Responsabilidades da Educação Física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo
Abstract
Este ensaio tem como objetivo refletir sobre a Educação Física (EF) escolar como campo do conhecimento com responsabilidades de propor uma formação para o “tempo do inútil”. Ao longo do texto, procuramos demonstrar que, em tempos de crise, utilitarismos e imediatismos, reconhecer a importância de uma formação para o “tempo do inútil” representaria uma virada paradigmática para a EF, especialmente no contexto escolar
Full text
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 RESPONSABILIDADES DA EDUCAÇÃO FÍSICA PARA COM O “TEMPO DO INÚTIL”: UMA NECESSIDADE DE NOSSO TEMPO RESPONSIBILITIES OF PHYSICAL EDUCATION TOWARDS THE “USELESS TIME”: A NEED OF OUR TIME + RESPONSABILIDADES DE LA EDUCACIÓN FÍSICA HACIA EL “TIEMPO INUTIL”: UNA NECESSIDAD DE NUESTRO TIEMPO + https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Ricardo Rezer* <[email protected]> António Camilo Cunha** <[email protected]> __________ *Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pelotas, RS, Brasil. **Universidade do Minho (UMINHO), Braga, Portugal. Resumo: Este ensaio tem como objetivo refletir sobre a Educação Física (EF) escolar como campo do conhecimento com responsabilidades de propor uma formação para o “tempo do inútil”. Ao longo do texto, procuramos demonstrar que, em tempos de crise, utilitarismos e imediatismos, reconhecer a importância de uma formação para o “tempo do inútil” representaria uma virada paradigmática para a EF, especialmente no contexto escolar. Palavras chave: Educação Física. Conhecimento. Formação. ENSAIOS Este é um artigo publicado sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). eISSN: 1982-8918 Recebido em: 03 mar. 2021 Aprovado em: 21 jun. 2021 Publicado em: 26 jul. 2021
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Ricardo Rezer, António Camilo Cunha 02 1 INTRODUÇÃO1 Em meio a uma série de crises, vivemos tempos nos quais os saberes do mundo são categorizados em “úteis” e “inúteis”, sob a lógica de uma globalização (ultra) neoliberal e a emergência de setores conservadores de extrema direita. Neste complexo cenário, prevalece a “lei do valor”: são considerados válidos os conhecimentos que são úteis, de preferência, para uso imediato, como forma de obtenção de algum tipo de lucro. Se conhecimentos “úteis” são necessários para a vida (e não discordamos disso), cabe examinar melhor a lógica que os coloca nesta condição, bem como, suas consequências para a produção da vida em nosso tempo. Nessa direção, cabe também refletir melhor acerca do que fica de fora desta lógica – uma lógica que vem a tempos colonizando muitos setores, entre eles, campos do conhecimento como a Educação Física (EF). Neste cenário, a formação escolar vai incorporando em seu cotidiano elementos que vão, especialmente, ao longo do Século XXI, sobrepondo de maneira significativa a ideia de uma ampla formação cultural, fundada na ampla cultura produzida ao longo da história da humanidade2. Nessa lógica, vamos percebendo a precarização da formação humanística em detrimento de uma formação voltada exclusivamente para a produção e para o trabalho. Portanto, o que não “cabe” nesta régua, passa a ser considerado improdutivo (no sentido usual do termo), desnecessário, ocupando, ao longo da formação escolar, lugar periférico, marginal, ou até mesmo, sendo paulatinamente retirado dos currículos. Na contramão desta “tendência” contemporânea, pretendemos neste ensaio, refletir sobre a necessidade e a importância de conhecimentos considerados inúteis se constituírem como referências para a formação escolar, especialmente em um tempo no qual vivemos uma crise sanitária, política, ética, econômica, enfim, uma crise de cultura sem precedentes nos últimos 100 anos. Para tal, a EF, enquanto um campo do conhecimento que lida diretamente com a cultura corporal de movimento, tem responsabilidades significativas de propor uma formação para o “tempo do inútil”. Talvez aqui resida uma perspectiva que possa evidenciar a importância deste campo do conhecimento para a formação escolar e a produção da vida nas mais distintas sociedades contemporâneas. Bem verdade, um pressuposto que não é consenso em muitos setores da escola e da própria EF. Desta forma, o objetivo central deste ensaio, a partir de uma articulação com elementos da conjuntura contemporânea, é refletir sobre a EF como campo do conhecimento com responsabilidades de propor uma formação para o “tempo do inútil”. Partindo disso, cabe refletir acerca das múltiplas dimensões de conhecimentos que constituem a vida humana, que se edifica também, por experiências para além da lógica do lucro e da utilidade (balizadores da formação escolar). Nem só do útil vivem os seres humanos e a vida humana se constitui também de experiências que não tem utilidade imediata ou produzem lucro. Mas, se o lucro 1 Este trabalho tem por base o resumo expandido publicado nos Anais do CONBRACE 2019. Disponível em: http:// congressos.cbce.org.br/index.php/conbrace2019/8conice/paper/viewFile/12320/6521. Acesso em: 27 jun. 2021. 2 Não desconsideramos que este processo se coloca de forma intensa também no contexto da formação universitária. Porém, neste ensaio, tomaremos como referência de análise a formação escolar, especialmente no que tange ao campo da EF.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Responsabilidades da Educação Física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo 03 e a utilidade não esgotam nossas possibilidades de mundo, onde aprendemos, então, sobre conhecimentos “inúteis”? Qual o lugar destes conhecimentos em nosso cotidiano? Quais as responsabilidades da escola frente a questões como estas? Como um campo do conhecimento como a EF vem tratando (ou poderia tratar) a questão do “tempo do inútil” na escola3? A fim de dar conta dos elementos até então apresentados, subdividimos o texto em dois momentos. Inicialmente apresentamos argumentos que pretendem refletir sobre o tempo no qual vivemos, considerando a necessidade de conhecimentos inúteis para a vida em sociedade. Em um segundo momento, procuramos sustentar uma concepção de EF como espaço e tempo de formação para o “tempo do inútil”, algo imprescindível para a vida humana. 2 REFLEXÕES SOBRE NOSSO TEMPO: A NECESSIDADE DE CONHECIMENTOS “INÚTEIS” COMO POTÊNCIA PARA A VIDA EM SOCIEDADE [...] nenhuma profissão pode ser exercida de forma consciente se as competências técnicas de que requer não estiverem subordinadas a uma formação cultural mais ampla, capaz de estimular o discente a cultivar seu espírito com independência e a deixar livre sua curiositas. Fazer coincidir um ser humano exclusivamente com a sua profissão seria um erro gravíssimo: em qualquer homem há algo de essencial que vai muito além da sua profissão (ORDINE, 2018, p. 117-118, tradução nossa).4 Em meio a uma pandemia sem precedentes nos últimos 100 anos causada pelo vírus Sars-Cov25, vivemos um cenário dramático que, por um lado, vai tornando 3 Kuhn e Camilo Cunha (2021), ao recuar a antiga Grécia para refletir acerca do tempo na cultura ocidental, vão referir que ainda antes de emprestar análises racionais (Logos) os gregos antigos convocaram os mitos para dar um entendimento ao tempo. Para tal, fizeram elevar três representações: Chronos, Kairós e Aeon. Chronos se referia ao tempo cronológico, sequencial, linear que poderia ser medido. Este surge no princípio dos tempos, formado por si mesmo e que designa a continuidade de um tempo sucessivo. O tempo é, nessa representação, a soma do passado, presente e futuro e o presente é o limite entre o que já foi e não é mais (o passado) e o que ainda não foi, portanto ainda não é, mas ainda será (o futuro). Uma das representações de Chronos, retratada por Francisco de Goya (17461828), é a de um homem que devora o seu próprio filho (Saturno - Chronos para os Romanos - devorando um filho). Este facto inscreve-se na ideia dos antigos gregos tomarem Chronos como o criador do tempo, logo, de tudo o que existe e pudesse ser relatado e, uma vez que é impossível fugir do tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde vencidos ou devorados por ele. Já Kairós, por seu lado, referia-se a um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece: um tempo existencial no qual os gregos acreditavam ser necessário para enfrentar o cruel e tirano Chronos. Kairós significa medida, proporção, momento crítico, temporada, oportunidade e emerge como uma noção central, pois caracterizava um momento fugaz em que uma oportunidade se abria, devendo ser encarada com força e destreza para que o sucesso fosse alcançado. Aeon, por sua vez, é um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, o tempo da criatividade onde as horas não passam cronologicamente. Já nos usos mais antigos significava a intensidade do tempo da vida humana, um destino, uma duração, uma temporalidade não numerável nem sucessiva, mas intensiva. É também usado em teologia para descrever o "tempo de Deus", enquanto Chronos é o "tempo dos homens". Enquanto Chronos é de natureza quantitativa e objetiva, Kairós e Aeon possuem uma natureza qualitativa e subjetiva, como referência a um momento indeterminado ou a uma experiência oportuna. Estas representações mitológicas acabaram por chegar aos nossos dias através das estruturas linguísticas, corporais e simbólicas, timbradas também pela dimensão racional como representação modelar, exata, linear (Chronos), mas também como manifestação experiencial, criativa, lúdica e da intencionalidade fenomenológica (Kairós e Aeon). Será que o “tempo do inútil” tem no Kairós e no Aeon a sua expressão maior? Será que a EF conhece estas dimensões do tempo em profundidade? Um tempo do inútil que se faz útil pelo inusitado, pela criação e pelo espanto? Em tempo, são questões que ganham sentido ao longo do desenvolvimento do texto. 4 No original: [...] nessun mestiere potrebbe essere esercitato in maneira consapevole se le competenze tecniche che richiede non siano subordinate a una formazione culturale piú vasta, in grado di incoraggiare i discenti a coltivare autonomamente il loro spirito e a lasciare libero corso ala loro curiositas. Far coincidere l’essere umano esclusivamente com la sua professione sabere um erroe gravíssimo: in qualsiasi uomo c’é qualcosa di essenziale che va molto al di lá suo stesso mestiere”. (ORDINE, 2018, p. 117-118). 5 Mais conhecido por coronavírus, o SarsCov-2 é o nome oficial do vírus causador da Covid-19, que atinge o mundo em 2020/2021, levando a um estado pandêmico de emergência de saúde pública internacional. O nome foi
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Ricardo Rezer, António Camilo Cunha 04 a vida mais sôfrega, mais individualizada e mais incerta. Por outro, escancara a necessidade de pensá-la como uma produção coletiva, mais solidária, ou seja, um “fazendo junto” (sem idealizações ingênuas) que nos coloca na obrigação de aprender a nobre arte da convivência como princípio fundante para a vida em sociedade. Em seu livro, Gli uomini non sono isole - i classici ci aiutano a vivere (Os homens não são ilhas – os clássicos nos ajudam a viver6), ainda sem tradução no Brasil, o professor da Universidade da Calábria (Itália), Nuccio Ordine, destaca a necessidade de resgatar a solidariedade e a alteridade como princípios fundantes para a vida em nosso tempo (ORDINE, 2018a). Um tempo que vem se caracterizando por posturas individualistas e egoístas, com vistas ao “ter” e “ser para si” (neste caso, estes seriam o télos da vida contemporânea). Como exemplo, Ordine destaca que não conseguiremos derrotar o Sars-Cov2 sozinhos, mas sim, com a evidência de nosso sentimento de vida comunitária e interdependente. Para tal, além dos deveres da vida privada, temos os deveres da vida pública, ou seja, o dever para com os outros – por isso, muitas pessoas se privam de algumas liberdades. Por exemplo, em tempos de pandemia causada por um vírus que se propaga pelo ar, por meio de gotículas de saliva expelidos na fala, no espirro ou na tosse (o SarsCov-2), temos de evitar aglomerações, usar máscaras7 e manter distanciamento social, entre outros cuidados. Isso se dá com referência nas diversas pesquisas realizadas a respeito, bem como, em nome do bem comum – ou seja, em nome de nosso compromisso e responsabilidade para com a vida coletiva. Neste caso, especificamente o objetivo maior é diminuir os níveis de contágio ocasionados pela disseminação do vírus8. Isso significa que não temos liberdade irrestrita, bem como, que não podemos desconsiderar as consequências de nossos atos na ampla esfera pública (liberdade irrestrita seria a morte da própria liberdade). Neste cenário, tão absurdo quanto desprezar conhecimentos considerados “inúteis”, é fomentar o desprezo ao conhecimento útil produzido pelas distintas ciências, em um irresponsável elogio a ignorância, especialmente em uma era, paradoxalmente, denominada de “sociedade do conhecimento”. Paradoxos desta ordem nos conduzem a um clima cultural que parece desprezar o conhecimento, escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para facilitar a identificação em estudos científicos e também a divulgação na imprensa, além de evitar confusões com outros vírus da mesma família. 6 Outras referências importantes, tal como a de Umberto Eco (1989) também debatem a importância de ler os clássicos e a sua dimensão estruturante para o porvir. Para que servem os clássicos? Porque ler os clássicos? Um clássico nunca está acabado, nunca está fechado, está sempre aberto e pronto a ser reinterpretado. Um clássico é uma contínua inscrição hermenêutica, um local de salvação, em um eterno “de novo” como se fosse a primeira vez. 7 A máscara trouxe uma nova identidade ao corpo/rosto normal. O rosto, elemento distintivo e identitário, passou a ser um elemento quase interdito, fazendo com que muitas pessoas se afastem: a máscara (esta máscara) trouxe com ela o medo. A máscara (do/com a Covid) vai dizer que há um perigo eminente, que o corpo pode adoecer e neste envolvimento as relações sociais dadas pelo rosto, pela presença, pela hospitalidade, pela fala e pela linguagem entram/ficam em suspensão. O rosto, deixou assim, de ser uma expressão e uma narrativa de identidade para sinalizar uma situação de risco. O rosto coberto vai determinar um eclipse da identidade e uma elevação maior da angústia existencial. Para além do real (entidade anatómica) corporal e relacional, perde-se (fica entre parênteses) também a dimensão simbólica do corpo/rosto. O simbólico como uma outra linguagem da existência humana fica também escondido. Certamente, esta dimensão do corpo/rosto/máscara pode ser objeto de inúmeras reflexões. Na esteira de Sohn (2013), Garcia e Costa (2020), entre outros, a erosão do pudor que continuamente temos assistido, recua de forma insólita. 8 No final do mês de maio 2021, mais de 3.400.000 pessoas morreram no mundo todo em virtude do SarsCov-2. No Brasil, mais de 440.000 pessoas já morreram até o fechamento deste ensaio. Reduzir estes números avassaladores somente será possível com a vacinação em escala planetária, mas também, com o exercício da solidariedade e da responsabilidade individual em nome da vida coletiva. Dados disponíveis em https://www.who.int/emergencies/ diseases/novel-coronavirus-2019. Acesso em: 21 maio 2021.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Responsabilidades da Educação Física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo 05 sem a menor responsabilidade com os impactos de negacionismos na ampla esfera pública. Em tempos de pós-verdade9 e egocentrismos opinativos, a máxima cartesiana “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sun), provavelmente, seria substituída por “Acredito, então é verdade” (credo, verum est). Neste caso, cabe considerar que, mesmo o conhecimento útil, tomado como referência hegemônica de produção de mundo, também passa por um momento de provação, derivado de narrativas que mais confundem do que contribuem com a possibilidade de lidar, por exemplo, com as crises que vivemos. Por consequência, um desprezo ainda maior é dispensado a conhecimentos considerados “inúteis”, colocando-os em uma condição mais subalterna ainda. De nossa parte, entendemos que isso se funda pela crise de cultura que vivemos, onde uma formação rigorosa e alargada dá lugar a uma formação “enxuta”, cada vez realizada com menor tempo e esforço. Uma crise que vem impactando decisivamente no que a escola vem propondo como formação, produzindo um deslocamento de uma formação cultural ampliada, ainda presente no século passado de forma mais intensa, para uma formação (pretensamente) técnica especializada, paradoxalmente, gestada na segunda metade do mesmo século10. Embora não seja possível aprofundar tal deslocamento neste texto, este movimento vem alçando a lógica da pedagogia das competências como referencial exclusivo para a formação (tanto na escola como na universidade). Tal como expresso por Rezer (2020), alçar habilidades e competências, características humanas de segundo nível, a condição de balizador para a formação, se trata de um grande equívoco, com prejuízos incalculáveis para a educação brasileira, especialmente pelo fato de que evidencia uma formação centrada no praticismo, utilitarismo e imediatismo, algo que vem gerando um clima cultural que privilegia a prática (sem a devida reflexão teórica) como centralidade da formação escolar e universitária11. Nos últimos anos, considerando as duas primeiras décadas do Século XXI, há uma intensificação deste clima no amplo espectro da sociedade contemporânea, especialmente em realidades como a brasileira (mas não só). Um tempo no qual 9 Terraplanismo, revisionismos ou negacionismos (da pandemia etc.), entre outras narrativas edificadas com base na desconstrução irresponsável, bem como, na crença e no desejo de poder, se manifestam com a pretensão de “redefinir” a história ou a realidade, com vistas a construir uma base de sustentação para projetos político-culturais (no caso em tela, de ordem liberal e conservadora). Nessa esteira, percebemos o crescimento da pós-verdade, expressão utilizada nos últimos anos, que corresponde a narrativas em que fatos objetivos têm menos importância do que paixões, interesses, crenças pessoais e o desejo de estar certo. Se fatos são construções históricas, toda narrativa deve se assentar em critérios de justificação dotados de sentido no mundo comum. Sem isso, não passam de embustes. 10 Como consequência, percebemos um empobrecimento da própria expectativa dos estudantes com relação a formação. Por exemplo, o mesmo estudante de ensino médio que passa um final de semana “maratonando” sua série preferida, demonstra dificuldades severas de manter a atenção em uma aula que exija a produção de longas cadeias de raciocínio, leitura e interpretação de textos. Da mesma forma, um jovem que se manifesta regularmente e com frequência nas redes sociais, pode “estar invisível” nas aulas. Ou ainda, professores que, na tentativa de “ganhar público” ou manter seu emprego (especialmente no segmento privado), transformam suas aulas em jogos interativos e superficiais, pautados pelo entretenimento. 11 Se tomarmos como referência os textos da Base Nacional Curricular Comum (BRASIL, 2018), da Resolução Nº 6/2018 (BRASIL, 2018a), e da Resolução CNE/CP Nº 2/2019 (BRASIL, 2019), o referido deslocamento fica mais evidente ainda. Tal como sinalizado por Rezer (2020), entre outros, um dos problemas desta lógica se refere a ideia de conhecimento válido como conhecimento prático e útil para a resolução de problemas com vistas a uma formação utilitária. Um movimento que impacta a formação escolar e universitária de forma contundente, pois privilegia conhecimentos que deem conta desta lógica, que passam a ocupar espaço privilegiado nos currículos. Assim, conhecimentos que não se coloquem a reboque disso vêm sendo paulatinamente suprimidos ou colocados de forma periférica na formação – isso fica mais claro ao considerarmos o status de disciplinas como EF, Música, Artes, Literatura, entre outras, no currículo escolar em nossos dias.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Ricardo Rezer, António Camilo Cunha 06 youtubers, muitas vezes, sem a menor responsabilidade com a verdade, adquirem condição de celebridades (com audiência compatível aos números de grandes mídias), deixa claro o sentido do conhecimento em nosso tempo. Em muitos casos, nos deparamos com vídeos que desconsideram o arcabouço cultural produzido ao longo da história da humanidade, sem a menor responsabilidade com o saber (ver a quantidade de canais do YouTube que versam sobre o terraplanismo, por exemplo). Exemplos como este mostram a fragilidade da escola em nosso tempo, que tem de “concorrer” com “mídias” das mais distintas “naturezas”. E na tentativa de (re) afirmar sua relevância social, a escola parece apostar decisivamente na formação para o trabalho e para o ingresso na universidade como balizadores exclusivos de suas proposições. Assim, a importância de disciplinas que possam dar conta dessas pretensões fica em evidência, obliterando aquelas que não possuem (em uma leitura rasa) contribuições diretas para com estas finalidades. Por outro lado, viver e conviver exige formação. Se a escola se coloca como instituição que forma preponderantemente para o ingresso na universidade e para o trabalho, onde as novas gerações aprendem a viver e a conviver? No recreio? Nas redes sociais? Nas palavras de Ordine, “[...] a los jovenes se piede que aprendan uno ofício, para gañar dinero. Se há perdido lá idea de que la escuela e la universidad san una comunidad onde se formam los futuros cidadanos que podrán ejercer su profesión, con una fuerte convicción ética e um profundo sentido de la solidariedade humana e del bien comun”.12 Assim, concordando com Ordine (2018a), a vida em sociedade só tem sentido e possibilidade de existência se conseguirmos viver com os outros e para os outros. E isso implica em reconhecer a necessidade de formação para isso. E uma formação para “viver junto” necessita de conhecimentos que vão para além daqueles específicos para o exercício de uma profissão ou para o ingresso na universidade (a epígrafe de Ordine presente no início deste tópico evidencia significativamente esta assertiva). Neste caso, conhecimentos considerados inúteis, na lógica em curso, tais como a arte, a música, a EF, mas fundamentais para a produção da vida13, vão sendo paulatinamente convidados a se retirar da universidade e da escola, juntamente com as ditas “humanidades”. Para Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, os critérios de mercantilização do cenário global vão reduzindo o valor das diferentes áreas de conhecimento ao seu preço de mercado, a tal nível que “[...] o latim, a poesia ou a filosofia só serão mantidos se algum Macdonald informático ver neles alguma utilidade” (SOUSA SANTOS, 2011, p. 1). Assim, o repertório dos “saberes inúteis” passa a fazer parte de uma “estante de livros” cada vez menos consultada no âmbito da formação (um movimento em escala 12 Disponível em: https://www.ipp.faud.unsj.edu.ar/nuccio-ordine-sobre-la-educacion-en-tiempos-de-pandemia/. Acesso em: 10 mar. 2021. 13 Entre tantos exemplos possíveis, a sensibilidade oportunizada por experiências com a música são extremamente necessárias para que possamos aprender sobre a sensibilidade que temos de ter ao tratar com pessoas, com a natureza, enfim, com as coisas do mundo. Da mesma forma, ao aprendermos na EF sobre cuidados com o corpo, podemos também aprender a perceber os corpos para além da ideia de “meios com vistas a fins” (recursos humanos), mas como seres importantes para nossa própria existência, seres que necessitam de cuidados. Certamente, tais exemplos não pressupõem uma relação de causa/efeito, mas são apresentados na direção de sustentar a abertura de horizontes de mundo altamente necessários, que necessitamos aprender a reconhecer e a cultivar.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Responsabilidades da Educação Física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo 07 internacional), sendo reduzida a uma referência cada vez menos valorizada. O risco que corremos é alçar, aos poucos, determinadas leituras de mundo a invisibilidade, ou pior, ao esquecimento, reduzindo de forma absurda a potencialidade humana. Se do ponto de vista da técnica, temos respostas cada vez mais satisfatórias, ainda temos problemas significativos no âmbito das relações humanas que temos de aprender a enfrentar e, quiçá, superar. Consideremos, por exemplo, a velocidade da produção de vacinas contra o SarsCov-2, mesmo em meio a um aparente “muro” com o qual as mais distintas ciências se depararam. Mesmo em meio a dificuldades severas, a produção de vacinas foi realizada em tempo recorde, demonstrando alta capacidade técnica de enfrentamento a problemas desta ordem. Por outro lado, os processos de vacinação são permeados por conflitos, desde a distribuição de vacinas, até a ordem de vacinação em cada País ou Estado. Qual a sequência mais adequada de vacinação? Primeiro seriam os idosos e profissionais da saúde? Todos os profissionais deste campo ou especificamente aqueles da linha de frente do combate ao COVID? E os professores, que estão sendo pressionados a voltarem ao trabalho (muitos já voltaram) de forma presencial? Sob quais justificativas questões como estas se definem? Entre tantas questões complexas como estas, se faz necessário pensar que tomar decisões desta ordem exige formação técnica (logística, por exemplo), mas também, formação de “natureza” humanística pois, exigem, par i passu, compromisso e responsabilidade ética para com o bem comum. Assim sendo, viver em sociedade exige formação para lidar com a fluidez do humano, imerso em desafios, paradoxos e contradições. E uma formação desta ordem necessita de conhecimentos das mais diferentes ciências (inclusive das “ciências humanas”), como potência de cultivo do humano dos seres. E este cultivo depende de conhecimentos que, em muitos casos, são considerados “inúteis”, na lógica da produção e do lucro presente em nosso tempo14. Conhecimentos como a arte, a literatura, a poesia, a música e a EF, entre outros, que permitem desfrutarmos das potencialidades humanas – saberes a long durée, tal como se refere Ordine (2018), que não tem “prazo de validade”. Conhecimentos que nos permitem lidar com nossa dimensão racional/técnica, mas também, estética, ética e política, como possibilidades de existência digna e interdependente no mundo comum. Assim, entendemos que a formação escolar necessita considerar elementos das mais distintas dimensões, como forma de potencializar uma formação alargada, que possa levar as faculdades humanas a seus planos mais elevados. A seguir, iremos discorrer mais e melhor sobre as especificadas deste pressuposto, bem como, suas conexões com o campo da EF. 3 EDUCAÇÃO FÍSICA COMO POSSIBILIDADE PARA A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA PARA O “TEMPO DO INÚTIL”... De fato, no universo do utilitarismo um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que uma poesia, uma chave inglesa mais do que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de um utensílio, enquanto 14 Concordando com Ordine (2018a), só o ser humano pode, conscientemente, exercitar a possibilidade de usufruir de atos e conhecimentos inúteis, que não tenham pretensões exclusivas de sobrevivência ou de produção.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Ricardo Rezer, António Camilo Cunha 08 é cada vez mais difícil compreender para que possam servir a música, a literatura ou a arte (ORDINE, 2018, p. 11, tradução nossa)15. A epígrafe expressa bem o “pano de fundo” deste ensaio. A classificação de determinados conhecimentos como “úteis” ou “inúteis” vem produzindo desdobramentos nas mais distintas formas de produção da vida humana. No caso em tela, a ideia de “inútil” com a qual trabalhamos (doravante mencionado sem aspas), parte, em boa medida (mas não só), dos argumentos de Ordine (2018), que vem dedicando parte de seu trabalho a examinar com cuidado este tema. Em sua obra “L’utilitá dell’inutile: manifesto” (2018) – em português, “A utilidade do inútil: manifesto” (ORDINE, 2016), ele procura demostrar que, se deixarmos a dimensão gratuita morrer, se renunciarmos à força geradora do inútil, se escutarmos unicamente o mortífero canto das sereias que nos impele a perseguir o lucro, somente seremos capazes de produzir uma coletividade doente e sem memória, que acabará perdendo o sentido de si mesma e da própria vida. Então, quando a desertificação do espírito nos fizer murchar16, será realmente difícil imaginar que o insipiente Homo sapiens ainda poderá ter um papel para tornar a humanidade mais humana. Em sintonia com isso, os argumentos sinalizados no tópico anterior revelam que estamos em um momento decisivo na história da humanidade: em que medida, mediante a experiência da pandemia, teremos capacidade de reconfigurar nossos modos de ser, pensar e agir? O que faremos com a experiência do que nos aconteceu em 2020 e invade 2021 sem previsão de término, muito menos, de “final feliz” para muitos e muitas? Esta experiência teria o poder de reconfigurar o sentido de ser humano? Ou está em curso um movimento radical de individualização da existência humana, pautada pelo egoísmo e pela renúncia ao mundo comum? Neste caso, como sustentar a vida em sociedade se desejos individuais (ou de pequenos grupos) se sobrepõem a nossa responsabilidade coletiva de viver e conviver com os outros? Ora, concordando com Ordine, não podemos esquecer que, no distanciamento social imposto pela pandemia, podemos perceber de muitas formas, a necessidade de estar juntos, o que evidencia que nossa condição humana não se funda no solipsismo. Assim, Ordine (2018a) nos convida a uma profunda reflexão crítica acerca de nossos modos de ser, pensar e agir que vem predominando nas últimas décadas, especialmente à luz do que vivemos nestes tempos difíceis. Da mesma forma, cabe pensar com profundidade sobre os sentidos de utilidade e inutilidade com a qual trabalhamos na contemporaneidade, como forma de ressignificar seu uso e seus desdobramentos na vida cotidiana, tanto na escola como na universidade, especialmente em campos do conhecimento como a EF. Concordando com Ordine (2018), se útil é tudo aquilo que nos ajuda a ser melhor, vale a pena investir na natureza inútil, gratuita e desinteressada do conhecimento como uma potência que 15 No original: Nell’universo dell’utilitarismo, infatti, un martello vale piú di uma sinfonia, um cotello piú di una poesia, una chiave inglese piú di un quadro: perché é facile capire l’efficacia di un utensile mentre é sempre piú difficíle comprendere a cosa possano servire la musica, la letteratura o l’arte. (ORDINE, 2018, p. 11) 16 Ordine compreende a desertificação do espírito como sintoma e consequência de um modo de produzir a vida que vem promovendo a desumanização do humano. Tal movimento vem produzindo a invisibilidade de potencialidades humanas que não estejam vinculadas ao lucro e ao consumo. Inclusive, concordando com Ordine (2018a), só o conhecimento inútil pode desafiar as leis de mercado. Levar adiante formas de produção da vida que se atenham quase que exclusivamente ao lucro e ao consumo representa apostar na desertificação de nossa possibilidade de ser humano.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Responsabilidades da Educação Física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo 09 pode nos tornar mais livres, mais tolerantes e mais humanos (a autêntica essência da vida coincide com o bom, não com o útil). Por outro lado, quando a ideia de que somente são importantes conhecimentos úteis (que promovam lucro) coloniza a vida com radicalidade, nos afastamos de dimensões humanas estranhas aos objetivos intrínsecos a esta lógica. E isso impacta decisivamente na forma de pensar a lógica “oficial” da formação escolar e o sentido de campos do conhecimento como a EF, que, via de regra, se voltam para discursos, temas e conteúdos que comprovem sua “serventia” – campos em fase de afirmação política, pedagógica e epistemológica, ficam ainda mais vulneráveis a esta lógica. Como exemplo desta condição vulnerável, o trabalho de Rufino e Darido (2013) analisa a transferência das aulas de EF no Ensino Médio em algumas escolas particulares para academias de ginástica (prática muito comum em vários contextos escolares brasileiros17). Os autores concluem afirmando que o processo de transferência das aulas para contextos não escolares corrobora com a desvalorização da EF nesse nível de ensino. De nossa parte, entendemos que isso evidencia ainda mais o caráter instrumental e utilitário atribuído à EF escolar, reduzindo-a a práticas de atividades físicas com finalidades restritas e individualizadas – neste caso, não caberia “perder tempo” com a EF escolar e sua diversidade de possibilidades. Argumentos desta ordem passam a ser um problema, na medida em que instituem e definem a EF exclusivamente a partir de sua dimensão individualista e utilitária, evidenciando sua condição subalterna no contexto escolar, desconsiderando a enorme potência que ela possui na formação de uma cultura para a solidariedade e para o tempo do inútil. Conhecimentos sobre jogo, dança, esporte, ginástica, entre outros, representam uma potência que permite qualificar distintas dimensões humanas, tendo em vista o tempo de não trabalho, de não produção, um tempo que se constitui como rica oportunidade de qualificar nossas experiências de mundo pelo cultivo de saberes que envolvam as mais distintas dimensões do humano dos seres18. Do contrário, pressupor que uma educação utilitária e imediatista, sem o amparo de uma formação cultural mais ampla, tal como se refere Dalbosco (2013), seria suficiente para dar conta dos problemas típicos de uma sociedade plural e interconectada, mormente em crise, é se recusar a ver a profundidade complexa que constitui as mais diversas formas da vida humana e social. Isso nos exige refletir continuamente sobre o sentido da formação utilitária oferecida às novas gerações, bem como, sobre nossas responsabilidades como professores em nosso tempo. Por tais elementos, cabe evidenciar conhecimentos que no contemporâneo são compreendidos como “inúteis”, o que permitiria enfrentar o aparente “menosprezo” a 17 Nessa lógica, o aluno substitui a aula de EF escolar pela prática de atividades de academia – por exemplo, duas ou três sessões semanais de musculação ou ginástica. Neste caso, a EF se coloca na condição de invisível na já difícil realidade deste campo no ensino médio das escolas brasileiras. 18 Certamente, cabe referenciar as contribuições do Grupo de Trabalho Temático (GTT) “Lazer e sociedade” do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE). Ver sobre a produção do GTT, no Volume 10 da Coleção “Ciências do Esporte, Educação Física e Produção do Conhecimento em 40 Anos de CBCE”, intitulado “Lazer e sociedade”. Disponível:http://www.cbce.org.br/upload/biblioteca/Lazer%20e%20sociedade%20(Ci%C3%AAncias%20 do%20esporte,%20educa%C3%A7%C3%A3o%20f%C3%ADsica%20e%20produ%C3%A7%C3%A3o%20do%20 conhecimento%20em%2040%20anos%20de%20CBCE%20-%20%20v.%2010).pdf. Acesso em: 12 mar. 2021.
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 Abstract: This essay aims reflect on the school Physical Education (PE) as a field of knowledge with responsibilities of propose a formation for the “useless time”. Throughout the text, we tried to demonstrate that, in times of the crisis, utilitarianisms and immediacies, recognizing the importance of a culture for “useless time” would represent a paradigm change for PE, especially in the school context. Keywords: Physical Education. Knowledge. Formation. Resumen: Este ensayo apunta a reflexionar sobre la Educación Física (EF) escolar como un campo del conocimiento con responsabilidades de proponer una formación para el “tiempo de lo inútil”. A lo largo del texto, tratamos de demostrar que, en tiempos de crisis, utilitarismos e imediatismos, reconocer la importancia de una cultura por “tiempo de lo inútil” representaría un cambio de paradigma para la EF, especialmente en lo contexto escuelar. Palabras clave: Educación física. Conocimiento. Formación. ABSTRACT RESUMEN
Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27042, 2021. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 NOTAS EDITORIAIS LICENÇA DE USO Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o trabalho original seja corretamente citado. Mais informações em: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0 CONFLITO DE INTERESSES Os autores declararam que não existe nenhum conflito de interesses neste trabalho. CONTRIBUIÇÕES AUTORAIS Ricardo Rezer: Elaboração, sistematização, aprofundamento teórico, redação do texto e revisão final. António Camilo Cunha: Elaboração, sistematização, aprofundamento teórico e redação do texto; FINANCIAMENTO O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras. COMO REFERENCIAR REZER, Ricardo; CUNHA, António Camilo. Responsabilidades da educação física para com o “tempo do inútil”: uma necessidade de nosso tempo. Movimento (Porto Alegre), v.27, p.e27042, jan./dez. 2021. Disponível em: https://seer.ufrgs. br/Movimento/article/view/112224. Acesso em: [dia] [mês abreviado]. [ano]. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.112224 RESPONSABILIDADE EDITORIAL Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Ivone Job*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira* *Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.