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(Re)pensar a casa do habitante com acessibilidade reduzida

Fernandes, Catarina de Sousa Melo

Abstract

A presente dissertação procura, através da consideração de utilizadores com limitações físicas, relacionar a arquitetura da casa às suas particularidades, e demonstrar como a arquitetura pode afirmar ou dificultar os seus estilos de vida. Assim, o trabalho inicia com a concretização das características físicas de utilizadores com acessibilidade reduzida, enquadrando-os no espaço doméstico, procurando relacionar o habitante com as ações associadas a cada espaço da casa. Logo, este trabalho, resulta na compilação organizada de atenções, reflexões e soluções de projeto que devem ser tidas em conta na conceção e concretização das casas de habitantes com estas características.

Full text

Catarina de Sousa Melo Fernandes (Re)pensar a Casa do Habitante com Acessibilidade Reduzida julho de 2023 UMinho | 2023 Catarina de Sousa Melo Fernandes: (Re)pensar a Casa do Habitante com Acessbilidade Reduzida Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design Catarina de Sousa Melo Fernandes (Re)pensar a Casa do Habitante com Acessibilidade Reduzida Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitetura Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Professora Doutora Ana Luísa Rodrigues julho de 2023 Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design III DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ V AGRADECIMENTOS Um especial agradecimento à professora Ana Luísa, pela disponibilidade com que aceitou orientar este trabalho, pelo incentivo e sinceridade ao longo da sua orientação, pelas conversas e incansável apoio desde o início. À EAAD e a todos os professores, colegas e amigos que me acompanharam neste percurso. Aos meus pais, por absolutamente tudo. Um obrigado nunca será o suficiente. Ao meu irmão Miguel, por ser tudo aquilo que um irmão mais velho deve ser, o meu maior exemplo. Ao Ivo, pelas gargalhadas diárias, pelo carinho e companheirismo, pela paciência em aturar todos os meus caprichos e fazer de mim alguém ainda mais feliz. VI DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. VII RESUMO A presente dissertação procura, através da consideração de utilizadores com limitações físicas, relacionar a arquitetura da casa às suas particularidades, e demonstrar como a arquitetura pode afirmar ou dificultar os seus estilos de vida. Assim, o trabalho inicia com a concretização das características físicas de utilizadores com acessibilidade reduzida, enquadrando-os no espaço doméstico, procurando relacionar o habitante com as ações associadas a cada espaço da casa. Logo, este trabalho, resulta na compilação organizada de atenções, reflexões e soluções de projeto que devem ser tidas em conta na conceção e concretização das casas de habitantes com estas características. Acessibilidade – Apropriação – Limitações – Otimização 15 símbolos desta ou daquela investigação formal (…)” 7 , como tema principal, a questão que se levanta é: todos esses novos significados, respondem àquilo que são as necessidades não só racionais, mas também físicas e até mesmo morais, do utilizador com particularidades motoras? Este tema tem sofrido uma evolução ao longo do tempo, sustentada pelo surgimento de normas de acessibilidade e recomendações transformadas em legislação que definem os critérios gerais de um projeto, principalmente quando o sujeito é portador de uma cadeira de rodas. Todavia, parte significativa dessa informação não só está dirigida a uma conexão específica entre o corpo e os espaços interiores, como também a maior parte dos padrões de referência não apresentam, como base, dados antropométricos fundamentados. A problemática da inclusividade, no âmbito do projeto da casa, não só afeta a qualidade espacial e o conforto de utilização destes utilizadores, como também é entendida como uma forma de discriminação. Estimase que uma casa que não pode ser usada pelos próprios habitantes, possui um caracter exclusivo, comprometendo a execução das ações da domesticidade. O estudo da apropriação do espaço por utilizadores com limitações físicas, permite ponderar sobre espaços, que não correspondem apenas às necessidades do utilizador fisicamente apto, mas também atendem as necessidades do utilizador com limitações através de uma “nova” perspetiva de uso. 7 GRASSI, Giorgioi, La Arquitectura como Oficio y Otros Escritos. Barcelona, Editorial Gustavo Gili S.A., 1980, p.229 in RODRIGUES, Ana Luísa – “A habitabilidade do espaço doméstico: o cliente, o arquiteto, o habitante e a casa” , Tese de doutoramento, Escola de Arquitetura, Universidade do Minho, 2008. 16 Contudo, a apropriação do espaço por utilizadores com limitações físicas, também tem sido ao longo do tempo, um assunto estudado e compreendido por alguns autores. Salientamos as normas legislativas direcionadas a indivíduos com cadeira de rodas e livros como: “ Projetar para Todos ” de Mário Pessegueiro, “ Dimensionamento humano para espaços interiores ” de Julius Panero e Martin Zelnik, “Acessibilidade: guia prático para o projeto de adaptações de novas edificações” de Ana Lúcia Saad, debatem e apresentam de forma visual, através de um conjunto de desenhos técnicos uma visão mais abrangente a temática da acessibilidade, em simultâneo com um conjunto de dados antropométricos que podem definir um sujeito com limitações físicas. Para além destes, considerámos as dissertações de mestrado que abordam questões que se aplicam a utilizadores, particularmente em cadeira de rodas, tais como: “ Espaço diverso: Arquitetura para Pessoas ” de Manuel de Brito Oliveira, “Acessibilidade e Mobilidade para Todos – Apontamentos para uma melhor interpretação do DL 163/2066 de 8 de agosto ” de Paula Teles, “ Acessibilidades: Arquitetura Inclusiva ” de Carina Figueiredo e, “ Adaptabilidade da Casa na Idade Sénior: A casa da Minha Avó” de Eduardo Cardoso Lopes que surge neste contexto, pela abordagem a necessidades que o utilizador sénior carece das quais destaca o recurso à cadeira de rodas. Destaca-se ainda a investigação de Camila Rylh, “ Desafios, conceitos e estratégias de acessibilidade ” 8 , onde procura entender o conceito de acessibilidade e design inclusivo como desafio para o encontro de soluções criativas. No entanto, a presente dissertação difere de todos os exemplos anteriormente identificados, uma vez que procura interpretar o modo como a arquitetura impulsiona ou retrai um utilizador com limitações físicas nas mais variadas ações do habitar e, posteriormente apresenta uma nova perspetiva de uso através de um conjunto de soluções acessíveis a utilizadores com limitações e utilizadores fisicamente aptos. 8 Sem tradução livre: “Tilgængelighed-udfordringer, begreber og strategier” 17 “A arquitetura tem a capacidade de transformar o modo como vemos e vivenciamos o mundo. Esse poder é indiscutível e muitas vezes pouco utilizado.” 9 A principal intenção deste trabalho centra-se no estudo do modo de apropriação da casa, por um utilizador com limitações físicas, demonstrando como a arquitetura pode ser usada para afirmar ou dificultar as tentativas deste manter um estilo de vida independente nas variadas ações da domesticidade. Devido às muitas variáveis existentes, esta tese focar-se-á na ausência de mobilidade dos membros inferiores e na ausência de membros superiores como limitações físicas, associadas ao fator etário dos utilizadores como variante, e, por esse mesmo motivo “ (…) julgamos que será necessário repensar a casa relacionando-a intrinsecamente com cada sujeito, com cada pessoa a quem pertence. E é por isso que aqui a casa – objeto arquitetónico em estudo – será analisada em consonância com os sujeitos que lhe dizem respeito. (…)”. 10 Relativamente à estrutura e metodologia, a presente dissertação dividese em dois capítulos. O primeiro capítulo, Antropometria na domesticidade: o utilizador com mobilidade reduzida, surge com um pensamento sobre o corpo do utilizador onde se explora a necessidade das medidas corporais do “homem-padrão” para a conceção e apropriação do espaço doméstico e, se procura entender a forma como a arquitetura acolhe o indivíduo com limitações físicas ao analisar cada uma das necessidades. Por se estimar que a ausência de braços e de pernas, se identificam como os tipos de limitações físicas mais limitativas no desempenhar de ações da domesticidade, o presente trabalho restringe o estudo a dois 9 GERENTE, Elaine, Arquitetura sem rótulos , In GArtigo, 2016. 10 RODRIGUES, Ana Luísa, “A habitabilidade do espaço doméstico: o cliente, o arquiteto, o habitante e a casa” , Tese de doutoramento, Escola de Arquitetura, Universidade do Minho, 2008. 18 tipos de limitação que se apresentam em dois capítulos: TIPO 1: limitação de membros inferiores, identifica as principais especificidades e dificuldades de um utilizador com limitação de membros inferiores. Visto tratar-se de um indivíduo com cadeira de rodas, recorre-se ao regulamento de acessibilidades em vigor, na tentativa de incorporar algumas soluções legislativas; TIPO 2: limitação de membros superiores, identifica as principais especificidades e dificuldades de um utilizador com limitação de membros superiores. Até ao dia de hoje, esta limitação física não exige um conjunto de regras a serem seguidas e aplicadas de modo a melhorar a acessibilidade destes utilizadores. Neste sentido, não foram encontrados dados na relação de um utilizador com a limitação e a casa, logo, usámos o testemunho de um indivíduo com as mesmas características físicas relacionando as principais dificuldades diárias às práticas das ações da domesticidade. O fator idade, é igualmente considerado e apresentado como uma dificuldade ao nível de alcance, nos dois utilizadores. No segundo e último capítulo, Repercussões espaciais nas ações da casa, é aprofundada, separadamente, a condicionante de cada utilizador, TIPO 1: limitação de membros inferiores e TIPO 2: limitação de membros superiores, nos espaços da casa. A análise é feita através da decomposição de cada espaço da casa, através das várias ações relacionadas com o espaço. Após identificadas as principais dificuldades causadas por barreiras arquitetónicas nos espaços da casa, desde os acessos, a cozinha, a casa de banho, o quarto e sala, para o executar de cada ação, identificam-se um conjunto de soluções possíveis que refletem as configurações humanas nas dimensões espaciais. O estudo é complementado, ao longo deste segundo capítulo por esquemas produzidos pelo autor, tendo como base os esquemas gráficos do livro “ Projetar para Todos ” de Mário Pessegueiro, que identificam graficamente o que é analisado e relacionado. Cada espaço, tem como 19 referência um projeto de arquitetura que, embora não sejam, em certos casos, casas unifamiliares “para” pessoas com limitações físicas, identificam soluções arquitetónicas que podem ser aplicadas como solução para estas dificuldades, com o propósito de enfatizar a ação e a proximidade do usuário ao objeto, mesmo que este assuma a posição do “homem-padrão” . 20 21 1. ANTROPOMETRIA NA DOMESTICIDADE: O HABITANTE COM MOBILIDADE REDUZIDA (…) Dum modo geral, tudo o que o homem cria é essencialmente destinado ao seu uso pessoal. As dimensões de tudo o que realiza devem, pois, relacionar-se com as medidas do seu corpo (…) 11 11 NEUFERT, Ernst, Arte de Projetar em Arquitetura , 5ª edição, 1976, op.cit., p. 18. 22 23 • CONCEITO DE “HOMEM-PADRÃO” As dimensões humanas e as suas proporções matemáticas são, há muito, motivo de fascínio de filósofos, artistas e arquitetos. Na verdade, a forma humana também molda e define a arquitetura. O homem é, essencialmente, a última medida de todas as coisas. Vitrúvio, no seu Tratado de Arquitetura, manifesta não só a preocupação com o estudo da escala humana, mas também as suas implicações metrológicas 12 , “(…) Uma vez mais, o ponto central no corpo humano é naturalmente o umbigo. Se um homem for colocado deitado de costas, com mãos e pés estendidos e um compasso for centrado em seu umbigo, os dedos das mãos e dos pés irão tocar a circunferência descrita a partir daquele ponto. E da mesma forma que o corpo humano permite um traçado circular, uma figura quadrada também pode surgir dele. Pois, se medirmos a distância das solas dos pés até o topo da cabeça, e então aplicarmos a medida aos braços estendidos e abertos, a amplitude encontrada será a mesma que a altura, como no caso de superfícies planas que são perfeitamente quadradas. (…)” 13 , passando pelo monge Dionisio que, durante a Idade Média, e a respeito desta dimensão defende que esta equivale a “nove vezes a altura da cabeça” 14 , Cennino Cennini que, no século XV, retrata a altura do homem igual à largura do mesmo com os braços estendidos 15 , até Leonardo Da Vinci que, durante o Renascimento, representa um homem desnudo, inscrito num quadrado e num círculo, com todas as proporções baseadas no 12 E por metrologia entende-se a ciência que engloba aspetos práticos e teóricos da medição. Estudo da medida. 13 HICK MORGAN, Herris, Vitruvius: The Tem Books on Architecture, Nova York : Dover Publications, Inc., 1960, p. 72-73 in PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, São Paulo, 2015, 14 SENGHERS Pierre, CHARPIER Jacques, The Art of Painting , Nova York: Hawthorne Books, Inc., 1964, p.65 in PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, São Paulo, 2015. 15 PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, São Paulo, 2015, p.15. 24 “homem-padrão” vitruviano, ou Leon Battista Alberti e outras tentativas de descobrir proporções matemáticas no corpo humano. Em 1948, cerca de 2000 anos depois, Le Corbusier reacende também o seu interesse no padrão vitruviano, com o desenvolvimento do “Le Modulor ” (fig.3). O Modulor traduz-se numa “ (…) palavra composta a partir de module, ou seja, unidade de medida, e section d’or ou seção de ouro: a divisão de uma reta de tal modo que o segmento menor está para o maior assim como o segmento maior está para o todo (…)” 16 e, baseado neste sistema de proporções antropometricamente combinadas, o mesmo oferece um conjunto de dimensões, das quais as dimensões medianas estão intimamente relacionadas com o corpo humano. Le Corbusier dá a conhecer através das suas duas publicações, a sua abordagem às investigações outrora iniciadas por Vitrúvio e, mais tarde, por Leonardo Da Vinci, numa tentativa de procurar a razão das proporções e a relação matemática entre as medidas do homem com os espaços. A definição de uma proporção universal que possa ser aplicada nas dimensões da habitação, visa proporcionar ao utilizador, uma sensação de conforto e este, forneceu ao longo dos seus textos ( Modulor 1 e 2) descrições de como estas proporções matemáticas foram aplicadas nos seus projetos. Na sua primeira versão, o modulor tinha como base o homem médio francês com 1,75m e foi definido como “(…) aparato de medida fundamentado na estatura humana e na matemática. Um homem com o braço levantado dá os pontos determinantes de ocupação do espaço: o pé, o plexo solar, a cabeça e a ponta dos dedos com o braço levantado – três intervalos que definem uma série de secção áureas de Fibonacci; e ainda por outra parte, a matemática, que oferece a variação mais imediata e significativa de um valor: o simples, o dobro e as duas secções áureas.” 17 O modulor final, de modo a satisfazer mais, sofre 16 SUMMERSON, John, A linguagem clássica da Arquitetura , 4º, Edição, Editor Martins Fontes, 2006, p. 116. 17 CORBUSIER, Le , Modulor 1 , Editor Orfeu Negro, 1948, p.52. Figura 1. O Homem Vitruviano, Leonardo Da Vinci, 1490 Figura 3. Le Modulor , Le Corbusier, 1948. Figura 2. O Homem Vitruviano de John Gibson e J. Bonomi, 1857. 31 De acordo com o Censos, a população divide-se em três grandes diferentes faixas etárias: as crianças, os adultos e os idosos. À exceção de casos raros 31 , as medidas antropométricas de uma criança variam das de um adulto, será de antever que uma criança com limitações físicas terá de igual forma medidas de alcance inferiores. A mesma variação se espera na comparação desta com um idoso e, na comparação deste com um adulto. Na apropriação do espaço e na constante necessidade de alcance, estas variações resultantes das diferentes faixas etárias resultam num conjunto infinito de soluções espaciais, numa primeira vista pouco prováveis de se obter com facilidade. 31 Pessoas com percentil 5% naquela que é a sua estatura enquanto criança ou enquanto adulto. A criança, o adulto e o idoso – Alteração das dimensões corporais. Figura 7. População residente segundo os Censos divida nas três grandes faixas etárias. Fonte: PORDATA, 2023-03-07. 32 Como resposta a esta ideia, julga-se relevante considerar que a seleção de dados se baseia no problema específico de cada projeto e que embora existam ações em que essas variações corporais se sintam e careçam de uma solução específica, muitas ações são padronizadas 32 e por isso, dentro das inúmeras soluções ilustrativas, todas elas ainda que graficamente distintas, oferecem a mesma resposta ao problema. Noutras situações poderá ser pertinente utilizar a lógica subjacente à seleção das dimensões corporais envolvidas e a gama de utilizadores a serem atendidos, de modo a atender o máximo de usuários possíveis, sem necessitar de restringir espaços ou ações a determinado individuo. Por exemplo, num projeto onde a principal preocupação é o espaço livre, este devera procurar atender as necessidades de um utilizador com dimensões corporais maiores. Usando a lógica, se o projeto oferece um espaço livre para utilizadores de medidas maiores, o mesmo será adequado para utilizadores com menores dimensões. Em contrapartida, a lógica inverte-se quando, em vez de espaço livre, o projeto requer que o utilizador alcance algo a partir de uma posição em pé ou sentado. Nestes casos em particular, parte-se do princípio que se o projeto atender às necessidades dos utilizadores com medidas de alcance menores, as necessidades de utilizadores com medidas de alcance maiores serão igualmente respondidas. 33 Para se ilustrar a questão de fundo que nesta tese se prevê estudar, não será adequado deixar de lado de que as inúmeras possibilidades de variações corporais, resultam continuamente da necessidade de alcançar os objetos que fazem parte das várias ações do quotidiano 34 e, não apenas das diferentes faixas etárias. Essas ações originam diferentes níveis de interação entre o corpo e o espaço e, a quando das “(…) interfaces de dimensão físicas geralmente envolvem problemas de espaço livre e alcance.” 35 33 PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, S. Paulo, p.38 34 PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, S. Paulo, p.23 35 PESSEGUEIRO, Mário, Projetar para Todos – Acessibilidades nos Espaços Urbanos, Ergonomia dos Edifícios, Equipamentos Inclusivos , Editorial Vida Económica, p. 123. 33 Uma vez que na sociedade portuguesa, pessoas com limitações físicas são definidas pelas incapacidades do seu corpo, os problemas vivenciados pelas mesmas são geralmente vistos como resultado das suas próprias limitações funcionais. Esta crença tem enfatizado ao longo do tempo, a construção de uma imagem passiva e dependente de utilizadores com algum tipo de “défice motor” 36 mas isso será pôr em causa aquilo que se espera na conceção do projeto de uma casa feita por pessoas e pensada para as pessoas que nela habitam. Por este motivo é primordial para este estudo, determinar que os utilizadores em questão são identificados pelas seguintes limitações: Tipo 1 – Mobilidade reduzida com limitação de membros inferiores 37 , e por isso mesmo, usuário de uma cadeira de rodas. Tipo 2 – Mobilidade reduzida com limitação de membros superiores. 38 . . . . 36 O termo “défice motor” surge em alternativa à palavra deficiência por de uma palavra com uma conotação menos agressiva que caracteriza pessoas com deficiências físicas se tratar. 37 paraplegia : perda total das funções motoras dos membros inferiores. 38 Amputação dos membros superiores. 34 35 1.1. TIPO 1: LIMITAÇÃO DE MEMBROS INFERIORES 36 Figura 8. O uso dos braços. 37 A limitação dos membros inferiores, também designada de paraplegia 39 ou paraparesia 40 , é uma alteração completa ou parcial nos membros inferiores que acarreta um comprometimento da função física do ser humano, nomeadamente a mobilidade deste. Normalmente, estes problemas ocorrem no cérebro ou no sistema locomotor, levando a um mau funcionamento ou paralisia dos membros e deriva de várias etiologias entre as principais estão os fatores genéticos, virais, fatores neonatais ou traumáticos. Indivíduos com este défice, seja de ordem física ou motora, necessitam em muitos casos, de atendimento fisioterápico e psicológico, de modo a lidarem com os limites e dificuldades decorrentes do défice em questão, porém, muitas vezes não é o suficiente. Estima-se que, provavelmente, a maior fraqueza de um utilizador com ausência de mobilidade será a sua própria casa. Pode-se considerar que, à partida, a maioria das casas não possuem condições de mobilidade, acessibilidade e respetivos meios auxiliares de que estas se socorrem para minimizar os problemas de locomoção. Tendo em conta que o meio mais utilizado por um individuo com este tipo de limitação é a cadeira de rodas, qualquer alteração ao nível da superfície de apoio da cadeira torna-se um entrave, primeiramente, à mobilidade deste utilizador naquela que será a tentativa de alteração da direção do movimento da cadeira de rodas, na maioria das vezes incompatível com o espaço livre nas habitações. As dificuldades que este encontra naquela que é a acomodação completa e independente do espaço, surgem como uma oportunidade de repensar a habitabilidade num sentido pessoal e singular. 39 Perda total das funções motoras dos membros inferiores. 40 Perda parcial das funções motoras dos membros inferiores. 38 Um utilizador portador de uma cadeira de rodas, deverá ser visto com um todo, “(…) uma extensão do seu próprio corpo, uma oportunidade e forma de locomoção como qualquer outra, que permite a motricidade necessária para continuar o seu quotidiano (…)” 41 e assim, eliminar a ideia pré-definida de que estar sentado não é nada mais do que uma ação estática. Por este motivo, é fundamental conciliar a natureza estática dos dados antropométricos com a realidade dinâmica dos movimentos corporais. “Movimento é o estado natural do homem e a base de seu ser. A vida humana não representa um estado estático; desde o piscar dos olhos até uma corrida de grande velocidade, em sono ou vigília, o homem está em movimento (…)” 42 Uma vez que a limitação física afeta os membros inferiores e, não pondo de parte o recurso à cadeira de rodas por atender as necessidades de locomoção do utilizador, são os braços o principal instrumento no desempenho das ações do dia-a-dia, desde a simples abertura de uma gaveta à transferência do próprio corpo entre superfícies. Para além da altura e do espaço que a cadeira de rodas ocupa ser um fator primordial na decisão de projeto, são as superfícies e os espaços alcançáveis a este que possibilitam o desenrolar da ação. Da necessidade de alcance entre utilizador e o espaço, resultam interfaces físicas, nas quais os principais problemas observados são precisamente a nível do alcance e o próprio espaço quando este não é projetado mediante as medidas e necessidades esperadas do utilizador que se faz acompanhar da cadeira. 41 OLIVEIRA, Manuela de Brito, “Espaço diverso: Arquitetura para Pessoas”, Dissertação de Mestrado, Escola de Arquitetura, Universidade do Minho, 2020. 42 KAPLAN, Archie, Designing for Man in Motion , AIA Journal, 1971, p.42-44. Figura 9. Estático. Figura 10. Movimento. Figura 11. Alcance. 39 Primeiramente, e a respeito das medidas de alcance embora estas variem por si só, tendo em conta apenas a raça e o sexo 43 : mulheres têm habitualmente medidas de alcance inferiores às dos homens, é o fator etário, como evidenciado anteriormente o responsável por evidenciar maiores variações e, consequentemente maiores necessidades dimensionais num projeto. As crianças, para além de terem por natureza medidas de alcance inferiores às de um adulto, fazem-se transportar por uma cadeira de rodas geralmente de dimensões igualmente inferiores e é entre estes dois grupos etários que as maiores variações se fazem sentir. Os idosos, ainda que à partida a dimensão das cadeiras de rodas não difira das de um adulto, a incidência de artrite e outros problemas de articulações recorrentes nesta faixa etária, pode evidenciar esta variação. 44 Porém, as diferenças entre este grupo etário não será, à partida, significativa. Para além destes fatores, as medidas de alcance devem estudadas tendo em conta os níveis de articulação motora. Como já referido, o estar sentado em nada se trata de uma ação estática. O grau de abertura ou rotação das articulações tem um grande impacto naquela que é a comunicação entre o corpo e o espaço e naquele que é o alcance lateral e o alcance frontal máximo e mínimo, que este consegue atingir quando se aproxima do objeto. 43 PANERO Julius , Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, São Paulo, p. 23-25. 44 PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores , Editorial Gustavo Gili, São Paulo, p.47. A criança, o adulto, o idoso em cadeira de rodas. 40 MEDIDAS MÉDIAS DE ALCANCE FRONTAL E LATERAL NA CRIANÇA NO ADULTO E NO IDOSO 47 A limitação dos membros superiores, é uma alteração completa ou parcial dos membros superiores que acarreta um comprometimento da função física do ser humano, nomeadamente a acessibilidade a superfícies e objetos deste. Tal como no tipo 1, normalmente o ocorre no cérebro, ou no sistema locomotor, levando a um mau funcionamento ou paralisia dos membros. Em termos científicos, este tipo de défice específico não tem designação própria. O espaço da casa, é o espaço mais suscetível de desconforto com estes problemas de “défice motor 47 ”. Um utilizador com ausência de membros superiores, não terá à partida problemas de locomoção e por isso a deslocação deste é livre e desimpedida. O facto deste não necessitar de recorrer à cadeira de rodas para mover entre espaços, foca o problema de acessibilidade unicamente àquilo que é atingível ao toque. Quando se fala em toque, do ponto de vista sensorial, fala-se do principal sentido responsável por transmitir diferentes informações sensoriais como a temperatura, a dor, a textura… Mas, do ponto de vista arquitetónico na casa, a possibilidade de tocar 48 é vista como o primeiro momento de cada ação. A possibilidade de tocar continua como o ponto de partida para o desenrolar de uma ação e não se restringe ao propósito sensorial. Embora não tenham sido encontradas obras arquitetónicas especificas para este tipo de utilizador, relatos de pessoas com esta limitação servem como base para o caso de estudo. Neste caso, os utilizadores usam as pernas e os pés em auxílio. Os membros inferiores, para além da sua função locomotiva no ser humano, são também utilizados como instrumento que auxilia o utilizador no desenrolar das ações quotidianas. 47 O termo “défice motor” surge em alternativa à palavra deficiência por de uma palavra com uma conotação menos agressiva que caracteriza pessoas com deficiências físicas se tratar. 48 Tocar no puxador para abrir a porta, tocar na cadeira para a puxar e sentar, tocar na gaveta para a abrir. 48 Numa das palestras de Nick Vujicic (fig.19) 49 , além deste defender que o “défice motor” é “ algo que se tenta e não se consegue atingir. E não é porque eu tenho braços ou pernas que eu não possa fazer as coisas que eu faço ,” 50 debate-se também sobre três princípios no modo de como encara os obstáculos que encontra pelas suas limitações. Motivado a transformar “uma vida sem tronco, numa vida sem limites” 51 , Nick Vujicic, compreende suas principais dificuldades através de uma conceção de vida fundamentada através da “perspetiva”, da “visão” e das “escolhas”. No primeiro princípio, perspetiva, defende que o modo como qualquer individuo vê as adversidades da sua vida, é a primeira chave. O segundo, visão, completa a perspetiva pela visão estar além da compreensão e escolhas, no sentido em que aquilo que o individuo mais valoriza, automaticamente ganha mais valorização. A aplicação destes princípios no projeto da casa, permite ao arquiteto a possibilidade de ver, compreender e valorizar as necessidades do utilizador e repensar numa nova forma de habitar, mediante as suas necessidades. Se o utilizador, no ato de habitar, se sente limitado pela ausência dos membros superiores, então o potencial da casa é posto em causa. “ Seres humanos não são máquinas com fios soltos ou válvulas queimadas, que um cirurgião ideal pode trocar e consertar, ou ajustar, retirar ou reconectar”, 52 ao contrário da casa que possibilita ao arquiteto a oportunidade de pensar, trocar, consertar, ajustar, retirar, acrescentar quando esta proporciona uma experiência limitada de habitar. 49 Nick Vujicic nasceu na Austrália e é um palestrante de renome mundial que viaja pelo mundo, motivando pessoas a superarem as suas adversidades físicas. Atualmente com 40 anos de idade, Nick nasceu sem pernas e sem braços, sem nenhuma razão médica que justifique o seu “défice motor” (disponível para acesso através do link: https://youtu.be/3DwMhSeD05w). Para além das conferências motivacionais, é diretor da organização LIFE WITHOUT LIMBS, autor do livro “ Life Without Limits ” publicado em 2010, apareceu em 2005, no documentário “ Life’s Greater Purpose ”, e no curta-metragem “ The Circus Butterfly ”. 50 Nick Vujicic, disponível para acesso através do link: https://youtu.be/3DwMhSeD05w 51 Nick Vujicic, disponível para acesso através do link: https://youtu.be/3DwMhSeD05w 52 Eugene T. Gendlin Figura 19. Nick Vujicic. 49 PERSPECTIVA “Como o utilizador vê a casa?” VISÃO “O que o utilizador quer da casa?” ESCOLHAS “O que é importante para o utilizador no espaço de casa, que garanta a sua máxima habitabilidade?” Princípios para o espaço da casa. Princípios de vida de Nick Vujicic, adaptados na apropriação do espaço. 50 Naquela que será a mobilidade dentro de um espaço e, geralmente um dos principais problemas resultante das conexões físicas de um individuo com limitações, utilizadores deste tipo não encontram dificuldades. Uma vez que não se auxiliam da cadeira de rodas, os problemas de permanência e acesso aos espaços, não se fazem sentir. Por outro lado, uma vez que muitas das funções habitacionais são programadas para exercer em pé e contam com o auxílio dos braços e das mãos, muitas destas funções tornam-se impraticáveis com esta limitação. Os princípios de Vujicic, anteriormente citados, são aplicados neste trabalho como base na construção de um pensamento que visa tornar as ações rotineiras mais acessíveis a pessoas com este tipo de limitação e, por conseguinte, fazer com que o seu habitar seja mais confortável. Em primeiro lugar, a forma como o utilizador vê e sente a casa deverá transmitir a este segurança, funcionalidade e habitabilidade. A segurança através do respeito das dimensões físicas, que mais uma vez, encontram variações significativas entre as três faixas etárias; a funcionalidade de modo a que todas as ações sejam facilmente concebidas e alcançáveis tendo em conta o alcance máximo e mínimo possível pelas pernas e pés e, a habitabilidade no sentido em que o potencial da casa, não limita o potencial do utilizador que nela habita mesmo que este não seja traduzido pelos seus braços e mãos. “O ato de habitar é o modo básico de alguém se relacionar com o mundo. É fundamentalmente um intercâmbio e uma extensão; por um lado, o habitante que se acomoda no espaço e o espaço se acomoda na consciência do habitante, por outro, esse lugar se converte em uma exteriorização e uma extensão do seu ser, tanto do ponto de vista físico quanto mental.” 53 53 PALLASMAA, Juhani, Habitar , 2017, op.cit., p. 7. 51 Em segundo lugar, estima-se que o utilizador espere que na casa, seja possível habitar com o seu máximo potencial, de um jeito ou de outro. Por outras palavras, ambiciona que ao invés da casa limitar o seu modo de habita e repugne certas experiências, esta se adapte aos seus modos de vida particulares. Por último, Vujicic, numa das suas palestras e a respeito das escolhas, acredita que “aquilo que o ser humano mais valoriza, automaticamente ganha mais valorização” 54 , por isso torna este princípio o mais inquietante e disperso dos princípios uma vez que são as escolhas o passo mais próximo daquilo que poderá ser considerado certo ou errado. Neste caso, aquilo que atenderá ou não às necessidades do utilizador. Embora, não existam técnicas de acessibilidade redirecionadas a este tipo de limitação que proporcionem a estes utilizadores específicos as mesmas condições habitacionais das restantes pessoas, procura-se nesta dissertação adaptar, em simultâneo com o fator idade, as que existem atualmente direcionadas ao portador da cadeira de rodas, quando aplicáveis e relacionar o contributo da arquitetura para condicionar ou melhorar a habitabilidade na casa. Ressalta-se a ideia de este ser um estudo experimental, adaptada a uma necessidade específica. Procura-se melhorar a qualidade de vida de utilizadores com esta condicionante, e adaptar o espaço, quando possível de modo a atender o maior número de utilizadores possível. Posto isto, tendo em conta que são as pernas e os pés o principal instrumento que guia a ação umas das soluções mais pertinentes para o caso de estudo serão: 54 Palestra disponível no Youtube, através do link: https://youtu.be/3DwMhSeD05w 52 1. O uso de alavancas em torneiras, puxadores e válvulas de descarga que facilitam o movimento de pega, e simplificam a ação de ligar, desligar, aquecer e esfriar a água, abrir ou fechar a porta e a descarga. 2. Nas zonas de trabalho pessoal, espaços de refeições e, ou, qualquer outro espaço da casa que careça do suporte de uma mesa para realizar uma ação, uma vez que os pés desempenham a função das mãos, garantir que a altura da mesa ao invés de permitir o confortável pouso dos braços, garante o confortável apoio dos membros inferiores. 3. Nas cozinhas, uma vez que habitualmente este é um espaço ocupado por mais do que uma pessoa, garantir que a altura das superfícies é alcançável pelos membros inferiores e, a possibilidade de colocação de um banco de apoio para os afazeres domésticos, tendo em conta que tal como no tipo 1 o utilizador desempenha as funções sentado, este socorre-se das pernas para desempenhar as funções. 4. A altura das superfícies em geral, puxadores, botões, interruptores alcançáveis tendo em conta que o alcance máximo destes utilizadores é conseguido pelo grau de abertura dos membros inferiores ao contrário do que se espera habitualmente. Para o caso de estudo, as principais variações refletem entre utilizadores da faixa etária criança e adulto e, ou, criança e idoso à semelhança do que se pôde observar nos utilizadores tipo 1, com mobilidade reduzida. Embora utilizadores idosos possam sentir mais dificuldades no executar de ações especificas pela incidência de problemas, geralmente, associados ao fator idade, especula-se que as medidas de alcance ente um idoso e um adulto não apresentem variações significativas para o caso de estudo. 53 MEDIDAS MÉDIAS DE ALCANCE FRONTAL E LATERAL NA CRIANÇA NO ADULTO E NO IDOSO 54 55 2. REPERCUSSÕES ESPACIAIS NAS AÇÕES DA CASA Porquê essas raras janelas em forma de pequenos quadrados? (…) Então porquê esse armário com espelho, essa pia, essa cómoda? Algures, essas bibliotecas ornamentadas de acantos, essas consolas, essas vitrines, esses móveis para louças, esses móveis para pratarias, esses serviços de buffets? Porquê esses imensos lustres? Porquê essas lareiras? Porquê esses leitos com cortinas de tapeçaria? Porquê esses papeis de parede, cheios de cores, de desenhos, de miniaturas desenhadas e multicoloridas ? 55 55 CORBUSIER, Le, Por Uma Arquitetura , 5ª edição, 1998, pág. 7. 56 Os graus de dificuldade no executar de ações do quotidiano vão aumentado ao longo dos anos e as limitações físicas são uma condicionante que caminha lado–a–lado com a condicionante etária. O fator idade, exige um maior nível de coordenação motora que, em muitas situações torna impraticável a função do habitar. Por exemplo, ao mesmo tempo que o tomar banho, o vestir, o sentar, o levantar, se tornam gradualmente ações mais complexas e difíceis de serem realizadas autonomamente na idade sénior, as crianças partilham em certa altura, um semelhante grau de dificuldade no desempenhar das mesmas. O mesmo fator aplica-se nos utilizadores tipo 1 e tipo 2, que por ausência de acessibilidade, tornam acrescido o grau de dificuldade. De modo a desembaraçar estas ações condicionadas pelos fatores acima mencionados e melhorar a habitabilidade da casa, será preciso entender não só as dificuldades que estão subjacentes a cada ação, como também determinar a funcionalidade da arquitetura que cada espaço oferece aos utilizadores com limitações físicas. Aqui, procura-se estudar a relação da ação com elementos que o arquiteto consegue controlar num projeto de arquitetura, nomeadamente alturas, larguras e pormenores arquitetónicos. Por esse mesmo motivo, a apropriação do espaço com a disposição dos elementos de mobiliário, ou seja, a imagem final do projeto, não apresenta relevância para o caso de estudo. “… projetar, planear, desenhar, não deverão traduzir-se para o arquiteto na criação de formas vazias de sentido, impostas por capricho da moda ou por capricho de qualquer outra natureza. As formas que ele criará deverão resultar, antes, de um equilíbrio sábio entre a sua visão pessoal e a circunstância que o envolve e para tanto deverá ele conhecê-la intensamente, tão intensamente que conhecer e ser se confundem…” 56 56 TÁVORA, Fernando, Da Organização do Espaço , 9ªedição, Porto, FAUP Publicações, 2015. 63 limitações e inclusive, melhorar de igual forma a qualidade de vida de terceiros que surgem como um auxílio a uma necessidade diária que a arquitetura não conseguiu suprimir? Aqui, as principais dificuldades fazem-se sentir na conexão entre o utilizador – sanita, utilizador – lavatório e utilizador – base de duche ou banheira. À semelhança do que foi mencionado anteriormente, a respeito da cozinha, para além do espaço livre entre os equipamentos sanitários que garanta a rotação da cadeira de rodas do utilizador tipo 1, espaços de permanência e seguinte aproximação (frontal e lateral) a cada um dos equipamentos, algumas considerações de alcance, nomeadamente a altura do lavatório, gavetas de arrumação e elementos de apoio mostram-se relevantes ao utilizador tipo 1 e tipo 2. Naquelas que são as dificuldades comuns aos dois utilizadores, as principais fazem-se sentir no ato de tomar banho, ou seja, na banheira. Para além da colocação de barras de apoio que auxiliam a transferência do corpo para a banheira e acomodam o utilizador (tipo 1) no sentar e no levantar, a colocação de um banco com superfície antiderrapante e chuveiro tipo telefone surgem como soluções que procuram atenuar o grau de dificuldade sentido nesta ação. O recurso às bases de duche, mostram-se por consequência, uma solução mais funcional e acessível a este contexto, uma vez que o acesso à banheira se torna uma ação perigosa para os utilizadores. Embora exista em muitos casos, a possibilidade da entrada na base de duche da cadeira de rodas, evitando assim o movimento de levantar e sentar da cadeira e possíveis quedas, estas devem de igual forma ser equipadas com barras de apoio, piso antiderrapante, um banco rebatível com superfície antiderrapante e chuveiro tipo telefone de modo a permitir o alcance dos utilizadores e facilitar a ação de tomar banho. De modo a garantir a segurança dos utilizadores e reduzir possíveis acidentes, pavimentos escorregadios podem não só prejudicar os 64 utilizadores como danificar as próprias cadeira de rodas (tipo 1). Por este ser um ambiente em que a presença de água é abundante, nomeadamente na base de duche e na banheira, a preferência por pisos antiderrapantes garante o acesso seguro do utilizador. O quarto que representa a zona mais íntima e privada da casa e a sala, essencialmente destinada ao momento de relaxamento, descompressão das tarefas do dia-a-dia do utilizador assim como, o espaço que acolhe as visitas, do ponto de vista funcional, são espaços flexíveis que se adaptam sem grandes dificuldades às necessidades do utilizador com limitações físicas. A flexibilidade destes espaços, permite que satisfaça de igual modo, as necessidades de todas as faixas etárias, obtendo-se inúmeras possibilidades distintas na apropriação do espaço da sala, desde o brincar da criança ao trabalhar do utilizador adulto. Em regra, tratam-se de espaços onde se coloca uma cama, um armário e uma mesa de apoio; um sofá, um móvel de apoio ou estantes, destinadas à organização de livros ou outros objetos e, por vezes, uma mesa. É também frequente, a sala ser partilhada com a sala de jantar e, por esse motivo, a pertinência de incluir uma mesa de refeições no estudo. Mediante as necessidades de cada utilizador, as dificuldades aqui encontradas, ainda que em número inferior, comparadas com outros espaços da casa, verificam-se habitualmente na conexão do utilizador com a cama e o sofá, no alcance à mesa de apoio e mesa de refeição, na dificuldade em atingir um livro no armário que suporta a televisão e no acesso ao roupeiro. Em torno da cama e do sofá, é necessário, nos utilizadores tipo 1 ainda, o espaço que permite não só a circulação de um utilizador com cadeira de rodas, como também garanta a margem de manobra para arrumá-la. O espaço livre entre a cama e o roupeiro que permita a circulação da cadeira de rodas e rotação desta, devera igualmente ser tido em conta, assim como a altura das mesas e armários de apoio. Aqui, não se trata de ser um problema tão 65 relacionado com a arquitetura da casa, mas com o seu modo de apropriação. A circulação entre os objetos de mobiliário, nomeadamente cama, sofá, estantes e mesas por este se fazer mover através da cadeira de rodas e o espaço livre, são identificados como obstáculos que travam a sua mobilidade. Ainda que sejam igualmente caracterizados como barreiras na arquitetura, possibilitam uma maior liberdade de projeto ao arquiteto em criar um espaço dinâmico, ao contrário de outros compartimentos na casa que, devido a um maior número de acidentes em torno da sua função, carecem de mais atenção na sua relação corpo-espaço. Habitualmente, o quarto e a sala contam com uma maior atenção em problemas térmicos, acústicos e de iluminação, por se acreditar que estes sejam significativos no modo em como o utilizador habita e percebe o espaço. São geralmente, acomodados com materiais confortáveis como os pavimentos em madeira ou vinil que proporcionam ao utilizador conforto no estar e no praticar das suas ações, sem tapetes que possam dificultar o movimento da cadeira de rodas a utilizadores tipo 1, iluminados pela luz natural de grandes vãos. A escolha da medida da cama e do sofá, assim como mobiliário que não seja fixo não mostram relevância no estudo, uma vez que o que se pretende evidenciar é a aproximação do utilizador ao objeto e a ação inerente a este. Nomeadamente, o espaço que dificulta ou favorece a ação em utilizadores com condicionantes específicas. 66 67 2.1. TIPO 1: LIMITAÇÃO DE MEMBROS INFERIORES 68 ACESSOS CIRCULAR NO ESPAÇO MÍNIMO DOS ACESSOS . Utilizador com cadeira de rodas – ADULTO Espaço mínimo de circulação em corredores. Utilizador com cadeira de rodas – CRIANÇA A largura mínima de circulação tendo como base um utilizador adulto, assegura a passagem da criança uma vez que esta possui, à partida dimensões inferiores. Deste modo, atende-se às necessidades de um número maior de utilizadores com uma única solução. Utilizador com cadeira de rodas – IDOSO Aqui, associa-se a possibilidade deste necessitar, como consequência da idade avançada e problemas relacionados, de uma segunda pessoa de forma a auxiliar o empurrar da cadeira de rodas. Utilizador com cadeira de rodas e uma pessoa Embora este espaço garanta a passagem de um utilizador em cadeira de rodas e outro utilizador fisicamente capaz, em simultâneo, espaços com larguras superiores a 1,20m proporcionam maior conforto na passagem. 69 CIRCULAR: ESPAÇO DE MANOBRA NO ADULTO E NA CRIANÇA Viragem 90º ou em U Espaço livre de manobra, sem mobiliário ou superfícies que possam dificultar a rotação da cadeira de rodas. Os 0,90m nos corredores garantem a passagem entre eles, porém a largura superior no corredor da mudança de direção proporciona a rotação da cadeira de rodas num único movimento. Quando inferior o ângulo de manobra, a largura superior do corredor (1,1m), facilitará o momento de rotação. Quando as larguras superiores não são aplicáveis por ausência de espaço, estima-se que os 0,90m também garantam o acesso ao espaço, embora não esta ação não seja conseguida com apenas uma manobra. Mudança de compartimento com passagem em porta de 0,80/-0,90m Quanto menor for a passagem livre, maior deverá ser a largura do corredor de modo a facilitar a rotação da cadeira de rodas. Em acessos com 0,80m, a largura mínima de corredor deverá ser igual ou superior a –1m para garantir o acesso a este. A largura mínima de 0,90m no corredor, poderá ser aplicada se a passagem livre garantir a largura igual ou superior a 0,90m e uma zona de manobra. A porta deverá garantir uma zona de manobra livre. 70 CIRCULAR: ESPAÇOS DE MANOBRA NO IDOSO Viragem 90º ou em U Espaço livre de manobra com auxílio de segunda pessoa para movimentar a cadeira. Neste caso e, quando não aplicável a largura de 1,50m para uma circulação fluída e acessivel, a largura mínima deverá ser sempre igual ou superior a 1,20m. Quando for inferior o ângulo de manobra, maior deverá ser a largura do corredor. O acesso ainda é possível com a largura mínima de 1,20 porém, conta-se com a possibilidade de um conjunto de manobras difíceis e repetitivas. Mudança de compartimento com passagem em porta de 0,80/-0,90m Para além do espaço de manobra após a passagem na porta, espera-se que o corredor de acesso facilite a ação, num único movimento. Corredores com larguras variáveis entre 1,20m e 1,50m deverão atender as necessidades de todos os utilizadores mesmo que estes se façam acompanhar de uma segunda pessoa. Ainda que 1,40m garanta a passagem a passagem em portas com largura igual ou superior a 0,90m num só movimento, a largura mínima de 1,10m poderá ser aplicada contando com a necessidade de o utilizador precisar de mais do que uma manobra. O espaço livre de passagem superior, possibilita corredores com larguras inferiores. 71 CIRCULAR: ACESSOS VERTICAIS RAMPAS Rampa com inclinação máxima de 6% - perfil Rampa com inclinação de 6% e projeção horizontal de 10m, largura mínima de 1,20m, e comprimento mínimo de patamar de 1,50m, livre de obstáculos. Os corrimões que acompanham as rampas de acesso devem prologar-se pelo menos 0,30m no início e fim do percurso, e estar a altura mínima de 0,85m e máxima de 0,95m. Rampa com inclinação de 8% e projeção horizontal de 5m. Neste caso, uma vez que a projeção horizontal não ultrapssa os 5m, a largura livre mínima de 0,90m é aplicada. Rampa com inclinação máxima de 6% - planta Rampa com inclinação máxima de 8% - perfil Rampa com inclinação máxima de 8% planta. 72 ELEVADORES Área livre da cabine do elevador e patamar A largura de 1,50m, garante o acesso a um utilizador com cadeira de rodas e um acompanhante, assim como permite maior facilidade nas manobras da cadeira, dentro e fora da cabine. Ao garantir a permanência de duas pessoas no interior da cabine, torna-se acessível a qualquer tipo de utilizador (criança, adulto, idoso). Alcance aos botões de comando Os comandos, de modo a serem alcançáveis a utilizadores em cadeira de rodas, devem ter uma altura mínima de 0,90m e uma altura máxima de 1,30m, no interior e exterior da cabine. 79 Ligação em rampas: além da clara intenção de provocar no utilizador um passeio arquitetónico repleto de estímulos visuais no percurso através da rampa na casa, esta é também uma intenção acessível a utilizadores com cadeira de rodas. Planta terraço - jardim. Planta piso 1 – organização do programa. Planta piso 0 – organização do programa. Circulação vertical – rampas Circulação vertical – escadas Serviços e quarto da “funcionária” Garagem Quartos WC Cozinha Salas 80 COZINHA CIRCULAÇÃO NA COZINHA: MEDIDAS MÍNIMAS Planta de cozinha com ilha e espaços de passagem perpendiculares Cozinhas com a possibilidade de ilha, são habitualmente cozinhas com dimensões maiores. De forma a garantir não só a facilidade de circulação (0,90m) em espaços de passagem, o utilizador deverá nas zonas de trabalho, conseguir a rotação de 180º de cadeira (1,20m). Planta de cozinha com balcões paralelos O mesmo espaço anterior, porém, com a distância mínima entre balcões de 1,50m, permite a rotação de 360º da cadeira de rodas. O utilizador tem neste caso, maior facilidade na circulação na cozinha, e no desempenhar das tarefas relativas a esta. Planta de cozinha com balcões paralelos: dimensão inferior O espaço mínimo de 1,20m entre balcões, permite somente a rotação 180º da cadeira de rodas. Neste caso, quando aplicável, a existência de uma zona que permita a manobra 360º da cadeira de rodas no mesmo espaço, é relevante de modo a facilitar a circulação do utilizador na cozinha. Planta de cozinha em U Cozinhas em U, com a distància mínima entre balcoes de 1,50m, são de igual modo funcionais. O espaço livre garante a rotação completa da cadeira de rodas, proporcionando assim mais conforto e facilidade no executar das ações. 81 APROXIMAÇÃO LATERAL AOS EQUIPAMENTOS APROXIMAÇÃO FRONTAL AOS EQUIPAMENTOS A aproximação frontal a equipamentos como o lava-louças e o fogão, requer de igual forma, um espaço livre que garanta o conforto e acessibilidade do utilizador para realizar as ações. Tendo como medida base, a largura regular de 0,75m de um individuo e a cadeira de rodas, medidas supeiores a 0,30m e inferiores a 0,60m garantem a aproximação. Em simultâneo, a existência de um espaço livre sob cada um destes equipamentos deverá, de igual modo, ser assegurado. Com uma altura mínima de 0,65m e máxima de 0,90m, o espaço livre garante a aproximação frontal livre do utilizador e, o espaço de permanência confortável para que este desempenhe ações, como o cozinhar e o lavar dos alimentos, sem dificuldade. Aproximação frontal fogão. Aproximação frontal ao lavalouças. Aproximação lateral ao lava-louça e ao fogão. O acesso lateral a qualquer equipamento de cozinha poderá ser praticavél de forma confortável, se a posição do equipamento se centrar pelo o espaço livre ocupado pelo utilizador em cadeira de rodas. Se um utilizador em cadeira de rodas, tem como medida regular de comprimento 1,20m, a colocação do mesmo centrado com o espaço livre da cadeira deverá respeitar no minimo, os 0,60m de afastamento em relação ao balcão. 82 ALCANCE NAS AÇÕES DA COZINHA Cozinhar e preparar os alimentos A altura do balcão de cozinha entre os 0,80m e os 0,85m, acomoda um maior número de utilizadores. Para o executar de ações como o preparar e o lavar dos alimentos, julga-se relevante a área livre sob o mesmo, de modo a que o utilizador tenha controlo total sobre a ação. Arrumar Os espaços de arrumação (armários e gavetas), sob o balcão são os mais acessíveis a utilizadores tipo 1, pelas suas medidas de alcance. Todavia, de modo a obter uma maior área de arrumação, armários a uma altura máxima de 1,40m também se mostram alcançáveis. Embora espaços de arrumação sob o balcão se mostrem uma melhor solução, a altura mínima destes deverá ser tido em atenção. Armários a uma altura mínima do chão, inferior a 0,30m são igualmente inacessíveis ao utilizador. 83 Lavar a louça À semelhança da ação de cozinhar e preparar os alimentos, o lavar da louça requer de igual modo, a aproximação frontal do utilizador. Para além disso, estima-se que a colocação de torneiras com alavanca a uma distância máxima de 0,45m facilitam a ação. Ligar dispositivos elétricos Devido às propriedades funcionais temerárias, os dispositivos elétricos, devem assegurar que o acesso a um utilizador adulto, porém dificultar o acesso a um utilizador criança. Neste sentido, a altura máxima de 1,15m sobre a bancada, surge como solução. 84 85 OBRA DE REFERÊNCIA Cozinha 86 LOTUS HOUSE, MW Archstudio Construída na cidade de Hue, Lotus House, foi encomendada ao estúdio MW por clientes com características físicas particulares: o pai, a mãe e a filha Lien. Todos eles possuem disfunções físicas. O pai não tem capacidade cognitiva, a mãe possui problemas de saúde associados à idade e a filha, está dependente de uma cadeira de rodas. Com uma planta simples e funcional, Lotus desenvolve-se entre rampas, desde o momento de entrada até ao segundo andar sendo este o único meio de circulação vertical existente. Para além de garantir que a circulação do utilizador seja contínua e que esta alcance, sem dificuldades, todos os espaços da casa, as rampas foram pensadas de forma estratégica ao atravessarem partes do jardim, de modo a incentivarem a autonomia em qualquer que seja a atividade doméstica. A busca pela autonomia não se reflete apenas pelo uso das rampas, os próprios espaços interiores são caracterizados por elementos que procuram acomodar o utilizador, desde a utilização de barras de apoio, uma cozinha funcional e acessível, e vãos de janela que não estorvam o olhar de quem se regula pela altura da cadeira de rodas. Figuras 29, 30. Lotus House , MW Archstudio, 2019. 87 Altar Salão de chá Planta piso 0 – estudo do programa e acesso entre pisos. Rampas Entrada Cozinha Sala de aulas Casa de banho Sala Quarto Figuras 31, 32, 33. Lotus House , MW Archstudio, 2019. Não só a disposição dos elementos de mobiliário (cadeiras e as mesas) mas também, barras de apoio ao longo do percurso e a área de jardim, são pensadas de acordo com o alcance do utilizador em cadeira de rodas. Apropriação do espaço da cozinha. Composta por duas bancadas paralelas que, de modo a responder às diferentes necessidades dos utilizadores, variam em altura, o espaço livre em torno destas, garante não só a mudança de direção do utilizador como a permanência (frontal e, ou lateral) em simultâneo dos vários utilizadores para o executar das tarefas. Neste caso, o projeto reflete a ideia clara de responder às duas necessidades de duas formas distintas. 88 A cozinha – espaços de trabalho, equipamentos e arrumação 1. Altura máxima alcançável aos espaços de arrumação pelo utilizador em cadeira de rodas. 2. Altura dos dispositivos elétricos acessíveis a utilizadores adultos, porém de difícil acesso a utilizadores de dimensões inferiores, nomeadamente, crianças. 3. Altura de bancada superior inacessível ao utilizador em cadeira de rodas. 4. Altura de bancada inferior, e espaço livre sob o mesmo, de modo a facilitar o acesso ao fogão: garante ao utilizador, não só a aproximação frontal como maior conforto no executar da ação. Na imagem, o sujeito tem total controlo físico e visual sobre o fogão. 5. Equipamentos de cozinha como o micro-ondas acessíveis. 1 2 3 4 5 95 OBRA DE REFERÊNCIA Casa de banho 96 LAURENT HOUSE, Frank Lloyd Wright Projetada por Frank Lloyd Wright (1952), no subúrbio de Rockford, a casa Laurent House , foi a única casa que este projetou especificamente para um cliente com limitações físicas. O cliente Kenneth Laurent, ficou em 1946, paralisado, após uma cirurgia a um tumor na coluna. Orientada para maximizar a exposição da casa ao sol, o programa distribuído no piso térreo, reconhece as necessidades do utilizador de forma prática e funcional. Todos os espaços e mobiliário são projetados tendo como base, a altura da cadeira da rodas e toda a casa cresce mediante a perspetiva do utilizador sentado na cadeira de rodas . Frank Llyod Wright, procurou não atender apenas às necessidades do utilizador, mas também lhe deu satisfação emocional em todos os detalhes da casa. O teto, é baixo para alguém na posição ereta sobre os pés, mas, para o cliente, isso transmite uma sensação de conforto. Laurent House, projetada de forma acessível, para além de ter como prioridade o conforto e a segurança do utilizador com limitações físicas, apresenta a necessidade reconhecida nos dias de hoje de um espaço amplo e de mobiliário ajustado à altura da cadeira de rodas. Figuras 34, 35. Laurent House, Frank Lloyd Wright, 1952. 97 Planta piso 0 – organização do programa. Casa de banho Entrada Corredor multifuncional Cozinha Sala Quarto Equipamentos Casacos Garagem Jardim Planta piso 0 – estudo da circulação de utilizador em cadeira de rodas. Figuras 36, 37, 38. Laurent House, Frank Lloyd Wright, 1952. A disposição dos elementos de mobiliário é pensada de acordo com a perspetiva do utilizador sentado na cadeira de rodas e do alcance deste. Para um utilizador na posição ereta sobre os pés, janelas, sofás, mesas de trabalho, armários e mesinhas de cabeceiras serão mais baixos do que as medidas padrões da “casa padrão”, porém, igualmente alcançáveis. 98 A casa de banho – lavatório, sanita, banheira e acessos. 1. Altura máxima do espelho sem a possibilidade de rebatimento do mesmo. 2. Altura do botão de descarga acessível aos utilizadores. 3, 4. Altura do lavatório acessível ao utilizador em cadeira de rodas; espaço livre sob o mesmo que garante a aproximação frontal deste; posicionamento alcançável da torneira. 5. Altura da sanita máxima de 0,45m, facilita a transferência corpo e possibilita a ação corpo – sanita, sanita – corpo com auxílio da barra de apoio e espaço de permanência. 6. Porta com uma largura superior a 0,80cm, garante o acesso livre e desimpedido do utilizador entre a casa de banho e o quarto. 7. Altura das torneiras, na banheira, com altura mínima que permitem o alcance do utilizador sentado na mesma. 8. Altura mínima da banheira, procura facilitar o momento de transição do utilizador em cadeira de rodas para a banheira. 9. Barras de apoio auxiliam a ação anterior (8), e surgem como elemento de segurança numa ação considerada de risco pela humidade que se espera encontrar num espaço de tomar banho. 1 2 3,4 4 4 5 7 8 9 6 99 QUARTO E SALA MOBILIDADE NO QUARTO: MEDIDAS MÍNIMAS Aqui, usa-se a lógica de que a nível de espaço livre, a fim que este satisfaça o maior número de utilizadores possíveis, se este atender as necessidade de utilizadores com medidas maiores, utilizadores com medidas de menor dimensão terão de igual forma as suas necessidades atendidas. 67 Ou seja, se os espaços de acesso permitirem a mobilidade desimpedida de um adulto ou de um idoso em cadeira de rodas, sendo este o utilizador com medidas antropométricas de maior dimensão a mesma é garantida a um utilizador com medidas inferiores, neste caso, a criança com cadeira de rodas. Uma vez que a relevância neste ponto recai sobre as medidas de permanência e antropometria e não sobre as medidas de ergonomia, que relaciona o corpo com os objetos 68 , basta provar esta relação apenas entre os adultos e as crianças. Embora os idosos possuam medidas de alcance diferentes, fazem-se transportar por uma cadeira de rodas com medidas semelhantes às de um adulto e por isso, as necessidades de ocupação serão próximas. Espaço de mobilidade no quarto de um adulto e idoso Medidas mínimas que garantem ocupação e a circulação dentro do quarto de um utilizador de faixa etária entre os 15 e os 64 anos de idade. O mesmo é aplicável em utilizadores idosos por estes terem medidas antropométricas (espaço de permanência da cadeira de rodas) semelhantes. 67 PANERO Julius, Dimensionamento Humano para Espaço Interiores, Editorial Gustavo Gili, São Paulo, p.23 68 DUL, Jan, WEERDMEESTER, Bernard, Ergonomia Prática, São Paulo, Edgard Blucher, 3ª edição, 2012. 100 Espaço de mobilidade no quarto de uma criança Embora sejam as crianças os utilizadores com medidas antropométricas de maior variação entre si, as medidas mínimas aplicáveis que garantem ocupação e o movimento dentro do quarto de um utilizador de faixa etária superior, respondem às necessidades destas. Percurso do utilizador no quarto com espaço para rotação da cadeira de rodas Espaços que permitem a manobra da cadeira de rodas, ainda que não seja regra aplicada aos quartos, no regulamento de acessibilidades em vigor, evitam manobras difíceis e por isso, proporcionam ao utilizador fluidez no percurso e consequentemente facilidade no executar das ações presentes neste espaço. Percurso do utilizador no quarto sem espaço para rotação da cadeira de rodas A apropriação do mesmo espaço acima referido com espaços mais largos, todavia sem espaço para a rotação da cadeira em nada melhora o percurso no quarto. Aqui, o utilizador circula pelo espaço na mesma direção por não ser possível a rotação da cadeira: entra de frente e sai de costas, por exemplo. 101 ALCANCE NAS AÇÕES DO QUARTO NO ADULTO E IDOSO NA CRIANÇA Sentar na cama Adaptado ao idoso pela barra de apoio colocada a 0,75m do chão, como auxílio de transporte do corpo entre a cadeira e a cama. Acesso ao roupeiro A altura dos cabides, poderá variar uma vez que utilizadores idosos poderão ter dificuldades em alcançar os 1,20m como altura máxima. Abrir a gaveta da mesa de apoio A altura mínima de 0,40m, pode ser regulada de modo a que o alcance a esta por um idoso, seja mais confortável. 102 MOBILIDADE NA SALA: MEDIDAS MÍNIMAS Passagem com mesa de centro Necessita de uma passagem livre de 0,90m num dos lados da mesa de centro que garanta a passagem do utilizador em cadeira de rodas. A possibilidade de incorporar uma zona de manobra facilita a circulação no espaço. Passagem com armário lateral O espaço entre o sofá e a televisão será o suficiente para o utilizador circular pelo espaço e aceder sem dificuldades por exemplo, às estantes e armários na sala. Para além do espaço para rotação da cadeira de rodas, a mesa de apoio lateral e toda a área livre permite que este seja entendido como um espaço de brincar para as crianças. Espaço de circulação com mesa de trabalho A possibilidade de um espaço trabalho na sala, ainda que em muitos cenários, a apropriação da mesa de refeições sirva para a ação, também é frequente. Neste espaço, como se trata de uma área de menor dimensão, a questão pertinente recai sobre a necessidade do utilizador entrar e conseguir executar a rotação da cadeira de rodas para sair. 103 Espaço de circulação com mesa de refeições Estima-se que a mesa de refeições necessita de um momento de passagem igual ou superior a 1,50m que permita a proximidade do utilizador à mesma, sem dificuldades ou um conjunto de manobras. A posição central desta, liberta todos as áreas de passagem simplificando a circulação na sala. 104 ALCANCE E APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO NA SALA Acesso à mesa de centro Aqui, a especial atenção recai sobre a altura da mesa de apoio. Mesas muito baixas são de igual modo, de difícil acesso a este utilizador. Alcance a armários de arrumação Armários de arrumação colocados entre a altura mínima de 0,40m e máxima de 1,10m deverá atender um maior número de utilizadores. Comer e trabalhar 111 Janela do quarto Acesso ao armário Alcançar dispositivos Altura do peitoril e vão de janela do quarto permite o alcance visual de um utilizador em cadeira de rodas. A altura máxima do peitoril até aos 0,50m facilita a ação. Estima-se que a altura variável entre os 0,40m e o 1,20m, aplicada neste caso de estudo, garante o alcance do utilizador em cadeiras de rodas, sem dificuldades. A altura máxima de 1,20m, deverá atender não só as necessidades de idosos, que pela idade, têm o grau de alcance condicionado, mas também de utilizadores em cadeiras de rodas. Aqui, a altura da cama procura atenuar o movimento de sentar e levantar do utilizador sénior. A dificuldade que este sente nesta ação, poderá ser equiparada a um utilizador em cadeira de rodas. Para além da altura da cama, estima-se que a colocação de barras de apoio, facilita a ação a ambos. 112 113 2.2. TIPO 2: LIMITAÇÃO DE MEMBROS SUPERIORES 114 COZINHA ALCANCE NAS AÇÕES DA COZINHA Agarrar objetos de cozinha – alcance sobre o balcão Embora sejam os membros inferiores o principal instrumento para o executar de uma ação, especula-se que será através do rosto que estes se fazem socorrer para pegar e deslocar um objeto entre equipamentos. O uso do rosto e por conseguinte, o momento de proximidade a qualquer objeto presente numa superfície, envolve uma medida de alcance máximo baseado no alcance máximo do movimento do tronco. Superfícies e bancadas de trabalho com muita profundidade, dificultam essa aproximação, tornando em certos casos, impossível a proximidade ao objeto. Como solução, a largura de espaços de arrumação, bancadas e superfícies de trabalho da cozinha acessíveis deverão limitar-se à largura mínima acessível de a exemplo, 0,50m de modo a que a aproximação frontal entre a face do utilizador e o objeto seja o mais confortável possível. Lavar, preparar os alimentos, cozinhar 115 Por de ações de maior esforço se tratar e, numa tentativa de se fazerem auxiliar dos membros inferiores em simultâneo, o recurso a um banco de apoio no espaço da cozinha, é, na maioria dos casos, necessário. O banco de apoio, deverá, neste contexto, ser identificado como um auxílio a uma limitação física, assim como as barras de apoio, ao invés de uma alternativa que procura atenuar uma dificuldade criada por uma barreira da arquitetura. Em ações como o lavar da louça, considera-se que as torneiras com alavanca, sejam de igual forma relevantes. Arrumar O alcance máximo do grau de abertura da perna deverá ser tomado em consideração para qualquer que seja a possibilidade de alcance. Armários de arrumação, localizados a exemplo, a 1,20m serão, à partida, inacessíveis a estes utilizadores. Como solução, estima-se que armários com a altura máxima de prateleira a 0,90m proporcionaram facilidade, conforto e autonomia. Nesta condição, prevê-se que puxadores salientes, em controvérsia com as necessidades de um utilizador em cadeira de rodas, beneficiaram no momento de pega. Ligar dispositivos elétricos 116 OBRA DE REFERÊNCIA, LOTUS HOUSE APROPRIAÇÃO EXPERIMENTAL A UTILIZADOR TIPO 2 A cozinha – espaços de trabalho, equipamentos e arrumação 1. Altura máxima alcançável aos espaços de arrumação pela face do utilizador. 2. Acesso através dos membros inferiores aos dispositivos elétricos obstruído pelo balcão. 3. Altura de bancada superior favorece ações que envolve a aproximação do tronco ao balcão, a favor de exemplo, a pega nos alimentos através da face. 4. Altura de bancada inferior favorece ações que envolve o uso dos membros inferiores, a favor de exemplo, cozinhar e lavar os alimentos. 5. Equipamentos de cozinha como o micro-ondas alcançáveis pelos membros inferiores 1 2 3 4 5 117 A ilha e o espaço entre balcões 6. Torneiras com monocomando ou alavanca e sensores, facilita o momento de pega e uso pelos membros inferiores. 7. Altura do balcão acessível pelos membros inferiores com recurso a banco de apoio, porém, facilmente acessível pelo tronco e face na posição ereta sobre o chão. 8. Gavetas de arrumação com puxadores embutidos facilitam e, ou, impossibilitam a tentativa do utilizador a abrir quer através da face, quer pelos membros inferiores. 9. Espaço entre balcões garante o recurso ao banco de apoio e permite passagem em simultâneo de um segundo utilizador. 6 8 9 7 118 CASA DE BANHO ALCANCE NAS AÇÕES DA CASA DE BANHO Lavar Na aproximação ao lavatório, embora o utilizador consiga exercer as suas funções em posição ereta sobre o chão, por outras palavras, sobre os seus pés, à semelhança do que foi identificado no espaço da cozinha, certas ações carecem dos seus membros inferiores para ser exercidas. Nesta circunstância, o banco de apoio faculta esse feito. O alcance ao lavatório resulta de igual modo, num possível entrave. Estima—se que lavatórios a uma altura entre 0,85 – 0,90m, facilitará qualquer tentativa de alcance ao mesmo, assim, como torneiras com alavanca faculta o momento de pega seja através da face ou do membro inferior. Arrumar Especula-se que uma das maiores dificuldades associadas ao espaço de arrumação, será o momento de abrir e fechar a gaveta ou porta. Tendo a altura condicionada pelo o alcance máximo confortável dos membros superiores, como solução, os puxadores salientes permitem ao utilizador que estes os alcance e agarre com facilidade. 119 Aceder à sanita O uso da sanita assume-se, à partida, como uma das ações da casa de banho com um menor grau de dificuldade para o utilizador tipo 2. A principal relevância aqui, recai sobre a altura da mesma, que deverá garantir suporto e apoio total dos pés do utilizador ao chão de modo a favorecer o momento de levantar e sentar e, a altura do botão de descarga a uma altura máxima de 0,90m, alcançável pelos membros inferiores. Tomar banho – na banheira A colocação de um banco com superfície antiderrapante e chuveiro tipo telefone com o comprimento de tubo igual ou superior a 1,50m, juntamente com a possibilidade de um chuveiro fixo e toneira com alavanca facilmente atingível pela face surgem como soluções que procuram atenuar o grau de dificuldade sentido na ação de tomar banho que, tal como no utilizador tipo 1, é onde se fazem sentir mais dificuldades. 120 Tomar banho – na base de duche De modo a garantir a segurança do utilizador, considera-se que bases de duche acessíveis deverão ser equipadas primeiramente com um piso antiderrapante, um banco rebatível a 0,45m da altura do chão, que permita ao utilizador total apoio dos membros inferiores no chão, garantindo assim o seu equilíbrio e possibilitando o recurso aos membros inferiores para a execução do tomar banho. O “agarrar” do chuveiro será, à partida, uma ação impraticável e, quando viável, esperase que seja um movimento falível, tendo em conta o ambiente húmido que se espera numa base de duche. Como solução, a colocação de um chuveiro fixo, assim como a colocação de botões em alavanca a uma altura facilmente atingível pela face quando este se encontra seguramente sentado no assento rebatível. A altura dos botões alcançáveis pela face na posição sentado do utilizador, surge de modo a evitar movimentos complexos e, consequentemente quedas. Embora a largura da base de duche, não seja entendida neste utilizador como um entrave que condicione o desenrolar da ação, um espaço livre que garanta a posição confortável do um corpo sentado e, em movimento deverá ser considerado. 127 TIPO 2 ▪ Aceder a balcão de cozinha e elementos presentes sobre este (fogão e lava-louças) com os membros inferiores e tronco. ▪ Alcançar mesas de trabalho e de refeições altas com os membros inferiores. ▪ Alcançar armários e estantes de arrumação altos. ▪ Sentar e levantar em camas altas. ▪ Alcançar mesinha de cabeceira baixa com face, na posição sentado na cama. ▪ Aceder ao lavatório com os membros inferiores. ▪ Alcançar torneiras e botões de descarga. ▪ Tomar banho de forma autónoma. ▪ Entrar e sair da banheira com segurança. ▪ Abrir armários, gavetas e portas. ▪ Aceder a dispositivos elétricos e interruptores. 128 SÍNTESE COMPARATIVA ENTRE LIMITAÇÕES: SOLUÇÕES TIPO 1 ▪ Corredores com uma largura igual ou superior a 1,10m e zonas que permitam a rotação 360º da cadeira de rodas. ▪ Recurso a rampas, plataformas elevatórias e elevadores. ▪ Pisos em madeira ou vinil, com superfície antiderrapante sem recurso a tapete ou tapete fixo. ▪ Balcão de cozinha e elementos presentes sobre este (fogão e lava-louças), superfícies de trabalho e mesas de refeição a 0,80m – 0,85m de altura. ▪ Armários e estantes de arrumação: bordo superior a uma altura máxima do chão de 1,20m. ▪ Armários e gavetas de arrumação: bordo inferior a uma altura mínima do chão de 0,40m. ▪ Cama com altura máxima de 0,45m e barras de apoio. ▪ Lavatório a 0,80m – 0,85m de altura do chão. ▪ Torneiras e botões de descarga com alavanca. ▪ Colocação de assento rebatível, torneiras com alavanca acessíveis altura máxima 1,10m, barras de apoio e chuveiro tipo telefone. ▪ Espaço de livre de permanência junto a cada equipamento que garante a aproximação frontal. ▪ Portas acessíveis de correr ou de batente para fora com uma largura mínima de 0,80m. ▪ Colocação de espelho rebatíveis. ▪ Peitoril da janela regulado pela altura do assento da cadeira de rodas. ▪ Interruptores a uma altura máxima de 1,15m. 129 TIPO 2 ▪ Balcão de cozinha a 0,80m – 0,85m do chão para alcance dos membros inferiores e, com altura máxima de 0,90m e largura de 0,50m para alcance com o tronco. ▪ Mesas de trabalho e mesas de refeições a uma altura inferior em relação ao banco de apoio de 0,40m. ▪ Armários e estantes de arrumação: bordo superior a 0,90m da altura do chão. ▪ Altura da cama entre 0,45m – 0,50m garante o apoio total dos membros inferiores. ▪ Mesa de apoio com uma altura superior até 0,35m em relação à altura da cama. ▪ Lavatório a 0,80m – 0, 85m da altura do chão. ▪ Torneiras e botões de descarga com alavanca/sensores. ▪ Colocação de assento rebatível, torneiras com alavanca a 1,10m alcançáveis pela face na posição sentado em superfície a 0,45m do chão e chuveiro fixo. ▪ Uso preferencial da base de duche. ▪ Puxadores salientes e acessíveis pelos membros inferiores a 0,90m de altura. ▪ Dispositivos elétricos e interruptores alcançáveis pelos membros inferiores a 0,90m. 130 A presente dissertação, permitiu salientar a importância da qualidade da conexão entre o homem e o espaço com um outro olhar mais atento, determinando a habilidade e o desempenho da relação homem vs espaço, que só é exequível, confortável e acessível, através do conhecimento objetivo de toda a extensão e variação do tamanho corporal e das capacidades físicas do seu utilizador. Com este trabalho, foi possível refletir sobre formas de pensar o modo de apropriação do espaço da casa, através do corpo com capacidades limitadas, através do estudo das ações na domesticidade, procurando incrementar a acessibilidade a um maior número de utilizadores, independentemente das suas características físicas. No primeiro capítulo, a análise das dimensões corporais enfatizámos a necessidade constante da busca pelas proporções ideais através do estudo antropométrico do homem, para a aplicação das mesmas na arquitetura, de modo a melhorar o seu desempenho e a sua função. Compreendeu-se de imediato que, para além dos inúmeros resultados que a antropometria encontra, ao estudar um conjunto de corpos de medidas distintas, estas não são suficientes para encontrar uma medida média que se aplique à Arquitetura e responda, de igual modo, às necessidades de múltiplos utilizadores. A ideia de conforto na domesticidade está intimamente relacionada a outros fatores, para além da dimensão corporal, e percebe-se ao longo do capítulo que nada pode ser mais equívoco do que a padronização das dimensões humanas para a realização de um projeto. Ao explorar certos fatores, como a idade e as limitações físicas, consegue-se mostrar que o “homem-padrão”, não é o homem “real”. Logo, as limitações físicas surgem diretamente associadas à ilusória ideia de “homem-padrão” . Ao explorar a relação das limitações físicas na arquitetura, constatou-se que um espaço que as respeite, para além da escala humana, ou seja, um espaço que garanta a acessibilidade, desperta no utilizador a 131 sensação de conforto e segurança que se espera na apropriação de um espaço doméstico. No mesmo capítulo, estudaram-se as limitações, em simultâneo com o fator etário, e a forma como estas condicionam a apropriação do espaço, restringindo-as a limitações nos membros inferiores e limitações nos membros superiores. Aqui, compreendeu-se que um utilizador com limitações físicas enfrenta obstáculos que o “homem-padrão” não enfrenta. A análise de cada limitação, constatou que ambas são condicionadas pelo espaço em problemas de acessibilidade, porém, somente os utilizadores com limitação dos membros inferiores enfrentam problemas de mobilidade no espaço. Em termos de acessibilidade, através do estudo do alcance dos braços, no utilizador com limitações dos membros inferiores, e do estudo do alcance das pernas, no utilizador com limitações dos membros superiores, compreendeu-se que utilizadores com limitação dos membros inferiores têm o seu alcance máximo e mínimo condicionado. Em contrapartida, utilizadores com limitação dos membros superiores têm apenas condicionadas as medidas máximas de alcance. O fator etário, surge, neste seguimento, como uma condicionante e, após o reconhecimento deste foi possível perceber que a principal diferença de necessidades, se verifica entre crianças e adultos e, ou, entre crianças e idosos. No segundo capítulo, foram identificados os principais espaços de uma casa, desde os acessos que englobam os espaços de passagem (o momento de entrada), passando pela cozinha e casa de banho, até ao quarto e à sala. Aqui, a sua ordem, reflete os espaços com maior grau de dificuldade, do maior para o menor. Ao serem inúmeras as possibilidades de organizações funcionais de cada espaço, optou-se por simplificar formas, e este estudo cingiu-se apenas às dificuldades encontradas no desenvolver das ações inerentes a cada espaço e posteriores soluções, as quais não dependem da forma ou respetivo resultado estético que um espaço possa assumir. 132 A identificação de ações através de espaços definidos, tal como a análise da apropriação do espaço de cada utilizador, permitiu constatar que utilizadores com limitação de membros superiores não enfrentam dificuldades ao aceder e circular pela casa, ao contrário de utilizadores com limitação de membros inferiores que, com menor ou maior grau de complexidade, enfrentam dificuldades em todos os espaços da casa. Compreendeu-se também que é no desenvolver de ações associadas ao espaço da cozinha e da casa de banho que ambos os utilizadores enfrentam um maior número de dificuldades. Através de algumas obras de referência, foram identificadas soluções arquitetónicas que permitem atenuar algumas necessidades sentidas, (essencialmente por utilizadores com limitação de membros inferiores). Desta análise, observou-se que as mesmas soluções se adaptam à maioria das necessidades de utilizadores com limitação dos membros superiores. No quadro síntese, que compara as principais dificuldades encontradas ao longo do estudo das várias ações dos vários espaços, foi possível evidenciar que: i) Ambos os utilizadores enfrentam maiores dificuldades no desempenhar ações, como o tomar banho e o cozinhar. ii) Utilizadores com limitação de membros inferiores, para além das dificuldades de mobilidade condicionadas pela largura de corredores e mudanças de nível no pavimento, são impossibilitados de alcançar superfícies altas e superfícies muito baixas pelas medidas de alcance máximas e mínimas se cingirem à posição deste sentado na cadeira de rodas; a transferência do corpo entre superfícies de forma autónoma e segura é impraticável. iii) Utilizadores com limitação de membros superiores têm somente, e de forma semelhante aos utilizadores com limitação de membros inferiores, as medidas de alcance máxima condicionadas. O praticar 133 ações autonomamente que envolvam os dois membros superiores como o vestir, o tomar banho e o cozinhar, é impraticável. Neste seguimento, o quadro síntese, que compara as principais soluções como resposta às principais dificuldades, constata que: i) A solução para o utilizador com limitação de membros inferiores que procura favorecer a prática de tomar banho, serve de igual modo as necessidades de um utilizador com limitação de membros superiores, à exceção das barras de apoio e do chuveiro fixo, que mostram relevância separadamente a cada um dos utilizadores. ii) A solução que procura atenuar os problemas de alcance do utilizador com limitação de membros inferiores, atenua de igual forma os problemas de alcance do utilizador com limitação de membros superiores, à exceção da medida máxima de alcance horizontal quando este procura atingir um objeto numa superfície através do tronco e, à exceção dos espaços de arrumação, uma vez que utilizadores em cadeira de rodas, têm neste contexto, medidas de alcance superiores. iii) O uso de alavancas é praticável em ambos os utilizadores, todavia acessível por membros diferentes. iv) O recurso a elementos de apoio que auxiliam os utilizadores em ações específicas impraticáveis autonomamente, assemelham-se na sua intenção: as barras de apoio, permitem o apoio do utilizador com limitação de membros inferiores para a transferência do corpo entre superfícies, o banco de apoio, acomoda o corpo do utilizador com limitação de membros superiores para o desenvolver de ações com os membros inferiores. Em suma, com esta dissertação pretendeu-se refletir sobre a relação entre a casa e o habitante com limitações físicas, como objeto de estudo, de modo a identificar as principais dificuldades na apropriação deste com o espaço, e soluções da arquitetura que atenuem as mesmas. Procurou-se, através de um conjunto de atenções apontadas, 134 tornar a arquitetura da casa acessível, confortável e segura a qualquer utilizador, sem comprometer a experiência pessoal e emocional, independentemente das condicionantes físicas que o possam definir. Na verdade, as necessidades destes utilizadores, mostram semelhanças no modo como interagem na apropriação dos espaços da casa. Todas as soluções apontadas são facilmente acessíveis a um utilizador fisicamente capaz. Como resposta à pergunta: de que modo o espaço facilita a ação do habitante com limitações físicas? Julgamos ser possível encontrar as soluções certas e ágeis a todo e qualquer tipo de utilizador, desde que devidamente identificadas e posteriormente acauteladas. No entanto, do ponto de vista arquitetónico, deve ser assegurada a pormenorização de detalhes de pequena escala, maioritariamente associados à posterior apropriação do habitante, na sua organização espacial, bem como dando especial atenção ao sistema de acessos da habitação. Só assim se poderá afirmar que a arquitetura pode contribuir para a sua máxima habitabilidade. 135 BIBLIOGRAFIA AGUIAR, Douglas, Espaço, Corpo e movimento: notas sobre a pesquisa da espacialidade na arquitetura , in Arqtexto, nº8, 2006, p. 74-95. ANDERSSON, Jonas, “Architecture and Ageing. On the interaction between frail older people and the built environment”, Tese de doutoramento, School of Engineering Sciences, Sweden, 2011. BOMM, R.; ELY, V. H. M. B.; SZÜCS, C. 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Disponível em: https://www.simplysocialmgt.com.au/editorial/the-benefits-offacebook-groups-for-your-brands-community Figura 6. Apropriação do espaço. Disponível em: https://i.pinimg.com/originals/a9/3f/6e/a93f6e4ec757347389447a f030b8e189.jpg 144 Figura 7. População residente segundo os Censos divida nas três grandes faixas etárias. Disponível em: https://www.pordata.pt/db/portugal/ambiente+de+consulta/tabela Figura 8. O uso dos braços. Disponível em: https://www.pinterest.pt/pin/319826011012106754/ Figura 9. Estático. Disponível em: https://witanddelight.com/2020/04/a-behind-the-scenes-look-at-howwfh-is-going-for-our-team/ Figura 10. Movimento. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/therealmoeysphotography/68197196 54/sizes/l/in/photostream/ Figura 11. Alcance. Disponível em: https://br.pinterest.com/rondonmarques/sob-press%C3%A3o/ Figura 12. Casa com pátio de Pedra, Beef Achitekti. Disponível em: https://www.archdaily.com/943591/what-types-of-residential-floorsfavor-wheelchair-circulation> ISSN 0719-8884 Figura 13. Corredor. Disponível em: https://www.pinterest.pt/pin/3729612172207530/ Figura 14. Oficina Vida Bekasi Marketing , Andramatin Disponível em: https://www.archdaily.cl/cl/917588/oficina-vida-bekasi-marketingandramatin> ISSN 0719-8914 145 Figura 15. Lotus House , MW Archstudio. Disponível em: https://www.archdaily.com/941491/lotus-house-mw-archstudio> ISSN 0719-8884 Figura 16. Centro de Saúde, José Soto Garcia. Disponível em: https://www.archdaily.com/943591/what-types-of-residential-floorsfavor-wheelchair-circulation> ISSN 0719-8884 Figura 17. Sanita e lavatório. Disponível em: https://www.pinterest.pt/pin/680184349966799623/ Figura 18. O uso dos pés. Disponível em: https://www.pinterest.pt/pin/18507048460763734/ Figura 19. Nick Vujicic. Disponível em: https://br.pinterest.com/pin/597008494332127389/ 2. REPERCURSSÕES ESPACIAIS NAS AÇÕES DA CASA Figuras 20, 21, 22. Residências Sénior em Alcácer do Sal, Aires Mateus, 2006-2010. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-98258/residencias-em-alcacerdo-sal-slash-aires-mateus> ISSN 0719-8906 Figuras 23, 24. Maison à Bordeaux , OMA, 1994-1998. Disponível em: https://www.archdaily.com/104724/ad-classics-maison-bordeauxoma> ISSN 0719-8884 146 Figuras 25, 26. Plataforma elevatória entre espaços. Maison à Bordeaux, OMA. Disponível em: https://divisare.com/projects/302583-oma-maison-a-bordeaux Figuras 27, 28. Villa Savoye , Le Corbusier, 1929 . Disponível em: https://www.archdaily.com/84524/ad-classics-villa-savoye-lecorbusier> ISSN 0719-8884 Figuras 29, 30. Lotus House , MW Archstudio, 2019 . Disponível em: https://www.archdaily.com/941491/lotus-house-mw-archstudio> ISSN 0719-8884 Figura 31, 32, 33. Lotus House , MW Archstudio, 2019 . 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