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Estudos comparativos sobre os utensílios e as culturas de vinho na China e em Portugal

Shiyi, Luo

Abstract

Com uma longa história e diversas tipologias, o licor chinês tem-lhe associado requintados e magníficos utensílios, que refletem uma longa tradição cultural. O vinho português é mundialmente renomado, com uma variedade de utensílios requintados e meticulosos, que combinam com vinhos diferentes. Esta dissertação tem como objetivo principal analisar e descrever os utensílios vinícolas da China e de Portugal, de forma a comparar a cultura do vinho dos dois países, concentrando-se sobretudo nos contrastes e apresentando as diferenças culturais subjacentes. A pesquisa está dividida em três partes: vinho, utensílios e cultura vinícola. Na primeira parte, apresenta-se diferentes bebidas alcoólicas, métodos de fermentação, armazenamento e aproveitamento. A segunda parte mostra, com ilustrações, as formas e padrões de vários copos e garrafas de vinho em diferentes períodos da história das duas nações e a sua adequação a bebidas distintas. Discute-se ainda, num terceiro momento, o papel do vinho nas obras literárias, crenças religiosas e cultura popular. Diferentes contextos geográficos fazem com que as pessoas dos dois países tenham diferentes preferências em relação a bebidas alcoólicas, garrafas e copos que daí derivam, bem como culturas do vinho muito próprias. No entanto, independentemente da nacionalidade, o vinho surge sempre associado aos momentos felizes da vida, como reuniões familiares, festas de amigos e encontros românticos. O vinho é uma ponte emocional direta que pode transcender a linguagem e a cultura.

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UNIVERSIDADE DO MINHO Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Luo Shiyi Estudos Comparativos sobre os Utensílios e as Culturas de Vinho na China e em Portugal outubro de 2022 Estudos Comparativos sobre os Utensílios e as Culturas de Vinho na China e em Portugal UMinho|2022 Luo Shiyi UNIVERSIDADE DO MINHO Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Luo Shiyi Estudos Comparativos sobre os Utensílios e as Culturas de Vinho na China e em Portugal Dissertação de Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Sun Lam e do Professor Doutor Liu Jie outubro de 2022 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositoriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/ ii AGRADECIMENTOS No ano 2019, com muitas saudades de Portugal, ingressei no Mestrado em Estudos Interculturais Português-Chinês: tradução, formação e comunicação empresarial da Universidade do Minho. Contudo, durante a pandemia, a vida académica e quotidiana foi significativamente afetada; passámos a maior parte desses três anos em casa, com aulas online . Quando havia aulas presenciais, todos tínhamos a cara tapada pela máscara, foi difícil perceber bem o que os professores diziam, sobretudo as suas expressões faciais… Foi um período estranho, com o contacto humano distanciado pelo vírus da Covid-19. Mas foi também um tempo inesquecível… Gostaria de expressar a minha gratidão a todos que me ajudaram na tese e ao longo de dois anos em Portugal. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos meus professores, especialmente à Professora Doutora Sun Lam, pelas suas instruções e paciência. Esta dissertação foi concluída principalmente sob a sua orientação gentil e paciente. A sua paixão pela cultura tradicional chinesa, a sua compreensão da cultura portuguesa, o seu espírito académico rigoroso e estilo de trabalho contagiaram-me e inspiraram-me profundamente. Desde a seleção do tema até a finalização do projeto, a Professora Sun sempre me deu sugestões. Durante mais de dois anos, ela orientou-nos academicamente, revelando também uma grande preocupação com a nossa vida em Portugal, afastados das nossas famílias. Assim, gostaria de expressar os meus sinceros agradecimentos e respeito à Professora Sun. Gostaria também de agradecer aos meus colegas chineses e portugueses com quem convivi na pós-graduação. Graças à sua companhia e apoio pude superar as dificuldades e concluir a dissertação. Agradecimentos especiais às minhas amigas Li Zhuofan e Dong Jingwen, que ajudaram muito no meu trabalho. Por fim, gostaria de agradecer à minha amiga Mariana Brito, que, com uma atitude cordial e mente aberta, me levou a conhecer o estilo de vida e a cultura de Portugal. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados, em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Estudos Comparativos sobre os Utensílios e as Culturas de Vinho na China e em Portugal RESUMO Com uma longa história e diversas tipologias, o licor chinês tem-lhe associado requintados e magníficos utensílios, que refletem uma longa tradição cultural. O vinho português é mundialmente renomado, com uma variedade de utensílios requintados e meticulosos, que combinam com vinhos diferentes. Esta dissertação tem como objetivo principal analisar e descrever os utensílios vinícolas da China e de Portugal, de forma a comparar a cultura do vinho dos dois países, concentrando-se sobretudo nos contrastes e apresentando as diferenças culturais subjacentes. A pesquisa está dividida em três partes: vinho, utensílios e cultura vinícola. Na primeira parte, apresenta-se diferentes bebidas alcoólicas, métodos de fermentação, armazenamento e aproveitamento. A segunda parte mostra, com ilustrações, as formas e padrões de vários copos e garrafas de vinho em diferentes períodos da história das duas nações e a sua adequação a bebidas distintas. Discute-se ainda, num terceiro momento, o papel do vinho nas obras literárias, crenças religiosas e cultura popular. Diferentes contextos geográficos fazem com que as pessoas dos dois países tenham diferentes preferências em relação a bebidas alcoólicas, garrafas e copos que daí derivam, bem como culturas do vinho muito próprias. No entanto, independentemente da nacionalidade, o vinho surge sempre associado aos momentos felizes da vida, como reuniões familiares, festas de amigos e encontros românticos. O vinho é uma ponte emocional direta que pode transcender a linguagem e a cultura. Palavras-chave: Aguardente, Cultura, Utensílios vitivinícolas, Vinho. v Comparative Studies on Wine Utensils and Cultures in China and Portugal ABSTRACT This dissertation mainly aims to describe the wine vessels of China and Portugal in order to compare the wine culture of the two countries. With a long history and diverse typologies, Chinese liquor has been associated with exquisite and magnificent utensils, which reflect the long tradition and culture of Chinese wine. Portuguese wine is also world-renowned, with an array of exquisite and meticulous utensils matching different wines. This thesis focuses on the contrasts of wines and wine vessels of the two countries presenting the underlying cultural differences. The research is divided into three parts: wine, wine utensils and wine culture. In the first part, the methods of fermentation, storage and tasting methods are presented. The second part introduces the shapes and patterns of various wine glasses and bottles in different periods of the two nations' history, as well as the combination of wine and wine glasses. The third part further discusses the role of wine in literary works, religious beliefs and folk culture. The unique features of a local environment give special characteristics to its inhabitants. Different geographical conditions mean that the people of the two countries have different preferences in relation to alcoholic beverages, bottles and glasses and wine cultures with their own characteristics. However, regardless of nationality, wine is always associated with happy moments in life, such as family gatherings, friends' parties and romantic encounters. Wine is a direct emotional bridge that can transcend language and culture. Keywords: Spirit drinks, Culture, Wine vessels, Wine. vi 中葡两国器物与酒文化比较研究 摘要 本论文对中葡两国的酒器进行了介绍,从而进一步比较两国的酒文化。中国白 酒源远流长,品类多样,其或精致或瑰丽的酒具则是源远流长的中国酒文化的实体表 现之一。而葡萄牙的葡萄酒也享誉世界,并有着一系列精致的饮酒器物用以搭配不同 的葡萄酒。本论文尝试通过将两国的葡萄酒和酒器加以对比,力图使潜在的文化异同 加以呈现。 本研究分为酒、酒器和酒文化三个部分。第一部分介绍了发酵方法、贮藏方法 和品尝方法。第二部分介绍了两国历史上不同时期各种酒杯和酒瓶的形状和图案,以 及酒和酒杯的组合。第三部分进一步论述了酒在文学作品、宗教信仰和民俗文化中的 体现和作用。 地理环境的独特性赋予其居民特殊的特征。不同的地理条件意味着两国人民对 酒类、酒瓶酒杯以及各具特色的酒文化有着不同的偏好。然而,无论国籍,葡萄酒总 是与生活中的快乐时刻联系在一起,如家庭聚会、朋友聚会和浪漫邂逅。酒是一种直 接的情感桥梁,可以超越语言和文化。 关键词:蒸馏酒, 文化, 酒,酒具 2 Como portador da cultura vinícola, o desenvolvimento dos utensílios relacionados reflete também o desenvolvimento de uma civilização. Tanto a China como Portugal criaram utensílios para o vinho sofisticados. A variedade de recipientes na China antiga refletia necessidades de hierarquia, com as formas dos copos de vinho a representarem identidades sociais, diferenças essas que distinguiam e destacavam o estatuto social. Existem também muitos tipos de utensílios vinícolas em Portugal. Não importa o vinho em questão, quase sempre se usa uma taça transparente, pois permite ver a cor, apreciar o aroma e o sabor. Quando os portugueses escolhem um copo, têm exatamente esse propósito: degustar melhor o vinho. Na história chinesa, os utensílios vinícolas foram, primeiramente, um produto ritual. Mais tarde, os poetas escreveram versos em taças de vinho, ou escolheram materiais que pudessem representar a sua identidade. Por outro lado, os ocidentais acreditam que o vinho faz parte da vida e é um símbolo da salvação de Jesus. A produção de copos pretende, sobretudo, destacar as características do próprio vinho. Talvez se possa assumir que os chineses atribuem às taças de vinho uma função social, o que é consistente com a estrutura coletivista da sua sociedade. Na conceção mais individualista da sociedade ocidental, o vinho é apenas uma bebida que pode trazer alegria. Compreender as diferenças entre a cultura do vinho chinesa e ocidental contribui para aprofundar a compreensão mútua e promover a comunicação intercultural. Numa época onde a comunicação intercultural se torna tão frequente, especialmente nos contactos diretos entre os povos, graças ao crescente intercâmbio turístico, comercial, empresarial e cultural, as pessoas não devem apenas ser proficientes numa língua estrangeira, mas também compreender a sua cultura alimentar, da qual o vinho constitui uma parte importante. Utilizar corretamente os copos de vinho e demais utensílios, as regras de beber, são comportamentos que comunicam ideias durante um convívio e podem ser dotados de símbolos culturais únicos. Estas considerações motivaram a realização de um estudo comparativo nesta área, que parece ser inédito até à data. Ao longo da redação de trabalho, sentimos alguma dificuldade em conduzir um estudo comparado, dada a discrepância cronológica das duas culturas, correndo o risco de apresentar algum desequilíbrio entre as partes. Temos a consciência de tal obstáculo, mas é também nossa esperança de que não há nada melhor que apresentar um fenómeno cultural a um “outro cultural”, no nosso contexto sino-português, sempre com uma perspetiva de um possível “eco”, mesmo este seja de uma escala diferente. O principal objetivo ao escrever sobre este tema é testar a nossa capacidade de expressão em português sobre um fenómeno concreto e discutir as diferenças do papel do álcool nas 3 civilizações oriental e ocidental. A cultura vinícola é importante no seio da cultura portuguesa. A tentativa de refletir sobre a ocorrência do outro lado, permitirá aprofundar a nossa sensibilidade, capacidade intercultural e interlinguística. O presente trabalho desenvolve-se em três capítulos. Num primeiro momento, propomo-nos abordar as tipologias de bebidas alcoólicas mais comuns nos dois países em análise, descrevendo, de forma necessariamente breve, o método de produção de algumas delas. No segundo capítulo, descreve-se os tipos de utensílios vitivinícolas criados ao longo da história de Portugal e da China e respetivas conotações culturais, ensaiando-se também uma análise comparativa. O terceiro capítulo faz a ligação entre vinho e religião, literatura e costumes populares. Por fim, na conclusão pretende-se destacar as principais diferenças e aproximações entre os dois países, no que à cultura vinícola diz respeito, deixando ainda pistas para investigação futura. 4 CAPÍTULO I CATEGORIAS DE BEBIDAS ALCOÓLICAS 5 I.1 Vinhos e licores chineses A maioria de nós pensará primeiro em baijiu (白酒 bái ji ǔ) 2 , quando se fala de bebidas alcoólicas chinesas. Este vinho de arroz destilado é a bebida alcoólica mais popular na mesa chinesa. No entanto, o baijiu nem sempre foi a bebida mais desejada ou a mais tradicional da China; o que se bebia antigamente seria muito diferente do que se bebe hoje em dia. Em algumas épocas específicas houve outras opções de bebidas diárias, nomeadamente uma grande variedade de vinhos, licores, destilados e até cervejas. Este capítulo apresenta a origem, produção, características e sabores dessas bebidas alcoólicas, por ordem cronológica. I.1.1 Vinho de fruta O vinho de fruta, em chinês guojiu (果酒, gu ǒ ji ǔ), foi a primeira bebida alcoólica inventada pelo ser humano. Trata-se de uma variedade de vinho com baixo teor alcoólico, elaborada a partir de diversas frutas e frutos silvestres, como uvas, peras, laranjas, lichias, cana-de-açúcar, espinheiro-alvar, amoras silvestres, através de métodos de fermentação. Na China, a história de vinho pode ser rastreada até há 6000 anos. Quanto à sua origem, é geralmente aceite que foi Du Kang (杜康, dùk ā ng ) que inventou o vinho, ainda que possa ser uma mera lenda inventada, sem qualquer fundamento científico. As condições de fermentação do vinho são muito rígidas, sendo impossível fazê-lo naturalmente em cavidades de árvores. A idade real do vinho pode ser muito mais longa do que esperado, mais longa até que a história humana. Alguns antigos filósofos chineses admitiam que os chimpanzés descobriram, de forma acidental, o vinho fermentado naturalmente e aprenderam a fazê-lo com frutas: Existem muitos macacos nas montanhas no condado de Pingle, no oeste de Guangdong, e são bons na recolha de flores e frutas para fermentar. Os lenhadores que foram para as montanhas encontraram as suas grutas com muitas bebidas fermentadas. Esta bebida tinha um sabor perfumado e delicioso. As pessoas chamavam-lhe vinho de macaco. 3 (LU, Zuofan, 1939, p. 54). 2 Bebida destilada chinesa introduzida da Ásia Ocidental. 3 “粤西平乐等府 yuèx ī pínglè d ě ng f ǔ , 山中多猿 sh ā n zh ō ng du ō yuán, 善采百花酿酒 shàn c ǎ i b ǎ ihu ā niàngji ǔ . 樵子入山 qiáozi rù sh ā n, 得其巢穴者 dé qí cháoxuè zh ě , 其酒多至数百 qí ji ǔ du ō zhì shùb ǎ i, 饮之 y ǐ n zh ī , 香美异常 xi ā ngm ě i yì cháng, 名曰猿酒, míngy ū e yuánji ǔ .” 6 No entanto, esta é apenas uma hipótese. Ninguém sabe quem inventou o vinho: os arqueólogos encontraram as primeiras evidências da produção de vinho em Jiahu (贾湖, ji ǎ hú ), um assentamento neolítico na China. Químicos analisaram os resíduos encontrados em fragmentos de cerâmica de Jiahu e descobriram que continha vinho feito com arroz, mel e fruta, existindo por isso, também, uma indústria elementar de recipientes cerâmicos. I.1.1.1 Vinho de espinheiro chinês O vinho de fruta de espinheiro é o mais antigo dos vinhos chineses, com uma história mais longa do que o de arroz. A baga de espinheiro, ou shanzha (山楂, sh ā nzh ā), é uma fruta pequena que cresce em árvores do género Crataegus . Esta fruta é azeda, pelo que, para fazer vinho, é necessário adicionar açúcar. Figura 1 Bagas de espinheiro A receita para fazer este vinho é fácil, podendo até ser feita em casa: triture os frutos de espinheiro lavados, coloque-os numa jarra com açúcar, misture bem, tape e coloque num lugar quente. Mexa com frequência, deixe fermentar entre 1 e 2 meses, filtre o líquido com gaze de algodão e o vinho de espinheiro está pronto a beber. A sua aparência é rosada, por se tratar de uma fermentação caseira, existe uma pequena quantidade de matéria suspensa no vinho; o aroma é especial. Auxiliando a digestão, este vinho é adequado para beber depois do jantar. O teor de álcool geralmente ronda os 10% ~ 11% (v/v) 4 . I.1.1.2 Vinho de tâmara vermelha 4 Percentagem de volume, % (v/v) = (volume de soluto) / (volume de solução) x 100, o soluto nesse caso é álcool. 7 Tâmara vermelha, ou hongzao (红枣, hóngz ǎ o ), é uma fruta chinesa que raramente se come fresca, sendo consumida sobretudo seca. O fruto seco pode ser transformado em vinho, por meio de fermentação. O vinho de tâmara vermelha tem uma história de, pelo menos, dois mil anos, sendo também o mais representativo dos vinhos de fruta chineses. A primeira registação sobre ele remonta à dinastia Song do Norte (北宋, b ě isòng ) 5 . Figura 2 Tâmaras vermelhas secas O processo de produção deste vinho antigo foi perfeitamente preservado. O seu fabrico utilizando tecnologias modernas, adicionando fermento purificado e taninos, permitiu melhorar o seu sabor. Com base no relatório experimental de Shao (2004), o processo de produção deste vinho pode ser esquematizado da seguinte forma: 5 960 – 1127 d.C.. 8 Figura 3 Produção do vinho de tâmara vermelha O vinho de tâmara vermelha é fermentado a partir de hongzao tinta torrada, resultando numa forte fragrância frutada, num sabor suave e um valor nutricional e medicinal excecionalmente alto. A sua aparência é de cor rubi, límpida e transparente; o aroma é agradável, o aroma da fruta combina bem com o do vinho; o sabor é suave na boca e o gosto residual prolongado. O teor de álcool deste vinho geralmente é de 11% - 12% (v/v). A medicina chinesa defende que a dieta diária integra o tratamento médico; teoria conhecida como dietoterapia. De acordo com a medicina tradicional chinesa, este vinho permite revigorar o qi 6 , nutrir o sangue, estabilizar a mente, reduzir a febre e desintoxicar. I.1.1.3 Vinho de uva Os humanos têm uma longa história de cultivo de uvas e produção de vinho, e a China foi um dos primeiros locais de cultivo. Na dinastia Han (汉, hàn ) 7 , enviados chineses encontraram uma bebida deliciosa feita com uvas, conforme registado na grande obra Memórias históricas : “As pessoas em Dayuan (大宛, Dàyu ā n ) 8 usam uvas para fazer vinho. Os ricos podem armazenar mais de milhares de jarras. O vinho envelhecido pode durar décadas sem azedar” 9 . Naquela época, enviados chineses a 6 Para a medicina chinesa, qi ( 气 , qì) é uma energia que pode ser positiva ou negativa. A medicina tradicional acredita que o qi de yang (阳, yáng ) é a primeira linha de defesa da saúde humana. Ele concentra-se no corpo humano e protege os órgãos internos. Esse qi pode fluir na superfície da pele e evitar que o qi maligno exterior cause doenças. 7 De 206 a.C. a 220 d.C.. 8 Pequeno país da Ásia Central que existiu entre o século IV a.C. e o século III d.C. 9 宛左右以蒲陶为酒 yu ā n zu ǒ yòu y ǐ pútáo wéi ji ǔ ,富人藏酒至万余石fùrén cáng ji ǔ zhì wànyú dàn, 久者数十岁不败 ji ǔ zh ě shùshí suì bú bài. TdA. Sima, 1959, p. 3173. tâmara seca limpar fermentar envelhecer assar aquecer esterilizar espremer filtrar vinho de tamara 9 Dayuan descobriram que a população local bebia vinho de uva, levando a vinha e também a receita do vinho para a China. Na altura, a fermentação fazia-se de uma forma mais natural e primitiva. À semelhança de Portugal, também se utilizava a uva pisada para fazer o vinho, método ineficaz que se traduz em vinhos tintos com menor teor alcoólico. Só na dinastia Tang (唐, táng ) 10 o imperador Taizong de Tang (唐太宗, táng tài z ō ng ) 11 introduziu o vinho verde de Gaochang (高昌, g ā och ā ng ) 12 . De acordo com o Novo Livro no Sul : Taizong de Tang derrotou Gao Chang, obteve as uvas verdes, plantou-as no palácio e também obteve a receita para fazer vinho com elas. Ele também melhorou a fórmula da receita. O vinho feito era verde, o cheiro era muito perfumado e forte e o sabor era fresco. Foi a primeira vez que as pessoas em Chang'an conheceram o sabor deste vinho. 13 Antes daquela dinastia, os chineses bebiam principalmente vinho de arroz, só na época Tang passaram a ter mais opções de bebidas, preferindo vinho de uva. O teor de álcool de vinho de arroz era muito baixo, o que estimulou o desenvolvimento da produção de vinho de uva. As pessoas da dinastia Tang costumavam escrever os seus pensamentos e sentimentos sob a forma de poemas, pelo que há muitos belos poemas sobre vinho de uva e taças de vinho, que recolhemos e traduzimos no terceiro capítulo. I.1.2 Vinho de arroz A China antiga era uma cultura agrária típica. O vinho feito de cereais sempre foi o mais popular no mercado, pelo que, quando falamos de vinho chinês, este refere-se ao vinho feito a partir de grãos. No fim da Idade da Pedra, a agricultura entrou numa nova fase; na Idade do Bronze, a inovação das ferramentas permitiu colheitas diversificadas. A diversificação das plantações agrícolas forneceu matéria-prima abundante para a vinificação dos povos antigos, resultando em muitos tipos de vinho de cereais, alguns dos quais se perderam. 10 618–907 d.C. 11 Taizong (598 – 649 d.C.) foi o segundo imperador da dinastia Tang, sendo Taizong o número do seu templo. 12 Pequeno reino antigo, que existiu de meados do século V a meados do século VII. As ruínas de Gaochang ficam perto da cidade de Turfán. 13 太宗破高昌 tàiz ō ng pò g ā och ā ng, 收马乳葡萄种于苑,sh ō u m ǎ r ǔ pútáo zh ǒ ng yú yuàn, 并得酒法 bìng dé ji ǔ f ǎ , 仍自损益之 réng zì s ǔ nyì zh ī , 造酒成绿色 zàoji ǐ chéng l ǜ sè, 芳香酷烈 f ā ngxi ā ng kùliè, 味兼醍醐 wèi ji ā n tíhú, 长安始识其味也 cháng’ ā n sh ǐ shí qí wèi y ě . TdA. Sima, 2002, p. 18. 10 Entre todos os vinhos feitos de cereais, o mais representativo será o vinho de arroz ou mijiu (米酒, m ǐ ji ǔ). Essa bebida estava na mesa de todos os chineses, pois era fácil de fazer em casa. Antes da introdução da tecnologia do vinho destilado, o vinho de arroz era o favorito do povo chinês, bebido com maior frequência. Um artigo de Fu apresenta três hipóteses sobre a origem do vinho de arroz (1992), sendo a mais crível dessas hipóteses a de que o vinho de arroz surgiu na cultura Longshan (龙山, lóngsh ā n ), entre 3000 e 1900 a.C.. Segundo a pesquisa de Yang (1992), os chineses começaram a fazer vinho de arroz na dinastia Shang (商, sh ā ng ) 14 , com um iniciador de fermentação seco chamado Nie (糵, niè ), que melhorou drasticamente a eficiência da produção. Em 1977, foram encontrados na província Hebei dois potes de vinho do tempo dos Reinos Combatentes (战国 , zhàn guó ), no túmulo do rei Zhongshan (中山, zh ō ng sh ā n ). Graças à tampa bem fechada, o licor pôde ser preservado e, de acordo com a análise de especialistas em química arqueológica, os potes guardavam um vinho feito de grãos. Para além de constituir um dos vinhos mais antigos preservado no mundo, esta descoberta é uma prova física da existência de vinho de arroz fermentado durante aquele período histórico tão remoto. De acordo com Zhang (2000), a forma de fazer esta bebida tradicional não mudou muito desde então: Figura 4 Produção do vinho de arroz O vinho de arroz feito dessa forma apresenta uma cor branca leitosa, um sabor muito doce e um pouco azedo e um teor de álcool de cerca de 5% (v/v). 14 Séculos XVII – XI a.C. arroz lavar cozer fermentar vinho de arroz 11 Figura 5 Uma taça de saquê nigori, um vinho de arroz japonês O vinho de arroz era uma bebida relativamente comum; os agricultores pobres do passado podiam fazê-lo facilmente. Se substituirmos o arroz por uma mistura de arroz e milho-painço e o envelhecermos alguns anos, obtém-se outro tipo de bebida: o vinho amarelo (黄酒, huángji ǔ), também conhecido como huangjiu ou vinho fermentado, normalmente com um teor de álcool de 8% (v/v). Apenas os ricos podiam pagar este vinho envelhecido. Figura 6 Bolinhos de arroz em guihuajiu Mais sabores de vinho de arroz foram inventados. Por exemplo, durante o período dos Reinos Combatentes, as pessoas adicionaram-lhe flores de loureiro, criando o guihuajiu (桂花酒, guìhu ā ji ǔ), um vinho de arroz fermentado com flores de Osmanthus fragrans , que ainda é muito popular no sul da China. Este vinho é um dos ingredientes de um doce famoso - os bolinhos de arroz em guihuajiu - bom para a saúde da mulher, especialmente no inverno. Este vinho de arroz com baixo teor de álcool era quase igual à atual cerveja, pelo que nobres o bebiam em abundância durante os banquetes na corte, sem ficarem embriagados. Antes da dinastia Tang, o vinho de arroz comum também era chamado “vinho turvo”: as pessoas usavam um pano para filtrar os resíduos, antes de beberem. 18 apresenta a cor do chá. Ainda hoje, o Reino Unido usa vinho do Porto para brindar à rainha em ocasiões formais. I.2.4 Vinho da Madeira Durante o período dos Descobrimentos, a maioria dos marinheiros bebia vinho nos navios. Em 1768, o navegador britânico James Cook embarcou na sua primeira viagem para explorar o Pacífico Sul, apetrechando o veleiro “HMS Endeavour” com 3.032 galões de vinho da Madeira e apenas 2.520 galões de água doce. Acidentalmente descobriu-se que o balanço do navio e a alta temperatura do oceano tropical tornavam o vinho mais saboroso, então os marinheiros começaram a acumular uma grande quantidade de vinho da Madeira para vendê-lo a um preço mais elevado. O vinho de Madeira ganhou a reputação de “vinho de navegação”. I.2.5 Sangria A sangria é uma bebida típica na Península Ibérica; em 2014, a União Europeia estipulou que apenas a bebida produzida na Espanha e em Portugal pode ser assim chamada, enquanto as produzidas noutros lugares podem ser chamadas de “bebidas com sabor de vinho”. Em Portugal, a sangria pode ser vista em churrascos, festas e nos restaurantes, sendo uma das bebidas indispensáveis para os locais. Mergulhar fruta num jarro, adicionar um pouco de gelo e vinho espumante e brindar com os amigos, isto é um momento de verão em Portugal. 19 CAPÍTULO II OS UTENSÍLIOS 20 Beber exige um recetáculo para o vinho: copos, taças, garrafas, vasilhas, potes. As pessoas usam recipientes diferentes em ocasiões diferentes ou para vinhos distintos. Escolher a taça adequada para cada situação também é uma forma de conhecer a cultura de um país. A variedade de formas delicadas e elegantes dos recipientes de vinho é uma manifestação concreta da civilização humana. Um bom vinho e recipientes de vinho requintados complementam-se, um bom copo pode aumentar o prazer de beber. Os vasos de vinho chineses têm uma longa história, os tipos de garrafas de vinho portugueses modernos também se multiplicam, algumas delas notáveis. II.1 Origem e evolução dos utensílios chineses Os recipientes chineses para o vinho desempenharam funções importantes ao longo da história, que transcenderam a estética e as funções de uso: foram vasos rituais usados em cerimónias religiosas, também foram símbolo de poder e classe social. II.1.1 Vasos de vinho antes da era Qin Figura 8 Hu de cerâmica em forma de barco (船形彩陶壶, chuánxíng c ǎ itáo hú ) 31 A cultura Yangshao (仰韶, y ǎ ngsháo ) 32 é a mais representativa da Idade da Pedra na China, altura em que a maioria dos utensílios era feita de cerâmica. A figura 14 mostra um hu (壶, hú ) em forma de barco da época. Trata-se de um recipiente chinês, normalmente com a forma de jarra (alguns têm tampa), usado para servir o vinho de arroz. Du (1995) considerou que esta forma de barco representava a esperança de obter vinho em grande quantidade, comparável à imensidão do mar. Nesse período, a estética começou a ser importante nas vasilhas de vinho. 31 Adaptado d’ Os Antigos Conjuntos de Vinho Chinês 中国古代酒具 zh ō ngguó g ǔ dài ji ǔ jù , p. 3. 32 Cerca de 5.000 – 3.000 a.C.. 21 Figura 9 Gui de cerâmica branca em forma de mulher (白陶人形鬶, báitáo rénxíng guī ) 33 O gui (鬶, gu ī) da cultura Longshan ( 龙山, lóng sh ā n ) era feito de acordo com as características do corpo feminino. Trata-se de uma chávena de cerâmica antiga com um bico, uma pega e três pés ocos. A frente da figura feminina está completamente nua, a cabeça é moldada no gargalo do gui , apresenta traços faciais completos, as orelhas e a boca aberta são particularmente proeminentes. Existem seios esculpidos no corpo, com mamilos deliberadamente pintados de preto, e um órgão reprodutor feminino colocado exageradamente no centro do corpo, que também é o centro do pote de barro. A representação do corpo feminino pode dever-se a uma espécie de culto às deusas e ao poder reprodutivo: o abdómen levantado é um símbolo de fertilidade. O pote de barro com uma figura de mulher é portador de conceitos místicos e de culto à vida e à fertilidade, o que o torna um tesouro raro no artesanato pré-histórico chinês. Figura 10 Jue de bronze com padrão de prego redondo (乳钉纹铜爵, r ǔ dīng wén tóngjué ) O jue (爵, jué ) representado acima é um copo especial da dinastia Xia (夏, xià ) 34 , usado 33 Retirado de Os Antigos Conjuntos de Vinho Chinês, 中国古代酒具 zh ō ngguó g ǔ dài ji ǔ jù , p. 29. 34 2070 – 1600 a.C. 22 aquecer e beber vinho de arroz - os três pés são bastante convenientes para colocar uma fonte de calor em baixo. O copo jue também era usado em atividades religiosas e ocasiões sociais importantes com convidados nobres. Era símbolo de poder, a palavra “爵位 ( jué wèi )” é mesmo usada para designar alguém da nobreza, pelo que os cinco graus de nobres hereditários (as “classes de jue ”) 35 usavam copos de jue específicos, de acordo com o seu título nobiliárquico. II.1.2 Qin e Han A dinastia Qin existiu por um curto período de tempo, pelo que se apresenta junto com a dinastia Han. De uma maneira geral, os recipientes para vinho dessas duas dinastias herdaram o estilo da dinastia Zhou, tanto os vasos de bronze como os copos laqueados. Figura 11 Hu de bronze com padrão de dragão dourado e prateado Os chineses do norte costumavam usar um hu de bronze para servir o vinho. Por exemplo, os arqueólogos encontraram muitos utensílios em forma de hu no túmulo do príncipe de Zhongshan (中 山靖王, zh ō ngsh ā n jìng wáng ), Liu Sheng (刘胜, liú shèng , 154 - 113 a.C.), na província de Hebei. A figura 11 é um dos vasos deste príncipe. Devido ao aprimoramento da técnica de fundição na dinastia Han, esses utensílios tinham incrustações em ouro e prata, alguns com turquesas e outras pedras preciosas, tornando-os altamente luxuosos. Os sulistas preferiam copos laqueados. Por exemplo, no sítio arqueológico Mawangdui (马王 堆, m ǎ wáng du ī), em Changsha, os arqueólogos descobriram muitos vasos e copos desse género. Os materiais usados para produzir os laqueados não eram caros, as superfícies pintadas apresentavam cores claras e padrões repletos de elementos culturais. Além dos utensílios feitos de bronze ou laqueados, que representavam a maioria, havia também alguns vasos e copos de vinho feitos de ouro, prata, jade, porcelana, vidro e marfim. Os recipientes de cerâmica para vinho ainda estavam em uso, mas a maioria eram grandes potes 35 A aristocracia masculina da China antiga tem 5 classes como a Europa: Duke (公 g ō ng ) , Marquês (候 hóu ), Conde (伯 bó ), Visconde (子 z ǐ), Baron (男 nán ). 23 destinados ao armazenamento de vinho. II.1.3 Dinastia Sui e Tang Depois de mais de trezentos anos de unidade nacional nas dinastias Sui (隋, suí ) 36 e Tang, a antiga cultura do vinho desenvolveu características únicas. Nesta época, os utensílios para beber vinho também evoluíram, com destaque para recipientes de porcelana, em primeiro lugar, e de ouro e prata também. Os antigos utensílios de bronze foram basicamente eliminados do uso diário e transformados em vasos rituais. A dinastia Sui não durou muito, apenas 37 anos, mas como um cometa a cruzar o céu noturno, deixou um rasto brilhante na história vinícola chinesa. Os artesãos criaram novas variedades de esmaltes para a porcelana nessa época, os utensílios de vinho de porcelana branca ou castanha são tesouros da cultura do vinho surgidos neste período. Figura 12 Frasco branco com pegas de dragão 37 Por exemplo, a figura 12 mostra uma requintada garrafa desenterrada de um mausoléu da dinastia Sui, na região de Xi'an. Os contornos suaves traduzem uma beleza refrescante, representando o mais alto nível da tecnologia de produção de utensílios daquela época. A era Tang foi a idade de ouro dos utensílios vinícolas, com utilização de materiais nobres como ouro, prata e porcelana. Nesse período, surgiu uma nova categoria de porcelana que surpreendeu o mundo: a porcelana Tang Sancai (唐三彩, táng s ā n c ǎ i ), composta por três cores: amarelo escuro, branco e verde-escuro (alguma porcelana pode apresentar ainda a cor azul-turquesa). Esta linda combinação de cores é elegante, concentrando um alto valor quer artístico quer histórico. As taças de porcelana branca e vidrado celadon também são bastante famosas. 36 581 – 619 d.C. 37 Retirado d’ Os Antigos Conjuntos de Vinho Chinês 中国古代酒具 zh ō ngguó g ǔ dài ji ǔ jù , p. 193. 24 Figura 13 Taça de ágata com ouro incrustado 38 Além da porcelana Sancai, os utensílios de vinho feitos com ouro e prata também eram comuns na época, com formas que incluem taças, copos, potes e pratos. A figura 13 revela um magnífico copo de ágata em forma de chifre, considerado uma obra-prima artística. II.1.4 Dinastia Song e Yuan A dinastia Song do Norte herdou o estilo da cultura do vinho da era Tang, em termos de forma, padrões decorativos e costumes de beber. No entanto, esta dinastia enfatizava a literatura em detrimento das artes marciais, então os costumes, as formas e padrões decorativos dos recipientes de vinho tornaram-se mais delicados. Vasos de ouro raramente eram vistos, já os de prata com inscrições em ouro estavam na moda, e alguns tinham poemas gravados. Ainda que a dinastia Yuan durasse um curto período de noventa anos, revelou-se um período essencial na história do desenvolvimento da porcelana. A porcelana azul e branca, que representa as características desta era crítica, conheceu uma prosperidade sem precedentes. Por exemplo, o copo azul e branco típico daquela época melhorou significativamente tanto a forma, como o esmalte. Essa combinação das cores influenciou os árabes através da rota de seda. Depois, os portugueses criaram o azulejo com essa mesma harmonia cromática por influência islâmica. II.1.5 Dinastia Ming e Qing O apogeu da antiga porcelana chinesa aconteceu nas dinastias Ming e Qing. No início da época Ming, a indústria de porcelana superou a geração anterior, em quantidade e a qualidade. Jingdezhen, na província de Jiangxi, tornou-se o centro da cerâmica e um importante produtor de porcelana mundial. Em meados desta dinastia, no período Jingtai (景泰, j ǐ ngtài ), surgiu o esmalte cloisonné . Os produtos esmaltados sob essa técnica foram usados principalmente para servir vinho aos imperadores, generais e nobres, constituindo mais uma evolução nos recipientes vinícolas chineses. 38 Idem , p. 311. 25 Figura 14 Jue e bandeja de ouro Além da porcelana, os imperadores Ming também apreciavam artigos em ouro, prata e jade. O Jintuoyujue do imperador Wanli, desenterrado no túmulo Dingling, e a taça em jade branco em forma de lótus desenterrada no túmulo do rei Lu, em Shandong, são excelentes exemplos do estilo seguido durante a dinastia Ming. Até o caixão da imperatriz Xiaojing contém um pote de vinho quente feito de ouro. Podemos dizer que as pessoas davam muita atenção à bebida e ao seu papel na preservação da saúde. Figura 15 Copo jue com bandeja em famille rose Durante a dinastia Qing, a indústria de porcelana desenvolveu-se, surgindo por exemplo a tecnologia famille rose que é colorida e deslumbrante. Os vasos de vinho da dinastia Qing têm uma característica notável: muitos deles imitam a forma dos antigos vasos de vinho. Por exemplo, a chávena acima foi usada no palácio imperial durante esse período. Trata-se de uma antiguidade típica da dinastia Qing, combinando a tecnologia avançada famille rose com a forma do antigo copo jue , revelando uma engenhosidade extraordinária. Olhando para a evolução das vasilhas de vinho chinesas, constata-se que os utensílios mais populares foram, por ordem cronológica, de cerâmica, bronze, ouro e prata e, por fim, porcelana. II.2 Combinações de garrafas, copos e vinhos portugueses Diferente da economia agrícola de autossubsistência da China antiga, Portugal tem uma história mais longa de mercantilismo. Os comerciantes transportam o vinho do local de produção para 26 as lojas e outros canais de distribuição, transporte que pode ser longo e acidentado, pelo que as garrafas são os recipientes ideais para transportar o vinho sem estragar o seu sabor. Os copos e cálices modernos também foram desenhados em diferentes formas para servir todos os tipos de vinho. II.2.1 Garrafas Não é difícil notar as diferentes formas das garrafas de vinho nas prateleiras dos supermercados. Esses diferentes formatos pretendem fornecer condições mais precisas de armazenamento, transporte e serviço para cada tipo de vinho. A compreensão das garrafas de vinho pode ajudar-nos a identificar e escolher um vinho. Uma garrafa de vinho tem cinco partes, do topo à base: o gargalo, o pescoço, os ombros, o bojo e a base. Podemos classificar as garrafas de vinho em cinco categorias principais, considerando o tamanho e a forma das partes que compõem o corpo: garrafa Bordeaux, garrafa Borgonhesa, garrafa Champagne, garrafa Alsácia e garrafa Porto. Figura 16 Garrafa Bordeaux A garrafa Bordeaux é uma das garrafas de vinho mais comuns e tradicionais no mercado, com um formato reto e ombros altos. O vinho contido nesta garrafa geralmente precisa ser envelhecido por um longo tempo na adega, o que pode produzir os sedimentos. Os ombros largos podem reter parte dos sedimentos ao servir o vinho, deixando-os na garrafa. Figura 17 Garrafa Borgonha 27 Os ombros da garrafa Borgonha apresentam um grande arco suave. O bojo é redondo, grosso e forte. Esta garrafa geralmente contém vinhos de edição limitada. Atualmente, a maioria dos vinhos que usam a garrafa Borgonha são famosos pelo sabor requintado e estilo elegante. Figura 18 Garrafa de Champanhe Este tipo de garrafa foi especialmente concebido para champanhe. Na verdade, essa garrafa é maior e mais forte do que as usadas no vinho comum, para suportar a pressão do carbono, pelo que fabricantes de espumantes também a usam. Além de serem fortes, regra geral, as garrafas são verdes ou castanhas, para isolar o sol de forma eficaz e evitar a deterioração do vinho. Figura 19 Garrafa Alsácia A garrafa Alsácia é ainda mais delicada do que a garrafa Borgonha. A sua forma é muito fina, o que faz com que pareça particularmente alta e elegante. Foi criada especialmente para o armazenamento de Riesling, um vinho branco feito da uva Alemanha. 34 Em seguida, do quarto ao sexto capítulo, descreve-se as orações dos sacerdotes, implorando aos deuses e ancestrais que abençoassem as gerações futuras. No final deste poema, surge a cena da oferenda e do banquete: “Todos comeram muito e ficaram bêbados, os velhos e os jovens baixaram a cabeça para agradecer aos deuses. Os deuses também gostam de saborear estes vinhos e pratos deliciosos, eles podem abençoar todos com uma vida longa.” 42 Na época acreditava-se que até os deuses adoravam beber, demonstrando assim o importante papel do vinho para os simples mortais. Registe-se ainda outro poema, Elogios de Zhou · Cortando as ervas daninhas , onde se lê: “Preparamos vinho de arroz doce e claro, para os ancestrais saborearem” 43 . Tomar os antepassados como principais destinatários dos rituais de sacrifício reflete a importância da adoração aos ancestrais na dinastia Zhou. O vinho usado devia ser o melhor, muitas vezes, era acompanhado por sacrifícios de porcos, touros ou ovelhas. III.1.2 As lendas gregas sobre o vinho A identidade profunda da cultura portuguesa e de todas civilizações europeias tem uma matriz marcadamente greco-romana. A mitologia grega antiga teve um impacto profundo em todos os aspetos da cultura ocidental, incluindo na literatura, história, filosofia, política e arte. Para compreender a cultura do vinho em Portugal, importa assim ter algum conhecimento sobre mitologia grega. Ora na mitologia grega, o culto a Dionísio surge inseparável do vinho. De acordo com Burkert (1985), no seu livro Religião Grega : " Concursos musicais aparecem principalmente em homenagem a Apolo e Dionísio". Segundo Aristóteles, o drama é a imitação da adoração e dos rituais de sacrifício a Dionísio. Ele claramente afirmou no seu livro Poética : “… tanto a tragédia como a comédia, uma a partir dos autores de ditirambos, outra dos autores de cantos fálicos” (2008, 1449a). O culto a Dionísio – depois identificado como Baco na mitologia romana - era marcado por rituais que envolviam o consumo desenfreado de vinho, transes e orgias, bem como ditirambos, isto é, odes a Dionísio. Os artesãos romanos do século IV fizeram a taça de vidro abaixo, conhecida como o copo de Licurgo ou Lycurgus , cujo padrão conta uma história de Dionísio, o deus grego do vinho 44 . 42 既醉既饱 jì zuì jì b ǎ o, 小大稽首 xi ǎ o dà q ǐ sh ǒ u. 神嗜饮食shén shì y ǐ n shí, 使君寿考 sh ǐ j ū n shòu k ǎ o. TdA. Idem . 43 «周颂 zh ō u sòng ·载芟 zài sh ā n»: “为酒为醴 wéi ji ǔ wéi l ǐ , 烝畀祖妣 zh ē ng bì z ǔ b ǐ .” TdA. Idem . 44 A taça (ou copo) de Licurgo foi esculpida em jade e é considerada um dos objetos de vidro tecnicamente mais sofisticados produzidos antes da era moderna. Com uma aparência verde, quando se coloca uma fonte de luz no interior, ela muda de cor. 35 Figura 24 O padrão no copo de Lycurgus III.1.3 O vinho na Bíblia Com a expansão de Roma, o vinho espalhou-se por todos os cantos do império, e o seu consumo diminuiu com o declínio do império. No entanto, com a ascensão da fé cristã, o papel do vinho na religião floresceu . Figura 25 Jesus transforma água em vinho Muitas passagens da Bíblia indicam que o vinho pode refrescar o corpo e a mente e é bom para a saúde. Na parábola de Jotão, a videira, ao ser convidada para reinar sobre a floresta, responde desta forma, aludindo à alegria que o vinho traz: “Porém a videira lhes disse: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria pairar sobre as árvores?” (Juízes 9:13, Nova Versão Transformadora). Também Jesus, que realizou o primeiro milagre num casamento em Caná, transformando água em vinho, concordava que o vinho podia trazer alegria e curar ferimentos, se se recordar a história que contou sobre um homem ferido de Jerusalém, salvo por um samaritano com óleo e vinho (Lucas 10:30-34). 36 Figura 26 O Cálice Sagrado de Valência Se por um lado a Bíblia elogia os efeitos do álcool, por outro alerta que o seu abuso pode conduzir a desastre e pecado. Portanto, o livro sagrado fornece orientações detalhadas sobre como usar o álcool. Quando Jesus entregou vinho aos discípulos na Última Ceia, disse que este era o seu sangue, usado como promessa para que os pecados humanos fossem perdoados (Mateus 26:26-28). A Igreja considera o vinho tinto como “Sangue de Cristo” e usa-o, por isso, nas missas. Esse vinho especial, juntamente com a hóstia que representa o corpo de Jesus, constitui a Eucaristia. O quarto Concílio de Latrão determinou que somente após a confissão se pode receber a Eucaristia na missa, pois somente por meio da confissão os crentes com o pecado original podem receber a graça de Deus. Essa crença existe há muito tempo. O apóstolo Paulo advertiu os coríntios: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão, e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria a condenação, não discernindo o corpo do Senhor.” (I Coríntios 11:28-29). A visão da Bíblia sobre o vinho difere da daqueles que proíbem completamente as bebidas alcoólicas. Está registrado nos Salmos que o vinho é um presente de Yavé , que pode agradar às pessoas. Na verdade, a atitude incorporada nas Escrituras é que se as pessoas apreciarem o vinho com moderação, este pode alcançar propósitos bons e valiosos (Salmos 104:14-15). III.1.4 Imagens religiosas nas porcelanas chinesas do século XVII Existem ricas imagens religiosas na porcelana do reinado de Shunzhi (顺治, shùn zhì ) 45 , nomeadamente de eremitas, figuras mitológicas, santos e imortais do taoismo, arhat e deuses indianos do budismo, bem como paisagens do país das fadas emprestadas de pinturas antigas. Esses elementos religiosos e personagens com significados emocionantes apareciam com frequência nos 45 1644-1661 d.C. 37 vasos de porcelana com um elegante esmalte azul claro. Analise-se brevemente alguns exemplos, para revelar os vários significados religiosos e origens culturais que essas porcelanas podem transmitir. Figura 27 Jarra e bandeja para servir vinho, de cerâmica azul e branca 46 O reinado do imperador Shunzhi decorreu no final da dinastia Ming e início da era Qing. Os literatos que cresceram da dinastia Ming usavam pinturas ou inscrições para contarem as histórias dos eremitas que fugiam da cidade para a natureza: as pinturas nos copos de vinho constituíam uma espécie de conforto. Por exemplo, a jarra de vinho com tampa acima data de 1644. O desenho e respetiva inscrição baseiam-se na vida do eremita Tao Yuanming (陶渊明, táo yu ā nmíng ), famoso na história chinesa. A bandeja da direita remonta ao ano de 1650 e tem igualmente um eremita pintado. Os dois utensílios têm cenários naturais como fundo, simbolizando simplicidade e calma, estilo profundamente influenciado pelo Taoismo. Figura 28 Bandeja e taça para servir vinho, de cerâmica azul e branca 47 A imagem religiosa mais famosa na porcelana chinesa do século XVII foram os Oito Imortais , que constam na bandeja circular da esquerda (figura 28) e fazem parte dos mitos e lendas taoistas. De facto, os oito deuses transcenderam o âmbito religioso e tornaram-se figuras culturais conhecidas em todo o país. Em particular, Lyu Dongbin (吕洞宾, l ǚ dòng b ī n ), o homem desenhado na bandeja com 46 Retirado de Wu, Bin伍彬 (2003). O Imortal do Vinho: Imagens Religiosas nas Porcelanas Chinesas do Século XVII酒中仙: 十七世纪中国 瓷器上的宗教图像 ji ǔ zh ō ng xi ā n: shíq ī shìjì zh ō ngguó cíqì shàng de z ō ngjiào túxiàng . Orientations , (3), p. 93. 47 Idem . p. 94. 38 uma longa espada, assumiu um significado especial após o fim do império Ming. Diz-se que Lyu Dongbin, um estudioso da dinastia Tang, sonhou que uma fada lhe mostrou a efemeridade da fama e da riqueza. Depois de acordar, Lyu Dongbin desistiu das suas ambições políticas, não participou do exame oficial e passou a estudar o Taoismo. No lado direito da figura 28 há uma taça usada para adorar os deuses taoistas. O seu texto revela que é uma “taça de vinho puro” usada para consagrar uma das mais importantes divindades do Taoismo na dinastia Ming: o imperador dos deuses Xuantian (玄天上帝, xuánti ā n shàngdì ). Xuantian é considerado um deus especial relacionado com a família imperial Ming, já que o imperador Yongle (永乐大帝, y ǒ nglè dàdì ) 48 declarou que a sua entronização tinha sido designada pelo imperador do céu, iniciando depois um projeto de construção em grande escala na montanha Wudang (武当山, w ǔ d ā ng sh ā n ), com palácios e templos, transformando toda a montanha num reino de fadas. Segundo literatura do início da dinastia Qing (Chen, 2016), os manchus invadiram o território Ming, massacraram civis da etnia Han e criaram uma nova dinastia. Devido aos seus hábitos étnicoculturais, os manchus não respeitavam a classe intelectual. Essa destruição nacional e cultural fez com que os alfabetizados que sobreviveram à guerra evitassem atividades políticas. Desesperados, os literatos do início da dinastia Qing procuraram alívio para a tristeza no vinho e na religião. III.2 O vinho e os utensílios na literatura III.2.1 Os recipientes de vinho no Clássico da Poesia O Clássico da Poesia é a primeira coleção de poemas da China, marcando por isso o início da poesia chinesa antiga. Os autores são anónimos, a história não conseguiu desvendar a identidade da maioria. Esses poemas antigos escritos por trovadores populares ou dignitários foram compilados e editados por Confúcio (551 – 479 a.C.). São textos ricos em conteúdo, versando muitos temas, do trabalho ao prazer, guerra e servidão, opressão e resistência, costumes e casamento, adoração aos ancestrais e banquetes. Eles são um testemunho da vida das pessoas de todas as classes durante a dinastia Zhou. De acordo com a análise de Wan (2017), a palavra “酒 (vinho, ji ǔ)” aparece 63 vezes no Clássico da Poesia : ao todo, há 36 poemas relacionados com o tema representando 11% dos 311 poemas da coleção. A frequência da palavra no Clássico da Poesia , muito alta, mostra a importância do vinho de arroz daquela época. Existem 13 tipos de recipientes de vinho envolvidos no Clássico da 48 1402--1424 d.C.. 39 Poesia : jia (斝, ji ǎ), zun (尊, z ū n ), jue (爵, jué ), chifre (角, ji ǎ o ), pote (壶, hú ), you (卣, y ǒ u ), lei (罍, léi ), yi (彝, yí ), gong (觥, g ō ng ), dou (斗, d ǒ u ), garrafa (瓶, píng ), zan (瓒, zàn ) e pao (匏, páo ). Figura 29 A comparação da jia e o jue Tanto a Jia (斝, ji ǎ) como o jue (爵, jué ) são copos para beber vinho quente. A jia tem a mesma aparência do jue , mas um tamanho maior. O poema Hinos Principais da Corte · O Juncos , que descreve um grande banquete oferecido por uma família nobre na dinastia Zhou, registrou a etiqueta de utilização destes dois copos e dos brindes dos nobres: “O anfitrião brinda, e o convidado responde, o anfitrião limpa o jue , e o convidado levanta a jia. ” 49 Lavar os copos era um ritual na dinastia Zhou: o anfitrião devia primeiro lavar o copo com água limpa e, em seguida, enchê-lo com vinho e entregá-lo ao convidado. O convidado também devia usar o mesmo método para responder ao brinde do anfitrião, depois de beber, devia levantar o copo no ar e colocá-lo na mesa. Vale a pena analisar a outra frase deste poema: “O anfitrião do banquete preparou vinho delicioso. Encheu a taça com uma grande colher e ofereceu-a ao idoso, desejando-lhe uma vida longa e saudável.” 50 Este poema, que descreve um banquete com parentes, pretende descrever não apenas os vinhos e hierarquias, mas também a etiqueta e os rituais. Sob a etiqueta moral de respeitar os idosos, os poemas sobre vinho da dinastia Zhou dividiam as pessoas em nobres e humildes, mas também em idosos e jovens. Esta hierarquia rígida e os conceitos de clã estão profundamente enraizados no caráter nacional há mais de dois mil anos. Assim, o gong (觥, g ō ng ) e o chifre (角, ji ǎ o ) são copos para beber vinho diretamente, mas o primeiro é para os nobres e o segundo para os pobres. O gong é um pote com forma de animal e o chifre tem a forma de um corno de animal (Wan, 2017). O zun (尊, z ū n ), o pote (壶, hú ), o you (卣, y ǒ u ), o yi (彝, yí ) e o gong 觥 ( g ō ng ) são todos potes para servir o vinho, com formas diferentes, que simbolizam a identidade social dos seus utilizadores. 49 «大雅 dày ǎ ·行苇 xíngw ě i »: “或献或酢 huò xiàn huò cù, 洗爵奠斝 x ǐ jué diànji ǎ .” TdA. 1985, p. 529. 50 “曾孙维主 z ē ngs ū n wéi zh ǔ , 酒醴维醽 ji ǔ l ǐ wéi líng, 酌以大斗 zhuó y ǐ dàdòu, 以祈黄耇 y ǐ qí huángg ǒ u.” TdA. Idem. 40 Figura 30 O zun quadrado de quatro cabras Como a figura mostra, o zun parece um vaso grande. Um verso de Elogios de Lu 51 · O Templo menciona o seu uso numa cerimónia real: “Os zuns sacrificiais batem juntos e fazem um som estridente. Há leitões assados e caldo de carne no banquete” (1985, p. 664) 52 . O zun era, portanto, um pote para ser utilizado pelas classes altas, como se percebe pela utilização do caracter na palavra “respeito” em chinês (尊敬, z ū n jìng )”, cujo significado deriva do ato de servir vinho a alguém importante com um pote zun . Os potes das dinastias Shang e Zhou têm significados e funções semelhantes aos de hoje, podendo ser usados tanto para vinho como para água. Desde os tempos antigos que o pote tem sido usado enquanto utensílio relativamente diário. Recordemos, a este propósito, o poema Hinos Principais da Corte · As Montanhas no Han 53 : “Os sábios prepararam um banquete de despedida, com centenas de potes do vinho doce e transparente. Que pratos acompanham o vinho? Tartarugas cozidas e peixes frescos.” 54 51 Lu (鲁, l ǔ) foi um estado vassalo durante a dinastia Zhou, localizado na província Shandong, 1042 – 249 a.C. 52 «鲁经 l ǔ j ī ng·閟宫 bìg ō ng »:“牺尊将将 x ī z ū n ji ā ngji ā ng, 毛炰胾羹 máof ǒ u zìg ē ng.” TdA. 53 Han (韩, hán ) foi um estado vassalo durante a dinastia Zhou, 403 – 230 a.C.. 54 «大雅 dà y ǎ ·韩奕 hán yì »: “显父饯之 xi ǎ nfù jiàn zh ī , 清酒百壶 q ī ngji ǔ b ǎ i hú. 其肴维何 qí yáo wéi hé? 炰鳖鲜鱼 f ǒ ubi ē xi ā nyú.” TdA. 1985, p. 596. 41 Figura 31 O You de cobre com padrão de fénix 55 O you (卣, y ǒ u ) é um pote com pega, um corpo grande e redondo, um bico oval e uma tampa, usado para guardar vinho de arroz temporariamente durante o processo de transporte. Podemos ler em Hinos Principais da corte · O Rio Yangtze e o Rio Han, poema que conta a história do general Zhao Bohu (召伯虎, shào bóh ǔ) que viveu na dinastia Zhou, ganhou a guerra contra os rebeldes de Chu 56 (楚, ch ǔ) e foi recompensado pelo rei Zhou Xuan Wang (周宣王, zh ō u xu ā n wáng ): “Vou recompensálo com uma colher de jade e um pote de vinho de arroz preto” 57 . Figura 32 Lei com padrão de tartaruga 58 A lei (罍, léi ) é um jarro grande para conservar o vinho durante um período de tempo longo. Esse recipiente é mencionado muitas vezes na literatura, surgindo pela primeira vez no poema Sul de Zhou · Coletar os Carrapichos : “Eu pego num copo de vinho lei de ouro para aliviar temporariamente a 55 Retirado d’ Os Antigos Conjuntos de Vinho Chinês . (1995), p. 129. 56 Chu (楚, ch ǔ) foi um estado vassalo durante a dinastia Zhou. 57 «大雅 dày ǎ ·江汉 ji ā ng hàn »: “厘尔圭瓒 lí ě r gu ī zàn, 秬鬯一卣 jùchàng y ī y ǒ u.” TdA. 1985, p. 602. 58 Retirado d’ Os Antigos Conjuntos de Vinho Chinês . (1995), p. 45. 42 minha tristeza e saudades da minha terra natal” 59 Noutro poema, Hinos da Corte Menor· Artemísia Alta , escrito após a morte dos pais do poeta para expressar a sua dor, o uso da lei equivale ao da garrafa: “A garrafa está vazia, é a vergonha da lei ” 60 . O poeta compara-se a uma jarra e os seus pais a garrafas, expressando a dor de não poder sustentá-los, o que prova a utilização deste utensílio para preservar o vinho. O dou (斗, d ǒ u ), o zan (瓒, zàn ) e o pao (匏, páo ) são colheres de vinho. O dou é uma “grande colher”, normalmente feita de bronze e mencionada anteriormente, no poema Hinos Principais da Corte · O Juncos . O zan é uma colher feita de jade, usada para recolher o vinho claro durante as cerimónias religiosas, também já mencionada como “uma colher de jade” no poema Hinos Principais da Corte · O Rio Yangtze e O Rio Han . Essa colher de jade só podia ser usada pelo rei de Zhou, a sua utilização em quaisquer outras circunstâncias era considerada arrogante. O pao era uma colher feita de cabaça, um utensílio comum das famílias pobres, segundo o poema Hinos Principais da Corte · Gongliu: “Pegou um porco no curral para fazer a iguaria e bebeu o vinho diretamente com uma colher.” 61 Foi na dinastia Zhou Ocidental e no Período de Primaveras e Outonos, descritos nesses poemas, que o sistema ritual chinês foi estabelecido e prevaleceu. Os diferentes níveis sociais e as ocasiões para uso desses recipientes de vinho testemunham as regras dos rituais. Na dinastia Zhou, as festas regulavam as relações sociais hierárquicas, aprofundavam o parentesco entre os clãs, harmonizavam a relação entre pai, filho e irmãos, distinguindo ainda homens e mulheres. Portanto, não eram simples momentos de lazer de bebida e diversão, mas um meio essencial de comunicação entre superiores e subordinados, mantendo a ordem social e fortalecendo as ligações entre os membros da família. III.2.2 Os poemas do vinho e dos utensílios na dinastia Tang e Song A cultura do vinho registou um desenvolvimento sem precedentes na dinastia Tang, altura em que surgiu uma geração de grandes poetas como Li Bai e Du Fu (杜甫, dù f ǔ). Segundo estatísticas, mais de seis mil dos 42.863 poemas da “Coleção Completa dos poemas de Tang” (全唐诗, quán táng sh ī) estão relacionados com vinho. Os poetas da dinastia Song também usaram o vinho para expressar os seus sentimentos e escreveram poesia sobre isso. Foi o caso de Yan Shu (晏殊, yàn sh ū), 59 «周南 zh ō u nán ·卷耳 ju ǎ n ě r »: “我姑酌彼金罍 w ǒ g ū zhuó b ǐ j ī nléi, 维以不永怀 wéi y ǐ bù y ǒ ng huái.” TdA. 1985, p. 7. 60 «小雅 xi ǎ o y ǎ ·蓼莪 lù é »: “瓶之罄矣 píng zh ī qìng y ǐ , 维罍之耻 wéi léi zh ī ch ǐ .” TdA. 1985, p. 405. 61 «大雅 dà y ǎ · 公刘 g ō ng liú »:“执豕于牢 zhí sh ǐ yú láo, 酌之用匏 zhuó zh ī yòng páo.” TdA. 1985, p. 540. 43 Su Shi (苏轼, s ū shì ), Xin Qiji (辛弃疾, x ī n qìjí ) e Li Qingzhao (李清照, l ǐ q ī ngzhào ), cujos poemas refletem a cultura do vinho da dinastia Song, os costumes, os tipos de vinho e os utensílios usados para beber. O vinho sempre foi fonte de inspiração para a literatura e a arte, principalmente para os poetas. Du Fu escreveu Os Oitos Imortais de Vinho (饮中八仙歌, y ǐ n zh ō ng b ā xi ā n g ē), para os oito grandes poetas da dinastia Tang, a saber, He Zhizhang, Li Jin, Li Shizhi, Cui Zongzhi, Su Jin, Li Bai, Zhang Xu e Jiao Sui: He Zhizhang (贺知章, hè zh ī zh ā ng) montou um cavalo depois de ficar bêbado e balançou como se estivesse num barco. Ele caiu num poço com os olhos turvos e adormeceu no fundo do poço. O príncipe de Ruyang, Li Jin (李琎, l ǐ j ī n), visitou o imperador depois de beber três baldes de vinho. Ele viu uma carruagem carregada de vinho na estrada. O cheiro do vinho fê-lo babar, e ele lamentou não ser o príncipe de Jiuquan, onde a água tem o gosto de vinho. Li Shizhi (李适之, l ǐ shìzh ī ), o vice-primeiro-ministro, gasta incontável dinheiro todos os dias para comprar vinho. Ele bebe como uma baleia engolindo centenas de rios. Ele alega que bebe vinho para escapar dos assuntos do governo. Cui Zongzhi (崔宗之, cu ī z ō ngzh ī ) é um jovem bonito. Quando ele brinda e bebe, muitas vezes ele olha para o céu. A sua bela postura é como uma árvore feita de jade ao vento. Embora Su Jin ( 苏晋, s ū jìn) acredite no budismo, ele esquece-se frequentemente dos preceitos do budismo quando bebe vinho. Li Bai pode escrever centenas de poemas imediatamente após beber. Ele vai aos bares nas ruas de Chang'an e costuma dormir bêbado nos bares. O imperador organizou um banquete à beira do lago e ordenou-lhe que escrevesse um prefácio a um poema. Ele não queria embarcar no barco porque estava bêbado e dizia que era um deus do vinho. Zhang Xu (张旭, zh ā ng xù) era capaz de escrever caligrafia depois de beber três taças de vinho. As pessoas chamavam-no de mestre da escrita cursiva. Ele não se importava com a etiqueta. Ele tirou o chapéu e mostrou a sua careca aos nobres, e escreveu belas personagens como se deuses o ajudassem. A sua caligrafia era como 50 chá. O zhan tem muitas formas, por exemplo Ouyang Xiu (欧阳修, ō uyáng xi ū) usou um zhan em forma de flor de pera num banquete: “As belezas persuadiram-me a beber o vinho na taça de flor de pera, as dançarinas estavam cansadas e o movimento das suas cinturas alabastrinas e saias era lento.” 77 Figura 39 Copo em forma de folha de lótus (dinastia Song) Falando de literatos que gostam de beber e realmente entendem a cultura do vinho, devemos apresentar Su Shi. Na introdução de um dos seus poemas diz: “Eu fui rebaixado para Hainan e vendi todos os recipientes de vinho para comprar roupas e comida. Havia apenas um copo em forma de folha de lótus que não vendi. O copo era requintado e maravilhoso, e deixei-o para me dar prazer ao beber. ” 78 Ele não menciona o material, mas, noutro poema, descreve o artesanato do copo de folha de lótus: “Derreteu o chumbo e aqueceu-o junto com a pedra branca, e o produto acabado é como jade. Cortou-o numa taça de vinho e a forma imitou a porcelana de Dingzhou. O fundo da chávena de folha de lótus é muito raso e pequeno; parece um espelho e uma superfície de água, lisa e brilhante” 79 . Os versos descrevem o processo da produção de vidro, de acordo com a tecnologia de produção da Roma Antiga. Ensaiamos ainda a tradução de outro poema que fala de um tipo de vinho feito de mel: O vinho feito com pérolas e jade branco, é fruto do suor dos agricultores em junho. Prefiro preparar o hidromel perfumado com a urna de vinho na primavera, usando o mel cultivado pelas abelhas das flores em vez do arroz. 77 «玉楼春 yùlóu ch ū n»: “美人争劝梨花盏 m ě irén zh ē ng quàn líhu ā zh ǎ n, 舞困玉腰裙缕慢 w ǔ kùn yùy ā o qúnl ǚ màn.” Ouyang, 2001, p. 2025. 78 «和陶连雨独饮二首 hètáo liány ǔ dúy ǐ n èrsh ǒ u »: “吾谪海南 wú zhé h ǎ inán ,尽卖酒器 jìn mài ji ǔ qì, 以供衣食 y ǐ g ō ng y ī shí, 独有一荷 叶杯 dúy ǒ u y ī héyèb ē i, 工制美妙 g ō ngzhì m ě imiào, 留以自娱 liú y ǐ zìyú.” TdA. Su, 2010, p. 3858. 79 «独酌试药玉滑盏 dúzhuó shì yàoyù huázh ǎ n, 有怀诸君子 y ǒ uhuái zh ū j ū nz ǐ . 明日望夜 míngrì wàngyè, 月庭佳景不可失 yuètíng ji ā j ǐ ng bùk ě sh ī , 作诗招之zuòsh ī zh ā ozh ī »: “镕铅煮白石 róngqi ā n zh ǔ báishí , 作玉真自欺 zuòyù zh ē n zìq ī . / 琢削为酒杯zhuóxi ā o wéi ji ǔ b ē i, 规 摹定州瓷 gu ī mó dìngzh ō ucí. / 荷心虽浅狭 héx ī n su ī qi ǎ nxiá, 镜面良渺弥 jìngmiàn liáng mi ǎ omí.” TdA. Su, 2010, p. 3791. 51 Fervo o líquido no primeiro dia em que borbulha como se houvesse peixes pequenos nele, e imediatamente fica claro no dia seguinte. No terceiro dia abro a jarra de vinho e o aroma enche toda a cidade; podia servilo suavemente na garrafa de prata sem mexer. Deve custar muito para comprar uma jarra deste hidromel espesso, com poucos resíduos. O enxame de abelhas colhendo mel no jardim é denso como uma chuva forte. Até mesmo Deus indicou que eu deveria usar o mel para fazer vinho para beber. No final do ano, eu era pobre e não conseguia nem implorar um pouco de arroz. Todas as coisas neste mundo são ridículas; beber este vinho de mel é muito melhor do que ser rico. 80 No prefácio, Su Shi declara que este método de fazer hidromel segue a receita de Yang Shichang (杨世昌, yáng shì ch ā ng ), um sacerdote taoista no país Shu (蜀国, sh ǔ guó ) no período dos Três Reinos 81 . Su Shi fora deportado para Huangzhou (黄州, huáng zh ō u ), vivia na pobreza e não tinha dinheiro para comprar arroz para fazer o vinho, pelo que optou pelo hidromel, cujos ingredientes estavam mais disponíveis. III.2.3 O Sonho da Câmara Vermelha (红楼梦, hónglóu mèng ) O Sonho da Câmara Vermelha , um dos quatro romances clássicos chineses, descreve a ascensão e queda de famílias poderosas da perspetiva do protagonista Jia Baoyu, um filho nobre, cujos servos tinham acesso a comida e bebida mais requintadas do que as pessoas comuns. A história foi inspirada na infância do autor Cao Xueqin (曹雪芹, cáo xu ě qín ), então as descrições gastronómicas do livro refletem a realidade dos nobres antigos. 80 «蜜酒歌 mìji ǔ g ē »: “真珠为浆玉为醴 zh ē nzh ū wéiji ā ng yù wéil ǐ , 六月田夫汗流泚 liùyuè tiánf ū hàn liú c ǐ . / 不如春瓮自生香 bùrú ch ū nwèng zì sh ē ngxi ā ng, 蜂为耕耘花作米 f ē ng wéi g ē ngyún hu ā zuò m ǐ . / 一日小沸鱼吐沫 y ī rì xi ǎ o fèi yú tùmò, 二日眩转清光活 èrrì xuàn zhu ǎ n q ī nggu ā ng huó. / 三日开瓮香满城 s ā nrì k ā iwèng xi ā ng m ǎ nchéng, 快泻银瓶不须拨 kuài xiè yínpíng bùx ū b ō . / 百钱一斗浓无声 b ǎ iqián y ī d ǒ u nóng wúsh ē ng, 甘露微浊醍醐清 g ā nlù w ē i zhuó tíhú q ī ng. / 君不见南园采花蜂似雨 j ū n bùjiàn nányuán c ǎ ihu ā f ē ng sì y ǔ , 天教酿 酒醉先生ti ā n jiào niàngji ǔ zuì xi ā nsh ē ng. / 先生年来穷到骨 xi ā nsh ē ng niánlái qióng dào g ǔ , 问人乞米何曾得 wèn rén q ǐ m ǐ hécéng dé. / 世间万 事真悠悠 shìji ā n wànshì zh ē n y ō uy ō u, 蜜蜂大胜监河侯 mìf ē ng dàshèng ji ā nhéhóu.” TdA. 2010, p. 2350. 81 220– 280 d.C. 52 Figura 40 Uma garrafa do vinho de Shaoxing (绍兴酒 shàoxīng ji ǔ) com o rótulo 82 As personagens deste romance adoravam beber vinho amarelo, com um baixo teor de álcool e sabor adocicado. Este vinho é adequado para os idosos, as crianças e mulheres. O vinho de Huiquan (惠泉酒, huìquán ji ǔ) e o vinho de Shaoxing encontrado na câmara de Jia são todos produtos famosos e caros de vinho amarelo. O vinho de Huiquan é doce, fabricado com água mineral da montanha Huishan (惠山, huì sh ā n ), em Wuxi, e arroz glutinoso de alta qualidade. O vinho de Shaoxing, o vinho amarelo mais famoso na China, é feito com arroz glutinoso e água do lago Jian (鉴湖, jiàn hú ). Comprámos uma garrafa de vinho de Shaoxing, constatando que tem um sabor muito doce e uma fragrância de arroz, sendo hoje produzido com os seguintes ingredientes: água do lago Jian, arroz glutinoso, trigo e caramelo. O vinho feito de uva, muito valioso e chamado de vinho ocidental, também aparece na história. Eles viram que Fang Guan pegou numa pequena garrafa de vidro de 5 cun 83 de altura. De frente para a luz, podia ver-se que dentro havia meia garrafa de sumo vermelho como rouge. Elas pensaram que fosse o vinho ocidental que Baoyu bebia. A mãe e a filha disseram apressadamente: “Vamos pegar um xuanzi (旋子, xuànzi) e ferver a água, sente-se.” 84 O xuanzi era uma bacia de metal para aquecer o vinho, que se enchia com água quente para colocar a garrafa de vinho (de vidro) dentro. A dinastia da história é fictícia, mas muitos utensílios têm características da dinastia Qing, de materiais como metal, jade, porcelana e chifre. No terceiro capítulo da obra, Cao Xueqin descreve os móveis e a decoração da sala de estar da mansão: 82 Fotografias da autora. 83 Cun (寸 cùn ) é uma antiga unidade de comprimento, 1 cun = 3.33cm. 84 见芳官拿了一个五寸来高的小玻璃瓶来 jiàn f ā nggu ā n nále y ī gè w ǔ cùnlái g ā o de xi ǎ ob ō lípíng lái, 迎亮照着 yíng liàng zhàozhe, 里面 有半瓶胭脂一般的汁子 l ǐ miàn y ǒ u bànpíng y ā nzh ī y ī b ā n de zh ī zi, 还当是宝玉吃的西洋葡萄酒 hái d ā ng shì b ǎ oyù ch ī de x ī yáng pútáo ji ǔ . 母女 两个忙说 m ǔ n ǚ li ǎ nggè máng shu ō : “快拿旋子烫滚了水 kuài ná xuànzi tàngg ǔ nle shu ǐ , 你且坐下n ǐ qi ě zuòxià.” Cao, 2005, p. 826. 53 Numa grande mesa de madeira de sândalo vermelho esculpida com o padrão do dragão sem chifres, no meio da mesa há um ding ( 鼎 , d ǐ ng ) de bronze verde de um metro de altura. Um relógio de água de cobre e uma grande pintura de dragão negro estão pendurados na parede. De um lado da mesa é colocado um yi de bronze entalhado com um ornamento de macaco, e um hai (𥁐, h ǎ i) de vidro é colocado do outro lado. 85 Esses utensílios não servem para beber vinho, sendo antes vasos rituais e símbolos de poder e estatuto. O ding era um caldeirão sem tampa e com 3-4 pés altos, usado pelos nobres da dinastia Zhou, que depois se tornou um símbolo de poder. O yi , como explicado no capítulo II, era um recipiente sumptuoso usado para armazenar vinho, que só os membros da família real podiam usar na dinastia Shang. Estes utensílios implicam que a família Jia era nobre e proeminente. O título do quinto capítulo do livro é o “Encher o copo de vidro de cor da pedra da lua com vinho precioso; encher o copo de âmbar com vinho de jade” 86 . O autor mencionou ali uma chávena de âmbar, um fóssil da resina, semitransparente e de cor castanho-avermelhada ou amarelo ceroso. As damas nobres consideravam o âmbar um material auspicioso, acreditando que continha o poder de evitar desastres e trazer boa fortuna. A taça feita com esta pedra preciosa era, pois, adequada ao estatuto da casa Jia. O trigésimo oitavo capítulo menciona outros dois utensílios preciosos: “Daiyu largou a cana de pesca, caminhou até o assento, pegou no hu de prata preta com o padrão de flor de ameixa e escolheu um pequeno copo de pedra-sabão, em forma de flor de begónia com padrão de folha de bananeira” 87 O hu de prata e o copo de pedra-sabão eram extremamente requintados e valiosos para aquela época. Ao descrever os vasos de vinho, este parágrafo assume um sentido mais profundo, sobre a heroína Lin Daiyu (林黛玉, lín dàiyù ). Numa sociedade feudal altamente hierarquizada, o tipo de copo que uma pessoa usava refletia a sua classe social. As senhoras aristocráticas, como Daiyu, eram muito exigentes sobre a escolha dos utensílios de vinho. O copo em forma de flor, normalmente pequeno, era destinado a senhoras nobres, para que pudessem beber com elegância. Pelo contrário, os recipientes para beber dos homens deviam ser grandes. No vigésimo sexto capítulo, Jia Baoyu bebe com dois amigos, Xue Pan (薛蟠, xu ē pán ) e Feng Ziying (冯紫英, féng z ǐ y ī ng ), usando um utensílio especial: 85 大紫檀雕螭案上 dà z ǐ tán di ā och ī àn shàng, 设着三尺来高青绿古铜鼎 shèzhe s ā nch ǐ lái g ā o q ī ngl ǜ g ǔ tóng d ǐ ng, 悬着待漏随朝墨龙 大画 xuánzhe dàilòusuícháo mòlóng dàhuà, 一边是金蜼彝 y ī bi ā n shì j ī nwèi yí, 一边是玻璃𥁐 y ī bi ā n shì b ō lí h ǎ i. TdA. Cao, 2005, p. 43. 86 琼浆满泛玻璃盏 qióngji ā ng m ǎ n fàn b ō lízh ǎ n; 玉液浓斟琥珀杯 yùyè nóng zh ē n h ǔ pòb ē i. TdA. 87 黛玉放下钓竿 dàiyù fàngxià diàog ā n, 走至座间 z ǒ uzhì zuòji ā n, 拿起那乌银梅花自斟壶来 náq ǐ nà w ū yín méihu ā zìzh ē nhú lái, 拣了一 个小小的海棠冻石蕉叶杯 ji ǎ nle y ī gè xi ǎ oxi ǎ ode h ǎ itáng dòngshí ji ā oyè b ē i. TdA. Cao, 2005, p. 508. 54 Feng Ziying disse: “Se vocês persistem em persuadir-me a beber, tragam-me alguns copos grandes então. Posso beber duas taças de vinho.” Todos ouviram as suas palavras e decidiram consentir. Xue Pan segurava uma jarra de vinho e Jia Baoyu pegou nas taças de vinho. Eles encheram dois hai com o vinho. Feng Ziying levantou-se e bebeu todo o vinho num piscar de olhos . 88 O caracter hai (海, h ǎ i ), que também significa mar, é homófono e sinónimo da palavra hai ( 𥁐 , h ǎ i) , um copo grande. Esse tipo de chávena tem uma grande capacidade, algumas são do tamanho de uma bacia, daí a utilização do primeiro caracter. Além dos recipientes de vinho, a obra também menciona alguns hábitos relacionados com o consumo de bebidas, por exemplo, os jogos de beber. Quando Jia Baoyu e os seus amigos bebiam, eles jogavam um jogo para o efeito: “não é divertido beber assim sem um jogo e é fácil ficar bêbado. Eu bebo um hai grande primeiro e depois darei uma ordem. Se alguém não obedecer à minha ordem, será punido a beber dez hai e servir o vinho a todos.” 89 A ordem de Baoyu foi que todos fizessem quatro versos sobre a tristeza, preocupação, alegria e prazer de uma menina, explicando o motivo de cada um. Em seguida, eles deveriam beber um copo de vinho, cantar uma nova canção e recitar um verso de um antigo poema ou uma frase dos Quatro Livros ou dos Cinco Clássicos 90 relacionada com um objeto na mesa. Esse jogo de beber chama-se a Regra de Beber (酒令, ji ǔ lìng ), pressupõe a existência de uma pessoa a comandar (todos se revezam para tal) e de outras que seguem as suas ordens. O castigo de quem desobedece ou perde o jogo é beber mais vinho. Estes jogos também contam com utensílios especiais, como abordaremos adiante. No oitavo capítulo, Xue Baochai (薛宝钗, xu ē b ǎ och ā i ) persuadiu Baoyu a não beber o vinho frio, pois não é bom para a saúde. Baochai disse com um sorriso: “Baoyu, gostas de investigar diversos estudos inúteis, mas não sabes que o vinho tem a propriedade medicinal mais rápida? Depois de bebê-lo, ele dispersa rapidamente no corpo humano. Quando bebes o vinho frio, o qi frio acumula-se no seu corpo. Aquecê-lo com os seus cinco órgãos internos, seria 88 冯紫英道 féngz ǐ y ī ng dào: “若必定叫我领 ruò bìdìng jiào w ǒ l ǐ ng, 拿大杯来 ná dàb ē i lái, 我领两杯就是了, w ǒ l ǐ ng li ǎ ngb ē i jiù shìle.”众 人听说 zhòngrén t ī ng shu ō , 只得作罢, zh ǐ dé zuòbà. 薛蟠执壶 xu ē pán zhí hú, 宝玉把盏 b ǎ oyù b ǎ zh ǎ n, 斟了两大海zh ē nle li ǎ ng dàh ǎ i. 那冯紫 英站着 nà féngz ǐ y ī ng zhànzhe, 一气而尽 y ī qì ér jìn . TdA. Cao, 2005, p. 357. 89 听我说来 t ī ng w ǒ shu ō lái: 如此滥饮 rúc ǐ làn y ǐ n, 易醉而无味 yì zuì ér wúwèi. 我先喝一大海 w ǒ xi ā n h ē y ī dàh ǎ i, 发一新令 f ā y ī x ī n lìng, 有不遵者 y ǒ u bù z ū n zh ě , 连罚十大海 lián fá shídàh ǎ i, 逐出席外与人斟酒 zhú ch ū xí wài y ǔ rén zh ē nji ǔ . TdA. Cao, 2005, p. 381. 90 Quatro Livros e Cinco Clássicos são sete livros essenciais aos estudiosos nas dinastias anteriores. Os Quatro Livros são: “ O Grande Ensino ” (大 学, dà xué ), “A Doutrina do Meio” (中庸, zh ō ng y ō ng ), “Analectos de Confúcio” (论语, lún y ǔ) e “Mêncio” (孟子, mèngz ǐ). Os Cincos Clássicos incluem: “Livro das Mutações” (易经, yì j ī ng ), “Clássico dos Documentos” (尚书, shàng sh ū), “Clássico da Poesia” (诗经, sh ī j ī ng ), “Clássico dos Ritos” (礼记, l ǐ jì ), “Os Anais de Primavera e Outono” (春秋, Ch ū n Qi ū). 55 prejudicial. Não beba mais o vinho frio!” 91 A teoria de Baochai de que “vinho frio faz mal a saúde” era um consenso social. O vinho amarelo quente foi servido em todos os banquetes na mansão Jia, nomeadamente no aniversário de Wang Xifeng (王熙凤, wáng x ī fèng ) e no banquete de Ano Novo Chinês. Era comum beber vinhos especiais e medicinais nos festivais, por exemplo o vinho tusu no Ano Novo Chinês, cuja fórmula foi apresentada no capítulo I. As pessoas bem-educadas seguiam um regime a pensar na saúde, o álcool não era consumido cegamente. III.2.4 O vinho n’ Os Maias Os Maias é uma obra que conta a queda de uma antiga família nobre, então, na minha opinião, pode ser considerada uma versão portuguesa de O Sonho da Câmara Vermelha . Nesse romance, Eça retrata bem o estilo de vida das classes altas portuguesas no final do século XIX, com uma escrita realista. De seguida, destacamos as preferências e detalhes de consumo de bebidas alcoólicas relatadas no livro. As três bebidas alcoólicas mais frequentes na mesa dos Maias eram o vinho, a genebra e o champanhe. O vinho, enquanto bebida tradicional, é um símbolo da atividade social na mesa dos portugueses. Nessa obra, o vinho português é um ícone de classicismo e elegância, tal como os antigos edifícios de Portugal, que contêm uma identidade cultural de origem latina. No início do capítulo III, quando o avô Afonso jantou com Brown, o professor inglês de Carlos da Maia, o vinho de Bucelas é apresentado como um dos orgulhos do povo português, capaz de maravilhar os britânicos: O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe à luz a cor rica, provou-o com a ponta do lábio, e piscando o olho para Afonso: - É do nosso! - Do velho – disse Afonso. Pergunte ao Brown… Hein, Brown, um bom néctar? - Magnificente! – exclamou o preceptor com uma energia fogosa. 92 Champanhe ou champagne era outra preferência da alta sociedade na época. O autor nasceu e cresceu no século XIX, quando o hábito e a etiqueta da alta burguesia portuguesa foram 91 宝钗笑道 b ǎ och ā i xiàodào: “宝兄弟 b ǎ o xi ō ngdì, 亏你每日家杂学旁收的 ku ī n ǐ m ě irìji ā záxué pángsh ō u de , 难道就不知道酒性最 热 nándào jiù bùzh ī dào ji ǔ xìng zuìrè?若吃下去 ruò ch ī xiàqù, 发散的就快 f ā sàn de jiù kuài; 若冷吃下去 ruò l ě ng ch ī xiàqù, 便凝结在内 biàn níngjié zàinèi. 以五脏去暖它 y ǐ w ǔ zàng qù nu ǎ n t ā , 岂不受害 q ǐ bù shòuhài? 从此还不快不要吃那冷的呢bùyào ch ī nà l ě ngde ne!” TdA. Cao, 2005, p. 123. 92 Eça de Quiroz, 2003, p. 42. 56 influenciados pela França, portanto o champanhe também era comum nas festas. Este espumante francês no romance de Eça é muito apreciado pelas personagens femininas, especialmente Maria: Começara então uma existência festiva e luxuosa, que, segundo dizia o Alencar, o íntimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho de orgia distinguée como os poemas de Byron.» Eram realmente as soirées mais alegres de Lisboa: ceavase à uma hora com Champagne; talhava-se até tarde um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrara soberanamente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. 93 O champanhe está sempre ligado à festa, aos ambientes luxuosos e às mulheres sedutoras nas obras de Eça. O gin foi criado sob inspiração da genebra, a bebida holandesa. O alto teor de álcool desta bebida destilada é considerado a “origem da brutalidade” que provoca crime e tragédia (Medeiros, 2011). Na história de Eça, essa bebida é relacionada com as emoções fortes das personagens masculinas; foi a última bebida de Pedro antes do seu suicídio: Não, não queria tomar nada... - O Teixeira que me leve um cálice de genebra... Ainda cá está o Teixeira, coitado! E vendo Afonso sentado, repetiu, já impaciente: - Vá jantar meu pai, vá jantar, pelo amor de Deus... 94 III.3 Costumes populares O desenvolvimento e a evolução da cultura do vinho tiveram um impacto considerável no dia-adia das pessoas. Muitas atividades folclóricas são inseparáveis das bebidas alcoólicas. Neste subcapítulo discute-se a relação entre o vinho e o folclore chinês e português, para estudar as diferenças culturais e personagens nacionais. III.3.1 Festivais e casamento Os festivais e casamentos são momentos especiais, quando família e amigos se reúnem e o vinho é indispensável nessas ocasiões. Há muitas regras especiais de beber e vários utensílios de vinho relacionados com estes momentos festivos desde tempos antigos, na base dos rituais modernos de 93 Idem , p. 25. 94 Idem , p. 34. 57 bebida. III.3.1.1 Festivais Diz-se que beber vinho tusu durante o Ano Novo Chinês tem um efeito positivo na prevenção das doenças infeciosas; acreditava-se que se uma pessoa o bebesse, ninguém na família ficaria doente, se toda a família o bebesse, ninguém da sua vila adoeceria. Sun Simiao, um famoso médico da dinastia Tang, promoveu o costume de beber esse tipo de vinho medicinal, cuja fórmula foi apresentada no primeiro capítulo. Devido a mudanças socioculturais, apenas algumas regiões da China ainda mantêm esse hábito. Mas esse costume foi bem preservado no Japão, porque os japoneses estudaram a cultura chinesa da época Tang: o vinho toso 95 é uma parte crucial no Ano Novo Japonês. Figura 41 O banquete do vinho das lanternas No 15º dia do primeiro mês do calendário chinês assinala-se o Festival das Lanternas, altura em que os chineses realizavam a cerimónia do vinho das lanternas (灯酒, d ē ng ji ǔ), na dinastia Han Oriental. Esta tradição ainda hoje é observada na província de Cantão. As famílias com filhos deviam acender lanternas nas suas casas e nos templos ancestrais. Os pais ofereciam gengibre e ovos ao idoso que tinha mais descendentes na família. O mais velho reunia então todos os homens da família para beberem juntos. Após o banquete, as famílias recebiam um pouco de porco, gengibre, ovo e um grande envelope vermelho cheio de dinheiro como presente para os bebés recém-nascidos. Os dois caracteres chineses “灯 ( d ē ng , lanterna)” e “丁 ( d ī ng , população)” eram homófonos no chinês antigo. Além disso, acender uma lâmpada significa que uma nova vida nasceu; algumas pessoas acreditavam que as lanternas e o vinho faziam a comunicação entre humanos e deuses, então esta festa servia para pedir proteção dos deuses e ancestrais. O Festival do Barco-Dragão (端午, du ā n w ǔ) festeja-se no 5º dia do quinto mês lunar -trata-se do festival tradicional mais importante do verão na China. Este dia assinala o aniversário do suicídio do 95 Pronúncia do vinho tusu no Japão, que em japonês se escreve 屠蘇(とそ). 58 grande poeta Qu Yuan (屈原, q ū yuán ), sendo essencial o vinho de realgar (雄黄酒, xiónghuáng ji ǔ). Li Shizhen descreveu os efeitos médicos deste composto químico no Compêndio da Matéria Médica : “O realgar pode eliminar as coisas venenosas, resistir ao qi maligno e efetivamente matar os insetos venenosos... Quando as pessoas cruzam o rio com ele, os animais venenosos no rio não se podem aproximar e ferir as pessoas” 96 . O festival do Barco-Dragão realiza-se no verão, quando há muitos insetos, então as pessoas bebiam este tipo de vinho como desinfetante e repelente dos insetos. O Festival de Duplo Nove assinala-se no 9º dia do nono mês, data em que os chineses bebem vinho de juhua depois de escalarem a montanha (receita e efeitos desse vinho no primeiro capítulo). O costume de beber este vinho feito de flores surgiu na dinastia Han, segundo as Histórias Diversas da Capital Ocidental (西京杂记, x ī j ī ng zájì ): “Quando as flores de juhua estão em plena floração, devem ser colhidas junto com o caule e as folhas, misturadas com o painço para fazer o vinho, e esperar até dia 9 do nono mês do ano seguinte para estarem prontas a beber, por isso é chamado de vinho de juhua .” 97 III.3.1.2 Casamento Nas cerimónias de casamento da dinastia Han, a testemunha cortava uma cabaça em duas, cada um dos noivos segurava uma metade e bebia o vinho dela. Depois de beber, a metade do noivo devia ser colocada em cima da metade da noiva. Este ritual foi influenciado pelo culto da reprodução nos tempos antigos: as duas metades da cabaça juntas pareciam uma mulher grávida, significando que o homem e a mulher se uniam para criar filhos e formar uma nova família. Esse utensílio feito da cabaça chama-se jin (卺, j ǐ n ) e essa cerimónia é conhecida como a combinação dos jin ou hejin (合卺, hé j ǐ n ). Figura 42 Dois Jin usados na cerimónia 96 雄黄能杀百毒 xiónghuáng néng sh ā b ǎ idú, 辟百邪 pì b ǎ ixié, 杀蛊毒 sh ā g ǔ dú …涉川水 shè chu ā nshu ǐ , 毒物不敢伤 dúwù bù g ǎ n sh ā ng. TdA. Li, 1975, p. 536. 97 菊花舒时 júhu ā sh ū shí, 并采茎叶 bìng c ǎ i j ī ngyè , 杂黍为酿之, zá sh ǔ wéiniàng zh ī , 至来年九月九日始熟 zhì láinián ji ǔ yuè ji ǔ rì sh ǐ shú , 就饮焉 jiù y ǐ n y ā n, 故谓之菊花酒 gù wèizh ī júhu ā ji ǔ . TdA. Liu, 1985, p. 20. 59 O hejin continua a ser popular até hoje, mas os copos que os noivos usam são diferentes. A Capital Oriental: um Sonho de Esplendor (东京梦华录, d ō ngj ī ng mèng huá lù ) 98 menciona os utensílios utilizados nos casamentos da dinastia Song do Norte. “Com duas chávenas ligadas com uma linha colorida, os noivos bebiam o vinho juntos. Esse processo chamava-se “Vinho de Taças Cruzadas”. Depois de terminarem a bebida, os copos deviam ser colocados debaixo da cama juntamente com a coroa da noiva. O copo do noivo era colocado de pé e o da mulher de cabeça para baixo.” 99 Figura 43 Brinde dos noivos com taças cruzadas das dinastias Song e Qing Depois da dinastia Ming, a linha vermelha que prendia os copos dos noivos desapareceu e o ritual ficou mais simples, somente com os braços cruzados. Beber o vinho com as taças cruzadas continua a ser um hábito nos casamentos, o que ilustra o importante significado simbólico dessa etiqueta. Os brindes nos casamentos portugueses envolvem mais pessoas. O casamento em Portugal é uma mistura de tradição e modernidade, é possível fazer apenas uma cerimónia civil ou também a religiosa, na igreja. Depois da cerimónia, uma festa inicia-se com muita bebida, vinho, champanhe e cerveja. A família e os amigos dos noivos reúnem-se no banquete, também chamado de copo-de-água. Figura 44 Brinde no casamento português 98 A capital oriental: um sonho de esplendor é uma narrativa de Meng Yuanlao (孟元老, mèng yuánl ǎ o ), escrita no segundo e também último ano da era Song do Norte (1127 d.C.). A cavalaria dos nómadas do norte atacou diretamente a capital Bianjing (汴京, biàn j ī ng ) e capturou todos os membros da família imperial, incluindo o imperador Qinzong (钦宗, qīn zōng). A magnífica metrópole desapareceu depois da invasão, junto com o estilo de vida luxuoso do povo. O autor foi uma das pessoas que fugiu para o sul. Ele muitas vezes sentia falta dessa cidade desaparecida nos sonhos dele, portanto, escreveu o livro para comemorar a vida próspera dos nobres e dos cidadãos comuns em Bianjing. 99 然后用两盏以彩结连之 ránhòu yòng li ǎ ngzh ǎ n y ǐ c ǎ ijié liánzh ī , 互饮一盏 hù y ǐ n y ī zh ǎ n, 谓之“交杯酒”, wèizh ī “ ji ā ob ē iji ǔ ”. 饮讫掷 盏 y ǐ nqì zhìzh ǎ n, 并花冠子于床下 bìng hu ā gu ā nzi yú chuángxià, 盏一仰一合 zh ǎ n y ī y ǎ ng y ī hé, 俗云“大吉” súyún “ dàjí”. TdA. Meng, 1982, p. 34. 66 analisar as imagens do vinho e os utensílios em dois romances representativos, um português ( Os Maias ) e um chinês ( O Sonho da Câmara Vermelha ) . Também resumimos os costumes de beber nos festivais e casamentos, momentos inseparáveis das bebidas alcoólicas. Discutimos, por fim, a relação entre o vinho e o folclore, para estudar as diferenças culturais e personagens nacionais dos dois países. Este estudo ajuda chineses e portugueses a compreenderem-se melhor, na vertente da cultura do vinho, podendo ser útil para aumentar e motivar a comunicação comercial e educacional entre os dois países. 67 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aristóteles. (2008), Poética . Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Bai, Juyi 白居易 et al. (1980). A Coleção Completa dos Poemas da Dinastia Tang 全唐诗 quán táng sh ī . Chung Hwa Book Company, Beijing. Barros, M. S. G. Q. D. (2010). Estudo sobre a Consumidora Portuguesa de Vinhos: o Impacto das Crenças na sua Opção de Beber Vinho . Doutoramento. Instituto Universitário de Lisboa. Bluteau, R. (1716). Vocabulario portuguez, e latino...: autorizado com exemplos dos melhores escritores portuguezes, e latinos.. (Vol. 5), 267. Collegio das artes da companhia de Jesu. Burkert, W. (1985). Greek religion . Harvard University Press, 106. Cao, Xueqin 曹雪芹 (2005). O Sonho da Câmara Vermelha . People's Literature Publishing House, Beijing. 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A sua forma tem um forte significado religioso. A cultura do bronze é altamente desenvolvida e as interações culturais entre várias regiões são ativas e frequentes. Dinastia Qin e Han Cerâmica, bronze, laqueados, ouro e prata Jue , hu, copo e jarro Ouro e prata começaram a ser materiais para fazer os copos de vinho. Beber tornou-se uma atividade mais secular. Dinastia Sui e Tang Porcelana, bronze, laqueados, ouro e prata, material de animais Utensílios com forma exótica Materiais de origem animal foram frequentemente usados nos copos de vinho. A China recebeu mais influência externa nesta época. Dinastia Song e Yuan Porcelana, laqueados, ouro e prata, material de animais Taças de ouro e prato não foram tão comuns como na dinastia anterior Copos de porcelana tornaramse mais populares. Guerras constantes tornaram os metais preciosos mais raros e a tecnologia da porcelana foi desenvolvida. Dinastia Ming e Qing Porcelana, laqueados, ouro e prata A porcelana passou a ser considerada um material adequado para servir vinho Os padrões nas taças de vinho contêm mais fatores ocidentais A exportação da porcelana cresceu