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II DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
III Agradecimentos Um percurso desta natureza nunca se faz completamente de forma solitária. Começamos com aqueles que naturalmente fazem parte da nossa vida, e pelo caminho vamos encontrando outras pessoas a quem é importante fazer o devido agradecimento. À Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), por ter possibilitado financeiramente a execução deste trabalho. Ao Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), por me ter acolhido anos antes desta jornada e por ter apoiado esta investigação. À Professora Felisbela Lopes, por ter acreditado na minha iniciativa num percurso que se avizinhava tumultuoso, pela paciência e disponibilidade constantes nesta orientação. Ao Professor Nuno Sousa, por ter aceite, sem hesitar, orientar um trabalho que encarou com uma oportunidade de aprendizagem e pela boa disposição com que sempre me recebeu. Às professoras Sandra Marinho e Teresa Ruão, pelo carinho com que sempre me trataram, pelas palavras amigas e incentivo no momento certo. Aos jornalistas, coordenadores, profissionais de saúde e assessores entrevistados que colaboraram com este trabalho, pelas horas dispensadas e pelo contributo inestimável. À Marta, que sempre foi capaz de me fazer ver o lado positivo das coisas, pelo companheirismo de vários anos e por me considerar parte da “família de Braga”, da qual fazem parte a Bia e a Clarisse, que assistiram ao “nascimento” deste trabalho, às frustrações, às conquistas, a quem agradeço as horas intermináveis pelas bibliotecas do Porto e que, apesar de terem terminado já os seus percursos, não deixaram de me acompanhar e de me dar o impulso final. Não posso deixar de agradecer à minha família. À minha irmã, pelo ânimo das conversas ao início do dia. Aos meus pais, pela confiança que sempre tiveram em mim. A meu pai devo ainda o seu olhar apurado pelas linhas desta tese. Aos três, obrigada por nunca duvidarem de mim. Ao Luís que, apesar das muitas horas que lhe devo, não deixou de me acompanhar. E, por fim, ao Duarte, que com o seu sorriso, o seu amor e o seu carinho nunca me deixou esquecer que era ele que estava em primeiro lugar, que era ele o mais importante. Esta tese foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através da concessão de uma bolsa de doutoramento (SFRH/BD/89566/2012) no âmbito do QREN – POPH – Tipologia 4.1 – Formação Avançada, comparticipado pelo Fundo Social Europeu e por fundos nacionais do MCTES.
IV DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico. Confirmo que em todo o trabalho conducente à sua elaboração não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que tomei conhecimento integral do Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
V A Saúde nos Ecrãs Informativos da Televisão Portuguesa RESUMO O interesse crescente do público por assuntos de saúde junto dos meios de comunicação, aliado à ainda relevante audiência televisiva são dois dos principais motes para este trabalho. Esta investigação propõe-se caracterizar a informação jornalística, no campo da saúde, emitida pela televisão portuguesa, procurando perceber o posicionamento daqueles que se constituem como fontes de informação e os modos de produção noticiosa assumidos pelos jornalistas. Queremos, com o estudo de ambas as instâncias, compreender se o interesse do público está no centro das suas preocupações ou se, no meio destes processos, interferem outras variáveis. Eis aqui uma proposta que visa colmatar um vazio de investigação que caracteriza atualmente o campo das ciências da comunicação em Portugal, tendo em conta a responsabilidade social da televisão e a suscetibilidade da população à informação televisiva. Este pretende ser um contributo para a tímida literatura existente, e assim passando um retrato mais completo do jornalismo de saúde em Portugal. Os resultados da análise empírica, aliados à exposição teórica inicial, mostram um jornalismo de saúde com características específicas. Dentro do próprio jornalismo televisivo de saúde assistimos ao desdobrar de vários jornalismos, com os noticiários das manhãs a apostarem em espaços de entrevista e com uma emissão considerável de reportagens de investigação nos dois períodos subsequentes. No apuramento das fontes de informação, as camadas sociais (doentes, familiares e cidadão comum) são a cara da informação televisiva assente na saúde. Os processos produtivos derivam das características próprias da televisão, onde a imagem impera como vantagem face aos restantes meios e, em simultâneo, como uma das principais debilidades. As relações entre fontes e jornalistas apresentam melhorias contínuas, com espaço ainda para aperfeiçoamento no acesso dos profissionais das redações aos interlocutores da saúde. Estes não apontam um cenário especialmente negativo do jornalismo de saúde, mas sublinham a falta de rigor informativo. De ambos os lados se aponta a vantagem na aposta de formação tanto para jornalistas como para comunicadores da saúde de forma as minimizar as fragilidades dos conteúdos e processos de comunicação da saúde. Palavras-chave: jornalismo televisivo, fontes de informação, saúde.
VI Health on the informational screens of Portuguese television ABSTRACT: The growing public interest in health issues by the media, together with the still relevant television audience, are two of the main reasons for this investigation. This research aims to characterize the journalistic information in the health field, broadcasted by Portuguese television, trying to understand the position of those who constitute themselves as news sources and the news production ways assumed by journalists. With the study of both instances, we want to understand if the public interest is at the center of their concerns or if, in the course of these processes, other variables interfere. Here is a proposal to fill a research gap that currently characterizes the field of communication sciences in Portugal, taking into account the social responsibility of television and the susceptibility of the population to television information. This is intended to be a contribution to the small existing literature, and thus giving a fuller picture of health journalism in Portugal. The results of the empirical analysis, combined with the initial theoretical exposition, show a health journalism with specific characteristics. Within health television journalism itself, we have witnessed the unfolding of various journalisms, with morning news betting on interview spaces and with a considerable broadcast of research reports in the two subsequent periods. In the study of news sources, the social strata (patients, family and ordinary citizens) are the face of healthbased television information. The productive processes derive from the characteristics of television, where the image prevails as an advantage over other media and, at the same time, as one of the main weaknesses. Relationships between sources and journalists are continually growing, with room for improvement in the access of newsroom professionals to health interlocutors. These do not point to an especially negative scenario of health journalism, but underline the lack of informative rigor. Both sides point to the advantage of training for journalists and health communicators in order to minimize the weaknesses of health communication content and its processes. Key-words: health, news sources, television journalism.
VII ÍNDICE INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1 PORQUÊ ESTUDAR A INFORMAÇÃO TELEVISIVA SOBRE SAÚDE? .......................................... 2 OBJETIVOS E QUESTÃO DE PESQUISA ................................................................................. 5 ESTRUTURA DA TESE ........................................................................................................... 6 CAPÍTULO 1: ............................................................................................................ 9 SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA ....................................................... 9 1.1. A PRÉ-HISTÓRIA, A MEDICINA DE HIPÓCRATES, A IDADE MÉDIA E O RENASCIMENTO: EVOLUÇÃO DE UM CONCEITO ................................................................ 11 1.2. O ATRAVESSAR DO SÉCULO: DO EMPIRISMO E DA CIENTIFICIDADE DO SÉCULO XIX À SEGUNDA REVOLUÇÃO DA SAÚDE NO SÉCULO XX ......................................................... 14 1.3. OS CONCEITOS TRAZIDOS PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE E SEU DESENVOLVIMENTO ATUAL ............................................................................................... 17 EM SUMA ........................................................................................................................... 23 CAPÍTULO 2: .......................................................................................................... 25 DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS ........................................ 25 2.1. TEORIAS DO JORNALISMO: SÍNTESE DESCRITIVA .................................................. 29 2.1.1. A(S) TEORIA(S) DO AGENDAMENTO: AGENDA-BUILDING, AGENDA-FRAMING E AGENDA-SETTING ........................................................................................................................ 30 2.1.2. A ESPIRAL DO SILÊNCIO ........................................................................................... 36 2.1.3. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE E OS MÉDIA ............................................... 37 2.2. PRINCIPAIS DESAFIOS DO JORNALISTA DO SÉCULO XXI ....................................... 39 2.2.1. ORIGEM E CONCEITOS DO JORNALISMO ESPECIALIZADO ........................................ 44 EM SUMA ........................................................................................................................... 52 CAPÍTULO 3: .......................................................................................................... 54 ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE ...... 54 3.1. ORIGEM E PERSPETIVAS SOBRE COMUNICAÇÃO DA SAÚDE ................................. 55 3.1.1. O(S) CONCEITO(S) DA COMUNICAÇÃO DA SAÚDE ..................................................... 58 3.1.2. ASPETOS CENTRAIS DA INVESTIGAÇÃO NA COMUNICAÇÃO DA SAÚDE .................... 64
XIV Gráfico 26: Distribuição do tipo das fontes de informação por semestre .................................. 281 Gráfico 27: Distribuição do tipo das fontes de informação por universo RTP, SIC e TVI ............ 281 Gráfico 28: Distribuição de identificação de fontes por semestre ............................................. 283 Gráfico 29: Distribuição de identificação de fontes por universo RTP, SIC e TVI ....................... 284 Gráfico 30: Distribuição do estatuto das fontes de informação por semestre ........................... 288 Gráfico 31: Distribuição do estatuto das fontes de informação por universo RTP, SIC e TVI ..... 289 Gráfico 32: Estatuto das fontes de informação de janeiro a junho de 2013 – Televisão (universo RTP, SIC e TVI) e imprensa (Público, Jornal de Notícias e Expresso) ....................................... 308 Gráfico 33: Tipo de fonte por noticiário ................................................................................... 313 Gráfico 34: Estatuto das fontes de informação ........................................................................ 314 Gráfico 35: Estatuto das fontes de informação por noticiário – período da tarde ...................... 321 Gráfico 36: Distribuição do género informativo das peças por universo RTP, SIC e TVI ............ 326 Gráfico 37: Distribuição do tipo de peça por grupos de noticiários ........................................... 327 Gráfico 38: Distribuição da duração das peças por universo RTP, SIC e TVI ............................ 329 Gráfico 39: Localização no alinhamento por estação de televisão por universo RTP, SIC e TVI . 330 Gráfico 40: Distribuição da localização temporal dos eventos noticiados por universo RTP, SIC e TVI......................................................................................................................................... 331 Gráfico 41: Distribuição da localização geográfica dos eventos noticiados por universo RTP, SIC e TVI......................................................................................................................................... 333 Gráfico 42: Ângulo da peça noticiosa por universo RTP, SIC e TVI ........................................... 334 Gráfico 43: Distribuição dos temas por universo RTP, SIC e TVI .............................................. 336 Gráfico 44: Peças com abordagem de doenças específicas; codificação de acordo com o ICD (11ª revisão) – distribuição por universo RTP, SIC e TVI ......................................................... 338 Gráfico 45: Peças com referência a fontes de informação (número de fontes por peça) por universo RTP, SIC e TVI.......................................................................................................... 341 Gráfico 46: Distribuição do modo de citação por universo RTP, SIC e TVI ................................ 342 Gráfico 47: Distribuição da geografia das fontes de informação por emissora - 2018 ............... 343 Gráfico 48: Distribuição do tipo de fonte por emissora – 2018 ................................................ 344 Gráfico 49: Distribuição de identificação das fontes por emissora - 2018 ................................ 345 Gráfico 50: Distribuição do estatuto das fontes de informação por universo RTP, SIC e TVI ..... 348
XV Ao Duarte
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO 2 PORQUÊ ESTUDAR A INFORMAÇÃO TELEVISIVA SOBRE SAÚDE? Os estudos académicos que incidem sobre o campo da comunicação da saúde contam já com perto de cinquenta anos de existência no continente americano (Kreps, 2012a), sendo um pouco mais recentes na Europa. No panorama internacional, a proliferação da cobertura mediática da saúde e ciência médica na televisão dos EUA atingiu, nos anos 1990, um verdadeiro boom (Schwitzer, 1992). Com a disseminação desta informação nos média, o campo da saúde tornou-se, a pouco e pouco, num foco de estudo a nível internacional. Schwitzer et al., (2005) e Tanner (2004) analisaram esta mediatização da saúde enquadrada em várias vertentes, das quais destacaram o papel dos jornalistas e sua responsabilidade na cobertura noticiosa deste assunto (Schwitzer et al., 2005), bem como o papel das fontes de informação no processo produtivo dos jornalistas (Tanner & Friedman, 2011). Nesta incursão pela investigação em torno do tema, damo-nos conta de várias perspetivas sobre a importância dos meios de comunicação na mediatização informativa da saúde. Por exemplo, a realidade norte-americana mostrou, através de vários inquéritos (Schwitzer, 2009; Schwitzer et al., 2005; Tanner, 2004), que é da televisão que os cidadãos retiram grande parte da sua informação sobre saúde. De modo mais específico, quase metade dos inquiridos de um estudo de seis anos publicado em 2003 pela Kaiser Family Foundation (citado em Schwitzer, 2009, p. 13) afirmou que a televisão era “a sua mais importante fonte de notícias e informações sobre questões de saúde”. Além disso, percebemos que os próprios meios demonstram particular interesse por estas temáticas, como revela uma pesquisa da mesma organização, em conjunto com a Pew Research Center’s for Excelence in Journalism (2008), e que conta que a saúde se posiciona entre as temáticas mais noticiadas no conjunto de todos os meios (televisão, rádio, jornais e online ), num total de 26 temas. Em particular na televisão, o período analisado (entre 2007 e 2008) revela um interesse considerável dos programas de notícias noturnos pela saúde (8,3% do total de todos os assuntos noticiados), reduzindo significativamente nos noticiários das estações por cabo (1,4%). Em percursos de investigação mais atualizados, nota-se que esta veiculação e preferência da saúde nos ecrãs perdura até hoje (Gollust, Fowler & Niederdeppe, 2019). Se no continente americano estes dados são sobejamente conhecidos, em Portugal, pouco sabemos sobre o acesso dos cidadãos à informação sobre saúde. Conta-se pouco mais que uma mão cheia de estudos que nos dão algumas pistas sobre quais os meios que o público
INTRODUÇÃO 3 prefere para se informar sobre assuntos de saúde. A Sociedade Portuguesa de Oncologia publicou, em 2011, um estudo que organiza pela ordem seguinte as fontes de informação que a população portuguesa usa para obter informações sobre doenças oncológicas: televisão (74%), familiares e amigos (49,7%), internet (38,6%) e jornais (38,3%), preterindo os centros de saúde, hospitais e profissionais de saúde. De uma forma geral, os conteúdos sobre saúde na televisão portuguesa emitem-se em programas informativos e, indiretamente, em programas de ficção (Espanha, 2008). Do lado do telespectador, a televisão é “a prática comunicativa mais frequente entre os portugueses” (Espanha, 2008, p. 2095). No relatório de 2016, intitulado Literacia em Saúde em Portugal , esta preponderância mantem-se, logo a seguir aos profissionais de saúde e antes do online . Se as referências ao jornalismo de saúde na esfera audiovisual são praticamente inexistentes no nosso país, apesar de a televisão ser a “tecnologia de informação e comunicação mais difundida entre os portugueses” (Espanha, 2008, p. 2069), noutros média continuam também a faltar estudos. As pistas deixadas já por trabalhos conjuntos de investigação, como o projeto “A Doença em Notícia”, apontam no sentido de um jornalismo escrito de cobertura tendencialmente crescente desde 2008 a 2013 (Lopes, Ruão, Marinho & Araújo, 2012b; Lopes, Marinho, Fernandes, Araújo, & Gomes, 2013b), dependente de fontes oficiais e especializadas institucionais (Araújo, 2016; Lopes & Fernandes, 2012), sendo apontado ainda que a falta de conhecimento aprofundado dos jornalistas que pode ser exacerbado pela escassez de formação nesta especialidade (Ruão, Lopes, Marinho & Araújo, 2012). Sabendo que a cobertura noticiosa da saúde “promove a importância da mudança de comportamento individual na manutenção da saúde e prevenção da doença” (Howell & Ingham, citados em Hodgetts, Chamberlain, Scammell, Karapu & Nikora, 2008, p. 44), e a televisão nos dá múltiplas visões do mundo (Lopes, 2008b), assumindo um “papel enquanto mediador de informação e representações sobre saúde, medicina e prática médica” (Espanha, 2008, p. 2085), devemos lamentar a falta de uma análise e avaliação do jornalismo de saúde emitido nos blocos informativos da televisão portuguesa. Seria importante saber se a informação construída em Portugal vai ao encontro destas expectativas. Além disso, estudos recentes mostram-nos que os portugueses possuem um nível de literacia da saúde insuficiente (Costa, 2019), reconhecida pela própria Direção-Geral da Saúde, que em 2016 promoveu um programa de promoção da Literacia em Saúde, constante no Despacho
INTRODUÇÃO 4 n.º 3618-A/2016. Não sendo este o tema base do nosso estudo, não podemos descurar o papel que os próprios média possuem na informação do seu público e que, “os média tradicionais são ainda a melhor forma de chegar aos públicos menos instruídos que, de outra forma, teriam poucas oportunidades de contactar com informação sobre saúde” (Magalhães, Lopes & Costa-Pereira, 2017, p. 258). A parca existência de referências ao processo informativo na temática da saúde e a importância da televisão como um dos principais meios de difusão informativa, e ao qual a opinião pública é suscetível, levam-nos a privilegiar o estudo dos conteúdos emitidos nos principais espaços informativos da televisão portuguesa como objeto do estudo que queremos desenvolver, atendendo aí não só ao que é emitido, mas àquilo que está subjacente ao processo informativo. Sendo um campo de conhecimento que se reflete diretamente na vida dos cidadãos e, por isso, de incalculável relevância social, importa saber como se constrói esta informação, nomeadamente quais as vozes que os jornalistas procuram para delinear cada tema. Esta investigação propõe-se avaliar a informação jornalística no campo da saúde emitida na televisão portuguesa, procurando perceber os modos de produção noticiosa e posicionamento que aí têm as fontes de informação. Queremos, com este estudo, compreender se o interesse do público está no centro das suas preocupações ou se, neste processo, interferem outras variáveis. Eis aqui uma proposta que visa colmatar um vazio de investigação que caracteriza atualmente o campo das ciências da comunicação em Portugal, tendo a suscetibilidade da população à informação da televisão e a respetiva responsabilidade social. Este trabalho surge na sequência da participação no projeto de investigação “A Doença em Notícia” – PTDC/CCICOM/103886/2008, terminado em 2013 no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Queremos adaptar as suas linhas de investigação dedicadas à imprensa e transpô-las ao meio televisivo, elaborando-se, assim, um retrato mais completo do jornalismo de saúde em Portugal. É a partir da integração nesse mesmo projeto que percebemos a noção de que os média formam opiniões, influenciam atitudes e promovem o esclarecimento das populações, sobretudo num tema de evidente importância como o da saúde.
INTRODUÇÃO 5 OBJETIVOS E QUESTÃO DE PESQUISA O objetivo central deste projeto de doutoramento é caracterizar a informação de saúde divulgada nos principais espaços informativos televisivos: queremos analisar os canais generalistas portugueses das estações públicas e privadas (RTP1, SIC, TVI) e os canais de visionamento pago totalmente dedicados à informação (RTP Informação/RTP3, SIC Notícias, TVI24), fazendo um estudo desses conteúdos a vários níveis. Num primeiro momento visa-se abordar, entre outros aspetos, a temática, o ângulo noticioso, a geografia da informação e a identificação das fontes noticiosas. Numa segunda fase, proceder-se-á ao estudo das estratégias de produção noticiosa, tanto do lado das fontes como da parte dos jornalistas. Pretende-se, com ambos os processos, perceber se existe correspondência de expectativas dos dois lados, tendo como propósito apurar se se trata de um jornalismo voltado para o interesse do público ou se os processos de produção são influenciados por outras circunstâncias. Queremos contribuir, dessa forma, para aprofundar o conhecimento do campo do jornalismo de saúde em Portugal, ajudar a dotar o campo de mais qualidade, fornecer às fontes de informação estratégias de comunicação que lhes permitam melhor dialogar com os jornalistas e vice-versa, contribuindo para um melhor conhecimento do cidadão sobre a saúde. De modo mais específico, pretendemos atingir os seguintes objetivos: - Identificar e caracterizar os conteúdos sobre saúde que passam na informação televisiva portuguesa sob diversos aspetos: temas, enfoques, géneros televisivos e fontes ouvidas. - Conhecer e estudar os processos de produção noticiosa das televisões portuguesas no campo da saúde, através do olhar dos jornalistas e coordenadores dos noticiários, questionando-os sobre as perceções acerca do seu próprio trabalho e expectativas em relação às principais fontes do campo da saúde. - Apurar as ferramentas de comunicação das fontes mais citadas e saber qual é a sua perceção relativamente ao trabalho jornalístico. - Traçar a correspondência de expectativas de ambos os lados desta produção noticiosa. - Propor medidas que levem a uma melhoria do jornalismo de saúde nas televisões portuguesas e, consequentemente, da informação que chega ao público enquanto telespectador e ator social.
INTRODUÇÃO 6 Este trabalho pretende analisar os conteúdos informativos mencionados, os processos informativos que lhes subjazem, potenciando a constituição de uma ponte de diálogo entre os jornalistas que trabalham a informação sobre saúde e respetivas fontes. Queremos contribuir, dessa forma, para aprofundar o conhecimento do campo do jornalismo de saúde em Portugal e fornecer dados que os profissionais possam usar para melhorar a sua atividade jornalística e, em consequência, para um melhor conhecimento do cidadão sobre esta matéria. O arranque de uma investigação nem sempre é fácil, sobretudo no que toca à delimitação do objeto de estudo. Todavia, podemos contar com ferramentas de investigação que nos aclarem este percurso no seu início. Nesse sentido, a questão de partida apresenta-se como uma boa escolha por ser “um primeiro fio condutor” e que traduz o que o investigador pretende saber com a sua pesquisa (Quivy & Campenhoudt, 2003, pp. 31-32). Seguindo a sugestão destes autores, formulamos o propósito da nossa investigação através da seguinte questão: Quais os traços distintivos do jornalismo televisivo de saúde desenvolvido nos canais portugueses? Sabendo reconhecer a sua generalidade, somos forçados a acrescentar a esta questão principal, outras mais específicas: - Como se caracteriza a informação sobre saúde emitida nos principais noticiários da televisão portuguesa (entre 2013 e 2015, e no início de 2018)? - Como justificam os jornalistas e coordenadores as características desta informação face às particularidades do meio televisivo? - Qual a opinião das fontes mais citadas nesta informação acerca das suas características? - Que perceções têm fontes e jornalistas acerca da relação profissional de ambos e que aspetos entendem que devem ser melhorados? - Que ferramentas de comunicação adotam as fontes mais citadas? - Que traços deste jornalismo podem ser otimizados com vista a um melhor esclarecimento do telespectador? ESTRUTURA DA TESE A presente investigação está organizada em duas grandes partes:
INTRODUÇÃO 7 Parte I – Enquadramento teórico: Ao longo de 6 capítulos damos conta de um ponto de situação dos estudos desde a discussão voltada para a comunicação da saúde, até ao jornalismo especializado e centrado nesse assunto, conceito que é abordado inicialmente. Capítulo 1 – Concentra as visões sobre o conceito de saúde, sob forma de evolução diacrónica, e que servem de base a uma noção que tenha por função delimitar os temas que integrarão a análise empírica apresentada na segunda parte. Capítulo 2 – Reúne os vários aspetos que são inerentes ao jornalismo enquanto disciplina e conceito, passando pelas principais teorias e partindo para a especialização jornalística e suas condicionantes, de forma geral. Capítulo 3 – Olha para a comunicação da saúde e sua construção gradual enquanto campo do saber abrangente que engloba várias áreas, cujo princípio orientador se volta para a alteração nos comportamentos do indivíduo face à sua saúde. Destaca o jornalismo de saúde e as especificidades do conceito enquanto parte integrante da comunicação da saúde, sublinhando as condicionantes que lhe subjazem e tomando como exemplos os casos observados, sobretudo, a nível internacional. Capítulo 4 – Sintetiza o debate em torno das fontes de informação, com especial destaque para aquelas que dão voz aos assuntos de saúde. Além disso, aborda os principais problemas associados às fontes do campo da saúde na perspetiva dos estudos nacionais e internacionais. Capítulo 5 – Apresenta uma evolução do meio estudado, a televisão, sob uma perspetiva diacrónica, culminando com as especificidades do jornalismo deste meio. Capítulo 6 – Estrutura as principais singularidades do jornalismo televisivo que possam apresentar-se como desafios na cobertura de informação genérica, mas em particular aquela que se incide na temática da saúde. Explica ainda algumas opiniões sobre formatos televisivos e géneros informativos existentes na literatura, de forma a sustentar uma proposta de enquadramento dos conteúdos televisivos em cada conceito, distinguindo desta forma aqueles que serão o foco da análise empírica da segunda parte desta tese de doutoramento. PARTE II – Conjuga a apresentação dos dados com a sua análise crítica, interligando-os com as várias perspetivas dos intervenientes e construtores da informação: fontes, jornalistas e coordenadores dos noticiários analisados.
INTRODUÇÃO 8 Capítulo 7 – Apresenta a metodologia que serve de base à análise dos dados recolhidos durante os primeiros anos de investigação (2013, 2014, primeiro semestre de 2015) e durante a análise suplementar do primeiro semestre de 2018. A metodologia assenta na categorização adotada no projeto “A Doença em Notícia”, adaptada a um registo de dados para o jornalismo televisivo e com inputs da literatura consultada na primeira parte deste estudo. Capítulo 8 – Descreve as principais conclusões que derivam da apresentação dos dados resultantes da análise empírica da informação. Capítulo 9 – Analisa comparativamente a informação sobre saúde veiculada pela imprensa e televisão no primeiro semestre de 2013. Confere o primeiro semestre de 2018, para uma comparação com os dados iniciais. Isola os casos de doenças que se destacam: o Ébola (2014) e a aprovação de um medicamento inovador para tratamento da Hepatite C em Portugal (2015). Capítulo 10 - Apresenta um resumo dos pontos de vista de jornalistas, coordenadores dos noticiários em análise e fontes de informação mais citadas nesta análise, pontos de encontro e desencontro no que toca o jornalismo de saúde e opções futuras. Capítulo 11 – Confere, de forma crítica, os pontos partilhados entre a Parte I e II desta investigação face às principais especificidades do jornalismo televisivo focado na saúde, não deixando de evidenciar as particularidades e propostas existentes a nível internacional, e notadas na literatura, que são passíveis de serem implementadas em solo nacional. O capítulo termina com um grupo de recomendações que derivam de toda a análise, leituras e percurso de investigação. Capítulo 12 – Encerra toda a exposição através da resposta à questão de partida, terminando com recomendações futuras face ao jornalismo de saúde, e dirigidas aos seus principais atores, desde os jornalistas, às fontes, investigadores, entidades governativas e o público.
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 15 condicionaram o aparecimento de grandes epidemias (Albuquerque & Oliveira, 2002). Já no final do mesmo século, as condições de salubridade e a integração das práticas médicas como lugar central nas práticas de saúde foram conquistas da medicina social (Mendes Gonçalves, citado em Backes et al., 2009). Bolander (1998, citado em Albuquerque & Oliveira, 2002) situou nesta revolução da saúde um dos ramos do modelo biomédico que levou ao desenvolvimento de medidas de saúde pública. De facto, o século XIX foi profícuo em descobertas científicas que vieram dar novos contornos ao conceito de saúde e doença. A descoberta de microrganismos causadores de doenças, com Pasteur e a utilização do microscópio possibilitaram a introdução de vacinas, viabilizando a descoberta de fatores etiológicos e a prevenção e cura de doenças (Scliar, 2007). A “teoria do germe”, definida pelo modelo biomédico, associava a cada doença, “um organismo patogénico específico”, permitindo, assim, um maior conhecimento no combate às epidemias (Albuquerque & Oliveira, 2002). O surgimento da bacteriologia, que nos diz que existe um agente etiológico para cada doença e que pode ser combatido com produtos químicos (Barata, 1985), é uma das descobertas que potenciou o combate. No fundo, o século XIX assistiu a um passar da medicina de ciência empírica para ciência experimental, como o desenvolvimento de várias investigações no campo da biologia, patologia celular, fisiologia ou bacteriologia (Nordenfelt, citado em Backes et al., 2009). Manuel Trigo (2000) alude a Claude Bernard para anunciar o desenvolvimento da ciência médica a partir do modelo experimental da fisiologia, repercutida em várias áreas da investigação em medicina. Este autor, opositor dos modelos biomédicos, reconhece a influência comportamental e psicológica na etiologia das enfermidades físicas. Também neste século assistimos ao surgimento da epidemiologia e a sua ligação aos cálculos numéricos dos sinais vitais do indivíduo, por exemplo. A estatística foi aliada à pesquisa da saúde do corpo social através do estudo da mortalidade e da doença em vários países europeus. Através de vários estudos de salubridade nas populações, vão surgindo as políticas de saúde pública em países como a Inglaterra, os Estados Unidos, a Alemanha ou a França (Scliar, 2007). É durante este processo que entramos no século XX. Aliando o estudo estatístico ao desenvolvimento da bacteriologia no século XVII, encontramos algumas das influências no aparecimento do modelo comunitário procurado por Trigo (2000) na obra de Levav (1992). A manifestação deste modelo ocorre com esta criação de vários sistemas de saúde a serem inaugurados a partir do final do século XIX, com a Alemanha na linha da frente.
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 16 O modelo comunitário, afirma Trigo (2000), tem um enfoque nas potencialidades do ser saudável no aumento da economia (através da produtividade laboral) e centra-se ainda na busca de meios para assegurar a saúde pública da comunidade. Até aqui, confirma citando o mesmo autor, teria vigorado o modelo clínico, baseado na causa da doença, seu diagnóstico e sua cura, numa base comportamental reativa. No seu trabalho sobre a evolução do conceito de saúde e doença, Marli Backes et al. (2009, p. 116) afirmam que na contemporaneidade “surge a subjetividade e a complexidade, na tentativa de explicar a realidade através de modelos que procuram levar em conta as relações estabelecidas com o meio em que as pessoas vivem”. Além disso, os conhecimentos científicos do século passado, a par da própria informação detida pela população, conduziram a novas e melhoradas formas de saúde e de práticas medicinais através de tecnologias que permitiam um diagnóstico e técnicas cirúrgicas mais precisos (Mendes, 2008). No século XX, aos aspetos físicos da doença eram aliados os psicológicos, bem como o ambiente pessoal no que às causas da doença diz respeito (Mendes, 2008). Trata-se do conceito de multicausalidade , centrado na saúde enquanto equilíbrio determinado por variados fatores, onde as doenças seriam provocadas por um desequilíbrio causado por um agente etiológico, um hospedeiro ou pelo meio ambiente (Gordon, citado em Barata, 1985), numa evolução do modelo biomédico que sustentava uma relação linear entre uma causa simples e uma doença (Noak, citado em Albuquerque & Oliveira, 2002). Dina Czeresnia (2007) nota que o conceito de doença na modernidade se constitui pela análise do corpo fundamentada na anatomopatologia, ou seja, existe um conhecimento fragmentado do corpo, aspeto observado por Foucault n’ O Nascimento da Clínica . Já o modelo médico foi particularmente popular na primeira metade do século XX, sendo considerado um espelho do modelo biomédico e criticado por considerar a saúde como ausência de doença ou seus sinais e ignorar as condicionantes que estão por detrás de uma condição saudável ou de enfermidade (Schiavo, 2007). Na sua tese de doutoramento, José Ribeiro (1993) afirma que, depois de um enfoque na doença do modelo biomédico e da dizimação de grande parte das doenças (meados do século XX), a segunda revolução da saúde é, no fundo, comportamental e centra-se na saúde. É aqui que a etiologia das doenças reside. O indivíduo deveria alterar os seus comportamentos
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 17 (deixar de fumar ou adotar o hábito de fazer exercício, por exemplo) para chegar a um estado saudável (Ribeiro, 1993). Após a criação de políticas de saúde pública, já no séc. XX – depois da primeira Grande Guerra, na França, e do Serviço Nacional de Saúde (Welfare System) a estender garantias de acesso à saúde financiada pelo estado em Inglaterra, depois da II Guerra Mundial – não se tinha ainda conseguido alcançar um consenso quanto ao “conceito universalmente aceite do que é saúde” (Scliar, 2007, p. 36). É neste contexto que nasce a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial de Saúde (OMS). 1.3. OS CONCEITOS TRAZIDOS PELA ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE E SEU DESENVOLVIMENTO ATUAL A criação da Organização Mundial de Saúde, cuja definição de saúde é mundialmente conhecida e repetidas vezes citada, veio trazer alterações profundas em várias áreas da saúde. Assim, em 1946, a OMS disse ao mundo, através do documento que origina a sua criação, que a “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” (World Health Organization, 1946, p. 2). Scliar (2007) apesar de lhe apontar o reconhecimento do direito à saúde, cuja promoção seria da competência do Estado, indica ainda as críticas que lhe seguiram, derivadas da amplitude do conceito: o caráter ideal e inatingível conferido à saúde e a possibilidade de interferência do estado na vida individual sob o motivo encapotado de promoção da saúde. Outros ainda entendem o conceito como “utópico” (Huber et al., 2011; Nogueira & Remoaldo, 2010, p. 22). Com efeito, a definição, inovadora, quebrando com algumas premissas, deu lugar a várias críticas e desconstruções. Se por um lado, se enaltece o romper com antigas perspetivas (como o modelo biomédico e a sua visão negativa que entendia a saúde como ausência de doença) e a adição do estado mental no conceito, por outro, assiste-se à crítica da inclusão do bem-estar enquanto estado não mensurável e de difícil definição (Reis, citado em Mendes, 2008). A implicação de que a simples “ausência de doença” não significa a presença de saúde é encarado como positivo (Huber et al., 2011), uma vez que se deve tratar tais estados de enfermidade, dado a sua inevitabilidade (Mendes, 2008). Ou seja, “de um ponto de vista mais
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 18 realista e dinâmico a saúde não é uma condição, é uma adaptação. Não é um estado, mas um processo que adapta o indivíduo ao meio ambiente não só físico, mas também social” (Mendes, 2008, s.p.). Esta positividade reconhecida aos conceitos da OMS reside ainda na presença de certas características, ao invés da ausência de outras (Mendes, 2008). Por outro lado, enaltece-se o conceito de equilíbrio implícito nas palavras da OMS, conjugando uma interação entre fatores físicos, médicos, psicológicos, sociais e relacionados com o estilo de vida (Schiavo, 2007, p. 74). A responsabilidade pelo estado de saúde dos indivíduos passou a ser, para além do Estado – que devia garantir o seu acesso –, da própria pessoa como afirmam vários autores (Backes et al., 2009; Goldim, 1997; Reis, citado em Mendes, 2008). A criação do conceito de campo da saúde ( health field ), em 1974, por Marc Lalonde (o então ministro da Saúde canadense) assume, neste contexto, a sua importância. Lalonde diz que este campo abrange a biologia humana, o meio ambiente (do sujeito), o estilo de vida e a organização da assistência à saúde (citado em Scliar, 2007). No entanto, este último aspeto será apenas um dos componentes do campo da saúde, mas não o mais importante, já que, a título de exemplo, será mais pertinente haver água potável do que medicamentos. Scliar (2007) alerta, com estas observações, para a necessidade de medidas preventivas e não reativas na saúde. Scliar (2007) sublinha ainda que, em contradição com a OMS e já em 1977, Christofer Boorse afirmou que a saúde é a ausência da doença. Do outro lado, a OMS respondeu na Conferência de Alma-Ata (1978), responsabilizando os próprios Estados pela implementação de cuidados de saúde e destacou a importância da participação das comunidades no planeamento e “implementação dos cuidados de saúde” 2 (Scliar, 2007, p. 38). Em 1986, e com base nos progressos decorrentes da Declaração de Alma-Ata, a OMS definiu alguns requisitos para a saúde, entendida como “um recurso para a vida e não como uma finalidade de vida”, atingida, portanto, através da “paz, abrigo, educação, alimentação, recursos económicos, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade” (World Health Organization, 1986). 2 A estratégia passava por quatro pontos onde a promoção da saúde devia ocorrer: através de “práticas, exequíveis e socialmente aceitáveis”, que deviam estar “disponíveis em locais acessíveis à comunidade”, que devia “participar ativamente na implantação e na atuação do sistema de saúde”. Por último, o curso dos serviços deveria ser proporcional à situação económica do país (Scliar, 2007, p. 38).
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 19 No fundo, a segunda revolução da saúde viu desde Lalonde à declaração de Alma-Ata, passando pelas definições da OMS, a difusão dos seus conceitos (Albuquerque & Oliveira, 2002). Numa comparação com o modelo anterior, destacam-se dois conceitos inovadores: o de promoção da saúde e de estilo de vida e que “encerram implicitamente, na sua definição, todos os princípios da segunda revolução da saúde” (Albuquerque & Oliveira, 2002, s.p.). Se a primeira revolução da saúde se focava na doença, esta tem um enfoque na saúde e preconiza um retorno à perspetiva ecológica, acrescentam. Atualmente, estes conceitos não deixam cair o seu caráter plural, subjetivo e que não reúne em si a unidade de significações. Existem retornos a caracterizações feitas anteriormente, mas também novas contribuições, por vezes aliadas a outras disciplinas, e outras valendo-se apenas de aplicações empíricas ou do próprio senso-comum. José Ayres (2007, p. 45) avança várias hipóteses ao longo da sua reflexão sobre a conceção hermenêutica da saúde. Na primeira, não dissocia a saúde da doença na intenção de os definir por oposição um ao outro, ou seja, “falar sobre saúde não equivale a falar sobre nãodoença e falar sobre doença não equivale a falar sobre não-saúde”. Não há uma linearidade entre o estar saudável e o estar doente. A oposição dos conceitos dissipa, portanto, a existência de uma “dimensão positiva de saúde por trás do conceito supostamente negativo de doença” (Ayres, 2007, p. 46). Ao entender os dois termos (saúde e doença) como “construções linguísticas oriundas de esferas diversas de racionalidade” num mesmo campo da experiência humana, o autor sustenta que estes tratam de coisas diferentes, mas indissociáveis (p. 50). No final da sua busca hermenêutica do conceito de saúde Ayres (2007, p. 60) rende-se ao termo saúde como: (...) a busca contínua e socialmente compartilhada de meios para evitar, manejar ou superar de modo conveniente os processos de adoecimento, na sua condição de indicadores de obstáculos encontrados por indivíduos e coletividades à realização de seus projetos de felicidade. (Ayres, p.60) Saúde positiva, de acordo com Ferreira (citado em Mendes, 2008), é uma aproximação a nível do organismo de um estado que não apresente sintomas de doença, mais uma vez, numa definição dos conceitos por oposição. Atualmente, a longevidade surge agora em associação da quantidade à qualidade da saúde (Mendes, 2008).
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 20 Referindo-se a uma definição da saúde por várias dimensões, Ribeiro (1993, p. 12) alude, entre outras, à proposta de O’Donnel, que entende o termo como um aglomerado de cinco dimensões “cada uma delas incluindo várias áreas que devem coexistir equilibradamente”: saúde emocional (conseguida através da gestão da tensão, e gestão das crises emocionais); a saúde social (engloba as relações com amigos, a família ou a comunidade); a saúde física (reúne a condição física e os aspetos que lhe estão inerentes, como a alimentação, os cuidados médicos ou o controlo do abuso de substâncias); a saúde intelectual (tomada através da educação, da carreira e da realização); a saúde espiritual (agrupando o amor, a esperança, a caridade e o propósito). A seu turno, Rosa Mendes recorre ao conceito de Reis, que devolve a responsabilidade individual de cada um pela própria saúde: O mais alto nível de bem estar, de capacidade funcional, e de capacidade de intervenção conseguido por cada um de nós, e pela comunidade, valorizando ao máximo as nossas próprias potencialidades e enfrentando, esclarecidamente, as nossas próprias limitações e condicionalismos pessoais (psicológicos e biológicos), e também as limitações e condicionalismos ambienciais (comunitários e ecológicos), do ecossistema que nos rodeia. (citado em Mendes, 2008.) A saúde hoje produz um conhecimento vindo da praxis normal de cuidados de saúde, o que gera os vários conceitos de saúde e doença existentes, originando um conhecimento evolutivo (Nordenfelt, citado em Backes et al., 2009). Este estado normal definido por Nordenfelt, de acordo com os mesmos autores (Backes et al., 2009), é assumido pelo seu caráter mais comum, ou seja, sabendo qual o estado mais frequente chegamos ao mais saudável. Por esta volatilidade se introduz o caráter subjetivo e que vai além da biologia e da objetividade (Backes et al., 2009). Aliás, como adiantámos inicialmente, a definição de saúde e doença assume vários contornos consoante as culturas, a idade, a região, o género e goza ainda de forte influência da religião (Schiavo, 2007). O género, inclusive, determina mesmo o acesso à informação sobre saúde, “os recursos financeiros para tratamentos ou modos de resposta à doença”, ou a marginalização em doenças estigmatizantes (Schiavo, 2007, p. 87). O cruzamento da saúde com outras disciplinas permite outras abordagens. Por exemplo, se nos basearmos na epidemiologia, há um descartar das condições subjetivas ou psíquicas de cada indivíduo e um enfoque no discurso fisiopatológico do indivíduo (Castiel, citado em
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 21 Backes et al., 2009). Por sua vez, a antropologia, ao invés do enfoque na causalidade das doenças, chama a si o indivíduo enquadrado na coletividade, enquanto ser social (Samaja & Garnelo, citados em Backes et al., 2009). Nos primeiros anos do século XXI, o conceito de saúde situa no centro das preocupações os fatores ambientais colocados a olho nu pelo ambiente artificial em que hoje se vive, traduzindo-se numa “actividade cívica que se estende ao conjunto da população e abarca todos os comportamentos humanos”, conforme apontam Silva e seus colegas (2004, p. 82). Neste estudo, onde foram entrevistadas cerca de 120 pessoas sobre o seu entendimento do que é “saudável”, os resultados indicam que este se baseia numa racionalidade do senso comum ou da “lógica da vida”, diferente do conhecimento científico, por se associar à tradição, ao gosto e à “gestão dos recursos do quotidiano, sejam eles tempo, dinheiro ou ocupações.” Num estudo semelhante (Huber et al., 2016) e baseado num outro conceito de saúde que a define como “a capacidade de adaptação e autocontrolo”, perante desafios sociais, físicos ou mentais/emocionais (Huber et al., 2011), os inquiridos (desde profissionais de saúde a cidadãos comuns) defendem que esta nova noção define o indivíduo além da sua doença, focando-lhe os seus pontos fortes em vez das debilidades. Na mesma linha, Reis (2005, p. 7) alude à subjetividade do entendimento comum de doença quando faz referência à resposta de uma doente oncológica sobre a sua saúde: “sou uma pessoa muito saudável; tenho um cancro, mas sou muito saudável; sinto-me bem e consigo fazer a minha vida e aquilo que gosto de fazer!”, aliando a saúde ao bem-estar. Além disso, hoje debate-se ainda o conceito de Smart Health , associando as capacidades de busca de informação pelos cidadãos, sobretudo nos dispositivos móveis (Sampria, Mavragania, & Tsagaraki, 2016). Acrescenta-se ainda que “a presença ou ausência da doença é um problema pessoal e social. É social, pois a doença de uma pessoa pode afectar outras pessoas significativas” (Bolander, citado em Albuquerque & Oliveira, 2002). Evidenciando estudos sobre representações sociais da saúde e da doença, os autores referem que, para as pessoas leigas, os conceitos em medicina ligam-se “a significações mais latas sobre si próprias, sobre o mundo e a vida e imbuídas em sistemas culturais locais”, havendo uma diferença entre a compreensão dos processos de saúde em relação aos de doença. Além disso, estas perceções coexistem e competem, enquanto conceitos alternativos, com os significados dos profissionais de saúde,
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 22 conforme acrescentam os autores. Roxana Tabakman (2013) assume igualmente que a definição de saúde pode tomar várias formas, seja como “ausência de doenças, capacidade de realizar tarefas do dia a dia ou estado de bem-estar físico, mental e espiritual”, numa clara referência à noção dada pela OMS. Diz ainda que o próprio conceito de doença sofreu mudanças ao longo do tempo, mas não assumindo contornos positivos. “Passou de um castigo para o pecador para um resultado da vontade”, tendo em conta que o próprio jornalismo vem afirmando superficialmente que “as pessoas ficam doentes porque, em seu subconsciente, é isso que desejam. Opiniões como essa atribuem ao próprio doente a dupla responsabilidade de adoecer e se curar” (Tabakman, 2013, p. 79). No caso específico da doença, se na língua portuguesa nos referimos a doença ou enfermidade, maleita, e que querem, no fundo, significar uma mesma coisa, a língua inglesa apresenta distintas formas que, aparentando significar o mesmo, se referem a distintas formas do “estar doente”: disease , ilness e sickness . Assim, são-lhe atribuídos, respetivamente, ter uma doença, sentir-se doente e comportar-se como doente (Mendes, 2008). “Dado ser possível um indivíduo ter um bom índice de saúde e estar bastante doente ( disease ), é, também, possível conceber e intervir, simultaneamente na saúde e na doença” (Mendes, 2008). Estamos, portanto, perante uma maioria de definições que se baseiam na perceção pessoal dos indivíduos sobre saúde e doença, sendo responsáveis pelo estado individual e estando sujeitos a fatores externos que norteiam uma condição saudável. Não obstante, o próprio Estado deve assumir a garantia de condições para que os cidadãos mantenham a sua situação saudável, não descurando ainda a própria responsabilidade dos meios de comunicação na prestação de uma informação rigorosa e que permita fazer escolhas de vida salutares. Efetivamente, a nível social, os média parecem ter a sua quota parte de responsabilidade na definição deste conceito, “determinado em função do momento histórico/social, conducente à criação de expectativas e paradigmas sociais de saúde” (Carvalho, 2006, p. 20). Com efeito, os média são um dos principais disseminadores da saúde junto do público. A oferta de informação a nível digital requer alguma destreza da parte do cidadão na sua consulta (Svalastog et al., 2017). A televisão, mais do que todos, parece ter
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 23 responsabilidade acrescida por ser um dos meios mais abrangentes, tanto pelo carácter gratuito, como pela sintetização da sua informação. Nos últimos anos esta mediatização da saúde e da doença tem vindo a crescer, tanto na imprensa como na televisão, a nível nacional e internacional. Num olhar retrospetivo desta evolução conceptual, percebemos que também nos média não é clara a fronteira entre o que é ou não matéria de saúde. Por norma, a televisão, meio onde nos detemos para esta análise empírica, não reparte os seus noticiários entre secções (com raras exceções para o Desporto). No entanto, essa divisão é já visível nos sítios web das estações portuguesas e na imprensa. O único exemplo televisivo onde se percebe a existência de uma secção de saúde é a RTP, conjugando aqui várias fontes: RTP, RDP e Agência Lusa. Nos periódicos, apesar de, por norma, esta informação esteja na secção Sociedade, há alguns que demarcam desta a saúde. É o caso do Público , Jornal de Notícias e Correio da Manhã . Conseguindo, à primeira vista, fazer uma demarcação destes assuntos, publicando aqui as políticas de saúde, o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde, as dificuldades de tratamento dos portugueses, ou a investigação científica, quando a saúde se cruza com outros domínios (como o desporto ou o ambiente), essa distinção não é clara, podendo o leitor assistir ao posicionamento de informação semelhante em secções diferentes. Esta fraca demarcação de fronteiras no Jornalismo impõe uma nova conceptualização que demarque, inequivocamente, a informação sobre saúde daquela que o não é. EM SUMA Podemos retomar as palavras de Carlos Albuquerque e Cristina Oliveira (2002, s.p.), seja através do seu percurso diacrónico ou pelo entendimento atual que se faz destes conceitos, que dizem que “saúde e doença não são estados ou condições estáveis, mas sim conceitos vitais, sujeitos a constante avaliação e mudança”. A saúde foi, durante muito tempo, entendida como “ausência de doença” e a doença como “ausência de saúde”, centrando-se nas patologias e seu controle (Albuquerque & Oliveira, 2002; Mendes, 2008). Aliás, esta característica pode ainda hoje ser observada, a título de exemplo, em alguns dicionários de língua portuguesa (Correia et al., 1993a, 1993b; Dicionário da Língua Portuguesa, 2013 3 ) 4 , 3 Doença: alteração do estado normal de saúde de um ser, que se manifesta por sinais ou sintomas, que podem ser percetíveis ou não; enfermidade; mal. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2013-07-23]. Disponível na www: <URL:
CAPÍTULO I | SAÚDE E DOENÇA: CONCEITOS EM MUDANÇA 24 sendo considerada redutora (Albuquerque & Oliveira, 2002; Huber et al., 2011; Reis, 2005). Como o resumem de modo exemplar Albuquerque e Oliveira (2002), a história da saúde e da doença construiu-se através de várias significações sobre a natureza, as funções e a estrutura do corpo, as relações corpo-espírito e pessoa-ambiente, com distintas abordagens ao longo dos tempos sobre os processos de saúde e doença. A subjetividade dos conceitos é uma constante deste percurso diacrónico do entendimento da saúde e da doença, mas que nem toda a evolução consegue dissipar. Não reunindo o consenso que buscamos no que toca a uma unidade definidora, remetemos para uma definição futura a nível metodológico, da aplicação à informação televisiva dos limites da saúde. Por ora, assumimos que deva fazer parte de uma análise de informação televisiva toda a informação que seja inequivocamente ligada à saúde, desde as políticas de saúde, as várias questões de funcionamento do serviço nacional de saúde, a casos hospitalares, a tratamentos ou investigação científica, ou ainda da sensibilização popular através da doença de figuras públicas. No entanto, diariamente, surgem casos que podem suscitar dúvidas quanto ao seu enquadramento no campo da saúde, que urge precisar de definição, nomeadamente quando a saúde se cruza com outras dimensões: o ambiente, o comportamento de risco humano, ou o bem-estar. Será aqui que exerceremos um esforço acrescido para traçar a linha entre o que é ou não saúde, à luz dos conceitos definidos de saúde e doença, ligados às questões da comunicação da saúde e do próprio Jornalismo de Saúde que avançamos nas próximas páginas. http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/doen%C3%A7a>. Saúde: estado do que é são; ausência de doença; estado normal de funcionamento dos órgãos; robustez; vigor In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2013-07-23]. Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/sa%C3%BAde> 4 Doença: Alteração na saúde; falta de saúde; doença passageira, grave, perigosa, incurável. (...) É difícil estabelecer uma separação uma separação nítida entre o estado de saúde e o estado de doença. (p. 211-212) Saúde: Estado de pessoa cujas funções estão no estado normal ou não acham perturbadoras por doença alguma; vigo; qualidade do que é sadio ou são.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 31 cobertura de notícias se tornam em assuntos, do que com a relação entre os média e o público estudada tantas vezes pelos investigadores do agenda-setting ”. Nesta pesquisa, demonstraram a sua evidência através dos temas tratados em reuniões municipais, fora do contexto eleitoral que vinha povoando os estudos sobre a agenda mediática, e que se refletiram consideravelmente nas páginas dos jornais. Nesta exposição não descuraram a influência do próprio jornalista na construção desta agenda. Vários estudos subsequentes derivam e referem esta teoria do agenda building , retratando-a como a construção da própria agenda mediática. Dan Berkowitz (1987) veio confirmar a sua essência ao evidenciar a falta de diversidade das fontes de informação (com predomínio das vozes oficiais), num estudo que incidiu nos canais e nas fontes de onde provém a informação a ser utilizada por jornalistas em estações de televisão locais, e em que os resultados apontam para uma opção por notícias de rotina. Mais tarde, especificou ainda esta construção da agenda mediática através de um método chamado information subsidy e que descreve a intenção das fontes em facilitar a entrada de temas na agenda através da cedência de informação que reduza os custos e o tempo despendido pelo próprio jornalista, em específico nas televisões locais (Berkowitz & Adams, 1990). Encaramos, portanto, este como um processo que antecede o agenda setting , que exploraremos adiante, e onde estão envolvidas não só as fontes de informação, mas também os próprios jornalistas. Na verdade, são estes que, ao tomarem certos rumos na escolha da informação, a colocam na agenda mediática: uma escolha muitas vezes potenciada pela integração dos jornalistas na organização mediática. Também o público toma parte nesta relação, uma vez que não deixa de exercer a sua influência ao ter preferência por determinados temas. No fundo, a nossa convicção vai ao encontro das três filosofias apontadas por Berkowitz (1987, p. 508), sendo que a primeira retrata os jornalistas como mediadores de informação que “sustentam as suas decisões em valores profissionais”, a segunda que os identifica como subservientes à ideologia dominante, e a terceira que retrata os constrangimentos e as necessidades colocados pela entidade onde se integra o jornalista. Ou seja, são identificados outros condicionamentos para a construção da agenda, como os valores profissionais dos jornalistas, a ideologia dominante da sociedade e a própria organização onde estão integrados,
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 32 estando sempre inerente a um estudo sobre esta matéria a consideração do lado dos jornalistas e das próprias fontes de informação (Berkowitz, 1987). Mais recentemente, Rita Colistra (2012) questionou vários jornalistas televisivos no sentido de apurar se estas forças externas e internas aos média têm influência no conteúdo de notícias. Na perspetiva da autora, a influência que recai sobre os conteúdos mediáticos deriva, entre outros, do processo do agenda building , que “se foca em forças internas e externas que dizem aos média aquilo que devem pensar (e escrever)”, exercendo influência nos assuntos que são por eles abordados e, no fundo, construindo a agenda mediática (Colistra, 2012, p. 98). Em consonância com esta perspetiva, Andrea Tanner (2004, p. 5) explicou que o intuito desta teoria é “explicar como os jornalistas, juntamente com indivíduos e entidades externas às redações, influenciam a informação noticiosa”. O agenda-building é, no fundo, uma das teorias ligadas às fontes e à sua relação com os jornalistas, estando expressa em vários estudos, aos quais os investigadores da mediatização da saúde não são indiferentes (Tanner & Friedman, 2011), não se descurando a influência dos meios de comunicação entre si (Len-Ríos et al., 2009). Nessa mesma perpetiva, podemos assumir que são três os intervenientes decorrentes desta teoria do agenda building : os média, o governo e a sociedade que, reciprocamente, se afetam entre si (Tanner, 2004; Tanner & Friedman, 2011). A confiança noutros média e nas fontes para conseguir ideias para ‘estórias’ está ligada à teoria do agenda building ocorre numa primeira fase e engloba uma triangulação de jornalistas, fontes e audiência numa influência recíproca nos conteúdos mediáticos (conforme a perceção de Lang & Lang, de 1983, exposta por Tanner & Friedman, 2011). Especialmente no que concerne à informação sobre saúde, é possível perceber a existência de fortes indícios deste agenda building quando, por exemplo, se refere o maior recurso a médicos por parte de repórteres das estações televisivas. Isto é particularmente claro, nomeadamente quando Tanner & Friedman (2011) apontam para as possíveis ligações pessoais e mais próximas dos repórteres locais a determinados profissionais de saúde a quem, habitualmente, vão buscar informação. Ainda no que toca à saúde, nota-se mais um efeito de agenda-building: o intermédia. Ou seja, quando o que influencia a agenda mediática são os outros média (Len-Ríos et al., 2009). Não sendo uma realidade particular desta temática, a verdade é que outros investigadores não deixam de se focar a temas como a política e onde a televisão segue, de certo modo, a
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 33 agenda imposta pelos jornais impressos (Cushion, Kilby, Thomas, Morani & Sambrook, 2016). Este seguimento da agenda de outros meios de comunicação é retratado por Stephen Cushion e seus colegas (2016), através de um estudo sobre o efeito do agenda-setting intermédia na cobertura da campanha eleitoral de 2015 no Reino Unido como um dos efeitos dos constrangimentos estruturais e rotinas profissionais sentidos nas televisões, mais “óbvios” quando comparados com a imprensa, que detém um maior espaço físico para a informação do que um noticiário televisivo. O autor já havia feito referência, na obra Television Journalism (Cushion, 2012) ao facto de, desde cedo, a televisão encontrar dificuldades em resistir aos furos jornalísticos dos jornais. Esta “circulação circular de informação”, expressão da autoria de Pierre Bourdieu (1997), estende-se entre os vários meios, como os jornais e a televisão em Portugal, como apontam vários estudos (Lima, 2014; Santos, 2014). A informação é alvo desta homogeneização entre meios de comunicação, com notórios “mimetismos” entre jornais e noticiários televisivos, fruto do emagrecimento das redações e da lógica comercial vigente, ou ainda da rotinização nas redações portuguesas. No entanto, conclui a autora, que as diferenças são superiores às semelhanças (Lima, 2014). Não seguindo a mesma denominação, estes estudos mantêm a essência do processo do agenda building na sua formulação. Do ponto de vista do centralismo na teoria de agenda building , devem ainda destacar-se outras teorias que abordem a questão para além dos constrangimentos económicos ou organizacionais: além da influência do que constrói a agenda mediática, existe também a influência do que se exclui, ou o que Rita Colistra (2012) chama de agenda cutting . Ou seja, os média são levados a não considerar determinados temas para cobertura mediática, “cortando-os” da agenda mediática ( agenda cutting ). O processo pode ocorrer de três modos: “(1) colocando um assunto por baixo na agenda noticiosa (enterrando-o), (2) removendo-o da agenda quando estiver lá, ou (3) ignorando-o por completo nunca o colocando na agenda, logo à partida.” (Colistra, 2012, p. 100). Neste processo parece-nos meritório destacar, além dos óbvios condicionamentos económicos das redações, a recusa e o preconceito em usar material de relações públicas, o poder dos anunciantes ou até o poder político (Colistra, 2012). Além disso, estas fontes de influência podem também pesar no que diz respeito ao ângulo ou tom adotado para cada tema, ao construir o seu enquadramento ( frame building ) de uma forma mais favorável à sua organização ou entidade patronal e dizendo-lhes “como pensar” (Colistra, 2012).
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 34 Como temos vindo a mencionar, com base em variadas publicações sobre esta matéria, o agenda setting ocorre após o agenda building . Ou seja, esta teoria “sugere que os média dizem às pessoas ‘sobre o que pensar’” (Colistra, 2012, p. 98), traduzindo-se na suscetibilidade do público aos conteúdos mediáticos, percetível no entendimento e nas atitudes das pessoas (conforme a perceção de Lang & Lang, exposta por Tanner & Friedman, 2011). McCombs & Shaw (1972), autores da teoria, explicam o seguinte: Ao escolher e exibir notícias, os editores, as redações e os radiodifusores desempenham um papel importante na construção da realidade política. Os leitores aprendem não só sobre um determinado assunto, mas também a importância a atribuir a esse assunto com base na quantidade de informação contida em uma notícia e sua posição. (McCombs & Shaw, 1972) Outros autores são apontados por Traquina (2002b) como antecessores desta hipótese, como Walter Lipman (no livro Public Opinion, publicado 50 anos antes) , ao ter afirmado que os média são uma ponte entre grande parte dos acontecimentos e a imagem que deles faz o público. Ou de Cohen, que, em 1963, enunciou que os média, apesar de não terem o poder de dizer ao seu público o que pensar, podem isso sim conseguir indicar em que assuntos devem pensar. No entanto, numa publicação que sucede à primeira, os autores contradizem esta afirmação de Cohen, afirmando que os estudos até então publicados vêm comprovar que os média podem, efetivamente, dizer ao seu público o que pensar (McCombs & Shaw, 1993). A hipótese formulada pelos autores desencadeou várias pesquisas que se enquadram nos estudos do agendamento, conforme referem nesta publicação, e é reafirmado por McCombs (1997) 25 anos depois da formulação da teoria. Um pouco por todo o mundo, têm-se demonstrado indícios desta hipótese, concluindo que os média exercem uma influência significativa sobre a definição dos assuntos que fazem parte agenda pública. Apesar disso, diz ainda o autor, não se trata de um efeito inequívoco, uma vez que “se determinado assunto não ecoa junto do público”, que é parte integrante do processo de agenda-setting , pode não vingar na agenda política (McCombs, 1997, p. 437). Além disso, vários autores recorrem ao estudo de Shaw e McCombs como um dos pontos de discussão (Blanco & Mariño, 2008; León, 2008; Lopes, 2005; Wolf, 1995; Vincent, 2007). Um desses autores é Mauro Wolf (1995) que, nas várias correntes e teorias sistematizadas
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 35 numa das suas mais importantes obras, Teorias da Comunicação , se refere ao poder dos média junto do público que não tem ainda uma opinião formada sobre determinados assuntos e que é mais suscetível de a adaptar àquilo que é difundido nos meios de comunicação. Wolf refere ainda que, além desta mera indicação dos temas sobre os quais o público deve pensar, existe uma certa hierarquização dos mesmos. No fundo, o “ agenda-setting vê os meios de comunicação social como instâncias de (re)produção de informação que orientam as audiências para aquilo que interessa pensar e debater”, destacando o papel dos média na formação da opinião pública, como afirma Felisbela Lopes na obra intitulada A TV do Real (Lopes 2008b, p. 46). À semelhança da autora, Tânia Soares e Vanda Calado (2008) olham a realidade da informação televisiva invocando, entre outros, o paradigma de McCombs e Shaw, que interpretam de forma idêntica ao afirmarem que a informação veiculada pelos média será tida pelo público como a mais importante, não havendo lugar à formação de uma opinião propriamente dita. No fundo, dizem as autoras, colocam-se na agenda os temas que merecem estar na ordem do dia, de forma hierárquica, não esquecendo Ramalhão (2011) o facto de média conferirem visibilidade apenas a determinados assuntos. Com efeito, os estudos televisivos não são indiferentes ao trabalho dos dois autores norteamericanos. Stephen Cushion (2012) menciona uma evolução e multiplicação de trabalhos académicos sustentados no agenda-setting uma vez que não se trata mais de perceber como a agenda pública é determinada pelos média, mas como o enquadramento temático permite ao público perceber as causas e “potenciais resoluções” de informação centrada nas mais variadas temáticas. E isto acontece também com a mediatização da saúde na televisão, o que acarreta uma responsabilidade acrescida para a informação veiculada por este meio, ao ter consequências diretas no público (Gollust et al., 2019). Reiteramos a importância destas teorias na nossa análise empírica, uma vez que abordam os fatores e agentes que estão por detrás dos processos produtivos. Importa ainda mais a sua consideração na informação mediática da saúde, que pode desencadear efeitos consideráveis junto da opinião pública, tanto negativa como positivamente, e que se refletem diretamente nas suas vidas. No entanto, será necessário considerar outras teorias que complementem esta para que possamos entender o processo que traz a público determinados temas em detrimento de outros e consequente efeito na opinião pública.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 36 2.1.2. A ESPIRAL DO SILÊNCIO No que toca aos efeitos dos média na opinião pública, outra teoria veio a público pela mão da socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann (1977; 1995), numa espiral em que as opiniões silenciadas tendem a reforçar as opiniões mais sonantes. Trazida a público no mesmo ano em que foi publicada a teoria do agenda-setting (1972) no Congresso Internacional de Psicologia, em Tóquio, esta hipótese concentra-se igualmente nos efeitos que os média têm sobre o público e no predomínio da opinião dominante da qual a generalidade do público tende a aproximar-se. O silenciamento de opiniões é atribuído ao medo de isolamento de um indivíduo que tem uma opinião divergente face à opinião dominante do público, tema ao qual a autora dedica um capítulo completo no livro La espiral del silencio: Opinión pública: nuestra piel social. Parece que o medo do isolamento é a força que põe em marcha a espiral do silêncio. Correr no pelotão constitui um estado de relativa felicidade; mas se não é possível, porque não se quer partilhar publicamente uma convicção aceite aparentemente de modo universal, ao menos pode-se permanecer em silêncio como segunda melhor opção, mas continuar a ser tolerado pelos demais. (Noelle-Neumann, 1995, pp. 23, 24) De acordo com Dominique Wolton (1999, p. 116), o conceito traduz um fenómeno em que “aquele que não se sente representado nos média e na vida pública em geral, tem tendência a excluir-se, fechando-se numa espiral de silêncio e, portanto, tendo ainda menos hipóteses de ser ouvido”. Com base nesta teoria da socióloga alemã, há um entendimento, na interpretação de outros investigadores (Fragoso, 2013; Lopes, 2005), de que os média reproduzem a ordem dominante, sendo um meio para escapar ao isolamento social, bem como de promoção da coesão social. Felisbela Lopes (2005, pp. 40-41) assume que esta teoria é verificável no próprio discurso mediático, ou seja, centra-se “nas opiniões (que se julgam ser) dominantes, deixando nas margens (do silêncio) aqueles e/ou aquilo que não têm acesso ao discurso mediático.” Na área do jornalismo de saúde, focada na imprensa, diz-nos Ana Azevedo (2009, pp. 15-16) que, à luz desta teoria, “o fato de uma determinada doença não estar sob os holofotes dos
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 37 média não significa que foi erradicada ou [que] seja menos perigosa que outra, apenas não recebe a atenção e, por esse motivo, passa a não existir”, numa alusão às repercussões da falta de exploração de determinado tema, sendo remetido para o esquecimento. Outros estudos invocam esta marginalização de vozes e de temas na disseminação de assuntos específicos como a Gripe A (Lopes, Ruão & Marinho, 2010), a E. Coli (Lopes et al., 2012a), ou a generalidade dos tópicos e fontes abordados (Lopes & Fernandes, 2012; Lopes et al., 2012), pesquisas que reclamam por uma maior diversidade de perspetivas. Face aos estudos que têm vindo a ser publicados no âmbito do jornalismo de saúde, podemos estabelecer uma associação entre a espiral do silêncio e a tendência dos média de promover determinados pontos de vista, em detrimento de margens silenciadas das fontes de informação, ou do seu destaque enquanto indivíduos e não enquanto grupo, como é o caso dos doentes. 2.1.3. A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE E OS MÉDIA Se os média transmitem a opinião de uma maioria que consegue impor/passar a sua mensagem, será esta realidade transmitida a realidade autêntica? Através da sociologia do conhecimento, dizem os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann (2004, p. 29), devemos analisar a construção social da realidade e a forma como acontece essa construção, ou seja, o investigador “deve ocupar-se com tudo aquilo que é considerado ‘conhecimento’ na sociedade”. Originalmente publicada em 1967, a obra dos dois autores diz-nos que a realidade é construída pelos próprios indivíduos que a vivem e que são influenciados por ela: o conhecimento que temos da realidade é construído pela própria sociedade. Esta sociologia do conhecimento expõe, assim, uma sociedade como realidade objetiva paralelamente a uma sociedade enquanto realidade subjetiva e construída. Numa obra que se apresenta como manual da pesquisa em comunicação, editada por Klaus Jensen, um dos capítulos, assinado pela reconhecida socióloga Gaye Tuchman (2013), aborda várias teorias sobre a produção de notícias, nas quais menciona Berger e Luckmann, autores da construção social da realidade, enquadrando a este constructo, veiculado por jornalistas, nos meios de comunicação e na instituição dos média, atribuindo-lhes uma pertença à tradição da fenomenologia e etimologia.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 38 De facto, a obra de Berger e Luckmann tem sido continuamente mencionada na formulação do papel dos meios de comunicação de massas na construção da realidade (Ramalhão, 2011, p. 124; Silveira & Marôpo, 2014). Felisbela Lopes (2005, p. 454) integra o ensaio dos autores na sua própria teoria da televisão como “reprodutora de um acervo de conhecimento”. Na perspetiva da autora, o pequeno ecrã emite “um retrato reconstruído da sociedade sob a forma de uma representação simbólica daquilo que é publicamente relevante para determinado público”, podendo assumir-se a televisão como uma instituição. Nesse sentido, sustenta-se na noção instituições sociais dos autores de A Construção Social da Realidade enquanto “um conjunto particular de símbolos, uma linguagem específica e um corpo profissional próprio que se impõem a um determinado conjunto de pessoas” (Lopes, 2005, p. 454). Neste sentido, podemos depreender desta associação a particularidade inerente à televisão nesta reprodução de conhecimento. Ainda nos estudos televisivos, vários autores delegam ao pequeno ecrã um papel importante na construção social da realidade (Júnior, Siqueira & Rocha, 2013). Os autores da Universidade Federal de Pernambuco explicam o papel dos coprodutores neste processo, nomeadamente na seleção e não seleção das imagens que passam aos jornalistas. Ou seja, na nossa perspetiva desta exposição, as próprias escolhas dos profissionais determinam a forma como o telespectador vai entender a realidade que é emitida sobre determinado assunto. Estas escolhas que são, elas mesmas, fruto de uma influência de vários fatores sociais e profissionais, como por exemplo a influência do público, da concorrência ou da própria redação na qual está integrado o jornalista a quem o coprodutor passa as imagens (Júnior et al., 2013). Vanda Calado e Tânia Soares (2008, p. 2548) reafirmam o paradigma das notícias como construção, uma vez que o discurso produzido pelos meios de comunicação “não transmite directamente o significado inerente aos acontecimentos”, ou seja, “constrói a sua própria representação dos mesmos, por via de vários constrangimentos, de entre eles, aqueles que advêm da própria configuração do campo jornalístico, da sua interacção com outros campos sociais, dos constrangimentos organizativos do trabalho jornalístico e de uma cultura profissional partilhada que orienta as práticas sociais.” Num artigo que expõe o debate do jornalismo como modo de construção social da realidade , Patrícia Silveira e Lídia Marôpo (2014, p. 11) defendem que “a ideia de que o conhecimento é
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 39 fruto das relações intersubjetivas quotidianas, vinculado a um caráter cultural e histórico, desmistifica a noção da existência de uma verdade única e infalível, dando impulso à plausibilidade de reconhecimento do jornalismo como construtor social da realidade.” As autoras chamam, ainda, a atenção para a importância da linguagem, focada também por Berger e Luckmann, e seu papel na compreensão da vida quotidiana, na “sedimentação” da informação veiculada pelo jornalismo e na passagem da experiência subjetiva - “interna aos agentes” a uma realidade objetiva e a um conhecimento que não fazem parte da experiência pessoal dos sujeitos. No relatório produzido pela Fundação Gulbenkian sobre a “Ciência no Ecrã” (2012, p. 24), os autores não deixam de mostrar preocupação por esta construção noticiosa da realidade, uma vez que o modo como são construídas as noticias ou o seu posicionamento no alinhamento “pode também enviesar a real importância de uma determinada descoberta ou descontextualizá-la, gerando representações sociais dissonantes com a realidade.” Nesta discussão é comum a noção de que o jornalismo e a informação que chegam ao público são construídos (idealmente) de forma objetiva, mas não serão indiferentes à influência de várias circunstâncias subjetivas inerentes ao próprio jornalista e à organização à qual pertence. 2.2. PRINCIPAIS DESAFIOS DO JORNALISTA DO SÉCULO XXI Nos últimos anos, o debate foca-se em questões mais específicas, sobretudo em torno do fenómeno sociológico do jornalismo, das rotinas da redação, das condições laborais dos jornalistas ou da relação com as fontes, passando ainda pelo desejo de uma maior intervenção junto das entidades reguladoras e das entidades representantes dos jornalistas. As conclusões do último congresso dos jornalistas portugueses (2017), mencionadas na imprensa, corroboram alguns destes fatores, como podemos ver através da seguinte afirmação: “as condições em que se exerce hoje o jornalismo, pilar da democracia, comprometem o direito constitucional à informação, indispensável para o exercício pleno da cidadania”. 8 Com efeito, parece-nos que a incidência principal está ligada às condições de trabalho que os jornalistas enfrentam diariamente, e que estão igualmente patentes em 8 Retirado de https://sol.sapo.pt/artigo/544092/jornalistas-as-condicoes-de-trabalho-estao-a-ter-efeitos-na-qualidade-do-jornalismo-
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 40 grande parte da investigação mais recente. Além disso, as atuais condições de produção das notícias trazem consigo a necessidade de criar novas teorias em torno do jornalismo, estudando as várias especificidades temáticas, tecnológicas e os vários canais de comunicação existentes. A sistematização dos últimos 25 anos de investigação sobre jornalismo, abordada em 2010 por Rogério Santos (2010, p. 235), dá conta de uma “orientação específica para os estudos empíricos e uma orientação para as problemáticas (produção noticiosa, relação entre jornalistas e fontes, estudos de género e cultura)”. Da mesma forma, vemos os estudos volverem-se para as dinâmicas das redações e para as condições de trabalho dos jornalistas, assentes em inquéritos ou entrevistas aos profissionais, tanto a nível nacional (Garcia, 1997; Silva, 2000), como internacional (Kaiser Family Foundation & Pew Research Center's Project for Excellence in Journalism, 2008; Schwitzer, 2009). A investigação centrada no jornalismo dedica-se, efetivamente, às questões relacionadas com o contexto socio-laboral dos jornalistas. Os problemas associados à falta de uma identidade da profissão, no contexto atual, são constatados ocasionalmente. O caminho dos jornalistas para a construção de uma identidade profissional, mais do que um processo paradoxal, apresenta-se como uma realidade paralela, onde a institucionalização de um ofício, a afirmação de um conjunto de normas e regras, e a construção de um saber contrasta com a denegação deste mesmo pressuposto através da evolução tecnológica, das imposições do mercado ou de uma progressiva fragilização da própria unidade corporativa. Ancorado num ideário romântico e a uma ideologia perene, ao mesmo tempo, o jornalismo reinventa-se continuamente, explorando novas possibilidades, novos formatos e novas tecnologias. (Miranda, 2013, p. 338) João Miranda (2015, pp. 53, 54) explora a questão da identidade do jornalismo junto de autores como Meyer et al. (2012), Ruellan (1993; 1997) ou Rodrigues (2002), assumindo que esta será uma “quase profissão”, ou seja, “um ofício que, tendo percorrido todos os passos relativos à afirmação de uma profissão, encerra a incapacidade de os garantir plenamente”, já que se trata de uma atividade aberta e, em consequência, “não poderá satisfazer integralmente os critérios definidos para aferição de uma profissão”. Esta justificação lida ainda com “a falta de controlo no acesso ao ofício, a inexistência de uma formação específica
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 47 generalidade de assuntos. O seu trabalho desdobra-se em duas realidades, ou seja, em dois tipos de profissionais: os jornalistas políticos cuja especialidade é determinada região; 14 e os repórteres que dedicam particular atenção a um assunto, como a educação, o direito, a ciência ou a economia 15 . Apesar da distinção entre generalistas e especialistas, Gans (1979/2004, p. 132) afirma que “os repórteres especializados num assunto são os verdadeiros especialistas, mas mesmo eles devem abranger vastos territórios. Um repórter de ciência que é especialista em ciências naturais torna-se generalista quando remetido para uma estória sobre ciências sociais”. A especialização, diz o autor, ocorre quando o jornalista se dedica ao tema durante algum tempo e advém do conhecimento adquirido junto das fontes. Além disso, este jornalismo destaca-se na medida em que tem “outros ritmos produtivos, outros objetivos e uma temática mais ou menos sujeita à atualidade informativa; caso seja um jornalismo mais impregnado de responsabilidade social e serviço público”, por oposição à denominação de jornalismo generalista, de produção mais rotineira e submetido à “atualidade, às declarações, às fontes e versões oficiais, ao descritivo, aos topoi tradicionais, ao fecho” (Fernández, 2007, p. 146). O papel social deste tipo de jornalismo é comum ao conceito de Sáez (2006) quando diz que “o objetivo do Jornalismo Especializado é a satisfação das necessidades e interesses dos usuários dos meios, proporcionando-lhes informação útil – em sentido amplo, não na sua aceção de informação prática – na sua vida diária”. Esta necessidade de esclarecer o público está por detrás da tendência para o jornalismo especializado, já que terá um “papel de buscar, intermediar saberes especializados na sociedade” através de um discurso que transmita informação compreensível tanto ao universo científico como ao senso comum. O jornalista deve ser intermediário entre os especialistas e o público, explicando os saberes do especialista de um modo acessível ao público (Tavares, 2009). Esta perspetiva que entende o jornalista especializado como mediador já havia sido avançada no início da década de 1990, fazendo-se a ponte “entre os conhecimentos sustentados pelas elites do saber e a audiência à qual se dirige”, e devendo os profissionais ter uma noção clara de democratização da cultura e abdicando de quaisquer ambição de protagonismo, “moeda corrente nos nossos dias” 14 Podemos associar este exemplo aos correspondentes locais dos media portugueses ou, no segundo caso, aos repórteres que fazem cobertura da Assembleia da República. 15 Apesar do aumento de jornalistas especializados notado por Gans (1979/2004) nas décadas de 60 e 70, espera-se que todos sejam generalistas, inclusive numa especialidade universal: a política.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 48 (Tuñon, 1993a, p. 97) 16 . Este dever social está na origem da mudança de paradigma no jornalismo que deve evoluir de uma informação generalizada para uma informação especializada, de acordo com a antevisão de Amparo Tuñon (1993b). A necessidade de uma especialização é igualmente demonstrada por Turner e Orange (2013), quando afirmam que “o mundo moderno é tão complexo que é demasiado esperar que os jornalistas ‘saibam tudo’”. Num livro que dedicam inteiramente à especialização jornalística, os autores reúnem um painel de jornalistas, antigos profissionais e académicos para debaterem dezassete especialidades diferentes 17 . Vemos, assim, que também os dois autores vão ao encontro da noção de que a especialidade se relaciona com a temática trabalhada pelo jornalista. Mar de Fontcuberta (1993, p. 40) diz mesmo que, “quando se fala em especialização, não estão em causa os vários tipos de meio ou de audiências, mas sim os conteúdos ”. Se “especializar-se significa renunciar ao geral para se dedicar ao particular” (Obregón, 1998, s.p.), existem, certamente, diferenças entre os profissionais que se dedicam a cada uma das partes. Apesar da falta de consenso entre os autores castelhanos que estudam este conceito, parece considerar-se o jornalismo especializado da seguinte forma: Uma maneira de produzir textos jornalísticos com uns rasgos determinados, com o âmbito temático como eixo fundamental face ao geográfico, ao demográfico, ao mediático e ao metodológico. Prevalece a tematização do acontecimento, apesar do territorial e do público atuarem como moduladores do quê informativo. (Fernández, 2007, p. 137) Hector Borrat (1993, p. 83), autor reconhecido pelo seu contributo no conceito que aqui destacamos, esboça o conceito de jornalismo especializado como uma forma de produzir textos jornalísticos com coerência interna, fiéis à realidade e com “pertinência de conceitos, categorias e modelos de análise aplicados”. Diz o autor que o que os distingue verdadeiramente é esta última característica, sendo a pertinência teórica característica dos textos escritos por especialistas “com plenos conhecimentos dos saberes científicos – teóricos e metodológicos – correspondentes” (Borrat, 1993, p.83). 16 A autora identifica uma série de temas emergentes no início dos anos 90, tão diversos como a política, a cultura, desporto, saúde, tecnologia, ciência, estilo de vida, lar, moda ou passatempos. 17 Os dois editores listam especialidades que passam pelo desporto, negócios, política, crime, internacional, ambiente, automóvel, moda, gastronomia, música, media, ciência, medicina, assuntos legais, viagem, guerra e enologia.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 49 A necessidade de formação complementar é um assunto adicional discutido na academia espanhola, pelo que “a incorporação na preparação do jornalista de conteúdos formativos de campos do saber e atividades com interesse jornalístico é uma via ótima para lhe proporcionar uma formação generalista e introduzi-lo em áreas temáticas da sua preferência”, exigência feita também pelos especialistas em disciplinas que são fonte de notícias, para que a informação seja rigorosa (Fernández, 2007, p. 145). A realidade da especialização de finais do século XX exige, portanto, uma formação que permita ao jornalista adquirir “conhecimentos teóricos e técnicos que o convertam em especialista em comunicação dentro de uma secção específica da informação jornalística” (Obregón, 1998). Mas também este debate não é consensual, advogando-se que cada tema é demasiado complexo para que o profissional consiga dominá-lo, como é o caso do jornalista científico. Já Mar de Fontcuberta (1993, p. 103) evidenciava a necessidade de haver uma formação superior do jornalista atual, que deverá, assim, adquirir “conhecimentos teóricos e técnicos que o qualifiquem como especialista em comunicação numa área concreta da informação jornalística”. Este conhecimento em profundidade numa área temática acaba por tornar o jornalista num divulgador de informação fiável e, por conseguinte, num criador de opinião (Tuñon, 1993a). Ou seja, “o especialista [que serve de fonte de informação] cria a realidade; o jornalista, mais que isso, molda a opinião pública” (Tuñon, 1993a, p. 97). Apesar de haver esta tendência para os órgãos de comunicação social pedirem a especialização dos jornalistas já em finais dos anos 70, Gans (1979/2004) esclarece que as notícias são dadas, na sua maior parte, por jornalistas generalistas, sendo duas das principais justificações a razão a económica (em termos de produção, os generalistas oferecem maior número de estórias do que os especialistas) e a maior ligação ao público (lidam com maior número de temas que os obrigam a colocar questões como uma pessoa leiga, situando-os no mesmo patamar da audiência, sem ceder informação demasiado técnica). Em Espanha, este fator económico é já assinalado num texto publicado no final do século passado, quando Obregón (1998) assume que, até então, a especialização seria um “luxo próprio dos diários nacionais” e não dos regionais. Doravante seria necessário que os profissionais não se permitissem cometer erros e tampouco os leitores mereciam um jornalismo mais pobre, sendo esta a justificação para a aposta na especialização.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 50 Alguns autores distinguem, ainda, algumas particularidades consoante o meio de comunicação. Gans (1979/2004, p. 132) afirma que nem todos têm especialidades temáticas, colocando a televisão na ponta da linha mais limitada, com apenas alguns temas como ciência, saúde, ecologia e economia, e as revistas na outra ponta com as secções backof-the-book 18 , “onde os jornalistas se tornam especialistas em grande parte das estórias”. Relativamente ao caso dos meios audiovisuais, que nos interessa particularmente, M. Cébrian (2004, citado por Fernández, 2007, p. 143) afirma que “exigem a compenetração de duas especialidades: a dos conteúdos e a da linguagem audiovisual e multimédia”, deixando implícita uma maior facilidade nos meios impressos, em que os profissionais terão apenas o cuidado com a adaptação da mensagem ao leitor. A maior ligação a um grupo particular de fontes é outra das características partilhadas pelos autores quando mencionam as peculiaridades do jornalismo especializado (Cf. Capítulo 4). Herbert J. Gans (1979/2004) retrata a proximidade entre jornalistas e fontes como uma relação simbiótica, ou seja, que traz proveitos tanto ao jornalista como à fonte, num jogo de interesses que carrega perigos inerentes a tal proximidade, como veremos adiante. Sáez (2006) menciona, inclusive, a especialização das fontes de informação como exigência de jornalistas que conheçam em profundidade determinado tema para que sejam capazes de negociar com estas, sejam especialistas ou protagonistas. Ou seja, a autora vê a especialização como um tratamento específico da informação “em todas as fases de produção” da notícia: desde a seleção, à avaliação, escrita e transmissão da informação, com adequação da linguagem aos diferentes públicos, e com a devida profundidade e contexto informativos adequados ao nível de especialização da informação. Este revés da aproximação e preservação da relação com as fontes é igualmente mencionada por Turner e Orange (2013) como um dos principais riscos da especialização jornalística. Outro risco referido no livro Specialist Journalism de Turner e Orange (2013) é o aprofundamento da linguagem da especialidade de tal modo que se torna num “papagaio” ao invés de um “watchdog”. Já no final da década de 1970, Gans (1979/2004) alertava para este risco quando mencionou a necessidade de os jornalistas especializados serem capazes de comunicar com o público, havendo a preocupação dos editores de revistas para a escrita demasiado técnica dos repórteres back of the book, mencionada previamente. 18 Estórias publicadas nas revistas e que são mais curtas do que o tema de destaque, surgindo depois deste.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 51 Apesar de não se encontrar um padrão nos temas das secções definidas nos vários meios de comunicação, os textos jornalísticos são arrumados em segmentos. Na perspetiva de Obregón, estes são assuntos que respondem às preocupações de uma audiência concreta chamando a atenção ao destacá-los numa determinada secção (Obregón, 1998). Se a literatura exposta aponta para a existência e exigência de um jornalismo especializado, a realidade atual dos meios de comunicação assim o confirma. Debruçamo-nos no caso português, como exemplo dessa perspetiva. Vários estudos sobre a programação televisiva dão algumas pistas sobre uma tendência para especialização jornalística. Numa investigação centrada nos primeiros cinco anos de convívio entre a televisão pública e os dois canais privados (1993-95), Ana Paula Fernandes assinalou uma tendência da televisão para a emissão de programas especializados nas mais variadas temáticas, desde a cultura, a política, a economia, a medicina, a ciência ou ecologia, entre outras, não especificamente informativos (Fernandes, 2000). Essa concentração em programas eminentemente informativos é descrita nos estudos de Lopes (Lopes, 2005; Lopes, Loureiro & Neto, 2013a) que evidenciam vários assuntos constantes nas grelhas televisivas, como o desporto ou a política por entre outros com enfoque em temas de interesse geral. No decurso dos noticiários televisivos e radiofónicos o público não é confrontado com uma divisão específica de temas. Já na informação online das rádios e televisões portuguesas, essa separação é clara. Os sítios web das três televisões generalistas assumem, no final de 2019, uma divisão mais concreta da sua informação: desporto , país , mundo , economia , política e cultura são partilhadas pelas três estações, com algumas mudanças na designação do tema. A estas, a TVI acrescenta a sociedade e a tecnologia , remetendo a cultura para as temáticas de cinema e música ; as notícias do mundo estão na secção internacional . As rádios (Antena 1 e Rádio Renascença) organizam a sua informação online de modo genérico, com exceção da TSF que assume temáticas semelhantes às das televisões. Também a imprensa mantém uma organização semelhante nas páginas dos jornais, assumindo as revistas uma organização por rúbricas e não por temas. Na imprensa, o mercado português tem vindo a assistir ainda a uma multiplicação de publicações destinadas a públicos e temas específicos, das quais destacamos, por motivos óbvios, a recém criada Visão Saúde , publicação que, apesar de centrada nos assuntos de saúde, é destinada ao público em geral.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 52 Considerando todas as noções evidenciadas até aqui, e focando-nos na realidade portuguesa, entendemos o jornalismo especializado como aquele cujo enfoque assenta numa determinada temática (desporto, ciência, política, economia, saúde, etc.) dentro de uma publicação jornalística e usualmente assinada pelos mesmos profissionais, capazes de produzir informação numa linguagem clara e acessível ao seu público. Este tipo de jornalismo opõe-se àquele que incide em temas genéricos, habitualmente inseridos em secções como a sociedade ou de índole geográfica ( nacional ou internacional ), e distingue-se da informação prestada em publicações não produzidas por jornalistas. Concordamos, portanto, com a visão de Gans (1979/2004) acerca da especialização temática em assuntos parlamentares ou presidenciais, sustentando ainda as especialidades referidas por Turner e Orange (2013) 19 . Estamos, portanto, igualmente de acordo com o artigo 4 do artigo 13º da Lei da Imprensa, que afirma serem “publicações de informação especializada as que se ocupem predominantemente de uma matéria, designadamente científica, literária, artística ou desportiva”, por oposição às de informação geral que têm “por objecto predominante a divulgação de notícias ou informações de carácter não especializado.” Excluímos deste lote a informação direcionada a uma classe (ex.: médica) onde se publica informação muito específica e fora do alcance do cidadão comum, ainda que possa ser produzida por jornalistas. Com base neste conceito, abordaremos a especialização que é objeto deste estudo, a saúde. O capítulo seguinte explorará esse debate em torno do jornalismo de saúde, suas peculiaridades e aspetos em comum com outras temáticas, bem como as dificuldades enfrentadas pelos profissionais no exercício da atividade jornalística. Procuramos caracterizar este tipo de jornalismo na generalidade dos órgãos de comunicação, focando em especial o jornalismo televisivo de saúde em Portugal que se apresenta como o objeto central deste estudo. EM SUMA Esta exposição pretendeu demonstrar que o campo do jornalismo soma já um vasto percurso e tem vindo a conquistar o seu lugar nas Ciências Sociais e Humanas. Para a exposição 19 Recordamos que os dois editores listam especialidades que passam pelo desporto, negócios, política, crime, internacional, ambiente, automóvel, moda, gastronomia, música, media, ciência, medicina, assuntos legais, viagem, guerra e enologia.
CAPÍTULO 2 | DO JORNALISMO: CONCEITOS E PERSPETIVAS ATUAIS 53 empírica que tomará parte da segunda parte desta investigação, pareceu-nos pertinente resgatar as teorias centradas na agenda mediática e na agenda pública, uma vez que expõem, de certo modo, a forma como surgem os conteúdos nos meios de comunicação social. Da mesma forma, a teoria da espiral do silêncio vai ao encontro das investigações centradas na discussão em torno das fontes de informação, como veremos nas páginas seguintes. Além disso, não deixamos de recorrer à própria problematização em torno da disciplina do jornalismo, assistindo a uma associação constante entre o jornalismo e as outras áreas do saber, sobretudo da sociologia, no debate em torno da profissão e condicionantes que lhe são inerentes. Aliás, é uma incidência sócio laboral que tem estado na base dos vários estudos recentes, salientando as fragilidades da profissão e das condições envolventes. São estas mesmas condicionantes que queremos trazer para o questionamento das especificidades do jornalismo televisivo da saúde na generalidade da profissão e, em particular, face à imprensa. No fundo, percebemos que existe uma falta de autonomia da disciplina jornalística, que carece igualmente de metodologias próprias que conduzam as suas investigações. Na presença deste cenário, temos ainda vindo a assistir a uma tímida centralização da investigação nos casos particulares do jornalismo e em determinadas áreas temáticas, ou seja, no jornalismo especializado, aliando a este estudo as várias problemáticas que têm vindo a ser discutidas há décadas, desde as fontes de informação e sua relação com os jornalistas, às questões organizacionais, passando, ainda, pelos conteúdos transmitidos pelos média informativos e que serão expostos nos capítulos seguintes (Cf. Capítulos 3, 4 e 5). Na problematização do jornalismo especializado, colocamo-nos junto dos investigadores que sustentam uma inevitável especialização temática no jornalismo, aliada a uma especialização por meio de comunicação. A sua conjugação confere ao jornalista um perfil que lhe permite lidar com os vários constrangimentos que colocam o jornalismo especializado num patamar distinto dos temas generalistas, exigindo maior formação, maior flexibilidade para lidar com as fontes e maior dedicação ao próprio público, sobretudo num tema de natureza sensível como é a saúde.
CAPÍTULO 3: ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 55 Na continuidade desta abordagem centrada em três pilares, desvendamos neste capítulo o campo de investigação onde assenta o jornalismo de saúde: a comunicação da saúde. Importa, portanto, precisar, através de uma perspetiva diacrónica, os limites da abrangência deste conceito e o enquadramento do jornalismo de saúde na amplitude de saberes que aqui são englobadas. Em última análise, pretendemos expor o papel da comunicação da saúde, em geral, e do jornalismo de saúde, em particular, perante a sociedade, o público, o espectador. 3.1. ORIGEM E PERSPETIVAS SOBRE COMUNICAÇÃO DA SAÚDE À semelhança do próprio conceito de Saúde (Cf. Capítulo 1), as primeiras referências à comunicação da saúde remontam a Hipócrates ou a Platão (citados em Ratzan, 1994; Ratzan, Payne, & Bishop, 1996) que retrataram a importância da comunicação entre médicos e doentes, tema que perdura até hoje pelas críticas destes últimos face ao nível de comunicação dos prestadores de cuidados de saúde (Thomas, 2006). Estes pontos, distantes entre si no tempo, fazem parte de um debate mais alargado do estudo da comunicação da saúde que conta já com várias décadas como objeto de pesquisa. Com efeito, a comunicação da saúde como campo de investigação em Ciências da Comunicação começou a constituir-se na década de 1970 (Kreps et al., 1998; Freimuth & Quinn, 2004; Kreps & Bonaguro, 2009; Kreps, 2012a). O crescimento da literatura disponível acerca dos cuidados e promoção da saúde impulsionou a sua legitimação académica, tendo sido criado o Therapeutic Communication Division por vários estudiosos pertencentes à International Communication Association (ICA) (Kreps et al., 1998). O seu processo de reconhecimento como subcampo da Comunicação foi reforçado em 1975 (Freimuth & Quinn, 2004), altura em que este grupo alterou o nome para Health Communication Division , promovendo assim uma maior abrangência do campo de estudo e dos seus intervenientes, bem com implementando uma divulgação regular de informação, de acordo com Kreps (2015) e seus colegas (1998). As publicações regulares dos anuários da Comunicação deram matéria para se iniciar o enquadramento deste campo de estudo, acrescentam estes autores. Por exemplo, ainda na década de 70, foi publicada uma investigação sobre esta matéria no Communication Yearbook I (1977), seguida de um estudo sobre a comunicação médicopaciente (Ratzan et al., 1996).
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 56 Dez anos volvidos, em 1985, assiste-se a dois passos em prol desta afirmação da comunicação da saúde como campo de estudo. O interesse crescente dos académicos permite a criação da Commission for Health Communication , integrante da Speech Communication Association (Kreps et al., 1998; Ratzan et al., 1996; Schulz & Hartung, 2010). 20 No mesmo ano, foi ainda formulada uma divisão intitulada Health Communication na National Communication Association (Freimuth & Quinn, 2004), altura em que surgiram várias pequenas conferências sobre a comunicação da saúde nos Estados Unidos, seja em universidades, ou realizadas pela própria ICA, o que ajudou na implementação da investigação sobre a temática (Kreps et al., 1998). De facto, Matthew McAllister (1992, p. 195) situa nos anos 80 a origem da atenção académica por esta área, sobretudo com a “existência devastadora” da sida, bem como com “as contribuições que os estudos de comunicação podem ter no entendimento social desta condição”. Freimuth e Quinn (2004) mencionam ainda o reconhecimento deste campo do conhecimento por parte da American Public Health Association , em 1997, através da criação das secções de Public Health Education e Health Promotion . Em consequência deste percurso, as publicações sobre a comunicação da saúde não tardaram em surgir. Os primeiros três livros foram publicados nos anos 80, com vários autores, referenciados por Kreps e seus colegas (1998) e por Schulz e Hartung (2010): Kreps e Thornton ( Health Communication: Theory and Practice ), Sharf ( The Physician’s Guide to Better Communication ), ambos em 1984, ou Northouse e Northouse ( Health Communication: A Handbook for Professionals ), em 1985, seguidos por muitos outros 21 . De facto, a crescente mediatização da saúde nos anos 80 despoletou o estudo desta área em várias publicações científicas (Kline, 2006). Estes investigadores, contudo, não descuraram a importância do surgimento de revistas dedicadas à investigação científica, em específico na área da comunicação da saúde, durante o final da década de 1980 e a década de 1990. Este aparecimento foi antecedido pelo aumento particular de artigos publicados sobre a temática, em 1985, pelo Journal of Applied Communication Research (Kreps, 2015; Kreps & Bonaguro, 2009). A revista Health 20 Mais tarde, em 1992, os dois grupos uniram-se para atribuir prémios às investigações sobre esta matéria (Kreps et al., 1998). 21 Communicating with Medical Patients (Stewart & Roter, 1989), Communication and Health: Systems and Applications (Ray & Donohew, 1992), Case Studies in Health Communication (Ray, 1993), Perspectives on Health Communication (Thornton & Kreps, 1993), Effective Communication in Health Care (Munn & Metzger, 1981), Communication for Health and Behavior Change: A Development Country Perspective (Graeff et al., 1993), Communicating Effectively in Multicultural Health Care Settings (Kreps & Kumimoto, 1994), e Communication and Health Outcomes (Kreps & O’Hair, 1995) são várias obras destacadas nos anos seguintes (Ratzan et al., 1996).
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 63 a de Gary Kreps (2015), Kreps et al., (1998) e Kreps & Bonaguro (2009), que falam nos níveis primários de análise da comunicação da saúde: a comunicação intrapessoal (ligada a atitudes, crenças e valores pessoais que determinam comportamentos e decisões das pessoas, ou seja, os valores simbólicos usados para conceptualizar a saúde); interpessoal (que examina as influências dos resultados na saúde, com enfoque na relação fornecedor/consumidor); de grupo (onde se analisa a troca de informação entre grupos, como as famílias, equipas de prestação de cuidados de saúde, comités éticos, etc., e consequente tomada de decisões na saúde); organizacional (que analisa o uso da comunicação na coordenação de grupos interdependentes ou na partilha de informação dentro de sistemas de cuidados de saúde, com o objetivo de prestar cuidados de saúde de modo eficaz e prevenir riscos para a saúde); e social (incide na produção, disseminação e utilização da informação mediatizada sobre saúde, tanto a especialistas como a leigos, para promover uma informação mais esclarecedora que conduza a melhores práticas de saúde). Além destes níveis, o autor destaca ainda noutra publicação (Ratzan et al., 1996) os níveis de pequenos grupos, massas e público. Segundo este estudo, existe uma tendência dos vários autores para a comunicação interpessoal , que se foca na comunicação cara a cara entre duas ou mais pessoas, e da comunicação de massas . Outra perspetiva fala de canais usados na programação de comunicação da saúde, que vão desde os meios de comunicação de massas (meios de radiodifusão e impressos, de origem informativa e lúdica), à comunicação eletrónica (sítios web, redes sociais, etc.), intervenções baseadas na comunidade (interações em grupo, atuações ao vivo, meios de informação comunitários (rádios e jornais locais), passando pela comunicação/aconselhamento interpessoal e que difere um pouco da noção que expomos acima, já que se abrange não só a interação face a face como aquela que é feita por outras vias, como o telefone a discussão em grupo e o aconselhamento a clientes (Salem et al., citados em Bertrand et al., 2011). A eficácia da comunicação parece estar associada ao tipo de canais utilizados para disseminar as mensagens de saúde (Dutta-Bergman, 2004), devendo ter-se em consideração que estes diferem igualmente por faixas etárias e pelo contexto social (Tanvatanakul, Amado & Saowakontha, 2007). No entanto, Ratzan et al. (1996) reconhecem que a delimitação do conceito por níveis é um pouco redutora, apontando que as investigações se centram muitas vezes num só nível, ignorando todos os restantes. Ao mesmo tempo, dividem em dois blocos as definições de comunicação da saúde: as que visam o contexto da comunicação, englobando os fatores
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 64 situacionais e ambientais que a influenciam, e as que olham o tópico da comunicação, reconhecendo a comunicação da saúde em assuntos referentes a esse mesmo tema, seja qual for o contexto ou o nível de comunicação. 3.1.2. ASPETOS CENTRAIS DA INVESTIGAÇÃO NA COMUNICAÇÃO DA SAÚDE A investigação empírica enquadrada na comunicação da saúde levanta algumas problemáticas que nos parecem pertinentes quando associadas à investigação que nos propomos desenvolver. A nível académico, a comunicação da saúde é alvo de várias críticas da parte de Gary Kreps quanto às metodologias usadas e acredita ser urgente fazer uma triangulação de métodos (Kreps, 2011; 2015), construir de novas ferramentas de medição, bem como promover a abordagem de longos períodos de análise e não um só isolado, ou abandonar amostras por conveniência que não podem gerar dados generalizáveis (Kreps, 2011). Numa perspetiva complementar, Kimberly Kline (2006) faz um ponto de situação acerca da investigação sobre os conteúdos dos média populares e conclui que existem dois tópicos predominantes nos estudos sobre comunicação da saúde: assuntos sobre desafios para a saúde corporal (estados de saúde) e assuntos sobre contextos políticos e socioculturais (políticas públicas, controvérsias, situações de risco e ideologias). Nos primeiros, verifica-se uma representação imperfeita dos estados de saúde que pode afetar o seu entendimento por parte do público. Nas pesquisas que incidem nos contextos socioculturais, é notório o privilégio de certas vozes (por norma as mais hegemónicas) e marginalização de outras nos conteúdos mediáticos sobre saúde. Ou seja, respondem a interesses dos grupos intervenientes, incluindo os próprios média, que podem, portanto, afetar a cobertura que se faz destes temas sociopolíticos da saúde. Num estudo posterior, no qual faz uma síntese de várias investigações (Kline, 2011), a autora reconhece a proliferação de informação disseminada nos média populares, desde a publicidade ao entretenimento e à informação, e sua influência junto dos públicos. No fundo, conclui que existem problemas de ordem diversa no que toca à promoção da saúde já que, ao reconhecer uma representação da saúde nos média com “imprecisões, temas enganosos e problemáticos, e imagens que estereotipam e estigmatizam” (Kline, 2006, p.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 65 46), deduz um entendimento pobre desses mesmos assuntos, o que pode impedir a correta promoção da saúde junto das populações (Kline, 2006; Kline, 2011). A mesma imprecisão é reconhecida nos média informativos por Dianne Berry (2007). Por exemplo, quando abordam as doenças, não se focam nas mais prevalecentes, não apresentam uma representação variada das mesmas e tão pouco são eficazes na sua prevenção (Kline, 2006). Sobre a mesma perspetiva, Ratzan (1994) defende que um relato sobre uma doença pelos média não deve ser feito sem uma eficaz vertente preventiva (de manutenção da saúde), reclamando, assim, uma melhor qualidade em detrimento de uma maior quantidade de informação sobre saúde. Pede-se, portanto, uma responsabilidade e um papel central dos especialistas em comunicação da saúde pública na informação que surge nas notícias divulgadas pelos média, pelo que “os media tradicionais podem ser um aliado poderoso na melhoria da saúde comunitária” (Winterbauer, Rafferty, Jones, Tucker-McLaughlin & Bridger, 2014, pp. 1-3). Além disso, os estudos sobre audiências revelam que a potencialidade dos média populares não é totalmente aproveitada, tendo em conta que qualquer esforço para o seu uso como meio promocional acaba por encontrar obstáculos institucionais substanciais (Kline, 2011). A esse respeito, vários estudos apontam múltiplas reações do público a diferentes média , sejam informativos (dos quais os jornais se apresentam como os mais confiáveis) (Dutta-Bergman, 2004) ou ligados ao entretenimento, como a televisão a apresentar resultados mais negativos (de acordo com estudos citados por Dianne Berry, 2007). Numa perspetiva mais abrangente e incidente nas especificidades metodológicas das pesquisas publicadas até aos mais recentes anos, as autoras notaram uma centralização de pesquisas publicadas numa perspetiva pós-positivista (a maioritária face a outras) numa das principais revistas da especialidade ( Journal of Health Communication ), em detrimento da aproximação interpretativistica ou do pensamento crítico, de natureza empírica e que utilizam análise quantitativa (inquéritos, ou entrevistas) (Hannawa et al., 2015). Efetivamente, Heather Zoller e Mohan J. Dutta (2008) no livro Emerging Perspectives in Health Communication: Meaning, Culture, and Power , defendem que a investigação em torno desta área se tem enquadrado no paradigma pós-positivista, focando-se essencialmente nos papéis das estratégias de mensagens concretas nas definições de comunicação da saúde, dando como exemplos os sistemas de apoios sociais, interações médico-doente, campanhas mediáticas, organizações da saúde e sistemas de média). Não obstante todos os aspetos que norteiam esta matéria, uma comunicação eficaz passa por
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 66 uma mensagem clara (Schiavo, 2007; Baur & Prue, 2014). Renata Schiavo (2007) afirma-o ao mesmo tempo que defende a criação de um ambiente de receção da mensagem favorável ao seu entendimento. Daí a importância de haver estudos de audiências (Schiavo, 2007), fazendo uma adequação da mensagem aos diferentes públicos (Baur & Prue, 2014). Por outro lado, a má comunicação traz efeitos nefastos na saúde, como o caso das doenças crónicas, recuperações mais lentas ou a nível da saúde mental (Thomas, 2006). O CDC desenvolveu uma grelha de análise de mensagens sobre saúde face aos vários públicos que permite aferir sobre a sua clareza. Através dessa ferramenta foi possível verificar que o público apresenta uma melhor resposta às mensagens claras e uma consequente eficácia da mensagem divulgada (Baur & Prue, 2014). O uso das novas tecnologias na comunicação da saúde é enunciado por diversos estudos (Bertrand et al., 2011; Kreps, 2011; Kreps, 2015; Thomas, 2006; Rimal & Lapinski, 2009; Schulz & Hartung, 2010). Os novos média e as tecnologias de informação, em geral, são cada vez mais uma ferramenta fundamental na comunicação da saúde e nos seus objetivos de promoção e, inclusive, da prestação de cuidados de saúde, não descurando uma adaptação da mensagem ao meio onde é disseminada (Kreps, 2011). De forma particular, a internet tem-se constituído cada vez mais como fonte de informação sobre esta temática (Thomas, 2006; Espanha & Ávila, 2016), tanto para consumidores como para prestadores de cuidados de saúde (Kreps, 2011), sendo considerada uma fonte de procura ativa por parte dos consumidores (Dutta-Bergman, 2004) e com notoriedade destacada pelos estudiosos da área, graças à sua interatividade (Berry, 2007). No entanto, torna-se necessário distinguir os vários tipos de informação disponíveis, nem todos com o mesmo nível de qualidade (Berry, 2007), o que pode gerar ainda alguma desconfiança junto do público (Espanha et al., 2007). A este propósito, Gary Kreps (2011) chama a atenção para o contributo que a comunicação da saúde pode ter na otimização do uso destas plataformas. Num dos boletins da Organização Mundial de Saúde podemos ler que “devido à rápida mudança dos canais de comunicação, as intervenções da comunicação da saúde necessitam de fazer um esforço extraordinário para ir ao encontro do nível de uso tecnológico do público” (Rimal & Lapinski, 2009). Confirmando o aumento da divulgação da saúde pelos média, é, portanto, do lado social da comunicação da saúde proposto por Kreps et al., 1998 e Kreps e Bonaguro (2009), ou seja, aquele que incide na produção e disseminação mediática sobre saúde, que nos queremos ocupar doravante, incidindo especificamente na informação jornalística. Os estudos sobre
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 67 jornalismo de saúde trazem-nos algumas pistas sobre o tipo de informação que é divulgada pelos média, e o que subjaz essa informação. 3.3.1. O FUTURO DA COMUNICAÇÃO DA SAÚDE: ORIENTAÇÕES A CONSIDERAR Apesar do contínuo interesse dos investigadores e do crescente volume de publicações, a comunicação da saúde apresenta algumas adversidades e consequentes desafios. A evolução dos parâmetros da disciplina, a uniformização do seu conceito e inconsistência da literatura publicada e uma proporção inversa da qualidade face à quantidade são algumas das imperfeições destacadas por vários autores há já mais de duas décadas (Ratzan et al., 1996). Os mesmos autores definiam três passos práticos a serem tomados: a constituição de uma literatura substancial na área, o reconhecimento das áreas que exigiam mais atenção e investigação “para maior entendimento entre académicos e público em geral” e uma tentativa de conceder competências aos atuais alunos que mostrassem vontade de seguir esta área de investigação académica. Além disso, sendo esta uma disciplina em constante evolução, deve manter-se a multidisciplinaridade que a caracteriza, num contexto de trabalho de equipa entre os profissionais de saúde e outros intervenientes (organizações, público, grupos de pacientes), e fomentando a formação dos comunicadores da saúde para maximizar as potencialidades dos seus programas promocionais (Kreps, 2011; Schiavo, 2007). O estudo do próprio público é um dos requisitos percetíveis na literatura (Bertrand et al., 2011; Kreps, 2015), considerando que não só é um dos alvos principais da comunicação da saúde, mas um “participante ativo no processo de análise dos assuntos de saúde” (Schiavo, 2007, p. 12). Ao conhecer os destinatários destas mensagens, existe uma possibilidade maior de causar impacto de forma a que sejam adotadas mudanças relativas à saúde individual. Além disso, torna-se indispensável reconhecer e estudar o ambiente em que as pessoas vivem, já que pode condicionar a mudança comportamental desejada (Schiavo, 2007). Acima de tudo, Gary Kreps (2011; 2015) vê a necessidade de criar teorias oriundas da comunicação da saúde que tenham uma componente prática, ou seja, que sejam aplicáveis. No fundo, requer-se que uma vertente académica séria da comunicação da saúde seja capaz de produzir “estudos relevantes, rigorosos e abrangentes que gerem dados válidos, confiáveis
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 68 e generalizáveis que possam habilmente informar as práticas de saúde e de promoção da saúde” (Kreps, 2011, p. 595). Apesar de ser uma área proeminente e em desenvolvimento, que tem vindo a ilustrar “a centralidade dos processos comunicativos no alcance de objetivos importantes nos cuidados de saúde e de promoção da saúde”, ajudando a desenvolver políticas públicas na área da igualdade de acesso ou na melhoria da cobertura mediática de assuntos de saúde de extrema importância (Kreps, 2011), ainda há muito a ser feito (Rimal & Lapinski, 2009; Kreps, 2011; Kreps, 2012b). Requer-se, por isso, uma aliança entre o campo académico, os prestadores dos cuidados de saúde e o próprio público (Kreps, 2011), apostando na criação de campanhas sofisticadas e no aproveitamento dos recursos públicos canalizados para a investigação nesta área (Kreps, 2015). Além de tudo isto, consideramos importante reforçar a pesquisa oriunda do continente Europeu, de modo a dissipar a tendência para a concentração de estudos nos Estados Unidos, onde teve a sua origem. Para tal, torna-se necessário concentrar a investigação emergente pela fundação de associações ou grupos de estudo, ou observatórios numa congregação de várias instituições académicas, inclusive de vários países, como é o exemplo do projeto HeaRT – Health Reporting Training Project , que reuniu investigação de vários países europeus de modo a tecer sugestões para um ensino do jornalismo de saúde (Kilgus, 2011). Além disso, é desejável uma colaboração à escala global, “onde os estudiosos da comunicação da saúde trabalhem em cada canto do mundo para promover os melhores usos da comunicação de modo a abordar assuntos de saúde prementes e melhorar os resultados de saúde de forma dramática” (Kreps, 2012b, p. 496). Há, portanto, um longo caminho a percorrer no sentido de construir uma base sólida em torno da investigação centrada na comunicação da saúde, sobretudo em países como Portugal onde, por ora, está numa fase muito incipiente e dispersa. Como verificámos até aqui, uma das componentes da comunicação da saúde é a veiculação das mensagens através dos meios de comunicação social. É esta componente que tratamos a seguir e que justifica a importância da literatura aqui exposta, pelos objetivos centrais que lhe são inerentes, pelos obstáculos que enfrenta e pelas implicações diretas que tem junto do público alvo, fatores que se refletem no jornalismo de saúde, com toda a sua complexidade e particularidades, sobre as quais nos debruçamos a seguir.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 69 3.4. O JORNALISMO DE SAÚDE: SINGULARIDADES DE UMA ESPECIALIDADE Como tivemos oportunidade de observar, os autores que se debruçam sobre o conceito de jornalismo especializado encontram um entendimento de que é a temática que define a especialização no jornalismo (Fernández, 2007; Gans, 1979/2004; Tavares, 2009), posição igualmente referida na Lei da Imprensa. Além disso, a especialização possui contornos específicos face a um jornalismo generalista (Fernández, 2007; Fontcuberta, 1999; Sáez, 2006; Tuñon, 1993a; Turner & Orange, 2013). Nesse sentido, a própria noção de jornalismo de saúde pode encerrar particularidades inerentes à sua evolução no contexto social da profissão dentro desse mesmo assunto. Partimos, então, do conceito de Gary Schwitzer (2009), que enquadra nas expressões “jornalismo de saúde”, “notícias sobre saúde” e “informação sobre saúde” um vasto leque de informação jornalística que engloba as políticas de saúde, prestadores de cuidados de saúde, saúde pública, investigação científica na área da medicina e assuntos de saúde individuais. Na investigação gerada no campo das Ciências Sociais, o lugar do jornalismo de saúde e seus subtemas afigura-se menos volumoso. Os temas que englobam as ciências médicas parecem reunir parte significativa das preocupações dos investigadores há já vários anos, com o estudo de informação jornalística trazida a público desde os anos 1960 (Corbett & Mori, 1999 27 ; Flack, 1964) e 1970 (Cho, 2007 28 ; Greenberg & Wartenberg, 1990 29 ) a 1990 (Trigt, Berg, Haaijer-Ruskamp, Willems & Tromp, 1994 30 ). Dentro das pesquisas sobre a saúde nos média informativos, é precisamente na área da investigação científica que alguns autores (Tabakman, 2013; Whitaker, 2013) situam os primeiros indícios desta especialização. Em 1978 começam a ser publicadas notícias sobre avanços médicos na secção de Ciência do New York Times , tendo esta matéria sofrido uma expansão posterior nos media um pouco por todo o mundo (Tabakman, 2013) 31 . O impulsionamento desta cobertura tem como condicionante o volume de descobertas 27 Corbett e Mori (1999) analisaram a cobertura do cancro da mama nos media de informação médica e os de caráter jornalístico norteamericanos de 1960 a 1995. 28 Sooyoung Cho (2007) estudou a mediatização da cirurgia plástica nos noticiários norte-americanos da ABC, CBS, NBC, Fox e CNN. 29 Greenberg e Wartenberg (1990) estudaram a mediatização das doenças infetocontagiosas no prime-time informativo dos Estados Unidos da América, de 1978 a 1987. 30 Trigt et al. (1994) debruçaram-se sobre a cobertura holandesa da saúde nos jornais holandeses entre junho e setembro de 1991. 31 A autora brasileira, no livro intitulado A Saúde na mídia, descreve um decréscimo neste crescimento dentro de secções específicas, mas que vingou através da presença noutras secções mais genéricas e graças à preferência do público (Tabakman, 2013).
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 70 científicas que surgiram na primeira metade do século XX, o que levou os jornalistas a divulgar este progresso, criando uma apetência por mais informação junto dos editores e do público, como consta no capítulo sobre Reportagem médica redigido pelo ex-repórter de ciência, Robert Whitaker (2013) para a obra Specialist Journalism (Turner & Orange, 2013). Esta multiplicação de estórias com enfoque na saúde atingiu um boom em 1990, especificamente na informação televisiva nos Estados Unidos 32 , altura em que se nota até a existência de jornalistas de saúde a tempo inteiro nas estações de televisão locais daquele país, além de repórteres que são também médicos. Esta é a perspetiva de Gary Schwitzer (1992), autor que se tem vindo a dedicar ao estudo das notícias sobre os avanços científicos da medicina na televisão norte-americana. A existência destes correspondentes denuncia um caráter “híbrido” do jornalismo de saúde em que são combinadas as normas comunicativas do jornalismo com as da medicina e da saúde pública (Hallin & Briggs, 2014). Em território europeu, vários estudos apontam para uma preocupação com a mediatização da saúde no início da década de 1990 (Trigt et al., 1994 33 ; Tuñon, 1993a), fruto das crescentes descobertas científicas no campo da saúde e consequente exigência informativa de uma sociedade com gostos diversificados (Tuñon, 1993a). Ocorre, portanto, um impulso no jornalismo científico e tecnológico, uma “especialidade em auge” que deixa de reservar esta informação para as elites daquela área de conhecimento (Tuñon, 1993a, pp. 88, 89). Este aumento do volume de notícias sobre saúde ocorre também ao longo da primeira década de 2000 nos meios de comunicação espanhóis (Saiz, Markina, Yarza, López & Eizaguirre, 2014), motivado pelo crescimento económico e o aumento do público alvo junto da população mais envelhecida, ávida destes conteúdos, e do público com “exagerado” culto do corpo, que busca informação sobre nutrição, sexualidade e estética. O ponto de viragem deste aumento é marcado pelo Síndrome Tóxico e o VIH-Sida nos anos 80 (Saiz et al., 2014). Em Portugal, desconhecendo-se a origem da aposta no jornalismo de saúde, é hoje assinalável a proliferação desta temática nos vários meios de comunicação social da área (Aroso, 2013; Silva, 2011) ou em meios específicos, como é o caso da imprensa (Araújo, 2016; Gomes, 2018; Lopes et al., 2013b). Pedro Alcântara Silva (2011) situa o início do interesse dos estudiosos na cobertura do sistema de saúde no trabalho de Cabral, Silva e Mendes, de 2002, 32 Na revisão da literatura sobre o jornalismo especializado em saúde não encontramos muitas pistas acerca da origem desta matéria nos media noutros casos internacionais. Esta lacuna é verificada também no caso português, apesar de começarem a ser mais frequentes os estudos nesta área. 33 Trigt et al. (1994) debruçaram-se sobre a cobertura da saúde nos jornais holandeses entre junho e setembro de 1991.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 71 intitulado Saúde e Doença em Portugal – Inquérito aos comportamentos e Atitudes da População Portuguesa Perante o Sistema Nacional de Saúde , cujos principais resultados sugerem uma possível influência da comunicação social no público não-utente dos serviços de saúde, que detinha uma opinião mais negativa sobre os mesmos, originada pelos média. Efetivamente, Silva (2011, p. 3) reitera a influência mediática no público, enquanto formador de opinião, detendo assim um “papel crucial nas representações que os portugueses têm do sistema de saúde”. Muito do conhecimento e da percepção que a população possui do funcionamento do sistema de saúde e dos cuidados médicos em Portugal depende amplamente das representações que a comunicação social transmite, quer pela centralidade que os meios de comunicação assumem na vida de cada pessoa (...), quer pela óbvia relevância que a saúde e a doença se reveste para qualquer pessoa, num processo simbiótico onde os mass media devem ser entendidos, simultaneamente, enquanto produto e produtores do meio social em que operam. (Silva, 2011, p. 4) O aumento da cobertura desta temática parece, portanto, ser óbvio para estes investigadores, tanto no continente americano, como na Europa. Além dos motivos apontados, existe outra constatação baseada nas implicações económicas que esta informação traz aos órgãos de comunicação. Num texto que conjuga vários autores, liderados por Gary Schwitzer (Schwitzer et al., 2005, p. 0579), Maria Simbra afirma que “não é segredo nenhum que a saúde vende”, ao ponto de os média começarem a superar os clínicos como fonte de informação. Sabendo disso, os produtores e diretores de informação aproveitam para conseguir maiores audiências para os seus noticiários, levando a bom porto essa intenção, de acordo com a autora. Além disso, na perspetiva de Sweet, autor do mesmo texto, também não é segredo que “o principal objetivo da indústria mediática é fazer lucro” (Schwitzer et al., 2005, p. 0580). No entanto, acrescentam Maria Simbra e Gary Schwitzer (Schwitzer et al., 2005), isto traz responsabilidades acrescidas para a transmissão de informação rigorosa e clara. Acrescenta Schwitzer (Schwitzer et al., 2005) que é necessário explicar ao público os caminhos que conduzem a decisões políticas e investigações científicas, assumindo os jornalistas um papel de educadores. Comungando desta perspetiva, vários autores espanhóis indicam ainda que “os meios de comunicação são os ‘motores’ da educação em saúde da população”, e que é através desta vertente educativa que a informação de saúde poderá ter um impacto nos
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 72 comportamentos e práticas individuais do público face à sua saúde (Saiz et al., 2014, p. 139). Este mesmo papel de educadores é reconhecido pelos vários profissionais entrevistados por Saiz e seus colegas (2014), desde jornalistas de saúde a diretores de centros de saúde, num trabalho sobre a qualidade da informação na imprensa vasca. No entanto, os autores constataram que falta essa componente educativa a uma expressiva percentagem de artigos abrangidos pela sua análise de conteúdo. A necessidade de “melhorar a qualidade de informação dos meios é, portanto, uma maneira indireta de melhorar a atenção dos próprios pacientes”, e esta pode ser conseguida não só aperfeiçoando a formação dos médicos, mas também fazendo com que “as sociedades científicas utilizem um novo enfoque comunicativo que chegue à sociedade” (Tabakman, 2013, p. 19). Sabe-se que, a partir de uma investigação baseada num inquérito à população norte-americana, depois dos médicos, o público tem alta confiança na informação sobre saúde prestada pelos média, sobretudo os meios online (Hesse et al., 2005), que começaram a ser um dos canais de informação de eleição para os cidadãos (Tanvatanakul et al., 2007). Esta proliferação de informação jornalística sobre saúde tem vindo a ser acompanhada do interesse dos estudiosos das Ciências Sociais, como constata Kimberly Kline (2006) na sua sistematização das investigações realizadas no virar do milénio. Efetivamente, regista-se o aumento do enfoque das pesquisas científicas nas matérias noticiosas sobre saúde e doença, veiculadas pelos média populares no início da década de 80 (Kline, 2006). Kimberly Kline (2006) divide os estudos da década que antecedeu este trabalho em vários temas 34 , numa exposição que nos parece redutora por excluir, por exemplo, a visão do público. Na nossa perspetiva, existe a necessidade de incluir alguns tópicos adicionais: o olhar do público sobre a informação jornalística centrada na saúde, críticas de conteúdo informativo, fatores condicionantes impostos pelo tema à profissão, condicionantes decorrentes das fontes de informação, bem como o olhar do público sobre a informação jornalística centrada na saúde e estudos de caso (doenças ou outras situações específicas). Nas próximas páginas prestaremos especial atenção a estas temáticas que propomos, destacando as especificidades do meio televisivo e da informação sobre esta matéria. 34 A autora distingue dois grandes temas nas investigações sobre conteúdos mediáticos na área da saúde: desafios da saúde corporal; assuntos do contexto políticos e sociocultural.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 79 ( life style ) 38 e a uma maior permeabilidade a fontes que fornecem informação pronta a ir para o ar. Além disso, os constrangimentos de tempo, apesar de não serem exclusivos da saúde, tampouco lhe são indiferentes, com os deadlines a ditarem um período insuficiente dos profissionais (Henry & Wilson in Schwitzer et al., 2005; Tabakman, 2013; Tanner, 2004; Wang e Gantz, 2010), lacuna que se associa à falta de verificação da informação. Face a este cenário, a aposta na diversidade de fontes de informação pode ser uma das armas contra esta falha do jornalismo de saúde (Saiz et al., 2014). Vários autores oriundos de países distintos concentram as suas investigações noutras limitações profissionais do jornalismo de saúde, apresentando visões concordantes. Larsson, Oxman, Carling, e Herrin (2003) resumem os constrangimentos dos jornalistas de saúde à falta de tempo e espaço e a dificuldade em dominar a terminologia científica. Com um enfoque direcionado para a cobertura da gripe das aves na Austrália e, após entrevistas a jornalistas que fizeram esse trabalho, Leask, Hooker e King (2010, p. 5) chegaram à conclusão que “os constrangimentos temporais e o acesso aos recursos e a especialidade técnica da linguagem permanecem como os maiores problemas para os jornalistas na produção de ‘estórias’ sobre saúde e medicina de grande qualidade”. Em concordância com os autores, outros trabalhos indicam que estes problemas se mantêm há vários anos e noutros países. O emagrecimento das redações, associado aos deadlines , deixa os jornalistas com um tempo reduzido para refletir nas suas estórias, estando mais recetivos a press releases bem redigidos e que chegam de grandes empresas de relações públicas americanas (Henry & Wilson in Schwitzer et al., 2005). “E mesmo quando têm tempo, os jornalistas enfrentam dois grandes desafios – a compreensão da ciência clínica e epidemiologia e lidar com interesses velados e poderosos” (Henry & Wilson in Schwitzer et al., 2005: e215). As pressões comerciais são ainda comuns a vários autores (Henry & Wilson; Sweet; in Schwitzer et al., 2005) que acusam as empresas mediáticas de olharem apenas aos lucros do seu produto. As pressões económicas são mais evidentes nas estações locais que, apesar disso, parecem ser o meio mais solicitado pelo público dos Estados Unidos para se informar sobre saúde. Esta pressão da indústria resulta, portanto, numa informação simplificada ou mesmo sensacionalista (Simbra in Schwitzer et al., 2005). 38 Com as edições online , não deixa de ser frequente a publicação destas estórias em publicações como os jornais de referência portugueses e as revistas semanais, partilhadas ainda nas redes sociais.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 80 Muitas das condicionantes da informação relativa à saúde têm uma vinculação específica à cobertura de casos ligados à ciência, nomeadamente à investigação médica de doenças, escapando desta crítica os temas relacionados com as políticas de saúde. Esta preocupação relaciona-se com a difícil terminologia científica (Henry & Wilson in Schwitzer et al., 2005) que pode condicionar a precisão dos factos ou implicar uma permeabilidade excessiva da informação jornalística ao discurso das fontes de informação. “A necessidade de explicar os termos da área é talvez o maior diferencial do jornalismo de saúde” e por norma há uma exigência dos profissionais de saúde para que as matérias sejam compostas com esses mesmos termos (Tabakman, 2013, p. 63), como veremos adiante. No entanto, pede-se agora aos jornalistas que, perante o jargão científico, se tornem eles próprios especialistas, deixando de ser investigadores para serem “tradutores” (Whitaker, 2013) ou “descodificadores de vocabulário, conceitos e discursos técnicos” (Vasconcelos, 2005, p. 248), ou ainda mediadores (Tomé, 2013). Esta é uma das especificidades do jornalismo de saúde que não se encontra, por exemplo, na política, na economia ou num tema genérico (Whitaker, 2013). Cientistas e jornalistas reúnem uma série de contrastes, de acordo com os estudos citados por Schünemann (2013). Têm, sobretudo, tempos, prioridades e vocabulário distintos, com a comunidade científica a ser menos veloz, mais preocupada com detalhes e termos precisos, e o campo do jornalismo a depender de prazos, a ter de dar uma ideia genérica e interessante sobre os temas. No fundo, “o jornalismo de ciência é um ponto de encontro entre duas culturas muito diferentes” (Schünemann, 2013, p. 144). A falta de tempo é também uma condicionante deste tipo de matérias, impedindo os jornalistas de procurar mais informação além da que recebem através dos artigos científicos e confiando na qualidade do peer review . Raras vezes procuram a conversa com o autor, feita para confirmar ou humanizar a informação que escrevem (Entwistle, 1995). Já Wilson et al. (2004) enunciam as dificuldades dos jornalistas na cobertura de potenciais riscos para a saúde no que toca à doença de Creutzfeldt-Jakob na imprensa escrita do Canadá, estudada num período de dez anos. Neste caso particular, a falta de tempo para explorar a informação científica sobre a doença foi um dos desafios apontados. No fundo, os autores recomendam a aposta, sempre que possível, de confirmação junto de publicações científicas, dando igual oportunidade ao leitor de as consultar, bem como uma aproximação entre jornalistas e fontes especializadas do meio académico que dissipem as barreiras de tempo e falta de conhecimento científico dos jornalistas. Da parte dos especialistas, deve
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 81 haver maior sensibilização para as condicionantes jornalísticas implicadas na mediatização de matérias de risco público. Os autores apelam ainda às publicações científicas para que enviem comunicados compreensíveis aos meios de comunicação social, mas relembram os perigos de confiar apenas em comunicados para determinada estória. Por último, queremos chamar a atenção para uma especificidade ligada à televisão. Um dos seus pontos fortes em relação aos restantes meios é a imagem, e é nesse sentido que vários estudos se centram para referenciar constrangimentos adicionais a este meio, face aos restantes. Portanto, as limitações técnicas das televisões, como a falta de recursos de vídeo, também condicionam o tipo de estórias que são emitidas (Tanner, 2004), voltando o olhar para assuntos que impliquem uma cobertura com fácil acesso a imagens e renunciando a assuntos mais relevantes para o público, mas que implicam dificuldades ou impossibilidade na recolha de vídeo (Tanner, 2004). Esta dificuldade, elucidamos, refere-se à captação de imagem em situações de fragilidade de doentes, em espaços que exigem autorizações superiores para entrada de câmaras de televisão (como é o exemplo dos hospitais), havendo mesmo um efeito de inibição potencial das fontes de informação perante uma câmara de televisão. Com efeito, esta mesma situação é denunciada no estudo da mediatização da saúde na televisão australiana (Leask et al., 2010), onde se constatou que a disponibilidade e vivacidade de imagens foi um forte condicionante na emissão ou não de determinada estória ou na sua proeminência. Estas questões profissionais dos jornalistas acabam por ter repercussões nos conteúdos oferecidos ao público. Nesse sentido, vários autores voltaram-se para a análise dos problemas associados à informação que os vários média trazem a público, numa especial incidência na mediatização da ciência e dos avanços científicos. Uma das grandes críticas passa pela falta de referência aos custos dos tratamentos e intervenções, bem como o desequilíbrio entre riscos e benefícios dos mesmos ou os seus efeitos colaterais (Schwitzer, 2009; Schwitzer, 2014 39 ; Rogers, citado em Tabakman, 2013). Além disso, de uma forma generalizada, falha-se na tentativa de explicar procedimentos complexos como são exemplo os ensaios clínicos, na qualidade da evidência referida nos 39 Os critérios de revisão avaliavam se cada notícia (1) discutia apropriadamente os custos da intervenção clínica; (2) mencionava os benefícios (3) face aos riscos da intervenção; (4) verificava a qualidade dos dados científicos; (5) mencionou os limites associados ao diagnóstico de determinada doença e consequente promoção da sua conscientização pública, sem influenciar o mercado de tratamentos, ao criar uma alarmismo face a certa doença; (6) citavam fontes independentes e tinham em consideração os conflitos de interesse face às fontes; (7) opunham cada nova abordagem às alternativas existentes; (8) mencionavam a disponibilidade da intervenção; (9) verificavam a novidade das abordagens; (10) denunciavam uma confiança depositada num comunicado de imprensa.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 82 estudos e a comparação de uma nova abordagem com as respetivas alternativas (Schwitzer, 2014). Estas tendências prejudicam claramente a credibilidade da informação prestada pelo jornalista (Schwitzer, 2004). Com efeito, a informação sobre avanços científicos é importante e pode ser feita através da citação de investigações passadas ou de investigadores independentes, sendo de extrema importância haver uma contextualização da informação, o que nem sempre é fácil (Mudur in Schwitzer et al., 2005). Esta exacerbação da cura traz a reboque um toque sensacionalista das matérias e o espetáculo da doença nos pacientes que são figuras públicas ou, no caso contrário um alarmismo social, além da publicidade a medicamentos, produtos e serviços de saúde disfarçada na informação (Aroso, 2013). Esta é uma das principais ameaças ao jornalismo de saúde, onde a indústria farmacêutica pode incentivar financeiramente os clínicos para que exagerem nos benefícios de certos medicamentos, resultando este procedimento numa desinformação do público (Whitaker, 2013). Sustentando estes resultados, Kimberly Kline (2006) refere que a informação sobre produtos sem aprovação da Food and Drug Administration , instituição americana que regula a investigação na área da medicina, é feita como se esta fosse acontecer em breve. O autor acredita que ao invés de apontarem suposições sobre determinado produto e respetivas vendas, os jornalistas deviam focar-se nos prós e contras do mesmo, explicando as fases de um ensaio clínico, obstáculos, factos desconhecidos e potenciais problemas. Além destas, outra inquietude referenciada pelo estudo acima descrito é a difícil correspondência entre a informação prestada pela comunidade científica e o que surge nos meios informativos, de acordo com a sistematização feita por Kimberly Kline (2006). Estes são alguns dos problemas avançados também por Schwitzer (2004) 40 sobre o que é emitido em algumas estações televisivas locais de Mineápolis-St Paul (Minnesota) 41 , e que tanto afetam as televisões locais como as de âmbito nacional (1992). Na lista de Schwitzer (2004), cabe ainda uma associação entre a brevidade das peças noticiosas e a difícil captação do seu significado. Apesar de integradas em segmentos como Lifetime Minute (Minuto de 40 Os dez itens são a brevidade das peças, a falta de dedicação a tempo inteiro dos jornalistas à saúde/medicina, dados que suportem reivindicações sensacionalistas da comunidade médica/cientista, hipérbole na informação, comercialismo, estórias de uma só fonte, previsões de tratamento sem base científica básica, entendimento da aprovação da Food and Drug Administration (FDA) como um mero passo burocrático, pouca cobertura das políticas de saúde, informação de agenda sem origem na própria redação. Consideramos, por ora, aquelas que se referem aos conteúdos, deixando a referencia à problematização das fontes para o capítulo referente a essa temática. 41 Apesar de ser um estudo focado numa área geográfica específica dos Estados Unidos, o autor afiança a sua representatividade destas práticas jornalísticas em toda a nação.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 83 Vida), esta é uma promessa que fica por cumprir. O autor lança até o desafio de tentar explicar um artigo científico em 90 segundos (Schwitzer, 1992). Também jornalistas entrevistados por Tanner (2004) assinalam que as suas peças têm uma duração entre um minuto a minuto e meio, tempo que reduz para uma média de 33 segundos num estudo realizado dois anos mais tarde e que incidiu igualmente na transmissão de informação jornalística nas televisões locais (Pribble et al., 2006). À semelhança de Schwitzer (2004), Wang e Gantz (2007; 2010) assinalam a curta duração das peças noticiosas que fizeram parte do seu corpus de análise, mas assumem que esta é uma característica generalizada às outras temáticas dos noticiários televisivos. Na televisão australiana esta característica é também assinalável nos resultados do estudo de Chapman e seus colegas (2009), com a informação de saúde a ser resumida em peças com uma média de 97 segundos. Por último, a televisão espanhola parece não escapar a esta tendência de curta duração das peças, de acordo com o estudo de Francescutti et al. (2011) que resume a uma média de pouco menos de 90 segundos a duração média das peças informativas sobre saúde, emitidas pelos noticiários das estações generalistas daquele país. O desafio passa por enquadrar a precisão, integridade e detalhe nesse curto espaço de tempo (Leask et al., 2010). Wang e Gantz (2007) aliam a esta durabilidade, em que 70% das peças têm menos de um minuto, à difícil compreensão das mesmas fazendo até uma analogia à alta escolaridade necessária para o seu completo entendimento 42 . Os autores sugerem o uso de informação redundante entre imagem e texto na televisão, de modo a possibilitar uma melhor explicação e entendimento por parte do público. Com efeito, vários estudos apontam para uma apreensão mais fácil quando a informação oral e escrita da televisão conflui para a mesma mensagem (Drew & Grimes, 1987; Fox, 2004; Grimes, 1991; Josephson & Holmes, 2006; Reese, 1983; Saraiva, 2011). Gary Schwitzer (2004) referiu ainda a falta de aplicação do princípio do contraditório, quando se cita apenas uma companhia privada sem contrapor essas declarações com outras fontes ou companhias concorrentes como evidência dos interesses comerciais. Em 2000, o autor havia assinado um artigo onde alerta para o uso de termos como “cura”, “milagre”, “avanço científico”, promissora, dramático(a), “esperança” ou “vítima” (Schwitzer, 2000). O motivo desta preocupação passa pela natureza vaga dos mesmos conceitos e que pode levar o 42 Os autores reconhecem que a informação difundida apresenta uma dificuldade de compreensão e que, por isso, requer uma formação escolar de nível secundário (10º ano).
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 84 público ao engano e à criação de falsas expectativas, o que requer tanto a atenção de quem comunica, como a do público alvo da comunicação. A utilização incorreta de certos termos pode inclusive tornar-se ofensiva. Exemplificamos com dois casos em que o vocabulário utilizado para referir os doentes que padecem de certas enfermidades é, também, tomada como insultuoso: a sida e o caso das pessoas com necessidades especiais. Este último caso, o mais antigo, é denunciado por um médico e jornalista que já no início dos anos 1990 alerta para este problema em que estações de televisão e rádio e jornais britânicos usam termos ofensivos (Gaba, 1994). Mais recentemente, Terrón Blanco (2012) toma como estigmatizante a linguagem adotada na cobertura informativa da doença, ainda com uma ligação à mortalidade. Em alguns casos há uma certa evolução na citação dos pacientes que passam a ser pessoas que vivem com VIH em vez de seropositivos ou portadores de sida (termos mais pejorativos). Sobretudo, exige-se que a informação veiculada pelos média seja rigorosa. A falha de transmissão de informação precisa é uma das barreiras assinaladas por Wang e Gantz (2007) para uma bem-sucedida disseminação de informação sobre saúde nos média, no seu estudo sobre noticiários de cinco televisões norte-americanas. Assentando no mesmo pressuposto, um artigo sobre as evidências do jornalismo de saúde enquanto processo de especialização sublinha a perspetiva dos profissionais da saúde (clínicos e investigadores, técnicos e académicos), que, além desta falta de rigor, acusam os jornalistas de alarmismo, sensacionalismo, especulação e superficialidade no tratamento da informação (Vasconcelos, 2005). Um leitor informado implica um jornalista mais conhecedor e competente, diz o autor. Vasconcelos explica ainda que o público tem o direito de tomar decisões informadas acerca dos cuidados de saúde, o que depende, segundo o mesmo, em parte da qualidade de informação prestada nos média (Vasconcelos, 2005). A falta de rigor é, então, reconhecida também pelas fontes que acusam os jornalistas de sobrepor o interesse à precisão informativa (Saiz et al., 2014). A abordagem dos estudos de casos específicos do jornalismo de saúde conduz-nos igualmente à imprecisão temática. É o que afirmam vários estudos centrados na observação de informação imprecisa ou incompleta dos conteúdos jornalísticos. Estes não focam as ameaças mais prevalentes, têm uma informação de eficácia questionável e chegam mesmo a utilizar linguagem estigmatizante de certas condições físicas (Kline, 2006), como também o referimos antes.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 85 A especificidade destas matérias passa também pelos valores notícia que lhe são inerentes. As perspetivas são, uma vez mais, variadas. Cooper e Roter (2000) começam por traduzir, através da expressão “ If it bleeds, it leads ”, e recorrendo a mais de uma dezena de autores, os valores notícia privilegiados em televisão: a novidade, o interesse humano, o conflito, o escândalo e o envolvimento de celebridades. No fundo, reconhecem que estes critérios de noticiabilidade são associados tanto à informação na sua generalidade como em específico à informação sobre saúde, citando trabalhos de Meyer (1990), Wallack et al. (1993) e Entwistle (1995). Vicky Entwistle (1995) diz mesmo que, para os jornalistas da imprensa entrevistados, nem sempre a informação de valor médico é a mais noticiável, procurando casos mais inusitados nas páginas dos jornais científicos. Por outro lado, o potencial impacto público parece ser um valor-notícia exclusivo do jornalismo de saúde, já que pode atingir toda a gente, desde o público aos próprios clínicos, tendo os média alcançado o estatuto de maior veículo de disseminação desta informação (Viswanath et al., 2008). Sobre a mediatização da ciência na TV europeia, Bienvenido León (2008) reconhece a significância como o valor notícia mais significativo, seguido da invulgaridade e do interesse visual. Além destas particularidades, os investigadores dirigem o seu olhar ao destaque das principais temáticas abrangidas nestes conteúdos. As políticas de saúde apresentam-se como uma temática com visões antagónicas na realidade norte-americana. Numa busca da informação sobre saúde na imprensa local norte-americana, dois investigadores encontram nessa mesma temática como uma das mais noticiadas, assumindo a fusão entre estas duas vertentes, saúde e política, como indissociável (Briggs & Hallin, 2010). Já Gary Schwitzer (1992; 2004) salienta a preferência temática pelas novas descobertas em prol das políticas de saúde ou do acesso e qualidade de tratamento médico, numa visão crítica dessa escolha. Quando isso acontece, diz o autor (Schwitzer, 1992, p. 2), “algo está desequilibrado”. A corroborar com Briggs e Hallin (2010) estão três estudos nacionais. Na obra resultante da dissertação de doutoramento de Pedro Alcântara da Silva (2011), intitulada Saúde nos media. Representações do sistema de saúde e das políticas públicas na imprensa escrita portuguesa, estão englobados temas como as políticas de saúde e as reformas do funcionamento e gestão do sistema, o acesso a serviços e equipamentos, passando pelos assuntos relacionados com o financiamento, recursos técnicos e humanos, medicamentos, entre outros. Também os resultados de um projeto de investigação intitulado “A doença em notícia” sustentam esta preferência ao longo de quatro anos de investigação incidente em três periódicos portugueses
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 86 (Lopes et al. 2013b), confirmada anos mais tarde e na sequência deste projeto (Araújo, 2016). Em consonância com ambos os estudos, os dados de um estudo comparativo entre dois jornais (um português e outro brasileiro) concluem que há uma apetência pela política de saúde (Azevedo, 2009). Voltado para a televisão, Francescutti e seus colegas (2011) vêm corroborar esta preferência ao indicar que os noticiários espanhóis dedicam grande parte da emissão de informação sobre saúde às políticas referentes àquele setor, sendo a televisão do serviço público a que mais informação emitiu, de entre todas as generalistas, durante o ano de 2008 (Francescutti et al., 2011). Além destes temas, outros são destacados em várias investigações. Na perspetiva de Wang e Gantz (2007; 2010), os temas estudados são dedicados a assuntos dentro da categoria illness/diseases (com uma mediatização primordial do cancro) e healthy living . Do lado dos temas favoritos Gary Schwitzer (2009), além da política de saúde, está também a implicação dos custos da saúde para o público, sobretudo nas matérias de índole científica e de novos tratamentos. Dado o debate sobre esta matéria na sociedade norte-americana, bem como o acesso aos cuidados de saúde, é surpreendente o reconhecimento dos próprios jornalistas de que o impacto económico na saúde não constitui um dos principais valoresnotícia aquando da mediatização da saúde (Viswanath et al., 2008). Num inquérito feito aos jornalistas de saúde pela Robert Wood Johnson Foundation, em 1989, Schwitzer (1992) descobriu que esta realidade tem a ver com as próprias preferências daqueles que produzem a informação que chega aos telespectadores, sobretudo nos períodos de medição de audiências ( sweeps month ). Na perspetiva do autor, a incidência nas descobertas do campo da saúde influencia em muito menor escala o telespectador afetado pelas políticas de saúde mencionadas. Mais de dez anos volvidos, o desequilíbrio persiste, pelo que o autor apela a uma harmonia entre a atenção dada a ambas as temáticas: as notícias sobre medicina e aquelas sobre saúde e suas determinantes. “Há demasiadas notícias sobre os serviços médicos e insuficientes notícias sobre o custo, qualidade e evidências para tais serviços” ( in Schwitzer et al., 2005), esclarece. Mais uma vez, as opiniões de Wang e Gantz (2010) confluem com as de Schwitzer. Apesar de reconhecerem que, no geral, a informação difundida nos noticiários analisados fornece algum tipo de ajuda, os fatores negativos e coexistentes não deixam de existir: além da sua brevidade e a falta de indicadores para um follow up , não incidiram em problemas que digam respeito a uma
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 87 percentagem significativa da população. Em concordância com os autores, Roxana Tabakman (2013) menciona o caso específico da mediatização dos transplantes nos jornais para referir a falta de um seguimento cinco anos após a cirurgia, a falta de referência aos custos evitáveis com a prevenção, a questão jurídica das longas listas de espera ou mesmo se o paciente sobreviveu. À semelhança de Sofia Gomes (2013; 2018), Silva (2011, p. 109) destaca a fraca apetência por temas de prevenção da doença e das “experiências diretas e particulares dos utentes.” O mesmo sucede na televisão espanhola, onde os noticiários emitem, dentro da temática, mais informação ligada ao sistema público de saúde, apostando ainda nas inovações terapêuticas que a ciência vai trazendo a público (Francescutti et al., 2011). Pedro Alcântara Silva (2011) sugere um especial destaque do funcionamento do sistema de saúde e suas políticas públicas, justificando este aumento com a relevância que o tema representa para o público, onde qualquer um pode ser assolado pela doença. A ciência, a medicina e a evolução no tratamento de doenças têm também alguns focos de estudo no continente americano (Clark e Illman, 2006) e na Europa, onde se acusa a marginalização deste tema face a outros (León, 2008). Além disso, e ainda em solo europeu, constata-se uma maior incidência da cobertura na imprensa face à televisão (Holliman, 2004), e o destaque da questão psicológica da saúde na imprensa (Thorson, 2006). Thorson (2006) sublinha a este respeito as ameaças de cariz económico dos jornais e a aposta em serviços de agência que se traduzem em menos notícias locais, o que implica uma menor qualidade na informação e que se reflete no público. Nesta perspetiva das temáticas abordadas, não podemos esquecer que um dos principais temas tratados pelos média informativos são as doenças. Das doenças mediáticas, “as patologias causadas pelos meios de comunicação de massa (...), os males físicos ou psicológicos que não existiriam se não houvesse pessoas com a mania de se informar”, a que está em voga é a “cibercondria” (Tabakman, 2013, p. 133). Vários estudos sustentam, inclusive, uma agenda mediática das enfermidades, calendarizada anualmente com os dias das doenças e multiplicando a noticiabilidade das mesmas (Martín, Doblas, Cerdà & Danet, 2014; Terrón Blanco, 2012). Diz Oliveira (citado em Tabakman, 2013) que há até doenças que têm mais recetividade do que outras por parte dos leitores. Com efeito, citando o exemplo do HIV, o público americano afirmou ter recebido informação sobre a doença por meio da
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 88 televisão (dois terços dos entrevistados) e da imprensa, restando uma minoria que diz ter-se informado pelo seu médico (Tabakman, 2013). A propósito da mediatização da sida, encontramos apelos a uma adaptação das posturas das fontes de informação (em específico das ONG) para que compreendam as rotinas dos jornalistas “para se converterem em fontes estáveis, que lhes proporcionem dados e não só opiniões, que lhes facilitassem testemunhos que geram notícias e redigir comunicados de imprensa e comunicações de acordo com narrativa jornalística” (Terrón Blanco, 2012, p. 65). A mediatização da doença leva os jornalistas a utilizar casos específicos de doentes para incutir um lado mais humano na informação. Trata-se de transmitir informação, inspirar ou ainda tornar sensacionalista determinado assunto desta temática, aproximando-se da falta de ética jornalística por vezes, já que o podem fazer para conseguir audiência, apelando ao lado emocional, ao invés de recorrer a fontes especializadas, dados estatísticos ou termos científicos (Hinnant et al., 2013). Hinnant e seus colegas inquiriram um grupo de jornalistas, descobrindo que recorrem aos casos específicos para ajudar a informar sobre doenças raras, mostrar o funcionamento do sistema e políticas de saúde ou simplesmente para atrair leitores às estórias, já que se podem identificar com o indivíduo em questão. Este tipo de recurso é feito mais nas estórias sobre determinada doença do que noutras e a sua cobertura depende da disponibilidade destes “exemplares”, como são denominados pelos autores. Este uso de “histórias individuais” foi reconhecido por Azevedo (2009) numa comparação entre a realidade da imprensa portuguesa e brasileira, por meio da análise de notícias do jornal Público e Correio Popular . A autora identificou o uso de casos individuais ou de celebridades, de modo a conferir legitimidade às estórias. As peças sobre as histórias individuais colocam-se praticamente no mesmo patamar daquelas em que sobressaem o interesse de uma coletividade, traduzidas nas histórias que reportam as ações ou a inércia no campo da saúde que afetam diretamente quer os usuários do sistema, por meio dos protestos ou da dificuldade de acesso a tratamentos, quer dos profissionais da saúde, através das reivindicações laborais e nos possibilita olhar para saúde como parte de um sistema social. (Azevedo, 2009, p. 39) Apesar disso, as duas situações não parecem idênticas por haver aqui referência a celebridades políticas e sociais.
CAPÍTULO 3 | ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE COMUNICAÇÃO, JORNALISMO E SAÚDE 95 informação na televisão face aos estudos centrados na imprensa, que é evidente não só a nível nacional como internacional (Kline, 2006; 2011), reforçamos a importância desta tese no panorama dos estudos focados na mediatização da saúde nos meios de comunicação. EM SUMA Trazemos deste capítulo a noção de que a comunicação da saúde é pensada, sobretudo, com o objetivo de melhorar o bem-estar dos cidadãos. Além disso, é um dos canais mais importantes para fazer chegar essa mesma comunicação aos média e, dentro destes, aos meios de comunicação informativos. O Jornalismo, como igualmente tivemos oportunidade de perceber, traz consigo particularidades generalizadas a toda a profissão. No entanto, partimos do pressuposto de que se trata de uma profissão complexa que encerra especificidades ligadas a cada temática abordada. Estes primeiros pontos traçam o caminho para uma discussão centrada na temática da saúde veiculada pelos meios de comunicação informativos. Centramos este ponto nas particularidades inerentes ao jornalismo de saúde, procurando nas várias investigações científicas pistas que o distingam de outras temáticas. Verificámos que as particularidades inerentes à televisão ultrapassam as dificuldades sentidas nos restantes meios, deixando espaço para matérias menos rigorosas, como o tempo reduzido dedicado à informação ou as limitações técnicas que lhe são inerentes. A importância desta revisão para os capítulos empíricos, permitirá destacar o jornalismo televisivo das restantes especialidades, traçando um perfil característico dos desafios que os profissionais, atuais e futuros, enfrentam na cobertura televisiva deste tema. Estamos, pois, perante a existência de vários jornalismos de saúde consoante o país, as singularidades editoriais ou a situação económica de cada meio de comunicação. O percurso escolhido para o presente capítulo reflete a importância de trazer a debate a mediatização informativa da saúde num meio de alcance alargado, como é a televisão, num tema que não é indiferente à população, no caso da saúde e seus subtemas (a política, a ciência, as práticas clínicas ou as enfermidades), mantendo sempre o objetivo de traçar novos paradigmas orientadores de uma especialidade em contínuo desenvolvimento.
CAPÍTULO 4 FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 97 O debate em torno das fontes de informação possui um vasto percurso junto dos autores das Ciências da Comunicação. Graças a essa longevidade, multiplicam-se as definições e classificações (Gans, 1979/2004; Houston, Chao, & Regan, 2008; Ponte, Cabrera, & Santos, 1998; Ribeiro, 2009; Santos, 2006; Santos, 1997; Sigal, 1986; Schmitz, 2011b), bem como os estudos que referem a relação entre jornalistas e fontes ou as estratégias de aproximação destas àqueles (Carlson & Franklin, 2011; Chaparro, 2001; Ericson, Baranek & Chan, 1989; Manning, 2001; Manoff & Schudson, 1986; Pinto, 2000; Santos, 1997). Nestas publicações procurámos retirar pistas sobre os vários tipos de fontes, aferindo categorizações que, conjugadas criteriosamente, nos permitirão adotar uma classificação própria ajustada à realidade do jornalismo de saúde no meio televisivo. Não traçaremos, portanto, um mapeamento exaustivo das questões associadas às fontes de informação, mas daquelas que se coadunam com os aspetos igualmente inerentes ao jornalismo especializado na temática da saúde. Além das várias definições, existem duas questões que nos parecem centrais e incontornáveis: a indissociabilidade entre fontes e jornalistas, bem como a transmissão de uma realidade condicionada à partida pela escolha que os profissionais fazem dos seus interlocutores, e derivada da relação entre ambos que debateremos adiante. Relativamente ao primeiro aspeto, a realidade observada por Manuel Carlos Chaparro (2001) mostra que não só as fontes são indispensáveis, como importa saber escolhê-las criteriosamente. De facto, são peça fundamental na construção do produto noticioso ou, como dizem Carlson e Franklin (2011, p. 1) na introdução do livro Journalists, sources and credibility , a informação de hoje é “inimaginável sem fontes de informação”. Delas depende a qualidade da informação jornalística (Wolf, 1995) e não podem dissociar-se do conceito de notícia (Santos, 1997) 47 . Partindo do pressuposto de que o jornalista nem sempre está em condições de presenciar pessoalmente cada acontecimento (Manoff & Schudson, 1986; Santos, 1997; Sigal, 1986) existe então a necessidade de recorrer ao testemunho de fontes “próprias e credíveis” (Agência Lusa, 2012, p. 19). Apesar de os jornalistas poderem, raras vezes, assistir aos acontecimentos sobre os quais vão reportar, torna-se necessário obter perspetivas dos vários testemunhos e atores para que possam exercer-se o princípio do 47 Segundo Rogério Santos (1997), a notícia é “uma construção social da realidade, com os agentes implicados a tecerem conjeturas sistemáticas sobre o modo como podem conduzir e negociar o seu ponto de vista” (p. 12).
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 98 contraditório, regra de ouro no jornalismo de acordo com o Livro de Estilo do Jornal Público e incontornável conforme patenteia a agência Lusa. O princípio do contraditório obedece também às convenções de autoridade das fontes (Sigal, 1986). Perante esta indissociabilidade, é igualmente inevitável que tentemos perceber a delimitação do conceito. Nesse âmbito, Houston et al. (2008, p. 210), num capítulo integrante na obra The Social Construction of SARS. Studies of a healthcommunication crisis , dizem que fonte deverá ser “qualquer entidade a quem é atribuída uma citação, paráfrase ou informação”. De forma semelhante, a avaliação feita em torno d’ O Discurso Jornalístico Sobre Toxicodependência e Droga (Ponte et al., 1998, p. 86), a fonte é considerada a entidade, porta-voz ou figura que fornece informações sobre eventos ou realizações ao jornalista. Herbert Gans (1979/2004, p. 80) define como fontes “os atores que os jornalistas observam ou entrevistam” para os vários meios de comunicação, incluindo “aqueles que apenas fornecem informação de fundo ou sugestão de estórias.” Apesar de apenas comungarmos da primeira definição do autor da reconhecida obra Deciding What’s News , identificamo-nos com o seu reconhecimento das fontes enquanto membros e representantes de grupos de interesse organizados e não organizados, assim como de outros setores da sociedade com maior dimensão. Esta perspetiva é igualmente avançada por Rogério Santos (2006, p. 75), que assume a definição de fonte de informação enquanto uma “entidade (instituição, organização, grupo ou indivíduo, seu porta-voz ou representante) que presta informações ou fornece dados ao jornalista, planeia acções ou descreve factos, ao avisar o jornalista da ocorrência de (…) um acontecimento”. Esta particularidade é de extrema importância para a classificação que avançaremos nas próximas páginas, uma vez que permitirá distinguir aqueles que falam em nome individual ou em representação de uma entidade ou organização. Nesse sentido, o autor sublinha que a mesma entidade pode assumir várias classificações, o que defendemos igualmente, uma vez que o indivíduo pode prestar informações enquanto pessoa singular e agente integrante de uma comunidade (de doentes, enfermeiros, médicos, etc.). Numa referência semelhante diz Schmitz (2011b, p. 10) que a definição de fonte abrange “pessoas, organizações, grupos sociais ou referências (...) de quem os jornalistas obtêm informações de modo explícito ou confidencial para transmitir ao público” através dos média. Estas podem estar envolvidas direta ou indiretamente nos acontecimentos, agir de forma proactiva, ativa, passiva ou reativa, e ainda ser confiáveis, credíveis ou duvidosas. Outro fator ligado às fontes de informação refere-se à sua identificação que parece estar nas
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 99 regras básicas dos meios de comunicação. A agência de notícias Lusa (2012, p. 11) afirma, no seu Livro de Estilo, que, “regra geral, a indicação da fonte deve surgir sempre no primeiro parágrafo da notícia” e deve ser identificada pelo nome, cargo, profissão, partido e pela nacionalidade, caso se trate de estrangeiros, escolhendo “o dado que se afigure mais pertinente para melhor identificar a fonte ou o protagonista na notícia” (Lusa, p. 13). Também o jornal Público insiste, no seu Livro de Estilo (1998, p. 69), na identificação das fontes citadas naquele jornal “com a maior precisão possível – nome, idade e profissão, cargo ou função”, já que “favorece a autoridade e credibilidade da informação”. Diz ainda o jornal que as fontes documentais requerem este mesmo rigor na sua identificação. A Lusa (2012) reporta-se a manuais de jornalismo para distinguir quatro tipos de fontes: fontes identificadas; fontes confidenciais, com identidade do conhecimento do jornalista, mas que não são reveladas; “fontes oficiais” (cuja descrição não é clara na associação ao governo, mas sim no acesso à informação garantida pelas funções que essa fonte desempenha) e fontes anónimas, com identidade desconhecida ao próprio jornalista. A identificação das fontes de informação é defendida em vários estudos nacionais, rejeitando o uso das fontes anónimas (Araújo, 2016; Gomes, 2018; Lopes et al., 2013b; Ribeiro, 2009; Tomé & Lopes, 2012). Num claro acordo com os números apontados por estes autores, Cristina Ponte et al. (1998) congratulam-se com a evidência da identificação das fontes no seu estudo da mediatização da toxicodependência, não havendo recurso significativo às fontes anónimas (Ponte et al., 1998). Vasco Ribeiro (2009, p. 116) estabelece uma associação positiva entre o uso destas fontes identificadas e o jornalismo de iniciativa, traduzindo deste uso uma luta contra o “jornalismo de secretária”. Também a nível internacional existe essa preocupação em que a identificação traduz uma das regras claras da informação jornalística (Morales & Vallejo, 2010). Nas particularidades ligadas ao meio televisivo, a análise de Carlson e Franklin (2011) sustenta que é notória uma identificação incompleta das fontes, indicando-se apenas a organização à qual pertence sem informar sobre o cargo que aí ocupa, além da existência de quantidade substancial de informação sem atribuição. Em concordância com estes autores, destacamos a importância da identificação ou atribuição da fonte a cada informação citada pelo jornalista. A referência a vários dados que digam ao público quem fala aos média informativos, desde o nome, o cargo dentro de determinada instituição, a origem geográfica ou
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 100 a referência documental, traduz uma informação mais completa e que coloca do lado do público o poder de procurar informação adicional. 4.1. A RELAÇÃO ENTRE JORNALISTAS E FONTES: A PIRÂMIDE DE ACESSO AOS JORNALISTAS Nas linhas anteriores deixámos antever que esta não é, portanto, uma relação fácil ou linear tendo em conta que as fontes não são todas iguais, nem assumem a mesma importância para os jornalistas, sendo o seu acesso aos média e destes às fontes, também ele desigual (Wolf, 1995, p. 200). Além disso, as fontes com as quais os jornalistas estabelecem um contacto profissional traduzem uma “estrutura social e de poder existente”, organizando-se de acordo com as “exigências dos processos produtivos”. Esta é a conclusão que Mauro Wolf retira dos estudos sobre o newsmaking , abordados na conhecida obra Teorias da Comunicação e onde dedica um capítulo a esta problemática. O autor acrescenta que “as fontes que se situam à margem destas duas determinações, muito dificilmente podem influir, de forma eficaz, na cobertura informativa” (Wolf, 1995, p. 200). Este entendimento de Mauro Wolf faz parte de múltiplas considerações por parte dos estudiosos das Ciências da Comunicação, que têm vindo a dedicar-se à compreensão de como se processa esta relação de interdependência, de poder e influência entre fonte e jornalista. Muitos investigadores não são indiferentes aos interesses ocultos das fontes jornalísticas. Sob essa perspetiva, existe um entendimento de que “as fontes a que os jornalistas recorrem ou que procuram os jornalistas são entidades interessadas, quer dizer, estão implicadas e desenvolvem a sua atividade a partir de estratégias e com tácticas bem determinadas”, como confirma Manuel Pinto (2000, p. 278) no seu mapeamento destes interlocutores. Os jornalistas, afirma Nelson Traquina (1993) têm consciência deste interesse. Ou seja, estes objetivos são, muitas vezes, atingidos já que a fonte tem, entre outras competências, o poder de influenciar o discurso jornalístico (Chaparro, 2001). Aliás, o conteúdo mediático é determinado logo à partida, quando o jornalista escolhe determinadas fontes em detrimento de outras (Ribeiro, 2009). A informação será, portanto, uma reprodução do discurso da fonte, que dita o que é ou não notícia (Sigal, 1986). Nesse sentido, divulgam-se os pontos de vista destas vozes, já que não pode o jornalista dar o seu, sacrificando a isenção jornalística.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 101 Enquanto Santos (1997) equipara a relação entre fonte e jornalista a uma negociação, ou a uma transação no caso de Ericson et al. (1989), Gans (1979/2004) refere-a como uma “dança” em que as fontes tomam a direção mais frequentemente do que os jornalistas. Herbert Gans (1979/2004) avalia as relações entre jornalistas e fontes e o acesso de parte a parte integrado no sistema organizacional das empresas mediáticas ou nas rotinas jornalísticas de cada tipo de órgão de comunicação e de cada tipo de repórter. Esta peculiaridade faz sentido quando a relação com as fontes do jornalismo televisivo é vista de forma particular e mais dependente das fontes institucionalizadas (Wolf, 1995, p. 196) e de rotina (Carlson & Franklin, 2011). A televisão depende da imagem e do equipamento necessário para a recolher, o que pode ditar alguma dificuldade no acesso às fontes de informação e eventos, condições que não preocupam, por exemplo, a rádio ou a imprensa. Logo, esta possibilidade adiantada pelos autores poderá levar os jornalistas do pequeno ecrã a optar pelo acesso fácil à informação através de conferências de imprensa, por exemplo. Esta é uma premissa que levamos para a análise empírica dos dados, na tentativa de a validar junto dos profissionais entrevistados. Não obstante, os vários meios partilham outras condicionantes no acesso e escolha das fontes. As limitações impostas pelo tempo disponível para redação de uma notícia, o emagrecimento das redações e dos rendimentos das empresas mediáticas estão por detrás do recurso a certas fontes mais disponíveis e produtivas, como é o caso das fontes das agências governamentais que disponibilizam informação pronta a ser publicada (Carlson & Franklin, 2011; Sigal, 1986). Este é o motivo de colocação de jornalistas junto do centro político norteamericano (Washington) e da menor abordagem de temas sobre negócios e finanças que requerem maior investimento por parte da maioria das organizações noticiosas, como referia Sigal em 1986, por não estarem centralizadas. Em análises mais contemporâneas verificamos uma preponderância de fontes mais próximas dos grandes centros urbanos (Lopes et al., 2013), o quem vem corroborar este panorama. Apesar de existir uma tendência no campo das Ciências da Comunicação para atribuir às fontes o poder e o domínio desta relação, Ericson et al. (1989) recordam que o próprio jornalista ou instituição noticiosa tem várias capacidades, como a de negar à fonte o acesso, assumir um contexto negativo da fonte na cobertura noticiosa, deter a última palavra e esclarecer a informação especializada para que seja entendível pelo senso comum. De acordo com os autores, os próprios interlocutores reconhecem nos meios de comunicação a posse de
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 102 alguns elementos que lhe dão vantagem. Ericson et al. (1989) referem ainda que a relação de poder envolve inúmeras variáveis, consoante a situação, assumindo, portanto, uma visão mais equilibrada acerca desta relação. No fundo, apesar de haver contactos mais estreitos e regulares com determinadas fontes de informação, graças à credibilidade que lhes é atribuída, os estudos sugerem que o jornalista tem sempre a última palavra sobre a utilização dos seus interlocutores, “independentemente de quem iniciou cada contacto”, como confirma Reich (2011, p. 58), num trabalho intitulado Source Credibility and Journalism. Between visceral and discretional judgment . Outro fator que pode influenciar o tipo de fonte escolhida é o estatuto profissional do jornalista, (Gans, 1979/2004; Santos, 2006), que lhe dá maior ou menor acesso a determinadas fontes. No caso específico do estatuto de jornalista especialista são vários os fatores que ditam uma relação mais acessível. Se olharmos, por exemplo, para a credibilidade das fontes, os newsbeat reporters são aqueles que estão em permanência ligados a certos domínios e, em consequência, têm oportunidade de desenvolver “relações duradouras” com um leque fixo de contactos (Reich, 2011). Na mesma perspetiva, Herbert J. Gans (1979/2004) distingue as fontes usadas pelos beat reporters (os especializados) e os general reporters . Os primeiros constroem uma relação mais estreita, mas “simbiótica” com as suas fontes, isto é, têm interesses mútuos, mas nem sempre concordantes (Gans, 1979/2004, pp. 131-133). Esta proximidade pode ser reconhecida, por exemplo, nos jornalistas que diariamente lidam com as fontes da Assembleia da República. O beat pode ser, portanto, uma especialidade temática, como uma especialidade ligada a um local. Rogério Santos (1997, p. 53) reconhece esta relação simbiótica do caso português: “se a familiaridade serve o político para enquadrar as suas questões – pela partilha de laços com objetivos políticos comuns –, também serve o jornalista na medida em que a intimidade com aquele pode ajudar a ascensão na sua carreira pessoal”. Na perspetiva deste autor, estes jornalistas especialistas têm uma preponderância superior junto das fontes de informação “com estatuto reconhecido junto das fontes oficiais e dos grandes decisores” (Santos, 1997, p. 126). Os general reporters , segundo por Gans (1979/2004), não dispõem de conhecimentos prévios para cobrir os vários assuntos que lhes chegam às mãos e sustentam-se em fontes oficiais e públicas que apresentam maior credibilidade, mas também maior risco de manipulação. Esta mesma distinção é assumida por Wolf (1995) quando reconhece a distinta bagagem de conhecimentos que os jornalistas especializados e não especializados levam para
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 103 um contacto com a fonte, bem como a relação mais estreita e regular dos primeiros com os seus interlocutores. Esta proximidade pode traduzir-se numa dependência que coloca o poder do lado da fonte, sendo precisamente esta a vantagem do jornalista não especializado (Santos, 2006 48 ; Sigal, 1986; Wolf, 1995). Segundo Sigal (1986), os repórteres generalistas recorrem a várias fontes, com prevalência das fontes governamentais (graças à confiança implícita nos cargos de autoridade). Estas considerações acompanham-nos à jornada empírica que constará da segunda parte desta tese, uma vez que procuraremos evidências desta dependência nas entrevistas com os jornalistas e a preponderância das fontes oficiais na análise das peças noticiosas. Além dos aspetos inerentes à especialização jornalística, Sigal (1986) alia o poder das fontes às limitações profissionais (como os deadlines ) e orçamentais (como a falta de verba ou de profissionais disponíveis) das empresas jornalísticas. A propósito das condições profissionais, diz Sigal (1986, p. 17) que, “por causa da necessidade diária de novas ‘estórias’, a escassez de dinheiro e de jornalistas, e a prontidão das agências governamentais para lançar informação pronta a transcrever, os jornais e as agências de comunicação distribuem a maior parte dos seus correspondentes nacionais em Washington mais do que noutro local”. As limitações profissionais dos jornalistas são recordadas igualmente por Estrela Serrano (1999) que assenta a sua referência no campo político para demonstrar os laços de maior proximidade entre os jornalistas e as fontes. Aí, as estórias construídas baseiam-se mais nas declarações da classe política, por força dos deadlines , do que nos inúmeros relatórios disponíveis (Hess, 1981, citado em Serrano, 1999). A produtividade de determinada fonte reside no facto de conseguir fornecer informação de qualidade, reduzindo a necessidade de contacto com novas fontes e, consequentemente, os prazos e a verba despendida pela redação. Concordando, desta forma, com os restantes autores, Wolf (1995) identifica as fontes oficiais como as que mais se adequam a este perfil, podendo o uso de uma fonte credível dispensar qualquer outra fonte na construção da notícia. Esta credibilidade é conquistada através do tempo por estas fontes “estáveis” e “institucionais”, passando a relação com o jornalista a ser habitual. No fundo, comungamos das palavras de Zúñiga e Valido (2017), autores que, numa 48 Rogério Santos (2006) salienta que no início da cobertura da sida, a especialização jornalística era escassa, o que levava os jornalistas a depender da informação de fontes oficiais, desde as governamentais, aos médicos e cientistas.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 104 perspetiva geral dos meios de comunicação cubanos e centrados em alguns dos autores aqui evidenciados, afirmam o seguinte: Manter um bom relacionamento com as fontes é crucial para a notificação imediata e a entrega de informações em primeira mão e de primeira qualidade. Mas esse "bom" relacionamento deve manter uma distância profissional entre jornalistas e fontes - já que, se se perder distância profissional com fontes, instituições e oficiais, são criadas distorções que te impedem de reconhecer a tua identidade e missão. (Zúniga & Valido, 2017, p.126) Tomando em consideração todas as variáveis, há um aspeto que os vários autores mencionam: a relação de interdependência entre a hierarquia de poder público da fonte e a visibilidade nos média (Gans, 1979/2004; Ericson et al., 1989; Santos, 2006; Schlesinger, Zeitlin & Rizzi, 1992; Serrano, 1999; Sigal, 1986), inclusive na área temática da saúde. No topo desta pirâmide de poder parecem estar as fontes oficiais, cuja abrangência pode variar, como veremos a seguir. 4.2. O DESIQUILÍBRIO ENTRE FONTES OFICIAIS, GOVERNAMENTAIS OU... SIMPLESMENTE PODEROSAS E AS FONTES SILENCIADAS A importância das fontes governamentais é sublinhada por Sigal (1986) ao evidenciar que estas surgem em quase metade dos acontecimentos mediatizados. Esta visibilidade das fontes governamentais, de responsáveis corporativos ou de instituições privadas dá-se porque nos referimos aqui a informantes com autoridade, cujo valor da informação varia consoante a posição hierárquica de poder (Sigal, 1986). O acesso diferenciado a fontes pelo seu poder é igualmente evidenciado por Ericson et al. (1989) ao afirmarem citação maioritária de fontes oficiais face às vozes privadas, enquanto McQuail (citado em Santos, 1997) refere que 72% das fontes citadas são oficiais. O poder das fontes está ainda patente nas palavras que Estrela Serrano (1999) pede de empréstimo a Gaye Tuchman (1978), quando diz que “os jornalistas e as suas fontes contribuem, conjuntamente, para articular e definir os contornos da sociedade do conhecimento, reproduzindo as estruturas do poder e do saber”, ou, como indica no texto sobre o Jornalismo e as elites de poder , “as notícias são representações da autoridade”.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 111 Tabela 1: Classificação sumarizada por Aldo Schmitz (2011a) Vasco Ribeiro (2009), no estudo sobre os conteúdos informativos de índole política de vários periódicos portugueses entre 1990 e 2005, distinguiu mais de 20 opções classificativas, numa adaptação por conveniência ao tema estudado 53 . Além da clara divisão entre os interlocutores que estão no poder e aqueles que a ele se candidatam, o autor acrescenta ainda vozes que representam outros grupos sociais, como a população, universidades, sindicatos, empresas, área da saúde e da banca, forças policiais, cultura, entre outros. O autor assume uma óbvia inserção destas fontes na categoria de Oficiais, deixando para as que não se enquadram nesta classificação um reduzido leque formado pela população, meio cultural, meio estudantil e especialistas. Manuel Pinto (2000, p. 279) não descura a influência do poder na sua categorização de fontes, mas entende que estas podem ser classificadas de 53 Presidente e casa civil; Partido Político no Poder; Partido político na Oposição; Organização Governamental; ONG; Poder Local; Poder Judicial; Força Militar/Policial; UE; Sindicatos e Ordens; Igreja; Empresas; Outros; Não identificável/aplicável; População; Governos; Governo Estrangeiro; Especialistas; Outro OCS; Meio Artístico e Cultural; Saúde; Universidade; Poder Local Oposição; Poder Associativo e Estudantil; Finanças e Banca; Candidatos Presidenciais Oposição; Candidatos Presidenciais Poder; Desporto; Casa Pia; Candidatos Autárquicas Oposição; Candidatos Autárquicas Poder. Categoria Grupo Ação Crédito Qualificação Primária e secundária (Pinto, 2000; Lage, 2001). Oficial (Gierber & Jonhson, 1961). Ativa e passiva (Gans, 1980). Explicitada ou confidencial (Pinto, 2000). Confiável e duvidosa (Gans, 1980). Oficial e não governamental (Sigal, 1973). Ativa, passiva, proactiva e reativa (McNair, 1998). Confiável (Lage, 2001). Oficial e oficiosa, institucional e pessoal (Gans, 1980). Ativa ou passiva, proactiva ou reativa (Pinto, 2000). Fidedigna e duvidosa (Charaudeau, 2009). Pessoal ou documental, pública ou privada (Pinto, 2000). Informal e aliada (Chaparro, 2009). Oficial, oficiosa e independente; testemunha e expert (Lage, 2001). Organizada, aferição, referencia e bibliográfica (Chaparro, 2009).
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 112 acordo com outros domínios 54 . Apostando também numa categorização que inclui as fontes oficiais, Cristina Ponte e seus colegas (2001), num trabalho sobre a mediatização da toxicodependência, distinguem as fontes do domínio público, exemplificadas com o Presidente da República, governo, instituições oficiosas e governamentais, forças de intervenção, especialistas, opinion makers , das fontes do domínio privado, e que incluem os consumidores e familiares. A cada um, os autores referenciaram ainda se se tratava de vozes ativas (quando diretamente citadas nos textos) ou passivas, quando apenas referidas sem citação direta. No entanto, há outras vozes além dos interlocutores oficiais a merecer a atenção dos investigadores. Ericson et al. (citados em Santos, 1997) distinguem quatro grupos principais de fontes: jornalistas, porta-vozes de instituições e organizações governamentais, de instituições não-governamentais e cidadãos individualizados. Além das classificações mais tradicionais, não podemos negligenciar a crescente presença das novas plataformas de informação numa era em que a tecnologia é um poderoso aliado para a recolha de informação jornalística, aumentando expressivamente o leque de fontes de informação. Por exemplo, de acordo com alguns autores, as fontes da informação noticiosa online merecem a sua própria tipificação: fontes visíveis, tecnológicas e recetoras 55 (Sundar & Nass, citados em Ribeiro, 2009). A era informática permite também esta invasão com os emails dos jornalistas a serem o meio predileto destas fontes para fazer chegar a sua informação aos média jornalísticos. Este uso de material informativo enviado pelos profissionais das relações públicas parece até ser mais usado do que o desejável (Phillips, 2011). Além das categorias que fomos apresentando, autores como Vasco Ribeiro (2009) dedicam a sua investigação ao papel dos porta-vozes, assessores ou relações públicas que, apesar de não surgirem evidentemente nos textos jornalísticos, reforçam a sua presença através de comunicados, press releases , conferências de imprensa ou dossiers bem elaborados, numa pressão que conhece as rotinas jornalísticas, os tempos diferentes de cada meio de 54 Além das fontes públicas (oficiais), que opõe às fontes privadas (segunda a sua origem ), Pinto (2000) propõe um vasto leque de classificação das fontes: segundo a natureza (fontes pessoais ou documentais); a duração (fontes episódicas ou permanentes); o âmbito geográfico (fontes locais, nacionais ou internacionais); o grau de envolvimento nos factos (oculares/primárias ou indiretas/ secundárias; a atitude face ao jornalista (fontes ativas - espontâneas, ávidas – ou passivas – abertas, resistentes (citando outros autores para esta categoria); a identificação (fontes assumidas/explicitadas ou anónimas/confidenciais); a metodologia ou a estratégia de atuação (fontes pró-ativas ou reativas [citando McNair, 1998, 147-150], preventivas ou defensivas). 55 As primeiras serão aquelas que são claramente para o destinatário da mensagem, como é o caso dos gatekeepers . As fontes tecnológicas são as que são os próprios media ou outros produtores de conteúdos. Por último, as fontes recetoras são as que selecionam conteúdos online e os podem depois divulgar, podendo-se desdobrar entre fontes individuais e o grupo de indivíduos que forma a audiência.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 113 comunicação (Hess, citado por Santos, 1997). No âmbito desta realidade, temos ainda vindo a assistir à criação da figura do diretor de comunicação, do assessor de imprensa e do portavoz, sobretudo em grandes empresas devido aos elevados custos que tal organização representa. Tal serviço pode ser efetuado internamente em cada empresa através contratação de agências externas de comunicação, consideradas fontes secundárias 56 (Santos, 1997). Rogério Santos reflete especialmente sobre este tipo de fontes, cujo nome raramente é revelado nas notícias. Considerando a investigação publicada em 1997 e centrada nestes profissionais, Santos deteta que são especialmente atentos às situações e comunicação de crise. O assessor de imprensa será, na perspetiva do autor, expressão usada nos gabinetes das entidades oficiais e é um cargo muitas vezes ocupado por ex-jornalistas, agindo como conselheiro do seu superior. Distingue ainda os porta-vozes, que nem sempre têm as mesmas funções dos assessores de imprensa 57 . Neste apuramento da categorização para os vários interlocutores dos jornalistas, devemos ter ainda em consideração que os profissionais se sustentam, por vezes, numa série de recursos não-pessoais. Falamos das fontes documentais, outros meios de informação ou instituições citadas na sua globalidade. A citação de estatísticas, sobretudo nas peças televisivas, serve constantemente de enquadramento a temáticas de índole social. Os dados trazidos a público pelas mais diversas entidades, na forma de estudos, relatórios ou inquéritos, sustentam estes conteúdos informativos. Também os comunicados se enquadram neste leque de fontes não pessoais, vingando nos meios de comunicação pela sua estrutura aproximada às regras jornalísticas (Santos, 2006). Ainda enquadrado nesta vertente não-pessoal, podemos dizer que não é segredo que os média citam outros média e, muitas vezes, lhes encontram a fiabilidade que não conseguem no contacto com outras fontes. Como já mencionámos, o ritmo e as condições do trabalho podem restringir a procura de interlocutores (Sigal, 1986), dando lugar à consulta de outros meios de comunicação para encontrar novas fontes de informação (Santos, 2006). Ou seja, os meios de comunicação podem-se assumir como fonte direta para os seus pares ou como ‘catálogo’ de novas fontes de informação. Numa obra intitulada Fabricar noticias: las rutinas 56 Rogério Santos (1997) opõe estas às fontes primárias, que organizam ou divulgam um acontecimento ao jornalista, enquanto as secundárias não criam este acontecimento. 57 No circulo político, o porta-voz do presidente da República é o chefe da Casa civil e os assessores de imprensa, enquanto no parlamento existem os porta-vozes dos grupos parlamentares. Os ministérios recrutam maioritariamente jornalistas para ocupar os cargos de assessores de imprensa. Nas empresas, esta figura do porta-voz é assumida pelo patrão ou responsável pelo departamento de comunicação.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 114 productivas en radio y televisión , Villafañe e seus colegas (citados em Santos, 1997) concluem que o uso de outros meios de informação como fonte é mesmo reconhecido pelos jornalistas, também como complemento de outros informantes. Os resultados apontados por investigações nacionais sustentam esta realidade, demonstrando que há uma percentagem significativa de média a serem citados (Lopes et al., 2013b). Esta expressividade de referência dos próprios meios de comunicação indica a existência de “uma espécie de estrutura circular de informação, ou seja, meios de comunicação que citam outros meios de comunicação social” (Lopes & Fernandes, 2012, p. 24). No meio televisivo temos vindo a assistir à emissão ocasional de informação baseada unicamente em artigos de jornal, reproduzindo os dados mais sonantes e ilustrando as peças informativas com imagens genéricas. Além disso, a cedência de declarações de uma fonte, de acesso mais difícil, ao meio televisivo, pode ditar a sua citação noutros meios (Lopes, Ribeiro, Ruão, Marinho, & Fernandes, 2014) 58 .Também Ribeiro (2009) inclui na sua classificação a categoria Outros Órgãos de Comunicação Social, cuja presença no seu estudo empírico foi residual. A referência de agências noticiosas está patente tanto nos média nacionais como internacionais. A utilização da informação oriunda destas instituições apresenta uma conotação negativa graças ao facto de raras vezes ser alvo de alterações ou de investigação adicional, conforme adianta Wolf (1995), que assume ainda que estas serão fornecedoras de um fluxo constante de notícias, à semelhança das fontes institucionais. A informação da rádio e televisão parece ser a que mais se sustenta nas mesmas com reduzidas alterações, enquanto os restantes meios optam por investigar essa mesma informação recebida (Santos, 1997). A justificação do recurso a agências de informação pelo fator económico impulsiona o risco de uma informação uniforme quando usada um pouco por todo o mundo, havendo alguma relutância de autores como Mauro Wolf (1985) ou Vasco Ribeiro (2009) em classificar as agências de informação. O investigador da Universidade do Porto afirma mesmo que não reconhece as agências noticiosas na sua classificação por considerar a informação a elas atribuída como um produto jornalístico terminado. Face a estes aspetos, a nosso ver, é importante verificar a frequência com que os outros 58 Esta afirmação tem por base o exemplo de uma entrevista dada pelo então Ministro da Saúde português, Paulo Macedo, à TVI, entrevista que foi citada por diversos meios impressos.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 115 meios de comunicação são utilizados como fonte. Pelo recurso à informação produzida tanto pelas agências de informação como pelos restantes meios, pode concluir-se também a redução de recursos nas redações, a impossibilidade de chegar às fontes pretendidas, entre outras questões ligadas à produção noticiosa e que podem ser conferidas mediante a utilização de entrevistas a jornalistas. As classificações ou orientações até agora expostas apresentam uma abrangência que não se enquadra numa classificação de estatuto da fonte de informação (Pinto, 2000) ou, quando o faz, adequa essa classificação ao tema da pesquisa (Ponte, 2001, Ribeiro, 2009), ou utiliza um sistema com referenciação central das fontes oficiais e não oficiais (de acordo com os autores citados por Schmitz, 2011a) ou bastante simplificados (Ericson et al., citados em Santos, 1997). De outros trabalhos podemos extrair alguns contributos singulares para sustentação isolada de certas classificações. Nesse sentido, encontramos no trabalho de Felisbela Lopes, seja derivado de um processo em equipa (Lopes et al., 2013) ou em nome individual (2016) um modelo aproximado de classificação de vários níveis, que prevê a consideração do número de fontes, a sua identificação, o sexo, a geografia, a composição, além de uma pormenorizada classificação a nível do estatuto das fontes e que pode representar a globalidade das fontes de informação, humanas e não-humanas. Comungamos das palavras finais da autora quando reconhece a potencial dificuldade de apurar dos textos jornalísticos o estatuto de determinadas fontes. Tomando em consideração todas as classificações identificadas acima, questionamo-nos se a literatura faz referência às fontes de informação mais evidentes ou, de forma oposta, também revela interlocutores menos utilizados. Percebemos que as fontes mais poderosas ou em cargos que se situam no topo de uma hierarquia conquistam uma presença assídua na informação jornalística veiculada pelos vários média . No entanto, não podemos deixar de deter a nossa atenção nas vozes individuais, ou seja, que não pertencem a um coletivo ou organização e que poderão dar uma outra visão à informação que chega ao público, como é o caso da saúde e, neste caso, dos doentes.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 116 4.4. AS ESPECIFICIDADES JORNALÍSTICAS DO CAMPO DA SAÚDE E AS FONTES DE INFORMAÇÃO O jornalismo de saúde e os fatores associados ao uso de fontes de informação partilha com o jornalismo generalista algumas das suas problemáticas, como veremos nas próximas páginas. No entanto, é possível encontrar na investigação já realizada em torno do jornalismo de saúde algumas especificidades associadas a esta especialização temática, sustentada em pesquisas feitas nos vários média. Aliás, a problemática ligada às fontes de informação assume-se como um dos temas centrais para os investigadores. Efetivamente, numa sistematização de publicações sobre jornalismo de saúde e ciência oriundas de vários países, Amend e Secko (2012) identificaram aspetos relacionados com as fontes de informação em mais de metade dos artigos científicos analisados 59 , reconhecendo-lhes interligação com outras problemáticas centrais associadas ao jornalismo de saúde e ciência, e já mencionados no capítulo anterior. Exemplos disso são a linguagem específica e os constrangimentos jornalísticos ligados às pressões dos deadlines . Esta investigação em torno das fontes de informação ligadas à saúde mostra-nos uma realidade complexa de relações que facilmente encontram no jornalista a permeabilidade suficiente para fazer chegar ao público as suas mensagens, debilidade que é reconhecida pelos próprios profissionais (Hodgetts et al., 2008; Tanner, 2004). A influência ou predomínio das fontes oficiais na área da saúde é, pois, verificada por vários autores, à semelhança do que constatámos nos pontos anteriores, desde a televisão (Francescutti et al., 2011; Tanner, 2004), ao online (Secko, Tlalka, Dunlop, Kingdon & Amend, 2011; Tanner & Friedman, 2011) e à imprensa (Araújo, 2016; Azevedo, 2009; Morales & Vallejo, 2010; Silva, 2011; Tomé & Lopes, 2012; Lopes et al., 2013b). Segundo Tanner e Friedman (2011, p. 18), este tipo de interlocutores aparece como informante primário e em grande parte das citações das notícias online das televisões locais norte-americanas, além das fontes especializadas que têm também um “papel essencial no desenvolvimento e formatação das notícias”. A credibilidade das fontes está, inclusive, associada ao seu cargo (Hodgetts et al., 2008), como um interlocutor institucional ou científico (Carducci, Alfani, Sassi, Cinini & Calamusa, 2011). Esta prevalência das fontes oficiais parece ser mais proeminente na cobertura de casos específicos 59 Os autores procuraram reunir publicações com vários critérios, dos quais destacamos a inclusão apenas de artigos com peer review e investigação com metodologia centrada em entrevistas ou questionários a jornalistas.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 117 de epidemias causadas por vírus, como os da Gripe Aviária de 2009, onde diretamente ou por meio de outras ferramentas de divulgação como as conferências de imprensa ou os comunicados, as vozes governamentais chegam aos meios de comunicação um pouco por todo o mundo (Lee & Basnyat, 2013; Lopes, Ruão, Marinho & Araújo, 2012a). No campo da saúde, vários estudos assinalam também os interesses comerciais que operam sobretudo nas empresas farmacêuticas, exercendo pressão através de poderosos gabinetes ou profissionais de relações públicas (Amend & Secko, 2012; Castilla & Rojano, 2007; Gavilán & Iriberri, 2014; Trigt et al., 1994; Saiz et al., 2014). Face a agressividade apontada às investidas de tais vozes, a reação jornalística é de suspeita (Amend & Secko, 2012; Saiz et al., 2014). Apesar de as fontes desta indústria não reconhecerem o seu poder, existe uma preocupação de nem sempre a mensagem que consegue chegar aos média corresponder ao interesse público, com benefícios económicos encobertos por ambas as partes (Morrell et al., 2014b), trazendo à tona problemas associados aos conflitos de interesse 60 e nem sempre transmitindo informação importante para o principal agente: o público (Gavilán & Iriberri, 2014). Por detrás desta realidade parece estar a pressão destas fontes para se autopromoverem e divulgarem tratamentos que podem trazer rendimentos financeiros (Schwitzer, 1992, p. 3). Também os profissionais que informam sobre saúde na televisão local americana confidenciaram a Andrea Tanner (2004) que a natureza técnica desta informação os leva a confiar em demasia nas fontes dessa área. Além disso, a existência de um jornalismo passivo, contrário a uma proatividade de busca das notícias, encontra nos press releases dos gabinetes de relações públicas a sua principal fonte de ideias para estórias. Tomando em consideração esta abordagem acutilante das fontes da indústria ligada à saúde, os jornalistas entrevistados por Morrell, Forsyth, Lipworth, Kerridge e Jordens (2014a) assumiram adquirir alguns métodos que impeçam uma influência por parte daqueles interlocutores. Face ao envio insistente de comunicados de imprensa ou outro material que julguem de interesse público, normalmente seguido de um telefonema, os jornalistas agem com prudência perante uma possível publicidade encapotada, medindo o valor notícia e o 60 Os autores (Gavilán & Iriberri, 2014) encontram em várias pesquisas a menção a viagens a congressos oferecidas a jornalistas pelos laboratórios farmacêuticos, a organização de jantares a reuniões com grupos restritos de jornalistas, chamados advisory boards ou ainda os prémios jornalísticos promovidos por estas empresas. Ocasionalmente podemos ver nas páginas dos jornais nacionais a nota “o Jornalista X viajou a convite de Y”.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 118 interesse público de cada mensagem para a tornar pública, mas não descartando a priori um contacto com estas fontes. No entanto, reconhecem que não são completamente imunes à beligerância da indústria graças à imaturidade profissional. Além disso, acrescentam os autores, as pressões profissionais tanto jogam a favor como contra estas fontes de informação 61 . No fundo, os jornalistas entrevistados assumem-se como profissionais escrupulosos e imunes à influência poderosa e possível manipulação da indústria da saúde. Estas fontes lamentam a criação de um estereótipo da indústria, a falta de conhecimentos dos jornalistas, que não permanecem muito tempo neste beat , o que os leva a oferecer informação incorreta ou tendenciosa ao público, traduzindo-se isso num possível impacto negativo nos seus comportamentos face à saúde. Outra preocupação são as estórias sensacionalistas que dão falsas esperanças ao paciente (Morrell et al., 2014b). Também Len-Ríos et al. (2009) se depararam com esta tendência de preterir tais interlocutores (relações públicas), num estudo onde foram inquiridos vários jornalistas acerca da influência das fontes da saúde, em particular os gabinetes de relações públicas. Contudo, nem sempre esta opção é viável graças aos constrangimentos temporais e económicos (LenRíos et al., 2009). Apesar desta tentativa de prescindir de tais fontes, Andrea Tanner (2004) apurou que existe uma forte tendência para procurar junto dos profissionais de relações públicas ideias para a informação transmitida nas televisões locais norte-americanas. Corbett e Mori (1999) constatam esta mesma tendência quando falam numa dependência das fontes médicas para receber informação e que leva os jornalistas da área científica a publicar material que lhes chega pelos gabinetes de relações públicas com reduzidas alterações. No seu trabalho sobre a cobertura do cancro da mama ao longo de 35 anos, as autoras encontraram uma forte ligação entre as publicações científicas e a informação mediática subsequente, tanto na imprensa como na televisão norte-americana. Este grau de especialização das fontes atinge o jornalismo que versa particularmente sobre a temática da saúde (McAllister, 1992), como referenciou Kruvand (2012) quando procurou perceber o motivo de o Dr. Arthur Caplan ser considerado o bioético mais citado na imprensa norte-americana. Isso acontecia, porque este cientista se adaptara às necessidades dos 61 O tempo reduzido para investigar e produção de notícias ao longo das 24 horas do dia estão no primeiro caso. No entanto, o tempo e o espaço limitados, restringem a verificação de factos no primeiro caso, e eliminam a escolha de estórias a priori, no caso do segundo.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 119 jornalistas: linguísticas, profissionais (em termos de rotinas e pressões temporais). Efetivamente, os jornalistas afirmam que existe a necessidade de contactar uma fonte especializada devido à especificidade das temáticas de saúde e apontam a “extrema confiança” nestas fontes. Além desta questão, os problemas associados à linguagem específica da saúde e ciência são frequentemente apontados pelos profissionais (Amend & Secko, 2012; Larsson et al., 2003; Trigt et al., 1994). A investigação liderada por Ana Larsson (2003) indica que os principais constrangimentos sentidos pelos jornalistas de saúde no seu dia-a-dia se centram no acesso e uso das fontes, sobretudo as que consideram confiáveis e que possam explicar o “jargão científico”. As mesmas conclusões são apontadas por Trigt et al. (1994) que associam o debate em torno das fontes de informação aos problemas da linguagem específica ou científica, que deve ser explicada aos jornalistas, bem como a escolha de fontes com base na sua disponibilidade e nos deadlines jornalísticos. Pede-se por isso uma colaboração mais estreita entre os dois lados: aos jornalistas que consultem os profissionais de saúde pública para conseguir conteúdos mais apurados, e a estes que procurem uma melhor compreensão dos prazos dos jornalistas e uma comunicação da informação técnica de uma forma compreensível ao jornalista e ao público (Friedman, Tanner & Rose, 2014). Além destes aspetos, Viswanath e seus colegas (2008) reconhecem uma distinção entre os vários meios de comunicação no que toca à preferência de determinadas fontes. Se os profissionais de saúde e as fontes não pessoais (sites, estudos, e notas de imprensa) são comuns aos vários meios de comunicação, a imprensa tende a dedicar uma confiança em determinadas fontes, como as governamentais, enquanto a rádio ou a televisão, prestam atenção à informação de sites não governamentais, notas de imprensa (Viswanath et al., 2008). Do lado das fontes, as preocupações mais prementes parecem estar ligadas ao rigor da informação transmitida, com os médicos a confirmarem esta tendência, mas salientando que, por vezes, a precisão da informação é suplantada pelo impacto da notícia (Saiz et al., 2014). Ainda que se verifiquem estes fatores discordantes entre fontes e jornalistas, acaba por também aqui existir uma relação simbiótica (Saiz et al., 2014), à semelhança do que nos deu a conhecer Gans (1979/2004) há 40 anos. Através de entrevistas tanto a jornalistas como a fontes de informação, Saiz e seus colegas (2014) concluem que “por parte dos jornalistas há
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 120 vontade de não cometer erros que deem lugar a retificações na terminologia científica.” Os autores concluem ainda que existe uma certa desconfiança por parte das fontes, sobretudo da parte da classe médica, e um entrave de informação junto dos gabinetes de comunicação dos hospitais. No entanto, pode reconhecer-se neste caso uma relação cordial entre ambos os intervenientes do processo produtivo. Por fim, damos destaque à associação da credibilidade como umas das mais importantes características das fontes de informação nesta área, como deixam antever três exemplos internacionais (El-Jardali et al., 2014; Trigt et al., 1994; Dunwoody & Ryan, 1987). Além disso, as fontes deverão ter boa reputação, ser especializadas, conhecedoras das pressões temporais da profissão e acessíveis, com vocabulário 62 que permita traduzir a complexa linguagem científica associada à ciência médica (El-Jardali et al., 2014; Trigt et al., 1994). Ou seja, preferem a entrevista com um profissional de saúde que lhes explique factos menos compreensíveis a ler um estudo científico (El-Jardali et al., 2014). Apesar de percebemos aqui que existem peculiaridades derivadas das fontes de informação, como a existência de uma linguagem específica, a relação de dependência face às fontes mais especializadas ou o assédio de certo tipo de interlocutores, os repórteres de saúde enfrentam dificuldades ligadas, por exemplo, às condições de trabalho, à semelhança da generalidade dos jornalistas. Estão sujeitos a restrições financeiras e temporais dentro das redações, o que as coloca numa situação de dependência adicional face às fontes de informação e sua disponibilidade. Para perceber esta hierarquia de poder, a análise empírica sustentada numa categorização dos interlocutores da saúde é imperativa. Se trouxemos das páginas anteriores indícios e contributos para uma categorização, devemos procurar na investigação centrada no jornalismo da saúde e da ciência outros dados que sustentem e completem esta sinalização das fontes de informação nas peças televisivas. Os estudos focados nas fontes de informação da área da saúde e ciência médica (Lopes et al., 2013; Silva, 2011; Tabakman, 2013; Trigt et al. 1994) concedem algumas categorias de interlocutores desta especialidade temática. Uma primeira constatação evidencia que as peças noticiosas sobre saúde se fazem com recurso a fontes noticiosas, de acordo com vários 62 Numa pesquisa de 2005 liderada por Waddell e referida pelos autores, um jornalista afirma que descobrir investigadores que falam como seres humanos é como descobrir ouro.
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 127 uma só fonte é por vezes associado à extensão das notícias, sendo as peças breves responsáveis por grande parte desta redução de vozes, com destaque para os comunicados de imprensa como fonte institucional (Morales & Vallejo, 2010) e mais comum em jornais de orientação popular e periodicidade diária (Lopes et al., 2013b). No entanto, a citação de uma só fonte pode trazer vários riscos. “Estórias que confiam em apenas uma fonte não são bom jornalismo”, estando suscetíveis aos interesses escondidos de assessores governamentais, investigadores, companhias farmacêuticas, etc. (Schwitzer, 2004: 2). Numa pesquisa que procura a ligação entre conteúdos exagerados na imprensa e os comunicados oriundos de universidades, percebe-se que existe uma relação de causalidade, sendo que os estudos científicos apresentam menor percentagem de informação exagerada (Sumner et al., 2014). No fundo, o uso de fontes depende de diversas realidades, fatores sociais inerentes à profissão e aos agentes sociais, bem como a casos específicos, divergindo se estamos a fazer a cobertura de determinada doença (Gavilán & Iriberri, 2014; Martín et al., 2014), de situações de risco para a saúde pública, ou de decisões políticas. Podemos perceber que se replicam certas variáveis que identificámos nos pontos 5.3 ao 5.5 para o caso da saúde, havendo lugar a fontes específicas ligadas ao tema e às quais estão associadas certas condicionantes. Esta especificação assume uma manifesta importância no mapeamento que pretendemos traçar na segunda parte desta investigação, ajudando a delinear os contornos de cada fonte de informação que consideraremos na nossa análise. EM SUMA Neste capítulo percebemos que as fontes são um tópico central na abordagem do jornalismo em geral. O caso da especialidade na saúde partilha alguns aspetos da problematização geral em torno das fontes de informação. É o caso da opção dos jornalistas por fontes oficiais e próximas do poder central, ou com um cargo central em determinada organização. Já as especificidades desta especialização parecem generalizar-se a todos os meios de comunicação, não se notando na literatura especificidades profundas na escolha e acesso aos interlocutores da saúde. No entanto, o acesso atempado a determinadas fontes ou a clareza do seu discurso são, a nosso ver, centrais no jornalismo televisivo. A televisão tem ainda inerente um processo de recolha de informação menos ágil do que o dos restantes meios: a
CAPÍTULO 4 | FONTES DE INFORMAÇÃO: DA RELAÇÃO COM OS JORNALISTAS ÀS ESPECIFICIDADES DO CAMPO DA SAÚDE 128 recolha de testemunhos que acedam a estar perante uma câmara ou de imagens de situações de fragilidade humana, a montagem, os tempos encurtados pelos canais de noticias são algumas particularidades do meio que nos propomos analisar. Percebe-se ainda que existe uma diversidade apurada nas várias investigações, apesar de claras vantagens para determinadas vozes, com ligações ao poder central ou que encabeçam certas instituições e organizações. Com base nesta multiplicidade, iremos adiante propor uma categorização própria que tenha em consideração ainda as especificidades do meio televisivo, que nos propomos aqui analisar.
CAPÍTULO 5 O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 130 Os dois próximos capítulos encerram a primeira parte desta tese de doutoramento, referindose, especialmente, ao último dos três pilares nos quais assenta esta investigação. Depois de abordarmos o conceito de saúde e depois do enquadramento do jornalismo centrado nesta temática no vasto campo da comunicação da saúde, debruçamo-nos sobre o meio estudado: a televisão. No capítulo 5 pretendemos ensaiar uma visão diacrónica do medium em questão, terminando com uma visão atual dos principais desafios que marcam a comunicação televisiva na atualidade. 5.1. CAMINHOS EVOLUTIVOS: DA PALEOTELEVISÃO À HIPER-TELEVISÃO 71 Na última década, a televisão tem vindo a sofrer alterações profundas nos seus contornos e modos de difusão, por força das alterações tecnológicas e, consequentemente, da consolidação de um telespectador mais exigente. Ver televisão, graças aos novos dispositivos móveis, já não implica estar à frente do televisor e é, precisamente, nesse fator tecnológico que reside a explicação para o declínio da neotelevisão . Neste capítulo pretendemos mapear os estudos que explicam esta terceira fase da televisão – por muitos designada por póstelevisão , pós-neotelevisão ou hipertelevisão –, salientando particularidades e novos padrões e buscando o lugar da informação nessa transição. O início de uma nova fase para a televisão não é consensual, mas há dois fatores que são frequentemente apontados: a convergência de ecrãs e a interatividade. É isso que permite que o espectador passivo se transforme em produtor de conteúdos, construtor da sua própria grelha de programação e livre de escolher a plataforma e o horário que lhe é mais conveniente. No entanto, esta desconstrução e fragmentação dos ecrãs surgem sobretudo com o aparecimento dos canais por cabo, que potenciam exponencialmente a oferta televisiva. Estas marcas de interatividade visíveis nos canais do cabo aparecem com menor incidência na televisão generalista. Um pouco por toda a Europa, e em especial em Portugal, não se vê ainda uma transição completa para uma nova era digital televisiva de potencial interativo, mas pequenos indícios em programas diários, de entretenimento ou informação, que promovem a participação do público via telefone ou internet. É, por isso, um esse retrato da televisão que temos na era do digital que nos propomos fazer, tendo por base as publicações existentes 71 Este ponto resulta de uma adaptação da apresentação intitulada Pós-televisão, pós-neotelevisão ou hipertelevisão? Lugar da informação na nova fase da televisão portuguesa , apresentada no seminário A TV pós-privadas: políticas, conteúdos e regulação , na Universidade Católica Lisboa, a 15 de novembro de 2016.
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 131 sobre esta matéria. Com efeito, desde o virar do milénio a televisão tem vindo a ser palco das mais variadas mutações. Para trás fica um percurso que, acima de tudo, foi entregando o poder ao espectador, inexistente nos primeiros momentos de vida do pequeno ecrã. Esta evolução tem vindo a ser registada, a nível académico, por estudos incidentes, sobretudo, na programação televisiva. A importância deste foco não é inocente. A grelha televisiva e sua construção têm implícitas certas características e funções da televisão. Além de conferir uma identidade às estações de televisão (Rizza, 1990; Lopes, 2011), “orienta os produtores de conteúdos, permite uma compreensão global da grelha, fornece mapas de referência às audiências” (Lopes, 2011, p. 21). Esta distribuição (aparentemente) lógica de programas tem por detrás fatores económicos e fatores ligados à concorrência, sendo o seu auge o primetime , com o objetivo de “otimizar a audiência e dar ao espectador a sensação de um serão completo” (Rizza, 1990, p. 37). Procurando um entendimento sobre este percurso, o primeiro ponto do Capítulo 5 tem como principal objetivo o mapeamento dos estudos nacionais acerca desta última etapa televisiva, sem esquecer o percurso evolutivo da televisão através das grelhas de programação. Buscamos, sobretudo, as investigações que têm como base o percurso mostrado por Umberto Eco, e seguido por um vasto leque de autores, que dá conta do desenvolvimento da televisão de acordo com os conceitos de paleotelevisão e neotelevisão . Percebendo que o atual estado da televisão não reúne consenso no que diz respeito ao seu início e tampouco à sua denominação, queremos saber se existem diferenças também nos próprios conceitos discutidos pelos autores. Interessa saber, por fim, em que estado se encontra a informação no panorama televisivo português, de acordo com estes conceitos em debate. 5.1.1. PALEOTELEVISÃO OU "TV JANELA" A evolução da estrutura televisiva foi abordada por diversos autores tendo em conta os contextos sociais, culturais e políticos que condicionaram o seu formato. A referência a Umberto Eco (1993) é incontornável quando pretendemos refletir sobre o período da paleotelevisão e da neotelevisão (Bourdon, 1998; Imbert, 2003; Lopes, Tourinho, & Vieira, 2011; Loureiro, 2008; Piscitelli, 1995; Roel, 2008; Scolari, 2008a).
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 132 O conceito de paleotelevisão engloba o período de monopólio das estações públicas europeias, vivido numa conjuntura política de ditadura onde a televisão era utilizada como veículo de mensagens do poder central de cada país (há uma clara distinção entre o velho continente e a realidade norte-americana onde, em simultâneo, se assistia ao desenvolvimento da televisão privada), como afirmam Felisbela Lopes e seus colegas num artigo onde traçam esta evolução (Lopes et al., 2011). Noutros estudos que perspetivam este mesmo período televisivo percebe-se que, na vigência deste modelo, a televisão é usada para mostrar o próprio governo e a programação é concebida como um “horário escolar, onde os programas se sucedem uns aos outros, com o único propósito de ocupar a franja de emissões (...) com um critério didático e de entretimento” (Wolton, citado em Bandrés, Avilés, Pérez, & Pérez, 2002, p. 34). O público é aqui assumido como um grande grupo de alunos, enquanto os profissionais de televisão tomam o papel de (ativo) de professores perante o projeto de educação cultural e popular que era a paleotelevisão (Piscitelli, 1995), sendo entendido como um espectador passivo (Cortés, 2001). Através da televisão o Estado queria “ensinar, ensinar a ver, ensinar divertindo” (Cortés, 2001, p. 19). A grelha de programação era rígida e com clara separação de géneros (Piscitelli, 1995). Além desta delimitação nos conteúdos (informação, ficção, emissões culturais), notava-se “uma divisão específica de públicos (programas para as crianças, para os aficionados do desporto automóvel, para os amantes da natureza...)” (Lopes, 2011, p. 21). Portanto, era o poder político europeu que financiava as estações e ditava os conteúdos emitidos, ignorando as preferências do público, potenciando e mostrando uma visão do mundo que consideravam adequada: Esta forma de atuação liga-se a um panorama audiovisual europeu onde constavam sobretudo canais de serviço público, financiados e controlados por um Estado-Providência que sustentava os custos das estações televisivas e que se propunha promover o bem-estar dos cidadãos conforme aquilo que lhe parecia ser melhor (para a sua perpetuação no poder, poder-se-ia acrescentar). (Lopes et al., 2011) As televisões do Estado “limitavam-se a oferecer uma série de programas de acordo com um certo sentido de oportunidade, da necessidade política e do sentido comum”, descurando uma
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 133 estratégia de programação ou o aumento de audiências (Cortés, 2001, p. 17). A paleotelevisão era, nesta perspetiva, “submetida a censura e concebida para um público ideal, brando e católico” (Eco, 1993, p. 149), no fundo, para um espectador passivo (Cortés, 2001). 5.1.2. NEOTELEVISÃO OU "TV ESPELHO" A transição para o período seguinte é abordada por vários autores que sublinham alguns aspetos essenciais comuns. Antes de mais, partem do surgimento da televisão privada, nos anos 80 ou 90 (conforme os países) (Cortés, 2001; Piscitelli, 1995; Prado, 2011; Roel, 2008), conduzindo ao período da neotelevisão , em que o propósito principal é atingir o lucro comercial, rompendo com o percurso monopolista do Estado (Bandrés et al., 2002; Eco, 1993; Fernandes, 2000; Roel, 2008) e com o contrato pedagógico da paleotelevisão (Casetti & Odin, 1990; Piscitelli, 1995). A neotelevisão passa a ser um espaço de convívio em vez de um espaço de formação (Casetti & Odin, 1990; Piscitelli, 1995). A perspetiva sobre esta estratégia de uma neotelevisão que gira em torno desta relação entre audiência e lucro é corroborada por Ana Paula Fernandes (2000), num artigo sobre a realidade da programação portuguesa, onde conclui o seguinte: (...) a programação constitui um instrumento que visa captar e fidelizar o público, o qual, enquanto consumidor de programas e de publicidade, é fundamentalmente encarado como ‘audiência/mercadoria’. Quanto mais audiências tem um canal, mais constitui a preferência dos anunciantes. Isto significa que planear uma programação que suscite o interesse do público se torna uma tarefa nem sempre fácil, uma vez que muitas vezes se investe num determinado programa que acaba por captar poucas audiências e tem de ser retirado da grelha. (Fernandes, 2000, p. 136) A construção da grelha de programação na neotelevisão responde, portanto, a uma lógica mercantil, sempre com um olhar sobre o público e sobre a sua conquista, com uma adequação dos programas à franja horária que represente uma maior audiência 72 , expressando-se numa quebra completa com a paleotelevisão , onde os programas eram unidades isoladas e independentes entre si. Pensa-se, assim, numa programação cuja ação 72 Há uma distinção entre a programação semanal e a de fim de semana.
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 134 sinergética que adequa o processo produtivo em função do tempo e do lucro. Esta luta pelas audiências traz implicações que atingem direta e inevitavelmente a grelha de programação. 73 Na obra intitulada La estrategia de la seducción: La programación en la neotelevisión , José Ángel Cortés (2001) confirma que passa a haver uma convivência entre ambas as televisões, pública e privada, cujas programações se assemelham e que pedem a valorização através das audiências traduzidas em lucro. Assistimos a uma relação bidirecional entre emissor e recetor, com uma grelha que procura responder aos interesses de um espectador que passa a ter acesso a programas distintos ao longo do dia, e que simboliza a identidade da estação (Fernandes, 2000; Cortés, 2001). Desta forma, o centro da sua preocupação transfere-se para o telespectador (Cortés, 2001; Eco, 1993), alvo de uma televisão privada resultante do processo de desregulação e liberalização (Bandrés et al., 2002). No fundo, é uma televisão cujo propósito passa pela sedução do público através de uma moldagem aos seus presumíveis gostos, conforme explica Gerard Imbert (2003) na obra El zoo visual: De la televisión espectacular a la televisión especular . Francesco Casetti e Roger Odin, na sua abordagem semiótico-pragmática à passagem da paleo à neotelevisão , assumem esta centralidade do público numa interatividade própria desta época e que é identificada na interpelação que o apresentador ou o cameraman fazem constantemente ao espectador. “Nunca o espectador foi tão interrogado”, já que passa a ter o papel de contratante (pelos programas interativos onde pode telefonar), participante (por exemplo, em concursos), e avaliador (do participante em debate, em jogos e da “própria televisão”) (Casetti & Odin, 1990, p. 12). Serão estes os primeiros rasgos de interatividade proporcionados pela neotelevisão e pela multiplicidade de canais que começam a surgir por conta da própria desregulação e da inovação tecnológica emergente nos anos 90, desde o cabo ao satélite (Cortés, 2001). Além disso, esta nova televisão pretende ser um reflexo da vida diária (Casetti & Odin, 1990; Eco, 1993), assumindo-se como uma janela para o espectador – que também ele é 73 Debrucemo-nos sob dois exemplos geograficamente próximos. Em Espanha, a aposta faz-se em programas de baixo custo e em temas que rompam com os programas tradicionais, mais incidentes no humor, na violência e na mortalidade, em conteúdos mais dinâmicos, mais compreensíveis e que proporcionem entretenimento e distração (Bandrés et al., 2002). Além disso, assiste-se a um sacrifício da qualidade em prol da espetacularidade dos novos conteúdos (Roel, 2008). No caso de Portugal, a conquista de audiências num período de recessão económica, aquando da liberalização da televisão, traduz-se numa grelha de programação que acusa as estratégias de fidelização do público. No fundo, era organizada para responder ao “tempo social” e ao “tempo televisivo” da audiência (Fernandes, 2000). Além do surgimento das televisões privadas da carácter generalista, o panorama televisivo português passa a contar com canais privados temáticos com o surgimento da televisão por cabo em 1994 (Sobral, 2012).
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 135 protagonista dos conteúdos emitidos (Bandrés et al., 2002) e que vê na televisão um acompanhamento do seu quotidiano (Fernandes, 2000). 74 Outra característica que aponta um corte visceral com a paleotelevisão é o facto de a própria televisão falar mais sobre si do que do mundo (Eco, 1993). Esta nova forma de ser justifica, assim, a divulgação da sua tecnologia (microfones, telefones, câmaras, etc.) que antes era escondida (Scolari, 2008b; Lopes et al., 2011). Exemplo disso é a novidade de uma janela aberta para a redação nos estúdios de televisão introduzida pela SIC em 1992, e que hoje se alarga a todos os canais generalistas portugueses, como evidenciara Saraiva num traçado diacrónico sobre a cenografia da informação televisiva (Saraiva, 2011). Olhando em particular para a programação televisiva, existem orientações que a distinguem da paleotelevisão , além da sua tendência para fixar a atenção do espectador 75 . A noção de fluxo televisivo, introduzida por Raymond Williams (2003) já nos anos setenta 76 , é notória aquando do aparecimento da televisão privada na Europa. Apesar de o autor norte-americano não fazer alusão ao conceito de neotelevisão , é na ideia de fluxo da programação que nasce o novo modo de fazer e ver televisão, na perspetiva de José Ángel Cortés (2001). Esta visível diluição de programas permite que a grelha avance fluída e não com uma separação notória de programas, tal como existia na paleotelevisão (Casetti & Odin, 1990). As grelhas sofrem, por isso, mudanças profundas com emissões omnibus onde vários géneros são emitidos de uma só vez, desde a informação, ao entretenimento, passando pelo espetáculo ou pela publicidade (Casetti & Odin, 1990; Piscitelli, 1995). Apesar desta transição, vários autores dão uma visão crítica da dualidade entre paleo e neotelevisão (Bourdon, 1998; Casetti & Odin, 1990; Imbert, 2003; Scolari, 2008). Jerôme Bourdon (1998), sociólogo responsável por várias publicações sobre estudos televisivos na 74 Encontramos, portanto, vestígios dessa neotelevisão com o surgimento das estações privadas portuguesas, onde programas de índole mais pessoal e voltados para o cidadão comum começaram a ser emitidos. Programas como “Perdoa-me”, “ All you need is love ” ou “Ponto de encontro”, para citar alguns exemplos, correspondem a estas características. 75 Em Portugal, as grelhas de programação dos anos noventa são compostas por informação, concursos, comédias, entretenimento, séries e novelas, numa década conturbada para a televisão portuguesa, sobretudo para a RTP que passa por sérias dificuldades financeiras e perda de audiências (Sobral, 2012). Nos três primeiros anos de televisão privada assiste-se a uma concorrência por “mimetismo” passando posteriormente a “contraprogramação” (Fernandes, 2000). Ana Paula Fernandes (2000) conclui que se distinguem duas grandes áreas de maior investimento por parte das estações televisivas: a ficção e a informação. No geral, afirma haver uma negatividade no início da televisão privada, incidente na qualidade da oferta televisiva e duração de emissões, e um fator positivo que se mostra pela diversidade da oferta. 76 Raymond Williams (2003) utilizou, em 1975, o conceito da programação como um fluxo planeado. Nas palavras do autor, esta é uma característica que define a radiodifusão, “em simultâneo como tecnologia e forma de cultura”. De acordo com este conceito, cada programa faz parte de uma sequência de programas semelhantes e é entendido como uma unidade de tempo que faz sentido englobado num conjunto de outras unidades como um fluxo onde até os intervalos devem integrar o sentido total da grelha de programação, contrariando uma ordenação estática e descontínua de programação. Podemos integrar esta análise na paleotelevisão por se focar na realidade britânica e norte-americana que cedo viram surgir canais de televisão privada. Aliás, os Estados Unidos não conhecem outra realidade.
CAPÍTULO 5 | O LUGAR DA TELEVISÃO NA INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA 136 Europa, assume uma postura reprovadora da dualidade simplista dos conceitos de Eco, não a refutando, contudo, por completo. Com uma mesma perspetiva, o autor brasileiro Carlos Scolari (2008b) mostra-se um pouco crítico da dualidade simples de paleo/neotelevisão num período que abrange processos bastante mais complexos e “multideterminados” (p.3) 77 , enquanto Gerard Imbert (2003) aponta uma rigidez demasiado severa na divisão entre esta etapa da televisão e aquela que a precedeu. “Na realidade estamos sempre a lidar com estruturas mistas de paleotelevisão e neotelevisão”, afirmam Casetti e Odin (1990, p. 22). Apesar de grande parte dos autores mencionados focar a sua atenção nos programas de entretenimento, é possível verificar que a centralização no espectador não se cinge apenas a estes. A informação, em especial os programas do prime-time , é a “coluna vertebral” da restante programação, conferindo prestígio e construindo a imagem do canal, como indicam Elena Bandrés e seus colegas, na obra intitulada El periodismo en la televisión digital (onde aborda a crise da neotelevisão em Espanha). Nesta luta de audiências, os contornos destes programas alteraram-se, tendo aumentado o seu volume em secções autónomas, separadas por publicidade, como é o caso do desporto ou da meteorologia (Bandrés et al., 2002). O jornalismo visa agora seduzir o público, enquanto o editor organiza o noticiário como se de uma programação dentro da programação se tratasse, “o mais completa, variada e amena possível” (Bandrés et al., 2002, p. 36). 78 Apesar de identificarmos alguns denominadores comuns, não se encontra uma unanimidade, nas várias publicações, quanto às fronteiras temporais entre as várias fases aqui em debate. Jerôme Bourdon, na obra editada com François Jost (1998), exemplifica com a realidade francesa o facto de os reality shows e a “televisão-verdade” serem um género sistematicamente associado à neotelevisão . Na realidade portuguesa, este género atribuiu-se já a uma pós-neotelevisão, numa fase transitória para a era atual da televisão (Lopes, 2008a), e registada no virar do milénio (Fernandes, 2000). Também Carlos Scolari (2008b) não encontra lugar para este novo género no conceito de paleotelevisão , sugerindo a sua passagem para uma nova noção, a de hipertelevisão que se 77 Carlos Scolari (2008b) encontra ainda nas palavras de outros autores (Semprini, 1994; Cavicchioli & Pezzini, 1993) a dificuldade em integrar certos formatos na paleotelevisão , como são os casos dos talk shows , a TV verdade ou os docudramas. Por outro lado, Alejandro Piscitelli (1995) identifica o talk show como o género primordial da neotelevisão. 78 No caso específico de Portugal, passam a existir noticiários mais personalizados e focados no direto, a emissão de programas especializados e uma espectacularização da informação, enquanto os canais privados recuperam a grande reportagem; surge o infoshow , uma mescla da informação com espetáculo, os programas de caris policial onde se procuram desaparecidos, e o conceito de “televerdade”, e imperam o talk show e o reality show (Fernandes, 2000).
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 239 As páginas que antecederam este capítulo apontam vários problemas, dificuldades e peculiaridades do jornalismo de saúde com base em estudos publicados um pouco por todo o mundo. No entanto, e como já foi referido, está ainda por fazer uma investigação centrada no jornalismo televisivo de saúde em solo português. É essa temática que iremos explorar doravante. Nos próximos capítulos iremos debruçar-nos em vários aspetos da cobertura noticiosa da saúde nos ecrãs portugueses, tendo por base comparativa as várias características indicadas anteriormente. A análise subsequente será exposta em duas partes distintas: os dados referentes ao tempo, geografia, ângulo e tema das peças informativas, e as fontes de informação: 1). Na primeira parte (8.1.), após uma análise geral inicial através da evolução das peças por semestres e por emissora, queremos avaliar a informação quanto ao seu tema, tempo e lugar dos acontecimentos, a referência a enfermidades, género informativo ou ainda tipo de emissão, posicionamento no noticiário ou duração. Olhamos estas variáveis tendo sempre a perspetiva da evolução temporal por semestre e por cada universo de emissoras: RTP, SIC e TVI. Sempre que se prevejam outras possibilidades, cada variável será cruzada com outra que possa justificar as suas características 162 através de testes de associação 163 . 2). Na segunda parte (8.2.) olhamos as fontes de informação, contabilizando a sua frequência, o tipo de vozes citadas (pessoal ou não pessoal), sua forma de citação, identificação, geografia e estatuto. No caso dos médicos, verificamos ainda a sua especialidade, caso seja aplicável. Da mesma forma que acontece com os dados apontados no ponto 8.1., estes dados podem encontrar uma justificação nas variáveis analisadas nessa primeira parte. 164 Serão, portanto, feitos cruzamentos de dados que se julguem necessários para explicar determinados resultados. 162 Por exemplo, a duração de cada peça pode depender do seu posicionamento no noticiário, ou do tipo de emissão que é feita, ou mesmo do género informativo. 163 Para a associação entre duas variáveis foi usado o teste do V de Cramer que assume valores entre 0 e 1, sendo que 0 corresponde a uma ausência de associação e 1 uma associação forte. Usado para testar hipóteses através de variáveis nominais, a sua interpretação responde a várias possibilidades. A atribuição de uma associação fraca, moderada ou forte varia consoante os autores, sendo a tendência geral a de que os valores menores que .10 representam uma associação fraca, entre .11 e .30 teremos uma associação moderada e acima desse valor consegue-se uma associação forte (http://www.statisticssolutions.com/nominal-variable-association/). 164 Por exemplo, o número de fontes ou mesmo a sua identificação completa poderá depender da duração da peça de informação. Além disso, uma fonte citada em voz off pode não ter o mesmo nível de identificação de uma fonte citada através de um vivo, podendo haver influência do modo de citação.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 240 8.1. CARACTERIZAÇÃO GERAL DA INFORMAÇÃO A informação em análise foi recolhida ao longo de 2013, 2014 e do primeiro semestre de 2015. Em trinta meses foram selecionados 150 dias para visionar 750 noticiários, durante os quais foram transmitidas 1731 peças com enfoque temático na área da saúde, reunidas em mais de 300 GB de dados informáticos (vídeo). São quase 12 notícias por dia emitidas pelos três canais generalistas e os respetivos canais de informação dos grupos de canais da RTP, SIC e TVI. Ano Total 2013 2014 2015 Semestre Semestre1 N 305 269 383 957 % 55,3% 33,8% 100,0% 55,3% Semestre2 N 247 527 0 774 % 44,7% 66,2% 0,0% 44,7% Total N 552 796 383 1731 % 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Tabela 7: Distribuição de peças informativas por semestre Nos 5 semestres em análise a informação emitida não registou uma evolução linear, mas apresentou alguns picos noticiosos. Em 2013 há um decréscimo de informação do primeiro para o segundo semestre, ocorrendo uma recuperação nos semestres seguintes, e uma nova descida em 2015. Na origem destes picos de informação está o surto de Ébola que assolou primeiro o continente africano, tendo alastrado à Europa e América através de casos esporádicos e mesmo isolados, divulgados sobretudo no mês de agosto e outubro de 2014 com a localização do vírus na Espanha (Cf. Capítulo 9). No início de fevereiro de 2015 assistimos a uma semana em que as políticas de saúde se cruzam com a Hepatite C (Cf. Capítulo 9). Trata-se, portanto, de períodos com alguma atipicidade, conforme confirmam alguns estudos (Lopes et al., 2012a; Ruão et al., 2012; Sell et al., 2017; Towers et al., 2015) e que ocorrem igualmente em períodos que não abrangem a nossa amostra, como foram os casos de algumas enfermidades que potenciaram a cobertura dos média, sendo um dos
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 241 exemplos a Legionella que invadiu o espaço mediático em 2014, bem como a propagação do Zika em 2015. Os dados olhados sob a perspetiva do universo RTP, SIC e TVI mostram um serviço público onde a saúde é privilegiada, já que os canais da estação pública reúnem perto de 40% das peças em análise (39,2%). Para tal contribui a emissão de um volume considerável de informação no programa da manhã que a RTP1 e RTP Informação emitem em simultâneo, o Bom Dia Portugal , e que agrega metade dessas peças. Do lado oposto, o universo SIC emite pouco mais de um quarto de todo o corpus de análise (27,3%), deixando para a TVI a restante fatia de informação (33,6%). N % por emissora % por informação total RTP RTP1 | RTP Informação – Bom Dia Portugal 336 49,6 19,4 RTP1 – Jornal da Tarde 144 21,2 8,3 RTP Informação – Jornal das 14 / Notícias 83 12,2 4,8 RTP – Telejornal 65 9,4 3,8 RTP Informação – Grande Jornal 50 7,4 2,9 Total RTP 678 100,0 39,2 SIC SIC | SIC Notícias – Edição da Manhã 95 20,1 5,5 SIC – Primeiro Jornal 167 35,4 9,6 SIC Notícias – Jornal das Duas 125 26,5 7,2 SIC – Jornal da Noite 75 15,9 4,3 SIC Notícias – Jornal das 9 /Edição da Noite 10 2,1 0,6 Total SIC 472 100,0 27,3 TVI TVI | TVI24 – Diário da Manhã 252 43,4 14,6 TVI – Jornal da Uma 140 24,1 8,1 TVI24 – Notícias (14h) 100 17,2 5,8 TVI – Jornal das Oito 74 12,7 4,3 TVI24 – Notícias (21h00) 15 2,6 0,9 Total TVI 581 100,0 33,6 Tabela 8: Peças por universo RTP, SIC e TVI, por jornal televisivo e percentagens totais
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 242 É, pois, no período da manhã que se concentra grande parte desta informação, como acontece nos casos da RTP e da TVI. Já a SIC remete para as tardes o maior volume de informação 165 . Apesar de ter um espaço quase diário onde se dá voz aos profissionais de saúde através de entrevistas, aquela que é a primeira estação privada portuguesa é mais contida na quantidade de informação que presta nos noticiários matutinos. Deve ainda relembrar-se, para efeitos desta distribuição, que a lógica da emissão de informação nas tardes e no prime-time é diferente destes primeiros blocos noticiosos do dia. Se os noticiários matinais são emitidos em simultâneo nos canais generalistas e por cabo, quando olhamos os restantes períodos em análise, observamos uma repetição significativa de informação entre os noticiários transmitidos em sinal aberto e os programas do cabo, com raro lugar a nova informação nestes últimos. Mas não se trata de uma repetição total das notícias. Numa distinção entre os canais generalistas e por cabo, cada emissora reduz a transmissão de informação entre os seus noticiários das 13:00 ou das 20:00 (RTP, SIC e TVI) e das 14:00 ou das 21:00 (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24). Poderíamos atribuir esta diminuição à menor duração dos noticiários do cabo (em que o mais evidente é o caso da RTP Informação, às 14:00), mas parece ser mais lógico remeter esse motivo para o público-alvo dos canais de notícias que pedem uma informação mais concentrada e funcionam numa lógica de repetição e rotatividade ao longo do dia. Essa dissonância nota-se, sobretudo, no horário nobre, em que os noticiários do cabo se voltam para o debate político. Exemplo disso é o extinto Jornal das 9 da SIC Notícias e do consequente Edição da Noite , com apenas 2,1% da informação da SIC/SIC Notícias ao longo de dois anos e meio, ou o Notícias da TVI24, com 2,6%. A televisão pública tem um maior equilíbrio entre o canal generalista e o canal por cabo, com 65 (9,6%) e 50 peças (7,4%), respetivamente. Nas tardes nota-se a tendência distinta, havendo um maior equilíbrio entre os dois noticiários da SIC e da TVI, enquanto a RTP Informação emite pouco mais de metade das peças no seu espaço das 14:00 quando comparada com os números do Jornal da Tarde da RTP1 (Cf. 165 A RTP emite 49,6% da sua informação no programa da manhã. Já a SIC reúne 61,9% destes conteúdos nos dois programas informativos da tarde ( Primeiro Jornal e Jornal das Duas ), deixando para as manhãs 20,1% de toda a informação emitida. A TVI distribuiu com algum equilíbrio a sua informação entre a manhã (43,4%), com o Diário da Manhã, e a tarde (41,3%), com o Jornal da Uma e o Notícias (14:00) .
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 243 Tabela 8). Note-se que a partir de outubro de 2014 registámos um novo formato na RTP, com blocos informativos mais curtos neste horário, quando o Jornal das 14 , de cerca de 50 minutos, dá lugar ao Notícias (14:00) , de 10 minutos. Esta duração deixa, certamente, de parte as notícias que não se posicionam nos primeiros momentos do Jornal da Tarde . Com efeito, os vários períodos distinguem-se entre si. No entanto, a própria evolução de cada um ao longo dos vários semestres não apresenta semelhanças entre todos os programas emitidos. A RTP continua a apresentar números superiores aos das restantes emissoras, conforme os dados evidenciados no Gráfico 1, que mostram ainda uma evolução proporcional entre a emissora pública e a TVI. Se a SIC parece acompanhar esta evolução nos dois primeiros semestres em análise, apresenta no restante período uma primeira subida menos acentuada e, de seguida, um decréscimo mais pronunciado. Gráfico 1: Distribuição das peças da manhã por semestres 56 38 61 99 82 22 13 15 32 13 34 28 44 79 67 0 20 40 60 80 100 120 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre 1 2013 2014 2015 RTP-Bom Dia Portugal SIC-Edição da Manhã TVI-Diário da Manhã
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 244 Gráfico 2: Distribuição das peças da tarde por semestres e por noticiário Os dados do período da tarde traduzem uma evolução desigual nos dois primeiros semestres, havendo lugar a uma distribuição com progresso semelhante nos três semestres finais (de acordo com dados do Gráfico 2). Além disso, não se identifica uma tendência que destaque determinada estação ou programa, já que, por exemplo, o Primeiro Jornal se posiciona em terceiro lugar no primeiro semestre, atrás dos dois programas concorrentes, mantendo-se nos semestres seguintes com valores superiores (segundo, terceiro e quinto semestres) ou iguais (ao Jornal da Tarde no quarto semestre). Outro aspeto a reter será a verificação de valores diferentes entre noticiários emitidos nos canais de emissão aberta e os canais de notícias, de acesso pago. No caso da RTP, verificamos a tendência evidente de um menor número de peças emitidas na RTP Informação através do programa Jornal das 14 , com números consideravelmente inferiores quando o noticiário vê uma redução da sua duração (para 10 minutos) e alteração de nome para Notícias 14:00 , no segundo semestre de 2014 e no primeiro de 2015. Na SIC, a diferença entre os dados dos dois tipos de noticiários não se mostra tão evidente, assim como ocorre com os programas da TVI. Não podemos ainda deixar de referir que o Jornal das Duas é o único a apresentar valores superiores ou idênticos a um dos noticiários emitidos em sinal aberto, o Jornal da Uma da TVI, durante o ano de 2014. 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre 1 2013 2014 2015 RTP-Jornal da Tarde SIC-Primeiro Jornal TVI - Jornal da Uma RTPi - Jornal das 14 / Notícias SICN - Jornal das Duas TVI24-Notícias (14h)
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 245 Gráfico 3: Distribuição das peças da noite (prime-time) por semestres e por noticiário Durante o prime-time manifesta-se uma tendência distinta das restantes, já que encontramos noticiários dos canais temáticos que, à partida, apostam na sua duração mais longa para emitir mais informação que os programas das 20:00. O único caso é, no entanto, o do Grande Jornal - RTP Informação, que emite 16 peças face às 12 do Telejornal – RTP1 durante o primeiro semestre de 2013. No caso dos restantes programas, a diferença entre os dois tipos de emissão (em sinal aberto e nos canais temáticos) não mostra dados que permitam identificar uma evolução uniforme da informação sobre saúde no período em análise. Conforme tivemos já oportunidade de mencionar, alguns destes programas possuem uma índole profundamente voltada para temas políticos que não inclui nestes o tema da saúde. De entre os três noticiários da TV por cabo, o que pertence à estação pública dá conta de uma clara vantagem sobre os seus concorrentes. Nos noticiários emitidos nos três canais generalistas notam-se vantagens alternadas entre todos, com a RTP a emitir um número de peças sobre saúde nas emissões do Telejornal com valores ligeiramente superiores no segundo semestre de 2014; a SIC sobrepõe-se no segundo semestre de 2013 e a TVI surge no lugar cimeiro no primeiro e últimos semestres em análise. Ou seja, os dados resultantes de uma análise comparativa entre os dois tipos de noticiários mostram-nos uma tendência para a emissão de menor volume noticioso nos noticiários dos 0 5 10 15 20 25 30 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 RTP-Telejornal SIC - Jornal da Noite TVI - Jornal das Oito RTPi - Grande Jornal SICN - Jornal das 9/Edição da Noite TVI24 - Notícias (21h00)
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 246 canais de notícias, salvo raras exceções, o que é indicativo de uma identidade própria dos programas de informação dos canais temáticos que funcionam numa lógica de repetição de informação com lugar a nova informação, caso exista e mereça lugar no alinhamento dos programas de informação, de forma mais sintética. Com efeito, são raros os casos de peças que não foram integradas nos jornais dos canais generalistas, fazendo parte apenas dos programas analisados nos canais de notícias, o que pode ser indicador de uma informação nova. A não repetição de toda a informação constante nos canais generalistas pode indicar uma identidade diferente para os dois tipos de noticiários, como afirmámos previamente. GÉNERO JORNALÍSTICO Na continuidade desta análise geral surgem outros aspetos de destaque da informação televisiva. Além do mencionado no primeiro ponto sublinhamos aqui outra especificidade da televisão em relação, por exemplo, aos meios de comunicação escritos. Além da evidente vantagem na transmissão de notícias 166 , obtemos dados que também indicam uma opção pelas entrevistas acima da emissão de reportagens (Tabela 9). Ou seja, enquanto podemos ver que na imprensa há lugar a menos entrevistas aos atores da saúde (Lopes et al., 2013b; P. Silva, 2009), no pequeno ecrã assistimos, como já foi referido, a entrevistas diárias nos programas da manhã que engrossam o volume deste género jornalístico nos noticiários. Nos restantes períodos existem valores menos expressivos para o convite a estúdio das fontes de informação, a favor de reportagens de investigação jornalística e das notícias 167 . Apesar dos dados assinalarem uma clara aposta de entrevistas no período da manhã (16,1%) quando comparada com a sua percentagem nos noticiários das tardes (1,7%) e das noites (traduzidas em 2,1% das peças dos noticiários de horário nobre), não encontramos valores que nos indiquem uma associação entre o período do dia em que as peças são emitidas e o género noticioso (V de Cramer = 0,194 e refletirem uma associação moderada). 166 Com 81,8% das peças das manhãs, 93,7% nas tardes e 91,7% no prime-time. 167 As entrevistas ultrapassam os 16 valores percentuais (16,1%), deixando uma margem bastante menor para as reportagens (2,0%) no período da manhã. Durante a tarde, os noticiários emitiram 1,7% de entrevistas e 4,6% de reportagens, deixando uma margem maior para as notícias (93,7%). A partir das 20:00 e até ao final dos noticiários das 21 horas nos canais por cabo, foram emitidas 2,1% de entrevistas e 6,2% de reportagens.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 247 Apesar disso, não podemos deixar de constatar que o volume total de entrevistas é adensado graças às rubricas das manhãs. Este é um período onde se veem menos reportagens do que nos noticiários da tarde e da noite. É durante os noticiários de horário nobre que a reportagem tem os seus valores mais expressivos (6,2%). Durante a tarde, a fraca percentagem de entrevistas (1,7%) deixa maior lugar às reportagens (4,6%). Se a possibilidade de uma associação entre o género noticioso e o período em que é emitida a peça é refutada, obtemos indícios de uma ligação entre a duração das peças e o género informativo. N % Noticia 1535 88,7 Entrevista 129 7,5 Reportagem 67 3,9 Total 1731 100,0 Tabela 9: Géneros informativos Olhando esta distribuição de acordo com a evolução temporal por semestre analisado (Gráfico 4) e por noticiário (agrupado por universo mediático) (Gráfico 5), temos resultados semelhantes, com uma diferença mais expressiva a destacar o volume de notícias face aos restantes géneros em análise no segundo semestre 2014. 168 168 Este foi o período que viu noticiado o caso específico do ébola (Cf. Capítulo 9) que adensou estes resultados através de uma emissão superior de notícias. Tratou-se, portanto, de um jornalismo com incidência na atualização de informação factual e sem aposta na investigação. O nível de reportagens e entrevistas manteve-se relativamente estável ao longo do período de análise.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 248 Gráfico 4: Distribuição do género informativo das peças por semestre Os dados resultantes da análise das peças, conjugadas pelo universo RTP, SIC e TVI 169 (Gráfico 5), dão conta de uma tendência semelhante, já que todos os noticiários apresentam um volume de notícias superior às entrevistas e reportagens, liderado pelos canais do serviço público. No entanto, se no caso da RTP e SIC estas apresentam mais entrevistas (72 e 30, respetivamente), o universo TVI emite um número igual de entrevistas e reportagens (25). Ou seja, aqui os dados dão ligeira vantagem da RTP sobre os restantes grupos na contagem de entrevistas, não havendo uma diferença tão evidente nas reportagens, nas quais a TVI lidera 170 . Estes valores têm implícitas as apostas de cada período noticioso (manhã, tarde e noite), já que é nos primeiros noticiários do dia que a estação pública mais entrevista em estúdio as suas fontes, tendência seguida pela SIC e pela TVI. Nas manhãs, a estação de Carnaxide apresenta valores notoriamente mais elevados do que as reportagens, já que aposta igualmente em espaços quase diários neste género noticioso (Tomé, 2013). A estação de Queluz é a que menos entrevistas faz durante o seu Diário da Manhã . 169 Os valores explicitados foram, até aqui, agrupados por grupo de noticiários e não por noticiário ou canal. Quando se fala em RTP, está-se a englobar os dois canais em análise (RTP1, canal generalista, e RTP Informação, canal de informação que emite no cabo), assim como no caso da SIC (SIC e SIC Notícias) e TVI (TVI e TVI24). 170 Traduzindo estes valores em termos percentuais calculados com base nos dados isolados de cada um dos três grupos de canais podemos afirmar o seguinte: as entrevistas representam 10,8% das peças da RTP, assumindo outros valores para a SIC (6,6%) e a TVI (4,3%); as reportagens somam 4,4 valores percentuais do total da informação da SIC, havendo menor incidência deste género jornalístico no corpus de análise na TVI (4,3%), bem como na RTP (3,1%); as notícias ganham espaço na TVI (91,4% do total dos noticiários desta estação), só depois na SIC (89,0%) e por último na RTP (86,1%). 258 211 235 486 345 19 16 913 10 28 20 25 28 28 0 100 200 300 400 500 600 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 Noticia Reportagem Entrevista
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 255 A análise feita à nossa amostra apresenta uma distribuição da informação quase uniforme ao longo dos noticiários, com valores superiores para o aglomerado de informação emitido no segundo terço dos programas, seguido com ligeira diferença pelas peças posicionadas no primeiro terço e, finalmente, o terceiro terço com uma diferença mais assinalável. Apesar de não se notarem diferenças profundas, podemos assinalar que esta leve tendência para posicionar a informação analisada no início e meio dos noticiários tem subentendida a relevância que o tema da saúde goza no panorama do jornalismo televisivo português. Gráfico 10: Distribuição da posição no alinhamento por semestre Os dados evoluem com alguma alternância ao longo dos semestres em análise, já que começam com a informação a ser remetida para o centro e o final dos programas, chegando a uma certa uniformidade de valores (primeiro semestre de 2014) e terminando com uma clara distinção das peças que se posicionam no início dos noticiários. Também os três universos de emissoras analisados mantêm esta leve preferência pela metade dos noticiários, preterindo a última parte dos mesmos para informar o público. A RTP emitiu 258 das suas peças (38,1%) no segundo terço, 212 (31,3%) no primeiro e 208 (30,7%) no último. A SIC emitiu o mesmo número de peças no primeiro e segundo terços: 175 (37,1%) e 122 (25,8%) no terceiro terço. A TVI difundiu 208 peças (35,8%) no segundo terço, 204 (35,1%) no primeiro e 169 (29,1%) no terceiro. 68 73 89 190 171 114 97 95 212 123 123 77 85 125 89 0 50 100 150 200 250 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 1º terço 2º terço 3º terço
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 256 Gráfico 11: Localização no alinhamento por universo RTP, SIC e TVI O QUANDO? DA INFORMAÇÃO Além da sua colocação no alinhamento do noticiário, a importância da informação pode observar-se na atualidade ou rapidez com que é relatada. Regressamos, desta forma, a uma das vantagens do pequeno ecrã referidas no início deste capítulo, que diz respeito à velocidade e imediatismo da sua informação, com o poder de noticiar eventos do dia e que só depois podem ser impressos nas páginas dos jornais. Com efeito, na análise da informação sobre saúde há quase um terço de peças sobre eventos do próprio dia em que são emitidas ou do dia anterior. No entanto, a falta de referência específica ao tempo em que ocorrem os eventos noticiados soma um conjunto considerável de peças de quase 25%. Já a proatividade característica de uma antecipação de eventos não surge com frequência (Cf. Tabela 13). N % Hoje 479 27,7 Data não indicada 420 24,3 Ponto de situação 403 23,3 Antecipação de evento 229 13,2 Dia anterior 100 5,8 Mais de um dia 100 5,8 212 258 208 175 175 122 204 208 169 0 50 100 150 200 250 300 1º terço 2º terço 3º terço Estação de televisão RTP Estação de televisão SIC Estação de televisão TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 257 Total 1731 100,0 Tabela 13: Localização temporal dos eventos Os dados obtidos da variável Tempo da notícia dão-nos conta, não da ausência de eventos atuais, mas sobretudo desta falta de referenciação temporal. Esta lacuna terá uma justificação técnica dada a repetição de noticiários, sobretudo com a chegada dos canais de notícias por cabo, muitas vezes de um dia para o outro, e que impedem uma referência precisa ao tempo dos eventos (Cf. Capítulo 10). A falta de atribuição do Quando da informação pode ter implícito um evento do próprio dia em que é emitida a informação, mas, na realidade, deixa o espectador na incerteza sobre o período em que ocorreu a notícia. Se a peça gravada é emitida sem alterações ao longo dos vários noticiários e, por vezes mantida após um dia de emissão, caberá ao pivô adequar a sua localização temporal, respondendo ao Quando da informação. Ao responder à possibilidade de uma ligação entre uma peça menos duradoura e a falta de informação relativa à data dos eventos noticiados, encontramos uma associação moderada entre a duração da peça e a falta de referência temporal (V de Cramer = 0,236). Gráfico 12: Distribuição da localização temporal dos eventos noticiados 77 64 61 178 99 12 8 8 47 25 7 14 32 25 22 90 77 84 70 82 34 34 33 75 53 85 50 51 132 102 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 Hoje Dia anterior Mais de um dia Ponto de situação Antecipação de evento Data não indicada
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 258 Na evolução por semestre, além do aumento do volume noticiosos verificado no segundo semestre de 2014, como temos vindo a demonstrar, exibe-se uma dissemelhança com os dados gerais, levando-nos a crer que o avolumar das peças naquele período pode ter uma incidência nos dados gerais, já que existe uma tendência para haver maior emissão de pontos de situação nos três primeiros semestres e só depois têm lugar os eventos ocorridos no próprio dia. Gráfico 13: Distribuição da localização temporal dos eventos noticiados por universo RTP, SIC e TVI Esta ausência de indicação temporal acontece com bastante incidência na TVI e na RTP, sendo menor na SIC. 174 À semelhança dos dados gerais, também se vê em cada emissora uma vantagem de peças com eventos do dia a serem mais noticiadas na RTP e na SIC 175 . A TVI dá preferência aos pontos de situação e só depois às notícias do dia, apesar da maior fatia da sua informação não referir qualquer ponto temporal, como foi mencionado acima 176 . Apesar disso, é a TVI que, entre as suas peças, detém uma maior porção de informação que faz antecipação de eventos, um sinal de proatividade dos jornalistas que tratam a temática da saúde naquela estação. 174 Um total de 28,4% das peças dos noticiários emitidos pelos canais TVI não indica o tempo do evento, assim como 25,5% no caso da RTP e 17,4% da SIC. 175 29,9% das peças da RTP oferecem informação do dia em que são emitidas, assim como 35,4% da SIC. 176 Com 22,2% a representarem 129 peças da estação de Queluz no primeiro caso e 18,8% (109 peças) para o segundo. A antecipação de eventos junta 98 peças a representar 16,9% da informação da TVI. 203 29 34 159 80 173 167 36 21 115 51 82 109 35 45 129 98 165 0 50 100 150 200 250 Hoje Dia anterior Mais de um dia Ponto de situação Antecipação de evento Data não indicada RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 259 Colocando os resultados mais destacados, vemo-nos perante dados opostos com a evidência de que a informação responde a uma agenda da saúde com base na atualidade do próprio dia e servindo-se dessa possibilidade concedida pela televisão, mas não deixa de apresentar uma informação incompleta ao não responder a uma das questões básicas da comunicação: o Quando . O ONDE? DA INFORMAÇÃO N % Nacional 527 30,4 Lisboa e Vale do Tejo 365 21,1 Norte 247 14,3 Geografia não indicada 115 6,6 Europa 111 6,4 Internacional 86 5,0 Centro 79 4,6 Algarve 56 3,2 América do Norte 42 2,4 Ásia e Oceânia 33 1,9 Alentejo 32 1,8 África 19 1,1 Ilhas 13 0,8 América do Sul 5 0,3 América Central 1 0,1 Total 1731 100,0 Tabela 14: Geografia dos eventos noticiados A mesma falta de informação pode ser assinalada na identificação geográfica dos eventos, mas com valores expressamente mais reduzidos (6,6%). É de referir que os valores mais expressivos desta carência estão junto das peças de menor duração. Olhando os restante dados apurados, vemos que os eventos relatados nas peças que compõem a nossa amostra ocorrem, na sua maioria, em território nacional. A saúde surge nos noticiários televisivos através de acontecimentos que não se situam num local específico, mas que dizem respeito a
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 260 todo o país, como é o caso das decisões políticas, debates na Assembleia da República, ou ainda relatórios nacionais sobre determinada condição. A estes somam-se os acontecimentos situados nas várias zonas do país e que se distribuem com clara vantagem dos eventos ocorridos na capital, no Norte e no Centro (Cf. Tabela 14). As restantes zonas não conseguem a atenção dos jornalistas. No Algarve somam-se 3,2% das peças e no Alentejo existem 1,8%. Com um valor residual ficam os arquipélagos da Madeira e dos Açores com 0,8% das peças. Alguns estudos portugueses que abrangem a imprensa dão conta desta mesma incidência da informação sobre saúde de âmbito nacional global (Lopes et al., 2013b; Silva, 2011), referindo um natural interesse face a eventos regionais. Estes valores podem traduzir várias circunstâncias, como foi demonstrado em estudos nacionais que avaliaram a mediatização da saúde na imprensa desde 1990 (P. Silva, 2009) a 2014 (Araújo, 2016; Gomes, 2018). Não só a região da capital reúne maior público alvo, como refere Pedro Alcântara Silva, mas também acolhe a maioria das redações dos meios estudados por Araújo (2016) e Gomes (2018). Na realidade televisiva, também as redações principais estão sediadas em Lisboa ou suas zonas limítrofes, o que pode condicionar a atenção dada aos eventos geograficamente próximos. Mas não só de notícias nacionais se faz a informação examinada, já que a percentagem remanescente de peças tem localização internacional (5% das ocorrências não tem localização específica e 12,2% divide-se pelos vários continentes). Em termos globais da amostra analisada, a percentagem com referência internacional é dividida entre o continente europeu (6,4%), norte-americano (2,4%), e asiático e africano (com 1,9% e 1,1%, respetivamente).
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 261 Gráfico 14: Distribuição da localização geográfica dos eventos por semestre A evolução por semestres mostra a mesma superioridade dos eventos nacionais, valores apenas ultrapassados no primeiro semestre de 2014, onde verificamos a ocorrência de maior número de eventos na região de Lisboa e Vale do Tejo. O Norte de Portugal também garante uma posição constante de destaque abaixo dos dois locais cimeiros: Nacional e Lisboa e Vale do Tejo. As restantes localidades ficam igualmente esquecidas dos minutos que ocupam os noticiários em prol dos maiores centros nacionais, conforme os dados gerais. O segundo semestre de 2014 regista uma subida dos eventos ocorridos a nível Internacional, considerando que foi aqui que se desenrolou o episódio de contágio por vírus do Ébola na Europa (Cf. Capítulo 9). Sendo este um episódio único, podemos assumir que a tendência será para que os continentes do resto do mundo sejam marginalizados pelos jornalistas. Dos três universos de emissoras, é a RTP que mais destaque dá ao panorama internacional (21,8%) seguida da SIC (18,6%) e só depois pela TVI (17%). A televisão do serviço público emite uma geografia mais equilibrada entre o panorama nacional e internacional, não deixando de haver um desequilíbrio entre as duas localizações geográficas. 102 80 70 128 147 41 33 49 63 61 68 45 71 95 86 11 612 48 9 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 Nacional Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Ilhas Internacional
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 262 Gráfico 15: Distribuição da localização geográfica dos eventos noticiados universo RTP, SIC e TVI Esta prevalência nacional mantém-se numa análise de cada um dos três grupos de noticiários, que também dão destaque à capital do país. No entanto, nos noticiários da TVI faz-se um balanço maior entre a região Norte e área de Lisboa e Vale do Tejo 177 , o que não deixa de ser singular porque é a única estação que não tem um jornalista com dedicação expressa a esta área de informação, como acontece com a RTP e a SIC. Também os dados de cada universo de emissoras apontam para um desconhecimento sobre a origem dos eventos numa percentagem considerável da informação analisada. 178 O COMO? DA INFORMAÇÃO O conteúdo da informação sobre saúde indica outras tendências. A saúde, já o apontaram outros autores, é um tema potencialmente negativo (Araújo, 2016; Lopes et al., 2013b; Silva, 2011). A televisão não foge a esta propensão já que os dados, sejam gerais ou de cada universo de emissoras, apontam nessa mesma direção. Podemos assinalar um ângulo expressamente negativo desta informação, considerando que mais de metade das peças 177 A informação sobre saúde na estação de Queluz distribui-se em 15% no Norte e 18,6% em Lisboa. As diferenças são mais acentuadas na RTP (13,3% para o Norte e 21,8% para Lisboa) e na SIC (14,8% para o Norte e 23,1% para Lisboa). 178 A RTP ignorou a referência à geografia dos eventos em 8% das suas peças, surgindo a TVI e a SIC com percentagens mais reduzidas, 6,2% e 5,3%, respetivamente. 184 26 148 21 13 10 132 136 70 28 109 4 23 0 77 207 25 108 7 20 3 88 0 50 100 150 200 250 Nacional Global Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Ilhas Internacional RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 263 aponta nessa direção, deixando um equilíbrio entre as peças de ângulo positivo e neutro ou ambíguo. N % Negativo 957 55,3 Neutro/Ambíguo 388 22,4 Positivo 386 22,3 Total 1731 100,0 Tabela 15: Ângulo das peças de informação Gráfico 16: Distribuição do ângulo da informação noticiada por semestre Na evolução semestral, a tendência acompanha os dados gerais em dois dos cinco semestres em análise, deixando a suspeita de haver alguns períodos que os alimentam no que toca ao ângulo das notícias. Em 2014, as peças registadas com pendor negativo somam 60,2% no primeiro semestre e no segundo semestre. Apesar disso, no segundo semestre de 2013 e primeiro de 2014, bem como no semestre final em análise, os valores das peças positivas superam ligeiramente os valores daquelas que assumem um pendor neutro ou ambíguo. 78 77 59 79 93 146 114 162 317 218 81 56 48 131 72 0 50 100 150 200 250 300 350 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 Positivo Negativo Neutro/Ambíguo
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 264 Gráfico 17: Distribuição do ângulo da informação noticiada por universo RTP, SIC e TVI Quando olhamos os dados dos três grupos de noticiários, verificamos uma evolução coordenada (Gráfico 17). Esta negatividade da informação pode ter subentendidos os temas trazidos a público pelos jornalistas, já que existe uma maior tendência para um ângulo positivo nos temas ligados à Investigação (59,9% dos casos) e à Prevenção (52,8% dos casos), enquanto 79,8% das peças sobre Situações de Alarme ou Risco apresentam um pendor negativo (V de Cramer = 0,344). À semelhança de outros estudos (Araújo, 2016; Lopes et al., 2013b; P. Silva, 2009, 2011), a Política de saúde domina o panorama informativo em análise. Política e saúde são temas que estão relacionados, seja pela tomada de decisões, de reorganização de serviços, situação de classes, atos positivos ou protestos. O cenário da saúde é maioritariamente traçado por estes assuntos a um ritmo quase diário (somando 35% das peças informativas). Analisando os dados considerando os subtemas propostos (Cf. Capítulo 7), obtemos uma primazia dos casos de Situações de alarme/risco (14,6%), das questões ligadas à Organização, gestão, fecho ou disfuncionalidade de serviços (12,9%), Retratos de determinada situação (10,7%), Situação de classes (9,1%), Prevenção (8,2%), Investigação e desenvolvimento (7,9%) ou de Decisões políticas (7,6%). 141 387 150 116 246 110 129 324 128 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 Positivo Negativo Neutro/Ambíguo RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 271 parasíticas (37,9%), nas reportagens surgem as neoplasias (26,5%) e as doenças mentais e distúrbios comportamentais (22,4%), tendência seguida nas entrevistas (neoplasias – 15,1%; mentais – 10,8%; os restantes valores dividem-se com valores residuais pelas restantes enfermidades). Os dados apurados para a mediatização das doenças não são injustificados já que, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística – INE 2019, mais de metade dos óbitos registados em 2017 ocorreram devido a doenças do aparelho circulatório (29,4%) e a tumores malignos (25%). Estes dados são confirmados pela Pordata que, em 2016 indica que 29,6% das mortes em Portugal ocorreram por doenças do aparelho circulatório e 24,7% estão ligadas aos tumores malignos 181 . Apesar da mediatização do cancro estar em concordância com estes dados do INE e da Pordata , as doenças do aparelho circulatório não acompanham nos média a realidade do país, representando apenas 5,5% das enfermidades abordadas nos noticiários televisivos em análise. Também do lado das doenças menos noticiadas estão as malformações congénitas, dos ouvidos e dermatológicas. Gráfico 21: Peças com abordagem de doenças específicas; codificação de acordo com o ICD (11ª revisão) – evolução por universo RTP, SIC e TVI 181 Retirado de https://www.pordata.pt/Portugal/Óbitos+por+algumas+causas+de+morte+(percentagem)-758 107 77 3 31 15 74 18 26 3 102 43 10 16 12 61 16 14 4 100 44 4 25 11 40 16 20 5 0 20 40 60 80 100 120 RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 272 Estes resultados evidenciam que, sendo um tema que abarca múltiplos subtemas, de natureza mais séria ou mais ligeira, ou com distinta abrangência social, a saúde condiciona a sua conquista no alinhamento dos noticiários de modo distinto, justificando a sua duração mais longa ou mais curta e o tipo de emissão em que é feita e, por isso, tocando o público de distintos modos. 8.5. QUEM? A última caracterização deste retrato geral da informação televisiva com incidência no tema da saúde passa, em grande parte, pela utilização de fontes. A identificação destas vozes pode parecer simples à primeira vista. No entanto, a informação televisiva utiliza mais do que testemunhos, os chamados vivos, para atribuição da sua informação. Existem outros modos de identificar estas fontes, muitas vezes citadas no texto dos jornalistas ou através de infografia (Cf. Capítulo 7). NÚMERO DE FONTES POR PEÇA Tabela 19: Número de fontes por peça noticiosa Ao todo, pudemos identificar claramente 3919 fontes de informação ao longo das 1731 peças. Apesar do curto tempo dedicado a cada peça de informação, a televisão usou uma média de 2,26 fontes por cada peça de informação prestada, que evoluíram a par do número de peças noticiosas emitidas. Número N % % Uma 668 42,0 91,9 Com presença de fontes Duas 303 19,1 Três 250 15,7 Quatro 177 11,1 Seis ou mais 107 6,7 Cinco 85 5,3 Total 1590 100 Zero 141 8,1 Sem presença de fontes
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 273 Gráfico 22: Evolução do número de fontes por semestre e do número de fontes por semestre É de destacar a ausência qualquer referência a fontes em 8,1% das peças. Destas, 80,1% têm menos de um minuto e 16,3% têm entre um minuto e menos de dois minutos. Estes dados evidenciam uma relação forte entre a duração das peças e a presença de fontes de informação (V de Cramer =0,381), bem como entre o tipo de emissão da peça e a existência de atribuição da informação (V de Cramer = 0,422), já que são as peças emitidas em voz off que apresentam maior percentagem de informação sem citação de fontes (29,5%). Ou seja, vemos confirmadas as probabilidades de haver maior citação de fontes em peças de maior dimensão, bem como naquelas que têm uma emissão normal (por oposição à voz off ). Vários autores lamentam esta ausência ou fraca atribuição da informação, seja em estudos internacionais ligados à radiotelevisão (Mayoral, 2008), aos estudos centrados na mediatização da saúde (Lopes et al., 2013b; Sanchéz, 2008). Com efeito, no estudo de Vercellesi et al. (2010), os autores recomendam o uso de mais de uma fonte por notícia, como é o caso de Andrea Tanner e Daniela Friedman (2011). No que diz respeito à ausência de citações, as autoras exortam a importância de haver referência a fontes: “de um ponto de vista da comunicação de saúde, as ‘estórias’ sem atribuição podem levar um consumidor de saúde a indagar para onde se virar em busca de informação adicional” (p.18). No entanto, é uma realidade que revela o parco uso de fontes de informação que encontramos aqui. De todas as peças onde foi possível a identificação de fontes, quase metade (42,0%) têm 677 518 644 1215 865 305 247 269 527 383 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre 1 2013 2014 2015 Fontes Peças
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 274 apenas uma referência, havendo uma distribuição quase uniforme entre as peças com duas (19,1%), três (15,7%) ou quatro fontes (11,1%). As peças com cinco, seis ou mais fontes apresentaram valores mais reduzidos (6,7% e 5,3%, respetivamente). A associação entre a duração e o número de fontes citadas apresenta valores fortes (V de Cramer = 0,293), confirmando a possibilidade de que uma peça menor terá menos probabilidade de atribuir a sua informação. Com efeito, as peças com menos de um minuto têm apenas uma ou duas fontes (83,8% e 13,7%, respetivamente). As peças com menos de dois minutos registam maioritariamente uma (43,1%) ou duas fontes (25,9%). Nas peças de dois minutos ou mais e nas de três minutos ou mais, há uma distribuição mais equilibrada do número de fontes citadas, apostando na citação de três fontes ou mais (63,9%, no primeiro caso e 53,3% no segundo). Apesar disso, eliminando as entrevistas desta contagem, percebemos que, nas peças de 4 minutos ou mais, 21,6% ainda permitem a identificação de apenas uma fonte. Na totalidade das peças com uso de uma só fonte, das quais excluímos as entrevistas por responderem a uma lógica de um só entrevistado, predominam os Políticos (10,8%), as pessoas nomeadas para liderar entidades sob a alçada do ministério da Saúde (Oficiais – Outros – 10,5%), as televisões (7,7%), os médicos que falam em nome de uma instituição (7,9%), a imprensa (5,5%). Os documentos assumem um papel de destaque, sejam relatórios (5%) ou estudos científicos (4,4%). As associações doentes surgem em apenas 21 peças enquanto sua única fonte (3,9%), enquanto os investigadores de determinada instituição aparecem 20 vezes (3,7%) A décima categoria mais citada nestas peças é a dos Administradores (3,5%). Na perspetiva dos jornalistas, as declarações destas testemunhas são suficientes para descartar qualquer outra entrevista ou recolha de declarações. Esta é uma realidade já observada previamente em estudos ligados à mediatização da saúde, onde a prevalência de fontes oficiais aquando do recurso a uma só atribuição de informação é frequente (Tanner & Friedman, 2011). Nas entrevistas, os médicos que falam em nome individual estão presentes em pouco menos de metade destas peças (47,8%), seguidos dos pares que representam determinada instituição (12,7%). Além destes, os investigadores (6,7%) garantem por 9 vezes lugar na cadeira do entrevistado e a título individual. Todas as restantes fontes apresentam valores inferiores e, desse modo, não são referidas.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 275 A mesma preponderância de peças com apenas uma fonte é observada na evolução semestral dos dados, oscilando entre as 103 do primeiro semestre de 2014 e os 190 do segundo semestre do mesmo ano. A TVI, juntamente com a TVI24, é que, de entre a sua informação, maior percentagem de peças tem com pelo menos uma fonte, estando a RTP do lado oposto 182 . Também aqui a duração de cada peça ajuda na variação de vozes identificadas. Recorde-se que é também a televisão do serviço público a que reuniu maior percentagem de peças com menos de um minuto, o que pode estar na origem destes valores. Com efeito, 84,5% das peças com menos de um minuto emitidas pelos noticiários conjuntos da RTP e RTP Informação têm apenas uma fonte, somando a SIC e a SIC Notícias 87,2% e a TVI e TVI24 82,3%. Todas os universos de emissoras apresentam valores percentuais altos para as peças com uma só citação 183 , permitindo-nos retomar o discurso de Felisbela Lopes (Lopes et. al, 2013b, p.66) acerca da falta de pluralidade de pontos de vista na informação sobre saúde: Quando se ouve apenas uma pessoa ou se escreve a partir de um único documento, abre-se somente espaço a uma visão daquilo que se trata. O jornalismo ambicionará ser mais abrangente, fazendo o contraditório, acrescentando dados complementares, promovendo a introdução de novas e imprevistas visões... A exploração dos dados sobre as fontes de informação decorrentes do corpus de análise permite-nos classificar de onde vem a informação que chega ao telespetador e quem são os protagonistas que surgem nos ecrãs informativos sobre saúde, a sua origem geográfica ou como falam aos jornalistas. Estas características mais específicas referentes às fontes de informação merecem um tratamento mais aprofundado, dada a riqueza do seu contributo, que será examinado abaixo. 182 A estação de Queluz reuniu apenas 4,3% (25 peças) sem indicação de fontes, a SIC somou 7,6% (36 peças) e a RTP ascendeu aos 11,8% (80 peças). 183 Da informação com pelo menos uma fontes, a RTP emitiu 44,6% de peças com apenas uma citação, mas é a que mais percentagem tem no uso de seis ou mais fontes (7,5% da informação da estação pública, face aos 6,8% da TVI e os 5,5% da SIC).
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 276 MODO DE CITAÇÃO DAS FONTES DE INFORMAÇÃO Um dado com particular interesse é o modo como as fontes são citadas em televisão. A Tabela 20 mostra que as peças analisadas mantêm uma citação normal, em que a fonte surge pessoalmente perante os microfones dos jornalistas (73,4% dos casos). N % Direta 2875 73,4% Voz off 1044 26,6% Total 3919 100,0% Tabela 20: Modo de citação das fontes de informação Das fontes citadas pelo jornalista ou pivô em voz off , podemos atribuir-lhes menor valor informativo ou fazer a ligação com o tempo de duração das peças em que são citados ou mesmo da posição em que são citadas. As fontes em voz off são citadas em peças mais reduzidas, havendo uma proporção inversa entre a duração e o número de fontes citadas desta forma. Nas peças de menos de um minuto existem 79,4% que são citadas em voz off , enquanto nas peças de quatro minutos ou mais, apenas existem 10,7% destas fontes. O género noticioso tem igual efeito nesta opção, havendo maior tendência para usar a citação em off em notícias do que noutros géneros, como a reportagem ou a entrevista. 500 376 462 903 634 177 142 182 312 231 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre Semestre Semestre Direta Voz off
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 277 Gráfico 23: Distribuição do modo de citação das fontes de informação por semestre Também a evolução por semestre nos mostra que a citação direta das fontes domina os resultados face ao número de fontes citada em voz off, havendo uma disparidade maior no segundo semestre de 2014, pela própria intensificação de peças nesse período. Já a distribuição por universo RTP, SIC e TVI mostra a mesma tendência, com maior destaque para os noticiários da RTP, que reúnem a maior diferença entre os dois modos de citação. Gráfico 24: Distribuição do modo de citação por universo RTP, SIC e TVI GEOGRAFIA DAS FONTES DE INFORMAÇÃO A origem das fontes de informação, identificada a partir da localização geográfica enquanto fonte e não enquanto indivíduo, refere uma preferência por aqueles que falam dentro das fronteiras nacionais (65,8% no total), com destaque para vozes que pertencem a instituições nacionais, seguindo-se aqueles que falam desde o norte do país e da capital. O restante território não surge com frequência nos ecrãs informativos pelas citações das suas fontes de informação. As fontes internacionais distribuem-se pela sua proximidade geográfica, já que é do continente Europeu que provem a maior fatia de citações. 1153 330 797 311 925 403 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 Direta Voz off RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 278 N % % Nacional Nacional 1023 26,1% 65,8% Norte 715 18,2% Lisboa e Vale do Tejo 437 11,2% Centro 170 4,3% Algarve 135 3,4% Alentejo 75 1,9% Ilhas 26 0,7% Internacional Europa 283 7,1% 15,0% Internacional 109 2,8% América do Norte 99 2,5% Africa 44 1,1% Ásia e Oceânia 41 1,0% América do Sul 17 0,4% América Central 1 0,0% Não indicado 751 19% 19,2% Total 3919 100,0% Tabela 21: Origem geográfica das fontes de informação citadas Na distribuição por semestres encontramos algumas diferenças face aos resultados gerais. No primeiro semestre de 2013 as fontes que não permitem uma identificação completa da sua origem superam as do Norte, colocando-se abaixo das nacionais. Além disso, são as fontes de informação mais citadas durante o segundo semestre de 2014. Estes são dados preocupantes do ponto de vista informativo, como veremos também adiante, já que a identificação correta das fontes de informação é um dos requisitos exigidos tanto a nível nacional, como internacional (Agência Lusa, 2012; Morales & Vallejo, 2010; Pinto, 2000; Público, 1998). As fontes internacionais conseguem valores superiores neste semestre, com destaque para as Europeias. Estes dados conduzem-nos, uma vez mais, à situação de contaminação por Ébola na vizinha Espanha que está na origem deste aumento. Os vários noticiários acompanham estes resultados ao apresentarem, sobretudo, fontes nacionais, seja numa representação a nível do país no seu todo ou de regiões. É o universo TVI que mais privilegia as vozes do país (29,4%), comparando com as concorrentes (22,9% -
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 279 RTP; 26,4% - SIC). As vozes regionais distinguem-se no universo RTP e SIC, que apresentam valores superiores de fontes que falam a norte (19,1% e 20,3% respetivamente, de acordo com os dados de cada grupo de noticiários) aos da TVI (15,6%). Como já afirmámos, aqui pode incidir o facto de, à data da recolha dos dados, as RTP e a SIC terem repórteres designadas para este tema em específico nas suas redações do Porto, não se tendo identificado essa especificidade na TVI. Além disso, de forma mais particular podemos assinalar que o Jornal da Tarde , com redação localizada a norte do país, apresenta uma percentagem superior de fontes de informação que falam desde essa zona geográfica. A capital soma valores que a colocam em terceiro lugar, o que contradiz os valores apresentados por outros estudos nacionais acerca da saúde que mostram uma maior incidência de fontes na área da Grande Lisboa (Lopes et al., 2013b). As restantes zonas do país apresentam valores reduzidos face à capital. A falta de diversidade das fontes de informação já foi aqui referida, aplicando-se igualmente a uma variedade geográfica. Na ausência desta pluralidade de pontos de vista podemos estar perante uma visão condicionada da saúde. Também aqui registamos valores elevados para as fontes não identificadas ou com identificação incompleta em mais de 20% das fontes da RTP e da TVI, ficando a SIC abaixo desse valor (13,0%). A nível internacional, o destaque vai para a Europa (7,6% das fontes da RTP; 6,5% na SIC e 6,9% das fontes da TVI).
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 280 Gráfico 25: Distribuição da geografia das fontes de informação por universo RTP, SIC e TVI TIPO DE FONTES DE INFORMAÇÃO O predomínio das declarações no masculino em textos jornalísticos já vem sendo constatado há décadas (Brown et al., 1987), e mais recentemente em estudos sobre a mediatização da saúde (Araújo, 2016; Azevedo, 2009; Gomes, 2018; Lopes et al., 2013b). Respostas N % Pessoal masculina 1619 41,3% Pessoal feminina 1135 29,0% Coletiva (pessoal e não pessoal) 590 15,1% Não pessoal 562 14,3% Não indicado 13 0,3% Total 3919 100,0% Tabela 22: Tipo de fontes de informação citadas Sob uma perspetiva social, as mulheres são outro grupo que perde a visibilidade face aos interlocutores masculinos tanto a nível internacional (Brown et al., 1987; Project for Excellence 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 287 De facto, o público está ligado ao menor poder de influência na agenda mediática (Len-Ríos et al., 2009). Quanto aos doentes, apesar do seu uso como fonte não ser consensual devido ao facto de as respetivas citações resvalarem facilmente para terrenos do sensacionalismo, a estória destas fontes pode trazer ângulos que nenhuma outra fonte consegue somar (Hinnant et al., 2013). A realidade é que os pacientes, as poucas vezes que o surgem enquanto fonte é para humanizar determinada estória e não como fonte principal (Hinnant et al., 2013) ou dar um toque melodramático (Asturias, 1999, citado por Terrón Blanco, 2012), ou ainda para servir de voz à informação sobre determinado estudo científico (Morales & Vallejo, 2010). O cidadão comum pode surgir igualmente enquanto fonte com recurso ao vox populi , ainda que em baixa percentagem na imprensa (Morales & Vallejo, 2010). Nesse sentido, “os media podem desempenhar um papel especial ao dar voz às pessoas para que expressem as suas experiências de doença e a sua interação com tecnologias de saúde” (Baverstock in Schwitzer et al., 2005, p. e215). Apesar de não ser aqui contabilizado, o vox populi é utilizado em casos específicos, como é o exemplo das greves de médicos ou enfermeiros e é um método desvalorizado pelos jornalistas (Capítulo 10). A distribuição por semestres mostra a mesma prevalência das fontes ligadas à Sociedade, sobretudo no segundo semestre de 2014 e no primeiro de 2015 (Gráfico 30). Durante estes dois períodos ocorreram, como já foi mencionado, eventos mais ligados aos pacientes e onde estes tiveram voz ativa. Falamos da contaminação pelo vírus do Ébola fora das fronteiras africanas, sobretudo no mês de outubro de 2014, e das reivindicações de um medicamento inovador para cura da Hepatite C junto do ministro da Saúde por parte de vários pacientes. Com valores semelhantes estão as fontes Especializadas Institucionais e Não Institucionais do Campo da Saúde, bem como as Oficiais do Campo da Saúde. Estes dados revelam que a televisão cede algum do seu tempo àqueles que falam em nome individual que, inclusive, têm mais tempo de antena do que os pares que representam uma instituição no primeiro semestre de 2014. Acerca do primeiro caso (Cf. Capítulo 9), destaca-se ainda a referência a outros meios de comunicação, considerando que houve uma alusão constante a um caso específico de contágio por Ébola dentro de fronteiras espanholas e que foi seguido nos próprios meios espanhóis.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 288 Gráfico 30: Distribuição do estatuto das fontes de informação por semestre 0 50 100 150 200 250 300 350 400 Semestre1 Semestre2 Semestre1 Semestre2 Semestre1 2013 2014 2015 Sociedade Campo da saúde Oficiais Campo da saúde Especializadas institucionais Campo da saúde Especializadas não institucionais Campo da saúde Não pessoais Fora do campo da saúde Oficiais Fora do campo da saúde Especializadas institucionais Fora do campo da saúde Especializadas não institucionais Fora do campo da saúde Dcumentos Fora do campo da saúde Média Fora do campo da saúde Outros Fora do campo da saúde Não indicado
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 289 Gráfico 31: Distribuição do estatuto das fontes de informação por universo RTP, SIC e TVI 347 251 291 179 114 65 73 36 15 51 2 59 290 177 175 139 79 54 48 25 11 62 3 45 354 213 200 127 110 54 52 33 18 101 3 63 0 50 100 150 200 250 300 350 400 Sociedade Oficiais Especializadas institucionais Especializadas não institucionais Não pessoais Oficiais Especializadas institucionais Especializadas não institucionais Dcumentos Média Outros Não indicado Campo da saúde Fora do campo da saúde RTP SIC TVI
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 290 Também as televisões acompanham os dados gerais e a distribuição por semestre, com destaque das fontes ligadas à sociedade. A RTP privilegia a seguir as vozes especializadas institucionais e só depois as Oficiais, ambas do Campo da Saúde, enquanto a SIC e a RTP promovem as fontes Oficiais antes das especializadas institucionais e não institucionais que pertencentes a este Campo. Os documentos do Campo da Saúde e os Média (agrupando todos os meios, desde a imprensa, TV, rádio, agências e online ), não se posicionando nos lugares de topo, possuem valores consideráveis que conduzem à reflexão do conceito de agenda building intermédia (Len-Ríos et al., 2009; Colistra, 2012; Cushion et al., 2016), recentemente referido por um dos coautores da teoria original do agenda-setting , que evidencia a tendência para a referência e validação da informação junto de outros meios de comunicação (Funk & McCombs, 2017). Nestes casos, a TVI lidera com 100 referências a outros meios de comunicação. Além destes aspetos, não podemos descurar uma probabilidade de causa-efeito entre os temas da informação e os testemunhos escolhidos para integrar as peças daí resultantes. De modo previsível, a temática da investigação aponta as câmaras aos investigadores que falam em nome individual (21,5% - 49 citações), estudos científicos (16,2% - 37 citações), e investigadores em representação de determinada instituição (16,7% - 38 citações). A prevenção suporta-se em declarações de cidadãos comuns (28,7% - 103 citações) e das fontes oficiais ligadas às instituições sob a alçada do Ministério da Saúde (12,8% - 46 citações). Os retratos de situação privilegiam as declarações individuais dos médios (16,2% - 57 citações), doentes (12,5% - 44 declarações) e os relatórios (10,8% - 38 citações). Já as situações de alarme e de risco dão voz às fontes oficiais – outros (16,6% - 98 citações) e cidadão comum (12,2% - 72 citações), sendo esta temática que menos identifica as suas fontes (11% - 65 fontes não permitem a identificação do estatuto). Nas práticas clínicas e tratamentos salientam-se as fontes ligadas à sociedade, como os pacientes (14% - 96) e seus familiares (15,5% - 106). Os negócios são um tema que distribui as suas fontes havendo um destaque para os outros meios de comunicação, como a imprensa (9,4% - 21 fontes) e os políticos (12,5% - 28 fontes). Já nas Políticas de Saúde não são os políticos a destacar-se, mas sim os médicos (11,4% - 161) e os pacientes (16,6% - 228 fontes). Ou seja, se há fontes evidentes em determinados temas, outras mencionam vozes não expectáveis o que coloca o jornalismo de saúde televisivo numa situação favorável, já que não procura as fontes óbvias,
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 291 reinventando-se e recorrendo sobretudo a testemunhos dos principais atores do panorama da saúde: os pacientes e o cidadão comum enquanto potencial paciente. No seguimento das associações possíveis entre as várias variáveis, tentámos apurar se o género jornalístico influenciava a escolha de fontes de informação. Os dados reunidos não permitiram identificar uma especificidade na escolha das fontes quanto às notícias, uma vez que são semelhantes aos resultados encontrados no corpus geral, estando nos primeiros cinco lugares as mesmas fontes de informação 184 , havendo a possibilidade de o elevado número de notícias poder influenciar estes dados gerais. Nas reportagens, encontra-se a mesma presença preferencial dos pacientes (25,8%), seguidos dos médicos que falam em nome individual (9,1%) e dos familiares dos pacientes (8,4%). Dentro das fontes de informação pertencentes à sociedade, o cidadão comum reúne 5,4% das fontes de informação. Também nas citações mais frequentes cabem as especializadas institucionais (os médicos somam 8,1%) e as oficiais do grupo “outros”, com 4,4%. Nas reportagens há menor frequência de fontes sem identificação do estatuto (2,3%), mostrando um maior cuidado em peças que implicam maior dedicação e maior probabilidade de identificação das suas fontes. É de registar que, durante 5 semestres apenas foram registadas 2 citações com declarações de fontes oficiais - políticos do campo da saúde. Neste registo, procuram-se, portanto, visões individuais, com alguma especialização (desde médicos a enfermeiros). É este mesmo registo que encontramos nas entrevistas. Dos 134 entrevistados, apenas dois não têm identificação de estatuto e a maioria divide-se por médicos que falam a título individual (47,8%) e os que representam determinada instituição (12,7%). Também fazem parte deste leque os investigadores não institucionais (6,7%) e os representantes de instituições sob a alçada do ministério da Saúde (Oficiais outros), com 6% de presença. Não podemos deixar de referir que apenas dois políticos (campo da saúde) são entrevistados (1,5%). Estes dados indicam, na sua globalidade, uma maior dedicação às fontes que, à partida, poderiam ser preteridas, e reconhecidas na teoria como menos frequentes, tanto nos temas de saúde (Hinnant et al., 2013; Lopes et al., 2013) e ciência (Morales & Vallejo, 2010), como nos genéricos (Lima, 2014). Marta Serra Lima confirma com os seus entrevistados (entre 184 Das 3487 fontes citadas nas notícias, 10,1% são pacientes, 8,4% são cidadãos comuns, restando 7,8% de médicos (especializadas institucionais), 7,3% de fontes oficiais (outros, do campo da saúde) e 5,5% de familiares de pacientes. Só depois surgem os políticos do campo da saúde (5,1%) e os administradores de hospitais, centros de investigação e centros de saúde (4,9%). Resta afirmar que 4,5% destas fontes não permite uma identificação do estatuto.
CAPÍTULO 8 | A SAÚDE NOS ECRÃS INFORMATIVOS: 15 NOTICIÁRIOS EM ANÁLISE 292 diretores de informação e jornalistas) que o cidadão é uma “fonte privilegiada de informação” ao vivenciar os acontecimentos . Não menos importante é a posição em que é citada a fonte. Ou seja, se perspetivarmos a peça de acordo com a pirâmide invertida, também a primeira fonte e suas declarações caberão na informação mais importante. Uma vez mais, os pacientes ocupam o lugar cimeiro das fontes mencionadas antes de todas as restantes em cada peça (10,3%), seguidas dos médicos (institucionais), com 8%, das Outras fontes Oficiais do campo da saúde (7,6%), dos médicos que falam em nome individual (6,5%), e só depois dos políticos do campo da saúde (6,2%), dos familiares de doentes (5,9%) e do cidadão desconhecido (3,5%). Cabem nos primeiros dez valores ainda imprensa (3,3%) e os canais de televisão (3,3%). Nestes, 3,2% da citação das fontes não deixa perceber qual o seu estatuto. O conjunto de dados acerca das fontes de informação nos assuntos ligados à saúde traz, portanto, dados que a destacam dos outros meios de comunicação, com aspetos mais ou menos positivos, mas que pedem uma interpretação à luz da opinião profissional (Capítulo 10). ESPECIALIDADE MÉDICA Dos 518 médicos citados, 319 exigiam a identificação da sua especialidade médica. Os médicos mais intervenientes foram os especialistas em doenças infeciosas, o que não é de todo surpreendente graças ao surto do Ébola abarcado neste estudo. As Práticas Clínicas são a temática que mais recorre a estas fontes duplamente especializadas (96, no total), seguidas pelos Retratos de Situação (83 casos). Apenas sete médicos especializados institucionais foram chamados a entrevistas, sendo natural a sua recaída mais volumosa sobre o grupo das notícias. A identificação destas fontes deixa cair a menção da especialidade em 16,3% dos casos, o que reflete e confirma os dados anteriores acerca da falta de informação completa das fontes de informação, tendência com maior valor percentual na informação da SIC (21,5%). Prevalecem os psiquiatras, oncologistas e cardiologistas na RTP (cada um com 6,5% de casos), os gastrenterologistas na SIC (7,6%) e os pediatras na TVI (8,6%). Olhando os dados apurados, podemos afirmar que a distribuição destes testemunhos pelos três grupos de noticiários não mostra uma tendência ou uma concordância com as enfermidades mais noticiadas nos noticiários em análise.
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