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Universidade do Minho Escola de Psicologia Filipa Sousa Meneses Carvalho Atitudes de Guardas Provisórios da Guarda Nacional Republicana face aos delinquentes Junho de 2019 UMinho | 2019 Filipa Carvalho Atitudes de Guardas Provisórios da Guarda Nacional Republicana face aos delinquentes
Filipa Sousa Meneses Carvalho Atitudes de Guardas Provisórios da Guarda Nacional Republicana face aos delinquentes Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação da Doutora Olga Cunha e do Professor Doutor Rui Abrunhosa Universidade do Minho Escola de Psicologia Junho de 2019
ii Direitos de autor e condições de trabalho por terceiros
iii Agradecimentos À minha orientadora, Doutora Olga Cunha, pela confiança e autonomia que depositou em mim, pela persistência e disponibilidade. Por nunca ter duvidado das minhas capacidades e nunca me ter deixado desamparada neste projeto. A todo o meu grupo de investigação – Professor Doutor Rui Abrunhosa, Doutora Andreia Rodrigues, Doutora Ana Rita Cruz e as minhas colegas de curso – pelo acompanhamento regular e motivação ao longo de todo este processo. Aos Guardas Provisórios/Formandos da GNR, da Escola da Guarda – Centro de Formação de Portalegre, pela participação no presente estudo. Sem a sua participação nada disto seria possível. Aos meus pais, por todo o incentivo e confiança que sempre me entregaram, assim como por todo o apoio nos momentos mais difíceis. E à minha irmã, Sofia, por toda a sua disponibilidade, ajuda e paciência ao longo de todo este percurso. Ao Diogo, pela compreensão, carinho, força e segurança no meu trabalho e nas minhas capacidades, por nunca me ter deixado sozinha e me ter amparado nos piores momentos. Aos meus amigos, com especial carinho para a Rita e para a Mariana, por em momento nenhum terem desistido de mim ou permitissem que eu desistisse. Muito obrigada, por todo o carinho, compreensão e, sem dúvida, ajuda neste longo projeto.
iv Declaração de integridade
v Atitudes de Guardas Provisórios da Guarda Nacional Republicana face aos delinquentes Resumo O presente estudo tem como principal objetivo compreender se o contacto direto com os delinquentes altera as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da Guarda Nacional Republicana (GNR) face aos mesmos. Para além disso, pretende verificar se as variáveis sociodemográficas e da personalidade têm influência sobre as atitudes. Para tal, foram aplicadas a Escala de Atitudes em Relação aos Delinquentes (EARD) e o Inventário da Personalidade NEO-FFI a uma amostra de 74 Guardas Provisórios/Formandos da GNR, em dois momentos distintos (antes e após a realização do estágio de formação). Os resultados revelaram que no segundo momento de avaliação os Guardas Provisórios/Formandos evidenciaram atitudes mais negativas face aos delinquentes do que no primeiro momento. Relativamente às variáveis sociodemográficas, apenas a experiência profissional prévia como militar se revelou estatisticamente significativa, e em relação às variáveis da personalidade não foram encontradas correlações estatisticamente significativas. Estes resultados salientam a importância do treino inicial e contínuo dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR, sugerindo-se a introdução de uma componente psicossocial nesta formação, atendendo ao papel ressocializador que estes têm na sociedade. Palavras-Chave: Atitudes; Delinquentes; Guarda Nacional Republicana; Guardas Provisórios/Formandos
vi Attitudes of Provisional Guards of the Republican National Guard against delinquents Abstract The main objective of the present study is to understand if direct contact with offenders changes the attitudes of the National Republican Guard (GNR) Provisional Guards towards the offenders. In addition, it aims to analyse if sociodemographic and personality variables also influence these attitudes. The Attitude Scale towards Delinquents (EARD) and the NEO-FFI Personality Inventory were administered to a sample of 74 GNR Provisional Guards, in two distinct moments (before and after the internship). The results revealed that in the second moment of evaluation the GNR Provisional Guards evidenced more negative attitudes towards the delinquents than in the first moment. Regarding sociodemographic variables, only previous professional experience as military was statistically significant, and in relation to the personality variables no statistically significant correlations were found. These results emphasize the importance of the initial and continuous training of the GNR Provisional Guards, suggesting the introduction of a psychosocial component in this formation, given their role in the delinquents’ resocialization. Keywords: Attitudes; Delinquents; National Republican Guard; Provisional Guards
vii Índice Direitos de autor e condições de trabalho por terceiros ......................................................................... ii Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Declaração de integridade .................................................................................................................. iv Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Índice ................................................................................................................................................ vii Atitudes de Guardas Provisórios da Guarda Nacional Republicana face aos delinquentes ..................... 1 Método ............................................................................................................................................... 6 Amostra/Participantes .................................................................................................................... 6 Instrumentos .................................................................................................................................. 7 Procedimento ................................................................................................................................. 8 Análise de dados ............................................................................................................................ 9 Resultados ......................................................................................................................................... 9 Atitudes em relação aos delinquentes ............................................................................................. 9 Variáveis sociodemográficas e atitudes em relação aos delinquentes ............................................. 10 Variáveis da personalidade e atitudes em relação aos delinquentes ............................................... 11 Discussão......................................................................................................................................... 13 Referências ...................................................................................................................................... 20 Anexo ............................................................................................................................................... 23 Índice de tabelas Tabela 1 - Médias e desvios-padrão dos resultados da EARD para estudos anteriores e para o presente estudo ...................................................................................................................................... 10 Tabela 2 - Diferenças entre momentos nas Atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR ..... 10 Tabela 3 - Diferenças nos scores da EARD de acordo com as variáveis sociodemográficas ................. 11 Tabela 4 - Diferenças entre as Atitudes dos Guardas Provisórios da GNR e da População em Geral de acordo com as Variáveis da Personalidade ................................................................................ 12 Tabela 5 - Correlações de Pearson entre as Atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR e as Variáveis da Personalidade ........................................................................................................ 12
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 7 Instrumentos Os instrumentos utilizados neste estudo foram o Questionário Sociodemográfico, a Escala de Atitudes em relação aos Delinquentes (EARD) (Gonçalves e Vieira, 2007) e o NEO Five-Factor Inventory (NEO-FFI) (Pedroso-lima et al., 2014). O Questionário Sociodemográfico, construído especificamente para efeitos do presente estudo, teve como objetivo a recolha de informações referentes à idade, escolaridade, estado civil e experiência profissional prévia. A Escala de Atitudes em relação aos Delinquentes (EARD) trata-se de uma versão traduzida e adaptada para português, por Gonçalves e Vieira (2005), da escala de “Atitudes em Relação aos Prisioneiros” (ATP) de Melvin, Gramling e Gardner (1985). Para efeitos do presente estudo, foi substituída, em todos os itens, a palavra “prisioneiros” do estudo original por “delinquentes”. Trata-se de um instrumento de autorrelato que avalia as atitudes face aos delinquentes, numa escala de Likert de 5 pontos, variando de 0 (“ Discordo plenamente ”) a 4 (“ Concordo plenamente ”). A EARD inclui questões mais gerais, como “ Os delinquentes são diferentes da maioria das pessoas ”, e questões mais específicas, nomeadamente “ Gostaria de ter como parceiros de negócios alguns delinquentes ”. A versão portuguesa da escala, diferente da escala original (com 36 itens), possuí apenas 34 itens, uma vez que os itens 16 e 24 se revelaram negativamente correlacionados com o total da escala, tendo por essa razão sido retirados (Gonçalves & Vieira, 2005). A EARD apresenta um total de 18 itens positivos e 16 itens enunciados na forma negativa. A cotação total deste instrumento consiste na soma dos itens, subtraindo-se a esta pontuação uma constante de 34. Desta forma, é possível obter uma pontuação total da escala entre 0 e 136, sendo que quanto maior a pontuação total, mais positivas são as atitudes dos indivíduos relativamente aos delinquentes. Quer a versão original quer a versão portuguesa revelaram boas características psicométricas. O estudo original (Melvin et al., 1985) revelou uma confiabilidade teste-reteste de .82, a versão portuguesa (2007) de .91, e a presente amostra de .92 para o primeiro momento e de .86 para o segundo momento. O NEO-FFI trata-se de uma versão reduzida do NEO PI-R, constituído por 60 itens – 12 por domínio (Conscienciosidade, Abertura à Experiência, Amabilidade, Extroversão e Neuroticismo) (Costa & McCrae, 1992). Trata-se de um instrumento de autorrelato que avalia os domínios (supracitados) da personalidade, numa escala de Likert de 5 pontos, variando entre 0 (“ Discordo fortemente ”) a 4 (“ Concordo fortemente ”). O tempo de preenchimento deste instrumento é de aproximadamente 15 minutos, incluindo, no seu total, 26 itens formulados na forma negativa e 34 itens na forma positiva. Exemplo de questões
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 8 incluídas neste instrumento de autorrelato são “ Não sou uma pessoa preocupada ” (Neuroticismo), “ Gosto muito de falar com as outras pessoas ” (Extroversão), “ A poesia pouco ou nada me diz ” (Abertura à Experiência), “ Tento ser delicado com todas as pessoas que encontro ” (Amabilidade) e “ Não sou uma pessoa muito metódica (ordenada) ” (Conscienciosidade). Tanto a versão original do NEO-FFI como a versão portuguesa revelam valores de consistência interna adequados, variando entre .68 e .86 para a versão original (Costa e McCrae, 1989) e .71 e .81 para a versão portuguesa (Pedroso-lima et al., 2014). A presente amostra revelou um alfa de cronbach para o primeiro e segundo momento, respetivamente, de .83 e .77 para o neuroticismo, de .79 e .90 para a extroversão, de -.15 e .30 para a abertura à experiência, de .79 e .89 para a amabilidade e de .88 (nos dois momentos) para a conscienciosidade. Assim, com exceção da abertura à experiência, todos os domínios apresentam valores de confiabilidade adequados (Gliem & Gliem, 2003). Este estudo insere-se num protocolo mais abrangente, designado de “Atitudes em relação aos delinquentes e à sua reabilitação”, desenvolvido por Andreia Rodrigues e Olga Cunha, do qual fazem também parte a Escala de Atitudes em relação aos Ofensores Sexuais (EAAS; Hogue, 1993) a Escala de Atitudes em relação à Reabilitação de Ofensores Sexuais (EATAS; Wnuk, Chapman, & Jeglic, 2006), e o Questionário de Perceções acerca das Sanções Penais (QPSP; Castro-Rodrigues, A. & Gonçalves, 2016). No entanto, estes instrumentos não foram analisados no presente estudo. Procedimento Inicialmente foi solicitada autorização para a realização do estudo ao Comando da Doutrina e Formação (CDF) da GNR e submetido o projeto para aprovação pela Comissão de Ética da Universidade do Minho. Após obtenção das respetivas autorizações, foi estabelecido contacto com a Escola da Guarda – Centro de Formação de Portalegre, na pessoa do Supervisor Institucional nomeado pelo CDF, com vista a serem agilizados os procedimentos necessários com vista ao início da recolha de dados. Uma vez que os questionários, assim como o consentimento informado, foram administrados online , o link do presente protocolo foi então enviado para o Supervisor Institucional, tendo este ficado encarregue de divulgar o mesmo junto do Comandante de cada um dos Pelotões. Em seguida, cada Comandante de Pelotão divulgou e solicitou o preenchimento dos questionários junto dos Guardas Provisórios/Formandos, tendo cada um a liberdade de decidir (ou não) pela sua participação no estudo. Os dados foram recolhidos em dois momentos distintos – no início da formação e no período após realização do estágio. Do consentimento informado constava toda a informação acerca dos propósitos e objetivos do estudo, da existência de dois momentos de recolha de dados e da liberdade
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 9 para desistirem em qualquer momento, sem qualquer custo ou prejuízo. A participação no estudo foi individual, anónima e voluntária. No primeiro momento participaram um total de 372 Guardas Provisórios e no segundo momento 289. Para se proceder ao emparelhamento dos dados do primeiro para o segundo momento, foi pedido aos participantes que colocassem um código de identificação (que não permitia de modo algum a identificação do participante visto não incluir qualquer tipo de informação sobre este) no primeiro momento e que o voltassem a colocar no segundo momento. Uma vez que o critério de inclusão para este estudo foi a participação nos dois momentos, anterior e posteriormente ao estágio, a amostra final foi de 74 participantes, uma vez que, apesar do número de participantes alcançado em ambos os momentos, através do código de identificação só foram possíveis de emparelhar os dados de 74 participantes. Análise de dados A análise de dados foi efetuada com recurso ao Statistical Package for the Social Sciences (SPSS – versão 24.0). Na análise dos dados, recorreu-se a estatística inferencial para descrição das características sociodemográficas dos participantes. Por forma a analisar as diferenças nas atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR entre o primeiro e o segundo momento recorreu-se ao teste de Wilcoxon , uma vez que não se encontrava cumprido o pressuposto da normalidade dos dados. Foram ainda realizados testes de correlação de Pearson para analisar a associação entre as variáveis de personalidade e a idade e as atitudes face à delinquência. Por fim, utilizou-se o teste de Mann-Whitney para analisar as diferenças nas atitudes ao nível da escolaridade, estado civil e experiência profissional prévia. Resultados Os resultados apresentados de seguida referem-se ao cruzamento das variáveis sociodemográficas e da personalidade com as pontuações finais da EARD dos participantes, relativamente aos dois momentos da recolha de dados. Demonstram, ainda, a interseção das pontuações finais dos participantes, da EARD, entre estes mesmos momentos. Atitudes em relação aos delinquentes Na EARD, os Guardas Provisórios/Formandos da GNR obtiveram uma pontuação média de 70.24 ( DP= 15.57) no primeiro momento e de 68.12 ( DP= 11.09) no segundo momento. Por comparação
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 10 com os resultados obtidos noutras amostras nacionais e internacionais (e.g., guardas prisionais e estudantes) (Cunha & Gonçalves, 2017; Gonçalves & Vieira, 2007; Melvin et al., 1985) (cf. Tabela 1), verifica-se que, tanto no primeiro como no segundo momento, as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos são as menos positivas comparativamente. Tabela 1 Médias e desvios-padrão dos resultados da EARD para estudos anteriores e para o presente estudo Polícias Média (DP) Guardas Prisionais Média (DP) Estudantes Média (DP) Melvin et al. (1985) 67.0 (16.60) 90.7 (16.33) 90.5 (16.33) Gonçalves e Vieira (2007) - 86.75 (16.10) 84.6 (13.54) Cunha e Gonçalves (2017) 73.17 (20.20) - - Estudo atual (Momento 1) 70.24 (15.57) - - Estudo atual (Momento 2) 68.12 (11.09) - - No que diz respeito à diferença entre os dois momentos, observam-se diferenças estatisticamente significativas nas atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos entre os dois momentos de avaliação, Z = -2.402, p < .05, verificando-se uma tendência para atitudes mais positivas no primeiro momento por comparação com o segundo momento (cf. Tabela 2). Tabela 2 Diferenças entre momentos nas Atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR Momento 1 (N=72) Média (DP) Momento 2 (N=68) Média (DP) Z EARD 70.24 (15.57) 68.12 (11.09) -2.402* Nota: * p < .05 Variáveis sociodemográficas e atitudes em relação aos delinquentes No que diz respeito à escolaridade, não se verificam diferenças estatisticamente significativas nas atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR relativamente aos delinquentes, nem no primeiro momento, U =108.500, p = .068, nem no segundo momento, U =96.500, p = .149 (cf. Tabela
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 11 3). Ainda, também não se verificam correlações estatisticamente significativas entre as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos face aos delinquentes e a idade dos mesmos no primeiro momento, r = .164, p= .168, ou no segundo momento, r =.138, p = .260. Avaliada a influência do estado civil nas atitudes destes participantes, os resultados não revelam, de igual forma, diferenças estatisticamente significativas entre aqueles que eram solteiros e aqueles que eram casados ou em união de facto, nem no primeiro momento, U = 128.500, p = .854, nem no segundo momento, U = 111.500, p = .665. Já no que respeita à experiência profissional prévia, testes de Mann-Whitney demonstraram diferenças estatisticamente significativas entre aqueles que, no primeiro momento, não tinham experiência profissional prévia como militar e aqueles que referiram ter, verificando-se atitudes mais positivas nestes últimos, U = 228.500, p < .05. No entanto, no segundo momento, os resultados revelaram que não existem diferenças estatisticamente significativas entre os participantes com experiência profissional prévia como militar e aqueles com experiência profissional noutras áreas (cf. Tabelas 3). Tabela 3 Diferenças nos scores da EARD de acordo com as variáveis sociodemográficas EARD_M1 EARD_M2 N Média U N Média U Escolaridade Ensino Secundário 66 37.86 108.500 63 35.47 96.500 Ensino Superior 6 21.58 5 22.30 Experiência Profissional Prévia Militar 26 33.71 228.500* 24 28.63 285.000 Não Militar 29 22.88 28 24.68 Nota: EARD_M1 – Escala de Atitudes em Relação aos Delinquentes no primeiro momento; EARD_M2 – Escala de Atitudes em Relação aos Delinquentes no segundo momento; * p < .05 Variáveis da personalidade e atitudes em relação aos delinquentes Foram analisadas as médias e respetivos desvios-padrão relativamente às cinco dimensões da personalidade (cf. Tabela 4). Considerando a amostra do presente estudo, observou-se que os Guardas Provisórios/Formandos da GNR apresentam as pontuações mais baixas na dimensão de Neuroticismo,
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 12 em ambos os momentos, e as pontuações mais elevadas na dimensão da Conscienciosidade. Verificase, então, que estes valores são semelhantes aos obtidos pela população portuguesa, que também nas restantes dimensões apresentam pontuações semelhantes aos obtidos na amostra do presente estudo. Tabela 4 Diferenças entre as Atitudes dos Guardas Provisórios da GNR e da População em Geral de acordo com as Variáveis da Personalidade Média (DP) Pedroso-lima et. al (2014) Média (DP) EARD_M1 N=68 EARD_M2 N=64 Neuroticismo 19.21 (6.29) 20.16 (5.96) 23.92 (7.46) Extroversão 29.19 (5.30) 26.77 (5.19) 29.55 (6.01) Abertura à Experiência 24.96 (2.70) 24.63 (3.33) 27.54 (6.30) Amabilidade 29.32 (5.56) 27.42 (4.87) 32.49 (5.61) Conscienciosidade 31.31 (6.35) 28.70 (7.06) 34.26 (6.31) Nota: EARD_M1 – Escala de Atitudes em Relação aos Delinquentes no primeiro momento; EARD_M2 – Escala de Atitudes em relação aos Delinquentes no segundo momento. Os resultados referentes às variáveis da personalidade, para cada domínio, são apresentados na tabela 5. Os resultados demonstram que não há correlações estatisticamente significativas entre as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos e as cinco facetas do NEO-FFI. Tabela 5 Correlações de Pearson entre as Atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR e as Variáveis da Personalidade Neuroticismo Extroversão Abertura à Experiência Amabilidade Conscienciosidade EARD_M1 -.006 -.066 .007 .053 -.005 EARD_M2 -.097 -.137 .088 .132 -.064 Nota: EARD_M1 – Escala de Atitudes em Relação aos Delinquentes no primeiro momento; EARD_M2 – Escala de Atitudes em relação aos Delinquentes no segundo momento.
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 13 Discussão O principal objetivo do presente estudo foi compreender em que medida o contacto direto com delinquentes altera as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR face aos mesmos e analisar a influência de variáveis sociodemográficas e da personalidade nestas mesmas atitudes. Tendo em conta as hipóteses previamente definidas, os resultados revelaram que apenas a hipótese 5 (os participantes com experiência profissional prévia terão atitudes mais positivas face aos delinquentes) se confirmou. Também a hipótese 1 (os Guardas Provisórios/Formandos da GNR terão atitudes mais positivas face aos delinquentes após a realização do estágio) se apresentou estatisticamente significativa, ainda que no sentido contrário ao previamente postulada. Ou seja, os participantes evidenciaram atitudes mais negativas face aos delinquentes no segundo momento, refutando a literatura existente. Os resultados demonstraram que os Guardas Provisórios/Formandos da GNR são aqueles que evidenciam atitudes mais negativas em relação aos delinquentes, quando comparados com outros grupos, tais como os Guardas Prisionais e estudantes (Cunha & Gonçalves, 2017; Gonçalves & Vieira, 2007; Melvin et al., 1985). Uma possível explicação para estes resultados reside no foco progressivo colocado na eficiência e respeitabilidade destes Guardas, aos quais é confiada a manutenção da paz e a promoção do sentimento de segurança na comunidade. Devido à importância que cada vez mais a GNR tem na sociedade, estes Guardas estão sob bastante tensão, não só devido a questões operacionais (crescente ameaça de violência nas ruas e exigências dos cidadãos), como também pelas questões organizacionais (organização da estrutura e ambiente entre colegas/supervisores) (Collins & Gibbs, 2003). O medo de ser punido ou tratado de forma injusta pelo seu supervisor pode ser visto como um fator de tensão/ansiedade para os Guardas Provisórios/Formandos da GNR (Gershon, Barocas, Canton, Li, & Vlahov, 2009). Ademais, dada a discricionariedade na aplicação da lei e a necessidade de agir de forma imediata, esta tensão torna-se visível nos encontros quotidianos entre os Guardas da GNR e os cidadãos. Uma vez que cada situação tem as suas próprias condicionantes, com níveis de gravidade e de ativação emocional diferenciadas, os Guardas Provisórios/Formandos da GNR tomam as suas decisões, relativamente a que comportamento adotar, com base nas suas atitudes e valores (Engel & Worden, 2003). Assim, se já para Guardas da GNR formados e com experiência se torna difícil e desgastante, esta pressão pode tornar-se ainda mais evidente nos Guardas Provisórios/Formandos. Uma outra possível explicação para estes resultados pode ser encontrada na principal função que é atribuída a estes agentes das Forças de Segurança, isto é, a de controlar o comportamento dos delinquentes e, quando necessário, proceder à sua detenção. Sendo este o principal foco dos seu trabalho, tal implica uma concentração por parte destes guardas nos aspetos negativos dos indivíduos
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 14 (Kjelsberg et al., 2007), o que pode conduzir a um aumento das atitudes negativas face aos mesmos. De facto, atitudes mais positivas nos Guardas Prisionais comparativamente aos Guardas Provisórios/Formandos da GNR podem refletir, precisamente, a maior ambiguidade do seu trabalho, que, ao contrário do trabalho desenvolvido por um Guarda da GNR, envolve tanto a punição como a reabilitação (Leiber, Schwarze, Mack, & Farnworth, 2002). Os resultados indicaram que no segundo momento da avaliação, posteriormente ao contacto efetivo com delinquentes na sequência da realização do estágio, os Guardas Provisórios/Formandos da GNR evidenciaram atitudes mais negativas face aos delinquentes por comparação com o primeiro momento. Este agravamento das atitudes face aos delinquentes no segundo momento pode estar relacionado com o tempo de duração do estágio (três meses), podendo não ser o suficiente para formar uma opinião clara e consistente sobre os delinquentes. Este período de tempo consiste, na maior parte dos casos, no primeiro contacto direto com delinquentes e com a própria profissão, tornando-se o “confronto com a realidade” e, consequentemente, com as exigências profissionais associadas – como o estado de vigilância permanente (impossibilitando, mesmo em situações de lazer, o relaxamento por parte destes Guardas) (Conroy & Hess, 1992). De facto, existem variadas situações potenciadoras de stresse no trabalho de um Guarda da GNR. Estas questões, como o próprio trabalho (e.g., riscos da profissão, complexidade das tarefas), as relações no trabalho (e.g., relações com os supervisores, sentindo-se muitas vezes menosprezados pelos mesmos), ou o desenvolvimento da carreira (e.g., excessiva lentidão ou rapidez na promoção profissional), entre outras, podem levar a consequências tanto a nível individual como organizacional (Ribeiro & Surrador, 2005). Neste sentido, estas questões podem ser percebidas neste primeiro momento de contacto e conduzir a um sentimento de desilusão ou frustração e, assim, a atitudes mais negativas. No entanto, com a aquisição de experiência, estas atitudes poderão melhorar, tanto ao nível do trabalho como ao nível das atitudes face aos delinquentes, uma vez que poderá existir, com o passar do tempo, uma tendência para o aumento da tolerância sobre os comportamentos delinquentes (Cunha & Gonçalves, 2017). Contudo, para se confirmar esta hipótese teria de ser realizada uma avaliação das atitudes num momento mais longínquo no tempo, como por exemplo um ano após o início da carreira destes Guardas. Estudos anteriores referem que, durante os primeiros anos de carreira, existe uma tendência para o desenvolvimento de um mecanismo de defesa contra o stresse – “ Síndrome de John Wayne ”. Este mecanismo, caracterizado pela frieza emocional, reflete os problemas de adaptação provocados pelas dificuldades na execução das suas tarefas ou dificuldades interpessoais no momento de enfrentar as suas exigências profissionais (Conroy & Hess, 1992). A literatura sugere, ainda, que a saliência
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 15 concedida ao crime e aos ofensores, medida através do medo e da preocupação dos sujeitos, é um forte preditor de atitudes punitivas (Costelloe et al., 2009). Dada a fase inicial da carreira em que os Guardas Provisórios/Formandos da GNR se encontram e uma vez que passar da teoria à prática é, efetivamente, um grande desafio, estes podem encontrar-se num estado de maior stresse. Naturalmente, estes sentimentos podem estar subjacentes ao agravamento das atitudes do primeiro para o segundo momento. Com a intenção de proteger a comunidade e demonstrar uma postura adequada, estes Guardas podem optar por um estilo mais confrontativo e, consequentemente, apresentar atitudes mais punitivas face aos delinquentes. Todavia, entrevistas mais aprofundadas teriam de ser realizadas para clarificar esta possível explicação. Esta explicação sugere uma outra possibilidade – a desejabilidade social. A desejabilidade social consiste numa tendência para responder de acordo com determinados padrões culturais, por forma a agradar ao investigador ou para estar de acordo com aquilo que é socialmente expectável (Gouveia et al., 2009). Apesar de se ter tentado controlar este fator através do anonimato dos participantes, é possível que os participantes tenham respondido de uma forma mais negativa com o intuito de demonstrar uma postura mais rígida e distante perante os delinquentes, acreditando que deste modo serão mais respeitados pelos cidadãos e/ou por forma a agradar os seus supervisores. Estudos demonstram que, sendo os supervisores os mediadores entre a comunicação de expectativas aos Guardas Provisórios/Formandos da GNR e a aplicação destas expectativas na prática de rua, na ausência de objetivos e limites claramente comunicados, estes Guardas podem substituir as suas próprias prioridades pelas dos seus supervisores (Engel & Worden, 2003). Assim, atitudes mais negativas por parte dos Guardas Provisórios/Formandos podem estar relacionadas com a ameaça e medo de punição por parte dos seus supervisores (Lurigio & Skogan, 1994). No entanto, também estudos mais aprofundados, nomeadamente através de entrevistas, teriam de ser realizados para se apurar a veracidade desta explicação. Uma vez que a avaliação que os Guardas da GNR fazem dos delinquentes e das suas características tem grande relevância nas interações que têm com estes últimos, sobretudo nos primeiros anos de carreira (Gonçalves & Vieira, 2005), é necessário ter em atenção estas atitudes quer aquando da formação quer durante a realização do estágio. Torna-se essencial integrar na formação inicial e contínua destes Guardas problemas práticos, de modo a permitir a consciencialização acerca das próprias atitudes, valores e crenças e a alterar crenças erróneas capazes de prejudicar o seu próprio trabalho. Assim, permite aos Guardas Provisórios/Formandos aumentar a perceção acerca do potencial impacto de cada situação e dos seus efeitos, antecipando as consequências das suas ações (Cunha &
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 16 Gonçalves, 2017). Além do mais, estando o stresse associado a comportamentos negativos, conhecer o potencial o potencial impacto de cada situação possibilita a capacidade de identificação de stressores e consequente melhoria dos mecanismos de ajustamento face aos mesmos (Gershon et al., 2009). Deste modo, permite o evitamento de situações ansiogénicas no futuro, promovendo a preparação para tomadas de decisão mais eficientes (Gonçalves & Vieira, 2005). Formar os Guardas Provisórios/Formandos da GNR em áreas como a Psicologia pode melhorar as suas atitudes face a populações estigmatizadas, nomeadamente os delinquentes (Harper, 2012). Quando os membros de um grupo ouvem um indivíduo com o qual se identificam com um discurso contrário às suas atitudes, existe uma grande probabilidade de as suas atitudes passarem a estar de acordo com as do orador (Norton, Cooper, Monin, & Hogg, 2003). Deste modo, esta formação pode encorajar estes Guardas a falar com outros colegas sobre estes assuntos e, assim, promover uma melhoria de atitudes face aos delinquentes na sociedade em geral (Harper, 2012). Assim, apesar da componente tática e técnica da formação dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR ser de suma importância para a proteção da comunidade, verifica-se que a formação destes Guardas incide fundamentalmente numa dimensão mais repressiva e legalista. Porém, para que se obtenha uma boa conduta por parte dos mesmos é fundamental inserir uma componente sociológica e psicológica na sua formação. Torna-se relevante ter, como indivíduos presentes no quotidiano dos cidadãos, juntamente com a aquisição de conhecimentos jurídicos, uma componente mais relacional e humana (Cunha & Gonçalves, 2017) na formação inicial e contínua destes Guardas, de modo a compreender o que é efetivamente o crime e o porquê do cometimento de crimes por parte dos delinquentes. Neste sentido, existem três aspetos fundamentais a integrar na formação dos Guardas da GNR: a aquisição de competências que permitam um bom desempenho da função policial, a aquisição de conhecimentos e de atitudes (nomeadamente saber reconhecer as suas próprias atitudes) e a aquisição de aptidões para definir, analisar e resolver problemas (Cunha, 2008). É, ainda, igualmente decisivo que se aumente o tempo de formação, nomeadamente do estágio, para que se possibilite uma maior familiarização com a profissão e uma melhoria das atitudes face aos delinquentes. No que respeita às variáveis sociodemográficas, com exceção da experiência profissional prévia, não foram encontradas correlações/diferenças estatisticamente significativas entre as mesmas e as atitudes dos Guardas Provisórios/Formandos da GNR. Verificou-se, então, que aqueles com experiência profissional prévia como Militares das Forças Armadas apresentaram atitudes mais positivas face aos delinquentes, no primeiro momento, do que aqueles com experiência profissional prévia noutras áreas. No entanto, é importante salientar que a única proximidade entre Guardas da GNR e Militares é a
ATITUDES DE GUARDAS PROVISÓRIOS DA GNR 23 ANEXO Conselho de Ética Conselho de ética - ciências sociais e humanas Identificação do documento: CE.CSH 101/2018 Título do projeto: Atitudes dos alistados da GNR face aos delinquentes Investigador(a) Responsável: Filipa Sousa Meneses Carvalho, Mestrado Integrado em Psicologia, Escola de Psicologia, Universidade do Minho; Doutora Olga Cunha (orientadora) e Doutor Rui Abrunhosa Gonçalves (coorientador), Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi), Escola de Psicologia, Universidade do Minho PARECER O Conselho de Ética analisou o processo relativo ao projeto de investigação acima identificado, intitulado Atitudes dos alistados da GNR face aos delinquentes. Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, o Conselho de Ética nada tem a opor à realização do projeto, emitindo o seu parecer favorável. Braga, 7 de janeiro de 2019. A Presidente do CEUMinho Assinado por : GRACIETTE TAVARES DIAS Num. de Identificação Civil: BI071230157 Data: 2019.01.18 14:47:48 Hora padrão de GMT