica a potência desse corpo (Sodré, 1984; Foucault, 1996; Perrot, 47 No caso português, conforme aponta Manuela Tavares (2011: 90) o uso da pílula era proibido, inclusive sob prescrição médica por ser uma prática contraceptiva. Essa atitude, em si mesma, é um dos exemplos do antifeminismo do regime autoritário que vigorava no país. 45 2003). Exercendo formas de profundo domínio sobre ele, escravizando-o (com evidência nas populações que foram transformadas em mão-de-obra), purgando-o dos pecados por meio de flagelos corporais, da imposição de abstinências, do impedimento, do castigo do corpo (Arcuri, 2018) como forma de domar desejos, de criar e uniformizar práticas e condutas, assim como de estabelecer limites. Oyèrónkẹ  Oyěwùmí (2005a: 7) assim descreve a política de corpos, principalmente quando se refere à participação das mulheres em variados níveis sociais: “Paradoxalmente, no pensamento europeu, apesar do fato de que a sociedade era vista como sendo habitada por corpos, apenas mulheres eram percebidas como corporificadas; homens não tinham corpos – eles eram mentes andando”, sobretudo no início da modernidade. Os corpos sexualizados das populações de África e da América, que serviam, ao mesmo tempo, aos cofres reais e as “necessidades” dos colonizadores, assim como às fazendas de reprodução de pessoas escravizadas, a violação de direitos básicos, ampliaram a ideia de controle e dominação nas novas terras “conquistadas”. Isso sem mencionarmos apenas as esferas política e religiosa 48 , (podendo ampliar a outras instituições que se estendem até nossos dias, como, por exemplo, a educação (a escola) 49 . Obioma Nnaemeka (2005: 51) nos adverte para as formas de reprodução de discriminações no espaço educacional, que, fazendo parte do sistema, nem sempre está comprometido com a transformação social. Assim sendo, desde as bases, uma verdadeira e profunda alteração no currículo – tanto implícito, quanto explícito –, passando pela avaliação, por políticas e práticas profissionais, deveria operar-se para que se consiga, efetivamente, uma educação para libertação 50 . Essa premissa de controle e dominação é um dos fundamentos que auxiliam a compreensão da matança generalizada perpetrada pelos colonizadores europeus em terras da América e a escravização de populações, principalmente no continente africano, pelas chamadas potências dos séculos XV ao XIX 51 . Esse modelo social assentado na diferença pode ser verificado em muitas outras sociedades, especialmente naquelas que fundamentam a sociedade Ocidental contemporânea desde tempos 48 Ver. Butler, 2001a; 2001b; 2003a; 2003b; 2004; 2006; 2015; 2017; Chauí, 1988; Davis, 2016 [1981]; Federici, 2017; Foucault, 1985; 2005a; 2006; 2010b; 2013; 2014; Irigaray, 1985; 2007 [1974]; 2018a; 2018a; 2018b; Laqueur, 2001; Louro,2004; 2014; 2015; Louro; Neckel & Goellner, 2003; Meyer & Soares, 2013; Muraro, 1983; Vainfas, 1995; 1996; 2010. 49 Ver. Beserra & Lavergne, 2018; Fonseca & Barros, 2016; Munanga, 1999. 50 Ver. Freire, 1978; 1979a; 1979b; 1981; 1989; 1992; 1997; 2000; 2001; 2002; 2006; 2012 [1968]; Freire & Nogueira, 1985; 1993; 1995; 1997; 2001; 2003a; 2003b; 2007. 51 Ver. Albuquerque & Fraga (2006); Almeida, 2018; Bethell, 2002; Bethencourt, 2018; Boxer, 1961; 1962; 2007 [1978]; 2011 [1969]; Cardoso, 1987; Carvalho, 2008; Castro, 1995; 1999; Chalhoub, 1990; 2012; Chaunu, 1980; Costa, 1997; 2008; Cunha, 1985; 1992; Dias, 2005; Escobar, 2003; Fausto, 1995; Fernandes, 1972; 1989; 2006 [1952]; 2008 [1964]; Florentino, 1997; Florentino & Fragoso, 2001; Florentino & Góis, 2017; Fragoso & Gouvêa, 2010; 2014; 2016; 2017; Franco, 1997; Freyre, 1986; 2002; 2003; 2004a; 2004b; 2011a; 2011b; 2012; 2013; Gates Jr, 2014; Gilroy, 2001; Gomes, 2015; Grupioni, 1994; Gruzinski, 1988; Hemming, 1970; 1978; Horne, 2010; Israel & Scwartz, 2007; Jancsó, 2003; Klein, 1986; Klein & Luna; 2010; Lévy, 1961 [1576]; Marquese & Salles, 2016; Mattoso, 2003; Mello, 2007 [1975]; 2009; 2011; 2012; Monteiro, 1994; Mota, 1982; 2000; Moura, 1988; 1990; Nascimento, 1998; Novais, 1989; Raminelli, 2008; Reis, 1986; 1988; Reis & Gomes, 2000; Reis; Gomes & Carvalho, 2010; Reis & Silva, 1996; Salomon & Schwartz, 1996a; 1996b; Samara, 2001; Schwarcz; 1993; 1998; 2012; Schwarcz & Gomes, 2018; Schwartz, 1988; Silva, 1987; Silva, 2011a; 2011b; 2012; 2014; Slenes, 1999; Souza, 1986; 2006; Staden, 2008 [1557]; Thornton, 2004; Tomich, 2004; 2016; Vainfas, 1984; Williams, 2014; Wood, 1982. 46 remotos. Destaque-se o Egito, a Grécia e Roma, e os estamentos na Europa durante a Idade Média (séc. IV ao XV), que, de maneira mais direta, subsidiam a concepção de mundo moderno associada a fenômenos religiosos que impunham princípios morais que evocavam essas condições, estabelecendo muitas das bases dos processos de colonização a partir do século XV, aprofundada com o advento do capitalismo. Daí decorreram vários males. O seu aprofundamento, o colonialismo, o racismo e o sexismo são alguns deles. Para Pierre Bourdieu (1995: 145), O sexismo é um essencialismo. Como o racismo, de etnia ou de classe, ele visa imputar diferenças sociais historicamente instituídas a uma natureza biológica funcionando como uma essência de onde se deduzem implacavelmente todos os atos da existência. E dentre todas as formas de essencialismo, ele é sem dúvida o mais difícil de se desenraizar. Com efeito, o trabalho visando transformar em natureza um produto arbitrário da história encontra neste caso um fundamento aparente nas aparências do corpo, ao mesmo tempo que nos efeitos bastante reais produzidos, nos corpos e nos cérebros, isto é, na realidade e nas representações da realidade, pelo trabalho milenar de socialização do biológico e de biologização do social que, invertendo a relação entre as causas e os efeitos, faz uma construção social naturalizada (os habitus diferentes produzidos pelas diferentes condições sociais socialmente construídas) aparecer como a justificação natural da representação arbitrária da natureza que está no princípio da realidade e da representação da realidade. Concordamos com Pierre Bourdieu, principalmente por compreendermos que está de acordo com premissas basilares acerca de como se processa o imperialismo e suas ações em torno de questões tão delicadas e que perpetuam, de forma concreta, um domínio ainda bastante forte. Uma das grandes reivindicações dos movimentos feministas, principalmente após a segunda metade do século XX, a chamada segunda geração, é a ocupação de espaços considerados redutos masculinos, visando a ampliação da participação política e do igualitarismo, em sua maioria nos espaços públicos. Essa proposta ainda era uma pauta não consolidada por parte das militantes feministas da primeira geração, que procuravam o acesso a serviços e garantias legais (civis e trabalhistas) 52 . A partir dos anos 1960, fruto de uma paulatina contribuição do movimento como um todo, as mulheres passaram a não somente participar como figurantes, mas também enquanto promotoras do processo (Hobsbawm, 1995: 305; Amâncio, 2003: 688). Acreditavam que, por meio do ingresso nesses locais, iriam empreender a ideia de liberdade entre todas as pessoas e do mundo, num sentido lato , uma visão comum à biosfera. A ideia de visibilidade é importante para a luta e a emancipação. 52 Ver. Almeida; Lüchmann & Ribeiro (2012). Avelar (1987; 1989); Barroso & Mello (1975); Blay (1982); Brito (1986; 1991); Costa (1990); Costa (1999); Costa (2004; 2007); Duarte (2017); Horta (1998); Idelfonso (2016); Leite (2003); Machado (1990); Magalhães (2010); Marques-Pereira (2009); Miguel (2015); Moraes (2003; 2010); Mouffe (1992); Offen (1988); Oliveira (1985; 1986; 1989; 1993); Paoli (1991); Pellegrino (2018); Pereira (1980); Pinto (1989; 1990);Remédios (2004); Ribeiro; O’Dwyer & Heilborn (2018); Rosemberg (1984); Samara (1998); Sarti (1989; 2001; 2004); Scherer-Warren (2014); Scott (2002); Soares (1994); Tabaka (1979; 1981; 1982); Tavares; Bento & Magalhães (2004); Varikas (1996); Veloso (2018); Vidal (2017). 47 É importante perceber que os movimentos sociais no período da Segunda Guerra Mundial (19391945) estiveram na clandestinidade e que o próprio registro era uma forma de comprometimento de seus/suas integrantes. Aliado a isso, podemos compreender a tentativa de manutenção da própria existência frente ao perigo representado pelo nazi-fascismo. Porém, há algumas controvérsias em torno da participação feminista, enquanto organização coletiva, durante esse período. Eric Hobsbawm (1995: 306) argumenta que, nos países capitalistas, em oposição aos socialistas, [...] os movimentos feministas haviam trocado a luz do sol pelas sombras, mesmo onde o triunfo de regimes fascistas e reacionários não os destruíram. Continuaram nas sombras, apesar da vitória do antifascismo e (na Europa Oriental e partes do Leste Asiático) da revolução, que estenderam os direitos conquistados após 1917 à maioria dos países que ainda não os tinham [...]. Não obstante, é importante destacar que não se pode generalizar essas ações. Várias investigadoras sociais dedicam-se a compreender como se processaram as participações de mulheres nos conflitos mencionados, o que prova a manutenção e a atuação do movimento em momentos de conflito bélico intenso. Francesca Gargallo (2006: 22) destaca a participação das mulheres na efetivação de conquistas da Resistência frente ao horror dos regimes autoritários: Ao longo do século XX, o feminismo foi um movimento ativo, fundamentalmente pacifista, internacionalista e progressista, que organizou a resistência ao fascismo na Itália, Alemanha e Espanha, que se dedicou à defesa dos direitos das trabalhadoras e mulheres em geral (bem-estar dos trabalhadores, prestações familiares, igualdade de condições de trabalho para ambos os sexos, defesa dos filhos de mães solteiras, direito da mulher casada de preservar o seu nome, nacionalidade e património). Além disso, a frente que representou antagonismo ao ideal franquista na Espanha, foi conduzida por mulheres (Rago, 2005). Manuela Tavares (2011: 45-77) destaca, no pós-guerra, a iniciativa de se fazer uma oposição ao regime salazarisma em Portugal no espaço político. No campo cultural, refira-se o fomento de grupos de mulheres que se envolvem contra as guerras coloniais (Matos, 2017). A partir de meados da década de 1960, as mulheres passaram a ser reconhecidas como uma força política importante, especialmente nos países do Norte da América e Europa, e, em meados dos anos 1980, em uma grande quantidade dos cursos, o número de mulheres era superior ao de homens, resultado de uma política de estímulo à vida acadêmica que começara apenas duas décadas antes. Esse fenômeno deve-se também ao que Eric Hobsbawm (1995: 306) chama de “nova consciência de feminilidade”. Essa movimentação e organização pode ser descrita, conforme mostra Mary Evans (1997: 9), como tendo profundas raízes acadêmicas, o que denota uma contribuição tanto a nível das ações práticas, como de seus fundamentos, envolvendo diversas temáticas. Com isso, proliferam os cursos 48 superiores sobre os chamados Women’s Studies (Estudos sobre Mulheres) , que abrirão espaço para os estudos Estudos sobre Mulher/Mulheres, Gênero e Feminismo (EMGF) (Pereira, 2017). De modo geral, no Brasil, de acordo com Maria Luiza Heilborn e Bila Sorj (1999: 187; 195-196), nos anos 1970, a denominação comum era estudos sobre mulher. A adoção inicial dessa terminologia está associada a um embate teórico entre as tradições anglo-saxã e francófanas. Para estas útimas, a questão do gênero – expressão considerada mais adequada pelas primeiras – é demasiado próxima de uma dimensão cultural. Já nos anos 1980, as acadêmicas alteraram para estudos sobre gênero devido à incorporação desta categoria analítica e à influência crescente do modelo anglo-saxão. Em Portugal, especialmente nos últimos anos do século XX, encontram-se diversos trabalhos com referência à expressão estudos da mulher/mulheres (Castro, 1999; Ferreira, 2001: 9), reforçada nos editoriais ou apresentações das revistas acadêmicas investigadas. Todavia, optamos pelo emprego da expressão EMGF por considerarmos que esta é mais adequada devido à amplitude desse campo de investigação. A nomenclatura foi sofrendo alterações ao longo do tempo, no reforço da dinamicidade do conhecimento e dos sentidos e usos que conferimos às expressões (Pereira, 2017; Pinto, 2009: 64). Do mesmo modo, a introdução da categoria gênero nas investigações potencializa substancialmente a área temática, assim como a ampliação do sentido da expressão feminismo. Dito de outro modo, o feminismo é a capacidade de se perceber sincrético, apesar da subjetividade e, mesmo assim, se compreender num projeto coletivo de construção sócio-histórico de libertação da Humanidade. O(s) feminismo(s) ou os estudos sobre gênero, mesmo no interior do universo acadêmico, não despertam os maiores fluxos de pesquisa, apesar de possuirem grande visibilidade e já se encontrarem parcialmente consolidados, mais marcadamente no interior das ciências sociais e humanas. Porém, esses estudos não desfrutam do maior prestígio no que se refere ao capital acadêmico. Karen Offen (2008), afirma, que no contexto europeu, essa concepção deve mudar. Todavia, compreendemos que essas tentativas – explícitas ou implícitas – de desmerecer os estudos feministas e de gênero são uma maneira de perpetuação do androcentrismo, que ocorre tanto no que consideramos posicionamentos ideologicamente mais conservadores, quanto nos discursos ditos progressistas (cf. Torres, 2000; Pereira, 2011; 2013) e quer no interior, quer no exterior dos espaços academicamente constituídos. No primeiro caso, deve-se a questões que vão desde a validade do conhecimento ao poder que isso envolve e, no segundo, esconde-se, dentre outros pontos, por trás do nome de um senso pseudo-moral que, de tempos em tempos, atormenta avanços políticos significativos no campo da educação, de combate à violência e à pobreza, no do acesso ao mercado de trabalho e ao campo da política de forma plena. 49 Lucila Scavone (2008: 173) destaca que essa lógica é motivada, em grande medida, pela ideia de perda de poder, desvalorizando-se o trabalho produzido, caracterizado como inferior, extremamente político ou, ainda, não científico. Revela, ainda, que existem fatores internos e externos a essas relações, macro e micro. Investigadores/as que se utilizam de elementos feministas, porém, não o afirmam em seus trabalhos ou mesmo o negam, pretendendo legitimar uma ideia de neutralidade. Desconsiderar a contribuição de mais de metade da população mundial, isso se apenas relacionarmos pelo critério do sexo biológico, é, principalmente, exercer uma experiência de ciência incompleta, parcial e, por que não, discriminatória. De outro modo, pode-se dizer que negar a experiência das mulheres é afirmar que a ciência possui sexo, espaço determinado quase que inviolável e está calcada num objetivismo, em bases meramente androcêntriscas e atendem a fins específicos. Concordamos com Karen Offen (2008: 35) quando afirma que o feminismo é um projeto (em diversas dimensões, ideológica, política, social, cultural, histórica, científica, educacional) mais amplo do que as agendas de “grupo”, como as ligadas à classe, à abolição da escravatura e do antissemitismo, dentre outras. Podemos destacar o internacionalismo do feminismo como fazendo parte, ao mesmo tempo, de um processo de globalização contra-hegemônica, utilizando o termo de Boaventura de Sousa Santos (2002a). O feminismo é, em si mesmo, um movimento sem fronteiras, pois não se define apenas pela geografia dos Estados. É atemporal, principalmente no sentido de reivindicação de quebra da linearidade historicizante, e plural no que se refere às diversas concepções de identidade que contém. O feminismo é um processo globalizador enquanto ideia. Ele propõe a (des)globalização contrahegemônica, definida como prática de construção de uma nova realidade verdadeiramente democrática, onde as colonizações (acadêmicas, da vida cotidiana, do Estado, das relações sociais em sua complexidade) não sejam mais utilizadas. Boaventura de Sousa Santos (2002a) defende que as ações promovidas de forma contra-hegemônica visam ressaltar as identidades outras que existem e emergem e que podem contribuir, de forma significativa, para o avanço do conhecimento. Donatella Della Porta (2007: 23) caracteriza os movimentos antiglobalização como capazes de serem “organizados em torno de redes estendidas para além do Estado nacional, dotados de identidades globais, que definem suas causas como supranacionais, promovendo campanhas de protesto que envolvem vários Estados”. Atualmente, o uso das redes sociais é uma ferramenta intensamente utilizada para essa finalidade. A quarta onda do movimento feminista pode ser também definida como uma dessas novas facetas dos movimentos sociais. 50 1.3.2. Epistemologia Feminista. O fato de as publicações investigadas nessa dissertação se declararem feministas é, em si mesmo, um posicionamento político e epistemológico. Sobre essa última dimensão, ela é permeada, inicialmente, pelas chamadas teorias do conflito e, posteriormente, por outras concepções, com destaque para as teorias pós-coloniais e pós-estruturalistas. Com o passar do tempo, acentuam-se tendências de trabalhos mais empíricos, decorrentes de uma maior exigência por parte dos indexadores. Mary Evans (1997: 21-22) destaca a diversidade das discussões como parte de um processo de alteração nas epistemologias, representadas mormente pela compreensão pós-estruturalista, os estudos culturais e a crítica às metanarrativas e suas fixações, o que levou a uma série de críticas por parte de estudiosos/as que chegaram a apontar para o esfacelamento do feminismo enquanto teoria social. Embora conheçamos as implicações de tais afirmações, concordamos com Yasmine Ergas (1991: 601) quando refere que a diversidade é uma qualidade dos feminismos contemporâneos. E acrescentamos que é uma atribuição de um conhecimento ativista, envolvido com as causas sociais de libertação de todas as formas de opressão. Em síntese, nos primeiros anos de edição dessas revistas, podemos perceber a presença de um feminismo mais estrutural nestes periódicos e, numa segunda fase (fins dos anos 1990 e primeiros anos do século XXI), podemos perceber a introdução dos feminismos do Sul, feminismos negros, feminismo latino-americano. A epistemologia feminista pode ser caracterizada pelo aspecto do privilégio na observação teórica a partir de um recorte de gênero e as relações desta categoria com a cotidianidade contextual onde está inserida (Anderson, 1995; Schiebinger, 2001; 2004; Ketzer, 2017) além de outras das quais não se pode desvincular 53 , promovendo assim a ideia de uma intersecção de fato (Cerqueira & Magalhães, 2017). Portanto, em sentido amplo, a epistemologia feminista é uma teoria sobre o conhecimento que enfoca as contradições de gênero – construídas social, histórica e culturalmente – em diversas escalas, não se esgotando nelas mesmas, possibilitando a incorporação de novas personagens sociais nas análises. Portanto, para além de denunicar o sexismo na produção do conhecimento, a epistemologia feminista procura encontrar abirdagens alternativas a fim de ampliar o potencial de suas análises e de anunciar caminhos para sair dessas condições sócio-históricas, em variadas áreas disicplinares. Visa, 53 Ver. Alcoff, 1993; Calvin, 2016; Casimiro, 2012; Castañeda, 2008; 36; Davis & Hattery, 2018; Espinosa-Miñoso; Gómez Correal & Ochoa Muñoz, 2014; Longino, 2008: 513; Ochoa Muñoz, 2017; Gebara, 2000a; 2017: 63-64; Grassewick, 2011; Harding; 1996; 2007; Hardng & Hitikka, 1983; Lennon & Whitford, 2002; Mendoza, 2010; Nnaemeka, 2005; Oyěwùmí, 2004; Pereira & Santos, 2014; Silva & Oliveira, 2015: 196-200; Stanley, 1993. 51 assim, desvincular a produção de saber de um exclusivo determinado grupo social, étnico, com orientação sexual hegemônica e geograficamente localizado (Haraway, 1995; Gebara, 2017). A multiplicidade de formas de compreensão é considerada enquanto experiência de vida que engrandece as maneiras pelas quais procuramos e conhecemos o mundo, apontam Ivone Gebara (2017: 45) e bell hooks (2013: 97). É um caminho para o rompimento com o exclusivismo masculinizado na maneira de conceber o ato e na experiência de produzir conhecimento. Implica pensar uma outra maneira de compreender o mundo, onde o indivíduo passa a ter sua ação ampliada enquanto participante do processo no qual está inserido. Introduz-se, assim, o corpo , a materialidade das relações e as identidades construídas, atribuídas e autodeterminadas por cada pessoa na discussão, principalmente por sermos corpos que pensam e produzem ações em complexas relações sociais. A escrita a partir da experiência dos/as mais oprimidos/as e/ou subalternizados/as (Spivak, 1996; 2010a) é uma das contribuições de uma perspectiva feminista. Assim se evidencia a ideia de ausência de um monismo causal, a saída de um dogmatismo que expõe, de modo mais recorrente, a experiência de pensar no e para o masculino. Por meio de uma herança do pensamento racional dos séculos XVII e XVIII – decorrente de uma perspectiva cartesiana –, algumas ideias passaram a ser concebidas como verdades inquestionáveis e o predomínio masculino apresentava uma garantia legal de manutenção, enquanto a servidão feminina estruturava essas bases através de metodologias que afirmavam esse prisma e que objetificaram o conhecimento de modo a excluir tudo aquilo que não possuísse tal formulação. De modo mais específico, George Ritzer (1993: 364) sistematiza as expressões e teorias que definem as linhas de pensamento da teoria crítica feminista contemporânea a partir de um questionamento que assenta no quadro social ocupado pelas mulheres nas sociedades atuais. O autor destaca as teorias da diferença, as teorias da desigualdade e as teorias da opressão. As teorias da diferença de gênero procuram, dentre outras questões, determinar as origens das diferenças sociais entre mulheres e homens, especialmente vivências a partir de uma igualdade de situação 54 . As ideias que fundamentam essas teorias são menos perceptíveis nas investigações contemporâneas (Ritzer, 1993: 368; Amorós, 2000a; 2000c), por serem, muitas vezes, caracterizadas como essencialistas. No entanto, em algum nível ainda podem ser verificadas. O seu quadro geral aponta a naturalização da diferença entre sexos baseada em vários aspectos, destacando-se os níveis biológico, psíquico e social, e leva em consideração aspectos de interação social quase estáticos, bastante fincados em papéis sociais (pré)definidos, alimentados por instituições tradicionais, como o casamento e a 54 Ver. Ritzer, 1993: 365; Amorós, 2000a; Amorós & Miguel, 2014a; Oyěwùmí, 2017: 43-44; 48; 142. 52 maternidade, numa cultura falocêntrica/logocêntrica 55 . Desse modo, em alguns aspectos, aqueles/as que não obedecem a tais padrões são comumente chamados de Outro. Relacionados a múltiplos fatores – morais, físicos, geográficos, comportamentais, amorosos, classistas –, lhes é imputada a diferença que, por vezes, segrega e hierarquiza. Explicações de cariz biossocial, institucional, psicossociológico e cultural são aspectos identificados (Ritzer, 1993: 365). As teorias da desigualdade de género focam a divisão sexual do trabalho como um dado social decorrente da estruturação hierárquica das sociedades divididas em classes. Nessas teorias, a posição ocupada pelas mulheres, na maioria das situações, não só é dessemelhante da dos homens, como é especialmente menos privilegiada ou desigual (Dias, 2015: 100-101). Do mesmo modo, historicamente, as mulheres possuem menos acesso a alguns tipos de capitais, sejam o capital financeiro, social, cultural e/ou simbólico (Bourdieu, 1996a; 2002a: 37; 2004b: 39; 2007a: 79; 2013). Conforme a sociedade em causa, isso dificulta o acesso aos meios decisórios – em larga escala –, encobrindo a representatividade e inibindo o empoderamento. Esse processo ocorre mesmo quando se ocupam posições sociais análogas, ainda que levando em consideração as diversas intersecções possíveis. Assim sendo, as oportunidades passam a excluir um dado segmento social – neste caso específico, as mulheres. George Ritzer (1993: 372) salienta que todas as teorias aqui inseridas vislumbram a possibilidade de alteração desses processos e consequentemente dos cenários produzidos e que essa é a grande distinção entre as teorias das diferenças de gênero e as da desigualdade, onde a segunda compreende a mudança e na primeira essa possibilidade é mais estática, oportunizando assim pouca margem de manobra. Os feminismos liberal e marxista são duas das correntes mais representativas desta teoria. Já as teorias da opressão, compostas pelo feminismo psicanalítico; feminismo radical 56 ; feminismo socialista e feminismos da terceira onda/vaga/geração, são carcaterizadas pela intensa disputa de poder e espaço, numa multiplicidade de fatores. No entanto, em relação a esta última ampliamos a discussão em relação ao que fora apresentado por George Ritzer (1993: 379), dado que há uma série de outras concepções, tais como: os feminismos pós-modernos, feminismo negro, feminismo africano, feminismo latino-americano e pós-colonial. Há aqui uma disputa de poder (poderes) – em variados níveis – de modo geral, onde as mulheres estiveram representadas sem a consciência dele – seja a nível individual ou quando organizadas em grupos – a muito tempo. Desse modo, esse poder permaneceu sob o domínio dos homens 55 Ver. Grosz, 1989: 33; 2013: 195; Cavana, 2000; Kubissa, 2000; Amorós & Miguel, 2014c: 49. 56 Ver. Elizabete Silva (2008). 59 6. Valorização de movimentos de mulheres e suas intervenções em favor da valorização do respeito próprio e as diversidades nas quais estão inseridas, conceito que também pode ser denominado princípio de sororidade. Ivone Gebara 1. Crítica ao universalismo da ciência; 2. Superar o idealismo masculino presente nas elaborações filosóficas que assimila as mulheres à natureza e os homens à cultura; 3. Introdução do relativismo cultural em sua positividade, isto é, afirma as diferentes formas culturais de interpretar o mundo como necessárias à vida do planeta e, ao mesmo tempo, como possíveis para avaliação crítica; 4. Promover uma ética plural em que os sujeitos refletem a partir de sua própria realidade e alcançam decisões em favor do bem comum; 5. Reivindicar diversidade e diferença diante da afirmação de uma qualidade de vida para todos; 6. Reivindicar a vida cotidiana de mulheres e homens como a primeira abordagem a qualquer pensamento científico; 7. Afirmar a interdependência entre todas as coisas e todos os níveis de nossa existência e, consequentemente, entre a complexidade das ciências e a importância da transdisciplinaridade; 8. Afirmar a interdependência entre tudo o que existe e se abre para uma justiça que é também uma ecojustiça. Fonte: Ramazanoğlu e Holland (2002: 9); Taylor (1998: 358); Lagarde (2000a: 66); Gebara (2004: 117-118) Desde já, é preciso apontar que a Metodologia Feminista não se propõe ser hegemônica (Lagarde, 2005a), tampouco a única ferramenta de investigação ou a mais correta. Ela procura ser uma resposta às velhas amarras criadas para aprisionar os saberes e excluir pessoas, culturas, formas de ser e de agir. Relacionamos esta situação com uma conhecida descrição de Simone de Beauvoir (2005: 82) segundo a qual o oprimido é, muitas vezes, coautor das ações de seu opressor sem ao menos se dar conta disso: “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” 62 . Desse modo, busca-se romper com esse quadro de manutenção, ultrapassando-o. A introdução dessas concepções trouxe a ideia de autovalorização feminina (e, em alguns casos, feminista), assim como de autoestima (Lagarde, 2000a), fruto de uma concepção de autoconhecimento que acarreta um real sentido de empoderamento. Visa, ao mesmo tempo, encontrar e valorizar a subjetividade inserida na coletividade, sendo diversas essas manifestações nos feminismos (Lagarde, 2012). Uma Metodologia Feminista implica, dentre outros aspectos, romper com o meramente descritivo e factual, possibilitando uma ampliação do arcabouço teórico que evidencia uma multidimensionalidade de estruturas que sirvam para analisar as condições de vidas das diversas formas de existir das mulheres – em diversos níveis –, levando em consideração as relações geográficas, históricas, culturais, econômicas, políticas, jurídicas, entre outras. Ela pretende romper, assim, com dicotomias como privado/público, mulher/homem, objetividade/subjetivismo, e ampliar os sentidos e 62 Essa perspectiva é trabalhada também por Paulo Freire (2012 [1968]), num outro contexto, relativamente a ausência de uma educação emancipadora, numa espécie de reflexo de ações opressivas. Pode também ser encontrada em Joan Kelly (1984: 2-3) e Marcela Lagarde (2012: 429). 60 significados de conceitos como, por exemplo, família num modelo patriarcado, ciência baseada no androcentrismo. Todavia, ela ainda não se aplica a toda produção científica, carecendo de debates e do rompimento com os modelos tradicionalistas de alguns saberes. Analisar o objeto levando em consideração o gênero como uma categoria que permeia tantas outras é condição de uma pesquisa feminista, principalmente da que utiliza uma Metodologia Feminista. Todavia, a dimensão de gênero, associada com raça/etnia e classe é fundamental não somente para a teoria feminista. No campo da Sociologia, trata-se de fazer o que propõe Raquel Torres (2016: 99), uma sociologia que não seja ciclope, monista, associada ao que Pierre Bourdieu (1989) chamou de monoteísmo metodológico. Pretende-se que o universo teórico e metodológico da investigação encarne possibilidades de abertura à compreensão de fenômenos até aí não observados ou não trabalhados. A seguir expomos uma figura que contém as principais fases e distinções entre sociologia cíclope e sociologia feminista. Figura 1 - Sociologia ciclope vs. Sociologia feminsita Fonte: Torres (2016: 102, grifos nossos). Para a Metodologia Feminista, a objetividade científica é, na verdade, procedente de uma concepção de cunho eminentemente positivista, dicotômico, factual, sectário, hierarquizante. Sendo assim, critica-se o pretenso caráter universalista e objetivista da ciência, evidenciando que o conhecimento é situado (Haraway, 1995) mediante a incorporação de novos percursos, como, por exemplo, a (auto)reflexividade (Maxey, 1999) enquanto categoria analítica (Santos, 2002c; Nevez & Nogueira, 2006). 61 A ideia de objetividade, muitas vezes, estava atrelada à neutralidade do/a pesquisador/a. Como destaca Donna Haraway (1995: 18), todo conhecimento é situado, portanto, decorrente de uma determinada visão (temporal e conjuntural). A autora propõe uma objetividade feminista que “significa, simplesmente, saberes localizados”. Ela procura observar como essa objetividade é constituída, tendo em mente que sem analisar as relações edificadas entre sujeito e objeto, esse processo não é efetivado. Possuir engajamento político, no interior da produção científica, não significa, por si só, que a/o pesquisadora/o irá comprometer os dados, sequer os resultados. Conforme as autoras que utilizamos em nosso texto, numa investigação feminista não se pode fugir de um engajamento concreto com a análise (Ramazanoğlu, 1992). A investigação implica não tentar aniquilar uma potência humana que é ser um “animal político”, como afirmava Aristóteles (1991) 63 . • Feminismo Sociológico 64 Concordamos com Sylvia Walby (2011: 2) quando afirma que houve um profundo impacto causado pelo feminismo na Sociologia. Isto evidencia o que de fato irá ocorrer na maior parte das academias. Podemos observar diversas mudanças nas perspectivas epistemológicas, metodológicas, conceituais, teóricas e estas, em sua relação com a sociedade, em muitos casos, alterando comportamentos, fomentando debates e ações coletivas para além das individuais, somando-se a criação de movimentos, locais de discussão, associações de apoio, entre outros. No que se refere as academias, podemos destacar a criação de disciplinas de Estudos de Mulher(es)/Gênero (Walby, 2011: 3; Pereira, 2017), além de cursos de pós-graduação, mestrados e doutorados, na área e, mais recentemente, os estudos sobre as Masculinidades que, de forma geral, trabalha a dimensão de construção social dessa tipologia de masculinidade, de onde pode ser analisada a ideia de dominação masculina (Bourdieu, 1995; 1996b), numa evidente relação de poder. Todas essas formas estão nomeadamente constituídas por uma profunda interdisciplinaridade e multidisciplinaridade, dado esse que se encontra como uma realidade tangível, decorrendo não de uma exclusividade da sociologia, enquanto ciência, e sim de um fenômeno circunscrito em diversos outros saberes disciplinares referentes às ciências humanas e sociais. 63 Ver também Hannah Arendt (2002). 64 Esse tópico é uma exposição condesada de um material apresentado no V Congresso Internacional de Jóvenes Investigadorxs con Perspectiva de Género (2020) em co-autoria de Joana Teixeira Ferraz da Silva e Rafaela Sofia Gonçalves Ribeiro. Para mais ver. Rêgo; Teixeira & Ribeiro (2020). Disponível em https://e-archivo.uc3m.es/handle/10016/32373, acesso em julho de 2021. 62 O Feminismo Sociológico pode ser percebido no cruzamento entre ativismo político, podendo ser exercida no interior de organismos institucionalmente constituídos, tais como partidos políticos e sindicatos, assim como, em associações de bairros, movimentos sociais – rurais ou urbanos, no interior de grupos religiosos e a produção acadêmica. Por sua vez, manifesta-se, através de um compromisso com a causa e intensão de alteração do quadro nos mais diversos níveis. Pretende ser um caminho de desconstrução de privilégios, socialmente erigidos, que inserem o masculino enquanto norma comum (Schouten, 2011). Os processos de mudanças, fomentada pela crítica feminista, reivindicam a garantia de direitos para esses indivíduos que estavam excluídos do processo de análise, não sendo objeto destas. Em grande medida, essa problematização fora desenvolvida pela primeira geração do movimento feminista, em fins do século XIX e primeiras décadas do século XX, assim como a discussão em torno do acesso à educação e do voto universal. Lucila Scavone (2008: 173) propõe três problemas básicos para ajudar na reflexão crítica sobre a ciência exercida pelas feministas, são elas: a validade, mediante o envolvimento de quem pesquisa, através de sua atuação; as abordagens teórico-metodológicas sob as quais a sociologia está inserida e das quais pode dispor para aprofundar suas análises; e a própria alteração promovida atendendo a introdução de novas abordagens, conceitos e temas, que, por sua vez, foi inserida especialmente através do ativismo de teóricas acadêmicas que reivindicavam uma nova maneira de observar e compreender o conhecimento. Então, a crítica feminista é exercida, dentre outros aspectos, em relação ao ocultamento da participação das mulheres na produção de saberes, evidencia a ideia de poder-saber (Foucault, 2006) exercida pelo elemento pretensamente universal, o masculino (o falso neutro). Constitui-se enquanto uma quebra ao hegemonismo e ao monismo, não só acadêmico, em busca de uma ampliação dos cânones. É, de modo muito evidente, intentar não construir o que Bourdieu (1989: 25-26) denomina como “monoteísmo metodológico”. Longe disso, ela implica em não cair num monismo conceitual, numa inquietação constante por parte de quem pesquisa. É não se deixar enveredar pela ideia de que exista uma única maneira de procurar enxergar e analisar as sociedades e seus impactos sobre o/os ser/seres. É não tentar observar todas as problematizações a partir da uma mesma ótica, percebendo que os saberes são localizados, assim como quem os produz (Haraway, 1995). Ou ainda, não cair na tentação de profetizar soluções, ou mesmo de sacralizar teorias. É poder problematizar os temas percebendo-os enquanto espaços de opressão, procurando combatê-los, não se apropriando dos discursos alheios, pondo-se no lugar de outras pessoas. 63 O Feminismo Sociológico é também oriundo da emergência da visibilidade em relação à contribuição das mulheres cientistas, pois ultrapassa a produção feminista deste saber. Na medida em que se evidencia esta produção, possibilita levar em consideração outras subalternizações que se agregam a ela, como, por exemplo, a negligência das academias do Sul, a partir do que é denominado por Raewyn Connell (2012) enquanto metrocentrismo ou teoria do Sul, e a priorização das academias do Norte, global e teórico, ditando as regras para os demais centros de pesquisa do mundo. Em outras palavras, o Feminismo Sociológico é a procura por demonstrar a ampliação do contributo e participação feminista na efetiva produção da ciência (Fox, 2001; Guevara, 2010; Harding, 1996; Keller, 1991; Schiebinger, 2001; Scott, 1992a; 1992b; 1998), quebrando barreiras, desconstruindo estereótipos e expandindo as fronteiras dos saberes (Skeggs, 2008: 679). A efetiva construção do conhecimento, identificado aqui como oriundo de uma contribuição feminista, ainda possibilita ir para além do exposto, na medida em que desconstrói o mundo balizado pelo binarismo sexual (mulher-homem) que procura rotular identidades, buscando “normatizá-las”. O Feminismo Sociológico é então executado, dentre outros contornos, a partir de uma profunda interdisciplinaridade que, por sua vez, se configura desde a ideia de diálogo e de construção coletiva do conhecimento, não o isolando em si mesmo, crescendo por meio do debate e da contribuição de outras formas de manifestação dos saberes. Essa interdisciplinaridade não pode ser confundida com um relativismo teórico, enquanto uma resposta que sirva a determinada pesquisa por conveniência de quem a executa, forjando-a. Uma outra possibilidade que o Feminismo Sociológico implica é, de fato, na revisão profunda acerca do campo de investigação das ciências sociais e humanas, no que se refere a implicação de maior reflexividade, experiência de quem pesquisa, por meio da introdução de novas teorias, conceitos, consciência e conhecimentos com dimensões de engajamento teórico e político. Todavia, essas concepções não são frutos unicamente das contribuições feministas, podendo ser encontrados em outros autores antes da Segunda Geração. No entanto, ressaltamos a retomada desses preceitos como pontos significativos e necessários a produção do conhecimento. Esta, por sua vez, não se limita ao aspecto teórico, mas também avança sobre o arcabouço metodológico, especialmente em relação ao olhar que o conhecimento possui mediante a inserção da mulher – e do feminino – nas relações de poder (Foucault, 2006), saber (Guevara, 2010; Keller, 1991), classe (Walby, 1990), dentre outras, assim como métodos mais participativos, tal como a dimensão da metodologia qualitativa (Ramazanoğlu & Holland, 2002: 9; Taylor, 1998: 358), e utilização de um conjunto de associação de técnicas de investigação. Ou ainda, a partir da ampliação trazida pela 64 implementação da discussão sobre o igualitarismo (fruto de uma concepção de feminismo liberal com conotação burguesa), compreendida, na maioria das vezes, como reivindicação das feministas da Primeira Geração, da mesma maneira que, mediante a introdução das questões relativas às discussões de gênero, que perpassam diversas categorias, tais como: etnia/raça, classe, identidade, geração, trabalho, saber-poder, dentre outras. Todavia, não adianta querermos creditar apenas a esse aspecto as limitações que são marcas de um contexto histórico muito mais profundo. Os indivíduos são influenciados por essa construção cultural que vislumbrava a segmentação como traço natural. O movimento feminista impulsiona esse outro olhar de pertença e passa a oportunizar também às mulheres – e com elas outras tantas categorias que foram chamadas de minoritárias – no lugar de produção de discurso. O campo de investigação é expandido, introduzindo assim uma concepção de multidimensão, trazida mediante esse alargamento, ela implica em lançar mão de novas formas de atuação por parte de quem investe na pesquisa, utilizando diretrizes de outros saberes. Com isso, incluindo o papel de ativismo e fugindo da pretensa neutralidade, que baseou, durante bastante tempo, as pesquisas científicas, notadamente aquelas com perspectivas mais conservadoras da sociedade. A multidimensão que evidenciamos está ligada a diferentes temporalidades que coexistem em espaços-tempos distintos. Por exemplo, em algumas realidades grupos de mulheres que discutem questões salariais, ingresso ao ensino superior, ao passo que outras lutam por liberdade da violência doméstica, outras, por sua vez, por afirmação sexual, questões de saúde e inserção na política, ou ainda pelo combate à miséria e desnutrição dos corpos. Isso implica dizer que os diversos contextos não são em si mesmos homogêneos, inclusive pelas questões regionais de cada conjuntura envolvida na pesquisa possui. A concepção de que o tempo histórico não é si mesmo homogêneo, foi um outro contributo incorporado aos estudos feministas e de gênero: analisar as diversas realidades interligadas, porém respeitando suas próprias constituições. A partir do exposto, as concepções advindas do Feminismo Sociológico baseiam-se, em regra geral, na crítica frequente aos determinismos e universalismos sob os quais uma grande parcela do conhecimento científico está sedimentada. Sendo exercida pela teoria social feminista, possuindo aspectos de incorporação de outras categorias, tais como o feminismo negro, o feminismo dos países colonizados, a introdução do conceito de dominação masculina em somatório ao de patriarcado, a crítica a ideia de um feminismo hegemônico, entre outros. 65 2. Publicações periódicas acadêmicas feministas O feminismo é feito de palavras e gestos. Sempre no plural quanto às formas, por isso o correto seria falar em feminismos de textos e movimentos. O singular me permite, ao menos no instante, pensar no que nos aproxima e escapar do que anima nossas diferenças (Diniz, 2015: 47). É importante perceber a complexidade da fundação dos EMGF em qualquer uma das realidades investigadas – Brasil, Moçambique e Portugal –, especialmente pelo fato de não se possuir um substrato teórico-metodológico circunscrito próprio, um caminho do conhecimento específico, como se definiam noutras áreas. Destacamos, ainda, o papel que o pioneirismo 65 de algumas pessoas, especialmente mulheres, exerceu nesse processo, somado à procura de inclusão num espaço marcadamente determinado e que, nesse instante, não estava, assim como, em alguns casos, ainda mostra não estar preparado para a recepção de outras maneiras de dividir poderes. É a face visível de um processo violento que as pessoas pioneiras decidiram percorrer, incluindo o desenvolvimento de suas habilidades no campo profissional ou a intenção de propiciar o desenvolvimento de um estudo/investigação e criar, com isso, alguma referência nesse campo de saber. Isso não significa afirmar que todas as pessoas pioneiras já conheciam todos os processos que iriam atravessar, mas reafirmar a ideia de aprender a fazer durante o percurso, quase que artesanalmente. O vanguardismo dessas ações não pode deixar de levar em consideração as consequências que acarretou para estas mulheres (positivas e não tão positivas nas diversas áreas de suas vidas), assim como não devemos romancear esse caminho constituído, tornando-o idílico aos olhos de quem não está inserido no próprio contexto de produção. É imperativo ter em mente o que Donna Haraway (1995: 2223) fala sobre a “apropriação da visão dos menos poderosos” e considerar que, por ser assim, ela é a que deve prevalecer sem levar em consideração diversos elementos. Assim como as demais, essa ação também não é “inocente”. Mary Evans (1997: 29) destaca que a expressão Estudos sobre a Mulher passou a ser politizada para que se auxiliasse no processo de efetivação da área na esfera acadêmica, de modo mais concreto em alguns países da Europa e América do Norte. No seu processo de emergência, os EMGF representaram, para um grupo acadêmico mais conservador, a ideia de um Outro. Essas disputas de 65 Pioneirismo muitas vezes celebrado e noutras tantas vezes esquecido e que traz consigo uma enorme carga pessoal, especialmente pelo fato de embrenharse, na maior parte das vezes, em caminhos incomuns, e se deparar com resistências. Para ampliar a ideia ver Maria do Mar Pereira (2018). 66 espaço evidenciam as tensões de poder em seu interior. Segundo Sueli Carneiro (2005: 11), medidas semelhantes procuram camuflar um racismo não somente epistêmico, como estão de acordo com os discursos hegemônicos do capital. Assim sendo, em sua maioria, reproduzem a composição hierárquica social na qual estão inseridas. Uma das formas de organização foi a partir da criação de associação entre essas mulheres, feministas acadêmicas, em grupos de pesquisas no interior dos centros universitários e/ou departamentos desde os anos 1970 (Evans, 1997: 180), por vezes com contornos ativistas. Elas passaram a unir esforços para buscar maneiras de combater e, acima de tudo, romper com a misoginia e com o androcentrismo das estruturas que compunham o cenário de suas práticas cotidianas, profissionais ou não. Daí surgem as associações de Estudos sobre a Mulher/Mulheres na maior parte das universidades do Ocidente, mais ligadas às ciências sociais e humanas, em forma grupos interdisciplinares. A divulgação de suas produções também se deu através da criação de revistas acadêmicas feministas, além de livros e outras formas de comunicação seja com os pares, ou com a sociedade de modo mais geral. Essas associações e/ou grupos de investigação são sinais de uma forte pressão exercida por parte dessas acadêmicas na tentativa de efetivação de posturas menos rígidas através de parcela das coordenações e direções dos departamentos/centros universitários, seja a nível de busca de financiamento de suas investigações ou no impulso à entrada de outras mulheres nesses espaços, no sentido de que ocupá-los é também sinal de pertença. Desse modo, passam a ser considerados como ganhos sociais, profissionais e de gênero, na medida em que se percebe as quebras com ordenamentos conservadores. Em fins dos anos 1970, também ocorreu a implementação de periódicos sobre estudos feministas ou das mulheres (Evans, 1997: 38), sendo os espaços acadêmicos dos EUA, Grã-Bretanha e França os primeiros a desenvolver de forma contínua essa prática (Soihet & Costa, 2008) 66 . Conforme aponta Marisa Navarro (2004: 60), todos são revistas interdisciplinares e caracterizam-se por uma autodenominação feminista, não necessariamente de uma mesma perspectiva teórica, porém, com um objetivo comum que é empreender um amplo processo de combate à opressão das mulheres – vocabulário muito comum durante a década citada. Nesse momento, havia a ideia de que uma revista de Estudos das Mulheres ( Women’s Studies ) era, em si mesma, uma maneira de inseri-las de forma concreta no cenário acadêmico, além de divulgar suas experiências, pensamentos e pesquisas, 66 Foram fundadas seis revistas acadêmicas feministas nos EUA durante a década de 1970. A primeira surge em 1972, a Feminist Studies , seguida pela Women’s Studies , também no mesmo ano. Já em 1975 são publicadas a Frontiers: A Journal of Women’s Studies e a Signs: A Journal of Women in Culture and Society . No ano seguinte, surge a Psychology of Women Quaterly e, em 1978, a Harvard Women’s Law Journal . Em 1979, é criada a Feminist Review , no Reino Unido, reforçando o pioneirismo anglófono. 67 especialmente em áreas onde eram minoritárias ou onde possuíssem dificuldade de acesso a publicações. Já no início dos anos 1980 67 , empreendeu-se a tentativa de especializar, cada vez mais, as discussões veiculadas por essas revistas. De mais a mais, é o período marcado pelo surgimento do maior número de publicações acadêmicas feministas 68 . Um outro objetivo destacado de uma publicação acadêmica feminista está no fato de que é utilizada também como elo entre comunidade – movimentos socais e/ou outras organizações feministas – e a academia. Este aspecto foi tomado como referência na constituição de revistas em outros contextos. Maria Margaret Lopes e Adriana Piscitelli (2004) apontam que as publicações periódicas feministas podem ser também mais um elemento de fundamentação e ampliação das discussões em torno da temática em que estão inseridas, num espaço interno, além disso mantendo algum nível de relação com outras realidades. As publicações feministas podem ser compreendidas como uma espécie de termômetro de como se comporta(m) o(s) feminismo(s) nos contextos em que está(estão) inserida(s), principalmente pela demanda corriqueira por alimentar as edições de cada ano, tanto num contexto micro, quanto macro. Isso nos faz perceber uma construção teórica num tempo mais próximo que a historiografia denomina enquanto tempo presente. E ainda destacamos que seus trabalhos são, em sua maior parte, apoiados tanto na experiência pessoal associada à crítica às teorias sociais, como vistos enquanto atos políticos concretos. No início da década de 1990, podem ser identificadas publicações feministas acadêmicas periódicas em língua portuguesa. Em 1991, a revista Estudos Moçambicanos 69 edita o primeiro de seus números dedicado aos EMGF. No Brasil, são criadas a Revista Estudos Feministas (REF) e a Cadernos Pagu , em 1992 e 1993, respectivamente. No ano de 1999, em Portugal, são veiculados os primeiros números de Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher e ex æquo. Obviamente que o fenômeno do aumento de pessoas interessadas nos chamados estudos sobre as mulheres se dá também, na esfera acadêmica, por meio da aplicação e ampliação de elementos analíticos – dos quais a categoria gênero é, talvez, o mais exemplificativo –, no entanto, não permanecendo apenas neste. Destacamos a raça/etnia e classe (Harding, 1993a; Saffioti, 2015), que 67 Em 1981, surge a Women and Politics , dedicada à ciência política; na França; posteriormente com edição franco-suíça, a Nouvelles Questions Féministes , herdeira da revista Questions Féministes, de 1977, (Pinto: 2009: 6); em 1986, publica-se o número um de Hypatia , revista de filosofia e, no ano seguinte, Gender and Society , que empreende discussões ligadas à filosofia. Obviamente, esse caráter aparentemente mais objetivo não determinou que não houvesse a interdisciplinaridade como profunda marca das publicações feministas. Em 1991, na França, surge também a Cahiers du Genre. 68 Destacamos aqui publicações feministas de várias realidades e editadas em diferentes temporalidades. Pela não disponibilização em ambiente virtual dos primeiros números das mais antigas noutros contextos, não as citamos aqui. No entanto, destacamos que há um grande nível de proximidade entre as revistas referidas aqui. Para o continente africano, destacamos (Mama, 2002a); Brasil (Lavinas, 1992; Piscitelli, 1993); Espanha (Nash, 1990: 2-3); Estados Unidos (Groms & Gardiner, 1972; Feminist Review , 1979); França ( Nouvelles questions féministies , 1981; Cahiers du GEDISST , 1991); Itália ( Storia delle Donne , 2005a; 2005b); México (Lamas, 1990) e em Portugal (Castro, 1999; ex æquo , 1999). 69 A publicação tem início em 1980, no entanto não é exclusiva dos EMGF, por isso mesmo o destaque para o ano de 1990. 68 não ficaram sem resposta. Os julgamentos foram muitos, especialmente por parte das ordens de manutenção do androcentrismo existentes no interior dos espaços acadêmicos. Os trabalhos de mulheres feministas passaram a sofrer críticas, em alguns casos, desproporcionais, por parte de seus pares, que passaram, como aponta Mary Evans (1997: 182), de críticas no campo científico para o campo político. Essas críticas circundam em torno da ideia de não associação entre academia e ativismo, como se, nesse espaço, apenas fosse construída “ciência” e nele não existissem disputas de narrativas e poder. A dimensão política não deve servir de obstáculo para a efetivação de forte rigor metodológico. Não acreditamos que uma dimensão anula a outra. Esse debate, como nos lembra Joana Maria Pedro (2008: 88), ainda é bastante presente e, em alguns casos, exercido de forma velada, como salientou Maria do Mar Pereira (2012a; 2017). Desse modo, destacamos o posicionamento político contido nas análises dos EMGF: o feminismo é político, possui lado, não é “neutro” (Soihet & Costa, 2008). Maria do Mar Pereira (2012a: 296), referindo-se ao contexto acadêmico em Portugal, caracteriza como “reconhecimento desdenhoso” a maneira como muitos acadêmicos observam e se referem às discussões sobre a contribuição dos EMGF, ao mesmo tempo num sentido de valorização e, por outro lado, sublinhando a sua intensa especialização enquanto forma de conhecimento, não sendo, por isso, suficientemente amplo. Mesmo diante de cenários adversos, os EMGF avançaram, cresceram, tanto em importância, como em utilização, nas mais diversas realidades acadêmicas no mundo, e procuram contribuir, ainda mais, para a produção de um conhecimento que auxilie, dentre outras questões, nas quebras das profundas assimetrias e na promoção da equidade entre gêneros. 2.1. Contributos e questões de ordem política Uma publicação acadêmica, seja ela feminista ou não, vai muito além de um mero suporte que compila ou divulga artigos, ideias, conceitos, problemáticas e questões. Ela é uma forma de exercer o lado político da ciência (o que, por si mesmo, não sinaliza uma tendência mais conservadora ou progressista, essa dimensão não é central em nossa análise). O conhecimento científico é construído a partir dessa relação de exposição e diálogo, especialmente entre os pares, que podem ser compreendidos enquanto indicadores de uma dada produção (Beleli; Lopes & Piscitelli, 2003: 243). Além disso essas publicações estabelecem uma espécie de complementação ao mercado editorial, de maneira mais célere, devido à sua periodicidade e ao seu formato de divulgação. 75 dos indivíduos e grupos minoritários, muito mais do que as estabelecidas pela ideia fixa de sexo, muitas vezes tomado como único modo de compreensão, por sua vez advinda meramente da ideia de biologicidade. Categorias mais determinadas pela perspectiva das metanarrativas também se fizeram presentes e contribuíram de maneira concreta para a ampliação dos EMGF 79 . Os EMGF não fazem parte das áreas que mais captam os principais e mais expressivos recursos financeiros para a pesquisa no interior das universidades, o que já é um problema, principalmente quando os fundos são escassos (e isso ocorre com grande frequência). Essas investigações não são compreendidas enquanto prioridades por parte de alguns governos e agências departamentais de fomento, tampouco por empresas que subsidiam algumas pesquisas, com exceções 80 . Os estudos EMGF são o politicamente correto, porém, para captar esses recursos, eles têm de se mostrar economicamente viáveis, nomeadamente no sentido de retorno que podem representar a quem investe. Os EMGF são considerados uma área de estudos fronteiriços, não possuindo uma “casa própria”, sendo assim, de domínio público e vistos enquanto senso comum, aquilo que comumente pode ser descartado por alguns acreditarem ser menos importante, menos relevante ou sem aplicação concreta. Obviamente, essa premissa atende, dentre outras variações, a interesses na maior parte ligados ao capital, especialmente daquelas empresas que financiam departamentos e/ou centros de investigação. Com isso, a ideia de legitimação do conhecimento por parte das acadêmicas ainda é uma questão latente e necessária para além da visibilidade. É uma atitude política. Embora as estudiosas sejam taxativas no que se refere ao reconhecimento dos contributos que o feminismo trouxe à ciência como um todo e à teoria social, em particular, também compreendem a marginalização desses estudos (Cf. Pereira, 2012a; 2017). Isso significa que ainda não houve, apesar das tentativas, uma de pensamento e uma forte reconfiguração do mainstream científico. Em outras palavras, em linhas gerais, a academia continua sendo machista, autocentrada, eurocentrada e bastante deslocada de realidades sociais mais pobres. De todo modo, o consenso é de que há uma grande precariedade de ordem formal, simbólica e metodológica nos EMGF institucionalizados. A primeira está posta no sentido de reconhecimento de seus estudos, nomeadamente por parte dos pares (Evans, 1997: 185). A segunda está focada no personalismo de professoras com enquadramento funcional alto na estrutura acadêmica. A terceira é a de que está pouco financiada por políticas de fomento, dificultando sua perenidade, ampliando o trabalho 79 Destacamos os seguintes livros: Teorizando o Patriarcado, de Sylvia Walby (1990), Third Wave Agenda. Being feminist, doing feminism, de Lislie Heywood e Jennifer Drake (1997), Third Wave Feminism: A critical exploration, de Stacy Gilles e Gillian Howie (2004), Not My Mother’s Sister, de Astrid Henry (2004) e No Permanent Waves: Recasting histories of U.S. feminism , de Nancy Hewitt (2010). 80 Um exemplo de uma fundação privada é a Fundação Ford, que foi, durante algum tempo, responsável pelo financiamento de projetos ligados aos EMGF, inclusive contemplando o edital de criação da REF , no Brasil. 76 das pessoas que propõem os programas de estudos. E a quarta, está, dentre outras questões, no debate existente entre a interdisciplinaridade enquanto problema dos estudos EMGF, pelo menos, na realidade acadêmica portuguesa (cf. Pereira: 2013). Os cursos de pós-graduação, como afirmam Beatriz Rocha-Trindade e Maria Laura Pires (2013), possuem forte impacto no plano científico em diversos níveis, especialmente fomentar mais conhecimento na área quer seja por um público ligado à academia, quer à sociedade, em geral, num modelo mais amplo, decorrente de um debate público. Neste último caso, na maioria das vezes, ocorre através dos meios de comunicação de massa. Além disso, estimula o ingresso de profissionais mais habilitados no mercado de trabalho em seus mais variados setores. Há discussões acerca do impacto dos trabalhos feministas no interior das academias, sobre a forma como as ideias problematizadas pelas feministas permearam/permeiam e alteraram/alteram a própria ideia de ciência. Além disso, a força do movimento, nessas estruturas, principalmente mediante a fragmentação temática, em grande medida, a partir do estímulo dado aos EMGF e duas derivações, pode auxiliar-nos a evidenciar essa relação. Todavia, percebemos que isso não é, em si mesmo, algo ruim. Pelo contrário, demonstra o vigor e a necessidade de se discutir diversas problemáticas que estavam no espaço social, porém, não eram o foco das universidades. A grande tarefa do feminismo acadêmico, hoje, é ampliar o ingresso de pessoas que discutam a temática, além de manter a oferta de cursos, pois isso gera diversidade, que é uma pauta feminista. Soma-se a isto, a saída da esfera acadêmica e o debate, franco e irrestrito, com as comunidades, além da promoção de uma linguagem simples que, ao mesmo tempo, não esvazie o discurso, mas não deixe de informar o maior número de pessoas possível. O enfrentamento dessas dinâmicas é uma condição para a demanda cresceste dos EMGF, que aumentou de forma considerável com as pautas das agendas de outras realidades geográficas, percebendo-se, assim, a multiplicidade de mulheres, grupos, populações. É uma verdadeira transformação das mais importantes correntes teóricas do Ocidente, como aponta Mary Evans (1997; 209), aplicando-se à realidade concreta a partir de experiências pessoais e aos contextos locais, que podem auxiliar a compreender o macro. O questionamento de formas autoritárias de percepção da realidade é o principal foco de críticas dos feminismos de fins do século XIX e início do século XXI. 77 2.2. Revistas acadêmicas sobre EMGF no Brasil, Moçambique e em Portugal Mais do que uma realidade colonial, o que une Brasil, Moçambique 81 e Portugal em nossa investigação são, apesar de suas profundas singularidades, tendências de rompimento de alguns modelos hegemônicos de produção de conhecimento. No entanto, não podemos negar que a utilização do mesmo idioma, com diferenças regionalizadas, facilita os laços de aproximação entre povos que possuem laços históricos e culturais. No campo teórico, as epistemologias do Sul 82 podem ser apontadas enquanto facilitadoras do processo de construção de um modelo de olhar que fuja do padrão eurocentrado. Elas se constituem como uma tentativa de formação de uma nova base, sem excluir totalmente a anterior, sedimentada numa concepção de alteridade. De acordo com Maria Paula Meneses (2016b: 17), “descolonizar implica abrir espaços a outros saberes sequestrados, condição para ampliar o resgate da história democratizando-o”. Portanto, é avançar, (re)vendo, (re)criando e (re)inventando outras formas de atuação, procurando romper com os modelos dominantes que hierarquizam e excluem muitos. Vimos que a década de 1990 foi o momento de criação das revistas acadêmicas aqui investigadas e um período que representa a tentativa de expansão e, ao mesmo tempo, de criação de um lastro teórico além da divulgação, de modo mais ágil e frequente, de trabalhos na área. Destacamos também que quatro das cinco publicações investigadas continuam suas atividades, obtendo cada vez mais procura tanto a nível de divulgação de trabalhos, como de público leitor, mesmo num período de intensificação de publicações (especialmente visíveis em múltiplos formatos digitais). A institucionalização de políticas de incentivo às publicações feministas por meio dos departamentos em universidades e/ou centros de pesquisa ou, ainda, associações, pode ser compreendida também como forma de valorização do capital acadêmico, além de promoção de 81 Em escalas distintas, o processo de colonização por que Brasil e Moçambique passaram foi decorrente da expansão marítima e comercial europeia, ambos sob domínio português, implementando uma nova moral, imponto uma religiosidade cristã, explorando matérias-primas e escravizando a população, além de forçar a adoção de um idioma distinto, estabelecer outros modelos culturais, até mesmo o patriarcado e, com ele, um conjunto de práticas sexuais, de comportamento social, etc. (Ribeiro, 1972; 1987; 1988; 2005; Geffray, 1991; Todorov, 1999; Chauí, 2000; Honwana, 2002; Oyěwùmí, 2004; Cabaço, 2007; Meneses, 2010; Galeano, 2014; Magalhães, 2016; Gasparetto, 2019). Não exclui formas de atuação do patriarcado já exercidas, em proporções distintas, mas resulta em uma espécie de uniformização e universalização, à medida que a colonização de novos territórios vai sendo ampliada para uma escala global. Para decretar distinções, as populações das realidades invadidas são transformadas em outro, exótico (Arnfred, 2004a; 2004b; Santos, 2001; 2002c), naquilo que era diferente, principalmente face ao modelo eurocêntrico. É o momento em que emerge uma nova forma de racionalidade no mundo ocidental (Nhatumbo & Meneses, 2005; Spivak, 1994). Todavia, destacamos que esses fatores não foram implementados sem resistência. Pessoas enfrentaram, sob o custo de muitas vidas, essa brutal política expansionista das metrópoles europeias, em grande medida a partir do século XV. A criação e posterior cristalização das imagens de mulheres e homens, sobretudo negros, com mais desejo sexual, serviu, em muitos momentos, para justificar a violação desses corpos, assim como de seus territórios. A virtude, principalmente advinda da moralidade cristã, auxiliou na moldagem de mentes e corpos a fim de estabelecer um parâmetro da culpa, do pecado, do promíscuo, do erro, que deveria ser purgado. 82 Como definem Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses (2009: 13), “As epistemologias do Sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão [de um conhecimento hegemonizado], valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos” (grifos nossos). Para mais, ver também Maria Paula Meneses (2016a; 2016b). 78 visibilidade institucional de quem publica, do tema e da área. Associado a isso, outros instrumentos foram/estão em uso a fim de potencializar as discussões, os trabalhos e as teorias. A ampliação do acesso à e uso da internet na qualidade de ferramenta de trabalho por parte de quem investiga, associada à criação de uma forte política de indexação em plataformas virtuais e à criação e divulgação de rankings de publicações, acabou por auxiliar a popularização dessas revistas entre acadêmicos/as. Os pares, tanto aqueles/as mais consolidados/as, quanto os/as que estão no início de sua atividade investigativa, utilizam essas publicações para visibilizar suas temáticas, mas também como espaços de discussão e aprofundamento de questões. Outro aspecto que podemos elencar a partir do maciço uso da internet enquanto ferramenta de divulgação acadêmica é a diminuição de alguns custos de manutenção, de maneira especial aqueles ligados à produção, impressão e envio por correio dos números editados. Contudo, ainda há publicações dessas como, por exemplo, o caso das portuguesas, que possuem números impressos e virtuais. O aumento e utilização de plataformas digitais representou um grande impulso para o rompimento do isolamento – geográfico, teórico, político, financeiro – no qual alguns espaços acadêmicos estão imersos, facilitando o (re)conhecimento pelos próprios pares, assim como pela comunidade acadêmica de forma mais ampliada. Outrossim, é a recepção contínua de chamadas/apelos para divulgação, em diversas sessões e modelos, que vão de artigos livres, artigos encomendados ou mesmo dossiês temáticos, os dois últimos advindos de demandas específicas ligadas aos conselhos científicos/direções das revistas. O advento e a popularização das redes sociais podem também ser compreendidos como elementos que, em certa medida, favoreceu o contato entre academia e sociedade, criando mais articulação com o meio social, o que, muitas vezes, era compreendido enquanto deslocado. Isso não significa dizer que a academia deixou o seu isolamento ou que a comunidade se faça presente constantemente no interior dos centros universitários e/ou academias. No entanto, é imperativo perceber que há uma publicização de eventos com uma significativa participação da comunidade de forma estendida, além da própria discussão em torno de temas trabalhados e divulgados nos periódicos. A seguir veremos, de modo breve, alguns processos de institucionalização dos EMGF ao nível de suas publicações periódicas acadêmicas, de modo particularizado em cada uma das realidades abordadas em nosso trabalho. 79 2.2 O Brasil Assim como em outros contextos históricos, sociais e culturais, o feminismo, no Brasil, é criado com um caráter profundamente intelectualizado por grupos de mulheres, na maioria das vezes, brancas e de origem social abastada (Teles, 1999: 12; Silva, 2016: 14). De forma não rígida, porém em constância, segue dessa maneira até meados da década de 1970, período em que, para sentir com maior profundidade tanto política, quanto social, os efeitos do movimento, como destaca Céli Pinto (2003: 85), atraem-se as camadas populares, amplificando a atuação e o poder de reivindicação do movimento como um todo. O movimento feminista no Brasil, durante a década de 1960 e, mais especificamente, 1970, passa por uma revisão bastante influenciada por publicações de teóricas estrangeiras e a partilha, mais que teórica, de práticas de enfrentamento em diversos espaços (Rago, 2013; Teles 2003), principalmente mediante o retorno, ou mesmo a troca de correspondência, entre feministas que estavam fora do país, com destaque para o que ficou conhecido como Círculo de mulheres brasileiras em Paris (Abreu, 2010; 2013; 2018; Schilling, 2015; Pedro & Wolff, 2007). Os encontros acadêmicos feministas são também um exemplo desse processo (Adrião; Toneli & Maluf, 2011) de intercâmbio de experiências que possibilitou um maior discernimento em torno das ações que estavam sendo vivenciadas pelas feministas brasileiras nos espaços acadêmicos, não se restringindo apenas a eles. Estes foram/são fontes de aglutinação, discussão, tensões e criação de novas maneiras de interrelação em busca de uma paridade social 83 . Obviamente, não podemos isolar o contexto que se agrega a outras tantas realidades, com maior potencialidade, principalmente dos feminismos latino-americanos, também chamados de feminismos do Sul (Femenías, 2002), feminismos subalternos (Ballestrin, 2017) ou, como defendem Gita Sen e Caren Grown (1988: 29), perspectivas de mulheres pobres ou, ainda, mulheres do Terceiro Mundo – o que também pode ser compreendido como integrante do feminismo popular 84 . Durante as décadas de 1960/70, uma das grandes discussões do movimento feminista brasileiro versava sobre quais os caminhos que teriam que percorrer, pois havia a ideia de uma prioridade de lutas. No campo político, a luta feminista era compreendida por muitos integrantes da resistência ao regime civil-militar como a verdadeira trincheira; por outros, era descrita enquanto secundária, muito específica (Saffioti, 1987: 117; Soihet, 2005; Teles, 1999: 70), considerando-se não possuir a mesma 83 Essa vivência não foi apenas compreendida pelas feministas no Brasil. Há, como afirma Sophie Lhenry (2011), um conjunto de práticas que são corroboradas por mulheres e feministas em vários períodos e realidades distintas. No caso em destaque, visões argelinas e iranianas que se encontravam com práticas francesas. Portanto, podemos perceber que foi um momento de expansão geográfica, do mesmo modo que epistemológica. 84 Essa definição de mulheres do terceiro mundo também pode ser encontrada em Ochy Curiel (2019: 33-36) e Chandra Mohanty (2008). 80 dimensão que a primeira (a luta de classes), isso dito e repetido por diversos membros de grupos considerados progressistas 85 . No espaço acadêmico, surge a tentativa de aumento do número de mulheres em cursos de ensino superior e a criação de cursos, a maioria de pós-graduação, relacionados ao campo dos EMGF 86 . Ocorre, em princípios da década de 1970, uma reforma do ensino superior 87 . As mulheres ligadas ao campo político da esquerda eram descritas como sendo, em sua maioria, jovens, de orientação católica ou com forte formação religiosa (Aldana, 2008; Anjos, 2008; CDD, 1997; Pitanguy, 1997), intelectuais e de classe média ou média alta. Nesse momento, as pautas que procuravam evidenciar questionavam o moralismo político e social que o país vivenciada, apontavam a discrepância salarial e reivindicavam o direito ao próprio corpo, a defesa dos desaparecidos políticos e o ingresso nas universidades, denunciando os malefícios da profunda divisão de classes, a questão agrária, a fome e componentes da religiosidade. Destacamos aqui o catolicismo progressista, representado especialmente pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que também foram um importante instrumento de difusão de ideias, especialmente entre as mulheres mais carenciadas que residiam nas periferias, aquelas com baixa escolaridade e associadas, de alguma forma, à Teologia da Libertação 88 . Soma-se a esse cenário algumas mulheres que voltavam do exílio (Goldberg, 1987), o que nos remete também a uma espécie de intercâmbio teórico e prático de outras realidades de luta feminista. Em sua maioria, elas estavam em regressando da França e dos EUA. Ainda foram promovidos questionamentos acerca dos constructos sociais e, numa dimensão mais ampla, reivindicatórios da sociedade e suas hierarquizações tanto em aspectos considerados públicos, como aqueles creditados enquanto privados, nesse último, destacando-se a violência doméstica 89 . Essa perspectiva foi ampliada, inclusive, com o surgimento do grupo feminista internacional Católicas pelo Direito de Decidir (Brites, 2014; Oliveira, 2009; Sarti, 1998), que não somente no Brasil, 85 Para mais ver. Arns; Sobel & Wright (1985); Back (2011); Colling (1997); Hentz & Veiga (2011); Kotchergenko (2011); Merlino & Ojeda (2010); Pedro & Wolff (2010); Priscila Sena & Vivian Moretti (2011); Rago (2003); Soihet (2003); Tabak (1986); Teles (2005); Wolff; Silva & Oliveira (2015); Wolff; Zandoná & Mello (2019). 86 Destacamos uma brevíssima cronologia da implementação dos Estudos sobre Mulheres na realidade acadêmica brasileira a partir das últimas três décadas do século XX. Em 1972, é criado o Conselho Nacional das Mulheres; em 1973, o Curso Famílias e relações entre sexos, ministrado por Zahidé Machado, na Universidade Federal da Bahia; em 1975, surge o Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira e o seminário Pesquisas sobre o Papel e o comportamento da mulher brasileira ; em 1980, aparece o Primeiro núcleo de Estudos sobre a Mulher, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (Pedro, 2008: 88); em 1981, o Núcleo de Estudos, Documentação e Informação sobre Mulher, na Universidade Federal do Ceará; em 1983, e criado o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM), na Universidade Federal da Bahia (Costa & Sardenberg, 1994; 2013); em 1988, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero (NEMGE), na Universidade de São Paulo. Em 1990, havia 150 núcleos de estudos sobre a temática vinculados a universidades e/ou centros de pesquisa. Esse número, em 1997, desce para 147, demonstrado uma pequena queda ao longo da década 86 . 87 Ver Albertina Costa (1988: 66), Marco Garcia (1997), Renata Meirelles (2011), Joana Maria Pedro (2006), Cynthia Sarti (1998: 3), Maria Teles (1999) e Cristina Wolff (2007). 88 Sobre o papel da Teologia da Libertação, ver Gustavo Gutiérrez (1975); Leonardo Boff (1994; 1997; 2001 [1993]; 2008); Laira Ary (1994); Márcia Couto (2002); Zaíra Farias (2000); Ivone Gebara (1987); Isa Liz (2019); Gabriela Marques (2011); Kthlen Oliveira (2014); Maria José Rosado (2001); Giovana Salvaro e Larissa Freitas (2019); Francisco Taborda (1990) e Luiza Tomita (2010). 89 Para mais, ver Ivone Gebara (2000a; 2000b; 2002; 2004), Ann Loades (1997), e Adilson Schultz; Alzira Muñoz e Anete Roese (2019: 681-686). 81 mas também na América Latina, possui grande respeito, até mesmo nos ciclos universitários, locais de grande ativismo de suas integrantes, para além das paróquias e centros pastorais, entre outros. No âmbito do debate e do ativismo acadêmico no Brasil, desde a década da Mulher, decretada pela ONU, passando pela junção de forças políticas feministas, tais como o Centro da Mulher Brasileira, no Rio de Janeiro, que associou-se às feministas de São Paulo e Belo Horizonte numa reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) (Costa, Barroso & Sarti, 1985: 7; Costa, 1988), evidencia-se a tentativa de reunir experiências teóricas e práticas distintas, procurando elementos de aglutinação. Nesse momento, Heleieth Saffioti (1987: 117) destaca que “todas as intelectuais que lidam com esta temática [do feminismo] no Brasil são simultaneamente militantes”. O nome de Rose Marie Muraro é ressaltado, tanto a nível de editoração e publicação de textos feministas, como de trabalhos associado aos financiamentos de fundações nacionais e estrangeiras, com atenção especial para as Fundações Carlos Chagas e Ford 90 . Os trabalhos sobre feminismo e, posteriormente, sobre gênero, passaram a ser mais dimensionados tanto a nível qualitativo, quando quantitativo. Além das referências anteriores, a criação de Grupos Temáticos (GTs) de trabalho sobre a temática em organismos de estudos e investigação de caráter nacional auxiliaram nesse quesito 91 . As realizações desses eventos, ligadas à discussão sobre o feminismo, por sua vez, conforme descreve Céli Pinto (2003: 88), decorriam por questões “desde as relacionadas com posturas teóricas que não reconheciam o objeto, passando pelo temor de o grupo fosse apenas uma militância disfarçada, até o mais primário sexismo”. Isso evidencia a dificuldade latente das feministas brasileiras em constituir um espaço de debate minimamente reconhecido pelos pares, além de terem que promover uma arqueologia da constituição de novos olhares sobre temas considerados com baixa relevância de investigação por parte da comunidade acadêmica mais tradicional. 90 Em 1978, a Fundação Carlos Chagas realiza o concurso de pesquisa, além de um grande seminário sobre feminismo e seus desdobramentos no Brasil. Nesse mesmo ano, no Rio de Janeiro, é organizado o seminário A mulher na força de trabalho na América Latina , além de um grande investimento, desde 1965, advindo da Fundação Ford, que é um marco para o fomento dos EMFG (Costa; Barroso & Sarti, 1985: 6, para a fundação Ford , ver páginas. 11-12). Maria Luiza Heilborn e Bila Sorj (1999: 190) trazem a informação do fim do financiamento da Fundação em relação à REF a partir de um relatório sigiloso, onde “As consultoras consideram que os estudos de gênero no Brasil teriam perdido o seu viés militante e seriam acríticos às regras de hierarquia de uma academia, em suas percepções, seriam androcêntricas”. Esse documento acabou por dificultar a edição da revista no Rio de Janeiro e, com isso, houve a transferência para a Universidade Federal de Santa Catarina, onde se encontra desde então. Dito de outro modo, os estudos de gênero, conforme apresentado pelo relatório, especialmente naquele momento, eram um reforço do politicamente correto. No entanto, discordamos, mediante todos os dados investigados, especialmente nas publicações pesquisadas, na medida que expõem esse compromisso de modo indubitável, na verdade, reforçando um campo de ativismo político (Lavinas, 1992; Piscitelli, 1993). Obviamente, pode ocorrer, como ocorreram e ocorrem, tendências mais ou menos brandas, mas não podemos deixar de considerar a dimensão política sempre presente, além das tentativas de ampliação teórica e de explicação da própria realidade. 91 Destacam-se aqui a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs) (Costa & Sardenberg, 1994: 390), a Associação Nacional de Pesquisa em Educação (ANPEd), a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) (Hollanda, 1994), a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) e a Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH) (Costa; Barroso & Sarti, 1985: 7; Costa & Sardenberg, 1994). Com destaque para o primeiro destes Anpocs, as tensões estiveram presentes desde a implementação dos GTs sobre feminismo e gênero. 82 Diante de tribulações institucionais sobre a implementação de cursos especificamente sobre a temática, são criados, como maneira de driblar e continuar a investigação e discussão, os grupos e núcleos de estudos sobre mulher/mulheres nas universidades brasileiras, em suas diferentes regiões 92 . Comumente ocorreu – e, em alguns casos, ainda há – ausência de financiamento, além da falta de institucionalização desses estudos (Costa; Barroso & Sarti, 1985: 5), o que dificulta ainda mais tanto a efetivação, quanto a permanência desses núcleos. Esses grupos e núcleos representam, conforme destacam Albertina Costa, Carmen Barroso e Cynthia Sarti (1985: 7) um espaço isolado na investigação, ancorados na interdisciplinaridade, especialmente no que se refere à constituição de suas equipes de trabalho. Os núcleos auxiliaram, sob vários aspectos, a criação de tais grupos de discussão e propriamente de investigação, com foco na extensão, critério que salientamos ser uma das principais formas de ativismo acadêmico exercido pelo movimento feminista. Os grupos possuíam baixo ou nenhum financiamento público, o que dificultava suas atividades. Além disso, quando alguns editais eram abertos, ocorriam disputas entre núcleos/centros que investigavam temáticas semelhantes, ressaltando também uma discrepância na distribuição geográfica destes (Costa & Sardenberg, 1994: 392), incialmente concentrados nas regiões centro-sul e posteriormente distribuídas pelas demais. Isso também nos faz levar em consideração a intensidade de condensação e financiamento em algumas áreas mais específicas, diferentes das chamadas ciências humanas e sociais, e quando não denominadas também como carreiras mais ligadas ao cuidado com o outro, em oposição às ciências da vida e às ciências duras. Relativamente à inserção de conteúdos feministas e de gênero, Ana Alice Costa e Clarice Pinheiro (2013: 617-618) destacam que, na década de 1980, as feministas procuraram “brechas” curriculares nos cursos regulares e ali introduziram questões da temática. Noutras palavras, utilizaram a autonomia da cátedra e leituras sobre os limites do vivenciados no momento para ampliar a discussão. As autoras expõem essa perspectiva numa escala de execução local, no entanto, acreditamos que deva ser uma realidade partilhável em várias estruturas e momentos. Destacam também a introdução de disciplinas optativas tanto na graduação/licenciatura, quando na pós-graduação, algo que ainda é possível observar 92 A partir da década de 1980, mais precisamente desde o ano de 1981, são criados vários Núcleos de Estudos sobre a mulher, como são os casos do Núcleo de Estudos, Documentação e Informação sobre a Mulher (NEDIM), na Universidade Federal do Ceará (UFCE) e do Núcleo de Estudos sobre a Mulher , na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), em 1982. Em 1983, o Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Relações Sociais de Gênero , na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), o Núcleo de Estudos sobre a Mulher , nas Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Bahia (UFBA). Em 1984, o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Mulher , nas Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Minas Gerais (UFMG). Em 1991, ocorre em São Paulo, o I Encontro Nacional de Núcleos . Em 1992, tem origem formal, advinda do Núcleo de Estudos de Gênero , da Universidade Estadual de São Paulo (Unicamp), a Cadernos Pagu . Em 1992, é fundada a Redor (Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Relações de Gênero), assim como a Revista de Estudos Feministas (REF) (Pinto, 2003: 88-89). Nesse momento, são cerca de 40 grupos, no total, que se dedicam ao estudo da temática (Costa & Sardenberg, 1994: 387; Heilborn & Sorj, 1999), muitas pessoas que passa a se dedicar a pesquisar o tema, a promover discussão e a criar artigos, livros, seminários, colóquios e outras formas de divulgação. 83 na contemporaneidade em várias instituições de ensino superior que não possuem cursos específicos nessa área. Essas disciplinas podem ser observadas com mais frequência em cursos de ciências humanas, ciências sociais aplicadas e nas ciências da saúde – de modo mais específico, no curso de enfermagem. As autoras (Costa & Pinheiro, 2013) ainda apontam o permanente diálogo entre as esferas acadêmica e social por meio de vários movimentos sociais de caráter popular como um caminho exitoso que agrega, demonstrando que práxis e teoria são um mesmo discurso, e possível. Para tanto, deve-se saber chegar, por meio de múltiplo aspectos. Destacamos aqui a linguagem escrita utilizada, visando fugir da estrita grafia acadêmica, muitas vezes não compreensível, especialmente por pessoas que não tiveram acesso a esta esfera, e amiúde se fazendo presente por meio do oferecimento de formações básicas, caminho possível e que já evidencia ações concretas do saber-fazer. Em concordância com Paulo Freire (2001: 102), “ensinar é uma especificidade humana”, do mesmo modo que não deixar de informar e convidar para o debate, estimulando a reflexão e a ação de dialogar no caminho da ampliação e compreensão dos saberes. Muitas vezes, esses espaços eram considerados inferiores (Saffioti, 1987: 125), pois eram compreendidos como excessivamente preenchidos por política e com pouca ciência, discurso esse bastante aplicado, em sua generalidade, às ciências sociais e humanas e, mais especificamente, aos estudos sobre as mulheres. Concordamos com Rosi Braidotti (1991: 30) quando afirma que os Estudos sobre as Mulheres, que em nosso texto chamamos de feminismo acadêmico, são parte constitutiva do movimento de mulheres: “Os estudos feministas representam uma tentativa das mulheres de reunir teoria, trabalho intelectual e prática política, a fim de melhorar seu status social e simbólico”. Albertina Costa, Carmen Barroso e Cynthia Sarti (1985: 9) salientam que esse menor prestígio acadêmico da temática se deve ao fato de ser uma área constituída majoritariamente por mulheres. Entretanto, esse processo é contraditório, no sentido de operar o que as autoras chamam de vantagens e desvantagens. No primeiro caso, incluem “a afirmação de identidade, espaço próprio, legitimidade e apoio institucional”; no segundo, o “isolamento e excessiva auto-referência” (Costa; Barroso & Sarti, 1985: 13-14). Para Lia Machado (1992a: 24), a soma de tais características, associadas à influência dos feminismos anglófono e francófono nas agendas dos movimentos sociais, fez surgir, no Brasil, uma concepção mais ampla de interdisciplinaridade. Evidencia-se também uma alteração nas temáticas dos trabalhos, principalmente com a implementação da categoria gênero, sendo que, em 1990, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs) realiza o Seminário “A 84 transversalidade de gênero nas ciências sociais”. Isso reforça a ideia de uma produção sobre EMGF com fortes bases localizadas, e evidencia que nem sempre, e concretamente no caso brasileiro, as ideias de gerações feministas ocorrem de forma isolada. Pelo contrário, há uma profunda simultaneidade entre elas. A discriminação acadêmica desse período não é uma questão isolada da academia brasileira. Evelyn Glenn (1978: 15) expõe situação semelhante na realidade estado-unidense e destaca a rápida expansão, na década de 1970, dos cursos de EMGF em todos os níveis, nomeadamente as pósgraduações. Ressalta também a discrepância entre os acadêmicos e as acadêmicas, desde a remuneração, passando pelo prestígio, além da área em que investigam. Na tentativa de criar bases para investigações futuras, as intelectuais, muitas vezes, deparavamse com o silenciamento ou ocultamento oficial e desenvolveram uma espécie de arqueologia dos estudos sobre as mulheres nas mais diversas áreas: sociologia (Moraes, 1981; Saffioti, 1976), história (Soihet, 1997b; Vaquinhas, 2019: 367-371), literatura (Hollanda, 1994), psicologia (Kehl, 1998). É, ao mesmo tempo, uma maneira de demonstrar, para grande parcela da academia, principalmente aquelas pessoas que se opõem aos estudos nessa temática, a legitimidade da área, procurando realizar a crítica a partir do interior. Evelyn Glenn (1978: 19) conclui que há, no contexto que analisa, um choque entre modelos de experiências interpretativas do mundo (tradicional versus de mulheres), além da “distorção”, por parte de alguns investigadores, sobretudo em relação aos papéis sociais e a cristalização de determinadas características, muito voltadas as concepções funcionalistas. Dessa maneira, cria-se o que a autora nomeia como “nova ciência”, que nada mais é que uma outra forma de denominar a crítica feminista à ciência e ressaltar suas contribuições para uma efetiva alteração, que afinal, vem se consolidando desde lá, não sem sofrer fortes resistências. Pelo menos no caso brasileiro, é salutar também evidenciarmos o fenômeno descrito por Mary Castro e Lena Lavinas (1992: 217) como “endogamia intelectual” 93 que se refere uma forte tendência de citação de trabalhos umas das outras. Isso se deve a, pelo menos, dois fatores: primeiro, a ausência de material próprio que retratasse as realidades investigadas; segundo, a possibilidade de criação de uma identidade mais particularizada dos EMGF, o que poderia, naquele momento, aprofundar a concepção de gueto científico no qual esses estudos estariam. Mary Castro e Lena Lavinas (1992: 217) afirmam que, No esforço válido e bem-sucedido de crítica às Ciências Sociais convencionais, o feminismo acadêmico no Brasil afastou-se dos debates epistemológicos do conhecimento em geral, e tendeu à endogamia intelectual, referindo-se exclusivamente à sua própria produção, o que também é induzido pelo aumento 93 Veremos também essa tendência em Portugal, como descreverá Lígia Amâncio (1998). 91 Patrícia Galvão 101 (Pagu) num cenário intelectual e político, por vezes, pouco visibilizado. Uma vez trazida a memória de seu nome na intenção de estabelecer o dinamismo que a revista pretendia representar, a publicação passa a receber contribuições, de início a partir de convites, com a intenção de divulgar a publicação nos espaços acadêmicos por pares, assim como fora desse âmbito por movimentos sociais de formação de bases que possuíam uma inspiração feminista. Um dos exemplos com os quais podemos trabalhar aqui é o ano de 2006, com a edição do número 27, que trata a questão da crítica feminista da ciência quanto à ampliação do conhecimento científico e que foi projetado a partir das experiências de observação, inserção, análise e discussão de experiências feministas. Esta é uma das temáticas recorrentes ao longo dos anos, por exemplo, no número 10 (1998) e, ainda, no número 15 (2000) (Rêgo, 2017). Cadernos Pagu , assim como outras revistas acadêmicas feministas, incentivou e auxiliou a consolidação dos estudos na área da mesma maneira que noutros espaços acadêmicos chamados de periféricos. Isto pode ser reconhecido como uma forma de representação de uma força ainda maior na divulgação de produções acerca dos temas, do mesmo modo que tem uma relevância social, sendo avaliada como tão ampla quanto a acadêmica (Lopes & Piscitelli, 2004: 116). A revista esteve sempre ligada ao núcleo de estudos de gênero da Universidade Estadual de São Paulo (Unicamp) e, desde o princípio, divulga gratuitamente essa produção. Essa diretiva de gratuidade da divulgação científica é destacada por Iara Beleli (entrevista realizada em 27/04/2020), para quem há uma radical oposição à cobrança para acesso ao material veiculado pelo periódico devido a diversos fatores. Em especial, destaca que, na área das ciências humanas, essa medida é pouco verificada. Portanto, embora diante de cenários adversos, compostos por intensa precarização do quadro geral do fomento da ciência e tecnologia no país, associada a condições laborais cada vez mais difíceis, a divulgação gratuita de excelência científica pretende ser um compromisso ético e político, além de pressionar para que ele venha a ser exercido enquanto política pública. De início, a grande dificuldade era a operacionalização de um grande trabalho (quase artesanal), desempenhado por poucas pessoas, que, naquele momento, já acumulavam diversas tarefas dentro dos espaços acadêmicos onde estavam inseridas. Nesse sentido, são destacadas, por Iara Beleli (entrevista realizada em 27/04/2020), as horas extras relativas à recepção de material, leitura, análise, envio para 101 Patrícia Galvão é mais do que um símbolo do feminismo brasileiro. Ela foi uma mulher voltada às artes, às causas políticas progressistas, à defesa de posicionamentos livres, do ativismo em seu formato mais amplo, e implementou em sua vida as ideias pelas quais militava. Em nossa leitura, por si próprias, essas medidas já projetam a evidente intenção do grupo, uma revista consolidada no cenário acadêmico como uma das principais de sua área. 92 avaliação, contato posterior com a autora/autor, assim como processos de diagramação, impressão e, somado a isso, o envio desses materiais 102 : a revista é muito caseira [ainda em fins dos anos 1990]. Fazíamos tudo, tudo, tudo. Não tinha dinheiro, não tinha CNPq, então, era eu e mais uns colaboradores. Mas o trabalho do dia a dia, éramos eu, Adriana [Piscitelli] e a Mariza [Corrêa]. Para você ter uma ideia, nós não tínhamos nada online . Era tudo em papel, então, a gente fazia essa revista em papel, que é caro. Depois, a gente tinha uma coisa que era quase tão cara quanto, que era o correio. A profissionalização dos de edição de uma revista acadêmica, inclusive a indexação a grandes plataformas, impôs um ritmo de amadurecimento à equipe. São decorrentes desse amadurecimento a própria ideia de experiência que foi sendo adquirida a partir dessas dificuldades, assim como a associação com outras pessoas competentes na área, além de um estímulo financeiro. A entrevistada destaca a “venda” de números como um meio de manutenção dos predecessores: antigamente, a gente ia para os eventos, levava aquelas malas de revistas, procurava uma parceria com uma das livrarias, dava um percentual, quer dizer, aquele [processo] é muito trabalhoso, mas foi aquilo que nos sustentou durante muito tempo. A gente vendia revista em papel para fabricar sempre o próximo número. A revista está disponível em diversos indexadores nacionais e internacionais, o que facilita e potencializa a sua projeção. O próprio grupo constituinte participa de diversas discussões em seminários em várias contextualidades, o que auxilia nessa dimensionalidade de internacionalização enquanto critério de manutenção, assim como estimula a recepção e o convite para as pesquisas ali desenvolvidas, possibilitando a ampliação de outros olhares. Também incentiva o envio e a divulgação do que se produz e se pensa em relação a determinados temas para essas realidades nas quais estão participando. Sobre a alteração de cenários de divulgação e os desafios que representa uma publicação acadêmica de caráter feminista, Iara Beleli (entrevista realizada em 27/04/2020) afirma que, apesar de os desafios continuarem exigentes (o financiamento, a ausência de profissionalização, o acúmulo de trabalho), há espaços de mudança e ampliação de formas de atuação, como podemos observar no trecho a seguir: As ideias persistem. Esse é um campo fértil. Se a gente pensar em termos históricos, é um campo ainda muito novo, porque é 20, 30 anos. É ontem, se a gente for pensar. Então, as ideias persistem. Essa coisa de a gente pensar na importância dessas teorias, já te disse mais de uma vez, para virada epistemológica, a importância dessas teorias para a gente pensar temas e diálogos teóricos de uma maneira distinta. 102 É importante ter em mente que, inicialmente, havia apenas a condição da leitura em formato impresso. Esse aspecto demandava, para além de um tempo substancial, um investimento financeiro significativo. 93 Noutro momento da entrevista, a editora aponta a divulgação em ambientes virtuais como facilitadora não só da divulgação da publicação, mas também como uma ferramenta que auxilia na comunicação e possíveis correções, isso em comparação ao período inicial em que era publicada apenas em formato impresso: Hoje as coisas são um pouco mais fáceis, porque, enfim, qualquer erro que a gente faça, está tudo online . Mesmo que saia uma edição com algum erro, depois, é possível fazer uma correção, enfim, enviar uma correção para o próprio site ... (Beleli, entrevista realizada em 27/04/2020). A partir dessa breve descrição do processo histórico de constituição e consolidação da Cadernos Pagu , podemos perceber como se deu sua atuação como uma das mais importantes revistas acadêmicas na área tanto pela sua longevidade, como pela qualidade do que veicula. 2.3 Moçambique A academia no continente africano ainda é uma construção tardia (Murunga, 2005: 398), principalmente, se considerarmos os processos que envolvem a concepção de trabalhos sobre EMGF. Quando se discute os feminismos na África, algumas vezes, não se considera aspectos contextuais importantes e que variam significativamente para cada sociedade e sua constituição cultural, aquilo que podemos chamar também enquanto tradição (Arnfred, 2009: 153). Perceber essa realidade é também uma atribuição de feministas de fora desses espaços, principalmente, para auxiliar na própria identificação e estabelecer paridade e não apenas um olhar de distanciamento, preocupação e julgamento. Moçambique, num curto espaço temporal, passa do colonialismo português para o regime socialista, liderado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Após fins da década de 1980, integra o Programa de Restruturação Econômica do Banco Mundial (BM). As lutas feministas em Moçambique são, de maneira genérica, divididas em três grandes momentos: o período pré-colonial; a luta pela libertação; e o processo pós-independência. De acordo com Signe Arnfred (2004b: 109), durante o período do governo colonial, o mais longo dos três, a ideia de se possuía sobre o papel de colonizar estava ligada ao processo de civilizar os povos originários, “o fardo do homem branco” e a “missão civilizadora” 103 . As regras de gênero eram aquelas vivenciadas por Portugal, com o aprofundamento das questões de etnia/raça e classe, além de questões outras, nomeadamente de ordem cultural. Destacamos que as lutas estavam centradas, e não 103 Ver. Maria Paula Meneses (2004) e María Lugones (2011). Para o caso do Brasil, ver Maria Odila Dias (1974). 94 exclusivamente, no embate contra o colonialismo. Por múltiplos fatores, uma grande parte dessas ações não estão ou mesmo não foram documentadas, sendo a maior parte delas transmitida de forma oral ou consideradas enquanto lendas locais, gerando um crivo de desconfiança. A segunda fase destaca-se pela participação das mulheres na luta armada, empreendida por meio da Frelimo, notadamente em áreas urbanas do país. Após um período de instrução militar, muitas mulheres pegaram em armas de fogo a fim de garantir a segurança de suas localidades 104 . É um período contraditório, pois inicia-se com a necessidade da participação das mulheres na luta armada e, quando a Frelimo ascende ao poder, as exclui do processo decisório, o que gera uma forte sensação de traição. A terceira fase é a da tentativa de criação de infraestruturas ligadas ao enfrentamento político e social das assimetrias de gênero por meio de diversas ações e de constituição de organizações sociais governamentais, não-governamentais, nacionais e/ou estrangeiras, a fim de diminuir as altas discrepâncias nesse aspecto, especialmente em aspectos como o trabalho, a sexualidade, a família e a maternidade. Houve um momento de combate, por parte do governo moçambicano, à política do lobolo 105 . No entanto, a ideia que que acabou por ser empregada pelo governo foi a do papel da mulher na (re)produção da nação (Pinho, 2015: 170), noutras palavras, a mulher-servir, a mulher-nação, a mulher-projeto coletivizado. A partir da tentativa em acabar com os “atrasados rituais”, as pessoas passaram a exercê-los na clandestinidade, num duplo processo de resistência/manutenção e enfrentamento. Ao mesmo passo que se evidencia a incoerência quando do ingresso de Moçambique numa economia de mercado capitalista (neoliberal e predatória), acelera-se a alteração dos cenários e ordens sociais, que passam a afirmar o poder do gênero masculino na medida em que pulverizam as relações culturais de origem matrilinear. As temáticas investigadas, nesse momento, estão bastante associadas à participação de mulheres nos processos de libertação de Moçambique, seja do período colonial – num histórico mais recuado –, seja na luta armada pela independência ou, ainda, no processo de implementação do novo governo (Casimiro & Andrade, 2007: 2). Isabel Casimiro (2014a: 87-88) realiza uma síntese de muitas das visões acerca do feminismo africano. Segundoa autora, eles surgem tanto por influência do exterior (principalmente decorrentes de organizações feministas ou de defesa dos direitos das mulheres), assim como pelos contextos nacionais 104 Em larga medida, a representação da chefia familiar passou a ser exercida por mulheres, sendo essas famílias, em sua maioria, compostas por uma concentração de idosos e crianças, decorrente do grande fluxo migratório de homens para trabalhar em minas, dentre outros setores, na África do Sul. Essa medida auxiliou no ingresso de mulheres na luta pela independência (Casimiro, 2014a; First, 2015; Machel, 1973a; Manghezi, 1980). 105 Prática de casamento arranjado, acordado economicamente entre a família do noivo ou, ainda, como destacado por Osmundo Pinho (2015: 163) pelo “preço-da-noiva ou prestações matrimoniais”. É uma forma tradicional de união exercida em algumas regiões da África Austral. Para aprofundar essa dimensão social e ritualística, cf. Mia Brandel (1958), Jacimara Santana (2009), Fabiane Furquim (2016) e Ruben Taibo (2012). Signe Arnfred (2015c) também destaca essa passagem do governo local, FRELIMO, de tendência socialista para uma política mais neoliberal e a transferência de responsabilidade para a mulher, com destaque para o uso de seu corpo. 95 (em grande medida, pela ideia de um matriarcado ancestral, do mesmo modo que pelo envolvimento na luta anticolonial, muitos desses enfrentamentos podendo ser definidos enquanto movimentos femininos). Além disso, destaca a importância da subjetividade e a construção das identidades de sujeito; o papel do corpo, enquanto elemento a ser libertado de muitas prisões, inclusive de uma construção cultural como o racismo; e ainda o sentido ampliado dado conceito de cidadania, estimulando a participação das mulheres em espaços políticos institucionalizados, porém, não somente nestes. Esses elementos auxiliam na composição de um movimento com caráter mais local, comunitário, preocupado com questões da cotidianidade e calcado nas lutas sociais características da década de 1980, desse modo procurando incentivar o protagonismo dos muitos grupos, inclusive nos espaços políticos, nos anos 1990. Em Moçambique, pós-independência, as instituições coloniais são herdadas e, de certa maneira, mantidas pelos grupos que ascendem ao poder – nesse caso, os membros da FRELIMO, fundada em 1962 106 . Obviamente, não são elementos meramente de continuidade que podem ser verificados, surgindo, por exemplo, um novo modelo educativo como maneira de promover a ciência. Em 1977, Moçambique passa a ser um país ideologicamente ligado à perspectiva marxista-leninista, fazendo parte de um conjunto de países que formavam um socialismo africano potencializado por um cenário macro marcado pela Guerra Fria e muitas de suas derivações. Em relação ao período pós-independência, Isabel Casimiro (2014a: 178) expõe o papel das campanhas de alfabetização e salienta essa realidade para o caso específico das mulheres, grupo sobre o qual, após esse período, a escolarização, em números totais, passou de 3% (na década de 1980) para 15%, na década seguinte. No entanto, os dados ainda são alarmantes, pois se observarmos outros indicadores, incluindo o acesso à saúde básica e à participação política enquanto eleitas – nesse último aspecto, com efetividade de cargos legislativos a partir de 1977 –, podemos perceber que há muitos espaços para intervenção. Na década de 1980, a Liga Feminina Moçambicana (LIFEMO), o Destacamento Feminino (DF) e a Organização da Mulher Moçambicana (OMM) passam a protagonizar várias discussões, inclusive sobre o papel das mulheres na luta armada (Iglésias, 2007: 139). Em 1991, é criado o Departamento de Estudos da Mulher e do Género (DEMG), na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), no Centro de Estudos Africanos (CEA), com caráter interdisciplinar, congregando diversas ativistas acadêmicas (Iglésias, 2007: 139; Casimiro & Andrade, 2007: 7). 106 Isabel Casimiro (2014a: 186) ressalta que foi um movimento nacionalista que tratou a ideia de libertação das mulheres, sendo assim, um modelo mais novo de se conceber a luta e posterior construção social: “A Luta Armada demonstrou que um dos principais indicadores dos avanços e revezes da revolução, estava ligado ao processo de libertação da mulher. É de salientar que as mulheres utilizaram as mudanças nas ideologias de género, que tiveram lugar durante a luta, para renegociar as relações e os papéis na esfera doméstica”. 96 A incapacidade do governo, tanto por problemas internos, quanto por pressões políticas e econômicas externas, em conseguir garantir acesso a bens sociais básicos para a maioria da população do país aumenta a disparidade entre classes e entre gêneros. Esse processo acentuou-se, como nota Teresa Cruz e Silva (2002: 77-78), principalmente nas décadas de 1980 e 1990. Um dos mecanismos utilizados para ultrapassar essa situação foi a criação e o incentivo de redes de solidariedade (associativas ou cooperativas) ( idem : 80). Estas destacam-se pelos laços criados, que acabam por estimular a emancipação da população, principalmente da mais vulnerável e que não é amparada pelo Estado e que, na maior parte das vezes, é constituída por mulheres. Estas acabam formando ou acentuando os índices de informalidade exercendo empregos precários, com pouca segurança e sem incentivos além dos baixos salários ( idem : 2002: 82). Catherine Coquery-Vidrovitch (1997), em fins da década de 1990, afirma que a história das mulheres no continente africano possuía poucos registros, ou melhor, estava sendo pouco analisada. Esse dado é significativo, primeiro, devido à incipiente discussão em torno dos EMFG no continente e, em especial, no caso moçambicano; segundo, pela masculinização dos espaços, quer em termos de proporcionalidade entre sexos, quer do que se investiga, o que representa contextos mais adversos; e, terceiro, decorrente do desprestígio dos EMGF associado aos componentes do racismo e do colonialismo, ainda bastante presentes. No entanto, vale ressaltar as tentativas de rompimento que podem ser verificadas, tanto no interior da África, como de outros países. Apesar dos esforços do programa Reconstrução Nacional da Frelimo , as desigualdades de gênero continuaram altas. Com a guerra civil no país, essas políticas foram secundarizadas, ou mesmo obliteradas, havendo apenas, em 1992, a partir do Acordo de Paz, algum cenário que possibilitasse a discussão de forma sistematizada. Relativamente ao aspecto educacional do país, Samora Machel (1973b, 1974) apela para o papel transformador da pedagogia, nomeadamente para fomentar a formação das novas gerações. Ele descreve a educação enquanto elemento revolucionário, em antagonismo ao modelo implementado pelos colonos, ainda mais elitizado quando se referia ao acesso ao ensino superior, que estava relegado apenas a uma elite local. Samora Machel (1974: 3) descreve que “a discriminação social do ensino é acentuada pela discriminação racial”, sendo essa uma das reivindicações, que, associada a tantas outras demandas, desafiavam, naquele momento, a permanência do regime no poder. Durante a guerra civil, destaca Olga Iglésias (2007: 139-140), muitas escolas e centros de formação de docentes foram destruídas, dificultando ainda mais o acesso das comunidades. Professores/as foram perseguidos/as e/ou mortos, estudantes mutilados, outros eram raptados a fim 97 de engrossar as fileiras da guerra, sem mencionar os muitos casos de violação. A generalização da miséria era uma frequente realidade. Outras questões essenciais estavam estagnadas ou não existiam, fazendo com que milhões de pessoas não tivessem acesso a bens básicos, tais como saúde, justiça, trabalho (remunerado) 107 . Decorrente desse contexto, a análise das condições sociais passou a ser objeto central dos EMGF no país, incluindo temas como a saúde, a violência, a injustiça, a miséria. Isabel Casimiro (2014a: 95) chama a atenção para a situação precarizada das mulheres nas universidades africanas e aponta que esse tema é ainda secundarizado. Apesar de pretender criar uma história da África, sob pontos de vistas menos eurocêntricos, as propostas, segundo a autora, não incluíam as mulheres ( idem : 97). Isso também demonstra a dificuldade de consolidação de investigações sobre EMFG por parte dos feminismos africanos, pois a criação das bases ainda é bastante colonial e perseguida por um pequeno conjunto de acadêmicas. Inclusive, a troca de experiências pode ser observada, de acordo com Isabel Casimiro (2014a: 100), no caso do feminismo em Moçambique, através do conceito de gênero, que possui forte inspiração das feministas latino-americanas e espanholas. O intercâmbio teórico era muito maior entre Brasil e Moçambique, principalmente no envio do primeiro para o segundo, mas também merece destaque o número de autoras/es dos EMFG que publica em revistas portuguesas. Portanto, há uma troca teórica, em vários aspectos indiretos, entre os países investigados. Muitas intelectuais feministas moçambicanas aprofundaram seus estudos (na sua maior parte, mestrados e doutorados) ou trabalharam em universidades de países europeus, com destaque para Portugal. Destacamos, entre os casos de acadêmicas oriundas de países africanos com língua oficial portuguesa, Eurídice Monteiro (Cabo Verde), Inocência Mata (São Tomé e Príncipe), Isabel Casimiro (Moçambique), Maria Paula Meneses (Moçambique) e Teresa Cruz e Silva (Moçambique). Em grande parte, essas feministas trabalham com epistemologias que não compõem o mainstream acadêmico. A criação do CEA é crucial para compreender Moçambique e suas dimensões relacionais em diversos níveis. Isabel Casimiro (entrevista realizada em 05/05/2020) destaca que o CEA é pensado, durante a luta armada, por se acreditar na necessidade de ter um grupo que pudesse fazer a pesquisa e que pudesse pensar, refletir criticamente sobre a luta armada e sobre o período posterior à luta armada. Isto era o que o Aquino de Bragança sempre nos dizia, sobretudo aquele grupo que esteve em Argel e onde 107 Os temas trabalhados que mais se destacam no país são a violência doméstica (Arthur & Mejia, 2006a; 2006b; Andrade, 2009; Osório & Cruz e Silva, 2016), a violação de menores (Osório, 2012; 2011a; 2011b; 2011c), a violação (Osório, 2005a; Mejia & Arthur, 2007), a violência de gênero (Osório, 2007b), a família (Monteiro, 2007), a legislação (Arthur; Cruz e Silva; Sithoe & Mussa, 2012; 2011), a saúde, HIV (Cruz e Silva & Andrade, 2005; Arthur, 2007; Loforte, 2011), aborto (Andrade, 2007; Ustá, 2011); casamentos prematuros (Arthur, 2010); gênero e democracia (Osório, 2004; 2005b; 2005c; 2010a; 2010b), as eleições (Osório, 2005b, 2005c; Osório & Macuácua, 2014; 2015), o poder político (Osório, 2005b; 2005c; Osório & Cruz e Silva, 2009), patriarcado, cultura/tradição (Loforte, 2003; Govender, 2010; Osório & Macuácua, 2013); os direitos humanos e mulheres (Casimiro, 2003; Sithoe, 2010; Osório & Cruz e Silva, 2018), os movimentos sociais e a violência (Loforte, 2009), o ensino superior e emprego (Cumbi, 2009), a poligamia (Sithoe, 2009), as identidades de gênero (Osório & Cruz e Silva, 2008a; 2008b), a pobreza e gênero (Loforte, 2008), o poder político (Osório, 2007a), a educação e saúde sexual (Loforte, 2007), as identidades (Osório, 2006a), o matriarcado (Osório, 2006b), o feminismo (Arthur, 2005; Facio, 2006), a sexualidade (Osório, 2006c; Silva; Andrade; Osório & Arthur, 2007; Osório & Cruz e Silva, 2008a) e a economia – expropriação (Osório & Cruz e Silva, 2017). 98 estiveram também alguns brasileiros (...) [e] fê-los refletir sobre a necessidade de ter essa intelectualidade orgânica que pudesse pensar sobre o país. Há muita gente que diz: “mas então por que é que se chamou Centro de Estudos Africanos e não Centro de Estudos Moçambicanos? (...) estudar Moçambique no contexto da África Austral, porque é um subsistema. Esse subsistema da África Austral com a África do Sul como a luz era o sistema de CONSAS, Constellation of States , mais tarde SADCC, a contrapor a isso. Então, estudar os países que estavam completamente dependes da África do Sul no contexto dessa região austral da África, mas também no contexto maior do continente e, depois, do mundo dentro desta perspectiva de um sistemamundo, capitalista, etc. Então, a ideia sempre foi essa. […] Está situado aqui, tem as suas raízes em Moçambique, mas olha para mais longe, no continente, e, depois, na região. No continente e, depois, para outros países. E a revista era, sobretudo, para refletir sobre Moçambique também em relação a isso. Há, como aponta Maria Paula Meneses (2004), uma exclusão dos conhecimentos africanos das ciências, o que reforça o estereótipo de “atraso” aplicado a esses países – em especial, Moçambique – e mantém a hierarquização dos saberes cientificamente aplicados. Some-se a isso a ausência de financiamento para as investigações que é amenizada pelos usos das consultorias. No entanto, esse fenômeno auxilia numa “proletarização intelectual” que contribui para o baixo impacto social que as investigações possuem nesse cenário ( idem: 735). Sendo assim, um reforço na crítica aos modelos eurocentristas e androcêntricos deve ser uma constante na prática de quem exerce a investigação. Olga Iglésias (2007: 140) e Isabel Casimiro (2014a; 2015: 56) informam que, a partir da década de 1990, pode-se identificar, com maior objetividade, organizações feministas em Moçambique 108 . Isso foi impulsionado por legislações que asseguravam a livre associação de pessoas e facilitaram esse tipo de formação coletiva, mas não impediu o surgimento de movimentos femininos antes desse momento, que, em grande medida, lutaram pelo processo de independência do país. Alguns dos organismos foram criados sob pressão política exterior, de modo geral, forçando uma contrapartida do país no incentivo a essas associações, o que denuncia elementos autoritários do governo, além da não atenção a esses temas, tal como durante a quase totalidade do período colonial. Não obstante, outras associações de mulheres surgiram no decorrer desse processo, o que representa uma necessidade de união de forças para criar cotidianos melhores. Em 1991, é criada a Associação Mulher Livre e Desenvolvimento (MULEIDE), em Maputo, que trata das questões que envolvem os direitos humanos das mulheres. Estão presentes também outras 108 Compostas, em grande medida, também por ativistas acadêmicas, que possuem a perspectiva de empoderamento e formação política associada à construção de uma cidadania participativa. Todavia, em 1973, a FRELIMO criou a Organização Mulher Moçambicana (OMM) (Arnfred, 1991: 50) e, posteriormente, surge e União Geral das Cooperativas, ambas em Maputo. Isabel Casimiro (2015: 59) informa que, desde esse período, podem ser encontradas associações de mulheres de “caráter sócio-profisisonal”. Destacamos a PROGRESSO, criada em 1991, que não estava localizada na capital, descentralizando o processo 108 , assim como a Associação para Promoção do Desenvolvimento Econômico e Sócio-Cultural (MBEU) e a Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Mulher Rural (AMRU). Por iniciativa muito mais exterior, principalmente quanto ao financiamento, diversas organizações são criadas no país. Destacamos, também no ano de 1991, o Fórum Mulher , que possuía regularidade mensal de reuniões, com objetivos de promover a conscientização e o papel social das mulheres, montado, em 1993, sob a direção mais intensa de organizações feministas locais 108 . Para mais informações, verificar o site http://forumulher.org.mz/ e Isabel Casimiro (2014a: 273-324). 99 associações ligadas à família e ao acesso de mulheres à economia, sobretudo à sustentabilidade social. Há, nesse momento, uma relação descrita por Isabel Casimiro (2015: 60) como conturbada, principalmente entre os movimentos feministas e o governo, em grande medida pelo fato de a luta de gênero não ser um dos objetivos deste. Além disso, como noutras realidades, o apoio das mulheres foi decisivo para se alcançar várias das intenções. Posteriormente, foi negligenciado e subvalorizado. Conforme evidencia Signe Arnfred (1988: 5), o apoio das mulheres foi exercido de forma intensa na guerra. A criação de estereótipos do cuidado com o outro antes de si mesmas era incentivada para limitar os seus desejos de ascensão política por parte das lideranças mais questionadoras, que também cooptaram algumas dessas organizações de mulheres (Casimiro, 2014a: 18). Como no caso português (Tavares, 2011), a expressão feminismo não foi compreendida como forma de emancipação e foi utilizada para deslegitimar discursos e práticas. Os movimentos feministas moçambicanos procuram articular-se tanto no interior do continente africano, quanto fora dele, numa troca de experiências. Contudo, nem todas as associações de mulheres autointitulam-se feministas, o que, a nosso ver, corrobora o discurso acima e demonstra um desconhecimento do que são os feminismos, suas agendas e formas de atuação. Essas medidas auxiliam a formação de um feminismo de conotação mais liberal, como defende Isabel Casimiro (2015: 62), principalmente a ideia de defesa das pautas mais individuais, o que pode fomentar a institucionalização de uma tecnocracia de gênero. Um desses elementos é a violência de gênero, que foi apropriada como um objetivo do governo. Todavia, essa é mais uma das contradições expostas, intensificando a complexidade dessa realidade e singularizando ainda mais as práticas feministas exercidas nesse contexto. Os questionamentos das acadêmicas feministas moçambicanas evidenciavam-se no combate à poligamia, aos ritos de iniciação 109 e a outros hábitos culturais, que passaram a ser exercidos de modo clandestino (Arnfred, 1988). Muitas conferências, com destaque para a Conferência Extraordinária da Organização da Mulher Moçambicana, foram criadas para se discutir as ações que seriam tomadas, assim como as formas de abordagem, localização, dentre outros fatores. No entanto, denuncia Signe Arnfred (1988: 7-8; 1991: 49), a fim de minimizar a organização das mulheres, as medidas foram tomadas pelo recém implantado governo, dirimindo a força e a regularidade das reuniões, demonstrando uma evidente atuação conservadoras da camada política local. As lideranças da OMM, inicialmente composta por mulheres que lutaram nas fileiras da Frelimo, com a independência, foram substituídas por mulheres indicadas pelo governo. A frágil, porém, existente autonomia feminina surgida durante a 109 Os ritos de iniciação são realizados, em sua maioria, na região norte do país, como destaca Signe Arnfred (1988: 8). Podem ser compreendidos, segundo a autora, como uma dualidade de manutenção e resistência. Para Signe Arnfred (1988: 80), há uma formação de “identidade de gênero feminina coletiva forte, autoconfiança, cheia de risadas”. Esses ritos, em Moçambique, de forma geral, não se constituem com violação física e sim com educação sexual, sobretudo satisfação sexual. 100 guerra foi posta de lado, a submissão voltou a ser ordem. Todavia, enfrentamentos e resistências também são assinalados 110 . Um momento de destaque ocorre no ano de 1985 com o seminário A Mulher na Reconstrução Nacional em Moçambique , realizado em conjunto entre a ONU, a UEM e outras organizações políticas (institucionalizadas ou não), que procuravam evidenciar investigações acerca dos EMFG no país. Foi ressaltado que a formação educacional feminina auxiliava o fomento da temática e essa passa a ser uma das contribuições do evento. O CEA, localizado em Maputo, em 1989, surgiu por meio de uma associação entre algumas organizações feministas, nomeadamente, o Instituto Superior Pedagógico (ISP), a OMM, a União Geral das Cooperativas de Maputo, a Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família (AMODEFA), a Direção Nacional de Desenvolvimento Rural (DNDR) e órgãos governamentais. Como destacam Isabel Casimiro e Ximena Andrade (2007: 7), possui o objetivo de criar as bases sobre a temática nos diversos planos (macro, meso e micro). É um período de complexidade contextual para o desenvolvimento dos estudos sobre mulher tanto internamente ao país, como em outras realidades do mundo. Isabel Casimiro e Ximena Andrade (2007: 13) afirmam que as principais correntes epistemológicas trabalhadas pelas feministas acadêmicas moçambicanas, principalmente após a década de 1990, estão ligadas aos feminismos marxista, nacionalista e pós-estruturalista. De acordo com Isabel Casimiro e Ximena Andrade (2007: 4-5), há uma tentativa de introdução do conceito de gênero em Moçambique – e em outros países pobres do continente – por meio de ONG internacionais, organizações ligadas à ONU e até mesmo pelo governo local, de caráter mainstream. Por sua vez, esse conceito é definido, por muitas teóricas, principalmente do Norte epistêmico, como mais bem aplicado que a própria concepção de feminismo, pois o conceito de feminismo possuía uma forte conotação política – militante – que poderia extrair a efetiva capacidade de aplicabilidade de ideias emancipadoras de forma concreta. Essa medida, segundo as autoras, possibilitou um esvaziamento ou mesmo uma associação do gênero apenas ao sexo ou, ainda, simplificando a experiência política na discussão do conceito (gênero) utilizado, numa evidente dimensão de assistencialismo. Todavia, o grupo de ativistas acadêmicas local (aquelas que possuíam enquanto objeto de análise os EMFG em relação a Moçambique, nacionais ou estrangeiras) passam a questionar essa utilização e a aprofundar as análises, 110 Outro aspecto a atuação feminina na esfera do trabalho remunerado como um dos caminhos para se superar as discrepâncias de gênero. No entanto, como verifica Signe Arnfred (1991: 50), nas propagandas da Frelimo, as mulheres poderiam realizar tarefas consideradas masculinas, mas não se verifica o contrário, o que sublinha a ideia de acúmulo de atribuições, manutenção da dicotomia público e privado, além da estereotipação dos papéis de gênero. 107 composição feminina nestas três universidades. Na Universidade de Coimbra cerca de 46% do total de estudantes eram mulheres, sendo este o maior percentual do país. No entanto, a Universidade de Lisboa, a segunda, elas alcançam 41% e, na Universidade do Porto, 39%. Esse processo de feminização universitária também pode ser verificado em outras realidades (Nunes, 1968: 330-339). Apesar da mobilização estudantil da década de 1960, especialmente no maio de 1968 em Paris, ocorrem reivindicações com maior potencial de inserção por parte dos estudantes em Portugal, notadamente oriundas das Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, nos anos de 1962, 1964/1965 e 1968/1969, com participação de mulheres entre as pessoas que articularam. Todavia, esse processo não foi profundamente investigado, com destaque para participação das mulheres, apesar de existir material para isso. Esse momento é importante para compreendermos o que se denomina enquanto tardia – ou, como descrevem Elísio Estanque e Rui Bebiano (2007: 68) “embrionária” – organização feminista em Portugal, principalmente porque a luta antifascista era a bandeira central dos principais grupos de oposição, dos quais muitas mulheres faziam parte e onde exerciam, de modos diversos, o feminismo. Sendo assim, assinala-se a dificuldade de desenvolvimento de um feminismo de cariz radical como em outras realidades, além de a censura proibir a circulação de texto basilares do feminismo, apesar de uma parcela da população, notadamente a elite, possuir acesso a esse material. Lígia Amâncio (2000) corrobora a imagem de um tardio processo no país. No entanto, salienta a dificuldade de se autointitular enquanto feminista, especialmente diante de todos os discursivos negativos antifeministas, posto que a imagem que foi criada da feminista (enquanto indivíduo), assim como do próprio movimento feminista era a de destruidora da pátria, da família e dos padrões de moralidade. Além disso, a autora refere que esse processo antifeminista contribuiu ( idem , 2002: 57) também para a forte personalização disciplinar que caracteriza a sociedade portuguesa, especialmente pela não vivência do feminismo em sua segunda geração, pelo menos, se comparada à primeira geração no país, criando, com isso, uma espécie de fobia a participação ou mesmo a identificação com a ideia que o feminismo pode vir a representar. Não sendo essa imagem uma característica do feminismo português, a autora sublinha que, desde os primórdios do movimento, em fins do século XIX, a prática antifeminista que consiste em descredibilizar a luta política por direitos humanos mais ampliados é recorrente, sendo especialmente praticada pelos meios de comunicação associados a interesses políticos de manutenção do status quo . A discussão sobre os EMGF em Portugal, afirma Lígia Amâncio (2002: 70), datada num tempo específico – nomeadamente a segunda geração –, possui grande “défice de reflexão”. A construção feminista (a nível discursivo assim como de prática social) foi iniciada, pelo menos 108 em Portugal, mais fortemente desde o governo autoritário do Estado Novo e permeando mesmo após o 25 de Abril, inclusive pelas academias, enquanto de espaços de reprodução social. À medida que as mulheres passam a participar desses movimentos, torna-se mais visível o quão difíceis eram as formas de organização, quer de grupos feministas, quer de associações estudantis, principalmente devido ao intenso conservadorismo político do momento, também perceptível nessas associações, que, de algum modo, dificultava o acesso e a permanência das mulheres em seus quadros, notadamente quando falamos em cargos decisórios. Na década de 1980, há uma baixa representatividade feminina nestes espaços de discussão/debate, assim como a baixa disposição de espaços para intervenções e discursos nas assembleias, dentre outras (cf. Estanque, 1999). Essa prática, como já podemos perceber, não foi uma experiência isolada, pelo contrário, pode também ser verificada em outras realidades e não se limitando ao espaço acadêmico. O conservadorismo político, religioso e moral do país é fortemente atrelado a uma grande massa da população analfabeta, baseada numa economia rural, saudosista do império colonial e manipulada pela propaganda ideológica do regime. A intensificação da censura foi uma das respostas deste, transformando as feministas, dentre outras figuras de oposição, em alvo, perseguindo e, em alguns casos, detendo, dificultando a criação de uma cultura feminista, o que contribui para a lenta organização de grupos feministas. Além disso, a perseguição e as mortes promovidas nesse período impunham o medo do que poderia vir a ocorrer se fossem confrontadas com o braço armado do regime, impondo uma espécie de paralisia ou mesmo inércia na já tão frágil organização desse ativismo. Uma das respostas, nesse período, é a criação do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), em 1968, com cunho político-partidário. Além de participar, promoveu eventos que propunham também alternativas ao regime do Estado Novo, questionando outras realidades tanto das então colônias, como de outros países europeus. É relevante destacar que também houve participação de mulheres em grupos católicos progressistas, como a Juventude Universitária Católica (JUC) e a Juventude Operária Católica (JOC), além do GRAAL (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) 119 (Tavares, 2011). Ainda na década de 1960, destacam-se os colóquios que discutiram a situação das mulheres, em especial, as portuguesas. Em 1967, ocorre em Lisboa, A Mulher na Sociedade Contemporânea. No ano seguinte, outros eventos que avançam para a década de 1970. É, a nosso ver, mais uma das formas 119 São destacadas as atuações de diversas mulheres nessas organizações/associações. Demonstrando que apesar de fundamentos repressores promovidos pela ação do Estado, em diversos temporalidade, essas mulheres conseguiram adquirir conquistas concretas no caminho da emancipação social feminina no país. Isso representa a observação de compreender as contradições do modelo de Estado adotado e forçar, através de mecanismos diversos, onde essas organizações são aspectos basilares, a efetividade da luta feminista (mesmo que de modo concreto a nomenclatura estivesse em evidência (Tavares, 2003a; 2003b; 2011). Ver ex æquo , n. 12 (2005). Esse volume possui um conjunto de textos que tratam da participação de alguns nomes nestas agremiações e organizações, com destaque para Maria de Lourdes Pintasilgo. A revista Faces de Eva também possui trabalhos sobre o tema, com destaque para o número 27, de 2012. 109 de ativismo acadêmico, que busca promover a reflexão e exerce a crítica – implícita ou explícita – ao governo e suas atitudes autoritárias. Já em 1970, pode-se observar um esforço coletivo de muitas ativistas acadêmicas em criar um lastro teórico feminista, centrado principalmente na criação de biografias de mulheres, assim como de construção de uma história das mulheres não somente em Portugal, mas em suas relações, principalmente com suas possessões ultramarinas 120 . É também, em 1972 que são publicadas as Novas Cartas Portuguesas , por Maria Teresa Horta (Faustino, 2018), Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. Lígia Amâncio (1998: 77) chama a atenção à ausência de referências locais para além das Novas Cartas Portuguesas em relação à geração de pessoas que trabalhavam ou queriam trabalhar sobre a temática no país nomeadamente durante a década de 1960. Alguns fatores como o alto índice de analfabetismo no país, nesta década, associado ao grande valor simbólico do diploma do ensino superior – aspecto o que dificultava o ingresso de uma grande parque de pessoas interessadas – associado à tarde a incorporação das ciências sociais pelas universidades portuguesas (devido aos limites impostos pela ditadura que governava) podem ser tomados, conforme aponta a autora (Amâncio, 1998: 77) como condições de uma ausência para um feminismo português tanto nessa década quanto nas duas seguintes. A autora destaca “primado da lealdade às relações interpessoais sobre o respeito pelas ideias, tão característico de uma intelectualidade semiperiférica, isolada e carente de saberes e competências” ( idem, ibidem : 78-79). Na imprensa, como nos informa Tavares (2011: 194-227), algumas alterações são verificadas, principalmente em relação à discussão dos direitos das mulheres, que passam a ser mais visibilizados 121 . Um importante aspecto, assinalado por Manuela Tavares (2003b: 61), concerne a caracterização do movimento feminista português, entre os anos 1970 e 1980, ao qual “falta elaboração de pensamento e de debate sobre os feminismos por parte das organizações de mulheres”. Estaria aqui um distanciamento entre as feministas acadêmicas (teóricas) e as ativistas que não estavam nesta esfera? Manuela Tavares (2003b: 63) adverte que a baixa participação política das mulheres portuguesas, mesmo após o 25 de Abril (1974), limita um projeto de muitos anos, somando-se a uma pequena 120 Ver Ângela Almeida (1986); Anne Cova, 2010; João Esteves, 2010; Maria da Graça Dias, 1986; Célia Costa, 2010; Conceição Flores, 2010; Ivone Leal, 1986b; Natividade Monteiro, 2010; Karen Offen, 2015: 440-441; José Machado Pais, 1986; Maria Leonor Xavier, 1999. 121 Percebe-se também uma organização política das mulheres, que se inicia com o debate em torno de temas de sua cotidianidade, tais como: aborto (Abranches & Ferreira, 1986; Barradas; Santos; Duarte & Alves, 2010; Sands [ et al ], 1979; Tavares, 2003a; 2007a; 2007b), criança (Araújo, 2010; Tavares, 2010: 229), educação (Vieira, 1993); trabalho (Almeida, 1985; Ferreira, 1981; Meersschaert, 1986; Rodrigo, 1986; Ruivo, 1986), divórcio (Torres, 1996), sexualidade (religião e identidade) (Almeida, 1986b; Belo, 1986; Nascimento, 2010; Pais, 1985; Reis, 1985; Silva, 1999a; Vicente, 2010), a Guerra Colonial (Cruzeiro, 2004; Cardina, 2010; Moita, 1985; Ribeiro, 2004; Tavares, 2010: 227), violência (Magalhães, 2010; Silva, 1991), família (Almeida, 1986a; Almeida, 1993; Amâncio, 1992; Fernandes, 1994; Lauwe & Lauwe, 1965; Nunes, 1992; Rodrigues, 1983; Santos, 1967; Santos, 1969; Silva, 1963; Torres 2001a; 2001b; 2002; Wall, 1993; Wall, 1995; Wall & Lobo, 1999), novo papel das mulheres (Nunes, 1966), maternidade (Pina-Cabral, 1984a; 1984b). Esses trabalhos, em suma, visavam perceberem-se enquanto cidadãs de fato (Henriques, 2010). 110 representatividade sindical, de onde decorre o pequeno, porém, importante espaço alcançado durante as primeiras eleições (1975 e 1976). Com o 25 de Abril, inicia-se um processo mais amplo que possibilita a formação de movimentos sociais 122 especialmente ligados às causas identitárias e uma atuação política mais concreta. As discussões das feministas, durante a década de 1980, focavam, além dos temas anteriormente mencionados, os papéis que a ciência poderia obter tanto a nível teórico, quanto prático, na realidade das mulheres (Almeida, 1986c). É, por exemplo, no ano de 1985, identificado o primeiro artigo cujo título contém a expressão Feminismo: “Feminismo em Portugal na voz de mulheres escritoras do início do século XX” é publicado pela revista Análise Social , de autoria de Maria Regina Tavares da Silva. O artigo descreve a participação de feministas portuguesas na organização e implementação de práticas feministas, concentradas, em grande medida, no processo de implementação e consolidação do regime republicano. Obviamente, esse não é o primeiro material a tratar da temática, como já ressaltámos em nosso texto, porém, é significativo perceber que, após a derrubada do regime ditatorial, passa a ser permitido e torna-se uma forma de dimensionar, de outra maneira, a empreitada feminista de combate à dominação masculina. Nos anos de 1970, ocorre a criação da Comissão para a Política Social Relativa à Mulher (1973) e a Comissão da Condição Feminina (CCF) (1975), incentivo, em algumas universidades, para o aparecimento dos Estudos sobre as Mulheres, acompanhado do aumento da presença das mulheres nas academias, o que impulsiona os primeiros trabalhos na área. Na Universidade de Coimbra, em 1982, é criado o mestrado de história com um seminário sobre estudos das mulheres, Mulheres no mundo contemporâneo: história comparada . Irene Vaquinhas (2006: 13) destaca que a criação dos programas de especialização, nomeadamente mestrados, de modo geral, representava uma tentativa do governo em fornecer uma maior especialização para a população, assim como atender ao mercado de trabalho, cada vez mais exigente. Era também um rompimento com as especializações voltadas quase que exclusivamente para atender a demanda universitária, crescente naquele momento. Os anos 1990, em especial, em 1995, pode-se observar a introdução do curso stricto sensu , um mestrado em estudos sobre as mulheres, na Universidade Aberta (Rocha-Trindade; Pires, 2013). 122 Já que os demais movimentos sociais não representavam propriamente as “causas das mulheres”, a formação dos grupos demorou um pouco a se consolidar. São destacados os trabalhos desenvolvidos pelo GRAAL, REDE (de Mulheres), Associação de Mulheres a Preparar o Amanhã (Associação MAPA), União de Mulheres Alternativa Resposta (UMAR), Movimento de Libertação das Mulheres (MLM), Cooperativa Editorial de Mulheres/Informação, Documentação /Mulheres (IDM), Grupo Autônomo de Mulheres do Porto (GMP). De acordo com Manuela Tavares (2003b: 66-67), foram três as principais correntes feministas mais visíveis em Portugal: o feminismo radical, com maior atuação no campo intelectual, enfatizado pelo MLM, IDM e GMP, entre outros; o feminismo socialista/marxista, com maior expressão no debate social e realizando pressão política, destacando-se o Movimento Democrático de Mulheres (MDM), a UMAR e a Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção (CNAC); e o feminismo liberal, voltado a direitos individuais, com instituições de relevo como o GRAAL, REDE, MAPA e Grupo de Mulheres de Lourosa. Todos esses movimentos e organizações tiveram início ainda na década de 1970 ou início da década seguinte. 111 Lígia Amâncio (2003: 691) sintetiza três aspectos que descreve como centrais para a tardia (re)organização feminista em Portugal (cf. Amâncio, 2002), especialmente após o 25 de Abril, visão corroborada também por Virgínia Ferreira (2001). O primeiro está vinculado ao baixo nível de escolarização da população, destacando-se, nesse contexto, a educação feminina, a qual era pensada de outra forma, aquela que fosse condizente com a sua “natureza”. Isso serviu como uma forma de legitimação do poderio ditatorial sobre a população, porquanto a manteve sobre a égide da ideologia nacionalista. No caso das mulheres que ascendiam ao ensino superior, temos que destacar sua origem social, posto que eram oriundas de famílias abastadas (Moraes, 1996: 5). Isso é um fator que limitava a irrupção de movimentos sociais de caráter feminista popular e está associado ao “feminismo de Estado”. O segundo aspecto é a guerra colonial, que mobilizou recursos humanos – nomeadamente de jovens – e financeiros, dirimindo assim o potencial científico nessa faixa etária. E o terceiro aspecto se refere às questões e discussões sobre gênero, principalmente no interior das ciências sociais, iniciadas na década de 1980, associado a uma quase invisível mobilização feminista. Ainda salientamos a fragilidade financeira das academias portuguesas, principalmente em fins dos anos 1980 e início dos anos 1990, como destaca José Mariano Gago (1990), além da intensificação da competição entre instituições e pares que esse processo acirrou, aprofundando processos de assimetria vários, com destaque para os de gênero (Pereira, 2012a). Tudo isso nos faz reafirmar a importância de contextualizar os feminismos em suas realidades e perceber que a comparação deve levar em consideração esse aspecto, dentre outros, sobretudo porque o Brasil estava sob a égide de um processo ditatorial civil-militar (1964-1985) e Moçambique efetuava esforços na Luta Armada de Libertação Nacional (1964-1974). Virgínia Ferreira (2001: 15) aponta que a sistematização dos EMGF é um fenômeno recente em Portugal, advindo do esforço de acadêmicas das mais distintas áreas, especialmente pós-críticas, por criar mecanismos de separação e valorização de saberes que fizessem ou optassem para uma produção científica com participação feminina, rompendo com um modelo de ciência ingênuo ou meramente reprodutivo. Isso mostra, conforme refere Teresa Joaquim (2001: 78), que “o aparecimento dos Estudos sobre as Mulheres inscreve-se, do ponto de vista teórico, num movimento mais amplo que queria (re)pensar os modos de produção teórica e deste modo tentar constituir novos objectos de estudo”. Os EMGF são desenvolvidos em Portugal com forte participação do Estado (Magalhães, 2001: 35), sob influência da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (CIDM) e da participação de acadêmicas nesse espaço. Assim também serve como inspiração para a criação da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (APEM) numa tentativa de os desvincular do 112 aparato puramente estamental, ligando-se, inicialmente, ao Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC). Podemos perceber que os estudos sobre mulheres, naquele momento, não possuíam um estatuto “bem-visto” no meio acadêmico, careciam de financiamento para uma consolidação enquanto campo de estudo e atuação social, além disso enfrentavam as barreiras culturais que mais ou menos são partilhadas pelas outras realidades aqui trabalhadas. Um dos fatores para aceitação dos EMGF em Portugal, especialmente com cursos e semelhantes, como aponta Maria do Mar Pereira (2019: 175), decorre de algum capital gerado pela oferta deles, representativa, portanto, de uma pressão financeira que acabou por auxiliar. Todavia, como ressalta a autora, nem sempre essa área goza de prestígio acadêmico, principalmente pelos comentários feitos em tom de galhofa, dentre outras formas que podem ser ouvidas pelos corredores das universidades, de um modo não oficial, fora dos artigos, dos regimentos, dos documentos “oficiais”. Os EMGF ainda são um elemento “tolerável” em alguns espaços acadêmicos, por serem considerados um pouco estranhos ao espaço, uma espécie de atendimento a uma norma, paradoxal, do politicamente correto (Bourdieu & Wacquant, 2002: 17). De modo mais concreto, Maria José Magalhães (2001: 37) destaca três fatores para uma efetivação do campo: primeiro, os contatos formais com as instituições de ensino superior; segundo, a ligação com a Comissão da Condição Feminina (CCF); e, terceiro, a tentativa de reunir, em associação, esse grupo de pensadoras na temática que estava surgindo. Um aspecto que ressalta é o das áreas que mais contribuíram, nesse processo inicial: sociologia e psicologia. Naquele momento, a problemática essencial não objetivava saber se a ciência tinha, ou não, sido influenciada desde a inserção dos grupos de mulheres em sua produção de modo corriqueiro, especialmente após o fim da ditadura, mas perceber até que ponto essa influência ocorreu. Virgínia Ferreira (2001), no caso das ciências humanas e sociais em Portugal, demonstra a influência e o crescimento através da teoria feminista. Esse aspecto é corroborado com teóricas de outras realidades que também determinam esse processo (Scott, 1992b; Soihet, 1997a; 1997b) ressaltando o papel das ciências sociais e humanas, como palco das maiores e visíveis alterações. Esse fenômeno estabelece a incorporação e discussão de agendas cotidianas. No entanto, não se deve deixar de observar que ocorreram tentativas de discutir a temática, para além do espaço que era ofertado. Lígia Amâncio (2003: 692) informa que, em 1985, dois colóquios 113 foram realizados a fim de analisar a situação das mulheres no país 123 e que auxiliaram nas primeiras discussões em relação ao tema de modo mais público. É importante situar aqui o pioneirismo de Lígia Amâncio (Oliveira & Nogueira, 2018) ao desbravar uma área temática nova no país, sendo, reconhecidamente, uma das maiores referências no tema em língua portuguesa (Pereira, 2018). Vislumbram-se, durante os anos 1990, trabalhos que tratam da temática do gênero (Amâncio, 1992; 2003) – revistas da área das ciências sociais e humanas, livros, livros de atas, dissertações e teses – e passam a tratar de uma ampla gama de temas 124 . Destaca-se também a influência, no final dessa década, do aparecimento das duas publicações que iremos abordar e a criação de mais cursos de formação especializada nos EMGF. A partir de fins dos anos 1990 e primeiros anos do 2000, as temáticas se consolidam, os cursos ampliam suas ofertas, percebe-se uma maior organização de mulheres e uma ampliação das temáticas, incluindo a criação de revistas feministas e seus primeiros números, que passaram a concentrar boa parte da produção em EMFG do país 125 . Conforme aponta Maria do Mar Pereira (2013: 44), em fins da década de 1980, o “processo de Bolonha” implementou um aguçado embate entre feministas acadêmicas em busca de financiamento para suas investigações além do fomento de aulas nos cursos implementados. Uma das possíveis leituras desse processo é a de que em nome de um aligeiramento da formação atendendo, não com 123 Um deles em Lisboa promovido pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS), com o apoio da CCF, e o outro em Coimbra, pelo Instituto de História Económica e Social. Um pouco antes, em 1983 ocorre um seminário promovido pela CCF e que debate-se sobre o “atraso” da academia portuguesa nos estudos sobre gênero. Posteriormente a esses eventos, em 1994, decorreu o III Congresso Luso-Africano-Brasileiro em Ciências Sociais, em Lisboa. Em 1995 a Universidade Aberta oferece o curso de mestrado em Estudos sobre as Mulheres (Cf. Rocha-Trindade & Pires, 2013). Esses eventos demonstram a faceta interdisciplinar dos estudos sobre gênero, uma característica importante, principalmente no que se refere a ampliação de contatos com outros saberes e experiências científicas. Todavia, vale ressaltar, que se concentraram na esfera das ciências sociais e humanas, o que não significa uma exclusividade. 124 Para as questões relativa a ciência – epistemologia além de acesso e permanência de uma produção feminista – (Armstrong, 1988; Ferreira, 1988), e numa ampliação, das questões LGBT (Meneses, 2000). Debates sobre direito e justiça (Beleza, 1991), trabalho (Ferreira, 1992), educação (Magalhaes, 1998a), família (Joaquim, 1997), filosofia (Joaquim, 2001), estudos sobre masculinidade (Almeida em 1994) e violência (Portugal, 2000) e o cotidiano a partir das alterações suscitadas através das conquistas de alguns direitos das mulheres (Ferreira, 1999), inclusive a teoria feminista (Macedo, 2010; 2016) passam a ter mais destaque. No entanto, percebemos uma diminuição no fluxo de publicações em revistas não “especializadas” em EMFG, podemos atribuir esse fenômeno a partir do advento das duas revistas acadêmicas que tratam especificamente de temáticas ligadas aos estudos das mulheres? Destacam-se alguns nomes das feministas a seguir, em várias áreas assim como não se limitando apenas a segunda geração. Adriana Bebiano, Ana Gabriela Macedo, Ana Maria Braga da Cruz, Ana Maria Pessoa, Anália Torres, Conceição Nogueira, Eduarda Ferreira, Irene Vaquinhas, Isabel Cruz, Isabel Dias, Lígia Amâncio, Manuela Tavares, Maria Alice Samara, Maria de Lourdes Pintasilgo, Maria Isabel Barreno, Maria José Magalhães, Maria José Tavares da Silva, Maria Lamas, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Natividade Monteiro, Teresa Joaquim, Virgínia Baptista, Virgínia Ferreira. Em 2008, Manuela Tavares defende a tese Feminismos em Portugal (1927-2007) ; o texto é um importante levantamento e análise do processo de constituição de lutas de diversos aspectos que o feminismo – enquanto movimento – possui nessa realidade. A Universidade Aberta de Lisboa, com os cursos de pós-graduação em estudos sobre as mulheres, promovem uma maior solidificação desses estudos no país. 125 Os trabalhos sobre o papel da comunicação social (Cerqueira, 2010; Cerqueira & Cabecinha, 2012; Cerqueira; Ribeiro & Cabecinha, 2009; Neves; Gomes & Martins, 2016; Pereira, 2010; Ventura, 2010), violência (Cerejo; Teixeira & Lisboa, 2017; Gama; Veríssimo & Tomás, 2017; Macedo, 2015; Mira, 2015; Santos; Silva & Menezes, 2017; Moura; Spindler & Taylor, 2015; Neves, 2016; Neves; Cunha; Grangeia & Correia, 2015), ciência (Schouten, 2010), política (Honório, 2010; Joaquim, 2012; Morais, 2012; Pinto, 2010; Mª Santos, 2010; Santos; Cerqueira; Capella & Oliveira, 2010; Silva, 2013), gênero (Alonso, 2010; Crespo et al , 2008; Pereira, 2012a; 2012b – gênero e religião; Cavalcante, 2010; Toldy; 1999; 2008; 2010a, 2010b; 2013; Toldy & Santos; 2016), questões LGBT e queer (Almeida, 2010; Brandão, 2010a; 2010b; 2013; 2015; Cascais, 2010; Ferreira, 2017; Ferreira & Silva, 2010; Joaquim, 2010; Rodrigues, 2016; Santos & Fontes, 2001), prostituição (Ribeiro, 2008; Silva & Ribeiro, 2010; Silva, 2016; Silva; Lima; Sobra; Araújo & Ribeiro, 2016; Ribeiro; Silva; Schouten; Ribeiro & Sacramento, 2007), masculinidades (Aboim, 2008; 2010); poder (Vicente, 2002), psicologia (Nogueira, 2013), aborto (Prata, 2012), tráfico de mulheres (Clemente, 2017; Ribeiro & Clemente, 2018), mulheres imigrantes (Jesus; Ribeiro; Ferreira; Cicognani & Menezes, 2011), maternidade (Cova, 2005; Joaquim, 2006a), sexualidade (Campos, 2017). Nomes de jovens e/ou pessoas já consolidadas/os ativistas dos direitos das mulheres e luta pela igualdade de gênero são percebidos. Ressaltamos os seguintes: Ana Cristina Santos, Ana Maria Brandão, Carla Cerqueira, Maria do Mar Pereira, Miguel Vale de Almeida, Sofia Aboim e Sofia Neves. 114 exclusividade, aos ditames do mercado 126 , licenciaturas que possuíam cinco anos passaram a três, o que auxilia na diminuição da participação de jovens em unidades curriculares que ofertam temas como os trabalhados nos cursos que oferecem EMGF – em grande medida, nas disciplinas optativas. Soma-se a isto a dificuldade de se fazer uma efetiva implementação, mesmo a nível de política de Estado – quando se possui uma –, de formação de uma consciência coletiva de gênero, pois hierarquiza-se instituições e, com isso, as estatísticas passam a dominar índices em busca do ingresso de novos estudantes, sobretudo em áreas consideradas prioritárias. Os anos 1990, especialmente 1999, marca a entrada de duas publicações que têm como centrais as discussões que envolvem as mulheres: Faces de Eva: Estudos sobre a Mulher e ex æquo . A Faces de Eva é uma publicação que tem origem na tentativa de responder a uma lacuna no cenário acadêmico do país, não existindo, até aquele momento nenhuma publicação centrada nos EMGF. O projeto da revista tem início no ano de 1997 (Abreu, 2013: 97), a partir de uma série de conferências que visavam compreender melhor os estudos sobre gênero e, em 1999, é editado o primeiro volume, números 1 e 2. Ao mesmo tempo que se preocupava em atender aos rigorosos critérios científicos, e especialmente centrado nas questões do feminino, o periódico pretendia também abranger outras/os leitoras/leitores para além da esfera meramente universitária. A visibilização dos diversos lugares ocupados (ou não) pelas mulheres no processo histórico, numa perspectiva de curta, média e longa duração, é um dos elementos destacados por sua diretora, Zília Osório de Castro, enquanto centrais para a criação e publicação do periódico. Esta destaca, na “apresentação” do primeiro volume da revista, as múltiplas dimensões e alguns dos desafios que esta e o grupo que a compunha pretendiam tratar (Zília Osório de Castro, 1999: 7): A dinâmica de tempo e da vida foi alterando o estatuto naturalmente subalternizado da mulher graças à intervenção de tantas mulheres, quiçá esquecidas, e que importa lembrar. Elas vieram tornar claro que quaisquer que sejam as implicações da especificidade genética do sexo feminino, não anulam nunca os seus direitos e as suas potencialidades de seres humanos. Nesse sentido, «os estudos sobre a mulher» implicam necessariamente a história das mulheres, no duplo sentido da conscientização e da aceitação, pois embrincam num processo comum as iniciativas individuais e os reflexos sociais. Isso representava um desafio, principalmente porque o ato de visibilizar as mulheres em seus mais diversos espaços de atuação não é, necessariamente, uma tarefa das mais fáceis, especialmente 126 O estabelecimento de um programa educacional de ensino superior comum aos Estados-membros da UE representa ao mesmo tempo uma uniformização que visa condições de acesso assim como atendimento ao mercado de trabalho no espaço interno europeu. Sendo possível aos países delinear contornos mais particularizados. Desse modo, se constitui como uma política supranacional de princípios diretivos, não necessariamente obrigatórios. 115 quando as universidades eram ainda mais performáticas e genderizadas 127 . Portanto, fazer história das mulheres era criar um caminho de reconstrução para se poder analisar os contextos em que estavam/estão inseridas, a partir de localizações espaciais e temporalidades específicas. Representava também uma diversidade de aspectos com os quais se tem que lidar: atender à necessidade de constituir uma publicação desse nível e que pretendia ampliar seu público leitor, assim como atender aos cânones estabelecidos pelos próprios pares. Esse aspecto da luta política também é compartilhado por Joan Scott (1992b: 63), sendo um elemento perceptível em muitas realidades. Tal como destacam Isabel Jesus e Rita Mira (2013: 156), Faces de Eva, o nome, pretende vincar uma postura epistemológica de rotura com a produção de conhecimento geral e abstrata, procurando, pelo contrário, dar visibilidade e homenagear a multiplicidade dos rostos individuais, dos olhares e das vozes de mulheres que ao longo da História contribuíram para a sua construção. Zília Osório de Castro (entrevista realizada em 01/06/2020) informa que, a partir do momento em que a proposta do nome da publicação foi enviada ao grupo de investigação ao qual estava vinculada, houve aceitação, segundo ela, “por aliar a dimensão individual/pessoal à social/plural nos estudos das mulheres”. Sendo assim, tem início a edição da publicação, que se encontra no espectro dos estudos sobre as mulheres: “a revista Faces de Eva não pode considerar-se uma revista exclusivamente feminista já que, sendo uma publicação de estudos sobre a mulher, ou sobre as mulheres, está aberta a todas as abordagens, desde que cientificamente aprovadas”. Possui periodicidade regular, inicialmente, como descreve Ilda Abreu (2013: 97), no Centro de Estudos da Mulher, no Instituto Pluridisciplinar de História das Ideias da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A publicação está inserida na área das ciências sociais e humanidades e, no ano de 2008, passa a integrar o Centro de Estudos de Sociologia, na mesma universidade (CESNOVA). A ex æquo é uma publicação portuguesa, de caráter interdisciplinar, inicialmente pensada para ser publicada anualmente. A partir da edição 2-3 (2000), passa a ter periodicidade semestral. Ela está vinculada à Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres (APEM) e é formada por um conjunto de acadêmicas (e não somente) que possuem grande expressão no cenário teórico nacional e 127 O reforço das assimetrias de gênero ainda pode ser bastante percebido, como apontam Catarina Sales-Oliveira; Susana Villas-Boas e Soledad Las-Heras (2016) e Marcel Freitas (2018). Embora o primeiro texto trate do contexto português, podemos observar essa análise a partir do prisma dos estereótipos decorrentes do sexismo e da discriminação sistemática (Sales-Oliveira; Villas-Boas & Las-Heras, 2016: 26). Marcel Freitas (2018) conclui que ainda persistem discursos androcêntricos, além de aceleração de ritmos numa padronização masculinizadas dos modelos trabalhistas na academia. Essa afirmação corrobora a perspectiva de intensificação do trabalho acadêmico feminino e performatização desse espaço referidas por Maria do Mar Pereira (2012a; 2017), a discussão proposta por Joana Maria Pedro (2008) do trabalho voluntário, além das assimetrias em relação à administração dos tempos e da produção de conhecimentos por parte de investigadoras/es em formação (ou não), como aponta Emília Araújo (2006; 2016). Ainda, como notam Catarina Sales e Amélia Augusto, (2017: 19), há uma espécie de reprodução de contextos genderizados, o que amplia as dificuldades de superação desses quadros. 116 internacional, especialmente aquele em língua portuguesa. A revista procurou ser mais um espaço para discussão, inclusive sendo este um dos objetivos expostos no primeiro editorial (Editorial, 1999), contribuindo para a integração de especialistas na área, além de promover a intervenção social. Surge num momento em que não existiam tantas revistas acadêmicas acessíveis a um conjunto alargado de pessoas tanto a nível de submissão de trabalhos, quanto de leitura, aspecto destacado por Virgínia Ferreira. Virgínia Ferreira (entrevista realizada em 04/05/2020) no seguinte excerto destaca a importância da publicação no cenário português, assim como europeu. Ela nos diz que em relação a existência de publicações periódicas autointituladas feministas [...] praticamente não havia… mesmo revistas a nível internacional, não havia assim tantas. Lembro-me nos anos [19]90/[19]94 estar a constituir-se, por exemplo, a European Journal of Gender Studies , havia a Teoria Feminista, Feminist Theory , a Feminist Studies , havia a International Forum of Womens Studies , havia também já a Gender & Society , mas essas revistas, de algum modo, correspondem, digamos assim, resultam ou estão enquadradas em instituições muito poderosas, não é? E que a nós, nos pareciam assim um bocadinho – e são um bocadinho – inacessíveis, não é? Do mesmo modo que responder a anseios e necessidades da sociedade portuguesa que estavam em grande transformação, principalmente pela sua inserção na comunidade do euro. Para tanto ela nos diz que Praticamente, o interesse pela sociedade portuguesa começou a ser um pouco mais vivo nomeadamente depois da entrada de Portugal na União Europeia, em que muitos estudos começaram a incluir referências à situação portuguesa… enfim, estudos comparativos, por exemplo, no contexto europeu. Portugal entrava porque era mais um país, não é? Depois, no início dos anos [19]90, começamos nesses estudos comparativos a sobressair por não termos uma série de particularidades, nomeadamente muitas diferenças que temos relativamente aos países da Europa do Sul, muitas diferenças que temos relativamente à Espanha, à Itália, à Grécia, que eram os membros da União Europeia da Europa do Sul nessa altura. [...] Nós sabemos que a perspetiva de género na pesquisa publicada continua a ser deficitária, não é? Os números da “ She Figures ” mostram isso, mas eu penso que isso se verifica mais ainda ao nível do conhecimento e das redes maisntreaming , porque de qualquer maneira já há bastantes oportunidades, não é? Portanto, suportes para publicar estudos com perspetiva de género em várias revistas na academia e não só… em Portugal só existem estas duas, mas se formos aqui a Espanha, por exemplo, já existem várias, ou em Itália também não conheço muitas, por acaso. Em França existem também três ou quatro, enfim… e depois na língua inglesa existem imensas produzidas quer na Inglaterra, quer nos Estados Unidos. 123 feministas, a qual chamamos de “metodologia feminista” (entre outras ver Castañeda, 2008). O método utilizado será o de estudo de caso (Yin, 2001; Gil, 2008), que incluirá como técnicas de investigação principais a análise de conteúdo – temática ou categorial – (Bardin, 2016 [1977]) e a entrevista semidiretiva. A análise de conteúdo dos artigos trabalhados incidiu sobre os títulos, resumos e palavras-chaves de cada um dos textos. Em caso de inexistência de resumos e/ou palavras chaves, observamos a introdução dos trabalhos. Diante disso, procuramos estabelecer categorizações e ordenamentos entre os temas. Desse modo, obtivemos um conjunto de categorias e ordenamentos suficientemente capazes de dar conta dos trabalhos contidos nas revistas. As entrevistas foram realizadas com ex ou atuais editoras das publicações com o objetivo de obter algumas informações que não estão expressas em textos publicados. Do mesmo, visaram conseguir estabelecer uma relação de análise a partir da visão dessas mulheres, haja vista seus esforços de trabalho, informações do cotidiano de cada publicação e projetos que se delineiam para o futuro. A nossa investigação está delimitada ao estudo do feminismo acadêmico num espaço lusófono em um país do continente africano, um do continente americano e outro do continente europeu, nomeadamente em Moçambique, Brasil e Portugal. A escolha destas realidades se deu, em primeiro lugar, pela articulação histórica e cultural desses países; em segundo lugar, pela utilização do idioma – português – como principal, mas não exclusiva, ferramenta de divulgação de ideias. Inclusive por ser uma maneira de resistência e existência no cenário de massificação de produção em outros idiomas; e, em terceiro lugar pelo período de veiculação dos periódicos – ou temáticas – de modo concreto ser aproximado, todos estes casos estão em meados dos anos 1990. Para essa finalidade, nos utilizamos dos esforços teóricos assentados numa perspectiva póscolonialista, que, de maneira ampla, propõem-se trazer o discurso daquela/e subalternizada/o que rompe com aquele dos invasores – que procuram ser hegemônicos e vistos como fontes de única verdade – e se propõe verificar discursos e práticas, através de saberes diversos, culturais, das tradições orais, fontes escritas. De forma genérica, esses conhecimentos possuem fundamentos oriundos de localidades como África, América Latina, Índia, Paquistão, entre outras, que tiveram suas narrativas ocultadas, na maior parte dos casos decorrente dos processos de colonização de Espanha, França, Grã-Bretanha e Portugal, outrora chamadas de potências europeias imperialistas (ver Bethell, 1990a; 1990b; Bomfim, 2008 [1905]; Fragoso; Bicalho & Gouvêa, 2001; Galeano, 2014 [1971]; Hobsbawm, 2002; Lynch, 2001). O pós-colonialismo é uma teoria crítica, trabalhada a partir da década de 1970, que possui sólidas bases teóricas, em sua maioria partindo das experiências de movimentos de emancipação populares das 124 mais diversas realidades, e que analisa aspectos políticos, filosóficos, culturais, artísticos e literários, dentre outros (Said, 1990 [1978]). Uma dada valorização cultural não implica, necessariamente, descredibilizar ou mesmo hostilizar as demais. Ela pode ser utilizada como um aspecto de afirmação, demostrando traços que auxiliam sua caracterização e identificação. Desse modo, não se trata de aceitar por uma espécie de dever, especialmente pelo sentido colonial que aponta as construções de hierarquias, e sim fugir da descaracterização quando adicionamos culturas, conhecendo-as em profundidade, e procurando adaptar à realidade mais localizada. Partimos, em nossa investigação, da seguinte pergunta: Que epistemologias as feministas acadêmicas do Brasil, Moçambique e Portugal têm utilizado em publicações periódicas virtuais e como ocorrem seus desdobramentos em termos de ações políticas em suas realidades? Ainda procuramos identificar e analisar as aproximações e/ou dissonâncias, além de possíveis vazios, entre essas produções, a fim de articular ativismo(s), tanto a nível acadêmico, quanto a nível político dentre os campos de pesquisa citados. Nesse sentido, procuramos perceber como se processa a construção da produção feminista dessas realidades, nomeadamente nas três últimas décadas, um período de profunda alteração nos cenários da teoria social – decorrente também das contribuições da chamada teoria social feminista (Lovell, 1996) – e, consequentemente, das epistemologias apresentadas nesses periódicos, as quais são nomeadas enquanto epistemologias feministas (Ver. Harding & Hintikka, 1983; Alcoff & Potter, 1993; Stanley & Wise, 1993; Lennon & Whitford, 2002; Grasswick, 2011; Calvin, 2016; Lindsey, 2015).Quais de suas pautas podem ser encontradas nas publicações pesquisadas? Para isto, enquanto objetivos específicos propusemos: 1. Mapear as principais publicações feministas, em periódicos acadêmicos de acesso virtual, de Brasil, Moçambique e Portugal, a partir de 1990; 2. Identificar as principais perspectivas epistemológicas – especialmente feministas – que fundamentam o ativismo das feministas acadêmicas do Brasil, Moçambique e Portugal; 3. Comparar as temáticas que os feminismos suscitam no debate acadêmico das feministas do Brasil, Moçambique e Portugal e que convergências existem entre elas; 4. Verificar se existe articulação entre as produções feministas científicas de acesso virtual. 125 Baseado no exposto, para além do compromisso e do engajamento político, pretendíamos compreender se existem articulações entre essas produções, uma espécie de ativismo comum, e se ocorre algum diálogo entre estes trabalhos e, havendo, como podem promover uma alteração no cenário de hegemonismo das academias – de produção, de idioma, de teoria –, representado, em sua maioria, pelas academias do Norte – global e teórico –, além do androcentrismo, elemento bastante presente no contexto científico. 3.1. Delimitação do Objeto de Investigação Para tal finalidade, iremos investigar as duas mais antigas publicações periódicas acadêmicas feminista virtuais de cada realidade investigada – Brasil e Portugal –, onde esse critério conseguir ser atendido, haja vista realidades socioculturais e acadêmicas díspares, nomeadamente, a partir do processo de implementação, execução e fomento das ciências, universidades e/ou centros de pesquisa e grupos de investigação. No caso de Moçambique a publicação não é autointitulada feminista, no entanto possui trabalhos e contributos significativos, sendo um caso analisado. No quadro de nossa investigação, procuramos caracterizar o modo como o ativismo feminista se manifesta por meio de suas publicações, nomeadamente em periódicos acadêmicos, na medida em que a dimensão da divulgação é carregada de posicionamento político 130 , sendo destacada, inclusive, nos editoriais ou artigos de apresentação de algumas delas (First, 1980; Lavinas, 1992; Piscitelli, 1993; exæquo , 1999). Esses trabalhos, de forma geral, argumentam quais as contribuições que os diversos feminismos, com destaque para o acadêmico (Harding, 1996), oriundos de múltiplas concepções epistemológicas nas realidades investigadas (Brasil, Moçambique e Portugal), trazem para uma efetiva mudança e introdução de novas categorias e problematizações 131 . O uso analítico do conceito de gênero trouxe uma valorização, ampliação e significação para as críticas em áreas onde foi aplicado, porém, destacamos o caso particular da sociologia (Scott, 1990; Schouten, 2011; Walby, 2011). No que lhe concerne, a introdução da categoria gênero promoveu um denso impacto para a ciência. A marca é indelével e, além disso, dificilmente ocorrerá um retrocesso em seu uso (Cobo, s.d., p. 8), o que não elimina a possibilidades de mudanças. No entanto, essa ainda é considerada, por muitos teóricos/as, como uma discussão secundarizada. Apesar de discordarmos dessa afirmação consideramos uma condição fulcral aos chamados estudos de gênero a 130 Ver. Ferreira, 2001; Joaquim, 2004; Lopes & Piscitelli, 2004; Maluf, 2004; Melo, 2003; Minella & Grossi, 2003; Silva, 2013. 131 Ver. Amâncio, 2003; Casimiro, 2015; Costa, 2005; Narvaz & Koller, 2006; Pereira & Santos, 2014; Scott, 1990. 126 interseccionalidade entre categorias, para se compreender da melhor maneira possível o fenômeno que se busca investigar. Em pesquisas previamente realizadas em diversos bancos de dados, nacionais e estrangeiros 132 , não encontramos menção a um feminismo lusófono propriamente dito, pelo menos com essa nomenclatura. Tampouco, acerca da produção feminista, em nível de comparação, das três realidades indicadas. Contudo, referências, textos, discussões e algumas análises nos servem enquanto embasamento, pistas de onde podemos iniciar um processo de aprofundamento na temática. Embora não se utilize a expressão de feminismo lusófono, não podemos negligenciar toda a produção em língua portuguesa, por sua dimensão/escala, problematização, raio de atuação e temáticas empreendidas. A discussão centra-se então na relação existente ou não entre os modelos de feminismos adotados pelas realidades investigadas. Para tanto, passamos a destacar alguns textos, feministas, que nos auxiliam nessas discussões iniciais. Em relação ao feminismo português, destacam-se os textos de Manuela Tavares (2011) e Rosa Monteiro e Virgínia Ferreira (2016). O primeiro aponta um certo “atraso” no feminismo português devido ao processo ditatorial (1929-1974) que impediu o fomento das ciências sociais, embora não se limitando a essa área de excelência do chamado feminismo acadêmico. Essa dificuldade fez com que o país demorasse a implementar cursos de Estudos sobre as Mulheres, nomenclatura que retrata uma clara influência anglo-saxã. O estímulo aos estudos feministas foi, mais tarde, incentivado pelo Estado, o chamado “feminismo de Estado”, sugerindo uma ausência de articulação de um movimento feminista português. O segundo texto citado confirma esses dados, além de acentuar a dificuldade de se estabelecerem efetivas políticas de igualdade de gênero pelo Estado português. Fruto dos estudos feministas, em fins da década de 1980 e início dos anos 1990, destaca-se o impulso dado às publicações feministas, especialmente dirigidas por acadêmicas feministas, em sua maioria no interior das ciências sociais. Em relação ao desempenho político e acadêmico realizado pelas revistas feministas, destacamos os textos de Virgínia Ferreira (2001), Luzinete Minella e Mirian Grossi (2003), Jacira Melo (2003), Sônia Maluf (2004), Teresa Joaquim (2004), Maria Margareth Lopes e Adriana Piscitelli (2004) e Carmem Silva (2013). Estes textos destacam as contextualidades de Brasil e Portugal e versam sobre compromisso político (relação entre academia e movimentos sociais e/ou sociedade organizada, que, por si só, pode ser compreendida enquanto ativismo/militância), a reflexividade, o reconhecimento, a linha editorial, o 132 Os bancos de dados pesquisados são: SciELO , Scopus , Web of Science e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, entre os anos de 2018 e 2019. A pesquisa consistiu em procurar identificar o uso da expressão feminismo lusófono em qualquer parte do trabalho (título, corpo do texto, resumo, palavras-chaves), tanto em artigos ou mesmo em dissertações e/ou teses. 127 fomento (sustentabilidade) por meio do incentivo às publicações, com enfoque em aspectos relacionados a dificuldades encontradas. Essas publicações desempenham um papel importante na implementação de organismos de combate à violência feminina e de gênero, no incentivo à construção de políticas públicas, assim como para a efetivação de uma ampliação teórica do feminismo como um todo e, em grande medida, do feminismo acadêmico. Quanto à conjuntura de Moçambique, não foram identificadas publicações periódicas autointituladas feministas em ambiente virtual. Em grande medida, isso deve-se à diferente maturação das realidades feministas dos países investigados pelos processos sócio-históricos que atravessaram nas últimas décadas. Esse fato não implica afirmar que não existam trabalhos com caráter feminista. Pelo contrário, há discussão sobre a temática, porém, está dissipada em números específicos sobre o assunto, nas revistas acadêmicas locais assim como em periódicos de outros países. Os textos referidos aqui abordam, de forma geral, questões da cotidianidade feminina, tais como trabalho, violência (doméstica), aborto (regulamentação), maternidade, sexualidade, entre outras. Diferem das publicações brasileiras e portuguesas no sentido de que não existe uma linha editorial autointitulada feminista, sobretudo em língua portuguesa, que permita classificar essas publicações como tal, da mesma maneira que as demais realidades investigadas. Essa dimensão de autoidentificação é latente nas linhas editoriais dos periódicos trabalhados desde seus primeiros números ( e.g. Cadernos Pagu , ex-æquo e REF ). No caso de Moçambique, não encontramos revistas feministas nos moldes das demais citadas, o que não significa que não haja produção dessa perspectiva, no entanto, destaca-se a publicação Estudos Moçambicanos 133 , vinculada ao Centro de Estudos Africanos e a Universidade Eduardo Mondlane, que possui periodicidade desde 1980. Essa é uma revista acadêmica ligada às ciências sociais, com leitura marcadamente marxista (First, 1980: 2). Acerca da articulação das análises feministas africanas em associação com as teorias póscoloniais, destacamos os trabalhos de Signe Arnfred (2004a), Eurídice Monteiro (2009; 2016), Sónia Nhantumbo e Maria Paula Meneses (2005) e Isabel Casimiro (2015). Signe Arnfred (2004a) versa sobre as contribuições das teorias de gênero na realidade moçambicana, sobretudo a partir de uma ótica póscolonial, com destaque para as questões do trabalho, da família, da maternidade e da sexualidade, essa última com enfoque nas taxas de HIV. Ainda demonstra que existe um longo caminho a ser percorrido, porém, que alguns processos importantes estão sendo levados em consideração, como, por exemplo, a discussão da participação das mulheres na política, elemento em destaque também no segundo texto 133 Todos os números disponíveis e que serão utilizados nessa investigação estão sob consulta em http://www.mozambiquehistory.net/estmoc.php, acessado em 27 de dezembro de 2018. 128 citado. Eurídice Monteiro (2009, 2016) assim como Sónia Nhantumbo e Maria Paula Meneses (2005) sublinham a ideia de colonização interna e externa, além da efetividade da participação de mulheres na política, especialmente com a criação de políticas públicas que visem a ampliação e a participação delas nestes espaços decisórios. Além disso, tratam da ideia de mestiçagem traçada pelo processo de colonização portuguesa e as relações de poder estabelecidas em torno de tais questões, frutos de uma análise feminista e póscolonial. Isabel Casimiro (2015) destaca o percurso realizado pelos estudos de gênero e feminismo, apontando a ausência de investimentos maciços nessa área, além das “fases” por quais as epistemologias e os ativismos se desenvolvem, inseridos num contexto político social e histórico indissociável. Evidencia as contradições e procura transformação, por meio de ações populares e das discussões realizadas, por exemplo, no âmbito do Fórum Mulher , que objetivam, dentre outros fatores, ampliar o movimento e atuar na libertação de opressões das mais diversas formas. Destaca, ainda, a implementação do movimento feminista em Moçambique, sua diversidade e atuação a partir da década de 1980. Diante desse breve quadro, podemos perceber que existem limites para a realização de nossa investigação que são tanto de ordem local, em função das experiências cotidianas independentes dos países apontados, quanto de ordem coletiva, no que se refere à articulação entre elas. Dentre os limites de ordem local que estamos considerando, incluem-se os aspectos de financiamento (seja governamental ou de órgãos independentes, tais como: movimentos sociais, Organizações Não Governamentais - ONG, agências de fomento à pesquisas); políticas de educação a partir de alterações em suas estruturas curriculares mais amplas, tanto nos níveis mais básicos da educação assim como no ensino superior, com a inclusão de temáticas que discutam as inovações trazidas pela teoria social feminista (Lovell, 1996), além das teorias pós-colonialistas, assim como do pós-estruturalismo, não negligenciando as contribuições anteriores, porém, incentivando e ampliando a discussão, e fornecendo substrato mais sólido nas formações; e discussões políticas em torno de agendas inclusivas, sobretudo advindas das diversas formas de ativismos. Já os limites considerados como sendo de ordem coletiva estão ligados, nomeadamente, à articulação de uma produção científica, em nosso caso, feminista, de língua portuguesa e militante. Salientamos a dificuldade que é produzir saber em academias consideradas periféricas (Adelman, 2007) utilizando-se da língua portuguesa como forma de expressão desses saberes. Essa perspectiva representa, ao mesmo tempo, um desafio para adentrar ao espaço do mainstream internacional, assim como pode ser considerado uma fonte de resistência à tendência de homogeneização idiomática representada pelas publicações em língua inglesa. 129 O exposto traduz um desafio na combinação entre essas produções investigadas, que se torna um dos elementos centrais de nossa pesquisa. Para a constituição do corpus de documentos, iremos pesquisar duas publicações periódicas acadêmica disponíveis em ambiente virtual de cada conjuntura exposta onde esse critério conseguir ser atendido, haja vista realidades socioculturais distintas, principalmente, no processo de implementação e fomento das ciências que possui perfis diferentes, oriunda, nomeadamente, de complexos processos políticos de incentivo e uso do conhecimento. Isso se refere, de maneira direta, a manutenção, financiamento, distribuição e estímulo as publicações, seja por parte de organismos governamentais (universidades e agências de pesquisas – nacionais ou internacionais), decorrente de ONG ou ainda de movimentos sociais. Assim, esses periódicos serão primeiramente identificados seguindo uma dupla categorização pelo fato de as realidades investigadas possuírem uma diferença considerável em relação à produção das publicações. Classificamos nossos objetos de estudos, enquanto medida de delimitação dele, por intermédio de uma dupla categorização, que aqui estará dividida em dois grupos A e B. Sendo primeiro (A) relativo às publicações de Brasil e Portugal, considerando que possuem realidades acadêmicas mais homogêneas e o segundo (B) formado por Moçambique, com um processo de implementação de um conjunto de universidades mais tardio, se comparado aos já citados. Esse duplo critério não inviabiliza a produção africana (em menor número, e não tendo sido possível, até o momento, identificar periódicos autointitulados feministas) em detrimento das demais. Parece ser, aliás, esta forma a única verificada com a finalidade de alcançar atender aos objetivos de nossa investigação, demonstrando a incipiência das publicações inteiramente feministas acadêmicas desses países. A partir disso, estabelecemos critérios que são, para o grupo A, 1. Ser uma publicação autointitulada feminista, definida em sua linha editorial, e conter todo acervo em ambiente virtual; 2. Ter iniciado sua periodicidade a partir da década de 1990, procurando as que iniciaram esse processo e que estejam em atividade, pois compreendemos que esse foi um período de um aumento no número de trabalhos relativos à teoria crítica feminista e maior utilização da categoria gênero. Em outras palavras, um aprofundamento dos conceitos, métodos e discussões feministas, principalmente, nas academias do ocidente; 3. Possuir boa avaliação, pela comunidade acadêmica, por seus pares, pelos indexadores; 4. Possuir relevância no cenário de produção acadêmica nacional e internacional; 130 5. Haver, majoritariamente, em suas contribuições artigos em língua portuguesa. Mediante essa observação, de forma preliminar, encontramos quatro publicações para o grupo A. Duas delas no Brasil e duas em Portugal, são elas: a Revista Estudos Feministas ( REF ), ligada a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Cadernos Pagu , vinculada a Unicamp; ex-æquo, publicada pela Associação Portuguesa de Estudo sobre as Mulheres (APEM) , e a revista Faces de Eva: estudos sobre a mulher , pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Todas estas tiveram início na década de 1990. De modo mais preciso, a REF em 1992, Cadernos Pagu em 1993, a ex-æquo em 1996 e a Faces de Eva , em 1999. No entanto, a partir do refinamento dos dados Para o grupo B, traçamos os seguintes critérios: 1. Ser uma publicação onde feministas (autointituladas) publiquem suas análises/discussões sendo uma publicação que possua materiais oriundas das ciências sociais; 2. Ter iniciado sua periodicidade durante a década de 1990 e está disponível em formato online; 3. Possuir uma periodicidade de pelo menos 20 números publicados; 4. Apresentar contribuições em língua portuguesa. Atendendo aos critérios apresentados encontramos a publicação Estudos Moçambicanos , publicação da década de 1979-1980 e que possui, em sua origem, uma forte conotação marxista, nomeadamente, nos primeiros números, algo que será alterado com o passar do tempo. Ela além de ser um periódico acadêmico moçambicano, vinculada a Universidade Eduardo Mondlane e seu Centro de Estudos Africanos, com essa conotação que publica material referente as ciências sociais, possui uma forte presença de estudos feministas e de gênero. Tem seu primeiro número publicado em 1981 e o último disponível é de 2014, somando, ao todo, 23 edições. Após esse processo de identificação de periódicos e sua seleção, estabelecemos a análise de todos os números das publicações para as revistas do grupo A (desde sua veiculação até o último número publicado de 2019), nas seguintes seções 134 : artigos livres, dossiês, estudos, estudos e ensaios e números temáticos. Para o grupo B, foram verificados, além da identificação do periódico em destaque, todos os seus índices, desde 1980, e a partir disso, analisar os volumes que veiculassem artigos que 134 Há ainda uma pequena variação de nomenclatura entre publicações e em suas diversas temporalidades, já que elas possuem no mínimo 20 anos de existência. Desse modo procuramos perceber estas alterações nas definições que foram atribuídas e manter o critério de seleção de material para todos os anos indicados. 131 tratem sobre a temática dos EMGF, o que nos deu um recorte a partir de 1991 (até 2014, ano do final de sua atividade). Nesse último caso, além de suas linhas editoriais feministas, e a depender do quantitativo de material encontrado, ressaltamos que será observada a presença dessas publicações nas seções de artigos livres (nela não identificamos dossiês ou semelhantes). As publicações que compõem o Grupo A possuem dois endereços para consulta, um de domínio próprio do grupo, núcleo e/ou associação e outro ligado a plataforma de indexação Scientific Electronic Library Online ( SciELO) , no caso desta última as edições não são encontradas em sua totalidade, em relação aos seus números iniciais . O periódico que integra o Grupo B encontra-se disponível a partir de um site de organização pessoal que facilita a consulta de um amplo conjunto de documentos acerca da história política, cultural e social de Moçambique, inclusive a totalidade do acervo consultado. Esse primeiro conjunto de dados estará expresso na tabela 4. Sintetizamos as informações sobre os dois grupos na tabela a seguir: Tabela 4 - Indicação de publicações por grupos, endereços eletrônicos e disponibilidade de acesso ao acervo (pesquisados em maio de 2020). Publicação Disponibilidade Números Artigos Anos de consulta Endereço próprio Indexador ( SciELO ) Grupo A Revista Estudos Feministas Todos os números Desde 2001 – volume 9 72 976 1992-2019 Cadernos Pagu Todos os números Desde 2001 – volume 16 54 713 1993-2019 Faces de Eva Consulta dos índices135 Desde 2014 – número 32 42 248 1999-2019 ex æquo Todos os números Desde 2008 – número 17 39 382 1999-2019 Grupo B Estudos Moçambicanos Todos os números 6 15 1991-2014 O conjunto de dados ora trabalhados pode ser compreendido enquanto uma das expressões de contribuição para a criação de um alicerce teórico e metodológico dos EMGF nos países aqui verificados – sendo estas as primeiras a veicularem integralmente textos da área ou mesmo as únicas nas conjunturas indicadas –, além de fomentar essas discussões em caráter mais localizado em múltiplos aspectos. Adicionalmente podemos perceber por meio do volume de suas publicações o vigor que representa a temática, mesmo diante das adversidades que representaram as suas implementações e, 135 Os bancos de dados das publicações aqui analisadas a que tivemos acesso estão primordialmente disponíveis em linha onde uma significativa quantidade ou até mesmo a totalidade dos volumes encontram-se sob consulta pública e sem custos pecuniários, com exceção da revista Faces de Eva que possui disponibilidade em ambiente virtual a partir do número 22, pois que até aqui trabalhavam apenas com as edições impressas, para as demais todos os números podem ser acessados integralmente e livremente. No entanto, mesmo os números editados antes de uma dupla veiculação (impressa e virtual) para as demais revistas, passaram por processo de digitalização e podem ser consultadas na íntegra. Apenas as publicações portuguesas ainda possuem formato físico em suas edições, associados ao já mencionado modelo cibernético. 132 em alguns casos, ainda o são, notadamente diante de uma indefinição de área de conhecimento, manutenção, incentivos (estes podendo ser de ordem financeira ou até mesmo acadêmica), consultas, impacto, referenciação entre outros fatores. Diante do quadro apresentado estabelecemos nosso volume de material trabalhado, sintetizado em 213 números de revistas que somam 2334 artigos. O volume total dos dados investigados podemos identificar que as revistas brasileiras REF e Cadernos Pagu concentram 72,37% do volume total de casos investigados, seguido pelas publicações portuguesas Faces de Eva e ex æquo com 26,99% e em terceiro, a experiência do periódico Estudos Moçambicanos com 0,64%, num lastro temporal que abrange 28 anos. Consideramos que essas informações são bastante representativas do cenário acadêmico onde estão inseridas estas publicações, assim como as dimensões que os países possuem, em diversas escalas, que vão desde a sua própria geografia até mesmo da rede de ensino superior que possui com acesso, permanência e qualidade, fomento de políticas públicas de paridade entre gêneros e as relações que estabelecem com outras conjunturas, instituições, organizamos e/ou centros de investigação. Associamos a essa discussão a introdução dos EMGF nas experiências analisadas e todo processo de tentativa de criação de substrato e reconhecimento. Sendo assim, desde o início dos anos 1990 as revistas brasileiras começam a publicar, dois ou até mesmo três números por ano. No que se refere a REF ela tem início em 1992, com a publicação de um volume. No ano seguinte, 1993, dois e em 1994, três, sendo esse um especial (2ª semestre – Colóquio Internacional Brasil, França e Quebec). Entre os anos de 1995 e 2003 são editados dois números anuais. A partir de 2004 até o presente são três as edições anuais, o que forma um conjunto de 976 artigos investigados. Ao passo que no caso de Cadernos Pagu que inicia em 1993 com um número, segue de 1994 até 2015 com dois números por ano, quando não com números duplos, esses casos ocorreram em 1996, 1997, 2002. Em 2001 houve a publicação de apenas um volume, seguido por três no ano seguinte. A partir de 2016 são publicadas três edições anuais, finalizando o grupo de 713 trabalhos. As revistas portuguesas publicam dois números por ano, Faces de Eva o volume 1-2 em 1999, a exceção é o ano de 2003 com o número 10, todos os demais anos a publicação manteve a regularidade de duas publicações. Em 2019 além dos dois números habituais um número extra também foi analisado, num total de 248 trabalhos. A ex æquo ocorre de maneira semelhante, o volume 1 em seu primeiro ano, no segundo ano o volume 2-3, todos os demais anos com duas publicações anuais, com a ressalva 235 investigação, sociedade organizada em geral e respectivos governos. Nesse caminho passamos a apontar alguns desses desafios que observamos em relação ao cenário de nossa investigação, são eles: impulso na divulgação tanto entre academias (decorrente de sua comunidade integrante) quanto fora desse espaço. Para isso utilizando-se de diversos mecanismo. Isso pode ser vivenciado através de uma “associação” entre periódicos, para além de indexadores. Acreditamos que auxiliaria na promoção de diversos eventos e troca de ideias entre realidades e projeção noutros cenários menos evidenciados ou mais fechados a modelos não tão estandardizados; atração e consolidação de um público leitor, cada vez mais dinâmico, e que procura, a partir de diversos meios de informação, a aquisição de conhecimento de maneira mais acessível e imediata; diante deste último aspecto apontado, percebemos que uma simplificação no uso da linguagem utilizada, no sentido oferecer a quem procura, informação compreensível. A construção desse caminho pode oferecer e estabelecer tanto uma proximidade e identificação com o tema, como garantir que o que está sendo veiculado possível fundamentos sólidos. Criando assim aspectos de representatividade para além do objeto do texto, numa espécie de fidelização de um público leitor e, ao mesmo tempo, possível promotor das ideias veiculadas, por meio da materialização de ações. Isso faz parte de um processo macro de concepção de educação não-sexista; medidas de tradução, respeitando ideias e formatos de linguagem, ampliando assim espaços de ocupação em cenários de profunda competividade acadêmica. Que auxiliam a ampliação de trabalhos, em vários níveis de construção; apesar de avanços apontados ainda podemos considerar a efetivação da interdisciplinaridade entre áreas um elemento desafiador, de modo muito concreto, nas chamadas ciências duras; o espaço acadêmico ocupado por mulheres e por mulheres feministas, com promoção de equidade nestes espaços, que faz parte de uma política muito mais ampla do que aquela que trabalhamos aqui; o choque entre feministas (a nível político e epistemológico). No caso das revistas analisadas esses aspectos não foram objeto de análise e questionamento profundos. No entanto, acreditamos que a indicação pode ser importante em algum nível. Portanto, a conciliação entre feministas de várias gerações e os choques que causam entre si. Há diversas leituras aqui, algumas delas salientam uma espécie de corporativismo, de domínio teórico, de perda de protagonismo direto assim como de narrativa (na maior parte das vezes advindo da legitimidade de luta e construção de carreira, em vários espaços e áreas, que remontam ao pioneirismo das construções). Por outro lado são questionados diversos papéis, destacamos aqui a construção de memória. Além disso, uma ausência de domínios de técnicas (entre as gerações), a primeira sobre a tecnologia da informação e acessibilidade a novos meios, principalmente por estarem nos espaços acadêmicos e procurarem uma legitimidade institucionalizada além da formação de bases. Já para a segunda, a agilidade na resolução de problemas 236 considerados demasiados longos, possuindo facilidade de comunicação o que pode gerar uma superficialidade de conceitos e teorias, além de uma difusa organização, não encaixada em moldes até então visualizados. Portanto, diante desse processo o aprender com e entre gerações é uma condição – fundamentada numa espécie de dualidade/contradição – para a transformação e continuidade dos feminismos combativos em nossa era; coletivização e individuação de lutas, um dos aspectos da liquidez da contemporaneidade e diversidade de agendas; permanente estabelecimento de contatos com estruturas não necessariamente acadêmicas, para além da utilização de dados adquiridos, sem perder com isso a precisão do apurado rigor científico que os trabalhos (artigos, relatórios, dissertações e teses) exigem, além do compromisso social e político. Está aqui um dos elementos com os quais teremos que lidar, especialmente em momentos de descrença cada vez mais crescente em torno conhecimento científico, numa tentativa de descredibilizá-lo; maior profissionalização das publicações, decorrente da experiência adquirida, pesquisas, adequação as normas de grandes indexadores, somada a rotineira procura por parte de investigadoras/es fez com que elas passassem a ser referenciais em seus campos de estudos, não apenas em suas conjunturas nacionais. Além disso, potencializaram uma construção, sedimentação do que chamamos em nosso texto de feminismo lusófono. A procura pelos materiais publicados decorrente da expansão da área por meio da visualização e interesse crescente, advindas tanto de meios acadêmicos assim como de fora dele, é uma outra característica de destaque que as publicações trabalhadas possuem, nas três esferas. Esse conjunto de fatores, não necessariamente somente indicados pelas entrevistas, também pode vir a ser utilizado como critério de explicação para o longo êxito dos periódicos, não somente da área temática assim como de suas publicações em várias escalas, para mais da longevidade dessas publicações. A socialização de conhecimentos é uma das maneiras percebidas que podem auxiliar no avanço das teorias e práticas feministas e não-sexistas. Especialmente quando aplicadas ao meio educacional, este de modo específico formal, no entanto não apenas restrito a essa concepção, cria outros espaços de discussão e formação de saberes. Potencializando assim a crítica de temas e o aprofundando das concepções e práticas de educação, assim como o próprio ativismo acadêmico, exercido em diversos meios e realidades, contextualmente aplicados, é um dos seus principais exemplos exitosos. O desafio é pensar no coletivo, em ter atenção da subjetividade seja por meio da revisão e ampliação dos indicadores ou ainda alteração intervenção nesse contexto, que é um dos componentes do conhecimento científico. Além destes a nível administrativo os planos de igualdade de gênero podem ser um caminho, no entanto, também devem estar constantemente e amplamente sendo avaliados, inclusive em saber quais os impactos que possui política que os direciona. 237 São diversos os fatores que contribuem para aprofundar a dificuldade de construirmos sociedades baseadas em princípios nãos sexistas, citamos alguns deles: a violência, exercida em suas mais variadas formas de manifestação; a desigualdade social crescente; o analfabetismo ou mesmo a dificuldade em se obter uma educação pública de qualidade; ausências de políticas públicas eficazes de combate à miséria, à pobreza e à exploração de trabalho (sexual, infantil); falta de cooperação, em escala macro, entre os países, especificamente por meio de práticas exitosas. Além destes o acesso e a permanência ao ensino superior dificultado, quer pela escassez de vagas, ou mesmo pelo quantitativo juvenil de gravidezes na adolescência etc.; fomento da participação feminina na sociedade entre outras questões são aspectos que devem ser, cada vez mais, observados e assim procurar respondê-los de maneira a tornar equitativa a participação numa sociedade concreta. Essa sim é uma árdua tarefa, no entanto, há evidentes sinais de possibilidade de mudança, de enfrentamento e, em nossa leitura, de construção dessas alterações, em diversas escalas. Nos movemos, enquanto isso, resistimos e, mais que isso, existimos, apesar de retrocessos, procuramos não desanimar e com isso avançar, no enfrentamento, na construção equânime e no aprendizado cotidiano das relações que inspiram e ativam as utopias, procurando assim romper com os grilhões que insistem em aprisionar e determinar os caminhos, por isso mesmo, concebemos que as rotas devem ser de escolha própria, mediante a libertação trazida por meio do conhecimento e da experiência de vida. 238 Referências. Aboim, S. (2007). Masculinidade hegemónica e pluralidade nao masculine: rumos a novos hibridismos do género. In. Aboim, S. Et al. O que é masculinidade? Lisboa, Escolar Editora, pp. 11-47. Aboim, S. (2008). Masculinidades na encruzilhada: hegemonia, dominação e hibridismo em Maputo. In: Análise Social , v. XLIII (2º), pp. 273-295. Aboim, S. (2010). Plural masculinities: the remaking of the self in private life. Surrey: Ashgate. Abrams, K. (1994). 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