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A participação do Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial Portuguesa

Senra, Diogo Henrique Gonçalves

Abstract

A presente dissertação de mestrado procura analisar a participação do Regimento de Cavalaria nº 6 (RC6) na Guerra Colonial Portuguesa. Para além disso, contribui também para uma melhor compreensão da própria guerra, que deixou marcas profundas na sociedade portuguesa e que subsistem até ao tempo presente, a partir do estudo da unidade militar anteriormente referida, nomeadamente através de uma análise construída a partir dos homens mobilizados pelo Regimento, das suas memórias e dos arquivos da instituição. Alguns dos objetivos aos quais este estudo pretende responder dizem respeito à participação do Regimento de Cavalaria nº 6 na Guerra Colonial e à mobilização de homens para os teatros de operações de Angola, de Moçambique e da Guiné. Serão analisadas entrevistas e estudos de caso, com o objetivo de traçar perfis e histórias de vida que permitam compreender as condições que os ex-combatentes encontraram no RC6, refletindo ainda sobre a forma como eram recrutados e como se processava a sua formação militar. Far-se-á uma análise ainda mais aturada das suas comissões em África, assim como das experiências de combate e de contacto com as populações nativas. Os perfis procurarão apurar o contexto socioeconómico e de formação escolar dos corpos de praças e de oficiais. A partir desses perfis, das memórias e das representações da Guerra, procurar-se-á aferir a coincidência ou não das experiências e do posicionamento sobre o conflito destes dois corpos. O presente estudo analisa também fontes hemerográficas da época e que servem como base para a contextualização, não só da guerra em si, mas também do próprio jornalismo do período em estudo. Neste sentido, a presente dissertação contribuirá, a partir do estudo de caso de um Regimento, que esteve ativo, sobretudo, na Guiné, e dos militares que compuseram as fileiras das suas unidades, para um maior conhecimento sobre a Guerra Colonial, assim como para a construção da memória coletiva sobre o conflito.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Diogo Henrique Gonçalves Senra A participação do Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial Portuguesa outubro de 2023 A participação do Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial Portuguesa Diogo Henrique Gonçalves Senra UMinho | 2023 outubro de 2023 Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Diogo Henrique Gonçalves Senra A participação do Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial Portuguesa Dissertação de Mestrado Mestrado em História Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Bruno Madeira iii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercialSemDerivações CC BY-NC-ND iv Agradecimentos Em primeiro lugar, quero agradecer ao professor Bruno Madeira por toda a dedicação com que me orientou durante a realização desta dissertação de mestrado. Serei eternamente grato pela ajuda e disponibilidade que o professor me ofereceu sempre que eu necessitei. Não teria, certamente, chegado a este ponto académico se não fosse pelo professor. De seguida, aproveito para agradecer a minha família que sempre me apoiou e incentivou a estudar e a concluir não só a licenciatura, mas também este mestrado. Agradeço-lhes, eternamente pelo seu esforço que fizeram para garantir que todas as minhas necessidades fossem preenchidas e que nunca me faltasse nada na minha vida. Agradeço ao Regimento de Cavalaria Nº 6 de Braga por me ter concedido o acesso ao seu arquivo. Foi uma honra, da minha parte, aprender mais sobre esta estimada organização e agradeço, sobretudo, ao Sargento-Mor Fernando Armandino Montenegro da Silva por toda a sua ajuda, apoio e disponibilidade durante todo o meu trabalho arquivístico no Regimento. Por fim, agradeço também ao Sargento-Mor Manuel Dantas Pereira por toda a sua ajuda e disponibilidade para me fornecer contactos de ex-combatentes do Regimento que participaram na Guerra Colonial, tornando, assim, possível a realização das entrevistas. v DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vi Resumo A presente dissertação de mestrado procura analisar a participação do Regimento de Cavalaria nº 6 (RC6) na Guerra Colonial Portuguesa. Para além disso, contribui também para uma melhor compreensão da própria guerra, que deixou marcas profundas na sociedade portuguesa e que subsistem até ao tempo presente, a partir do estudo da unidade militar anteriormente referida, nomeadamente através de uma análise construída a partir dos homens mobilizados pelo Regimento, das suas memórias e dos arquivos da instituição. Alguns dos objetivos aos quais este estudo pretende responder dizem respeito à participação do Regimento de Cavalaria nº 6 na Guerra Colonial e à mobilização de homens para os teatros de operações de Angola, de Moçambique e da Guiné. Serão analisadas entrevistas e estudos de caso, com o objetivo de traçar perfis e histórias de vida que permitam compreender as condições que os ex-combatentes encontraram no RC6, refletindo ainda sobre a forma como eram recrutados e como se processava a sua formação militar. Far-se-á uma análise ainda mais aturada das suas comissões em África, assim como das experiências de combate e de contacto com as populações nativas. Os perfis procurarão apurar o contexto socioeconómico e de formação escolar dos corpos de praças e de oficiais. A partir desses perfis, das memórias e das representações da Guerra, procurar-se-á aferir a coincidência ou não das experiências e do posicionamento sobre o conflito destes dois corpos. O presente estudo analisa também fontes hemerográficas da época e que servem como base para a contextualização, não só da guerra em si, mas também do próprio jornalismo do período em estudo. Neste sentido, a presente dissertação contribuirá, a partir do estudo de caso de um Regimento, que esteve ativo, sobretudo, na Guiné, e dos militares que compuseram as fileiras das suas unidades, para um maior conhecimento sobre a Guerra Colonial, assim como para a construção da memória coletiva sobre o conflito. Palavras-Chave: Portugal, Guerra Colonial Portuguesa, Regimento de Cavalaria nº 6, ExCombatentes, Jornais. vii Abstract This master's thesis seeks to analyze the participation of the Cavalry Regiment nº 6 (RC6) in the Portuguese Colonial War. Furthermore, it also contributes to a better understanding of the war itself, which left profound marks on Portuguese society and which persist to this day, based on the study of the aforementioned military unit, namely through the study of the men mobilized by the Regiment, of their memories and the institution's archives. Some of the objectives to which this study aims to respond concern the participation of Cavalry Regiment No. 6 in the Colonial War and the mobilization of men for the theaters of operations in Angola, Mozambique and Guinea. Interviews and case studies will be analyzed, with the aim of outlining profiles and life stories that allow us to understand the conditions that former combatants encountered in RC6, also reflecting on the way they were recruited and how their military training was processed. An even more indepth analysis will be made of its commissions in Africa, as well as combat experiences and contact with native populations. The profiles will seek to determine the socioeconomic and educational context of the enlisted and officer corps. Based on these profiles, memories and representations of the War, we will attempt to assess whether or not the experiences and positioning on the conflict of these two bodies coincide. The present study also analyzes newspaper sources from the time that serve as a basis for contextualizing not only the war itself, but also the journalism of the period under study. In this sense, this dissertation will contribute, based on the case study of a Regiment, which was active, above all, in Guinea, and the soldiers who made up the ranks of its units, to a greater knowledge about the Colonial War, as well as to the construction of collective memory about the conflict. Keywords: Portugal, Portuguese Colonial War, Cavalry Regiment nº 6, Ex-Combatants, Newspapers. viii Índice Agradecimentos .................................................................................................................................. iv Resumo .............................................................................................................................................. vi Abstract............................................................................................................................................. vii Índice ................................................................................................................................................ viii Índice de Figuras ................................................................................................................................ ix Índice de Tabelas ............................................................................................................................... ix Introdução .......................................................................................................................................... 1 1. Estado da Arte ................................................................................................................................ 4 2. Fontes e metodologias utilizadas ................................................................................................... 19 3. A Imprensa portuguesa durante a Guerra Colonial ........................................................................ 24 3.1. Diário de Lisboa .................................................................................................................... 24 3.2. Diário da Manhã .................................................................................................................... 28 3.3. Jornal de Notícias .................................................................................................................. 31 3.4. Boletim Anti-Colonial (BAC) .................................................................................................... 36 3.5. Avante! .................................................................................................................................. 40 3.6. Análise comparativa entre os jornais legalizados e os jornais clandestinos .............................. 43 4. História do Regimento de Cavalaria N.º 6...................................................................................... 45 5. O dia-a-dia do Regimento de Cavalaria N.º 6 durante a guerra ....................................................... 55 6. A realidade da Guerra. Testemunhos de quem a experienciou em primeira mão ............................ 67 6.1. Entrevistas a ex-combatentes do RC6 ..................................................................................... 67 6.2. Entrevistas as ex-combatentes de outros regimentos .............................................................. 74 Conclusão ........................................................................................................................................ 81 Fontes Impressas ............................................................................................................................. 84 Bibliografia ....................................................................................................................................... 84 6 no final de 1955, foi admitido na ONU. Como afirma Pimenta, “o integracionismo foi a fórmula encontrada pelo regime para ludibriar as instâncias internacionais, nomeadamente a Organização das Nações Unidas, que pedia aos seus membros a aplicação de medidas concretas no sentido de preparar a autonomização – e depois a descolonização – dos respetivos territórios coloniais” (Pimenta, 2013, p. 192). Passando a designar os territórios coloniais como províncias ultramarinas, o Estado Novo procurava, à luz do novo direito internacional, demonstrar que não tinha colónias e que, como tal, não estava obrigado à autonomização das mesmas. Esta manobra política teve escasso sucesso a nível internacional. A nível interno, segundo Fernando Pimenta (2013), não seria mais bem-sucedida, sobretudo entre os setores mais conservadores do regime, que rejeitavam qualquer forma de autonomia política das colónias e propunham uma total integração administrativa entre a metrópole e as chamadas províncias ultramarinas. Sérgio Bacelar (2000) defende que a situação política interna de Portugal na década de 50 era de relativa estabilidade: Na década de cinquenta a situação interna era estabilidade e, embora a oposição política tentasse pressionar a adoção dos padrões de liberdade e de democracia que na Europa já eram vulgares, no Ultramar a ação governativa não sofria grande contestação, mantendo a tradicional de que Portugal era uma Pátria una, multirracial e pluricontinental, onde coexistiam europeus, africanos, hindus, macaenses ou timorenses. (Bacelar, 2000, p.35) Ainda acerca dos acontecimentos anteriores ao eclodir da Guerra Colonial, segundo Sérgio Bacelar (2000), a partir da década de 1960, a pressão internacional para que Portugal conceda a independência às suas colónias aumenta cada vez mais, sobretudo nas vésperas do início do conflito, quando Portugal sofre pressões por parte dos seus aliados da NATO e da ONU, que, em 1961, aprova uma moção a favor da independência de Angola. A obra de Afonso & Gomes (2000) também contribui para a análise da Guerra Colonial, realizando um importante trabalho de divulgação. No entanto, os autores não deixaram de referir as dificuldades que entendem estar associadas ao estudo desta temática: À complexidade da análise do fenómeno geral da guerra juntam-se no caso da guerra colonial, duas questões sensíveis. Por um lado, a distância no tempo é ainda insuficiente, não permitindo a apreciação desapaixonada dessa época que envolveu tão dramaticamente a sociedade portuguesa. Por outro lado, o facto de ainda estar viva a geração que participou no conflito, se constitui irrecusável oportunidade de exploração de fontes, é também um fator de distorção, já que transmitem a visão dos acontecimentos focada quase exclusivamente na sua experiência pessoal, vivida em determinado sítio, tempo e condição, o que não ajuda a enquadrar as ações da guerra sob a perspetiva de conjunto. (Afonso & Gomes, 2000, p.1) De entre os tópicos apresentados ao longo desta obra, podemos destacar: a descrição do quantitativo 7 de armas e de forças que foram mobilizadas durante o conflito; uma análise dos acontecimentos anteriores ao eclodir da guerra e das relações de Portugal com a ONU e com a NATO; uma descrição e caracterização dos movimentos de libertação; a descrição do teatro de operações de Angola, de Moçambique e da Guiné; uma caracterização da governação salazarista nas vésperas do início do conflito; uma reflexão acerca da Organização de Unidade Africana (OUA) e dos custos da guerra; uma análise ao número de mortos na guerra e ao 25 de abril; uma caracterização qualitativa e quantitativa do número de deficientes das Forças Armadas em virtude da participação nos combates em Angola, na Guiné e em Moçambique. No que respeita aos movimentos de libertação, Pedro Correia (2006) chama a atenção para o facto de, antes de os conflitos se iniciarem, os movimentos de libertação terem tentado fazer com que a luta pela independência não ultrapassasse o patamar político e que não se chegasse a haver a necessidade de recorrer à luta armada. Nesse sentido vários movimentos de libertação como o Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) tentaram apresentar várias propostas de solução para o conflito para as quais nunca obtiveram resposta do governo português. Os movimentos de libertação, após sucessivas tentativas falhadas de resolver o conflito de forma pacífica e negociada, chegaram à conclusão de que seria indispensável recorrer ao conflito armado de forma a conquistarem finalmente a sua independência. Os volumes de autoria do Estado-Maior do Exército, denominados de Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África , contribuem para um estudo extensivo da Guerra Colonial e dos movimentos de libertação. Em Estado-Maior do Exército (1998), podemos destacar uma análise ao movimento panafricano e ao pan-africanismo cultural e político, uma abordagem à ONU, ao MPLA e às suas características, à UNITA e aos antecedentes da guerra em Angola. No que diz respeito a estes últimos, o escalar da situação fica claro no dia 4 de fevereiro de 1961, quando homens ligados ao MPLA realizam assaltos a estabelecimento prisionais e a estruturas policiais em Luanda – este continua a ser o dia celebrado pelo MPLA como o dia inicial da luta de libertação. Contudo, para o envio de soldados da metrópole para esta colónia da África Austral parece ter sido mais importante a revolta e ataque à população branca do norte de Angola levada a cabo, em 15 de março desse ano, pela União dos Povos de Angola (UPA). Os ataques da UPA farão várias vítimas mortais entre os colonos europeus e as populações locais. O Estado Novo explorará habilmente o sucedido, apresentando-o como um ataque terrorista e de natureza tribal. À metrópole chegarão apenas as imagens mais chocantes dos acontecimentos por forma a convencer o país da necessidade imperiosa de mobilizar “para Angola e 8 em força”. A guerra começaria em abril depois dos primeiros soldados portugueses colocarem os pés na colónia. Na obra organizada pelo Estado-Maior do Exército (2014) podemos destacar vários aspetos, como, por exemplo: os antecedentes do conflito na Guiné e a importância da criação da ONU, da OUA e da Conferência Afro-Africana de Bandung; um rastreamento da história dos movimentos de libertação guineenses, passando pelo Movimento de Libertação da Guiné (MLG), a Frente de Luta pela Independência da Guiné (FLING) e o PAIGC, sendo este último analisado detalhadamente; os principais países que apoiavam o PAIGC; uma análise do ano de 1963, ano do início das hostilidades na GuinéBissau. No que respeita a este último ponto, o início das ações armadas em 1963 é, segundo a obra, a consequência lógica do amadurecimento do trabalho preparatório levado a cabo pelo PAIGC e das atividades que este desenvolveu nos anos anteriores ao eclodir do conflito. Já em Estado-Maior do Exército (2012), é referido o início do conflito armado em Moçambique, em agosto/setembro de 1964, após o assassinato do padre holandês Daniel Boormans e o ataque ao Posto Administrativo de Chai, Cabo Delgado, em 25 de setembro. A ação em Moçambique não foi, segundo esta obra, levada acabo pelas massas populacionais, mas sim induzida a partir do exterior por agitadores e elementos armados. É ainda descrita a ação da FRELIMO e a forma como agiu durante o conflito, bem como a abordagem aos antecedentes históricos desde a 2ª Guerra Mundial, os países vizinhos, a política externa e a descrição dos movimentos de libertação africanos. Como se pode constatar, existe uma vasta bibliografia que aborda os acontecimentos anteriores ao eclodir da guerra colonial. Nuno Mira Vaz (1997) aborda a conjuntura internacional na transição dos anos 1950 para 1960, destacando vários aspetos como, por exemplo, a primeira conferência dos Estados Independentes Africanos, em 1958, a atuação da ONU e os conflitos diplomáticos com Portugal acerca das colónias e a aliança de Portugal com a NATO e com os EUA. O autor reflete ainda acerca dos antecedentes que levaram ao eclodir da guerra, entre eles, o surgimento dos movimentos nacionalistas, as conferências pan-africanas, os acontecimentos de 1961 em Angola, os vários conflitos que existiram no seio do próprio Estado Novo, o livro de Spínola acerca de uma guerra sem solução militar e o Movimento das Forças Armadas (MFA). Maria Paula Menezes (2013) aborda a questão colonial e as independências das ex-colónias portuguesas, os movimentos nacionalistas africanos, os acordos internacionais estabelecidos, não só por parte de Portugal mas também por parte dos movimentos e organizações nacionalista, e a cooperação económica com as ex-colónias. No entanto, este capítulo da autora afasta-se um pouco de outras obras anteriormente referidas (como por exemplo as de Luís Fraga (2014) e Sérgio Bacelar 9 (2000), entre outros) pois, apesar de abordar assuntos relacionados com a Guerra Colonial, a autora foca-se mais em abordar a questão do Exercício Alcora . Segundo Maria Paula Menezes (2013): Em outubro de 1970 três países distintos – África do Sul, Rodésia e Portugal –, partilhando um mesmo interesse, a luta contra o comunismo e o seu braço armado, o nacionalismo africano, assinaram um acordo que permaneceu secreto e esquecido durante longos anos. Este acordo estabelecia as condições de cooperação entre estes três países, unidos por um interesse comum: a manutenção da soberania dos seus territórios. Para a África do Sul do apartheid ou para a Rodésia da UDI, o acordo garantia a sobrevivência de regimes brancos, minoritários, na África Austral. Já Portugal manteria uma total inflexibilidade quanto à possibilidade de Moçambique ou Angola ascenderem à independência, na sequência dos ventos de mudança que assolavam o continente. (Menezes, 2013, p. 41-42) Fernando Martins (2014) aborda no seu artigo a posição do Estado Novo e a de Salazar acerca da Guerra Colonial. Segundo o autor, o Governo e o regime político que decidiram aceitar a guerra como parte da solução para resolver a questão colonial, nomeadamente entre 1961 e 1968, nunca a pensaram, nem encararam como uma matança sem sentido e interminável. Pelo contrário, viram-na sempre como um instrumento, ou meio, usado para atingir objetivos políticos. Ou seja, a guerra era parte de uma estratégia com o intuito de comprar tempo para construir o estado, a nação e o sistema social que Governo e regime garantiam existir antes e após o início do confronto militar em três. (Martins, 2014) Reflitamos agora sobre a bibliografia que, além da guerra, se foca também na vida dos combatentes durante o conflito. Armindo Queimado (2012) analisa, na sua tese de mestrado, a evolução da perceção das Forças Armadas Portuguesas sobre a visão e o comportamento da população civil, tanto a metropolitana como a que residia nas colónias. O autor destaca as várias dificuldades a que os militares portugueses estavam sujeitos, como a falta de efetivos do quadro permanente, a desatualização dos vencimentos dos militares em relação ao custo de vida e as questões que afetavam “o moral” dos militares. No respeita à forma como a Guerra Colonial foi combatida por parte dos militares portugueses, Armindo Queimado (2012) defende que o tipo de guerra que os militares portugueses enfrentaram no Continente Africano não se focalizou na conquista do terreno, característica principal da guerra convencional, mas a sua ação concentrou-se na conquista das populações, característica principal da guerra de subversão e contrasubversão. Se, por um lado, os movimentos emancipalistas, através da guerra subversiva, procuravam obter o apoio das populações, condição essencial para conseguir o sucesso dos objetivos que queriam atingir, do outro lado, os militares portugueses procuraram impedir, através da guerra de contrasubversão, que a população se deixasse convencer pela propaganda dos movimentos emancipalistas e procuraram manter o apoio dessa mesma população à causa portuguesa. (Queimado, 2012, p.7) Esta visão defendida por Armindo Queimado (2012) é a meu ver correta, pois os militares portugueses 10 que combateram nos três teatros de operações não se preocuparam apenas ou sobretudo com a conquista territorial. Os militares portugueses procuraram, sobretudo, defender as populações dos ataques de guerrilha, levados a cabo pelos diversos movimentos de libertação, procurando mostrar às populações que os militares portugueses se preocupavam apenas em manter a paz e a ordem na região, sendo os movimentos de libertação os verdadeiros causadores da desordem, da guerra e dos ataques que aconteciam em África. Esta era, pelo menos, a narrativa do Estado Novo e das chefias militares das Forças Armadas – discurso que encontra ainda hoje eco na forma como muitos excombatentes recordam a sua experiência de combate em África. Contudo, a partir da leitura do texto de Queimado, compreende-se que as ações junto das populações nativas tinham um propósito psicológico. O principal objetivo passava por conquistar a fidelidade das aldeias que podiam prestar apoio e proteção aos movimentos de libertação. Ainda acerca do dia-a-dia dos soldados que combateram na Guerra Colonial, Vasco Gil Calado (2016) aborda o uso de drogas, dando destaque ao uso de substâncias psicoativas (substâncias que agem no cérebro, alterando as sensações, o estado emocional e o nível de consciência do indivíduo). No que respeita ao tipo de drogas consumidas, confirma-se o abuso de álcool e o uso de canábis entre os militares das Forças Armadas Portuguesas envolvidas no conflito, numa altura em que em Portugal surgiam as primeiras iniciativas de combate às drogas. Tanto o consumo de bebidas alcoólicas como de outras drogas pode ser entendido como uma forma de lidar com a ansiedade e a violência do quotidiano. (Calado, 2016, p.471) José Lages (2006) remete para a importância de não nos focarmos apenas nos documentos escritos e defende, a meu ver de forma extremamente correta, uma nova abordagem para o estudo da Guerra Colonial. Esta deve também incluir o estudo de correspondência dos soldados, de revistas, de jornais e de fotografias – fontes que contribuem para uma melhor compreensão e estudo do conflito em questão que complementam a documentação escrita. Além de fazer uma contextualização histórica do conflito, o autor dá ênfase ao itinerário do combatente português na guerra. Este pode ser estudado através dos documentos oficiais e pessoais, são como fotografias, [d]os diários pessoais e de companhia, [d]os jornais de companhia, [d]as mensagens pessoais, [d]a correspondência, [d]os documentos com orientações técnicas e militares, [d]os processos de morte e ferido, [d]os relatórios de ação psicológica e social. (Lages, 2006, p. 71) Para além disso, José Lages (2006) procura analisar outros aspetos relacionados com o combatente em si, como, por exemplo, o dia-a-dia, as operações militares, a religião, o sofrimento, a saudade, a fome e a sede, bem como os hospitais. Segundo o autor, tudo isto deve ser analisado, valorizado e, sobretudo, preservado, pois constitui um suporte real para o estudo, não só da guerra colonial, mas 11 também da própria época contemporânea. Devemos também analisar a própria literatura que tem sido escrita acerca da temática da Guerra Colonial. Doris Wieser e Luciana Moreira (2017) analisam o modo como autores de diferentes gerações denunciam a Guerra Colonial, atacando e subvertendo elementos da identidade e do imaginário nacional portugueses, comparando os poetas de primeira geração, os da geração 1,5 e de segunda geração. Os autores descrevem os escritores da primeira geração como sendo pessoas que viveram durante a guerra. Já a geração 1,5 são autores e autoras que nasceram durante os treze anos de Guerra Colonial e absorveram as tensões psicológicas da época enquanto crianças. A segunda geração é composta aqueles que nasceram nos anos posteriores à Revolução dos Cravos. No que diz respeito aos poetas de primeira geração, estes procuraram condenar a violência da guerra, recorrendo a uma estratégia que visava desconstruir os mitos nacionais com que o Estado Novo continuava a justificar a sua presença em África e a Guerra Colonial e que não passavam de uma ficção da propaganda nacional. Já os poetas da geração 1.5 e da segunda geração visam desprender-se da mitologia nacional portuguesa, preocupando-se antes com os elementos contidos na memória comunicativa: os estragos emocionais das várias gerações vivas e os traumas com que vivem e que não são reconhecidos pelas novas elites políticas pós-25 de abril. Nesta literatura do século XX, cria-se um universo imaginário de que Portugal passa a estar no centro, como qualquer outra potência colonial na corrida à África. Margarida Ribeiro (2004) também aborda a evolução da literatura portuguesa. Dos vários períodos descritos ao longo da obra, destaca-se o período do Estado Novo e da Guerra Colonial. No que diz respeito à literatura portuguesa dessa época, a autora remete para a forma como as palavras, o nacionalismo e o imperialismo definem o universo português de finais do século XIX. Salazar invoca uma sacralização do império português, não só como herança histórica mas também como obra de evangelização cristã. Roberto Vecchi (2010) defende que muitas das disputas que ocorreram ao longo dos anos, ao lado das questões ideológicas que a guerra de África ainda desperta, decorreram da problemática escorregadia do realismo em literatura e no campo da arte. Vecchi considera que a Guerra Colonial Portuguesa tende a ser representada na literatura sob o signo da exceção, pelo facto de a mesma minar a ontologia nacional e desconstruir o mecanismo justificativo que a regeu, criando, assim, entraves que ainda dificultam o seu estudo desapaixonado. Para além da literatura, a fotografia constitui, como anteriormente referido, uma importante fonte da época. A obra de Renato Monteiro & Luís Farinha (1990), com introdução de João Melo, procura contribuir para a divulgação de um universo documental, que os autores consideram inédito, inexplorado, fragmentário, disperso e em risco de degradação. As fotografias apresentadas ao longo da 12 obra cobrem todo o período que vai desde o eclodir da guerra até à consumação da descolonização, passando pelos momentos mais cruciais da vida na frente e na retaguarda do conflito. No que respeita ao jornalismo e aos meios de comunicação existentes no período em que ocorreu a guerra, Silvia Torres (2016) aborda o surgimento e a evolução da imprensa em África, defendendo que a radiodifusão sonora era limitada nas ex-colónias até aos anos 1960. A sua expansão dá-se com o eclodir da guerra, principalmente em Angola. No que diz respeito à televisão nas ex-colónias, a mesma só surgiu de forma regular após o 25 de abril de 1974, existindo, até lá, apenas transmissões de forma clandestina e, posteriormente, a partir dos anos 1970, surgem as transmissões autorizadas pelo governo. A autora descreve também, de forma muito interessante, o jornalismo durante a Guerra Colonial: O jornalismo da Guerra Colonial tinha de justificar ideológica e economicamente o regime. Para isso, devia transmitir a ideia-força de que Portugal, os portugueses e os soldados portugueses estavam a defender «o que era nosso». A Pátria não se discute. A guerra era imposta do exterior. Aliás, não havia uma guerra, mas atitudes subversivas e correspondentes ações de reposição da ordem. Não havia guerrilheiros, mas terroristas, bandoleiros a soldo de potências estrangeiras. (Torres, 2016, p.17) Alberto Carvalho (2016) aborda a censura que a imprensa sofreu durante o Estado Novo. Durante este período, a censura prévia não foi o único mecanismo previsto na legislação para controlar a imprensa e para limitar a liberdade de expressão. Existiam outros mecanismos como, por exemplo, a repressão administrativa e judicial, a possibilidade de apreensão por decisão das próprias autoridades administrativas e não dos tribunais, entre outros. Nuno Mira Vaz (1997) constata a realidade da censura no jornalismo e a forma como o Estado Novo tentava manipular as opiniões das pessoas: E, ao mesmo tempo, começam a induzir na opinião pública a ideia de que as dificuldades no nosso ultramar apenas tinham origem em conspirações e em ambições demoníacas e infames vindas do exterior. O principal bode expiatório de então eram os Estados Unidos, conforme a linha de pensamento do Dr. Salazar já antes referida. […] A pouco e pouco, porém a informação nacional começa a dramatizar os crimes cometidos no Norte de Angola, mas jamais dando uma visão autêntica da problemática em causa. (Nuno Mira Vaz, 1997, p. 81) Ao longo da presente dissertação serão também analisados vários jornais da época, nos quais que podemos constatar precisamente a afirmação anteriormente referida por Nuno Mira Vaz (1997). De forma resumida, podemos concluir, através da análise das notícias e, sobretudo, dos comunicados das Forças Armadas, que os conflitos eram originados por terroristas (por vezes designados também por bandoleiros) vindos de fora. O resultado dos conflitos era sempre descrito como um sucesso para o lado das Forças Armadas Portuguesas – os relatos das ações de combate feitos pela imprensa 13 raramente davam conta da existência de mortos ou de feridos. No máximo, referia-se um número muito baixo de feridos. De resto, tanto a imprensa como a instituição militar e o governo esforçaram-se sempre para que as sequelas físicas e psicológicas da guerra – assim como os seus mortos – não fossem visíveis. A invisibilidade das consequências da guerra e a propaganda permanente aos alegados sucessos das tropas portuguesas visava aplacar o descontentamento e a desaprovação do conflito. Dietmar Rothermund (2006) aborda os antecedentes da Guerra Colonial e os contornos do conflito em Angola, em Moçambique e na Guiné e também a libertação indiana das cidades de Goa, Damão e Diu em 1961. Seguindo a ideias defendidas por Pedro Correia (2006), as guerras coloniais – designação do próprio autor – exigiram uma enorme quantidade de efetivos militares portugueses. Ao longo dos 12 anos do conflito, Portugal teve constantemente cerca de 70.000 soldados portugueses e 30.000 africanos nos teatros de operações. No que respeita à crise e ao declínio do próprio regime ditatorial, Dietmar Rothermund (2006) defende que: A crise surgiu quando Spínola publicou o seu livro Portugal e o Futuro, em fevereiro de 1974. Defendia o fim imediato das guerras coloniais, que custavam 50 por cento do orçamento do Estado e inúmeras vidas - e que não podiam ser vencidas. A solução que preconizava continuava a ser do tipo “federal”, modelo que já havia proposto anteriormente. De facto, não havia nada de muito novo no livro. Caetano tinha lido a maior parte do texto no relatório que Spínola lhe tinha escrito em 1970. (Dietmar Rothermund, 2006, p. 224-225) O livro circulou dentro do país de uma forma extremamente rápida, revelando-se a sua publicação e o seu conteúdo um impacto “revolucionário”, o que na opinião do autor foi, certamente, um dos fatores que motivaram o Movimento das Forças Armadas (MFA) a realizar a Revolução de 25 de abril de 1974. No que respeita ao 25 de abril de 1974, Pires et al. (2020) defende que na história recente de Portugal, a revolução marca uma rutura radical com efeitos duráveis. Para o meio milhão de portugueses que viviam nas colónias, o dia representou um acontecimento ainda mais decisivo: em pouco mais de um ano, traduziu-se no repatriamento em massa para a então metrópole colonial. Ainda acerca do estudo da Revolução de 25 de abril de 1974, Teixeira & Cruzeiro (2004) recorrem a vários registos, desde os estudos e análises, até aos testemunhos pessoais e aos textos humorísticos, com o intuito de retratar a vertiginosa mudança operada na sociedade portuguesa nos últimos vinte e cinco anos. O presente artigo aborda vários aspetos como, por exemplo, o surgimento do MFA e os motivos que conduziram à sua formação – sendo a guerra colonial e as questões relacionadas com a carreira as principais motivações –, o programa do Movimento e os seus objetivos políticos, o 25 de abril e a formação da Junta de Salvação Nacional e as memórias de presos políticos. Jensen & Osterhammel (2017) apesar de abordarem na sua obra a temática da descolonização de forma global, contribuem para a análise dos acontecimentos que levaram ao surgimento de 14 movimentos e organizações, em alguns casos de dimensão internacional, que defendiam a descolonização e independência das colónias e que motivaram a queda dos vastos impérios coloniais europeus no sudeste asiático e em África, incluindo o caso português. Os autores descrevem a descolonização do século XX como a última etapa de uma série de emancipações dos impérios coloniais europeus. O capítulo de autoria de Pires et al. (2020) contribui para o estudo da memória e das dificuldades a que os ex-combatentes da guerra foram e ainda são sujeitos. Os autores analisam os modos de integração dos vários segmentos dos retornados e o seu impacto na identidade nacional. A partir dos resultados obtidos, os autores delineiam uma explicação da razão pela qual não surgiu uma narrativa coletiva da experiência traumática de repatriamento partilhada pelos retornados e pela população portuguesa em geral. Segundo Pires et al. (2020): Para os retornados portugueses, o “25 de abril de 1974” é um acontecimento que simboliza uma divisão clara entre o “antes” (i.e., a vida nas colónias) e o “depois” (i.e., a vida em Portugal). Esta divisão exprime uma experiência emocional traumática que pôs em causa a sua identidade colectiva como portugueses nas colónias. A incapacidade de trabalhar o significado da descolonização devido à sua imersão num ambiente de crescimento económico acelerado, bem como à falta de debate político, intensificou este trauma. No entanto, não há provas de que esta intensificação tenha correspondido à generalização de uma identidade colectiva apoiada na referência ao trauma, quer entre os retornados, quer na população portuguesa em geral. Pelo contrário, houve sectores da população repatriada que construíram esta narrativa e viveram a identidade colectiva que ela implicava: uma identidade de espoliados. (Pires et al., 2020, p 198) Os autores apontam também as dificuldades que os retornados tiveram para se enquadrarem na sociedade portuguesa dessa época, que lhes chamava, depreciativamente, estrangeiros, ou de até mesmo, africanos e que temia que viessem ocupar postos de trabalho e casas que queria para si. Ainda acerca da temática da descolonização e da opinião da sociedade portuguesa pós-25 de abril, Carlos Maurício (2011) examina sondagens acerca do tema realizadas, entre 1973 e 2004, em Portugal. Estas sondagens têm como temáticas a política colonial do Estado Novo, o fim da guerra e a descolonização e permitem identificar duas mudanças estruturais na atitude da população em relação a esse período da história portuguesa. A primeira ocorre logo após o 25 de abril, quando aqueles que, durante o anterior regime, se tinham manifestado favoráveis à prossecução dos combates passaram a expressar uma oposição à continuação da guerra. O autor refere também que a guerra e o império colonial eram quase um tema tabu, circulando na imprensa apenas a opinião defendida pelo regime. Esta afirmação justifica-se pelo medo que a comunicação social e a população tinham da polícia política e da censura, o que fez com que não se 15 verificasse a difusão de ideias contrárias às defendidas pelo regime acerca da questão colonial. As únicas críticas à política colonial do Estado Novo, assim como apelos ao fim da guerra e ao reconhecimento do direito à autodeterminação dos povos colonizados, apenas podiam ser encontradas na imprensa clandestina publicada pelos vários grupos e partidos da oposição. A partir das sondagens realizadas após o 25 de abril, Carlos Maurício (2011) apresenta aspetos que confirmam o quanto o regime do Estado Novo manipulava não só as eleições, mas também as sondagens e a opinião das pessoas. Estas sondagens revelam que, na realidade, a guerra era extremamente impopular na sociedade portuguesa e que apenas um número extremamente reduzido de pessoas é que defendia a continuidade do conflito. Estas sondagens, realizadas no pós-25 de abril, permitem-nos perceber que a grande maioria da sociedade portuguesa da época defendia a independência das colónias, no entretanto, não defendia uma independência total, mas defendiam uma espécie de federação, conceito político defendido por António Spínola (Maurício, 2011). No que respeita à segunda mudança estrutural na opinião dos portugueses em relação à guerra, Carlos Maurício (2011) defende que a viragem de 1974/5 materializou-se em duas mudanças. Por um lado, os defensores da manutenção da guerra e do império passaram de cerca de 1/3 da população para cerca de 2% (da guerra) e 8% (do império, geralmente sob a forma de uma federação de Estados). Por outro, a percentagem das pessoas sem opinião sobre estes assuntos caiu de mais de metade para menos de 1/4. (Maurício, 2011, p. 289) A dissertação de mestrado de José Fonseca (2009) propôs-se investigar As Clivagens Políticas e Sociais na Descolonização portuguesa. O autor utiliza o termo clivagens para indiciar verdadeiras linhas de conflito insanáveis, autênticas zonas de rutura entre o modo de ser e de ver o mesmo problema político-histórico. As clivagens apresentadas por Fonseca são de cariz político, militar, diplomático, religioso e étnico. No entanto, Fonseca (2011) defende que estas mesmas clivagens, apesarem de serem sido um importante contributo para acelerar o processo de descolonização, nunca foram a base de sustentação da mesma. O autor defende, enfim, que quaisquer que fossem as políticas das potências europeias na correção de todas estas clivagens, o destino dos territórios africanos sob dependência europeia seria sempre um e apenas um: a autodeterminação e a independência. José Fonseca (2009) conclui a sua dissertação defendendo que “as Clivagens Políticas e Sociais tiveram extrema importância, no agudizar da Crise Colonial ou Ultramarina, mas a Autodeterminação e Independência, era uma realidade independente das mesmas Clivagens, visto que à semelhança da Descolonização Latino-Americana e Asiática, a Descolonização Africana, também chegaria (Fonseca, 2009, p. 98)”. 22 em relação ao que estava previsto. O motivo para sua demora justifica-se pelo facto de as Ordens de Serviço serem extensas e também devido à forma como o estudo e a análise do número de combatentes mobilizados pelo RC6 e do número de mortos estava originalmente planeada. Inicialmente, a consulta realizada inseria-se na consulta dos processos de todos os ex-combatentes mobilizados pelo RC6, incluindo soldados que não eram mobilizados por pelotões. Rapidamente foi possível perceber que este tipo de consulta era inviável tendo em conta o tempo disponível para a realização deste projeto de investigação. Portanto, para responder a esta problemática, o Sargento-Mor Montenegro da Silva forneceu-me uma lista com todos os pelotões mobilizados e a data da sua mobilização, o que permitiu que a análise dos soldados mobilizados pelo RC6 se fizesse de forma mais rápida e que cumprisse o prazo estabelecido para a análise do arquivo. Para além disso, o SargentoMor Montenegro da Silva também foi muito gentil e prestável ao ter-me fornecido uma lista com o número de mortes em campanha, o que diminuiu imenso o tempo que demoraria analisar o arquivo. Quanto à análise dos jornais da época, a sua análise foi efetuada com poucas dificuldades, devido ao facto de a sua informação estar disponível, quer na Biblioteca Pública de Braga, quer nos sites anteriormente referidos, no entanto, a sua análise foi demorada em alguns jornais. No que respeita a jornais como o Diário de Lisboa , o Boletim Anti-Colonial e o Avante! , a sua consulta e análise decorreu de forma relativamente rápida, devido, precisamente, ao facto de os mesmos estarem disponíveis online , permitindo uma enorme facilidade no que respeita à consulta e também ao acesso, pois não existem restrições, como por exemplo, horários de funcionamento, como se verifica na Biblioteca Pública de Braga. Foi na análise dos jornais apenas disponíveis na Biblioteca Pública de Braga que a consulta e a análise foram mais demoradas. O motivo que justificou uma relativa demora na sua análise, não foi tanto devido ao horário de funcionamento da biblioteca e a outros fatores externos, mas sim do próprio conteúdo dos jornais. A consulta destes jornais foi demorada devido ao facto de a sua análise estar compreendida num período cronológico relativamente extenso. Para além disso, a análise, principalmente, dos primeiros da guerra (1961-1964) foi mais demorada devido ao facto de existir, quase todos os dias, uma nova notícia acerca da guerra. Um importante fator que contribuiu para que a consulta se fizesse de forma mais célere foi o facto de, ao contrário do RC6, ter sido autorizado o levantamento fotográfico das notícias, o que permitiu que eu registasse cada notícia de forma mais rápida e possibilitou também que eu fizesse a análise do seu conteúdo mais tarde e noutro espaço de trabalho. Através desta metodologia, consegui rentabilizar ao máximo o tempo disponível na biblioteca registando apenas a notícia, sem ter de perder tempo extra na análise da notícia em si. 23 Já no que respeita às dificuldades encontradas no decurso das entrevistas realizadas a excombatentes, relevo que a maior contrariedade foi encontrar os contactos de ex-combatentes que estivessem disponíveis para realizar uma entrevista comigo à distância. Alguns dos contactos a que tive acesso, infelizmente, não se materializaram em entrevistas devido ao facto de não terem possibilidade de realizar a entrevista pelo facto de viveram longe de Braga e do norte do país e de não terem acesso ou conhecimento tecnológico para realizar uma entrevista online . Para a obtenção de contactos de excombatentes, o Sargento-Mor Dantas Pereira foi fundamental, tendo fornecido os contactos de excombatentes e também informação relacionada ao RC6. Existiu também ao longo da realização destas entrevistas uma extrema preocupação em termos da ética. Em cada entrevista procurou-se preservar ao máximo o anonimato do entrevistado, pedindo-se apenas para, com a devida autorização do informante, publicar o seu primeiro nome. Esta preocupação ética permitiu que os entrevistados se sentissem mais à vontade para contarem as suas histórias de vida, dificuldades encontradas em África e opiniões acerca da guerra. No que respeita ao universo de entrevistados, foram ouvidos 6 ex-combatentes da guerra colonial, sendo que cinco pertenceram ao RC6 e um pertenceu ao Regimento de Infantaria N.º 2. Os excombatentes entrevistados descreveram a sua experiência e as dificuldades sentidas na guerra e no dia-a-dia em África, tendo como amostras de análise os territórios de Tite (Guiné), Teixeira-Pinto (Guiné), Bambadinca (Guiné), Mansabá (Guiné) e Nambuangongo (Angola). As idades destes excombatentes variam entre os 73 a 80 anos e, quanto à sua situação profissional dos mesmos aquando da mobilização, dois entrevistados trabalhavam como trolha, dois como engenheiro, um como operário fabril e um como médico. Para terminar, é importante referir as dificuldades que encontrei ao longo deste trabalho, sobretudo em obter informação acerca da história do RC6 e da sua ação na guerra. Felizmente, como referi anteriormente, o Sargento-Mor Montenegro da Silva foi fundamental, pois forneceu-me muita documentação acerca deste assunto. O Sargento-Mor revelou-me ainda que, num futuro próximo, ele e os seus colegas, irão publicar uma obra acerca do RC6 e da guerra, o que permitirá que futuros investigadores que pretendam analisar o RC6 e a sua história, o façam com uma maior facilidade, no que respeita a fontes bibliográficas e documentais. 24 3. A Imprensa portuguesa durante a Guerra Colonial Para além da bibliografia, as fontes jornalísticas constituem uma importantíssima base para a contextualização, não só da guerra em si, mas também do próprio jornalismo do período em estudo. Neste capítulo serão analisados cinco jornais da época. Numa primeira fase, será realizada uma caracterização individual de cada jornal, passando-se, num segundo momento, para uma análise comparativa dos jornais controlados pela censura e dos jornais ilegais e antirregime. 3.1. Diário de Lisboa Segundo as Crónicas do Professor Ferrão2, o Diário de Lisboa foi um jornal de referência da imprensa portuguesa do século XX, tendo perdurado de 7 de abril de 1921 a 30 de novembro de 1990. Nele trabalharam muitos jornalistas com um grande conhecimento da vida nacional, assim como nomes ilustres da cultura portuguesa. Ainda segundo o autor, o Diário de Lisboa foi um jornal diário publicado no período da tarde e o primeiro a ser criado em Portugal no tempo da 1º República. Nos finais da 1º República, este jornal foi alvo da censura, não sendo permitido vir a público. Por fim, durante o Estado Novo, o Diário de Lisboa assumiu uma resistência subliminar ao regime, apresentando nas suas edições mensagens simbólicas nas entrelinhas de textos ficcionais e noticiosos: “Esta oposição subreptícia a este regime autoritário efetuou-se, sobretudo, a seguir à 2ª Guerra Mundial e no período do Marcelismo, na altura em que se ansiava mais pela democratização do país” (Crónicas do Professor Ferrão, 2021). Ao analisarmos as notícias referentes à guerra colonial, podemos constatar que o Diário de Lisboa , numa primeira leitura, apresenta um número de notícias muito diminuto em comparação com outros jornais que serão posteriormente analisados, como, por exemplo, o Diário da Manhã ou o Jornal de Notícias . Nesta observação, foi possível constatar que, em alguns meses, não existiram notícias acerca da guerra. Alguns dos motivos que contribuíram para este facto poder-se-ão prender com o facto de a consulta deste jornal ter sido realizada online na Casa Comum da Fundação Mário Soares, onde faltam algumas edições. A primeira notícia acerca da guerra foi publicada em 4 de fevereiro de 1961. Nela é referida uma tentativa falhada, por parte de três grupos armados, de libertar presos em Luanda, tendo os mesmos assaltado a Casa de Reclusão Militar, o Quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública e as Cadeias Civis de Luanda. Tal como defendido por Nuno Mira Vaz (1997), as notícias posteriores a 2 Crónicas do Professor Ferrão. (2021). CENTENÁRIO DA CRIAÇÃO DO “DIÁRIO DE LISBOA” (1921-2021): O PERIÓDICO LISBOETA COMO FAROL DA LIBERDADE DE IMPRENSA [Blog]. Crónicas do Professor Ferrão. https://cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt/centenario-da-criacao-do-diario-de-83102 25 este acontecimento, começam a induzir na opinião pública a ideia de que as dificuldades nos domínios coloniais portugueses apenas tinham origem em conspirações vindas do exterior, referindo, precisamente, que os responsáveis por este ataque não foram pessoas de Luanda, mas sim estrangeiros e que a normalidade e paz na cidade fora rapidamente estabelecida. Podemos constatar, não só neste jornal mas também nos restantes jornais legais da época, como era o jornalismo de então, sendo este caracterizado em maior profundidade por autores como Sílvia Torres (2016) e Nuno Mira Vaz (1997). Ao analisarmos as notícias podemos verificar como as notícias, principalmente nos primeiros anos da guerra, referiam que todos os ataques verificados no Norte de Angola3 eram sempre repelidos com sucesso e sem grandes baixas para as forças portuguesas. Ainda acerca da linguagem das notícias, o MPLA, a FRELIMO ou o PAIGC não eram reconhecidos, sobretudo nos primeiros anos da guerra, como organizações ou movimentos, sendo os ataques apresentados nas notícias como tendo sido perpetrados por terroristas ou bandoleiros a soldo de potências estrangeiras. Para além de serem designados por terroristas ou bandoleiros, os nativos das ex-colónias eram também designados como “pretos” – “Os ataques em Luanda dos pretos munidos por catanas descritos pelas vítimas hospitalizadas4” –, bandos de criminosos e, posteriormente, movimentos de guerrilha. Uma das primeiras referências ao MPLA surge numa notícia acerca do facto de o MPLA tentar ocupar o lugar da União das Populações de Angola (UPA) no que respeita ao controlo de Angola. O jornal salienta o facto de o MPLA ser considerado um grupo comunista e muito mais perigoso do que a UPA. Segundo o Diário de Lisboa : Holden Roberto encontra-se muito desacreditado e, se alguma vez chegou a ser um dirigente popular, não o é, certamente, agora. Mesmo entre os terroristas o seu nome está associado à ideia de malogro e incompetência. Não há dúvida de que continuará com as suas actividades, mas é provável que a direcção da guerra subversiva em Angola seja de futuro dirigida mais pelo M.P.L.A. – Movimento Popular de Libertação de Angola. Este movimento, que existe desde 1956, chefiado por Mário de Andrade, é uma organização comunista muito mais perigosa do que a U.P.A. de Holden Roberto5. A partir das notícias publicadas neste período acerca da guerra, podemos constatar que o jornal, devido à censura, procurou conotar como verdadeiros terroristas e causadores da desordem os responsáveis pelos ataques, acusando-os de assaltarem e atacarem populações indefesas e de não se preocuparem com o assassinato de colonos ou até mesmo de nativos – “Nas últimas 24 horas 3 No que consta às zonas de ação militar levadas a cabo pelos movimentos de libertação durante a Guerra Colonial em Angola: a UPA/FNLA atuou no Norte de Angola e o MPLA atuou, essencialmente, a partir da zone leste de Angola. 4 Os ataques em Luanda dos pretos munidos por catanas descritos pelas vítimas hospitalizadas. (1961, fevereiro 20). Diário de Lisboa, ano 40, nº 13717, p.1. 5 O M.P.L.A tende a ocupar o lugar da U.P.A. (1962, fevereiro 13). Diário de Lisboa, ano 40, nº 13711, p.13. 26 procede-se ainda à perseguição dos bandos criminosos que cobertos pela confiança reinante em toda a parte atacaram, de surpresa, populações indefesas provocando as mais vis atrocidades não olhando fosse a quem fosse, Homens, Indignados, naturais da província e da metrópole”6. Ao analisarmos estas notícias acerca da guerra colonial, podemos destacar também o facto de o Diário de Lisboa destacar a bravura (chegando, em alguns casos, a elevá-los à condição de heróis) não só dos militares mas também das populações locais quando as mesmas conseguiam repelir os ataques. Como se afirmava no Diário de Lisboa de 14 de abril de 1961, “hoje, milhares de bandoleiros atacaram novamente Ucua, aproveitando a circunstância de a Companhia de Caçadores que ali se encontrava ter partido para o Queixete, deixando apenas trinta homens. Estes, porém, resistiram com inexcedível bravura aos ataques vindos de todos os lados”7. Para além de descrever ataques levados a cabo pelos nativos e pelos movimentos de independência das ex-colónias, o Diário de Lisboa apresentava também operações conduzidas pelas Forças Armadas Portuguesas. É disso exemplo a seguinte citação: “Prosseguem activamente as operações militares em todo o Norte de Angola, agora apoiadas por pequenos aviões «Dornier» da Força Aérea Portuguesa, que possuem uma grande facilidade de manobra”8. O Diário de Lisboa , além de descrever ataques, também descrevia a partida de contingentes militares para as ex-colónias – “Com 800 passageiros largou do Tejo um paquete que escalará diversos portos das províncias portuguesas de Angola e Moçambique e, ainda o Funchal”9. Nas notícias verificadas ao analisar o Diário de Lisboa , pudemos constatar a intensa e acrimoniosa relação entre Portugal e a ONU em virtude da Assembleia Geral desta aprovar moções a favor da independência das ex-colónias. Por conseguinte, o jornal e, sobretudo, os representantes do Estado português na ONU contestavam não só as moções, mas chegavam mesmo a pôr em causa a legitimidade e até a legalidade da própria discussão, argumentando que as ex-colónias eram províncias portuguesas e não colónias e que, desta forma, a resolução dos problemas destes territórios era uma prerrogativa que apenas assistia a Portugal. Pelo que, anunciava o Diário de Lisboa , “o representante de Portugal na O.N.U. demonstrou ao Conselho de Segurança que a discussão do caso de Angola era ilegal”10. Ainda acerca da ONU, era também sublinhado nas notícias o facto de os aliados de Portugal não se oporem às moções apresentadas na ONU contra o país. No entanto, é importante realçar que estas notícias acerca da 6 Numerosos prisioneiros entre os assaltantes do Norte Angola. (1961, março 19). Diário de Lisboa, ano 40, nº 13744, p.1. 7 Indígenas voltaram a atacar Ucua. (1961, abril 14). Diário de Lisboa, ano 41, nº 13770, p.1. 8 No Norte de Angola prosseguem as operações militares. (1961, abril 11). Diário de Lisboa, ano 41, nº 13767, p.1. 9 Partiu para o Ultramar mais um contingente de forças armadas. (1961, maio 24). Diário de Lisboa, ano 41, nº 13809, p.1. 10 O representante de Portugal na O.N.U. demonstrou ao Conselho de Segurança que a discussão do caso de Angola era ilegal. (1961, julho 7). Diário de Lisboa, ano 41, nº 13852, p.1. 27 ONU apresentavam informações profundamente enviesadas da realidade. Segundo António Pinto (2001), os aliados de Portugal quase sempre votaram a favor dos interesses portugueses. Quando não votavam favoravelmente, abstinham-se e impediam que as resoluções fossem aprovadas por unanimidade. Neste sentido, o Diário de Lisboa pretende construir uma narrativa de que os aliados de Portugal não defendiam os interesses portugueses algo que, como referido anteriormente, não é verdadeiro. Apesar dos aliados portugueses, por vezes, não votarem a favor de Portugal, os mesmos nunca votavam contra, abstendo-se simplesmente. Ao longo do estudo das notícias pudemos fazer um breve mapeamento das regiões onde ocorreram conflitos, sobretudo no Norte de Angola. Assim, destacam-se conflitos entre nativos e as Forças Armadas nas regiões de Nambuangongo, de Ambriz, de Queixete, de Ucua, de Fuangi, de Nova Caipembade, de Pango Aluquem, de Cangola, de Cuimba, de Carmona, de Mucaba, de Massarelos, de Songo, de Cazua, de Dembos, de Pedra Verde, de Buela, de Vale do Loge, da Serra do Píngano, de Dange, de Quicabo, do Rio Zamba, do Rio Onzo, de Zala, de Zanga, dos Rios Zadi, Andimba e Coji. Na Guiné, podemos destacar conflitos nas regiões de Suzana, a sul do Rio Corubal, de Falacunda. Um dos pontos negativos identificámos ao consultar as notícias do Diário de Lisboa acerca da guerra colonial, diz respeito ao facto de existirem poucas notícias acerca Moçambique. No entanto, não é um caso isolado, pois a mesma situação foi detetada nos outros periódicos consultados. Para terminar a análise do Diário de Lisboa, devemos ainda salientar alguns assuntos e temas marcantes, como, por exemplo: a audiência do Papa concedida aos chefes da FRELIMO, PAIGC e MPLA (acontecimento ocorrido a 1 de julho de 1970); o assalto à alegada sede do Governo Revolucionário de Angola (“A Polícia congolesa expulsou cerca de 50 angolanos que às primeiras horas de hoje assaltaram e puseram em desordem a sede nesta cidade do «Governo Revolucionário da Angola no exílio»”11); o assassinato de Amílcar Cabral (dirigente do PAIGC) (ocorrido no dia 20 de janeiro de 1973); e, por fim, a declaração de independência da Guiné por parte do PAIGC (proclamada no dia 28 de setembro de 1973). Segundo um comunicado em Dacar pelo P.A.I.G.C.: «A primeira Assembleia Nacional Popular da GuinéBissau, reunida a 23 e 24 do corrente, nas regiões libertadas do Boé, a leste do país, proclamou anteontem, vinte e quatro, às 9.55 a República da Guiné-Bissau. O Estado da Guiné-Bissau foi dotado com uma constituição e a assembleia procedeu à eleição dum Conselho de Estado constituído por quinze membros e presidido por Luís Cabral, secretário-geral adjunto do P.A.I.G.C.».12 11 Cinquenta angolanos assaltaram a sede do «Governo Revolucionário de Angola» em Leopoldville. (1965, junho 25). Diário de Lisboa, ano 45, nº 15274, p.1. 12 A independência da Guiné proclamada pelo P.A.I.G.C. «um acto de propaganda». (1973, setembro 28). Diário de Lisboa, ano 45, nº 15369, p.1. 28 3.2. Diário da Manhã Segundo o blog Restos de Colecção 13 , o jornal Diário da Manhã pertenceu à Companhia Nacional Editora que lançou, em 4 de abril de 1931, a sua primeira edição. Este jornal era propriedade da União Nacional, servindo como uma espécie de jornal oficial do Estado Novo. O jornal encerra a sua atividade no dia 30 de janeiro de 1971, vindo a ser substituído pelo jornal Época – resultado da fusão dos jornais A Voz e Diário da Manhã. O primeiro número de Época surge a 1 de fevereiro de 1971. Ainda segundo Restos de Colecção , este jornal era um órgão oficioso da Acção Nacional Popular (renomeação da União Nacional no quadro das reformas marcelistas) e propriedade da Companhia Nacional Editora, tendo sido publicado até maio de 1974. Figura 1Número de notícias relacionadas com a Guerra Colonial presentes no Diário da Manhã Numa primeira análise e através do gráfico presente na Fig. 1, podemos constatar que, durante todo o período compreendido entre o início da guerra em 1961 e janeiro de 1971 (encerramento do Diário da Manhã ), existiram um total de 547 notícias relacionadas com a Guerra Colonial. Também podemos constatar que 1961 é o ano com o maior número de notícias acerca da guerra, coincidindo, precisamente, com o ano em que o conflito iniciou em Angola. No entanto, é importante salientar que, para além do ano de 1961, existem outros anos em que o número de notícias acerca da guerra é relativamente elevado, como por exemplo, os anos de: 1968, com 92 notícias; 1969, com 81; 1967, com 79; e 1970, com 67. Quanto à linguagem apresentada acerca dos movimentos de libertação e dos participantes dos vários 13 Restos de Colecção: Companhia Nacional Editora. (2021, março 2). Restos de Colecção . https://restosdecoleccao.blogspot.com/2021/03/companhianacional-editora.html 101 26 15 26 17 41 79 92 81 67 2 0 20 40 60 80 100 120 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 Janeiro de 1971 Número de notícias Anos Número de notícias relacionadas com a Guerra Colonial presentes no Diário da Manhã 29 ataques verificados ao longo do conflito nas ex-colónias, o Diário da Manhã utilizava uma linguagem semelhante à do Diário de Lisboa , considerando-os grupos de terroristas, bailundos14, bandoleiros, bandos de facínoras e “foras da lei”. Para além disso, ao longo do conflito, as Forças Armadas Portuguesas eram apresentadas nas notícias como uma força heroica que conseguia reprimir rápida e facilmente quase todos os ataques levados a cabo pelos nativos e pelos movimentos de libertação. Ainda numa análise inicial, a partir de 22 de maio de 1966 todas as notícias apresentadas nos jornais acerca da guerra passaram a ser compiladas e organizadas numa secção específica denominada “Comunicado das Forças Armadas”. Assim, em vez de estarem dispersas ao longo do jornal, as notícias sobre a guerra passam a ser organizadas por região, como, por exemplo, todas as notícias acerca de Angola passavam a ter uma secção denominação “Comunicado das Forças Armadas em Angola”. No que respeita ao conteúdo das notícias, podemos começar por referir que o Diário da Manhã já em 1961 fazia referência ao MPLA como um dos responsáveis pelos ataques ocorridos em Luanda em fevereiro de 1961, juntamente com o Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL)15 e por elementos comunistas. Para além disso, os nativos eram acusados de, por vezes, utilizarem crianças como escudos humanos para atacarem colunas militares, como, por exemplo, em 30 de maio de 1961, quando uma coluna militar que seguia de Negage para Bungo foi atacada. Eram também acusados de roubarem alimentos a populações indefesas e de atacarem e incendiarem sanzalas. Como foi visto anteriormente, eram noticiados casos em que os supostos bandos terroristas chacinavam os próprios nativos, como, por exemplo, a notícia do dia 27 de junho de 1961 que afirmava que bandos de terroristas teriam assassinado 34 nativos. Para além das notícias a salientar o poderio das Forças Armadas e a facilidade que estas tinham em repelir os ataques sofridos nas ex-colónias, por vezes, o próprio jornal admitia a dificuldade que estas sofriam em alguns dos ataques, como, por exemplo, a notícia do dia 12 de agosto de 1961, na qual é descrito um combate renhido entre os terroristas e as forças militares que haviam reocupado Huamba. No entanto, para além do contingente regular das Forças Armadas, as forças portuguesas também tinham apoio de grupos de voluntários que terão, de acordo com o jornal, conseguido protagonizar alguns feitos considerados importantes, como, por exemplo, em 31 de agosto de 1961, quando, na região do Songo, um quartel-general de terroristas foi reocupado apenas por um destes grupos de voluntários. 14 População do Planalto Central de Angola. Assumindo um significado semelhante ao de “cafre”, o termo tem uma conotação claramente pejorativa e racista. 15 Movimento revolucionário luso-espanhol criado, em janeiro de 1961, na Venezuela e cujos principais rostos portugueses eram Humberto Delgado e Henrique Galvão. 30 Uma notícia de 11 de novembro de 1961 afirmava que a UPA e MPLA defendiam que as baixas entre os seus membros foram de 1226 pessoas, contra as 3128 das forças portuguesas, algo que rapidamente foi desmentido por parte de Portugal. Para além dos ataques armados, Portugal procurava atacar os movimentos de libertação pela via política e através dos meios de comunicação, procurando dar uma imagem de instabilidade e de discórdia dentro dos próprios movimentos de libertação. Esta estratégia fica evidente numa notícia de 10 de julho de 1963 em que o jornal afirmava que existia uma crise no MPLA, consistindo na recusa da autoridade de Agostinho Neto e de Mário de Andrade por parte de quatro dos seus membros. Para além disso, o Diário da Manhã publicou notícias em que acusava diversos países estrangeiros de auxiliarem os movimentos de libertação: em 4 de novembro de 1962, oficiais indianos foram acusados de conferenciar com chefes terroristas do UPA; em 8 de novembro de 1962, Marrocos foi recriminado por prometer auxílio ao MPLA; e, em 19 de maio de 1963, os novos Estados africanos foram acusados de estarem a prestar todo o tipo de apoio e auxílio aos movimentos de libertação. As primeiras notícias acerca do conflito armado na Guiné começaram a surgir em meados de abril de 1963, nelas se afirmando que, na Guiné, os terroristas não controlavam nenhum território. Em Moçambique, a primeira notícia surge a 31 de dezembro de 1964, afirmando que foram presos em Moçambique agitadores comunistas portadores de armas e treinados no estrangeiro para a prática de atos terroristas. Conforme o conflito armados se prolongava ao longo dos anos, a mais meios de comunicação e formas de difusão os movimentos de libertação começaram a ter acesso, como, por exemplo, a rádio. Um exemplo disto é a notícia do dia 26 de outubro de 1970, na qual é descrita a forma como PAIGC procurava difundir através da rádio os seus ideais de liberdade e de independência da Guiné. Segundo a notícia, a propaganda do inimigo através da Rádio, utilizando a cadeia de emissores comunistas e de feição comunista, tem apresentado por forma bastante confusa e muito exagerada o teor de comunicados e notícias fantasistas dos chamados partidos de «independência» da Guiné Portuguesa. Tornando-se fastidioso e pouco oportuno desmentir todas as deturpações e exageros de tais notícias, apenas a título de exemplo se menciona um: foi relatado através da chamada «Voz da Liberdade» o teor de uma tal circular número três, intitulada «O Prisioneiro» que estaria a ser distribuída na Guiné Bissau e que seria comentada pela oficialidade aos soldados, ensinando-os a torturar e assassinar a sangue frio os prisioneiros guineses; estaria também a ser distribuída outra circular número quatro que aconselharia a matar, além de homens armados, velhos, mulheres e crianças, não ficando os militares responsáveis por tais mortes mas apenas os terroristas como fautores da guerra. O único factor curioso destas inqualificáveis notícias reside na circunstância de 31 elas exprimirem exactamente o contrário do que está descrito em duas directivas difundidas às tropas pelo comandante-chefe.16 Para além do mapeamento das regiões apresentadas anteriormente onde ocorreram conflitos armados, através do Diário da Manhã, podemos destacar outras regiões que não foram referidas no Diário de Lisboa, como, por exemplo: i) em Angola, as regiões de Toto, Aldeia Viçosa, Lacunga, Tomboco, Bembe, Cuimba, Cabinda, Dimuca, Congo, Quiculungo, Quicabo, Golungo, Cangola, Cambatela, Miconge, Maiombe, Huamba, Vila Nandimba, Icolo-e-Bongo, Sacandica, Pedra Verde, Macola, Quivita, Mufuque, Tembo Aluma, rios Tabadange e Lumba, Cazundo, Zala, Roça Novo Mundo, vale do Rio Vamba, Calua, Mucondo, Mongolo, Mata-Sanga, Lulumba, Machica, Teba, Gago Coutinho, Bom Jesus, Luvuei, Musama; ii) na Guiné, as regiões de Tiligi, Cambaju, Sincha Guela, Cutia, Uapete, Cabuca, Caté, Unchute, Gandembe, Sedengal, Farim, Tite, Pundame, Bielo, Date, Jabadá, Empada, Rio Cacneu, Oió, Madima, Boé, Canjola, Ribeirinha, Ualicunda; iii) em Moçambique, as regiões de Balama, Cabo Delgado, Niassa, Mutamba, Macondes, Quinterajo, Nova Coimbra, Friame, Madinaboré, São Domingos, Serra Jessi, margens dos rios Lucuise, Lucheringo, Lijombo, Lusahando, Milepa, Chamba, Valadim, Marrupa, Pundanhar. 3.3. Jornal de Notícias Segundo Helena Lima (2018), o Jornal de Notícias foi lançado no Porto em 1888. Nesta altura, a cidade do Porto encontrava-se a viver um período de crescimento e de melhorias urbanas, sendo o terceiro dos três jornais centenários ( Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro e o Jornal de Notícias ) que foram criados na cidade. Por conseguinte, “a iniciativa de criar um novo jornal de perfil partidário foi tomada quando a cidade do Porto apresentava um novo dinamismo em termos de crescimento demográfico e desenvolvimento industrial. Estes fatores de modernidade eram, ainda assim modestos, e a concentração populacional nunca atingiu os níveis de Lisboa” (Lima, 2018, p. 239). 16 Comunicado das Forças Armadas da Guiné. (1970, outubro 26). Diário da Manhã, nº 14103, p.2. 38 governo republicano, democrático e laico para Angola, eleito por um regime eleitoral baseado no sufrágio universal, igual, direto e secreto; da reconstrução económica e do desenvolvimento da produção; de uma reforma agrária, com o objetivo de fazer desaparecer todas as injustiças, de liquidar o monopólio privado dos produtos de consumo agrícola e de concretizar a máxima “a terra a quem a trabalha”; de uma política social de justiça e de progresso; de um desenvolvimento da instrução, da cultura e da educação; da criação de uma defesa de cariz nacional; de uma política externa independente e pacífica. Na edição do BAC de dezembro de 1972, de entre os vários assuntos presentes nessa edição, destacamos uma entrevista realizada a Amílcar Cabral, líder do PAIGC, em outubro de 1971. No que respeita à situação atual e às perspetivas futuras da luta de libertação da Guiné, segundo Cabral: Ela é caracterizada fundamentalmente pelo facto de que libertámos já a maior parte da nossa terra, na Guiné, numa proporção de mais de dois terços do território nacional e que controlamos efetivamente quase a totalidade dessa parte libertada […]. No plano militar a situação é caracterizada principalmente por um recuo crescente, como já definimos aliás, das forças colonialistas para os principais centros urbanos e um avanço progressivo das nossas forças em direcção a esses centros urbanos. […] A nossa acção é caracterizada principalmente por ataques frequentes e cada dia mais intensos contra as posições dos colonialistas portugueses nos centros urbanos.25 No que respeita à posição do PAIGC em relação ao povo português, bem como a forma como Amílcar Cabral via a relação entre a luta antifascista e a luta anticolonial e as futuras ligações de uma Guiné independente com Portugal, o mesmo assegurava: Nós marchamos juntos e, além disso, no nosso povo seja em Cabo Verde seja na Guiné existe toda uma ligação de sangue, não só de história mas também de sangue e fundamentalmente de cultura com o povo de Portugal. […] Essa nossa cultura também está influenciada pela cultura portuguesa e nós estamos prontos a aceitar todo o aspecto positivo da cultura dos outros. […] o colonialismo português explorou o nosso povo da maneira mais bárbara e mais criminosa e quando reclamámos o direito de ser gente, nós mesmos, de sermos homens, parte da humanidade, e de termos a nossa própria personalidade, a resposta é a repressão com a guerra colonial. […] Mas nós nunca confundimos “colonialismo português” com “povo de Portugal”, e temos feito tudo, na medida das nossas possibilidades, para preservar, apesar dos crimes cometidos pelos colonialistas portugueses, as possibilidades duma cooperação, de amizade, de solidariedade e de colaboração eficaz com o povo de Portugal, numa base de independência, de igualdade de direitos e de reciprocidade de vantagens seja para o progresso da nossa terra seja para o progresso do povo português. O povo português está submetido há cerca de já quase meio século a um regime que pelas suas características não pode deixar de ser chamado fascista. A nossa luta é contra o colonialismo português, contra a dominação colonial portuguesa, mas não deixamos de ver a ligação que existe entre a 25 A libertação da Guiné. (1972, dezembro ). Boletim Anti-Colonial, pp.2 e 3. 39 luta antifascista e a luta anticolonialista. Nós estamos absolutamente convencidos de que, se em Portugal se instalasse amanhã um governo que não fosse fascista, mas fosse democrático, progressista, reconhecedor do direito dos povos à autodeterminação e à independência, a nossa relação não teria razão de ser.26 Nas edições de fevereiro e de março de 1973, de entre os vários assuntos aí tratados, podemos destacar uma quantificação do número de baixas sofridas pelo MPLA e pelas forças portuguesas. No que respeita às baixas portuguesas, o BAC informa que, só em 1970, morreram 355 pessoas (118 militares e 237 civis), ficaram feridas outras 1242 (dos quais 866 militares e 376 civis) e encontravamse desaparecidas 3598 pessoas. O BAC revela ainda que, também 1970, a guerra colonial em Angola teria provocado, de ambos os lados, 1639 mortos, 1739 feridos, 7052 presos e 2598 desaparecidos. Segundo a tabela presente na Fig. 3, podemos constatar que entre 1963 e 1970 morreram 9359 pessoas ligadas ao MPLA, foram feridas 3645 e foram presas 26219, contabilizando-se um total de 39223 elementos ligados ao MPLA que, de uma ou de outra forma, deixaram de estar disponíveis para combater. Também através da Fig. 3 podemos contatar que de 1963 a 1968 o número de mortos foi subindo constantemente, sendo 1968 o ano com o maior número de mortes. Depois, a tendência desses números foi, pelo menos até 1970, a da diminuição. No que respeita aos presos, de 1966 a 1970 podemos ver, mais ou menos, uma constante subida, contrariando a tendência do período 19631965, em que o número de detenções vinha sofrendo uma queda significativa. Figura 3 - Quantitativo das baixas sofridas pelo MPLA entre 1963 e 197027 26 A libertação da Guiné. (1972, dezembro ). Boletim Anti-Colonial, pp.4 e 5. 40 3.5. Avante! Segundo a informação disponível no site do Arquivo Marxista na Internet 28, o Avante! foi o jornal comunista clandestino que durou mais tempo em todo o mundo, sendo produzido em condições de clandestinidade no período compreendido entre 15 de fevereiro de 1931 e 25 de abril de 1974 e marcado por uma ditadura fascista – o periódico continua, atualmente, a ser publicado continuamente e a servir de órgão central do Partido Comunista Português (PCP): O órgão central do PCP orientou e mobilizou as lutas da classe operária e de todos os trabalhadores em pequenas e grandes batalhas contra o capital e contra o regime fundado por Salazar e prosseguido por Caetano, orientou e mobilizou sectores democráticos que perfilharam, com os comunistas, uma política de unidade antifascista visando o derrubamento da ditadura terrorista dos monopólios e dos latifúndios aliados ao imperialismo e a conquista da liberdade e da democracia29. Ainda segundo o Arquivo Marxista na Internet , o Avante! surgiu como uma sucessão de outras publicações comunistas anteriores à reorganização de 1929. O jornal foi fundado e dirigido por Bento Gonçalves, passando a ser publicado com regularidade mensal, sem uma falha, a partir da reorganização de 40/41, em que Álvaro Cunhal assumiu um papel destacado. Por várias vezes, o jornal fez tiragens quinzenais e semanais, atingindo, durante o período de grandes lutas dos anos 1940, o número impressionante de 10 mil exemplares. Numa primeira análise, podemos facilmente constatar que, no que diz respeito à linguagem, a mesma se assemelhava à utilizada pelo BAC , apresentando o governo como uma ditadura fascista e salazarista e apelando constantemente para o derrube do regime e a instauração de uma democracia. No que respeita à guerra, o jornal apoiava fortemente os movimentos de libertação (aclamados como camaradas e heróis) e apelava ao fim de uma guerra que não era desejada pela maioria dos portugueses. No jornal da 1ª quinzena de fevereiro de 1961, podemos ver o apoio do jornal a Angola, referindo-se que o povo angolano iniciou a sua luta pela independência. Ao mesmo tempo, o jornal chama a atenção para a linguagem que os jornais controlados pela censura, e analisados anteriormente, usavam para dar a ilusão da existência de uma suposta tranquilidade. O jornal salientava ainda a repressão das autoridades salazaristas, acusando-as de assassinarem angolanos que procuravam apenas lutar pelos seus direitos30. Na edição de maio de 1961, o jornal prosseguiu com o apelo ao levantamento em massa para o derrube da ditadura fascista. Nesta notícia podemos constatar o forte 27 Fonte: Dois relatórios secretos. (1973, fevereiro/março). Boletim Anti-Colonial, p.12. 28 Fonte: Imprensa Proletária. (2023). Arquivo Marxista na Internet. https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/avante/index.htm 29 Imprensa Proletária. (2023). Arquivo Marxista na Internet. https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/avante/index.htm 30 O povo de Angola inicia a luta armada pela sua independência. (1961, fevereiro). Avante!, p. 1. 41 apoio ao povo angolano, destacando-lhe a coragem e o heroísmo31. Na edição da 1ª quinzena de julho de 1961 foi publicado um apelo do PCP para que os soldados portugueses se manifestassem contra a guerra, salientando alguns quartéis onde existiriam já protestos contra o conflito. No quartel de Caçadores 5, em Lisboa, onde se têm registado nos últimos meses manifestações de descontentamento, deu-se no dia 20 de Junho uma importante luta, quando 180 soldados mobilizados para partir para Moçambique se manifestaram valentemente contra os comandos, recusando-se a entrar na formatura e fazendo um levantamento de rancho, que foi apoiado por todos os outros soldados do quartel. […] No quartel de Infantaria 7, em Leiria, o soldado Fernando Gil declarou em plena parada que se recusava a partir para Angola por não estar disposto a ir massacrar os patriotas africanos numa guerra contrária aos interesses de Portugal. […] No quartel de Cavalaria 7, em Lisboa, tendo o comandante mandado distribuir no dia 5 de Maio esmolas às famílias dos mobilizados, um soldado arrancou o dinheiro das mãos da mulher e perguntou ao oficial se era com aquilo que iam viver a mulher e os filhos. A resposta do oficial foi agredi-lo barbaramente com o cinturão e só não o prendeu porque a isso se opuseram os restantes soldados. […] No quartel de Infantaria 3, em Beja, o general fascista Alves de Sousa fez um discurso ameaçador aos soldados formados na parada, por estes virem manifestando o seu descontentamento contra a guerra. Em sinal de protesto contra as ameaças, os soldados fizeram neste mesmo dia um levantamento de rancho que os oficiais não conseguiram quebrar. Também do Porto, Queluz, Tomar e outras localidades chegam notícias de acções de resistência dos soldados contra o embarque, de numerosas deserções e de faltas sistemáticas às formaturas e ao recolher. […] Unidos e organizados, recusai-vos a embarcar para as colónias, recusai-vos a massacrar os povos que lutam pela sua libertação.32 Para além disso, no que respeita aos combates em si, o jornal chamava a atenção para os crimes de guerra cometidos por oficiais portugueses, exigindo um castigo para os mesmos. O Avante! denunciava ainda a tortura, a mutilação e o enterro de pessoas vivas, entre outros crimes de guerra. Segundo uma notícia de dezembro de 1962, continuaremos a denunciar estes crimes que são um verdadeiro atentado contra a humanidade da parte do governo salazarista. Durante o avanço para o Norte, há um ano, tornou-se «moda» pregar às portas dos quartéis, à entrada de povoações, nos carros militares, etc., cabeças, orelhas, órgãos sexuais e cadáveres mutilados dos nacionalistas; chegou a andar em Luanda uma viatura militar de cavalaria ornamentada com orelhas exibidas como troféu de guerra. O capitão Leandro, durante os interrogatórios a patriotas africanos capturados, escrevia-lhes UPA nas costas com a ponta de um canivete. O alferes Duque enterrou vivos os nacionalistas, deixando-lhes um braço de fora, colocando-lhes laranjas nas mãos […]. O capitão Zilhão, depois da sua companhia ter sofrido três baixas, exerceu uma acção que considera compensadora, visto que fez 250 mortos. Em seguida ordenou que se cortassem algumas cabeças para servirem de aviso. […] O 31 Abaixo a Guerra Colonial! O memento é de unidade e de acção! Organizaremos o levantamento em massa da Nação contra a ditadura fascista. (1961, maio). Avante! , p. 1 32 Os soldados levantam-se contra a guerra. (1961, julho). Avante! , p. 4. 42 alferes Robles, monstruoso assassino de centenas de pessoas […] descobriu um novo requinte de sadismo: tomar as refeições a uma mesa ornamentada por dias cabeças cortadas. O alferes Esteves Pinto, antigo estudante fascista de Lisboa, obrigava os prisioneiros a engolir balas e gasolina, abrindo-lhes em seguida o estômago e comentando: «dá cá isso que pertence ao Estado»33. Como se pode verificar na citação anterior, o Avante! caracteriza os movimentos de libertação africanos como “patriotas africanos”, enquanto que os jornais controlados pelo o regime os consideram “antiportugueses”. O Avante! considera os movimentos de libertação “patriotas” pois o jornal defendia o direito à independência e autodeterminação dos povos africanos. Neste sentido, os mesmos eram “patriotas” pois estavam a lutar pela sua pátria que, no caso desta notícia, é Angola. No caso dos jornais controlados pelo regime, a situação é a oposta. Os movimentos de libertação são caracterizados como “anti-portugueses” pois os mesmos estavam a lutar contra militares portugueses, tentando controlar territórios que pertenciam a Portugal. Na edição de fevereiro de 1964, o jornal acusou o governo de Salazar de mentir ao povo português e de esconder os nefastos efeitos da guerra, como, por exemplo, o verdadeiro número de baixas causadas pela guerra e de esconder muitas dessas baixas reportando-as como simples “acidentes” e não como consequências dos combates com os movimentos de libertação. O jornal mostrou também um exemplo que comprovaria a situação anteriormente referida: os comunicados das forças de Angola e da Guiné (denominadas pelo jornal como patrióticas) revelavam que só no dia 16 de janeiro de 1964 tinham morrido em combate 127 militares portugueses. Na edição de janeiro de 1965, foi revelado que o governo português teria gastado, só em 1964, cerca de 6 milhões e 460 mil contos para cobrir as despesas de guerra. Na mesma notícia, o jornal chamava ainda a atenção para o facto de se gastarem imensas verbas para pagar a guerra, em vez de se investir no desenvolvimento da economia portuguesa. Segundo a notícia, o Plano Intercalar de Fomento da época para ajudar a desenvolver a economia, destinava apenas 2 milhões 829 mil contos a serem gastos num período de 3 anos. Para além disso, o jornal defendia também que o valor destinado para a guerra poderia servir para construir 64 mil habitações de forma a ajudar as numerosas famílias que viviam em barracas. Na edição de agosto de 1970, o jornal chamou a atenção para o sucesso da Conferência de Roma, que teria demonstrado o isolamento internacional a que o governo de Marcelo Caetano estava sujeito no que respeitava à guerra colonial. O jornal sublinhou também a enorme humilhação que o governo sofreu quando, como referido anteriormente, o Papa concedeu uma audiência aos dirigentes do MPLA, do PAIGC e da FRELIMO, reconhecendo-os, com esse gesto simbólico, como representantes legítimos 33Que termine a guerra de Angola! Castigo para os criminosos de Guerra! (1962, dezembro). Avante!, p. 1. 43 dos seus povos e mostrando que o Papa também estava contra a política colonial portuguesa. Os fascistas, que tentaram inicialmente diminuir o significado e o êxito da Conferência de Roma, denegrindo e caluniando os movimentos de libertação e os seus dirigentes, foram surpreendidos pela grande repercussão internacional destes factos. A censura impôs durante vários dias o mais completo silêncio aos órgãos de informação enquanto o governo procurava nos bastidores uma saída airosa para o «escândalo» mundial provocado pelo gesto do Papa. Tentando atenuar a repercussão interna dos acontecimentos, que para os católicos portugueses que lutam contra o colonialismo comprovam a justeza desta luta, M. Caetano foi obrigado a contentar-se com a «Nota» explicativa do Vaticano que nada alterou ao fundo da questão, apressando-se a dar assim o caso como encerrado. Tudo se reduzia afinal, segundo M. Caetano, a «um exagero de interpretação publicitária» e à ingenuidade do Papa.34 O jornal realizou, em janeiro de 1973, um balanço das regiões controladas pelos movimentos de libertação e apelou a que o governo aceitasse a realização negociações de paz com os movimentos de libertação. De acordo com a notícia, em Angola, a acção político-militar do MPLA que já em 1971 abrangia dez distritos foi alargada, em 1972, à rica região dos altos planaltos e atingiu a frente mais avançada no centro do país sobre a linha de demarcação dos distritos de Luanda, Malange e Bié. […] Em Moçambique, os combatentes da FRELIMO que já em 1971 tinham alargado a sua acção para o sul do Zambeze, abriram, em 1972, a nova frente militar de Manica e Sofala, atacaram a cidade de Tete, implantaram-se numa vasta região que circunda Cabora Bassa, ameaçando as obras em curso. Na Guiné, o PAIGC que domina mais de dois terços do território enfrentou com sucesso a tentativa do exército colonial para retomar regiões libertadas e infligiu-lhe pesadas baixas. […] Reafirmando solenemente perante o Conselho de Segurança a disposição de entabularem negociações com o governo português, os movimentos de libertação demonstraram perante a comunidade internacional o alto sentido de responsabilidade de que estão animados, quer em relação aos interesses dos povos de que são vanguarda, quer em relação aos interesses da segurança e da paz em África e colocaram o governo de M. Caetano na situação de único e obstinado responsável pelo prosseguimento da guerra.35 3.6. Análise comparativa entre os jornais legalizados e os jornais clandestinos Pela própria análise anteriormente realizada a cada jornal, é possível ter uma ideia generalizada das diferenças de linguagem entre os jornais controlados pela censura, neste caso, o Diário de Lisboa , o Diário da Manhã e o Jornal de Notícias e os jornais clandestinos Boletim Anti-Colonial e Avante! . Ao consultarmos os jornais controlados pela censura pudemos constatar que estes caracterizavam os combatentes nativos e os movimentos de libertação como grupos terroristas, de bailundos, de 34 O colonialismo português no Pelourinho internacional. (1970, agosto). Avante!, p. 1. 35Urge pôr fim à Guerra Colonial! (1973, janeiro). Avante!, pp.1 e 6. 44 bandoleiros, de bandos de facínoras e de “foras da lei”. Já os jornais clandestinos consideram-nos camaradas, patriotas africanos e povos heroicos. Ao contrário dos jornais controlados pela censura que classificavam as ações destes movimentos como ataques terroristas, os jornais clandestinos defendiam que os povos de Angola, de Moçambique e de Guiné estavam apenas a lutar pelo seu legítimo direito à independência. Também pudemos constatar diferenças no próprio modo como as ex-colónias são denominadas: nos jornais controlados pela censura, Angola, Guiné e Moçambique são referidas como “províncias ultramarinas”; por seu lado, os jornais clandestinos apresentavam-nos como territórios e povos independentes injusta, tirânica e violentamente ocupados pelas forças coloniais portuguesas. No que diz respeito à ação do governo português identificámos claras diferenças quanto à sua caracterização. Nos jornais controlados pela censura, o governo de Salazar e, posteriormente, de Marcelo Caetano era sempre elogiado pela sua ação patriótica contra os terroristas, dizendo-se que reunia o forte apoio da população portuguesa. Já os jornais clandestinos consideravam o governo salazarista como sendo fascista e colonialista. Caracterizam também o regime como uma ditadura que procurava manter o seu império colonial e que recolhia cada vez menos apoio entre a população portuguesa. A partir dos exemplos de notícias que fomos apresentando neste capítulo, sublinhamos o facto de os jornais legais e controlados pela censura apresentarem, ao longo dos vários anos do conflito, pouquíssimas notícias sobre baixas militares, sendo estas, muitas vezes, caracterizadas não como baixas de guerra mas sim como simples “acidentes” sofridos em situações que não envolviam combate. Já nos jornais clandestinos podemos constatar facilmente que o governo português omitia os números oficiais da guerra, apresentando valores muito mais baixos do que aqueles que se verificavam na realidade. Através da análise aqui desenvolvida concluímos também que os jornais legalizados tendem a sublinhar permanentemente o amplo e forte apoio de todo o povo português à política colonial do Estado Novo, assim como das Forças Armadas Portuguesas. Já nos jornais clandestinos é sempre retratado o forte descontentamento dos soldados portugueses e da maioria da população portuguesa no que respeita à participação na guerra colonial. Podemos, por fim, constatar uma realidade que não é apresentada nos jornais controlados pela censura, que é a dos crimes de guerra cometidos pelas forças militares portuguesas. Através dos exemplos, anteriormente apresentados, identificámos exemplos dos vários crimes de guerra cometidos por militares portugueses, entre eles, a tortura, a mutilação de membros e o enterro de pessoas vivas, entre outros crimes. 45 4. História do Regimento de Cavalaria N.º 6 Segundo a informação disponível em Organização da Cavalaria (2023) , a cavalaria portuguesa foi organizada em regimentos através da publicação do Regimento das Novas Ordenanças de 15 de novembro de 1707. Até então, a cavalaria portuguesa mantinha a organização vinda da Guerra da Restauração, estruturando-se em companhias independentes – "tropas" – organizadas temporariamente em Troços. Após a aplicação do Regimento das Novas Ordenanças, a cavalaria portuguesa passou a estar organizada em 12 companhias de 40 homens cada, formando 4 esquadrões. Em 1715, aquando da publicação da nova normativa, existiam 20 regimentos. Ainda sobre a organização dos regimentos de cavalaria em Portugal existentes no século XVIII: Pelo decreto de 31 de Agosto de 1715 que reduziu o exército, devido ao fim da Guerra de Sucessão de Espanha, os regimentos de cavalaria passaram a ser em número de 10, compostos de 10 companhias a 30 homens cada. Seis eram de "Cavalaria Ligeira" e 4 eram de "Dragões." Os regimentos de Cavalaria Ligeira eram os regimentos de batalha e eram considerados ligeiros devido à nomenclatura vinda do século XVII, em que só eram considerados cavalaria pesada os lanceiros e os couraceiros, isto é a cavalaria equipada de couraças completas, e não como a "ligeira" equipada somente dos peitorais, ou "peitos" – a parte frontal –, das couraças. Os regimentos de Dragões eram considerados infantaria a cavalo, e por isso mantiveram até 1763 uma companhia de granadeiros a cavalo com barretes de pele, e tambores como músicos. ( Organização da Cavalaria , 2023) Segundo Organização da Cavalaria (2023) 36, em 1735, devido a uma possível guerra com Espanha na Europa, a força do exército foi duplicada, passando os regimentos de cavalaria a ter 12 companhias de 50 homens cada, englobando um total de 600 homens. Para além disso, nesse mesmo ano, foi criado o posto de Diretor-Geral da Cavalaria, sendo nomeado para o cargo o conde de Assumar, 1º marquês de Alorna, em 1748, e avô de D. Pedro de Almeida Portugal, 3º marquês de Alorna. A organização anteriormente descrita manteve-se até 1754, quando o Exército de D. João V começou a ser desmantelado. “Pelo decreto de 12 de Janeiro de 1754, as companhias dos regimentos de cavalaria passaram a ter 30 soldados, regressando à organização de 1715. Em 1757 foi nomeado Diretor Geral da Cavalaria o Marquês de Marialva, cargo que passou a ter o nome oficial de General de Cavalaria em 1762” (Organização da Cavalaria, 2023). Assim, A estrutura da arma foi modificada de novo devido à Guerra do Pacto de Família, declarada em 1762 entre Portugal e a Espanha auxiliada pela França, quando se aumentou os efectivos das companhias para 42 homens, e o número de companhias em 8, ficando cada regimento a 20 companhias. Este aumento não foi 36 Organização da Cavalaria. (2023). Arqnet. https://www.arqnet.pt/exercito/orgcaval.html. 46 posto em prática, tentando-se criar 4 regimentos de cavalaria com as companhias mandadas levantar. Só o Regimento de Cavalaria de Meclemburgo foi de facto levantado durante a campanha. ( Organização da Cavalaria , 2023) Após o término da guerra, em 1763, a cavalaria portuguesa passou a ter 12 regimentos, tendo sido criado um novo no final desse ano. Os mesmos passam a estar organizados em 8 companhias de 30 homens, agrupados em 4 esquadrões. Até 1797, a organização da cavalaria não sofreu mais modificações. Segundo Almeida (1998), após a derrota de Portugal, aquando invasão da Espanha em 1801 e devido ao agravamento do conflito entre a França (aliada da Espanha) e a Inglaterra (aliada de Portugal), o país adotou uma série de alterações no seu Exército: Na organização de 19 de Maio de 1806 aparece pela primeira vez a numeração dos regimentos. No que diz respeito à Arma de Cavalaria os seus Regimentos são numerados de 1 a 12, e são repartidos por três Divisões denominadas por Divisão do Norte, do Centro e do Sul. Compunham a Divisão do Norte os Regimentos de Cavalaria nºs 3, 6, 9 e 12. […] Esta numeração dos regimentos está dependente da organização do Exército em Brigadas e Divisões. Ela é bastante importante para pôr ordem no corpo militar. Permite evitar a confusão e colocar os regimentos pelo seu número, independentemente da graduação e antiguidade do comandante, sistema usado até esta altura. (Almeida, 1998, p. 19) A obra denominada Regimento de Cavalaria Nº6. Síntese Histórica 37 constitui uma importante fonte para o estudo da herança histórica do RC6. Segundo Regimento de Cavalaria N.º 6 (1997), a origem do RC6 remonta ao século XVIII e é proveniente de dois marcos históricos: o primeiro, referente aos Regimentos de Cavalaria de Trás-os-Montes, implantados na região do dealbar do século XVIII; o segundo marco histórico diz respeito à reorganização do Exército de 1901 anteriormente referida. Segundo Regimento de Cavalaria N.º 6 (1997), em 1754, o Regimento de Dragões de Trás-os-Montes tomou a designação de Regimento de Dragões de Chaves. Ainda nesse ano, foi criado o Regimento de Cavalaria Ligeira de Bragança. Em 1762, os dois Regimentos, anteriormente referidos, foram transferidos para o Ribatejo. O de Bragança passa a designar-se Regimento de Cavalaria de Trás-osMontes, ficando sediado na Golegã, e o de Chaves, designado Regimento de Dragões de Trás-osMontes (fig. 1), sediado em Santarém. Por alvará de 24 de Fevereiro de 1764 passam a existir três Regimentos de Cavalaria na província de Trásos-Montes: o Regimento de Cavalaria da cidade de Bragança cujo Comandante é o Coronel Duarte Smith, o Regimento de Cavalaria da praça de Chaves sendo Comandante o Coronel D. Pedro Manual de Vilhena e o Regimento de Cavalaria da cidade de Miranda comandado pelo Coronel Baltazar Jacome do Lago. (Regimento de Cavalaria Nº. 6, 1997, pp. 8–9) 37 Regimento de Cavalaria N.º 6. (1997). Regimento de Cavalaria No6. Síntese Histórica. Braga: Regimento de Cavalaria N.º 6. 47 Com a organização do Exército de 1806 uma nova nomenclatura é adotada, passando os Regimentos a serem, pela primeira vez, numerados. Nesta altura, existiam os seguintes Regimentos de Cavalaria em Portugal: Regimento de Cavalaria Nº 6 em Bragança, Nº 9 em Chaves e Nº 12 em Miranda. Em 1808, os Regimentos da Divisão Norte foram reorganizados: Regimento de Cavalaria Nº 6 no Porto, Nº 9 em Braga e Nº 12 em Chaves. Em clima de Guerra Civil38, D. Pedro, em 28 de fevereiro de 1834, reorganizou, na cidade do Porto, o Regimento de Cavalaria Nº 6, que fora extinto por D. Miguel em 1829, integrando neste Regimento todos os militares que apoiavam a sua causa e que tinham abandonado os Regimentos de Cavalaria do Norte que mantinham o seu apoio à causa absolutista. Com o término da guerra e a vitória dos liberais, foram extintos os Regimentos apoiantes de D. Miguel, e o RC6, em março de 1835, passa a ocupar o quartel de Chaves, onde permanecerá até 1927. Segundo Hermenegildo Almeida (1998), o atual RC6 localizado em Braga teve a sua origem na organização do exército de 1901, quando a Arma de Cavalaria passou a ser composta por dez regimentos numerados de 1 a 10. No entanto, o Regimento não era denominado RC6, mas sim Regimento de Cavalaria N.º 9 (RC9). O RC9, aquando sua criação, era constituído por quatro esquadrões, ficando o primeiro e o segundo esquadrões situados no Porto e os restantes em Bragança. Esta organização vai prevalecer até ao 5 de outubro de 1910, dia da implantação da República Portuguesa. Segundo Hermenegildo Almeida (1998), o Ministro da Guerra decretou, em 1911, que as tropas ativas do exército metropolitano passavam a formar oito divisões, ficando o RC9 a fazer parte da 3.ª divisão. O RC9 continuou, no entanto, a estar sediado no Porto e a fazer parte da 3.ª Circunscrição. Ainda segundo o autor, em junho do mesmo ano, os Regimentos, incluindo o RC9, sofreram novamente alterações. O RC9 perdeu o quarto esquadrão, passando este a juntar-se a outros esquadrões que vão dar origem a um novo Regimento, o Regimento de Cavalaria N.º 11 (RC11) (fig. 1) com sede em Braga. No entanto, o resultado destas alterações não foi o esperado. Segundo Marco Silva (2011): nesta nova organização, a instrução militar preparatória era vista como fundamental e indispensável para a formação de milicianos, de modo a reduzir a duração das escolas de recrutas, aceitando que esta instrução viria a ser complementada e consolidada nas sucessivas escolas de repetição às quais deveriam acorrer anualmente tanto as praças licenciadas do exército ativo como as da reserva. No entanto, esta instrução militar preparatória parece ter sido mal sucedida, não só pela deficiente orientação que foi dada, como também por não ter sido apoiada pelas escolas de repetição, que foram interrompidas durante a I Guerra Mundial para não mais se realizarem, alegadamente por dificuldades financeiras. (Silva, 2011, p. 6) 38 Também conhecida como Guerras Liberais, a Guerra Civil Portuguesa foi um conflito travado em Portugal entre os liberais constitucionalistas e os absolutistas sobre a sucessão real e ocorreu entre 1832 e 1834. 54 ações de planeamento e coordenação da manutenção das infraestruturas à sua responsabilidade; x) participar na defesa terrestre do território nacional, de acordo com as missões que lhe sejam cometidas em planos operacionais; xi) prestar cuidados de saúde de proximidade, através da Unidade de Saúde, aos militares do Exército e, na sua capacidade sobrante, a outros utentes de acordo com as diretivas superiores e ao abrigo de protocolos estabelecidos; xii) colaborar em ações de apoio ao desenvolvimento e bem-estar da população, conforme lhes for determinado; xiii) garantir o cumprimento das disposições legais sobre servidões militares nas áreas à sua responsabilidade; e, por fim, xiv) cumprir outras missões ou realizar outras tarefas que lhe sejam cometidas superiormente. 55 5. O dia-a-dia do Regimento de Cavalaria N.º 6 durante a guerra Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), as Ordens de Serviço (OS) do RC6 contêm muitos dos movimentos administrativos, instrução e cerimónias realizadas em Portugal Continental. Para além disso, pode-se verificar nas OS durante o período da guerra, transcrições de louvores que foram originalmente publicadas nas Ordens de Serviço das unidades ou comandos e regiões militares a que pertenciam os militares. No que respeita à instrução militar, os autores referem: Como ponto de partida da investigação considerou-se como Esforço de Guerra o conjunto de ações de instrução, mobilização e treino, suportadas num corpo doutrinário e de conhecimento com vista à constituição de unidades coesas, convenientemente equipadas, treinadas e comandadas, cujo emprego operacional no terreno, e face à inteligência adversa que se lhe opõe, pretende contribuir para um resultado vitorioso. A instrução entendida no seu carácter individual, dividida em Escola de Recrutas (ER) corresponde à Instrução Básica (IB) e Instrução de Especialidade (IE). A mobilização enquanto atividade de instrução coletiva e treino de preparação dos Pelotões de Reconhecimento, já como unidade reunida na unidade de mobilização. O emprego operacional entendido como toda a atividade operacional desenvolvida e que contribuiu para os resultados obtidos, muitas vezes difíceis de mensurar. (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 474) Ainda segundo os autores anteriormente referidos, em 1960, o RC6 era um dos oito Regimentos de Cavalaria do Exército Português. No início de 1961, o RC6 deixou de desempenhar funções de Centro de Instrução, passando apenas a constituir uma Unidade Operacional reduzida. No que respeita às instalações, existiam no RC6 casernas higiénicas e espaçosas com capacidade para cerca de 800 homens. Quanto ao refeitório, às cozinhas, às instalações sanitárias, às salas de Praças e de Sargentos, às Messes, às arrecadações e secretarias, bem como todas as restantes dependências, as mesmas eram modelares e estavam instaladas em edifícios recentemente construídos. Freire & Dantas Pereira (2021) acrescentam que, apesar do RC6 estar situado (na época) na cidade do Porto, existia a menos de cinco quilómetros de distância uma ampla rede de estradas e caminhos municipais e que atravessava uma zona de densa vegetação e arborização com ótimas condições para a instrução das tropas de reconhecimento, especialmente essenciais para exercícios de guerrilha e contraguerrilha. Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), na época de 60, o RC6 era composto organicamente por três esquadrões: um Esquadrão de Reconhecimento (ERec), um Esquadrão de Centro de Instrução e Aperfeiçoamento de Condução Auto (CIACA), e por um Esquadrão de Formação e Comando. Em 1961, a mobilização realizada para Angola foi generalista, através das Companhias de Cavalaria (CCav), não havendo qualquer mobilização específica das especialidades de cavalaria. Os autores acrescentam que é só no período de 1964 a 1974 que se verifica uma mobilização focada nos Pelotões de 56 Reconhecimento AM Daimler (PelRec AM Daimler). Estiveram mobilizados em simultâneo: Angola, Moçambique e Guiné, 19 pelotões, dos quais quatro, e depois dois, em Angola, seis em Moçambique e 11 na Guiné. O PelRec AM Daimler foi pensado para trabalhar e atuar como uma unidade una e indivisível, competindo ao seu Comandante de Pelotão a gestão deste esforço. No entanto, verificou-se em vários casos que os pelotões foram divididos enviando os seus militares e viaturas para diferentes setores da unidade a que estavam adidos. Geralmente as viaturas encontravam-se num estado operacional muito deficiente condicionando o emprego operacional do pelotão. Por exemplo, chegou-se a empregar apenas uma viatura em determinadas missões quando a doutrina aconselhava no mínimo uma patrulha (duas viaturas). (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 483) Freire & Dantas Pereira (2021) realizam uma importante descrição dos Pelotões de Reconhecimento AM Daimler. Segundo os autores, ainda que os PelRec AM Daimler fossem uma unidade bastante ligeira, os mesmos possuíam mobilidade, proteção e poder de fogo, devido às suas viaturas blindadas e metralhadoras ligeiras, melhoradas quando comparadas com unidades de um escalão superior ou de outra tipologia, como por exemplo, as CCav. No que respeita à constituição de um PelRec AM Daimler: O PelRec AM Daimler era uma unidade de Reconhecimento de escalão pelotão equipada com a Viatura Blindada de Reconhecimento Daimler Mk III 3 Ton 4x4 m/963. Era constituído por um oficial, um sargento, seis soldados e seis cabos num total de 14 militares. Organicamente o pelotão tinha uma viatura do tipo jipe 4x4 para o Comandante de Pelotão e cinco viaturas Daimler, cada uma com uma guarnição de dois militares, um soldado condutor e um cabo apontador de metralhadora que era também o chefe da viatura. Cada militar tinha como armamento individual uma Espingarda Automática G3 7,62mm e cada viatura tinha uma Metralhadora Ligeira que poderia ser um dos seguintes modelos: Metralhadora Ligeira (ML) Madsen 7,9 mm; ML Dreyse 7,9 mm ou ML MG-42 7,62 mm. Em termos de comunicações deveria haver um rádio E/R NA/GRC 9 e um PRC 10. (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 476) Para além disso, Freire & Dantas Pereira (2021) também referem os tipos de missões, para as quais os PelRec AM Daimler estavam destinados, entre elas: • Missões de unidades blindadas de reconhecimento, ou seja, missões de reconhecimento e patrulhamento de itinerários, escoltas a colunas militares, patrulhamentos diurnos e noturnos a diversas zonas, de preferência a povoações. No que respeita ao procedimento nas colunas diárias, eram empregues três viaturas e, sempre que possível, com uma primeira imediatamente atrás do rebenta minas, outra a meio da coluna e uma como fila. O rebenta minas estava equipado com uma GMC carregada de sacos de areia, sendo os picadores responsáveis por picar o chão com o intuito de descobrir possíveis minas enterradas. A coluna 57 era composta por GMC (com metralhadoras Breda 7,62), Unimog 411 ligeiros e pesados Mercedes Benz 404, Berliet Tramagal; • Missões de defesa dos aquartelamentos e segurança a pontos estratégicos; • Missões de apoio e defesa às populações em que, em alguns casos, levava à pernoita nessas povoações; • E também outras tarefas quando um pelotão se encontrava inoperante, os militares eram distribuídos por outras unidades, participando em operações dessas unidades ou convertidos em unidades com tarefas específicas. Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), podemos constatar como era realizada a instrução individual e a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) dos militares portugueses. No que respeita à instrução individual, a mesma era dividida em duas partes, sendo a primeira a Escola de Recrutas (ER), com uma duração de cerca de 9 semanas, e a segunda a Instrução de Especialidade (IE), com uma duração de cerca de 7 semanas. A ER poderia ser ministrada em várias unidades, no entanto, a IE era ministrada apenas em unidades especializadas. No que respeita aos militares mobilizados para integrarem os PelRec AM Daimler, a ER podia ocorrer em unidades regimentais ou Centros de Instrução de Condução Auto (CIACA) para o caso dos militares condutores. Terminada a fase de instrução, o militar era dado como Pronto, apresentando-se numa unidade da sua especialidade para prestar serviço até ao momento da sua mobilização. O tempo estimado entre o início do serviço como Pronto e a sua mobilização para entregar uma unidade com destino às ex-colónias variava entre umas semanas e quase dois anos. A IAO era a fase da mobilização que correspondia ao treino coletivo. Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), a instrução decorria na Unidade Mobilizadora que era também a Unidade Instrutora, sendo as mesmas da responsabilidade do RC7, embora tivessem existido casos em que a unidade mobilizadora fosse o RC6. A IAO tinha a duração de duas semanas, entrando os militares, posteriormente, numa licença de 10 dias. Após esse período, seguia-se a Cerimónia de Despedida na Unidade e o embarque no navio com destino ao respetivo Teatro de Operação (TO). Como referido anteriormente, uma outra fonte de pessoal para os PelRec AM Daimler eram os militares provenientes dos CICA que se apresentavam vindos destas unidades para receberem instrução de adaptação à viatura Daimler. Em termos de instrução de tiro, estes militares, geralmente, tinham já realizado tiro de iniciação e de adaptação de espingarda, 2ª Classe de Espingarda, 2ª classe de adaptação de ML e tiro noturno. (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 480) Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), os objetivos da IAO eram: generalizar, desenvolver consolidar 58 e intensificar a instrução individual do combatente; treinar o pessoal na condução das AM Daimler organizando-os e fazendo atuar o Pelotão Daimler em situações mais ou menos idênticas às das campanhas que estavam em curso nas ex-colónias; obter o endurecimento físico e fortalecimento psicológico; e desenvolver e consolidar os conhecimentos ministrados durante a Escolas de Recrutas. Ainda segundo os autores, as matérias da IAO eram: a educação física, o armamento, a contraguerrilha, a instrução Daimler, as transmissões e a organização tática e Serviços de Campanha. No que respeita às Cerimónias de Despedida na Unidade e, segundo o anexo à Ordem de Serviço N.º 23 do dia 28 de janeiro de 197043, podemos constatar como eram compostas as cerimónias. Quanto à missa e à bênção dos guiões, a mesma realizar-se-ia no dia 30 do mesmo mês, pelas 10h30 na Igreja de N. S. de Fátima. Já quantos aos procedimentos, os esquadrões fariam representar-se por uma deputação de praças devidamente enquadrada. O Esquadrão de Reconhecimento nomearia uma Guarda de Honra ao altar, sendo a mesma composta por 1 cabo e 7 soldados. No que respeita a esta Guarda de Honra, o seu armamento era composto por uma espingarda automática G-3 m/963, por um equipamento m/64 e usariam o uniforme n.º 2 com luvas brancas. Para os restantes, o uniforme do pessoal enquadrado era também o n.º 2 e dos Oficiais e Sargentos não enquadrados, seria o n.º 1. Ainda no que respeita aos uniformes, deveria estar presente com o mestre dos clarins (sendo o mesmo um 2º Sargento), um terno de clarins a fim do mesmo tocar à Elevação (hasteamento da bandeira nacional). Quanto aos guiões, os mesmos eram transportados por uma viatura até à Igreja, onde, na ausência dos sargentos dos pelotões mobilizados, a praça mais antiga de cada um dos pelotões (no caso desta Ordem de Serviço, os pelotões que seriam mobilizados seriam os PelRec Daimler N.ºs 2202, 2203, 2204, 2205, 2206, 2207, 2208, 2209, 2210 e 2211) receberia o guião que competia ao seu pelotão. Estes Guiões, durante a missa, seriam postados ao lado do altar-mor. No final da missa, os guiões seriam conduzidos para a frente do altar para se proceder à cerimónia da Bênção. Terminada a cerimónia, os guiões seriam colocados numa viatura, onde seriam transportados para o RC6. No que respeita às deputações dos esquadrões, os PelRec Daimler e a Guarda de Honra ao Altar deslocar-se-iam para a igreja a partir das 10h e seriam formadas a pé. Eram convidados a assistir a estas cerimónias religiosas os Oficiais e Sargentos disponíveis. Ainda através da Ordem de Serviço n.º 23 de 28 de janeiro de 1970, podemos também verificar como era composta a formatura geral e a entrega dos guiões. Os guiões seriam entregues pelas 15h perante uma formatura geral do Regimento de Cavalaria N.º 6. Quanto à formatura do RC6, a mesma era 43 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais . Anexo à Ordem de Serviço N.º 23 de 28 de janeiro de 1970, pp. 1 e 2. 59 constituída por um grupo de 2 esquadrões, com todo o pessoal disponível e vestidos com um terno de clarins, estando o guião sob o comando do Capitão de Cavalaria, formado naquela hora na parada “Mouzinho” com frente para a Tribuna. Quanto aos 2 esquadrões anteriormente referidos, o 1º esquadrão estaria sob o Comando de um Capitão, sendo formado por 4 pelotões de militares pertencentes ao Esquadrão de Reconhecimento e do Esquadrão de Formação e Comando. Já quanto ao 2º esquadrão, o mesmo estaria sob o comando de um outro Capitão, sendo formado por 4 pelotões de militares pertencentes ao Esquadrão do CIACA. Os militares, quanto à sua vestimenta, utilizariam o 2º uniforme e, no que respeita ao armamento, os Oficiais utilizariam uma pistola, os Sargentos uma Pistola Metralhadora (P. M.) e os Praças utilizariam a Espingarda Automática G-3 m/63. O equipamento utilizado seria o m/64 e o horário para o formar seria às 14h30 e o de unir às 14h45. Ainda é descrito nesta Ordem de Serviço que os pelotões mobilizados formariam sob o Comando dos respetivos comandantes, em que todo o pessoal teria de utilizar a boina. Para além disso, o Esquadrão de Reconhecimento nomearia dois 1ºs Cabos que estariam responsáveis pela porta-flâmulas. Seriam nomeados também dez Sargentos responsáveis pela entrega dos guiões aos pelotões mobilizados. Por fim, os Oficiais e Sargentos não enquadrados deveriam comparecer com o uniforme n.º 1 com luvas castanhas, à exceção dos Q.C. que apenas possuíam o uniforme n.º 2. Os Praças que não fariam parte da formatura assistiriam à cerimónia nas arcadas do edifício do refeitório. Após o término das Cerimónias de Despedida da Unidade, segundo Freire & Dantas Pereira (2021), os pelotões mobilizados seguiam de comboio para Lisboa, embarcando de noite na Estação da Campanhã e chegando já de madrugada à Estação de Santa Apolónia. Posteriormente, os pelotões seguiam de viaturas militares para a Gare Marítima de Alcântara onde se realizaria uma formatura geral seguida de um desfile em direção ao navio. Na viagem eram projetados filmes e proporcionadas algumas atividades recreativas, bem como palestras sobre o clima e as populações da província de destino. No caso do TO da Guiné seguiam para o destino final por coluna, por via fluvial, por lanchas da marinha (Lancha de Desembarque Médio), ou ainda por via aérea. Ainda na Guiné era usual uma cerimónia de apresentação e desfile perante o Comandante em Chefe as Forças Armadas, no período em que o mesmo era o General António de Spínola. (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 482). Segundo Freire & Dantas Pereira (2021), após o término do período de mobilização em África, o regresso dos pelotões ao quartel era realizado através de viaturas a partir da Estação de Campanhã. Aquando da chegada ao RC6, os pelotões eram recebidos com uma formatura geral na parada (por vezes a mesma era realizada em horas tardias). Para além da formatura geral, existia também uma 60 cerimónia de receção que se realizava no dia e hora em que os pelotões chegavam. Essas cerimónias de receção eram compostas por: umas breves palavras de boas-vindas proferidas pelo Comandante do Regimento; uma homenagem aos militares mortos pertencentes aos pelotões que regressavam; uma entrega ao Comandante do Regimento, por parte dos Comandantes dos pelotões, dos seus respetivos guiões; e por um desfile das forças em parada. Após a cerimónia foi servida a 3ª refeição no Refeitório e nas messes para os militares regressados que a desejassem. As operações de espólio e pagamento de vencimentos foram realizadas após a refeição, com indicações que os órgãos regimentais deviam providenciar que as mesmas se processassem com rapidez. (Freire & Dantas Pereira, 2021, p. 483). Como visto pelo exemplo anterior, as Ordens de Serviço do RC6 constituem uma importante fonte não só para a quantificação dos pelotões mobilizados para a guerra e cerimónias de despedidas dos mesmos, mas também porque fazem uma descrição detalhada do dia a dia do RC6. Nas Ordens de Serviço do RC6, eram descritos, diariamente, cada militar responsável por cada função no quartel. De entre as vastas funções podemos destacar: a de Pernoita, Piquete, Guarda de Polícia, Guarda ao Paiol, Clarim de dia, Mecânico de dia, Dia à Cavalaria, Ordenança à guarda da Polícia, Ordenança à secretaria, Cabo às Ordens, Ferrador (assistã), entre outras funções. Para além disso, os próprios esquadrões do regimento nomeavam: Guardas ao Paiol; Guardas de Polícia; Reforço ao Paiol; Piquete de prevenção aos atiradores e às metralhadoras; plantões destinados ao lavadouro, à cavalaria, à estrumeira, ao portão norte, à faxina exterior, às obras, ao refeitório; entre outras. Para além da distribuição de tarefas, as Ordens de Serviço do RC6 também possuíam, diariamente, capítulos destinados: a alterações no regimento, como, por exemplo, a entrada e saída de militares, marchas, animais e veículos; à instrução, em que era descrito os militares que estavam em fase de aprendizagem e, posteriormente, aquando do término da instrução e prontidão para a sua mobilização para a África; aos serviços de saúde, onde são descritos os militares que se encontram doentes; a detalhes específicos como a alimentação, ao armamento, ao fardamento, entre outras informações; à administração detalhada de verbas; a licenças concedidas a militares e que os dispensavam de servir em África; a aumentos, ou seja, listagem de militares promovidos de patente; a louvores; a castigos; à descrição de horários para banhos e para o içar e arrear da bandeira; aos impedimentos; aos relatórios de amparos; entre outros vastos assuntos. 61 Tabela 4 - Horários de funcionamento do RC6 a partir do dia 25/04/196244 Através da Ordem de Serviço N.º 97 de 24 de abril de 196245 e da Tabela 1, podemos constatar um exemplo da descrição detalhada dos horários de funcionamento do regimento a entrar em vigor a partir de 25/04/1962, quer nos dias úteis, quer nos domingos e feriados. Através da Tabela 1, podemos constatar que o dia no RC6 se iniciava às 06:30h da manhã, terminando às 22:00h com o recolher. Também podemos verificar que as Aulas Regimentais apenas funcionavam nos dias úteis. Identifica-se também que o içar e o arrear da Bandeira Nacional não tinham um horário definido nos dias úteis, algo que possivelmente seria definido mais tarde. Para além disso, são também referidos na mesma Ordem de Serviço os horários de pequeno-almoço, almoço e jantar dos Oficiais, Sargentos e Praças. No que respeita aos Oficiais, os mesmos almoçavam ao 12:30h e jantavam às 19:30h. Já os Sargentos e os Praças tomavam o pequeno-almoço às 7h (exceto aos domingos, em que era às 7:30h), o almoço ao 12:30h e o jantar às 19:30h. 44 Fonte: Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 97 de 24 de abril de 1962, pp. 586-588). 45 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 97 de 24 de abril de 1962, pp. 586-588). 62 Quanto às oficinas e obras, as mesmas funcionavam de manhã das 8h até às 11:50h, e de tarde da 13:30h até às 17:30h. A mesma Ordem de Serviço de 24 de abril de 1962, refere também os horários de banhos, quer para os Praças prontos, quer para os Esquadrões do RC6. Quanto aos Praças prontos, o Esquadrão de Recrutamento possuía um horário para banhos às 2ªs e 5ªs feiras das 11:45h ao 12:15h. A Formação tinha como horários as 3ªs e 6ªs feiras das 17:30h às 18h. Já para os recrutas do Esquadrão de Reconhecimento, o 1º e 3º pelotões, nas semanas ímpares, os horários para banho eram 2ª e 5ª das 09:15h às 09:35h e, nas semanas pares, das 11:15h às 11:35h. Já o 2º e 4º pelotões, nas semanas ímpares, tinham como horários 2ª e 5ª das 18h às 18:30h e, nas semanas pares, 3ª e 6ª das 09:15 às 09:35h. Por fim, quanto aos recrutas do Esquadrão do CIACA, os mesmos tinham como horários para banhos, 2ª,3ª, 5ª e 6ª feiras das 18h às 18:30h. Tabela 2 e 3 - Horários de Instrução do Quadro Permanente e da Escola de Recrutas46 A Ordem de Serviço n.º 97 de 24 de abril de 1962 refere também os horários de instruções para o quadro permanente e para a Escola de Recrutas. Através da Tabela 2, podemos constatar que o quadro permanente era constituído por 6 tempos, tendo o 1º tempo uma duração de 50 minutos, o 2º e o 6º de 15 minutos, o 3º e o 4º de 1 hora e o 5º de 30 minutos. Na Tabela 3 podemos verificar que a instrução destinada à Escola de Recrutas era composta por 9 tempos, tendo todos uma duração de 50 minutos. Como referido anteriormente, as Ordens de Serviço do RC6 referem também os castigos aplicados aos militares que cometiam infrações e crimes militares. Na Ordem de Serviço n.º 231 de 9 de outubro de 196447, dois militares foram punidos com cinco dias de detenção por não cuidarem de forma adequada das suas viaturas, sendo que uma delas possuía uma avaria que, se não fosse identificada a tempo, 46 Fonte: Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 97 de 24 de abril de 1962, pp. 586-588). 47 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 231, de 9 de outubro de 1964, p. 264. 63 poderia provocar estragos graves no motor. Podemos destacar outros casos de negligência associada a veículos militares, como, por exemplo: 15 dias de prisão por colidir com outras viaturas48; 5 dias de prisão para um militar que bateu contra um muro com uma viatura de transporte de géneros49. Através das Ordens de Serviço também identificamos castigos relacionados com a não entrega de equipamentos, como, por exemplo, um caso em que um militar foi punido com uma pena de 15 dias por não entregar um ventilador de doze voltes e tê-lo utilizado em proveito próprio50. Podemos destacar também castigos destinados a militares que não compareciam às formaturas, como, por exemplo, 10 dias por ter faltado à formatura do recolher e não ter justificado devidamente51. Observam-se ainda castigos relacionados com o facto de militares conduzirem viaturas sem a devida autorização, como, por exemplo, um militar que foi punido com 15 dias de prisão por conduzir um veículo com o intuito de localizar uma pequena avaria no mesmo, mas que no Portão do Norte mentiu aos militares, dizendo que o mesmo tinha autorização para sair do quartel com a viatura52. Verificamos também castigos relacionados com a condução irresponsável de viaturas e causando acidentes, como, por exemplo, um militar que foi preso por 50 dias por conduzir em excesso de velocidade, causando um acidente que provocou a morte de um militar e feriu outros 353. Para além de nas Ordens de Serviço do RC6 serem descritos todos os acessórios de fardamento e armamento que entravam e saíam do quartel, também eram registados todo o tipo de artigos, desde acessórios de mobília até mesmo talheres de refeição. Um dos exemplos, é a Ordem de Serviço N.º 2 de 04 de janeiro de 196554 na qual podemos constatar, precisamente, a forma como o RC6 registava de forma detalhada tudo o que se passava no quartel. Identifica-se a chegada ao regimento de um conjunto de artigos variados, entre eles: armários metálicos, coberturas de leito, pratos, jarros, garrafas para vinho, terrinas para refeitório, etc. Também através deste exemplo, podemos notar a diferenciação que existia entre talheres, armários, pratos, etc., destinados especificamente para os praças e para os sargentos e oficiais. Verifica-se também outras regalias, como o facto de os sargentos possuírem talheres e pratos destinados somente para sobremesas e os praças não. Para além da descrição dos artigos que chegavam ao RC6, era também arrola a quantidade dos mesmos, o preço por artigo (como, por exemplo, um armário metálico para praça custava 340 escudos e um prato de sopa custava 11,40 escudos) e era apresentada também a distribuição dos mesmos pelos diferentes 48 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais . Ordem de Serviço N.º 246 de 22 de outubro de 1964, p.241. 49 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 246 de 22 de outubro de 1964, p.242. 50 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais . Ordem de Serviço N.º 252 de 25 de outubro de 1964, p.2076. 51 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 243 de 15 de outubro de 1962, p.1369. 52 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 251 de 24 de outubro de 1962, p.1440. 53 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 252 de 25 de outubro de 1962, p.1444. 54 Arquivo do Regimento de Cavalaria N.º 6 (2023). Livros das Ordens Regimentais. Ordem de Serviço N.º 2 de 4 de janeiro de 1965, p. 10. 70 momento. Destaca também as dificuldades no que respeita à alimentação, sobretudo na aquisição de produtos frescos, sendo a sua alimentação baseada em produtos secos e congelados, alguns deles já com meses de congelação e longe das melhores condições de conservação e adequação ao consumo. Quanto a doenças associadas à guerra, Ernestino destaca que alguns militares sofreram de dificuldades de concentração, ansiedade, perturbações digestivas, audição diminuída e problemas psicomotores. No entanto, realça que, nem ele nem ninguém do seu pelotão composto por 14 militares, sofreu algum tipo de doenças físicas, existindo apenas alguns militares com problemas psicológicos associados ao stress e à ansiedade. Ernestino destaca também que o seu pelotão nunca sofreu nenhum processo disciplinar, recebendo apenas louvores. Segundo o ex-combatente, o seu pelotão recebeu 4 ou 5 louvores de saudades, um louvor de um sargento, um louvor do próprio e um louvor ao pelotão (por autoria do comandante do batalhão). Por fim, regressou a Portugal, em meados de dezembro de 1971, num avião da TAP. Destaca, aquando do regresso, um sentimento de satisfação e, ao mesmo tempo, de frustração por saber que a guerra não valia a pena nem fazia sentido. Quanto à reinserção no ambiente familiar, salienta uma facilidade graças ao forte apoio familiar. Posteriormente, retomou os seus estudos, terminando o seu curso em medicina e entrando na carreira de médico, sendo colocado num centro de saúde. Outro ex-combatente mobilizado pelo RC6, estava matriculado na Faculdade de Engenharia quando foi recrutado para o Exército. Acrescenta ainda que teve outros dois irmãos que também participaram na Guerra Colonial. Quanto à recruta, Jaime esteve três meses (desde janeiro a março de 1966) na Escola Prática de Infantaria em Mafra, sendo este o local onde se realizaria o curso de oficiais milicianos. Tirou a especialidade em Carros de Combate (entre os quais, as viaturas Daimler) na Escola Prática de Cavalaria em Santarém durante 3 meses. Após 6 meses no RC8, pediu para ser transferido para o RC6, onde esteve cerca de um ano. Quanto ao período de recruta, revela que foi uma fase intensa e exaustiva pois, quer de dia quer até mesmo de madrugada, os soldados eram acordados para participarem em operações militares. Jaime considera que o momento mais difícil do recrutamento foi a formação na especialidade, pois esta exigia enorme esforço físico e muitas aulas teóricas sobre armamento, funcionamento das viaturas, etc. No RC6, o ex-combatente relata que, no momento em que por lá passou, existiam muitos Aspirantes a Oficial Miliciano, Alferes, Tenentes, Capitães, etc., o que levou a que o seu trabalho no regimento fosse diminuto, dando apenas algumas instruções a recrutas. Quando faltava 1 mês para ser mobilizado, realizou uma Instrução de Aperfeiçoamento Operacional IAO em que o terreno não tinha qualquer 71 semelhança com o que iria encontrar na Guiné. No que respeita às instalações do RC6, Jaime descreve que eram grandes e possuíam, para além das Daimler, outros carros de combate com um poder de fogo muito superior. A alimentação no RC6 era, segundo o mesmo, para além de razoável, chamando até mesmo de boa. No entanto, acrescenta que não almoçava no regimento, pois ia a almoçar a casa, que ficava perto. Jaime foi mobilizado em maio de 1968 como comandante de um PelRec Daimler para a Guiné no navio Niassa, juntamente com outros nove pelotões. Mal chegou a Bissau, partiu de imediato numa lancha de desembarque, chamada LTG, com destino a uma povoação denominada Bamdadinca, onde permaneceu por dois anos. Acrescenta ainda que, enquanto esteve nesta região, quase não existiram confrontos militares, recordando apenas um, em março de 1969, quando a sede do batalhão foi atacada. Este incidente, porém, não causou qualquer ferido ou baixa. Jaime também recorda uma outra situação em que três viaturas do seu pelotão estiveram de baixo de fogo, no entanto, nessa altura, encontrava-se de férias em Portugal (os militares tinham direito após um ano de serviço, a 30 dias de férias). Quanto às tarefas destinadas ao seu pelotão, revela que as suas funções se destinavam à segurança e escolta de colunas militares que se deslocavam a quartéis e também o transporte e abastecimento de produtos alimentares. Jaime acrescenta também que só iam três viaturas para fazer escolta às colunas militares (situando-se uma no início, uma a meio e outra no final da coluna) devido ao facto de se pretender dar a impressão de segurança. No que respeita ao batalhão, este ocupava uma enorme área, onde estava instalada uma Companhia Operacional e também outros PelRec Daimler. Recorda-se ainda de que dispunham de luz 24 horas por dia, uma situação muito rara quando comparada com outros aquartelamentos. A alimentação dos oficiais era bastante boa, pois o batalhão era uma sede onde chegavam todos os alimentos que depois seriam redistribuídos para todos os aquartelamentos do leste da Guiné. Os soldados tinham direito a um rancho, considerado bastante razoável por Jaime, e dormiam em dormitórios com qualidade, tendo direito a luz e água. Afirmou ainda que as instalações do batalhão e as condições de vida eram bastante privilegiadas, só existindo melhores condições em Bissau ou Bafatá. No que respeita a operações em que esteve envolvido, refere as operações designadas por Cabeça Rapada I, II e III em que participaram milhares de civis. Estas operações consistiam em desmatar as bermas das estradas ao longo de vários quilómetros. Quanto aos conflitos que tenham causado mais impressão e medo, revela que apenas existiu um e que foi, como referido anteriormente, o ataque à sede do batalhão, pois foi a primeira vez que o ex- 72 combatente e os restantes membros do seu pelotão experienciaram uma situação de conflito armado e também porque não existia nenhum plano de defesa previamente delineado, causando uma enorme confusão. No dia seguinte ao ataque, o General António Spínola aterrou de helicóptero na sede do batalhão, onde puniu o 1º e 2º Comandantes e o Comandante da Companhia com 10 dias de prisão por não terem um plano de defesa do aquartelamento. No que diz respeito às dificuldades e experiências vivenciadas durante o seu tempo na Guiné, Jaime refere as saudades da família e dos amigos, pois no que respeita às condições de vida nunca lhe faltou nada. Acrescenta ainda que, pelo facto da região onde esteve mobilizado ter sido pacífica, não teve muitas tarefas a seu cargo, levando-o muitas vezes a voluntariar-se para participar nas colunas militares para passar o tempo e para se distrair. Antes do regresso, e após o término do serviço militar em África, teve de escrever um documento com a história completa do pelotão durante todo o tempo de serviço na Guiné. Por fim, no que respeita ao regresso, em abril de 1970, Jaime declara ter sentido uma sensação de alívio e alegria aquando da chegada a Portugal. Quanto à reintegração no ambiente familiar e profissional, refere que esta foi praticamente imediata. Jaime passou à disponibilidade a 30 de abril de 1970 e, 15 dias depois, conseguiu emprego numa empresa onde trabalhou toda a sua vida. Por fim, deixa uma nota de pesar por não ter concluído o curso de engenharia. Bernardino possuía a 4º classe quando começou a trabalhar, aos 12 anos, numa fábrica, ajudando ainda os pais em casa e a cuidar dos irmãos. Com 16 anos foi estudar para uma escola industrial, onde fez o curso de aperfeiçoamento de serralheiro, trabalhando de dia e estudando de noite. Quanto ao recrutamento, Bernardino passou a Praça no CICA do Porto e depois no RC6, tirou a especialidade como Condutor Apontador Daimler. O dia a dia era marcado pela instrução de armas e tiro, bem como a prática de exercícios físicos. As instalações eram, segundo o mesmo, boas e a alimentação também era boa, mas por vezes era mal confecionada. O Condutor Apontador Daimler foi mobilizado em novembro de 1971 para a região de Tite, Guiné, no navio Angra do Heroísmo. No que respeita ao dia a dia, revela que, num dia, ele e o seu pelotão faziam serviço à estrada de Tite a Enxudé, no dia seguinte, faziam prevenção no quartel, no dia posterior, estavam de folga e, no dia seguinte, faziam proteção à pista de aviação, repetindo depois este ciclo. De noite faziam reforço das 20 horas à 1 hora da madrugada junto a uma mesquita muçulmana. Nos serviços de estrada iam junto com as Daimler, os chamados picadores, que tinham como função a procura de minas que, porventura, estivessem escondidas nas estradas. Bernardino afirma que durante a sua estadia em Tite, ocorreram sete ataques ao quartel e a um posto 73 avançado dos quais resultou qualquer militar ferido. No que respeita ao salário, revela que recebia, todos os meses, 1200 escudos, enviando metade desse valor para a Portugal. Segundo o ex-combatente, as instalações do quartel eram de cimento e chapas de zinco, existindo valas à volta do quartel onde os militares se recolhiam quando havia ataques, sobretudo, de morteiros. Existia uma cantina, um balneário, uma padaria destinada ao serviço do quartel, secretarias, postos de abastecimento de gasolina e um campo de futebol. A alimentação era à base de frango, feijão cozido, sardinhas, arroz, batatas e, nas épocas festivas, bacalhau. Quanto às dificuldades vividas em Tite, Bernardino revela que nunca teve dificuldades, salientando apenas a ansiedade e o medo quando existiam ataques. Fora isso, destaca os momentos de convívio com os restantes membros do pelotão. No que respeita ao regresso, Bernardino embarcou para Portugal no navio Niassa em outubro de 1973. Aquando do regresso, diz não ter sentido qualquer dificuldade em reintegrar-se no ambiente familiar e profissional, uma vez que rapidamente conseguiu emprego na mesma fábrica em que o seu pai trabalhava. Francisco, aquando do seu recrutamento, já tinha terminado a faculdade e, posteriormente, a formatura de engenheiro eletrotécnico, em 1969. Realizou três meses de recruta em Mafra e tirou a especialidade em Santarém durante outros três meses. Inicialmente, ficou no Regimento de Cavalaria de Santarém a dar instrução a recrutas até ser mobilizado, em 1971, para o RC6, de forma a formar um pelotão com destino à Guiné. As instalações do RC6 eram caracterizadas por uns grandes edifício e pátio, distribuindo-se, ao seu, outros edifícios de menor dimensão. De entre os edifícios que existiam na altura, Francisco destaca, entre outros, as casernas e os quartos para oficiais e soldados, o refeitório e os edifícios administrativos. Francisco partiu para a Guiné em novembro de 1970 no navio Angra do Heroísmo, tendo sido colocado, em missão, em Teixeira Pinto (atual cidade de Canchungo). Teixeira Pinto era, na altura, a sede não só do batalhão, mas também do Comando de Agrupamento Operacional (CAOP). No que respeita às Daimler, eram equipadas, segundo o Sr. Francisco, com uma metralhadora MG, que só mirava para a frente e 45 graus para os lados. Dentro das Daimlers, os militares tinham à sua disposição granadas, para além das G3 de uso pessoal. No que respeita ao pelotão que o excombatente comandava, este era composto por um total de seis viaturas. Quanto aos serviços militares, o pelotão de Francisco era responsável pela escolta de colunas civis e militares para Bissau e para o Cacheu, para além de fazer a proteção à povoação de Teixeira Pinto. O 74 seu pelotão chegou a socorrer quartéis sob ataque, tendo participado em combate propriamente dito apenas uma vez, quando o pelotão sofreu uma emboscada que causou três mortos e vários feridos numa estrada que ligava Teixeira Pinto ao Cacheu. Quantos às instalações do quartel, refere que as condições, sobretudo para oficiais, não eram más. Cada quarto era habitado por três militares, possuía um frigorifico e uma casa de banho. No que respeita às camaratas destinadas aos soldados, Francisco sublinha que aí as condições já não eram tão boas quanto as dos oficiais. A alimentação dos soldados era monótona e escassa, à base de comida seca e de conservas. Já a dos oficiais, apesar de por vezes também ser monótona, não era tão diminuta em comparação à dos soldados. Muitas vezes, chegavam a comer em restaurantes locais. Francisco salienta também o facto de Teixeira Pinto ser, na época, um dos poucos locais da Guiné onde existia água potável. O ex-comandante revela que foi a adaptação ao clima da Guiné que lhe causou mais dificuldades durante a sua estadia em Teixeira Pinto, devido às temperaturas altas e à humidade que perdurava na região durante vários meses. Como consequência do clima, sofreu muitas vezes de febre. No que respeita à sua vida pessoal, Francisco revela que se casou a meio da sua comissão de serviço na Guiné e que a sua mulher passou a viver com ele em Teixeira Pinto, trabalhando como professora. Regressou a Portugal em outubro de 1972 onde, passado um mês, conseguiu arranjar emprego. 6.2. Entrevistas as ex-combatentes de outros regimentos Aquando do seu recrutamento, Manuel tinha já concluído um curso industrial. Realizou a recruta entre janeiro e abril de 1968. Descreve-a como um período muito difícil e complicado devido à forte disciplina implementada por alguns oficiais e chegando mesmo a considerá-la desumana. Após o recrutamento, Manuel foi transferido para Tavira onde tirou a especialidade de Sapador de Infantaria de Minas e Armadilhas entre abril e julho de 1968. Após especialidade, foi destacado para Tancos para frequentar o curso de Minas e Armadilhas. Em outubro do mesmo ano, foi destacado para Bragança para realizar instrução a pelotão de militares sapadores, onde permaneceu até janeiro do ano seguinte. Posteriormente, foi mobilizado para o Regimento de Infantaria Nº 2 em Abrantes, onde realizou as preparações para a sua mobilização em Angola, nomeadamente para a região de Nambuangongo. As instalações nas Caldas da Rainha eram aceitáveis enquanto que em Tavira não eram tão boas. Para Manuel, as instalações de Tancos eram muito más. Em Bragança, sublinha que as casernas, na altura, eram numa antiga pocilga de animais e que, no refeitório, os pratos eram protegidos com jornais pois caía lixo do teto. Quanto à alimentação, destaca a necessidade de aproveitar e fazer render a esparsa disponibilidade de víveres que deviam ser distribuídos, em pouca quantidade, aos muitos militares do 75 quartel. Manuel embarcou com destino a Angola em fevereiro de 1969. Permaneceu em Luanda durante 15 dias até ser mobilizado para a região de Nambuangongo, onde foi transportado em camiões civis e escoltado por militares das forças especiais. Em Nambuangongo, as instalações eram miseráveis: as casernas eram de madeira, entravam animais por todo o lado e o frio entrava facilmente pelas frestas em madeira. Quanto ao dia a dia, o ex-combatente e o seu pelotão construíam postos de vigia avançados, realizavam de emboscadas durante a noite, contruíam pontes e jangadas, melhoravam os abrigos subterrâneos e eram responsáveis, como sapadores, por montar sebes de arame farpado à volta da periferia do aquartelamento. Acrescenta ainda que, em Nambuangongo, chegavam a ser atacados duas vezes por dia, quando os combatentes nativos tentavam invadir o aquartelamento. Quanto às operações militares em que participou, destaca uma com o intuito de invadir a fronteira do ex-Congo Belga (atual República Democrática do Congo) a fim de destruir acampamentos de combatentes nativos. Uma das missões foi descoberta e, na retirada, se não fosse a ajuda aérea, todos os militares teriam morrido. No que respeita à função de sapador, Manuel revela que o assustava muito, pois, em cada mina ou armadilha, poderia morrer a qualquer momento. Segundo o ex-combatente, uma formação de seis meses era insuficiente para aprender tudo o que poderia surgir no que respeita a minas e armadilhas. Quanto às dificuldades experienciadas em Nambuangongo, destaca a falta de água e a necessidade de percorrer enormes distâncias para realizar o abastecimento de água. Manuel também recorda uma situação em que devia partir numa missão de abastecimento de água, mas acabou por trocar essa tarefa com um amigo dele. O amigo acabou por sofrer uma emboscada, pelo que se tivesse sido Manuel a participar nessa tarefa de abastecer água, como originalmente programado, não teria sobrevivido. A alimentação era outra dificuldade, considerando-a muito má e levando muitos militares a sofrer de diarreia e de sérios problemas intestinais. Ainda no que respeita à alimentação, refere que ele e o seu pelotão chegavam a passar semanas a alimentar-se, exclusivamente, de rações de combate. Manuel destaca um acontecimento em que lhe foi atribuída a missão de reconstruir uma ponte que implicava entrar na floresta para derrubar árvores para obter a madeira necessária à intervenção. Quando um grupo de motobomba precisou da sua ajuda, deixou a sua arma junto a grupo que estava a trabalhar no derrube de árvores. Durante a deslocação, Manuel e os restantes militares sofreram uma emboscada, o que levou a que tivesse de rastejar para chegar à sua arma e, com ela, poder 76 sobreviver ao ataque. Destaca outro acontecimento marcante que ocorreu durante o regresso de uma operação de construção de uma jangada, em que lhe apareceu um homem com uma criança ao colo pedindo socorro, pois a filha dele estava doente. Infelizmente, durante o transporte, a filha do homem acabou por morrer nos braços do ex-combatente. No que respeita a problemas de saúde derivados da guerra e da sua estadia em Angola, Manuel destaca sérios problemas de stress pós-traumático, referindo que, ainda hoje, não existe um dia em que não sonhe acerca da guerra. Para além do stress, destaca problemas intestinais e de coluna derivados de um acidente que o obrigou a submeter-se a várias operações. Quanto a castigos disciplinares, recorda uma situação em que ele e os militares sob o seu comando, após estarem, simultaneamente, na mata durante sete dias seguidos durante a noite, e de manhã a trabalhar, estavam completamente exaustos e com sono. Ao sétimo dia, deu a ordem ao resto dos militares para descansarem. Enquanto descansavam, chegou ao local o Comandante, ordenando a um militar de patente superior a Manuel que o prendesse. Quando questionado pelo Comandante o porquê de ter dado ordem para que os militares descansassem, afirmou que estavam escalados para a mata há sete dias consecutivos e estavam extremamente exaustos. Após o Comandante confirmar esta situação, ordenou ao ex-combatente e aos seus homens que fossem para as casernas descansar. Manuel regressou a Portugal em fevereiro de 1971, marcado pela alegria de voltar ao seio familiar e da sensação de dever cumprido, chegando, posteriormente, a receber um louvor militar. No que respeita à reinserção no mundo profissional, passado pouco tempo após o seu regresso, conseguiu emprego na empresa em que estava a estagiar aquando da recruta para o Exército. Pedro Requio (2021) realizou uma análise de uma série de entrevistas a ex-combatentes da Guerra Colonial Portuguesa, procurando perceber o modo como a experiência de combate contribuiu para a formação da identidade individual e coletiva, bem como para a perceção da alteridade e a sedimentação de preconceitos provenientes do ideal colonial. Ao analisarmos algumas das entrevistas publicadas neste artigo, podemos constatar a consciência, por parte dos militares que partiam para a guerra, da gravidade do conflito e das consequências que este poderia causar. Já sabíamos que íamos para o mato. Para a guerra. Era matar ou morrer. Houve muita porrada. Estive numa das zonas mais intensas, que era a poucos quilómetros da fronteira com Conakry, onde os 'turras' tinham as bases. Ou seja, íamos para lá com a ideia de que aquilo ia ser duro. Só que ficou ainda pior do que esperávamos. Ainda por cima a partir de 1972, quando os gajos começaram a estar mais apetrechados. Até já derrubavam aviões com mísseis. Foi tramado. (Nuno, 2019, p. 282) No artigo, encontramos exemplos em que o sentimento de fatalismo e medo já se fazia sentir no 77 próprio momento do embarque para África. Um entrevistado chamado Alves realça um discurso proferido, aquando do embarque, por um capitão referindo que muitos dos militares ali presentes não iriam sobreviver. A perspetiva que tínhamos era de que podíamos não regressar. Tivemos um discurso do capitão Carlos Fabião que dizia que muitos de nós não iríamos regressar para as nossas mães, mulheres, namoradas, filhos ou familiares. O Spínola também estava lá, a dizer que a Guiné era como o Vietname. Não era como Angola ou Moçambique. Uma pessoa até fica com lágrimas nos olhos. Alias, no próprio dia desse discurso tivemos a primeira baixa. Por azar o meu, foi um colega que tinha acabado de conhecer. (Alves, 2021, pp. 282-283). Através desta afirmação podemos constatar precisamente algumas das realidades que a guerra causou: morte, violência e medo. Na afirmação de Nuno, podemos verificar a consciencialização de que na guerra e do sentimento de sobrevivência que, infelizmente, era algo comum a muitos veteranos de guerra. A grande maioria dos combatentes da guerra colonial foi forçada a participar na guerra, o que levava muitos deles a lutar apenas pela sua sobrevivência, para que quando acabasse o seu tempo de serviço, pudessem retornar para o seu seio familiar e profissional. Para além disso, constata-se, de certa forma, que os militares portugueses não estavam preparados para a realidade que iriam enfrentar em África. Eu já tinha um receio enorme antes de ir para a Guiné e quando chegámos lá e o barco atracou fiquei logo cheio de medo. Vi tantos pretos fora do barco que me assustei. Até arranquei as divisas do uniforme porque pensei que por ser furriel me iam logo limpar o sebo. Por razões de segurança, até ponderei ir a rastejar do barco até ao quartel para ver se ninguém me topava. Na primeira semana em que lá estive andava sempre desconfiado. Tinha medo de andar no passeio, porque diziam que se andássemos nele os pretos nos davam logo uma catanada. O resto dos meus companheiros pensava o mesmo até que um colega que já lá estava há mais tempo nos disse para ganharmos juízo. No fim de contas, acabei por ter uma vida boa lá porque trabalhava na oficina e nunca tive em perigo. Comi bem e dormi bem. Tive uma vida descansada. (Mário, 2019, p. 284) A afirmação anterior revela o medo que alguns militares portugueses tinham, não só em relação ao conflito armado, mas também em relação às próprias populações nativas. No entanto, não só este, mas também os restantes entrevistados, descrevem a facilidade, não só de convivência com as populações nativas, mas também de entreajuda, em que, por vezes, os próprios militares portugueses ajudavam e ofereciam emprego às populações nativas. Segundo Pedro Requio (2021), mas também através da entrevista realizada a Manuel, podemos constatar uma das consequências enfrentadas por vários ex-combatentes da Guerra Colonial, a doença e os efeitos da Post-traumatic stress disorder (PTSD). 78 Ainda existem, infelizmente, nos dias de hoje, muitos ex-militares portugueses que combateram na guerra colonial que sofrem ou já sofreram de PTSD e que, tal como Nuno, todos os dias revivem acontecimentos e experiências que vivenciaram em África. No caso de Nuno, tão forte é o trauma que o mesmo chegou a tentar arrancar os olhos da sua mulher ao sonhar que estava na guerra e que ela era o inimigo. Se a experiência de guerra continua presente? Sim. Mais ou menos. Ainda o ano passado ia arrancando os olhos à minha mulher. De noite depois de um sonho. Com aquela fúria. Quando a gente se vê no meio do mato. Pensava que ela era uma turra. Comecei a sonhar, naquela fúria, naquela coisa. Era capaz de a matar. Ela que o diga! Eu pensava que estava no mato mesmo. (Nuno, 2019, p.295) Ângela Campos (2009) realizou uma entrevista a um ex-combatente, A. Fortuna, que esteve na Guiné e que fez parte de um grupo de milhares de militares que sofrem ainda hoje de deficiência, quer física quer psicológica, derivada da participação na Guerra Colonial. Nesta entrevista, A. Fortuna começa, desde logo, por salientar o facto de a guerra ter significado uma mudança completa na sua vida. No que respeita à sua participação no conflito, defende que lutou em África não pela pátria, mas sim pela sua sobrevivência, caracterizando a guerra como estúpida e injusta. A sua experiência no conflito contribuiu para que, nos dias de hoje, tenha uma manifesta repulsa pela guerra e pela violência. Um outro aspeto muito importante que A. Fortuna salientou nesta entrevista é o facto de, atualmente, a Guerra Colonial continuar a ser, na sociedade portuguesa, um tabu, em que uma parte dos portugueses ainda não se sentem confortáveis em encarar e a refletir sobre este período da história portuguesa. Segundo o ex-combatente: A Guerra Colonial continua a ser, na sociedade portuguesa, um tabu [...] e [isto] é demonstrativo da forma como a sociedade [...] encara este período da história de Portugal. [...] É um período que se quer fechado no cofre a sete chaves, que ninguém sabe o que aconteceu, nem quantos mortos houve, nem [...] as consequências disso, nem quanto custa ao país, ao Estado, nada disso [...] lamentavelmente estamos assim. (Sr. A. Fortuna, 2009) No entanto, também afirma que nos últimos 30 anos, a sociedade portuguesa passou a tratar com mais respeito e consideração os ex-combatentes que sofrem de deficiência, salientando a importância da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) e os seus esforços no sentido da reabilitação e reintegração na sociedade dos ex-combatentes com deficiência. Bruno Sena Martins (2016), tal como Pedro Requio (2021), também realizou um estudo com vários excombatentes da Guerra Colonial em torno das fortes consequências que esta causou nos homens mobilizados. De entre os vários entrevistados, podemos destacar um ex-combatente, M., que relata um 79 exemplo de como certos traumas de guerra ainda perduram nos dias de hoje na forma de viver de alguns ex-militares que participaram na guerra. M. descreve que, como durante a guerra se habitou a viver e a dormir com a G3, atualmente, sente-se desprotegendo e com medo de andar na rua sem arma: Curiosamente nós dormíamos com ela [G3] no meio das pernas, era uma coisa bastante erótica, surpreendentemente erótica, nós dormíamos abraçados à G3, uma das maneiras de pegar na arma é abraçá-la, é a forma mais cómoda de a trazer, a gente pega-lhe pelo punho ao contrário… e ela vai cruzada como um bebé, a forma carinhosa de pegar num objeto, abraçando-a. Isto é apenas uma curiosidade, não acredito que tenha alguma influência, mas a verdade é que ela passa a fazer parte de nós, não como um simples adereço, e quando nós acabamos o serviço militar […]. É assim um objeto ou um mecanismo perfeito, funciona quase automaticamente, confere esse poder, e de repente o soldado sente-se sem isso, e acho que isso é geral, esse sentimento de estar desarmado. (M, 2016, p. 309) Para além disso, M também apresenta outro exemplo de como ficou com um trauma em que sempre que houve barulhos semelhantes a morteiros, inconscientemente, atira-se para o chão com o intuito de se proteger: Aprendi a reagir àquele som muito típico do morteiro, que era a arma principal, pelo menos da FRELIMO, que é um som inequívoco, aquilo é um morteiro. Mas é muito parecido, por exemplo, quando estamos distraídos, com o som de fechar uma arca frigorífica, aquele som abafado. E até mais do que isso, se visse a pessoa a fechar a arca não sentia nada, se estivesse distraído a falar com outra pessoa, aquele som de uma porta de uma arca, que cria aquele embate, parece a saída de um morteiro, e o meu corpo reagia, só não me atirava para o chão porque imediatamente percebia, mas sentia aquilo como um disparo de um morteiro. (M, 2016, p. 308) A Guerra Colonial foi não só marcada pelos conflitos armados, mas também por vários episódios de violência e crueldade praticados por militares portugueses. Um ex-combatente, S., relata, precisamente, um destes episódios em que os militares portugueses, após serem sujeitos ao rebentamento de uma mina, se vingaram agredindo a população nativa, chegando mesmo a enforcar duas pessoas. eles estavam ali a descansar, mas entretanto, andavam ali na estrada alcatroada e os guerrilheiros fizeram um buraco por baixo do alcatrão e colocaram uma mina, não é? A mina rebentou e explodiu e provocou os seus estragos. Eles então, para se vingarem – aquela coisa, não é? da guerra – traziam africanos naqueles mesmos assentos da Berliet […]. De vez em quando paravam e vinham cá à frente e davam-lhes cargas de porrada. Uma coisa horrível. E depois à frente… Eu passei-os, a minha coluna passou… Quando eu chego à frente, vejo dois negros enforcados. E depois estava escrito assim no alcatrão: «FRELIMO zangou, tropa zangou mais.» Estavam ali duas pessoas da população enforcadas. (S., 2016, pp.314-315) Ainda acerca da violência perpetrada por militares portugueses a populações nativas, destaca-se, 86 Martins, B. S. (2014). Imperial memory: The home of silences in Portuguese colonial war. African Dynamics in a Multipolar World: 5th European Conference on African Studies — Conference Proceedings , 1943–1953. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/42441 Martins, B. S. (2016). Corpos-memórias da Guerra Colonial: Os Deficientes das Forças Armadas e o «restolhar de asas no telhado». Em Geometrias da Memória: Configurações Pós-Coloniais (pp. 305–325). Martins, F. (2014). A guerra colonial na grande estratégia de Salazar . Observador. https://observador.pt/especiais/guerra-colonial-na-grande-estrategia-de-salazar/ Maurício, C. (2011). A guerra colonial e a descolonização vistas pelas sondagens de opinião (19732004). 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