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Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Daniela Sá Laranjeira Tradução teatral: principais obstáculos ao profissionalismo Relatório de Estágio Curricular Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria Filomena Pereira Rodrigues Louro Fevereiro de 2024
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho. Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, quero agradecer à Professora Doutora Maria Filomena Pereira Rodrigues Louro pela sua orientação, dedicação e cuidado nesta fase tão importante do meu percurso académico. Gostaria também de agradecer ao Teatro Experimental do Porto (TEP), especialmente à Patrícia Gonçalves, Diretora de produção do TEP, que prontamente aceitou o cargo de orientadora por parte da empresa e nos forneceu as peças de teatro necessárias para a realização do estágio. Um agradecimento especial a todos os Professores do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue, sempre muito prestáveis e disponíveis a ajudar em tudo o que fosse necessário, pela partilha de conhecimento e sabedoria e pelos ensinamentos que levarei comigo para o futuro. Aos meus amigos e familiares pelo apoio e incentivo a nunca desistir e, finalmente, ao Ricardo, pelo apoio incondicional e pela dedicação, por nunca me deixar desistir dos meus sonhos e por me forçar, todos os dias, a tornar-me uma pessoa e uma profissional melhor.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Tradução teatral: principais obstáculos ao profissionalismo RESUMO O presente relatório de estágio integra-se no segundo semestre do 2º ano do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue da Universidade do Minho, tendo o estágio sido realizado no Teatro Experimental do Porto (TEP), a mais antiga companhia teatral portuguesa, dirigida pelo Círculo de Cultura Teatral, durante um período de quatro meses. O estágio teve como objetivo principal a prática e especialização em tradução teatral, que incluiu a tradução e respetiva revisão de várias peças de teatro, dossiers informativos sobre as mesmas, entre outros. Neste relatório integra-se, em primeiro lugar, um enquadramento teórico sobre a área da tradução, da tradução teatral e algumas das suas dificuldades. Na segunda parte, encontrase uma descrição da instituição de acolhimento e do estágio realizado, de forma geral. Na última parte, apresentam-se os projetos realizados ao longo do estágio de forma mais desenvolvida e os respetivos problemas com que me deparei na realização dos mesmos. PALAVRAS-CHAVE Tradução Literária, Tradução Teatral, TEP, Problemas de Tradução, Glossários.
vi Theatre translation: the main obstacles to professionalism ABSTRACT This internship report is the final stage to the conclusion of the Master’s Degree in Translation and Multilingual Communication at the University of Minho. The internship took place at the Teatro Experimental do Porto (TEP), the oldest Portuguese theatre company, run by the Círculo de Cultura Teatral, for a period of four months. The main goal of this internship was to practice and specialise in theatre translation, which included translating and revising various plays, informative dossiers about them, among other things. This report first includes a theoretical background on the field of translation, theatre translation and some of its difficulties. The second part describes the host institution and the internship as a whole. The last part describes the projects carried out during the internship in a more thorough way and the corresponding problems I encountered during their realisation. KEYWORDS Literary Translation, Theatre Translation, TEP, Translation Problems, Glossaries.
vii ÍNDICE INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 1 OBJETIVOS ........................................................................................................................................ 2 CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO ....................................................................................... 3 CAPÍTULO II – INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO ............................................................................... 11 2.1. APRESENTAÇÃO DA INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO ............................................................ 11 2.2. O ESTÁGIO ............................................................................................................................. 11 CAPÍTULO III – PROJETOS REALIZADOS ........................................................................................... 14 3.1. APRESENTAÇÃO E DESCRIÇÃO DOS PROJETOS/PROBLEMAS ENCONTRADOS ...................... 15 3.1.1. INVASÃO ......................................................................................................................... 15 3.1.2. ABRIGO PARA NÁUFRAGOS ............................................................................................. 16 3.1.3. DOSSIER DE ABRIGO PARA NÁUFRAGOS ......................................................................... 21 3.1.4. A CARA DA MORTE ESTAVA VIVA ..................................................................................... 21 3.1.5. ESTE TÍTULO NÃO QUE É MUITO LONGO ........................................................................ 23 3.1.6. A.N.T.Í.G.O.N.A. .............................................................................................................. 24 3.1.7. ESTÉTICA, RESISTÊNCIA E MELANCOLIA ........................................................................ 25 3.1.8. TRILOGIA DA JUVENTUDE .............................................................................................. 26 3.1.9. HOMENAGEM A JOÃO GUEDES ...................................................................................... 30 3.1.10. RIDERS TO THE SEA ..................................................................................................... 31 3.1.11. WEBSITE DO TEP .......................................................................................................... 33 3.1.12. GLOSSÁRIO NÁUTICO ..................................................................................................... 35 3.1.13. REVISÃO DAS PEÇAS DE TEATRO .................................................................................. 36 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................. 38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................................... 42 ANEXOS ........................................................................................................................................... 44
3 CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO A palavra “teatro” e o seu conceito (como hoje o conhecemos) surgiram na Grécia, apesar de existirem registos de peças representadas antes desse tempo. Este termo refere-se à arte da representação, em que um ou mais atores interpreta uma história, num determinado lugar e para um público, apesar de ter sido criado para a celebração e representação de lendas de deuses e heróis da época, onde os atores utilizavam máscaras temáticas para interpretar as diferentes figuras da mitologia. Atualmente, não existem somente peças com temas de tragédia e comédia, mas também de drama, romance, tragicomédia, auto, farsa, monólogo, teatro de revista, stand-up comedy , musical, teatro de fantoches, teatro de sombras, improvisação, infantil, experimental, mímico, entre muitos outros que dão vida e significado a esta arte tão nobre que tem sobrevivido e prosperado ao longo dos séculos. As peças de teatro têm uma macroestrutura específica, que é semelhante à maioria das peças. Começando pelo facto de serem escritas em prosa ou em verso e feitas para serem encenadas em palco, o texto é maioritariamente em forma de diálogo/monólogo, é dividido em atos (conjunto de cenas dentro de um cenário, quando se muda de cenário muda-se o ato) e cenas (muda-se de cena quando há entrada ou saída de personagens), contém didascálias (instruções do autor para os atores para facilitar a interpretação do texto, também conhecidas por indicações cénicas, e podem ser encontradas por todo o guião em itálico), e tem geralmente uma estrutura/sequência específica das ações (Introdução: objetivo de cada personagem e há um problema a ser resolvido; desenvolvimento: decorre a ação de modo a provocar um clímax; conclusão: soluções e fim dos conflitos). Normalmente constituídas pelo dramaturgo, diretor, elenco (protagonista, antagonista, coro, personagens secundárias), narrador, cenógrafo, figurinista, ponto (técnico da equipa que ajuda os atores quando estes se esquecem das falas), coreógrafo, etc. e, no que concerne à parte física, são habitualmente compostas por um palco, bastidores, camarim, cenário, cortina, espaço cénico, iluminação, figurino, entre outros, todos com a sua função e todos importantes para que se consiga realizar cada apresentação com sucesso e profissionalismo. Todos estes pormenores são relevantes para o processo de tradução de peças de teatro, visto que o tradutor tem de ter em atenção que não está a traduzir um texto que será somente lido, mas sim representado em palco e visualizado por um público-alvo divergente, ou seja, constituído por pessoas de diferentes idades, profissões, classes sociais, graus de escolaridade, etc., e que estes não
4 têm acesso ao guião nem a notas de rodapé. Tudo isto vai de encontro ao que Susan Bassnet afirma no seu livro Translating for the Theatre: The Case Against Performability , the translator is being asked to do the impossible, that is, to treat a written text that is part of a larger complex of sign systems, including paralinguistic and kinesic signs, as if it were a literary text created for the page and read as such. (Bassnet, 1991, pp.99-100) Susan Bassnet nasceu em 1945 e é, atualmente, uma reconhecida teórica da tradução e especialista na área da literatura comparada. Desde 2016, é professora de Literatura Comparada nas Universidades de Glasgow e Warwick. O seu amplo e diversificado percurso académico garantiu-lhe diversas competências nas áreas das línguas, literatura, cultura e tradução, tendo visitado diversos países pela Europa e pelo mundo, adquirindo um vasto leque de conhecimentos em âmbitos bastantes distintos, o que também lhe permitiu escrever diversos livros e artigos sobre as suas diferentes áreas de especialização, incluindo o livro Translating for the Theatre: The Case Against Performability, onde aborda os temas da tradução para teatro e diferentes problemas associados. Outra das grandes dificuldades da tradução teatral que refere no seu livro é, the theatre boom experienced particularly in northern Europe led to a rapid turnover in speedy hack translations that could be adapted for performance in the new theatres by the emergent companies. Texts were anything but sacred, and were reshaped according to very basic needs — audience expectations, size of company, repertoire of performers, limitations of time and space etc. (Bassnet, 1991, p.106) Ou seja, todos os tradutores são confrontados com um dilema na tradução de qualquer texto: transmitir o conteúdo, a mensagem e a riqueza cultural da língua do texto de partida para o texto de chegada, sem que nada de relevante se perca pelo caminho, mas também ter em atenção a língua e a cultura do texto de chegada, isto porque não queremos que o texto de chegada seja uma tradução literal do texto de partida, mas também desejamos que a riqueza do texto original não se perca no processo de tradução. Bassnet refere ainda que “the task of the translator is seen as that of extending the boundaries of the target culture dramatic language by ensuring that care is taken not to radically change the source text” (Bassnet, 1991, p.108), ou seja, como descrevi anteriormente, o tradutor tem a difícil tarefa de tentar encontrar um equilíbrio entre as duas línguas e as duas culturas, não podendo realizar uma tradução literal de todo o texto, pois tem de ter em atenção os detalhes e peculiaridades da língua e cultura de chegada, tais como expressões idiomáticas, acordo ortográfico, provérbios, gramática, convenções, religião, leis morais e legais, referências culturais, linguagem tabu, além da evolução da língua e da cultura conforme o público-alvo e a faixa etária a que se destina cada
5 tradução. A autora reitera que “Theatre texts cannot be considered as identical to texts written to be read because the process of writing involves a consideration of the performance dimension, but neither can an abstract notion of performance be put before textual considerations.” (Bassnet, 1991, pp.110111), afirmando que um texto escrito para Teatro não pode ser considerado idêntico a um texto que não tem outro propósito senão o de ser lido (em papel ou em digital), pois eles têm objetivos completamente distintos. Seguindo na temática da tradução, George Steiner (1929-2020) foi um crítico literário e professor nas Universidades de Cambridge e de Genebra que, de entre todos os livros que escreveu sobre diversas questões, abordou num deles a temática da tradução e das suas dificuldades. Este livro, intitulado After Babel , foi publicado pela primeira vez em 1975 pela Oxford University Press, aborda temas relacionados com a área da Linguística e sobre o “problema de Babel” (a Torre de Babel é um mito que explica a existência de diferentes línguas no mundo). No primeiro capítulo deste livro, designado de “Understanding as Translation”, Steiner escreve que, But ordinary language is, literally at every moment, subject to mutation. This takes many forms. New words enter as old words lapse. Grammatical conventions are changed under pressure of idiomatic use or by cultural ordinance. The spectrum of permissible expression as against that which is taboo shifts perpetually. (Steiner, 1975, p.18) O que o autor quer dizer é que a língua está sempre em evolução, e evolui de variadas formas, como por exemplo, no facto de surgirem termos novos e outros caírem em desuso, ou porque as convenções gramaticais sofrem alterações para se adaptarem às mudanças da linguagem, tanto escrita como oral, a pressões culturais, etc. Menciona também um tema bastante importante, sendo ele a linguagem tabu, que também está em constante evolução, uma vez que, por exemplo, temas como a sexualidade, homossexualidade, incesto, aborto, morte, entre outros que há uns tempos eram considerados tabu, são atualmente bastante mais falados e há mais abertura nesse aspeto. Por isso, como refere Steiner neste capítulo do livro, “Language is in perpetual change.”, os tradutores têm uma função de grande responsabilidade de estar a par de todas essas mudanças que são cruciais para a sua profissão. Peter Bush nasceu em 1946 e é um tradutor literário inglês, tendo já traduzido livros do Catalão, Francês, Espanhol e Português para Inglês. Bush escreveu um artigo intitulado The Act of Translation: The Case of Juan Goytisolo’s A Cock-Eyed Comedy , onde aborda temáticas relacionadas com a tradução literária. Aqui, o autor explica que
6 The literary translator works with a text written by someone else in another language which he transforms into writing in another language. This simple declaration hides a complex process of imaginative transformation that remains [sic] deep communication with the original writing. The translator reads, re-reads, writes, re-drafts, self-edits, re-writes. During this struggle to understand and create, like any other reader and writer of literature, the words will appeal to the translator’s emotions, memories, ideas within an intense flow of subjective consciousness. This is not an operation in a void, not a clinical transplant of meaning but a process of literary reading and writing. Just as the words chosen by the original author will have many resonances that remain private to the writer, resonances central to the life of the text, so words chosen by the translator will also sometimes have strong personal resonances and be central to the re-writing. (Bush, 2003, p.122) Isto significa que o tradutor literário toma um texto escrito por alguém numa língua e transforma-o num texto numa língua diferente. Contudo, este processo está longe de ser simples, uma vez que envolve vários passos e processos de leitura, escrita, reler, reescrever, até obter um resultado de sucesso. Além disso, o autor explica também que o processo de tradução não é objetivo, uma vez que o tradutor acaba por se prender na mensagem e no conteúdo do texto original, que lhe é apelativo, e traduzirá o mesmo com uma linguagem mais aproximada ao seu gosto pessoal, assim como o fez o escritor do texto original, então o tradutor tem de ter sempre em consideração o equilíbrio entre objetividade e subjetividade na tarefa que tem em mãos. Retomando o tema específico da tradução teatral, Cláudia Soares Cruz escreveu no seu artigo denominado Tradução teatral – entre teoria e prática que Uma das diferenças fundamentais entre a tradução para a página e a tradução para a cena diz respeito à receção de uma e de outra. Enquanto a primeira pressupõe um recetor ativo, que pode determinar o momento, o ritmo e o local da receção, na segunda, o espectador entrará em contato com a tradução na efemeridade da encenação, e deverá compreender e assimilar o texto no momento da enunciação. Quando a intenção é fazer uma tradução para a cena, devemos ainda lembrar que a montagem de um texto teatral traduzido, acontece, via de regra, em outro lugar e outro tempo, o que implica em [sic] lidar com questões culturais, convenções teatrais, entre inúmeros outros fatores. (Cruz, 2019, p.268) Segundo a autora, que aborda o tema das diferenças entre a tradução para página e a tradução para cena, ou seja, tradução para ser simplesmente lida e tradução para ser encenada, esta refere que uma das grandes diferenças entre as duas é relativa ao tempo e espaço da “leitura” dessa
7 tradução, isto é, uma tradução com o propósito de ser lida, como por exemplo, um livro, um artigo ou uma dissertação, pode ser lida em qualquer altura e em qualquer lugar, e esse leitor pode parar a qualquer momento, retomar a leitura mais tarde, reler certas partes e efetuar pesquisas entre a leitura. Pelo contrário, na tradução para encenação, o espectador entra em contacto com essa tradução durante um curto espaço de tempo (tempo de duração da peça), e tem de assimilar e processar toda a informação que conseguir nesse espaço de tempo, não podendo fazer pausas ou voltar atrás na página, o que significa que o tradutor tem uma tarefa consideravelmente mais árdua na tradução para encenação do que na tradução para leitura, pois tem de conseguir que o espectador consiga fazer tudo o que o leitor consegue, em condições totalmente diferentes e bastante mais restritas. Além disso, como a autora menciona, temos ainda de ter em consideração que bastantes peças de teatro foram escritas em tempos e épocas diferentes da época em que a tradução será realizada, e que aspetos como questões culturais e convenções de vários géneros poderão ter-se alterado ou evoluído com o tempo, e têm de ser traduzidos com bastante responsabilidade e atenção. Os tradutores deparam-se todos os dias com bastantes problemas relacionados com as suas traduções. Podem ser problemas relacionados com vocabulário, gramática, com a própria interpretação e significado do texto, o seu contexto histórico, social ou cultural, entre uma infinidade de contratempos. Por isso, Jean-Paul Vinay (considerado um dos pioneiros em Estudos de Tradução) e Jean Darbelnet escreveram, em 1958, um livro intitulado Stylistique comparée du français et de l'anglais , onde descrevem dois métodos que podem ser utilizados pelos tradutores para ultrapassarem esses obstáculos. Primeiro, fazem a distinção entre os dois, denominando o primeiro como “Tradução direta” e o segundo como “Tradução oblíqua”. A tradução direta é a passagem direta da língua de partida para a língua de chegada, enquanto que a tradução oblíqua utiliza-se quando não é possível realizar uma passagem direta da língua de partida para a língua de chegada, sendo necessário fazer reformulações/mudanças na estrutura linguística. Dentro da tradução direta encontramos os seguintes conceitos: 1. Tradução literal: transcodificação direta do texto de partida para o texto de chegada. Ex: He gave her a lovely flower. Ele deu-lhe uma linda flor. 2. Empréstimo: Utilização no texto de chegada de elementos lexicais da língua de partida (ou outra língua estrangeira). Ex: She’s doing playback.
8 Ela está a fazer playback. 3. Decalque: Transcodificação com adaptação aos sistemas fonético e ortográfico da língua de chegada (é semelhante ao empréstimo, mas em vez de usar a palavra da língua estrangeira, faz-se uma tradução literal de cada elemento). Ex: We had roast beef for dinner. Comemos rosbife ao jantar. À tradução oblíqua pertencem os seguintes conceitos: 4. Transposição: mudança de categoria gramatical. Ex: Is this your first visit to London? É a primeira vez que vem a Londres? 5. Modulação: Mudança de ponto de vista (nível linguístico). Ex: seat belt cinto de segurança 6. Equivalência: Recodificação de uma mesma realidade por processos estilísticos e/ou culturais diversos, tendo em conta a totalidade da mensagem. Ex: Once a thief, always a thief. Quem rouba um cesto rouba um cento. 7. Adaptação: Substituição de referências culturais da língua de partida por referências culturais da língua de chegada, para que os leitores da tradução possam entender a mensagem. Ex: She is five foot seven. Ela mede um metro e sessenta e sete e meio. Além destes procedimentos, existem ainda os seguintes também bastante utilizados pelos tradutores: 8. Apagamento: Eliminação de um elemento lexical do texto de partida não pertinente ou redundante no texto de chegada.
9 Ex: It sounds like the worst excesses of the Spanish Inquisition. Faz lembrar as piores atrocidades da Inquisição. 9. Expansão: Adição de um segmento ao texto de chegada, por razões de estética textual. Ex: (…) putting on airs as if he was too good to wipe his shoes on me, when he's nothing but a drunken bum who never done a tap of work in his life (…). (...) sempre a pavonear-se como se fosse bom de mais para me cuspir em cima, quando ele afinal não passa de um bêbedo e de um vadio que nunca mexeu uma palha na vida (...). 10. Explicitação: Adição da explicação de uma referência do texto de partida opaca para os leitores do texto de chegada (para evitar a nota de rodapé). Ex: Like a Polaris emerging from a submarine. Como um míssil Polaris a sair dum submarino. 11. “Chassé-croisé”: Dupla transposição, com mudança de categoria gramatical e permuta sintática dos elementos com carga semântica. Ex: The girl swam across the river. A rapariga atravessou o rio a nado. 12. Unidade de sentido: Ideia ou unidade semântica que numa língua é codificada por um conjunto de palavras e na outra língua é codificada por uma só palavra. Ex: Our new biologist could put in the shade many experienced scientists. A nova bióloga conseguia eclipsar muitos cientistas consagrados. A tradução de qualquer estilo de texto é um processo complexo e que exige grande responsabilidade e concentração do tradutor, pois há vários aspetos a serem considerados, como por exemplo, o público-alvo, a cultura da língua de chegada, as restrições de espaço e de tempo, o vocabulário utilizado, questões morais e legais, entre muitos outros que, apesar de dificultarem a tarefa do tradutor, acabam também por permitir que este desenvolva grandes competências a nível profissional e pessoal. Como pudemos observar através desta análise, o tradutor tem de estar em constante atualização relativamente a tudo o que se passa à sua volta, quer seja no seu meio social e
10 cultural, quer seja a nível mundial, para que possa realizar o seu trabalho com sucesso e, ao longo de cada tradução, deparar-se-á com vários obstáculos, sejam eles expressões idiomáticas, convenções, linguagem tabu, entre outros problemas que terá de ultrapassar utilizando todos os recursos disponíveis para essa tarefa, para que o seu profissionalismo não seja posto em causa e seja bem sucedido no seu trabalho.
11 CAPÍTULO II – INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO Neste capítulo, apresenta-se o local onde o estágio curricular, etapa final do meu percurso académico, foi realizado e descreve-se também o estágio de forma mais pormenorizada. 2.1. APRESENTAÇÃO DA INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO O local onde se realizou o estágio curricular, juntamente com as colegas Cláudia, Branca e Mariana, foi no Teatro Experimental do Porto (TEP), a mais antiga companhia teatral portuguesa, dirigida pelo Círculo de Cultura Teatral. O TEP localiza-se, desde 2021, na Rua do Freixo 1071, Porto. Com a Professora Doutora Maria Filomena Pereira Rodrigues Louro, professora que escolhi como orientadora para o meu estágio por parte da universidade, na presidência da companhia, e a Patrícia Gonçalves, minha orientadora por parte do TEP, na Direção de Produção, tive algumas oportunidades de conhecer esta ilustre companhia de teatro e aqueles que servem como alicerces para as fundações da mesma, como por exemplo, o Diretor Artístico Gonçalo Amorim. O TEP estreou o seu primeiro espetáculo em 1953 e, com a ajuda do seu primeiro Diretor Artístico, António Pedro (1953-1961), transformou o teatro em Portugal, através de uma revolução estética, com a introdução da encenação moderna. Ao longo dos 70 anos da sua existência e desenvolvimento, passaram pela companhia inúmeras figuras da cultura portuguesa, e foram representadas várias obras de autores nacionais e estrangeiros, tudo isto contribuindo para o crescimento e desenvolvimento do TEP como hoje o conhecemos. 2.2. O ESTÁGIO O estágio foi realizado no Teatro Experimental do Porto (TEP) e estava acordado ter a duração de quatro meses, iniciando-se a 6 de fevereiro de 2023 e terminando a 6 de junho de 2023. No entanto, devido a alguns imprevistos, acabamos por estender um pouco o seu final. Como a Tradução é uma área que não requer, normalmente, a presença física do tradutor na empresa/local de trabalho, o estágio foi realizado, maioritariamente, em regime online/teletrabalho. O estágio teve como principais tarefas a tradução e revisão de peças de teatro, de dossiers de diferentes peças e, além disso, a tradução do website oficial do TEP. Como as peças de teatro do TEP
12 são de dramaturgos portugueses, as traduções foram realizadas, maioritariamente, de português para inglês. Tive, contudo, oportunidade de traduzir da língua inglesa para a minha língua materna, o português, com a tradução de uma peça do dramaturgo irlandês John Millington Synge, intitulada Riders to the Sea , e também de traduzir de português para espanhol metade do website do TEP. Todas as atividades que realizei durante o estágio foram registadas num diário de bordo, para que a escrita deste relatório de estágio fosse mais fácil e organizada. O estágio proporcionou uma excelente oportunidade de praticar e melhorar a tradução para a língua inglesa, ou seja, para outra língua que não a minha língua materna, uma vez que as peças estão escritas na língua portuguesa e, com as nossas traduções, o TEP tem a possibilidade de internacionalizar as mesmas, ou seja, um público-alvo que não fale português terá a possibilidade de assistir aos espetáculos, quer seja através das falas dos personagens, quer seja pela legendagem da peça, e também abrirá a possibilidade de levar estes espetáculos a países não lusófonos, o que é uma mais-valia não só para o TEP, mas também para o público estrangeiro. Um aspeto interessante relativo ao estágio foi o facto de que não realizei as traduções individualmente. O TEP decidiu aceitar quatro estagiárias do MTCM e, por isso, a Professora Filomena Louro, nossa orientadora, resolveu dividir-nos em dois grupos, para que trabalhássemos nas tarefas em pares. Sendo assim, eu e uma das colegas do mestrado, Cláudia Sá, trabalhamos em grupo ao longo do estágio. Isto significa que as peças que traduzimos foram divididas entre as duas, sensivelmente a meio de cada peça, e cada uma traduziu uma metade. Este processo foi diferente e interessante, mas ao mesmo tempo desafiante, pois trouxe com ele alguns obstáculos que tivemos de enfrentar, como por exemplo, a uniformidade do texto traduzido. Ou seja, no final de cada tradução, procedemos à revisão da parte da colega, mantendo um grau bastante elevado de atenção, pois a tradução precisava de manter a coerência e a coesão do início ao fim, isto é, não se podia perceber, de forma alguma, que o texto foi traduzido por duas pessoas diferentes, com formas diferentes de traduzir e disparidades na tradução relativamente, por exemplo, a vocabulário (um termo não deve ser traduzido de dez formas diferentes ao longo do texto, deve ser escolhida uma tradução e essa escolha deve ser mantida ao longo do processo). Foi preciso, por esta razão, criar-se um ambiente confortável entre ambas, para que o processo fosse mais fácil e estes obstáculos fossem debatidos sem problema, para que a tradução final entregue fosse o mais profissional possível. Para que a comunicação entre todas fosse mais rápida e instantânea, decidimos criar uma pasta no Google Drive relativa ao estágio, à qual todas tínhamos acesso, onde a nossa orientadora por parte do TEP, Patrícia Gonçalves, colocava os textos originais e as estagiárias colocavam os textos de
19 Original Tradução “Adeus Maria Que eu vou pro mar Buscar sardinha Pra seres rainha Ela é fresquinha É como a prata Não tenhas medo Que o mar não mata.” “Goodbye, Maria I'm going to the sea To fish sardine To make you queen It's fresh and clean It's like silver Don't be afraid The sea is no killer.” Tabela 6 - Problema de tradução 5 A próxima dificuldade e, há semelhança da anterior, uma das mais complexas, foi a tradução da fala de um dos personagens em forma de poema, pois tive de ter em conta alguns aspetos importantes, como por exemplo, a rima, e não tinha muita prática nesse campo. O que causou mais problemas foi a rima de “sardinha”, “rainha” e “fresquinha” em inglês, pois “sardine” rima com “queen”, mas não encontrei um termo para “fresquinha” que rimasse com os anteriores. Por esse motivo, tentei encontrar outra solução e recorri ao processo de expansão, ou seja, adicionei informação à tradução, neste caso a palavra “clean”, que rima com as anteriores e não altera a mensagem do texto original. Outro dos contratempos foi com as rimas “prata” e “mata”, pois a tradução literal do último verso seria “The sea doesn’t kill”, mas para que rimasse com “silver” decidi utilizar o processo de transposição, ou seja, mudança de categoria gramatical, neste caso de um verbo (“kill”) para o nome (“killer”), traduzindo como “The sea is no killer”. Outro aspeto importante a ter em conta nas traduções de poemas é o número de sílabas, que convém ser igual ou o mais aproximado ao original, até porque neste caso, por exemplo, este poema pode ser cantado.
20 Original Tradução “SENHOR ABÍLIO Arrais não sei bem de quê mas com certeza não será de uma farmácia. Quando o pai naufragou tive de deixar os estudos para ir trabalha e sem estudos não se pode ser dono de uma farmácia. Mas aqui entre nós... já não tenho 11 anos. Tenho 21. Tenho 21 anos, pai, está na hora. Quero ser arrais de... não sei bem ainda. Agora o peixe que dá o pão é outro. É a classe média, são os turistas...” “MASTER ABÍLIO Skipper of what, I'm not sure, but it certainly won't be of a pharmacy. When dad was shipwrecked, I had to leave my studies to go to work, and without studies you can't own a pharmacy. But between you and me... I'm not 11 anymore. I'm 21. I'm 21, dad, it's time. I want to be a skipper of... I'm not sure yet. Fishing doesn’t put food on the table anymore. It's the middle class, it's the tourists...” Tabela 7 - Problema de tradução 6 O próximo contratempo encontrado na tradução foi com a expressão “Agora o peixe que dá o pão é outro” dita por um dos personagens da peça. Aqui, surgiram dúvidas, uma vez que esta afirmação não se trata de uma expressão idiomática, ou seja, em princípio não teria um equivalente na língua de chegada. Contudo, considerei que uma tradução literal também não era a melhor opção neste caso, pois poderia causar confusão ao leitor, visto que é preciso ser interpretada dentro do contexto em que foi dita para ser entendida. De acordo com o personagem, que é filho de pescador, a pesca já não é a melhor opção para sustentar uma família, isto é, já não põe comida na mesa como na época em que o pai era pescador. Por isso, julguei que a expressão inglesa “put food on the table” era uma boa alternativa para traduzir esta afirmação. Original Tradução “SENHOR ABÍLIO Passam cá quinze dias, três semanas, alguns menos porque estão só de caminho para o Algarve. E nós, pai, se vemos maneira de subsistir, ficamos a olhar para ontem...?” “MASTER ABÍLIO They spend fifteen days here, three weeks, some less because they're just on their way to Algarve. And we, dad, if we see a way to subsist, aren’t we going to take that chance…?” Tabela 8 - Problema de tradução 7
21 A última dificuldade com que me deparei na tradução desta peça foi com a expressão “se vemos maneira de subsistir, ficamos a olhar para ontem…?” de um dos personagens em conversa com o seu pai. Esta expressão pode inclusive relacionar-se com o problema apresentado anteriormente, pois foi dita dentro do mesmo contexto, da ideia de que a pesca já não sustenta como antigamente, por isso, o filho questiona o pai sobre o assunto, perguntando se não deveriam arriscar ir por outro caminho que lhes trará mais sustento em vez de ficarem estagnados a pensar no passado. Sendo assim, decidi não aplicar o método de tradução literal neste caso, pois não me pareceu fazer sentido e causaria confusão ao leitor da língua de chegada, acabando por traduzir de forma diferente, mas que ao mesmo tempo transmita a mesma ideia do texto original. 3.1.3. DOSSIER DE ABRIGO PARA NÁUFRAGOS O terceiro projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês do dossier da peça de teatro Abrigo para Náufragos . Este documento serve como ficha técnica da peça de teatro que traduzi anteriormente, incluindo informações gerais sobre a mesma, como o seu resumo, pequena biografia de Jorge Louraço, detalhes técnicos sobre as várias pessoas que levaram à criação da peça como hoje a conhecemos, um pequeno texto sobre o TEP e a sua equipa e alguns artigos de jornal sobre a peça. De acordo com as indicações da nossa orientadora por parte do TEP, Patrícia Gonçalves, os artigos de jornal eram as únicas informações que não deveríamos traduzir. Com isto, eu e a minha colega procedemos à divisão do dossier e, tratando-se de um documento curto e objetivo, a minha parte foi traduzir as primeiras 335 palavras. Como se tratou de um texto com linguagem simples e corrente, não surgiram grandes dúvidas durante a sua tradução, exceto talvez com um ou outro termo técnico, que poderiam ter mais de uma tradução, mas que rapidamente se resolveu com uma pequena pesquisa. 3.1.4. A CARA DA MORTE ESTAVA VIVA O quarto projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês da peça de teatro A cara da morte estava viva , uma criação de João Miguel Mota, com o apoio dramatúrgico de Raquel
22 S., que se inspirou nas músicas do cantor brasileiro Cazuza para escrever esta peça, pois Cazuza esteve internado alguns meses no hospital e, quando saiu, escreveu uma música onde afirmava ter visto a cara da morte e que ela estava viva, por isso, vamos encontrando ao longo da peça excertos de algumas das suas músicas. Além disso, a peça segue duas ideias fundamentais, sendo elas a linha de pensamento e estética queer e a temática do conforto do ser humano com o final da sua vida. Esta peça é relativamente curta e, tendo ficado com a segunda parte da divisão do texto, traduzi as últimas 1,374 palavras. Devido à sua curta dimensão e ao facto da linguagem utilizada ser simples, não encontrei grandes dificuldades na tradução, somente em alguns aspetos mais importantes, como por exemplo, relativamente às letras das músicas de Cazuza presentes na peça, pois não tínhamos a certeza se as traduziríamos ou se já existia a sua tradução. Como encontramos traduções já existentes na Internet, decidimos utilizá-las na nossa tradução, fazendo referência aos autores em nota de rodapé. Outra das dúvidas que tivemos foi relacionada com o calão utilizado de forma frequente ao longo da peça que, após debater com a minha colega, decidimos traduzi-lo de forma literal, ou procurar equivalentes na língua de chegada, pois pareceu-nos importante manter esse registo do texto original, que demonstra uma certa agressividade no discurso, em vez de simplesmente suavizá-lo ou omiti-lo completamente, pois acabaria por alterar o próprio tom e a mensagem do texto. Apresento, de seguida, um exemplo onde podemos observar a importância da utilização do calão na língua de chegada. Original Tradução “Uma criancinha abandonada pela merda do pai. [Sussurra] Vai-te foder.” “A little child abandoned by her fucking father. [Whispers] Fuck you.” Tabela 9 - Problema de tradução 8 A afirmação do texto original transmite uma mensagem bastante forte, e a presença dos palavrões serve para enfatizar ainda mais a ideia e o tom com que o autor quer transmitir este pensamento. Caso suavizássemos ou omitíssemos os palavrões na língua de chegada, podendo ficar com um resultado do género de “A little child abandoned by her father. [Whispers] Screw you.”, onde omitimos o primeiro palavrão e suavizamos o segundo, a força da afirmação acabaria por se perder no processo e a mensagem não seria a mesma.
23 Outra das dúvidas que tive na tradução foi com a seguinte expressão: Original Tradução “A fingir que não ouve as bocas do patrão enquanto faz o trabalho dele.” “Pretending not to listen to the boss's rude remarks while doing his job.” Tabela 10 - Problema de tradução 9 Aqui, a expressão “bocas do patrão”, que se refere a ouvir certos comentários menos agradáveis, poderia ter mais do que uma tradução, dependendo também do tom do discurso. Entre as diferentes opções possíveis, como por exemplo, “comments”, “ranting” ou “rude remarks” (mais suaves) ou “crap”, “bullcrap” ou “bullshit” (mais agressivas), pareceu-me que uma das opções mais leves seria suficiente neste caso, por isso, acabei por escolher a opção “rude remarks”. 3.1.5. ESTE TÍTULO NÃO QUE É MUITO LONGO O quinto projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês da peça de teatro Este título não que é muito longo (2011-2018), de Rui Pina Coelho, e é uma compilação de textos escritos para teatro. Devido à sua extensa dimensão (aproximadamente 400 páginas), decidimos dividir esta peça pelas quatro estagiárias do TEP, atribuindo sensivelmente 19 mil palavras a cada uma, tendo eu ficado com a última parte. Apesar da dimensão, estes textos não apresentaram grandes dificuldades, pois estão escritos de forma simples e organizada. Apresentarei, no entanto, algumas das que me causaram mais confusão. Original Tradução “Se pensares um bocadinho sobre isso Até tem a sua graça À tua volta Gorilla – calipo – epá – laranja e manga – pina colada” “If you think about it a little It's kind of funny All around you Gorilla gum - calippo ice cream - epá ice cream - orange and mango - pina colada” Tabela 11 - Problema de tradução 10
24 Neste exemplo, vemos no texto original a menção às chicletes Gorilla e aos gelados calipo e epá. A minha dúvida foi se o público-alvo iria ou não entender o que eram estes artigos. Como não tinha a certeza, decidi recorrer ao processo de explicitação e adicionar informação à tradução, para que não causasse dúvidas no texto de chegada, adicionando as palavras “gum” e “ice cream” para explicar o que era cada elemento. Original Tradução “Era só o que me faltava. Estou a ficar com barriga.” “That's all I needed. I'm growing a belly.” Tabela 12 - Problema de tradução 11 Outro exemplo de uma dúvida que tive na tradução foi na expressão “Estou a ficar com barriga” de um personagem de um dos textos. Apesar de existirem algumas expressões mais comuns na língua inglesa para esta afirmação, como por exemplo, “I’m getting fat”, “I’m getting fatter”, “I’m putting on weight”, “I’m gaining weight”, etc., decidi optar por uma tradução mais literal, mencionando diretamente a barriga, como diz no original, pois na próxima fala deste personagem ele apalpa a própria barriga e menciona que deveria voltar a correr. 3.1.6. A.N.T.Í.G.O.N.A. O sexto projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês da peça de teatro A.N.T.Í.G.O.N.A ., encenada por Gonçalo Amorim, que explora a tragédia de Sófocles e “faz-se do rasto de muitos e diversos materiais textuais em torno de Antígona (reescritas, ensaios, aproximações)” 2 , refletindo sobre diferentes temas da atualidade, como cidadania, direitos humanos, democracia e justiça. Esta peça foi dividida entre mim e a minha colega, tendo eu traduzido as primeiras 4,519 palavras. 2 Retirado da descrição da peça A.N.T.Í.G.O.N.A. do website do TEP
25 Esta peça não apresentou grandes problemas pois a sua linguagem era simples, por isso explicarei apenas um dos contratempos com que me deparei na tradução. Original Tradução ““Espírito são e mente vazia, sem as infinitas tarefas do dia-a-dia.”” ““Sound spirit and empty mind, without having endless everyday tasks assigned.”” Tabela 13 - Problema de tradução 12 Na frase acima podemos observar uma rima entre “vazia” e “dia-a-dia”, ou seja, na língua de chegada era esperado que também pudéssemos encontrar uma rima. Contudo, “mind” e “life” não cumpriam esse requisito, por isso tentei diferentes alternativas e formas distintas de escrever a frase, sem sucesso. Pensei então em descobrir outra solução para que este aspeto não se perdesse no processo de tradução, e decidi recorrer ao processo de tradução expansão, isto é, adicionar informação à língua de chegada que não existe na língua de partida, não alterando o seu significado original base, só o suficiente para cumprir o requisito das rimas. Sendo assim, adicionei o termo “assigned”, o que não alterou a afirmação original, mas permitiu-me criar uma rima no texto de chegada. 3.1.7. ESTÉTICA, RESISTÊNCIA E MELANCOLIA O sétimo projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês da peça de teatro Estética, Resistência e Melancolia , de Rui Pina Coelho, que se inspirou na obra A Estética da Resistência , do escritor e dramaturgo alemão Peter Weiss para a elaboração desta peça, que aborda bastantes temas, principalmente os da Arte e Política. A peça foi dividida entre mim e a minha colega, tendo eu ficado com as últimas 10,045 palavras. Apesar da sua extensão, a linguagem era fácil e, portanto, não me deparei com muitos contratempos na sua tradução. Uma das dúvidas que surgiram foi relacionada com títulos de obras, isto é, há certas alturas ao longo da peça em que as personagens listam vários livros e os seus autores, e não tinha a certeza se mantinha o título em português ou se o traduzia, visto que nem todas as obras têm título em inglês, e caso não tivessem, não sabia se deixava em português ou colocava o título na língua original do livro em questão. Decidi procurar um a um e colocar o título inglês, caso existisse, e caso não existisse decidi deixar em português.
26 Apresentarei, de seguida, um dos outros poucos problemas que surgiram ao longo do processo, contudo, algo complicado. Original Tradução “− E - Não sei. Água mole em pedra dura. − B - Pois, pois. Pedra dura! − C - E dura, e dura, e dura.” “− E - I don’t know. Soft water on hard stone. − B - Yeah, yeah. Hard stone! − C - And hard, hard, hard.” Tabela 14 - Problema de tradução 13 Neste caso, o problema foi com a expressão idiomática portuguesa “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, mais precisamente, a primeira parte da expressão, que é referida a certo ponto por um dos personagens. Aqui, não podemos utilizar uma expressão equivalente da língua de chegada, como por exemplo, “slow and steady wins the race”, pois nas falas seguintes fazem referência a elementos da expressão original (“pedra dura”, “E dura, e dura, e dura”), por isso decidi fazer uma tradução mais literal da expressão, para poder traduzir as falas seguintes com os mesmos termos da primeira, mas confesso que foi complicado e não fiquei muito confiante relativamente a esta tradução. 3.1.8. TRILOGIA DA JUVENTUDE O oitavo projeto realizado no estágio foi a tradução de português para inglês da peça de teatro Trilogia da Juventude (2022), idealizada por Catarina Barros, Gonçalo Amorim e Rui Pina Coelho. Esta trilogia é composta por três peças de teatro, sendo elas O grande tratado de encenação , A tecedeira que lia Zola e Maioria Absoluta , e inclui um prefácio de Sara Barros Leitão, que explica que as peças foram inspiradas em temas como “lutas que moveram e foram organizadas por diferentes gerações de jovens. O que é ser-se jovem em Portugal nos anos 1950? E nos 1970? E nos 1990?” e “Como se passa de um país em ditadura para um país em democracia para um país que entra na CEE?” 3 , além de “a história dos movimentos associativistas e revolucionários em Portugal, nos anos cinquenta, setenta e noventa, e, mais especificamente, a oposição ao fascismo salazarista, o movimento das 3 Retirado do Prefácio de A Trilogia da Juventude
27 implantações marxistas-leninistas e a luta contra as propinas” 4 , como é referido no início do documento. A peça foi dividida entre mim e a minha colega, tendo eu ficado com as primeiras 15,783 palavras. Ao longo da tradução desta peça surgiram bastantes dúvidas relacionadas com diferentes aspetos, por isso, vou apresentar algumas delas. Original Tradução “Que é, como quem diz, “fazer do verbo carne”.” “That is, as they say, “make the Word flesh”.” Tabela 15 - Problema de tradução 14 Neste caso, o problema foi com a expressão “fazer do verbo carne”, que não conhecia e, por isso, recorri à Internet para verificar se existiam menções de algum género relacionadas com a mesma. Descobri que a expressão é uma referência bíblica de João 1:14, "E do Verbo se fez carne". que na versão inglesa é "And so the Word became flesh". Como a expressão é uma adaptação da referência bíblica, considerei que a melhor opção seria adaptar também a tradução, utilizando a versão inglesa, isto é, como na versão portuguesa temos o termo “verbo” e na inglesa temos o termo “word”, decidi traduzir a expressão como “make the Word flesh”. 4 Retirado de “Uma nota sobre autorias” de A Trilogia da Juventude
28 Original Tradução “as armas os cravos meu amor Pausa MÁRIO Os escravos? ILDA … os C-r-a-v-o-s, meu amor.” “the guns the carnations my love Pause MÁRIO The exploitations? ILDA … the C-a-r-n-a-t-i-o-n-s, my love.” Tabela 16 - Problema de tradução 15 O problema seguinte ocorreu devido ao trocadilho relativo à Revolução do 25 de Abril, também conhecida por Revolução dos Cravos, onde ao ler “dos cravos” soa como “dos escravos”, e é exatamente isso que acontece na peça. O problema é que, em inglês, os termos não poderiam ser mais dispares, com cravos sendo “carnations” e escravos sendo “slaves”, ou seja, o trocadilho não funcionaria em inglês. Senti que tinha duas opções de tradução, sendo a primeira que se perdesse completamente este aspeto da cultura portuguesa e traduzisse de forma literal, mas que causaria confusão com as falas seguintes, ou então tentar encontrar uma forma de aproximar os dois termos. Decidi optar pela segunda opção, utilizando o termo “exploitations” como uma espécie de sinónimo de “slaves”, para que não se perdesse completamente o significado do texto de partida. Original Tradução MÁRIO “É, alguém te ouve, vêm aqui uns pides e tu apresentas-lhe o livro – é o António Zola! “Então, estava aqui a ler o Zola…”” MÁRIO “Yeah, someone hears you, a couple of PIDE agents come and you present them with the book - it's Antonio Zola! "So, I was here reading Zola..."” Tabela 17 - Problema de tradução 16
35 Figura 4 - Ferramenta MemoQ; memória de tradução Esta figura mostra-nos a memória de tradução que criei para a tradução das páginas do TEP de português para espanhol, que conta com 141 entradas, o que facilitou bastante todo o processo. Relativamente às traduções, não me deparei com nenhum problema em grande escala, uma vez que os textos eram simples e acessíveis, e qualquer pequena dúvida que surgiu ou termo do qual não soubesse a tradução, prontamente se resolveu com uma pequena pesquisa, utilizando ferramentas como o dicionário da Real Academia Española, o Linguee, o DeepL, entre outros. 3.1.12. GLOSSÁRIO NÁUTICO Dado que a peça Abrigo para Náufragos continha uma riqueza imensa de vocabulário náutico, além da sua tradução, decidi criar um glossário bilingue português-inglês no Excel com termos e expressões náuticas com que me deparei no texto original, e também na peça Invasão , para assim ficar com uma espécie de base de dados deste tema da especialidade, que poderá ser útil no futuro. Este glossário conta com, aproximadamente, 80 entradas. De seguida, mostrarei um pequeno excerto desse glossário.
36 Figura 5 - Amostra de Glossário Náutico (elaboração própria) 3.1.13. REVISÃO DAS PEÇAS DE TEATRO Outra das tarefas realizada no estágio foi a revisão das partes traduzidas pela minha colega Cláudia das peças que traduzimos em conjunto, ou seja, no final de cada tradução, a minha colega realizava a revisão da minha parte e vice-versa. De todos os projetos traduzidos no estágio, realizei a revisão dos seguintes: Invasão (2,221 palavras), Abrigo para Náufragos (5,551 palavras), Dossier do Abrigo para Náufragos (304 palavras), A cara da morte estava viva (1,353 palavras), A.N.T.Í.G.O.N.A. (4,997 palavras), Estética, resistência e melancolia (9,869 palavras) e Riders to the sea (2,073 palavras), somando um total de 26,368 palavras revistas. A revisão do texto é uma das fases mais importantes da tradução, pois é aí que o tradutor verifica se a tradução está pronta a ser entregue, verificando aspetos como coerência e coesão textual, erros ortográficos e gramaticais, falta de pontuação, tom do discurso, a formatação do texto e do documento em si, entre outros. É uma tarefa tão ou mais importante que a tradução, pois é necessário que o texto esteja o mais aproximado da perfeição possível para que a tradução seja um sucesso e a
37 sua leitura seja agradável e sem contratempos. Para a realização de uma boa revisão é necessária muita concentração e atenção a todos os detalhes para que não haja gralhas, tais como pontos finais em falta, vírgulas em locais errados, frases por traduzir, erros a nível gramatical, formatação em falta e, um dos mais importantes, a coesão do vocabulário, ou seja, não traduzir a mesma palavra de cinco formas diferentes ao longo do texto, pois pode tornar-se confuso para o leitor a mesma palavra estar constantemente a ser dita de forma diferente. Sinónimos são bastante úteis e importantes para evitar a redundância, mas devem ser utilizados com cautela e sabedoria. Ao longo das revisões fui reparando em alguns destes problemas nas traduções, o que acaba por ser “normal”, visto que os tradutores passam bastante tempo em frente ao mesmo texto, o que é cansativo não só para a visão, mas também para o próprio raciocínio e pensamento, acabando por deixar deslizar algumas gralhas, sendo, por isso, fundamental o papel do revisor.
38 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste relatório apresentei e descrevi detalhadamente todas as atividades e projetos realizados durante o estágio curricular no Teatro Experimental do Porto (TEP), o qual teve a duração de quatro meses. Decidi criar um gráfico para exemplificar com mais clareza o fluxo de trabalho ao longo deste tempo, e optei também por criar uma análise SWOT para ilustrar de forma mais simples e transparente a minha experiência no estágio, apresentando-os em seguida. Gráfico 1 - Fluxo de trabalho durante o estágio (elaboração própria) No que diz respeito ao meu trabalho no estágio, decidi criar este gráfico onde se pode observar a quantidade de palavras traduzidas em cada um dos meses de estágio, e também as palavras revistas. Começando pelo mês de fevereiro, encontramos apenas 10,060 palavras traduzidas. Isto devese ao facto de, por um lado, o estágio ter começado na segunda semana de fevereiro e, por outro, somente termos recebido duas peças de teatro para traduzir durante esse mês (quatro peças ao todo, duas para cada par), sendo elas Invasão e Abrigo para Náufragos , não esquecendo que cada membro do par traduz sensivelmente metade de cada peça. O mês de março apresenta-se como o mês com o maior número de palavras traduzidas, com um total de 24,882 palavras, o que foi possível pois um dos documentos que recebemos nesse mês foi 10,060 24,882 13,993 20,397 4,536 8,076 18,292 FEVEREIRO MARÇO ABRIL MAIO JUNHO Fluxo de trabalho no estágio Tradução Revisão
39 o Este título não que é muito longo , de quase 400 páginas, o que fez com que cada uma das estagiárias pudesse traduzir aproximadamente 19 mil palavras. Além deste documento, recebemos também outros de menor dimensão, o que permitiu que sobrasse tempo para realizar alguma revisão de documentos traduzidos anteriormente, o que resultou num total de 8,076 palavras revistas. Relativamente ao mês de abril, as 13,993 palavras traduzidas devem-se ao facto de termos apenas uma peça de teatro para traduzir nesse mês, ou seja, meia peça para cada membro do par, por isso aproveitamos o restante tempo para realizar a revisão das peças que traduzimos nos meses de março e abril, conseguindo rever um total de 18,292 palavras traduzidas pela minha colega. No que concerne o mês de maio, realizei a tradução de metade de dois documentos, o que adicionou 20,397 palavras ao número total de palavras traduzidas durante o estágio. Terminando o estágio na primeira quinzena do mês de junho, realizamos apenas a tradução do website do TEP, finalizando assim mais uma etapa do nosso percurso académico, terminando com um total de 73,868 palavras traduzidas e 26,368 palavras revistas. Figura 6 - Análise SWOT do estágio no TEP (elaboração própria)
40 Relativamente à minha experiência no estágio, decidi estruturar a minha reflexão através de uma análise SWOT, para que fosse mais fácil abordar os diferentes tópicos. Começando pelos pontos fortes, sinto que consegui cumprir os objetivos que tinha delineado anteriormente ao início do estágio, sendo eles a aplicação de vários conhecimentos e competências adquiridos ao longo do mestrado, como por exemplo, a utilização dos diferentes processos de tradução de Vinay e Darbelnet lecionados em diferentes unidades curriculares. Além disso, tive a primeira experiência do que é o mundo profissional da tradução e revisão, pois apesar de não ter estagiado numa empresa de tradução, mas sim numa companhia de teatro, realizei atividades nessa área, o que me permitiu desenvolver competências adquiridas anteriormente. Outra vantagem foi a possibilidade de praticar e desenvolver competências na tradução (e revisão) para uma língua estrangeira, neste caso, o inglês e também o espanhol. Seguindo para os pontos fracos, apesar de não serem muitos, menciono que o facto de não ter prazos de entrega específicos definidos como provavelmente teria numa empresa de tradução, causou um pouco de estranheza e confusão, uma vez que tentei sempre ser eficiente e rápida nas minhas traduções, assim como a minha colega, por isso entregávamos os documentos traduzidos com bastante prontidão, ficando com algum tempo livre antes de recebermos os próximos documentos, mas sinto que se tivesse tido prazos específicos conseguiria pôr em prática outras competências, tais como gestão de tempo e stress/trabalhar sobre pressão. Outro dos aspetos que senti que seria importante estar presente era o feedback das minhas traduções, uma vez que como não tinha alguém que o fornecesse de forma imediata, não sabia se estava a fazer algo errado, se as minhas traduções eram adequadas, etc. O último aspeto que me causou estranheza foi o facto de não sentir muita consistência relativamente ao ritmo de trabalho, por um lado porque os documentos eram de dimensões bastante diferentes uns dos outros e não os recebíamos em nenhuma altura específica ou regular e, por outro lado, porque os dois grupos de trabalho tinham ritmos de produção algo discrepantes. No que diz respeito às oportunidades, este estágio ofereceu-me uma ótima experiência na área da tradução e a prática e especialização em tradução teatral, permitiu-me também expandir conhecimentos em diversos campos, principalmente a nível de vocabulário náutico, tanto na língua portuguesa como na língua inglesa, o que me possibilitou a criação de um glossário bilingue sobre este tema. Graças à Professora Filomena tivemos a excelente oportunidade de participar num workshop sobre legendagem para teatro com um legendador profissional, o que foi uma experiência
41 bastante agradável e surpreendente. Por último, pude inclusive relembrar e desenvolver capacidades numa ferramenta de tradução CAT, o MemoQ. Para terminar esta análise, focando na parte das ameaças, simplesmente tenho a apontar que a partilha dos documentos para tradução foi, por vezes, demorada e inconsistente, como referi anteriormente, contudo, entendo o porquê desta situação, visto que o TEP nunca teve estagiárias de tradução anteriores a este ano, sendo então uma primeira vez para todos, e a nossa orientadora do TEP, Patrícia Gonçalves, apesar de sempre se mostrar disponível e acessível, não é da área da Tradução, ou seja, não tinha noções de, por exemplo, ritmos de trabalho de tradutores, isto é, quanto tempo aproximadamente demoramos a traduzir X palavras e quantas conseguimos traduzir num dia de trabalho, ou relativamente à necessidade de existirem prazos de entrega, entre outros. Para concluir, apesar de que alguns aspetos poderiam ter ocorrido de outra forma, esta experiência foi bastante gratificante, agradável e surpreendente, abriu-me os horizontes para novas áreas, conceitos e competências e, apesar de não ter tido a experiência completa do que é trabalhar numa empresa de tradução, estou bastante grata pela oportunidade e por ter ficado a conhecer o TEP, que é muito mais que uma simples companhia de teatro, é também uma casa e uma família que me recebeu com carinho e alegria.
42 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A CARA DA MORTE ESTAVA VIVA - Eventos . (n.d.). Www.portoenorte.pt. De http://www.portoenorte.pt/pt/eventos/a-cara-da-morte-estava-viva/ A.N.T.Í.G.O.N.A (estreia), pelo Teatro Experimental do Porto | 16 a 19 setembro, Teatro Carlos Alberto | DGARTES . (n.d.). Www.dgartes.gov.pt. De https://www.dgartes.gov.pt/pt/evento/3527 Bassnett, S. (1991). Translating for the Theatre: The Case Against Performability. TTR : Traduction, Terminologie, Rédaction , 4 (1). https://doi.org/10.7202/037084ar Bush, P. (2003). The Act of Translation: The Case of Juan Goytisolo’s A Cock-Eyed Comedy (pp. 121– 134). https://ddd.uab.cat/pub/quaderns/11385790n10/11385790n10p121.pdf Cortês, M. (2015). Artes: ELEMENTOS DO TEATRO . Artes. https://artesatividades.blogspot.com/2015/02/elementos-do-teatro.html Cruz, C. S. (2019). Tradução teatral – entre teoria e prática. Urdimento , 2 (35), 263–280. https://doi.org/10.5965/1414573102352019263 Dicionário de Termos Náuticos . (n.d.). Poseidon. De https://poseidon.pt/informacao/termosnauticos/#n Glossary of Nautical Terms: English – Portuguese, Portuguese – English . (2012). https://icdept.cgaux.org/pdf_files/English-Portuguese-Glossary-Nautical-Terms.pdf GradeSaver. (n.d.). Riders to the Sea Glossary | GradeSaver . Www.gradesaver.com. De https://www.gradesaver.com/riders-to-the-sea/study-guide/glossary-of-terms Imersão Cultural: 10 tipos de teatro que vão te encantar . Lets Blog. https://lets.events/blog/imersaocultural-10-tipos-de-teatro-que-vao-te-encantar/ João Guedes (1921-1983) . Wikipedia.org; Fundação Wikimedia, Inc. https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Guedes
43 Real Academia Española (2010). Diccionario . Www.rae.es. https://www.rae.es/ Steiner, G. (1975). After Babel (1st ed., pp. 17–48). Oxford University Press. Teatro . (2023, February 2). Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro TEP . (n.d.). Teatro Experimental Do Porto. De https://cct-tep.com/sobre/ TEP - A.N.T.Í.G.O.N.A. (n.d.). Teatro Experimental Do Porto. De https://cct-tep.com/antigona/ Tragédia, Comédia e mais: 20 gêneros teatrais surpreendentes . Artcetera - O Melhor Site de Arte E Cultura Do Mundo. https://artcetera.art/teatro/generos-teatrais/ Vinay, J.-P., & Darbelnet, J. (1958). A METHODOLOGY FOR TRANSLATION. In J. Sager & M. J. Hamel (Trad.), Stylistique comparée du français et de l’anglais (pp. 84–93). Wikipedia Contributors. After Babel . Wikipedia; Wikimedia Foundation. https://en.wikipedia.org/wiki/After_Babel Zola, É. (n.d.). Germinal (H. Ellis, Trad.). (Obra original publicada em1885)
44 ANEXOS ANEXO 1: AVALIAÇÃO DA ORIENTADORA DO TEP, PATRÍCIA GONÇALVES
51 FIGUEIRA BATALHA The sea is never the same. ANEXO 4: EXCERTO DO DOSSIER E DA TRADUÇÃO DO DOSSIER DE ABRIGO PARA NÁUFRAGOS ORIGINAL: “ Abrigo para Náufragos é um espetáculo de teatro construído a partir das notícias de naufrágios na costa portuguesa publicadas no jornal O Comércio do Porto . Parte dessas notícias dizem respeito a barcos da Nazaré, e foram escritas pelo meu avô materno (até 1968) e pelo meu pai (a partir desse ano), que eram correspondentes do jornal durante esses períodos. O meu outro avô, o paterno, tinha morrido no mar, em 1951, com 71 anos, no seu 27ª acidente. O número de naufrágios a que tinha sobrevivido era tão impressionante que saiu uma notícia no jornal Boston Globe . Os dois correspondentes do jornal, tanto o avô como o meu pai, tinham pequenas lojas de comércio que sobreviveram também a vários acidentes e um dia acabaram por fechar, tal como o próprio O Comércio do Porto e as inúmeras lojas do centro das cidades. O comércio ainda não era de grandes superfícies, as lojas não eram franquias. Que aspetos da nossa vida em comum naufragaram com o fim do comércio local e da imprensa?
52 TRADUÇÃO: “ Safe haven for castaways (Abrigo para Náufragos ) is a theatre play built from the news of shipwrecks on the Portuguese coast published in the newspaper O Comércio do Porto . Part of those news concern boats from Nazaré, and were written by my maternal grandfather (until 1968) and by my father (from that year on), who were the newspaper's correspondents during those periods. My other grandfather, the paternal one, had died at sea in 1951, at the age of 71, on his 27th accident. The number of shipwrecks he had survived was so impressive that a story was published in the Boston Globe newspaper. The newspaper's two correspondents, both my father and grandfather, had small business stores that also survived several accidents and one day eventually closed, just like O Comércio do Porto itself and the countless stores in the city centres. The businesses were not yet of large scale, the stores were not franchises. What aspects of our life together were wrecked with the end of local commerce and the press? ANEXO 5: EXCERTO DA PEÇA DE TEATRO E DA TRADUÇÃO DE A CARA DA MORTE ESTAVA VIVA ORIGINAL: 2 Diário 12 de Setembro. Ontem à noite tive um sonho. Eu tive um sonho estranho. Tive um sonho bom e acordei a cantar. Tive um sonho de nada e acordei cheio de raiva. Tive um sonho mau e acordei a chorar: vivo pelos olhos. Hoje eu acordei com medo mas não chorei. Não sei se é dia ou noite. Não sei o que estou a fazer. Queria acordar e estar morto. Morro pela boca. Como os peixes. Oceano, aceitas-me? No sonho eu estava vivo, apaixonado. O meu corpo tinha dois mil cavalos alados. Estava tão livre que não queria perder isso. Sentia-me com sorte. Amor tranquilo: tomar cerveja, querer carinho, sonhar sozinhos e olhar as estrelas a prever o futuro. Eu lia um livro depressivo na areia, tirava uma foto à nuca do rapaz. Tudo o que eu fazia era por ele. O mundo acordava e nós íamos dormir. Era simples. As drogas e os assuntos acabam sempre.
53 Porque é que somos assim? O amor na prática é sempre ao contrário. Amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata. Mentiras sinceras interessam-me. [em loop] Mentiroso. Otário. Carente. Merdas. Idiota. Estou pronto para viver de novo. Fumo. Enveneno o corpo. É a minha maneira de viver, de gastar minha energia, um cigarro atrás do outro, goles de whiskey, andar sem razão pela casa, trocar o lugar dos móveis. Eu não sei usar o amor. Eu sou poeta e não aprendi a amar. E também cheiro mal. De repente olhas e vês que perdeste alguma coisa morna e ingénua que foi ficando no caminho. Não existe nada vivo dentro deste quarto. TRADUÇÃO: 2 Diary September 12. Last night I had a dream. A weird dream. I had a good dream and woke up singing. I had a dream about nothing and woke up full of anger. I had a bad dream and woke up crying: I live through the eyes. Today I woke up scared but didn't cry. Don't know if it's day or night. Don't know what I'm doing. I wanted to wake up and be dead. I die through my mouth. Like fish. Ocean, will you take me? In the dream I was alive, in love. My body had two thousand winged horses. I was so free I didn't want to lose that. I felt lucky. Peaceful love: drinking beer, wanting affection, dreaming alone and stargazing predicting the future. I read a depressing book in the sand, took a picture of the back of the boy's head. Everything I did was for him. The world would wake up and we would go to sleep. It was simple. Drugs and affairs always end. Why are we like this? Love in reality is always the other way around. Loving is wagging the tail, licking and giving the paw. Sincere lies interest me. [in loop] Liar. Sucker. Needy. Shitty. Idiot. I'm ready to live again. I smoke. I poison my body. It is my way of life, to spend my energy, one cigarette after another, sips of whiskey, walking through the house without reason, changing the place of furniture. I don't know how to use love. I am a poet and I have not learned how to love. And I also smell bad. Suddenly you look and see that you have lost something warm and naive that got lost along the way. There is nothing alive inside this room.
54 ANEXO 6: EXCERTO DA PEÇA DE TEATRO E DA TRADUÇÃO DE ESTE TÍTULO NÃO QUE É MUITO LONGO ORIGINAL: PARTE DOIS Lagarta Atravessámos o Século juntos, meu amor. Deitámos fogo a palácios, destruímos impérios, cavámos sepulturas – para os nossos inimigos e para os nossos camaradas. Amámos e desprezámos. Mentimos. Corremos. Desde que começou o século ainda não parámos de correr. Quando temos frio ateamos fogo a um castelo e ficamos a vê-lo arder. Desde que começou o Século ainda não parámos de correr. ANA e CLÁUDIO vão passar muito tempo a fingir paixão, a forçar a alma e a transformar o próprio rosto – vão chorar e mudar de aspecto, em voz partida e adequar cada gesto, a seu bel-prazer, a formas inventadas. E não, não é monstruoso. É a única maneira. Para ELES é inevitável. Atravessam a Revolução Russa a correr. ANA Mil novecentos e dezassete? Tens consciência que isso não se percebe muito bem? Quer dizer: o que é que eu estou a dizer quando digo: mil novecentos e dezassete? CLÁUDIO Não compliques. É uma data. Faz agora. Quer dizer, faz para o ano, cem anos. Já viste? ANA É. Como o tempo passa quando a gente se diverte. CLÁUDIO ? ANA Cem anos de comunismo, não é? CLÁUDIO O comunismo é como um diamante. Ao longe, para uns parece uma pedra e para outros é uma espantosa fonte de luz. Mas só quando te aproximas e olhas assim, ao perto, é que percebes a quantidade de coisas que lá vão dentro. Umas coisas a bailar com as outras – e se agitas mistura-se tudo. (irónico) Uma alegria. ANA Cem anos disso. Temos de comemorar! CLÁUDIO Que é que tens aí?
55 ANA Coca-cola. E rum. CLÁUDIO Uma cuba livre! Ana, isso é tão antigo. Tão século XX. TRADUÇÃO: PART TWO STEADY We went through the century together, my love. We burned palaces, destroyed empires, dug graves - for our enemies and for our comrades. We loved and we despised. We lied. We ran. Since the century began we haven't stopped running. When we are cold we set a castle on fire and watched it burn. Since the century began we haven't stopped running. ANA and CLÁUDIO will spend a lot of time faking passion, forcing their souls and transforming their own faces - they will cry and change their appearance, in a broken voice, and adapt every gesture to their own invented forms. And no, it's not monstrous. It's the only way. For THEM it is inevitable. They run through the Russian Revolution. ANA One thousand nine hundred and seventeen? You realize that's not very clear? I mean: what am I saying when I say: one thousand nine hundred and seventeen? CLÁUDIO Don't complicate it. It's a date. It’s celebrated now. I mean, not now, it makes a hundred years next year. You see? ANA Yes. How time passes when you're having fun.
56 CLÁUDIO ? ANA A hundred years of communism, isn't it? CLÁUDIO Communism is like a diamond. From a distance, to some it looks like a rock and to others it's an amazing source of light. But it's only when you get a closer look that you realize how much stuff is inside. Some things dancing with others - and if you shake it, it all gets mixed together. (ironic) A joy. ANA A hundred years of it. We have to celebrate! CLÁUDIO What have you got there? ANA Coke. And rum. CLÁUDIO A free vat! Ana, that's so old. So 20th century. ANEXO 7: EXCERTO DA PEÇA DE TEATRO E DA TRADUÇÃO DE A.N.T.Í.G.O.N.A. ORIGINAL: A.N.T.Í.G.O.N.A, exposição retrospectiva da obra dx artista cuja identidade se desconhece, é um projecto curatorial independente desenvolvido especificamente para o espaço do Teatro Carlos Alberto. Perseguindo a recorrência obsessiva do tema antigónico, este espaço expositivo combina sound art, performance art, imagem em movimento e instalação, explorando o interseccionalismo temporal num pseudo-fractal em que estética e ética se confundem constantemente.
57 Antígona , de Sófocles, conta a história de resistência da sua protagonista. Etéocles, quebrando um acordo, toma o governo de Tebas do seu legítimo herdeiro Polinices, seu irmão. No campo de batalha matam-se um ao outro. Depois Creonte, recém chegado ao poder, decreta que o corpo de Polinices não deverá receber honras fúnebres – lutou contra Tebas e deverá, por isso, ser deixado a céu aberto, como alimento para cães e pássaros. Antígona, irmã dos mortos e, como eles, filha de Jocasta e Édipo, contra os conselhos da sua irmã Ismena e do Coro, é apanhada em flagrante a enterrar o cadáver. Creonte manda-a prender numa gruta para sempre. Antígona suicida-se. A.N.T.Í.G.O.N.A é uma entidade artística que surgiu nos anos que se seguiram à Grande Pandemia com pequenas intervenções no que, à altura, se chamava de “espaço público”. Estes trabalhos performáticos e plásticos, mapeados e identificados por críticos, permaneceram órfãos autorais até ao momento da ocupação do antigo Teatro Carlos Alberto, no Porto, centro operacional e galerístico dx artista desde a interdição mundial da forma teatral. A.N.T.Í.G.O.N.A apresenta regularmente obras em vários formatos, das quais distinguimos a composição para contadores de geiger, sismógrafos e entidades vegetais слух, na taiga da Sibéria; o dispositivo sonoro para as paredes do MOMA ETÉ/POLI, em Nova Iorque; e o mural Incest?, no Tate Modern, em Londres. TRADUÇÃO: A.N.T.I.G.O.N.E, a retrospective exhibition of the work of an artist whose identity is unknown, is an independent curatorial project developed specifically for the space of Teatro Carlos Alberto. Pursuing the obsessive recurrence of the antigone theme, this exhibition space combines sound art, performance art, moving image and installation, exploring temporal intersectionalism in a pseudofractal in which aesthetics and ethics are constantly mixed. Sophocles' Antigone tells the story of its protagonist's resistance. Eteocles, breaking an agreement, takes the government of Theban from its legitimate heir Polynices, his brother. On the battlefield, they kill each other. Then Creon, newly in power, decrees that the body of Polynices shall not receive funeral honours - he fought against Theban and shall, therefore, be left in the open air, as food for dogs and birds. Antigone, sister of the dead and, like them, daughter of Jocasta and Oedipus, against the advice of her sister Ismene and the Chorus, is caught in the act of burying the corpse. Creon has her locked up in a cave forever. Antigone commits suicide. A.N.T.I.G.O.N.E is an artistic entity that emerged in the years following the Great Pandemic with small interventions in what, at the time, was called "public space". These performative and plastic works, mapped and identified by critics, remained authorial orphans until the moment of occupation of the former Teatro Carlos Alberto, in Oporto, the artist's operational and gallery centre since the world ban of the theatrical form. A.N.T.I.G.O.N.E regularly presents works in various formats, from which we distinguish the composition for Geiger counters, seismographs and plant entities слух, in the Siberian taiga; the sound device for the walls of the MOMA ETÉ/POLI, in New York; and the Incest? mural, at the Tate Modern, in London.
58 ANEXO 8: EXCERTO DA PEÇA DE TEATRO E DA TRADUÇÃO DE ESTÉTICA, RESISTÊNCIA E MELANCOLIA ORIGINAL: Prólogo para um mundo ainda dividido Uma litania para um piano e um palco vazio. TRABALHADOR Tenho pensado, tenho-me habituado a pensar, que a criação artística sem verdade não tem muita razão de ser. Há tantas e tão boas obras de arte na história do mundo que estar hoje a acrescentar notas de rodapé só valerá mesmo a pena se for o resultado de um lúcido ato de humanidade, se for uma coisa “verdadeira”. Ansiedade niilista pós-moderna, talvez, bem sei. Pode ser. Ou melancolia de esquerda. Pode ser um rotundo engano, será, com certeza, mas tenho-me convencido disto mesmo. De resto, também eu sinto desconfiança e – confesso – algum desprezo quando vejo que uma suposta “verdade” ou “honestidade” é usada como caução para as mais diferentes vilanias: desde a falta de carácter ao encobrimento de uma qualquer fenda. Isto em relação à verdade em termos – digamos – gerais. Universais. Mas em relação à – minha – arte (e, em rigor, à criação artística, em geral)
59 tenho-me habituado a pensar que sem verdade, sem transparência, sem honestidade, o ato criativo aproxima-se mais de uma exibição de virtuosismo, de um mascarar de ego ou de um exercício de malabarismo intelectual do que de uma revelação de humanidade – coisa que, atabalhoadamente, procuro. TRADUÇÃO: Prologue for a still-divided world A litany for a piano and an empty stage. WORKER I have been thinking, I have grown accustomed to thinking, that artistic creation without truth doesn’t have much reason to exist. There are so many good works of art in the history of the world that adding footnotes today would only be worthwhile if it were the result of a lucid act of humanity, if it were something ”true”. Perhaps it’s post-modern nihilistic anxiety, I know. It could be. Or left-wing melancholy. It may be a complete mistake, it surely will be, but I have convinced myself of this very thing. Moreover, I also feel suspicion and - I confess - some contempt when I see that a supposed “truth” or “honesty” is used as collateral for the most different villainies: from lack of character to covering up any crack. This in relation to truth in terms that are – let’s say– general. Universal. But in relation to - my - art (and, in fact, to artistic creation, in general)
60 I have grown accustomed to thinking that without truth, without transparency, without honesty, the creative act approaches more of a display of virtuosity, a masking of ego, or an exercise in intellectual juggling than a revelation of humanity - something that I clumsily strive for. ANEXO 9: EXCERTO DA PEÇA DE TEATRO E DA TRADUÇÃO DE TRILOGIA DA JUVENTUDE ORIGINAL: Prefácio Essa coisa maravilhosa Sara Barros Leitão A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens. terá dito George Bernard Shaw, embora a autoria da citação seja questionada. Tentei recuperar todos os cadernos, agendas, post-its e arquivos que me pudessem ajudar a reconstituir os anos em que construímos a Trilogia da Juventude. É certo que a coisa começa numa ideia que se vai desenvolvendo, sobre a qual se vai escrevendo, se vai maturando, até se começar a pensar numa equipa para lhe dar vida e corpo, para a inflamar de mais ideias, mais palavras, até, por fim, a coisa passar a existir enquanto obra. Na minha vida, a Trilogia da Juventude começa com uma conversa no foyer do Teatro Nacional D. Maria II, onde aquele que viria a ser o encenador das peças, e que é também diretor artístico do Teatro Experimental do Porto (TEP), me interpela num coffee break de umas Jornadas de Teatro e me pergunta se podemos conversar dali a umas horas, para me falar sobre um projeto para o próximo ano. Consigo localizar que isto aconteceu no dia 14 de março de 2016. É esta a primeira entrada sobre este projeto que tenho na agenda: “19h30 - Reunião com Gonçalo Amorim”. Nesse encontro, o Gonçalo fala-me de uma ideia que vem a construir com Rui Pina Coelho e Catarina Barros. Querem fazer uma trilogia de espectáculos sobre a juventude. A lente que querem usar é a das lutas que moveram e foram organizadas por diferentes gerações de jovens. O que é ser-se jovem em Portugal nos anos 1950? E nos 1970? E nos 1990? Como se passa de um país em ditadura para um país em democracia para um país que entra na CEE? Dependesse da minha memória e poderia jurar que tinha aceitado de imediato. Mas a minha agenda confirma mais algumas reuniões para acertar datas, indisponibilidades, locais de ensaio, condições.