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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ana Luísa Janeira [livro eletrônico] : de viagem pela interdisciplinaridade / organização Judite Maria Zamith Cruz, Ana Maria Haddad Baptista, Associação EntreSéculos (AES). -- 1. ed. – São Paulo : Tesseractum, 2022. ePub. Bibliografia. ISBN 978-65-89867-43-2 1. Ensaios 2. Filosofia 3. Interdisciplinaridade na educação I. Cruz, Judite Maria Zamith. II. Baptista, Ana Maria Haddad. III. Associação EntreSéculos (AES). 22-135490 CDD-100 Índices para catálogo sistemático: 1. Filosofia 100 Aline Graziele Benitez – Bibliotecária - CRB-1/3129 Coordenação Editorial: Equipe Tesseractum Editorial Diagramação: Equipe Tesseractum Editorial Revisão: Autoras e Organizadoras Foto da capa: José Manuel Rodrigues Arte final da capa: Tammy Guerreiro Primeira Edição, São Paulo, Novembro de 2022 © Tesseractum Editorial Site da Editora: www.tesseractumeditorial.com.br Nenhuma parte dessa publicação, incluindo o desenho de capa pode ser reproduzida, armazenada, transmitida ou difundida, de maneira alguma nem por nenhum meio sem a prévia autorização do autor. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos do Código Penal), com pena de prisão e multa, busca e apreensão e indenizações diversas (art. 101 a 110 da Lei 9.610 de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).
Sumário APRESENTAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO ENTRESÉCULOS .......................................................................... 9 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................... 12 Ana Janeira ou a multiplicidade de um olhar (singular) filosófico .............................................. 12 PRIMEIRA PARTE ............................................................................................................................................ 18 CAPÍTULO 1: NAS MARGENS E NA TERCEIRA PESSOA ................................................................... 19 Configuração familiar ................................................................................................................................ 20 Configuração escolar ................................................................................................................................. 21 Prémios ........................................................................................................................................................... 24 Termos e relações estruturantes .......................................................................................................... 25 Configuração da investigação ................................................................................................................ 28 Configuração docente ................................................................................................................................ 31 Configuração nómada/planetária ........................................................................................................ 36 Configuração alentejana ........................................................................................................................... 39 Articulações entre investigação, ensino e escrita .......................................................................... 42 Publicações .................................................................................................................................................... 49 Investigação .............................................................................................................................................. 49 Artigos de divulgação ........................................................................................................................... 68 Antologias destinadas a cursos ........................................................................................................ 69 CAPÍTULO 2: FIGURAS E CONFIGURAÇÕES DO PORTO: marcas em ambientes escolares ................................................................................................................................................................................. 71 O COLÉGIO DE NOSSA SENHORA DA PAZ ........................................................................................ 74 O LICEU NACIONAL DA RAINHA SANTA ISABEL .......................................................................... 83 A UNIVERSIDADE DO PORTO ................................................................................................................ 90 SEGUNDA PARTE .......................................................................................................................................... 107 CAPÍTULO 1: INTERDISCIPLINARIDADE NUMA OBRA DE ANA LUÍSA JANEIRA .............. 108 PRIMEIRAS PEÇAS DUMA ESTRUTURA COM SENTIDO ............................................................... 108 Terminologia plural ................................................................................................................................ 108 Marcos de inteligibilidade .................................................................................................................... 114 Geração de ideações de lugar e de vivido ...................................................................................... 117 Campos vitais para a deteção da diferença de mundos ........................................................... 121 Procedimento na análise textual ....................................................................................................... 123 A FIGURA DO PENSAMENTO RIZOMÁTICO....................................................................................... 126 Entre a raiz académica e o modelo rizomático ............................................................................ 126 Décalage nos percursos educativos.................................................................................................. 131 Interdisciplinaridade nas práticas de ensino e investigação ................................................. 135
DA ESTRUTURA DA PRAÇA ...................................................................................................................... 140 Do que se fala quando se narra uma estória? ............................................................................... 140 Na viragem linguística ........................................................................................................................... 144 A fluidez hermenêutica .......................................................................................................................... 147 Transições nos processos experienciais ........................................................................................ 148 Teorias e signos: códigos duma época ............................................................................................ 150 Descontinuidades: ignorância e/ou inacessibilidade do que seja até incognoscível ... 152 Para uma semiótica da significação da praça ............................................................................... 154 Narrativa dum trajeto animado: libertação de modelos, escolas e poderes ................... 161 Uma síntese: os sete tipos de fenómenos na narrativa da praça ......................................... 163 PENSAMENTOS ENTRANÇADOS ....................................................................................................... 165 Perceções inovadoras nas altercações do século XX ................................................................. 165 Desengatar saberes das disciplinas e das instituições ............................................................. 168 Um ateliê: onde alojar consciência social e experiência intersubjetiva ............................ 168 A intrincada complexidade de fatores humanos .................................................................... 169 O caso do encontro num ateliê velado ............................................................................................ 171 A compreensão prévia do leitor .................................................................................................... 176 Fenomenologia: ordem explicada de ordem implicada ........................................................... 178 Análise transdisciplinar: processos, cognições e interações ................................................. 179 Questionamentos ..................................................................................................................................... 180 O que quer dizer ser livre-pensador? ......................................................................................... 187 Expansões, fraturas, conquistas e retrocessos ....................................................................... 188 Pós-significado na educação para o século XXI ........................................................................... 191 CAPÍTULO 2: MUDANÇAS EPISTÉMICAS BEM-SUCEDIDAS: heterotopias em “Para uma epistemologia da biblioteca pessoal" ................................................................................................... 201 Introdução .................................................................................................................................................. 201 Traduções e conceitos que mudam .................................................................................................. 203 Streaming................................................................................................................................................ 204 A biblioteca ................................................................................................................................................. 205 A biblioteca pessoal e social ........................................................................................................... 206 Conceções de biblioteca ................................................................................................................... 206 Fluir da consciência em sociedades ocidentais ...................................................................... 209 Do tempo recuperado ........................................................................................................................ 210 Do real e imaginário em jardins ......................................................................................................... 211 A-localização ......................................................................................................................................... 211 Quando cá na Terra as coisas ficam como eram antes ............................................................. 213 Desvio e tempo: exemplares de heterotopia ................................................................................ 214
Jogo de espelhos ....................................................................................................................................... 216 Utópicos e dissensos ............................................................................................................................... 219 O humor e a sátira social .................................................................................................................. 220 Uma luta renhida ................................................................................................................................. 221 Idealistas, Razão e paradoxos ........................................................................................................ 223 O idealismo mutualista ..................................................................................................................... 224 Dissensos na Biblioteca de Babel.................................................................................................. 225 Insolubia, paradoxos iluminados e predicados vagabundos ............................................. 226 Discussão final ........................................................................................................................................... 230 CAPÍTULO 3: PERSPETIVISMO: projeções de “Para uma epistemologia da viagem” ....... 237 Introdução .................................................................................................................................................. 237 Perspetivismo filosófico ........................................................................................................................ 239 A descoberta da perspetiva na arte .................................................................................................. 240 O papel significativo de ler o mundo no relato de viagem ...................................................... 241 Da transformação da pintura ao inolvidável viajante do século XVII ................................ 242 Diego Rodriguéz de Silva y Velázquez ........................................................................................ 243 Fernão Mendes Pinto ......................................................................................................................... 250 Aceções de verdade ............................................................................................................................... 253 Verdades na filosofia ......................................................................................................................... 254 Viagens: “a nossa experiência como um todo e algo fora dela e para além dela” .............. 258 O novo paradigma de pesquisa: “como as coisas podem ser?” ................................................... 260 Como “ler” uma história adaptada para a infância .................................................................... 261 Versões possíveis do mundo “contratualizado” .......................................................................... 262 Espaços precisos para a “leitura” do mundo ................................................................................ 263 Sentido de viajar ....................................................................................................................................... 265 Sentidos de coisas & loisas: património material e legado espiritual ............................ 268 O legado da botica? ............................................................................................................................. 270 Do legado textual ..................................................................................................................................... 276 Mundos virtuais: “A que lugar queres ir, já?” ............................................................................... 278 Discussão final ........................................................................................................................................... 280 TERCEIRA PARTE ......................................................................................................................................... 287 CONCLUSÃO: PRÁTICA INTERDISCIPLINAR, UM CURSO DE VIDA ATIVO ........................... 288 Introdução .................................................................................................................................................. 288 Autoapresentação .................................................................................................................................... 291 Que valoração do objeto de pesquisa? ............................................................................................ 292 Filosofia experiencial e processual .................................................................................................. 293 Quando a filosofia segue na descrição do Tao ............................................................................. 294
Liderança, sem benevolência e sem condescendência ............................................................ 296 Ser sujeito.................................................................................................................................................... 297 Ser pragmático .......................................................................................................................................... 297 Possuir coragem ....................................................................................................................................... 299 Apurar a perceção da relação e a partir do contexto ................................................................ 301 Transcender o tempo ............................................................................................................................. 303 Florescer ...................................................................................................................................................... 304 Ana Luísa Janeira: um pensamento “incorporado” ......................................................................... 305
201 CAPÍTULO 2 MUDANÇAS EPISTÉMICAS BEM-SUCEDIDAS: heterotopias em “Para uma epistemologia da biblioteca pessoal" Judite Zamith Cruz Introdução Além duma plataforma comum a autores, uma biblioteca pessoal confere ainda à pessoa que a detém um acesso a si e ao tempo – um espaço particular 116 . Foco-me num trecho seu, no blogue ArquivoVivido, com o título “Para uma epistemologia da biblioteca pessoal” (Janeira, 2020, 17 de dezembro). Trouxeme a reler a palavra esquecida – “heterotopia”. No cativante domínio dum arquivo vivido, foi num post que a filósofa colocou a expressão: “lugares que estão fora de todos os lugares”. Heterotopias darão conta de “a-localizações”. O que conceber da versão heurística para utopias concretizadas, numa aproximação progressiva destas, além de descrições introdutórias? São as heterotopias que posicionam os contrários às tradicionais versões do mundo, nomeadamente no último quartel do século XX. O buraco fora aberto nos anos sessenta, na utopia normativa, porque dificilmente alguém se conformaria a juízos de valor (norma), ao que fosse socialmente aceitável. 116 Quando designo o tempo de um espaço particular, a metáfora torna-se útil, a ser racionalizada de outras formas.
202 Não seria isento de valores o espelho das desigualdades sociais. Para o efeito, nessas circunstâncias datadas, Michel Foucault (1915 – 1984) visitou a riqueza das estâncias hidrotermais, em hotéis e locais elegantes de veraneio e registouo numa crítica original. Quando descreveu o que cunhou de heterotopias, nem se “escutavam” as crises com que nos confrontamos dia a dia: Há igualmente, e isto provavelmente em qualquer cultura e em toda a civilização, lugares reais, lugares efetivos, lugares desenhados na instituição da própria sociedade, e que são uma espécie de contra localizações, espécie de utopias efetivamente realizadas, nas quais as localizações reais encontradas, no interior da cultura, são como representadas, contestadas e invertidas, contextos que estão fora de todos os lugares, ainda que sejam efetivamente localizáveis. Estes lugares, porque são absolutamente outros, distintos de todas as localizações que refletem e de que falam, chamar-lhes-ei, por oposição às utopias, as heterotopias. (Foucault, 1984) As heterotopias obedecem ao que designou de “contra localizações” (e alocalizações), para a mente divergente, documento crítico, espaço alcançado, avançado ao tempo de utopismos, que voltaram a ouvir-se. Na Europa, a heterotopia foi dirigida a “neutralizar” ou a inverter o discurso instituído, na relação a lugares irreais (e utopismos) ou a visões enganosas dadas a ver em espelho. Em 1984 117 , entendeu nem termos até então “dessacralizado o espaço, na prática”, quando o sagrado separado do profano. O enunciado de Foucault constituiu um “Prefácio”, ainda em 1966. 117 Na presente Introdução, fornecida a referência, esta não será adiante utilizada, exceto quando feita outra citação direta doutra obra de Foucault.
203 Traduções e conceitos que mudam No grego antigo, o “lugar”, relativo ao espaço, sublinha -topia 118 , o elemento de formação para a palavra “utopia” 119 . Uma heterotopia resulta da aglutinação de heteropara outro – e topia, um “espaço”. Numa perfeição quase impossível de alcançar, para o imaginário espacial, a China introduziu o termo no século XIX, no que abarca géneros que transitam por domínios sociais, pensamentos, abstrações, ficções, fantasias e o design de espaços. No século XXI, kōng xiǎng traduz “utopia” 120 , frisada ainda a quimera (literalmente: xiǎng: kōng idea: void) ou qí xiǎng, na aceção de heterogeneidade de distintos elementos para a maciça confusão. No mandarim, literalmente, xiǎng significa “ideologia”. Acresce que a palavra “utopia” (pronuncia-se wū tuō bāng) alcança uma conotação e perceção negativas. Literalmente, bāng o “país” (para o qual) wū (não se pode) confiar em tuō. A desvalorização encontra-se nas expressões linguísticas comuns. Será a heterotopia parte do sentimento de um povo, que nenhum outro povo compreende? Uma heterotopia faz-me olhar a partir de fora, antes de articular essa esfera entre outras, não somente políticas, morais e sociais. Tempo é pensamento e as facetas linguísticas são suposições do mundo. 118 Em “–topia” (no grego, lugar) encontra-se o elemento de formação para a palavra “utopia”. 119 A palavra “utopia” (no grego, utopos, para “em lugar nenhum”; ou, que se lê u, que significa “não” + grego tópos, “lugar”) foi cunhada pelo idealista Thomas More (1478 – 1535). Ao usar a conceção do grego, More furtar-se-ia à censura. 120 Ver tambm a palavra “utopia”, em mandarim, yǔ wū tuō bānɡ, para “utopia” (pr.n. xiānɡ duì).
210 espaços - heterotópicos”. Essas reconfigurações fornecem-nos a realidade possível duma materialidade flexível, na memória corporificada, onde as situações são delineadas como esboços, nunca completados. Do tempo recuperado Por mais de dois mil anos até à Era moderna, com o suporte matemático, forjouse a refutação dos paradoxos de Zenão (490/485 a.C. – 430 a.C.?) 126 entre muitos ditos assombrosos. Na sua etimologia, paradoxo composto de “para” (ao lado de, alm de, etc.) e “doxa” (juízo, opinião, etc.). Foi preciso chegar o século passado para ser trazida à tona a impossibilidade de sustentar explicações dos fundamentos dos fenómenos - o que acedemos 127 , se afastados movimento e tempo. O motivo é não ser de eliminar a conexão com a realidade, mediante o uso de cálculos. As convenções matemáticas abalroadas conduziram-nos então à pergunta: “a realidade é uma série de momentos descontínuos ou um contínuo de instantes infinitamente pequenos?” Seja como for entendida a questão da “realidade”, entre as duas vias, Zenão mostrou (e persistem) problemas com o tempo. Na sua observação do mutante, sobressai o pensamento transformado. 126 No argumento contra o movimento (Aquiles e a tartaruga), Zenão de Eleia (nascido na colónia grega, a cerca de 100 km de Nápoles), introduziu o paradoxo: “se partimos do nosso ponto de vista de sentido comum acerca do mundo, utilizando as regras mais escrupulosas de raciocínio, acabaremos a alcançar conclusões igualmente insatisfatórias” (Cohen, 2003, p. 203). O eleata ficara perplexo com o entendimento comum do mundo. Como muitos, Zenão era seguidor de Parménides, para quem o mundo era uno e indivisível, ao contrário doutros. Zenão olharia um mundo sensível (ilusório), oposto ao mundo real de mudança e transformação. 127 O fenómeno é acessível à perceção, ao contrário do noumenon.
211 Do real e imaginário em jardins Por alternativa aos mundos habitados, sem fronteiras demarcadas, na Pérsia tradicional (atual Irão) 128 , acreditou-se num local imaginário, sagrado e profano. O Éden teria o “microcosmo” numa versão reduzida desse não lugar. Era o inacessível situado no “jardim tradicional”, o real centro dum lugar “fechado” 129 por inacessível. Uma conjetura do local paradisíaco ligado ao jardim persa (n.d.), portanto, tem uma área hipotética que é um jardim murado para “o lugar de lugar algum”. Na atualidade, juntando miúdos e graúdos, num livre espaço de diversão, encontro o jardim zoológico, que Foucault observou nas zonas de ócio e lazer, cujo toque utópico entronca na conceção do modelo do mundo “alegre e universalizante”, entre outras criações inviáveis e inauditas. A-localização Foucault criticou a modernidade, observou o todo “compartimentado” em que ficámos aprisionados, nas sociedades ocidentais: um local é sagrado ou um local é secular, o espaço é aberto ou é fechado, público ou reservado e privado, penetrável ou não, dado ao isolamento e à purificação. Atravessada a baliza do sagrado e profano no espaço comum, como equacionar uma a-localização? Enfim, como escapar ao real trabalho e ir ao território do ócio? 128 O Império Persa foi formado em 550 a.C., tendo abrangido a maior parte dos países do Médio Oriente, nas zonas sul e leste do mar mediterrâneo. 129 Na língua indo-europeia, o avéstico, da Pérsia antiga, a palavra pairi-daeza definiu o “espaço fechado” no “Jardim do Éden”, de acordo com a mitologia judaico-cristã (jardim persa, n.d.).
212 Foucault tomou o exemplar complexo dum Éden, além da Biblioteca borgiana 130 . Enfatizado o exemplar jardim de “perfeição”, na Prsia de outras Eras, que se “mova no espaço”, foi uma forma de observar a a-localização. No Éden, em que os tapetes persas 131 representaram a “perfeição simbólica”, o tapete conduziria ao jardim encantado. Como no insondável Universo, alcançado um espaço “supraceleste”, o presente texto tornará livre uma fantasia criativa. E sem que o tempo seja uma roda, as Eras vão e não durou algo pertinente ao Irão? Mas que dizer de pensar o espaço sem local? Pois quando vemos o Sol a nascer e a cair no horizonte, nas palavras de Foucault, foi ultrapassado o senso comum, sustentado o reparo: “… e se a Terra não fosse o centro do Universo?” As crenças resistem a evidências de que a Terra gira em volta do Sol. Todavia vivemos numa galáxia com muitos sistemas solares, uns maiores do que outros. 130 O termo “borgiano” vai da obra à biblioteca de Jorge do poeta argentino, ensaísta e escritor de contos Jorge Luís Borges, falecido em 1986. 131 Nos contos de “As mil e uma noites”, Aladino (literalmente, "nobreza da fé") alcança a lâmpada mágica numa gruta do jardim. O tapete voador e o maravilhoso ligam na fantasia a lâmpada ao Médio Oriente (berço do Islão) e ao sudeste da Ásia, onde a Indonésia é a maior nação muçulmana da atualidade.
213 Quando cá na Terra as coisas ficam como eram antes Utopias são “os amanhãs-com-que tanto-sonhamos”. Em alternativa, pense-se na divergência moderna, nos termos do filósofo francês. A par da violência, a arte em redor de Florença congregou já todo o amaciar da condição de vida. Por volta de 1420, a heterotopia - uma cidade fascinante, introduzido o Renascimento italiano (séculos XIV – XVI), implicava a relevância humanista. Foi o humanismo então a colocar o humano como um valor “superior” e como um fim em si mesmo. Mais comum na Europa foi vermos a pessoa passar a constituir um “meio” para um fim utilitário. Muito recuado no tempo, chegou até nós um relato ilustrativo do inesperado retrocesso, após a devastação. No final da Guerra dos Trinta Anos, à volta de 1648, as pessoas davam-se aos maiores atropelos, sobretudo por medo do desconhecido e dificuldade em sobreviver. No sculo XVII, “os protestantes lutavam em exrcitos católicos e católicos […] lutavam em exrcitos protestantes” (Gombrich, 2010, p. 213). Outra precipitada rutura ocorreu em 1789 132 . Mais uma vez, a vida se tornaria maldita, espelhada na modernidade, para uma limitada conceção de história. Então, porque são louvadas tantas das ações concretizadas do passado, tidas como manifestações bárbaras? Afinal, entre o que antecedeu o início da Revolução Francesa – 1789 - e o que se lhe seguiu foi a expansão de inúmeros subordinados e dependentes reais, muitos dos quais virtuosos. Os louvores seriam feitos aos que foram compensados por seguirem “boas práticas”. Nessa condição, eram 132 Em 1789, iniciou-se a Revolução Francesa. Para voltarem a brilhar as cortes faustuosas depois de 1799, eram excluídos os cidadãos da política, ainda que o diplomata austríaco Metternich (1773 – 1859) apelasse à união. A mostra de riqueza interpôs-se, soando mais alto nas cortes de Espanha, França, Rússia e Áustria (Gombrich, 2010, p. 259).
214 recompensados por parte de poderosos "perdoadores". O Estado benigno daria poder para servir, enfim, numa boa intenção de aristocratas governantes, caminhando para o sistema de noblesse oblige. Ainda no século passado foi instituído o Clube de Roma, frequentado por estadistas. Em 1972, um punhado de ambiciosos do futuro neoliberal ainda prometia o infinito. Tinham sido apresentados relatórios aos ilustres decisores, expostos os limitados recursos da Terra, por Donella e Dennis Meadows, com Jørgen Randers e William Behrens. Os cientistas tinham em vista a cautelosa antecipação de catástrofes, a longo prazo. Não foram ouvidos os “utópicos”. A Razão trouxera a “humanidade” que não se eternizou. Temos tratados e sucessivas pós-guerras, tensões, contradições na língua e ambições de poder discricionário. Não se acredita já que vivemos no “melhor mundo possível”. Vivemos num dos mais aprazíveis dos mundos possíveis, o que contraria a esperança de Leibniz (1646 – 1716). Desvio e tempo: exemplares de heterotopia No último quartel do século passado, Foucault amplificou o pensamento espacial, cunhada por si a palavra “heterotopia”, mais eficaz do que utopia, porque atinge a concretização, o cumprimento do sonho. Como não sonhar então com a igualdade? Numa distribuição estatística, enformam descrições da modernidade assentes em normas para uma dada população, para periódicas revisões historiográficas. Nessa circunstância, nova aceção não normativa, foi destacada pelo psicólogo Foucault. Nas sociedades em que uma maioria (estatística) esqueceu o outro, do “louco” ao “falhado”, temos o relatório clínico, em que se explica um “problema”. Analisou juízos de valor para
215 “comportamento que se desviam da mdia ou do padrão exigido” (o “dever ser”). Numa “heterotopia de desvio”, portanto, cerca de 95% (uma maioria) separada do que fizer a minoria (5%), qualquer coisa avaliada acima de 2 desvios padrões a partir da média, de alguma forma imaginável como outro. Por relação a quem foi já diagnosticado no quadro “patológico” (enfermo) e “portador de doença mental”, o modelo de desvio tem critrios subjetivos, ainda estes fossem apresentados numa tentativa de objetividade: “os outros pensam que estou bem, mas eu estou angustiado”; e “estou bem – os outros pensam o contrário”. Na rejeição do estipulado, muitas pessoas não se ajustaram hoje às regras 133 e desviam-se. Ambicionam a maturidade, a realização no que se faz e a consciência do “porquê” 134 . Outros continuamos a seguir diagnósticos e (psico)terapias, segundo critérios psiquiátricos estritos e organicistas. E se a noção de desvio viu ampliações, esbate-se até mais com a expansão da defesa dos direitos de minorias, do reconhecimento de “diferenças individuais”, em que somos defensores da “neurodiversidade” 135 . Depois da ambição de igualdade, já se constata sermos todos diferentes. Inclusive, possuímos cérebros estrutural e funcionalmente diferentes, mesmo os femininos e os masculinos. Perdeu-se até a passagem ao modo “típico” de humano. 133 A regra ou norma seria (e ainda chega a ser) o comportamento do homem branco e heterossexual. 134 A perspetiva de “saúde mental” tornou-se a perspetiva dominante, alternativa ao peso da discriminação e estigma, quando a ênfase é o desenvolvimento pessoal-social, a independência social, a capacidade de amar e ser amado, além do sentido da realidade. 135 O neologismo “neurotípico” abrange uma comunidade. Por condição neurológica, intrínseca ou extrínseca na origem, uma minoria assume a condição de neurodiversidade (por perturbação do espectro autista, de coordenação do desenvolvimento ou dispraxia, défice de atenção, com ou sem hiperatividade).
216 Noutro extrato de Foucault, uma “heterotopia do tempo” torna-se mais fácil de delinear no quotidiano do que o desvio da média, na inadaptação e na diferença. O que acontece é o tempo decorrer no local, que albergue a simultaneidade. Constatou a seriedade e a alegria, o sagrado e o profano em feiras e romarias, logo, bem além de interpelados locais de exclusão. Equacionado o menor espaço de desintegração atual, nos territórios ocidentais temos inadequadas respostas coletivas. Como não ver a etiqueta, a discriminação e o estigma, num dado lugar e tempo? Jogo de espelhos A filósofa não pensa em termos dualistas: “tempo ou espaço”. No antidualismo, torna-se pertinente descobrirmos saberes por outros desalinhados. Reconheço haver um “dualismo” - “ou ‘eu’ ou outro”. O mundo não é dual noutros domínios. A realidade concretizada e bem-sucedida chega a será híbrida, cocriada pela perceção que varia em realidades dilatadas. No dia a dia, nos domínios artístico ou literário, albergamos até já um arco-íris de desvios que se (des)fazem nas etiquetas: os “amarelos” sucedem-se aos “verdes” ou aos “vermelhos”. Contudo, não deixa de impressionar uma relação dual, partindo dum espelho plano, portanto, que é um objeto real, no sentido concreto e no espaço localizado. Quanto à imagem formada, tanto pode ser real como imaginária. Quando o objeto for real, a imagem é virtual; quando o objeto for virtual, a imagem é real. Noutra acessão de realidade (o que percecionamos como real), temos já criações mentais e um conjunto de obras e espelhos, que atingem o seu propósito reflexivo. Fico a pensar num particular, no que deparei no meu reflexo no espelho… Imaginada a “biblioteca” de Jorge Luís Borges (1944, p. 18), não era eu, porque
217 o sujeito mental só existe em relação ao objeto mental. O sentimento ajudoume a criar isso – a mente, depois de olhar para a “moldura do meu corpo” (Damásio, 2020, p. 55), dito que o sentir no corpo traz o saber. Compreendo tambm que o “eu” (self, no original) 136 não seja uma coisa real, por inconsistência própria de todo um processo dinâmico. Deslocável, tomo-o por uma construção comum, em que o “eu” se identifica a outro. Aprendi a ler Borges com um apaixonado pelos seus livros e num sentimento de pertença, em que identifico o “eu” e o “tu”. E se o “eu” concebido no sujeito mental - e como espelho do outro - já nisso projeta a autoimagem, o “ideal de eu”. Nem será de atender à diferença inerente a outro, seja ficcional ou seja real. No desconhecimento do dual, em que o “eu” existe unicamente em relação a objetos mentais 137 , a impossibilidade do “eu” (só eu) torna-o um objeto imaginário 138 . Mas como colocar bem o “eu” frente ao ser? Por relação ao sentimento, mas também ao saber, em que se ganha a consciência (Damásio, 2020, p. 55). 136 Um “eu” não se pensa como um órgão ou homúnculo, na medida que um processo, “uma estratégia biológica para recrutar e organizar a informação que o cérebro recebe sobre o corpo a que pertence” (Damásio, 2020, p. 55). 137 Na filosofia budista, o “não self” (anattã, no dialeto indiano pali, ligado ao sânscrito) e as ideias de “origem dependente” acentuam que o sujeito mental só existe em relação ao objeto mental, no compartilhado por um neurocientista, Max Henning e um filósofo, David Robert Loy (Damásio, 2020, p. 285-286). 138 Para Lacan, a “fase de espelho” a etapa de criação do “eu”, “uma função de desconhecimento”, no que nos iludamos sobre quem somos. Na escola lacaniana, o “eu” constitui-se na linha do imaginário, do sonho do sujeito unificado, sem que alguma vez o seja.
218 Por relações de contraste, é na alteridade 139 que alcançamos a qualidade do que seja diverso. Mas se o “eu” à imagem do eu adulterada e o “eu” à imagem do ser? Pode ser o “eu” tornado na imagem alienada. O que nos diz a filósofa a esse respeito? “O mesmo [o si mesmo] e o outro impõem uma ‘dualidade’”, porque não se acedem no mútuo. No dia a dia, se não prescindo de outrem, torno-me dependente emocional. Na interação, torna-se impossível o sentido da reciprocidade ou de troca mútua. Por condição linguística, outro diverso de “eu” e acoplado no espaço “misto e geminado”, como tambm o acentuou Foucault. E se nem está lá o outro, deslocalizado? Buscada a irredutibilidade do outro em mim (e num espelho plano), uma heterotopia acentua a fenda de acesso ao âmago do ser humano – e a ilusão. Para o “ser-com-outros” e a consciência social ampliada, torna-se acessível à imaginação e à crítica justificar-se a escolha duma biblioteca. Na turbulência em que vivemos, a biblioteca contrasta até com o lugar estranho. Por conseguinte, as identidades são volúveis e os espelhos transmitem aparências e paradoxos. Numa dimensão “racional” e “civilizada”, tambm a biblioteca pessoal conduziu já à “leitura” do mundo heterotópico. Acredito “ler” o computo parcial do mundo nos seus livros, num “mapa aberto” em que a coconstrução do mundo seja fantasia e lucidez. 139 A palavra “alteridade” emergiu na filosofia moderna, com Hegel (1770 – 1831), retomada no pós-estruturalismo e com Lacan.
219 Utópicos e dissensos Na heterotopia espelha-se uma imagem da desarmonia entre grupos e solitários utópicos do passado. Como história fundadora, porque não ir mais longe e devolver utopia ao poeta oral Hesíodo, no ideal de justiça? No sculo VIII a.C., Hesíodo inaugurou o mito da idade de ouro, em “Os trabalhos e os dias”. A cobro da herança, no mal-estar com o irmão Perses, chegaria a mostrar-lhe o dinheiro nojento. Melhor seria trabalhar e terminar com a violação do direito de outrem. Foi na Antiguidade Clássica dada a maior esforço a construção duma ilusória cidade - Kallipolis 140 . Platão ilustrava um outro modelo de utopismo do mundo, social e político, tendo que aguardar muita altercação até nos prender a ideiasâncora 141 , repetidos os utopismos. Se bem que a “virtude” platónica já admitira certos domínios de poder do Estado, os ideais iriam saltar e virar para espíritos transformadores: filósofos, humanistas e cientistas. Penso adiante em Kant (1724 – 1804), Kropotkin (1842 – 1921) e no pacifista inveterado, o cientista Lewis Fry Richardson (1881 – 1953). Afinal, como validar o poder de Estado, sem “guardiões”? - diria o cético social. Com ilusões? 140 Kallipolis ilustrou a cidade do céu – espelhada na polis, cujo governo caberia a semideuses num mundo sem tempo. 141 Possuir uma ideia âncora ou subsunçor, ajuda a pensar temáticas difíceis, partindo da estrutura cognitiva-narrativa.
226 somados nos livros. Na forma metafísica, era dada a entrada infindável a realidades díspares, esquecidas, reproduzidas doutras paragens ou decifradas por quem as entendesse. Era sabido que “as máquinas neuronais são limitadas...” Como diz também no Génesis (11, 4-9): “… e daí em diante o Senhor os dispersou por toda a face da Terra.” Portanto, do conceito de heterotopia alcancei um subsunçor (ideia âncora), com base na aprendizagem significativa. Gostando de paradoxos, a heterotopia acolhe-os, faz avançar exemplos e a análise de experiências históricas, umas em locais e épocas dadas, outras mais gerais. Insolubia, paradoxos iluminados e predicados vagabundos A história da filosofia e da literatura encontra-se pejada de idealismos, quando pensei nos “princípios” idealistas 150 e modelos do mundo, contrastantes com os dados (textos) fundamentados no contexto. Para o que nem fosse carente de solução, insolubia reporta-se à Era da escolástica, nos escritos titulados e retratos lógicos. O conhecimento da Antiguidade seria então muito parcial, ao contrário do saber da patrística, quando surgiam as universidades, desde o século XIII. 150 No idealismo teológico, o idealismo concebeu o pressuposto: “relacionam-se os domínios físico e não físico?” Na mecânica quântica ortodoxa, com Werner Karl Heisenberg (1901 – 1976), a observação é a atitude de escolhas e as escolhas básicas são de natureza binária (v. idealismo ou realismo).
227 Referir-me-ei também a paradoxos, numa ordem de salientadas Idades ou Eras. Implicarão a opinião contrária à “lógica”, no que expõem a heterotopia, abalroados limites balizados. Numa formalização lógica, a palavra ou expressão verbal designada de “predicado” implica atribuir-se ao sujeito uma proposição (frase declarativa), por afirmação ou por negação. São os predicados “V” (verdadeiro) e “F” (falso), com um valor lógico acrescido, designado de “desconhecido”, quando coligidos factos indeterminados (ou insuficientes), para efeito de aplicação do predicado lógico: “V” ou “F”. A Lógica filosófica teve os seus tempos áureos. Muito antes do século XVII, já se atribuiu à cifra a presença do utopismo “na escala musical e nos cus e em muitas outras coisas” (Aristóteles, 1090a, pp. 20-25; como citado em N. Rescher, 2018, p. 30). Aliás, em “muitas outras coisas” inventa-se e descobrese a natureza do “real”, assente na regularidade da lei da gravidade de Newton (aproximadamente, 1642 – 1726). As utopias são contemporâneas do Iluminismo 151 , quando a Europa do século XVI, era ora idealizada, ora satirizada por More (1997). Em “Utopia”, na ilha, estava concentrado um punhado de bons homens. Na história partilhada por More, a parte inicial de “Utopia” contava violências e injustiças: antes de retratada a liberdade, daria azo a lutas políticas e à apreensão de ter sido invertido o pensamento de Platão (aproximadamente 428 – 348 a.C.), e reatada a emancipação efetiva. No ideal de utopia, presidia, como foi referido, uma virtude natural. Como iria ainda florescer o bem-estar subjetivo dum livre-pensador? 151 O Iluminismo foi datado por franceses como tendo início em 1715 (na morte de Luís XIV), com o final situado na Revolução Francesa, em 1789.
228 Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) criava o seu Émile, invertendo a conjetura hobbesiana 152 . Foram precisos cerca de 100 anos, depois de Leviatã, para o filósofo suíço ilustrar o saber do primitivo, naturalmente bondoso, sem aquele cunho de egoísmo e impulso de lutador, enformado pela sociedade civil, fonte da discórdia inveterada. O ocidente europeu impunha assim a defesa do princípio de consciência moral, um paradigma de “virtude” no Iluminismo. Rousseau (1989, p. 37) ainda iria acreditar que “Tudo bom quando deixa as mãos do Autor das coisas; tudo degenera às mãos do homem.” A natureza (no grego, physis, razão e verbo de todo o criado) era de construção divina, a sua manifestação. E o ser humano seria honesto e bom, quando não corrompido. A par da Razão, entre 1789 e 1799, em plena Revolução Francesa, ainda iria mais longe o Marquês de Condorcet. Entre outros dissensos, empreendeu na possível degradação da democracia e foi assassinado. O seu problema era o seguinte: “E se a democracia eleitoral se torna ineficaz, nas votações públicas?” A racionalidade via-se desbaratada. É o que ocorre, quando é perguntado o seguinte: “onde colocar uma ponte… um aeroporto?” As soluções são percebidas: (“… mas não em A [onde vivo]”; “… mas não em B”; “… mas não em C”), descartada a hipótese de não construir a obra. Por unanimidade, “todos querem o aeroporto”. Fere pensar no paradoxo, quando a maioria desfavorece a construção em três locais exequíveis e gera desacatos. Desde o século XVIII, portanto, uma afirmação séria, um enunciado “verdadeiro” e uma racionalidade nas ciências da natureza (physis) seriam o real consubstanciado. 152 O termo “hobbesiano” enfatiza o legado escrito por Thomas Hobbes: Leviatã, publicado em 1651.
229 Menor número de lugares de idílio e perfeição eram alcançados na literatura para o porvir, local de desgraça. Pelas letras, uns poucos imiscuíam a visão da adversidade e aventuravam-se no sentido trágico. Desde o sculo XIX, posta em prática a utopia da “ditadura do proletariado”, ainda sobreviveu a manipulações. Finalmente, no século XX, foi a vez da matemática constatar imponderáveis. Foi com o problema “do comprimento da costa britânica”, que foram apontados factos imprevisíveis, por Lewis Fry Richardson. Como será possível medir uma costa, ziguezagueando o mar ao sabor de ventos e marés? Se essa avaliação indeterminada, traduz “uma ficção conveniente”. Como sabemos, a quantidade não existe, por imprecisão e indefinição do tamanho da ilha europeia. Essa uma “quase quantidade”, a que faltará sempre um comprimento dado, “num dado momento” (“exatamente agora”). Richardson foi um dedicado matemático, físico, meteorologista e psicólogo. Na análise matemática usou equações diferenciais e a teoria da probabilidade, para solucionar o paradoxo da linha costeira, no que antecipou pesquisas de fractais 153 . Com empolgado idealismo, discriminou de forma plausível o que seja de constranger-nos entre prática e teoria, cujas origens sejam diversas (Rescher, 2018, p. 283). A prática sujeita a “necessidades”, ajustamentos, espaços intermédios para lógica binária. No intuito de finalizarem os conflitos doutrinais, como traçar a via epistemológica? 153 Fractais são estranhas figuras geométrica cuja característica básica é a autossimilaridade (imagens contem cópias de cópias e assim por diante), geradas por equações matemáticas e em que programas de computador permitem a visão de formas e cores. Apesar de pensar-se em arbitrariedade, os fractais sujeitam-se a regras, à semelhança do fluxo dos rios.
230 No século XXI, coube a Nicholas Rescher (2018, p. 282) usar a matemática, no indeterminado de Richardson, para o que designou duma espécie de vagabundagem predicativa 154 , na filosofia. É disso que se fala, quando os factos (existentes) nos escapam. Pode ocorrer, que eu os desconheça (nem “V” nem “F”), logo, como os “comprimentos” que não podem ser exatos. Patenteia a ideia do saber limitado para os “itens” (questões) “inacessíveis identificacionalmente” (Rescher, 2018, p. 346), à semelhança do número, mas que não seja “portador de predicado”. Assim, não se identificam certos itens que são errantes, em ausência de residência fixa (p. 346), mesmo com possíveis aplicações. Sem um espaço demarcado, os predicados vagabundos serão heterotopias e a-localizações. Devem-se à nossa ignorância e/ou à inacessibilidade do que seja até incognoscível. Numa via epistemológica, portanto, traça-se a possibilidade de acabar guerras, contendas e maniqueísmos, escapando-nos os inumeráveis factos existentes. Discussão final Livros são o que se pode dar sem perder. Heterotopias colocam também mais questões. Na via sistemática, Ana Luísa Janeira enunciou um espaço social e cultural em que teimamos separar e reordenar por maior ou menor “grandeza” o privado e 154 “Predicados vagabundos” sintetizam a ideia destacada por “mostra-me!” (Rescher, 2018, p. 345). Com o intuicionismo de certos lógicos, houve a “exigência” do caso exemplificador para dizer-se “isto existe!”. A observação de “casos”, tornou-se imprescindível a filósofos metafísicos (e positivistas) para as afirmações existenciais. Donde a veracidade duma afirmação poder nem permitir a plena satisfação intelectual, faltando o entendimento intelectual para a coerção (o argumento “cogente”).
231 o público, o familiar e o social, o cultural e o utilitário, o centro destinado a ócio e turismo, o modo alternativo no negócio e trabalho quotidiano. Por derivação do neologismo, “heterotopologia” 155 enquadra o espaço aberto para o método agregador e inovador do pensamento desta filósofa das ciências, conhecedora da obra de Michel Foucault. Divergindo dos utopismos enganadores, as heterotopias fornecem-nos as destruições criativas e aplicadas do projetado. Incentivam-nos para o negar, o contrariar no articulado, o desdizer, o discutir do que não está no seu “devido lugar”, por mal instituído. Então, são as heterotopias as “utopias realizadas” por “inversão” e “contestação”. Uma heterotopia acede ao simbólico no esboçado e concluído. Primeiro, no acervo coletivo pode constituir-se todo um catálogo de coleções acumuladas. Ao índice de fichas veio a substituir-se uma base de dados informatizada. Habituámo-nos à ordem, à lógica, à racionalidade no “progresso”, encontrado na classificação dos “arquivos gerais”. Habituámo-nos a observar erradamente verdades nos tombos datados. Ao contrário do lado instituído, a biblioteca pessoal é desejada como não linear, não sujeita a leis, a decretos e a regulamentos. Inclusive, pode ser temporária, passageira ou provisória, atemporal (ou não). No final, caberá à heterotopia fazer-nos rever a “justaposição num único lugar real [o espelho onde se reflete um humano] de vários espaços, de vários locais que são incompatíveis”. 155 “Heterotopologia” consuma um mtodo de pesquisa introduzido por Michel Foucault: “descrição sistemática que teria por objeto, numa dada sociedade, o estudo, a análise, a descrição, a ‘leitura’, como se gosta de dizer agora, desses diferentes espaços, desses outros lugares [heterotopias], uma espcie de mítico e real do espaço onde vivemos.”
232 Ao ler os dois pensadores, nem me dei logo conta do tempo acumulado (secular) e empoleirado nas obras das prateleiras, com livros de “antropologia” 156 , por mim buscados “estudos culturais”, num olhar do esconso, para as divisórias. “O destino do ser humano o conhecimento”, assegurou Carl Sagan, no livro que me acompanha sempre, Cosmos. Numa plataforma comum, portanto, quando aos livros doutros podemos acrescentar saberes, deixam de ser conhecimentos absolutos. O refletido e clarificado no blogue ajudou-me a aprofundar e a selecionar dados (“textos”) pertinentes e a debater-me com conceitos e relações raramente encontradas, não fossem os espaços oblíquos e sobrepostos. Continuaremos a viver utopismos numa dispersão de bases concetuais. Encaramos o real no ambiente tecnológico e virtual. Saudamos o passado mítico, antecipado o coligido no livro do futuro. Acordamos o sentimento de redutibilidade do outro que grassa em mim. Vislumbramos o acesso à consciência de si, na totalidade social, uma consciência ampliada. No coletivo da Terra, saem desfocadas da consciência as utopias humanistas, as belezas de outrora, os tratados de advertência e as conjeturas agregadoras nas obras panfletárias sobre o inviável. Vivemos já inacreditáveis ilusões, sonhos e quimeras. Das ambíguas felicidades terrestres, as heterotopias colocam adiante os indeterminados espaços intermédios, entre o “lugar de lugar algum” e o “lugar sem tempo” do cosmos do astrónomo. Sagan agarrou o que existiu, existe e existirá, fixado o utopismo a nível de tudo. E será que aqui e agora a pessoa sentir-se-á ectópica, num ambiente 156 Pensou a antropologia como uma “ilusão” da modernidade, aproximada do exotismo. No século XXI, a antropologia interligou-se já à história, romance, ficção, sociologia e psicologia.
233 “anormal”? Na contracorrente, onde vive a incontornável projeção de nós mesmos? Vivemos em cidades distópicas, cuja utopia tem projeções na internet e no terreno inóspito. Dia a dia, a desilusão do futuro espelha-se em adolescentes e jovens mulheres francesas. Cerca de 45% de jovens levados aos serviços de saúde, em 2021, afirmaram o desalento (Mathiot, Leboucq, & Darnault, 2022, Janvier 10). Aderirão outros ainda a quimeras, não tanto à fantasia futurista. As esperanças mais longínquas revelaram o inconcebível da guerra. Na insolubilia há um modo de pensar nos paradoxos, quando ainda estamos demasiado ignorantes, se bem que existam problemas não solucionáveis para o nosso cérebro.
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