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Prefácio: Entre pessimismo e redenção

Rosas, João Cardoso

Abstract

[Excerto] Quando as chamadas “novas universidades” foram pensadas e criadas por lei, há mais de 50 anos, o tempo era de otimismo e de esperança no futuro. O pós-II Guerra Mundial tinha permitido um extraordinário crescimento económico e uma nova prosperidade. As grandes tensões da Guerra Fria e a ameaça nuclear estavam a desvanecer-se, com a Conferência de Helsínquia e o apaziguamento entre as superpotências. A primeira crise do petróleo ainda iria fazer-se sentir. No caso português, o 25 de abril de 1974 trazia as promessas da liberdade e da democracia. O clima era propício à projeção de um futuro melhor. [...]

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23 Prefácio: Entre pessimismo e redenção João Cardoso Rosas Presidente da Comissão de Comemoração dos 50 anos da Universidade do Minho / Coordenação de (E)vidência Futura Quando as chamadas “novas universidades” foram pensadas e criadas por lei, há mais de 50 anos, o tempo era de otimismo e de esperança no futuro. O pós-II Guerra Mundial tinha permitido um extraordinário crescimento económico e uma nova prosperidade. As grandes tensões da Guerra Fria e a ameaça nuclear estavam a desvanecer-se, com a Conferência de Helsínquia e o apaziguamento entre as superpotências. A primeira crise do petróleo ainda iria fazer-se sentir. No caso português, o 25 de abril de 1974 trazia as promessas da liberdade e da democracia. O clima era propício à projeção de um futuro melhor. O tempo atual é claramente distinto. A crise global do ambiente, incluindo a crise climática mas tocando várias outras dimensões, cria uma crescente ansiedade em relação ao futuro. A possibilidade de uma ordem internacional baseada na paz e nos direitos humanos – que a queda do Muro de Berlim parecia abrir – deu rapidamente lugar ao terrorismo internacional, aos alarmes pandémicos, à geopolítica da confrontação das potências estabelecidas e emergentes, a novos focos de guerra e ameaças nucleares, a grandes movimentos migratórios. O clima político radicalizou-se e Portugal não ficou imune a essas mudanças e ao consequente pessimismo sobre o futuro, com o regresso de discursos catastrofistas. Note-se que a ansiedade em relação à passagem do tempo e ao futuro radica, em última instância, na experiência existencial do envelhecimento e da morte. Talvez por isso, ela tende a exprimir-se num discurso cujos termos básicos são de cariz religioso e, na nossa cultura, de tipo cristão. O pessimismo social transforma-se assim em profecia apocalíptica, num qualquer anúncio do Fim dos Tempos. A reconstrução da esperança tende a assentar em promessas 24 João Cardoso Rosas milenaristas de grande transformação, de uma metanoia individual e coletiva que permitiria a redenção e o surgimento de um Tempo Novo. Mas, neste processo de extremos que se anulam mutuamente, perdemos facilmente o sentido da realidade e a capacidade para pensar de forma racional e razoável os grandes desafios com os quais nos confrontamos. É por isso necessário que a Universidade contrarie essas tendências (embora por vezes nelas embarque também, o que é lamentável). A Universidade deve assumir sem hesitação a obrigação moral e o imperativo intelectual de escapar às profecias catastrofistas e às falsas promessas salvíficas. Devemos começar por admitir que o futuro não é evidente e que a vidência desse futuro é, sobretudo, um exercício sobre o presente. A razão principal pela qual o futuro não é antecipável está provavelmente relacionada com a evolução do conhecimento e da tecnologia e com o seu papel na mudança social. Dito de forma linear: se a o conhecimento e a tecnologia do futuro fossem antecipáveis, então pertenceriam ao presente e não ao futuro; como esse futuro científico e tecnológico permanece em aberto – e uma vez que ele é determinante para a mudança social – então não é realmente possível antecipar o futuro. Por outras palavras: a impossibilidade de antecipar o conhecimento e a tecnologia do futuro é um obstáculo epistemológico à antecipação do futuro das nossas sociedades. Dito isto, não é impossível e é até recomendável pensar esse futuro em função do conhecimento hoje existente e daquele que está agora a ser produzido (do conhecimento de ponta, portanto). Neste sentido, as universidades e os seus centros de investigação são certamente o melhor lugar para tal exercício reflexivo. Creio que é isto que se procura fazer neste livro, interpelando as Unidades Orgânicas da Universidade do Minho para refletirem no modo como, face ao conhecimento que produzem, poderão contribuir para o nosso futuro coletivo, usando como referencial os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (como será adiante explicado no Prefácio). Num ano em que a Universidade do Minho comemora o cinquentenário da sua instalação, este é um esforço que não podia deixar de ser feito. Para além das tendências para o pessimismo e para a redenção, para além das angústias subjetivas e coletivas, para além das ilusões positivas ou negativas, cabe à Universidade do Minho, enquanto lugar de investigação e pensamento, cultivar a (clari)vidência sobre o nosso futuro comum. Na verdade, quase sem o notarem, as nossas Escolas e Unidades de investigação fazem isso cada dia. Na procura de novos caminhos e soluções, na criação 25 Entre pessimismo e redenção de ideias, na disseminação de conhecimentos e do próprio espírito científico, na construção de utopias realistas para um mundo melhor. É esta a nossa principal (e)vidência, aqui e agora. Cabe-nos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preservá-la no futuro.