Sermam nas exequias do excellentissimo senhor Manoel Telles da Sylva, primeyro Marquez de Alegrete, ...
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SERMAM NASEXEQUIAS ti DO EXCELLENTISSIMO SENHOR ^ MANOEL TELLES DA SYLVA, PRIMEIRO MARCJUJEZ DE ALEGRETE , Que prégou na Igreja Farochial deN.S.do Soccorro ,defta Corte de Lisboa , era 13. de Outubrode i/og.haveado falecido em 13. de Setembro do mefmoanno, O Muyto Reverendo Padre Fr PEDRO MONTEYRO. religioso da sagrada ordem dospregadow , Prefentado em a Sagrada Theologia , feia liçao delia , em os Efiudos Geraes da mefma Ordem, Confultor do Santo Officio, Examinador Synodal defte Arcebifpado , & Pregador do Set enijjimo Senhor Infante D. Francijco. OFFERECIDO AO EXCELLENTISSIMO SENHOR FERNANDO TELLES DA SYLVA Marquez de Alegrete, dos Confelhos de Eftado, & Guerra de Sua Magcítade, feu Gentil-Homem da Camera, 6c Védor da Fazenda, &c. LISBOA, Na Officinade ANTONIO PEDROZO GALRAM. Com todas as licenças necejfarias . Aimo de 1716*
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EXCELLENTISSIMO SENHOR. STEpapel', que ofereço a V. Excellencia, refere as ultimas acções, quenefie mundo obrou com acerto, & felicidade o Excellentijfimo SenhorManoelTelies da Sylva, primeyro Marquez de Alegrete, Pay de V. Excellencia, que e/1'a em gloria. Nelle feda também hurna breve noticia dos muytos, & honrofos lugar es,que nefie Reyno occupoic,dãgrctnde refíidab, com que em todos ellesprocedeo, & de ou¬ tras(oberaim virtudes , que poffitbk. Prégmy-o da mefma forte, que aqui vay efcrito, nas Exe. qmas, que lhe fizer an na fu a morte, ajfiftmdo a ellas toda a nobreza da Corte, & doÊcclefiaftkofó o principal. Em quantome naõ refolvi a imprimir Sermões, efleve efie occulto com os mais. Agora po¬ rem, qmporjuflas razoes me vi preá fado a dar alguns ao preo,naõ me atreví afaltar ao to lio, de quem fabendo, que mandava imprimir, o quepreguey os dm pafiados nas annuaes Exéquias do Se¬ nhor Rey D. Manoel'na Igreja da Mifcfmrdia, mepedw,qmzejje também dar efle d luz.AelcyçaÕ do Patrono naõ podiafer com mayor acerto,por fcr * i V.Ex-
V. Excellencia , naofó filho do ExceUentiffimo SenJjor Márquez defunto , mas em todas as finas ac- S/s/ virtude s a elle tao femelhante , q me pare¬ cer ao próprias par a aqui as palavras do Ecclefiaf- Ecci. j , 4 . t m 710 ca P' 3 • edi/ndè diz: Mortuus eft Pater ejus, & 5. & quafi non eft piomius; fimilem eaim reliquit fibi poft fé. In vita fua vidic, & laitatus eft in illo. E/er também fiem duvida , que por conta dos Príncipes , & grandes do mundo correo fiempre a protecção dos pequenos , d (uafombra cr e/cem , & dos fieus beneficios vivem . Atenas creatnrasinfen- Jimis vemos eftas dependencias , & analogias ; as fontes dos rios , ejles do mar , & as EflrelloJS do SoL De [culpe V. Excellencia a oferta , que fendo pe¬ quena pelo volume , & ainda mais limitada por mi¬ nha , na o deyxa de fierpelo affumptogrande , pois relata as acçaes de hum Heroe , qfem dependencia de fie as nobiíijfimos antepaffados , por e 11 as fe fiouhefazer mayor entre osgr andes , & naaceyiaçaõ das Magefiades , primeyro entre os mayor es. Deos Senhor noffio conferve a V. Excellencia por muytos annos jcomo lhe pede. Nefte Convento de S. Domin¬ gos de Lisboa, De V. Excellencia o mais humilde Capellao ? & Orador Er. Pi cdro Monteyro,
LICENÇAS DA ORDEM. Cenfura do M. R. P . M. Fr. Manoel de Aguiar , & do Prefentado Fr.Jofephda Purificação. P O r mandado de V. P. M. Reverenda vimos o Ser¬ mão , que pregou nas Exéquias do Excellentiílimo Senhor Manoel Telles da Syl va , primeyro Marquez de Alegrete, o R.P.Fr. PedroMonteyro,Prefentado em Santa Theologia,Confultor do Santo Officio , Exami¬ nador Synodal defte Arcebifpado, 6c Prégador do Sereniífimo Senhor Infante Dom Francifco 5 6c notando ndle, que do campo fecundo de féu engenho, depois de apparecido nos púlpitos, agora apparecendo nos prelos: Appareat arida , fahe aos olhos do mundo a luz da terr ceyra eftampa : Faffumqueefl dies tertius , efte feu parto Gen.x tèrceyro, o u como planta Euangelica : Protiãit terra her~ bam virentem - } ou como arvore myftica: Ligmtmque^ nafcendolhe da raiz, 6c do feu tronco, os ramos dos feus difcurfos j produzindo feus difcurfos os frutos da doutrina mais goftofos: Lignumque faciensfrtttfum * & a femente fecunda da prégaçaõ Euangelica: Et facientem femen-, naõ fica que dizer a cada hum, fenaõ: Et vidit qttod effiet bonum. Saó Domingos de Lisboa aos 18. dejaneyrode 1716. Fr. Manoel de Aguiar , Meftre Regente , & Confultov do Santo Officio. Fr. Jofeph da PunficaçaoPrefentado i & Lente dePrima. Vifta
V I fta a informação acima, da nos licença paraefte Sermão fe apreíèntarna Meí i do Sanro Oíhcio ,Sc fe poder imprimir, precedendo as mais neceflarias. Saó Domingos de Lisboa, hoje i de Janeyro de 1716. Fr. Domingos de Santo Thomh^Prior Provincial . Do Santo Oíficio. O P adre Meftre Frey Jófeph de Soufa, Qualifícador do Santo Oíficio, veja o Sermaõ, de que faz mençaõeíla petição, & informe com feu parecer. Lis¬ boa 2i.deJaneyro de 1716. Hajfe. Monteyro . Ribeyro.Bar reto. Fr. R odrigo de Lancajlre . Cenfura do SL R. P. M. Fr. Jofeph de Soufa , ConfuUor do Santo Officio , Ex-Provincial. EMINENTÍSSIMO SENHOR: L i o Sermaõ, que nas Exéquias do Excellentiílimo Senhor Manoel Telles da Sylva, primeyro Marquez de Alegrete, pregou, & quer imprimir o R- P- P re " en . ra j ^ r - Pedro Monteyro da gloriofa,& Sagrada Faminados Pregadores, Qualificador do Santo Oíficio, Examinador Synodal deíle Arcebifpado, & Pregador do Seremíiimo Senhor Infante Dom Francifco; & em tudo o achey igual aos mais que jàrevi do mefmaAuthor* femprc o raelmo no elevado ,& profundo; no douto, & no chfcretOi no erudito, ScelegaMe. no claro, & engenhofo* N ao faltou quemapplaudiflfe a fortuna de Ale¬ xandre
^andrc Magno ter hum Homero, que efcreveífe Tuas aímiráveis proezas. E também naõ falta quem folemnize as memórias de taõinfigneVaraõ , comoo Excelientiíftmo Marquez , na coniideraçaõ de que Orador taõ dou¬ to, nefte breve, fe compendiofo epilogo, recopilafle fuas acçóes heroicas. Poreftas razões, & pela de naõ terçoufa contra a Santa Fé, ou bons coftumes, he muy digno efi te Sermaõ de fe imprimir. Eíle o meu parecer, falvo,&a Convento de NoíTa Senhora do Carmo defta Corte,241 dc Taneyrodei7i6. Fr.Jofeph de Soufa. O Padre M. Fr. Manoel da Efperança , Qualifícador do Santo Oíficio , veja o Sermaõ de que trata efta petição, & informe com feu parecer. Lisboa 24. de Ta* neyro de 1716. dJfe.Monteyro.Ribeyro.Barreto. Fr. Rodrigo de Lancaftre , Cenfura doM.R. P. M. Fr. Manoel da Efperança, < Confnltor do Santo OJfido. EMINENTÍSSIMO SENHOR: F O raÕ heroicas as virtudes, que refplandecèraõ nò Excellentiífimo Senhor Manoel Telles da Sylva , primeyro Marquez de Alegrete,gloria fingular defta II- luftriílima familk , Sc mayorcredito da Naçaó Portugueza r Sc com tao modefta eloquência ponderadas pelo M. R. P. Prefentado Fr. Pedro Monteyro, Religiofo da Sagrada Familia dos Pregadores, Qualificado r doSan-r to Oífício,Examinador Synodaldefte Arcebifpado, Sc Pregador do Sereniílimo Senhor Infante D. Francifco* nopanegyricodjs fuas Exéquias , que fe viraõ vencidos no difcurfo os hyperboles da verdade* & no aífumpto injfupera*
.fuperaveisos motivos da elegância. Naquelles a&ds,ei# que precifamenteíe nega a jurisdição ao iilehcip, ( com queie encarece a dor) fe confunde ordinariamente a (lifcriçaó, no embaraço das excellencias, que lhe difficultaõ o credito. Nefte fe acreditou tanto a admiraçaó do que fe vio, com a prudência com que fe fallou, fem exceder a Rhetorica à realidade das excellencias, nem o filencio demuytas às íignifcaçõcs dador. Ve-íê nefte Sermão taõjuftifkada a opiniaõ, quejuftamente lograo íeu Author, ailim de fabio na Cadeyra , como de Medre no Púlpito,qufe me parece muyto digno de fe imprimir: aífim porque nelle naõ ha coufa alguma contra a nofla Santa Fé, ou bons coílumes j mas também para credito do Author,honra do defunto,cõfolação dos vivos,exem¬ plar dosfabios, methodo dos Pregadores 8c utilidade de todos. Efteomeu parecer, V. Eminência mandará o que for fervido. Carmo de Lisboa 27. de Janeyro de 1716. Fr. Manoel da Efperança. V I f tas as informações , póde-fe imprimir o Sermão das Exéquias de que trata efta petição, 8c impreíTo tornará para fe conferir, 8c dar licença que corra, & fem ella naõ correra. Lisboa 28. de Janeyro de 1716. Hajfe. Monteyro. Ribeyro. Barreto. Fr. Rodrigo de Lancajlre . Do Ordinário. P O d e-fe imprimir o Sermaó de que trata efta petição, 8c depois de impreíTo,tornarà parafe dar licença,que corra,6c.fcmellanao correrá. Lisboa 29. dejaneyrode 1 1 1 Bifpo de Tagajle. Do
Do Paço. O Padre D. Rafael Bluteau Prepofito da Cafa da Di¬ vina Providencia veja o Sermão de que eftá pe* tiçaõ faz mençaõ, Sc com o feu parecer o remeta a efta mefa. Lisboa 30. de Janeyro de 1716. Cofia. Andrade. Botelho. Pereyra. Cenfura do M. R. P. D. Rafael Bluteau Prepofito dos Cleri - aos Regulares da Divina providencia > C onjultor do S.Offiao, & Pregador da Seremffima Rainha de Cram Bertanha.. SENHOR: N A ordem, com que V. Mageftade foy fervido mandarme ver efte fanebrc panegyr.co comp 0 ^ to pelo Padre Prefentado Frey Pedio Monteyro. manifefta V Maeeftade o zelo , que tem da gloria dos feiis Vaflallos Ao homem depois da fua morte, fo o pode reftituiraomundo a memória das fuas virtudes. Naõ entra efte bem nos defpojos da Parca* thefouro-,entregue à memória, fó o pode levaroefquecimeto,tyranno ainda mais cruel, que a morte, porque depois de deftruida a natureza,emniudece a fama. Porém contra o rigor defte inimigo da gloria dos mortaes , grande poder tem os Príncipes, quando mandaõfahir à luz obras capazes, de perpetuar na pofteridade as illuftres acções dos benejneritos. Ao fideliílimo, & gloriofofubdito de V.Mageftade Manoel Telles da Sylva, primeyro Marquez de Alegrete , que do Throuo Imperial conduzio para efte ’ ** Rcy/io
Ecclcí. 3 • iEn.io. f^Ant. IX Be n. rom.2. €]uadrag. Dom/i. t]uaJra^. Scrirt. 17 apud Lor.Evd. 7 * 1 ? ' 4 SèrrnaÕ hasExéquias louco,para q te naõ fucceda morrer no tépo naõ teu .Re* paray na ultima c l aufula : In tempore no íno.E pois eíte tal peccador ha de morrer fóra do feu tépo ? Sey eu, q o Es¬ pirito Sáto també diz, q ha tempo determinado de naítépo determinado de movrer:TepííJ na fcedi ,& lepm moriedi. Verdade tam clara, q atè o Poètaa eonheceolen¬ do Gentio:Jte fua cmqne dies. Como logo diz o Efpirito Santo a eíte peccador, que nao ajunte muytas culpas, 8c nao viva como louco , para q naõ morra fóra do feu tem¬ po : Ne moriaris tempore non tm ? He porque fallava de hum peccador iern piedade para com o feu proximo : impie j eíte tal peccador antes de feu tempo morre, antes de encher os diagda fua vida acaba , porque vive menos do que pedia a compleyçaó da fua natureza,abrevialhe Deos a vida pela fua impiedade , 6c dqfta forte fe verifica, que morre antes do feu tempo : Ne impie agas noli ejfeftultus, ne moriaris tempore non tm. Ao Emperador- Anaítafio(refereo grande Arcebifpode Florença, o meu Santo Antonino) appareceo hum Varaõ com femblante fevero, 6c formidável, como lendo por hum livro, lhe diííeeftas palavras: En ob tuammprobitâtem qv.atuordecimtibi vit£ amos deleo. Pelas tuas maldades, óAnaítah°^> aqui; te rifeo deite livro quatorze annos de vida. De ™ n ]?ǰ de vinte 6c dotis annos de idade, [refere Saõ ernardino , & GO m clle o douto Lorino , ] c l lie (* en d o ^vac o por fuas eulpas ao ultimo fupplicioem a Cidade eíe Catalunha >alli à viíta de todos, de repente os cabel- ? s caoe ? a >& da barba fe lhe fizeraõ todos brancos, 8c chegando a nonca do referido ao Bifpo da Cidade,affifndo do Efp.nto Santo, di(Te, que a idade, que reprefentavaoaquellas eans, era, a e n i q„ e h avia de morrer, fenao forao os feus vimos : Epifi opttt afiatm DMm> fUrM âocuit tandmevimr um fui ff e >f'fe inpaterna obedientia con~ k A -A - tinuijféh
do Exccllentifimo S. Marquezcle Alegrete, f 4 iniujTet. Eis-aqui como opeccadcr morre no tempo naõ fcu, que hej o que diíTe o Efpirito Santo pelo Ecclefiaftes: Ne impie agas rnultum , &c. Ôc o como não chega a dimidiar os feus dias } que he,o que dizia David; Vrijan - giiirmm, & dolqfi, &c. 6 Ficara agora também claro outro myíteriofo Texto de Ezechiel, em que Decs Senhor noílo diz ao Profeta, ^ cs habitadores daquella Cidade íizeraõ chegar os feus dias, & queguiàraõotempo dos feusannos: Appropin- Ezcch; -quarefecifti diestuss , & adduxijh tempus annorum utorum. E pois os homens pòdem fazer, que o tempo da fua vida corra com mais, ou menos velocidade ? Parece que naõ* porque como naõ tem dominio no curfo do Sol, como naõ pódem fazer 3 que eftepare, ou que fe adiante,aíTim os feus dias,como os feus annos haõ de ter fempre a mefma dtiraçaói como logo fe diz , que os guiaõ, & que os apreífaõ: Appropinquarefccifti dies tftos ?'&c. Direy : não .pódem fazer, ccm que íèjaõ menores, mas pódem fazer, que não fejão tantos* fendo mais, pódem fazer com as Tuas culpas, com que fejaõ menos* fe v. g. conforme a fua xompleyçaõ havião de viver vinte annos, que per ellas não cheguem a viver dez , & deíla forte nãoadiantão o curfo do Sol ,mas abrevião acarreyra da vida. E que culpas ferião eítas ? Ouvi a Deos Senhor noífo, fallando com o Profeta: Nome judie as Civitatem Jangmnnm? & oftendes eiomnes abommationesfu as , & dices-: H#c dicit Domirim Dem: Civitas ejfundtns favguinem m medio fui, ut venrat tempus ejus. Eraõ as mefmas, de que fallava David, quando diíle: Virifanguinutn , E o Ecclefiaftes : Ne impie agas muluim , &c. erão asda im¬ piedade, &c da injuíliça,com que huns aos outros fe offendião ,6c com eftas abreviuraõ avida , 6c apreíTaraõ a morte. Não foy aílim Abraham, nem cambem onoíTo A 3 ' Xüuítre
6 Sermão im Exéquias Illuftre MarqueZ; de ambos,com proporção ao feu fccu* •lo,fe póde dizer,q vivèrão largo tépo, q como não forão vicioíòs, não abreviarão o da vida,nem apreffárão a mor¬ te j morrerão, porque erão mortaes, mas cada hum delles a feu tempo.Se os vicios, que efpecialmente abrev.iaô a vida, faõ ( como jà vimos ) os da impiedade , 8c mais ; c ffenfas do proximo, como não havia de viver huma vi¬ da larga, quem como o Illuílre Marquez poz particu¬ lar cuydado em não offender ao proximo em fua vida ? Ifto mefmo encomendava a feus filhos, 8c da mefma for¬ te a feus criados. A mais paflava neíte ponto a fua vigi*, lancia : mandava por peífoasde fua confiança informarife em fegredo pela vizinhança, fe havia queyxa de peííoa algua de fua cafa, ou fe tinhão o menor aggravo feu; por iífo teve como Abraham huma vida larga, poriíTo a lua morte foy, como adaquelle, jà de desfalecimento da natureza, foy falta de calor natural, 5 c confumpção do • húmido radical: Deficiens mortims eft, deficiente calwe na - ■ turalí per confumpt tonem hirniài raâicaUs. Porém pareceme, q eftou ouvindo defte lugar a muytos dos meus ouvintes dizer, que o Illuítre Marquez ti¬ nha de idade 69. annos quando faleceo, 8c que eftes não baftão para fazer velhice, 8c parafe affirmar,quemorreo desfalecido por falta do calor natural, 8c afiim , q ue ne ^ ' ta parte lhe não vem próprias as palavras do meuThe- a femelhança de Abraham. Eira duvida he poíla por todos aquelles,a qué o amor da vida, ou o. defejo de viver mais, por muytos q fcjão os feus annos,não querem nunca confeííar q faõ velhos,porq como vem, qà velhice ncceflariamente fe fegue a morte, ou que aquella hejà doença niortal,de que ninguém po¬ de cícapai : tudo ne, defejárerri afaílar a velhice , 8c polia longe de i\dizedo,q ainda eílão em muy boa difipoflção, ' que
do Excellentiffimo S. Marqitez de Alegrete, f que de vagar eftà, que cheguem a fer velhosios que tem 1 70. annos dizem,que ainda pódem viver mais 10. & naò fó dez, mas vinte, & trinta* 6c logoatraz difto refea rem exemplos de muy tas peíToas, que ainda neftes ultw mos tempos vivèrão cem annos, 6 c outras mais. Ora(Catholicos)aindaqueefta minha propofição en*. trifteça a todos aquelies , que defejáo mais larga vida, o púlpito não he lugar de dizer lifonjas, fenão de pregar verdades, Sc defenganos: o ter jà 69. annos de idade, he o q bafta para fer velho, & morrer desfalecido por falta do calor natural. Ou me haveis de negar a infallivel verda¬ de da Efcritura Sagrada,ou vos hey de convencer cõ ella; Hum dos homens da melhor compleyção, alento, 6 c forças, que encontrey em o Texto Sagrado, foy David. Tinha fido criado com o trabalho groífeyramente no campo * nelle teve [ como fabeis todos ] a occupação de Paftor. Era nãofó de animo deftemido,mas de forças cão alentado, que quando o Urfo, ou o Leão lhe levava nas garras alguma vez, elle lhe hia tirar a preza, & depois os defpojava da vida. Huma pedra defpedida da fua funda, parecia hum corifco impellido do trovão de huma nu¬ vem , que em certa occafião dando a hum Gigante na tefta poftrou por terra o Gigante: nos Exércitos era o terror dos Fihfteos: de hum fó impeto tirou a vida a oytocentos homens inimigos.Pergunto: Algum de vos-ou- tros tem, ou teve tão boa compleyção, tanto vigor, ou tantas forcas, çomo as que tendes ouvido, que poíTuhia David ? Bem creyo, que todos me refpondeis, que não. Ora pois agora notay. Faliadelle o Texto Sagrado, Sc diz, que havia envelhecido : Rex Davidfemierat, & que 5 tinha jà de idade muytos dias: Habebatque sctatü plurimos 1 dies-, 6 c que por mais que fe enroupava,nem poriíló aque¬ cia : Cumque opemtiir vejkbiw , non calefebat * a falta de calor •Reg.
Sr Sermão nas Exequial calor naturatcrajà nelle taò gráde 3 que os VaíTallos zelc£ fos da faa vida, temendo quedesfalecefie, lhe procu¬ rarão hurna fermofa donzella, que o fomentaííe: Qiiaficmintigitnr adolefcentulamfpeciojàm m omnibusjimbits Jfi rael , & mvenermt Abifag Sunamiüâm , & adduxerunt eamad Regem. No mefmo Capitulo nos torna o Texto **Sagrado a fallar neíla velhice de David, 6 c nos diz não f6 fer velho j mas muy to velho : Rexautem femerat mmv$ K Agora fó nos réfta faber, que idade teria entaõ David. ? ‘ 1 5 ' Pela em que morreq depois, poderemos conje&u-, rar, a que teria, quanqo o Hiítoriador Sagrado efcreveo delle o referido. Sabeis pois de que idade morreo David? Tinha fetenta annos f^yros, porque de trinta fubio ao Throno , 6 c quarenta eífceve no governo : Filius tnginta i.Reg/5. annortím erat David , ciim regnare ccepijfet , & qiiadraginta annis regnavit. Com que quando o Texto Sagrado lhe chama velho, % muyto velho, poderia ter õ^annos,por¬ que depois diííonos refere o Hiftoriador Sagrado a divifao, que ainda vivendo elle, houve no Reyno fobre o haver de lhefucceder feu filho Adonias, ouooutrofeu filho Salamão * o como Berfabè intercedeo por efie, 6 c foy acclamado por ordem do mefmo Rey David; 6 c o co¬ mo os dous irmãos por entaõ fe compuzèraõ, 6 c concor¬ darão. Tudo ifto pedia tempo, 6 c alguma demora , 6 c afiim lhe conjecturo pelo menos a de hum anno. Se pois o noíTo llluftre Marquez morreo de feílenta 6 c nóve, corno fepóde negar fer.velho ? E como me po¬ deis eftranhar, o dizer eu, que morreo, como Abraham, por falta de calor natural , fe no tempo,em que Dav id era da fu a idade, IneeflàoTexto chamando velho, 6 c muy- to velho,6c que jà também cffe lhe falravarRepnray mais, qtiâtc $ fçculcs hà,q viveo David,6c d cc mo a noffa natuiCZa fe vay crda vczmais atenuando pela debilidade des manti-
do 'ExcellcntiJJhno S. Marquez de Alegrete . 9 mantimentos, & pouca fubftancia das terras. Que tudo ifro prova j com quanta mayor razão fe pode chamar ve¬ lhice aos feflenta, 6 c nove annos hoje,do que no tempo de David aos meímosfeíTenta& nove, ou fetcnta, como o Texto eftà chamando: Rex autemfemerat tumü- Mais: Outra razão ha para fe poder dizer, q o noílb II- lvtftre Marquez jà morreo velho, & he haver fido toda a fua vida Palaciano , 6 c a vida do Paço fertaõcheya de Quydados, 6c obrigações, que chegar aos íeííenta & nove annos,he íer muy velho: Rex autemfenuerai mmü . P o riíío o Efpirito Santo diffe,que os Grandes,ou Potentados do mundo íempre tinhão a vida breve: Omnü Totentatm *vita brevis* Pois fe em todos he breve a vida, como che- Ecd. gao muytos à velhice ? He porque eífes taes primeyro Iu çhegãoa fer velhos, antes que os.feus annos cheguem a fer muytos : faõ velhos, & faltos de calor natural, por de¬ bilitados , quando ainda podiãofer moços pelos annos : Omnis Totentatus vúa brevis. Vede pois, fe para Cavalheyro , que toda a vida viveo no Paço, & com a occurrencia de negocios graviíllmos, que ouve em o feu tem¬ po, & em que fempre fe achou,fe fe póde dizer, que mor¬ reo velho. Senão foia dilatar muy to o Sermão, ainda convencèra mais o voílo reparo. Mas a refpeyto do proximo, não fe contentava o Illuftre Maquez, com o não offender, paílãva avante ao re¬ mediar. Era fabido , que gaitava em obras pias todas as propinas, que tinha de Vedor da Fazenda.Só aosReligiofos de São Franciíco-do Convento do Varatojo dava to¬ dos os annos duzentos mil reis de efmola. Era tão cari¬ tativo com os mais pobres, que nunca fahio fora,que não deíle quantidade delias aos que oencontravão.Ellc mefmopdToalmetjtebufeavaoutras peflbas recolhidas, & boaradaSj aquemfoccorria com larga nua Também B niíto
10 Semaõ riàt Exéquias iiiíto imitou ao grande Patriarca Abraham, de quem difc\\ry<. ;itíCDm agudeza Saõjoaõ Chryfoílomo , que fora caç&* dor de pobres : Paupernm Venator ejjetfu '*porque eíle adRoni. na ° conCen t a com a caça que encontra, mas peífoalmente a hufea, & talvez a deíencova. Iílo, que com os pobres uJava Abraham , fazia também o Iiluftre Marquez : Pauperim Venator ejfeãas. Por eíla caridade, que com elles tinha,lhe fez Deos S.N.grandes favores,&: naõ fó a elle, mas a feus filhos,&: a feus Illuítres defeendentes. Em dous Pfa I m os com efpecialidade tratou o Pro¬ feta Rey do fruto da efmola : o primeyro foy o Pfalmo 40. donde diz aílim: Beatas , qui intelligit fu per Pfai.40. egenum , &pauperem , in diemala liberabit eum Dominas: Bemaventurado he,o que entende fobreoneceílitado,Ôc fobre o pobre,no dia mào, iílo he, no de alguma defgraça o Senhor o livrara. Continua o Texto: Dominas confer - veteum , & vivificet eurn , & beatum faciat euminterra, &nontradat eum in animam inimicorum ejus. O Senhor lhe dè vida,& faude , Sz o faça virtuofo, Sc bemaventurado , & naõconíinta, quecayaem mãos de feus inimi¬ gos. Vay por diante: Dominas opem ferat illi fuper lettum doloris ejus , univerfum ftratum ejas verfafti in infirmitateejas. O mefmo Senhor lhe aíliíla em a doença, & o foccorra em a fu a enfermidade. Tudo iílo faó fru¬ tos da efmola. O fegundo Pfalmo, em queDavidcom H• 3 d n. traCada mefma em P r eza ’ h e0cent0 &on * ze, 6c diz deíla lorte: Beatas vir , qui timet Dominum , in pfai .111 • manda tis ejus vólet nimis. O que teme a Deos, fera ditoio na alma, & no corpo, rico, & ■ abundante dos bens da graça, bc dos da fortuna A p or q lle defeia obrar maravilhas em leu ferviço. Continua o Texto : Polem in terra erit jernen ejus } g e ne) atro rextorumbenedicetur. Seus filhos , Sc defeendentes haodefer no mundo poderofos, & abendiçoados
do Exce!knti(fmo S. Marquez de'Alegrete, rr diçoados de Deos. E querendo David dar a razão de ha*' verem de poííuir todos eíles bens , diífe, ferem frutos da caridade, que ufava com os pobres: Jucundas homo , qui miferetur y & commodat> dijperjtt> âedit paupenbas. Suppof- to,queem hum , 6c outro Plalmo falia David do fruto da efmola, no fentir commum dos Expofitores Sagra¬ dos, entra agora o meu reparo; em que no primeyro Pfalmo ofrutoda eímola, fomente diz David, que ha de ferparao efmoler , delle faz mençaõ repetidas vezes em todos eftesttestermos, eum,ejas,ilh , para elle,delle, a dle} & nao faz menção de feus filhos, ou defccndentes. No iegundo porém diz mais,pois afiirma,que o fruto da efmola nao ío ha de fer para o efmoler: Beata* vir , qiu ti - rnet Pominum in mandatü ejasvolet nimi *itnas acrefcenta, q chegara a feus filhos,& defcédentes :Botem in terra erit femen ejas.generatio recforum benedicetur.quç fua cafa ferà gloriofa, 6c ferà rica: Gloria , & divitia m domo ejas,&c. Jucundas homo , qui miferetur , & commodat. Difperjii r, dedit panperibas. Pois porque razaõ em humaoccatiaõ o fruto da efmola he fó para o efmoler, 6c em outra checa também aos filhos, 6c aos defccndentes, 6c faz gloriofa, 6c rica a cafi ? Reparay , que eu vo-la defcubro nos mefmos textos.He Filofofica, 6c delicada. Ahi ha dous generos de efmoleresi huns, que no dar da efmola imitaoas operações do entendimento, & deftes fallava David no primeyro I falmo, ponílo diíTe: Beatas vir , qui intelligit fitper egenirn , &pauperem. Outros, que no dar da efmolla, imitao as operações da vontade, 6c poriíío d; HTe: In mandatis e.jus volet nimis. Jucundas homo , qui mi - feretur i & commodat. Pijperjit dedit paupenbas. Eftadif- D.Thom ferença (diz agora o Anjo das Efcolas, Santo Thomàs, °P U . ÍC, IJ* meu Medre) ha entre as operações do entendimento,6c í c auT& as da vontade, que Intelligere nojlrum ejifecundam motum uuçUtgi B 2 irebiís
Sermão nd$ Exéquias * re bw dd animam^ velle autem ejl fecundkm motum ab anU ma - odres. E os feus Commmentadoresdizem Intellettus tralnt res adfe y volmtas fertur m res. O entendimen¬ to entende, trazendo a íipor meyo dasefpecies os obje&os.Elic (expliquemonos aílim) deyxade eftar em fua caía, 6 c os objedtos íaõ os que , mediante as efpecies, o buícaõ. E a vontade he pelo contrario, os objeétos naõ a buícaõj ella para amallos, he, a que vay buícar os obje- £los. Nem o amor ( dizem os Filofofos , & os TheqloA gos também j he outra coufa, íenaõ hum impulfo , com que a vontade inclina para o fugeyto, que ama: Intellige - renoftrumy&c. Aquelle efmoler pois , que no dar da efmola imita as operações do entendimento, efperando, que o pobre o bufque, ou q eftc o encontre,a efte dà Deos grandes felicidades, faz-lhe muytos favores, porém éfíes naõ paífaõ da fua peííoa, faõ fomente para elle: In die ma¬ la líber abit etim Dominus, Dominus confervet ettm , & vivificet eum , & beatnmfaciat enm m terra , & ncntraâat ev.m in animam mimicorum ejus. Dominus opem ferat illi. R( ^ * A '" 1 " illi fó que o encontra, fenaõ que elle mefmo o vay bufear, para o loccorrer ,Sc remediar ,aefíetal naõ fó Deoslhefaz grandes favores, mas paffaõ as felicidades delleafeus hlhos, a feus defeendentes, & à fua cafa: Votem in Urra eritjemen ejus , generatio retforum benedicetur. Gloria , & dtviUa m domo ejus. Seus filhos ficaràÓ no mundo podero.os, Sr abendiçoados, & a f lla cá f a f er à gloriofa, & fera rica. Aflim hcanto tio mundo os defeendentes de Abraham , Sufpjce (jainm , lhe diflTe Deos Senhor noífo, & numera St cilas Jijotes,Jic eritjemen í//».Levata os olhos ao - ' i ^ Ç e o, ^paray : 1 udo he para elle, ou delle, ou a ell c 3 etm 3 ejus 9 • Aquelle efmoler porém, que no dar da efmola , naõ imita as operações do entendimento, mas também as 1 ^ntademue náo fó foccorre ao pobre,que o bufea,ou
do Excellenti/fnno S.Marquez dé Alegrete. ij Ceo , vè fe pódes contar as íuas Eftrellas, que aílini ferâ a tua defcendencia dilatada, 6t luzida , em cada defceadenteteu verà o mundohuma Eílrella. I^or fua morte lhe abendiçoou também feu filho : Pojl obitüm iltius , benedixit T>ens Ifaac filio ejus. E ifto porque ? Porque, co r Gen.ifl ino lhe chamou Chryfoftomo , era Abraham caçador, de u * pobres, pois naõ fó foccorria aos que encontrava, mas eilemefmo peíToal mente os bufeava para os foeçorrer: Pauperum Venator effettuslmitzva. no dardaefmola, naó fó as operações do entendimento 3 mas também as da vonC tade. Efte íoy Abraham da Ley antiga , 6t femelhante a elle na caridade com os pobres o noíTo Illuftre Marquez, poriftõdeyxou filhos poderofos em dous Grandes deite Reyno. Eis-ahijà cumprido o Potens in terra eritfemeri ■ ijusfcftes feráõ , como o de Abraham, abendiçoados de JDeos: Generatioretforumbcnedicetur: ficará a fua cafa rica, 6c gloriofa: Gloria , & divitia in domo ejus-, 6c em feus defeendentes fe contaràõ muytas Eftrellas: Numera SteU las.Siceritfementmm. Grande parte deitas fuas efmolas gaitava o Illuftre Marquez com as Religiofas do reformadiíllmo Mofteyro da Madre de Deos, 6c eraõ eftashuma boa parte do feu fuftento circunftancia , em que também me pareceo com o Patriarca Abraham. Achava-feefte huma hora em o valle de Mambre , quando levantando os olhos, vio tres galhardos mancebos , que no mayor fervor do Soi caminhavaó a fua vifta. Sahio logo Ç como coftumava j a convidallos, tratou-os com grande reverencia, diz o Texto que os adorou: Et adoravit interrd : offereceolhes para clefcançarem a fua cafa, 6c para fc alimentarem a fua mefa. E fe quereis faber, quem os tres eraõ, digovos,que na apparencia eraõ tres homens: Apparuerunt ei,tres viri: . m falta de mantimento, com que caminhavaó , parccuiõ . " B 3 pobres,
\ Serwaõnas Exéquias \ Príncipes perfeycos 3 & napeííoade Sua Mageftade,que Deus guarde, hum Monarca perfeytillimo. Mas como naó havia de íèr aííim, íe no io deo para defempenho da fua promeíía,feyta no Campo de Ourique ao primeyro Rey, dizendo, que paííada adecimafexta ch,r!íU £ era Ç a o > eílando a íua fucceííaõ actenuada ( naõ diííe ex- Dornini rin&a ) elle poria os olhos neíte Reyno ? In ipfa attmuaU primú prole 5 ipfe rejftciam , & videbo. Duas vezes depois da de- Aifhoii- ciroafexta geração do Senhor Rey Dom Affonfo Henriíum, ques j fe vio a Cafa Real deita Monarchia attenuada na íucceíTaõja primeyra foy no governo do Senhor Cardeal Rey Dom Henrique>&: a fegunda no governo do Senhor Dom Pedro II. ambos de gloriofa memória. Em ambas as occafiões eftava a legitima fucceííaõ deite Reyno em femeaj na primeyra, em hum a Sobrinha do Senhor Car¬ deal Rey ,a Sereniílima Senhora Dona Catharina , Du~ queza de Bragança, digniíBma Conforte do Duque D. Joaõo I. filha do Senhor Infante Dom Duarte , & Neta do Senhor Rey Dom Manoel. Na fegunda eftava na Ser-eniílima Princefa Dona Ifabel, filha do Senhor Pvey D. Pedro o II. defaudofa memória. Vedefe era ocafo bem femelhante. Agora reparay no que Chriíto Senhor noffodiíféno Campo de Ourique ao noíío primeyro Rey: diííe 3 quena decimafexta geraçaõ,eítando a fucceííaõ atrenuada, poria os olhos neíte Reyno , por duas vezes : li tpfe atteniíataprole ipfè refpiciam , &videbo. Notay o rejpiciâm , ò-videbo. Õlharey huma vez, & tornarey a olhar eganda.Muytas pennas doutas deite Reyno efcreveraoj que aquelle refpiciam fe cumprira no Senhor Rey l om joaoo IV. Pois o v idebo í no meu entender ) fe cumpre hoje em Sun M= R e f t a de , o Senhor Rey Dom JoaooA . que Deos guarde 3 porque j uim , &: outro Mo¬ narca foy dado por Deòs a eíta Monarchia, eítandoa _ - -í. r'.' fucceííaõ
do Excellentifimo S.Marquez deAlegrtte. zr facceflaô Real attenuada : In ipfa áttemiata prole ipferefi piciarriy & videbo. Ditofa Monarchia! Venturola Embayxada! Efta foy a felicidade, que nella teve o noflb Embayxador. A perda pois de hum tal Embayxador, & de hum tal Miniítro, nefte íeu desfalecimento, ou neíta fua jnorte , he o ultimo motivo da noífa dor: Deficiens mortuus eji. SEGUNDO DISCURSO, M A s fe atè aqui a fua perda nos excitava a lagri¬ mas > ouvi agora na fegunda parte do Thema hu r ma grande felicidade, que nos póde enxugar os olhos. Mortuus eji m feneãute bom. M o rreoo noflb llluíire Marquez em 13. de Setembro., [ & fegundo piamente pode¬ mos conjeâurar 3 morreo como Abraham em boa velhi¬ ce * iílo he , cheyo de dias, & cheyo de merecimentos : Ghuaplenmmentüdifcejjit , diífe A Lapide> 011 (como AL a? ; commentou Abulenfe ] morreo fendo velho, & fendoh l c * bom* porque morreo com grandes finaes de predeílinado,& [fegundo piamente podemos conjecturar ] levou-o Ab hU? Deos, como a Abraham, em íua graça: Mortum fuit dum ejfet fenex, & bonm y qnia ingratia mortum. Ditofo ho¬ mem ! Felicidade grande! Dikãm Deo, & bminibm Moyfés , cujm memória in benediBme eji,Jhmlem ülumfeçit mgloria Sariãorum. Foy EccfeT-tí Moyfés, diz o Ecçlçfiaftico, amado de Deos, & amado dos homens* he abendiçoada a fua memória , fello femelhante aos Bemaventurados. AíTim defcreveo oEccleíiaítico a grande felicidade de Moyfés. Notay: Ser ama¬ do de Deos, Sr aborrecido dos .homens, foy a felicidade , queChriílo Senhor noíloprometteo a feus diícipulos Beati erittS) cm vos oderint hçwnes. JEfta-fe achou em ou r : tros
2i2 '••• Sermão nca Exequial tros nuiytosJuílos. E pelo contrario, fer amado dos ho* mens, 6c aborrecido de Deos, iílo fe achou em muyros pcccadores, que íè tivèraõ por ditofosnefte mundo, 6c depois o naõ forão no outro. Forem fer amado de Deos, & amado dos homens , ditoíb neíle mundo , 6c ditoíò no outro, eítafoy a felicidade de Moyíés, 6c ahi naõ .ha mais felicidade! Que o noífo Illuítre Marquez foy amado dos homens, naõ digo fomente dos pequenos, mas dos Gran¬ des, dos Príncipes, 6c dos Monarcas, pela grande aceytaçaõ, que delles teve,pelas muy t a s honras, que lhe fízeraõ,8c lugares grandes em que delle fe ferviraõ, iíío fabem todos. Que a eíla felicidade da vida ajuntaíTe ( fegundo piamente conjeturamos ) outrã mayor na morte, qual he o fer amado de Deos, he grande felicidade! Funda-fe pois eíla nofia conjetura no bem, com que fedifpoz para morrer, no arrependimento que moítrou de fuas culpas, no perdaõ que delias pedio a Deos, 6c a feu proximo , na Proteílaçaõ que fez da Fé, 6c nos mais repetidos atos de efperança , 6c charidade , na devoção que rnoílrou ao receber dos Sacramentos da Igreja, 6c em todas as mais acções, que naquelle tempo coítumaõ fa¬ zer os bons Chriílãos. 1 Ajuda muy to a favorecer efta nofla conjetura, o fabermos J qp e em fua vida tinha grande devoção com Mana Santiílima. Nunca havia de entrar de fomana no Paço , que prhneyro nãofoíTe fazerlheoração àfua cafa, vene¬ rando-a naquella Sagrada Imagem, em que a invocamos Senhora da Saude , com quem tinha dèvoçaõ efpecial Qi n meinvémnt^ myenict vitã,& hauriet faluí em a Domi¬ no. Eftas palavras,diz o doutiflimo A Lapide, nofentido myftico entendem-fe de Maria Santifííma , a Igreja lhas applica nas fuas Feílas. Diz pois nellas eíla Soberana Se¬ nhora; Aquelle,que devotamente me invocar,ha de confeguif
do Excellenúffirno S. Marquez de Alegrete . 23 feo-uir de Deos vida, 8c juntamente faude. E q ue faude hade fer efta ? Ouvi o mefmo Expofitor: Salutem anima,& corporü. A faude d’alma,Sc a do corpo. Efta ultima hk*** algüa vez deyxarà de fe cõfeguir, para dar lugar à morta¬ lidade da vidaiporéa primeyra pòde-fe cõfeguir fempre* por fer immortal a noífa alma. E que vida ? 'Tum natura, tum gr atue , tum gloria- y afíira a da natureza , como a da graça , 8c a da gloria. Como naõ ferà pois boa conje&ura 5 que Deos Senhor noífo levaria parafi ao noífo Illuftre Marquez, que tanta devoção tinha com a Senhora da Saude? <£///' meinvenerityinvmiet vitajum naturafnm gratiajum gloria.Et hauriet falutem k Domino,falutem anima, frcorpons. Também he fundamento da mefma conjedura a grande devoção, que tinha com Chrifto Sacra, mentado. Era neftaCafaJuiz perpetuo da fualrmandade j fervia nella com grande zelo, defejando fempre, que cada dia fe augmentafle mais 5, devoção,que deyxou mu v recomendada a feus filhos. J * Ao Sacramento do Altar chamou Santo Thomàs meu Melrre, & com elle umverfalmente toda a Iereia,Penhor D 'TÍ!í m da gloria futura : Etfutur* ghruenobu p lg L âatur. ' Pois a piedade Chnfta,que conjeaura.que íervindo-o na Cht,fti ' yida,& recebendo-o na morte,fe faberia com dle Penhor fegurar, tira por boa confequencia , que fe na6 havia de perder. Funda-fe mais efte difcurfo nas efmolas, que o Illuftre Marquez f como ja vimos }dava aos pobres s poraue fe eftas fao thefonro , que fe ajunta para o dia ultimo da vida, por íer eíte o de mayor neceíTidadej Sc fazem, com que a alma doefmpler fe naõ condene, como difie To- Tob.£ bias o Pay afeu filho também Tobias : Vramium enim lo * bonum tibi thefaurizas' in die necejjitatií,qiiomameleemofyna ab mrti peccato , &a morte Uberat 7 & non patietur animam tre
*4 *'• Sermaõnds Exequm " \ ireintenebras, Quemrepartia com maó tão larga comeiles,bem íe pode daqui lambem conje£fcurar,que eílarà lo- 1 grándo avilta de Deos. . > Finalmente, todas as mais virtudes, que referi, 6c ou- ; tras mais, em que naõ pude fallar, que lograva o Iliuftre MarqueZjfe póde piamente entender , que feriaõ da íiia predeftinaçaõ íinaes: porque fe cada hum morre confor¬ me vive, quem viveo como virtuofo, naõ havia de mor- D.Atio. rer como defgraçado. Tenho por guia deite difcurfo a lib. 4 . "de luz da Igreja , Santo Agoftinho: Malamors putandanon Cjy. Dei. e jj 5 q Uam y ma Vlta p raçejjít. N a õ fe deve prefumir mor¬ te ma aqudla,a que precedeo huma vida boa.E em outro lugar diz aílim: Nenpotejl male mori , qui bene &. mx bem moritm^qm mole rvixip .Naõ póde fer morrer mal, chriad -qiie viveo bermôc rara vez.fe vio morrer bé, quem viveo mal. Se a lamentável perda pois de hum tal Cavalhey ró atè agora nos excitava a lagrimas,efta grande felicidade, que piamènte conje£tu ramos,de morrer como Abraham em boá velhice,nos póde enxugar os òVnosiDeficiens mor - tuas eft m feneéktte bona. Idefi , moríuus ejl^dum ejjet fenex , ■ & bonm^qma mgratia mortms^qma pletms mentis discejjit. Oyto Reys contava o noíío Iliuftre Marquez em léus gloriofps Afeendentes , hum Dom Gracia de Navarra/ hum Dom AfFonfo, 6c outro Dom Ramiro de Leaõ,hum Dom Sancho, ôc outro Dom Henrique de Caftcllaj 6c ps Senhores Dom Affonfo III. & Dom Diniz > 6c Dom Fci nando, todos tres de Portugal. Com fer eftaa nobre¬ za de feu.s antepaíTados, nem huma tò palavra fe poz na fua lepukura defta fu a nobreza : fem duvida que foy pat . r ra dentio da mefnia fepultura eftar dãdo aos Grandes do mundoe.fte defengano,que e f tejaõ certos, que là 110 outro íe não pratica a nobreza da origem,fenaõ a nobreza dapcílba. ■ _ *• « ■ > ‘ Nefte
(lo Excellentiffimo S.Marquez de Alegrete. 15 Nefte mundo ha muytos, que faõ grandes , 6c que faõ Illuftres pelas virtudes de feus antepaílados >huns pelas ef padas de feus Pays, 6c outros,pelas letras de feus Avos. JN o outro naõ ferà aílimrfereis grades,ou lereis pequenos: fereis Senhores, ou lereis efcravos, naõ fegundoosvoffos Avós, más conforme as voffas açções.is! aõ íe vos pergütarà,qué voífos Avósforaõjtomarievos-ha ílmeftreyta jconta, de quem vos fois. Contentome , que.de todo efte SermaõjVOS fique ng lembrança efte ponto,que a nobreza da voíla origem naõ chega nem àlepultura, 6: q a nobreza das voílás acções ha de durar por toda a eternidade. iitiUtas infanguine meo , dum defcendo in corntptionem ? Qpe utilidade terey.eu .(l dizfo Í>àvid) da nobreza domeufangue, quando jà vou defcendo para o eftado pr ‘ 19 ' 1 0 da corrupção? Quetenho tirado dp fer Monarca de Ifrael, agora que jà me acho nõ fim da vida ? Commentou o meu Cardeal Cayetano: Qua utüitas in prpgcme mea, dum defcendo in corruptionem ? Lè o Hebreo: In defcendere meo adfoveam ? Qu e utilidade he , a que fe tirada minha Ci . geraçaõ, no meu defcer para a fepultura? Nenhuma.Bem v.Hxbr? póde fucceder, fer hum homem nefte mundo grande, 6c no outro fer efcravo> 6c pelo contrario nefte mun¬ do efcravo, o que no outro ferà grande. Pois quan¬ to he mayor aduraçao do outro mundo, queadefte, tanto mais deveis eftimar a nobreza da vofla peíToa , que a nobreza da voíla origem j a nobreza da voftas acções , que a nobreza dos voftos Avós j a nobreza do voííò pro¬ cedimento , que a nobreza do voftb fangue: ntilitas inJanguine meo? 6 }iia ntililas in progénie mea , dum def¬ cendo in corruptionem? In defcendere meo adfoveam ? Efte he o defengano, q deyxouefcrito hum Rcy Santo de Ifrael, 6c efte mefmo vos dà hoje da fepultura o noíTò Illiiftre jMarquez. Não fe lea pois nella, quem feus Avós foraó D “ mas
*' ‘lú Sermão nm Exeqnm mas ponhafe jiella,que o Marquez foy,& íirvalhe dc epi¬ táfio aqueiíe mefmo que o Ecciefiaftico poz a Abraham: E CC j e f. Magnns Pater vndtitudinis gmtiu> & non efi inventas firni- 44.10." lisilii inglória , qui confirvavit legem Excelji. Diga defta forte: Aquijaz Manoel TellesdaSylvajprimeyro Mar< quez de Alegrete , grande Pay de muytos, Ôc efclarecidos defcendentes.Naó teve o Reynoem feu tépo Heroe taògloriofo. Foyobfer v ante daLeydeDeos. Desfale¬ cendo, morreo: Dejiciens mortuus eft * & foy em boa ve* lhice: Infenectute bona, Deícanfe em paz. Amen, FIN IS, LAUS DE O* Virginique MatrK