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Intervenção local com crianças e famílias face à pandemia COVID-19: ProChild CoLAB em Guimarães https://doi.org/10.21814/uminho.ed.24.4 Manuel Jacinto Sarmento Manuel Jacinto Sarmento (ORCID: 0000-0002-6556-9498) é Professor Associado do Instituto de Educação e membro do Centro de Investigação de Educação (CIEC) da Universidade do Minho. Gabriela Trevisan Gabriela Trevisan (ORCID: 0000-0003-0137-5034) é socióloga e investigadora do ProChild CoLAB. Helena Grangeia Helena Grangeia (ORCID: 0000-0002-5521-8352) é psicóloga e investigadora do ProChild CoLAB. Marlene Sousa Marlene Sousa (ORCID: 0000-0003-2991-3017) é psicóloga e investigadora do ProChild CoLAB. Inês Guedes de Oliveira Inês Guedes de Oliveira (ORCID: 0000-0003-2359-7842) é Professora Auxiliar do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro.
Adelina Paula Pinto Adelina Paula Pinto é Vice-Presidente da Câmara Municipal de Guimarães. Adriana Sampaio Adriana Sampaio (ORCID: 0000-0001-7347-1282) é Professora Auxiliar e Vice-Presidente da Escola de Psicologia e membro do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho. Bárbara Figueiredo Bárbara Figueiredo (ORCID: 0000-0002-8209-7445) é Professora Associada com agregação Escola de Psicologia e Diretora do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho. Gabriela Bento Gabriela Bento (ORCID: 0000-0003-4113-5692) é psicóloga e investigadora do ProChild CoLAB. Mariana Carvalho Mariana Carvalho (ORCID: 0000-0003-2081-3909) é arquiteta e investigadora do ProChild CoLAB. Teresa Freire Teresa Freire (ORCID: 0000-0001-5773-381X) é Professora Auxiliar da Escola de Psicologia e membro do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho.
Marlene Matos Marlene Matos (ORCID: 0000-0002-2194-839X) é Professora Auxiliar da Escola de Psicologia e membro do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho. Isabel Soares Isabel Soares (ORCID: 0000-0002-2707-7089) é Professora Catedrática da Escola de Psicologia e membro do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho.
69 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... INTRODUÇÃO A pandemia COVID-19 desenvolveu-se em Portugal, a partir de março de 2019, de forma acelerada, obrigando a adaptações muito rápidas das entidades públicas, dos serviços, das empresas e dos/as cidadãos/ãs, com vista a conter os seus efeitos sanitários, sociais e económicos. A incerteza que carateriza a sociedade contemporânea, em muitos dos seus domínios e setores, apresentou-se, desta vez, sob a forma microscópica de um vírus, capaz de, por si só, obrigar à alteração, com caráter de urgência, de hábitos consolidados, formas de sociabilidade ancestrais, planos e projetos de existência maduramente estabelecidos. Todos os setores da sociedade foram atingidos pela pandemia. No entanto, foram-no de forma distinta, em função das condições de desigualdade e de diversidade da estrutura social. Também essas diferenças se manifestaram no que respeita às gerações e etapas da vida. O vírus ataca de forma e com efeitos diferenciados as pessoas idosas, as pessoas adultas e as crianças. No caso da geração mais jovem, o impacto da pandemia manifestou-se a vários níveis: os quotidianos escolares foram substituídos por aprendizagens realizadas no espaço doméstico, com apoio televisivo e das ferramentas informáticas; o convívio familiar rotineiro ampliou-se em cada 24 horas, pela presença dos/as pais/mães no horário de trabalho, em situação de teletrabalho, de lay-off ou desemprego; a relação intergeracional com avôs/avós e parentes mais velhos/as viu-se subitamente interrompida, sob a ameaça da contaminação; a confraternização e a brincadeira entre pares deu lugar ao isolamento e à solidão, ou a interações visuais pelo telemóvel ou nas redes sociais; o espaço público foi condicionado em período de confinamento e não só os parques infantis foram encerrados, como a invisibilidade social das crianças ganhou uma expressão direta no esvaziamento das cidades, de repente despojadas dos seus munícipes mais jovens; algumas crianças, em situação de maior vulnerabilidade, sofreram diretamente os efeitos psicológicos, sociais e económicos da pandemia: tornaram-se mais expostas aos impactos na saúde mental das respetivas famílias, perderam, nalguns casos, o contacto com os/as professores/as e as escolas, nomeadamente pelo facto de não possuírem meios eletrónicos de contacto e sofreram carências alimentares por empobrecimento dos/as pais/mães.
70 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... Rapidamente, um conjunto de relatórios de grandes agências internacionais sinalizou os riscos e os perigos para as crianças e jovens face à pandemia COVID-19 e assinalou a imperatividade de medidas capazes de minimizar e contrariar os respetivos fatores (e.g., Alliance for Child Protection in Humanitarian Action, 2019; Bakrania & Subrahmanian, 2020; Reimers & Schleicher, 2020; International Commission on the Futures of Education, 2020). O conjunto dessas medidas apresenta alguns pontos comuns: devem ser adotadas medidas com urgência e acuidade; é fundamental que os seus contextos de aplicação sejam devidamente identificados, o que exige proximidade; é necessário que as ações sejam diversificadas, para atender à diversidade de situações, mas devidamente articuladas, de acordo com o princípio de diversificar com coerência; devem ser devidamente integradas e coordenadas; devem sustentar-se numa ética do cuidado, que é, também, a base de uma “economia do cuidado” (Reis, 2020); por último, devem basear-se no conhecimento científico e devem ser devidamente monitorizadas e avaliadas. Todos estes aspetos - acuidade, proximidade, diversidade com coerência, integração, ética do cuidado, fundamento científico - constituem a base de modelos de ação que assumem a criança como centro da intervenção, com a preocupação da promoção do seu desenvolvimento e bem-estar, na perspetiva da garantia dos seus direitos. Foi um modelo também assente nestes princípios aquele que se desenvolveu na intervenção com crianças face à pandemia COVID-19 no município de Guimarães, a partir da Câmara Municipal, em parceria com o ProChild CoLAB. O ProChild CoLAB é o laboratório colaborativo que tem por missão o combate à pobreza e à exclusão social na infância, enquadrado numa abordagem científica transdisciplinar que articula os setores público e privado. Constituído a partir da iniciativa da Universidade do Minho, conta como associadas as principais universidades portuguesas, empresas de referência nacional, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Município de Guimarães. O modelo integrado de intervenção nas crianças e famílias foi desenhado pelo ProChild CoLAB em estreita relação com a Câmara Municipal de Guimarães e constitui o programa de intervenção específica, articulando-se com outras ações do Município dirigidas para outros setores populacionais (designadamente para as pessoas idosas)
71 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... e para outros âmbitos de ação (nomeadamente a economia), bem como com as ações promovidas pelas autoridades e agentes locais de saúde. Este modelo é também complementar de medidas adotadas pelo município na resposta a necessidades identificadas nas crianças no que respeita, designadamente, à distribuição de alimentos, ao fornecimento de computadores e disponibilização de acesso à internet e ao apoio e acompanhamento social das famílias. No seu conjunto, o modelo procurou dar resposta às necessidades identificadas, nomeadamente no que respeita aos efeitos da pandemia na saúde mental das crianças, às necessidades educativas das crianças, ao acompanhamento do desenvolvimento, à promoção da parentalidade positiva e à promoção da ludicidade, no quadro de criação de condições de bem-estar pessoal e social. De seguida apresentar-se-ão os fundamentos do modelo, as suas especificações e as suas concretizações em projetos da intervenção realizada. 1 FUNDAMENTOS DO MODELO DE INTERVENÇÃO Um princípio base e transversal a todos os projetos do ProChild CoLAB é o desenvolvimento de respostas integradas e apoiadas na evidência científica, envolvendo a colaboração e articulação intersectorial entre a equipa de profissionais e os vários serviços de apoio à infância e às famílias na comunidade. Na fase de caracterização do território do Município de Guimarães e de auscultação dos/as profissionais das diferentes instituições (finais de 2019 e início de 2020), ficaram patentes diversas necessidades e dificuldades, entre as quais se salientam as relacionadas com a articulação de respostas e com a provisão de práticas que se sustentem em conhecimento empiricamente validado. Da mesma forma, foi salientada a importância de uma ação concertada, interdisciplinar e colaborativa entre os/as diferentes profissionais para a obtenção de resultados positivos e duradouros. Tornou-se evidente a importância do ProChild CoLAB assumir um papel catalisador e mediador entre os/as profissionais do Município de Guimarães, dando resposta às necessidades elencadas pelos/as mesmos/as.
72 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... Assim, no âmbito da sua atuação, o ProChild CoLAB propôs-se desenvolver um modelo colaborativo, intersectorial e multinível de formação de profissionais para uma intervenção centrada na criança e nos seus contextos de vida (as intervenções concretas serão apresentadas no ponto 4 deste texto). Este projeto abrange todo o território do Município de Guimarães e integra profissionais de diferentes áreas que, na sua prática, atuam ao nível dos contextos de saúde, educação e proteção. O objetivo é melhorar as práticas e políticas do município, introduzindo modelos empiricamente validados, não só ao nível da intervenção junto das crianças e famílias, mas também ao nível da atuação dos/as próprios/as profissionais. Este projeto baseia-se em modelos com evidência empírica da sua eficácia, fundamentando-se: (1) numa estratégia de implementação assente numa abordagem colaborativa e multinível; (2) no modelo Exploration, Preparation, Implementation and Sustainment (Aarons, Hurlburt, & Horwitz, 2011) que orienta as fases de operacionalização e de manutenção; (3) nos princípios do modelo IDEAS Impact Framework (Center on Developing Child, Universidade de Harvard) para a sua avaliação. Este projeto tem, assim, como missão primordial desenvolver, implementar e avaliar um modelo colaborativo, multinível e intersectorial de formação de profissionais para uma intervenção centrada na criança e na família a partir de práticas baseadas na evidência empírica. Especificamente, este projeto procura: (1) colmatar a lacuna existente ao nível da relação entre a ciência e a prática; (2) promover a adesão às práticas baseadas na evidência científica, bem como a sua sustentabilidade; (3) e fomentar o trabalho colaborativo e intersectorial entre profissionais, entidades e contextos comunitários, da saúde, da educação e da proteção à criança.
73 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... Neste sentido, este projeto visa assegurar não só a qualificação dos/as profissionais/atores sociais ao nível das práticas e modelos cientificamente válidos e eficazes, mas também as condições intra e intersectoriais para a sua implementação, cumprindo com os critérios de fidelidade, sustentabilidade e escala (Walsh, Rolls, Reutz, & Williams, 2015). Os seus objetivos não se esgotam, porém, nos/as profissionais, mas estendem-se às crianças, famílias e instituições do município. Com este modelo procura-se promover e agilizar, ao nível das crianças e respetivas famílias, o acesso a intervenções eficazes e adequadas às suas especificidades e necessidades, fomentando o seu bem-estar físico, psicológico e socioemocional. Ao nível das instituições, procura-se melhorar as suas práticas, tornando-as mais céleres e eficazes, potenciando os seus recursos. Por fim, ao nível do município tem como objetivo delinear uma ação concertada e empiricamente sustentada, melhorando as práticas relativas à intervenção na infância. No contexto da pandemia COVID-19, considerando os princípios enunciados, e com o objetivo de promover e assegurar a saúde, bem-estar, educação e proteção das crianças, foi desenvolvido o projeto “ProChild Collaborative Action Against COVID-19”. Assente nos princípios de uma intervenção comunitária colaborativa, intersectorial e multinível, este projeto procura dar resposta às múltiplas necessidades e desafios que crianças e famílias enfrentam neste período pandémico. E que necessidades e desafios são esses? 2 IMPACTO DA PANDEMIA COVID-19 NAS CRIANÇAS E FAMÍLIAS A pandemia COVID-19 está a ter implicações sociais e económicas significativas, que se repercutem no modo de vida de crianças, famílias e suas comunidades. Estes efeitos apresentam uma natureza desigualitária, não democrática, afetando particularmente indivíduos com vínculos laborais precários, com menor escolarização e ligados a ramos profissionais particularmente afetados pelas mudanças trazidas pela pandemia, como o turismo, a hotelaria e a restauração (Silva et al., 2020). De acordo com Rodrigues (2020), a pandemia COVID-19 acentuou desigualdades existentes (e.g., famílias dependentes do trabalho informal ficaram sem rendimentos e sem acesso a proteção social), fez emergir novas formas de desigualdade (e.g., a ligação de algumas crianças
74 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... ao sistema de ensino degradou-se e a capacidade de acompanhamento online dos conteúdos escolares mostrou-se muito dependente das condições sociais dos/as alunos/as) e enfraqueceu mecanismos de proteção e de combate às desigualdades (e.g., o encerramento das cantinas escolares impossibilitou o acesso a refeições gratuitas por parte de crianças que beneficiavam deste apoio; “confinaram-se” situações de violência doméstica, que não foram reportadas aos serviços de proteção). Paralelamente, surgem desafios sem precedentes no campo da saúde pública, nomeadamente que se refere à vigilância e mitigação dos impactos adversos e potencialmente traumáticos da pandemia nos indivíduos, famílias e comunidades. Apesar de a maioria dos indivíduos poder não desenvolver uma resposta traumática face ao cenário atual de adversidade, está já demonstrado que a perda, o medo e o stress, fortemente associados à COVID-19, exacerbam problemas de saúde mental já existentes e contribuem para uma maior incidência de perturbações relacionadas com o stress e o trauma (Qiu et al., 2020). Enquanto fator de stress, o atual cenário de pandemia apresenta características que acentuam a sua natureza traumática, nomeadamente a indefinição sobre a evolução e o limite temporal da pandemia, a mortalidade associada à infeção, a extensa cobertura mediática, o isolamento social, as perdas financeiras e/ou a potenciação das vulnerabilidades sociais (Horesh & Brown, 2020). A figura 1 esquematiza alguns dos efeitos da pandemia COVID-19 nos indivíduos, famílias, comunidade e sociedade. No cenário atual de pandemia, as crianças destacam-se como um grupo de risco no que respeita aos efeitos adversos na saúde mental (Qiu et al., 2020). A pandemia altera drasticamente os contextos de vida da criança, aumentando o risco ou agravando situações já existentes de desproteção nos contextos socioeconómicos, familiares ou de acolhimento (Sistovaris et al., 2020).
81 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... Uma das condições de sucesso em intervenção comunitária prende-se com a realização de diagnósticos sociais participativos e uma forte mobilização dos trabalhos em rede. “As parcerias ou redes sociais de parceiros são estruturas de ação integrada que põem em comum recursos com vista a atingir determinadas finalidades, como partilhar pertenças, fazer circular informação, produzir ajudas, mobilizar capital social, ligar os agentes económicos ou controlar as políticas públicas.” (Hespanha, 2008, p. 8-9). No entanto, e apesar das vantagens facilmente reconhecidas, Hespanha identifica dificuldades: legitimidade de intervenção (poder local/político versus instituições de terreno); cooperação institucional; participação e responsabilização; recursos e participação dos cidadãos. Finalmente, deverá ser tido em conta o risco da individualização das medidas. O modelo de intervenção agora desenhado, em particular atendendo à complexidade do momento socio-histórico em que nos encontramos, orienta-se pelos princípios enunciados e mobiliza os seus quadros de ação e metodologias de intervenção que sustentem o médio e longo prazo, centrando-se na multiplicidade de necessidades identificadas e na inovação da intervenção. O momento que vivemos implica aprender a trabalhar em complexidade, procurando o sucesso para os desafios que se possam colocar no futuro (Nissen, 2020). Pensar criativa e criticamente os papéis dos/as profissionais das diferentes áreas de intervenção, preparando-os/as para diferentes cenários designados de crise, torna-se imperativo. O ProChild CoLAB, em conjunto com a Câmara Municipal de Guimarães, definiu esta questão como a necessidade central da sua atuação em tempos de pandemia, nomeadamente na criação da figura do gestor de crise, com formação específica para atender a essa complexidade e incerteza na intervenção, refletindo sobre as particularidades dos seus territórios e das pessoas e grupos que os compõem. E de que forma poderá a intervenção comunitária responder aos desafios trazidos pela pandemia COVID-19? 3.2 Especificidades da intervenção comunitária em período de crise pandémica Face aos novos desafios trazidos pela pandemia foi necessário conceber a intervenção comunitária no âmbito de um modelo integrativo assente numa abordagem colaborativa, intersectorial e multinível à luz das orientações da intervenção em crise e
82 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações informada pelo trauma, por forma a responder às necessidades das famílias e das crianças, no que respeita à saúde física e mental, à proteção e à educação. Um programa, um sistema ou uma organização que é informada pelo trauma: (1) reconhece o impacto generalizado do trauma e as possíveis trajetórias para a recuperação; (2) reconhece sinais e sintomas nos indivíduos, famílias, profissionais e noutros/as envolvidos/as; (3) responde integrando conhecimento sobre políticas, procedimentos e práticas e (4) procura resistir ativamente à retraumatização (Samhsa, 2014). A abordagem informada pelo trauma baseia-se no conhecimento sobre o impacto dos acontecimentos potencialmente traumáticos em múltiplos domínios e ao longo da vida. É uma abordagem compreensiva e multinível, na medida em que reconhece o impacto destes acontecimentos: (1) no indivíduo, manifestando-se nas suas atitudes ou nos seus comportamentos; (2) nas relações, por exemplo, no sistema familiar ou na relação entre pares; (3) nas organizações, como a escola e (4) nas comunidades (Matlin et al., 2019; Tebes. Champine, Matlin, & Strambler, 2019). Em particular, a adoção desta abordagem possibilita o reconhecimento do potencial traumático trazido pela crise pandémica no desenvolvimento e organização de respostas comunitárias com reflexo a diferentes níveis (individual, relacional, organizacional, comunitário), durante e no período pós-pandemia. Para além disso, as ações que integram esta abordagem devem procurar ser específicas para responder no imediato às necessidades trazidas pela crise/ acontecimento traumático, mas também deverão ser suficientemente flexíveis para permitir a adaptação do indivíduo a novos stressores que possam surgir (Tebes et al., 2019). Esta é, por isso, uma abordagem que antecipa resultados a curto, médio e longo prazo. Do ponto de vista comunitário, torna-se essencial conjugar esforços de diferentes atores sociais e setores da comunidade para desenvolver respostas coordenadas e integradas para responder à crise, indo ao encontro das necessidades no imediato e para promover a resiliência, fazendo frente às consequências vindouras e à possibilidade de novas crises. É precisamente este o racional subjacente à concetualização das comunidades informadas pelo trauma (Matlin et al., 2019), que inspirou a proposta de modelo de intervenção comunitária de resposta à crise pandémica. Com o objetivo de desenvolver comunidades resilientes, as comunidades informadas pelo trauma procuram: 1) capacitar para a identificação precoce de risco psicossocial no sentido da promoção INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS...
83 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... da resiliência; 2) estabelecer redes intersectoriais e integradas de serviços e respostas; 3) partilhar informação e recursos comunitários e 4) difundir e incorporar princípios de uma abordagem informada pelo trauma nos serviços e políticas (Samhsa, 2014). É importante salientar que o modelo defendido por Matlin et al. (2019 para as comunidades informadas pelo trauma, que tem como proposta preparar as comunidades para responder às experiências adversas na infância (e.g., maus-tratos) e promover a sua resiliência, integra uma perspetiva de saúde das populações como complementar às práticas clínicas informadas pelo trauma. Ou seja, para além de uma perspetiva clínica focada na redução de sintomas e da perturbação causada pelo trauma, acresce a prevenção do risco psicossocial, a promoção da saúde e o desenvolvimento de políticas públicas. Nesta abordagem, o foco das respostas desloca-se das causas individuais da exposição ao trauma para os determinantes macrossociais da saúde, tais como a carência alimentar, o desemprego, a violência comunitária, as condições de habitação deficitárias, entre outras (Tebes et al., 2019). Um corolário desta perspetiva da saúde das populações aplicada a acontecimentos com potencial traumático, como é o caso da pandemia COVID-19, é a noção de que há desigualdades sociais na base da distribuição dos casos da doença. A perspetiva de saúde das populações direciona a atenção para essas desigualdades, uma vez que ao reduzi-las está a promover a saúde da população em geral. A proposta de Matlin et al. (2019) integra os princípios subjacentes à ciência da saúde das populações com aqueles que fundamentam a abordagem focada no trauma, daqui derivando um modelo tridimensional que deverá sustentar o fortalecimento das comunidades face à adversidade, como é o caso da atual crise pandémica. Este modelo tridimensional, representado na figura 2, consiste em três componentes: (1) uma abordagem que combina a prevenção do risco e a promoção da saúde com intervenções intencionalizadas para o tratamento, que deverá ser operacionalizada através de uma intervenção concertada e colaborativa entre os serviços da comunidade. Deve integrar intervenções mais abrangentes de promoção do bem-estar, implementadas independentemente da ocorrência da experiência potencialmente traumática/crise e respostas clínicas altamente
84 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... especializadas direcionadas para a redução da sintomatologia decorrente da experiência traumática; (2) uma estratégica socio-ecológica que opera ao nível individual, relacional, organizacional e comunitário; (3) intervenções focalizadas no trauma para as pessoas com sintomatologia traumática e universais para todos os indivíduos num contexto ou população, por exemplo, uma escola, um agrupamento de escolas, uma organização, uma comunidade ou um concelho. Figura 2. Modelo tridimensional da saúde das populações aplicado às práticas informadas pelo trauma (retirado de Matlin et al., 2019, p.4) Tebes et al. (2019) sugerem que este modelo tridimensional está alinhado com uma estratégica combinada de prevenção dos riscos e de promoção da saúde da população, o que ajuda a operacionalizar o próprio modelo. Importa considerar que uma abordagem híbrida deverá combinar estratégias universais, seletivas e indicadas, num continuum de intervenção, por forma a potenciar o impacto na saúde da população e os benefícios de cada ação. Como se traduzem estes princípios na intervenção em Guimarães, no âmbito do ProChild Collaborative Action Against COVID-19? APPROACH Treatment/ Prevention/ Healing Promotion Individual Relational LEVEL (Family, Couple, Peer) Organizational Community/ Systems Trauma-Specific TARGET Universal
85 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... 4 AÇÃO COLABORATIVA PROCHILD CONTRA A COVID-19 É baseado nos princípios elencados ao longo deste documento que o ProChild CoLAB tem vindo a desenvolver, em articulação com o Município de Guimarães, projetos de intervenção comunitária que têm por objetivo promover o bem-estar e a resiliência das crianças durante e após o período de pandemia COVID-19. Para tal, tem contado com a mobilização da rede social de emergência do município e da sua articulação com os profissionais dos setores da educação, saúde e proteção das crianças. As intervenções implementadas visam o reforço e a reorganização dos recursos existentes no sentido de uma intervenção comunitária multinível que se baseia em estratégias universais, seletivas e indicadas que serão adequadas às necessidades evidenciadas pelas crianças e famílias, tal como indicado na Figura 3. Serão apresentadas em seguida, cada uma destas estratégias. Figura 3. Definição de estratégias universais, seletivas e indicadas. Estratégias universais Apoio às creches Na reabertura das creches e jardins de infância, após o período de confinamento imposto pela pandemia, considerou-se importante disponibilizar um documento de apoio aos/às profissionais de educação de infância, no sentido de contribuir para Estratégias indicadas Estratégias seletivas Estratégias preventivas universais Dirigidas a indivíduos que exibem sinais de perturbação Dirigidas a subgrupos ou segmentos da população geral com características específicas identificadas como de risco Dirigidas à população geral sem prévia análise do grau de risco individual
86 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... um retomar positivo e tranquilo das crianças, famílias e profissionais a estes contextos. O documento intitulado “Redescobrir a qualidade em educação de infância em tempos de mudança”, salienta dimensões promotoras do bem-estar de todos na reativação destas respostas educativas, alinhando-se com as orientações publicadas pela Direção-Geral da Saúde, a 13 de maio de 2020, no âmbito da reabertura das creches. Procurou-se adotar uma visão construtiva, flexível e positiva face às exigências que a situação de pandemia impõe, sem se perder o foco em torno de aspetos considerados essenciais para a promoção do desenvolvimento e aprendizagem da criança: (i) comunicação com as famílias; (ii) autocuidado dos/as profissionais e trabalho colaborativo; (iii) promoção de relações interpessoais; (iv) abordagem pedagógica e organização do ambiente educativo e (v) articulação e cooperação intersectorial. Em cada temática, pretendeu-se suscitar a reflexão dos/as profissionais de educação de infância, formulando-se questões que apontam para possíveis formas de atuação face às problemáticas identificadas (e.g., “Em tempos de pandemia COVID-19 é necessário reduzir o número de crianças por sala. Como é que podemos tirar partido da redução do número de crianças? Na organização dos grupos, atendemos às características, preferências e competências de cada criança?”). Desta forma, destacou-se a pluralidade de alternativas para superar os desafios da pandemia e cumprir as orientações da Direção-Geral da Saúde, respeitando-se as especificidades de cada contexto. Através deste documento, reconhece-se o papel fundamental que os/as profissionais de educação de infância desempenham na vida das crianças e as múltiplas competências (e.g., flexibilidade, criatividade, trabalho de equipa) que apresentam face a períodos de maior desafio e imprevisibilidade. O documento foi disponibilizado no site do ProChild CoLAB e divulgado nas suas redes sociais. Paralelamente, foi enviado para todas as creches e jardins de infância do município de Guimarães através dos serviços da Câmara Municipal. Junto das creches de Pevidém, envolvidas no projeto “Desenvolvimento e Educação em Creche” do ProChild CoLAB, expressou-se também a disponibilidade da equipa para apoiar diretamente os/as profissionais destas instituições na superação de dificuldades decorrentes da situação de pandemia.
87 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... ProChild Kit(e) Como dissemos anteriormente, com o afastamento das crianças das escolas e do espaço público, tornou-se clara a necessidade de desenvolver umprojeto de intervenção multidisciplinar direcionado a crianças do1º ciclo do ensino básico, no sentido de minimizar os efeitos da pandemia COVID-19 no dia-a-dia das crianças, considerando as mudanças profundas e repentinas que se fizeram sentir nos modos de interação e no isolamento em relação aos pares e aos adultos de referência. Neste sentido, considerou-se que através da educação não formal e, consequentemente, através da ação dos professores de Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), seria o meio mais eficaz de se chegar às crianças e de se encontrarem respostas que contrariassem os efeitos da pandemia COVID-19 no dia a dia das crianças. O Kit(e)-KidsTransformingEducation-é composto por um conjunto de estratégias e ferramentas educativas para professores/as, estruturadas por temas, pretendendo contribuir para a concretização dos seguintes objetivos específicos: criar/ trabalhar/concretizar oportunidades de desenvolvimento de competências múltiplas nas crianças; identificar, apoiar e encaminhar crianças que experienciassem dificuldades emocionais e comportamentais, fornecendo conhecimentos e estratégias úteis aos professores para atuar nestas situações; criar oportunidades de formação para professores/as das AEC sobre competências socio-emocionais e acompanhamento das crianças em situação de pandemia. O Kit(e) envolveu diretamente 46 professores AEC, das áreas da atividade física e desportiva e das artes performativas, a trabalhar com diferentes escolas do 1º ciclo do ensino básico do município no âmbito dos projetos desenvolvidos pelas cooperativas municipais “A Oficina” e a “Tempo Livre” e um conjunto de turmas, cuja seleção foi feita pelos próprios professores, atendendo ao conhecimento existente sobre as crianças e aos objetivos do projeto. Foram construídas 3 propostas de atividades a serem desenvolvidas e dinamizadas pelos professores, à distância com os seus alunos. Estas atividades tinham como pano de fundo a Casa como contexto de vida das crianças.Desenvolveram-se, para tal,
88 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... várias sessões de trabalho com os professores, de apoio às atividades a realizar com as crianças, formação sobre temáticas específicas como a identificação e acompanhamento de crianças que experienciem dificuldades emocionais e ainda formação nas tutorias emocionais. A par destas sessões, recorreu-se à Plataforma +Cidadania e a partir das suas funcionalidades criou-se um espaço de comunicaçãovirtualdireta entre os professores AEC e as crianças, bem como se criaram fóruns de discussão para promover a reflexão dos professores sobre a importância do brincar e do papel do adulto nesse processo e um banco de recursos, para que os professores pudessem consultar para atividades que desejassem desenvolver no futuro. Com oProChildKit(e) foi possível atingir os objetivos propostos, nomeadamente a redução do afastamento das crianças do espaço escolar, ainda que efetuado virtualmente e o desenvolvimento de competências dos professores AEC, nomeadamente no acompanhamento das crianças e na aprendizagem de estratégias educativas inovadoras no âmbito da educação não-formal. Estratégias seletivas Gestores ProChild para a infância No âmbito da intervenção em crise na infância, uma das estratégias implementadas foi a constituição e capacitação de um grupo de profissionais do setor da educação -Gestores ProChild para a Infância. Estes/as gestores/as de crise constituíram-se como figuras de referência num trabalho de mediação e proximidade junto das crianças e respetivas famílias e em estreita articulação com as respostas municipais e da comunidade. A atuação destes profissionais de primeira linha teve por objetivo a mitigação dos efeitos da pandemia e do confinamento na saúde e bem-estar das crianças, sobretudo nos casos de maior vulnerabilidade social. As suas funções passaram por: 1) estabelecer uma relação de apoio, restabelecer a segurança, garantindo o conforto físico e emocional de crianças e famílias; 2) ajudar a identificar as suas preocupações e necessidades imediatas; 3) oferecer apoio prático e dar informações úteis; 4) (re)estabelecer o
89 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... contacto das pessoas com a sua rede de apoio social; 5) articular as respostas da comunidade face às necessidades identificadas. O modelo de trabalho do ProChild CoLAB junto destes gestores incluiu um plano de formação para a definição de um perfil consistente de competências de comunicação, de apoio e de gestão de crise, bem como o acompanhamento e a supervisão do trabalho dos/as gestores. Este modelo foi implementado entre abril e julho de 2020, tendo sido realizadas oito sessões de acompanhamento, formação e supervisão do trabalho dos/as gestores, realizadas via videoconferência. Estas sessões permitiram: 1. identificar temáticas relevantes para a atuação dos/as gestores e desenvolver competências associadas através da formação e da disponibilização de materiais de apoio para o efeito (e.g., autocuidado para profissionais de primeira linha, comunicação com as crianças em contexto ou situação de crise, identificação e avaliação dos riscos psicossociais nas crianças em período pandémico); 2. monitorizar os casos acompanhados pelos/as gestores/as através de uma ficha de monitorização de caso. Os dados obtidos a partir desta ficha de monitorização foram compilados em relatórios periódicos e alvo de análise e discussão pelo grupo, em cada sessão; 3. supervisionar a atuação e as práticas dos/as gestores/as através da apresentação e discussão de casos concretos, partilhados na sessão pelas suas particularidades, complexidade ou especial gravidade; 4. Promover a articulação com outras entidades (e.g., gestores do território, agrupamentos de escolas, CPCJ), estabelecendo-se canais de comunicação direta entre entidades e serviços que possibilitaram a implementação de respostas integradas. Os 12 gestores/as para a infância atenderam 107 casos durante a primeira fase de implementação deste modelo. As prioridades de intervenção acompanharam a evolução da pandemia e das medidas de contingência aplicadas. Numa primeira fase, priorizaram-se respostas de primeira necessidade, nomeadamente de apoio à habitação, à alimentação e despesas da casa e à aquisição de bens de primeira necessidade (e.g., vestuário, calçado, óculos). Na fase pós-confinamento, com a reabertura das creches e
90 A Universidade do Minho em tempos de pandemia (Re)Ações INTERVENÇÃO LOCAL COM CRIANÇAS... jardins de infância, surgiram com mais frequência necessidades de acompanhamento da situação familiar, encaminhamento para ATL e de apoio psicológico. No que respeita às áreas críticas de intervenção identificadas no acompanhamento de pessoas adultas, destacaram-se as preocupações com a doença (COVID-19) e com a vida após a pandemia, bem como as perdas de recursos. Foram também críticos os sinais de perturbação emocional tanto nas pessoas adultas como nas crianças, sendo que foi esta a área que mais se destacou como de particular importância no apoio às crianças. Estratégias indicadas Com a finalidade de providenciar estratégias indicadas à resolução dos problemas de saúde mental relacionados com a pandemia nas crianças do município de Guimarães, foi desenvolvido e está atualmente em curso um projeto de investigação-ação que inclui um estudo clínico com o objetivo estudar a efetividade dos procedimentos de rastreio, avaliação e intervenção psicológica indicados, especificamente delineados considerando os efeitos da pandemia na saúde mental das crianças dos 3 aos 10 anos de idade e respetivas famílias, e suscetíveis de serem replicados noutros contextos comunitários. Desta forma, a participação dos agentes comunitários necessários à realização desta iniciativa foi ativada, nomeadamente a Câmara Municipal de Guimarães, o ProChild CoLAB, o Centro de Investigação em Psicologia da Universidade do Minho (CIPsi) e a Associação de Psicologia da Universidade do Minho (APsi-UMinho). As estratégias indicadas integram-se de forma sequencial e consistem em: 1. Rastreio de problemas ou perturbação psicológica nas crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 10 anos do ensino pré-escolar e primeiro ciclo da rede pública do Município de Guimarães, tal como reportados pelos/as encarregados/as de educação (e titulares das responsabilidades parentais) em questionários preenchidos na plataforma ProChild integrada com a plataforma +Cidadania (https://maiscidadania.cim-ave.pt/). 2. Avaliação psicológica das crianças que pontuam acima do ponto de corte no rastreio, a qual é realizada com base nas respostas dos/as encarregados/as de educação (e titulares das responsabilidades parentais) a questionários preenchidos na