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Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira

Dias Navarro Barreto, Raylane Andreza; Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, Ester Fraga; Reis Sales, Tâmara Regina

Abstract

Na perspectiva da História dos Impressos atrelada a História Cultural, este artigo tem por objeto de análise registros documentais e bibliográficos acerca de impressos católicos e protestantes no Brasil colonial com o objetivo de investigar sua circulação e a difusão de idéias. Baseando-se no método de investigação histórico, este artigo traz à historiografia brasileira, livros, leitores e livrarias bem como o modus operandi dos livreiros que contribuíram com a transmissão de saberes religiosos no país e com as distintas comunidades de leitores originarias não somente de congregação religiosa, dos estudantes e dos letrados, mas de leigos que se interessavam e faziam circular idéias em distintos suportes para além do livro.

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Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira On the circulation of books and reading the colony brazilian Raylane Andreza Dias Navarro Barreto1 Universidade Tiradentes (Brasil) Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento2 Universidade Tiradentes (Brasil) Tâmara Regina Reis Sales3 Universidade Tiradentes (Brasil) Recibido: 30-11-12 Aprobado: 06-03-13 Resumo Na perspectiva da História dos Impressos atrelada a História Cultural, este artigo tem por objeto de análise registros documentais e bibliográficos acerca de 1 ([email protected]) Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Natal, Rio Grande Norte, Brasil) e Professora PPG 1 da Universidade Tiradentes (Aracajú, SE, Brasil). Dentre outros artigos escreveu: Biografias coletivas revelando a identidade cultural e educacional de seminários católicos. Cadernos de História da Educação (UFU. Impresso), v. 11, p. 627-640, 2012 e A propósito dos fundamentos doutrinários da formação sacerdotal nos tempos modernos. Revista Educação em Questão (UFRN. Impresso), v. 35, p. 182-209, 2009. É autora do livro A formação de padres no nordeste do Brasil (1894-1913). Natal: EDUFRN, 2011. 2 ([email protected]) Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade de São Paulo (São Paulo, SP, Brasil) e Professora PPG 1 da Universidade Tiradentes (Aracajú, SE, Brasil). Dentre outros artigos escreveu: Fontes para história da educação brasileira: considerações acerca dos catecismos protestantes. Revista Educação (PUCRS. Online), v. 36, p. 88-95, 2013 e A Escola Dominical Presbiteriana:disseminação de saberes e práticas educativas. É autora do livro Fontes para a História da Educação: documentos da Missão Presbiteriana dos Estados Unidos no Brasil. Maceió: EDUFAL, 2008. 3 ([email protected]) Mestranda em Educação pela Universidade Tiradentes (Aracajú, SE, Brasil). Dentre outros trabalhos publicados em anais de congressos, escreveu: Saberes e Práticas Educacionais no Almanaque do Pobre Ricardo; Almanaque do Pobre Ricardo: o impresso como objeto e fonte de pesquisa e Correspondência e missão protestante norte americana no Brasil e na Colômbia. 46 Raylane Andreza Dias; Ester Fraga Vilas-Bôas y Tâmara Regina Reis Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. impressos católicos e protestantes no Brasil colonial com o objetivo de investigar sua circulação e a difusão de idéias. Baseando-se no método de investigação histórico, este artigo traz à historiografia brasileira, livros, leitores e livrarias bem como o modus operandi dos livreiros que contribuíram com a transmissão de saberes religiosos no país e com as distintas comunidades de leitores originarias não somente de congregação religiosa, dos estudantes e dos letrados, mas de leigos que se interessavam e faziam circular idéias em distintos suportes para além do livro. Palavras-chave: Brasil colonial – catolicismo – impressos – protestantismo Abstract In the perspective of history tied to the printed Cultural History, this article focuses on analysis of documentary records and bibliographic printed about Catholics and Protestants in colonial Brazil with the aim of investigating its circulation and diffusion of ideas. Based on the method of historical research this article brings Brazilian historiography, books, bookstores and readers as well as booksellers the modus operandi that contributed to the transmission of religious knowledge in the country and with different communities of readers originating not only from religious congregation, of students and scholars, but lay people who cared and did circulate ideas in different media beyond the book. Key-words: colonial Brazil – Catholicism – printed – Protestantism. Introdução A produção em História da Educação no Brasil a partir da década de 1980 tem acompanhado o movimento internacional ancorado na História Cultural, contribuindo para o alargamento do campo com a implementação de multiplicidade temática, a adoção de novos objetos e a incorporação de fontes diversificadas de pesquisa, produzindo também sínteses analíticas e tendenciais. Os pressupostos teórico-metodológicos utilizados pela Nova História Cultural têm possibilitado aos pesquisadores da História da Educação ultrapassar as barreiras existentes nas investigações dos seus objetos de estudo e apreender outras configurações presentes, às vezes imperceptíveis. Investigar livros que circularam no Brasil Colonial e seus leitores é flagrar a rede de interdependência, de circulação da cultura, que existia entre o Brasil e Portugal, mesmo que muitas vezes, encoberta no submundo da leitura. Neste artigo tomamos como objeto de analise a circularidade de impressos no período colonial com o objetivo de trazer 47 Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira. Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. à luz um pouco do que foi a circulação de impressos, religiosos ou não, no Brasil Colonial. A história do livro tornou-se um campo de investigação onde se procura compreender como as idéias foram transmitidas por vias impressas e como o contato com a palavra impressa afetou o comportamento da humanidade nos últimos quinhentos anos. A nova corrente de investigação se desenvolveu principalmente nos anos 60 do século XX na França, sob a perspectiva da escola dos Annales. Os novos historiadores do livro, ao invés de se deterem somente em detalhes da bibliografia, procuraram descobrir o modelo geral de produção e consumo do mesmo ao longo de grandes períodos de tempo. Concentraramse não somente nos livros raros e edições de luxo, mas também no tipo mais comum deles, procurando descobrir a experiência literária dos leitores prosaicos. Detiveram-se em investigar os sujeitos que os produziram, sua circulação e apropriação. Dentre os pesquisadores que tratam do tema numa abordagem da História Cultural, encontram-se Lucien Febvre, Henri-Jean Martin, Roger Chartier, Jean Hébrard, Robert Darnton, Peter Burke, Rolf Engelsing, Natalie Zemon Davis, Robert Escarpit, Peter John Wallis e Carlo Ginzburg. Outros tratam do assunto numa perspectiva histórica, procurando compreender a matéria em sua concepção morfológica, como é o caso de Elizabeth Eisenstein, Laurence Hallewell, David R. Olson, Jean Delisle, Judith Woodsworth e Alberto Manguel. Pesquisadores brasileiros também têm investigado o livro e a leitura, sob diversas perspectivas, como são os casos de Nelson Wernek Sodré, Fernando Paixão, Eduardo Frieiro, Jorge de Souza Araújo, Márcia Abreu, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, Luiz Carlos Vilalta e Marcio Doctors. Outros investigaram as raízes cultural e literária no Brasil, destacando a trajetória do livro e oferecendo indícios sobre sua circulação e práticas de leitura, como é o caso Rubens Borba de Moraes, Serafim Leite SJ, Fernando de Azevedo, Carlos Rizinni, Laurence Hallewell e Wilson Martins. Na perspectiva da História da Educação brasileira, temos Marta Maria Chagas de Carvalho, Maria Lucia Spedo Hilsdorf, Jorge Carvalho do Nascimento, Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, Maria Rita de Almeida Toledo, Luciano Mendes de Faria Filho, Diana Gonçalves Vidal, Shirley Puccia Laguna, Cristiane Vitório de Souza, Ana Maria de Oliveira Galvão, Márcia Cristina Delgado, Úrsula Rangel Goothuzen de Albuquerque, Maria Arisnete Camara de Morais, Cynthia Pereira de Souza, Denice Bárbara Catani, Heloisa Helena Pimenta Rocha e Lucio Kreutz, dentre outros. Os estudos sobre impressos religiosos têm se intensificado nos últimos anos, apesar de ainda serem escassos. Dentre os pesquisadores que investigam impressos católicos encontram-se Elomar Antonio Callegaro Tambara, Antonio Donizetti Sgarbi, Mauro Passos, Urbano Zilles, Raylane Andreza Dias Navarro Barreto, Raquel Martins de Assis, Valéria Carmelita Santana Souza, Rosemeire Marcedo Costa, Dionísio de Almeida Neto e Ana Luzia Santos. Já os estudiosos 48 Raylane Andreza Dias; Ester Fraga Vilas-Bôas y Tâmara Regina Reis Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. que pesquisam impressos protestantes estão Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, Alderi Souza de Matos, Lyndon Araújo Santos, Ephraim de Figueiredo Beda, Gilcinei Tetzner e Felipe Born. Quando falamos de impressos estamos nos reportando às suas distintas formas materiais, à produção do sentido e às práticas de leitura. Tratamos do mundo do texto e do mundo do leitor; da ordem dos livros e da ordem dos discursos; de formas e sentidos. Todos esses termos reportam-se à produção material dos impressos, ou seja, dos seus suportes, do objeto escrito, até a apropriação da mensagem contida neles. O livro sempre procurou estabelecer uma ordem, seja na sua confecção, na sua decifração ou pela autoridade de quem o encomendou ou permitiu sua publicação. Impressos católicos e protestantes Católicos e protestantes são mais do que agentes religiosos presentes no Brasil desde a segunda metade do século XVI. Destarte o seu interesse salvacionista, a Companhia de Jesus, a partir de 1549, contribuiu para a instrução pública no país e “(...) indiretamente ampliou e trouxe as primeiras leituras para o Brasil. Mesmo leituras obrigatórias e para servir de cópias aos modelos clássicos ou eclesiásticos, aos poucos vieram alicerçar a formação social e literária da Colônia”. Para Araújo (1999: 23), foram os jesuítas que “(...) nos trouxeram o alfabeto, o latim, a gramática e a literatura de fundo místico e ascético”. Este autor, entretanto, construir o perfil do leitor colonial, não considerou a ação protestante no país. As primeiras incursões que se tem notícia dos seguidores de Lutero em terras brasileiras datam de meados do século XVI, concomitante à presença dos jesuítas, quando franceses comercializavam madeiras brasileiras com os índios tupinambás. A Companhia de Jesus, havia sido fundada em 1534, por Inácio de Loyola (1491-1556), militar espanhol, convertido ao catolicismo, cujo propósito era constituir religiosa e culturalmente um “exercito de Cristo” para formar bons “soldados” da Igreja de Roma, capazes de, em varias partes do mundo, combater a heresia (os protestantes) e converter os pagãos em católicos. Tais desígnios faziam parte da Companhia quando aqui instalada, em 1549, pelos padres Jesuitas Manuel da Nobrega (1517-1570), Leonardo Nunes (? - 1554), João de Azpilcueta Navarro (1522-1557), Antonio Pires e pelo Irmão Vicente Rodrigues. Esses missionários e seus sucessores, principalmente o padre Jose de Anchieta (1534- 1597), encarregaram-se, nos dois primeiros séculos de colonização brasileira, da formação religiosa e educacional tanto dos educadores e educandos quanto dos futuros sacerdotes jesuítas (quando encontravam vocacionados). Segundo Azevedo (1963), no Brasil Colônia, os missionários jesuítas erigiram, pelo menos, 15 estabelecimentos de ensino, destacando-se uma Escola de teor elementar na Bahia (fundada pelo jesuíta Manoel da Nóbrega, 1549); a 49 Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira. Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. “Escola-Seminário”, de São Vicente (criada pelo jesuíta Leonardo Nunes, 1549); o Colégio de “Todos os Santos”, na Bahia (1556); o Colégio de São Sebastião, no Rio de Janeiro (1567); o Colégio de Olinda (1568); o Colégio de “Santo Inácio”, em São Paulo (1631); o Colégio de “São Miguel”, em Santos (1652); o Colégio de “São Tiago”, no Espírito Santo (1654); o Colégio “Nossa Senhora da Luz”, em São Luiz do Maranhão (1652); o Colégio “Santo Alexandre”, no Para (1652); o Colégio “Nossa Senhora do O”, em Recife (1678) e a Escola de Belém, na Bahia (1687). De conformidade com Leite (1952), historiador da Companhia de Jesus no Brasil, dentre os estabelecimentos criados pelos jesuítas para ensinar a ler, escrever e contar, existiam aqueles que ofereciam, também, uma educação escolar superior e uma preparação sacerdotal, ainda que mínima. A Escola da Bahia, por exemplo, oferecia os cursos de Primeiras Letras, Humanidades, Filosofia e Teologia “(...) com suas festas acadêmicas e graus universitários.” (Leite 1945: 69). Assim como a Escola da Bahia, os Colégios de Olinda e de São Vicente tinham modelos escolares similares. Vale destacar que a educação escolar brasileira, nos séculos XVI, XVII e parte do XVIII, estava, em sua grande parte, voltada a constituição de uma civilização moldada nos padrões católicos europeus e, no que se refere a formação sacerdotal, sua finalidade essencial era o “saber de salvação”. De acordo com o historiador Hansen (2001), o padre Jesuíta Manuel da Nóbrega, em sua primeira carta, datada de 1549, afirmava: Essa terra e nossa empresa e (...) ca não são necessárias letras, mas virtudes e zelo de Nosso Senhor”. Para esse historiador, Nóbrega propunha que o tipo do padre letrado não era imediatamente necessário para a conversão do gentio no Brasil. Considerando a depravação dos costumes do clero regular e dos colonos amancebados com índias, afirmava que somente os bons exemplos poderiam vingar, donde sua ideia de uma conversão operada antes pelo exemplo de vida virtuosa que por palavras. (Hansen 2001: 28). Isso não remetia, necessariamente, para a ignorância da cultura letrada, mas a uma etapa que precedeu os ensinamentos contidos no “Plano de Estudos” Ratio Studiorum atque Institutio Jesu, implantado definitivamente a partir de 1599 e que tinha como fundamento uma cultura humanística e, como orientação filosófica, a escolástica teocêntrica e as teorias de Aristóteles (384-322 a.C.) e Santo Tomas de Aquino (1227- 1274 d.C.). Para aqueles que desejassem abraçar o sacerdócio, também, existia o curso de teologia, em que se ministravam as Ciências Sagradas, que se traduziam num coroamento de todos os estudos. De acordo com Franca (1952: 82), o “alvo” da educação humanista do Ratio Studiorum atque Institutio Jesu era a eloqüência latina. O Latim constituía o vinculo de unidade da civilização européia e de transmissão de uma cultura superior. No século XVII e parte do XVIII, o ensino das humanidades pretendia 50 Raylane Andreza Dias; Ester Fraga Vilas-Bôas y Tâmara Regina Reis Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. tornar o homem mais humano, na medida em que lhe proporcionava ser mais educado, mais afável, mais acessível, em suma, mais tratável. A ideia era formar o homem pelo desenvolvimento harmonioso de suas faculdades, sendo a linguagem o melhor instrumento. Sabendo expressar-se, o homem sentir-se-ia estimulado a pensar, a articular melhor as suas idéias. No caso do futuro sacerdote, estaria mais bem preparado para o trabalho missionário e catequético. Ainda de acordo com Franca (1952: 82), o propósito do Ratio... era “(...) preparar o homem concreto para viver no cenário deste mundo.” E segundo o próprio Ratio..., os objetivos dos estudos da Companhia era “(...) ensinar ao próximo todas as disciplinas convenientes ao nosso Instituto, de modo a levá-lo ao conhecimento e amor do Criador e Redentor nosso (...).” (O metodo pedagogico... 1952: 119). Ou seja, seu objetivo era imprimir um modelo de formação humanista, filosófico e teológico que fizesse com que a Igreja pudesse se relacionar com as mudanças filosóficas que marcaram o século XVI, o XVII e os que os seguiam. Por certo, para empreender tal obra, os jesuítas se transformaram nos pioneiros no tocante a circulação de livros no Brasil como desvelam algumas cartas dos missionários solicitando livros e bibliotecas aos líderes da Companhia de Jesus. Embora não se tenha descoberto títulos e quantidades, pode-se conjecturar que tais impressos devem ter sido publicações de devoção e outras destinadas à evangelização dos nativos. Antônio de Nóbrega, em carta datada de Baía, 15 de abril de 1549, fez um pedido de livros, os quais, ele confirmaria em outra missiva, registrada de Porto Seguro, em 6 de janeiro de 1550. Afirmou ele “(...) terem chegado duas caixas contendo livros e ornamentos”. Há ainda outro registro de 25 de abril de 1553, do padre Cipriano Suárez, quando este trata da missão evangelizadora no Brasil, solicitando ao padre Ignácio de Loyola que enviasse livros (Araújo 1999: 24). José de Anchieta, corroborando com a assertiva de que foram os jesuítas quem primeiro fez circular impressos no Brasil, para doutrinar os colonos portugueses e indígenas, principalmente as crianças, produziu um catecismo bilíngüe, em tupi e em português, provavelmente no ano de 1560. Em seu “Diálogo da Fé”, composto de 616 perguntas e respostas, em que o mestre fazia as perguntas e o discípulo as respondia, e com ele Anchieta abordou e condenou os costumes indígenas, como “comer gente” (antropofagia), “comer terra ou outra coisa para morrer” (suicídio) e fazer-se feiticeiro. Quanto aos conteúdos bíblicos, explicava a Trindade, a Semana Santa e o Decálogo (César 2000: 44- 45). Em meio a fatores socioeconômicos característicos do processo de colonização, uma necessidade se impunha: a expansão da fé católica, com o objetivo de garantir não só o espaço da Igreja e conter o Protestantismo, como também de promover uma unidade religiosa que fortaleceria Portugal. Para isso, foram produzidas a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, também de José de Anchieta, em 1595; a Arte da Língua Brasílica, de Luís Figueira em 1621 e a Arte de Gramática da Língua Brasílica da Nação Kiriri, de Luís Vincencio Mamiani, em 1699. (Barreto, 2006). 51 Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira. Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. De modo que em fins de Quinhentos, existiam bibliotecas jesuíticas no Maranhão, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Araújo ainda informa que no ano da expulsão dos soldados de Cristo, em 1759, sua biblioteca “(...) era da ordem de 15 mil volumes”, destacando a “(...) poderosa influência no comportamento do leitor brasileiro”. Além de cartilhas, livros de devoção, práticas de sermonários e catecismos teológicos, existiam clássicos, censurados pelo Index inquisitorial, como Virgílio, Cícero, Horácio, Ovídio, Sêneca, Aristóteles, Platão, Demóstenes, Homero, Hesíodo e Píndaro (Araújo 1999: 34-37). Também foi registrado pelo Santo Ofício no início da colonização do Brasil, a presença de piratas e corsários franceses, ingleses e holandeses – representantes do protestantismo europeu – na costa brasileira, que tentavam romper o monopólio comercial ibérico. Dentre os poucos pesquisadores que registram a presença protestante, encontra-se Gilberto Freyre. Ele afirmou que “(...) foi no Rio de Janeiro, em 1555, que teve início o estabelecimento ou a organização sistemática do Protestantismo nas Américas”. Para ele, “(...) tanto o Judaísmo como o Protestantismo organizados, aquele em sinagogas ou congregações, este em capelas e escolas, tiveram seus começos nas muito Católicas terras do Brasil, onde também tiveram começo a literatura israelita nas Américas e a catequese de ameríndios pelo cristianismo evangélico”. A expedição do almirante Nicolás Durand de Villegaignon tinha o objetivo de fundar uma colônia francesa em terras brasileiras, a França Antártica. Ministros reformados, enviados pelo próprio Calvino, foram os primeiros a organizar uma igreja protestante na Ibero-América e a celebrar o primeiro culto, a primeira Santa Ceia e o primeiro casamento pelo ritual litúrgico da Igreja Reformada de Genebra (Freyre 1960: 41). O padre José de Anchieta tratou, no ano de 1560, em carta ao Cardeal D. Henrique, do achamento de “livros heréticos” no forte Coligny, após este ter sido tomado pelos luso-Católicos. Alarmados, “(...) os mesmos luso-Católicos decidiram agir severamente contra os franceses que se passassem para o lado deles, luso-Católicos, pois nutridos por tais livros poderiam ser perigosíssimos como propagadores de heresias; e também por ter havido entre eles, no Brasil, mestre – ou mestres – de artes liberais, grego, hebraico, verdadeira sagrada Escritura” (Freyre 1960: 198). Na Europa pré-industrial, numa época marcada pela Reforma Protestante e pela difusão da imprensa, a Igreja Católica sentiu a necessidade de estabelecer um plano de contenção daquela nova onda religiosa, na qual o Tribunal da Inquisição tornou-se uma importante arma da Contra-Reforma, perseguindo sistematicamente os heréticos tanto nas metrópoles como nas colônias portuguesas e espanholas, exercendo (...) grande influência na mentalidade dos povos ibéricos com suas táticas secretas, as limitações que causou ao progresso intelectual, pelo empobrecimento 52 Raylane Andreza Dias; Ester Fraga Vilas-Bôas y Tâmara Regina Reis Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. que levou a nação, pelo medo que espalhou assim como pelo método arbitrário e de exceção com que julgou seus réus (Novinsky , 1992: 6). Apesar da pluralidade étnica, cultural e religiosa encontrada na população de Portugal e Espanha, a Inquisição foi um fenômeno que conseguiu impor-se por seu aspecto mítico, divino e irracional, combinando estratégias políticas e religiosas que visavam o poder. O Santo Ofício veio ao Brasil com o objetivo de refrear as incursões e a “má” influência de piratas e corsários franceses, holandeses e ingleses que infestavam a costa brasileira com suas idéias luteranas “heréticas”; fortalecer o mercado europeu com produtos nativos; como também, controlar a entrada de imigrantes nas Capitanias da Bahia e de Pernambuco, área onde estava concentrado o maior número de luteranos e cristãos-novos (Nascimento, 2002). Em 1591, o Licenciado Heitor Furtado de Mendonça iniciou suas atividades combatendo práticas religiosas dos índios e negros; punindo aqueles que praticavam atos de sodomia, bigamia, feitiçaria, magia; como também aos cristãos-novos, com suas heresias judaizantes, representantes da burguesia comercial em ascensão, que, fugindo da perseguição religiosa na Europa, se instalaram no Brasil, disseminando suas práticas religiosas. Em alguns momentos, no livro “Confissões da Bahia”, Vainfas oferece pistas sobre a presença de escolas e livros protestantes no país, durante o século XVI. Segundo ele o francês Pero de Vila Nova, em 1592, contou à Inquisição que os luteranos, “(...) mais e mais poderosos que os católicos, começaram a espalhar seus livros luteranos e semear sua doutrina luterana, fazendo escolas públicas de sua seita”. Ainda afirmava que fora aluno da dita escola, na qual os protestantes (...) ensinavam que Deus não fizera a missa, e que a missa era feitura dos homens, e que na hóstia consagrada da missa não estava o verdadeiro corpo de Cristo, e que o verdadeiro sacramento é receber uma fatia de pão em comemoração do corpo de Cristo, como eles luteranos, usavam, e negavam haver de se venerar a cruz, nem imagem alguma, e não faziam comemoração alguma de Nossa Senhora (...) (Vainfas, 1997: 192). No mesmo ano, o francês Nicolau Luís, “(...) morador ora em Sergipe, casado com Luísa Fernandes, mameluca”, confessou que havia aproximadamente 24 anos “(...) que, indo ele confessante em uma nau de seu pai de Bordéus para a sua terra, em que não havia portugueses senão todos franceses, foram tomados no mar pelos franceses luteranos, os quais costumavam fazer suas salvas pela manhã e à tarde luteranas na nau.” Já o cristão-velho Rodrigo D’Almeida confessou que nunca tratara com luteranos nem lera seus livros (Vainfas, 1997). Após a fracassada tentativa de ocupação territorial brasileira feita pelos franceses, e as ações perpetradas pela Inquisição em território brasileiro, foi a vez dos reformados holandeses no século XVII tentarem conquistar e colonizar o Brasil português sob o patrocínio da Companhia das Índias Ocidentais. Posteriormente 53 Sobre a circulação de livros e a leitura na colônia brasileira. Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. ao ataque à Bahia de São Salvador em 1624, que estava temporariamente em poder dos espanhóis, eles conquistaram e se instalaram em Pernambuco, estendendo depois seus domínios para o resto do Nordeste, por vinte e quatro anos (1630- 1654). Durante aquele período, os missionários holandeses desenvolveram um trabalho de catequese entre os índios tão intenso que para o jesuíta André de Barros, (...) estavam muitos índios tão calvinistas e luteranos como se nasceram na Inglaterra e na Alemanha, (e já tão penetrados das novas idéias que] chamavam à igreja moanga, quer dizer, falsa, e à doutrina monandubas abarés, patranhas de padres. O embate entre as duas religiões cristãs – a católica e a protestante – foi tanto mais áspero quanto mais eficaz se mostrara a missão holandesa, apoiada, durante o largo período do domínio estrangeiro, pela Companhia das Índias Ocidentais e pelo Conde Maurício de Nassau, administrador, notável, que estimulou a obra de catequese, providenciou para a vinda de novos missionários e criou escolas e hospitais. (Azevedo 1996: 255). Sob o governo do príncipe Johann Mauritius Van Nassau, a Igreja Reformada Holandesa, além de desenvolver um trabalho de manutenção da fé dos fiéis no Brasil, colaborou com as autoridades civis holandesas, revelando suas estreitas relações com os interesses comerciais e políticos da Companhia das Índias Ocidentais na América Latina. Durante o período de colonização holandesa, o elemento evangélico foi introduzido formalmente com a criação do “consistório” — organismo de gestão e decisão eclesiástica, adaptado ao modelo da igreja reformada metropolitana (Nascimento, 2004). Com aproximadamente 50 pastores, organizaram 22 congregações e igrejas reformadas, fundando algumas em aldeias indígenas. Também transformaram templos católicos em templos reformados, despojados dos seus paramentos, do altar e das imagens. Esses números demonstram a preocupação dos reformados em fincar os marcos religiosos nas terras brasileiras. Em Sergipe essa organização religiosa se fez presente como afirma Schalkwijk: (...) durante algum tempo havia no Brasil doze igrejas organizadas com seus próprios consistórios, grandes e pequenos. Eram elas as igrejas em Salvador, Rio São Francisco em Forte Maurício, Porto Calvo, Sirinhaém, Cabo Santo Agostinho, Santo Antônio do Cabo, Recife, Itamaracá, Goiana, Paraíba, Cabedelo (ou Forte Margarita) e Rio Grande do Norte. As dez outras igrejas eram congregações, igrejas em formação, a saber, Sergipe, Alagoas do Sul, Ipojuca, Iguaçu, Ceará, Maranhão, na Ilha de Maurícia, Massurepe e Itapecerica. Algumas destas eram maiores, como a dos índios, outras bem pequenas, como as de Sergipe, Ipojuca e Fernando de Noronha (Schalkwijk, 1986: 104). Dos índios da tribo potiguar, seis jovens seguiram para a Holanda, entre eles, o índio Pedro Poti. Lá permaneceram cinco anos nos Países Baixos, onde 60 Raylane Andreza Dias; Ester Fraga Vilas-Bôas y Tâmara Regina Reis Araucaria. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, año 15, nº 30. Segundo semestre de 2013. Pp. 45-61. Franca, Leonel (1952). O método pedagógico dos Jesuítas: O “Ratio Studiorum”. Rio de Janeiro: Agir, 1952. 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