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Três histórias, três memórias: casos clínicos do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira no final do século XIX

Candeias, Analisa; Sá, Luís; Esteves, Alexandra Patrícia Lopes

Abstract

A 24 de março de 1883 foi inaugurado, no Porto, o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, por indicação testamentária de Joaquim Ferreira dos Santos. Este hospital foi o primeiro hospital psiquiátrico a ser construído de raiz em Portugal, encontrando-se na vanguarda da assistência aos alienados, e beneficiou do médico António Maria de Sena como diretor clínico. O objetivo deste trabalho passa por apresentar três casos clínicos de alienadas que foram internadas voluntariamente no Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, aquando a sua inauguração. São três histórias e três memórias: Júlia Rosa, de dezassete anos, casada e meretriz; Rosa Corrêa, de cinquenta e dois anos, viúva e natural da Régua; e Francisca Thereza de Jesus, de quarenta e dois anos, solteira e criada de servir. Foram três casos clínicos com diferentes caraterísticas, embora apresentando analogamente sintomatologia de delírio, comum a alguns alienados admitidos à época no Hospital.

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ANA LEONOR PEREIRA JOÃO RUI PITA (Eds) HISTÓRIA INTERDISCIPLINAR DA LOUCURA, PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL X COIMBRA SOCIEDADE DE HISTÓRIA INTERDISCIPLINAR DA SAÚDE – SHIS CENTRO DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES DO SÉCULO XX DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA-CEIS20 / GRUPO DE HISTÓRIA E SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA – GHSCT 2020 2 Colecção: Ciências, Tecnologias e Imaginários. Estudos de História - séculos XVIII-XX Directores: Ana Leonor Pereira; João Rui Pita A colecção “Ciências, Tecnologias e Imaginários. Estudos de História – séculos XVIII-XX” pretende reunir estudos originais de cultura científica na época contemporânea, especialmente nas áreas da história interdisciplinar das ciências da vida e das ciências da saúde. Nº 17 NOTA: Os textos publicados nesta obra coletiva são da responsabilidade dos autores FICHA TÉCNICA Título: História Interdisciplinar da Loucura, Psiquiatria e Saúde mental — X Coordenadores: Ana Leonor Pereira; João Rui Pita Local: Coimbra Edição: Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde / Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra - CEIS20 (Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia) Ano de edição: 2020 ISBN: 978-989-54537-1-9 Depósito Legal: 320445/10 285 TRÊS HISTÓRIAS, TRÊS MEMÓRIAS: CASOS CLÍNICOS DO HOSPITAL DE ALIENADOS DO CONDE DE FERREIRA NO FINAL DO SÉCULO XIX Analisa Candeias1*, Luís Sá2**, Alexandra Esteves3*** 1Universidade do Minho – Escola Superior de Enfermagem. UICISA-E (Núcleo UMinho). Doutoranda em Enfermagem no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa. Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS). Sociedade Portuguesa de História de Enfermagem. Portugal; 2 Universidade Católica Portuguesa – Instituto de Ciências da Saúde. Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS). Sociedade Portuguesa de História de Enfermagem. Portugal; 3Universidade Católica Portuguesa - Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais. Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2pt), Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Portugal *Doutoranda em Enfermagem;**Professor Universitário;***Professora Universitária Emails: lia.candei[email protected];[email protected];[email protected] Resumo A 24 de março de 1883 foi inaugurado, no Porto, o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, por indicação testamentária de Joaquim Ferreira dos Santos. Este hospital foi o primeiro hospital psiquiátrico a ser construído de raiz em Portugal, encontrando-se na vanguarda da assistência aos alienados, e beneficiou do médico António Maria de Sena como diretor clínico. O objetivo deste trabalho passa por apresentar três casos clínicos de alienadas que foram internadas voluntariamente no Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, aquando a sua inauguração. São três histórias e três memórias: Júlia Rosa, de dezassete anos, casada e meretriz; Rosa Corrêa, de cinquenta e dois anos, viúva e natural da Régua; e Francisca Thereza de Jesus, de quarenta e dois anos, solteira e criada de servir. Foram três casos clínicos com diferentes caraterísticas, embora apresentando analogamente sintomatologia de delírio, comum a alguns alienados admitidos à época no Hospital. Palavras-chave: história da psiquiatria; alienado; hospital Abstract The Hospital de Alienados do Conde de Ferreira was inaugurated in Oporto on March 24th, 1883, by a testamentary indication of Joaquim Ferreira dos Santos. This hospital was the first psychiatric hospital to be built from scratch in Portugal, being at the forefront of the assistance to the alienated, and benefited from the physician António Maria de Sena as clinical director. The aim of this paper is to present three clinical cases of alienated women who were admitted voluntarily at the Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, at its inauguration. These cases are three stories and three memories: Júlia Rosa, seventeen years old, married and also a prostitute; Rosa Corrêa, fifty-two years old, widow and born in Régua; and Francisca Thereza de Jesus, forty-two years old, single and that worked as a servant. They were three clinical cases with different characteristics, although all of them presented similar symptoms of delirium, common to some alienated admitted by that the time at the Hospital. Nota Introdutiva O desenvolvimento da psiquiatria nos anos de oitocentos foi significativo, trazendo para a esfera da assistência dos alienados novos recursos e novos espaços de acolhimento. O Hospital de Rilhafoles, em Lisboa, abriu portas em 1848; o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, no Porto, foi inaugurado em 1883; a Casa de Saúde do Sagrado Coração de Jesus, no Telhal, recebeu o primeiro alienado em 1893; e as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus receberam a primeira alienada em 1894, na sua casa da Idanha. 286 Embora com alguns atrasos no que dizia respeito aos avanços que se fizeram na restante Europa ao nível da assistência dos alienados 1 , o país conseguiu progredir com êxito naquilo que era a conceptualização da psiquiatria, em especial devido a alguns alienistas com uma ação profunda neste âmbito, como foi o exemplo de António Maria de Sena ou de Júlio de Matos. Com o crescente número de espaços assistenciais estabelecidos neste período, foi então possível alavancar o desenvolvimento de novas conceções no âmbito da psiquiatria em Portugal, integrando-a na área das ciências médicas e revolucionando a visão que até então tinha sido concebida em relação à doença mental. 1.Acerca da Contextualização do Cenário Assistencial A 24 de março de 1883 foi inaugurado o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira 2 , por indicação testamentária de Joaquim Ferreira dos Santos, Conde de Ferreira, ficando esta instituição sob a alçada administrativa da Santa Casa da Misericórdia do Porto. O edifício hospitalar foi construído de raiz, tendo sido, em Portugal, a primeira obra deste género, tornando-se um exemplo vanguardista na assistência que se praticava no país. O seu primeiro diretor clínico, e em grande parte arquiteto conceptual, foi António Maria de Senna, médico, alienista, filósofo e matemático, que optou por fazer transferir para o novo edifício, nos primeiros dias do seu funcionamento, alienados que se encontravam no Hospital de Santo António 3 . No Hospital os alienados encontravam-se organizados de acordo com o seu estatuto financeiro e posição social. Os alienados de 1.ª classe eram aqueles pensionistas que tinham direito a mais regalias, como por exemplo o uso de um quarto individual e a possibilidade de se alimentarem nesse espaço se assim o considerassem e se fosse autorizado pelos médicos – eram também aqueles que pagavam uma pensão mais elevada 4 . Os alienados de 2.ª classe tinham igualmente direito a algumas regalias, e partilhavam os espaços das enfermarias com os de 1.ª classe, embora os seus quartos apresentassem diversos leitos, não sendo de uso individual 5 . Os alienados de 3.ª classe e os indigentes partilhavam as mesmas enfermarias, embora os últimos não pagassem qualquer tipo de pensionato, sendo-lhes pedido para colaborar nas atividades do Hospital 6 - por exemplo no trabalho de limpeza das enfermarias ou no da quinta, onde era produzida parte da alimentação consumida na instituição, como verduras, fruta ou ovos. Em relação aos funcionários que trabalhavam no Hospital, estes apresentavam-se sob uma hierarquia rígida e cuja orientação se encontrava totalmente a cargo do diretor clínico. Os praticantes da assistência das enfermarias eram os enfermeiros(as), ajudantes de enfermeiro(a) e criados(as), todos supervisionados por um fiscal que, no final do século XIX, foi o enfermeiro António Augusto Cerqueira de Barros. Cada enfermaria tinha um médico responsável, que respondia igualmente perante o diretor clínico. Nos dois primeiros anos de funcionamento do Hospital foram aí admitidos 493 alienados, 281 homens e 212 mulheres, que padeciam de diferentes formas de alienação, como por exemplo melancolia passiva, mania ou loucura afetiva 7 . Destes 493 alienados, 172 eram da 1 Sobre estes atrasos, consulte-se em SENA, António Maria de - Os Alienados em Portugal, I – História e Estatística, II - Hospital do Conde de Ferreira. Lisboa: Ulmeiro, 2003 (Original publicado em 1884). 2 Doravante designado como Hospital. 3 Leia-se sobre este assunto em SENA … 2003 (Original publicado em 1884). 4 Leiam-se os regulamentos do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira: SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira Elaborado por Antonio Maria de Senna. Porto: Imprensa Real, 1883 e SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento Geral do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira Administrado pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Porto: Officina Typographica do Hospital do Conde de Ferreira, 1891. 5 Ibidem. 6 Atente-se a SENA, António Maria de - Relatorio do Serviço Medico e Administrativo do Hospital do Conde de Ferreira Relativo ao Primeiro Biennio (1883-1885). Porto: Typographia Occidental, 1887. 7 Leia-se em ibidem. 287 região do Porto, 71 da região de Braga e 56 da região de Viseu; no grande número de alienados admitidos entre 1883 e 1885 entravam nove alienados espanhóis, um brasileiro e um alienado norueguês 1 . Das 212 2 mulheres admitidas no Hospital, dezanove apresentavam entre dez e 20 anos, 56 entre 21 e 30 anos, 61 entre 31 e 45 anos, 40 mulheres apresentavam entre 45 e 60 anos e quinze mulheres mais de 60 anos, não se conhecendo a idade de 21 das alienadas internadas nesse período. Igualmente desse número de 212 alienadas, 78 não apresentavam profissão, 33 eram serventuárias, 26 tinham profissões manuais e quatro eram meretrizes. Ainda das 212 alienadas, 124 encontravam-se numa situação económica considerada miserável, 55 eram pobres, dezasseis eram remediadas e dezassete foram consideradas ricas. Relativamente ao estado civil, 128 dessas 212 mulheres eram solteiras, 50 eram casadas, 28 eram viúvas e de seis não se conhecia a situação marital. Os tratamentos no Hospital passavam pela alimentação, pela ocupação, pela hidroterapia, pela contenção ou pela aplicação de terapêuticas farmacológicas 3 . A alimentação dos alienados de 1.ª e 2.ª classe era considerada mais cuidada, tendo os mesmos, por exemplo, direito a ovos ou a pão branco nas suas refeições, enquanto que os alienados de 3.ª classe e indigentes tinham direito a broa e a caldos 4 . A ocupação passava não só pelo trabalho de manutenção dos espaços físicos do Hospital, dos seus jardins e da quinta, mas também pelo trabalho em oficinas, como a de sapateiro, de vassouraria ou a de costura 5 . A hidroterapia era realizada de acordo com a sintomatologia dos alienados e consistia na aplicação de banhos de imersão ou duches, frios ou quentes, com ou sem substâncias farmacológicas adjuvantes, e.g. grãos de mostarda nos banhos de imersão com água quente 6 . A contenção era aplicada, sobretudo, através das celas de reclusão e das camisas-de-força, mas eram também aplicados outros tratamentos contentivos, como por exemplo a alimentação forçada 7 . Os tratamentos farmacológicos eram variados (com a utilização variada de águas, vinhos ou ácidos), mas os médicos do Hospital eram grandes adeptos do uso do brometo de potássio, em especial aplicado a alienados que manifestassem agitação 8 . Tendo em conta o cenário assistencial exposto, este trabalho tem como objetivo apresentar três casos clínicos de mulheres que foram internadas voluntariamente no Hospital, aquando a sua inauguração. São três histórias e três memórias de alienadas, sendo as mesmas Júlia Rosa, Rosa Corrêa e Francisca Thereza de Jesus. Tendo como base conceptual Foucault, utilizaram-se como enunciados primários de análise dos casos clínicos os seguintes documentos manuscritos, que se encontram na Biblioteca do Centro Hospitalar Conde Ferreira 9 : Caderno de Admissão n.º 13, Processo Administrativo n.º 19, Indice dos Processos de Admissão com a Indicação das Entradas, Sahidas e Fallecimentos de Mulheres desde a Abertura d'este Hospital em 24 de Março de 1883 e, por último, o Livro de Admissão Definitiva. Colocação Voluntaria (Mulheres). 1 Idem. 2 Toda a informação deste parágrafo foi consultada na obra anteriormente referenciada. 3 Consulte-se em ibidem e ainda em MATOS, Júlio de - Manual das Doenças Mentaes. Porto: Livraria Central, 1884. 4 Veja-se em SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento ... 1883 e SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento ... 1891. 5 Atente-se a SENA … 1887. 6 Leia-se sobre os tratamentos em MATOS … 1884 e em SENA … 1887. 7 Atente-se às obras anteriormente referenciadas. 8 Idem. 9 De agora em diante referida como BCHCF. 288 2.Apresentação dos Casos Clínicos JÚLIA ROSA 1 Foi internada no Hospital a 24 de março de 1883, a pedido da Comissão Administrativa da Misericórdia do Porto, por meio de guia do Hospital de Santo António, tendo-lhe sido atribuído o n.º 1 da Admissão Voluntária, Colocação Definitiva, como indigente. Filha de pais incógnitos e natural de Penafiel, Júlia Rosa tinha dezassete anos quando foi internada, considerando-se o início da sua alienação após o parto. Júlia era casada e tinha a profissão de meretriz. A sua obsessão predominante era a de que tinha dezassete filhos, quando, na realidade, tinha apenas um; as primeiras ações derivadas da alienação foram as de atear fogo à sua casa e à igreja da terra onde vivia. Na altura da sua admissão no Hospital encontravase melhorada, com delírio intermitente sobre determinados objetos. Apresentou ainda comportamentos agressivos derivados de delírios com elevada agitação, e durando estes alguns dias, em que foi aplicada a camisa-de forças – nos intervalos dos delírios não apresentava comportamentos de auto ou hetero-agressão. O tratamento foi realizado à base de homeopatia e hidroterapia, através de banhos de imersão a 30º, com bons resultados. Veio a falecer no Hospital a 25 de julho de 1905. ROSA CORRÊA 2 Foi internada no Hospital a 24 de março de 1883, a pedido da Comissão Administrativa da Misericórdia do Porto, por meio de guia do Hospital de Santo António, tendo-lhe sido atribuído o n.º 2 da Admissão Voluntária, Colocação Definitiva, como indigente. Viúva, natural da Régua, tinha 52 anos quando deu entrada no Hospital. Rosa Corrêa permanecia a maior parte do tempo deitada, alternando períodos de canto com períodos de choro, pensando-se que a sua alienação tenha sido definida pelo fanatismo, com predomínio de demonomania. O seu delírio era sobre todos os objetos e contínuo, com alguns períodos de delírio furioso, utilizando-se a camisa-de-forças para a conter. Os seus tratamentos passaram também pelas sangrias, purgantes, narcóticos e aplicação de homeopatia, porém sem grandes resultados. Apresentava ainda diferentes alucinações, supondo-se ser um cavalo branco ou a alma de uma pessoa específica da sua terra, apregoando contra Deus e contra os santos. Veio a falecer no Hospital a 22 de janeiro de 1887. FRANCISCA THEREZA DE JESUS 3 Foi internada no Hospital a 24 de março de 1883, a pedido da Comissão Administrativa da Misericórdia do Porto, por meio de guia do Hospital de Santo António, tendo-lhe sido atribuído o n.º 4 da Admissão Voluntária, Colocação Definitiva, como indigente. Filha de Thereza Maria da Silva, Francisca era solteira e tinha 42 anos, tendo trabalhado como criada de servir e sendo natural de S. Tiago de Vilela, mas residindo no Porto. Francisca Thereza de Jesus era, de acordo com os enunciados escritos, considerada bastante fanática, porém conseguindo estar amiudamente calma, embora se tivesse considerado uma das causas da sua alienação a influência jesuítica. Apresentava amor próprio exaltado, vaidade 1 A informação relativa à alienada Júlia Rosa foi consultada em: Caderno de Admissão n.º 13. Sem Cota [Manuscrito], BCHCF; em Indice dos Processos de Admissão com a Indicação das Entradas, Sahidas e Fallecimentos de Mulheres desde a Abertura d'este Hospital em 24 de Março de 1883. Sem Cota [Manuscrito], BCHCF; e ainda em Livro de Admissão Definitiva. Colocação Voluntaria (Mulheres). Sem Cota [Manuscrito], BCHCF. 2 A informação relativa à alienada Rosa Corrêa foi consultada em: Indice dos … BCHCF e ainda em Livro de Admissão … BCHCF. 3 A informação relativa à alienada Fracisca Thereza de Jesus foi consultada em: Processo Administrativo n.º 19. Sem Cota [Manuscrito], BCHCF; em Indice dos … BCHCF; e ainda em Livro de Admissão … BCHCF. 289 e momentos de exacerbada alegria, com delírio sobre determinados objetos e intermitente. À medida que o tempo foi passando, Francisca Thereza apresentou períodos de maior tranquilidade, com declínio da alienação. O tratamento realizado foi à base de homeopatia e hidroterapia, com banhos de imersão a 30º, conquanto lhe tivesse sido também aplicada alimentação forçada devido a recusa alimentar. Veio a falecer no Hospital a 20 de abril de 1906. 3.Sobre Uma Possível (Breve) Reflexão Do número total de alienados que deram entrada no Hospital nos seus primeiros dois anos de funcionamento, verificámos que as mulheres representam 43% dessa totalidade, encontrando-se presentes, na instituição, enfermeiras, ajudantes de enfermeiras e criadas para as assistir. O predomínio masculino na instituição foi notório, nomeadamente porque toda a sua direção era constituída por elementos do sexo masculino e não existindo uma figura oficial do sexo feminino para supervisionar a assistência das alienadas, supervisão essa que cabia inteiramente ao fiscal 1 . Aliás, as praticantes da assistência no Hospital eram as já mencionadas enfermeiras, ajudantes de enfermeira e criadas 2 , embora existissem outras funcionárias a trabalhar na instituição 3 , todavia que se encontravam responsáveis por trabalhos considerados exclusivamente femininos, como por exemplo a rouparia. Dos três casos apresentados, de acordo com os enunciados analisados, notámos que não existiu a atribuição de um diagnóstico clínico definitivo, embora apresentassem em comum uma sintomatologia de delírio; eram muitas vezes apenas referidos nos enunciados escritos os sintomas e as causas primárias da alienação, conquanto sem uma classificação nosológica 4 . As três alienadas apresentadas viviam na região do Porto, tal como grande parte dos alienados que foram internados no Hospital 5 durante os seus dois primeiros anos de funcionamento. Todas elas foram submetidas a tratamentos contentivos, como a camisa-de-força ou a alimentação forçada, e também foram tratadas através da homeopatia. Realçamos que a hidroterapia foi apenas aplicada a duas destas alienadas, através de banhos de imersão a 30º, o que vai de encontro ao que era preconizado no Hospital, visto que nesses primeiros dois anos de funcionamento foram aplicados 21 746 banhos de imersão (simples, sinapizados ou com afusões frias na cabeça) e 14 210 duches (de chuva, de cadeira, circular ou lança) 6 . Os alienados indigentes internados no Hospital deviam ocupar-se, se a sua condição clínica o permitisse, no trabalho e oficinas que existiam nos espaços da instituição - os alienados de 1.ª e 2.ª classe encontravam-se dispensados da obrigatoriedade desta ocupação, o que levava muitas vezes ao ócio e à inércia 7 . As alienadas indigentes ocupavam-se, por exemplo, no trabalho de limpeza e manutenção das enfermarias, nos jardins e na quinta, na rouparia e ainda em oficinas de costura ou de feitura de sapatos 8 . É provável que as alienadas apresentadas neste trabalho, sendo indigentes, também se ocupassem com essas tarefas, em especial porque duas das mesmas faleceram no Hospital após um grande período de institucionalização, e, se lhes fosse possível, deveriam contribuir 1 Consultem-se os regulamentos SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento ... 1883 e SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento ... 1891. 2 Era o caso das enfermeiras Maria da Conceição Barboza e Florencia da Fonseca ou das criadas Maria dos Anjos e Bernardina Rosa Ferreira – vejam-se os registos relativos a estas praticantes da assistência em Folha dos Vencimentos dos Empregados no Mez de Julho de 1886. Sem cota [Manuscrito], BCHCF. 3 Era a situação da roupeira Thereza Amália Ferreira de Barros ou da criada lavadeira da casa de máquinas, Josefa de Jesuz – consulte-se em ibidem. 4 Veja-se em Indice dos … BCHCF e ainda em Livro de Admissão … BCHCF. 5 Atente-se a SENA … 1887. 6 Aliás, esta foi uma das preocupações de António Maria de Sena enquanto diretor clínico do Hospital - confirme-se em ibidem. 7 Idem. 8 Tenha-se em conta SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento do ... 1883, SENA … 1887 e ainda SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento ... 1891. 290 para o seu internamento: Júlia Rosa esteve internada durante 22 anos e Francisca Thereza de Jesus durante 23 anos. Estes longos períodos de permanência no internamento foram comuns no Hospital pelos finais do século XIX 1 : por um lado, a maioria da população era indigente e, como tal, não apresentava recursos para uma assistência realizada no domicílio, e, por outro lado, um dos objetivos da construção do Hospital foi exatamente o de providenciar uma assistência prolongada aos alienados que dela careciam 2 . Os três casos clínicos apresentados, embora se apresentem como um número residual no diz respeito ao grande número de 212 mulheres internadas nos primeiros dois anos de funcionamento do Hospital, são casos caraterísticos que podem ilustrar cadências da prática assistencial que foi desenvolvida na instituição nesse período inicial de atividade. Todas as alienadas aqui apresentadas foram transferidas de outra instituição, que na cidade do Porto se apresentava como uma instituição de referência da assistência, embora não se encontrasse adequadamente preparada para receber alienados. O Hospital foi considerado como uma lufada de ar fresco no âmbito do panorama da assistência nacional, providenciando recursos e tratamentos que se enquadravam nos trâmites internacionais da época. Nota Conclusiva Os alienados internados no Hospital, no final do século XIX, eram assistidos nas enfermarias por enfermeiros, ajudantes de enfermeiro e criados, e avaliados clinicamente pelo médico ajudante, médico adjunto e pelo diretor clínico. O Hospital encontrou-se como uma instituição inovadora na assistência aos alienados em Portugal, embora rapidamente tenha atingido a lotação máxima preconizada e entrado nos anos de novecentos com algumas dificuldades financeiras, que se espelharam na assistência proporcionada e que influenciaram algum atraso concernente à aplicação de tratamentos considerados progressistas, como por exemplo a utilização da eletroconvulsoterapia 3 . A pseudossociedade que se formou dentro das circunscrições do Hospital era retrato das condições sociais e culturais que se viviam na altura, influenciada tanto pelas hierarquias que se organizavam dentro dessas circunscrições, como pelas relações que se estabeleciam entre as pessoas que compunham uma realidade restrita. Aí, nessa instituição, teve também lugar uma expressão feminina da assistência, tanto devido à presença das alienadas internadas, como devido à presença daquelas que praticavam essa tal assistência, e que espelhavam, nas suas ações, o papel social da mulher à época. Referências Bibliográficas Caderno de Admissão n.º 13. Sem Cota [Manuscrito], Biblioteca do Centro Hospitalar do Conde Ferreira Folha dos Vencimentos dos Empregados no Mez de Julho de 1886. Sem cota [Manuscrito], Biblioteca do Centro Hospitalar do Conde Ferreira Indice dos Processos de Admissão com a Indicação das Entradas, Sahidas e Fallecimentos de Mulheres desde a Abertura d'este Hospital em 24 de Março de 1883. Sem Cota [Manuscrito], Biblioteca do Centro Hospitalar do Conde Ferreira LEMOS, António de Sousa Magalhães - Relatorio Médico do Hospital do Conde de Ferreira Relativo ao Ano de 1917 e 1918. Porto: Oficina Tipográfica do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, 1918 1 Leia-se em Indice dos … BCHCF. 2 Sobre os objetivos da construção do Hospital atente-se a SENA … 2003 (Original publicado em 1884) e a SENA … 1887. 3 António Sousa Magalhães Lemos, terceiro diretor clínico do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, escreveu sobre a necessidade de instalar eletricidade no Hospital, a qual seria uma vantagem para a aplicação de novos tratamentos no âmbito da abordagem terapêutica da alienação – consulte-se em LEMOS, António de Sousa Magalhães - Relatorio Médico do Hospital do Conde de Ferreira Relativo ao Ano de 1917 e 1918. Porto: Oficina Tipográfica do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, 1918. 291 Livro de Admissão Definitiva. Colocação Voluntaria (Mulheres). Sem Cota [Manuscrito], Biblioteca do Centro Hospitalar do Conde Ferreira MATOS, Júlio de - Manual das Doenças Mentaes. Porto: Livraria Central, 1884 Processo Administrativo n.º 19. Sem Cota [Manuscrito], Biblioteca do Centro Hospitalar do Conde Ferreira SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira Elaborado por Antonio Maria de Senna. Porto: Imprensa Real, 1883 SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DO PORTO - Regulamento Geral do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira Administrado pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Porto: Officina Typographica do Hospital do Conde de Ferreira, 1891 SENA, António Maria de - Os Alienados em Portugal, I – História e Estatística, II - Hospital do Conde de Ferreira. Lisboa: Ulmeiro, 2003 (Original publicado em 1884) SENA, António Maria de - Relatorio do Serviço Medico e Administrativo do Hospital do Conde de Ferreira Relativo ao Primeiro Biennio (1883-1885). Porto: Typographia Occidental, 1887