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Universidade do Minho Escola de Psicologia Sofia Salgado Influência da Carga de Trabalho nos níveis de Work Engagement e Burnout dos trabalhadores junho de 2021 Influência da Carga de Trabalho nos níveis de Work Engagement e Burnout dos trabalhadores Sofia Salgado UMinho | 2021
Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2021 Sofia Salgado Influência da Carga de Trabalho nos níveis de Work Engagement e Burnout dos trabalhadores Dissertação de Mestrado Integrado em Psicologia Aplicada Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Doutora Ana Luísa Oliveira Marques Veloso
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ __________________________________ (Sofia Salgado) 4 de junho de 2021
iii Agradecimentos No fim de mais um capítulo da minha vida, não podia deixar de agradecer a todos aqueles que estiveram presentes e que me apoiaram ao longo deste percurso. À minha orientadora, Doutora Ana Veloso, por todas as aprendizagens partilhadas e pela paciência, ânimo e bom humor presentes em todos os momentos partilhados. Às minhas colegas do grupo de investigação de Recursos Humanos, sobretudo à Sara Norberta e à Jacinta Jesus, pela companhia a qualquer hora e a entreajuda incessante. Aos meus amigos de curso, por todas as experiências e memórias criadas, pelo apoio e compreensão constantes. Um abraço especial à Ana Leitão, ao Hélder Oliveira e ao Gonçalo Terroso, por estarem presentes desde o primeiro até ao último momento. Às minhas amigas mais queridas e artistas favoritas, por me ensinarem a acreditar em mim e nos meus sonhos e pela confiança e carinho oferecidos a todo o instante. Aos meus colegas de trabalho, em especial às minhas supervisoras Ana Teixeira, Ana Lobo e Maria João, por serem parte e contribuírem para o meu crescimento. Vou levar comigo para sempre um pedacinho de vocês. À minha família, em particular à minha mãe, à minha irmã e, claro, ao meu gato, por ouvirem sempre os meus desvaneios e desabafos, pelo conforto e amparo no qual sempre pude confiar. E por fim, ao meu namorado, Rúben, por ser a minha principal fonte de consolo, paciência e juízo, não só agora, mas durante todo este percurso. Pelos risos, lágrimas, abraços e sonhos, e por tudo o que ainda vamos partilhar. Obrigada por tudo.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. __________________________________ (Sofia Salgado) 4 de junho de 2021
v Influência da Carga de Trabalho nos níveis de Work Engagement e Burnout dos trabalhadores Resumo Burnout e engagement descrevem extremos negativos e positivos respetivamente do espetro do bemestar dos trabalhadores. Fatores geradores de stress , como a carga de trabalho (“ workload ”), resultam frequentemente em burnout e redução do engagement . No entanto, a literatura contém resultados inconclusivos acerca desta relação. Os objetivos deste estudo visam esclarecer a relação existente entre a carga de trabalho e os níveis de burnout e work engagement , assim como a forma como os níveis de burnout e engagement se relacionam. Para este estudo, foram recrutados 200 colaboradores de uma empresa de retalho alimentar de Portugal. Para a operacionalização das variáveis, foram utilizados o “Utrecht Work Engagement Scale” (Sinval et al. 2014), de Schaufeli e Baker; o “Oldenburg Burnout Inventory” (Sinval et al., 2019), de Demerouti e Nachreiner; e três subescalas do “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” de Van Veldhoven et al. (2015). Os resultados demonstraram uma relação significativa e positiva da carga de trabalho com burnout e igualmente significativa, mas negativa, com engagement. Verificou-se ainda uma relação negativa e significativa entre as variáveis engagement e burnout. Espera-se que estes resultados tragam algum esclarecimento e levem à reflexão sobre a importância desta temática e a necessidade de a desenvolver. Palavras-chave: Burnout, Carga de Trabalho, Exigências da Função, Work Engagement.
vi Workload’s influence on the workers’ levels of Work Engagement and Burnout Abstract Burnout and engagement depict the negative and positive ends respectively of a spectrum of well-being of workers. Stress triggering factors, like workload, frequently cause burnout and lower levels of engagement. However, previous studies have shown inconclusive results about this relation. This study’s goal is to focus on clarifying the relationship between workload and the levels of burnout and work engagement, as well as identifying in which way the levels of burnout and engagement affect each other. The sample was formed by recruiting 200 workers from a grocery retailer from Portugal. To operationalize the variables, it was used the “Utrecht Work Engagement Scale” (Sinval et al. 2014), from Schaufeli and Baker; the “Oldenburg Burnout Inventory” (Sinval et al., 2019), from Demerouti and Nachreiner; and three subscales from the “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” from Van Veldhoven et al. (2015). The results showed a significant and positive relation between workload and burnout, as well as a significant but negative one with engagement. Furthermore, it was found a significant and negative relation between engagement and burnout. It is hoped that these results bring some understanding and thought about the importance of this subject and the need to expand it. Keywords: Burnout, Workload, Job Demands, Work Engagement.
vii Índice Introdução ...........................................................................................................................................8 Burnout ...........................................................................................................................................8 Work Engagement ............................................................................................................................9 Modelo JD-R, exigências da função e carga de trabalho ..................................................................10 Objetivos .......................................................................................................................................11 Método ..............................................................................................................................................12 Amostra .........................................................................................................................................12 Instrumentos .................................................................................................................................14 Procedimento ................................................................................................................................15 Estratégia e análise de dados .........................................................................................................16 Resultados ........................................................................................................................................16 Discussão ..........................................................................................................................................22 Referências .......................................................................................................................................25 Anexo ................................................................................................................................................27 Índice de Tabelas Tabela 1. Características sociodemográficas da amostra ....................................................................12 Tabela 2. Resultados da análise fatorial ao QEEW ..............................................................................17 Tabela 3. Análise da consistência interna dos instrumentos ................................................................18 Tabela 4. Estatísticas descritivas e correlações das variáveis em estudo .............................................19 Tabela 5. Diferenças nos níveis de work engagement, absorção e dedicação em função do regime de trabalho.............................................................................................................................................21 Tabela 6. Diferenças nos níveis de carga de trabalho e carga emocional em função do tempo de permanência .....................................................................................................................................21
14 Instrumentos Questionário Sociodemográfico Com o objetivo de caracterizar de forma sociodemográfica e contextual a amostra, foi desenvolvido um questionário sociodemográfico, que incluiu dados relativos ao sexo, idade, estado civil, número de filhos, habilitações literárias e perceção do estado de saúde. Considerou-se oportuno abordar questões complementares relativas ao tempo de permanência dos trabalhadores na empresa, assim como horário e regime de trabalho exercido. Utrecht Work Engagement Scale De forma a operacionalizar a variável work engagement , foi utilizada a versão reduzida do instrumento “Utrecht Work Engagement Scale” (UWES-9), originalmente desenvolvido por Wilmar Schaufeli e Arnold Bakker, e adaptado para a população portuguesa, com um alfa de Cronbach de .95 (Sinval et al., 2014). O questionário é constituído por nove itens, três itens para cada uma das três dimensões que explora: vigor (e.g., “Sinto-me cheio de energia no meu trabalho”), dedicação (e.g., “Tenho orgulho no trabalho que realizo”) e absorção (e.g., “Sinto-me feliz quando estou intensamente envolvido no trabalho”). As respostas às questões são feitas numa escala de likert de 0 a 6, onde 0 significa “Nenhuma vez” e 6 significa “Todos os dias”, ou seja, valores elevados representam uma maior frequência de ocorrência da situação descrita, enquanto zero representa ausência de ocorrência. Oldenburg Burnout Inventory Para a variável burnout , foi utilizada a adaptação portuguesa do instrumento “Oldenburg Burnout Inventory” (Sinval et al., 2019), originalmente desenvolvido por Demerouti e Nachreiner. O instrumento OLBI é um questionário de auto-relato com um total de dezasseis questões, oito para cada uma das duas dimensões que avalia: distanciamento (e.g., “Às vezes, sinto-me farto das minhas tarefas no trabalho”) e exaustão (e.g., “Durante o meu trabalho, muitas vezes sinto-me emocionalmente esgotado”). As respostas podem variar numa escala de cinco pontos, onde 1 significa “Discordo Fortemente” e 5 significa “Concordo Fortemente”. Possui um alfa ordinal de .93. Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work Para a operacionalização da variável “carga de trabalho” ( workload ), foram traduzidas e utilizadas três subescalas do “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” (QEEW) de Van Veldhoven et al. (2015), incluídas no tema “Job Demands”. A primeira subescala é relativa a “Ritmo e Quantidade de Trabalho” ( Pace and amount of work ), contém onze itens (e.g., “Tem de se apressar?”) e tem um ρ ( Rho ) de .86; a segunda subescala é relativa a “Carga de Trabalho Mental” ( Mental Workload ), contém sete itens (e.g., “O seu trabalho exige atenção contínua?”) e tem um ρ ( Rho ) de .80; e a última
15 subescala é relativa a “Carga de Trabalho Emocional” ( Emotional Workload ), contém sete itens (e.g., “Tem contacto com clientes ou pacientes difíceis no seu trabalho?”) e tem um ρ ( Rho ) de .81. As respostas aos itens podem variar entre “Sempre”, “Frequentemente”, “Às vezes” e “Nunca”. Procedimento Em primeiro lugar, foi submetido um pedido de autorização à Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH), na qual se encontrava explicitada a informação relativa ao projeto em questão e aos investigadores que nele participaram, obtendo um parecer favorável (CEICSH 132-2020) Nesta fase inicial, procedeu-se também ao processo de tradução das três subescalas a utilizar do “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” (QEEW) de Van Veldhoven et al. (2015). A tradução do inglês para o português foi realizada pelo investigador principal, sendo depois feita a retroversão e discussão da mesma por três pessoas com domínio da língua inglesa. Uma vez que não se identificaram diferenças ou ambiguidade significativas, concluiu-se como garantido a equivalência do conteúdo e do significado (Brislin, 1980). Os participantes foram recrutados de uma amostra de conveniência, através de comunidades online de colaboradores da empresa de retalho alimentar em estudo. Foi fornecido aos participantes um consentimento informado construído pelos investigadores responsáveis, no qual constava os objetivos do estudo e clarificava a participação como voluntária, anónima e confidencial, sem custos ou benefícios e com a possibilidade de desistirem a qualquer momento. A recolha de dados decorreu entre janeiro e março de 2021. Os questionários mencionados (sociodemográfico, UWES-9, OLBI e QEEW) foram aplicados uma única vez e em formato digital, juntamente com o formulário de consentimento informado e o contacto dos investigadores, com o objetivo de esclarecer possíveis dúvidas ou oferecer feedback (quando solicitado). O preenchimento dos questionários tinha a duração de aproximadamente quinze minutos. Após a recolha e análise dos questionários, excluíram-se 7 participantes por terem colocado respostas inválidas, e introduziram-se os restantes na base de dados, para realizar a análise quantitativa planeada.
16 Estratégia e análise de dados Considerando a natureza dos dados recolhidos, a estratégia adotada foi uma análise estatística quantitativa, com a utilização do software Statistical Package for Social Sciences (IBM SPSS), versão 27.0 (para Windows ). Realizaram-se análises exploratórias, em particular o teste de Kolmogorov-Smirov, dado o tamanho da amostra. Esta análise indicou valores de p < .05, permitindo rejeitar a hipótese nula relativa à normalidade da distribuição das variáveis e concluir que os dados diferem de uma distribuição normal. Com base neste pressuposto, realizaram-se testes paramétricos e não paramétricos e, uma vez que os resultados não divergiam significativamente e o tamanho da amostra era relevante, considerou-se os resultados dos testes paramétricos (Martins, 2011). Para comprovar a validade da escala “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” (QEEW), que teve de ser traduzida e adaptada para o estudo, recorreu-se a uma análise fatorial exploratória dos componentes principais com rotação varimax . Ultrapassadas estas barreiras, procedeu-se à realização de análises descritivas das variáveis sociodemográficas e testes estatísticos, sendo utilizado o teste de correlação de Pearson para analisar a direção e magnitude das associações entre as variáveis em estudo (nomeadamente work engagement, burnout e carga de trabalho). Recorreu-se também aos Teste t para amostras independentes e Análise de Variância (ANOVA) Unifatorial, seguido de testes post-hoc de Bonferroni, para verificar se as médias da amostra, quando agrupadas e comparadas relativamente ao seu sexo, regime e horário de trabalho e tempo de permanência, diferiam significativamente. Resultados Antes de testar as hipóteses em estudo, foi feita uma análise fatorial para comprovar a validade da escala “Questionnaire on the Experience and Evaluation of Work” (QEEW), devido à necessidade de tradução e adaptação da mesma. A análise revelou um teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) superior a 0.5 e um teste de esfericidade de Bartlett inferior a 0.05, ambos bons indicadores (Field, 2009). A análise apresentou 3 fatores, assim como no estudo original, com 52,40% de variância explicada. Como é possível observar na Tabela 2, os itens 4, 7, 9, 13 e 14 da escala obtiveram um valor de comunalidades abaixo de 0.5, sendo que não apresentavam uma percentagem de explicação significativa e que deveriam ser retirados (Hair et al., 2009). No entanto, considerando que este não se trata de um estudo de validação do instrumento e que cada item não é analisado individualmente, mas sim como parte da sua respetiva subescala, optou-se por manter os itens em questão. Para além disto,
17 o item 6 apresentou um maior peso fatorial no fator 1, apesar de estar incluído no fator 2 na escala original. Após uma análise ao alfa de Cronbach da subescala com e sem este item, tomou-se novamente a decisão de manter o mesmo por não se verificarem diferenças significativas. Tabela 2 Resultados da análise fatorial ao QEEW Item ha Fator 1 Fator 2 Fator 3 1 .619 .164 .726 .253 2 .668 .151 .758 .265 3 .523 .167 .684 .163 4 .444 .241 .620 .024 5 .567 .502 .558 -.057 6 .603 .637 .444 -.010 7 .490 .395 .007 .577 8 .542 .029 .180 .713 9 .455 .081 .154 .652 10 .518 .145 .122 .694 11 .527 .623 .241 .284 12 .608 .714 .266 .167 13 .327 .521 .018 .236 14 .251 .379 .270 .186 15 .718 .823 .204 .000 Nota: a h – Comunalidades Na Tabela 3 está apresentada a comparação dos α de Cronbach dos estudos originais de cada uma das escalas e deste estudo, sendo possível comprovar a consistência interna uma vez que os valores ficaram muito próximos do objetivo. Como no QEEW foram escolhidas apenas algumas subescalas do questionário original, optou-se por apresentar o α de Cronbach de cada uma delas. Relativamente à correlação entre work engagement , burnout e carga de trabalho e as respetivas subescalas de cada uma destas variáveis, as mesmas estão indicadas na tabela 4, juntamente com as suas médias e desvio padrões.
18 A carga de trabalho, enquanto score total, encontra-se relacionada negativa e significativamente com o score total de work engagement (r = -.146, p = < .05) e com duas das suas dimensões, “vigor” (r = -.,214 p = < .01) e “dedicação” (r = -.145, p = < .05). Esta variável encontra-se também relacionada com o score total de burnout e as suas duas dimensões, “exaustão” e “distanciamento” de forma positiva e muito significativa (r = .390, p = < .01; r = .236, p = < .01; r = .454, p = < .01, respetivamente). Assim, é possível concluir que maior carga de trabalho se reflete em menores níveis de work engagement , em particular “vigor”, e maiores níveis de burnout . Tabela 3 Análise da consistência interna dos instrumentos α Cronbach Instrumentos Estudo original Este estudo QEEW – Ritmo e Quantidade de Trabalho .86 .81 QEEW – Carga Mental .80 .66 QEEW – Carga Emocional .81 .74 UWES .95 .95 OLBI .93 .89 No que diz respeito aos dados obtidos em cada uma das subescalas da carga de trabalho, tanto o “ritmo e quantidade de trabalho” como a “carga emocional” revelam associações significativas no mesmo sentido que a variável do score total da carga de trabalho, ou seja, um nível maior destas variáveis afeta os níveis de “vigor” e “dedicação” negativamente, e os níveis de burnout , “exaustão” e “distanciamento” positivamente. No entanto, analisando a dimensão “carga mental”, é possível verificar que esta apenas se encontra relacionada significativamente com uma das dimensões de work engagement , nomeadamente “absorção”, e fá-lo de forma positiva ((r = .192, p = < .01) – ou seja, maiores níveis de “carga mental” refletem-se em maiores níveis de “absorção” dos trabalhadores.
19 Tabela 4 Estatísticas descritivas e correlações das variáveis em estudo 11 -- -- -- -- .172* -.229** Nota: N=200, * p < .05, ** p < .01 10 -- -- -- -- .185** -.049 9 -- -- -- -- .109 -.264** 8 -- -- -- -- .179* -.246** 7 -- -- -- .454** .430** .113 .473** -.026 -.495** 6 -- -- -- .236** .238** -.092 .323** -.176* -.339** 5 -- -- -- .390** .383** .024 .437** -.114 -.475** 4 -- -- -- -- -.624** -.691** -.489** -.046 -.074 .192** -.139 .129 .300** 3 -- -- -- -- -.675** -.721** -.565** -.148* -.162* .103 -.208** .088 .345** 2 -- -- -- -- -.794** -.778** -.718** -.214** -.233** .067 -.264** .115 .419** 1 -- -- -- -- -.744** -.778** -.631** -.146* -.168* .127 -.218** .117 .378** DP 1.22 1.35 1.35 1.24 .70 .78 .77 .46 .58 .46 0.60 9.83 .79 M 3.74 3.40 3.95 3.88 3.13 3.06 3.27 3.06 2.86 3.48 2.97 39.06 3.68 1. UWES (Total) 2. UWES - Vigor 3. UWES - Dedicação 4. UWES – Absorção 5. OLBI (Total) 6. OLBI - Exaustão 7. OLBI - Distanciamento 8. QEEW (Total) 9. QEEW – Ritmo e trabalho quantidade de trabalho 10. QEEW – C.Mental 11. QEEW – C.Emocional 12. Idade 13. Perceção de Saúde
20 Considerando a hipótese em estudo que relaciona os níveis de work engagement com os níveis de burnout , observa-se que tanto o score total de work engagement como o de cada de uma das suas dimensões (“vigor”, “dedicação” e “absorção”) se relacionam negativa e significativamente com o score total de burnout e com o de cada uma das dimensões deste (“exaustão” e “distanciamento”). Desta forma, conclui-se que maiores níveis de work engagement se relacionam com menores níveis de burnout , e vice-versa. Tomou-se a decisão de se refletir sobre possíveis associações da idade e da perceção de saúde com as variáveis referidas anteriormente. Assim, verificou-se que a idade se relacionava positiva e significativamente com a carga de trabalho, enquanto score total e em relação às suas dimensões “carga mental” e “carga emocional”, e de forma negativa com a variável “exaustão”. Conclui-se que os participantes mais velhos revelaram maiores níveis de carga mental e emocional, mas menores níveis de exaustão. Quanto à perceção de saúde, verificou-se que esta se relacionava positiva e significativamente com score total de work engagement e todas as suas dimensões. Também se encontraram relações negativas e significativas com o score total de burnout e as suas duas dimensões, assim como com o score total de carga de trabalho e duas das suas três dimensões, nomeadamente “ritmo e quantidade de trabalho” e “carga emocional”. Conclui-se então que participantes com uma perceção de saúde mais positiva apresentam maiores níveis de work engagement e menores níveis de burnout e carga de trabalho, em particular de “ritmo e quantidade de trabalho” e “carga emocional”. Após avaliadas as correlações entre as variáveis, procedeu-se à comparação de médias, agrupando a amostra em relação ao sexo, regime e horário de trabalho e tempo de permanência dos trabalhadores, separadamente. Quando agrupada a amostra em relação ao sexo e ao horário de trabalho, não se observaram resultados significativos. Por outro lado, quando comparadas as médias das variáveis em estudo dos grupos de diferentes regimes de trabalho, através do Teste T para amostras independentes, verificou-se que os trabalhadores em regime de “full-time” apresentam diferenças significativas em relação aos níveis de work engagement (t (198) = -2.21, p < .05), e das suas dimensões “absorção” (t (198) = -2.28, p < .05) e “dedicação” (t (198) = -2.66, p < .01), nomeadamente apresentam níveis superiores aos trabalhadores em regime de “part-time”. Relativamente ao agrupamento com base no seu tempo de permanência, com recurso à Análise da Variância (ANOVA) Unifatorial, verificou-se que existem diferenças significativas entre os grupos “Mais
21 de 2 anos” e “Entre 6 meses e 1 ano” nas variáveis de score total da carga de trabalho (F (3.196) = 3.11, p < .05) e “carga emocional” (F (3.196) = 3.55, p < .05). Tabela 5 Diferenças nos níveis de work engagement, absorção e dedicação em função do regime de trabalho Full-Time (N = 163) Média (DP) Part-Time (N = 37) Média (DP) t (198) UWES (Total) 3.83 (1.22) 3.35 (1.16) -2.21* UWES - Absorção 3.98 (1.24) 3.47 (1.16) -2.28* UWES - Dedicação 4.07 (1.31) 3.42 (1.41) -2.66** Nota: * p < .05, ** p < .01 Tabela 6 Diferenças nos níveis de carga de trabalho e carga emocional em função do tempo de permanência Menos de 6 meses (N = 3) Média (DP) Entre 6 meses e 1 ano (N = 6) Média (DP) Entre 1 ano e 2 anos (N = 21) Média (DP) Mais de 2 anos (N = 170) Média (DP) F (3.196) QEEW (Total) 2.91 (.67) 2.52 (.32) 3.07 (.45) 3.06 (.46) 3.105* QEEW – Carga Emocional 2.93 (.76) 2.23 (.34) 2.89 (.66) 3.01 (.60) 3.55* Nota: * p < .05 Os dados obtidos nestas análises, ainda que pertinentes, devem apenas ser considerados para fundamentar recomendações para estudos futuros, uma vez que o tamanho reduzido dos grupos “part-
22 time”, “menos de 6 meses” e “entre 6 meses e 1 ano”, comparativamente aos restantes grupos, nos proporciona alguma incerteza nestes resultados. Na tabela 5 e tabela 6 são apresentados os resultados das análises referidas. Discussão Esta investigação tinha estabelecido como principal objetivo identificar de que forma é que a carga de trabalho percecionada pelos trabalhadores influenciava os seus níveis de work engagement e burnout . Outra questão que se pretendia averiguar prendia-se à relação entre estes dois últimos construtos que, apesar de distintos, são descritos como extremos opostos do bem-estar do trabalhador. Abordando estas questões, procurava-se não só observar qual a situação atual dos trabalhadores portugueses, mas também esclarecer se estas exigências do trabalho poderiam estar a afetar a sua saúde psicológica e, consequentemente, a sua performance. As análises correlacionais permitiram demonstrar a existência de uma relação significativa e positiva da carga de trabalho com os níveis de burnout e, igualmente significativa, mas negativa com os níveis de work engagement, comprovando as duas primeiras hipóteses (H1: Os níveis de carga de trabalho de um indivíduo encontram-se positivamente correlacionados com os níveis de burnout; H2: Os níveis de carga de trabalho de um indivíduo encontram-se negativamente correlacionados com os níveis de work engagement ). Estas conclusões vão ao encontro das ideias identificadas por vários autores de que a carga de trabalho amplifica os níveis de stress dos trabalhadores, afetando a sua energia e conexão mental com a função e diminuindo o seu work engagement (Taipale et al., 2011). No entanto, assim como os nossos resultados, a literatura não é consensual neste tema, e Crawford et al. (2010) verificaram o oposto, demonstrando que maior carga de trabalho poderia não afetar o work engagement de forma negativa, e que a sua influência dependia de cada indivíduo e da forma como o mesmo percecionava o desafio. Os resultados deste estudo também constataram uma particularidade na influência da carga de trabalho no work engagement , em particular na relação entre a variável “carga mental” e a dimensão “absorção”. As análises realizadas identificaram uma relação positiva e muito significativa entre estas variáveis, ou seja, permitiram deduzir que uma maior carga mental levava a que os indivíduos se sentissem mais focados e cativados nas suas tarefas. A respeito da terceira hipótese em estudo (H3: Os níveis de burnout de um indivíduo encontramse negativamente correlacionados com os níveis de work engagement ), esta foi igualmente comprovada pelas análises realizadas, verificando-se uma relação negativa e significativa no nível 0.01 entre as variáveis work engagement e burnout , assim como entre as suas respetivas dimensões. Estas conclusões
23 corroboram a teoria de que burnout e work engagement são extremos negativos e positivos, respetivamente, de um mesmo espetro (Hakanen & Schaufeli, 2012). Embora não tenha sido definido como objetivo na fase inicial do estudo, optou-se por investigar também de que forma a idade influenciava as variáveis já referidas, verificando-se uma relação positiva e significativa com a carga de trabalho, assim como uma relação negativa com a dimensão “exaustão” do burnout . Apesar da falta de literatura que justifique estas conclusões, é provável que estas se devam ao facto de os indivíduos mais velhos estarem há mais tempo na organização e, consequentemente, terem cargos com mais responsabilidades e exigências. A variável “perceção de saúde” apresentou uma média relativamente elevada (M= 3.68), permitindo concluir que a amostra apresentava bons níveis de saúde apesar da situação pandémica que ocorreu aquando da realização deste estudo, assim como relações significativas com as variáveis em estudo. Verificou-se uma relação positiva com os níveis de work engagement e uma relação negativa com os níveis de burnout e de carga de trabalho, excluindo-se a dimensão “carga mental” desta última variável. Estes resultados vão de encontro ao que era esperado, uma vez que a literatura refere que maior carga de trabalho se reflete numa deterioração da saúde dos trabalhadores, para além de maiores níveis de burnout e consequentes menores níveis de work engagement (LePine et al., 2005). As análises de comparação de médias em função das variáveis exploradas no questionário sociodemográfico também não tinham sido definidas inicialmente, mas considerou-se oportuno realizar as mesmas com o objetivo de fundamentar recomendações para estudos futuros. Ainda que o agrupamento da amostra em função do sexo e horário de trabalho não tenha fornecido resultados significativos, observaram-se diferenças em função do regime de trabalho e do tempo de permanência dos trabalhadores. Na comparação em função do regime de trabalho, concluiu-se que trabalhadores em regime de “full-time” apresentavam maiores níveis de work engagement , em particular nas dimensões de “absorção” e “dedicação”, comparativamente aos trabalhadores em regime de “part-time”. Na comparação em função do tempo de permanência, concluiu-se que os trabalhadores que se encontravam na empresa há “mais de 2 anos” tinham maior carga de trabalho e “carga emocional” do que trabalhadores que se encontravam na empresa “entre 6 meses e 1 ano”. Estes dados, ainda que pertinentes, precisariam de ser repetidos numa amostra mais homogénea para poderem ser considerados, uma vez que a amostra em questão demonstrava uma grande maioria de trabalhadores em regime de “full-time” e com “mais de 2 anos” na empresa, podendo estes dados enviesar os resultados obtidos.