Sermam da glorioza Santa Cecilia, virgem, e martyr, na festa, que lhe fizeram os cantores professores da muzica na parroquial igreja de Santa Justa no anno de 1715 ...
Full text
SERMAM DA GLORIOZA £ SANTA CECÍLIA," VIRGEM, E MARTYR, NA FESTA , gipE LHE FIZERAM OS CANTORES Profejjores da Muzica na Paroquial Igreja de Santa Ir (la no amo de 1715. J OFFERECIDO AO SENHOR. DIOGO DE MENDONÇA CORTE REAL, Sccnutio do Eftado de Si:a Maprftidr PELO PADRE ’ FREY LUIS DOS ANJOSi Carmelita Calçado , Cantor na Capbdla <Seal „ PKEGOUOOPADREMESTnr 1" R E Y FRANCISCO DE M A C L D O da meíma Ordem, Diffimdor da Provinaa. taifeflordl 1 V TL G . U E L M a NWoA o ajito Officio,& da Sereniflima Caza de Bragança. AnnodeM.DCC.XVi. ^ cm todas as licenças necejjarias ,
í. - • ■ v :. :' ) I ji u J O a JJI 3 3 3 ÁTMA 2 . • t ; ,i Y i Y I ... •-v .:L» .. v V, ■ ■ - ' ' - , . A-.» » - . •-» * . •* V : C i. O G I A JI JI I O iv DvíOClVIHM 3 Cl OOÜIÇH “ , . : t . . , , ,. , - ■ : ' | 5 , . < . /: s ■ J ■ ■ ■ . i J • v a ji a t o j 3 q ■ ;; .. i - • !• *- -‘G ' 1 ‘ • ** •: ;! ' 1 ■■ *í O O J O D 3 Ü • ■ - l , .kl;* * í V '-- ; YW..-.: ■ -- ' • '-li 1 , rvA. iO iV. ;s < r \ Í1 vj t cY'l; ... A O : i ,] ,• » T . .• » : - ' ' • ■
C% w < *V* Í U V* ) *V® *V '*V*' '*V*- U V^ '*V*' '*V* > ^V*- '•V*' V V*' *V v (* . •> ,fJ P e^j t|i t|j t|i *ç|j • t|> t|i tjp SENHOR. VEM , como eu, conhece , e> reconhe¬ ce o nmyto que a Vojfa Senhoria deve , ___ o brigado efià a merecer oJeu affeclo, bufcando occafiao de dar lhe goflo ; &• comojey o muy- to que Vofid Senhoria tem deJer louvada a gloriosa, Santa Cecília , para cuja fefia concorre todos os annos, mo sir ando no feu dijpendio o feu amor , ç> nao menos conheço o desejo gr ande que tem-de que che¬ gue a todos a noticia das excellencias dcsla tao gran¬ de Santa,parecendome que o imprimidas era o melhor modó de publicallas , fis a diligencia } que me foy pcjfivelpor dar d emprenta csle Sermão,podo que cm grande repugnância do jeu Autor , nacida de lua rehgio^a modedu & contrafiada pela forja da minsa i igencia. J fundamento , que tenho para ede cjferecjhento , he tiradodogrande Elatao, dequem ejcreve Alexander ah Alexandro c,ue no jeu livro de egi as e slabcleceu cue tcdos os mancebos aprendej - T A ij Jem
Jem Musica primeyro que as mais Ates , & suais Sciencias , paraque ao depois , canfado jà o ejpirito fom o efiudo das letras , é> occupaçoes de maispe- K? lhes Jerviffe de recreaçao , divertimento a- »inu quelle Jonoro, eA honesto exercido : Ut graviora ftudia hac honefta volupCate lenirent; í O* como as de Vojfa Senhoria fao tanto de mayor pezy , quantoJao de mayor importância , ponde¬ ração , me pareceu divertido com a folfa de fie Ser¬ mão , que fendo todo Ejcritturario , he todo mufico. dpejjoa de l^ojfa Senhoria guarde Dcos muytos annos, como eílejeufervo lhe deseja FREY LUIS DOS ANJQ&
LICENCAS 0 DA ORDEM. O Reverendo Padre Meftre Frey Manoel da Efperanfa, Regen¬ te dos Eftudosdefte Convento,veja efteSermaó, & nos infor¬ me comfeu parecer. Carmo de Lisboa em 27 de Fevereyrode 716. Frey Jndre de Cerqueyra Provincial . P O r commifíaó do nofib Muyto Reverendo Padre Provincial o Doutor Frey André de Cerqueyra , Deputado da Junta das Miflbes, vi o Sermão da glorioza Virgem 4 & r Martyr Santa Cecilia que na feftafque os Cantores de Sua Mageftade fizeram na Freguezia de Santa Jufta)prégou o Reverendo Padre Meftre Frey Francifco de Macedo. E íe todos os Prègadoresfpor rezaõ do feu officio'1 íe podem chamar Muzicos, como diflfe Bercorio : Cantmus Dei frsdtcand # , com mayor rezaõ merece o titulo de Cantor o Revi rendo Padre Meftre , porque igualmentç he feiente na arte da Mn zica, como erudito na arte da predica. Dehuma fonte de Cecilia (e X^díXre^fíe dfc 9ataÍBnt0 füaS a E ° a5 ’ P < * «culto ínitinto da natureza te deleyta tanto com a fuav idade das vozes nue logo fe levanta fobre a s fuas oronrias ux / V0Zçs ^ u e perimentam as agoas daquella flLr* ^ ? S ‘ ? í íí 10,C * l ie ex " perimentarà quem ler efte SermS» j f ° n ° r oda Muz,ca > «- também todof Muzico • I todo £ fewturaírio, he que fendo todo ell,. K ’ P orc l ue com tanta fuavidade difpcfto, pateceG» t ra dol t n C a n t 0 dr s áridos,.de forte< sejfeva que,, achocouzaaleiim? P r i 0 f Ugar,qt ’ e l , 1ts ' d eu a natureza - N-ellè naô CtZ f' íe ; a contraria à o< ira 'anta Fè.ou bonscolturoes,antes nelle admtrcCfobre o engenhozo do affumpto, C m que- Ca&
tã:> difcrstam?nte fe empsnh iu o feu Autor) que fazem unifornn confonancü o delicado , & o ferio, o novo , Sc o bem fundado, que regularmente vivem com pouca união. E coníiierando o doce , Sc íuavedo feu efty lo , a agudeza dos penfamentos, a novidade, com que feguindo a lus dos Santos Padres, M achado na Sagrada Efcrictura a.itoridide para a firmeza em feus difcurfos , me fas confeçar por experiencia o que o Filozofo diflfc: Admiratio , qu<€ maxima efit parit fílentiim y S t alllm o julgo por muytas circunfhncias digno de quefedeàeílampa , paraquedivulgando-fe em todas as partes, por meyo delia confeguirà osapplauzos, quemerece.Carmo de Lisboa 27.de Fevereyro de 1716. Frey Manoel da Efperanfa. D Amos licença pelo que a nòs toca, para poder mandar imprmir o íupplicante o Sermão,de que eíla petiçaõ trata, por ha¬ ver fido examinado por peíToa Doura da noíía Sagrada Família , Sc íer por ella approvado. Em fè do que lhe demos a prezente por nòs efcrita, 8c aflinada neftenoíío Convento do Carmo de Lisboa em f. de Março de 1716. Frey Andre de Cerqueyra Provincial. DO SANTO OFFICIO. O Padre Meílre Frey Pedro Monreyro, Qiialifícador do Santo Ofíicio , veja o Sermaõ , de que trata eíla Petição , Sc informe com feu parecer. Lisboa 24. de Janeyro de 1716. HaJJe. Monteyro. Ribeyro. Barreto. Alancajlro. eminentíssimo senhor. P O r ordem de Voffa Eminência li o Sermaõ da glorioza Sant* Cecília , que piègou o Muyco Reverendo Padre Frey Franciico de Macedo, Sc que pretende dar a lus o M.íLeverédo Padre F f cy Luisdos Anjos, ambos filhos da eíclarecida Religião de NoíTa Se¬ nhora do Carmo A fobre não achar nellecouza alguma contra noiD Santa Fé, Sc bons coílumes, me parecem cs ditos Religiozos ambos digno 8
dignos ddouvorjo primeyro peílo haver,compolb*& pregado. O fegundüjpello querer perpetuar no prelo.O primeyro nu ftra no ar¬ tificio do Sermão fer profeflor das duas fciencias , 1 heologia , ÔC Muzica,porque de tal forte enlaça os preceytos de huroa com os do¬ cumentos da outra, que juntamente doutrina, & recrea * doutrina, como Theologo, 6e recrea, como Muzico. O fegundo moftra zelo de fua RelÍ2Íão,Sí do bem publico,em querer que não fique íepulcada noefquecimento huma obra,que pode fer vir aquclla de honra,& á efte de utilidade. Nem contra ífto obfta o fer pequena^ue a bon¬ dade não íe mede pelo volume , não he quantidade , he qualidade; Alem de que,para fe conhecer a terra,que dà ouro,não he neceflarío que fe defcubra toda a mi.na,bafta que fe veja o que produs na fuperficie* & aíllm baftaõ eftas poucas folhas,para que fe conheça que no Autor hà talento,que o fas filho benemerito de fua Sagrada Familiar pelo que me parece fer o Rcligiozo, que a pretende dar alus,muytas vezes merecedor da licença,que pede. Efte he o meu parecer,lai¬ vo , &c. Vofla Eminência ordenará o que for fervido. S. Domingos de Lisboa 25.de Janeyro de 1716. Frey Tedro Monteyro. Padre Meftre Joaõ de 01 i v e y r a,Qualificador do Santo GfTU * cio,veja o Sermaó,de que fa.$ mençaõ efta Petição, & informe com íeu parecer. Lisboa 28.de Janeyro de 1716. Haffe. Monteyro. Ribeyro . Barreto. AUncaftro. P Or ordem de Voíía Eminência li o SermaÕ, de que trata efta Petiçaõ, 8c nãoacho nelle cotiza digna de reparo, mas muvto conforme a noíía Santa Fe, & bonscoftumes. Efte he o meu pare. cer & VofTa Eramencia ordenará o que for fervido. Caza Profeffa deS. Jxoque 4. de Fevereyro de 1716. lií-nrt n Petl „ Ça ? * & lm P r e ífo tornará para fe conferir, & dar de 1 7 1 6 ^ Ue COrra ’ ^ e ^ a nao correrá. Lisboa 1 o. de Fevereyro o: Haffe, Monteyro, Ribeyro. Barreto. Alancafiro ■ DO
DO ORDINÁRIO. P O ’ de fe imprimir o Sermão, de que efta Petição trata , & impreíTo tornara pira fe conferir, 8c dar licença que corra, fem a qual não correrá. Lisboa 12.de Fevereyro de 1716. M. Bifpo de Fagafte . DO PAC, O O Padre Frey Manoel do Efpirito Santo Religiozo da Ordem ie S.Francifco veja o Sermaõ,de que efta Petição fas mençaó, 6c com feu parecer o remeta a efta Menza. Lisboa 13. de Fevereyro de 1716. Cofta. Andrade. Botelho. Pereyra. Oliveyra. Noronha . SENHOR. D E ordem de Vofla Mageftade vi efte Sermão da gloriozaVirgem, 6c MurtyrSanta Cecília, q no feu dia, 8c fefta prègou na Igreja de Santa Jufti o Muyto Reverendo Padre Meftre Fiey Francifco de Macedo da Sagrada Religião de NoíTa Senhora do Carmcv & não vejo nelle couzi, que encontre o Real lerviçò de V* íTa Ma¬ geftade, antes me parece mereced >r de toda a eftimaçaõ j porque o eftylo he deliciozo, devoto, curiozo , 6c douto, em que refplandecem as muyras letras, 6c engenho de feu Autor ha accómudaçnõ dos lugares da Sagrada Efcrittura , 6c Santos Padr es com as regras da Muzica,fazendo boa confonanciarem concluzaõ todo he b m,todo naayor que todo o encarecimento } 6 c aílim me parece digniílimo de que Voflfa Mageftade lhe dè licença para fair a lq<,na > fó paraquefe conheçacomevidéciaotalento,6cengenhode feu Autor,(poftoque jà por feús grandes merecimentos bem conhecidojjmas também pa¬ ra queos Cantores profeffores da Muzica,8c os devotos da Santa em a íervir fe empenhem,andando a fua devoção imprefla nos corações de todos,& os que não tiveram a fortuna de o ou vire,tenham a dita* de o lerem. Efte he o meu parecer, VoíTa Mageftade mandara o que for ferrido.LisboaS.Francifco da Cidade 15.de Fevereyro de 1716* Frey Fr ancifco do Efpirito Santo. Q U e poflfa imprimirfe,viftas as licenças do Santo Officio,8c Ordinario,6c depois de impreíTo tornara à Menza para fe lhe daí licença que corra. Lisboa 17. de Fevereyro de 17 ■ 6. Cofia. Andrade . Botelho. j Pereyra, Oliveyra. Noronha. Exierunt
Exiermt obviam Sponfo , &• Sponja. Matth. 25. 0 D . \ Muzica confidero a fe¬ ita hoje ,( Se¬ nhor ) toda Muzica confidero a feíla hoje: Muzica peias vozes da Cappella, que nos fufpende : Muzica pelas infpirações da Santa, que fe fefteja: Muzica pela fuavidadedo Sacramento, que nos aífifte: Muzica fi¬ nalmente pela voz do Evãgelho , que fe entoa : Mu¬ zica pelas vozes da Cappella,que nos fufpéde,porque não tem duvida que he huma Íufpenfa 5 ouvir can¬ tar as vozes deíla Cappella: Muzica pslas inípira- Ções da Santa.que fe feft e ja ( porque naMuzica q ue can¬ tava , bem mofttava que eram f 0 par a Deos as (uas infpirações : S‘ 0 U Domino decantam $ Muzica pela fuavidade do Sacramento,' que nosaílifte , porque,co¬ mo o Senhor no parecer de Paulo Granatenfe no fim ? luJ da vida havia de cantar C h r iftus cunit infinevit#) a *.6. u ' fim de mcftrarfe Muzico^-* neíle myfterio , guardou para o fim da vida a obra do Sacramento: Inquano iAqc -u tte tradebatur acccpit pa-mvg!* nem : Muzica findmente pela vòs doEvangelho,que fe entoa j porque nelle te¬ mos ao Efpozo Divino cã- Ai c ^ tando hum folo, a Cecilia rint. tl \ fazendolhe no feu organ/ ' 1, o acompanhamento, 6c as Virgens prudentes cantan¬ do de chufma ao compafío do feu Soberano Efpozo. Temos ao Efpozo cantan¬ do hum folo, perque aon¬ de a Vulgat3 tem clamor fattus eft\e o Arábico: exverf.A* cUmavit wc-Temos a Cer ab * b cilia
S òtYmáó AíIIm defcía, Sc aífím íc humilhava Ceciliajmas tu¬ do o que eftudava em abaterfe , lhe fervia de remon¬ tar fe, 6 c por iflfo eu dizia q tínhamos que ver nefte dil - curfo o mu yto que fobe qué pela humildade defce:porquenas Filozofias do Ceo íe mede de tal maneyra o fubir pelo defcer,q o defcer he o mais certo caminho para fubir, Sc o melhor degrao para fubir muyto he defcer muyto. Não fe con¬ tentou o Profeta Rey,fala¬ do deChriíto na Afcenfaõ, fò comdizer q íubira o Se¬ nhor ao Ceo,mas difife que fubira às partes mais fupe- J® 1 ®- rioresdo Ceo: Âfcenditfu- 7 ’ a ‘ 3 f per Calum Cali.Sc ifto por¬ que? Porque vio que,falan¬ do SãoPaulo do mefmo Se¬ nhor defcendo, fenão con¬ tentou fò com dizer q defcera à terra , mas diííe que defcera às partes mais infe- AdXph. riores da terra : Befcendit * D ' 9 ‘ prmitm in inferiores partes terra. No Ceo ha Ceo fuperior , na terra ha terra infe- - rior Ha Ceo íuperior,por¬ que ha Ceo por lima do mefmo Ceo ; fuper C alum Califa terra inferior, por¬ que ha tetra por bayxo da mefma terra , in inferiores partes tetra j & mede-fe de tal maneyra o fubir pelo defcer,que para Chrifto fu¬ bir muyto lhe foy neceíTario defcer muyto * foy neceííario que defcendo à ter¬ ra , que he o Ut de Gfoi re utfizettca Mutança no La dela mire para poder def¬ cer às partes mais inferio¬ res da terra , in inferiores partes terra , paraque cam¬ be fubindo Chrifto ao Ceo, que he o Lí de elamifxzeC fe a Mutança no Re dela foi re para poder fubir às partes mais fuperiores do Ceo: JJcenditfuper Calam Cali. Notay agora. Todos fabemos que naceu Chrifto em Belem : Inchai. Bethlchem Jttda nafcitur , N lt * mas tenho nefte lugar do feu nacimento huma gran¬ de duvida. Se Chrifto naceu para Rey, Sc Capitão General do Reyno de Ifrael: Ex te enim exiet dux , qui regat populum mturn Ifrael , porque não naceu em Jeruzalem,queeraaCorte Vatth daquelle Reyno > deyxaoz.n^ Rey de nafcer na Corte, Sc vay nafcer em Belcm? Sim»
de Sarda Cecília. f Sc para a folnçaó da duvi- In Bethlehem nafcitúr&tu da devemos advertir duas couzas.Chrifto viveu nefte Mundo cantando , 6c can¬ tando com huma voz tao doce , 6c tão íonora, que a Efpoza eftalava, 6c morria •cant. z. pello ouvir cantar: Sonet aI -t- vox tua in auribus meis : *uqx enim tua dulcis. Mais na Muzicaha humas figu¬ ras , que fe chamam Mini - mas , 6c tendo hü breve no tempo perfeyto depermeyo hum compafifQinteyro, as Miirimas por mais pe¬ quenas, 6c por mais humil¬ des cabem quatro em hum compafib: ahfitn ; poisexahiarezaõ , porque o vSenhor ío quis naícer em Belemrporque,como entre to¬ das as Cidades de Judea íò Belem,como dis o Profeta wkh. Miqueas fe chama miniyo. ? ’ 5 " ‘ ma: Tu Bethlehem Ephrata minima es in millibus Juda> íe nafceraem Cidades mais populozas, pudera cantar pelas Maximas,queXaõfi¬ guras,que valem mais-, mas como nafcia para catar pé. , bayxos da humildade, valeu-fe debelem,cantan¬ do pelas Mínimas, que f a ó figuras, <jue valem menos; pan.' Bethlehem minima es. Delta Muzica de Chriíto aprendeu a cantar Cecí¬ lia, 6 c não fò aprendeu da Muzica de Chriíto, mas também da Muzica do Sa¬ cramento. Duas vezes , fe bem reparais,fc deu Chriíto Sacramentado , hüa ves no Cenáculo , outra na C rus* • no Cenáculo em paõ,&: vinho-,na Crus em langue, 6 c agoajagora pergunto. Naó foy o Cenáculo o lugar,em que o Senhor fe portou tão humilde, que chegou a la¬ var os pès aos feus Difcipulos: Cospit lavarepedesí í 3 . a . ç ; Nao foy a Crus a eftancia, em que ò Senhor fe vio taõ abatido , que dis Saõ Paulo que foy o lugar , em que fe viomais humilhado: Hu jf p d ™ ~ mliavit femetipfitm Dom - 8 * nusjefus Çhnfins ? he cer¬ to que fim: logo que rezaÓ teve Chrifto para fe dar Sa * cramentado mais no lugar da Crus, &' do Cenáculo, que em ourro qualquer lu¬ gar? Direy.. Vio-fe Chrifto obrigado a cantar na Crus, porque jà diíTemos que cãtàra no fim da vida: Lhri- (lus canit infine vit* t v i o - f e C obri*
io Sermão obrigado a canrarno Ce¬ náculo ., porque no Cenᬠculo diffe o Hymno cantam do: Hymno difto,hymno ca - tih ?;;6c he tão fua ve a Mu¬ zica,que fe canta pelo bayxo da hum.Idade, que para Chrifto cantar coai íuavidade no Sacramento lhe foy neceíLrio cfperar pelo Cenáculo , aòde fe havia de ver mais abatido: C ' oepit lavare pedes,Sc foy neceflario efperar pela Crus, aonde fe havia de ver mais humilhado :HumViavit fe metipfum Dominus Jefus Chrijius . Logo como naõ havia de cantar bem Cecilia,feaprédeu a cantar pela Muzica de Chnifto,& pela Muzica do Sacramento, cantando com tal deftreza, que jà vi¬ nha dando defcantes , 6c nuizicas fu aves ao feu faberano Efpozo quando as prudentes do Evangelho, querendo cantar no Coro ao Compaflddo Meftre,wtravernnt cum eoin domnm GhôYijfayczcn ao caminho a efperar ao Efpozo: Exierunt obviam Sponfi > cr Sponfe . . II. DISCURSO. E N t r a Cecilia a cantar . Contralto, formando humaQuinta do Ut àc Gfol re ut, em que eftava com o Sol de 'Defollare, a quefubia,6e temos agora,como fe vio jàem Caftelia , dous Soes juntos em Portugal, porque temos em Cecilia ó Sol da fua Solfa , 6c temos em Cecilia o Sol da fua belleza ,attrahido da qual hu illuílre mancebo chamado Valeriano a pretendeu,pedindoa a feus paes por efpoza, fendo efte eílado taó contrario ao feu dezejo , com efta noticia começou Cecilia a cantar de novo, puxando mais pela voz, 6c explicando melhora letra; puxou mais pela voz,paraque fofle ouvida a fua fupplica i explicou melhor a letra, paraque os paes entendeflem a fua determina¬ ção. A Solfa dizia Ut Re Mi, p o r que toda fe encami¬ nhava fó para os defpozorios do Ceo: C a cilia in cor - de fuofoli Domino decanta - bat , a letra dizia : Fiat cor meum r & . c orpiis meurn immaculatuMi
de Santa wtacuUtut» y u t non confun - dar »porque íe ordenava to¬ da a recuzar o deípozorio, qac fe pretendia: i uamDotnino pidicitiam commenàabat-, bem: mas fe o feu em¬ penho era efcuzarfe ao Ma¬ trimonio, como para impedillo fe não valeu de outras induftrias mais que da ar¬ te da Muzica? AfTim havia .de fer,porque o fim de Cecilia era confervar a pure¬ za : Suam fudicitiam com - mendabat& para defender a pureza parece que ha humainuyto efpecial virtude na Muzica. Foy precizo a ElRey Agamemnon , co* Hom. mo efcreve Homero,achar¬ ei nas guerras de Troya auzente da fua Corte,& o cõbateque mais lhe intimida¬ va o coraçaõ, não era tanto o rifco da fua vida,como o da fua honra, temendo que abdlezada Rainha fua efpoza fofie cortejada , & fe deyxafie vencer, vesdo-íe combatida. Para evitar efte dano fe fiou de hum Muzicoíeuvaffailo.aquemdey- , xou recomendado o ref. guardo da Efpoza,&: de luã honra , efte com o fonoro de lua Muzica íe fes tão fe- Cecilia. 11 nhordasattençõesdaPrinceza , que não bailarem os cortejos de grandes Prín¬ cipes para faltar à fè , que devia ao feu típozo; mas oh cazo digno de toda a ponderaçaõlMorreu o Muzicoantesde voltaro Prin- Gipe para a fua Corte,& fes à Rainha tão grande falta aquella Muzica , quetm ucos dias íe deyxou ven¬ cer,faltando à fè, & aorefpeyto , q devia ao ft u Rey: mas eu reparo aqui no que não devo reparar •, reparo era fer tão eílimado aquelle Muzico, que vivia de portas a dentro no palacio do mefmo Reyjmas não de¬ vo reparar, porque fey que das maycres categorias do Mundo foy fempre eftimadacr m efpecial cuydadoa Muzica:eftimadados Filozofos mais afFamados,t Ri¬ mada dr s Reis mais pcderozos,eftimada dos F.mperadores mais foberancs, cftimada finalmente dos Su¬ mos Pontífices da Igreja. Entre os Summos Pontífi¬ ces achareis a Muzica r.aquelles grandes CatoresS. Gregorio o Magno , L eaó 11. &: Vitaliano 1. Entre cs C ij £m-
i Sermão Emper adores achareis a eft,tempHS efl ut reddam ad Muzica na qnelles profefíoresda Arte,Theofilo,Decio Cy 11 a , 8c a Alexandre Magno. Entre os P^eis a- C ha reis a Muzica naquelles tres Coryfeos,bumPyrrho Key dos £pirotas,hum David Key de ífrael, 8c Co¬ bre todos hum Rey de Por¬ tugal o Sereniíllmo Rey D. Joaõ o I V.deglorioza me¬ mória. Entre os Filozofos achareis a Muzica em hum Sócrates , em hum PythagoraSjSc em hum Origenes, condecorando com a fua Muzica a fua Filozofiaj 6c íinalmente achareis a Mu¬ zica no Ceò,achareis a MuzicanoSol, 6c achareis a Muzica nas eítrellas. No ^ Ceo jj porque d is F ilò Heüo-breu "que o feu movimento '* he M u z íc;a: Concentu fm m » tn&tuu reddif fuaviffimam haYmoniam.kCo Sol,porque ovid. dis Ovidio que quando fe iib. i. mo v e canta: P er me concorph. dant carmina lyr*. Nasefrrellas,porque dis Abuien- ^ feque pedira Ò Anjo ajaefeb qiie-o largaíTe > porque era jàtempo decantar , & ouvir cantar os A-ftros da madrugada; dimitteme,^ •Phit.lib. i.de xanxit. Metamor: cantandnm coram 'Veo cim aliis , quivocanmr Afira matutina y porém melhor dicera, fe dicera que era tépo de ouvir cantar a Ceciliarporque ouvir cantar a Cecilia na terra vai o mefmo ,que ouvir as melhores coníbnancias,8c as mais ío* beranas vozes do Ceo. A Deos Senhor nofifo pe¬ dia o Profeta Rey que man* d a fie temperar os inítrumentos da Gloria , porque era jà tépo de ouvir as vo¬ zes do Ceo : Exurge gloria mea , exurge pfaltenum , & cithara, 6c que refponderu Deos nefte cazo?Refpõdeu que feria deferido na hora da madrugada ,exurgam dl - luciilOy mas he aqui melhor a <doza de Cactznoiexcita- Caet. in bo Auroram , efperarey pela Aurora. E que tem que o. fazer a Aurora com a pretençaõ de David ? David quer ouvir a Muzica do Ceo, 8c o Senhor refponde que he necefiario efperar pelaAurora? Sim:porque nefia hora coílumava can¬ tar mais altamente Cecilia: j Dum A uror afinem dar et, *xcr<* Cecilia dixit ; Eia vnlttes Çhrifih
Je Santa Cbrtltí > rfjfàu °P era tmem brarunty & induimim arma lí'às-,&c c o m o e m C ccilia íe achavam as melhores confonanciasdo Ceo,para David ouvir as vozes do Ceo lhe era neceíTirio efperar que cantaíTe Cecília lExiirgam dilucido ... excitabo yluroram. Mas perguntara eu ago¬ ra: David por ventura que¬ ria ouvir os inftrumentcs materiaes da cithara , 8c pfalterioPnaõ: queria,como dis LauretOjOiivir as vozes *££ do Sacramento íignificado Kait'8c nefie pfalterio , 8c neflacicuh. thara : Pfalterium , & cithara> id eft , f ormam Corporis Chrifti : 8c pois para ouvira Solfado Sacramen¬ to era necefíario que amanhecefle o dia,8c queefperafle David pela Aurora: rraTt.Y<$! Exurgam dilucido... excita - »-9- bo Auroram ? Sim: porque aonde a V ulgata tem exurgam dilucido , le o Lorino: fulfabo organa. E que orgam podia fer efte tocado ao tempo da Aurora, ou na madrugada da vida,í e n ão o orgam da prodigiozaCecilia?& hum ore^r;, cocado pe*as q&bs de Cecília fas Cecília. ' 13 huma Muzica tfto fuave , q náo fò íe equivoca com os cõcentos do Cèo,mas tam¬ bém com as vozes,8c fuavidades do Sacramento: terium , & cithara , ideft, forma Corporis chrifti * por iflo quando David pede a Deos as vozes do Sacramé- to,lhe defere o Senhor com o orgam, 8c Muzica de Ce¬ cília : Exurgam dilucido.:, ptdfabo organa. Aílim can¬ tava Cecília, 8c aílim exce¬ deu as Virgés prudentes no Canto. As prudentes foram Muzicas do íegundo Coro, porque cantavam na chufma,Cecilia foy tatodoprimeyro Coro,q jà tinha can¬ tado a duo com o Efpozo foberano , quando as pru¬ dentes do Evãgelho fairam ao caminho a bufear o Ef¬ pozo : exierv.nt obvia Spon~ fo , & SpunfiC. III. DISCURSO. E N cra finalmente Ceei-’ lia a cãtar no Tiple fubindo ao La de EUtnh qpe he ° üirimo ponto da Solfa,8c à fruiçaõ da Gloria, q fie a ultima confonancia da alma, Ntmcacanccmtaõfi-
f 4 Sermão -.-i, nem tao afHnada a prodigioza Cecilia; fina nos extremos do feu amor, aífinada no fuílinido dos íeus tormentos Irritado jà o tyranno AI maquio de ver q era Cecília na fua Muzica huma Serea encantadora , pois encantava,quando ca¬ tava,trazendo, como trou¬ xe, de huma fò ves mais de 400. Idolatras à Igreja , a mandou meterem hum ba¬ nho de agoa fervente , 6c paraque acabaíTe a vidaco hum paíTo de garganta, no mefmo banho a mandou os Sábios profeflbres da virtude, 6c dis no livro do Ecclefiafticoeftas notáveis palavra s\Flor et eflor es.quafi V & benedicite ‘ Domi - mm in canticis labiorum i & citharis ; quer dizer engrãdecey a Deos como o li rio com louvores do canto , 6c com inílrumentos de Mu¬ zica Lede com attençaõ o Texto , 6c achareis que no meímo Capitulo fas o Se¬ nhor muy efpecial memó¬ ria da agoa, do fogo, 6c do ferro \aqua>igniS)&fei rum ; 6c pois quando o Senhor morrerdegolladaimas vejo quer fer louvado com Mu que quanto mais o fogo ar- 2ica, 6c quando fas memodia,menos a agoa queyma va i pois devendo a Santa eftar naquelle banho ardédo,eftava no meímo banho cantandojmas fe jà tinha na garganta tres golpes,como ainda ao depois de ferida cantava? A f lim havia de íer* porcj era Lirio do Ceo Cecilia , como lhe chamou Chud. a ' C l á u d i o a ILota : Cacilia Koü e g. Lilia, 6c deíla Planta *^ 4 - dis B^rcorio que quando a ppilôo cu. catYi ca---- • Jfla herba quando colligit 1 '" c ‘ ' w ~*\[. to íüppofto,notay agora. F ala o Eípirito Sãto com ria do lirio, então acha que he tempo de faiar na agoa, no fogo , 6c mais no ferro? Sim* porque parece que eftava podo os olhos no mar- ' tyrio de Cecilia , de quem temos dito que era Lirio do Ctw.Cdciliti C<eli Lilia.Era. Cecilia metida no banho exahi a agoajera Ceciliaardédo no banho,exahi o fo¬ go , era Cecilia degollada no banho, exahi o ferro-, 6c quando huma creatura pa¬ decendo hum martyriotão y qprozo íe acha,como Li- 4 ^ » * cantando no feu
de Santa íeirtor meto,não póde deyxaro Efpirito Santo de fa¬ zer muy efpecial memória do feu mznqúo:aquaàgnis> & ferrum..ifta herba quan¬ do colligitur clamat. Cantava Cecilia,& a to¬ dos os Muzicos excedia, quando cantava; porque fe os mais cantam com a voz da cabeça,ou com a voz do peyto, Cecília, que fò can¬ tava ao compaíTo do amor de Oeos , tinha tres vozes, com que cantava; cantava com a voz da cabeça , com a voz do peyto ,Sc coa voz da alma ; com a voz da ca¬ beça,porque cantava com o entendimento; có a voz do peyto,porque cantava com o coraçaõjcom a voz da al¬ ma, porq cantava com perfeyçaõ; cantava com a voz do entendimento; porque fò para Deos cantava , f&li Domino decantabat. Aílim 2&° entendeu Ugo quãdo lhe chamou entendida: Beata Caciliafuit mulier difcreta , & argumentofa.\ DeosSenhor nofib pedia o Profeta r <H- Rey que lhe déíTeentendi¬ mento para viver: da mihi , intellettum , & vivam', pe¬ dira melhor, fepediífeen- Cecília . J$ tendimento para governar; porque com pouco entédimento não fe governa bem, & ainda pedira melhor, fe o pedira para morrer-, por¬ que os mais entendidos fao mais mortaes,& fempre vi¬ vem menos os que entende mais, porem para viver lhe pede o entendímentoPSim; porque tinha promettido David que toda a vida ha¬ via de cantar fò para Deos: CataboDbmino in vita mea: p falam \ Deo meo , quandiu /Wj&como o Profeta que¬ ria moftrar q fò para Deos cantava, pedia entendimé- tO;porque o finai de cantar com entendimento he can¬ tar fò para Deos Aílim cãtava David: Lantabo Do-mm. mino in vita mea> & efte era *•* o modo, com queCecilia cantava : Caciliafeli ‘ Do¬ mino decmtabat. Também cantava Cecí¬ lia com voz do peyto, que he voz do coraçaõ: in corde fuo decantabat ; 8c ifto por¬ que ? ■ Porque cantava fem¬ pre para Deos; por iílo não havia tempo,nem hora, em que não louvaíTe a Deos cõ a muzica,que canta va: Non diebus ) neque noãibtis a colloquiis
i6 Sermão loquiis THvinis , é* oratione vacabat. E íe quando can¬ tava com a voz da cabeça,q era voz do entendimento, provava, 8c queria moftrar que cantava lò para Deos : Soli Domino , quando cata¬ va com voz do peyto, que era voz do coraçaõ, prova> va, 8c queria moftrar que para Deos fempre cantava: Non vacabat. Do Profeca tccief. Reydís o Livro do Eccleí»; n ' ziaftico que cantava lou¬ vores a Deos, 8c a voz que cantava era voz do peytoj porque lhe íahia do cora¬ çaõ : De omni cor defno lau - vatab. davit, Dominum , & le Vatic * tablo: totocordefuo decantavit Cr e ator em f u um : mas íe os louvores faõ vozes, q íahetn da bocca , como os qdava David a Deos eram vozes do coraçaõ? porque? porque louvava fempre, Sc eram quotidianos os féus . «w.caet. lou v o r cs - A f li m explica Sy- Çomjiie.|< 0 ? & Caetano : Quottdie femper cantica fita dicebat - y 8c fe cantar com vozes do coraçaõ be cantar fempre: QuotidièfemptY , Cecilia, q eom o feu canto de orgam queria louvar fépre a Deos, que havia de fazer, feqaõ puxar pela voz do peyto,’ 8c catar lempre com as vo¬ zes do coraçaõ: Cacilia in cordefuo decantabat . . . fem¬ per catica fita dicebat , paraque Deos não pudeíTe di¬ zer da Muzica de Cecilia o que tinha dito do Povo de Ifrael: Populus hic labiisme Ma«.rs« honorat : corautem torim n ' i% longeeftame. Também cantava cõ vo¬ zes da almajporque enten¬ dendo que para louvar a Deos não bailavam fò as vozes do entendimento, q faõ vozes da cabeça , nem fòas vozes do peyto, que faõ vozes do coraçaõ, para o louvar com mais perfeyçaõ,o louvou também com vozes da alma, que I;.e(c0- mo dís o meu grande Inçognito ) o mais perfeyto modo de louvar a Deos Mnco-n: Non folo ore , fed prwcipa-\f£ lm ’ lius mnte. Quis o Profeta Rey louvar a Deos, 8c para o louvar com toda a perfeyçaõ fe valeu das vozes da alma para o feu louvor: landa animd mcaDominum : jL a itdabo Dominum m vi ta mea. Id eft ( dís a Gloza de Czztznofifitabo c Dco irrviff loc ’ ta ma. Naõ reparo no em r
de Santa Cècilia. 1 7 penho de David,reparo no reparo de Caetano, porque reparou, & advertioqueo Profeta fe valera das vo¬ zes da alma para louvar a Deo siPropheta animam invitavit ad ‘Divinam lan¬ de m ; Sc pois fenao fes eíTe reparo,nem quando David louvou a Deos com as vo¬ zes do entendimento, nem quando o louvou com as vozes do coraçaó, como agora nos adverte que para louvar a Deos fe valera das vozes da alma : Animam invitavit , crc? Ora eu en¬ tendo que a agudeza de Caetano naõ olhou fò para o Texto,mas também para o contexto , não fò para o que o Profeta dizia , mas também para o que jà tinha dito o Profeta j o que di¬ zia o Profeta, era que hapíMm, via de louvar a Deos em ***' toda a vida: Lauâabo Dbminam in vita mea : mas o que tinha dito no Pfalmo antecedente, que he o.con¬ texto defte Texto , he que havia de louvara Deos por Hn toda a eternidade: Laudabo nomen tuum in faculum , & infteculum faculi - y 6 c como fcja mais perfcyto o lou¬ vor, que fe d à por toda huma eternidade , que o lou¬ vor , que dura por huma íò vida,entendeu o Padre que não podiam deyxardeler vozes da alma aquellas vo¬ zes , de que fe valia David para louvar a Deos com mayorperfeyçaõ,doque o tinha louvado * porque as vozes da alma íaó as que louvam a Deos com toda a perfeyçao : Cantabo c Deo meo.. in facidum , & in fieciilumfiacuU . . Propheta animaminvitavit ad 'Divi¬ diam lau d em. E fe David fe valeu das vozes da alma para cãtar com mayor perfeyçaõ louvores a Deos, quem cantou com mais al¬ ma, que a prodigioza Ce¬ cília, dando tanta alma à Muzica, que cantou , que dís Lourenço Surio que ao lançar a voz pela bccca, junta com a voz lhe fahira do corpo a alma : Chm ad - huc efient p eces in ore ejus, tradidit anima in manupci -, 4 g o r a paraque .enten¬ dam todos que o f ^rremW- zoamor de Cecilia^fpbrrgou a cantar com v&ÈzgÓt entendimento a fSmdecãtarfò para Deos : íofi Db- D mino,
H Era uzo antigo entre os Hebreus fazerem o gòl- • ps na ceremonia da Circundzaõ com huma pe¬ dra , afilm o achareis no Exo ^. (agrado livro do Exodo, aonde fe ve Cefora Efpoza de Moyzès circun¬ cidando com huma pedra ao feu filho ; durou ede uzo ( como dís Pedro Co¬ medor ) atè o tempo de David, tanto que David fahio a dezafio com o Gi¬ gante Golias, aquelle gol¬ pe , que na Circuncizaõ íe fazia com huma pedra, dahi por diante fe come¬ çou a fazer com o feiro. Ido n 5 o tem duvida , mas qual feria a rezaó deda diderença , Sc o motivo de tão grande novidade ? Refpondocomo Antor ci¬ tado , dis elle que quan¬ do David íahio a dezafio com o Gigante Golias , as armas do Gigante eram de ferro , Sc era também de ferro o capacete ; tirou o Padorinho da funda, ar¬ mou-íe com huma pedra, deu no ar huma volta , eftalou a funda •, mas que¬ rendo ferir ao Gigante na teda 3 o não podia fazer, if ermài porque lhe fazia impedi¬ mento o ferro do capa¬ cete ; que fes pois nede cazo o ferro? defvíou-íe cortefmente da cabeça, paraque acertando o golpe na teda, fizefíe a pedra o feu emprego , ôe feconfeguiffe por ede modo a vittoria do Gigante. Grande cortezia fes neda occaziaò o ferro à pedra , pois paraque a pedra naó fique vencida pelo ferro ein pontos de cortezias, qual ha de fer o remedio ? Bom remedio, ceda a pedra do feu direyto na ceremonia da Circuncizaõ , dè a pe¬ dra na ceremonia da Circuncizaõ o primeyro lu¬ gar ao ferro , jàque o fer¬ ro no dezafio do Gigante deu o primeyro lugar à pe¬ dra : Aivrit Heb)\ei tíjyite ad David Circuncionemfa - Reg.capv fíampeird , Jed quiainde-* 6 , • jiciendo Goliam fer rum lonc£ , & galea cejjit lapidijaão j quafi dans ei lo - cwn , d cinde cejjit Japis fer¬ ro in Circuncifiom : per¬ gunto agora quem he O p J ferro ? Dís o douto F ideie Tom.i* que he Chrido: -Deus Vnigenito Filio fu o locutnsfuifeós ;- r - fi
de Santa fe videttir>dum illum aâ in¬ flar columnaferre* fe for - matum efledicit. Quem he a pedra? He Cecília , por¬ que he Cecília aquelle myfteriozo Topázio,de quem efcreve Amoldo Carnotenfe que metido em agoa fervente tem virtude para impedir a aftividade do eafl. de fogo : Topazion attempe - toz'v*~ rari ferventes aqu# ebullitiones 3 quantÜvis phrimum g 4 *®* admoveatur ignis. Ahfim} pois haja cortezias hoje entre o ferro , 8 c a pedra, haja urbanidades entre Ce¬ cília , 8c o Sacramento. Se Cecília empenhou as feis vozes da Muzica em dar defcantes ao feu Divino Efpozo: Domino decanta - bat , também agora fe dezempenha o Efpozo Sa¬ cramentado , dando Muzicas a Cecilia prodigioza por todas as vozes da mu¬ zica •, 8c pois o Efpozo Sa¬ cramentado canta? Sim, 8c canta por todas as íeis vozes no Sacramento , alli canta pela voz do Ut na quella palavra : Ut dulce - dinern tuamin fiiios detnon - ftrares ; canta pela Voz do Re naquella palavra Cecilia. ^ Re còlitur memória pajjimis ejus j canta pela voz do Mi naquella palavra : Mi ro claufít ordine * canta pe¬ la voz do Fa naquella pa¬ lavra : fa cite in meam com - memorationem * canta pe¬ la voz do Sol, 8c canta pela voz do La naquella pala¬ vra Sol la , aonde fe vè o juntamente com o La: Sola fides fufficit. Aílim canta o Eípozo Sacramentado, porqueaf? fim cantava Cecilia pela feu Soberano Efpozo j pa^ ra os exercícios da humil¬ dade cantava pelas Míni¬ mas, para o exame da confciencia olhava para as Se¬ mínimas, para as obras da caridade corria pelas Colxeas , para o dezengano da vida olhava para os Breves , para os a£tos do amor de Deos valia-fe das Infpirações, no tempo da Oraçaõcantava porCompaíTo largo, no rigor da diciplina cantava por Prolaçaõ mayor , nas abftinencias governava-íe pe¬ las Maximas , nasefmolas regia-fe pelas Longas, pa¬ ra o íofrimento dos tra¬ balhos valia fe dos Suílin- £ nidos,.
16 Sermão nidos , para confolar aos do abatimento , paliou t opprimidos cantava pelos íer Breve no tempo per- Abemolados , em fim cofeytoda vida, chegou a íec mo tão deftra na Solfa fou- Longa no ?ol da Graça, íube fazer todos os movibio a ferMaxima no La mentos da Muzica* defda Gloria, ad qnam nos -çeu a íer Minima no Ut çerducat , &c . LAUS DEO.