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Avaliação da geodiversidade de Portugal Continental

Peixoto, Rui Miguel Fernandes

Abstract

Esta dissertação tem como principal temática a geodiversidade de Portugal Continental, tendo como principal objetivo a sua avaliação e as relações que estabelece com outras temáticas, nomeadamente os recursos geológicos, a biodiversidade e as áreas protegidas. Tendo em conta as metodologias utilizadas em outros trabalhos, foi proposta uma avaliação da geodiversidade através de uma avaliação dos índices litológicos, geomorfológicos e pedológicos de Portugal Continental, em que foi tido em conta o número de diferentes ocorrências existentes em cada célula da grelha 25 x 25 km utilizada, tendo-se observado três locais com valores elevados de geodiversidade. Além do índice de geodiversidade foi feita uma avaliação quantitativa dos recursos minerais e os recursos hídricos existentes no território nacional, e ainda uma avaliação da distribuição do património geológico e de uma parte da biodiversidade existente em Portugal Continental, tendo em conta os dados disponíveis. Estes mapas foram depois todos correlacionados tendo-se observado diversas relações entre os diferentes índices, com especial interesse as relações entre a geodiversidade e a biodiversidade e a geodiversidade e as áreas protegidas. Pretende-se que os resultados obtidos nesta dissertação possam ser úteis na gestão territorial nacional, no uso e gestão dos recursos naturais e ainda na criação de estratégias de conservação da natureza, que atribuam maior valor à geodiversidade.

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Universidade do Minho Escola de Ciências Rui Miguel Fernandes Peixoto Avaliação da Geodiversidade de Portugal Continental dezembro de 2020 Avaliação da Geodiversidade de Portugal Continental Rui Miguel Fernandes Peixoto UMinho | 2020 Universidade do Minho Escola de Ciências Rui Miguel Fernandes Peixoto Avaliação da Geodiversidade de Portugal Continental Dissertação de Mestrado Mestrado em Geociências Ramo de Património Geológico e Geoconservação Trabalho efetuado sobre a orientação do Professor Doutor Diamantino Manuel Ínsua Pereira Professor Doutor Renato Filipe Henriques dezembro de 2020 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ ii Agradecimentos A realização desta dissertação foi fruto do trabalho e esforço de algumas pessoas a quem passo a agradecer. Aos meus orientadores, Professor Diamantino Pereira e Professor Renato Henriques pelo apoio, disponibilidade e orientação para a realização deste trabalho. Aos colegas de Mestrado, pela ajuda, troca de conhecimento e os bons momentos passados durante esta caminhada. À minha família, em especial aos meus pais, por sempre me proporcionarem as condições ideais ao longo do meu percurso académico. À Joana por estar sempre ao meu lado nos bons e maus momentos e por me ajudar na realização deste trabalho. A todos um muito obrigado. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Avaliação da Geodiversidade de Portugal Continental Resumo Esta dissertação tem como principal temática a geodiversidade de Portugal Continental, tendo como principal objetivo a sua avaliação e as relações que estabelece com outras temáticas, nomeadamente os recursos geológicos, a biodiversidade e as áreas protegidas. Tendo em conta as metodologias utilizadas em outros trabalhos, foi proposta uma avaliação da geodiversidade através de uma avaliação dos índices litológicos, geomorfológicos e pedológicos de Portugal Continental, em que foi tido em conta o número de diferentes ocorrências existentes em cada célula da grelha 25 x 25 km utilizada, tendo-se observado três locais com valores elevados de geodiversidade. Além do índice de geodiversidade foi feita uma avaliação quantitativa dos recursos minerais e os recursos hídricos existentes no território nacional, e ainda uma avaliação da distribuição do património geológico e de uma parte da biodiversidade existente em Portugal Continental, tendo em conta os dados disponíveis. Estes mapas foram depois todos correlacionados tendo-se observado diversas relações entre os diferentes índices, com especial interesse as relações entre a geodiversidade e a biodiversidade e a geodiversidade e as áreas protegidas. Pretende-se que os resultados obtidos nesta dissertação possam ser úteis na gestão territorial nacional, no uso e gestão dos recursos naturais e ainda na criação de estratégias de conservação da natureza, que atribuam maior valor à geodiversidade. Palavras-chave: geodiversidade, avaliação, Portugal Continental, biodiversidade, áreas protegidas, recursos geológicos, património geológico v Geodiversity assessment of mainland Portugal Abstract This dissertation has as main theme the geodiversity of mainland Portugal, having as the main objective its assessment and the relations it establishes with other themes, namely geological resources, biodiversity and protected areas. Taking into account the methodologies used in other studies, an assessment of geodiversity was proposed through an assessment of the lithological, geomorphological and pedological indices of mainland Portugal. The number of different occurrences existing in each cell of a 25 x 25 km grid was taken into account, having observed three sites with high values of geodiversity. In addition to the geodiversity index, was carried out a quantitative assessment of mineral and water resources, distribution of the geoheritage and a portion of the biodiversity in mainland Portugal, considering the available data. Different maps were produced with the referred data. These maps were then all correlated, and several relationships were observed between the different indices, with special interest in the relationships between geodiversity and biodiversity and geodiversity and protected areas. It is intended that the outcome obtained in this dissertation can be useful in the national territorial management, in the use and management of natural resources and also in the creation of nature conservation strategies, that consider greater value to geodiversity. Keywords: geodiversity, assessment, mainland Portugal, biodiversity, protected areas, geological resources, geoheritage vi Índice Geral DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ......................... i Agradecimentos ................................................................................................................................... ii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ......................................................................................................... iii Resumo.............................................................................................................................................. iv Abstract............................................................................................................................................... v Índice Geral ........................................................................................................................................ vi Índice de Tabelas ............................................................................................................................. viii Índice de Imagens .............................................................................................................................. ix 1. Introdução ...................................................................................................................................... 1 1.1 Objetivos .................................................................................................................................. 1 1.2 Unidades geológicas e suas características ............................................................................... 2 1.3 Caracterização hipsométrica e geomorfológica .......................................................................... 7 1.4 Rede Nacional de Áreas Protegidas de Portugal Continental .................................................... 13 1.5 Metodologia de trabalho ......................................................................................................... 15 2. Geodiversidade ............................................................................................................................. 16 2.1 A evolução de um conceito ..................................................................................................... 16 2.2 Valores da Geodiversidade e a sua relação com os serviços ecossistémicos ............................. 18 2.3 Ameaças à geodiversidade ...................................................................................................... 24 2.4 Geoconservação ..................................................................................................................... 27 3. Avaliação da geodiversidade de Portugal Continental ..................................................................... 28 3.1 Classificação da geodiversidade .............................................................................................. 28 3.2 Índices parciais da geodiversidade .......................................................................................... 29 3.2.1 Diversidade litológica ....................................................................................................... 30 3.2.2 Diversidade pedológica .................................................................................................... 35 3.2.3 Diversidade Geomorfológica ............................................................................................. 37 3.3 Mapa da Geodiversidade ......................................................................................................... 40 3.4 Recursos geológicos ............................................................................................................... 45 3.4.1 Recursos minerais ........................................................................................................... 46 3.4.2 Recursos hídricos ............................................................................................................ 50 3.4.2.1 Rede Hidrográfica de Portugal Continental ................................................................. 50 3.4.2.2 Albufeiras ................................................................................................................. 55 3.4.2.3 Precipitação média anual .......................................................................................... 58 3.4.2.4 Cálculo final dos recursos hídricos ............................................................................ 60 3 Cerca de 70% da área de Portugal Continental assenta no Maciço Hespérico (560-245 Ma), sendo o restante ocupado pelas Orlas Meso-cenozoicas (15%) e pela Bacia Cenozoica do Baixo Tejo e Alvalade (15%) (Pereira et al. 2014) (Figura 2). O Maciço Hespérico é constituído por rochas formadas durante os ciclos Cadomiano e essencialmente durante o ciclo Varisco (560-245 Ma) e é constituído por rochas ígneas metassedimentares e metavulcânicas. As rochas estão afetadas pela deformação imposta durante a orogenia Varisca e, no caso das rochas mais antigas, pela orogenia Cadomiana. No ciclo Varisco, podem considerar-se quatro episódios evolutivos principais. Numa primeira fase entre o Câmbrico médio e o Silúrico médio onde predominou uma extensão generalizada, originando a abertura dos oceanos paleozoicos. De seguida entre o Silúrico Médio iniciou a subdução dos oceanos levando a formação de bacias pós-arco e a obdução de escamas ofiolíticas, mantendo-se até ao Devónico médio. Entre o Devónico médio e o final do Carbónico predomina a colisão continental, coincidindo com o período orogénico associado á colisão do Gondwana e os continentes setentrionais, levando á formação da Pangeia. Por fim do Carbónico Superior e o Pérmico Inferior predominou a deformação intra-continental, associado a um movimento transcorrente de componente oblíqua direita (R. Dias,2010). Figura 2 - Unidades morfoestruturais da Península Ibérica (Pereira et al. 2014, modificado de Vera et al ., 2004). 4 Estes episódios fizeram com que no fim do Paleozoico exista uma individualização das unidades morfoestruturais da Península Ibérica, proposta inicialmente por Lotze (1945) e mais tarde complementada por Julivert et al. (1972) e Farias et al. (1987), onde são possíveis definir os diferentes Terrenos delimitados pelos principais acidentes geológicos e as Zonas (Figura 3) “ que apresentam uma evolução paleogeográfica diferenciada que é máxima segundo uma direção perpendicular ás estruturas variscas principais e mínima paralelamente à orientação geral do orógeno ” (R. Dias,2010). Figura 3 - Terrenos e zonas tectonoestratigráficas, (adaptado de Ribeiro, 2006). Uma outra forma de caracterização do Maciço Ibérico resulta da adaptação dos conceitos de “ suspect terranes ” e terreno tectonoestratigráfico. O conceito de Terreno remete para unidades à escala da litosfera e respeita a fragmentos crustais, que originalmente se encontrariam espacialmente afastados, justapostos. Estes conceitos foram aplicados à evolução geodinâmica do Maciço Ibérico, dividindo-se este orógeno varisco nos vários Terrenos tectonoestratigráficos correspondentes. Ribeiro (2006) hierarquizou as diversas unidades geodinâmicas em: • Unidades de 1ª ordem – Terrenos; • Unidades de 2ª ordem – Zonas. 5 Distinguiu, assim, sete Terrenos: • Terreno Ibérico (TI) – unidade de origem continental, definida pela imbricação de elementos autóctones e parautóctone (Proterozoico Sup. – Paleozoico) (Meireles, 2013), que alberga: o Zona Cantábrica; o Zona Astur-ocidental Leonesa; o Zona Centro Ibérica; o Parautóctone da Zona Galiza e Trás os Montes, com afinidade com a ZCI, e ZOM (Ribeiro, 2006). • Terreno Sul Português – unidade continental unicamente constituída por rochas do Paleozoico Sup. (Meireles, 2013). • Terrenos Exóticos – Terrenos exumados e carreados sobre os anteriores, sendo estes: o Terreno Continental Alóctone; o Terreno Ofiolítico do Noroeste Ibérico; o Terreno Ofiolítico do Sudoeste Ibérico; o Terreno Finisterra (Ribeiro, 2006); • Terreno Ofiolítico do Noroeste Ibérico – constituinte dos Maciços de Cabo Ortegal, Ordenes, Bragança e Morais; testemunho da obdução da litosfera. Além do Maciço Ibérico o território continental nacional é constituído pelas Orlas Meso-Cenozoicas, Ocidental e Meridional ou Algarvia e pelas Bacias Cenozoicas. Na Orla Meso-Cenozoica Ocidental, as unidades mesozoicas relacionam-se com a designada Bacia Lusitânica, formada na fase inicial da fragmentação da Pangea e abertura do Atlântico Norte, como consequência do afastamento do continente norte-americano e o continente europeu. Esta bacia tem uma extensão aproximada de 225 km e 70 km de largura, estando geograficamente delimitado pelo Maciço Ibérico a este e pelo horst das Berlengas a oeste (Guerner Dias, 2005), em que cerca de 2/3 da sua área total aflora na área continental. A evolução desta bacia foi condicionada por um conjunto de falhas que se formaram entre os 300 e 280 Ma., num episódio de fracturação tardi-varisca. Outras falhas variscas de orientação N-S e NW-SW tiveram também um papel importante na estruturação desta bacia (Ribeiro et al ., 1979 in Kullberg et al ., 2013). Uma parte das rochas mesozoicas estão cobertas por sedimentos cenozoicos relacionados com sistemas aluviais ou costeiros desenvolvidos após a colmatação da Bacia Lusitânica. A Bacia do Algarve corresponde aos terrenos mesocenozoicos que orlam o sul de Portugal Continental, numa extensão aproximada de 140 km do Cabo S.Vicente até ao Rio Guadiana, com uma penetração 6 para o interior entre os 3 km e 25 km. Esta bacia teve uma evolução semelhante á Bacia Lusitânica, sendo estas dominadas pelos Ciclos de Wilson do Tétis e do Atlântico (A. Ribeiro, 2013). Já as bacias Cenozoicas encontram-se espalhadas pelo território nacional, sendo elas: • Bacia do Baixo Tejo e Alvalade • Bacia do Douro • Bacia do Guadiana • Bacia do Mondego O processo de formação destas bacias está relacionado com a passagem de um regime distensivo iniciado no Triásico para um regime de fases compressivas devido à colisão da placa euroasiática e africana, levando à abertura de bacias sedimentares, com orientação maioritária E-W e NE-SW. A Ibérica sofreu então uma grande deformação intraplaca, provocando um dobramento litosférico e por consequência a formação de pequenas bacias de desligamento, através de uma compressão máxima de orientação N-S, tendo depois rodado para NW-SE (Pais et al., 2013). No Eocénico Inferior (55 Ma.), começou um preenchimento das bacias do Mondego e do Baixo Tejo e Alvalade, com uma lenta e gradual erosão do Maciço Ibérico, que com uma continuada deformação tectónica e condições climáticas favoráveis levou a um aplanamento do soco e deposição de areias feldspáticas para o interior das bacias. No Tortoniano (11,63 - 7,246 Ma.), é atingido o ponto máximo de compressão dando início ao soerguimento das mais importantes cadeias montanhosas como a Cordilheira Central Portuguesa (2000 m de altitude) e as Montanhas Ocidentais Portuguesas. No Miocénico final (23 - 5,3 Ma) e no Zancliano (3,6 - 5,3 Ma), devido a um clima temperado quente e muito contrastado, a sedimentação foi endorreica e com leques aluviais no sopé das escarpas de falhas ativas. No Placenciano (2,58 - 3,6 Ma), o clima temperado quente tornou-se muito húmido e a partir do Gelasiano, progressivamente mais frio e seco, levando ao desenvolvimento de uma rede hidrográfica exorreica, anterior á atual, fazendo com que apareçam vales fluviais largos nas áreas montanhosas e capturas de bacias endorreicas interiores. No Plistocénico (1,8 - 2,58 Ma), o progressivo soerguimento tectónico e os períodos com baixo nível do mar levaram a um encaixe da rede hidrográfica e ao desenvolvimento de capturas fluviais (Pais et al., 2013). No Algarve instalou-se um regime de plataforma marinha carbonatada temperada no Miocénico Inferior e Médio, enquanto no Miocénico Superior a região a leste de Faro passou a ser predominantemente siliciclástica (Pais et al., 2013). 7 1.3 Caracterização hipsométrica e geomorfológica Portugal Continental situa-se no sudoeste do continente europeu, mais concretamente na zona ocidental da Península Ibérica, tendo como limite a sul e oeste o Oceano Atlântico e a norte e este a Espanha. A parte continental do país possui uma área de 89 102 km2,, representado 96,6% da área total do país, sendo os restantes 3.4% das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores (INE,2020). Figura 4 - Localização de Portugal Continental na Europa e divisão administrativa. Adaptado da CAOP Já o relevo de Portugal Continental, apesar de existir um domínio das altitudes abaixo dos 400 m, há uma notória divisão a norte e sul do Rio Tejo. A norte do Douro, predominam as altitudes acima dos 400 m, encontrando-se no interior a grande maioria das principais cadeias montanhosas de Portugal Continental tais como Serra do Gerês (1546 m), Serra do Larouco (1535 m), Serra do Montesinho (1486 m), Serra Amarela (1359 m) e a Serra do Marão (1415 m). As zonas mais baixas localizam-se nas áreas costeiras e fluviais, com especial relevância nos grandes rios e seus afluentes. Entre o Douro e Tejo, nas áreas mais interiores, estão localizadas zonas com altitudes semelhantes às encontradas mais a norte (400 m) e onde se localiza a principal cadeia montanhosa de Portugal Continental, a Serra da Estrela (1993 m), mas também a Serra da Gardunha (1227 m) e a Serra do Açor (1418 m). Nas zonas costeiras predomina a baixa altitude (inferior a 100 m) que se estende para o 8 interior do país, em que se destacam algumas elevações perto da costa como a Serra de Sintra (528 m), Serra de Montejunto (667 m), Serra de Candeeiros (610 m) e Serra de Aire (649 m). A sul do Tejo predomina as altitudes abaixo dos 400 m, com extensas regiões de planície e planaltos muito característicos desta região, onde se destacam apenas Serra de São Mamede (1025 m), a Serra da Arrábida (501 m), a Serra do Caldeirão (589 m) e a Serra de Monchique (902 m) (INE, 2017). Figura 5 - Mapa hipsométrico de Portugal Continental (SNIRH, 2009) 9 A nível geomorfológico, o trabalho de Pereira et al. (2014) apresenta uma divisão do país em diferentes níveis (táxons na bibliografia brasileira), tendo como 1º nível as três Unidades Morfoestruturais. Estas unidades já foram anteriormente descritas e são: 1. Maciço Ibérico 2. Bacias Mesozoicas pouco deformadas 3. Bacias Cenozoicas O Maciço Ibérico representa 70% do território de Portugal continental, que engloba as rochas dos ciclos pré-Mesozoicos, principalmente do ciclo varisco, com predomínio das séries sedimentares e vulcanosedimentares do paleozoicos e os granitos variscos. A nível tectónico estrutural, predomina um sentido NW-SE alinhadas com as cristas quartzíticas, sendo que a fracturação fini-varisca teve também um papel importante na evolução do relevo, com falhas e fraturas com orientação N-S, NNE-SSW, NE-SW e NWSE. Esta rede de fraturas tem um papel fundamental na organização da rede hidrográfica. As bacias Mesozoicas pouco deformadas são representadas em Portugal pelas Bacias Lusitânicas e Algarvia. Os afloramentos de rochas mesozoicas, correspondem a 8% do território nacional (7% Bacia Lusitânica; 1% Bacia Algarvia). É preciso ter em conta que por vezes estas unidades encontram-se cobertas por sedimentos cenozoicos não consolidados ou pouco consolidados. As bacias Cenozoicas são principalmente representadas pelas Bacias Cenozoicas do Tejo e de Alvalade, correspondendo a 15% do território nacional. As bacias Cenozoicas do Douro e do Guadiana têm uma reduzida extensão em Portugal. Estas bacias correspondem a depressões alongadas NE-SW, sendo preenchidas desde o Eocénico Médio, tendo no Tortoniano médio a lenta e gradual erosão do Maciço Ibérico em condições de deformação continua e um clima semiárido a subtropical, favorecendo assim o transporte de materiais arenosos feldspáticos para as bacias. Estas unidades são então divididas em Unidades Morfoesculturais, “compartimentos gerados inicialmente por processos tectónicos e modelados pelos processos intempéricos ao longo do tempo geológico”, representado assim o 2ª nível. Tendo em conta o Maciço Ibérico são consideradas 4 unidades de 2º nível: 1. Montanhas e Planaltos do NW Ibérico: representam 33% do território nacional e são constituídas por blocos levantados a diferentes altitudes, entre os 800 e 1500 m e algumas superfícies aplanadas entre os 500 e os 800 m. Esta unidade é constituída essencialmente por rochas graníticas hercínias e rochas metassedimentares variadas, com idades entre o Proterozoico Superior e o Devónico. As cristas quartzíticas e graníticas podem ter uma elevação até 300 m acima ao nível de base; 10 2. Sistema Central Ibérico: ocupa 4% do território, constituído por um alinhamento montanhoso de orientação NE-SW, com altitudes até aos 1993 m, na Serra da Estrela. Este alinhamento montanhoso corresponde a um bloco mais elevado do que o bloco mais a sul (Planaltos do SW Peninsular), genericamente menos elevados que o bloco mais a norte (Montanhas e Planaltos do NW Ibérico e Bacia Cenozoica do Douro). As rochas predominantes são os granitoídes e metassedimentos pré-Mesozoicos; 3. Planaltos do SW Peninsular: ocupa 32% do território, caracterizada por uma superfície aplanada entre os 300 e 400m de altitude, constituído por metassedimentos e alguns granitóides e pontualmente algumas rochas máficas. Aqui sobressaem as cristas quartzíticas da Serra de S. Mamede e o maciço máfico da Serra de Monchique. O menor soerguimento nesta zona leva a uma menor incisão fluvial e maior preservação das superfícies de aplanamento; 4. Berlengas: o arquipélago das Berlengas é constituído pela ilha principal (Berlenga Grande) e ilhas próximas (Estelas e Farilhões). Estas são pequenos afloramentos de granito e metassedimentos pré-mesozoicos, associadas ao Bloco das Berlengas que limita a oeste a Bacia Lusitânica; Já nas Bacias Mesozoicas pouco deformadas são consideradas 2 unidades de 2º nível: 1. Bacia Lusitânica: localizada a oeste de Portugal Continental, com cerca de 5000 metros de espessura máxima, prolonga-se por cerca de 200 km NNW-SSE e 100 km E-W, com cerca de 2/3 aflorando na área continental emersa. Esta bacia é essencialmente constituída por sedimentos clásticos aluviais e níveis marinhos de calcários e margas; 2. Bacia Algarvia: localizada na zona mais a sul de Portugal Continental, estendendo-se do Cabo S. Vicente ao Rio Guadiana, numa distância aproximada de 140km, penetrando irregularmente para o interior entre 3 km a 25 km. Esta bacia é caracterizada pelos relevos definidos nas unidades mesozoicas, essencialmente carbonatadas do Jurássico; Por fim as Bacias Cenozoicas são divididas em 4 unidades de 2ºnivel: 1. Bacias Cenozoicas do Baixo Tejo e Alvalade: estas bacias são separadas por um pequeno horst , sendo que a Bacia do Baixo Tejo se estende desde a região de Lisboa até Castelo Espanha, chegando a ultrapassar a fronteira com Espanha. Ocupa o Ribatejo e grande parte do Alto Alentejo e sul da Beira Baixa. O enchimento foi iniciado no Eocénico passando no Pliocénico para um regime de incisão. A Bacia de Alvalade situa-se a sul da Bacia do Baixo Tejo, ocupando na sua maioria a zona da bacia hidrográfica do Sado. Esta foi preenchida por sedimentos de fácies continental e marinha, representando a formação de um golfo durante a transgressão fini- 11 -Miocénica; 2. Bacia Cenozoica do Douro: está representada na região de Nave de Haver, com o domínio de níveis areno-conglomeráticos de constituição quartzo-feldspática. A sua delimitação com o Maciço Ibérico é feita através da litologia dado que o relevo de ambos é semelhante; 3. Bacia Cenozoica do Guadiana: os principais sedimentos desta bacia situam-se em Elvas, de essencialmente conglomerados; 4. Planícies Costeiras: estas constituem 7% do território nacional, e é definido por “uma linha de fronteira irregular que separa um domínio de baixa altitude, em geral inferior a 100 metros, das restantes unidades.” O padrão de relevo uniforme resulta de uma cobertura sedimentar essencialmente arenosa, em que é possível observar um padrão ondulado associado a campos dunares, particularmente nas zonas de maior faixa costeira. As 56 subunidades de 3º nível correspondem a unidades morfológicas ou padrões de formas semelhantes, contidas nas unidades de 2º nível. Estas subunidades foram obtidas essencialmente pela análise do padrão do relevo observado na imagem SRTM, a que foi dado um nome a cada unidade tendo este um termo morfológico e um termo toponímico, salvo algumas exceções (Pereira et al. , 2014). 12 Figura 6 - Mapa Geomorfológico de Portugal Continental (Pereira et al., 2014) 19 • Valor funcional; Apesar de este valor não ser discutido em planos de conservação da natureza, os solos, sedimentos, rochas e as formas de relevo possuem um importante papel nos sistemas ambientais. São reconhecidas duas subdivisões deste valor: o valor utilitário para o Homem in situ ; o valor funcional no fornecimento de substratos e habitats de modo a manter os sistemas físicos e ecológico da superfície terrestre (Gray, 2004; Brilha, 2005). • Valor científico e educativo; Por fim, este valor é em vários modos o mais importante, dado que a Natureza é o laboratório para a investigação em Ciências da Terra. Este estudo permite ao Homem conhecer a história do nosso planeta, melhorando a sua relação com a geodiversidade, melhorando a sua qualidade de vida e diminuindo o impacto ambiental das suas ações. Além disso, é essencial uma educação em Ciências da Terra com contacto direto com a geodiversidade na forma de visitas de estudo e saídas de campo (Figura 13) (Gray, 2004; Brilha, 2005). Tabela 1 - Resumo dos valores da geodiversidade (adaptado e traduzido de Gray, 2004) Valor intrínseco 1. Valor intrínseco Valor cultural 2. Folclore 3. Arqueológico/Histórico 4. Espiritual 5. Senso de lugar Valor estético 6. Paisagens locais 7. Geoturismo 8. Atividades de lazer 9. Apreciação á distancia 10. Atividades de voluntariado 11. Inspiração artística Valor económico 12. Energia 13. Minerais industriais 14. Minerais metálicos 15. Minerais de construção 16. Pedras Preciosas 17. Fósseis 18. Solos Valor funcional 19. Plataformas 20. Armazenamento e reciclagem 21. Saúde 22. Enterro 20 23. Controlo da poluição 24. Química da água 25. Função dos solos 26. Funções nos sistemas geológicos 27. Funções nos ecossistemas Valor científico e educativo 28. Descobertas científicas 29. História da Terra 30. História científica 31. Monotorização ambiental 32. Educação e formação Estes valores servem de base aos chamados serviços ecossistémicos, referindo-se aos bens e serviços que a sociedade pode obter, derivados da natureza. Nos últimos anos surgiram vários sistemas de classificação dos serviços ecossistémicos, sendo o Millenium Ecosystem Assessment (2005), um dos mais relevantes, tendo sido mesmo utilizado pela UK National Ecosystem Services (2011), classificando os serviços em 4 grupos: (Brilha et al. , 2018) • Serviços de regulação – a forma como os processos naturais regulam o ambiente; • Serviços de suporte – os processos que suportam os ambientes naturais; • Serviços de provisão – os materiais naturais utilizados pela sociedade; • Serviços culturais – os elementos não tangíveis da natureza que possuem um benefício espiritual e cultural para a sociedade; 21 Figura 10 - Rede de definições e relação, a partir do conceito de Geodiversidade. Realçado a relação entre os valores da Geodiversidade e os serviços ecossistémicos (modificado de Brilha et al. , 2018) 22 Tabela 2 - Exemplos dos benefícios da geodiversidade, tendo em conta o Millenium Ecosystem Assessment (2005) e as principais divisões de cada tipo de serviço (Adaptado e traduzido de Brilha et al ., 2018) Serviço Divisão Benefícios Beneficiado Tipo Regulação Atmosfera Circulação dinâmica Ecossistemas/Homem Bio/Geo Química atmosférica Qualidade do ar e regulação climática Ciclo da água Geosfera/Hidrosfera Ciclo das rochas Homem Ciclo da água Ciclo do carbono e outros ciclos biogeoquímicos Captura de carbono Armazenamento e regulação climática Regulação da erosão dos solos Regulação dos desastres naturais Regulação da qualidade da água devido á circulação pelas rochas e sedimentos Suporte Solo Alteração das rochas e desenvolvimento de solos para agricultura e a floresta Ecossistemas/Homem Bio/Geo Fornecimento de habitats Água Suporte de vida Diversidade de habitats Ecossistema Plataforma de transporte Homem Rochas á superfície e formas de relevo Fornecimento de habitats e criação de corredores ecológicos Ecossistema Geo Plataforma para infraestruturas e desenvolvimento urbano Homem Rochas á profundidade e formas de relevo Enterro e armazenamento Fornecimento de habitats Ecossistema Bio/Geo Provisão Nutrientes Nutrientes inorgânicos essenciais á vida Ecossistemas/Homem Bio/Geo Alimentação Água para consumo e sal Homem Geo Materiais de construção Construção e pedra ornamental Minerais industriais e metálicos Carros, computadores, telemóveis, fertilizantes, medicamentos, papel, próteses, … Recursos energéticos Petróleo, gás natural, carvão, urânio Calor geotérmico Energia hidroelétrica, energia mare motriz Produtos ornamentais Joalharia e pedras preciosas Culturais Saúde e bem-estar Spas Inspiração artística Bio/Geo Paisagens naturais no tratamento físico e mental Recreação Atividades turísticas e desportivas Históricos Locais sagrados e históricos Uso das rochas na construção de monumentos e outros edifícios Conhecimento História e evolução da Terra Origem e evolução da vida Estudos de paleoambientes e paleoclimas 23 Figura 11 - Icnofósseis de trilobites, Penha Garcia. Estes icnofósseis alimentaram lendas de serpentes petrificadas, associadas a lenda da Moura Encantada (do autor) Figura 12 - Miradouro da Pedra Bela, Parque Nacional da Peneda Geres. Um local procurado devido á beleza da paisagem (do autor) 24 Figura 13 - Programa educativo do Geopark Terras de Cavaleiros. Os geoparques oferecem um diverso leque de oportunidades educativas para os alunos dos diferentes niveis escolares (Geopark Terras de Cavaleiros, 2020) 2.3 Ameaças à geodiversidade Apesar de as rochas transmitirem uma imagem de resistência e estabilidade, estas encontram-se muitas vezes em situações de grande ameaça, sendo a principal causa a atividade humana seja por meios diretos ou indiretos. Estas ameaças sucedem-se a diversas escalas e graus, que pode ser a destruição de um pequeno afloramento ou a degradação da paisagem natural (Brilha, 2005). Para Gray (2004) os impactos do Homem na geodiversidade podem ser resumidos em: • Perda completa de um elemento de geodiversidade; • Dano físico ou perda parcial; • Fragmentação de interesse; • Perda de visibilidade ou intervisibilidade; • Perda de acesso à geodiversidade; • Interrupção de processos naturais e impactos ex situ ; • Poluição; • Impacto visual. Além disso Brilha (2005), apresenta um conjunto de principais atividades humanas que causam estes impactos que são: • Exploração de recursos geológicos; • Desenvolvimento de obras e estruturas; • Gestão de bacias hidrográficas; • Florestação, desflorestação e agricultura; 25 • Atividades militares; • Atividades recreativas e turísticas; • Colheita de amostras para fins não científicos; • Iliteracia cultural. Porém algumas destas atividades têm um valor positivo para a geodiversidade, como é o caso da exploração dos recursos geológicos, uma vez que nos permite estudar locais que não estão normalmente acessíveis, e ainda alguns locais com importante valor paleontológico que estão associados a antigas explorações de recursos como a Pedreira do Galinha e a Pedreira do Avelino, que devido aos icnofósseis de dinossauro, são hoje considerados Monumentos Naturais. Também a Pedreira do Valério em Arouca se pode encontrar fantásticos exemplares de trilobites, que tiveram um importante papel na criação do Arouca Geopark. Figura 14 - Graffiti num bloco granítico alusivo ao Rally de Fafe (Foto: WRC) 26 Figura 15 - Impacto visual das pedreiras no Parque Natural Serras de Aire e Candeeiros (Foto: Diário Noticias) Figura 16 - Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios de Ourém/Torres Novas. Esta jazida foi descoberta graças á pedreira que existia no local (Foto: Liga para a proteção da natureza) 27 2.4 Geoconservação Tendo em conta que a geodiversidade enfrenta diversas ameaças é, portanto, necessário proceder á sua proteção e conservação, de modo a que as gerações futuras possam usufruir dela. Para Brilha (2005), a necessidade de conservação de um geossítio é igual à soma do seu valor mais as ameaças que o mesmo enfrenta. Além disso, a geoconservação tem como objetivo o uso e gestão sustentável da geodiversidade, de um modo mais amplo, e num sentido mais restrito o uso e gestão de alguns elementos de geodiversidade que tenham um valor superior e especial, em relação à média. Uma vez que não é possível conservar toda a geodiversidade, as estratégias de conservação devem focar-se nos elementos com maior valor e mais ameaçados, mas não devem ser excluídos desta proteção os testantes elementos de geodiversidade. Tendo em conta os diferentes conceitos dentro da geodiversidade, é importante então apresentar as suas definições: Geossítio – ocorrência geológica, bem delimitada geograficamente com um especial valor científico; Património geológico – conjunto de geossítios inventariados e caracterizados numa dada área ou região; Geoconservação – conservação e gestão do património geológico e processos naturais a ele associados. Figura 17 - Estrutura conceitual de geodiversidade, geoconservação e património geológico (adaptado de Brilha, 2015) 28 3. Avaliação da geodiversidade de Portugal Continental 3.1 Classificação da geodiversidade No que diz respeito à avaliação da geodiversidade de Portugal Continental é necessário proceder-se ao cálculo do índice da geodiversidade, que resulta na soma dos diferentes índices, que são obtidos através da contagem do número de ocorrências em cada uma das células da grelha 16x10km sobreposta em cada mapa. O método utilizado baseia-se na metodologia inicialmente proposto por Pereira et al. (2013), onde foi colocada uma grelha 25x25km sobre diferentes mapas da região em estudo, de modo a calcular os índices litológicos, geomorfológicos, paleontológicos, pedológicos e ocorrências minerais. Depois foi somado o resultado dos índices parciais, tendo depois sido produzido o mapa da geodiversidade usando isolinhas para juntar as células com os mesmos valores de geodiversidade. Posteriormente Silva et al. (2013; 2014) introduziram pequenas modificações à proposta anterior, aperfeiçoando os procedimentos realizados em ambiente SIG. Mais tarde, Araujo (2016) e Araujo e Pereira (2018) propõe uma mudança na metodologia anterior, adicionando os recursos hídricos aos restantes índices da geodiversidade. Outros métodos têm vindo a ser propostos para a avaliação da geodiversidade. Destacamos a proposta de Forte et al . (2018) que propõe um novo método baseado numa operação de sobreposição, com diferentes conjuntos de dados (geologia, geomorfologia, hidrografia, solos), que combina as características de todos os conjuntos de dados num único conjunto de dados poligonais. Os novos polígonos são então transformados em características pontuais, seguidas de uma análise kernel . Neste trabalho vão apenas ser utilizados três dos índices para o cálculo da geodiversidade: a diversidade litológica, diversidade geomorfológica e diversidade pedológica. As diversidades hídricas e minerais serão avaliados de forma quantitativa e serão considerados como recursos geológicos. Para tal foram utilizados os seguintes mapas: • Índice litológico: mapa litológico de Portugal Continental á escala 1/500.000 (LNEG), onde foi feita a contagem por célula do número de litologias diferentes; • Índice geomorfológico: mapa geomorfológico de Portugal Continental á escala 1/500.000, onde foi feita a contagem por célula do número de unidades geomorfológicas diferentes; • Índice pedológico: mapa de solos de Portugal Continental á escala 1/1.000.000 (Atlas do ambiente), onde foi feita a contagem por célula do número de solos diferentes. Além disso, de modo a avaliar os recursos geológicos foram usadas: • Recursos minerais: Depósitos minerais de Portugal (SIORMINP) á escala 1/500.000 – LNEG, onde foi feita a contagem total do número de ocorrências minerais em cada célula; 35 3.2.2 Diversidade pedológica De modo a obter-se a diversidade pedológica utilizou-se o método descrito anteriormente, sendo utilizado o mapa de solos à escala 1/1.000.000, do Atlas do ambiente (Figura 23). Figura 23 - Mapa de solos 1/1.000.000 (adaptado do Atlas do Ambiente) Foram seguidos os mesmos passos que os utilizados para a diversidade litológica com a aplicação da mesma grelha na carta de solos, a contagem de cada tipo de solos diferente em cada célula, a normalização dos valores e finalmente a criação do mapa da diversidade de solos. O número de solos diferentes situa-se entre 0 e 9, que foram devidamente normalizados para valores de 0 a 1 e avaliados numa escala de intervalo de 0,05 valores, totalizando vinte classes (Figura 24). 36 Figura 24 - Diversidade pedológica normalizada após a classificação 37 Analisando o mapa da diversidade pedológica é visível dois hotspots no território nacional. Com valores compreendidos entre 0,78 e 1, na região de Coimbra temos o hotspot com maior expressão. Nesta zona existe um variado de Cambissolos associados a rochas sedimentares e metamórficas, mais concretamente xistos e quartzitos, alguns Podzóis e raros Litossolos. Segundo a Direção Geral do Território (Observatório ordenamento do território e urbanismo), à escala das NUTS III, a região de Coimbra tem uma elevada proporção de ocupação dos solos por florestas (cerca de 60%), sendo mesmo nesta região onde se encontra a maior taxa de ocupação pelas florestas. Além disso nesta região existe também uma moderada ocupação dos solos para a agricultura (19%). O segundo hotspot localiza-se na região de Évora, com valores entre 0,67 e 0,89. Esta grande diversidade deve-se aos vários tipos de Luvissolos que abundam na região, alguns Cambissolos e raros Litossolos. Esta região está incluída no Alto Alentejo que segundo a Direção Geral do Território (Observatório ordenamento do território e urbanismo), à escala NUTS III, há um uso e ocupação equitativa do solo para floresta (31%), superfícies agroflorestais (21%), pastagens (18%) e agricultura (22%). 3.2.3 Diversidade Geomorfológica Por fim, para se obter a diversidade geomorfológica foram também seguidas as etapas de processamento descritas anteriormente. Para tal foi utilizado, como base, o mapa de unidades geomorfológicas à escala 1/500.000 (Pereira et al . 2014) (Figura 25), tendo sido acrescentadas unidades geomorfológicas de 4º nível, seguindo a mesma metodologia. Este mapa das unidades geomorfológicas, constitui um primeiro ensaio de unidades de 4º nível, não publicado e facultado pelos Professores Renato Henriques e Diamantino Pereira. 38 Figura 25 - Mapas das Unidades Geomorfológicas aos vários níveis (1T, 2T, 3T). Em destaque está o mapa geomorfológico 4T utilizado. Como referido anteriormente, as unidades geomorfológicas “ são descritas através de características do relevo, dissecção fluvial, estruturas, tipo de drenagem e base geológica, bem como de parâmetros numéricos gerados de forma automática, como classes de altitude e de declividade .” (Pereira et al. , 2014). O 4ºnível aqui utlizado, “ refere-se às formas de relevo individualizadas na unidade de padrão de formas semelhantes. Estas formas, quanto à gênese, podem ser: agradação ou erosão, como as planícies fluviais ou marinhas, terraços fluviais ou marinhos, ou de denudação, como colinas, morros e cristas ” (Pereira et al. , 2014). A contagem das unidades geomorfológicas por célula, resultou em valores entre 0 e 13 que foi posteriormente normalizado para valores entre 0 e 1, tendo sido assim obtido o mapa de diversidade geológica (Figura 26). 39 Figura 26 - Diversidade geomorfológica normalizada 40 Analisando o mapa obtido podem ser identificados três hotspots de diversidade geomorfológica. O primeiro com valores entre 0,69 e 1 localizada na zona de Leiria onde as principais unidades de 1º nível são as Bacias Cenozoicas e as Bacias Mesozoicas pouco deformadas. De 2º nível destaca-se as planícies costeiras, mais concretamente a Planície Litoral Nazaré-Peniche de 3ºnivel, e também Bacia Lusitânica com destaque para as unidades de 3ºnivel das Serras Calcarias do Sicó-Alvaiázere, Maciço Calcário Estremenho e as Colinas Calcárias do Oeste. O segundo hotspot localiza-se a Norte de Portugal Continental, principalmente a Nordeste com valores de diversidade entre 0,69 e 0,92. Aqui apenas se verifica uma unidade de 1º nível, o Maciço Ibérico e uma unidade de 2º nível, as Montanhas e Planaltos do NW Ibérico. Porém ao 3º nível encontra-se um grande conjunto de unidades como as Serras da Peneda-Gerês, relevos do tipo push-up do NW Peninsular, as Bacias de desligamento do NW Peninsular, a depressão de Mirandela, o planalto de AlijoMoimenta, entre outros. O último hotspot localiza-se ao longo de toda a costa sul de Portugal Continental, com valores variando de 0,46 e 0,92 que tem como unidades de 1º nível as Bacias Cenozoicas, as Bacias Mesozoicas pouco deformadas e ainda um pouco do Maciço Ibérico. Das unidades de 2º nível destaca-se as Planícies Costeiras, com as unidades de 3º nível do Litoral do Barlavento Algarvio e Litoral do Sotavento Algarvio, ainda a Bacia Algarvia com as unidades de 3ºnivel da Serra Calcaria Algarvia e as Colinas Calcárias do Algarve, e por fim os Planaltos do SW Peninsular com a unidade da Serra do Monchique de 3º nível. 3.3 Mapa da Geodiversidade Depois de obtidos os índices parciais de geodiversidade e os seus valores devidamente normalizados de modo a que todos os índices tenham o mesmo valor, foi então criado o mapa final da Geodiversidade (Figura 27). Através do comando intersection do programa QGIS, foram agrupados os valores de todos os índices parciais que foram de seguida somados de modo a obter os valores de geodiversidade total. Os valores finais de geodiversidade obtidos estão compreendidos entre 0 e 2,37 que foram classificados no esquema de cores de modo a facilitar a visualização dos resultados (Tabela 3). 41 Tabela 3 - Extrato da tabela dos valores descendentes dos índices parciais e total de geodiversidade. Estão demonstrados os maiores e menores valores de geodiversidade (ID – identificação de cada célula). ID Índice Pedológico Índice Geológico Índice Geomorfológico Geodiversidade Final 229 0,78 0,9 0,69 2,37 278 0,89 0,75 0,69 2,33 84 0,67 0,8 0,85 2,32 324 0,67 0,7 0,92 2,29 242 1 0,7 0,54 2,24 266 0,89 0,6 0,69 2,18 69 0,67 0,65 0,85 2,17 327 0,78 0,8 0,54 2,12 254 0,89 0,6 0,62 2,11 632 0,56 0,6 0,92 2,08 479 0,67 0,6 0,77 2,04 348 0,56 0,35 1 1,91 302 0,56 0,65 0,69 1,9 311 0,44 0,6 0,85 1,89 638 0,44 0,6 0,85 1,89 111 0,44 0,65 0,77 1,86 290 0,67 0,65 0,54 1,86 623 0,44 0,65 0,77 1,86 342 0,56 0,6 0,69 1,85 439 0,56 0,75 0,54 1,85 637 0,67 0,55 0,62 1,84 … 171 0,11 0,05 0,08 0,24 215 0,11 0,05 0,08 0,24 238 0,11 0,05 0,08 0,24 262 0,11 0,05 0,08 0,24 509 0,11 0,05 0,08 0,24 580 0,11 0,05 0,08 0,24 603 0,11 0,05 0,08 0,24 649 0,11 0,05 0,08 0,24 641 0,11 0,1 0 0,21 12 0 0 0 0 13 0 0 0 0 346 0 0 0 0 642 0 0 0 0 643 0 0 0 0 644 0 0 0 0 648 0 0 0 0 42 Figura 27 - Mapa da geodiversidade tendo em conta os índices utilizados 43 Figura 28 - Mapas usados para gerar os mapas de geodiversidade e o resultado. a) Índice litológico; b) Índice geomorfológico; c) Índice pedológico; d) geodiversidade 44 Depois de obtidos os valores da geodiversidade por célula foi de seguida aplicado o comando centroids , de modo a obter-se uma camada de pontos com valores da geodiversidade. Posteriormente foi utilizado o plugin countour de modo a serem feitas as isolinhas tendo em conta o valor da geodiversidade. Por fim foi feita a classificação dos valores numa escala de cores, tendo em conta o intervalo de valor de 0,12, onde se obteve o mapa final da geodiversidade. Figura 29 - Mapa final da geodiversidade. As zonas mais escuras correspondem às áreas com maior geodiversidade. 51 Assim, de modo a diminuir a possibilidade desta sobreavaliação, foi utilizada uma subgrelha de 2x2 km, na qual foi calculado o valor médio em cada uma das células, tendo em conta as linhas de água em si contidas, utilizando o comando Zonal Statistics , tendo sido a camada original previamente rasterizada (Figura 36). De seguida a camada foi de novo rasterizada, de modo a que se fosse utilizado o comando Zonal Statistics , onde foi calculado o valor médio obtido em cada célula 2x2 km contida dentro da grelha 16x10 km. Figura 33 - Mapa da rede hidrográfica nacional utilizado. Os cursos de água com número de Strahler mais elevado estão com cor mais escura. Destacam-se assim os principais rios de Portugal Continental. 52 Figura 34 - Esquema explicativo da hierarquização dos cursos de água segundo o método de Strahler (Fonte: supergeotek) Figura 35 - Problema da sobreavaliação de algumas células da grelha. Apesar de numa das células a linha de água ocupar grande parte da área, tem o mesmo valor da célula vizinha que ocupa menor área 53 Figura 36 - Mapa de classificação da ordem de grandeza dos cursos de água da rede hidrográfica nacional, calculada pelo método de Strahler, com a grelha 2x2 km. Quanto maior o número de Strahler, mais escuro o tom de azul. 54 Figura 37 - Mapa com a avaliação dos cursos de água em cada célula 55 Os valores obtidos para a ordem de grandeza dos cursos de água situam-se entre 1 e 8, tendo sido estes normalizados entre 0 e 1 seguindo a fórmula 𝑥−min (𝑥) max(𝑥)−min (𝑥) , de modo a que todos os fatores tenham igual valor no mapa de avaliação dos cursos de água. Por exemplo, se um curso de água tiver um valor de 5 (x=5), tendo em conta que o valor máximo é 8 ( max(x) = 8) e o valor mínimo é 1 ( min(x) =1), aplicando a fórmula obtemos um valor normalizado de aproximadamente 0,57. Analisando o mapa obtido, pode-se concluir que os valores mais elevados se situam, nos principais rios de Portugal Continental, como era esperado. Destacam-se assim os seguintes locais: • Ao longo de todo o Rio Douro e seus afluentes como o Rio Sabor e Rio Tua; • Ao longo do Rio Tejo e seus afluentes como Rio Zêzere, Sorraia, Nabão, entre outros, mas com valores especialmente mais altos perto da foz; • Ao longo do Rio Sado, em especial na sua foz, estando mesmo aqui o valor mais alto registado; • Foz do Rio Vouga. Além desses também se destaca com valores um pouco mais baixos: • Rio Minho e Rio Lima em toda a sua extensão; • Rio Mondego na sua extensão; • Ao longo do Rio Guadiana e do afluente Ardila e Chança. Estes resultados eram os esperados, uma vez que que os principais rios de Portugal Continental possuem extensas redes hidrográficas, compostas por vários afluentes de variada dimensão, contribuindo assim para um elevado número de Strahler. 3.4.2.2 Albufeiras As albufeiras das barragens possuem uma elevada importância, fornecendo nuns casos energia, e noutros água doce para o abastecimento doméstico das populações e para a agricultura. A energia hidroelétrica, é, a par da energia eólica, a maior fonte de energia renovável (dados da PORDATA). Assim justifica-se a avaliação deste índice para os recursos hídricos. Contudo, devem lembrar-se alguns impactos negativos, como os impactos no património cultural, nomeadamente povoações e terras agrícolas submersas, e no património natural, nomeadamente nos ecossistemas e, por vezes, nos locais com importância científica que ficaram submersos. Para o cálculo da extensão das albufeiras foi utilizado o mapa em formato shapefile obtido no visualizador geográfico da Associação Portuguesa do Ambiente (SNIAmb) (Figura 39). Reconhece-se que este dado 56 não reflete na forma exata o valor deste recurso, mas este facto não invalida o presente ensaio. Apesar de ser um sub-índice para avaliação dos recursos hídricos, admitimos que outros dados para além da extensão deverão ser considerados em trabalhos futuros. Neste mapa são consideradas 58 albufeiras, que estão associadas principalmente às bacias do Tejo, Douro, Sado e Guadiana. Tendo em conta a área, destaca-se claramente a Albufeira do Alqueva na bacia do Guadiana, com uma área muito superior à das restantes albufeiras, sendo seguida pela Albufeira de Santa Clara na bacia do Mira e a Albufeira Maranhão da bacia do Tejo. A este mapa foi também aplicado a grelha 16x10 km, onde foi avaliado a área total ocupada pelas albufeiras em cada célula, tendo sido posteriormente estes valores normalizados de forma a melhor visualizar os resultados e também para facilitar a manipulação dos mesmos. Além disso esta normalização tem como principal objetivo atribuir o mesmo valor a todos os fatores que contribuem para os recursos hídricos. Esta normalização foi feita a partir da seguinte fórmula: • 𝑥−min (𝑥) max(𝑥)−min (𝑥) Figura 38 - Aldeia submersa de Vilarinho das Furnas, Terras de Bouro, observada na sequência da descida do nível das águas. (Fonte: Câmara Municipal de Terras de Bouro) 57 Figura 39 - Á esquerda: Mapa das albufeiras de Portugal Continental; Á direita: Mapa da avaliação das albufeiras em Portugal Continental Como seria de esperar os valores mais elevados localizam-se na zona sul, onde se destaca as células que contêm a Albufeira do Alqueva, tendo estas os valores mais elevados entre 0,27 e 1. Além disso as células que possuem a Albufeira Santa Clara, a Albufeira do Maranhão, a Albufeira do Roxo e a Albufeira do Alvito, também possuem valores intermédios, situados entre 0,11 e 0,32. O método não permite identificar albufeiras importantes, mas de pequena extensão, como as que se situam no rio Douro, facto que sugere a necessidade de rever os procedimentos para o cálculo deste sub-índice. 58 3.4.2.3 Precipitação média anual A precipitação média anual é representada pela quantidade de água precipitada na forma de chuva, granizo ou neve, sobre uma determinada área. Este fenómeno tem elevada importância no ciclo hidrológico, no reabastecimento de água doce nos sistemas hídricos, como os rios, albufeiras e aquíferos. De modo a se proceder a avaliação em Portugal Continental foi de novo utilizado o mapa de precipitação de média anual do visualizador geográfico do SNIAmb, no período entre 1931 e 1960, no qual foi tido em consideração o valor médio da precipitação em cada célula (Figura 40). Para tal foi necessário então rasterizar a camada, de modo a ser utilizado o comando zonal statistics , com a grelha 16x10 km, onde foi calculado o valor médio em cada célula. Os valores médios situam-se no intervalo entre 400 mm e 2834 mm, tendo sido posteriormente normalizados entre 0 e 1 para facilitar o tratamento dos resultados. Figura 40 - Mapa da precipitação média anual 59 Figura 41 - Mapa com valores normalizados da precipitação média em cada célula 60 O mapa obtido evidencia valores mais altos no norte e centro e mais baixos a sul. Isto acontece uma vez que os locais mais elevados de Portugal Continental têm, normalmente, maior precipitação. Assim, a norte pode identificar-se três zonas de elevado valor: • Noroeste de Portugal Continental (Norte do Rio Douro) - Serras do Gerês, Amarela, Peneda, Arga, Cabreira, Barroso, Alvão e Marão; • Centro Norte (Sul do Rio Douro) – Serras de Montemuro, Arade, Gralheira, Caramulo e Freita; • Centro Interior – Serras da Estrela, Açor e Lousã. No Nordeste, a Serra de Montesinho, a Serra de Bornes e a Serra da Nogueira apresentam valores intermédios, bem como elevações situadas mais a sul, como as Serras de S. Mamede, Caldeirão, Monchique e Monfurado. 3.4.2.4 Cálculo final dos recursos hídricos Depois de obtido os valores parciais de cada sub-indíce dos recursos hídricos, procedeu-se ao seu cálculo final. Para tal foi necessário agregar as três camadas obtidas numa só, utilizando o comando intersection . De seguida foi feita a soma dos valores normalizados dos índices anteriormente calculados de modo a que todos tenham o mesmo peso. Posto isto foi obtido o mapa final dos recursos hídricos. Tabela 4 - Extrato da tabela com os valores dos índices dos recursos hídricos e a sua respetiva soma (ID – identificação das células) ID Linhas de água Albufeiras Precipitação Recursos Hídricos Total 517 0,62 1 0,06 1,68 499 0,72 0,77 0,07 1,56 10 0,5 0 0,99 1,49 35 0,33 0 1 1,33 34 0,54 0 0,78 1,32 508 0,48 0,78 0,06 1,32 23 0,43 0 0,87 1,3 49 0,57 0 0,73 1,3 36 0,32 0 0,95 1,27 142 0,8 0 0,43 1,23 258 0,75 0 0,48 1,23 22 0,48 0 0,74 1,22 48 0,37 0 0,84 1,21 79 0,76 0 0,45 1,21 5 0,21 0 0,99 1,2 9 0,33 0 0,87 1,2 141 0,8 0 0,4 1,2 33 0,48 0 0,71 1,19 165 0,59 0 0,58 1,17 208 0,67 0 0,49 1,16 280 0,8 0 0,36 1,16 19 0,56 0 0,58 1,14 269 0,64 0,04 0,46 1,14 20 0,34 0 0,79 1,13 491 1 0 0,11 1,11 67 Depois de obtidos todos os mapas, estes foram todos unidos, criando por fim o seguinte mapa de biodiversidade, definido com base com dados utilizados. Figura 46 - Mapa final de biodiversidade, definido com base nos dados utilizados. As células mais escuras correspondem a locais com maior diversidade e as células mais claras a locais com menor diversidade. 68 Observando o mapa obtido, apesar de existir por toda a área do país valores intermédios, pudemos concluir que os locais com maiores valores dos indicadores de biodiversidade que utilizamos se situam na zona norte de Portugal Continental, em especial nas áreas mais interiores do país. Esta tendência é também observada no restante território, onde as zonas interiores possuem valores mais elevados, tanto no centro do país como no sul. Atendendo á limitação e especificidade dos dados, não é possível apontar as causas para esta distribuição. No caso destes dados refletirem a biodiversidade de Portugal Continental, poder-se-ia sugerir que os valores mais baixos nas zonas costeiras estariam relacionados com os maiores centros urbanos, diminuindo assim as áreas para o desenvolvimento dos ecossistemas das espécies analisadas. Figura 47 - Sobreposição do mapa de biodiversidade com a Rede Nacional de Áreas Protegidas 69 Para além disso quando é sobreposto o mapa das áreas protegidas sobre o mapa obtido relacionado com a biodiversidade, pudemos observar que nas áreas ocupadas pelas áreas protegidas possuem, no geral, valores altos. Isto é particularmente observado no Parque Nacional Peneda-Gerês, nos parques naturais de Montesinho, Alvão, Douro Internacional, Serra da Estrela, Serra de Aire e Candeeiros, Serra de S. Mamede e Vale do Guadiana e na reserva natural da Serra da Malcata. 3.7 Avaliação da correlação entre os diversos índices De modo a proceder-se à comparação entre os diversos índices avaliados, foram agregados todos os resultados dos diferentes mapas, sendo de seguida exportados de modo a serem processados, neste caso, no programa Excel . Neste programa, foi calculado o coeficiente de correlação de Pearson (𝑟= ∑(𝑥𝑖−𝑥)(𝑦𝑖−𝑦) 𝑛 𝑖=1 √[∑(𝑥𝑖−𝑥)2][∑(𝑦𝑖−𝑦)2 𝑛 𝑖=1 𝑛 𝑖=1 ), através do comando Pearson, existente no programa, que indica se existe ou não uma relação estatística entre dois conjuntos de dados. Os valores obtidos situam-se no intervalo entre -1 e 1, e podem ser interpretados da seguinte forma. Figura 48 - Classificação de fiabilidade do coeficiente da correlação de Pearson (retirado de Veiga et al. , 2019) 70 Tabela 5 - Correlações entre os índices parciais de geodiversidade, da geodiversidade, da biodiversidade, os recursos hídricos e minerais. A vermelho estão assinaladas as correlações significativas. Pedologia Litologia Geomorfologia Geodiversidade Biodiversidade Recursos Hídricos Recursos Minerais Litologia 0,505 Geomorfologia 0,273 0,282 Geodiversidade 0,760 0,790 0,711 Biodiversidade 0,157 0,182 0,329 0,302 Recursos Hídricos -0,010 0,022 0,226 0,113 0,304 Recursos Minerais -0,032 0,082 0,082 0,064 0,221 0,138 Geossítios 0,104 0,196 0,178 0,215 0,083 0,000 -0,014 Analisando os dados obtidos, podemos concluir que os índices de geodiversidade (pedologia, litologia e geomorfologia) estão correlacionados com coeficientes de correlação significativos, especialmente entre a litologia e a pedologia com coeficiente de correlação superior a 0,5. Estes índices têm uma especial correlação com a geodiversidade, com coeficientes de correlação acima de 0,7, indicando uma forte correlação entre estes índices. Esta correlação era esperada uma vez que o índice de geodiversidade foi calculado através da soma dos índices pedológicos, litológicos e geomorfológicos. Os recursos hídricos estabelecem também uma correlação positiva com a geomorfologia. Realça-se também o papel dos recursos hídricos na biodiversidade, demonstrando que os recursos hídricos possuem um papel fulcral na criação e manutenção dos ecossistemas. Já os recursos minerais estabelecem uma relação ínfima fraca com os recursos hídricos e fraca com a biodiversidade. Eventualmente, poderá observar-se em algumas regiões um conflito de interesses, uma vez que a existência de uma elevada biodiversidade será um entrave à exploração dos recursos minerais. Também a existência de importantes recursos hídricos, em especial cursos de água, poderá ser outro entrave à exploração dos recursos minerais, dado que é comum a contaminação dos recursos hídricos durante as explorações mineiras, apesar de nos dias de hoje existirem cada vez mais cuidados com este tipo de contaminação. Os geossítios estabelecem uma correlação positiva ínfima fraca com os índices parciais da geodiversidade e fraca com o índice de geodiversidade. Por fim, é possível observar uma relação, ainda que fraca, entre a geodiversidade (e os seus índices parciais) e a biodiversidade. Esta relação demonstra então uma relação positiva, da geodiversidade com a biodiversidade, no fornecimento de habitats e de nutrientes para os seres vivos. Porém, salienta-se a limitação de dados utilizados relativos à biodiversidade. 71 Quando sobreposto o mapa das áreas protegidas com o mapa da geodiversidade verifica-se que algumas destas áreas se encontram em área com elevada geodiversidade em especial a Paisagem Protegida da Albufeira do Azibo, localizada numa zona com geodiversidade muito elevada, o Parque Natural da Arrábida e o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina também possuem zonas com elevada geodiversidade. Figura 49 - Sobreposição da geodiversidade com as áreas protegidas 72 4. Considerações finais Portugal Continental possui uma rica, extensa e bem estudada história geológica, factos salientados pelos dados de geodiversidade obtidos, onde se salientam diversos hotspots. A avaliação de uma área extensa como a de um país é um processo pouco comum, devido à grande área por vezes ocupado, que exige então a aplicação de uma metodologia rigorosa, de forma a obter resultados credíveis. A metodologia aplicada foi adaptada das propostas de Pereira et al . (2013) e Araujo e Pereira (2018) para a avaliação da geodiversidade, tendo em conta os mapas e dados disponíveis, pois a inexistência de alguns dados dificultou a aplicação exata dos métodos propostos nos trabalhos anteriores. Além disso foi também feita a comparação entre a geodiversidade e os seus índices parciais com a biodiversidade e as áreas protegidas. Um dos obstáculos foi identificado durante a pesquisa de dados e mapas sobre as temáticas abordadas, que se encontram um pouco dispersas por várias fontes, havendo por vezes dificuldade na obtenção dos mesmos, sugerindo-se, por isso, a criação de uma base de dados nacional, onde se poderia encontrar e obter com mais facilidade este tipo de dados, para o uso académico e científico. Aplicado este método, foi assim cumprido o principal objetivo da avaliação da geodiversidade de Portugal Continental, onde se verificou a existência de três hotspots , localizados no nordeste de Portugal Continental, na zona centro de Portugal Continental (região de Coimbra) e na costa sul de Portugal Continental. Estes valores mais altos estão relacionados principalmente, com os índices litológicos e geomorfológicos, realçando a importância destes índices para a geodiversidade de Portugal Continental. Comparando com os restantes índices, foram obtidos resultados interessantes, principalmente a relação entre a biodiversidade e a geodiversidade, e ainda as áreas protegidas e a geodiversidade. Esta relação está em concordância com os trabalhos de Anderson et al . (2015), Hjort et al . (2015) ,Parks & Mulligan (2010), entre outros, que realçam a importância da geodiversidade para a biodiversidade. Os resultados obtidos neste trabalho e principalmente a metodologia, poderão ser utilizados como uma ferramenta no planeamento territorial do país, assim como na identificação e utilização dos recursos geológicos disponíveis no país e a identificação de áreas de conservação. Este último ponto é particularmente importante tendo em conta a relação da biodiversidade com a geodiversidade, uma vez que, uma eventual proteção e conservação da geodiversidade de uma determinada área, significa, também, uma proteção e conservação da biodiversidade da mesma área. Isto é particularmente importante, porque concede um valor acrescido à proteção e conservação da geodiversidade, que muitas vezes é esquecida nas estratégias de proteção da natureza. 73 Espera-se então que este trabalho possa servir de base não só a outros projetos de avaliação da geodiversidade e das suas relações com diversas áreas, mas também como ferramenta de ordenamento territorial e de gestão estratégica dos recursos geológicos e ainda como uma chamada de atenção à comunidade científica e a toda a sociedade da importância da conservação e proteção da geodiversidade. 74 Referências bibliográficas Websites Ciência Viva - https://www.cienciaviva.pt/img/upload/RecMinPort-SituPerspectivas-Total2001.pdf, acedido a 23 de setembro de 2020. Direção Geral de Energia e Geologia - https://www.dgeg.gov.pt/media/ygllsqyi/i014794.pdf, acedido a 23 de setembro de 2020. 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