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O cinema como espaço de ativismo mnemónico: uma análise da produção cinematográfica com financiamento público em Portugal

Lins, Luiza; Macedo, Isabel Moreira; Cabecinhas, Rosa; Brasil, Julia Alves; Sá, Alberto

Abstract

O ativismo mnemónico pode ser compreendido como um tipo de ativismo que visa promover maior diversidade de histórias na esfera pública, ao assumir que reflexões estratégicas sobre o passado e a memória são formas cruciais de transformar a sociedade. Essas reflexões podem acontecer nos mais diversos contextos, como manifestações nas ruas ou através dos meios de comunicação, a partir de histórias por muito tempo silenciadas, de pessoas e grupos sociais discriminados. Neste artigo, refletimos sobre como o cinema pode constituir um espaço de ativismo mnemónico ao representar narrativas de alteridade e lançar luz sobre questões sociais de grande importância, como as experiências migratórias que atualmente têm assumido uma posição de destaque nas produções audiovisuais. Para isso, realizamos uma análise exploratória da produção cinematográfica com financiamento público em Portugal, de 2018 a 2022, a fim de analisar suas principais temáticas. Foram recolhidas todas as sinopses de filmes e outras produções audiovisuais (359) publicadas neste período nos catálogos do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e disponíveis online. Esse material textual foi analisado com auxílio do software Iramuteq. A análise indicou a ausência de termos como “racismo” ou “discriminação social” nas sinopses, mesmo em produções que abordavam essas questões ao retratarem experiências migratórias. Dentre os principais temas, destacam-se a (i) produção artística e artes em geral, (ii) vida quotidiana e relações interpessoais (e.g., família, amizade, amor) além da (iii) memória histórica e conflitos. Explorámos também, com mais detalhe, as curtas-metragens produzidas nesse período (120), o que permitiu a identificação de narrativas contra-hegemónicas, reforçando o papel que o cinema pode desempenhar no combate às amnésias societais.

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Observatorio (OBS*) Journal (2024, Vol 18, nº 3), 134-156 1646-5954/ERC123483/2024 134 Copyright © 2024 (Lins, Macedo, Cabecinhas, Alves Brasil, Sá). Licensed under the Creative Commons AttributionNonCommercial Generic (cc by-nc). Available at http://obs.obercom.pt. Cinema as a space for memory activism: an analysis of publicly funded film production in Portugal O cinema como espaço de ativismo mnemónico: uma análise da produção cinematográfica com financiamento público em Portugal Luiza Lins*, Isabel Macedo**, Rosa Cabecinhas***, Julia Alves Brasil****, Alberto Sá***** * Communication and Society Research Centre, University of Minho (l[email protected]) ** Communication and Society Research Centre, University of Minho (isabel.maced[email protected]minho.pt) *** Communication and Society Research Centre, University of Minho ([email protected]) **** Communication and Society Research Centre, University of Minho ([email protected]) ***** Communication and Society Research Centre, University of Minho ([email protected]) Abstract Memory activism can be understood as a type of activism that aims to promote a greater diversity of stories in the public sphere, assuming that strategic reflections on the past and memory are crucial ways of transforming society. These reflections can take place in the most diverse contexts, such as protests in the streets or through the media, based on the long-silenced stories of people and social groups who have been discriminated against. In this article, we reflect on how cinema can constitute a space for memory activism by representing narratives of otherness and shedding light on social issues of great importance, such as migratory experiences, which have currently taken centre stage in audiovisual productions. To do this, we carried out an exploratory analysis of publicly funded film production in Portugal from 2018 to 2022 in order to analyse its main themes. All the synopses of films and other audiovisual productions (359) published during this period in the catalogues of the Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) and available online were collected. This textual material was analysed using Iramuteq software. The analysis indicated the absence of terms such as "racism" or "social discrimination" in the synopses, even in productions that addressed these issues when portraying migratory experiences. Among the main themes were (i) artistic production and the arts in general, (ii) daily life and interpersonal relationships (e.g., family, friendship, love) and (iii) historical memory and conflicts. We also explored in more detail the short films produced during this period (120), which allowed us to identify counter-hegemonic narratives, reinforcing the role that cinema can play in combating societal amnesias. Keywords: Cinema, Memory activism, Migrations, Social Memory. Resumo O ativismo mnemónico pode ser compreendido como um tipo de ativismo que visa promover maior diversidade de histórias na esfera pública, ao assumir que reflexões estratégicas sobre o passado e a memória são formas cruciais de transformar a sociedade. Essas reflexões podem acontecer nos mais diversos contextos, como manifestações nas ruas ou através dos meios de comunicação, a partir de histórias por muito tempo silenciadas, de pessoas e grupos sociais discriminados. Neste artigo, refletimos sobre como o cinema pode constituir um espaço de ativismo mnemónico ao representar narrativas de alteridade e lançar luz sobre questões sociais de grande importância, como as experiências migratórias que atualmente têm assumido uma posição de destaque nas produções audiovisuais. Para OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 135 isso, realizamos uma análise exploratória da produção cinematográfica com financiamento público em Portugal, de 2018 a 2022, a fim de analisar suas principais temáticas. Foram recolhidas todas as sinopses de filmes e outras produções audiovisuais (359) publicadas neste período nos catálogos do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e disponíveis online . Esse material textual foi analisado com auxílio do software Iramuteq. A análise indicou a ausência de termos como “racismo” ou “discriminação social” nas sinopses, mesmo em produções que abordavam essas questões ao retratarem experiências migratórias. Dentre os principais temas, destacam-se a (i) produção artística e artes em geral, (ii) vida quotidiana e relações interpessoais (e.g., família, amizade, amor) além da (iii) memória histórica e conflitos. Explorámos também, com mais detalhe, as curtas-metragens produzidas nesse período (120), o que permitiu a identificação de narrativas contra-hegemónicas, reforçando o papel que o cinema pode desempenhar no combate às amnésias societais. Palavras-chave: Cinema, Ativismo mnemónico, Migrações, Memória social. Introdução Nos últimos anos, movimentos sociais de luta contra diferentes formas de discriminação social ganharam uma visibilidade sem precedentes na esfera pública. Movimentos como o #wearethe99, #NiUnaMas ou o #BlackLivesMatter fomentaram a reflexão crítica sobre sexismos, racismos e outros ismos que continuam a moldar o nosso quotidiano (Cabecinhas, 2022). Movimentos como esses, que produzem intervenções de diferentes ordens e também em variados contextos, atuam também no campo da memória social, pois, representam oportunidades de resgatar e recordar histórias de luta coletiva muitas vezes silenciadas, como a luta antirracista. No caso do #BlackLivesMatter, o emblemático caso ocorrido em Minnesota, Estados Unidos, em que George Floyd, um homem afro-americano foi brutalmente assassinado durante uma abordagem policial, em maio de 2020, gerou revolta e também ação coletiva. Ainda no período da pandemia de COVID-19 e com forte cobertura mediática, o “Vidas Negras Importam” (“ Black Lives Matter ”) foi uma das expressões mais ouvidas nas manifestações que ocorreram em todo o mundo, a evocar os protestos dos Estados Unidos. Em Portugal, milhares de pessoas juntaram-se ao movimento, em diversas cidades do país. Na ocasião, em 6 de junho de 2020, o Diário de Notícias entrevistou Joana Cabral, dirigente do SOS Racismo sobre as manifestações que eram, em suas palavras, “para protestar contra o que se passou no EUA, mas também contra o que se passa no Brasil, em Portugal, em Viseu, em Lisboa, na Amadora e no Porto. Não podemos esquecer esta história longa que não fez como última vítima George Floyd, vai continuar a fazer muitas outras” (LUSA, 2020). As palavras de Joana enfatizam, portanto, o dever de memória (Khan et al . , 2019), reivindicado nessas manifestações que podem ser compreendidas no quadro dos ativismos mnemónicos. O conceito de “ativista mnemónico” tem sido usado em uma ampla variedade de contextos, caracterizando um ator individual ou um grupo de pessoas que se comprometem na discussão estratégica do passado e compreendem a memória como uma forma crucial de transformar a sociedade (Gutman & Wüstenberg, 2022). Frente à questão migratória e aos espaços ocupados por migrantes, Yldiz (2023) assinala que o ativismo mnemónico é caracterizado pela negociação de múltiplos passados e pela interação de variados quadros e repertórios como pontos de referência para a intervenção política, sendo que alguns ativistas confrontam a própria ausência ou distorção de quadros de memória nos quais a presença, a agência e as reivindicações dos migrantes não são considerados. Desafiam, assim, as narrativas existentes sobre o passado, reinvindicando uma pluralização e reconfiguração da memória. Além da simples denúncia, os ativismos mnemónicos traduzem novos conhecimentos por diferentes vias, como a música, a escrita, o 136 OBS* Journal, 2024, 18(3) cinema e as mais variadas formas de expressão artística e podem abordar diferentes questões sociais (Cabecinhas, 2022). Neste artigo, discutimos as potencialidades do cinema como espaço de ativismo mnemónico e damos ênfase às narrativas que abordam a questão migratória. Migrações, alteridade e ativismos As migrações têm sido foco de atenção política e dos meios de comunicação e, em 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU), inclusive, instituiu o “Dia Internacional das Migrações” (ou Dia Internacional dos Migrantes), celebrado a 18 de dezembro, como medida para incentivar o debate e a disseminação de informação sobre direitos humanos e liberdades fundamentais de migrantes (Alto Comissariado para as Migrações, 2015). Em 2023, no dia desta efeméride, o Presidente da República Portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa apelou ao respeito pelos direitos de todos, sem discriminação, ao defender que “é inegável o potencial das migrações enquanto motor de desenvolvimento económico e social” (Lusa, 2023). Entretanto, especialmente diante do elevado fluxo de refugiados e de migrantes que se tem verificado na última década, e de contextos de crises mundiais (crise financeira, pandémica, etc.), esses discursos de inclusão coexistem no espaço público com variados posicionamentos que materializam conflitos (Martins et al., 2020) e trazem também para a esfera pública discursos que estigmatizam determinados grupos como “bodes expiatórios” (Cabecinhas, 2023). Os meios de comunicação, muitas vezes, atuam nesse contexto ao veicular narrativas nas quais pessoas migrantes são relacionadas a questões como os novos custos sociais (e.g. a crise habitacional) e a violência. Nas narrativas sobre criminalidade, por exemplo, pessoas migrantes e/ou grupos racializados, como negros, ciganos, ou mais recentemente, pessoas do sudeste asiático (Bangladesh, Nepal, etc.), acabam por estar associados a notícias quer seja como agentes ou como vítimas do crime. Em Portugal, essa associação tem reforçado a perceção social de que os imigrantes representam uma ameaça à segurança do país, além de atitudes negativas, enviesamentos e práticas de discriminação, particularmente mais acentuados para imigrantes racializados (Brasil, 2021; Costa-Lopes, 2024). De acordo com o relatório anual do Observatório das Migrações (OM) (2023), o número de autorizações de residência ultrapassou um milhão de cidadãos estrangeiros que representam já 14,4% do total de contribuintes do sistema de segurança social do país. Por um lado, o documento apresenta indicadores que reforçam o contributo das pessoas migrantes para áreas como a economia e a dinâmica do crescimento da população portuguesa. Por outro, os dados evidenciam como barreiras burocráticas e a discriminação também constituem importantes obstáculos à integração de migrantes. Dados reunidos pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) indicam um aumento das queixas de discriminação de base racial e étnica reportadas em Portugal nos últimos anos, sendo que, em 2022, a maioria das queixas relacionaram-se com a “nacionalidade” (51,7%), seguindo-se a “cor de pele” (15,3%) e a “origem racial e étnica” (5,5%) (Oliveira, 2023). Embora evidenciem um crescimento nas denúncias, a existência desses dados indica também uma maior consciencialização e prioridade por parte de organismos nacionais para a problemática da discriminação, possibilitando medidas de intervenção mais concretas . Entretanto, esse enfrentamento ainda constitui um grande desafio, pois persiste na memória social o mito segundo o qual Portugal seria um país imune ao OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 137 racismo que, supostamente, teria empreendido um colonialismo mais brando, em função de uma dita aptidão para relações harmoniosas e empáticas com outros povos (Castelo, 1998; Valentim & Heleno, 2018). Essa retórica sustenta a imagem de um país precursor da interculturalidade, de brandos costumes e sem discriminação que ainda ecoa e impacta na manutenção da desigualdades sociais em Portugal. Nesse sentido, é fundamental discutir como continuam a ser reificadas hierarquias raciais herdadas do colonialismo (Cabecinhas & Macedo, 2019), bem como a questão do reconhecimento das pessoas que ocupam um lugar de “outro” no contexto português, ao visibilizar discursos e imagens que representam pessoas migrantes e racializadas enquanto agentes ativos na transformação social. Para Jovchelovitch (1998), a consciência do outro em sua alteridade é uma questão de importância histórica e contínua na vida de grupos e comunidades, pois a onipotência de um olhar autocontido, para o qual o outro não existe (ou não tem valor), estava presente em todas as formas de ditadura, como o fascismo, provocando medo, segregação e exclusão social. Seara e Cabral (2020) abordaram a construção dessa dicotomia ao discutir a representação de pessoas migrantes em Portugal, a partir da análise de um conjunto de comentários de utilizadores do Facebook. As autoras evidenciam como determinadas estratégias discursivas, com a adjetivação violenta e a demarcação de um território pessoal e geográfico, partem de uma posição onipotente de “nós” e manifestam polarização, agressividade e exclusão social do “outro”. Na mesma direção, outros estudos (e.g. Chouliaraki & Georgiou, 2019; Eberl et al., 2018; Rochira et al., 2020) também discutem como, por um lado, a população migrante tem sido objeto de representação em uma imagem depreciativa (como uma ameaça), e, por outro, em uma imagem de vitimização. Essas representações têm o poder de silenciamento e desumanização, pois desconsideram a agência de pessoas migrantes enquanto sujeitos de suas próprias histórias e narrativas. Para Cabecinhas (2022), é necessário um trabalho de desocultação de histórias rasuradas, pois “não podemos compreender as dinâmicas do presente sem ter em conta o passado e sem auscultar o que significa esse passado para as diversas pessoas e grupos” (p. 28). Os meios de comunicação, por sua vez, podem desempenhar um importante papel neste trabalho de desocultação, sobretudo se atuam de modo a incluir as vozes dessas pessoas e grupos subalternizados, pois, com isso, podem realizar uma ponte com a população e contribuir para aumentar sua visibilidade social (Brasil & Bonomo, 2022). Narrativas contra-hegemónicas no cinema português? Embora seja uma forma de arte e um meio de comunicação cultural que se pretende amplamente difundido e popular, o cinema, e em particular, o cinema português ainda é frequentemente sub-analisado (Cabecinhas & Macedo, 2019). Uma obra cinematográfica pode provocar diversas interpretações e reflexões, sendo que os guionistas e/ou realizadores podem colaborar com, ou propor contra-narrativas, ao sistema político em que estão inseridos, mesmo que essa escolha nem sempre seja consciente. O cinema tende a refletir as condições do tempo em que é produzido. Não é diferente no caso do cinema português. A produção cinematográfica portuguesa recente tem destacado visões polémicas da complexa realidade “pós-colonial” na sociedade contemporânea. Se olharmos para a história do cinema português a partir de 1975, podemos reconhecer mudanças temáticas, formas de fazer cinema profundamente influenciadas pelo contexto histórico, político e económico da época. 138 OBS* Journal, 2024, 18(3) A revolução de 25 de abril de 1974 representa a transição de um cinema sujeito às regras da censura oficial para um cinema de expressão livre, surgindo novos interesses e temáticas (Areal, 2011). É também a partir deste período que o cinema português se começa a afirmar no contexto internacional. Os filmes de Manoel de Oliveira, António Reis e Margarida Cordeiro, Paulo Rocha, João Botelho, João César Monteiro são apenas alguns exemplos. Do ponto de vista temático, os filmes pós-revolução refletem as tensões identitárias que resultam, por um lado, da revolução e da normalização da vida política, mas também da integração na Comunidade Económica Europeia (CEE). Filmes cuja temática é a deslocação em relação à família, ao emprego e à comunidade são frequentes durante os anos 1980. São personagens recorrentes o exilado, o emigrante, ou o órfão (Baptista, 2009). As temáticas da ficção do pós-revolução abordam o passado e o regime deposto; a “Revolução dos cravos” e os meios rurais. Este período constituiu também um momento “de transformação dos modos de produção em vigor no cinema português. Transitou-se de ‘um modelo de produção sem produtores’, onde as cooperativas de realizadores e técnicos proliferaram, para um modelo de coproduções com parceiros financeiros internacionais” (Cunha, 2013, p. 236). Na década seguinte, Manuel de Oliveira, com o filme Non ou a vã glória de mandar (1990) inaugurou uma das temáticas que se destaca nesta fase “e que está presente de múltiplas formas em um grande número de filmes da década”, a problemática do colonialismo e da expansão portuguesa e suas consequências (Ferreira, 2013, p. 251). As temáticas mais presentes retratam tensões identitárias entre um passado colonial (até 1975) e o presente europeu. Este tema é explorado, por exemplo, através de personagens que regressam de África ou do enfoque na guerra colonial, descendentes de imigrantes, ou histórias que têm lugar em países africanos de língua oficial portuguesa. A representação do passado no cinema português deste período não se afasta de velhos mitos sobre lusofonia e luso-tropicalismo ou sobre a “excecionalidade de Portugal e o seu papel de colonizador humanista” (Ferreira, 2013, p. 267). Procura, contudo, desenvolver novas formas de produção que exploram a história colonial e discutem os papéis tradicionais associados ao homem e à mulher. Dois grandes cineastas afirmados nos anos 1990, Pedro Costa e Teresa Villaverde, exploram realidades concretas como bairros sociais ou o quotidiano de populações migrantes que, conjuntamente a outros autores como João Canijo, João Pedro Rodrigues ou Sérgio Tréfaut, evidenciam o interesse por assuntos, pessoas e lugares até ali praticamente inexplorados. Escolhem-se como protagonistas “jovens marginais, mães adolescentes ou imigrantes ilegais e os seus argumentos abordam questões como a pobreza, a doença, o desemprego, a violência doméstica, o tráfico humano ou a toxicodependência” (Baptista, 2009, p. 320). O início do século XXI foi marcado pela formação de equipas técnicas profissionais que transitam de produção em produção, pela política continuada de apoio à produção de curtas, documentários e longametragens por parte do instituto do cinema. Filmes de cineastas como Pedro Costa, João Canijo, Teresa Villaverde, Susana de Sousa Dias, entre outros, através dos seus personagens e histórias, reivindicam uma análise sobre o mundo que estão a mostrar. Em 48 (2010), por exemplo, Susana de Sousa Dias procura provocar no público uma ligação àquilo que se vê no ecrã, levando-o a aceder aos seus próprios imaginários sobre o passado ditatorial. São-nos apresentados mulheres e homens, anónimos, pessoas que não existem na história oficial, cujo nome não é recordado, mas que estiveram envolvidas e foram fundamentais na ação política. Para além de um crescimento e implantação do cinema comercial, com filmes como Call Girl (2007) ou A bela e o pararazzo (2010) de António Pedro Vasconcelos, consolida-se um movimento de novos autores e processos no caso do documentário (e.g. Lisboetas de Sérgio Trefaut, Cartas a uma Ditadura , de Inês OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 139 Medeiros). O reconhecimento internacional é também visível, tendo sido premiados vários realizadores do cinema português (e.g. Leonor Teles, Pedro Costa, Miguel Gomes, João Salaviza, Susana de Sousa Dias). Trabalhos recentes, por exemplo, na curta-metragem, mostram uma dinâmica de cineastas jovens que procuram contestar um conjunto de representações instituídas na sociedade portuguesa. No entanto, quer cineastas com um percurso consolidado, como Pedro Costa, com Vitalina Varela (2019), quer jovens cineastas como Leonor Teles, com A Balada de um Batráquio (2016) e a recente longa-metragem Baan (2023), ou Miguel Dores, com Alcindo (2021), trazem para a esfera pública no presente marcas de um passado que exige revisitação contínua para que não haja esquecimento, que abordam, de diferentes formas, o colonialismo e suas consequências no presente, reivindicando um olhar e escuta atentos e a ação quotidiana contra as diversas formas de discriminação. Assim, o cinema pode promover reflexões estratégicas sobre o passado, a partir de histórias por muito tempo silenciadas de pessoas e grupos sociais subalternizados, como pessoas migrantes e/ou racializadas e, com isso, assume-se que não existe uma “história única” (Adichie, 2009). À medida que novas vozes e olhares são convocados ao debate público, eventos conhecidos e armazenados na memória, como o colonialismo português, por exemplo, podem ser confrontados com novas informações que podem contribuir na (re)construção de representações sociais do passado. Neste artigo, refletimos sobre os temas que têm merecido destaque no cinema português financiado, procurando discutir que filmes podem ser considerados contra-hegemónicos e vistos como espaço de ativismo mnemónico, quando exploram temas como as migrações, o colonialismo, a discriminação e o racismo no contexto português. Metodologia Como a produção cinematográfica portuguesa está substancialmente dependente de subsídios, optamos por analisar a produção com recurso a financiamento do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), instituição pública portuguesa sujeita à tutela do Ministério da Cultura. Dedicamos uma atenção especial às curtasmetragens, pois nas últimas décadas elas têm desempenhado um papel importante no desenvolvimento do cinema em Portugal. Após a criação de políticas de apoio específicas a esse formato, no início da década de 1990, tem-se assistido a uma explosão de curtas-metragens, além de festivais, que incluem competições específicas para o formato, como o Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde. As curtas desempenham também um papel importante nos debates que acontecem fora da universidade, seja em clubes de cinema, no contexto escolar, entre outros (Macedo et al., 2023). O objeto de análise neste estudo não são as produções em si, mas as sinopses de filmes e outras produções audiovisuais. A sinopse possui uma função comercial e, juntamente com o cartaz do filme, constitui o primeiro elemento com que contactamos quando procuramos informação sobre uma determinada obra. Na sinopse, espera-se uma apresentação, em síntese, dos elementos do filme que mais são passíveis de destaque, ou mais “atraentes” ao público alvo (Ventura & Almeida, 2018). Este estudo parte de um conjunto de inquietações transformadas em questões de investigação: quais são os principais temas abordados pelas produções cinematográficas financiadas em Portugal nos últimos anos? Que narrativas sobre experiências migratórias e discriminação são retratadas nas sinopses? Qual é a relação entre os temas identificados nas longas e nas curtas-metragens? Orientados por estas questões, 140 OBS* Journal, 2024, 18(3) investigamos a produção cinematográfica com financiamento público em Portugal. Interessam-nos, particularmente, as produções relacionadas com as pessoas que ocupam um lugar de alteridade na sociedade portuguesa, bem como os olhares contra-hegemónicos sobre experiências migratórias. Reunimos as produções cinematográficas realizadas no período de 2018 a 2022, com recurso a financiamento público do ICA e realizámos uma análise textual das sinopses dessas produções. A finalidade desta abordagem era identificar os temas centrais que têm circulado nas produções audiovisuais, bem como a presença ou ausência das questões anteriormente referidas e centrais no quadro desta investigação. As sinopses das produções que recebem financiamento público são publicadas anualmente nos catálogos do ICA e estão disponíveis em acesso aberto (https://www.ica-ip.pt/pt/downloads/publicacoes/). Para a composição do corpus , foram reunidas 359 sinopses, classificadas como longas-metragens (188), curtas-metragens (120), ou outras produções de audiovisual (51), como séries. Procurámos perceber como as narrativas migratórias são retratadas pelas curtas-metragens, visto que estas ainda recebem menos atenção da literatura científica em Portugal, mesmo diante da explosão de produções, festivais e financiamento específico para esse formato. A análise dos dados foi realizada com o apoio do software Iramuteq ( Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires ) (Ratinaud, 2009), que emprega cálculos estatísticos para realização de análise textual e, com isso, possibilita o tratamento de grandes conjuntos de dados qualitativos, ou seja, textos produzidos em diferentes condições: entrevistas, dados de veículos de comunicação, dentre outros, como as sinopses que constituíram o corpus deste estudo. Optamos pela apresentação de duas análises possibilitadas pelo Iramuteq: a nuvem de palavras e a Classificação Hierárquica Descendente (CHD). A nuvem produz uma representação gráfica simples na qual cada palavra tem tamanho proporcional à sua frequência no corpus , permitindo a identificação das palavras-chave e a sua posição relativa aos restantes termos. A CHD, por sua vez, é baseada no método desenvolvido por Reinert (1990) e envolve uma análise de agrupamentos. O software reparte o corpus inicial, a partir do processo de lematização, em pequenos segmentos de texto que são, posteriormente, realocados de acordo com as semelhanças e as diferenças entre os vocabulários utilizados e formam classes de sentido. O programa realiza cálculos de qui-quadrado (X2) para verificar o grau de associação entre as formas linguísticas e as respetivas classes. Optamos pela apresentação dos resultados da CHD por meio de uma Análise Fatorial de Correspondência (AFC) que representa num plano cartesiano as diferentes classes e palavras associadas a cada uma delas na CHD (Camargo & Justo, 2018). Resultados e discussão Os resultados serão apresentados em duas subsecções. Na primeira, discutiremos as palavras-chave identificadas nas sinopses a partir da apresentação de duas imagens: (1) Nuvem de palavras considerando toda a produção com financiamento público do ICA no período em análise e (2) Nuvem de palavras considerando apenas as curtas-metragens. OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 141 A segunda subsecção, por sua vez, retoma o corpus composto pelas sinopses de toda a produção, afim de discutir por meio de classes temáticas os conteúdos que receberam maior atenção e centralidade nessas produções. Nuvens de palavras que contam narrativas e silêncios A Figura 1 consiste em uma nuvem de palavras que ilustra o corpus composto pelas 359 sinopses. Na composição da imagem, consideramos as palavras que apareceram com frequência igual ou superior a 10 vezes. A partir dela, é possível realizar uma primeira leitura exploratória acerca das presenças e ausências mais emblemáticas nas produções. No centro da nuvem, há algumas palavras frequentemente usadas em frases de introdução das sinopses, como “o filme conta a história de...”, além de elementos gerais de caracterização das obras como as palavras: anos (referente a idades ou tempo transcorrido na obra), homem, mulher, etc. Há, ainda, destaque para a palavra vida , que, por um lado, pode representar a vida de uma personagem/artista e, por outro, a vida histórica de um país. Em última instância, a palavra central parece constituir o ponto de convergência entre essas produções: as histórias de vida. Figura 1: Nuvem de palavras da produção com financiamento público do ICA, no período de 2018 a 2022, em Portugal Fonte: Elaboração própria com recurso ao software Iramuteq Observamos também a recorrência de palavras como amor, casa, viagem, filho, mãe, pai etc., que indicam uma concentração de assuntos ou temas do "quotidiano", com ênfase nas relações interpessoais 142 OBS* Journal, 2024, 18(3) de maior proximidade, em especial os vínculos familiares. Um exemplo desse conteúdo é a sinopse do documentário Daniel & Daniela : Um pai de 83 anos e uma filha de 12 exploram as suas raízes numa viagem por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Ao sabor de um 'road movie' , o filme explora o tema do colonialismo, da afirmação racial e do desenvolvimento em África. (Coelho, 2019). Destacam-se, ainda, palavras como Portugal e português, que não apenas situam a obra, mas remetem para questões de nacionalidade e história, como no exemplo da série 3 Mulheres - Pós Revolução : O dia 25 de abril de 1974 pôs fim ao Estado Novo, à polícia política, à censura e à guerra colonial. Natália Correia, Snu Abecassis e Maria Armanda Falcão são 3 Mulheres que representam todas as portuguesas que viveram intensamente e intervieram ativamente nesse tempo de mudança. ‘3 Mulheres, Pós Revolução’ acompanha-as do período revolucionário em curso até à consolidação da democracia no início dos anos 80 e a adesão de Portugal à União Europeia em 1982. (Vendrell, 2022). Algumas ausências também foram identificadas nesse corpus . Realizámos buscas específicas por termos como: “migrações” (que não aparece em nenhuma sinopse, apenas identificações, como emigrante/imigrante referidas sete vezes, no total), “discriminação social/racial” (também ausente, com uma referência apenas à palavra “discriminatório”); “racismo” (nenhuma aparição, apenas o termo afirmação racial) e “colonialismo” (duas vezes referida, sendo “colonial” referida oito vezes). Considerando o universo de 359 sinopses, observa-se que esses termos ou são empregados com pouca frequência ou não aparecem, mesmo nas apresentações de produções que abordavam essas questões ao retratarem experiências migratórias, por exemplo, na sinopse da curta metragem Nha Sunhu : Issa, futebolista bissau-guineense que joga em Portugal, é contactado por dois realizadores de cinema que desejam saber mais sobre a sua vida, com o propósito de fazer um documentário. Expondo as vozes que estão por detrás da câmara, Nha Sunhu é uma reflexão sobre olhar, viés e representação do/a outro/a. (Magro, 2021). Nesta sinopse, a palavra “viés” parece estar relacionada a fenómenos psicossociais como preconceitos e estereótipos, atitudes e crenças socialmente compartilhadas sobre características de pessoas e grupos que podem levar a enviesamentos discriminatórios. Quando usamos um estereótipo, por exemplo, a simples identificação de determinadas pertenças como nacionalidade, cor da pele ou o género pode levar à atribuição automática de uma ou mais características a um grupo no seu todo ou a uma pessoa em função desse pertencimento (e.g. negros são atléticos) (Costa-Lopes, 2024). Este filme suscita reflexões sobre a discriminação e sobre como determinados discursos e imagens reforçam fronteiras mentais entre “nós” e os “outros”, objetificando e explorando pessoas e grupos que ocupam um lugar de alteridade no contexto português, sendo o povo português representado como branco e cristão. A ausência destes termos na construção da sinopse não significa, portanto, que o conteúdo não esteja presente na obra. OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 149 Classe 2. Vida quotidiana e relações interpessoais Figura 5: Classe 2 Fonte: Elaboração própria com recurso ao software Iramuteq Nesta segunda classe (com 41,3% do corpus ), Figura 5, estão reunidas sinopses que salientam elementos da vida quotidiana e uma ênfase marcante na relações interpessoais, especialmente, vínculos familiares, com destaque a palavras como casa, mãe, amigo, amor, família e pai. Tais questões do decorrer habitual da vida podem não ser necessariamente as mais importantes ou representarem a temática central nas produções, mas como a sinopse atua como uma espécie de “chamariz” de atração, temas de amplo interesse como amor, mistério, conflitos, etc. tendem a receber destaque especial no texto de apresentação (Ventura & Almeida, 2018). É possível observar este conteúdo na sinopse de Todos os sonhos do mundo : Pamela é uma jovem portuguesa da segunda geração, nascida em França. No emaranhado das suas contradições, dos seus insucessos e do amor absoluto pela sua família, se sente perdida e parece estar incapacitada de imaginar como poderia viver a sua vida. Sobretudo porque só gosta de tocar piano e patinar no gelo. Vai, contudo, desbravar o seu próprio caminho entre França e Portugal (Barbosa, 2018). Embora a sinopse trate de questões do quotidiano, como o amor à família e hábitos da protagonista, o filme parece incluir também imagens e narrativas relacionadas às migrações, à nacionalidade e ao pertencimento, especialmente se atentarmos ao uso do termo “segunda geração” que possui um carácter polissémico e remete para o estatuto migratório dos filhos de imigrantes que, embora nascidos e residentes no país, muitas vezes ainda são considerados “estrangeiros”, e têm o estatudo de nacionalidade questionado. Outro exemplo no qual há destaque para as relações interpessoais na apresentação de um filme que aborda as questões das migrações e das narrativas de alteridade e de pertença, com destaque para a ligação com a terra natal, é a sinopse da curta-metragem Nha Mila: Depois de 14 anos longe da sua terra natal, Salomé viaja para a Ilha de Santiago, Cabo Verde, para ver o seu irmão cuja vida está presa por um fio. Faz escala no aeroporto de Lisboa, onde Águeda, empregada de limpeza, a reconhece como Mila, sua velha amiga de infância. Águeda a convida a passar as horas de escala em sua casa, com as mulheres da sua família. Enquanto 150 OBS* Journal, 2024, 18(3) Salomé luta para desmagnetizar a dolorosa ligação com a sua terra, o espírito do bairro a devolve à essência a que pertence. (Fernandes, 2020). Diante destas produções, cabe ressaltar o potencial do cinema na discussão e (re)construção crítica de visões sobre o ‘Outro’, como indicam Pereira, Macedo e Cabecinhas (2019). Através da realização de diversos grupos de discussão em estabelecimentos de ensino portugueses, as autoras analisaram perceções sobre o quotidiano dos “imigrantes” em Portugal, após o visionamento dos filmes Li ké terra (2010) e Cavalo dinheiro (2014). Embora identifiquem a persistência de estereótipos negativos e a pouca familiaridade dos estudantes com as questões relacionadas ao colonialismo, houve interesse e abertura à discussão, indicando como os filmes podem ser ferramentas importantes para iniciativas de intervenção social e contestação dos múltiplos eixos de desigualdade e exclusão. Classe 3. Memória histórica e conflitos Figura 6: Classe 3 Fonte: Elaboração própria com recurso ao software Iramuteq Por fim, na classe 3 (com 17,2% do corpus ), Figura 6, estão reunidas sinopses de filmes e outras produções audiovisuais caracterizadas por palavras como guerra, polícia, económico, pátria, África e pelotão, que parecem tratar de relações intergrupais e uma memória histórica fortemente relacionada a conflitos, sobretudo aqueles relacionados com as guerras coloniais (isto porque podemos considerar que as frentes da Primeira Guerra Mundial que se desenrolaram em Moçambique e Angola foram guerras coloniais, entre impérios coloniais) e lutas de libertação. Esse conteúdo reforça o entendimento de Macedo et al. (2023) de que, ao analisar o cinema português, devemos considerar a sua estreita ligação com a história contemporânea do país. Embora não haja um grande desenvolvimento na sinopse acerca do contexto da guerra e o seu impacto na narrativa apresentada, a curta metragem de ficção Capacetes é situada no período histórico da guerra colonial e exemplifica o conteúdo da classe: João e Artur são dois irmãos deixados numa missão de infiltração com o seu pelotão. Em plena guerra colonial portuguesa, e sem qualquer experiência sem ser a recruta, os dois vão ter de se desenrascar para sobreviver num ambiente extremamente hostil. Conseguirão os dois sobreviver, cumprindo o seu objetivo? (Santos, 2020). OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 151 A narrativa de guerra também é o tema central da longa-metragem de ficção Zacarias - Mozungo vai à guerra , apresentada pela sinopse: Sonhando viver grandes aventuras em França e defender a sua pátria, um jovem português se alista no exército durante a Primeira Guerra Mundial e acaba por ser enviado para combater em África. Deixado para trás pelo seu pelotão, parte numa dura caminhada pelo místico território indígena Macua, percorrendo a pé mais de mil quilómetros em busca do seu sonho. Zacarias Mozungo Vai à Guerra é uma série sobre a descoberta da vida, da verdade e da loucura dos homens, através da saga solitária de um jovem soldado perdido em África durante a Primeira Guerra Mundial (Pinto, 2018). Embora seja ficcional, a obra parece representar um grupo de produções relacionadas aos nacionalismos e à “defesa da pátria”, como dever cívico ou ainda ter como motivação falar de frentes “esquecidas” a Primeira Guerra Mundial. Narrativas que podem servir à justificação de conflitos e guerras. Essas narrativas podem ser pensadas em associação, inclusive, com a centralidade do conflito que tem sido destacada em estudos sobre as representações sociais da história mundial, nos quais eventos como a Primeira e a Segunda Guerra tendem a ser indicados dentre os mais importantes na história da humanidade (e.g., Cabecinhas & Brasil, 2019; Liu et al., 2005). Muitas narrativas que compõem esta classe referem-se à memória histórica do colonialismo português, como é possível observar na sinopse de Enviado especial : Documentário que retrata a história de vida de Aquino de Bragança, um intelectual e jornalista indiano, que teve como objetivo de vida lutar contra o colonialismo e ajudar Goa e todos os países africanos a obter a independência e a paz. É também a história da sua amizade com Samora Machel, que foi tragicamente selada por um acidente de avião, em 19 de outubro de 1986, onde ambos perderam a vida (Sousa, 2018). Produções como estas reforçam a necessidade de reconhecimento das diferentes visões da história e dos passados, sobretudo, aqueles de injustiça, desigualdade e sofrimento. Cardina (2016) ressalta que esse reconhecimento “depende do poder que os grupos sociais têm ou não para inscrever socialmente as suas narrativas e para desafiar as representações dominantes na sociedade” (p. 33). Cabe considerar que, nesta sinopse, Aquino de Bragança não é apresentado como um intelectual português, embora tenha nascido na então “Índia Portuguesa”. O jornalista e líder anticolonial foi radicado em Moçambique, tendo optado pela nacionalidade moçambicana depois da independência daquele país. A redução da sua nacionalidade a “indiano”, sem referir uma possível identificação enquanto “goês”, por exemplo, parece remeter para questões raciais, já que a palavra “indiano” é frequentemente usada como descritivo para todas as pessoas oriundas do sudeste asiático, indepentemente da sua nacionalidade, reforçando a sua homogeneização. Reafirmamos as potencialidades do cinema nesta tarefa de desconstrução crítica, pois o envolvimento de filmes como ferramentas em iniciativas de intervenção social e investigação-acção têm apresentado resultados importantes (Pereira, Macedo, & Cabecinhas, 2019). 152 OBS* Journal, 2024, 18(3) Considerações finais Neste artigo, refletimos sobre como o cinema pode constituir um espaço de ativismo mnemónico ao representar narrativas de alteridade e lançar luz sob temas como migrações, colonialismo e discriminação. Para isso, realizámos uma análise exploratória dos principais temas abordados pelos filmes e outras produções audiovisuais financiados em Portugal nos últimos anos. Além disso, dedicamos especial atenção às curtas-metragens com a finalidade de conhecer eventuais ênfases ou diferenças temáticas em comparação aos demais formatos. De entre os principais temas, destacaram-se a produção artística e artes em geral, vida quotidiana e relações interpessoais além da memória histórica e conflitos. Nas curtas-metragens, observamos a mesma tendência, mas um destaque para temas relacionados ao sentimento e aos espaços de pertença. Observamos algumas ausências significativas nas sinopses analisadas. Termos como “migrações”, “discriminação”, “racismo” e “colonialismo” praticamente não surgem nas sinopses. Porém, mesmo sem esses referenciais, identificamos narrativas relacionadas a tais questões, reforçando o papel que o cinema pode ocupar no combate às amnésias societais. Entre as limitações, ressaltamos que nesta investigação foi realizada a análise textual das sinopses e não uma análise de conteúdo dos filmes e produções audiovisuais. A construção de uma sinopse deve atender a questões formais e substantivas da obra que retrata, mas muitas vezes é também construída em função de demandas mercadológicas e mediáticas. Pode dar-se o caso de a pessoa responsável pela sinopse nem sempre corresponder à autora ou realizadora da obra. Não raras vezes essa tarefa é assumida pela equipa de distribuição (como na concepção do cartaz), logo, pode não ter o conhecimento devido da obra nem a preocupação para a retratar devidamente na sinopse, e orientá-la mais a intuitos comerciais e de divulgação. Investigamos, portanto, a forma como acontece a apresentação da obra ao público. Ainda assim, há variações de estilo e de conteúdo no desenvolvimento destes textos que não permitem generalizações. Com esta análise, visamos apenas fornecer um panorama ou mapeamento temático, considerando a grande quantidade de filmes financiados no período em análise. Outros elementos desta análise, como o recorte temporal estabelecido (2018 – 2022) e a opção por investigar produções que receberam financiamento público no período, também são limites à generalização dos resultados. O mapeamento das produções independentes, por vezes realizadas sem financiamento ou esquemas formais de produção cinematográfica, circulação e distribuição, é uma tarefa desafiadora para os próximos estudos, nos quais pretendemos analisar alguns desses filmes e explorar parte da produção cinematográfica fora da indústria mainstream em Portugal, tanto dentro quanto fora dos principais festivais de cinema, na expetativa de verem refletidas na tela as preocupações expressas de forma eventualmente menos constrangida e menos convencional, já que os filmes independentes se caracterizam pela abordagem mais autoral e liberdade criativa. Por fim, pretendemos abordar questões relacionadas ao consumo desses filmes e desenvolver novos estudos de recepção. Reiteramos a necessidade de mais visibilidade e discussões relacionadas às produções cinematográficas, com ênfase nas narrativas das pessoas que ocupam um lugar de alteridade no contexto português. Esse reconhecimento possibilita que novas histórias “entrem em cena”, em um trabalho de ativismo mnemónico e transformação social. OBS* Journal, 2024, 18(3) L. Lins, I. Macedo, R. Cabecinhas, J. Alves Brasil, A. Sá 153 Acknowledgements/Funding information This work was developed within the scope of the project “MigraMediaActs – Migrations, media and activisms in Portuguese language: decolonising mediascapes and imagining alternative futures” (PTDC/COMCSS/3121/2021), supported by national funds through F.C.T. – Foundation for Science and Technology, I.P, Portugal. Referências Bibliográficas Adichie, C. N. (2009). O perigo de uma história única . Companhia das Letras. Alto Comissariado para as Migrações. (2015). https://www.acm.gov.pt/-/dia-internacional-dos-migrantesjornadas-do-observatorio-das-migracoes Areal, L. (2011). Cinema português. Um país imaginado, vol. II – Após 1974 . Lisboa: Edições 70. Baptista, T. (2009). Nacionalmente correcto: a invenção do cinema português. 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