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Universidade do Minho Escola de Psicologia Daniela Sofia Oliveira Ramos O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas junho de 2024 O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas Daniela Ramos UMinho | 2024
Universidade do Minho Escola de Psicologia Daniela Sofia Oliveira Ramos O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia da Justiça Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Olga Cunha e da Professora Doutora Sónia Caridade junho de 2024
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos A conclusão desta dissertação marca o fim de uma jornada de grande aprendizagem e crescimento pessoal e académico. Este trabalho não teria sido possível sem o apoio e a contribuição de diversas pessoas, às quais estou profundamente grata. Em primeiro lugar gostaria de agradecer às minhas orientadoras Professoras Doutoras Olga Cunha e Sónia Caridade, pela excelente orientação que me foi dada. Obrigada por toda a disponibilidade, paciência e motivação ao longo destes meses. Aos meus pais, que ao longo destes anos foram a minha maior motivação. Obrigada por todo o carinho, amparo e por depositarem em mim tanta confiança. Sem vocês não seria possível. Ao Pedro, por estar lá em todos os momentos de conquista e de dúvida. Obrigada por teres aturado os meus momentos de desamparo e por acreditares em mim. Agradeço ao meu bloquinho por todo o suporte ao longo destes anos. Obrigada por cada mensagem, cada momento e cada partilha de inseguranças. São o melhor que Braga me deu. À Andreia e à Bessinha pela compreensão do meu desaparecimento, que mesmo depois de tanto tempo longe, estão cá para mim e a ajudarem-me a finalizar esta etapa. À Ana Beatriz, à Marina e à Lomba que foram sem dúvida um grande apoio durante estes meses. Obrigada por todas as partilhas, risos e aventuras. Acredito que o futuro nos reserva coisas bonitas. Agradeço à Gamelas, que ao logo deste ano foi o meu porto de abrigo. Obrigada pelo companheirismo, pelas alegrias e choros partilhados, pelas infindáveis viagens entre EP’s, por cada conversa e acima de tudo por me fazeres sentir que não estava sozinha. Sem ti, tudo tinha sido muito mais difícil. Por fim, a todos os indivíduos com quem contactei nos diferentes estabelecimentos prisionais, obrigada pela disponibilidade, alegria contagiante e partilha de histórias.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, Assinado por: Daniela Sofia Oliveira Ramos Num. de Identificação: 30714127 Data: 2024.06.07 11:39:48+01'00'
v O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas Resumo A psicopatia pode ser caracterizada por traços como falta de empatia, manipulação e comportamento antissocial, frequentemente associada a défices no processamento emocional. Estes défices têm sido relacionados com comportamentos criminosos e violentos. Este estudo tem como principal objetivo comparar o processamento emocional de indivíduos do sexo masculino em reclusão com maior propensão para traços psicopáticos e indivíduos com menor propensão para traços psicopáticos. A amostra integrou 144 indivíduos em situação de reclusão em Portugal, com idades compreendidas entre 22 e 76 anos ( M = 39.13, DP =11.03). De forma a recolher a informação necessária utilizou-se um questionário sociodemográfico e jurídico, o SRP-SF e o EPS-25. Foram formados dois grupos cada um com 72 indivíduos tendo em conta a sua maior ou menor propensão para traços psicopáticos. Os resultados revelaram que reclusos com maior propensão para traços psicopáticos apresentavam maiores dificuldades no processamento emocional. Verificou-se ainda que indivíduos com maiores pontuações na dimensão afetiva do SRP-SF evidenciavam maiores dificuldades no processamento emocional. Os resultados deste estudo mostram-se relevantes para a identificação de estratégias mais eficazes no domínio da reabilitação e da prevenção de comportamentos em indivíduos com traços psicopáticos. Palavras-chave: Processamento emocional; psicopatia; reclusão; traços psicopáticos.
vi Emotional Processing in Male Inmates: A Comparison between Psychopaths and NonPsychopaths Abstract Psychopathy is characterised by a lack of empathy, manipulation and antisocial behaviour, often associated with deficits in emotional processing. These deficits have been linked to criminal and violent behaviour. The main aim of this study was to compare the emotional processing of male inmates with a higher propensity for psychopathic traits and those with a lower propensity for psychopathic traits. The sample comprised 144 individuals incarcerated in Portuguese prisons, aged between 22 and 76 (M = 39.13, SD = 11.03). In order to collect the necessary information, a sociodemographic and legal questionnaire, the SRP-SF and the EPS-25 were employed. Two groups were formed, each with 72 individuals, according to their greater or lesser propensity for psychopathic traits. The findings indicated that individuals with a higher propensity for psychopathic traits exhibited greater difficulties in emotional processing. Additionally, it was observed that those with higher scores on the affective dimension of the SRP-SF demonstrated greater difficulties in emotional processing. The results of this study have implications for the development of more effective strategies in the field of rehabilitation and behavioural prevention for individuals with psychopathic traits. Keywords: Emotional processing; psychopathy; reclusion; psychopathic traits.
vii Índice Enquadramento Teórico ....................................................................................................................... 9 O Processamento Emocional............................................................................................................ 9 A Psicopatia .................................................................................................................................. 10 Influência da Psicopatia no Processamento Emocional .................................................................. 11 Processamento Emocional em Psicopatas Vs. Não Psicopatas ....................................................... 14 Método ............................................................................................................................................. 16 Participantes .................................................................................................................................. 16 Instrumentos/Medidas ................................................................................................................... 18 Questionário sociodemográfico e sociojurídico ...................................................................... 18 Escala de autorrelato de psicopatia – Forma breve (SRP-SF) ................................................ 18 Escala de Processamento Emocional (EPS-25) .................................................................... 19 Procedimento ................................................................................................................................ 20 Análise de Dados ........................................................................................................................... 20 Resultados ....................................................................................................................................... 21 Discussão......................................................................................................................................... 26 Referências ...................................................................................................................................... 32 Índice de tabelas Tabela 1 - Caracterização sociodemográfica e jurídica dos participantes……………………………………..…17 Tabela 2 - Comparação de médias entre indivíduos com maior e menor propensão para traços psicopáticos……………………………………………………………………………………………………………………..21 Tabela 3Correlação entre as escalas SRP-SF e EPS-25 e suas dimensões…………………………………….24 Tabela 4 - Frequências e resultados do teste Qui-Quadrado sobre associações entre características sociodemográficas e jurídicas e propensão para traços de psicopatia……………………………………………25
14 Processamento Emocional em Psicopatas e Não Psicopatas A literatura que procura analisar o processamento emocional de indivíduos psicopatas e não psicopatas tem vindo a revelar um maior défice no processamento emocional associado a indivíduos psicopatas (Bagley et al., 2009; Brook & Kosson, 2013; Habel et al., 2002). Habel et al. (2002) verificaram que, numa tarefa de distinção de rostos tristes e felizes, indivíduos psicopatas cometiam mais erros do que o grupo de controlo formado por não-psicopatas. Uma outra investigação, de Bagley et al. (2009), ao compararem indivíduos psicopatas e não psicopatas numa tarefa de reconhecimento de afeto vocal, verificou que os psicopatas tendiam a apresentar mais dificuldades na classificação das pistas semânticas da fala e apresentaram défices específicos para felicidade e tristeza nessa condição. Por fim, segundo o estudo de Brook e Kosson (2013) indivíduos psicopatas foram menos precisos do que os não psicopatas ao classificar os estados emocionais dos outros a partir de pequenos clipes de vídeo. Contudo, existem estudos que não encontraram estas diferenças. Um exemplo é a investigação de Glass e Newman (2006), que demonstrou que indivíduos psicopatas ao serem solicitados para fazer corresponder uma expressão facial com uma emoção, não apresentaram mais dificuldade na tarefa do que o grupo de controlo formado por indivíduos não psicopatas. Uma das explicações para a presença ou ausência de diferenças no processamento emocional de indivíduos psicopatas e não psicopatas relaciona-se com os subtipos de psicopatia. Segundo Karpman (1948), existem dois tipos de psicopatas, os primários e os secundários. Os psicopáticos primários caracterizados por apresentarem um comportamento manipulador, relações superficiais, ausência de culpa, medo e ansiedade, apresentam uma maior pontuação no fator 1 da PCL-R. Os psicopatas secundários, caracterizados por problemas emocionais associados a neuroticismo, impulsividade, agressão, reatividade emocional, apresentam maior pontuação no fator 2 da PCL-R. Neste sentido, a literatura tem vindo a corroborar o facto de indivíduos que pontuam de forma elevada no fator 1 apresentem um défice no processamento afetivo, já os que pontuam mais no fator 2 têm de forma diferenciada uma resposta emocional sensível (Pires, 2017; Zeier & Newman, 2013). Existem também fatores de confusão que podem influenciar o processamento emocional em ambos os grupos. Segundo Marshall e Cooke (1999), o trauma na infância pode ser considerado um fator de confusão uma vez que experiências traumáticas durante a infância, como abuso físico ou emocional, podem impactar no processamento emocional em ambos os grupos, mas especialmente em
15 indivíduos psicopatas. O ambiente familiar é outro fator de grande importância uma vez que a qualidade deste pode desempenhar um papel significativo, já que a falta de suporte emocional ou ambientes familiares disfuncionais podem afetar negativamente o processamento emocional em ambos os grupos (Farrington & Bergstrøm, 2006). Por fim, segundo Dahl (1998), a presença de outras condições psiquiátricas, como perturbações de ansiedade ou depressão, pode influenciar a expressão de comportamento psicopático e o processamento emocional. Além disto, a investigação tem vindo a revelar algumas variáveis moderadoras que influenciam o processamento emocional de psicopatas e não psicopatas. Alguns exemplos são, os fatores genéticos, no sentido em que alguns indivíduos podem ter uma predisposição genética que influencia a expressão de traços psicopáticos (Hicks & Drislane, 2018); as habilidades de cognição social, como a empatia, podem moderar a forma como os indivíduos psicopatas e não psicopatas processam emoções dos outros (Hicks & Drislane, 2018); e o ambiente prisional para indivíduos com histórico criminal constitui uma variável moderadora importante, uma vez que as condições na prisão e a interação com outros reclusos podem influenciar a expressão de comportamento psicopático e o processamento emocional (Pires, 2017). Os estudos sobre o processamento emocional em reclusos têm contribuído para um entendimento mais abrangente, revelando semelhanças com as dinâmicas emocionais observadas em contextos de não reclusão. Num de estudo de Kosson et al. (2006) verificou-se que reclusos psicopatas com perturbação de personalidade antissocial exibiram menos facilitação emocional ao tomar decisões de lexicalidade em comparação com reclusos não psicopatas com e sem perturbação de personalidade antissocial. No mesmo sentido, Hastings et al. (2008) encontraram em pessoas em situação de reclusão uma associação significativa entre a habilidade na identificação de diferentes categorias emocionais e o nível de psicopatia, sendo que a capacidade em identificar emoções era tanto pior quando maior fosse o grau de psicopatia. Tendo em conta a revisão da literatura, é pertinente estudar o processamento emocional em reclusos do sexo masculino com maior propensão para traços psicopáticos, comparativamente a indivíduos com menor propensão, dado que as dificuldades no processamento de informações emocionais associadas à psicopatia interferem na socialização moral e aumentam o risco de comportamento antissocial (Wootton et al., 1997). Desta forma, ao analisar o processamento emocional em pessoas em situação de reclusão, que mantém a sua socialização dentro de um estabelecimento
16 prisional, podemos antecipar comportamentos e propor medidas e estratégias mais eficazes na área da reabilitação e prevenção do comportamento antissocial. Este estudo tem como principal objetivo comparar o processamento emocional de indivíduos masculinos em reclusão com maior propensão para traços psicopáticos com indivíduos com menor propensão para traços psicopáticos. De forma mais específica, pretende-se também perceber se existe alguma relação entre pontuações mais elevadas na subescala afetiva do SRP-SF e maiores défices no processamento emocional. Segundo Blair et al. (2002), indivíduos psicopatas apresentam mais dificuldades em processar demonstrações de tristeza e medo, sejam elas na modalidade visual ou auditiva. Noutro estudo, de Verona et al. (2004), com o objetivo de analisar diferenças relacionadas à psicopatia na reatividade a sons emocionais versus neutros, verificou-se que indivíduos com elevado grau de psicopatia não discriminam normalmente entre pistas não emocionais e emocionais. Estes autores concluíram ainda que os dados recolhidos sustentam a hipótese de que a psicopatia está associada não só a défices na ativação defensiva (medo), mas também à falta de resposta a sinais agradáveis. Patrick et al. (1994) confirmaram que indivíduos com características de personalidade psicopáticas mostraram reduzidas alterações fisiológicas a imagens de medo em relação a imagens neutras comparativamente a indivíduos com baixos níveis de psicopatia. Relativamente à relação entre características afetivas da psicopatia e défices no processamento emocional, o estudo de Garofalo et al. (2018) encontrou que indivíduos que pertenciam a um subgrupo com maior desregulação emocional manifestavam mais características psicopáticas afetivas, em comparação com os outros dois subgrupos classificados com baixa e média desregulação emocional. Assim, e tendo em conta a literatura apresentada, espera-se que indivíduos em reclusão com maior propensão para traços psicopáticos apresentem um maior défice no processamento emocional comparativamente com indivíduos em reclusão com menor propensão para traços de psicopatia. Hipotetiza-se também que pontuações mais elevadas na subescala afetiva da psicopatia estejam associadas a maiores défices no processamento emocional. Método Participantes A amostra do presente estudo foi constituída por 144 indivíduos do sexo masculino que se encontravam a cumprir pena de prisão efetiva ou preventiva em estabelecimentos prisionais no norte de
17 Portugal, maiores de 18 anos e considerados imputáveis. A maioria dos participantes eram portugueses ( n = 138; 95.8%), com uma média de idades de 39.13 anos ( DP = 11.03), variando entre os 22 e 76 anos. No que concerne às habilitações académicas, verificou-se que uma maior percentagem de indivíduos completou o 3º ciclo de estudos (34.7%), seguido do 2º ciclo (31.3%) e do ensino secundário (21.5%). A maioria dos indivíduos encontrava-se condenado (86.1%), com uma média de tempo de condenação de 96.92 meses (aproximadamente 8 anos) ( DP = 79.02). 47.2% dos indivíduos eram reincidentes. (cf. Tabela 1). Tabela 1 Caracterização sociodemográfica e jurídica dos participantes Variáveis Amostra N % Nacionalidade Portuguesa 138 95.8 Portuguesa e outra 5 3.5 Outras 1 .7 Habilitações académica 1º ciclo 8 5.6 2º ciclo 45 31.3 3º ciclo 50 34.7 Secundário 31 21.5 Ensino superior 10 6.9 Situação Jurídica Condenado 124 86.1 Preventivo 20 13.9 Status de reincidência Primário 76 52.8 Reincidente 68 47.2 Punições disciplinares Sem punições 83 57.6 Com punições 61 42.4 Consumos a
18 Sem consumos 47 32.6 Com consumos 95 68.1 Álcool 3 2.1 Droga 64 44.4 Álcool e droga 28 19.4 Início dos consumos b Antes dos 12 anos 7 4.9 Entre os 12 e os 16 anos 58 40.3 Depois dos 16 anos 30 20.8 Nota . a Não foi possível averiguar o historial de consumos em 2 participantes, o que corresponde a uma percentagem de 1.4% de omissos; b Não foi possível apurar o início de consumo para 3 indivíduos correspondendo a uma percentagem de 2.1% de omissos. Instrumentos De forma a obter os dados necessários para esta investigação utilizou-se um questionário para reunir as informações sociodemográficas e jurídicas, a Escala de Autorrelato de Psicopatia – Forma Breve (SRP-SF) e a Escala de Processamento Emocional (EPS-25). Questionário sociodemográfico e sociojurídico Este questionário foi desenvolvido com o objetivo de recolher informações relativas à idade, situação jurídica atual, reincidência e antecedentes criminais para a caracterização da amostra. A recolha desta informação realizou-se através de entrevistas. Escala de Autorrelato da Psicopatia – Forma breve (SRP-SF) A Escala de Autorrelato da Psicopatia – Forma breve (SRP-SF) é uma medida de autorrelato que pretende avaliar a propensão de indivíduos para traços de psicopatia (Seara-Cardoso et al., 2019). Esta resultou da abreviação da Escala de Autorrelato da Psicopatia (SRP) desenvolvida por Hare, em 1980. A SRP-SF foi revista em 2016, por Paulhus e colaboradores, sendo posteriormente validado para a população portuguesa, em 2019, por Ana Seara Cardoso. O instrumento é composto por 29 itens, segue a mesma estrutura fatorial da PCL–R e avalia quatro facetas da psicopatia – interpessoal (INT), afetiva (AFF), estilo de vida (LIF) e antissocial (ANT). Cada subescala é composta por sete itens, exceto a subescala ANT que é formada por oito itens. Estes são respondidos numa escala de Likert de cinco
19 pontos, em que um ponto diz respeito à afirmação “discordo fortemente” e cinco pontos a “concordo plenamente” (Seara-Cardoso et al., 2019). As pontuações de cada faceta são obtidas através da soma das pontuações dos itens individuais correspondentes (Seara-Cardoso et al., 2019). A faceta INT avalia características antissociais encobertas, como mentira patológica e manipulação; a subescala AFF explora os aspetos afetivos da psicopatia, como dificuldade em sentir empatia e falta de culpa ou preocupação com os outros; a LIF averigua comportamentos impulsivos e imprudentes; já a faceta ANT explora comportamentos antissociais evidentes (Seara-Cardoso et al., 2019). A pontuação total é obtida através da soma das pontuações de cada faceta, sendo que pontuações mais elevadas indicam níveis mais elevados de traços de psicopatia. A SRP-SF na população portuguesa apresenta uma alta consistência interna (α = .87) (Seara-Cardoso et al., 2019). No presente estudo, os valores de alfa revelaram uma boa a muito boa consistência interna variando de .64 a .81 nas subescalas e .91 para a escala total. Escala de Processamento Emocional (EPS-25) A Escala de Processamento Emocional (EPS-25) é uma medida de autorrelato projetada para medir estilos e défices de processamento emocional (Baker et al., 2010). Esta foi revista por Baker e colaboradores em 2009 e a sua validação para o contexto português foi realizada por Leitão e Torres em 2015. A EPS-25 apresenta uma estrutura composta por 25 itens e cinco dimensões – evitamento, supressão, controlabilidade, experiência emocional empobrecida e sinais de emoção não processada (Baker et al., 2010). Cada dimensão é composta por cinco itens e estes são respondidos segundo uma escala gradual que abrange respostas desde 0 ( discordo totalmente ) até 9 ( concordo totalmente ). A pontuação total é calculada através da soma das cotações de cada item e dividindo pelo número total de itens (Baker et al., 2010). A dimensão evitamento permite analisar o evitamento experiencial ou interno de estímulos emocionais; a supressão permite a avaliação da supressão de estados emocionais negativos e da sua expressão; a controlabilidade averigua a incapacidade de controlar emoções negativas intensas e orientadas para o exterior; a experiência emocional empobrecida possibilita a identificação de experiências emocionais empobrecidas; por fim a dimensão sinais de emoções não processadas avalia exatamente sinais de emoção não processados (Lauriola et al., 2021). No que diz respeito à consistência interna da escala, esta classifica-se como alta, apresentando um valor de alfa de Cronbach de .92 (Baker et al., 2010). Neste estudo, obteve-se um alfa para a escala total de 0.91. Calcularam-se ainda os alfas de Cronbach para as diferentes subescalas: supressão =.68, sinais de emoção não processada =.77, controlabilidade =.83, evitamento =.62 e experiência emocional empobrecida =.79.
20 Procedimento Para a execução deste projeto, inicialmente, solicitou-se à Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) uma autorização para a recolha de dados nos estabelecimentos prisionais (EP). Seguidamente, foi realizado um pedido para a utilização dos questionários SRP-SF (Seara-Cardoso et al., 2019) e EPS-25 (Leitão & Torres, 2015) aos respetivos autores. De igual modo, o projeto foi submetido a apreciação da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho no sentido de salvaguardar a todas as questões éticas subjacentes à investigação. Após a apreciação e autorização por parte de todas as entidades, o estudo foi divulgado nos EPs selecionados. Após a identificação dos reclusos que manifestaram interesse em colaborar no estudo, os mesmos foram contactados pela equipa de investigação para que, após explicados os objetivos do estudo, assinassem o consentimento informado, onde foi declarada a confidencialidade e o anonimato dos dados recolhidos. Após a recolha dos consentimentos, em sessões de aproximadamente 20 minutos, procedeu-se ao preenchimento das informações sociodemográficas e jurídicas de cada participante bem como às medidas de autorrelato. Análise de Dados A análise de dados realizou-se com recurso ao software estatístico SPSS Statistics 29.0. No sentido de caracterizar a amostra realizaram-se análises descritivas das variáveis sociodemográficas e jurídicas através das médias, desvios-padrão e frequências. Por forma a testar as hipóteses de investigação, dividiu-se a amostra de 144 participantes em dois grupos, cada um com 72 participantes, tendo em conta a maior ou menor propensão dos indivíduos para traços de psicopatia. Esta categorização dos indivíduos formulou-se tendo por base as pontuações totais obtidas no SRP-SF. Neste sentido, indivíduos que obtiveram pontuações maiores ou iguais a 70, constituíram o grupo de indivíduos com maior propensão para traços de psicopatia. Já os indivíduos que pontuaram abaixo de 70 formaram o grupo com menor propensão para traços de psicopatia. Com o objetivo de averiguar se as médias do processamento emocional nos dois grupos diferiram significativamente uma da outra (hipótese 1), verificou-se o pressuposto de normalidade e, posteriormente, utilizou-se o teste de diferenças em contexto de design inter-sujeito, recorrendo-se ao teste t para amostras independentes (Martins, 2011). Ademais, de forma a analisar a relação entre as pontuações dos sujeitos na subescala afetiva do SRP-SF e no processamento emocional (hipótese 2), recorreu-se ao coeficiente de correlação de Pearson (Martins, 2011). Numa análise final, averiguou-se a eventual existência de associações entre as variáveis
21 sociodemográficas e jurídicas e os dois grupos de indivíduos, recorrendo-se, para tal, ao teste de Quiquadrado. Resultados Comparação do processamento emocional entre indivíduos com maior e menor propensão para traços psicopáticos Como se pode observar na tabela 2, a média do processamento emocional para o grupo com maior propensão para traços psicopáticos foi de 4.86 ( DP = 1.64) e a média da pontuação do grupo com menor propensão para traços psicopáticos foi de 3.72 ( DP = 1.60). Os resultados das análises mostraram que existem diferenças estatisticamente significativas entre os grupos ao nível do processamento emocional, t (139) = 4.15, p < .001, com um tamanho de efeito médio a grande, d = .69. Assim, o grupo com maior propensão para traços psicopáticos obteve resultados mais elevados, sendo tal indicador de maiores dificuldades ao nível do processamento emocional. Foi ainda possível verificar a existência de diferenças significativas entre os grupos nas escalas de supressão, t (139) = 2.96; p = .004, sinais de emoção não processada, t (139) = 3.52; p < .001, e controlabilidade, t (139) = 5.68; p < .001, pelo que os indivíduos com maior propensão para traços psicopáticos foram os que evidenciaram valores mais elevados, indicando maiores dificuldades ao nível da supressão de emoções, sinais de emoção não processada e controlabilidade. Estes resultados associaram-se de uma forma geral a efeitos de magnitude médios a grandes (cf. Tabela 2). Tabela 2 Comparação das médias de processamento emocional entre indivíduos com maior e menor propensão para traços psicopáticos Escala > PTP < PTP t (139) p d de Cohen M DP M DP EPS-25 4.86 1.64 3.72 1.60 4.149 <.001 .69 Supressão 5.41 1.91 4.41 2.07 2.957 .004 .48 Sinais de emoção não processada 5.34 2.19 4.10 2.00 3.516 <.001 .59 Controlabilidade 4.43 2.44 2.33 1.92 5.683 <.001 .95 Evitamento 5.04 1.78 4.48 1.86 1.819 .071 .30
22 Expressão emocional empobrecida 4.06 2.19 3.29 2.14 2.108 .037 .35 Nota . “> PTP” = Maior propensão para traços psicopáticos; “<PTP” = menor propensão para traços psicopáticos Relação entre traços psicopáticos e processamento emocional Foi possível verificar a existência de correlações positivas de magnitudes fracas a moderadas entre o SRP-SF com o EPS25 total, com a dimensão supressão, a dimensão sinais de emoção não processada, a dimensão controlabilidade e a dimensão expressão emocional empobrecida (cf.Tabela 3). Neste sentido, valores mais elevados no SRP-SF total estão associados a maiores dificuldades no processamento emocional, mais especificamente ao nível da supressão, dos sinais de emoção não processada, da controlabilidade e da expressão emocional (cf. Tabela 3). A subescala interpessoal do SRP-SF também se correlacionou de forma positiva, com magnitudes fracas a moderadas, com o EPS-25 total, com a dimensão sinais de emoção não processada, com a dimensão controlabilidade e com a dimensão expressão emocional empobrecida. Estes resultados indicam que maiores pontuações na subescala interpessoal do SRP-SF estão associadas a maiores dificuldades no processamento emocional, mais concretamente nos sinais de emoção não processada, na controlabilidade e na expressão emocional (cf. Tabela 3). Relativamente à subescala afetiva do SRP-SF foi possível identificar correlações positivas de magnitudes moderadas com o EPS-25 total, com a dimensão sinais de emoção não processada, com a dimensão controlabilidade e com a dimensão expressão emocional empobrecida. Estes resultados indicam que maiores pontuações na subescala afetiva do SRP-SF estão associadas a maiores dificuldades no processamento emocional, mais concretamente nos sinais de emoção não processada, na controlabilidade e na expressão emocional (cf. Tabela 3). A subescala estilo de vida do SRP-SF correlacionou-se positivamente com magnitudes fracas a moderadas com o EPS-25 total, com a dimensão supressão, com a dimensão sinais de emoção não processada, com a dimensão controlabilidade e com a dimensão expressão emocional empobrecida. Assim, pontuações mais elevadas na subescala estilo de vida do SRP-SF estão associadas a maiores dificuldades no processamento emocional total, na supressão, nos sinais de emoção não processada, na controlabilidade e na expressão emocional (cf. Tabela 3).
23 Por fim, verificaram-se correlações positivas de magnitude moderada entre a subescala antissocial do SRP-SF e o EPS-25 total, bem como com a dimensão controlabilidade. Estes resultados indicam que pontuações mais elevadas na subescala antissocial estão associadas a maiores dificuldades de processamento emocional principalmente ao nível da controlabilidade (cf. Tabela 3)
30 incluindo uma maior diversidade de estabelecimentos prisionais por todo o país. Para superar a dificuldade e resistência na colaboração dos indivíduos em meio prisional, recomenda-se a implementação de estratégias de sensibilização. Isto pode ser alcançado através do envolvimento da administração prisional e da comunicação clara dos objetivos e benefícios do estudo. Ademais, de modo a atenuar a situação exposta, a DGRSP poderia limitar ou fazer uma melhor distribuição das investigações ao longo do tempo, bem como os investigadores partilharem os dados recolhidos para outras investigações. Para mitigar o enviesamento de respostas nos questionários de autorrelato, recomendase a utilização de métodos complementares de recolha de dados, como entrevistas semiestruturadas. Para abordar a limitação da não adaptação e validação dos instrumentos para o contexto prisional, estudos futuros devem realizar um processo rigoroso de adaptação e validação. Implementando estas sugestões, futuros estudos poderão superar as limitações atuais, resultando em dados mais precisos e úteis, e contribuindo para a melhoria das condições prisionais. Conclusão Os resultados deste estudo revelam significância tanto a nível teórico quanto clínico, uma vez que apoiam as diversas teorias que sugerem que a psicopatia está associada a défices no processamento emocional. Clinicamente, os resultados indicam que indivíduos com traços psicopáticos podem ser menos responsivos a sinais emocionais, o que pode contribuir para comportamentos antissociais e criminais. As dificuldades no processamento de emoções podem resultar na falta de inibição de comportamentos agressivos, já que estes indivíduos não respondem adequadamente a sinais de sofrimento alheio. Estes aspetos devem ser tidos em consideração em contextos da justiça e reabilitação uma vez que ajudam a identificar indivíduos em possível risco de reincidência. A nível prático, os resultados deste estudo são cruciais para informar o desenvolvimento de intervenções e estratégias de reabilitação direcionadas especificamente à melhoria do processamento emocional em populações reclusas. Intervenções que se foquem no treino de competências emocionais, como reconhecimento de expressões faciais, empatia e regulação emocional, podem ser projetadas e implementadas em contextos prisionais para ajudar os indivíduos com traços psicopáticos a desenvolver competências emocionais saudáveis e adaptativas. Estas intervenções têm o potencial de, para além de reduzir comportamentos antissociais durante o tempo de prisão, aumentar as perspetivas de sucesso após a libertação, reduzindo assim a reincidência criminal e contribuindo para uma sociedade mais segura e coesa.
31 Embora o estudo forneça insights valiosos, várias questões continuam por resolver. Primeiramente, a complexidade da psicopatia e suas manifestações comportamentais indicam que não se pode generalizar que todos os indivíduos com traços psicopáticos apresentem os mesmos défices emocionais. Estudos futuros são necessários para entender melhor as variações individuais e os fatores que podem mediar ou moderar esses défices. Uma sugestão passa pelo estudo destas variáveis na comunidade normativa portuguesa no sentido de identificar possíveis variáveis moderadoras ou mediadoras como, por exemplo, o contexto prisional e a existência de experiências adversas. Poderá também ser relevante o estudo deste tema recorrendo a medidas fisiológicas, como por exemplo a resposta galvânica da pele, no sentido de combater o viés associado a instrumentos de autorrelato, podendo suportar de forma mais robusta os resultados. Por fim, há um desafio em integrar esses resultados na prática clínica e no sistema de justiça de forma ética e efetiva, garantindo que os indivíduos recebam o suporte necessário sem estigmatização excessiva.
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Anexo: Formulário de identificação e caracterização do projeto Conselho de Ética Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) Identificação do documento: CEICSH 132/2023 Título do projeto: O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas Equipa de Investigação: Daniela Sofia Oliveira Ramos (IR), Mestrado em Psicologia da Justiça, Escola de Psicologia, Universidade do Minho; Sónia Caridade (orientadora), Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi), Escola de Psicologia, Universidade do Minho; Olga Cunha (Orientadora), Universidade Lusófona PARECER A Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) analisou o processo relativo ao projeto de investigação acima identificado, intitulado O Processamento Emocional em Reclusos Masculinos: Comparação entre Psicopatas e Não Psicopatas. Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, a Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) nada tem a opor à realização do projeto nos termos apresentados no Formulário de Identificação e Caracterização do Projeto, que se anexa, emitindo o seu parecer favorável, que foi aprovado por unanimidade pelos seus membros. O Presidente da CEICSH (Emanuel Pedro Viana Barbas Albuquerque) Assinado por: EMANUEL PEDRO VIANA BARBAS DE ALBUQUERQUE Num. de Identificação: 07089799 Data: 2023.11.10 17:11:46 +0000