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A transformação da paisagem e o turismo em Pitões das Júnias

Perdigão, Cláudio Miguel Pinheiro

Abstract

A paisagem tem-se constituído como um elemento de estudo fundamental da Geografia. Nas últimas décadas, muitos territórios sofreram grandes transformações. Estas, não só são claramente visíveis na paisagem, desde a desflorestação, à reconstrução do edificado e ao despovoamento, mas também assumem formas mais subtis, como a perda de relações sociais, as mudanças identitárias e dinâmicas diversas. Aqui o turismo assume fortes impactes no território, na paisagem e nas relações sociais. Dentro do território Português, muitas regiões, especialmente no Norte do país, que enfrentam problemas de carácter económico, social e ambiental, muito em razão da sua localização geográfica, sobretudo em áreas tipicamente rurais e montanhosas. A atividade turística desempenha aqui um papel fundamental que importa aqui analisar. A elaboração desta dissertação de mestrado prende-se sobretudo com uma análise das transformações ocorridas na paisagem de Pitões das Júnias, uma aldeia transmontana inserida no Parque Nacional Peneda-Gerês. A análise tem como ponto de partida uma obra publicada em 1981, da autoria do etnólogo Manuel Viegas Guerreiro, com o título Pitões das Júnias: Esboço de monografia Etnográfica. Procura-se estabelecer um diálogo e comparação entre as paisagens desta obra com as paisagens atuais. Metodologicamente, desenvolveu-se um vasto trabalho de campo que incluiu sobretudo a observação do espaço em estudo, um levantamento fotográfico, em articulação com as fotografias presentes na monografia já referida, inspirado sobretudo no método de comparação visual do fotógrafo Duarte Belo. Recorreu-se também à aplicação de questionários que posteriormente foram dirigidos à comunidade local. Os resultados obtidos possibilitaram, numa primeira instância, concluir que a comunidade local reconhece os benefícios que o crescimento da atividade turística trouxe para a região. Em segunda instância, foi também possível concluir que a transformação ocorrida na paisagem, em especial no seu edificado, prende-se sobretudo com o facto de alguns proprietários de pequeno comércio, restauração e alojamento local, começarem a seguir certas e determinadas tendências de mercado em que procuram acima de tudo outras formas de rendimento para além da agropecuária e também pelos habitantes que procuram melhores condições de vida e conforto, o que posteriormente se acaba por na transformação (construção, reabilitação, modernização) do edificado.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Cláudio Miguel Pinheiro Perdigão A Transformação da Paisagem e o Turismo em Pitões das Júnias 19 de novembro de 2020 Cláudio Miguel Pinheiro Perdigão A Transformação da Paisagem e o Turismo em Pitões das Júnias UMinho|2020 i Cláudio Miguel Pinheiro Perdigão A Transformação da Paisagem e o Turismo em Pitões das Júnias Dissertação de Mestrado Mestrado em Geografia – Especialização em Planeamento e Gestão do Território Trabalho efetuado sob a orientação da Professor Doutor João Carlos Vicente Sarmento 19 de novembro de 2020 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii Para o meu avô, Francisco António Pinheiro iv AGRADECIMENTOS Findada esta importante etapa, não posso deixar de expressar um profundo agradecimento a todos os que colaboraram para a realização da presente dissertação. Quero em primeiro de tudo, agradecer ao meu orientador, Professor Doutor João Sarmento, por quem nutro uma enorme estima e admiração, por todo o auxílio prestado, por toda a disponibilidade e conhecimento transmitido. Aos meus amigos, em especial, ao Daniel Imanov, ao Paul Costa e à Bruna Tavares, por todos os momentos partilhados, pelas conversas profundas e sobretudo pela longa amizade. Ao Sr. Diogo, que me acolheu na sua casa durante as minhas estadias em Pitões das Júnias, permitindo-me assim conhecer de uma forma mais profunda a cultura da gente de Pitões. À minha família, pelo apoio e momentos de partilha, em especial, a minha afilhada Alice, pela compreensão e alegre contágio. Espero um dia vir a ser um exemplo para ti! Ao meu pai, que recordo com eterna saudade, pela inspiração e alento em momentos de maior fragilidade e por ter despertado em mim a paixão pela natureza e pelas ciências sociais e humanas. Ao meu irmão, ao meu avô e a minha mãe, pelo apoio, compreensão e amor constante. Sem eles, nada disto teria sido possível. A todos o meu mais sincero obrigado. v DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vi RESUMO A paisagem tem-se constituído como um elemento de estudo fundamental da Geografia. Nas últimas décadas, muitos territórios sofreram grandes transformações. Estas, não só são claramente visíveis na paisagem, desde a desflorestação, à reconstrução do edificado e ao despovoamento, mas também assumem formas mais subtis, como a perda de relações sociais, as mudanças identitárias e dinâmicas diversas. Aqui o turismo assume fortes impactes no território, na paisagem e nas relações sociais. Dentro do território Português, muitas regiões, especialmente no Norte do país, que enfrentam problemas de carácter económico, social e ambiental, muito em razão da sua localização geográfica, sobretudo em áreas tipicamente rurais e montanhosas. A atividade turística desempenha aqui um papel fundamental que importa aqui analisar. A elaboração desta dissertação de mestrado prende-se sobretudo com uma análise das transformações ocorridas na paisagem de Pitões das Júnias, uma aldeia transmontana inserida no Parque Nacional Peneda-Gerês. A análise tem como ponto de partida uma obra publicada em 1981, da autoria do etnólogo Manuel Viegas Guerreiro, com o título Pitões das Júnias: Esboço de monografia Etnográfica. Procura-se estabelecer um diálogo e comparação entre as paisagens desta obra com as paisagens atuais. Metodologicamente, desenvolveuse um vasto trabalho de campo que incluiu sobretudo a observação do espaço em estudo, um levantamento fotográfico, em articulação com as fotografias presentes na monografia já referida, inspirado sobretudo no método de comparação visual do fotógrafo Duarte Belo. Recorreu-se também à aplicação de questionários que posteriormente foram dirigidos à comunidade local. Os resultados obtidos possibilitaram, numa primeira instância, concluir que a comunidade local reconhece os benefícios que o crescimento da atividade turística trouxe para a região. Em segunda instância, foi também possível concluir que a transformação ocorrida na paisagem, em especial no seu edificado, prendese sobretudo com o facto de alguns proprietários de pequeno comércio, restauração e alojamento local, começarem a seguir certas e determinadas tendências de mercado em que procuram acima de tudo outras formas de rendimento para além da agropecuária e também pelos habitantes que procuram melhores condições de vida e conforto, o que posteriormente se acaba por na transformação (construção, reabilitação, modernização) do edificado. Palavras Chave: Geografia Cultural; Paisagem; Fotografia; Turismo; Montanha; vii ABSTRACT Landscape has been constructed as a fundamental element of study of Geography. In recent decades, many territories have undergone major changes. These are not only clearly visible in the landscape, such as deforestation, reconstruction of buildings or depopulation, but they also take on subtler forms, such as the loss of social relationships, identity changes and other diverse dynamics. In this context, tourism has a strong impact on the territory, on the landscape and on social relationships. Within the Portuguese territory, there are many, especially in the north of the country, which face economic, social and environmental problems, due to their geographical location, mainly in typically rural and mountainous areas. Tourism plays a fundamental role here that needs to be analyzed. This master's dissertation is mainly focused on the analysis of the transformations that took place in the landscape of Pitões das Júnias, a village in Trásos-Montes province, located within the boundaries of the Peneda-Gerês National Park. The analysis has as its starting point a work published in 1981, by the ethnologist Manuel Viegas Guerreiro, entitled Pitões das Júnias: Esboço de monografia Etnográfica [Pitões das Júnias: Sketch of an Ethnographic Monography]. It seeks to establish a dialogue and parallel between the landscapes of this work and the current landscapes. Methodologically, a vast fieldwork was developed that included, above all, the observation of the space under study, a photographic survey, in conjunction with the photographs presented in the aforementioned monograph, inspired mainly by the method of visual comparison used by the photographer Duarte Belo. Questionnaires were also used, which were subsequently addressed to the local community and tourists. The results obtained made it possible, at first glance, to conclude that the local community recognizes the benefits that the growth of tourism has brought to the region. In the second instance, it was also possible to conclude that the transformation that took place in the landscape, especially in its buildings, is mainly due to the fact that some owners of small businesses, restaurants and local accommodation, begin to follow certain and determined market trends in which, above all, they seek other forms of income in addition to agriculture, as well as by the inhabitants who seek better living conditions and comfort, which results in the transformation (construction, rehabilitation, modernization) of the built landscape. Keywords: Cultural Geography; Landscape; Photography; Tourism; Mountain; 1 INTRODUÇÃO No âmbito do Mestrado em Planeamento e Gestão do Território, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, realizei a minha dissertação de mestrado à luz de um dos mais interessantes subdomínios da Geografia Humana - a Geografia cultural, que nas últimas décadas foi altamente revigorada tanto nas questões teóricas como metodológicas (Cosgrove, 2003; Sarmento, Azevedo e Pimenta, 2006). O conceito de paisagem volta a estar novamente dentro dos principais interesses da geografia contemporânea, enquanto se faz também notar em outras áreas das ciências humanas e sociais (Gaspar, 2001). A paisagem sempre foi um elemento presente na geografia humana, ligada à cultura, à ideia de formas visíveis da superfície da terra e à sua composição. Ao mesmo tempo, pode também ser entendida como uma forma de ver, uma maneira de compor e refletir sobre o mundo, numa unidade visual (Cosgrove, 1984, 1989). Pode também ser experienciada como um espaço acessível à observação através de distintas formas: desde a elaboração de mapas, à arte de desenhar e fotografar ou simplesmente ao atingir o topo de uma montanha (Ribeiro, 2001). O ser humano é um dos agentes responsáveis pela transformação da superfície terrestre. A sua ação insere-se sobretudo na biosfera, sendo capaz de originar a criação de ambientes artificiais, habitações, ou até mesmo aldeias, ou cidades, o que causa a destruição ou substituição das associações naturais por formações mais pobres e desequilibradas (Claval, 1987a). Nas últimas décadas, fruto de mudanças sociais e económicas profundas, muitos territórios sofreram grandes transformações. Estas, não só são claramente visíveis na paisagem, como também assumem formas mais subtis, como seja a perda de relações sociais, as mudanças identitárias e dinâmicas diversas. O turismo é uma das atividades com maior responsabilidade na transformação da paisagem portuguesa (Sarmento, 2008). Em áreas periféricas, frágeis de um ponto de vista demográfico, social e económico, o turismo tem, em muitos casos, assumido um papel muito importante nestas mesmas transformações. É este o caso de muitas áreas do interior de Portugal, mais especificamente áreas de montanha, que estão bastante afastadas de centros urbanos. A procura de territórios de montanha por parte dos turistas, enquanto se tem constituído como uma excelente oportunidade para estas regiões, tem implicações ambientais, culturais e sociais para as comunidades que neste tipo de territórios se encontram inseridas, que importa analisar. 2 Este estudo pretende assim identificar e analisar as transformações ocorridas na paisagem que o turismo tem causado num território de montanha específico, nomeadamente a aldeia de Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, Trás-os-Montes. Esta aldeia, com 161 habitantes, está inserida no Parque Nacional Peneda-Gerês, que tem uma pressão turística crescente. Metodologicamente esta dissertação assenta nos seguintes passos: em primeira instância, para a realização do estado da arte, foi elaborado um levantamento bibliográfico através de um conjunto de trabalhos científicos, onde se procurou definir e debater o conceito de geografia cultural, paisagem e a importância da fotografia na sua representação. O conceito de turismo e a sua evolução em territórios de montanha, tanto como os seus impactes, foram também bastante aprofundados e debatidos. A componente empírica, foi elaborada a partir de uma obra publicada em 1981, da autoria de Manuel Viegas Guerreiro, etnólogo e colaborador próximo do geógrafo Orlando Ribeiro, intitulada Pitões das Júnias. Esboço de monografia Etnográfica. Procurou-se estabelecer uma comparação com os dias de hoje, no que concerne à dinâmica desta aldeia, através de um levantamento fotográfico da aldeia, procurando retratar os mesmos lugares das fotografias do estudo referido de Viegas Guerreiro. Foram selecionadas 19 fotografias presentes nesta obra para o processo de comparação visual, sendo que duas referentes à povoação; seis de habitações presentes; três do património material, sendo que uma delas é do Forno do Povo, uma da corte do boi e a outra de um dos Moinhos; sete do Mosteiro; uma do património natural, mais especificamente, do planalto da Mourela. Esta metodologia de comparação visual, inspira-se no trabalho do fotógrafo Duarte Belo, que realizou um exercício de grande fôlego, na obra Portugal, Luz e Sombra. O País de Orlando Ribeiro, publicada pela primeira vez em 2012, em que compara fotografias do geógrafo com as suas próprias fotografias. Estabelecendo um diálogo entre dois observadores, duas paisagens e dois tempos. Ainda relativamente à parte empírica deste estudo, a interação informal com a comunidade e com os turistas foram também um método de análise que permitiu responder a algumas questões pertinentes que foram levantadas no decorrer da investigação. O facto de ter ficado alojado na casa de um habitante local, permitiu-me 3 também compreender alguns aspetos sociais e culturais da comunidade. Posteriormente foi elaborado um inquérito por questionário, respondido por 16 habitantes da comunidade local, no início do mês de setembro de 2019. Esta metodologia revelou-se extremamente crucial para uma compreensão definitiva de quais os agentes responsáveis pela modelação da paisagem atual de Pitões das Júnias. 4 CAPÍTULO IA GEOGRAFIA CULTURAL 1.1 A Nova Geografia Cultural A geografia cultural, uma das áreas mais entusiasmantes da geografia (McDowell, 1994), emergiu no início do século XX essencialmente como alternativa às teorias do determinismo ambiental (Peet, 1998) e de uma ampla diversidade dos géneros de vida e das paisagens (Claval, 1995). A geografia cultural da escola de Berkeley, caracterizada essencialmente pela sua componente antideterminista (Azevedo & Pimenta, 2006) e uma ligação profunda à ecologia cultural de Carl Sauer, nascida da revolução darwinista (Claval, 2014), manifestava interesse na paisagem como registo da atividade humana e não nos sistemas sociais através dos quais a agência humana se expressava (Jackson, 1989). Para Sauer, a paisagem cultural abrangia não só as construções humanas, mas também as espécies vegetais e animais difundidas pelos agricultores e criadores de gado (Claval, 2014). A partir da década de 70, a geografia cultural da escola de Berkeley começou a ser altamente questionada e criticada por um grupo de investigadores que se autoproclamaram como “novos geógrafos culturais”, uma vez que estes a consideravam meramente estática e demasiadamente focada em paisagens, na cultura material e na relação entre a sociedade e o meio natural (Price & Lewis, 1993). Estas críticas prendemse sobretudo a uma preocupação excessiva com a descrição geográfica e cartográfica. Uma perspetiva que se mostrava incompleta, por concentrar muito as suas atenções no mundo e na vida rural e no pré-industrial, bem como pelo facto dos seus padrões cartográficos não se relevarem efetivos num contexto económico, social, político e cultural (Duncan & Ley, 1993). Durante a década de 80, a geográfica cultural passou por diversas mudanças teóricas e metodológicas em consequência das recentes “cultural turns” nas ciências sociais e humanas que reconduziram a área a uma enorme notabilidade nos estudos da geografia humana anglo-americana (Duncan et al., 2004). O “cultural turn” estava inteiramente ligado a outras correntes do pensamentoao pós-colonialismo, ao pósmodernismo, à fenomenologia, ao construtivismo e à filosofia analítica, o que posteriormente acabou por se traduzir num declínio da corrente positivista e estruturalista (Lévy, 2015). A nova geografia questiona sobretudo qual o papel do espaço na vida de 5 cada indivíduo e no funcionamento da sociedade. Clarifica algumas das conceções que ligam o ser humano a natureza, tanto as que os levam a agrupar como a dispersar. (Claval, 1987b). Está focada essencialmente nas qualidades visuais da paisagem e nas representações da paisagem na literatura, arte, fotografia, etc. Estas representações podem também ser vistas e analisadas como expressões de poder cultural, económico e social (Wylie, 2007). O desenvolvimento da nova geografia cultural está na origem de duas fontes dissemelhantes: a primeira corresponde a Escola de Berkeley (Sarmento, 1999) que se desenvolveu nos Estados Unidos, onde as paisagens per se eram o centro de interesse dos geógrafos culturais, ao invés das práticas sociais (Sarmento, 2004). Embora o desenvolvimento da disciplina tenha acontecido mais recentemente no Reino Unido, este centrava-se essencialmente nos significados simbólicos, nas identidades e relações sociais (McDowell, 1994), com uma forte inspiração no trabalho do teórico marxista Raymond Williams e do Centro de Estudos Culturais de Birmingham (Scott, 2004). Durante os anos 80, o sociólogo, Stuart Hall, a par de outros investigadores do centro de Estudos Culturais da Universidade de Birmingham, deram continuidade ao trabalho desenvolvido por Raymond Williams, onde desenvolveram a sua própria marca de estudos culturais, enfatizando as lutas de classes (raça, género, sexualidade) (Duncan & Legg, 2004). Contrariamente a Raymond Williams, o sociólogo evidenciava também um grande interesse nos movimentos sociais (Claval, 2011). Os “cultural studies”, foram assim fundamentais no desenvolvimento da geografia cultural britânica, inteiramente ligados as autorrepresentações culturais do ocidente (Azevedo & Pimenta, 2006). A nova geografia cultural focou-se nas teorias dos humanistas e dos pensadores marxistas britânicos, levando desta forma a questionar o materialismo histórico e o estruturalismo (Cresswell, 2013). Em França, a renovação da disciplina foi feita de uma forma constante e continuada (Taillard, 1981; Claval, 1984 apud Claval, 2007) mantendo-se fiel ao conceito de cultura concebido pelo antropólogo Edward Tylor (Claval, 2011). Os geógrafos franceses não tinham o intuito de romper os estudos feitos na primeira metade do século XX, mas sim de os de desenvolver e assim incluí-los numa perspetiva mais global (Claval, 2007; Claval, 2011). As ideias de Carl Sauer foram fortemente influenciadas pela 6 antropologia Americana. Duncan (1980) critica Sauer e a Escola de Berkeley por definirem a cultura como um agente superorgânico. A transformação da geografia cultural é resultante da influência da geografia social e da teoria cultural (Jackson, 1989). A cultura pode ser representada como uma construção politicamente contestada (Cosgrove & Jackson, 1987). Para Cosgrove e Jackson (1987: 99) a cultura é “o meio pelo qual as pessoas transformam os fenómenos mundanos do mundo material num mundo de símbolos significantes aos quais dão significado e atribuem valor”. Don Mitchell (1995) defende que a cultura é ativa, simbólica e continuamente submetida por relações de poder. A cultura, como construção social clarifica o comportamento, as ações, a resistência e as formações sociais de uma forma que outras ciências não são capazes de o fazer (Mitchell, 1995). Posteriormente, Jackson (1996) reconhece que os novos geógrafos culturais deveriam estudar a cultura como uma ideologia e não como uma entidade ontológica. Contudo, o mesmo adverte que se os geógrafos culturais renunciarem ao mundo material a disciplina torna-se insuficiente (Jackson, 1996). Cosgrove (1996) alega que Don Mitchell ao se focar apenas na teorização de cultura, acaba por desvalorizar o trabalho monográfico. Para Cosgrove (1983), a cultura serve essencialmente para conectar dois aspetos essenciais do ser social: trabalho e consciência. A cultura é um tema fundamental na corrente humanista, sem uma definição clara e objetiva, somente compreendida através da prática (Cosgrove, 1983). Durante o século XXI, com o surgimento da teoria não-representacional na geografia humana, desenvolvida pelo geógrafo Nigel Thrift em 1996 (Crang, 2009), as práticas e as experiências ganharam uma imensa notabilidade na geografia (Anderson, 2009). A teoria não-representacional enfatiza o desempenho e a representação das identidades. Centra-se na junção do processo social e material na conceção de novas identidades em práticas e ações (Crang, 2009), o que fez com que os geógrafos descuidassem as interpretações relativamente ao papel dos processos mentais, linguagem e visão e começassem a centrar as suas pesquisas nas emoções, desempenho, interação, tecnologia e práticas espaciais (Söderström, 2005) no corpo e na sexualidade (Sarmento et al., 2009). A teoria não-representacional rejeita as tendências empíricas tradicionais das ciências sociais e humanas, pelas práticas do realismo e do positivismo (Vannini, 2015), é “uma máquina para multiplicar questões, e assim, investir em novas relações 7 entre o pensamento e a vida” (Thrift, 2014: 82) que vai para além do construtivismo (Thrift, 2008). A teoria não-representacional “tornou-se num termo genérico para trabalhos diversos que buscam melhor lidar com os nossos mundos multissensoriais, evidentemente mais que humanos, mais que textuais.” (Lorimer, 2005: 83). Existe claramente uma influência de conceitos e ideias da nova geografia cultural na teoria nãorepresentacional. A representação continua a ser relevante, a ordem social não é constante e os significados vão além de processos linguísticos (Anderson & Harrison, 2010). Segundo Cresswell (2013) questões relacionadas com as emoções, com os afetos e com o corpo, são centrais na geografia cultural, contudo, a teoria não-representacional afastou-nos da forma como as coisas são compartilhadas em relação aos afetos, emoções, expressões corporais, ao fugaz e ao transitório. Neste sentido, a perspetiva social perdeu uma certa relevância no seio da geografia cultural (Cresswell, 2010). O mesmo afirma que a teoria não-representacional foram desenvolvidas em oposição às representações da geografia (Cresswell, 2012). A abordagem da geografia não representacional desenvolveu-se em consequência da imprecisão da abordagem representacional, por esta se mostrar inconclusiva nas práticas da vida quotidiana e nos contextos políticos, éticos, culturais e económicos (Jones, 2011). A geografia cultural é atualmente um domínio muito mais amplo e abrangente. Reflete-se em questões de maior complexidade sobre processos sociais como a construção de diferentes culturas, formação de identidade, cidadania e pertença. Estes processos despertam a nossa compreensão para categorias geográficas essenciais (espaço, lugar, paisagem, ambiente, público e privado), agregando-se desta forma ao mundo material em transformação (Atkinson et al., 2005). Torna-se deste modo necessário que a geografia cultural se centre na atividade e no papel que os seres humanos desempenham em inúmeros e diversificados contextos na formação de significados culturais e nos afetos que se expressam e transformam o espaço, o lugar e a paisagem (Rose, 2016). 8 1.2 A Paisagem na Geografia No uso quotidiano, o termo “paisagem” é diariamente usado para fazer referência aos elementos presentes no solo: edifícios, ruas, fábricas, árvores, campos, espaços abertos, entre outros (Mitchell, 2005). A utilização do termo “landscape” data os finais do século XVI e início do século XVII, resultante da influência da arte da pintura (Amaral, 2001). A partir do século XIX, o conceito de paisagem estava também presente em outros domínios, como a música e as letras (Alves, 2001). A partir dos meados do século XX, o conceito de paisagem alcançou uma considerável importância dentro da geografia (Muir, 1998), sendo este considerado um dos temas fundamentais da geografia humana (Wylie, 2009), que pode ser compreendido como uma parte da superfície terrestre, como uma forma de ver e interpretar um determinado lugar (Till, 1999) e, ao mesmo tempo, como resultado das relações e produções sociais produzidas nesses mesmos lugares (Mitchell, 2005). A preocupação ecológica é também uma componente expressa no conceito de paisagem (Cauquelin, 2015). Orlando Ribeiro, o geógrafo português com a mais ampla projeção a nível internacional e considerado o renovador da geografia portuguesa no século XX, interpretou a paisagem como sendo “um espaço acessível à observação” (Ribeiro, 2001: 29), que para além dos factos visíveis, manifesta também outros factos que influenciam os primeiros: as condições meteorológicas, a produção e a circulação de uma grande diversidade de produtos e trocas comerciais resultantes de um contexto político e económico, que acabam por provocar mudanças no solo terrestre; os hábitos e práticas, influenciados pelo fluxo de ideias, acabam também por se refletir na paisagem alterando o comportamento da população (Ribeiro, 2001). Durante muito tempo a paisagem era interpretada apenas como uma combinação hierárquica de elementos físicos e simbólicos numa perspetiva meramente estética. Atualmente, perante uma mudança de paradigma, assistimos a concessões menos estáveis e irrefutáveis, com o intuito de compreender a paisagem num contexto mais complexo e enigmático (Linehan & Sarmento, 2006), pois esta mesma exige também uma maneira peculiar de pensar e criar ideias (Berque, 2013). A paisagem não se limita apenas a algo que vemos, é também uma forma de ver (Sarmento, 2015). 9 Durante a primeira metade do século XX, a geografia cultural da escola de Berkeley estava essencialmente interessada na forma como os artefactos materiais eram utilizados na paisagem (Anderson et al., 2003). A escola Saueriana estava interessada essencialmente no aspeto material e simbólico da paisagem, desenvolvendo assim o conceito de região cultural (Azevedo, 2007) “tendo observado amplamente e traçado diligentemente, ainda resta qualidade de entendimento num plano superior que não pode ser reduzido a processos formais” (Sauer, 1996: 311 apud Cresswell, 2013: 108). Mostrava um grande interesse na forma como a cultura se estendia pelas diferentes regiões, como alguns traços culturais modicavam outros e na relação entre a paisagem natural e a cultura (Winchester et al., 2003). Para Carl Sauer “a paisagem cultural não é composta somente pelo que foi construído pelos homens. Comporta as espécies animais ou vegetais introduzidas ou difundidas pelos agricultores ou criadores de gado” (Claval, 2014: 97). Desde a década de 1980 que se tem vindo a desenvolver de forma continuada o conceito de paisagem através de uma série de debates e trabalhos notáveis, constituindose assim como uma das principais temáticas da geografia cultural (Wylie, 2007; Sarmento, 2012). Nos últimos 30 anos, em consequência das “cultural turn” nas ciências sociais e na geografia, a forma de definir paisagem e o seu conceito foram alterados (Sarmento, 2015). Os estudos feitos sobre o conceito de paisagem e cultura, consideraram a paisagem como sendo uma construção social, uma forma peculiar de compor e dar sentido ao mundo externo (Cosgrove & Jackson, 1987). A nova geografia cultural analisa a forma como os diferentes grupos sociais se envolvem com a paisagem, de que modo as pessoas compõem o lugar e o espaço (Atkinson et al., 2005). A paisagem pode ser entendida como uma imagem cultural, uma forma visual de representar e simbolizar determinados ambientes. Isto não significa que a paisagem é imaterial, mas que é representada por uma grande diversidade de materiais e em diversas superfícies (Cosgrove & Daniels, 1988). A título de exemplo, Cosgrove & Daniels (1988) afirmam que apesar de um parque natural ser mais palpável, não quer dizer que seja mais real ou menos imaginário que um poema, ou uma pintura de uma paisagem. Durante a década de 1990, emerge a teorias não-representacional (Boyd, 2017) com importantes implicâncias na geografia não-representacional, nas performances, e na paisagem (Olwig, 2008). “A pesquisa sobre a paisagem sofreu recentemente um crescente 10 interesse em terno de noções de ‘efeito’, ‘emoção’, ‘personificação’, ‘desempenho´ e ‘prática’. Embora essas noções possam ser agrupadas de várias maneiras” (Waterton, 2013:66). O novo conceito de paisagem motivou uma nova série de debates num contexto cultural das relações entre o ser humano e o território, impulsionados por um inúmero conjunto de representações visuais e verbais (Azevedo, 2006). Algo notório no trabalho recente dos estudos da paisagem é o interesse pelas experiências táteis, em contradição à experiência visual, à experiência paisagística. A diversidade de estudos que tem surgido acerca do corpo e das suas experiências, transformam a paisagem de um objeto ou de um cenário longínquo dificilmente de ser estudado num meio material mais próximo e íntimo, permitindo assim uma maior envolvência e mais facilmente praticável (Wylie, 2007). A forma como os corpos humanos se movimentam no espaço, na presença de vários sentimentos diferentes, produzirá relações mais dinâmicas que constituem este mesmo espaço (Sarmento, 2017). 1.3 A Representação da Paisagem na Fotografia Durante o século XVIII, a imagem em movimento foi um importante contributo para a modernização da visão através da invenção da câmara obscura (uma câmara escura cujas imagens dos objetos externos eram projetadas na tela através de uma lente convexa), o que veio depois a contribuir para a propagação da fotografia na década de 1830 (Peckham, 2004). A fotografia está presente na geografia desde há muito tempo, tendo esta ganho uma grande importância na disciplina durante o século XX, servindo de complemento aos mapas desenhados à mão e aos esboços (Driver, 2003; Sidaway, 2002) e também como método de registo ou anotações, na prática do trabalho de campo (Fernandes, 2016). A tecnologia permitiu o desenvolvimento de novas formas de experienciar o espaço. A fotografia, cujo desenvolvimento foi o mais significativo, estava inteiramente ligada à criação de cenários, panoramas e dioramas em movimento (Cosgrove, 2003). Atualmente, alguns geógrafos, em vez de usarem as fotografias como meras ilustrações descritivas que somente expõem o aspeto de um determinado local, refletem antes sobre que formas as fotografias podem ser atores ativos na conceção de múltiplos tipos de conhecimento geográfico. Por outras palavras, em vez de olharem para as fotografias como algo que permite analisar lugares que de outra forma não poderiam ser vistos, olha-se para as fotografias de uma forma mais profunda. E para outros, importa 17 Figura 1Mapa 1O Relevo do Território Português. Fonte: Ribeiro (2011:215) Daveau (1990) defende para além da definição estrutural das cadeias montanhosas, são de uma enorme relevância os aspetos fisionómicos para o conceito geográfico. Sob uma perspetiva fisionómica, uma região é considerada montanhosa a partir do momento a que determinadas altitudes se associam múltiplas e acentuadas formas de maneira que as diferenciações verticais da paisagem sejam mais significativas que as variações horizontais em consequência de fatores como a continentalidade e a latitude. Há diversos fatores para definir e compreender as regiões montanhosas. Contudo, a mesma não se define apenas pelas suas características geomorfológicas e físicas 18 mencionadas anteriormente. A montanha compreende-se também como um espaço social, consequente das relações sociais e culturais da sociedade. Em virtude das vantagens e desvantagens resultantes das características geográficas das montanhas, estas são alvo dos mais variados tipos de interesse, entre eles, a atividade turística (Lacoste, 2005). 2.2 O Turismo em Território de Montanha Tanto no mundo académico como em organizações nacionais e internacionais foram adotadas várias abordagens na definição de turismo e embora existam várias definições, a natureza diversificada do fenómeno turístico dificulta todo o processo de definição (Gross & Klemmer, 2014). Para De La Torre (1995 apud Almeida et al., 2016) o turismo é um fenómeno social que se traduz no movimento provisório e voluntário, tanto de indivíduos ou grupos de pessoas que, principalmente por motivos de recreação, de saúde ou culturais, saem do seu local de residência para um outro local em que não exercem nenhuma atividade profissional, gerando assim inúmeras inter-relações de valores económicos, sociais e culturais. Em 1994 a Organização Mundial do Turismo (1994:5) definiu turismo como compreendendo “todas as atividades das pessoas que viajam e ficam em lugares fora do ambiente habitual por um período inferior a um ano, para atividades de lazer, negócios e outros fins”. Tal como o recreio, o turismo origina várias atividades produtivas que se destinam a satisfazer as necessidades de quem se desloca e consequentemente, cria um mercado. Estas atividades, que muitas das vezes se identificam com as de recreio, são bastante diferentes. O turismo requer um alojamento apropriado, enquanto que o recreio não (Cunha & Abrantes, 2019). Para Cunha (2012: 111) “o turismo é o conjunto de atividades lícitas desenvolvidas por visitantes em razão das suas deslocações, as atrações e os meios que as originam, as facilidades criadas para satisfazer as suas necessidades e os fenómenos e relações resultantes de umas e de outras”. Para Smith (1989) o facto de os que viajam por motivos profissionais e os que viajam por motivos mais convencionais conseguirem interligar conferências com as típicas atividades turísticas, dificulta o encontro de uma definição exata do que é o turismo. Contudo, é possível encontrar uma definição mais precisa de turista. Este define 19 turista como uma pessoa que se encontra de forma temporária de férias, fora da sua área de habitação, com o intuito de experimentar algo que fuja dos padrões do seu quotidiano, derivado das mais variadas motivações. Um individuo pode ser designado turista quando este passa uma determinada altura de tempo a visitar novos locais, longe da sua zona habitacional, onde procura essencialmente por novas experiências (Herbert, 1995). É notável o aumento do número de turistas que tem ocorrido ao longo dos anos. Em consequência disto, o turismo assume assim uma forte influência no desenvolvimento do território. De acordo com dados da UNWTO (2019) em 2018 viajaram cerca de 1.4 biliões de pessoas, o que gerou cerca de 1.7 triliões de dólares. O turismo assume um papel imprescindível para a economia a uma escala global, em especial para territórios com maior potencial turístico. Este impulsiona a criação de mais e melhores empregos, uma reestruturação e melhoria dos equipamentos, o que traduz numa melhor qualidade de vida. É imprescindível trabalhar em prol da qualidade e sustentabilidade das regiões onde se regista um maior crescimento da atividade (UNWTO, 2019). O turismo em território de montanha é uma parte importante do turismo a nível global muito em consequência de um idealismo romântico que os indivíduos atribuem a este tipo de território (Upadhayaya, 2015). Este tipo de território, pode ser idealizado não só numa perspetiva ambiental e natural, mas também cultural, considerando que aqui prevalecem valores que já são mais difíceis encontrar em ambientes industriais e urbanos, o que contribui para a prática da atividade nas mais diversas tipologias de turismo (Cunha, 2003). O território de montanha, apresenta um elevado índice de procura turística. Estas representam cerca de 15% a 20% do turismo global, sendo apenas ultrapassadas pelas regiões costeiras e ilhas (UNEP, 2007) e estima-se que mais de 50 milhões de pessoas visitem as montanhas anualmente (FAO, 2005). Os produtos turísticos relacionados com a natureza passaram a registar um elevado crescimento, sendo uma das tipologias do turismo que têm registado uma maior taxa de crescimento a nível mundial (UNWTO, 2016). Independentemente das razões que possam motivar os turistas a procurar este tipo de territórios, as montanhas tornaram-se num destino turístico com uma elevada procura. O turismo é uma atividade com grande taxa de êxito nas montanhas devido ao facto de esta oferecer condições únicas para o desenvolvimento da atividade. Isto deriva essencialmente do facto deste tipo de território ser rico em elementos naturais, tais como 20 a paisagem montanhosa, a neve, glaciares, desfiladeiros e picos elevados. Devido a sua grande diversidade e beleza, os turistas usufruem de excelentes condições para a prática de atividades radicais como alpinismo, escalada, esqui, parapente, canoagem, etc. (Panov et al., 2013). O turismo tem um grande potencial de desenvolvimento económico para uma grande parte das comunidades de montanha de todo o mundo, contudo, não para todas. Grande parte das regiões de montanha, é percetível as limitações das comunidades em gerar um valor de receitas notável. Atividades como a agricultura, pecuária e silvicultura são primordiais para a economia local. Porém, as condições climáticas, a baixa competitividade de mercado e problemas do solo são causas que levam as comunidades locais a procurar outros meios de subsistência, como a atividade turística (Debarbieux et al., 2014). Este é um tipo de território muito peculiar pelas suas características diferenciadoras e que o tornam num local dificilmente acessível devido a fatores como a altitude, a distância e faltas de meios de informação e comunicação, o que faz com que estes locais se tornem mais apetecíveis na perceção dos turistas. As diversidades biológicas e culturais são características únicas das montanhas, estas regiões são centros de uma grande diversidade cultural, muito em consequência do isolamento e afastamento dos grandes centros urbanos (Price, 2004). As montanhas atraem uma grande variedade de turistas, todos eles com motivações diferentes e atividades a realizar em locais distintos (Buckley et al., 2000). As montanhas atraem turistas que desejam experienciar ambientes mais naturais, turistas que procuram conhecer mais da vida selvagem e turistas que vão em busca de novos desafios com um determinado nível de risco (Pickering & Barros, 2013) e uns simplesmente procuram a vida ao ar livre, apreciar as paisagens deslumbrantes, vivenciar com as comunidades locais, e prática de atividades desportivas mais radicais (UNEP, 2007). Apesar de tudo, atividades de aventura como o alpinismo não são compreendidas por grande maioria das pessoas que não as pratica, pois é vista como uma atividade perigosa comparativamente a outras atividades mais triviais (Krakauer, 2011). Devido ao aumento exponencial da atividade turística, a consciência ambiental tornou-se desta forma eminente. A partir de 1980, começaram a surgir grandes mudanças em relação a esta temática. Países, províncias, comunidades ganharam uma maior consciência ambiental, começando desta forma a realizar conferências sobre o nível 21 mundial a fim de serem discutidos os impactes do turismo no meio ambiente (Edgell, 2006). A partir dos finais dos anos 80, a sustentabilidade começou a ganhar popularidade como uma forma de desenvolvimento ambiental no setor do turismo (Batta, 2000). 2.3 Impactes do Turismo e Sustentabilidade nas Montanhas Em 1983, as Nações Unidas criaram a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento com o objetivo de desenvolver uma agenda global com o intuito de esta se focar nas grandes questões sobre o meio-ambiente, sob a liderança de Gro Harlem Brundtland, ex-primeiro-ministro Norueguês juntamente com mais 23 especialistas (Morin et al., 2020). Contudo, só em 1987, no novo relatório intitulado “O Nosso Futuro Comum” da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento é que foi possível definir de uma forma mais sucinta o conceito de Desenvolvimento Sustentável “é o desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer as capacidades das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades” (WCED, 1987: 37), com a convicção de que a equidade social, a proteção ambiental e o desenvolvimento económico são os grandes princípios que garantem o desenvolvimento sustentável. No ano de 1992, na cidade do Rio de Janeiro, as Nações Unidas organizaram uma conferência para debater questões sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Foi aqui constituída a “Agenda 21”. O capítulo 13 da Agenda “Gestão de ecossistemas frágeis: desenvolvimento sustentável das montanhas” foi um marco importante para melhor compreender as regiões montanhosas, este reconhece a importância que se deve dar aos recursos naturais deste tipo de territórios, em especial à água e à biodiversidade (Mountain Agenda, 1999). A partir dos anos 80 a indústria do turismo começou a interessar-se com as questões ligadas ao meio ambiente e a ideia de turismo sustentável (Swarbrooke, 1999). Turismo sustentável foi assim definido pela WTO e UNEP (2005: 12) como “Turismo que tem plena consciência dos seus impactos económicos, sociais e ambientais tanto atualmente como no futuro, atendendo às necessidades dos visitantes, da indústria e das comunidades recetoras”. Para fazer do turismo uma atividade sustentável é imprescindível ter em consideração este tipo de impactos e necessidades. É um procedimento que requer uma constante continuidade de evolução, tanto para áreas 22 urbanas, áreas rurais, zonas costeiras, regiões de montanha e áreas protegidas devendo ser aplicado a qualquer tipologia de turismo (UNEP & WTO, 2005). A UNTWO acrescenta ainda a este conceito, a utilização dos recursos ambientais para o desenvolvimento da atividade turística, de uma forma ética, em que prevaleça a conservação da fauna e flora; o respeito e a preservação dos valores socioculturais das comunidades anfitriãs; a garantia de operações económicas que sejam benéficas para todas as partes envolvidas de forma a contribuir para diminuição da pobreza (UNTWO, 2013). Os impactos do turismo ocorrem principalmente no contexto social, cultural ambiental e económico (Williams & Lew, 2015) e sendo esta uma atividade complexa e multidimensional, pode causar impactos positivos e negativos (Tsiftelidou & Christodoulou, 2019), tornando-se assim desejável que as consequências negativas e positivas da atividade sejam analisadas antes do seu desenvolvimento, de forma a que os efeitos indesejáveis possam ser evitados e os efeitos desejáveis sejam otimizados (Wall, 1999). Na opinião de Bramwell e Lane (2012: 3) “turismo sustentável pode ser considerado basicamente como a aplicação da ideia de desenvolvimento sustentável para o setor do turismo”. Toda a atividade turística é responsável por causar impactos que se multiplicam pelo sistema, tanto no espaço, como no tempo (Bosak & McCool, 2019), contudo estes impactos podem ser positivos ou negativos, tornando-se assim necessário realçar o facto de que a atividade turística gera imensas mudanças e transformações, algo que muitas das vezes é negado quando se fala em turismo sustentável (Bosak, 2015). Relativamente ao meio ambiente, Buckley, Pickering e Warnken (2000) atribuem às estâncias de esqui uma grande importância para o desenvolvimento da atividade turística nas regiões de montanha, contudo, referem ainda que estas trazem grandes custos financeiros e causam impactos inevitáveis no meio ambiente. Swarbrooke (1999) defende ainda que a construção deste tipo de empreendimentos pode gerar problemas graves no solo, tornando-se desta forma essencial que a construção destes fosse mais restrita e ecológica. As mudanças climáticas ditam muitas das vezes os padrões sazonais da atividade turística (Beniston, 2003), ou seja, a meteorologia é um fator decisivo na hora de escolher uma atividade ou um destino turístico. Por exemplo, turismo alpino durante o inverno é procurado essencialmente para a prática de atividades como o snowboard, ski, visitas 23 guiadas, tours, etc., enquanto que durante o verão os turistas estão mais interessados em atividades como a pesca, o golfe, BTT, passeios a cavalo, acampamentos, passeios de carro ou off-road, etc. (Buckley et al., 2000). Contudo, na época de verão, podem surgir vários constrangimentos causados pelo grande número de visitantes, como é o caso do congestionamento de estradas, superlotação em locais turísticos e até a erosão de solos causada pelas atividades como o BTT (Bramwell & Sharman, 2000). O lixo é também uma grande preocupação. Neste tipo de territórios a forma como o lixo é descartado pode causar sérias consequências no ambiente natural, nos rios e nas estradas (Malviya, 2005). No território de montanha, há uma grande produção de lixo provocada pelos praticantes de atividades como o trekking, pois estes deixam imenso lixo, incluindo equipamento, provocando assim a degradação do meio ambiente (Singh, 2008). Apesar das regiões de montanha desempenharem um papel fundamental nos ecossistemas, este tipo territórios são caracterizados pelas suas fragilidades e são altamente suscetíveis a perturbações devido as suas características biológicas e culturais, com uma baixa e lenta capacidade de recuperação (Batta, 2000), porém, a atividade turística pode ter um papel favorável nestas situações, visto que esta pode ser alterada a partir de uma causa de degradação ambiental para uma fonte de restauração ambiental (Godde et al., 2000). É importante que haja plena consciência das consequências da atividade turística no meio ambiente, sendo desta forma crucial uma cooperação transparente entre as entidades empreendedoras e as entidades públicas responsáveis pela gestão e planeamento do turismo de forma ética e consciente para que assim seja assegurado o uso correto e sustentável dos recursos naturais. As relações entre o turismo e o meio ambiente são tão fundamentais como completas devido a forte dependência que existe entre os dois, que por vezes é descrita como “simbiótica”. Por outras palavras, como a atividade turística beneficia dos bons ambientes em que se insere, esses mesmos ambientes também devem beneficiar de medidas de proteção e valorização (Williams, 2003). A vertente económica da atividade turística tem tido um papel central para os indivíduos que procuram melhorar e desenvolver as condições económicas das comunidades inseridas nos territórios de montanha, incluindo as populações mais pobres e marginalizadas (Ives, 1997 apud Godde et al., 2000). O facto deste tipo de território ser 24 caracterizado pela fraca acessibilidade, falta de infraestruturas e até sofrer uma certa negligência pelo próprio estado, é um entrave para o desenvolvimento da atividade turística. O desenvolvimento da atividade turística neste tipo de regiões é muito dependente de fatores como a segurança, a atratividade do destino, disponibilidade de capital e o profissionalismo das empresas e alojamentos turísticos, porém, grande parte das vezes não existe capital para que sejam criadas as condições que vão ao encontro das necessidades e agrado dos visitantes (Debarbieux et al., 2014). Segundo Fletcher (2005), se o turismo se desenvolver rapidamente, a mudança que acompanha a economia desenvolveria uma nota estruturação de poder. Em contrapartida, se o desenvolvimento for lento, o que a acontece com grande maioria das pequenas empresas, as mudanças não seriam tão expressivas. A agricultura nos territórios de montanha não só é a principal forma de subsistência da comunidade como também representa uma forma primária do uso de recursos naturais neste tipo de territórios, tanto em países em desenvolvimento como desenvolvidos (FAO, 2019). O turismo possibilitou aos agricultores formas de sustentação adicionais, novas oportunidades de carreira e ainda criou mercados para os produtos tradicionais da região (Mountain Agenda, 1999). Swarbrooke (1999) acrescenta ainda que o turismo pode ser uma mais-valia para o rendimento dos agricultores através da organização de visitas guiadas pelas quintas e oferta de alojamento e refeições. O Desenvolvimento das práticas agrícolas pode também ser importante para o turismo, pois este garante um uso mais equilibrado dos recursos naturais, produtos com melhor qualidade, o que faz com que promova o comércio e atividades como o ecoturismo (FAO, 2011). Straaten (2000) realça ainda que a combinação entre uma agricultura tradicional e um turismo mais sustentável não é bem-sucedido por si só, pois a agricultura tradicional apesar de aumentar a taxa de empregabilidade, os produtos agrícolas acabam por se tornar mais caros. O segredo está essencialmente em assegurar uma boa estratégia de marketing. A região de montanha é cada vez mais procurada para a prática de atividades de lazer e ao ar livre, muito em consequência do valor paisagístico, ambiental e modos de vida tradicionais que a caracterizam, o que provoca uma significativa valorização da atividade turística, assumindo assim um significado económico considerável para o desenvolvimento local (Cunha, 2003). 25 A gestão e planeamento das atividades económicas são feitas de uma forma pouco sustentável nas regiões de montanha, o que faz com que a comunidade viva em ambientes altamente poluídos e degradados. As diferenças culturais podem gerar um conflito entre a comunidade e as autoridades locais. É necessário a implementação de medidas e políticas financeiras pelos governos e pela indústria do turismo, só assim são assegurados benefícios económicos da atividade. O turismo tem também uma grande implicação no contexto social e cultural dos destinos turísticos. Este tipo de impactos está inteiramente ligado à forma como o turismo e as viagens alteram os sistemas individuais e coletivos, nas estruturas da comunidade, no comportamento, no estilo e na qualidade de vida (Hall & Lew, 2009). Os impactos que o turismo causa no contexto social e cultural são bastante reais. Estes incluem sobretudo a destruição das estruturas sociais tradicionais em consequência do grande fluxo de turistas (Cochrane, 2000), sendo que a velocidade e a concentração do desenvolvimento da atividade turística influência a magnitude e a direção dos impactos sociais (Fletcher 2005), contudo, os impactos socioculturais são de uma forma muito modesta avaliados pelos especialistas, muito pelo facto de grande maioria das crenças ou práticas sociais e culturais estarem menos predispostas à observação direta e as formas tradicionais de investigação (Williams, 2003). Swarbrooke (1999) afirma que há uma grande atenção nos impactos negativos. Contudo, o mesmo afirma que é importante também olhar para os impactos positivos que a atividade tem no contexto social e cultural. Grande maioria destes impactos, tanto positivos como negativos, refletem-se sobretudo no património, na língua, religião, artes e modos de vida tradicionais, nos valores e comportamentos dos indivíduos. Mas nem todos os efeitos do turismo são negativos no contexto cultural. Para Hall & Lew (2009), um dos grandes benefícios da atividade turística neste contexto é a conservação das artes tradicionais (artesanato, música, etc.). Os turistas procuram sempre experienciar práticas e modos de vida tradicionais da comunidade local. Derivado a isto, procuram através de representações simbólicas, guardar consigo o que vivenciaram no destino turístico, nomeadamente, através de acessórios de arte, roupas, fotografias, postais e objetos de adorno. Segundo Godde et al. (2000), um dos elementos mais caracterizadores de uma cultura, é o património construído, estes podem ser destruídos em consequência da demolição de edifícios, pelo uso de técnicas de construção mais simples e práticas ou 26 simplesmente pela adoção de diferentes formas e funções estruturais. A nível global, um grande número de comunidades conseguiu preservar o seu património histórico e cultural através das receitas geradas pela atividade turística. O património cultural assume uma grande importância no turismo, pois ajuda a manter o desenvolvimento da atividade sem que se perca a identidade e as tradições locais. O próspero desenvolvimento do turismo espelha a distinção das pessoas e da cultura material e dos eventos importantes para o estilo de vida e a história da comunidade (Hall & Lew, 2009). A relação entre turismo e cultura não são limitadas, cingem-se também nos impactos socioculturais que resultantes na relação entre os visitantes e a comunidade local. Na perspetiva geográfica, o nível e tipo de impactos varia consoante a região (Williams, 2003). “Nenhuma cultura é estática” (Godde et al., 2000: 13), isto é, as sociedades e os lugares convertem-se e adaptam-se consoante as circunstâncias que vivenciam. Algumas das particularidades que caracterizam uma sociedade, podem ser alteradas por influência do turismo. Ainda que a sustentabilidade possa ser vista de uma forma utópica, é crucial perceber o quão importante é para o desenvolvimento dos territórios de montanha. A atividade turística é benéfica essencialmente para a comunidade e para o próprio ecossistema. A sustentabilidade do turismo é mais bem-sucedida quando a comunidade local usa a atividade em benefício próprio, para fortalecer os laços sociais e a sua identidade. A valorização das práticas e paisagens tradicionais pode ser algo bastante benéfico também para a economia da comunidade. Contudo, isto deve ser planeado prudentemente, a fim de evitar um excesso de mercantilização dos bens culturais (Debarbieux et al., 2014). Para além disto, pode ter outras contribuições benéficas como a diminuição da pobreza e a promoção da paz. Para que tal aconteça, deve sempre preservar e respeitar o meio ambiente e colocar toda a sua atenção em prol do desenvolvimento da comunidade local. Para que isto aconteça, é também importante que os governos de territórios assumam a responsabilidade para que o turismo prospere de forma sustentável (Honey & Gilpin, 2009). 33 Gonçalves, 2014), mediterrânica e continental (Reis, 1991). A temperatura média anual é de cerca de 13ºC. As temperaturas mais elevadas registam-se entre os meses de julho e setembro, enquanto que as mais baixas se fazem sentir no período de inverno, entre dezembro e fevereiro (ICNF, 2019). Por isto, o PNPG dispõe de uma variedade única de flora comparativamente a outras regiões do país, desta forma, pode ser visto dentro do parque uma multiplicidade de espécies de botânica. No Parque Nacional Peneda-Gerês, o coberto vegetal das serras e áreas de planalto é constituído essencialmente por lameiros, matos, e vegetação ribeirinha (Serra & Carvalho, 1989). Segundo Macedo e Tiago (1955), a diversidade botânica do parque é caracterizada pelas suas diferentes altitudes. Até 800 metros de altitude, o parque é dominado essencialmente por carvalhos. O carvalho-roble (Quercus Robur) é predominante até aos 800 metros, enquanto que entre os 800 e 1200 metros é o carvalho-negral (quercus pyrenaica). As espécies mais importantes nestas duas camadas são a negrela (erica), a giesta (cytisus sciparius), a hera (hédera hélix), o medronheiro (arbutus unedo) e o azevinho (ilex aquifolium). Acima dos 1200 metros, o parque é composto por arbustos e algumas árvores, juntamente com bétulas ou vidoeiros (betula pubescens). Há outras espécies que podem também ser vistas nesta altitude, como é o caso da caldoneira (echinospartum lusitanicum), o junípero (juniperus communis) e a jasione crispa. O teixo (taxus baccata), o sobreiro (quercus suber), o pinheiro-silvestre (pinus sylvestris) e o azereiro (prunus lusitânica) também são muto comuns no PNPG. Marcado por uma grande variedade de habitats naturais, o Parque Nacional Peneda-Gerês é detentor de uma fauna diversificada, estando identificadas cerca de 235 espécies de vertebrados identificados. Contudo, existem espécies em perigo de extinção. Destas 235, 161 são aves, 40 mamíferos, 11 peixes, 20 répteis e 13 anfíbios, sendo que 53 pertencem à lista de espécies ameaçadas identificadas no Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal (ICNF, 2013). Estão também identificadas 15 espécies de Quirópteros (morcegos), sendo que 3 estão em vias de extinção (Rainho et al., 1998). Apesar da grande variedade de espécies, há algumas em que se concentra mais destaque, como é o caso do lobo-ibérico (canis lupus), o maior predador da fauna do território português, sendo também uma das espécies mais ameaçadas do país (Costa, 2015). Atualmente, o lobo encontra-se unicamente nas serras mais altas do Norte e Centro do país, sendo estas caracterizadas por serem áreas com pouca densidade populacional e com 34 uma importante atividade no setor da agropecuária, o que torna o PNPG um dos três principais núcleos de lupinos em território nacional (Álvares, 2006). O Corço (Capreolus capreolus) é o cervídeo mais abundante no continente europeu e encontra-se também em território português, no parque nacional Peneda-Gerês (Torres et al., 2015). A cabramontês está presente essencialmente nos picos mais montanhosos, onde o contacto com o homem é raro. Em 1890 a cabra foi considerada extinta nesta região. Um século depois, regressam a este mítico território, provenientes da Galiza (Berg, 2017). O Garrano (Equus caballus celticus), proposto recentemente como parte do património nacional de Portugal, é um pequeno cavalo de origem Portuguesa, criado em ambientes e condições semisselvagens, que vive livremente nas montanhas do PNPG. Antigamente, estes cavalos eram usados como meio de transporte, mas o seu uso diminuiu drasticamente. Atualmente, são usados para atividades de lazer e ao ar livre (Santos & Ferreira, 2012). No que diz respeito à paisagem humanizada, encontra-se no fundo dos vales, um espaço agrícola retalhado de cor verdejante ou acastanhada, refletindo-se assim o ritmo das culturas agrícolas ao longo de todo o ano. Subindo as encostas, revelam-se as bouças e matos que garantem a lenha, da mesma maneira que asseguram o pasto e o material para a cama do gado. Nas zonas de maior elevação, situam-se as grandes extensões designadas ao pastoreio extensivo. Os núcleos populacionais habitam em áreas mais planas, com uma agradável exposição solar e junto das linhas de água. As construções elevam-se sobre os afloramentos rochosos, dando assim origem a solos mais férteis para as atividades agrícolas. O embelezamento da paisagem pelo edificado é visível através de levadas, pontões, muros, espigueiros, moinhos, fojos, abrigos de pastor ou alminhas. Atualmente, reúnem-se à paisagem milenar grandes planos de água resultantes das albufeiras de barragens ou elementos lineares como é exemplo das novas estradas (ICNF, 2013). O turismo de natureza e o ecoturismo são consideradas as tipologias de turismo com maiores níveis de crescimento, em especial nas áreas protegidas do continente Europeu, pelo seu valor cultural e natural. O Parque Nacional Peneda-Gerês é um exemplo disso mesmo. 35 3.2 Enquadramento Geográfico de Pitões das Júnias “No Alto Barroso e no rebordo noroeste do planalto da Mourela, lá onde este acaba e começa o imenso, perturbante e agressivo Gerês, a meio de uma encosta sul, que a erosão abriu, e subindo até ao topo, a mais de 1000 metros de altitude, é que está implantada a povoação de Pitões” (Guerreiro, 2016: 15) Pitões das Júnias é uma aldeia e freguesia do concelho de Montalegre, situada no norte de Portugal, em Trás-os-Montes, não muito afastada da fronteira com o Minho, ou seja, do distrito de Braga. É uma aldeia de montanha, com um único núcleo, situando-se a cerca de 1100 metros de altitude, sendo assim uma das aldeias mais altas do país, juntamente com Castro Laboreiro (concelho de Melgaço), Gralheira (concelho de Cinfães) e Sabugueiro (concelho da Guarda), entre outras. Figura 4Mapa de Localização de Pitões das Júnias. Fonte: Guerreiro (2016: 13) 36 A aldeia insere-se nas serras da Peneda-Gerês, e nas Terras do Alto Barroso. Tal como Guerreiro (2016) refere, Pitões das Júnias localiza-se entre o Planalto da Mourela e o início das serras do Gerês. O primeiro apresenta formas onduladas e suaves, enquanto o segundo apresenta formas mais vigorosas. Este espaço é ocupado há muito, podendo no planalto da Mourela ser encontrados vestígios megalíticos (V milénio A.C.), povoados da Idade do Ferro (I milénio A.C.), não estando identificados vestígios da romanização (depois de 173 a.c.) (Jorge, 1999). A partir da Idade Média reconhecem-se transformações significativas na paisagem, sendo uma das marcas principais, o mosteiro de Santa Maria das Júnias, construído no século XII. Este albergava uma comunidade beneditina, que abraçou mais tarde a ordem de Cister que aqui procurava um local extremamente isolado e rural. Contrariamente às serras da Peneda e Soajo, onde se identifica uma forma de ocupação do território desdobrado em brandas (povoamento de verão) e inverneiras (povoamento de inverno), no Gerês o povoamento é fixo. O gado circula entre a povoação e os currais (ou prados), estes sim, localizados a maior altitude na serra, e dispersos. Em Pitões das Júnias, o gado circula entre a aldeia e as áreas de pastagem e currais de altitude, podendo aí pernoitar nos meses de verão. 37 3.3 Evolução da População Tabela 2Evolução da População Residente na Freguesia de Pitões das Júnias entre 1864 e 2011. Fonte: INE (várias datas) Desde que há registo, a população da freguesia sofreu um decréscimo considerável no número de habitantes. Entre o ano de 1864 e 1878 houve um pequeno decréscimo de cerca de 2,25% (17 habitantes). Contudo, a partir de 1878 houve um aumento considerável até ao ano de 1900 em que se registou um aumento de 83 pessoas (15%). A partir de 1900 até 1930 registou-se um decréscimo constante, de cerca de 16% (85 habitantes). O único crescimento populacional do século XX é datado entre o ano de 1930 e 1950, onde se regista um aumento de 33 habitantes (7%). Em grande parte, nos concelhos do interior, o máximo de população foi registado pelo censo do ano 1950 (Daveau, 1995). Em Pitões das Júnias, verifica-se a mesma situação. Desde o início do século XX, que 1950 é o ano com maior taxa de população e 3 vezes maior que a densidade populacional atual. Segundo Daveau (1995), o decréscimo da população no interior do país é consequente da fuga generalizada ao campo. Primeiramente, a grande maioria dos jovens começou por procurar trabalho na sede de concelho, antes de decidirem partir para outros locais, desde o litoral do país, até outros países da Europa. Em 1950, grande maioria da população ativa dedicava-se essencialmente ao sector Ano População Residente HM 1864 488 1878 471 1890 511 1900 554 1911 516 1920 475 1930 468 1940 485 1950 501 1960 375 1970 292 1981 238 1991 226 2001 201 2011 161 38 primário, nomeadamente, à agricultura, salvo exceções, como é o caso dos dois grandes centros urbanos do país, Lisboa e Porto. Ribeiro (2011), argumenta ainda que uma das causas consideráveis no deslocamento da população são também os contrastes naturais, sendo alguns deles de caráter efémero como é o caso das migrações regulares entre territórios com uma economia bastante abundante e deambulações oriundas da pastorícia. O povoamento das áreas meridionais com gente proveniente do Norte do país, é também uma causa, contudo, de cariz definitivo. Relativamente à região em estudo, apesar de 1950 ser o ano com o maior número de habitantes, é também a partir de aqui, que se regista um decréscimo populacional constante até aos dias de hoje. De 1950 para 1960 regista-se uma queda de cerca de 25%, o equivalente a 126 habitantes. Em 1960, 22% da população Portuguesa concentrava-se nos distritos do interior do País, entre Vila Real e Beja, enquanto que atualmente, apenas 11% aqui reside, sendo que grande maioria desta população é envelhecida (Daveau, 2016). Segundo Guerreiro (2016), a partir de 1950, regista-se um decréscimo populacional acentuado até ao fim dos anos 70, muito em consequência da emigração. O autor argumenta ainda que a emigração se dava em consequência das más épocas agrícolas, que muitas das vezes levava a carências alimentares e a fome. Lautensach (1989a) defende ainda que uma das grandes causas da emigração era também o desequilíbrio entre o aumento da população e os recursos disponíveis. Segundo o autor, a grande maioria dos portugueses que emigravam, seguiam para países como o Brasil, onde a agricultura era bastante favorável. Em Pitões das Júnias, entre 1951 e 1960, 109 habitantes (22,7% da população em 1950) foram à procura de melhores condições de vida nesse país (Gusmão apud guerreiro, 2016). Os polos de maior atração para os emigrantes portugueses foram sem sombra de dúvidas o continente sulamericano (especialmente o Brasil) e depois da segunda grande guerra, os países industrializados da Europa, nomeadamente a França (Serrão, 1985), a Alemanha e a Suíça. Contudo, tudo era feito de forma clandestina em consequência do regime salazarista (Guerreiro, 2016). A migração também é um fenómeno bastante considerável no território português derivado essencialmente dos contrastes naturais do território. Migrações temporárias de trabalhadores para regiões onde a economia é diversa em diferentes épocas do ano (como é o caso da vindima ou da ceifa) e migrações definitivas, em que grande maioria são indivíduos que abandonaram o meio rural e fixaram-se nas cidades (Ribeiro, 1989a & 2011). Muitos habitantes de Pitões das Júnias migraram para a capital à procura de 39 melhores condições, numa altura em que o desenvolvimento industrial e comercial se fazia sentir na grande cidade (Guerreiro, 2016). Depois de instaurada a democracia em 1974, registou-se uma quebra na emigração portuguesa. Segundo Daveau (2016), na obra do geógrafo Bodo Freund intitulada de “Estudos da Geografia Agrária e do Povoamento na Terra do Barroso, No Norte de Portugal” o autor tentou determinar o tipo de efeitos que a emigração podia provocar. Mesmo no fim do período de emigração, continua a sentir-se um decréscimo na população, em consequência da diminuição da proporção de mulheres jovens. Apesar de o número das habitações ter aumentado, a taxa de ocupação não é correspondente. Também se registaram alterações na estrutura agrária. Não houve alargamento das explorações por duas razões: os proprietários que viviam no estrangeiro não tencionavam vender nem arrendar as propriedades; o facto de a grande maioria dos proprietários ser reformado, faz com que produza apenas para consumo próprio. Os mais novos já não equacionam sequer a possibilidade de trabalhar no meio rural, para eles o futuro encontra-se em outros territórios (Daveau, 2016). A população rural transmontana é pouco mais de metade do que era no século passado. Restam apenas os mais velhos, o que torna muito visível o abandono dos campos (Mattoso et al., 2010). 3.4 Caracterização da Economia Como referido anteriormente, existem 161 pessoas na freguesia de Pitões das Júnias. Destes 161, cerca de 67 estão a exercer atividade profissional remunerada, ou seja cerca de 42% da população, menos de metade. População Empregada por sector de atividade na Freguesia de Pitões das Júnias Setor de Atividade Económica Primário Secundário Terciário 38 10 19 Tabela 3População Empregada por sector de atividade na Freguesia de Pitões das Júnias. Fonte: INE (2012b). 40 Relativamente ao setor de atividade, como se pode comprovar pela tabela 3, dos 67 habitantes que exercem atividade profissional, mais de metade trabalha no setor primário (cerca de 38 indivíduos), ou seja, dedicam-se sobretudo à pecuária e à agricultura. No setor secundário há 10 pessoas a exercer atividade. Em relação ao setor terciário, registam-se cerca de 19 profissionais. Esta aldeia transmontana é caracterizada essencialmente pelo modo como vive a terra. A pastorícia é a atividade económica de maior relevância para esta comunidade. “A pastorícia é, aliás, o modo de vida que sobretudo valoriza os Barrosões” Guerreiro (2016: 75). Nesta região, a economia pastoril extensiva predomina sobre a agricultura (Ribeiro, 1991b). Contudo, a pastorícia não se poderia desenvolver sem a agricultara, o que acaba por tornar as duas atividades complementares e interdependentes (Guerreiro, 2016). Devido ao facto de anteriormente a região do Barroso não possuir linha ferroviária e fracas ligações rodoviárias, permaneceu durante muito tempo isolada e quase toda a produção agrícola era usada para autoconsumo. Apenas os animais que poderiam ser conduzidos por grandes distâncias eram vendidos e é devido a isso que estas regiões de montanha se especializaram na raça barrosã (Freund, 2016), a mais notável do território português (Lautensach, 1991) e a mais predominante em Pitões das Júnias e em todo o território abrangente. “Com os altos preços da carne o gado multiplica-se (…)” Guerreiro (2016: 78). Nos anos de 1970, durante a produção da obra, o gado bovino ficava resguardado na corte e já se fazia sentir a necessidade da criação de espaços de maiores dimensões para o efeito. Atualmente, e com desenvolvimento da indústria agroindustrial, a construção e existência de armazéns na aldeia tornou-se numa constante, o que de certa forma confere a importância que a carne barrosã tem para a economia da região. A indústria queijeira está também presente no Barroso (Vasconcelos, 2007). Alguns animais, como os bovinos, cabras e ovelhas são usados para a produção de lacticínios (leite, manteigas e queijos) (Ribeiro, 2011). Em tempos de maior precariedade em Pitões das Júnias, este tipo de alimentos era produzido pela comunidade para consumo próprio e para venda. Contudo, já desde os anos de 1950 deixaram de ser fabricados (Guerreiro, 2016), o que perdura até aos dias de hoje. É compreensível que a pecuária seja desde sempre o setor económico predominante nesta aldeia. Tudo neste tipo de territórios é favorável à pastorícia (Ribeiro, 1991a). A carne sempre foi vista como um luxo na refeição dos Portugueses e que 41 raramente entrava nas refeições, e ainda assim, limitada à de porco (Vaquinhas, 1993). A criação de porcos é bastante desenvolvida no Noroeste da Europa. Alimentam-se essencialmente de milho e de desperdícios provenientes das culturas intensivas. (Ribeiro, 2011). Nos anos 1960, no território Português, a criação de gado porcino era de grande relevância na faixa litoral que vai do rio Minho e se estende até Península de Peniche, pois a esta região corresponde cerca de um terço dos suínos do país. (Nogueira apud Lautensach, 1991). Atualmente, em Pitões das Júnias, estes vivem por norma numa divisão própria denominada de cortelho e alimentam-se essencialmente de legumes e restos de comidas. A carne que é produzida através da criação destes animais, é por norma para enchidos e carne fumada, que fazem também parte da alimentação da comunidade. Por norma, para comércio os presuntos são o produto mais apreciado (Guerreiro, 2016). O Fumeiro de Pitões contínua a ter bastante procura por apreciadores de gastronomia e por turistas. Contudo, algo que era bastante usual e estava bem presente na cultura da região era a tradicional matança do porco, que tem vindo a ser esquecida ao longo do tempo, mas que ainda por vezes é visível em climas de festa, como é o caso do Entrudo. Apesar do Decreto-Lei n.º 28/84 ter proibido o abate de suínos fora dos estabelecimentos aprovados para o efeito (matadouro), o Decreto-Lei n. º142/2006, determinado pelo Despacho n.º 14535-A/2013 veio permitir a matança tradicional de suíno, organizada por entidades públicas ou privadas, desde que as carnes se destinem em exclusivo a ser consumidas em eventos ocasionais de caráter cultural e que sejam respeitadas todas as normas, o que favoreceu as práticas culturais da aldeia. “O termo escrito que o pastoreio é a atividade predominante dos Pitoneses não quer dizer que situemos a agricultura em plano secundário, menos importante” Guerreiro (2016: 107). Fatores climáticos e a própria fisionomia das montanhas, concede a este tipo de regiões dotes que a comunidade soube usar para o seu próprio proveito. Trás-osMontes, é dividido em duas regiões naturais: Terra Fria e Terra Quente. Na terra fria, o cereal dominante é o centeio, que devido aos elevados níveis de precipitação, nunca foi possível o cultivo de oliveiras e as árvores de fruta são extremamente raras, devido à destruição provocada pelas fortes geadas (Freund, 2016). Para além disso, o cultivo da batata, que começou a ser predominante em algumas vilas durante o século XVIII e que permaneceu até ao início do século XX, principalmente para autoconsumo (Freund, 2016) é também aqui bastante característico (Ribeiro, 1991b) e sendo esta uma alternativa bastante rentável, principalmente no Barroso (Mattoso et al., 2010). Estando Pitões das 42 Júnias localizada no Alto do Barroso, é consequentemente uma terra de centeio. Proveniente da cordilheira dos Andes, o cultivo da batata tornou-se essencial em Pitões, sendo considerada a segunda maior riqueza da terra, depois do gado. As batatas são um alimento base da comunidade (Guerreiro, 2016). O milho, é o alimento principal da população que vive regiões rurais, especialmente no Noroeste (Ribeiro, 1991c). O milho é também um cereal importante na cultura agrária de Pitões. Este destina-se principalmente para a criação de animais, nomeadamente de galinhas e porcos. É também usado para o fabrico de pão (Guerreiro, 2016). Ainda nos dias de hoje se verifica a existência de moinhos na aldeia. Contudo, nem todos se encontram em funcionamento. Para Amorim Girão o pão, o vinho e o azeite constituem a trilogia da alimentação dos países do mediterrâneo, inclusive Portugal (Medeiros, 1978). Sempre foi a base de sustento, tanto para a classe rica como a pobre, tanto no ambiente urbano como no rural, apesar de em algumas épocas assumirem uma maior importância devido à escassez de outros alimentos (Santos & Gama, 2011). Em Pitões, o fabrico de pão é também uma tradição. Feito essencialmente de centeio e de milho, este é produzido no forno do povo (Guerreiro, 2016). Hoje, o forno é parte do projeto do Ecomuseu do Barroso e é cada vez menos utilizado pela população (ver figura 24). Contudo, a indústria do pão continua a ser de extrema importância para a comunidade. A “Padaria Pitões”, em atividade desde 2004 e que para muitos que lá passam, fabrica o melhor pão da região, encontra-se aberta 24 horas por dia e distribui pão por uma região muito alargada de todo o norte de Portugal. Em território Português, em inícios dos anos 50, a população agrícola era cerca de 52% e a indústria moderna era ainda invulgar (Barreto, 2017), contudo, as formas de vida tradicionais que eram predominantes no campo e no litoral perderam o destaque que mantinham na primeira metade do século XX (Daveau, 1991a). Na União Europeia, calcula-se a renda dos agricultores consoante o valor gerado pela venda de animais e área cultivada, o que leva desta forma a concluir que o Barroso é uma região de estrema pobreza em termos económicos (Freund, 2016), o que leva as comunidades a procurar outro tipo de atividade para seu o sustento. Não só da terra vive a gente de Pitões, o comércio tem demonstrado também uma crescente importância ao longo do tempo. Nos anos 70, segundo o autor, estavam presentes 3 lojas. Vendiam bens de primeira e segunda necessidade como: roupa, calçado, utensílios para a casa, produtos de mercearia, bebidas e tabaco (Guerreiro, 2016). 49 agropecuária. Com a criação destes estes polos, tornam-se assim notáveis o cuidado e a consideração que as entidades regionais têm com a preservação dos valores culturais da comunidade. Contudo, nota-se também aqui uma forma de responder a crescente procura turística. Tive também oportunidade de conhecer de forma mais aprofundada o património natural e cultural da região, através da visita guiada que foi decorrendo ao longo do dia. Nesta terceira deslocação, vinha também com o intuito de iniciar finalmente o levantamento fotográfico, contudo, devido às condições climáticas que se faziam sentir nesse dia, não foi de todo fazível. A quarta e última deslocação a Pitões das Júnias, ocorreu entre o dia 4 e 6 de setembro de 2019, sendo esta a mais proveitosa do ponto de vista empírico, e aquela em que mais tempo permaneci na aldeia. Durante 2 dias, pernoitei em casa de um habitante local, o que me permitiu também compreender alguns aspetos sociais e culturais da comunidade. O primeiro dia serviu essencialmente para a realização de grande parte do levantamento fotográfico feito a partir dos mesmos locais de onde Viegas Guerreiro fizera as suas fotografias. De forma a facilitar o trabalho e tornar este dia mais rentável, tinha já anteriormente selecionado as fotografias presentes na monografia que posteriormente iriam ser usadas para este propósito. Para isso digitalizei cerca de 23 fotografias e converti-as num único ficheiro PDF, onde no decorrer do levantamento fotográfico foram visualizadas através do smartphone. Através de uma busca exaustiva e da cooperação de alguns dos moradores da região, foi possível identificar 19 das 23 fotografias selecionadas. Foi também feito um levantamento fotográfico de parte dos empreendimentos turísticos presentes na região e de alguns recursos próprios que pudessem de certa forma evidenciar alguns dos valores culturais que tornam esta região característica. O dia seguinte serviu essencialmente para o cumprimento da segunda parte empírica da dissertação. Foram inquiridos cerca de 16 indivíduos da comunidade local procurando complementar através do uso do diálogo informal. Os habitantes inquiridos mostraramse bastante recetivos, o que possibilitou um diálogo mais extensivo e rentável que resultou numa melhor obtenção de certos dados que não eram acessíveis apenas através do uso de questionários. O dia seguinte serviu apenas para finalizar algum do levantamento fotográfico que tinha ficado pendente. 50 4.2 A Paisagem Atual de Pitões das Júnias “Muitos traços desta economia arcaica persistem ainda nas terras altas de Trás-os-Montes, povoadas lentamente, nos primeiros tempos da monarquia por aforamentos colectivos a grupos de colonos, com a população estacionária pela emigração, imobilizada na rotina da comunidade aldeã. Numa paisagem carregada de tons severos, cinzentos, acastanhados, as manchas da ocupação humana são ainda ténues e distantes. Os baldios, terrenos de pasto, reserva de mato e lenhas, onde, de quando em quando, se abria a breve clareira de uma arroteia, ocupavam há setenta anos três quartas partes da província, metade ainda no fim do século passado. As aldeias ponteiam, de longe em longe, a solidão dos maninhos”. Ribeiro (1963: 122). Em 1945, o geógrafo Orlando Ribeiro mostrou que dentro do território Português existem três grandes áreas naturais: O Norte Atlântico, o Norte Transmontano e o Sul, prolongando-se todas elas pelo território espanhol. Este entendimento da divisão da grande maioria dos aspetos humanos da geografia do território português é bastante usado até meados do século XX: os modos de ocupação e exploração da terra, as tradições culturais, repartição social e a densidade demográfica (Mattoso et al., 2010). Pitões das Júnias, aldeia geográfica e culturalmente transmontana, foi estudada por Viegas Guerreiro há 40 anos. A partir de um ponto alto junto ao cemitério, a sua contemplação da paisagem da freguesia, mostra que as casas, pouco se distinguiam do chão íngreme e escuro, se não fosse o vermelho dos telhados. Há 40 anos ainda era notória a presença de casas colmadas, especialmente palheiros. De determinados pontos, era possível ver casas de cor completamente branca, como era o caso da escola, o posto da guarda-fiscal, as casas reconstruídas ou novas de emigrantes, ou de habitantes com um maior poder económico. Como pano de fundo da povoação, permaneciam as fragas e picos agressivos e majestosos 51 do Gerês, a contrastar com os elegantes dorsos da Mourela, a nordeste. A sudoeste, ficavam as águas límpidas e transparentes da albufeira da barragem da Paradela, concluída em 1956 (Guerreiro, 2016). A fisionomia dos campos é uma das características mais marcantes da paisagem rural, que provém tanto da forma da terra como dos aspetos culturais (Ribeiro, 1991a), sendo o clima um dos fatores mais determinantes nas práticas agrícolas deste tipo de territórios (Freund, 2016). O estado de conservação da arquitetura Pitões das Júnias faz deste território um ponto singular e de grande interesse. Caracterizada essencialmente pelo património rural com características únicas, construído sobretudo de forma a corresponder ao clima rigoroso que aqui é imposto. “(…) Pitões acenava-me lá longe, de tectos colmados e de chancas ferradas. Não obstante pisar o mais belo pedaço de chão pátrio, queria repousar em terra real e consubstancialmente minha. Ansiava por estender os ossos nos tomentos do Barroso, onde, apesar de tudo, era mais seguro adormecer (…)” Torga (2017: 22). As montanhas do Noroeste do país, e do Barroso em particular, são praticamente todas graníticas (Ribeiro, 1991a). A paisagem natural do Gerês, em que é característica a presença de fragas e picos elevados, ainda se faz sentir de uma forma muito significativa. A existência de pastos naturais (lameiros) que é tão característico das paisagens desta região, possibilitados pela elevada precipitação, fazem de Pitões das Júnias um território com excelentes condições para a prática da atividade pastoril e da pecuária (Dionísio, 1987). Contudo, a pluviosidade excessiva das serras e as baixas temperaturas nas regiões do Barroso, são um impedimento para a prática da agricultura intensiva (Mattoso, 2010). 52 Figura 6Paisagem de Pitões das Júnias. Fonte: Guerreiro (2016: 21) Figura 7Paisagem atual de Pitões das Júnias. Fotografia do autor. 53 Figura 8A Povoação de Pitões das Júnias. Fonte: Guerreiro (2016: 21) Figura 9A Povoação de Pitões das Júnias Atualmente. Fonte: Fotografia do Autor. Muitas das regiões rurais do território europeu resultam de uma multiplicidade de fatores, como o facto de haver uma grande escassez de recursos naturais, o facto de estarem afastadas dos grandes centros económicos, e condições demográficas e socioeconómicas que se refletem posteriormente em condições nada favoráveis para as 54 práticas agrícolas (Freund, 2016). As transformações ocorridas na aldeia, alteraram alguns aspetos da paisagem natural e da caraterização dos baldios da região, com indícios de humanização presentes “Dos anos 30 por diante, com a emigração para S. Paulo e depois para França, o uso de adubos e de técnicas mais produtivas e mecanização, a valorização do armentio, tudo mudou (…) acabaram os cabaneiros (…)” (Guerreiro, 2016: 68). A grande concentração de povoamento caracterizado essencialmente pelo ajuntamento das habitações, ruas que atravessam toda a aldeia, as povoações divididas em bairros distintos (Guerreiro, 2016), são características ainda bastante enraizadas no presente. Segundo Fernando Gusmão (cit. Guerreiro 2016), os baldios eram responsáveis pela ocupação de cerca de cinco sextos da área de Pitões das Júnias em 1964, sendo que na época em que o livro foi escrito, era bastante semelhante. A tradição cultural tem uma imensa capacidade de resiliência e adaptação, que apesar da inevitável uniformização urbana, as existências das mesmas condições no território orientam a evolução dos valores culturais de cada região (Mattoso et al., 2010). Alojamento Familiares Alojamento Coletivo Edifícios Clássicos Total Clássicos Não Clássico 1970 92 - - - - 1981 84 84 - - 84 1991 141 141 - - 141 2001 161 160 1 - 159 2011 210 210 - 2 206 Tabela 7Número de Alojamentos em Pitões das Júnias. Fonte: INE (várias datas) Apesar de fatores como a emigração e êxodo rural, houve um considerável aumento de alojamentos e edifícios entre o ano de 1970 e 2011. 1970 foi o ano com o registo do número mais elevado de habitantes (292 residentes), contudo, foi o segundo ano com o menor número total de alojamentos, cerca de 92. De 1970 para 1981, houve uma diminuição no número de total de alojamentos familiares (menos 8 alojamentos) mas também houve uma descida de cerca de 18% (74 habitantes). Contudo, a partir do mesmo ano, registou-se um aumento considerável de alojamentos. De 1981 para 1991 houve um aumento de cerca de 40% (57 alojamentos). Em contrapartida, registou-se um decréscimo de cerca de 5% (12 habitantes) relativamente ao número total de habitantes. A partir desse 55 ano, começa-se a registar uma grande discrepância entre o número total de habitantes e o número total de alojamentos. Entre 1991 e 2001, registou-se uma diminuição no número de habitantes, cerca de 11% (25 habitantes), contudo, registou-se também um aumento do número de alojamentos, de cerca de 12% (20 alojamentos). A partir de 2001, a freguesia de Pitões das Júnias sofre uma grande queda na densidade populacional, o que culmina posteriormente no número mais baixo de habitantes de que há registo. No ano de 2011, segundo os registos oficiais, o número de habitantes é 161, mas, em contrapartida, é o ano em que regista o maior número de alojamentos (210), um aumento de cerca de 23% (49 alojamentos) face ao ano de 2001. Torna-se desta forma notória, um aumento considerável de habitações nos últimos 40 anos. Muitas destas novas construções ou reabilitações de edifícios degradados, ou em ruínas, surgem como respostas a necessidades primárias e ao bem-estar da população residente, bem como forma de responder às necessidades de lazer de muitos emigrantes da aldeia e à procura turística que ao longo dos anos se tem vindo a fazer sentir. Habitações com telhados revestidos em colmo, habitações em que era predominante material de construção como a cal, usada essencialmente para o processo de pintura, é algo praticamente inexistente e sem visibilidade na aldeia, algo que era bastante característico há 40 anos “(...) casas colmadas ainda as há e muitas (…) num ponto ou outro, branqueia casa caiada: a escola (…)” (Guerreiro, 2016: 20), a pequena escola primária já não se encontra em funcionamento, foi aqui inaugurado em 2017 o “Anfiteatro Largo da EscolaEspaço Lúdico e Cultural de Pitões das Júnias” (fig.10), com o objetivo de potencializar as atividades culturais, uma maior otimização da atividade turística e sobretudo como forma de criar melhores condições para os habitantes da região. 56 Figura 10Anfiteatro Largo da EscolaEspaço Lúdico e Cultural de Pitões das Júnias. Fonte: Fotografia do Autor Também se faz notar a construção e reabilitação de caminhos, isto em consequência de uma constante presença de veículos ligeiros, pertencentes tanto aos moradores locais, como aos trabalhadores e aos turistas. As comunidades de montanha, sobretudo as mais isoladas, preservam formas materiais civilizacionais mais arcaicas e pouco alteradas, principalmente pelo facto de que a sua estabilização no tempo as permitiu diferenciar progressivamente das outras comunidades, o que é algo bastante característico das comunidades presentes na serra do Gerês e da região do Barroso (Mattoso et al., 2010). Apesar de todas as alterações, continua a ser visível o uso de uma grande parte da paisagem para a prática da atividade agrícola, essencialmente pelo facto de continuar a ser a atividade primordial de sustento para os habitantes da região. 57 Figura 11Habitações em Pitões das Júnias. Fonte: Guerreiro (2016: 18) Figura 12Estado atual das Habitações. 58 Fonte: Fotografia do Autor “Não existem casas brasonadas, bairros ricos e nem na linguagem se acham vestígios de vínculos servis (…)” Guerreiro (2016: 69). A tradicional casa rural distinguese por não servir apenas de lar, mas também como apoio à exploração agrícola. Normalmente constituída por dois andares, o andar térreo é usado para guardar o gado e os utensílios de trabalho agrícolas, e o andar superior é o de habitação, onde ficam a cozinha e os quartos (Ribeiro, 1989b). A sua construção é essencialmente feita em granito, sendo a parte interior da parede feita geralmente em pedras soltas, todas elas sobrepostas. Devido às fracas vias de comunicação e às condições económicas, os materiais usados para a construção das habitações são provenientes de regiões próximas, especialmente o granito (Lautensach, 1989b). Para evitar as chuvas, no interior da habitação era utilizado barro nas paredes. O rés-de-chão era usado essencialmente para guardar material de trabalho agrícola e animais de gado. No 1.º andar, o andar habitacional, por norma, havia apenas uma divisão com um espaço com lareira que servia de cozinha, espaço de jantar e estar, e outro espaço para o quarto (Guerreiro, 2016), era também muito pouco visível o uso de fechaduras nas portas (Vasconcelos, 2007). Figura 13Planta de uma Casa de Pitões. Fonte: Fonte: Guerreiro (2016: 34) 65 Na região do Barroso ainda é notável a conservação de alguns costumes da vida comunitária, como é o caso do uso do forno do povo (Dionísio, 1987). Para Guerreiro (2016), o forno é o elemento arquitetónico da aldeia mais deslumbrante. Figura 23Forno de Pitões. Fonte: Guerreiro (2016: 140) Figura 24Forno de Pitões Atualmente. Fonte: Fotografia do Autor 66 O forno do povo como é denominado, no que toca a sua arquitetura comparativamente a casa tradicional, exteriormente, este apenas difere por nele estarem presentes três contrafortes que servem de sustento aos três arcos de volta perfeita, que suportam o telhado (Guerreiro, 2016). Atualmente, o telhado continua a ser revestido por lajes, como se pode comprovar pela figura 24, sendo que este material já substitui o colmo há mais de 100 anos “a cobertura, inicialmente de colmo, foi substituída pelas referidas lajes há uns 60 anos” Guerreiro (2016: 138), um sistema construtivo que é predominante nos fornos comunitários nas terras do Barroso. A porta que dá acesso ao interior do forno já não é em madeira “a porta de madeira, voltada para noroeste e sempre aberta (…)” Guerreiro (2016: 138), hoje, é feita em metal vermelho. Atualmente o forno de Pitões é parte integrante do Ecomuseu do Barroso. Este projeto tem como propósito representar e preservar a identidade e modos de vida do território, bem como o seu desenvolvimento de uma forma sustentável. Segundo Guerreiro (2016), algo muito característico e presente nas aldeias onde era predominante uma economia agropastoril e de estrutura comunitária era a presença de um boi do povo, que se alimentava essencialmente em lameiros igualmente coletivos (Mattoso et al., 2010), “à vizinhança das casas correspondem os hábitos comunitários da gente e dos rebanhos: os gados reunidos sob a vigilância de pastores escolhidos alternamente entre os proprietários ou pagos pela comunidade, juntam-se de manhã num largo de povoação para se separarem à volta do pasto e buscarem sozinhos as cortes dos seus donos; o touro, mantido num prado comunal, abriga-se nos estábulos de cada um, consoante o número de vacas que possui.” Ribeiro (1991a: 260). 67 Figura 25Corte do Boi. Fonte: Guerreiro (2016: 91) Figura 26Corte do Boi atualmente: Fonte: Fotografia do autor. 68 Pitões tinha ainda durante a década de 1970 dois bois do povo, apesar de anteriormente ter possuído três. Eram bem estimados e tratados pelos agricultores: tinham lamas, corte e palheiros próprios. Existiam também bois de particulares. Os preços elevados da carne, a venda da batata e o dinheiro proveniente da emigração eram favoráveis para que alguns dos habitantes pudessem adquirir estes animais (Guerreiro, 2016). Atualmente, esta prática é inexistente. A corte já não serve o seu propósito. Hoje, este espaço é um polo exclusivo do Ecomuseu do Barroso (fig.27). Figura 27Ecomuseu do BarrosoCorte do Boi. Fonte: Fotografia do autor. Aqui encontram-se vinculadas algumas das temáticas que fazem parte da identidade da região: a pastorícia em regime extensivo, a tecelagem, a agricultura em território de montanha, os modos de produção tradicionais, a vezeira, a tecelagem e o património etnográfico (Ecomuseu, 2020). Os movimentos migratórios, nomeadamente a emigração e o êxodo rural, tiveram uma certa relevância na transformação da região, “A casa reconstruída ou a nova de emigrante ou vizinho endinheirado” (Guerreiro, 2016: 20). Segundo Guerreiro (2016), estes movimentos alteraram a fisionomia da aldeia, contudo, não de uma forma muito expressiva. Apesar de uma conceção diferente na arquitetura das novas casas, não se fez sentir uma grande discrepância comparativamente a arquitetura tradicional. 69 Figura 28Casa de um Emigrante. Fonte: Guerreiro (2016: 171) Figura 29Estado atual da casa do emigrante. Fonte: Fotografia do Autor 70 Figura 30Casa Moderna de Emigrante. Fonte: Guerreiro (2016: 171) Figura 31Atual Estado da Casa Moderna de Emigrante. Fonte: Fotografia do Autor Para a reconstrução de algumas habitações da aldeia, como é o caso das que estão presentes na figura 28 e 30, foram usados padrões arquitetónicos pouco convencionais, 71 provenientes de outras regiões, como refere Guerreiro (2016: 170) “no meio da aldeia só um ou outro aproveitamento da velha estrutura lembram o mau gosto, dominante em outros lugares”. Como se pode verificar, o autor era um crítico das transformações ocorridas na aldeia. Relativamente à habitação que se pode ver na figura 31, são visíveis algumas alterações significativas, sendo que a de maior expressão seja talvez a remodelação do rés-de-chão, que passou a ser um andar de habitação. Apesar do autor dar destaque a esta habitação, hoje, as que estão à volta, sofreram alterações mais significativas. O espigueiro já não está presente. A habitação da frente foi também completamente remodelada, e é muito recente. A habitação ao fundo, foi a que mais alterações sofreu ao longo deste tempo. Apesar de difícil caracterização por não estar completamente visível na fotografia, nota-se perfeitamente a presença de uma cobertura em colmo, um aumento considerável na sua dimensão e matérias de construção modernos. Podemos também constatar a presença de postes de eletricidade e sinais de circulação, algo que não estava presente no passado. As figuras 32 e 33 mostram o largo do Eiró, sendo este considerado o “centro da aldeia”. É para este largo que convergem quase todas as ruas da aldeia. Segundo Guerreiro (2016), o largo era usado essencialmente para se discutir questões em prol do desenvolvimento da aldeia e em proveito de todos os aldeões (reparação de caminhos, pontes, reabilitação da igreja, limpezas das ruas, etc.), a este tipo de assembleia, dá-se o nome de “coutos” (guia de Portugal). A fotografia representada na figura 32, foi tirada durante uma assembleia que decorrer em 1978 “(…) A assembleia delibera e a Junta de Freguesia (presidente, secretário e tesoureiro) (…) O presidente, Sr. António João Gomes Fernandes, fala ao povo da varanda de uma das casas que dão para o larguete (…)” Guereiro (2016: 202). Nos dias de hoje, o largo continua a ser o centro da aldeia. É também ainda o centro de partida para muitas ruas, contudo, hoje é usado também para outros fins. No largo há a presença de dois cafés onde muitos dos habitantes se encontram depois de um dia árduo de trabalho no campo e também serve como referência a muitos turistas que procuram mais informações sobre a região. 72 Figura 32Eiró. Fonte: Guerreiro (2016: 201) Figura 33Eiró Atualmente. Fonte: Fotografia do Autor 73 No que diz respeito às habitações presentes nas figuras, é notável uma grande transformação das mesmas. O teto do edifício central (que servia e serve como sede de junta de freguesia) já não é de colmo, e é hoje completamente feito em telha. O seu revestimento foi completamente alterado, a habitação é completamente em pedra, a varanda foge aos padrões tradicionais da região. Atualmente, para além de junta de freguesia, serve também como posto de correio local, uma pequena biblioteca e uma associação de desenvolvimento da região. O pavimento da rua sofreu também grandes alterações, e beneficiaram sobretudo a circulação de veículos. Também são visíveis os postes de eletricidade e redes de comunicação que antes não estavam presentes. Relativamente à habitação ao fundo, não é possível perceber a cobertura da mesma. Contudo, devido aos materiais de construção usados, é possível especular que a cobertura seja em telha. São visíveis também alterações nas portas e janelas. “Impressiona o lugar onde foi edificado. As ruínas do Mosteiro de Santa Maria das Júnias situam-se próximo da aldeia de Pitões das Júnias, nas margens do ribeiro de Campesino. Eremitério de montanha, aparece, talvez, no século XII, e viria a tornar-se uma abadia cisterciense dependente do mosteiro galego de Ossera. Alguns autores referem que o atual templo, de arquitetura românica, data da primeira metade do século XII. É um dos raros mosteiros antigos implantados em terras transmontanas” (Mattoso et al., 2010: 172) 74 Figura 34Mosteiro de Santa Maria de Júnias. Fonte: Guerreiro (2016: 243). Figura 35Estado atual do Mosteiro de Santa Maria de Júnias. Fonte: Fotografia do Autor Em Pitões das Júnias encontram-se as ruínas de um mosteiro cisterciense, datado entre os séculos XII e XIII, e caracterizada pela sua arquitetura românica (Azevedo, 1993). Segundo Guerreiro (2016), do mosteiro resistiam apenas casas de residência, um 81 Figura 47Caminho para o Mosteiro. Fonte: Guerreiro (2016: 249). Figura 48Estado atual do Caminho para o Mosteiro. Fonte: Fotografia do Autor. 82 “O percurso é de meia hora, mas, na parte final, áspero, difícil, sobre rocha viva” Guerreiro (2016: 248). O percurso para o mosteiro teve melhorias significativas (figura 48), também em consequência da procura turística, visto que o mosteiro é uma parte integrante dos Itinerários de Cister e do Percurso Pedestre de Pitões das Júnias. O acesso ao mesmo pode ser feito através de uso do automóvel até determinado lugar, sendo que o resto deve ser apenas feito a pé devido ao piso irregular como se pode verificar pela figura 48. Figura 49Planalto da Mourela. Fonte: Guerreiro (2016: 8) Figura 50Planalto da Mourela. 83 Fonte: Fotografia do Autor O Planalto da Mourela, inserido exclusivamente no Parque Nacional PenedaGerês, é essencialmente caracterizado pela grande diversidade de fauna e flora que o constituem. Muito em consequência das condições climatéricas, há uma fraca predominância de campos agrícolas. Entre Pitões das Júnias e Tourém, é predominante uma paisagem de pasto cercada por muros de granito (Belo, 2012), onde a presença de garranos e de gado sem pastoreio (à solta) é muito habitual (Freund, 2014). “o gado é a maior riqueza da terra, hoje como ontem. É esta a vocação da montanha: uma economia agro-pastoril com predomínio do pastoreio (…) Vacas, cabras e ovelhas, este o capital das serras, o foco da cultura em torno do qual a vida se move (…)” Guerreiro (2016: 75), neste período de tempo, surgiram algumas transformações nesta paisagem, apesar destas não serem visíveis nas fotografias. O planalto continua a ser usado para o mesmo tipo de atividades pela população de Pitões das Júnias. Contudo, com a evolução na atividade agrícola e aumento da procura turística foram desenvolvidos projetos e ações em prol da sustentabilidade do planalto. “É escusado dizer que os rebanhos têm de conter-se dentro dos limites da freguesia. Andam por pousios e alqueives, pouco nos restolhos e principalmente nos baldios da Mourela e do fragoso Gerês” Guerreiro (2016: 77) Em 2009, a ADERE-PG criou um projeto com o principal intuito de desenvolver e potencializar o Planalto da Mourela e os seus sete baldios (Covelães, Outeiro, Paredes do Rio, Pitões das Júnias, Tourém, Travessos e Sezelhe) de uma forma sustentável. A condução do giestal, roça de matos, fogos controlados, pastoreio e a vedação da turfeira são medidas que visam corresponder aos objetivos deste projeto. De forma a promover o planalto e potencializar praticas pedagógicas foi criado um centro de interpretação cujo espaço se destinasse essencialmente a propagação e a interpretação do património cultural e natural do planalto, um centro de acolhimento para acolher visitantes, trilhos interpretativos para permitir aos visitantes contactar com a comunidade local e os seus costumes e também materiais de apoio à visitação (guias de campo, livros, etc.) (ADEREPG, 2011). 84 Figura 51Centro de Interpretação do Planalto da Mourela. Fonte: Fotografia do autor. Como já foi referido, a pecuária continua a ser a principal fonte de rendimentos de grande parte da comunidade da aldeia. Como consequência do desenvolvimento industrial e económico, deu-se um aumento significativo da criação de animais e outras indústrias do sector primário. Segundo Guerreiro (2016), os suínos e vitelos eram guardados em divisões no rés-de-chão da casa, enquanto que ovelhas, cabras e vacas ficavam recolhidas no palheiro. “O excepcional rendimento que nos últimos anos provém da venda do gado tem multiplicado os palheiros-uma família chega a possuir cinco (…)” Guerreiro (2016: 44). Nesta altura já se fazia sentir a necessidade de obtenção de espaços de maiores dimensões para guardar os animais devido a um maior número de vendas de animais de gado. Atualmente, é notória a existência de grandes armazéns que servem para garantir assim espaços com maiores dimensões e melhores condições para a criação de animais de gado. Através de imagens do GoogleEarth, é possível perceber a área próxima do núcleo central da aldeia, e que é ocupada por estes armazéns. A grande maioria situa-se na parte norte e estes edifícios podem ser vistos de imediato à entrada da freguesia. 85 Figura 52Armazéns Presentes em Pitões das Júnias. Fonte: GoogleEarth (maio de 2020). Contudo, como se pode comprovar pelas fotografias, estes espaços vieram de alguma forma alterar e romper com os padrões da arquitetura rural e tradicional da região. Em consequência das alterações paisagísticas e culturais provocadas pela presença destes grandes armazéns, foram tomadas medidas pelo PNPG que não foram ao encontro das expetativas de grande maioria dos proprietários destes espaços. Segundo Barbosa (2017), vários produtores de gado, proprietários de alguns dos armazéns foram multados pelo PNPG pelo facto destes armazéns deterem uma área superior ao que é permitido por lei. A construção destes armazéns é concebida de forma a garantir melhores condições das necessidades de trabalho destes agricultores. Este desencontro de posições tem gerado algumas tensões entre o parque e as comunidades locais. As fotografias que se seguem foram tiradas no início do mês de setembro de 2019. Os armazéns fotografados foram escolhidos de forma aleatória. Foi tido em conta apenas a sua visibilidade. 86 Figura 53Alguns dos Armazéns Presentes em Pitões das JúniasParte 1 Fonte: Fotografias do Autor. 87 Figura 54Alguns dos Armazéns Presentes em Pitões das JúniasParte 2 Parte 2. Fonte: Fotografias do Autor. Neste caso em particular, a conservação da paisagem pode ser entendida como um paradoxo. Do ponto de vista de quem aqui vive, alterações como esta são imprescindíveis, pois garantem condições dignas para quem vive da terra. De um ponto de vista externo, tanto para entidades regionais como para os turistas, estes tipos de alterações deixam algumas reticências, pois altera em demasia as estéticas da paisagem que se procura. 88 4.3 Universo EstatísticoComunidade Local A amostra englobou 16 pessoas residentes na freguesia em estudo, Pitões das Júnias. Os questionários feitos à comunidade local revelaram ter uma grande importância para o estudo. Através destes, foi possível obter um conhecimento mais alargado sobre alguns aspetos sociodemográficos e sobre quais as atividades mais importantes para a região numa perspetiva de cariz económico e qual é o papel e a importância da atividade turística. Isto não apenas no presente, mas também numa perspetiva futura. O questionário foi entregue à comunidade na quarta deslocação à Pitões das Júnias, durante o verão, sendo este realizado no início do mês de setembro de 2019. A amostragem foi feita de uma forma aleatória, contudo, foi tida alguma atenção na escolha de diferentes grupos etários, para melhor compreender os vários pontos de vista sobre o turismo na região e outras questões pertinentes. 1Informação Sociodemográfica Variável Descrição Nº de respostas Sexo Masculino Feminino 9 7 Grupo etário 16-25 anos 26-35 anos 36-45 anos 46-55 anos 56-65 anos Mais de 65 anos 2 - 2 1 6 5 Nível de Escolaridade Não frequentou Pré-Primária Ensino Primário 2º e 3º Ciclo Ensino Secundário Ensino Superior - - 9 3 1 3 Naturalidade Pitões das Júnias Outro 13 3 Tabela 8Informação Sociodemográfica. Fonte: Elaboração Própria com base nas respostas obtidas nos questionários. 89 Como já referido, o questionário foi respondido por 16 habitantes locais durante o mês de setembro de 2019, sendo que 9 foram respondidos por indivíduos do sexo masculino e os restantes por 7 do sexo feminino. No que refere ao grupo etário, é possível concluir maior parte dos indivíduos inquiridos tem uma idade superior a 56 anos (cerca de 11 pessoas). Há apenas uma pessoa com idade compreendida entre os 46 e 55 anos, sendo que este grupo etário tem a mais pequena representação comparativamente aos restantes grupos etários. O grupo etário “16-25 anos” representa apenas 2 dos inquiridos, tal como o grupo etário de idades compreendidas entre os 36 e 45 anos. No que respeita as habilitações literárias, cerca de 9 inquiridos frequentaram apenas o ensino primário. Os restantes inquiridos, prosseguiram os estudos, sendo que 3 frequentaram o 2.º e 3.º ciclo, 1 o ensino secundário e os restantes 3 o ensino superior. 14 dos inquiridos são de nacionalidade Portuguesa, sendo que 13 são naturais de Pitões das Júnias e 1 de Vieira do Minho. Há também 2 inquiridos de nacionalidade francesa. Figura 55Caracterização Profissional dos habitantes. Fonte: Elaboração Própria com base nas respostas obtidas nos questionários. No que concerne à atividade profissional exercida pelos habitantes de Pitões das Júnias, através da figura, é possível comprovar que a agricultura e a pecuária são as atividades profissionais predominantes da região, sendo que seis dos inquiridos afirmam 7 2 3 2 6 11 Caracterização Profissional Restauração Alojamento Comércio e Serviços Agricultura Agricultura e Pecuária Construção Outra 90 trabalhar na agricultura e na pecuária e dois apenas na agricultura, contudo, é de realçar que um dos inquiridos que trabalha na agricultura e na pecuária e os dois inquiridos que trabalham apenas na agricultura já se encontram reformados, ou seja, estes três não dependem da atividade para a assegurarem a sua sustentação económica. Torna-se também evidente o destaque que a restauração tem na região: cerca de sete inquiridos trabalham nesta área, sendo que destes sete, cinco trabalham por conta própria, um por conta de outrem, sendo que um não especificou. Destes, cinco trabalham em restauração por conta própria, dois trabalham também em alojamentos sendo estes os proprietários dos respetivos alojamentos. Há três inquiridos que se dedicam à área do comércio, dos quais um encontra-se a trabalhar numa Padaria da região. A construção é a atividade profissional com menor representatividade, existindo apenas um inquirido a exercer neste setor. Existe também um inquirido a trabalhar na área da saúde. Torna-se também necessário realçar que vários dos inquiridos exercem em mais que um setor de atividade. Dois dos inquiridos trabalham ambos por conta própria em alojamento e restauração, contudo, tanto um como o outro, exercem ambas as atividades no mesmo estabelecimento. Há também três inquiridos que para além da restauração, trabalham também na agricultura e na pecuária (um deles trabalha também em comércio), com a justificação de que trabalhar em restauração na aldeia (mesmo por conta própria), não é suficiente par garantir a sua própria subsistência económica. Para além disto, os inquiridos deram o seu parecer sobre qual lhes parece ser a atividade profissional mais determinante para garantir a estabilidade económica da região. Dos 16 inquiridos, um elegeu a pecuária como a atividade primordial para a sustentabilidade económica da aldeia, nove elegeram a agricultura, seis inquiridos, para além da agricultura, elegeram também a pecuária, porém, estando esta sobreposta pela agricultura com a justificação de que se não houver agricultura, não poderá haver pecuária “Pastorícia e agricultura são, pois, no caso emergente, duas atividades complementares e de tal maneira interdependentes que não subsiste uma sem a outra, são órgãos de um mesmo corpo, constituem um todo indivisível. O gado não poderia prosperar sem o feno dos lameiros cultivados, o refugo da batata, a beterraba, os nabos, a cenoura, e nem a terra produziria com a abundância necessária à sua alimentação e à dos homens, sem adubação animal” Guerreiro (2016: 107,8). 97 infraestruturas na aldeia e reabilitação (ruas, parques, etc.), contudo, um dos inquiridos demonstrou o seu descontentamento ao reportar o facto de as entidades regiões fazerem muito pelo turismo e pouco pela aldeia. Em relação ao ambiente, dois dos inquiridos referiram somente impactes negativos: o lixo que é encontrado variadíssimas vezes nas ruas da aldeia e no Planalto da Mourela. 4.4 Diálogo Informal ou Conversas Livres As conversas informais que fui tendo com a comunidade local e com alguns dos turistas, durante as minhas deslocações a Pitões das Júnias, permitiram-me tirar algumas conclusões sobre algumas questões que se foram levantando ao longo do decorrer da investigação. Estas incidem sobretudo na forma como o crescimento do turismo é visto pelos habitantes locais e pelos turistas, sobretudo pelos que já tinham tido oportunidade de conhecer a aldeia anteriormente. Para a comunidade local: i) As entidades públicas responsáveis pela gestão e planeamento da freguesia e do PNPG estão mais focadas no desenvolvimento da atividade turística do que em garantir melhores condições para a comunidade que aqui se insere; ii) Os turistas são causadores de grande parte do lixo que é encontrado no Planalto da Mourela e nas áreas serranas da região; iii) Alguns habitantes não se mostram confortáveis com o aumento de turistas na região devido ao ruído que estes são causam; iv) O turismo é responsável por criar postos de emprego e pelo aumento de rendimentos de muitas famílias; v) Melhores infraestruturas que para além de potencializarem o crescimento da atividade, permitem sobretudo melhores condições de vida aos habitantes; vi) A presença de outras culturas na aldeia é gratificante, pois permite o aumento de novos saberes; Já na perspetiva dos turistas: i) A necessidade de querer responder ao aumento da atividade turística que se vem vindo a fazer sentir nos últimos anos, traduz-se sobretudo em mudanças no edificado e na 98 paisagem cultural da região, que alteram em demasia os seus padrões tradicionais e culturais; ii) Os alojamentos turísticos presentes na aldeia apresentam características particulares seguindo os padrões tradicionais da aldeia, zelando sempre pela modernidade, qualidade e conforto; iii) Apesar de Pitões das Júnias ser uma aldeia com um grande valor turístico, muitos dos turistas que por cá passam, fazem-no apenas por esta estar inserida no PNPG, sendo assim um local que usufruem por um período muito limitado (as vezes apenas umas horas); Desta forma, entende-se que apesar de grande maioria dos habitantes da aldeia olharem para o turismo de uma forma positiva, pelo crescimento económico e melhores condições de vida que este proporciona, na opinião de alguns habitantes a presença da atividade na região tem mostrado também um lado menos bom, nomeadamente pela poluição ambiental e sonora que causa e também pelo facto verem as entidades responsáveis pela gestão da aldeia, mas preocupadas com o desenvolvimento do turismo mais do que propriamente com a própria comunidade. Compreende-se através do ponto de vista dos turistas que a aldeia é um ponto de referência turística do PNPG que oferece qualidade e exclusividade aos seus visitantes, derivado do seu valor cultural e tradicional. Contudo, com aumento da atividade que se tem vindo a fazer sentir no decorrer dos últimos anos, na opinião de alguns turistas, nomeadamente os que já conheciam anteriormente a aldeia, algumas das suas características e particularidades culturais tem vindo a deteriorar-se e a perder valor. Outro ponto pertinente, prende-se ao facto de que muitos turistas que ali passam, não terem Pitões das Júnias como destino ou principal ponto de referência, fazem-no apenas por estar inserido no Parque Nacional PenedaGerês, sendo este o seu principal destino, o que muitas das vezes acaba por não se traduzir em nenhum tipo de benefício para a região e a sua comunidade. 4.5 Síntese Conclusiva O capítulo que agora se encerra culminou nos resultados da componente empírica da investigação aqui concebida, possibilitando desta forma qualificar e quantificar as transformações decorridas na paisagem da freguesia de Pitões das Júnias e compreender em que medida é que o turismo interferiu nessas mesmas transformações. 99 Os dados obtidos através dos questionários entregues à comunidade local permitiram reter uma compreensão mais profunda sobre de que forma esta sociedade aqui inserida considera e crê na atividade turística e no seu crescimento. Mesmo que o turismo aumente consideravelmente em Pitões das Júnias e que os habitantes equacionem envergar na atividade, a agropecuária será sempre a atividade determinante para a subsistência de toda a região. Importa também reter que os inquiridos consideraram a agropecuária a atividade mais importante para o desenvolvimento económico da região. Apesar de grande maioria dos inquiridos apoiar o desenvolvimento da atividade na região, apenas os mais novos mostraram interesse em num futuro próximo exercem atividade profissional na área. Em contrapartida, alguns dos inquiridos mostram-se reticentes sobre o aumento do turismo na região, mostrando a sua satisfação com a dimensão atual. Apesar de alguns dos inquiridos terem demonstrado um cerco descontentamento com as práticas de alguns visitantes, todos se mostrarem bastante recetivos em relação ao turismo na região. O levantamento fotográfico foi basilar para uma absorção mais clara de quais os agentes responsáveis pelas alterações da paisagem. Apesar de a densidade populacional ter sofrido um decréscimo considerável, entre a década de 70, década em que a monografia foi iniciada e o ano 2011, o número total de registou um crescimento de cerca de 55%, o que se traduz num aumento de 116 alojamentos. Este crescimento surge de forma a responder às necessidades e ao bem-estar da comunidade. A construção, modernização e reabilitação de habitações é uma forma de garantir melhores condições de vida da população e o seu bem-estar individual. Este crescimento é também forma de responder às necessidades de lazer de muitos emigrantes, que durante as férias ou pequenas estadias na aldeia, procuram desta forma também mais conforto e alguns destes usam a habitação como alojamento de turismo de rural. É também visível a construção e reabilitação de edifícios com o único propósito da atividade turística: tanto alojamento como restauração. Contudo, devido ao número de edifícios que serve este propósito, não se pode considerar que o turismo altere de forma significava a paisagem de Pitões das Júnias. A construção de um elevado número de armazéns que surge em consequência da evolução das práticas agrícolas da comunidade e do crescimento de número de animais, impulsionou transformações consideráveis na paisagem cultural e nos modos de vida da comunidade. O espaço público, nomeadamente, vias de comunicação sofreu também 100 bastantes alterações. Alguns espaços e edifícios que anteriormente serviam para a prática de atividades tradicionais da comunidade e que já não estão em funcionamento, hoje servem como espaços de atividades recreativas e turísticas, com o principal objetivo de promover e valorizar de uma forma sustentável e pedagógica as práticas tradicionais da comunidade. Tornou-se deste modo evidente que o bem-estar pessoal é determinante para que estas alterações ocorram: o desejo de melhores condições de vida, de mais conforto e modernização são fatores que hoje os habitantes levam em grande consideração, o que posteriormente se traduz numa transformação do edificado da região e dos modos de vida da população. 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente dissertação visou analisar os impactes e transformações consequentes da atividade turística, ocorridos na paisagem, num território de montanha, mais especificamente na aldeia de Pitões das Júnias. Em primeira instância, é necessário referir que as conclusões fundamentais desta dissertação foram elaboradas ao longo de toda a investigação, estando as mesmas presentes no final de cada capítulo, de modo que este capítulo servirá apenas para reter algumas breves reflexões de cada um dos capítulos. Nos primeiros dois capítulos desta dissertação, procurei sobretudo aprofundar os principais conceitos teóricos que posteriormente serviram de sustentação para elaboração da parte empírica. Deste modo, dediquei o primeiro capítulo a debater a evolução recente da geografia cultural, que desde o pós-guerra tem vindo a sofrer grandes mudanças na sua teorização. O conceito de paisagem, tema central desta investigação e uma das principais temáticas da geografia cultural e humana, foi também analisada neste capítulo. A sua compreensão mostrou-se bastante efetiva, servindo assim para uma análise detalhada do território em estudo. A representação da paisagem na fotografia e a sua importância metodológica foram temas também bastante debatidos neste capítulo. A fotografia ganhou uma grande notabilidade na geografia a partir do século XX, servindo de auxílio ao trabalho científico e como instrumento de análise aos geógrafos, devido a sua observação rigorosa e detalhada. Em Portugal, o uso da fotografia como instrumento de apoio de trabalho, é inegável no trabalho científico e geográfico do mais prestigiado geógrafo, Orlando Ribeiro, que posteriormente iria servir de inspiração no trabalho de outros vários geógrafos, cientistas sociais e outros ligados as artes visuais, como é o caso do fotógrafo Duarte Belo. Nesta dissertação, é demonstrada a importância desta componente para a progressão de todo o trabalho empírico. No segundo capítulo, através de uma extensa análise bibliográfica, foi possível compreender, ainda que de forma sucinta, a importância dos territórios de montanha. Foi possível concluir que este tipo de território não se manifesta apenas pela sua composição geomorfológica e topográfica. A relação entre o ser-humano e o ambiente, expressa-se através de uma imensa multiplicidade de elementos culturais e sociais, o que torna este tipo de território tão fascinante e admirável. Como foi possível constatar, estes elementos 102 acabam por despertar um elevado interesse para a prática de uma ampla diversidade de atividade, entre elas, o turismo. Deste modo, torna-se imprescindível desenhar políticas públicas sustentáveis, que permitam assegurar o desenvolvimento e crescimento da atividade turística neste tipo de territórios, de forma a assegurar um equilíbrio dos valores económicos, sociais e culturais do território e da população que o habita. O terceiro capítulo retrata os aspetos sociodemográficos e económicos do território em estudo. Fiz também um breve enquadramento do Parque Nacional PenedaGerês e de uma forma mais aprofundada apresentei o território em estudo, o que me permitiu depreender de forma mais precisa a geografia deste território e todas as suas peculiaridades. Esta aldeia da região do Barroso, inserida no Parque Nacional PenedaGerês, muito devido aos seus valores naturais e culturais, é uma das aldeias do norte do país mais procuradas pelos turistas, tanto nacionais como internacionais. Apesar de nos últimos anos ter registado um aumento considerável da procura turística, torna-se cada vez mais notório o declínio populacional e a pequena proporção de jovens. Isto é sobretudo resultante do êxodo rural, que se tornou mais notório a partir da década de 1960 e que se continua a fazer notar de forma exponencial até aos dias de hoje. No que diz respeito a economia da região, os dados mostram-se evidentes apesar de a evolução da atividade turística ser notória nos últimos anos, o setor primário, neste caso, a agropecuária, continua a ser o setor que regista mais profissionais e representa 56% de todos os indivíduos em atividade, como já referido anteriormente. É também evidente a resposta que a população tem dado ao crescimento da atividade na região, o que se traduz no aumento de empreendimentos turísticos, especialmente de restauração e alojamento local. O quarto capítulo é referente à parte empírica da investigação. Aqui foi possível perceber as transformações ocorridas na paisagem de Pitões das Júnias e entender de que forma os impactes do turismo se mostram significativos na mesma. Metodologicamente, através da fotografia, instrumento central para esta dissertação, foi possível depreender, de uma forma bastante clara, as principais alterações verificadas na paisagem da região, especialmente no seu edificado. Foi possível averiguar o aumento considerável no número de edifícios, em particular, de habitações e armazéns, tanto como a sua reabilitação. Contudo, o número de edifícios que serve exclusivamente para fazer face à procura turística não é suficiente para considerar que a atividade seja impactante na 103 paisagem e no edificado deste território, o que me leva também a concluir que a construção e reabilitação das habitações da comunidade local que resultam como forma de responder as suas necessidades, bem-estar individual e melhores condições de vida, é de facto o fator incontestável na transformação da paisagem de Pitões das Júnias. A segunda parte do quarto capítulo diz respeito ao universo estatístico. Os questionários feitos à comunidade local tiveram também uma grande importância na obtenção de respostas mais conclusivas. Apesar da comunidade se mostrar recetiva ao aumento do turismo na região, é percetível e evidente que a agropecuária é a atividade mais importante para a subsistência de toda a comunidade e que apesar da comunidade apoiar a continuidade do seu crescimento, apenas os mais jovens mostram interesse em futuramente desempenharem a atividade. É também necessário referir que a grande maioria dos habitantes que iniciaram a sua atividade no setor do turismo, fazem-no se forma secundária, continuando a agropecuária a ser a principal atividade. A agropecuária continua a ser o motor de desenvolvimento económico e sociocultural da região. Em síntese, torna-se deste modo irrefutável a existência de significativas transformações ocorridas na paisagem face aquelas que podemos encontrar na primeira publicação da obra “Pitões das JúniasEsboço de Monografia Etnográfica” de Manuel Viegas Guerreiro de 1981. Apesar de a atividade turística ser uma atividade em ascensão neste território, a mesma não se mostra responsável por transformações significativas ocorridas na paisagem. As transformações aqui ocorridas resultam essencialmente da procura da comunidade local por melhores condições de vida, conforto, bem-estar pessoal e modernização. 104 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aguiar, C., Rodrigues, O., Azevedo, J., Domingos, T. (2009). Montanha. In. Pereira, H, M., Domingos, T., Vicente, L., Proença, V. (eds). Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment. Lisboa: Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Escolar Editora. Pp. 295340. Almeida, A, D., Belo, D. (2007). Portugal Património: Guiainventário. Vila Real, Bragança. Vol.2. Porto: Círculo de Leitores. Almeida, I, C, S., Ribeiro, H, C., Santos, E, O. (2016). Domestic Medical Tourism: A New Look on Patients of the Public Health System and Their Companions. In. 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Decreto n.º 187/71, de 8 de maio de 1971. Cria o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Diário do Governo, 1.ª série (108), 657-661. Decreto n.º 28/84, de 20 de janeiro de 1984. Altera o regime em vigor em matéria de infrações antieconómicas e contra a saúde pública. Diário da República, 1.ª série (17), 240-258. Decreto-Lei n. º 242/2015, 15 de outubro de 2015. Procede à primeira alteração ao Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, que aprova o regime jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade. Diário da República, 1. º série (202), 8981-9000 Despacho n.º 14535-A/2013, de 11 de novembro de 2013. Autorização do abate para autoconsumo. Diário da República, 2.ª série (218), 33160-(2) a 33160-(3). 119 ANEXOS Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais No âmbito do Mestrado de Geografia, Planeamento e Gestão do Território do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, Portugal, com o presente questionário pretendesse obter uma melhor compreensão sobre o desenvolvimento e os impactes do turismo em Pitões das Júnias. Agradeço desde já a sua colaboração, comprometendo-me assim ao sigilo de todas as informações prestadas. Data: ____ / ____ / ____ Parte 1: Informações Sociodemográficas 1. Sexo: Masculino __. Feminino __ 2. Grupo Etário a) 16-25 anos b) 26-35 anos c) 36-45 anos d) 46-55 anos e) 56-65 anos f) mais de 65 anos 3. Habilitações Literárias a) Não frequentou b) Pré-escolar c) Ensino Primário d) 2º e 3º ciclo e) Ensino Secundário f) Ensino Superior 4. Naturalidade 120 a) Natural de Pitões? Sim___ b) Não, Natural de ________________________ Parte 2: Caracterização da Atividade Profissional 1. Setor de atividade a que se dedica. Caso exerça mais que uma atividade, indique quais. Própria Outrem a) Restauração b) Alojamento c) Comércio e serviços d) Agricultura e) Pecuária f) Construção g) Outro 2. Indique as que na sua opinião, são as atividades mais importantes para o desenvolvimento económico da aldeia (indique a letra por ordem de importância, caso considere mais que uma atividade). ____________________________________________________________ 121 Parte 3: Impactes do Turismo 1. Na sua opinião, qual a importância do desenvolvimento do turismo para a aldeia? a) Não é importante b) Sem opinião c) É importante 2. Como descreve o fluxo turístico em Pitões das Júnias? a) Baixo b) Normal c) Demasiado 3. No futuro, seria relevante para si, ver o turismo mais desenvolvido na aldeia? a) Sim b) Não c) Sem opinião 4. Na sua perspetiva, quais foram as mudanças mais significativas que a atividade turística causou em Pitões das Júnias?.