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Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Santos Silva Educação e Formação Profissional: Olhares de Ex-Reclusas junho de 20220 Educação e Formação Profissional: Olhares de Ex-Reclusas Ana Santos Silva UMinho |2020 22022019
i Universidade do Minho Escola de Psicologia Ana Santos Silva Educação e Formação Profissional: Olhares de Ex-Reclusas Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Luísa Saavedra junho de 2020
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii Agradecimentos Primeiramente, agradeço à Professora Doutora Luísa Saavedra, que tornou possível a realização deste estudo. Obrigada por todos os ensinamentos, que me fizeram ser melhor no meu trabalho; irei levar os seus conhecimentos sempre comigo. Agradeço à Direção Geral dos Serviços Prisionais (DGRSP), pela oportunidade de poder realizar este projeto e pela disponibilidade e carinho de todos os profissionais que me acolheram. Agradeço às oito participantes, que partilharam comigo as suas histórias, pois sem elas este estudo não seria possível. Agradeço à minha família, por todo o apoio desde o início desta aventura que contou uma distância de 350km. Obrigada por estarem sempre prontos a ajudarem e ouvirem tudo o que tenho para dizer, mesmo sem entenderem. Agradeço aos meus amigos de infância, por me aturarem há mais de 17 anos, por me aceitarem tal como sou, por reclamarem e por me deixarem reclamar sempre que é preciso. Agradeço às minhas amigas Sherlock Girls, por nestes 5 anos me apoiarem, principalmente nestes últimos dois, onde o trabalho se intensificou. Obrigada pelas gargalhadas e por todas as tardes de trabalho, cheias de animação e concentração. Agradeço à Tun’ao Minho, por me terem recebido de braços abertos, por todos os momentos vividos e por fazerem parte da minha família. Um brinde a vós e aos momentos que ainda iremos viver. Agradeço à cidade de Braga, por estes cinco anos de árduo trabalho, que me trouxe pessoas fantásticas que nunca irei esquecer e com as quais cresci. Obrigada por todos os ensinamentos e pelas novas descobertas.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho Alcobaça, 2 de junho 2020 Assinatura:
v Educação e Formação Profissional: Olhares de Ex-Reclusas Resumo A reclusão pode ser vista de uma forma educativa, em que o recluso participa em programas educacionais e/ou profissionais de forma a preparar a sua libertação. Assim, é pertinente conhecer as perspetivas de ex-reclusas de forma a compreender a eficácia e pertinência destes programas, é igualmente importante conhecer as motivações que levaram à participação e que efeitos deixaram na vida das ex-reclusas. O estudo contou com a participação de oito ex-reclusas, acompanhadas pelas equipas da DGRSP. Os dados foram obtidos através de uma Entrevista Semiestruturada, construída com base na literatura e nos objetivos do estudo. Os resultados foram analisados através da Análise Temática, que permitiu identificar quatro temas principais: Motivação para o trabalho e educação; Motivação para a desistência académica; Perceção de mudança pós reclusão; Eficácia dos programas face ao emprego. Os resultados demonstraram que os programas prisionais permitem mudanças positivas na vida da exreclusas, dentro e fora da prisão, embora o estigma contra esta população ainda se encontre muito presente por parte do empregador. Palavras-chave: ex-reclusas, programas prisionais, eficácia, motivação
vi Education and Professional Qualification: Ex-Prisoners Views Abstract Reclusion can be seen from an educational perspective, as the inmate can participate in educational and professional programs to prepare for their release. Therefore, it’s pertinent to know the ex-inmates' perspectives to better understand the effectiveness and the relevance of these programs, the motivations towards participation, and the effects the programs have in their free lives. In this study participated eight women ex-inmates, who were supervised by DGRSP. The data were collected through a semi-structured interview, that was built according to the literature and the study purpose. The results were analysed through thematic analysis, which allowed to identify four main themes: Motivation towards work and education; Motivation for academic dropout; Perception of change after reclusion; Effectiveness of programs in relation to employment. The results show that there is a positive effect associated with these programs, in and outside the prison, although the stigma against this population is still very present by the employer. Key-words: ex-inammates, prison programms, efficacy, motivation
vii Índice Introdução ................................................................................................................................ 9 Formação educacional e profissional nas prisões para mulheres ............................................... 9 Eficácia e vantagens das intervenções .................................................................................. 11 Motivação à participação ..................................................................................................... 13 Método .................................................................................................................................. 14 Participantes ....................................................................................................................... 14 Instrumentos ...................................................................................................................... 16 Questionário sociodemográfico. ........................................................................................ 16 Entrevista semiestruturada. .............................................................................................. 16 Procedimentos .................................................................................................................... 16 Análise de Dados ................................................................................................................ 16 Resultados ............................................................................................................................. 17 Motivação para o trabalho e educação .................................................................................. 18 Aquisição de conhecimento académico. ............................................................................ 18 Aquisição de competência laborais. .................................................................................. 18 Razões sociais inerentes ao contexto prisional. .................................................................. 19 Promoção da saúde mental. ............................................................................................. 19 Motivação para a Desistência Acadêmica .............................................................................. 20 Conteúdos desajustados. ................................................................................................. 20 Trabalho para obtenção de dinheiro. ................................................................................. 20 Perceção de mudança pós reclusão ..................................................................................... 21 Diferente perceção de vida. .............................................................................................. 21 Aquisição de responsabilidades/regras. ............................................................................ 22 Eficácia dos programas face ao emprego .............................................................................. 22
viii Discussão .............................................................................................................................. 23 Motivação à participação nos programas profissionais e de educação ..................................... 23 Motivos para a desistência escolar........................................................................................ 24 Perceção de mudanças pós reclusão .................................................................................... 24 Eficácia dos programas face ao emprego” ............................................................................ 25 Conclusão .............................................................................................................................. 25 Lista de Tabela Tabela 1. Caraterização sociodemográfica das participantes ........................................................ 15 Lista de Figuras Tabela 2. Resultados: Temas e respetivos subtemas .................................................................... 17 Anexos Anexo A: Parecer da Comissão de Ética ....................................................................................... 33
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 15 Tabela 3. Caraterização sociodemográfica das participantes Participante Idade Escolaridade Crime Cometido Tempo total de Pena Tempo total dentro do EP Tempo em Liberdade Condicional Situação Laboral Estabelecimento Prisional Realizado dentro do EP MCP1 41 1ºciclo Furto qualificado, violência e subtração 11 anos 8 anos 1 ano Empregada EPSCB Trabalho; Escola OMP2* 49 Analfabeta Tráfico de estupefacientes e posse de arma proibida 13 anos e 2 meses 10 anos e 6 meses 1 anos e 9 meses Empregada EPSCB Trabalho; Escola RPP3* 48 Analfabeta Tráfico de estupefacientes 5 anos 4 anos e 4 meses 8 meses Desempregada EPSCB Trabalho; Escola AOP4 56 2º ciclo Tráfico de estupefacientes agravado 5 anos e 6 meses 3 anos e 9 meses 1 ano e 6 meses Desempregada EPSCB Trabalho EDP5 63 1º ciclo Crime de homicídio 6 anos 5 anos e 11 meses 1 mês Desempregada EPSCB Escola JBP6 42 1º ciclo Tráfico de estupefacientes 5 anos 2 anos e 7 meses 2 anos Desempregada EPSCB Trabalho FMP7* 49 Analfabeta Tráfico de estupefacientes 11 anos e 8 meses 9 anos e 11 meses 3 anos e 8 meses Desempregada EPSCB Trabalho CMP8* 41 Analfabeta Tráfico de estupefacientes 7 anos 5 anos e 10 meses 9 meses Desempregada EPSCB Trabalho; Escola *Participantes de etnia cigana
Educação e Formação profissional: perspetiva de ex-reclusas 16 Instrumentos Os instrumentos adotados no presente estudo foram os seguintes: Questionário sociodemográfico. Este, é constituído por itens pertinentes à investigação, sendo maioritariamente respondidos através da análise dos processos individuais e confirmados ao longo da entrevista e que se encontram apresentados na Tabela 1. Entrevista semiestruturada. É o método mais utilizado na investigação qualitativa, que permite obter uma grande quantidade de informação detalhada e diversificada, que só o entrevistado pode fornecer (Braun & Clarke, 2006; Júnior & Júnior, 2011). A entrevista foi criada com o propósito de responder aos objetivos e abordou os seguintes temas: 1) situação laboral atual; 2) tipo de programa em esteve inserida durante o tempo de reclusão; 3) viabilidade dos programas; 4) impacto dos conhecimentos adquiridos em reclusão no seu dia-a-dia em liberdade a nível pessoal e profissional; e 5) motivações à participação nos programas. Procedimentos Numa fase inicial, realizou-se a solicitação das autorizações para a realização do estudo junto da Comissão de Ética da Universidade do Minho e junto da Direção Geral de Reinserção Social e dos Serviços Prisionais (DGRSP). Após a obtenção da autorização da DGRSP, foi realizado um primeiro contacto com as equipas para a realização de um levantamento do número de mulheres que se encontram em liberdade condicional e verificar a disponibilidade de cada técnico para a realização da entrevista. Antes da realização da entrevista, procedeu-se à análise dos processos individuais das participantes, com o intuito de as caraterizar em termos sociodemográficos. Seguidamente, foram realizadas as entrevistas, nas instalações da equipa à qual pertence a participante. No início de cada entrevista foi fornecido um consentimento informado a cada participante, onde foi explicado o objetivo da entrevista, os termos da confidencialidade e necessidade do recurso a um gravador áudio. Análise de Dados Com o objetivo de explorar, identificar e compreender as respostas dadas nas entrevistas, as mesmas foram transcritas de forma integral, salvaguardando dados pessoais que permitam a identificação das participantes. As entrevistas apresentaram uma duração média de 30 minutos.
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 17 Para a realização da análise de dados, recorreu-se à Análise Temática, um método de identificação e análise de padrões/temas, ao longo do conjunto de dados (Braun & Clarke, 2006). Assim, após as transcrições integrais das entrevistas, ocorreu um processo de familiarização com as mesmas que se pautou pela leitura repetida, o que permitiu identificar códigos, que por sua vez se incluem em temas originários dos dados, correspondendo a uma abordagem indutiva (Braun & Carke, 2006). Os excertos das entrevistas foram agrupados de acordo com determinadas palavras e respetivos significados dados pelas participantes, de seguida foram re-organizados de acordo com semelhanças que apresentavam, com o objetivo de tornar os temas e subtemas mais homogéneos. Após diversas reorganizações dos dados, chegou-se à organização final que é descrita na parte dos resultados. Resultados Em resultado da análise de dados realizada, como referida acima, chegou-se aos resultados finais demonstrados na Figura 1, que engloba 4 temas principais, o primeiro com quatro subtemas, o segundo e o terceiro com três subtemas. Figura 1.Resultados: Temas e respetivos subtemas
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 18 Motivação para o trabalho e educação Neste tema enquadra-se as motivações à participação nos programas relativos à educação e à formação profissional, incluindo motivações que estão inerentes ao indivíduo e ao contexto prisional, que são espelhadas nos quatro subtemas seguidamente apresentados. Aquisição de conhecimento académico. O primeiro subtema, demonstra as razões que levaram as participantes à realização de atividades escolares, para o seu desenvolvimento intelectual e pessoal, como é demonstrado pelos seguintes excertos: “Porque queria saber ler e escrever (…), pra mim foi bom foi porque eu entrei sem saber nada, nem saber o meu nome sequer, pra mim foi bom porque eu tinha de pôr o dedo e havia certa situação que lá tinha de ser mesmo assinar, então pra mim adiantou um bocadinho foi bom.” (P8) “Eu sempre gostei muito de estudar eu na altura os meus pais tiraram-me não me deixaram estudar e eu sempre gostei muito, então lá dentro achei uma oportunidade boa para estudar só que também não quis continuar porque é sempre, sinceramente aquilo é uma palhaçada.” (P1) “Coisas boas ehhhh não sabia assinar não sabia ler nada” (P2) “Aprender ser mais alguma coisa, o meu não eu já sabia já há muito tempo agora do meu filho e das minhas filhas já sei (…) E a escola é muito importante, é para aprender o que..é onde aprendo mais coisas o mais importante é a escola para aprender a escrever e tudo.” (P3) Aquisição de competência laborais. O segundo subtema apresentado, relaciona-se com as motivações inerentes ao futuro, nomeadamente a vontade de aprender uma profissão de forma a poder exercê-la à saída da prisão, como é demonstrado pelos seguintes excertos: “Gostava pronto gostava por duas coisas aprendi muita coisa aprendi a cozer sapatos que não sabia.” (P2) “Não sei, se eu se calhar não me metesse nas artes plásticas ou nas outras artes era capaz de não ganhar vontade de tirar este curso (…) E agora já estou por dentro do assunto não é.” (P4) “(…) aprendi muito ali fazia sapato à mão não é, fui pronto tive uma experiência sempre me fui ocupando me ocupei sempre (…) me agarrei ao trabalho tinha aquela curiosidade em aprender sempre fui cozinheira já, aprendi a costurar depois, aprendi a costurar.” (P6)
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 19 “Sim embora não esteja a trabalhar nisso, mas, mas eu não era costureira e aprendi lá dentro e é sempre bom. E trabalhei como supervisora e ainda tive lá dois anos e tal como supervisora é ótimo, quem sabe no futuro, nunca se sabe eu posso vir a trabalhar nisso outra vez.” (P1) Razões sociais inerentes ao contexto prisional. Este terceiro subtema, remete-nos para o contexto prisional, como impulsionador à participação, nomeadamente os benefícios que poderiam retirar, como o dinheiro e o acesso a precárias, demonstrado pelos excertos seguintes: “Eu tinha que trabalhar um trabalho fixo para ganhar aquele salário fixo, eu ganhava por exemplo, se eu trabalhasse durante um mês inteiro eu ganhava cem euros percebe e ainda tiram algum para a reserva que é pras nossas precárias (…) foi mais por isso e também por causa da cantina que nós precisamos de ter coisas ali” (P8) “E trabalhava noite porque eu lá, não temos um ordenado na cadeia, nós temos uma comissãozinha de 20€/mês, claro pra nossos gastos produto higiénico” (P6) “Para quando uma pessoa começa a ter precária ter dinheiro pa vir porque havia muita gente que começava a ter precárias e não tinha dinheiro nem para a camioneta” (P1) “Mas eu também gosto mais de trabalhar uma pessoa precisa do trabalho para o que é preciso (faz gesto a exemplificar dinheiro).” (P3) “Era porque queria e (…) tinha que ter uma ocupação porque senão também tínhamos precárias mais tarde (…)” (P5) Promoção da saúde mental. O último subtema apresentado, demonstra outras motivações para além das materiais como as apresentadas anteriormente, estando estas, relacionadas com o bemestar mental, a ocupação do tempo e o evitamento de comportamentos desadequeados/prejudiciais. “Sabe numa cadeia, se uma pessoa não tiver nada há certas ocasiões que estamos fechadas e se uma pessoa tiver trabalho vem para fora” (P4). “(…) também porque é assim, era bom ali estar, muitas vezes ficamos cansada quando não tinha trabalho porque tava dentro da ala e eu com o trabalho não, saia para fora (…) é assim ali dentro ajudou muito, porque espalhava muito a cabeça esquecia mais os problemas de fora esquecia, por exemplo, o meu marido (…) eu não sei como é que as pessoas estão lá dentro consegue estar lá dentro e não trabalhar, porque o trabalho lá dentro ajuda muito mesmo (…).” (P8)
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 20 “Pra ter uma atividade não é, não tar presa todo o dia na cela.” (P6) “Ocupada no trabalho passei muito bem o tempo” (P2) “Ai ajudou o trabalho, ajudou muito não só a passar o tempo, a manter a sanidade mental (…) para poder ter uma vida cá fora porque é muito difícil lá dentro se não ocupar a cabeça fica maluca (…) mas tem qualquer coisa, eu acho que é horrível ehh as pessoas depois tornam-se num vegetais ali e depois andam a roubar as outras colegas porque não tem tabaco não tem éé.” (P1) Motivação para a Desistência Acadêmica No segundo tema inserem-se as razões que levaram as participantes a desistir do programa educacional, estando divido em dois subtemas. Conteúdos desajustados. Este subtema, foca-se nos conteúdos programáticos lecionados, nas expetativas que as participantes tinham sobre a obtenção de conhecimentos novos e a falta de apoio durante o programa, como é comprovado pelos seguintes excertos: “Não, não é adequado, os professores não puxam (…), mas queria aprender não queria estar só ali por estar e cheguei à conclusão que não ia aprender nada, do que eles me ensinaram no quinto e no sexto foi o que eu aprendi na segunda e na terceira classe.” (P1) “(…)euhmm aprendi a bem dizer quase nada, mas pronto ah não faltava ia todos os dia e tal e elas passavam, não tive faltas elas passaram-me, passaram-me sempre (…).” (P5) “(…) vou ser sincera só que eu a fazer a 4ª classe não sei escrever muito não sei ler muito porque na situação em que estamos lá é muito complicado, (…) muitas ali ui têm escolar e começavam a ler pouco tempo só que a minha cabeça não aceitava cansada ou era por ser mais difícil por ter a idade já que eu tenho já vou fazer 42 ou não sei (…) eu eu fiquei um bocadinho melhor que quando entrei para a cadeia nem sabia assinar o nome.” (P8) Trabalho para obtenção de dinheiro. Este segundo subtema, demonstra uma motivação para a realização do trabalho, que levou à desistência do programa educacional, que se relaciona também com a evolvente do contexto prisional e pessoal, como é possível de observar através dos seguintes excertos: “Foi pena não ter andado muito mais porque eu precisava de trabalhar pra ganhar algum, mandava pra fora pro meu marido ter visitas, pra ajudar o meu marido, pra eu fazer cantinas lá dentro (…)” (P8)
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 21 “Chamaram-me pa escola foi verdade sim, andei uns dias na escola, mas depois eu desisti (…) porque tinha que estar umas horas no trabalho e umas horas na escola e pra mim não dava“(P7) “Não, eu primeiro ano fiz o quinto e o sexto ano porque eu só tinha a quarta classe fiz o quinto e o sexto ano e cozia calçado à noite na cela ahmm entretanto deixei de estudar porque uma pessoa lá a maior parte das pessoas acham que nós temos tudo de graça mas não (…), mas eu optei plo trabalho porque, porque primeiro porque me fazia falta o dinheiro e segundo porque já estava saturada da escola e não é e não aprendia nada que é mesmo assim.” (P1) Perceção de mudança pós reclusão Neste terceiro tema, enquadram-se outras implicações que os programas prisionais em estudo têm na vida pessoal das ex-reclusas, ou seja, de que forma a participação nos programas as ajudou. Este tema, encontra-se dividido em dois subtemas Diferente perceção de vida. Este subtema apresenta o reconhecimento dos seus erros e das mudanças que os programas tiveram na maneira como encaram a vida, como evidenciado pelos seguintes excertos: “Eu mudei muita coisa, muita coisa mudei mudei, hmm não fui para lá muito revoltada eu só tinha que pagar o que paguei (…) fez-me menina, fez-me abrir os olhos até agora.” (P7) “Eu passei por aquilo (…) aprendi com os erros (…) tipo como posso explicar? me ajudou a ter mais coragem e sempre a olhar pra trás. O que eu passei pra mim não foi fácil, por isso é que eu tomo aquilo como uma lição de vida.” (P6) “A perceber os erros que a gente às vezes comete. E levo outro modo de vida gosto de trabalhar gosto daquilo que faço e aprendi muita coisa. Estou em casa apanho uma folha começo a escrever e vejo um livro e começo a ler um bocadinho não sei muito mas mais ou menos” (P3) “Sempre andei na feira com o meu pai, (…), mas agora claro é diferente. Trabalhei mesmo em coisas pesadas (…) basta que eu vou ao fundo de desemprego e eu disse que qualquer coisa me serve, qualquer coisa que seja, nem que seja varrer ruas eu estou disposta, eu quero ter um trabalho claro que sim, que nunca tinha trabalhado, andava nas feiras que é diferente.” (P8) “Até que eu ontem comecei um curso pelo cento de emprego. Não sei, se eu se calhar não me metesse nas artes plásticas ou nas outras artes era capaz de não ganhar vontade de tirar este curso.” (P4)
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 22 Aquisição de responsabilidades/regras. Este subtema, demonstra o impacto que a participação nos programas teve nos hábitos de vida das ex-reclusas, principalmente na aquisição de novos comportamentos, como é representado pelos excertos seguintes: “Aprendi olhe eu prontos aprendi certas coisas que eu não sabia não é, há regras para tudo lá, há regras para tudo”. (P7) “Eu quando fui presa eu era empresária trabalhava pra mim tinha uma empregada. Eu ali dentro ganhei responsabilidade, porque se eu não cumprisse ficava todo o dia na cela presa (…), então me fez ter mais responsabilidade, ter um horário (…), eu tinha que trabalhar então faz ter mais responsabilidade com a vida”. (P6) “Sim porque ia estar habituada a ter horários (…) Sim, por exemplo o mês e pouco que tive sem trabalhar tava me a meter muita confusão eu não ter horários.” (P1) Eficácia dos programas face ao emprego Este último tema, enquadra as realidades sentidas pelas participantes na ingressão no mundo de trabalho, as expetativas e os obstáculos. “Ora bem sim mas eu também já sabia que quando saísse já não ia ser fácil (…) devido à minha idade.” (P5) “Sim sim arranjar o memo trabalho o memo emprego que eu tinha lá dentro.” (P7) “(…) Nós lá dentro trabalhamos muito, aprendemos e depois quando saímos, saímos com a ilusão vou continuar com esse trabalho e lá dentro eu fiz o que eu gostei, (…) quando eu saísse, poderia ir para uma fábrica, (…) mas não me dão essa oportunidade. E era muito difícil.” (P6) “Muita coisa e gostaria um dia se se me arranjasse um emprego desses eu ia.” (P2) “Por mim acho que é mais a escolar que não tenho.” (P8) “Eu poderia arranjar outros empregos se soubesse ler e escrever.” (P2) “Ahm não não tentei procurar porque eu já tinha ah 60 anos sim 61 e ahm ninguém me dava emprego então eu fui tratar da reforma.” (P5) “Hmm sabe que a minha idade já não procura já não metem muito.” (P4)
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 23 “Somos discriminadas (…) quando eu falava da situação não me aceitavam, o facto de ter aprendido na cadeia (...) eu aprendi na cadeia a mexer numa máquina, mas não tive oportunidade de empresa nenhuma.” (P6) “Conforme as pessoas muitos não querem as ciganas a trabalhar e têm medo sabe.” (P3) Discussão Esta discussão irá consistir numa análise de cada tema identificado, integrando os objetivos do estudo com a literatura. Motivação à participação nos programas profissionais e de educação Manger, et al (2010), através da análise dos motivos à participação em programas prisionais, estabeleceu três categorias que são: a preparação para a liberdade, razões sociais e únicas ao contexto prisional, e aquisição de conhecimento e competências. Nesta investigação é possível ver semelhanças entre as categorias supramencionadas e os subtemas, que são a “Aquisição de conhecimento académico”, “Aquisição de competências laborais”, “Razões sociais inerentes ao contexto prisional” e “Promoção da saúde mental”, tal como encontrado pelos autores, estes subtemas parecem interrelacionar-se. Os dois primeiros subtemas, demonstram a vontade genuína de aprender como ferramenta para o futuro ao nível da educação e do trabalho. Independentemente do tipo de programa que as participantes escolhem, estão a trabalhar competências e a ganhar conhecimentos que podem aplicar quando saírem em liberdade (Behan, 2014; Zhao, et al,2019; Brosens, et al, 2015a; Croux, et al, 2018). Foi apontado como um fator bastante importante à motivação, os ganhos que podem obter de forma a melhorar as condições de reclusão (Panitsides & Moussiou, 2019; William, 2019 Zhao, et al, 2019; Croux, et al, 2018; Vazquez-Cano, Holgueras-González, & Fombona-Cadavieco, 2019). Estes motivos são específicos a cada cultura e ao contexto prisional em que se encontram inseridos (Zhao, et al, 2019). Assim, é possível perceber através das entrevistas que a participação, em ambos os programas, permitiu a obtenção de precárias. O programa profissional permitiu ainda a obtenção de dinheiro necessário para usar dentro e fora da prisão para as suas necessidades, nomeadamente para as deslocações durante as precárias: “Para quando uma pessoa começa a ter precária ter dinheiro para vir porque havia muita gente que começava a ter precárias e não tinha dinheiro nem para a camioneta” (P1).
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 24 O subtema “Promoção da saúde mental”, mostra um outro tipo de motivação, nomeadamente, o facto de permitir uma ocupação do corpo e da mente evitando pensamentos dolorosos face ao mundo exterior (Spark & Harris, 2005; Baranger, et al, 2018; Roth & Manger, 2014; Vazquez-Cano, HolguerasGonzález, & Fombona-Cadavieco, 2019; Pastore, 2018; William, 2019; Panitsides & Moussiou, 2019; Behan, 2014). Muitas consideraram ser a melhor forma de passar o tempo e evitar comportamentos agressivos de colegas desocupadas. Motivos para a desistência escolar As barreiras à participação têm-se focado nas caraterísticas pessoais dos reclusos, por um lado, mas, por outro lado, é possível observar que há determinados fatores que levam ao abandono dos programas ou à sua troca por outros (Croux,et al, 2018; Brosens,et al, 2015b). A este nível, as participantes deste estudo sinalizaram a existência de conteúdos desajustados, face à experiência educativa obtida na escolaridade formal, bem como a não adequação de algumas práticas por parte dos profissionais, por serem pouco exigentes (Croux,et al, 2018): “Não não é adequado, os professores não puxam (…), mas queria aprender não queria estar só ali por tar e cheguei à conclusão que não ia aprender nada, do que eles me ensinaram no quinto e no sexto foi o que eu aprendi na segunda e na terceira classe.” (P1); “(…) aprendi a bem dizer quase nada, mas pronto ah não faltava ia todos os dias e tal e ela não tive faltas elas passavam, (…).” (P5). Apesar de existir diferença ao nível académico entre as participantes (sobretudo nas ciganas face às não-ciganas) o outro grande motivo de desistência dos programas educativos prende com a necessidade de ganhar dinheiro, por não terem ajuda de familiares em liberdade, tratamentos médicos e aquisição de alguns produtos alimentares (Brosens, et al, 2015b). Perceção de mudanças pós reclusão O objetivo dos programas educativos e profissionais pretende, para além de uma resposta imediata, obter resultados a longo prazo na reinserção. Nesse sentido, muitas investigações relatam que a participação cria um sentimento de transformação nas perceções e nas atitudes, permitindo ao recluso tirar uma experiência positiva do tempo de reclusão (Behan, 2014; Panitsides & Moussiou, 2019; Hunter & Boyce, 2009; Pastore, 2008; Brosens, et al, 2015a; Vazquez-Cano, Holgueras-González, & FombonaCadavieco, 2019; Baranger, et al, 2018; Bronses, 2018; Evans, Pelletier, & Szkola, 2017). As entrevistas, demonstraram que as participantes reconhecem que existe uma mudança na maneira como
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 31 Mckendy, L., & Ricciardelli, R. (2019). Women offenders under community supervision: comparing the profiles of returners and non-returners to federal prison. Frontiers in Psychiatry , 10 . doi: 10.3389/fpsyt.2019.00875 Moreira, J.-A., Reis-Monteiro, A., & Machado, A. (2017). Higher education distance learning and e-learning in prisons in Portugal. Comunicar , 25 (51), 39–49. doi: 10.3916/c51-2017-04 William, M. L. (2019). La educación universitaria en prisión: logros, dificultades y necesidades. Revista Educación , 43 (2). doi: 10.15517/revedu.v43i2.31967 Panitsides, E. A., & Moussiou, E. (2019). What does it take to motivate inmates to participate in prison education? An exploratory study in a Greek prison. Journal of Adult and Continuing Education , 25 (2), 157–177. doi: 10.1177/1477971419840667 Pastore, G. (2018). Inclusion and social exclusion issues in university education in prison: considerations based on the Italian and Spanish experiences. International Journal of Inclusive Education , 22 (12), 1272–1287. doi: 10.1080/13603116.2018.1426050 Rhodes, J. (2008). Ex-offenders, social ties and the routes into employment. Internet Journal of Criminology © . Retrieved from https://www.researchgate.net/publication/238784340_Exoffenders_social_ties_and_the_routes_into_employment Roth, B. B., & Manger, T. (2014). The relationship between prisoners educational motives and previous incarceration, sentence length, and sentence served. London Review of Education , 12 (2), 209– 220. doi: 10.18546/lre.12.2.06 Spark, C., & Harris, A. (2005). Vocation, vocation. Journal of Sociology , 41 (2), 143–161. doi: 10.1177/1440783305053232 Vazquez-Cano, E., Holgueras-González, I., & Fombona-Cadavieco, J. (2019). Studying for a university degree in penitentiary centers in spain: challenges and difficulties from the internee’s perspective. The Prison Journal , 99 (5), 593–613. doi: 10.1177/0032885519875074 Zhao, Y., Messner, S. F., Liu, J., & Jin, C. (2019). Prisons as schools: inmates’ participation in vocational and academic programs in chinese prisons. International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology , 63 (15-16), 2713–2740. doi: 10.1177/0306624x19861051
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL 32 Anexos Anexo A: Parecer da Comissão de Ética