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Gabriela Ricarte de Lacerda Boas práticas de Design para inovação social: Contributos do estudo retrospetivo do projeto Manto dezembro de 2021 UMinho | 2021 Gabriela Lacerda Boas práticas de Design para inovação social: Contributos do estudo retrospetivo do projeto Manto Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design
Gabriela Ricarte de Lacerda Boas práticas de Design para inovação social: Contributos do estudo retrospetivo do projeto Manto Dissertação de Mestrado Mestrado em Design de Produto e Serviços Trabalho efetuado sob a orientação das Professora Doutora Paula Trigueiros Professora Doutora Alison Burrows dezembro de 2021 Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design
i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-CompartilhaIgual CC BY-SA https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ ___________________________________________ Gabriela Ricarte de Lacerda
ii AGRADECIMENTOS Quero deixar aqui a minha sincera gratidão a todos aqueles que tornaram possível a realização desta dissertação. À toda minha amada família que me apoiou e incentivou sempre nessa jornada e ao longo da minha vida, especialmente ao meu pai que me abriu todas as portas. Ao Pedro por todo apoio, pela paciência e compreensão da minha ausência em muitos momentos. Às minhas orientadoras, Paula Trigueiros e Alison Burrows por todo o acolhimento, empenho e disponibilidade que demonstraram desde o início deste projeto e cujo apoio foi imprescindível para a realização do mesmo. Às muitas pessoas e instituições que contribuíram, direta ou indiretamente, para a realização deste projeto de investigação. Aos amigos e colegas, pela força e encorajamento que tornaram esta fase menos solitária.
iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. ___________________________________________ Gabriela Ricarte de Lacerda
iv RESUMO Cada vez mais o Design tem sido chamado a intervir em ações dirigidas para a inovação social. Este é um campo multidimensional que pode ser definido de diferentes formas que se alinham na busca por criar novas e mais efetivas respostas aos desafios enfrentados pela sociedade. Contudo, algumas dificuldades têm prejudicado o sucesso da continuidade deste tipo de iniciativas, que muitas vezes se dissipam com o tempo, logo após o término do financiamento. Discutindo práticas identificadas em vários projetos concretos, a presente investigação tem como objeto o estudo retrospetivo do projeto Manto, uma iniciativa promovida pela Associação Sol do Ave no âmbito do Projeto Geração Lanhoso que visou a inclusão social através do Design destinado a cidadãos da Póvoa de Lanhoso. O projeto incluiu oficinas criativas incorporadas na atividade de um atelier de artesanato existente no Centro Comunitário da Associação Em Diálogo, em Monsul, freguesia da Póvoa de Lanhoso e a intervenção especialmente no campo do design foi orientada em parceria com a Universidade do Minho e com o Instituto de Design de Guimarães (IDEGUI). O enquadramento teórico contemplou a contextualização do território de intervenção, a abordagem sobre questões sociais, o estudo sobre design, inclusão e inovação social, e a apresentação de outros três projetos de inovação social com atuação do Design. A metodologia teve uma abordagem qualitativa para a recolha e análise dos dados, que foram realizadas com recurso a entrevistas semiestruturadas diretamente aplicadas a pessoas envolvidas no projeto Manto. Os resultados foram analisados e estruturados por temas, destacando benefícios e dificuldades identificados no projeto através dos relatos das pessoas entrevistadas. As conclusões apontam para o potencial do Design enquanto ferramenta capaz de potenciar a inovação social ao compreender e responder a necessidades sociais locais e atribuir significados às ações para que estas cativem os vários tipos de participantes. Além disso revelam a relevância das parcerias interinstitucionais e da colaboração com profissionais que reúnem conhecimento especializado e vocação social para a criação de condições que favoreçam a continuidade dos projetos. Palavras-chave: Design social, Design inclusivo, Intervenção Social, Sustentabilidade de Projetos.
v ABSTRACT Design has increasingly been called upon to intervene in actions that seek social innovation. This is a multidimensional field that can be defined in different ways, which are aligned in their search for creating new and more effective responses to the challenges faced by society. However, some difficulties have hampered the successful continuity of this type of initiatives, which often dissipate over time, right after funding has ended. Discussing practices identified in several concrete projects, this investigation focuses on the retrospective study of the Manto project, an initiative promoted by Sol do Ave Association within the scope of the Geração Lanhoso Project, which aimed for the social inclusion of the citizens of Póvoa de Lanhoso through Design. The project included creative workshops incorporated in the activity of an existing craft workshop at the Em Diálogo Association Community Centre in Monsul, in the district of Póvoa de Lanhoso, and the design intervention in particular was conducted in partnership with the University of Minho and with the Design Institute of Guimarães (IDEGUI). The theoretical framework included contextualizing the territory of intervention, the approach to social issues, the study of design, inclusion and social innovation, and the presentation of three other social innovation projects with Design activities. The methodology had a qualitative approach to data collection and analysis, which included semi-structured interviews with people involved in the Manto project. The results were analysed and structured thematically, highlighting the benefits and difficulties identified in the project through the reports of the people interviewed. The conclusions point to the potential of Design as a tool capable of enhancing social innovation by understanding and responding to local social needs and attributing meaning to actions so that they engage various types of participants. Furthermore, they showed the relevance of interinstitutional partnerships and collaboration with professionals who combine specialized knowledge and social vocation to create conditions that favour project continuity. Keywords: Social Design, Inclusive Design, Social Intervention, Project Sustainability.
vi ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 11 1.1 Motivação .............................................................................................................. 11 1.2 Objetivos ............................................................................................................... 13 1.3 Considerações metodológicas ................................................................................ 14 1.4 Estrutura da dissertação ........................................................................................ 15 2 ENQUADRAMENTO TEÓRICO ........................................................................................ 16 2.1 Contextualização do território de estudo ................................................................. 16 2.2 Questões sociais .................................................................................................... 17 2.2.1 Pobreza e exclusão social ................................................................................. 17 2.2.2 Desemprego e Vulnerabilidade social ................................................................ 18 2.2.3 Desemprego feminino ...................................................................................... 19 2.3 Design, Inclusão e Inovação Social ......................................................................... 21 2.3.1 Design social e para Inovação Social ................................................................ 21 2.3.2 Design para todos e design inclusivo ................................................................ 25 2.3.3 Design estratégico ............................................................................................ 26 2.3.4 Campos de atuação e processos ...................................................................... 27 2.3.5 Ferramentas do Design para a inclusão ............................................................ 29 2.3.6 Processos de Inovação Social ........................................................................... 30 2.3.7 Sustentabilidade dos projetos ........................................................................... 32 2.4 Estudos de caso .................................................................................................... 34 2.4.1 A avó veio trabalhar .......................................................................................... 34 2.4.2 Mulheres de Bucos .......................................................................................... 38 2.4.3 Projeto Cestaria Cana-Brava ............................................................................. 41 3 TRABALHO DE CAMPO .................................................................................................. 45 3.1 Método .................................................................................................................. 45 3.1.1 Critérios de seleção de participantes ................................................................ 46 3.1.2 Abordagem e processo de recrutamento ........................................................... 46 3.1.3 Recolha de dados ............................................................................................. 47 3.1.4 Análise de dados .............................................................................................. 48 3.2 Resultados ............................................................................................................. 48 3.2.1 Caracterização das participantes ...................................................................... 48
vii 3.2.2 Temas ............................................................................................................. 49 3.2.3 Contexto .......................................................................................................... 50 3.2.4 Atores sociais ................................................................................................... 52 3.2.5 Antecedentes ................................................................................................... 60 3.2.6 Design do Manto .............................................................................................. 68 3.2.7 Funcionamento da oficina ................................................................................ 78 3.2.8 Depois do Manto .............................................................................................. 89 3.2.9 Síntese dos resultados ..................................................................................... 91 4 DISCUSSÃO ................................................................................................................ 106 4.1 Inovação Social .................................................................................................... 106 4.2 Design para inovação social ................................................................................. 107 4.3 Sustentabilidade do projeto .................................................................................. 108 4.4 Comparação com os outros estudos de caso ........................................................ 109 4.5 Recomendações de boas práticas ........................................................................ 111 4.5.1 Antes – Planeamento e organização ............................................................... 111 4.5.2 Durante – Processos e modos de atuação ...................................................... 112 4.5.3 Depois – Deixar um legado ............................................................................. 112 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................ 113 5.1 Conclusões .......................................................................................................... 113 5.2 Cumprimento dos objetivos .................................................................................. 114 5.3 Limitações ........................................................................................................... 115 5.4 Recomendações para trabalho futuro ................................................................... 115 6 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 117 7 ANEXOS ...................................................................................................................... 121 7.1 Anexo 1 – Folha informativa ................................................................................. 122 7.2 Anexo 2 – Folha de consentimento ...................................................................... 124 7.3 Anexo 3 – Guião das entrevistas .......................................................................... 126 7.4 Anexo 4 – Mapa temático inicial ........................................................................... 128
14 1.3 Considerações metodológicas Este trabalho foi desenvolvido seguindo uma abordagem qualitativa aos casos de design e a inovação social, em especial do projeto Manto. O propósito desta investigação contempla duas componentes: uma componente exploratória pois, conforme SELLTIZ et al. (1987), pretendeu-se aplicar técnicas de pesquisas qualitativas para explorar um problema de forma mais complexa, neste caso para compreender os benefícios causados e dificuldades enfrentadas pelo projeto; e uma componente descritiva, em que se procurou definir as características da iniciativa por forma a explicitar os seus fatores de sucesso e assim informar recomendações para projetos semelhantes no futuro. Para a construção do estado da arte, inicialmente foi realizada uma pesquisa bibliográfica, com fontes documentais para construção de um referencial teórico conceitual, assim como o reconhecimento e a compreensão de outros casos de estudo congêneres. Em seguida, analisou-se o projeto Manto por meio da recolha de informações específicas sobre a iniciativa em questão, através da aproximação com o universo de estudo e o apuramento de elementos para a elaboração das entrevistas semiestruturadas com os atores principais e intervenientes das atividades. E, portanto, reafirma-se que a presente investigação tem um caráter descritivo exploratório apresentando uma sequência de eventos ao longo de um determinado período de tempo. A análise dos dados recolhidos procurou caracterizar, classificar e refletir a respeito das conclusões e boas práticas que possam ser resgatadas a partir das informações coletadas. Transmitindo estes momentos para etapas metodológicas temos: Figura 2: Desenho da investigação
15 1.4 Estrutura da dissertação Esta dissertação esta estruturada em cinco capítulos. Após esta introdução, segue o capítulo de Revisão da Literatura com o objetivo de fundamentar teoricamente a investigação. Nesta secção, inicialmente será caracterizado o território de intervenção, apresentando a sub-região do Ave e o concelho da Póvoa de Lanhoso. Como uma parte significativa do público-alvo de projetos de inovação social se caracteriza por um contexto económico desfavorecido e de vulnerabilidade social, considerouse importante abortar conceitos sobre pobreza e exclusão social, assim como reunir considerações sobre o desemprego, especialmente o feminino. Mais especificamente, será feito o cruzamento dos campos de estudo de Design, Inclusão e Inovação Social, apresentando estudo dos conceitos, processos, ferramentas e estratégias de Design que podem ser aplicadas em projetos de inovação social. Também serão apresentados outros três casos de estudo, para ampliar a visão prática do tema e conseguir relacioná-los com o Manto no capítulo da Discussão. O capítulo do Trabalho de Campo descreve as características gerais das participantes, como foi feita a coleta de dados, os métodos, a análise dos dados, toda a contextualização do projeto, dos atores sociais envolvidos, das atividades e por fim os resultados alcançados. Em sequência encontra-se o capítulo da Discussão onde, através do confronto dos resultados do trabalho de campo com a literatura relevante, serão desatacadas as boas práticas, os processos de design e inovação social presentes no projeto, relacionando-o com os outros estudos de caso. O último capítulo é o das Considerações Finais, em que são apresentadas as conclusões deste trabalho, bem como uma reflexão a respeito das aprendizagens obtidas durante a investigação, uma descrição sobre o cumprimento dos objetivos da pesquisa, comentários a respeito das limitações desta, e as recomendações para futuros trabalhos.
16 2 ENQUADRAMENTO TEÓRICO 2.1 Contextualização do território de estudo A Póvoa de Lanhoso está localizada entre a margem esquerda do Rio Cávado e a margem direita do Rio Ave. Nos seus limites estão os concelhos de Braga, Guimarães, Fafe, Vieira do Minho e Amares. Faz parte da sub-região portuguesa NUT III Ave integrada na Região Norte portuguesa juntamente com mais sete municípios nomeadamente Cabeceiras de Basto, Fafe, Guimarães, Mondim de Basto, Vieira do Minho, Vila Nova de Famalicão e Vizela. Possui 22 freguesias e um centro urbano onde estão concentrados mais de quatro mil habitantes e diversos equipamentos e serviços públicos. Nas freguesias mais descentralizadas a população está espalhada e há significativamente uma menor oferta de equipamentos públicos (Comunidade Intermunicipal do Ave 2014). O concelho é tradicionalmente agrícola e possui uma elevada taxa de emigração, sustentado principalmente pelo comércio e atividade industrial que tem se reduzido ao longo do tempo, esta focada no setor têxtil e na extração e transformação de granitos. Entretanto, pode-se destacar neste cenário a indústria artesanal de ourivesaria, onde são produzidas exuberantes obras de arte da ourivesaria portuguesa, nomeadamente a filigrana, reconhecida como uma técnica ancestral de ourivesaria e é um motivo de orgulho para os povoenses (Gama 2017). De acordo com o Plano Estratégico para o Crescimento Inclusivo da Póvoa de Lanhoso 2015/2020, o concelho é dotado de 17 Instituições Particulares de Solidariedade Social que atuam em diversas valências como: o serviço de Apoio Domiciliário, Centro de Atividades e Tempos Livres (CATL), Centros de Dia e Centro de Noite, jardim-de-infância, Creche, Lar de Idosos, Lar Residencial, Residência Autónoma, Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), Centro Comunitário e Atividades para Invisuais (Núcleo Executivo da Rede do Concelho Local de Ação Social 2015). Destas 17 instituições, a Oficina do Manto ocorreu na Em Diálogo - Associação para o Desenvolvimento Social da Póvoa de Lanhoso que foi constituída em 1998 e visa o desenvolvimento da população local através da dinamização de um conjunto de respostas sociais e de serviços multidisciplinares para todos os cidadãos, com especial enfoque nos grupos mais vulneráveis. De forma a atender as populações das várias freguesias do concelho, a Associação possui diferentes valências como o Serviço de Apoio Domiciliário de Covelas; Serviço ao Apoio Domiciliário de Travassos;
17 Componente de Apoio à Família Pré-escolar e o Pólo do Centro Comunitário vale do Cávado e o Centro Comunitário do Vale do Cávado (CCVC) (Em Diálogo 2021a). 2.2 Questões sociais 2.2.1 Pobreza e exclusão social Uma parte significativa do público-alvo de projetos de inovação social encontram-se a passar por um contexto económico desfavorecido, o que provoca consequências ao nível do âmbito social. Deste modo torna-se relevante expor o conceito de exclusão social, para intervir de forma consciente e saudável numa perspetiva de integração do sujeito. A partir do exposto por Sposati (1999) pode-se dizer que o conceito de exclusão social está mais avançado na compreensão de questões culturais e éticas tendo em comparação o conceito de pobreza. Desta forma, pobreza pode expressar um estado de carência enquanto exclusão, além de expressar carência, também envolve estigmas e discriminação determinada por questões como a raça, opção sexual, sexo, idade, crenças etc. Em outras palavras a pessoa pobre pode ser discriminado por ser pobre, entretanto o excluído, pela quantidade de processos discriminatórios, passa a ser visto como alguém que foi desamparado e que está com os vínculos sociais fragilizados. Franco Leal (2008) define a exclusão social simultaneamente como estado e processo. A definição como estado refere-se à condição limite alcançada por meio de sucessivas ruturas como consequência de um percurso de vida marcado por múltiplas vulnerabilidades, que podem ser nas esferas econômico-ocupacional, sociofamiliar, da cidadania, das representações sociais e da vida humana. Por outro lado, expõe este conceito também com o próprio processo de ruturas sofridas nas diversas dimensões, as quais agem umas sobre as outras. É também apresentado por Franco Leal (2008) quais podem ser estas vulnerabilidades enfrentadas em diversas esferas. Quanto ao trabalho, a rutura opera por meio de situações de trabalho precário e de desemprego. Na dimensão sociofamiliar, são fragilizados os laços familiares, com a vizinhança e com a comunidade, levando o sujeito à solidão e ao isolamento. No âmbito político, ocorre a privação do poder de ação e de representação. Na dos relacionamentos com o outro, este processo atua pela estigmatização e discriminação. Por fim, na dimensão humana, os “excluídos” limitam-se à busca da sobrevivência e acabam dispensados da vinculação dentro da humanidade.
18 Segundo Rodrigues et al. (1999) exclusão social, portanto, é um fenómeno múltiplo que pode ser explicado por diversas situações de privação da liberdade, do desenvolvimento humano, da igualdade e da qualidade de vida. Dentre os fatores que levam os indivíduos à exclusão social Rodrigues et al. (1999) apresentam uma série de fatores, e destacam a pobreza como um significativo impulsionador de exclusão social. Quem nasce num seio pobre, muitas vezes continua este ciclo. Aliado à pobreza, frequentemente está o desemprego. Além destes fatores a exclusão pode ser ocasionada pelo surgimento de uma doença que incapacite o individuo psicológica ou fisicamente, pelo alcoolismo ou toxicodependência, ou até pela morte de um membro familiar importante para a estrutura do agregado familiar. Para melhor compreensão da problemática, Costa (1998) caracterizou a exclusão social em cinco tipos: - Económica: está estritamente relacionado com a pobreza material, ou seja, falta de recursos. Pode ser causada pelas seguintes situações: duras condições de vida; baixa formação literária, trabalho em condições precárias; - Social: está relacionado com o controle dos vínculos sociais, ou seja, é uma situação de determinada pelo isolamento que pode estar associada à falta de autonomia pessoal. Como exemplo: os idosos que vivem solitários, os deficientes ou/e doentes crónicos/acamados que precisam de cuidados especiais e que não tem quem os apoie. - Cultural: este tipo de exclusão tem relação com os aspetos de base cultural, políticos ou religiosos. - Origem patológica: esta última categoria está ligada a causas que dizem respeito a fatores de limitação psicológica. Os meios que podem levar a reconhecer determinada patologia são: a memória, o afeto, o pensamento e o temperamento. 2.2.2 Desemprego e Vulnerabilidade social Pode-se afirmar, segundo Castel (1998) que o trabalho tem forte responsabilidade nas referências econômica, social, cultural e psicológica dos indivíduos. As dúvidas concebidas pelos novos sistemas e vínculos precários de trabalho, assim como o medo do desemprego, originam experiências de vulnerabilidade social e insegurança.
19 É um fato que independentemente do cenário, a maioria das pessoas passa grande parte de suas vidas no trabalho. As práticas vivenciadas neste meio resultam em experiências individuais e sociais de fundamental importância na geração da identidade dos sujeitos. De acordo com Giddens (2002), o trabalho oferece o acesso a contextos distintos do ambiente doméstico, gerando uma base para a conquista de habilidades e o exercício das aptidões, competências e uma estrutura de tempo. Através do trabalho pode-se construir laços de amizade e participar em atividade em comunicação com outras pessoas, neste sentido, trata-se de um elemento estruturador na formação psicológica das pessoas e no decorrer de suas rotinas. Deste modo o desemprego deve ser visto como uma questão social relevante, pois vem acompanhado de situações consecutivas de ausências de vários elementos fundamentais para a dignidade humana como dinheiro, convívio social, possibilidade de planeamento pessoal a longo prazo, status, autoestima, entre outros. Segundo Karsten & Moser (2009) as pessoas desempregadas estão expostas ao dobro do risco de sofrer de problemas psicológicos, como ansiedade, depressão, autoestima baixa e mal-estar psicológico e emocional. Especificamente sobre o território de estudo, a sub-região do Ave de acordo com Delgado et al. (2013) tem enfrentado grandes desafios em relação ao emprego. Para combater esta problemática, os autores afirmam que é preciso agir com urgência para buscar inverter esta tendência da diminuição das oportunidades de emprego que tem sido verificada nos últimos anos especialmente nas indústrias transformadoras. Para isso torna-se fundamental aumentar as qualificações da população e ajustá-las às necessidades do território e também dinamizar o setor da economia social, assistindo os grupos mais fragilizados e vulneráveis socialmente. 2.2.3 Desemprego feminino Tendo em vista que grande parte dos participantes da Oficina do Manto são mulheres em situação de desemprego de longa duração, considerou-se importante abordar esse tema. O pensamento patriarcal ainda é muito recorrente na sociedade e a figura feminina está culturalmente intrínseca, aos cuidados do lar, da família, dos mais novos e dos idosos. Embora atualmente executem diversas outras funções sociais, são mais cobradas do que os homens a atuar no âmbito doméstico. Pode-se citar como exemplo atual o dado apresentado Organização Internacional do trabalho - OIT (2018) que afirmam que as mulheres não são menos predispostas a ingressar no mercado de
20 trabalho, mas aquelas que estão inseridas tem menos propensão a conseguir emprego com as devidas proteções sociais, o que já configura uma desvantagem significativa. Para adentrar no cenário português, o gráfico abaixo (Figura 3) apresenta a análise da evolução da taxa de desemprego separada por género, mas no mesmo período temporal. É possível observar que anualmente, com exceção apenas do ano de 2012, o género feminino tem contabilizado números superiores de desemprego em relação ao género masculino. Os dois géneros atingiram o pico no ano 2013, seguindo por contínuos decréscimos anuais das taxas até ao ano 2020. Segundo Delgado et al. (2013), na Região do Norte, o Ave é uma das sub-regiões onde tem sido verificado nos últimos anos elevadas taxas de desemprego, associadas a profundas transformações estruturais e tecnológicas da sua indústria tradicionalmente baseada em mão-de-obra intensiva (como o setor dos têxteis, do vestuário, do calçado, das cutelarias e do mobiliário) com consequências negativas no mercado de trabalho. Os autores afirmam também que assim como acontece no restante do país, em todos os concelhos do Ave o problema do desemprego atinge mais o sexo feminino do que o masculino. Para confirmar se atualmente se mantém esse cenário, foi consultado o relatório de outubro de 2021 com as Estatísticas Mensais do Instituto do Emprego e Formação Profissional - IEFP (2021), onde consta que o número de pessoas inscritas no Centro de Emprego na Póvoa de Lanhoso continua sendo maior para o sexo feminino com 460 mulheres inscritas contra 318 homens. Desta forma pode-se constatar que relativamente à temática da dinâmica do mercado de trabalho feminino, é fundamental compreender o fenómeno através da análise da relação entre o desemprego e o espaço ocupado pela mulher na divisão social do trabalho, já que deste modo cada sujeito possui uma função na estrutura socioeconómica, da qual deriva seu status perante a sociedade. Figura 3: Taxa de desemprego por género de 2011 a 2020 (fonte: INE, 2021)
21 2.3 Design, Inclusão e Inovação Social 2.3.1 Design social e para Inovação Social “Todos os homens são designers. Tudo o que fazemos, quase o tempo todo é design, pois o design é básico para toda a atividade humana. O planeamento e padronização de qualquer ato em direção a um fim desejado e previsível constitui o processo de design (…) Design é o esforço consciente para impor uma ordem significativa.” (Papanek, 1971, p. 23) Ao refletir sobre o design de produto, muitas pessoas ainda pensam no desenho de produtos para o mercado comercial, produzidos em fábricas e direcionados ao consumidor até se tornarem obsoletos. Entretanto, na década de 70, o designer e educador Papanek publicou seu livro “Design for the Real World” expondo novas ideias opostas a esse paradigma dominante do design meramente comercial e mostra um rumo alternativo para os designers através do desenvolvimento de um design não apenas para o mercado, mas sim para o individuo, para a comunidade onde podem ser desenvolvidos programas de para as necessidades sociais, abrangendo desde as necessidades de países em desenvolvimento até as necessidades especiais de idosos, pessoas pobres e portadores de deficiências (Papanek 1971). O autor transmite a ideia de que tudo é design, todas as coisas que nos permitem construir e viver a nossa vida são design. Em contrapartida faz o apelo à prática mais responsável do design, integrando os domínios sociais, morais e sustentáveis, e introduzindo muitas das questões que estariam em pauta na prática do design pelas décadas seguintes. Num panorama mais atual, Victor Margolin, um dos mais destacados intelectuais contemporâneos no estudo do Design, também manifestou nas suas obras preocupações de ordem ética e social. No seu mais recente livro “Design e Risco de Mudança”, afirma que é notório as capacidades dos designers de utilizar recursos criativos para a execução de produtos e serviços extremamente aprimorados e atualizados que aumentam o conforto e satisfação de uma fatia muito limitada da sociedade, e neste cenário são negligenciadas pessoas com deficiência, com problemas mentais, em situações precárias, entre outros (Margolin, 2014, pp. 13-14). Margolin (2014) enfatiza a responsabilidade e potencial dos designers na materialização de um mundo mais humano, e destaca também a sua importância pois afirma que sem os designers as empresas não teriam objetos e serviços para oferecer e comercializar, o que coloca em foco a questão
22 de como construir uma ética do Design que possa indicar direções humanamente e socialmente satisfatórias para o trabalho futuro. Em contrapartida, o designer Joaquim Redig afirma que “design social é pleonasmo” pois “não existe design que não seja social - para a sociedade. Se não for, não é design.” Neste sentido, Redig estabelece que deve ser algo intrínseco ao designer a preocupação com a sociedade. Defende também que o “design de mercado”, ou seja, feito apenas para interesses diretos do mercado, e sem preocupações sociais, não deve ser considerado como design e que o benefício social não deve se limitar a atividades assistencialistas realizadas fora do expediente cotidiano do designer, pois “enquanto as melhorias não se realizarem dentro do expediente, na produção e no comércio, não haverá verdadeiras melhorias sociais.” (Redig, 2011, pp 92-93). É discutida por Manzini (2015) a conceituação de Design social e Design para inovação social, definindo o primeiro termo a uma ação específica, desempenhada a favor de indivíduos ou grupos desfavorecidos, ou organizações e instituições de cunho social que muitas vezes não conseguem confrontar a competitividade do mercado. Estas práticas são frequentemente elaboradas em modo pro bono, devido a impossibilidade das instituições ou comunidades arcarem com os custos do projeto de design (pp. 62-64). Ainda assim, Manzini (2015) enfatiza a mudança social dentro da esfera do design num grau de maior intervenção, como um componente fundamental da prática do design para a inovação social e ressalva que para difundir a inovação social, os designers devem ter o papel de utilizar suas capacidades e competências para identificar iniciativas promissoras e fortalecê-las através do apoio a tornarem-se mais acessíveis, eficazes, duráveis e recorrentes. Desta forma geram-se estímulos para a replicação destes casos, aos níveis regionais, nacionais e globais; onde não obstante este profissional tem a oportunidade de identificar as inovações tecnológicas que lhe possibilitam gerar os produtos e os serviços capazes a satisfazer as carências da sociedade. Manzini (2015) afirma também que a inovação social se origina dos fundamentos que a atestam: os indivíduos colaborativamente geram formas de inovação social, os frutos gerados têm significado social e económico, pois tem potencial de gerar novos modelos económicos; e em todos os ciclos e conceituações deve ser sustentável, tanto no aspeto em que produz proveito económico para
23 esta coletividade quanto também no sentido em que lhes permite moderar as sequelas ambientais e fortalecer o âmbito social. Nesta perspetiva, pode-se afirmar que o Design Social tem a capacidade de estimular as boas ações através do design, com o intuito de despertar uma consciência moral e ética perante à sociedade, e em consequência, impulsionar o empenho dos designers de contribuírem para a capacitação de pessoas que se encontram numa circunstância económica e social desprivilegiada, provendo-lhes recursos relevantes para terem um posicionamento mais assertivo no contexto social e económico. Em contrapartida, Manzini (2015) refere que o Design para a Inovação Social busca localizar e incentivar práticas sociais, entre pessoas ou destas com organizações, preferencialmente que tenham em vista a sustentabilidade, colocando em prática habilidades como intermediário, que faz uso também de sua criatividade e das suas ferramentas de trabalho para contribuir para casos de sucesso em inovação social. Trata-se de identificar cenários e inverter o processo de design, procurando estimular a criação e novas práticas por parte da comunidade. Ampliando a visão do Design para Inovação Social para outros autores, verifica-se que um dos conceitos mais recorrentes é o exposto por Mulgan (2006) que descreve a Inovação Social como atividades e serviços inovadores que têm o intuito de dar uma resposta a uma dificuldade social, sendo propagados preponderantemente por organizações com propósitos sociais (p. 8). Jégou & Manzini, (2008) definem que são transformações na maneira como pessoas ou comunidades agem para resolver um problema em específico ou criar oportunidades. Essas ações são acompanhadas prioritariamente por mudanças de comportamento, mais do que por câmbios tecnológicos ou até mesmo mercadológicos (p. 29). Murray et al. (2010) consideram que inovação social é a criação e execução de novas ideias, que podem ser produtos, serviços ou modelos, os quais ao mesmo tempo atendem às demandas sociais e geram novos vínculos sociais, ou seja, são inovações que trazem benefícios dentro do contexto social específico e ampliam a competência de ação da coletividade. Acrescenta-se o objetivo de melhorar o bem-estar humano e de serem inovações que são sociais nos seus fins e seus meios. Como dependem da ação de um conjunto de pessoas, como exemplo os cidadãos, as comunidades locais, organizações civis, empresas privadas e setores públicos, aumentam a capacidade de atuação e de interação de uma variada categoria e hierarquia de intervenientes (p. 3).
30 abrange equipas de trabalhos interdisciplinares, não se limitando exclusivamente aos designers, onde todos são responsáveis pelas ideias. Neste caso, é mais valorizado o processo do que o resultado final em si, pois trata-se de um processo que valoriza ao máximo a criatividade projetual e permite a todos os envolvidos participar deste debate (Brown, 2010, p.7). Além destas duas abordagens, Sanders & Stappers (2008) qualificaram uma outra tendência na prática contemporânea do design, em que os próprios utilizadores podem ser vistos como parceiros especialistas e contribuir nas fases iniciais do projeto, desde a determinação de requisitos, a conceção da ideia até a criação do conceito. Esta abordagem se diferencia das outras duas apresentadas devido ao grau de envolvimento do utilizador, sendo este um elemento que participa ativamente durante o processo. Neste processo os autores destacam dois conceitos ligados a abordagem do design participativo, que é a cocriação definida como qualquer ato criativo elaborado coletivamente entre duas ou mais pessoas, e o codesign definido como a integração da criatividade dos designers e das pessoas sem formação na área que em conjunto constroem o processo de desenvolvimento de projeto (Sanders e Stappers 2008, p.8). 2.3.6 Processos de Inovação Social As investigações sobre os processos de Inovação Social apresentam modelos de processos em quatro fases Mulgan (2006, pp. 21-25) e a evolução mais recente em seis fases Murray et al. (2010, p. 12). Há consenso nas abordagens dos modelos desenvolvidos por Mulgan (2006) e Murray et al. (2010), pois analisam as ações individuais e coletivas dos agentes da Inovação Social. Tendo em vista a relação entre as duas abordagens foi feito um quadro (Tabela 1) onde são apresentados os títulos dos processos e posteriormente as suas definições. Tabela 1: Processos de inovação social definidos por Mulgan (2006) e Murray et al. (2010)
31 Na primeira etapa do processo definido por Mulgan (2006) e nas duas primeiras etapas definidas por Murray et.al (2010) observa-se que o enfoque inicial se dá a uma necessidade existente que deve ser verificada a partir de um diagnostico dos problemas, que pode surgir de indivíduos ou grupos, e que proporciona a geração de ideias com o objetivo de supri-las. Segundo Mulgan (2006) as motivações pessoais são fundamentais para motivar os indivíduos a solucionarem seus problemas. Mulgan (2006) e Murray et al. (2010) enfatizam a relevância do Design de expor de forma bastante visível e materializada os problemas sociais existentes por meio de procedimentos criativos como por exemplo mapas mentais, desenhos, fotos, relatos em vídeo, colagens para desta forma estimular o raciocínio criativo para a descoberta de novos caminhos. Para geração de soluções Murray et. Al (2010) mencionam por exemplo o Design Centrado no utilizador, o codesign, envolvimento de exutilizadores e o pensamento lateral. Na segunda etapa, Mulgan (2006) define que a ideia mais vantajosa é ensaiada na prática, portanto é o momento crucial para a busca por recursos de investidores para transformar o projeto em produtos e serviços. Consequentemente esta etapa é decisiva para a continuidade das ideias e da energia dos envolvidos. Esta etapa corresponde a terceira definida por Murray et. Al (2010), que afirma que para chegar a ideia mais vantajosa, estas devem ser filtradas e experimentadas, aplicando o método de tentativa e erro, pois através destas validações são fortalecidas as alianças e são buscadas soluções para os lapsos. A terceira etapa do modelo de Mulgan (2006) e a quarta de Murray et. Al (2010) defendem que depois de a ideia ser validada na prática, a mesma já está apta a ser replicada e adaptada em novos casos. Mulgan (2006) ressalta que para que um modelo seja ampliado é necessária uma estratégia de angariação de recursos e análise dos fatores de sucesso e de falha. Murray et. Al (2010) afirmam que é habitual a necessidade de alterações da ideia original, sendo necessário simplificá-la para que possa funcionar. Além disso também afirmam que requer o desenvolvimento de um modelo económico para garantir o futuro financeiro. A última etapa do processo definido por Mulgan (2006) dedica-se a aprendizagem e evolução da ideia. Conforme a solução é executada em novos cenários, a mesma transforma-se em novas composições e torna mais implícita a aquisição do conhecimento. A etapa correspondente do modelo de Murray et al. (2010) é o quinto estágio que se concentra na escala e na difusão. Os autores referem-se a essa etapa como difusão generativa, pois ao invés de copiar o modelo, compreende-se que a adoção da inovação social pode assumir diferentes formas.
32 A sexta e última etapa do modelo de Murray et al., (2010) chama-se mudança sistémica e engloba a interação de muitos elementos no sentido de que possa influenciar desde movimentos sociais, leis e regulamentos, modelos de negócios, dados e infraestruturas, ou seja, causar impacto e influencia em toda uma estrutura social. 2.3.7 Sustentabilidade dos projetos Apesar de muitos projetos de design para inovação social terem sucesso no estabelecimento de novas iniciativas organizacionais ou criação de tecnologia que esteja em sintonia com as necessidades das pessoas envolvidas, a questão de como tais resultados são sustentados após o término do projeto continua sendo um importante desafio. Neste sentido, é interessante destacar o estudo de Iversen & Dindler (2014, pp. 4-6) que distinguiram quatro formas típicas ideais de sustentabilidade para projetos de design participativo, que também podem ser levados para o contexto do estudo de design para inovação social: manutenção, dimensionamento, replicação e evolução. Estas formas serão relacionadas com o projeto Manto e com os outros casos de estudos apresentados no capítulo da Discussão. Os autores sugerem que essa classificação deve ser pensada como tipos ideais que não existem em suas formas puras, mas podem servir como parâmetros para inspecionar projetos e começar a entender como a sustentabilidade é perseguida e alcançada. Estes podem inclusive ser cumulativos e divididos em duas perspetivas: a primeira relativa ao contexto de sustentabilidade da iniciativa e até que ponto permanece estável e a segunda sobre ser replicado quando o projeto termina. 2.3.7.1 Manutenção Seguindo a conceituação dos autores, uma primeira forma de sustentar as iniciativas é a manutenção. Manter se relaciona a como as iniciativas desenvolvidas durante um processo de design participativo são integradas a uma prática existente após o término do projeto. Segundo os autores a importância do envolvimento e propriedade das partes interessadas tem sido identificado como fatores importantes que apoiam a manutenção. Enquanto um projeto pode ser concluído pela construção de um sistema interativo que apoia uma comunidade, pode ser que o insight realmente importante do projeto tenha sido um novo senso de coerência dentro da comunidade, ou uma nova maneira de pensar sobre seus recursos compartilhados.
33 Como tipo ideal, a manutenção pode ser caracterizada como uma forma de sustentabilidade onde a iniciativa e o contexto da iniciativa permanecem estáveis. O objetivo neste caso é que iniciativas existam da mesma forma, e dentro do mesmo contexto, após o projeto ser concluído. 2.3.7.2 Dimensionamento Em muitos casos, os projetos de inovação social têm ambições de propagar o projeto para um maior número de pessoas. Aumentar a escala de informações, sistemas ou perceções de um grupo potencialmente pequeno de participantes para um grupo mais amplo organização envolve o duplo desafio de sustentar a iniciativa e ainda aumentar a escala de ação. Muitas vezes esse processo requer o maior envolvimento de gestão e outras partes de uma organização ou comunidade, e então os designers e pesquisadores geralmente assumem uma posição central no projeto e nas iniciativas vinculadas. Segundo os autores, como um tipo ideal, o dimensionamento pode ser caracterizado como uma forma de sustentabilidade onde a iniciativa, na forma de um sistema de ideias, ou forma de trabalho, permanece relativamente estável, mas o contexto desta iniciativa muda, normalmente de um grupo pequeno para um grupo maior. 2.3.7.3 Replicação Olhando além do grupo ou projeto em específico, lições aprendidas dentro de um determinado projeto podem ser úteis para outros grupos ou organizações, indo além da situação particular que esteve inserida. Nesse caso, pode ser útil considerar até que ponto as iniciativas são replicáveis em outros ambientes. Como um tipo ideal, a replicação pode ser caracterizada como uma forma de sustentabilidade onde a iniciativa, na forma de uma ideia, sistema ou forma de trabalho, permanece relativamente estável, mas o contexto desta iniciativa é alterado para outro. 2.3.7.4 Evolução Olhando para um projeto de inovação social como parte do desenvolvimento contínuo de uma organização, a ambição pode ser que as iniciativas continuem evoluindo após o término do projeto. No caso de entendimento a sustentabilidade em evolução, há indiscutivelmente uma necessidade ainda maior de mobilizar recursos dentro e fora da organização, para garantir que as iniciativas continuem evoluindo.
34 Como um tipo ideal, evoluir pode ser caracterizado como uma forma de sustentabilidade onde a iniciativa, na forma de uma ideia, sistema ou forma de trabalho, está sujeita a alterações, ou atua como um catalisador para novos processos. O contexto da iniciativa também pode estar sujeito a alterações, conforme as ideias se desenvolvem além das fronteiras organizacionais. Portanto, segundo a perspetiva apresentada por Iversen & Dindler (2014) e exposta neste tópico, os projetos podem ser impulsionados por diferentes ambições sobre como a inovação social das iniciativas devem ser sustentadas após o término do projeto. Manter, dimensionar, evoluir e replicar, como discutido acima, pode ser alguns dos objetivos típicos ideais. Na prática, estes claramente não estão bem separados, mas coexistem e se misturam. Para os mentores e organizadores destas iniciativas uma das questões cruciais é, o que pode ser feito durante o projeto para garantir que as iniciativas são sustentadas de maneira desejável? Neste sentindo, um planeamento do projeto tendo em consideração o futuro desejável e pode ser um aliado para o cumprimento destes objetivos. 2.4 Estudos de caso Com o intuito de ampliar a visão do tema de estudo, foram selecionados outros três casos concretos de projetos de inovação social relacionados ao design e ao artesanato, que serão apresentados neste tópico e discutidos de que forma a inovação social ocorre. No capítulo da Discussão estes casos serão relacionados ao Manto. Os critérios de seleção dos casos de estudo foram pela similaridade ao contexto do projeto foco deste estudo: a oficina do Manto. Além disto, buscou-se projetos que tivessem ocorrido ou em Portugal ou no Brasil. 2.4.1 A avó veio trabalhar O projeto ‘A avó veio trabalhar’ nasceu em Lisboa em 2014 idealizada pela Fermenta, uma iniciativa social criada em 2013 por uma designer e um psicólogo, e partiu de um trabalho que a organização já realizava com a Junta de Freguesia de São Paulo, em Lisboa. Funciona como um atelier colaborativo e criativo intergeracional (Figura 5) com o objetivo geral de promover a aprendizagem, partilha e empoderamento da população senior em conexão com as novas gerações utilizando o design como ferramenta para a preservação do legado imaterial cultural
35 das comunidades locais e para aumentar o poder de intervenção dos seniores na nossa sociedade (Fermenta 2020). Figura 5: Reunião do grupo ‘A avó veio trabalhar’ (fonte: https://labmemo.wordpress.com/) O projeto contou inicialmente com o apoio financeiro principal da Câmara Municipal de Lisboa em 2014 e em 2015, porém a sustentabilidade do projeto ainda não foi atingida e, por isso atualmente conta com outros apoiantes (Porto 2019). O grupo beneficiado pela iniciativa são pessoas acima dos 55 anos e devido as atividades propostas serem direcionadas à costura e pelo próprio título do projeto, o público atraído foi maioritariamente o feminino, embora formalmente não conste essa distinção no projeto. Segundo matéria publicada no jornal Observador em 2017, há um único senhor (Figura 6) que participa assiduamente desde o primeiro dia do projeto dentre o grupo de cerca de 70 pessoas que frequentavam na época (Gonçalves 2017).
36 Figura 6: Participantes do grupo com t-shirt temática (fonte: https://designculture.com.br/) As atividades funcionavam inicialmente numa sala no Centro Social Paroquial de São Paulo e com menos de um ano já tinham um espaço próprio, onde além das criações também comercializam os produtos elaborados, na Figura 7 consegue-se ver a frente da loja. Figura 7: Loja do projeto A avó veio trabalhar (fonte: https://designculture.com.br/) Segundo Gonçalves (2017), a designer do projeto afirma que sua missão de criar uma rede empreendedora sénior, acabar com o preconceito de que os mais velhos não servem para nada e tirálos a eles próprios da sua zona de conforto para que não acreditem que envelhecer é o início do fim, ou que é um momento contemplativo, pouco produtivo e desafiante para as suas vidas. Para alcançar esse propósito as atividades baseiam-se nos seguintes eixos:
37 1Criativo: o grupo tem orientação criativa dos idealizadores do projeto para à criação de peças modernas e divertidas customizadas a partir de técnicas de costura. Além disso também ocorrem encontros do grupo com interação e lanches envolvendo agentes criativos como pintores, músicos, cineastas, estudantes de design, etc. A receita obtida a partir da comercialização dos produtos é revertida em passeios para os próprios participantes. 2Novas experiências: correspondem a experiências externas como passeios (Figura 8), participação em workshops (inclusive ministrados pelos próprios participantes), visitas a museus, idas a espetáculos e experiências degustativas em restaurantes em Lisboa. Essas atividades além de proporcionar momentos de lazer aos idosos tinham como objetivo ampliar as referências visuais e de vivências para também servir de inspiração à criação de novas peças. Figura 8: Participantes do grupo em um passeio (fonte: https://observador.pt/) Sobre a metodologia de trabalho, os idealizadores destacam o fato de ao trabalharem com as comunidades locais fazerem-lhes sentir parte da mesma equipa e desfragmentarem a ideia dos responsáveis do projeto como técnicos. Além disso, buscam capacitá-los no sentido de caminharem sozinhos e de conseguirem criar alguma independência no grupo (Stoffel 2016). Segundo entrevista concedida pelos responsáveis do projeto a Porto (2019), os resultados de design do projeto são traduzidos em coleções e produtos manufaturados (Figura 9: Objetos elaborados e comercializados (fonte: https://www.instagram.com/aavoveiotrabalhar/)Figura 9) e extrapolam os
38 dados quantitativos, pois além dos produtos criados há todo um ganho a partir da experiência dos participantes nas atividades realizadas, nas formações de aprendizagem mútua, na exploração de novos talentos e competências, na partilha de conhecimentos com outras pessoas. A venda dos produtos ainda não proporciona lucro nem a sustentabilidade do negócio, segundo os entrevistados. Figura 9: Objetos elaborados e comercializados (fonte: https://www.instagram.com/aavoveiotrabalhar/) O lado social também foi bem enraizado no projeto, criou-se uma rede de apoio entre o grupo e mesmo fora do atelier fazem planos juntas, vão a passeios, ao cinema, o que para muitos era uma realidade distante até há bem pouco tempo virou rotina e acaba por amenizar a solidão que possa existir (Gonçalves, 2017). Um potencial do projeto comentado pelos idealizadores é sobre o poder de replicação, pois afirmam que é um modelo que tem tudo para ser replicado noutras partes do país e chegar mais idosos que nunca tiveram este tipo de experiência (Stoffel, 2016). 2.4.2 Mulheres de Bucos Tal como sugere o nome do grupo, ‘Mulheres de Buco’ corresponde a um grupo de mulheres artesãs da freguesia de Bucos, em Cabeceiras de Basto, vila no norte de Portugal. O grupo surgiu em 2006, um ano após a criação do Museu da Lã, atualmente chamado de Casa da Lã, no decorrer de um convite feito às artesãs para apresentarem os seus trabalhos durante a visita de um Ministro ao
39 museu. Desde então as artesãs foram integradas pela câmara ao museu, com o intuito de se transformar em um “museu vivo” (Cardoso 2019). O grupo era inicialmente composto por dez artesãs e em 2018 contavam com oito artesãs. As integrantes trabalham com a lã desde criança pois esta é uma tradição da aldeia, e durante dois dias por semana reúnem-se num espaço cedido pela Câmara Municipal de Cabeceira de Basto (Figura 10), onde funciona a Casa da Lã, para a confeção de produtos tradicionais para comercialização como meias, luvas, cobertas, feitas em tricô ou tecidas em teares manuais produzidos na região. Tinham também a produção de burel, um tecido grosso feito de lã, impermeável e quente (Cardoso, 2019). Figura 10: Reunião do grupo das Mulheres de Bucos (fonte: https://bloguedominho.blogs.sapo.pt/) Apoiadas por entidades de poder local (Junta de Freguesia e Câmara Municipal), para diversificarem e rentabilizarem o seu trabalho contam desde 2012 com a contribuição da designer Helena Cardoso, convidada pelo município de Cabeceiras de Basto a orientar a conceção e realização de novas peças. Através desta contribuição, esperam-se vantagens sociais e culturais, da preservação do saber e também económicas, já que através da requalificação da produção os artigos ficaram naturalmente mais rentáveis e atrativos comercialmente (Silva 2010). Segundo Cardoso (2019) o trabalho realizado pela Designer Helena Cardoso (Figura 11) ocorre uma vez por semana, sendo a sua atuação bastante focada no desenvolvimento das padronagens dos
46 3.1.1 Critérios de seleção de participantes O recrutamento de participantes foi caracterizado prioritariamente pela identificação de profissionais das diferentes entidades que estavam mais diretamente envolvidos na oficina, justamente devido à experiência e o conhecimento que estes reúnem sobre o caso; o olhar contínuo que dedicaram desde a conceção, o desenvolvimento, a implementação e a avaliação do projeto; e a ampla perceção das relações entre os diversos membros e parceiros. Foram identificadas um total de seis participantes envolvidas na criação, organização e execução da oficina, que coincidentemente são todas do sexo feminino. Foram identificadas um total de seis participantes envolvidas na criação, organização e execução da oficina, que coincidentemente, são todas do sexo feminino. Além destas pessoas, entrevistadas, foram contatadas também três participantes da oficina, para um rápido diálogo por telefone acerca das memórias e de sua avaliação da iniciativa. Estas pessoas foram previamente avisadas pela pessoa que tem um contacto mais próximo com elas (ANIM). 3.1.2 Abordagem e processo de recrutamento Na etapa inicial do recrutamento, potenciais participantes profissionais foram apresentadas e avisadas deste contato pela orientadora desta investigação. Estas foram então abordadas por telefone e, depois de expostas as informações e objetivos gerais da investigação, foram convidadas a participar no estudo. Após o primeiro contacto, antes de iniciar qualquer processo, foram fornecidas por email folhas informativas (Anexo 1 – Folha informativa) e folha de consentimento (Anexo 2 – Folha de consentimento) a todas as potenciais participantes, com descrição das etapas e objetivos da pesquisa. A Folha Informativa explica o conteúdo que seria abordado, com o objetivo de facilitar a comunicação entre as partes, o qual comunicava o tempo de duração previsto, que poderia variar entre quarenta minutos e uma hora. O Consentimento Informado inclui considerações éticas fundamentais na boa conduta de estudos que envolvem pessoas e que salvaguardam os seus direitos durante a investigação, especificamente a permissão para gravações de áudio das entrevistas e registo fotográfico para fins desta investigação. Todas as imagens e áudios captados não serão usados para quaisquer fins públicos e a gravação será apagada após a conclusão do projeto. Após a concordância em participar, foi agendado um dia e horário para cada reunião que foi realizada prioritariamente por videoconferência devido à situação pandémica enfrentada e também devido a maior facilidade de ajuste entre agendas. A exceção foi uma entrevista realizada
47 presencialmente durante a visita à Associação ‘Em Diálogo’, na Póvoa de Lanhoso, local onde aconteceram as sessões semanais da oficina e onde está instalado o atelier. 3.1.3 Recolha de dados Tendo em vista a diferença de depoimentos esperados, foram criadas duas estruturas diferentes de abordagem: uma para o grupo envolvido com processos organizacionais da oficina e outra para as participantes da oficina. Para auxiliar na recolha dos dados foi criado um guião semiestruturado para ser usado como base para as entrevistas (Anexo 3 – Guião das entrevistas) e que foi modificado mediante a forma de envolvimento com o projeto de cada entrevistado, ou seja, havia perguntas em comum e outras mais específicas para, por exemplo, quem fez parte da organização, do desenho do próprio projeto, da formação. A estrutura do conteúdo abordado foi concebida para permitir inicialmente à entrevistada fazer uma breve introdução pessoal, e só depois serem abordadas temáticas sobre o contexto do projeto, a sua estrutura e funcionamento, sobre seus antecedentes, sobre participantes e os outros grupos envolvidos, a avaliação da oficina na perspetiva dos entrevistados, e sobre a continuidade da iniciativa após a finalização da intervenção externa. Neste quesito, a média da duração das entrevistas foi efetivamente entre quarenta minutos e uma hora com exceção da entrevista com DSG que abordou mais detalhadamente as questões e teve que ser dividida em duas partes, a primeira durou cerca de uma e a segunda durou duas horas. Quanto às três participantes da oficina, a entrevista foi realizada de forma a parecer uma conversa mais informal. Nesse sentido foi questionado basicamente o que elas mais gostaram, de que se recordam e o que sentem mais falta. Todas as entrevistas foram gravadas, após reforço verbal do consentimento pelas participantes. Portanto, as entrevistas que foram realizadas online foram gravadas a partir do Skype; as conversas por telefone foram gravadas por meio de uma aplicação e a única entrevista feita presencialmente foi gravada através do gravador de voz do telemóvel. Durante a visita à Associação Em Diálogo em Monsul, quando foi feita a entrevista presencial, também foi feito um registo fotográfico do espaço.
48 3.1.4 Análise de dados 3.1.4.1 Transcrição das entrevistas A primeira entrevista feita com DSG foi transcrita integralmente. Porém, devido ao elevado tempo necessário foi conversado com as orientadoras sobre outros métodos para a transcrição, que após esta primeira tentativa passou a ser feita de forma resumida, transcrevendo integralmente partes consideradas mais relevantes ao trabalho. 3.1.4.2 Análise temática A técnica utilizada para o tratamento dos dados foi a análise temática, que segundo Souza (2019) começa quando o pesquisador faz a busca por padrões de significados e questões de possível interesse à pesquisa. Este processo de análise envolve idas e vindas recorrentes entre o banco de dados, os trechos codificados e a análise dos dados que se está sendo gerada a partir destes trechos. O processo termina com o relatório dos padrões, ou temas, na investigação. Neste trabalho, conforme também exposto por Ibrahim (2012) com a primeira fase de redução de dados, os dados foram redigidos no Microsoft Word e foram analisados palavra por palavra, e no caso deste trabalho, usou-se uma tabela no Microsoft Excel para mostrar e agrupar quaisquer padrões ou temas significativos; após esse agrupamento foi montado um mapa (Anexo 4 – Mapa temático inicial) utilizando a ferramenta Coggle para facilitar a visualização, organização e ligação dos temas. 3.1.4.3 Codificadores Para auxiliar da validação dos temas, nesta investigação houve três codificadores: um codificador principal (a autora) e dois codificadores secundários (orientadora e coorientadora). Este envolvimento de três visões no processo de análise dos dados assegurou a validade e o rigor do mesmo. 3.2 Resultados 3.2.1 Caracterização das participantes Ao todo foram feitas seis entrevistas com pessoas integrantes de três entidades envolvidas, com a formadora e com dinamizadora regular da oficina. Apesar de terem dado consentimento para serem identificados, os nomes das participantes serão neste trabalho substituídos por códigos –
49 respetivamente para DSG, RS, FORM, AS, ANIM, CAS, indicadas conforme a ordem da data de realização da entrevista (Tabela 2). Também foram realizados três telefonemas com outras tantas pessoas participantes regulares do atelier e da Oficina o Manto, que aqui serão chamadas de P1, P2, P3. Tabela 2 - Nomenclatura das participantes, função, instituição a que pertence e forma de comunicação usada na entrevista SIGLA FUNÇÃO INSTITUIÇÃO MEIO DO DIÁLOGO DSG Designer IDEGUI Skype RS Responsável técnica de ação social Sol do Ave Skype FORM Formadora * Skype AS Assistente social Em Diálogo Skype ANIM Animadora Em Diálogo Presencialmente CPAS Coordenadora do projeto social Sol do Ave Skype P1 Participante * Telefone P2 Participante * Telefone P3 Participante * Telefone Todas as participantes abordadas foram entrevistadas. Porém, o tempo de resposta para confirmação da participação e agendamento da reunião foi longo, o que contribuiu para aumentar o tempo da coleta destes dados. A primeira entrevista foi realizada em meados de abril de 2021 e a última entrevista foi feita no início de setembro de 2021, levando um total de cinco meses para efetuar todas as entrevistas. 3.2.2 Temas A análise dos conteúdos recolhidos gerou seis temas (Figura 16). Estes estavam de alguma forma contemplados nas questões feitas nas entrevistas, entretanto, durante a análise, foi possível reorganizá-los, denominá-los de uma forma mais adequada e alterar a hierarquia dos mesmos, transformando por exemplo, o que estava considerado como uma pergunta em determinada parte da entrevista em um tema. Todos os temas possuem subtemas e foi neste ponto que surgiram muitos temas induzidos.
50 Figura 16: Mapa temático com temas e subtemas resultantes da análise 3.2.3 Contexto Neste tema estarão explicados os indicadores que permitem ter o conhecimento e a interpretação do conjunto de circunstâncias que estiveram à volta desta oficina e que permitiu que pudesse acontecer e se desenvolver. 3.2.3.1 Projeto Geração Lanhoso e CLDS Este subtema permite compreender em qual contexto a oficina do Manto estava inserida. Esse foi um subtema à priori e abordado apenas junto das entrevistadas que faziam parte da conceção e organização do projeto, especificamente DSG, AS, RS e CAS. O Projeto Geração Lanhoso foi o projeto que financiou as Oficinas criativas, uma das quais deu origem ao Manto. AS, RS e CAS relataram que foi uma iniciativa de intervenção social no Concelho da Póvoa de Lanhoso, enquadrada no programa Contratos Locais de Desenvolvimento Social (CLDS) 3G. Foi coordenado pela Sol do Ave, que é uma Associação de Direito Privado sem Fins Lucrativos sediada em Guimarães, mas com atuação a nível regional, e desenvolvido em estreita articulação com a rede social
51 do concelho. O projeto Geração Lanhoso teve uma ação de três anos, com início a novembro de 2015 e final em novembro de 2018. RS e CAS esclareceram que foi financiado por verbas do Fundo Social Europeu, no âmbito do programa CLDS que tem como objetivo promover a inclusão social de grupos populacionais que revelem maiores níveis de fragilidade social num determinado território. Relativamente ao grupo de pessoas para qual se destinava esta iniciativa as mesmas técnicas afirmaram que o Manto foi realizado numa oficina criativa que estava prevista no eixo da empregabilidade, ou seja, destinava-se especificamente a população local que estivesse desempregada. Antes da existência do projeto Manto, a oficina já tinha começado a funcionar sob o tema “Maria da Fonte” a qual será explicada a seguir. A integração do Instituto de Design de Guimarães na equipa deu-se desde o início, com representação de DSG, que disse ter sido contactada para uma orientação mais concreta das oficinas criativas, uma vez que a Sol do Ave, para esse efeito não tinha recursos humanos qualificados. Neste sentido DSG caracterizou-o como “um projeto de inovação social e intervenção em vários níveis”. 3.2.3.2 Território de intervenção Ao questionar sobre o motivo da escolha da Póvoa de Lanhoso como local de atuação do projeto, RS explicou que esta foi uma decisão dos órgãos centrais da segurança social – ou seja, foi escolhido porque era um dos territórios que reunia os requisitos necessários para ser abrangidos por esse programa. RS revelou também que a Sol do Ave sempre foi a entidade promotora do CLDS na Póvoa de Lanhoso, ou seja, a associação já tem um histórico de intervenção e uma bagagem que permite uma boa compreensão deste território. Mais especificamente sobre a freguesia onde funcionou, DSG revela que houve grande mudança relativamente à estratégia adotada na fase anterior, pois saíram do centro histórico da Póvoa de Lanhoso para Monsul, uma freguesia rural na periferia mais distante da cidade (Figura 17).
52 CAS disse que a freguesia de Monsul, onde ocorreu a oficina do Manto já era uma parte do concelho que intervinham e que já fizeram outras formações lá. Além disso revelou que se mantiveram sempre em contato com as entidades e a participar de reuniões na região, até que surgiu essa oportunidade de ir para Monsul, e complementa que “foi assim que agarramos essa oportunidade e funcionou lá.” (CAS) Figura 17: Mapa com localização da freguesia de Monsul Em relação à Póvoa de Lanhoso (fonte: https://www.google.com/maps/) 3.2.4 Atores sociais Entende-se por atores sociais como os grupos ou indivíduos afetados diretamente ou indiretamente por um projeto, ocupando diferentes posições sociais, os quais podem manifestar interesses sociais, culturais, econômicos, políticos, além de outros, de forma articulada e podem também influenciar de forma positiva ou negativa os seus resultados (Gehlen e Mocelin 2009). Neste sentido, serão apresentados neste tópico os diversos atores sociais envolvidos com o Projeto Manto.
53 3.2.4.1 Instituições Os atores institucionais, ou seja, os agentes institucionais envolvidos diretamente na organização e execução do Manto foram todas entrevistadas para o propósito deste trabalho, como já introduzido anteriormente. Desta forma, esse tópico será para fazer uma breve apresentação da instituição e da entrevistada a nível profissional e esclarecer qual o papel neste projeto. 3.2.4.1.1 Sol do Ave A Sol do Ave é uma associação, sem fins lucrativos e de natureza privada fundada em 1993, com sede em Guimarães, que intervém no domínio do desenvolvimento regional, correspondendo a área geográfica de sua intervenção a toda sub-região da NUT III - Ave. Tem como missão promover o desenvolvimento integral do Vale do Ave, adotar uma abordagem em rede e de relacionamento próximo, promover medidas mais inovadoras e inclusivas e reforçar a coesão territorial, refletindo a postura de responsabilidade social (Sol do Ave 2014). Quanto às entrevistadas que fazem parte da instituição, RS é Técnica da Associação Sol do Ave, responsável pelo eixo de emprego deste projeto Geração Lanhoso e acompanhava todas as atividades relacionadas a esse eixo, inclusive contou que atuou mesmo como participante ativamente em várias sessões da oficina pois achou muito interessante as atividades. CAS é Coordenadora da formação profissional do Sol do Ave e era a Coordenadora do Projeto Geração Lanhoso, mas disse que não conseguiu acompanhar o Projeto até o fim pois teve que assumir outro projeto e ficou RS no seu lugar. 3.2.4.1.2 Instituto de Design de Guimarães (IDEGUI) O IDEGUI – Instituto de Design de Guimarães é uma associação, sem fins lucrativos e de natureza privada que possui como sócios constituintes o Município de Guimarães e a Universidade do Minho. Foi fundado em 2012 e está localizado em Guimarães, na zona de Couros, nas instalações de uma antiga fábrica enquadrando-se no projeto de reabilitação da zona. O Instituto de Design acolhe um diverso conjunto de laboratórios, oficinas e estúdios onde alunos, investigadores e designers, podem desenvolver a sua atividade num ambiente criativo (Instituto de Design de Guimarães - IDEGUI 2020). A atuação do instituto foi representada por uma Designer (DSG) da Universidade do Minho no curso de Design de Produtos e Serviços e na Escola de Arquitetura, Arte e Design. Foi contatada pela
54 Associação Sol do Ave pois precisavam de um interlocutor qualificado com competências na área da criação e do design para completar essa lacuna no quadro deles. Quanto à atuação no projeto, DSG afirmou que considera o seu principal papel foi o próprio “projeto do projeto”, ou seja, toda a estratégia que foi montada em volta das ações. Vê-se através do que compartilhou na entrevista que teve toda uma preocupação conceitual e de reflexão dos processos. Outra responsabilidade que DSG ficou encarregada foi do recrutamento das formadoras, neste quesito esclareceu que a sua preocupação foi em encontrar alguém que por um lado tivesse experiência e habilidade na interação com pessoas do mesmo perfil dos participantes da oficina, e por outro lado com algumas competências artísticas e culturais para capazes de conferir ao projeto uma certa profundidade e conteúdo. 3.2.4.1.3 Associação Em Diálogo A Em Diálogo - Associação de Desenvolvimento Social da Póvoa de Lanhoso é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS). Foi criada em 1998, e tem por missão promover o desenvolvimento da população da Póvoa de Lanhoso, proporcionando a todos os cidadãos um conjunto de respostas sociais e de vitalidade de serviço multidisciplinar, prestando especial atenção aos grupos mais vulneráveis (Em Diálogo, 2021). A representante da instituição no projeto foi AS que é assistente social na Em Diálogo. Atua na coordenação do Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social de dez freguesias que são abrangidas pelo trabalho do Centro Comunitário e que são as mais empobrecidas no Concelho da Póvoa de Lanhoso. A partir da oportunidade de parceria com a Sol do Ave, a Associação foi incorporada a esse projeto. 3.2.4.1.4 Junta de Freguesia de Monsul A junta de freguesia de Monsul, segundo DSG e RS, apoiou o projeto durante a montagem do Manto no dia da festa de São Tiago e Santa Luzia. Como a estrutura tinha grandes dimensões, foi fundamental essa contribuição. 3.2.4.2 Formadoras As atividades do grupo foram orientadas por FORM que é figurinista e profissional de teatro e cenografia. Leciona diversas disciplinas na área plástica no curso de Design de Cenografia na ESMAE e como freelancer, desenvolve um trabalho como como figurinista e cenógrafa, e atua em muitas
55 formações com desempregados, idosos, e com crianças. Foi convidada por DSG para o projeto e o definiu como um “desafio um bocadinho complicado, mas muito aliciante.” (FORM) Apesar de ser integrante da Em Diálogo, julgou-se mais pertinente enquadrar ANIM neste tópico, pois é educadora social na Associação e atua no atelier habitualmente orientando os trabalhos do grupo especialmente a fazer trabalhos manuais, e bordados inspirados na filigrana. Durante o projeto continuou a frequentar o atelier, onde disse também ter aprendido novas técnicas e aprimorado suas competências. 3.2.4.3 Participantes regulares 3.2.4.3.1 Características gerais Conforme informações obtidas através das entrevistadas RS e CAS que coordenaram o projeto Geração Lanhoso, a oficina era destinada ao público desempregado da Póvoa de Lanhoso. Deste modo, esta é a primeira característica verificada neste grupo. Segundo AS e ANIM, os participantes regulares eram pessoas desempregadas de longa duração, ou trabalhavam no cultivo de terreno de casa para consumo próprio e para eventualmente trocar por outros alimentos, inclusive entre o grupo da oficina. CAS reforça a informação de que as participantes estavam muito ligadas a atividades agrícolas. De acordo com a informação dada por DSG, AS, RS, ANIM e FORM, nas sessões regulares participaram maioritariamente senhoras, com exceção de um senhor que participou de poucas sessões segundo afirmado por FORM. Devido essa predominância feminina muitas vezes durante a entrevista as interlocutoras referem-se ao grupo no feminino. Será discutido mais adiante acerca dos possíveis motivos desta predominância feminina, apesar da oficina não restringir o sexo dos participantes. A partir de uma listagem feita pela Associação Em Diálogo sobre os participantes em julho de 2018, foi possível saber que neste momento contavam com 11 participantes, dos quais 10 eram mulheres e 1 homem, com idades entre 43 e 66 anos e formação escolar até o 9º ano. Segundo DSG as participantes tinham diferentes capacidades de trabalho e algumas limitações. “Nós tínhamos pessoas com capacidades bastante ricas, ou seja, pessoas que sabiam bordar e conseguiam, porque havia as pessoas que sabiam e já não conseguiam.” (DSG)
62 RS comentou que inicialmente pensavam em confecionar durante as oficinas espécies de aventais temáticos da Maria da Fonte, que seria um produto de fácil confeção e poderia ser comercializado turisticamente, mas que acabaram por optar por outra proposta com um maior impacto e valor para a comunidade. Além disso, DSG afirma que a Câmara ficou muito impressionada com o sucesso que teve esta feira e por isso a possibilidade de um grupo da população começar a criar, construir, desenhar e confecionar os seus próprios artefactos, roupas e acessórios para fazer o seu próprio cortejo da Maria da Fonte, parecia ali também uma oportunidade de ouro, pois tinham as pessoas interessadas em fazê-lo, tinham alguém a ensiná-los a fazer, tinham materiais para fazer e tinha também todo o acervo histórico na oficina Maria da Fonte, no Centro Interpretativo, que permitiria que essa representação fossem feitos com alguma fidelidade e rigor. Neste contexto DSG refletiu: “…daí todo o início da oficina Maria da Fonte foi altamente ambicioso, mas com um conjunto de interesses legítimos e genuínos e com grande potencial de sustentabilidade no tempo.” (DSG) 3.2.5.1.5 Funcionamento da oficina Tendo em vista o tema e a estrutura de trabalho, DSG afirmou que contactou e recrutou a formadora desta oficina – Conceição Rios - e a define como uma artista muito experiente na criação de produtos têxteis e figurinos para eventos e performances de natureza histórica e artística. DSG falou que durante as sessões das Oficinas Criativas, ocorridas duas vezes por semana, Conceição Rios transmitia algumas noções sobre a importância das referências genuínas da história e do rigor da sua representação para a criação de valor em suas próprias criações futuras. Além da seleção de técnicas de bordado e artesanato em geral, alguns materiais foram também escolhidos e trabalhados para a preparação de adereços para a representação histórica – evitando malhas e materiais sintéticos e tentando usar tecidos de tingimento natural e técnicas que melhor recriam linho, algodão e outras fibras que existiam na época. Como a oficina foi realizada no centro e muitas participantes eram dos arredores da Vila, DSG refletiu sobre uma das estratégias que se criou no início pela preocupação das técnicas da Sol do Ave, que foi de fazerem a oficina no dia da feira semanal - dia em que as pessoas teriam que se deslocar de qualquer maneira ao centro da cidade para ir fazer as suas compras; por isso já estando na cidade era mais fácil aderirem à iniciativa. Portanto houve uma tentativa de recrutar e aliciar participantes tentando minorar o custo e o esforço das pessoas.
63 3.2.5.1.6 Visita de estudo ao Museu do Traje Como relatado por DSG, com o intuito de apresentar e valorizar a herança dos trajes tradicionais regionais, rendas e bordados tradicionais - o grupo visitou o Museu do Traje, em Braga. Neste espaço existem numerosos exemplos genuínos de trajes regionais, bordados e alguns outros produtos têxteis muito familiares às pessoas envolvidas e à proposta desta oficina criativa. 3.2.5.1.7 Encerramento antecipado da oficina Nesta temática tem-se maior relato de RS e CAS, além de também ser bem abordado por DSG, que afirmam que por razões alheias a toda esta estrutura e organização, muitas pessoas que participavam desta ação foram convocadas pela Segurança Social para outras ações de formação obrigatórias para os beneficiários manterem o direito às prestações sociais. Esta questão trouxe uma certa concorrência à participação. Portanto, estes fatores levaram ao encerramento antecipado desta atividade, que segundo DSG, ocorreu após apenas 30, das 100 horas de atividades planejadas. Este projeto só foi retomado quase um ano depois, em uma segunda fase que foi a Oficina do Manto. 3.2.5.1.8 Lições aprendidas A partir desta experiência DSG, CAS e RS refletiram sobre algumas lições aprendidas e que puderam ser melhor refletidas e trabalhadas nesta segunda fase das oficinas criativas. DSG percebeu que precisavam moderar um pouco mais as expectativas em termos da capacidade de trabalho das pessoas naquele período de tempo, pois já tinham entendido também que nada era garantido e que precisavam também apresentar pequenos resultados visíveis a cada sessão. “Portanto nós partimos para essa segunda fase com uma expectativa mais cautelosa e mais moderada, mas por outro lado tivemos que adequar e para motivar as pessoas e a participação delas, tivemos que adequar o objeto de trabalho àquela realidade de Monsul.” (DSG) DSG, RS e CAS em acordo, expõem a necessidade que viram em descentralizar a oficina para contornar a questão da dificuldade de transporte para as participantes na Póvoa de Lanhoso, pois muitas vezes o transporte além de dispendioso tinha muitas limitações de horário. 3.2.5.2 Oportunidades de parceria Tendo como base o contexto inicial já apresentado, é possível constatar as oportunidades que surgiram e beneficiaram os diversos atores e entidades relacionados ao projeto.
64 Conforme dito por CAS, a Sol do Ave necessitava de um grupo de pessoas desempregadas daquela região e que tivessem aptidão e interesse de participar de uma oficina criativa, facto que se ajustou perfeitamente com o grupo existente no atelier da Associação Em Diálogo. Portanto, encontraram nesta parceria também uma oportunidade de inovar e dinamizar as atividades do grupo que já estavam um pouco contagiadas pela monotonia. Desta forma, para enfatizar a afirmação das entrevistadas sobre a visão destas oportunidades, CAS afirmou que “surgiu essa oportunidade de ir para Monsul, e foi assim que agarramos essa oportunidade e funcionou lá” e no mesmo sentido AS disse que “nós achamos que seria uma oportunidade aproveitar a parceria, e como eles podiam pagar uma pessoa na formação mesmo especializada na área do artesanato.” Houve também a oportunidade de parceria com o Instituto de Design de Guimarães (IDEGUI), com representação de DSG, que selecionou e contactou as formadoras, uma delas, FORM, entrevistada no âmbito deste trabalho. Essa parceria é destacada como fundamental para dinamização da oficina, conforme afirmado por AS “o facto de termos pessoas especializadas na área como a DSG e a FORM sem dúvida que veio trazer uma mais-valia no trabalho que estávamos a fazer com as senhoras.” RS reafirmou a mesma perspetiva “Foi muito importante a parceria com o Instituto de Design, enquanto estivemos lá conseguimos dar mais dinamismo à instituição.” 3.2.5.3 Associação Em Diálogo Como já foi abordado, a oficina do Manto aconteceu na associação Em Diálogo, que foi a instituição que acolheu o projeto nas instalações do seu centro comunitário localizado nesta freguesia. Para a compreensão do surgimento deste elo com a instituição, CAS disse que esta era uma entidade com a qual já colaboravam muito em parceria, e que na altura como tinham a ação relativa a oficina aprovada, divulgaram as condições e características do grupo de pessoas que buscavam para se beneficiarem das atividades, e então a Associação Em Diálogo encaminhou um grupo de pessoas que já participava de um atelier na associação e que se encaixavam nos requisitos necessários para a oficina. RS qualificou a atuação da Associação como tendo uma “intervenção social muito forte, localizada no baixo concelho e abrangendo várias freguesias.” DSG falou mais profundamente sobre o exercício da associação e destaca que “é uma instituição que tem uma resposta social chamada atípica que é o Centro Comunitário”. E prossegue afirmando que o centro comunitário permite oferecer à comunidade um conjunto diversificado de
65 Serviços em relação as respostas sociais típicas que são por exemplo o centro de dia, a residência para idosos e o apoio domiciliário. AS que atua já há mais de 20 anos nesta instituição, explicou que a Associação tem um protocolo com a Segurança Social, em que basicamente são transferidas as competências para as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e então fazem o trabalho que a Segurança Social faria no território das 10 freguesias que são abrangidas pelo trabalho do Centro Comunitário, e que estas são as mais empobrecidas no concelho da Póvoa de Lanhoso. AS discorreu sobre para qual público está direcionado este apoio e o tipo que atividades oferecidas na Instituição: “…dentro deste centro nós temos várias atividades lúdico-pedagógicas e temos o tal serviço de atendimento e acompanhamento social fruto deste protocolo no âmbito do qual nós acompanhamos famílias que possam ter problemas sociais e económicos, várias fragilidades.” (AS) DSG destacou a importância e admiração pela Associação e afirmou que no histórico das atividades desenvolvidas houve em vários eventos, a preocupação de promover outras atividades que envolveram designers e pessoas qualificadas para elaboração de produtos e outros saberes (Figura 18), como por exemplo encadernação, pequenas almofadinhas de ervas aromáticas com Alfazema, objetos feitos com papel inspirados na zona de Póvoa de Lanhoso, utilizando os desenhos que são típicos da filigrana e “que estão no vocabulário cotidiano das pessoas e as pessoas conhecem muito bem e valorizam.” (DSG). Figura 18: Corredor da associação Em Diálogo com a exposição de outros trabalhos realizados antes
66 3.2.5.3.1 Atelier existente na Associação Em Diálogo Para contextualizar o atelier já existente na Associação Em Diálogo que, entretanto, foi integrado na oficina do Manto, AS o definiu como um atelier de artesanato contemporâneo e não só, onde desenvolvem diversos trabalhos manuais (Figura 19 e Figura 20). ANIM que trabalha como dinamizadora do atelier afirma que quando passou a trabalhar no atelier, este já existia e, portanto, deu continuidade ao projeto, e durante as sessões faziam diversos trabalhos manuais, bordados inspirados em desenhos de peças tradicionais de filigrana (artesanato típico deste local). Figura 20: Bonecos feitos no atelier e outros bordados Em relação ao funcionamento ANIM informou que o atelier funcionava todas as quintas-feiras à tarde, das 14hrs às 18hrs. Além das sessões semanais, falou que também ocorriam eventualmente passeios relacionados com os trabalhos artesanais, e citou visitas ao Museu do Linho em Vila Verde e lojas de bordados em Guimarães. Além destes, disse que ocorriam também passeios com temáticas religiosas, como para o Sameiro, São Bentinho, Gerês. Quanto à avaliação das participantes em relação aos passeios, ANIM afirma que “é bom para elas também mudarem os ares, elas gostam e sentem essa necessidade”. 3.2.5.3.2 Apoio aos participantes Relativamente aos apoios às participantes, DSG, CAS, RS, AS e ANIM destacam que a instituição assegurava o transporte das participantes até a instituição, portanto iam buscá-las em casa, o que já era um significativo incentivo pois as participantes são voluntárias e, ao contrário de outras iniciativas da segurança social, não recebem apoio financeiro para participar desta ação e isto minimizava possíveis despesas. Figura 19: Bordados feitos no atelier
67 3.2.5.3.3 Circunstâncias Foi comentado sobre a fase que estava a passar o atelier no momento do surgimento da oportunidade da Oficina do Manto, RS e AS citaram que o atelier estava a numa fase monótona, mais parada. Segundo RS “estavam a ficar desmotivadas pois já estava monótono, sempre a fazer a mesma coisa” , em concordância afirma AS que o atelier “estava a passar uma fase um bocadinho morna por assim dizer, não estava com grandes iniciativas, estava assim um bocadinho parado.” 3.2.5.4 Integração cultural Uma importante prática deste projeto foi a integração do produto resultante da primeira fase da oficina, o próprio Manto, numa atividade da agenda cultural e religiosa da freguesia de Monsul, mais especificamente, na festa de São Tiago e Santa Luzia que ocorre na capela de Santa Luzia (Figura 21) nos dias 23, 24 e 25 de julho. Segundo DSG, foi necessário adequar o objeto de trabalho à realidade de Monsul, e para isso fizeram um estudo da história e do contexto do local, além disso analisaram também o calendário do tempo disponível do projeto, e verificaram logo nas primeiras reuniões que por coincidência o prazo do projeto terminava na altura da festa da aldeia em julho. DSG afirmou que este evento de fato mobiliza as pessoas, pois acontece em um sítio e em uma data muito importante para as pessoas da comunidade. Desta forma viram que envolver a oficina neste cenário seria uma oportunidade para motivar das pessoas a participar da oficina e dinamizar ainda mais o trabalho. De acordo com RS esta foi uma boa estratégia pois era uma época em que os filhos e familiares imigrantes retornavam à freguesia e os participantes teriam em exposição um objeto fruto do trabalho e dedicação deles para mostrar. CAS afirmou ter ficado surpresa com a escala da intervenção, pois imaginava inicialmente algo mais “micro” para a oficina, e foi a única a comentar que a comissão de festa da freguesia já tinha a necessidade de cobrir a área onde era realizado a procissão e a missa, e acharam coerente também colaborar com a comissão de festas e fazer algo importante para a comunidade. Conforme afirmou FORM, foi muito relevante para o comprometimento dos participantes no projeto criar um objeto que lhes fosse familiar, e que claramente o envolvimento da religião é sempre uma questão que está muito próxima da população de uma aldeia como a de Monsul. Portanto, a oficina do Manto ocorreu inicialmente com maior foco para a criação deste objeto que será especificado mais adiante. Porém após esta festa a oficina ainda prosseguiu até a altura do
68 Natal, e nesta segunda fase, a partir de algumas competências desenvolvidas, fizeram-se outros tipos de objetos utilitários, que foram chamados de “outros Mantos”. Figura 21: Capela de Santa Luzia onde foi montado o Manto 3.2.6 Design do Manto 3.2.6.1 Inspiração e conceito Segundo DSG, que concebeu o design desta proposta e explicou sobre todo esse processo de conceção, como o próprio nome da atividade já sugere, o desenho e conceito foi inspirado nas mantas de crochê (Figura 22): “o desenho começou inspirado nas mantas de crochê como a minha mãe faz, toda a vida fez e outras pessoas fazem: quadradinhos de croché com restinhos de lã ou em croché com algodão”. (DSG) DSG comentou que o crochet tem sido muito popularizado em diversas intervenções em espaço público. Cita a artista plástica Joana Vasconcelos, da qual se lembrou-se durante a entrevista pois faz incríveis intervenções deste género (Figura 22), mas afirma não recordar de na época ter sido uma referência concreta para este projeto.
69 Figura 22: – Imagem ilustrativa de uma manta de crochê (fonte: https://www.artesanatototal.com//) DSG comentou que o crochet tem sido muito popularizado em diversas intervenções em espaço público. Cita a artista plástica Joana Vasconcelos, da qual se lembrou-se durante a entrevista pois faz incríveis intervenções deste género (Figura 23), mas afirma não recordar de na época ter sido uma referência concreta para este projeto. Figura 23: Escultura 'Britannia' (2014) de Joana Vasconcelos exposta no átrio de vidro da Manchester Art Gallery (fonte: https://www.joanavasconcelos.com/)
70 O conceito do Manto, conforme foi explicado por DSG, surgiu do pressuposto de diversidade de contributos e também da necessidade que surgiu pela experiência na oficina anterior de conseguir resultados com pequenas coisas e contributos, em curto espaço de tempo. Desta forma, buscavam a possibilidade de apenas numa sessão já materializar pequenas partes modulares do trabalho que juntos resultariam em um trabalho único, e assim também conseguiam motivar a participação de alguém que até só está algum tempo, mas que depois poderia entregar sua contribuição e também integrar às produções resultantes de atividades que durassem mais tempo. Na definição apresentada por FORM é destacado o conceito de também trabalhar memórias, o que traz à tona um lado mais afetivo e emocional ao trabalho desenvolvido: “A ideia foi recolhermos com eles uma série de memórias, de pequenos materiais que eles pudessem usar, de pequenas técnicas que pudessem trabalhar, pequenos objetos que pudessem trabalhar inclusive de casa, e criássemos uma tapeçaria gigante de pequenas tapeçarias para o santo lá da aldeia”. (FORM) Nesta mesma perspetiva, outras entrevistadas comentam sobre essa ideia de a diversidade de trabalhos unirem-se em um único propósito e objeto, com resultados visíveis a cada etapa: “… por isso o Manto como conceito surgiu exatamente desse pressuposto de diversidade de contributos, desta necessidade de conseguir resultados com pequenas coisas, pequenos contributos em curto espaço de tempo”. (DSG) Na visão de RS “ Cada uma fez seu pequeno manto que deu origem ao grande manto”. (RS). AS reforçou esse conceito e esclareceu que além da diversidade dentro do grupo, havia também a diversidade de contributos externos, de pessoas que não participaram da oficina regularmente, mas que também contribuíram: “a ideia do Manto era que o trabalho individual de várias pessoas, não só das senhoras que estavam a frequentar o atelier, mas também de pessoas da Universidade do Minho, voluntários, ou seja, que todos trabalhassem para um objetivo comum, e então o resultado final foi a criação de um manto gigante”. (AS) Relativamente à importância da construção conceptual de um projeto, DSG concluiu que: “não é a forma como se concretiza, mas o conceito que interessa, que fica na comunidade e depois contamina muitas atividades”. (DSG)
71 3.2.6.2 Estrutura modular 3.2.6.2.1 Justificativa DSG justificou que a ideia de criar uma estrutura modular surgiu justamente como apresentado no conceito do projeto, a partir da tentativa de aproximar em cada sessão, a ação da reação do produto. Esta estrutura seria composta por módulos e elementos que estivessem na mão de cada pessoa, em que cada um na medida das suas variadas capacidades pudessem produzir e aprender com essa produção, e assim construir um objeto juntando todos os contributos de cada uma das pessoas (DSG). Relativamente ao Manto em si, DSG justificou o porquê de terem usado módulos triangulares para a sua execução, já que normalmente nas mantas, as pequenas partes que a compõem são quadradas, circulares ou até mesmo hexagonais. DSG disse que tinha trabalhado nas aulas juntamente com os estudantes da universidade, com diversas grelhas, e justamente em uma das referências apresentadas na aula havia uma em particular composta por tecidos que tinham uma combinação rígida e flexível que trianguladas dão origem a estruturas depois muito curiosas, a partir de triângulos equiláteros naturalmente. Além disso, DSG disse que também resolveu utilizar essa referência para trazer à atividade certo grau de novidade, pois ao invés de estarem a fazer algo mais comum como um quadrado ou retângulo, passaram a fazer o triângulo. A Figura 24 seguir traz exemplos de coberturas têxteis formadas a partir de vários módulos triangulares:
78 FORM também afirmou a sua opinião de que com as oficinas tinham que buscar elevar ainda mais o que as participantes já são e tentar extrair coisas boas como a pureza, ingenuidade e forma de estar na vida. AS citou que objetivavam que “as senhoras”, citadas no feminino pois eram quase unanimemente mulheres que participaram conforme já abordado, tivessem prazer naquela atividade e que fossem valorizadas perante a comunidade, através da exposição do seu trabalho. RS discorreu acerca desta temática ao abordar a interação com grupos externos, no caso com estudantes, que ocorreu em uma das sessões da oficina. Neste sentido, afirmou que com essa atividade tinham o objetivo de aumentar a autoestima e valorizá-las, fazer sentirem-se importantes através desta visita e interação. 3.2.7 Funcionamento da oficina Nesta sessão será discutido como ocorria o funcionamento regular da oficina e como ocorreram as sessões paralelas, e questões relacionadas à logística em volta da atividade, como os materiais e técnicas trabalhadas. 3.2.7.1 Sessões regulares De acordo com o relatado pelas participantes DSG, AS, CAS e RS e já introduzido neste trabalho, a oficina criativa foi integrada numa atividade que já funcionava regularmente com participantes de uma pequena Aldeia da Póvoa de Lanhoso chamada Monsul, que frequentavam o Centro Comunitário da IPSS Em Diálogo (Figura 29). Segundo ANIM, o atelier funcionava todas as quintas-feiras das 14hrs às 18hrs, e a instituição tinha ao dispor carrinha e motorista que recolhia e deixava os participantes em casa, fato citado por DSG, RS, e CAS como grande aliado para o bom funcionamento da atividade, pois há certa dificuldade de transporte na Póvoa de Lanhoso, além de gerar despesas e em alguns casos ser inviável ir a pé devido a distância. AS e ANIM relataram que virou um hábito fazerem lanches partilhados no meio da tarde e que esse era um bom momento de confraternização e cooperação entre todos.
79 Figura 29: Sala da Associação Em Diálogo onde ocorria a oficina 3.2.7.2 Materiais Quanto aos materiais utilizados na oficina, DSG relatou que grande parte foi fruto de doações de empresários que doavam para a própria Associação Em Diálogo e que apenas em casos pontuais tiveram que comprar alguma coisa, como por exemplo os canos de PVC e o arame que serviam de moldura para os triângulos. Informou que também tinha muito material que era doado e que armazenava no IDEGUI e que levou para esta oficina, e que FORM também levou alguns materiais do próprio acervo. ANIM acrescentou que como na Póvoa de Lanhoso há muitas fábricas têxteis, AS contactava os presidentes das juntas de freguesias e da Câmara ou mesmo os empresários destas fábricas e conseguia doação de materiais. ANIM relatou que outras vezes aconteceu também das fábricas abrirem falência e ligarem para a instituição para saber se queriam aproveitar algum material, e eles então iam nestes locais recolher o material. Relativamente ao tipo de material trabalhado, segundo DSG e AS o mais comum era o trapilho, que são tiras de tecidos geralmente resultantes de sobras da indústria têxtil e muito usadas em trabalhos manuais. Além disto, segundo DSG a própria associação também tinha um conjunto de materiais que eram vestígios de oficinas anteriores como bordados, fios, botões e tecidos. AS referiu também que tinham alguns desenhos de um curso anterior de bordados profissional em que as formadoras deixaram uma serie de desenhos de bordados de filigranas e que continuaram a usá-los principalmente na confeção dos “outros mantos”.
80 Na segunda etapa da oficina em que focaram mais na produção de objetos com o intuito de comercialização, DSG afirmou que foram usados restos, retalhos e orlas em couro os quais tinha juntado para seu acervo institucional, e que são frutos também de doações. 3.2.7.3 Atividades Quanto às técnicas utilizadas e ensinadas durante as atividades da oficina, DSG relatou que logo no início FORM sugeriu iniciarem treinando algumas competências como a tecelagem. Para isso mandaram fazer espécies de molduras de tecelagem, uma estrutura de madeira com pregos que permitia fazerem tecidos facilmente. Essa moldura era retangular e já foi feita com uma medida que permitisse treinarem essas competências e depois fazerem os outros mantos no futuro (Figura 30). Figura 30: Teares de tecelagem utilizados na oficina Após esse primeiro momento começaram a desenvolver o trabalho com os triângulos que iriam compor o grande Manto. Segundo DSG, a estrutura deste triangulo revelou-se muito prática e era construído de forma muito fácil. Portanto, era composta por tubos de PVC que já vinham cortados e a primeira tarefa passava por pegar estes tubos, e passar uns arames para ajudar a uni-los e passar os fios (Figura 31).
81 Figura 31: Montagem dos triângulos com os tubos de PVC FORM afirmou que a partir dos triângulos trabalharam com as senhoras diversas formas (Figura 32 e Figura 33 ) como por exemplo com tapeçaria, macramé, com patchwork , porém tentou desviar esta atividade do que afirmou ser “o tipo de currículo deste tipo de formação com esse tipo de pessoas” que era basicamente copiar os pontos e desenhos de crochê das revistas e estimulou o grupo a criar coisas novas, até mesmo com base em suas próprias memórias. Figura 33: Participante a trabalhar no triângulo (fonte: Arquivo de DSG) Figura 32: Participante a mostrar seu triângulo (fonte: Arquivo de DSG)
82 DSG e FORM referiram também sobre a habilidade em fazer macramê do único senhor que participou das sessões regulares da oficina. DSG afirmou que a estrutura do Manto também permitiu acolher bem os trabalhos em macramê, e que acabou por ter uma grande visibilidade, primeiramente por ser original e por ter construído estruturas extensas penduradas no triângulo. Já em relação às atividades concretizados no âmbito dos outros mantos, DSG afirma que em alguns produtos foram incorporados também alguns desenhos que são usados pela filigrana local e que já faziam parte do acervo da Em Diálogo. Comentou também que foi FORM quem fez a transposição do desenho original da filigrana para papel vegetal, evidenciando as linhas mais relevantes do desenho e através de punção de furação o desenho era ultrapassado para o couro. Depois essas peças, que podiam ser feitas por diferentes participantes, eram unidas com a mesma lógica modular do grande manto e originaram as primeiras bolsas (Figura 34). Figura 34: Bolsa feita na oficina com punção do desenho (fonte: Arquivo de DSG) 3.2.7.4 Acompanhamento Neste processo de aprendizagem e produtividade, FORM afirmou que passava a tarde toda junto dos participantes, de secretaria em secretaria, a contribuir com cada um individualmente. Aproveitava este momento para dar algumas explicações, sugestões, corrigir alguns pormenores, montar o trabalho conjuntamente e estimulá-los a utilizar muito mais a parte criativa.
83 FORM afirmou que também propôs exercícios de abstração do objeto e de subversão de técnicas, com o intuito de alicerçar essa componente de criação, e deixá-los com essa competência mais forte e livre. 3.2.7.5 Motivação O próprio projeto foi pensado para motivar a participação e o engajamento dos participantes, pois conforme DSG afirmou, o próprio ajuste do projeto da oficina para a realidade local e para o calendário cultural, incorporando o trabalho numa temática ligada a religião e cultura, tinha como propósito motivar os participantes a aderirem à iniciativa. Era fundamental terem uma razão genuína para participar pois eram voluntários, não ganhavam nenhum incentivo monetário por frequentarem essa ação. Além disso, DSG disse que via a necessidade de apresentarem resultados muito visíveis em curto prazo para cada pessoa, pois conforme notaram pela edição anterior no antecedente do Manto, era fundamental manter as pessoas muito motivadas em cada momento da ação, mas também com um prazo para concretização de algo maior. Todas as entrevistadas comentaram sobre a competência e importância da formadora FORM em manter os participantes motivados ao longo das atividades. Pode-se destacar a fala de AS que afirma o seguinte sobre FORM: “com aqueles conhecimentos todos e com a capacidade de trabalhar com esse público conseguia motivar a fazerem coisas que elas se calhar nunca pensaram que conseguiriam fazer” (AS) Além disso, DSG, AS, e RS se referiram ao fato de que levarem algo novo e pessoas novas já iria por si só motivar mais as pessoas, até porque romperia com a monotonia que pudesse existir no atelier. Durante a oficina, FORM demonstrou que estava sempre a motivar os participantes da oficina, uma das formas era por exemplo elogiar os resultados que conseguiam obter de acordo com cada capacidade individual, para que percebessem que o que ela pretendia era que os objetos tivessem texturas e fossem uma criação própria de cada um, e que não estava em busca de que fizessem algo perfeito. FORM afirmou também que tentou sempre uma maior aproximação com os participantes, inclusive colocando-se ao lado deles para que percebessem que ela estava ali também para trabalhar
84 em conjunto, para estreitar a ligações e para quebrar o gelo, e que vissem que ela não estava um patamar acima e não estava ali para dar ordens, mas sim para construírem algo em conjunto. 3.2.7.6 Sessões paralelas Conforme explicado de forma detalhada apenas por DSG, mas também mencionado por RS, AS e ANIM, houve três atividades paralelas a oficina regular que gerou grande contributo para o grande Manto e serão apresentadas nesta sessão. 3.2.7.6.1 Associação Em Diálogo Uma destas sessões foi na própria associação onde decorreram as oficinas regulares, e aconteceu durante um dia, onde foram convidadas outras pessoas da comunidade. Nesta sessão DSG afirmou que participaram mais homens, por exemplo os maridos e filhos das participantes, além de outras pessoas. Segundo DSG, essa sessão tinha o propósito de numa tarde montar um grande grupo de triângulos, preenchidos com tecidos coloridos ao invés de trabalhos mais minuciosos como era realizado nas sessões regulares. ANIM comentou que nesta sessão, AS convidou também outras pessoas beneficiadas pelo Serviço de Apoio Social, que não estavam a frequentar regularmente a atividade, mas que puderam participar e dar o seu contributo. 3.2.7.6.2 Sol do Ave Além deste, segundo DSG, foi recrutado um grupo de participantes de uma atividade da Sol de Ave em Guimarães, no âmbito do seu projeto chamado Guimarães Inclusivo e, portanto, contou com a contribuição de pessoas que frequentavam as atividades de capacitação na Sol do Ave regularmente. 3.2.7.6.3 IDEGUI A terceira atividade, de acordo com o relato de DSG, aconteceu no IDEGUI, e contou com a participação de alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento de diferentes cursos como design têxtil, design de produtos, arquitetura e design de moda. Nesta oficina, também foram elaborados vários triângulos (Figura 35), e após isso simularam a montagem de uma grande peça no chão e, entretanto, foram incorporados os triângulos feitos na oficina da Sol do Ave.
85 Figura 35: Estudantes a mostrar as suas contribuições para o Manto durante oficina no IDEGUI (fonte: Arquivo de DSG) 3.2.7.7 Exposições do trabalho No decorrer do projeto e no seu encerramento, aconteceram dois eventos que permitiram a exposição e partilha dos trabalhos e resultados obtidos com a comunidade. O primeiro foi a montagem do Manto na festa de São Tiago e Santa Luzia, e o segundo foi na feira de Natal onde foram expostos os outros Mantos, produtos que poderiam ser comercializados. 3.2.7.7.1 Festa de São Tiago e Santa Luzia Apenas DSG discorreu detalhadamente sobre como aconteceu o dia da montagem da estrutura, e explicou que fizeram uma composição traçada no chão em tempo real e montaram o mapeamento dos triângulos feitos mais minuciosamente na oficina regular, dos triângulos resultantes das oficinas paralelas e também dos grandes triângulos feitos apenas com tecido, sem a moldura com canos de PVC. DSG e RS referiram que na montagem houve a participação e grande colaboração da junta de freguesia e da organização da própria festa. DSG contou que o dia da montagem (Figura 36 e Figura 37) foi uma emoção e que fizeram um picnic, mas também exigiu um trabalho árduo com máquinas e cabos de arames presos em diversos sítios. Esta situação também foi prevista e projetada mediante um estudo prévio, DSG fez uma visita ao local e analisou onde e como poderiam ser fixadas essas estruturas e qual era a dimensão necessária.
86 Figura 36: Participantes e comunidade a colaborarem com a montagem do Manto (fonte: Arquivo de DSG) Figura 37: O Manto montado para a festa de São Tiago e Santa Luzia (fonte: Arquivo de DSG)
87 3.2.7.7.2 Exposição dos Outros Mantos na Feira de Natal Relativamente a exposição dos outros mantos na Feira de Natal em Monsul, ou seja, das carteiras e outros produtos do género que foram produzidos, nestes relatos houve a maior incompatibilidade de informações dadas pelas entrevistadas. Este evento também encerrou a oficina e consequentemente a participação da formadora FORM, da Sol do Ave e do IDEGUI no atelier da Em Diálogo. Resumidamente, FORM, RS, AS e DSG referiram que houve essa feira de Natal e que foram expostos lá os trabalhos da oficina, porém FORM e DSG afirmaram que foram vendidos vários dos trabalhos feitos na oficina, e em contrapartida AS afirmou que não venderam praticamente nada e RS contou que apenas expuseram os trabalhos e que não os podiam vender. 3.2.7.7.3 Publicação científica do trabalho DSG informou que foi feito um artigo em colaboração com outras duas coautoras da UMinho. O artigo foi feito apresentando o projeto e pensando na perspetiva do material utilizado, os restos de couro, os restos de têxtil e como fazer o upcycling, ou seja, a reutilização criativa destes resíduos, valorizando-lhes para um propósito mais nobre do que deitá-los fora ou reciclá-los (Trigueiros, Broega, e Carvalho 2019). 3.2.7.8 Opinião das participantes Conforme já referido, foram contactadas também três dos onze participantes por telefone para questionar sobre o que mais gostaram do projeto e do que sentem falta. Estes contatos foram fornecidos pela Associação Em Diálogo e foram contactadas por ANIM três senhoras que participaram da oficina e neste contato foi feita a apresentação da autora e foi questionado sobre a autorização para o respetivo contato da mesma. Durante a conversa foi inicialmente explicado o propósito deste trabalho e solicitada autorização para gravar a conversa para ser possível ouvi-la novamente depois com o propósito académico. As senhoras foram muito recetivas durante a ligação e apesar de ter sido uma breve conversa, foi dada muitas informações relevantes e interessantes. Para este efeito, irei referir-me às senhoras por P1, P2 e P3.
94 Numa vista geral, percebe-se que houve mais benefícios que dificuldades durante as atividades da oficina. Estes benefícios ou pontos favoráveis estão claramente interrelacionados entre si. Por exemplo, a atuação dos atores sociais e consequente parceria estabelecida, especialmente entre instituições e formadoras, afetou diretamente de forma positiva no funcionamento e planeamento da iniciativa. A própria experiência destas pessoas, mesmo no caso da oficina Maria da Fonte que foi encerrada antecipadamente, contribuiu para pensarem em estratégias para contornar algumas limitações verificadas no território, como foi o caso dos transportes. As boas relações criadas e o ambiente descontraído e colaborativo contribuíram para que aquela atividade além de gerar conhecimento e desenvolvimento de competências criativas afetasse diretamente no bem-estar e motivação dos participantes. A atuação de interlocutores qualificados na área do Design contribuiu com o enriquecimento do projeto oferecendo soluções nas fases de definição conceitual, de desenvolvimento e de proposição de produtos, identificando boas oportunidade que fizessem sentido naquele contexto e que fossem adaptadas às capacidades individuais dos participantes. Além disso, sem pessoas envolvidas e motivadas a continuar o projeto, este provavelmente não teria sido replicado nos outros anos na mesma festa tradicional da aldeia. Neste sentido tira-se uma primeira lição que está estritamente ligada ao sucesso de projetos de inovação social, conforme bem diz DSG: “Os projetos têm nomes, têm caras, estão associados a dinâmica e a iniciativa e a vontade de pessoas concretas. Portanto não se pode falar em abstrato nestes projetos, não há regras digamos assim de ouro que funcionem sempre se não houver pessoas a pô-las a funcionar e isso é que é uma das lições que muitos outros casos se retiram” (DSG) Ao olharmos para as limitações assinaladas, nota-se que algumas estão estritamente relacionadas a fatores circunstanciais que geraram a necessidade de intervenção social e, portanto, a oportunidade para a atuação deste tipo de projeto. Ou seja, ao mesmo tempo que são limitadores, foram estes pontos que geraram a necessidade da atuação neste território, como é o caso das dificuldades sociais e económicas enfrentadas pelas participantes. Ademais, a questão financeira também foi um fator limitante que afetou a possibilidade de apoio financeiro às participantes e a compra de materiais. Neste projeto a atuação da designer foi em regime pro bono, e caso não houvesse essa disponibilidade de contribuir voluntariamente com a ação
95 social, toda a intervenção do design poderia não ter existido por falta de recursos financeiros. A questão do planeamento de como se procederia a desmontagem da estrutura e a forma de descarte e/ou reaproveitamento dos materiais foi algo que não foi previsto no projeto, mas que também serve de lição para o futuro. Portanto, chegamos a uma série de benefícios e dificuldades (Figura 38) identificadas ao longo dos relatos das entrevistadas e que serão melhor explanadas nos tópicos a seguir: Figura 38: Dificuldades e benefícios identificados na oficina a partir dos depoimentos das entrevistadas 3.2.9.1 Benefícios Através da análise das entrevistas foi possível perceber que houve muitas ações positivas descritas, que deram origem a este tema geral que será abordado quanto aos diversos impactos e benefícios dos envolvidos. A partir da apresentação dos objetivos foi possível identificar o impacto
96 previsto no planeamento do projeto e através do atual tema será possível perceber o impacto real no desenvolvimento e após o término do projeto. 3.2.9.1.1 Interlocutores de Design Sem dúvidas a presença de interlocutores qualificados na área da criação do projeto de design foi fundamental para potencializar e enriquecer o projeto. Neste sentido, AS reconheceu que o fato de terem trabalhado com pessoas na área do design como DSG e FORM seguramente que foi uma maisvalia no trabalho que estavam a fazer com as senhoras. RS também comentou sobre o quanto a parceria com o IDEGUI e consequentemente com DSG veio elevar a qualidade da oficina através de toda intervenção e estratégia definida, além de ter trazido ao projeto a formadora FORM com valiosas competências técnicas e sociais. Conforme discutido por DSG, sua ação iniciou desde a reflexão sobre a ideia principal das atividades e a sua duração, portanto houve toda uma estratégia de gestão do tempo, aproveitando parte do estudo histórico e cultural sobre a região realizados na fase anterior; por outro lado ao definir um conjunto de tarefas com um propósito mais de capacitação em pequenas etapas de curta duração e não só a pensar em tarefas manuais, mas também na transmissão do enquadramento da valorização do contexto histórico local. O design da proposta contemplou todo um estudo para definir o objeto, a sua forma e modulação, como poderiam trabalhar em diferentes contextos, com diferentes materiais, diferentes capacidades individuais, como poderiam montar e fixar esta estrutura e fazer com que fosse interessante para o grupo e a comunidade. Portanto o design teve papel fundamental na garantia de que o projeto pudesse se concretizar da forma desejada e de acordo com as possibilidades e limitações existentes. 3.2.9.1.2 Parcerias Todas as entrevistadas de alguma forma mencionaram positivamente o trabalho em parceria entre as diversas entidades relacionadas com a oficina, principalmente entre as mais atuantes: a Sol do Ave, o IDEGUI e a Em Diálogo. DSG, AS e RS destacaram efetivamente o trabalho em parceria como um importante fator para o sucesso e bom funcionamento da Oficina Criativa. AS mencionou que muitas vezes o trabalho em parceria não é fácil, e neste projeto, foi o que disse ter corrido particularmente bem.
97 “Acho que correu muito bem o trabalho em parceria, a parceria nem sempre é fácil, e em Portugal nestes meios mais pequenos muitas vezes ainda se torna difícil trabalhar em parceria porque as pessoas ainda vivem viradas um bocadinho para si próprias, para o seu trabalho, para a sua instituição e acho que o trabalho em parceria aqui correu muito bem”. (AS) 3.2.9.1.3 Bem-estar O bem-estar produzido pela oficina para os participantes foi citado praticamente por todas as entrevistadas e pode ser considerado um dos maiores benefícios causados pelo projeto. Neste sentido, CAS destaca que na sua opinião esse foi o maior impacto do projeto, pois apesar de alguns participantes serem pessoas com histórias difíceis de vida, a oficina era um momento onde estavam totalmente dedicadas ao Manto e realização das atividades propostas e inclusive destacou “As senhoras estavam a trabalhar sempre dedicadas e muito felizes, estavam sempre a cantar.” (CAS) FORM também relatou que no seu ponto de vista o projeto funcionou muito bem do ponto de vista social, e afirmou que efetivamente todas as participantes tinham uma vida de alguma forma complicada, e aquele momento ali também servia para terem uma descontração. Além disso, FORM afirma o quanto foi gratificante para as participantes no dia da montagem verem realmente a concretização do Manto: “Foi incrível na parte do Manto elas chegarem lá e pensarem: ‘fomos nós que fizemos isso!’ - porque acho que, no fundo, elas nunca acreditaram bem até nós chegarmos à capela para montar aquilo (…) então foi um orgulho muito grande para elas.” (FORM) ANIM também referiu que aquele era um momento para as participantes aliviarem a cabeça e que ficaram todas contentes em verem o trabalho exposto na igreja. Além disso, afirmou que as participantes ficavam muito motivadas porque sentiam-se importantes naquele momento que estavam a fazer o Manto ou outros produtos e principalmente quando alguém lhes pedia algo, sentiam-se úteis e parte de um conjunto. RS afirmou que foi criado durante as sessões um ambiente muito bom e saudável para as senhoras, e citou o caso de uma senhora que tinha perdido um filho há pouco tempo num acidente e estava ainda num processo de luto e que no início, para ela ir, tinha que uma amiga ir buscá-la a casa e depois no fim já ia sozinha e até chegava antes da hora, e que era muito percetível a sua evolução emocional.
98 AS também disse que era um momento de confraternização e que se tornou um hábito fazerem sempre um lanche partilhado. Durante a conversa com as participantes, as três contatadas relembram e demonstram saudades em voltar a frequentar do atelier, o que já pode ser considerado com algo que relata que se sentiam bem naquele lugar e a fazer aquela atividade. Mais especificamente P2 expõe o quanto sente falta de voltar para o atelier para “espalhar a cabeça”, ou seja, ocupar a mente. 3.2.9.1.4 Aprendizagem e criatividade Efetivamente o próprio processo de aprendizagem foi muito benéfico, pois as pessoas puderam ampliar os horizontes de possibilidades, aprenderem diferentes técnicas e fazerem diferentes produtos e atividades. As três participantes contatadas comentaram que uma das coisas que mais gostaram durante o Manto foi das coisas novas que aprenderam a fazer. DSG destacou que um dos pontos fortes do projeto foi que cada pessoa pudesse, à medida das suas variadas capacidades produzir e aprender com essa produção. Em sua opinião afirma que esses tipos de atividades culturais são, só por si, capacitantes, trazem muitos benefícios, e promovem a criatividade, seja qual for o contexto. FORM comentou sobre as diferentes técnicas trabalhadas durante a oficina - como a tapeçaria, tecelagem, macramé, patchwork - e que além disso tentou sempre subverter o processo criativo e de produção, e fazer com que abstraíssem o objeto para tornar a parte criativa muito mais alicerçada, forte e livre. Afirmou que sua ideia foi recolher junto do grupo uma série de memórias, de pequenos materiais que eles pudessem usar, de pequenas técnicas que pudessem trabalhar, pequenos objetos que possibilitasse trabalharem inclusive em casa. FORM disse que na sua visão o maior ganho nesse processo todo e o que eleva estas oficinas é ver os participantes alcançarem a libertação criativa, o fato de trabalharem sem medo, sem terem um plano efetivo e irem criando passo a passo. Afirmou também que por questões culturais e educacionais o inventar ainda é uma coisas muito difícil para este perfil de participantes, e que inclusive no início houve certa dificuldade de o
99 grupo aceitar essa subversão pois achavam que eram coisas “mal feitas”, mas que com o tempo conseguiu quebrar esse paradigma. 3.2.9.1.5 Valorização das capacidades individuais Um ponto de destaque do projeto foi a possibilidade de contribuição de diferentes pessoas com diferentes capacidades ao longo do projeto, e houve sempre o ajuste das atividades de acordo com a capacidade individual de cada um. DSG destacou que havia pessoas com capacidades bastante diferentes, com mais habilidades, com grande destreza, mas que havia outras participantes, como também dito por FORM e AS, que já não conseguiam fazer alguns trabalhos devido a algumas dificuldades motoras. Portanto houve a atenção de durante se pensar no projeto, conseguir integrar numa só proposta diferentes capacidades, pessoas e produtos: “E por isso o Manto como conceito surgiu exatamente desse pressuposto de diversidade de contributos, desta necessidade de conseguir resultados com pequenas coisas, pequenos contributos em curto espaço de tempo.” ( DSG ) 3.2.9.1.6 Relações a. Relação entre participantes Outro aspeto importante foi a criação de laços entre participantes que se formaram ou que se fortaleceram durante a atividade. As três participantes relataram que uma das coisas que sentem mais falta é do convívio com as outras, inclusive P2 refere-se as outras participantes como ‘amigas’ durante a conversa. FORM comentou que neste quesito o projeto chegou a funcionar como uma consequência para o futuro, pois apesar de algumas já se conhecerem, acabaram por ganhar muita intimidade, interajuda e saíram de lá com amizades mais bem estabelecidas. ANIM também referiu que as relações foram importantes até mesmo porque entre o grupo conseguiam trocar produtos que cultivavam na própria casa e desta forma ajudarem-se entre si. b. Relação entre formadora e participantes A boa relação entre as participantes e a formadora também foi amplamente citado durante as entrevistas além de destacadas uma série de competências que identificaram em FORM.
100 RS destaca a importância das formadoras, no plural pois também se referia a formadora da fase anterior da oficina - Maria da Fonte - na contribuição para momentos descontraídos em que as pessoas se sentiam à-vontade durante a atividade. Destaca também que as pessoas costumavam levar flores que apanhavam durante o caminho para oferecer a FORM. ANIM chega a afirmar que FORM foi espetacular durante as atividades e que as senhoras a adoravam e queriam que voltasse para o atelier após o fim do projeto. DSG também ressalta sua admiração e afirma que FORM tem muitas qualidades pessoais a nível de interação com as pessoas e grande acessibilidade, o que culminou na ótima relação entre ela e o grupo. Além das competências pessoas também citou o vasto conhecimento técnico e cultural que FORM possui. AS se referiu à participação de FORM como fundamental e afirmou que esta tinha o perfil ideal para a atividade pois além dos conhecimentos técnicos conseguiu criar um ótimo relacionamento com os participantes, que gostavam muito dela. Além disso, destacou que com os conhecimentos todos que tinha e com a capacidade de trabalhar com esse público conseguiu motivar e direcionar o grupo a fazer coisas que nem imaginavam que conseguiriam. A própria FORM explica que a sua atitude na relação com os formandos deste tipo de comunidade é a de tentar aproximar-se de modo que elas percebam que ela não está um patamar acima. “Porque de repente eu coloco-me à beira delas e a fazer também e isso é muito importante para a quebra do gelo e para que elas percebam que eu estou ali também para trabalhar com elas e para levar a coisa para outro patamar, não estava ali para dar ordens.” (FORM) De acordo com FORM, ela ouviu muitos desabafos das participantes sobre a vida pessoal e que, mesmo depois do encerramento das atividades, algumas ainda chegaram a contactá-la por telefone para saber como estava. FORM relatou também que a sua despedida do grupo foi uma emoção, mas que naquele momento ainda havia possibilidade de voltar ao atelier, entretanto por diversos motivos as expectativas não foram correspondidas e não foi possível o seu regresso. Quanto ao sentimento do grupo em relação ao seu possível regresso afirmou: “Elas estavam ansiosas para que eu voltasse porque perceberam que ali aconteciam coisas efetivas e que se tornava realidade e que se tornavam objetos.” (FORM)
101 Quanto a sua visão sobre o grupo, FORM faz uma avaliação profunda e emocionante: “Elas foram sempre uma mais-valia, nelas eu não consigo ver ponto negativo porque eu acho que nós tínhamos que elevar ainda mais o que elas já são e extrair toda aquela pureza que elas têm dentro da sua ingenuidade e forma de estar na vida.” (FORM) 3.2.9.1.7 Integração com a comunidade Outro aspeto muito destacado foi a importância da oficina de além de estar voltada para o público interno, ou seja, para os próprios participantes regulares, também ter conseguido englobar o externo, e consequentemente a comunidade na qual a ação estava inserida. Neste sentido DSG destacou a capacidade que o projeto teve de envolver as pessoas e ligar a comunidade. Esta integração com a comunidade foi conseguida a partir do momento em que incluíram o Manto na agenda cultural da comunidade, na festa popular dos santos da aldeia e, além disso, na sessão paralela aberta a comunidade que aconteceu na própria Associação Em Diálogo onde também foi possível uma interação direta com a comunidade. FORM referiu que as participantes quando souberam da escala do objeto e para onde era, ficaram mais motivadas e empenhadas e inclusive convidaram mais amigas para participar da iniciativa. Destaca que o projeto também beneficiou a imagem delas perante a aldeia: “E no fim tínhamos várias pessoas que quase não tinham estado no projeto, mas que foram aparecendo porque de repente aquilo era um acontecimento importante na aldeia.” (FORM) Na mesma perspetiva, CAS também ressaltou o quanto foi importante para as participantes verem o seu trabalho reconhecido e disse que, para além delas, foi muito importante para a própria equipa que estava na organização da iniciativa, porque sentiram que fizeram algo útil para a comunidade no geral. RS afirmou que a estratégia de colocar o Manto na festa da aldeia também foi um benefício pois além de ficar visível a toda a comunidade, era quando os filhos e familiares imigrantes vinham à terra e elas podiam mostrar o trabalho. 3.2.9.1.8 Diversidade de contributos O contributo de diferentes pessoas e grupos também conseguiu enriquecer muito a ação, tanto para estimular e motivar o grupo, quanto para difundir esse tipo de ação.
102 Neste sentido DSG destacou que é muito importante envolver a comunidade local e as organizações pois juntos conseguem em cada momento fazer com que as coisas realmente se concretizem bem e que este seja um elo de ligação para que ao longo do tempo as coisas continuem a acontecer e possam ser mais divulgadas. RS afirmou também que foi muito importante para o grupo saber que a Universidade do Minho estava a trabalhar com elas, pois aumentou a autoestima delas e as valorizou. Com essa intervenção sentiam-se mais importantes. 3.2.9.1.9 Sementes deixadas Semente é como algo que, com o tempo, há de produzir certos efeitos – de reproduzir, crescer - e conforme afirmou FORM o intuito desta ação também foi deixar sementes e criar as necessidades para depois os envolvidos irem à procura de mais. Em sua opinião, acredita que alcançaram com sucesso esse propósito. DSG também afirmou que foi deixada uma semente, pelos produtos, oportunidades e “pela memória que ficou e que alimenta o futuro.” Nesta perspetiva podem-se destacar as ações que continuaram a acontecer depois do fim da atividade, como os “novos mantos” que como disse AS foram intervenções que geraram muito impacto na comunidade e que foram inspiradas pelo Manto. ANIM também comentou sobre as ações seguintes e afirmou que, no ano a seguir quando fizeram novamente a proposta, as senhoras ficaram contentes e animadas por participarem novamente, apesar de terem feito outra proposta. RS e ANIM também comentaram sobre o benefício para o futuro do atelier que trouxe o facto das colaboradoras da Em Diálogo terem participado da oficina e terem aprendido novas formas de trabalhar com o grupo. Além disso, como as três participantes contatadas afirmaram também terem boas memórias e terem gostado muito da atividade, reflete-se aí a marca positiva que o projeto deixou nos envolvidos, o que pode estimulá-las a buscarem mais conhecimento e ações do género.
103 3.2.9.2 Dificuldades Após a apresentação dos resultados da oficina de acordo com as entrevistas realizadas, consegue-se de forma mais clara identificar e comentar acerca das dificuldades expostas pelos entrevistados e que foram devidamente identificadas e separadas por categorias. 3.2.9.2.1 Apoios aos participantes Foi citado por DSG e CAS a questão da falta de apoio financeiro às participantes como um entrave, pois como são pessoas que estão a atravessar uma situação de dificuldade económica devido ao desemprego, seria importante e motivador para os participantes este apoio. Neste caso, o financiamento do programa só contemplava o pagamento dos recursos humanos da instituição promotora e da formadora da ação. 3.2.9.2.2 Financiamento de materiais Outro obstáculo citado por FORM e DSG está relacionado a limitação de recursos disponíveis no projeto e remete à limitação de materiais, os quais tinham de ser aproveitados maioritariamente de doações e acervo das instituições. Segundo FORM “A questão dos materiais foi algo difícil de contornar. Fomos sempre inventando e fomos levando coisas” (FORM). DSG neste sentido também acrescentou que os recursos do projeto eram muito reduzidos e que esta gestão dos materiais já um requisito: “…o projeto tinha alguns fundos, não tinha muitos mesmo para material, aquilo era uma coisa muito modesta não é. Pronto isso também fazia parte dos requisitos o projeto, que era conseguir fazer alguma coisa com coisa nenhuma.” (DSG) 3.2.9.2.3 Concorrência entre instituições Em relação ao encerramento do antecedente da oficina do Manto, DSG, RS e CAS citaram um grande entrave que acabou por interromper as atividades da oficina anterior (Maria da Fonte) precocemente, que foi a convocação das participantes para outras formações por parte do Centro de Emprego e da Segurança Social, que inclusive davam apoios financeiros aos participantes. Segundo a explicação de CAS, diante dos benefícios oferecidos nestas formações, a oficina não tinha como concorrer:
110 Apesar de haver o propósito de capacitação dos participantes para que elaborassem produtos comercializáveis em todos os projetos, destaca-se o sucesso do empreendedorismo social nos casos das Mulheres de Bucos e da Cestaria Cana-Brava, em que as artesãs conseguem a partir deste trabalho gerar renda e repartir a receita entre elas. Vale ressaltar que são projetos existentes há mais de uma década – este sucesso é devido essencialmente a um processo construído ao longo do tempo. No projeto A avó veio trabalhar a receita gerada através da comercialização dos produtos não gera renda direta aos participantes nem à entidade promotora, mas é revertida em experiências e passeios para o grupo. No caso do Manto, a comercialização dos produtos apesar de ter sido uma expectativa inicial, acabou por ficar parada e não avançar mais neste sentido. Nestes dois últimos projetos mencionados, o foco maior era em atividades que gerassem conhecimento, e sobretudo fortalecimento social e ocupacional. Relativamente às atividades, apenas o projeto Cestaria Cana-Brava não envolve a costura. Talvez este facto esteja relacionado com outro, observado em todos os projetos, que é a predominância feminina, sendo que apenas no Manto e no A Avó veio trabalhar houve a participação regular de um participante homem; nos outros apenas mulheres aderiram aos projetos. Até na Cestaria Cana-Brava, sendo a técnica do trançado um conhecimento repassado por mestres-artesãos homens da comunidade, apenas dois homens aderiram inicialmente a participar do projeto, e apenas as mulheres permaneceram após as primeiras sessões até hoje, demonstrando um maior engajamento de mulheres nestas iniciativas. Observa-se que em todos os projetos as atividades envolviam e consequentemente valorizavam algum aspeto do património cultural local, como por exemplo os saberes, os modos de fazer, as festas populares, costumes e outras tradições. No caso do Manto, notou-se que houve uma maior integração da atividade com outras pessoas da comunidade e de outras instituições, os estudantes e os participantes das formações da Sol do Ave, que conseguiram dar seu contributo mesmo sem participar regularmente das sessões. Além disso, só no Manto o projeto envolvia uma intervenção urbana (efémera) na comunidade, tornando-se um ícone para a comunidade e criando uma memória afetiva da atividade associada àquela festa. A questão da cooperação e do fortalecimento dos laços sociais e do aumento da autoestima através das iniciativas também foi algo destacado em todos os projetos, com exceção nos relatos sobre a oficina Maria da Fonte, possivelmente devido ao pouco tempo de duração da oficina.
111 Em síntese constata-se a partir dos projetos estudados a busca por fortalecer a componente criativa, as relações sociais, a valorização pessoal e da cultura local, além do intuito de comercialização dos produtos gerados. No caso específico do Manto, a intervenção urbana e comunitária destaca-se como produto diferenciador da inovação social do projeto. Em todas as situações os casos de Design para Inovação Social foram desenhados para atender comunidades em pequena escala e nota-se que é de fundamental importância o apoio de instituições e/ou de financiamento público para que essas iniciativas possam ser desenvolvidas e sustentadas. 4.5 Recomendações de boas práticas Em síntese destacam-se as seguintes recomendações que podem contribuir para a sustentabilidade de intervenções de design para inovação social em contextos semelhantes aos estudados: 4.5.1 Antes – Planeamento e organização - Elaborar um planeamento estratégico alicerçado nas características diferenciadoras e nas condicionantes locais/sociais que podem influenciar o engajamento da comunidade no projeto, atribuindo significado as ações; - Procurar integrar ações de design para inovação social em projetos sociais/instituições existentes, contribuindo com a dinâmica e enriquecimento destas práticas; - Estimular a participação de atores de diferentes setores, estabelecendo uma boa rede de relações entre parceiros; - Buscar auxílio de profissionais especializados (através de programas de apoios, dos municípios, das empresas e das instituições sociais, culturais e educativas…); - Moderar as expectativas e flexibilizar a proposta, tendo em consideração a viabilidade das soluções traçadas – em cada fase/ para cada tipo de participantes; - Considerar organização de calendário por etapas (curtas e progressivas) coordenadas com agenda festiva/cultural local e outras condicionantes dos parceiros envolvidos - Estabelecer uma identidade ao projeto, proporcionando experiências integradoras que resultem numa resposta inovadora com valor simbólico para a comunidade;
112 - Estabelecer uma boa comunicação sobre o projeto com organizações sociais que atuam no território de intervenção para compatibilizar e evitar a convocatória dos participantes para outras atividades que possam interromper a realização do projeto conforme planeado. 4.5.2 Durante – Processos e modos de atuação - Criar horizontalidade na interação entre equipas de projeto e os beneficiários, estimulando o equilíbrio e bem-estar no ambiente; - Empoderar os participantes e instituições a partir de ferramentas de promoção de competências criativas e autoestima; - Privilegiar o trabalho colaborativo, permitindo e motivando a contribuição de todos na medida e ajuste de suas capacidades; - Utilizar ferramentas do design que possam elevar a qualidade dos produtos ou serviços, tornando-os mais apelativos; - Trabalhar estratégias para arrecadar fundos e outras formas de compensar e dar retorno a voluntários e participantes; - Capacitar os atores sociais para continuarem a desenvolver soluções materiais e imateriais pertinentes a proposta; 4.5.3 Depois – Deixar um legado - Contemplar o processo e responsabilidades pelo destino de produtos e materiais descartáveis e modos de aproveitamento dos resíduos gerados; - Registar o percurso do projeto de modo organizado e partilhar processos, produtos e resultados; - Recolher de opiniões, avaliações e testemunhos dos vários intervenientes – para aprendizagem e melhorias em projetos futuros.
113 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 5.1 Conclusões O desenvolvimento da presente investigação incidiu na uma análise retrospetiva de um projeto concreto de intervenção do design com o intuito de promover a inovação social, tendo como foco principal a oficina criativa do Manto. Tratando-se de uma iniciativa ocorrida na envolvente da Universidade do Minho, para a sua compreensão e perspetiva do alcance de possíveis desenvolvimentos futuros, foi relevante incorporar o estudo de outros casos de projetos considerados semelhantes em sua essência, pretendendo desta forma destacar benefícios ou boas práticas alcançadas e semelhanças entre elas. A revisão da literatura e a reflexão sobre os casos estudados possibilitou a compreensão de que os projetos de inovação social com intervenção do design são extremamente dinâmicos e devem ser ajustados a cada realidade, a cada contexto específico, e que os resultados estão dependentes de muitas variáveis que não se limitam à boa vontade dos atores sociais, especificamente institucionais. Além disso, há certa dificuldade em comprovar resultados concretos de inovação social nos projetos. Nos projetos de Inovação Social, a capacidade dos designers destaca-se por oferecer respostas nas fases de definição de conceito e estratégia além do desenvolvimento e proposição de novos produtos e serviços. E sobretudo percebe-se o potencial do Design de compreender e responder as necessidades sociais locais e estabelecer significado nas ações que cativem os participantes, como foi o caso do Manto. Aliado a isso é fundamental a parceria e intervenção conjunta com técnicos e especialistas na área de intervenção social e da gestão, configurando um caráter multidisciplinar a estas iniciativas. Além da presença dos agentes da Inovação Social, viu-se que é também a estrutura política que favorece a Inovação Social, através de programas, financiamentos e outros apoios. Apesar da existência de programas de apoio social como é o caso do CLDS que financiou o Projeto Geração Lanhoso, viu-se que a restrição de recursos foi uma das maiores limitações do projeto, afetando as possibilidades de apoio a participantes que são pessoas com dificuldades financeiras e também de investimento em materiais. Além disso, não houve financiamento para a intervenção da designer na proposta, tendo esta sido praticada pro bono .
114 Por fim, conclui-se que a parceria e colaboração com instituições e profissionais que reúnem conhecimento especializado e vocação social são um caminho para a criação de condições que favoreçam a continuidade dos projetos. Além disso, a criação de um ambiente saudável, que faça os participantes se sentirem inseridos e valorizados, a horizontalidade nas relações entre formadora e grupo e a exploração da identidade cultural criando ações com propósitos e significados para os participantes são fundamentais para o engajamento destas iniciativas. 5.2 Cumprimento dos objetivos Esta pesquisa teve como objetivo geral identificar e enriquecer boas práticas de design para inovação social através do estudo retrospetivo do projeto Manto. A seguir serão revistos os objetivos específicos, apontando onde se encontra seu cumprimento ao longo desta dissertação, como forma de refletir sobre a contribuição deste trabalho. 1. Avaliar qualitativamente o legado deste projeto na perspetiva dos diferentes stakeholders envolvidos. A heterogeneidade dos entrevistados e de suas visões relatadas ao longo da apresentação dos Resultados permitiu compreender aspetos inerentes a diferentes perspetivas e fases de evolução de um projeto de inovação social. 2Identificar as boas práticas do projeto Manto e enquadrá-las no contexto de outros projetos de design para inovação social e literatura relevante; As boas práticas identificadas foram fundamentais para fornecer o contributo que pode agilizar a reflexão de soluções e possibilidades, estas estão relatadas ao longo da sessão dos Resultados onde estão elencados os Benefícios e estão enquadradas com outros projetos e com a literatura na sessão da DISCUSSÃO desta dissertação. 3Elencar recomendações que contribuam para a sustentabilidade de intervenções de design para inovação social em contextos semelhantes aos estudados; Através do panorama das boas práticas discutidas foi possível estabelecer uma listagem de recomendações que podem contribuir na sustentabilidade de outras intervenções congéneres, estes estão descritos na DISCUSSÃO deste estudo.
115 5.3 Limitações De um modo geral, entende-se que esta investigação foi bem-sucedida e contribuiu para uma compreensão adequada dos aspetos abordados. Dada a gestão do tempo, limitações tecnológicas e considerando ainda algumas limitações devidas à pandemia, a conversa com as participantes foi curta e com uma amostra reduzida de participantes. Esse fato não implica que os depoimentos não sejam significativos, visto que foram adequadas para o propósito deste estudo. Ainda assim, estudos futuros podem se enriquecer com uma amostragem maior. 5.4 Recomendações para trabalho futuro Baseado nos resultados obtidos neste trabalho, as seguintes sugestões para trabalhos futuros foram definidas: - Estudar o impacto de iniciativas de inovação social que gerem intervenções urbanas efémeras (como por exemplo o Manto que esteve exposto no adro da igreja) e que integrem de forma mais ativa a comunidade. - Investigar estratégias para que estes tipos de iniciativas consigam motivar uma maior participação e integração de ambos os géneros, particularmente de homens já que se verificou uma menor participação masculina nos projetos estudados. - Realizar estudos que destaquem como projetos de inovação social com intervenção do design podem ser convertidos em ações consolidadas de empreendedorismo social, e consequentemente geradores de rendimento e qualidade de vida para participantes, promovendo a sustentabilidade deste tipo de projetos.
116
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126 7.3 Anexo 3 – Guião das entrevistas GUIÃO DA ENTREVISTA Introdução e consentimento: Apresentação pessoal e o objetivo do trabalho, discutir sobre a gravação da entrevista, questões de sigilo e anonimato. O meu foco é aprofundar o conhecimento sobre a oficina Manto, tendo como base a visão e experiência de quem participou e esteve diretamente envolvido nas atividades. Será essencial ouvir e compreender as experiências pessoais, opiniões e reflexões críticas que queiram partilhar para assim identificar as boas práticas e evidenciá-las. Portanto, pretendo com este estudo destacar o papel ativo do design em processos de inovação Social, através do mapeamento das boas práticas e das ações que continuaram a decorrer após o término oficial das atividades do Manto. 1Informações pessoais • Pode falar um pouco de si, especialmente sobre sua profissão e função no projeto Geração Lanhoso e nas oficinas criativas? 2Concessão do projeto (Geração Lanhoso e a oficina Manto) • Como surgiu a demanda para a iniciativa? • Como foi escolhido o local de intervenção? • Quem foram os principais parceiros e financiadores? • Que objetivos/expectativas tinham quando propuseram as oficinas criativas no âmbito do projeto Geração Lanhoso? 3Participantes • Como os participantes foram angariados? • Quem eram os participantes? • Porque a grande maioria eram mulheres? • Houve desistências? 4Sobre a oficina Maria da Fonte • Quais os motivos para o encerramento antecipado da Oficina Maria da Fonte? • Porque não mantiveram as mesmas atividades na segunda oficina (manto)? • Houve concorrência por parte da segurança social?
127 5Estrutura do projeto (Geração Lanhoso e a oficina Manto) • Qual a constituição da equipa de trabalho? • Como era o funcionamento das reuniões regulares? • Como ocorreram eventos associados ao projeto? • O que pretendiam com estes eventos? • Como foram idealizadas e planeadas as tarefas que envolviam design? • Como foi transmitido o conhecimento técnico necessário para as criações durante o projeto? 5Avaliação do projeto • O que considera que correu particularmente bem nas oficinas? • O que mudaria no futuro? 6Ponto de situação atual do projeto • Foi planeada a continuidade do projeto após o encerramento oficial? • Tem conhecimento se tem continuado as ações do projeto? » E como tem ocorrido esta continuidade desde então? (onde/quando) » São os mesmos participantes? » Quais as razões para esta continuidade? » O que correu bem e que permanece? 7Perguntar se há outras questões que queira compartilhar
128 7.4 Anexo 4 – Mapa temático inicial