[Recensão a] Gaspar, Carlos. 2019. O Regresso da Anarquia: Os Estados Unidos, a Rússia, a China e a Ordem Internacional. Óbidos: Alêtheia Editor e Gaspar, Carlos. 2020. O Mundo de Amanhã. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos
Abstract
[Excerto] Passados mais de seis meses sobre a publicação da última obra de Carlos Gaspar, e mais de um ano sobre a anterior, é interessante observar que a tese fundamental que defendia (o regresso do mundo internacional à anarquia e a rivalidade agressiva entre os EUA, a China e a Rússia que prefiguram uma Guerra-Fria 2.0) é agora uma evidência e faz os cabeçalhos dos jornais.[...]
Full text
PERSPECTIVAS - JOURNAL OF POLITICAL SCIENCE, VOL.28 81 Gaspar, Carlos. 2019. O Regresso da Anarquia: Os Estados Unidos, a Rússia, a China e a Ordem Internacional. Óbidos: Alêtheia Editores Gaspar, Carlos. 2020. O Mundo de Amanhã. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos. Gaspar, Carlos. 2019. he Return of Anarchy: The United States, Russia, China and the International Order. Óbidos: Alêtheia Editores and Gaspar, Carlos. 2020. The World of Tomorrow. Lisbon: Francisco Manuel dos Santos Foundation. João Rodrigues, J. A. Colen Submitted—13-12-2022. Accepted—22-02-2022. ✦ •João Rodrigues, J. A. Colen. DOI:http://dx.doi.org/10.21814/perspectivas.3529
PERSPECTIVAS - JOURNAL OF POLITICAL SCIENCE, VOL.28 82 Recensão Passados mais de seis meses sobre a publicação da última obra de Carlos Gaspar, e mais de um ano sobre a anterior, é interessante observar que a tese fundamental que defendia (o regresso do mundo internacional à anarquia e a rivalidade agressiva entre os EUA, a China e a Rússia que prefiguram uma Guerra-Fria 2.0) é agora uma evidência e faz os cabeçalhos dos jornais. Obviamente, uso da palavra anarquia é idiossincrático: designa não só o fim da hegemonia indiscutida dos EUA na esfera internacional, mas uma tendência à dissolução da ordem devido à ascensão de correntes nacionalistas diversas. O autor prevê um período de relativa estabilidade no panorama internacional, uma espécie de "trégua prolongada" (Gaspar 2019, 246), mas não é otimista. Na obra de 2020, isso é ainda mais claro (Gaspar 2020, 99) Ambas as obras incluem uma panorâmica histórica dos diferentes eventos e tendências que influenciaram, e ainda influenciam, as distribuições do poder entre as potências mundiais, desde o início da guerra fria até aos nossos dias, e uma previsão informada sobre o futuro das relações entre estados. O primeiro livro, mais extenso e repleto de referências bibliográficas é utilíssima ao estudioso das relações internacionais num mundo que já não é regulado por uma única potência, os EUA. O autor recorda que a "balança das nações" durante o período da guerra-fria o mundo era fundamentalmente bipolar, ou seja, o poder estava concentrado nas duas grandes potências nucleares, os EUA e a URSS (Gaspar 2019, 28). Durante este período a China é ainda uma potência em crescimento. Com o colapso da União Soviética, o anterior equilíbrio de poderes desaparece (138) e há um breve "interregno unipolar" (123-173). No entanto, a partir do 11 de setembro (e as ondas de choque que gera), bem como da crise financeira de 2008, assistimos ao fim da hegemonia americana, à ascensão da China e da Rússia (reconhecidas nos documentos da diplomacia americana como "potências revisionistas"). Estabelecese então uma distribuição triangular do poder entre estas três potências. A obra está organizada em cinco secções. A primeira, intitulada ‘Duas Ordens’ explora o cenário internacional que seguiu a segunda guerra mundial, caracterizado pela desintegração da Alemanha vencida, "que deixa vagos terrenos à mercê dos novos impérios ideológicos" (28). Para o autor, não é ideológico apenas o império da URSS, que segue as profecias da teoria revolucionária leninista e visa estabelecer um império socialista mundial, mas também o império americano, que pretende ter um papel fundamental no panorama global, traduzida em políticas como a doutrina Truman e o Plano Marshall (30). Mas já nesta secção o autor desenha a formação de uma aliança entre a China e a Rússia (fundamentada na ideologia partilhada por ambas), e a cisão provocada pela crise dos mísseis de Cuba (69). Na segunda secção, ‘A Dupla Guerra Fria’, o autor examina de perto a ascensão da China como potência autónoma e os conflitos ideológicos e estratégicos com o seu antigo aliado (a União Soviética) (80). Na terceira secção, o autor explora os acontecimentos do pós-Guerra Fria, que põe fim à divisão da Alemanha. O autor destaca sobretudo a desintegração da União Soviética, que deixa os Estados Unidos sem rival no plano internacional. Gaspar defende que é uma revolução intelectuala favor da democracia, da pluralidade, e da economia de mercadonos países pós-comunistas da Europa de Leste que retira legitimidade ao imperialismo soviético e causa a desintegração da própria URSS (123-124). Mas o autor analisa também o impacto do 11 de Setembro e o falhanço do imperialismo americano que se seguiu, devido à alienação que a invasão do Iraque causa entre os seus aliados (154-155). Depois desta panorâmica histórica o autor avança a sua leitura do momento atual e a sua previsão para o mundo de amanhãÿ título da obra mais breve, mas não menos interessante. Com efeito, a quarta secção, ‘O Regresso da Anarquia’, explora as causas do declínio da ordem liberal. Em particular, sublinha o ressurgimento dos nacionalismos que se opõem tanto à globalização como à interdependência de interesse entre os estados. Longe de ser aceite generalizadamente, a ordem liberal coexiste com uma competição estratégica entre os EUA, a Rússia e a China (175-176). A última secção é a mais pessimista. No capítulo ‘As Três Ordens’, o autor analisa as consequências do fim do momento unipolar, e fala da competição
PERSPECTIVAS - JOURNAL OF POLITICAL SCIENCE, VOL.28 83 entre os EUA e a China como análoga à Guerra Fria: uma espécie de "Guerra Fria 2.0" (229). O autor mostra a volatilidade da nova distribuição tripolar do poder entre os EUA, a Rússia, e a China (234-237) mas conclui que nenhuma das três potências está em condições por si só de neutralizar as outras; nenhuma tem um modelo de ordenamento político reconhecido como legítimo pelas outras; e nenhuma quer arriscar uma escalada nuclear com os seus rivais (245). Por isso, autor afirma que a ordem liberal foi já superada pelo regresso da anarquia, definida como a ausência de uma ordem cosmopolita e o retorno da igual soberania dos estados. O livro mais breve, O Mundo de Amanhã, conclui de modo análogo com a ideia de que "A instabilidade multipolar aumenta quando o sistema internacional é dominado por três grandes potências" (Gaspar, 2020, 99). É notável o escopo das obras, que proporcionam ao curioso e ao académico uma visão dos fluxos de poder internacional do fim da segunda guerra mundial à atualidade (um período de mais de 70 anos). O leitor beneficia de uma interpretação consistente e coesa de um período longo, complexo e multifacetado. Mas não é uma obra neutra, em que o autor se oculta por detrás de factos e tendências. O autor afirma, por exemplo, que as tentativas de implementação de uma democracia socialista no leste da Europa falharam (e estavam votadas a falhar) porque ‘democracia pluralista’, ‘primado de direito’ e ‘economia de mercado’ formam um todo inseparável (Gaspar 2019, 123); e a sua leitura é por vezes paradoxal: terá a crise financeira de 2008 sido precipitada pelas consequências do imperialismo norteamericano? (242) Mesmo que nos pareçam às vezes controversas, as obras têm duas vantagens inegáveis: sistematizam as dinâmicas do poder internacional num todo inteligível numa narrativa que chega aos dias de hoje, proporcionando ao leitor geral uma compreensão robusta tanto da situação internacional contemporânea, como das suas origens, dum modo que revela a imensa cultura e experiência. Note-se que, mesmo quando não entra em detalhes, o Regresso da Anarquia remete para mais de trezentos estudos. Apesar da diferença de dimensão e de público-alvo tornar as obras difíceis de comparar, a nossa preferência vai talvez para a segunda, que de vez em quando, foge do quadro geopolítico no sentido mais estrito para falar da tecnologia, do envelhecimento e, de modo geral, revela a profunda humanidade do autor.