Full text
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho
iii AGRADECIMENTOS Este espaço é dedicado a todos os que me acompanharam e apoiaram durante a minha caminhada académica. A todos vocês um grande obrigado. Quero agradecer, particularmente e mais do que nunca, à minha família, pais e irmã, pelo incentivo diário a que me proporcionam, não só este ano de dissertação, mas ao longo do meu percurso académico e da minha vida. Obrigada por me fazerem perceber que a motivação da vida são os nossos sonhos. Às minhas orientadoras, pelo auxílio prestado e pela forma como orientaram o meu trabalho, através do seu apoio incondicional, motivação e carinho. Quero deixar um grande obrigado à minha box de treino, 5.7 CrossFit. A todos os meus parceiros de treino, parceira e coach. Corpo sã, mente sã. A vida não é a mesma sem amigos e, por isso, aproveito para referir os meus, através do maior e mais sincero agradecimento, por me apoiarem em todos os projetos e acreditam neles incondicionalmente. Não podia deixar de agradecer à Professora Odete, à Professora Alice e ao Professor Alexandre, por permitirem a concretização deste projeto com os seus alunos e acreditarem, como eu, na diferença e potencialidade das artes performativas. Deixo também um agradecimento à “Vaca Negra” - Centro para Criação, Arte e Cultura, pela total liberdade em usufruir do espaço para ensaios e por permitir a criação desta aliança com o projeto. De uma forma ou indireta, foram muitas as pessoas que cruzaram o meu percurso académico e o marcaram de alguma forma. A todas elas, um grande obrigado.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v RESUMO Este relatório tem como objetivo descrever e refletir o impacto alcançado d’A Vaca Negra Vai, um projeto de artes performativas, desenvolvido e projetado para funcionar como uma ferramenta de apoio ao ensino. O projeto A Vaca Negra Vai foi criado para ser interventivo e teve como palco as escolas, desde as primárias até às escolas secundárias, sendo este um dos seus pontos diferenciadores. Esta primeira edição foi considerada piloto por ser um ano de experimentação. A ação implementada incidiu sobre as crianças do primeiro ciclo, em particular do 3º ano de escolaridade, na Escola Básica 1/ Jardim de Infância de Nespereira e no Centro Escolar de Urgezes. A intenção principal deste projeto foi, desde a sua génese, abordar temáticas de cariz social em contexto escolar, mais precisamente, dentro da sala de aula das crianças, tentando causar impacto neste público, através de um método dinâmico e interativo, sobre assuntos abordados com menos frequência no currículo de ensino. No quadro desta ação os temas abordados foram o bullying , a guerra e o racismo. Ao longo deste relatório é também debatida a importância global da inserção das diferentes áreas artísticas no ensino, como a trilogia: dança, música e teatro. Foram abordadas algumas teorias e estudos sobre a importância das artes performativas, no desenvolvimento de capacidades e competências nas crianças. Segundo teorias de autores, que fundamentam os conceitos que este projeto envolve, tal como a interdisciplinaridade, a multidisciplinaridade, processos de interação social, ensino e disciplina. Também foram consideradas as opiniões dos docentes das escolas onde se realizaram as intervenções. Paralelamente a isso, este relatório descreve todo o processo de desenvolvimento do projeto de intervenção, na sua forma mais detalhada. Palavras-chave: Artes performativas; Interdisciplinaridade; Educação.
vi ABSTRACT This report aims to describe the impact achieved by “A Vaca Negra Vai”, a performing arts project developed and designed to function as a teaching support tool. The project A Vaca Negra Vai was created to be interventionist and have the schools as stage, from primary to secondary shcools, making this one of its differentiating point. This edition was considered a pilot year because it was a year of experimentation. The implemented action focused on first cycle children, in particular of the 3rd year of shcooling at the Escola Básica 1/Jardim de Infância de Nespereira and the Centro Escolar de Urgezes. The main intention of the project was, since its inception, to adress social issues in a shcool context, more precisely, within the children’s classroom, trying to impact this audience with a more dynamic and interactive tool on less frequently addressed subjects in the teaching curriculum. In the framework of this action, the themes addressed were bullying , war and racismo. This report also discusses the global importance of including different artistic fields in teaching, such as the trilogy: dance, music and theater. Some theories and studies on the weight of the performing arts in the development of skills and competences in children were approached, through authors theories that support the concepts that this project involves, such as interdisciplinarity, multidisciplinarity, processes of social interaction, teaching and learning. Also was considered the teachers opinion of the schools where the interventions took place. At the same time, this report describes the entire processo of development of the intervention project in its most detailed form. Keywords: Performing arts; Interdisciplinarity; Education.
vii Índice AGRADECIMENTOS ................................................................................................. iii RESUMO .................................................................................................................. v ABSTRACT .............................................................................................................. vi INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 10 1.1. A sala de aula .............................................................................................................. 11 1.2. Organização do projeto ................................................................................................ 11 CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA .............................................................................. 15 2.1. A relação entre a escola e a família .............................................................................. 15 2.2. Intervir junto da comunidade: benefícios e relação com o projeto ................................. 16 O PROJETO ............................................................................................................ 18 3.1) Conceptualização ........................................................................................................ 18 3.1.1) A Vaca NegraCentro para Criação, Arte e Cultura ................................................ 18 3.1.1.1) Filosofia do Centro ......................................................................................... 19 3.1.1.2) Topónimo ...................................................................................................... 19 3.1.2) Definição do projeto .......................................................................................... 20 3.2) Produção da Ação ....................................................................................................... 21 3.2.1) Instituições envolvidas .......................................................................................... 22 3.2.2) Caraterização da Amostra ..................................................................................... 25 3.2.2.1) As escolas ..................................................................................................... 25 3.2.2.2) Os alunos ...................................................................................................... 26 3.2.2.3) Equipa de trabalho ......................................................................................... 26 3.2.3) Reuniões .............................................................................................................. 28 3.2.3.1) Reuniões com a Equipa ................................................................................. 28 3.2.3.2) Reuniões com as Escolas ............................................................................... 29 3.2.4) Logística de materiais e equipamentos .............................................................. 29 3.3) A construção do espetáculo performativo ................................................................. 30 3.3.1) Dança ............................................................................................................... 30
14 Este é um projeto que pretende unir a Educação e as Artes, através da realização de uma performance que tente ampliar o conhecimento das crianças e adolescentes sobre diversos assuntos, menos recorrentes no plano de estudos do ensino regular, na tentativa de estimular o espírito de cidadania nas crianças e aproximar a arte e a cultura junto das mesmas. Os temas projetados para o projeto, de uma forma global, incluem racismo, desigualdade social, guerra, sustentabilidade e educação ambiental. O objetivo principal é intervir junto da comunidade jovem, num contexto escolar, na tentativa de os sensibilizar para determinados temas.
15 CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA 2.1. A relação entre a escola e a família A Educação em si encontra vários desafios, tanto no apoio ao desenvolvimento do respeito e igualdade social, como nas diferenças étnicas e linguísticas. Assim sendo, torna-se meritório criar uma educação intercultural através da abertura do ser humano ao mundo e ao próximo. Neste sentido, torna-se também necessário renovar e permitir a evolução, não só do próprio ensino nas crianças, mas também no próprio cidadão adulto, referindo, maioritariamente, os encarregados de educação das mesmas. A intervenção dos pais na educação dos filhos é indiscutível. No entanto, é algo que requer bastante exigência e dedicação da sua parte e esse é um dos maiores dilemas que as famílias enfrentam hoje em dia. Existe um confronto da sociedade com uma rotina apressada, onde a resolução de problemas de outra ordem se torna uma prioridade acima do tempo dispensado com a família. Consequentemente, estas atitudes podem provocar distanciamento entre os seus membros. Considerando este facto, a escola, além do ensino de matérias e ciências exatas, de alguma forma, providência outras experiências na vida das crianças que, em muitos casos, se encontram em falta no seu lar, como, por exemplo, o acesso a atividades artísticas e culturais. Segundo o Professor Alexandre Martins 1 , “poucos são os alunos que frequentam a música, poucos são aqueles cujos pais os levam a assistir uma peça de teatro. Essa vertente cultural é muito escassa nas crianças hoje em dia”. Segundo Carneiro (2008, p. 63), a socialização e a transmissão de valores, existentes nas estruturas educacionais, são fundamentais no desenvolvimento pessoal e social, permitindo a evolução da sociedade através da realidade que o ser humano compõe. Hoje em dia, mais do que nunca, a formação equilibrada da personalidade deverá torna-se uma prioridade, devido ao uso regular de tecnologias e média, onde rapidamente as transformações sociais se fazem notar, atribuindo à educação a necessidade em preocupar-se com o desenvolvimento de competências sociais e emocionais nas crianças, na tentativa de promover a sua inteligência emocional. 1 Professor Alexandre, docente do 2º e 3º ano, do Centro Escolar de Urgezes, Guimarães. Entrevista realizada a quatorze de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino.
16 Segundo a Professora Alice 2 , existem alunos que “entram aqui (na escola) às sete e saem daqui às sete. Portanto, chegam a casa ao tablet, que dá muito jeito, […] porque assim não tem que estar a chatear o pai e a mãe, e eles fazem de propósito, porque querem ir para o jogo porque estão viciados […] e sabem que o pai à primeira não cede, à segunda não cede mas à terceira vai ceder porque vem cansado de trabalhar”. De acordo com Carneiro (2008, p. 64), apesar das instituições escolares oferecerem a formação de princípios com foco nos exercícios da mente, aliados à estabilidade emocional, também a família prevalece nesta construção de valores e ideais, através do envolvimento emocional, baseado no afeto. A segurança e preparação emocional da criança para iniciar o seu percurso escolar depende, maioritariamente, do conforto e incentivo familiar. Segundo Goleman (1995, p. 239), para uma criança se sentir preparada para iniciar este percurso, é necessário que ela conheça um conceito básico: o saber aprender. De acordo com o autor, são necessárias, para isso, aptidões como: a confiança, curiosidade, intenção, autocontrolo, relacionamento, capacidade de comunicação e cooperação. Considerando que muitas destas aptidões são desenvolvidas em contexto familiar, torna-se fundamental o incentivo da família no desenvolvimento emocional da criança, a partir do berço. 2.2. Intervir junto da comunidade: benefícios e relação com o projeto Intervir junto de uma comunidade é permitir a abertura de ideias e de experiências no ser humano, tanto por quem oferece, como por quem recebe, podendo referir a prática do teatro para explorar esta troca. Segundo Sousa (2003), vários pedagogos chamam a atenção para a poderosa contribuição que o teatro pode oferecer à educação, pelo envolvimento emocional, de comunicação social, de crítica, de formação e informação que proporciona. Como referido pela Professora Alice 3 , uma das maiores dificuldades das escolas ao promoverem a arte e a cultura junto dos alunos, relaciona-se com o tempo que possuem para fazê-lo. A mesma afirma que “[…] o programa do primeiro ciclo é extremamente intenso e as expressões, todas elas, as quatro, que nós temos e estão contempladas no programa, são “parente pobre” porque estamos completamente “estranguladas”, “espartilhadas” pelo programa”. 2 Professora Alice, docente do 3º ano, da Escola Básica 1/Jardim de Infância de Nespereira, Guimarães. Entrevista realizada a dezasseis de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino. 3 Ibidem
17 O projeto A Vaca Negra Vai surge como tentativa de demonstrar uma possível mudança no paradigma e solução para este problema que as escolas em geral enfrentam: a falta de tempo para organizar e realizar atividades culturais e artísticas com os alunos. Com este projeto, a mudança acontece em diversos sentidos: Em primeiro lugar, não será o público a ir de encontro à arte, mas sim o contrário, criando desde logo uma inversão à tradicional ida a um teatro. A Vaca Negra Vai é um espetáculo portátil, que se desloca às diversas instituições de ensino, distinguindo-se pelo modo como intervém junto das crianças. Em segundo lugar, as práticas das artes performativas, neste projeto, não são realizadas apenas como passatempo, mas com um objetivo educativo, focando-se na aprendizagem através do entretenimento. Por último, os temas retratados em cada performance foram, neste ano piloto, escolhidos pelos alunos, conferindo um envolvimento do público no desenvolvimento da própria peça performativa, além de permitir a obtenção de competências ao abrigo destes conceitos. Um dos conceitos intrínsecos a este projeto é a interdisciplinaridade. Segundo Fazenda (2008, p. 21), “na interdisciplinaridade escolar, as noções, finalidades, habilidades e técnicas visam favorecer sobretudo o processo de aprendizagem, respeitando os saberes dos alunos e a sua integração”. O conceito interdisciplinar funciona como uma ponte de ligação entre as artes, a cultura e a educação, na tentativa de aproximar as crianças à arte e cultura, através do envolvimento das estruturas educacionais para que, de igual forma, todos os alunos possam usufruir de experiências artísticas, independentemente das suas atividades extracurriculares.
18 O PROJETO 3.1) Conceptualização 3.1.1) A Vaca NegraCentro para Criação, Arte e Cultura Antes de relatar detalhadamente em que consiste A Vaca Negra Vai e quais os seus objetivos, começo por apresentar “A Vaca Negra” - Centro para Criação, Arte e Cultura - e o motivo da minha escolha. “A Vaca Negra” tem como sede a antiga escola primária de Urgezes, Escola Primária Francisco Santos Guimarães, cujos tempos se encarregam de perpetuar com o nome “sujos-generis” do escuro animal, considerando o Centro como uma aposta ousada, meritória. A mesma surgiu pela necessidade da Junta de Freguesia de Urgezes estabelecer um projeto para este edifício icónico que havia fechado portas há cerca de um ano. Há um embelezamento em dar-se continuidade a um espaço de ensino à comunidade, onde as suas portas se fecharam para o ensino regular e se reabriram para o ensino artístico. As escolas primárias com fachadas antigas são consideradas património nacional, atribuindo ainda mais valor a este espaço, pelo seu envolvimento histórico com o passado. As áreas artísticas executadas pelo Centro incluíam o teatro, as artes plásticas e visuais, a dança, a música e a literatura. Com a abertura deste estabelecimento, o desafio consistia em fazer com que “o material e o imaterial, a tradição e o moderno, o jovem e o menos jovem, caminhassem de mãos dadas”. 4 A estrutura organizacional era supervisionada por apenas dois membros: pelo Diretor Artístico/Programador Cultural, Paulo César Gonçalves, que se ausentou do cargo por motivos de saúde, e pelo Executivo da Junta de Freguesia de Urgezes, Doutor Miguel Oliveira. Dado ser uma organização pequena, o Centro não necessitava de se caraterizar com uma estrutura rígida, optando por ser mais flexível quanto à estruturação e organização dos eventos e atividades, mantendo consistentemente o foco pelo interesse comum. Paralelamente a isto, as suas políticas de organização foram projetadas para serem de igualdade, mantendo assim a comunicação fluída e ordenada. 4 Descrição encontrada na página de Facebook d’A Vaca NegraCentro para a Criação, Arte e Cultura. Disponibilizado em: https://www.facebook.com/VacaNegraUrgezes/
19 “A Vaca Negra” tornou-se, assim, no primeiro projeto de descentralização cultural da cidade de Guimarães, o primeiro a ter apostado na criação e no vínculo à comunidade onde estava inserido. Atualmente não existe um cargo de Direção Artística, sendo apenas desenvolvida uma feira de artesanato anual no espaço d’ A Vaca Negra, organizada pelo Presidente da Junta de Freguesia e alguns voluntários, entre eles os escuteiros de Urgezes. 3.1.1.1) Filosofia do Centro Percebeu-se que “A Vaca Negra” seguia uma base filosófica e uma missão centrada na descentralização da arte, através da entrevista escrita pelo ex-diretor artístico do Centro (Anexo 1). De acordo com o mesmo, as bases filosóficas deste espaço são as seguintes 5 : ▪ “Aproximar a cultura e a arte da Comunidade, fazendo com que a mesma perceba que é dela própria que emana a identidade e dela é também que nasce o veículo a que podemos chamar ideia. A tradição não significa atraso, a tradição é respeito pelas raízes que moldam corpos e rostos”; ▪ “Criar, fazer, construir a partir de ideias originais, do trabalho desenvolvido e da partilha”; ▪ “Mostrar o que é desenvolvido. Expor, representar, atuar, com a ajuda de agentes culturais, parcerias e também protocolos levados a cabo no sentido de implementar uma dinâmica cada vez maior e mais envolvente”; ▪ “Promover, potenciar, apostar nos jovens e menos jovens talentos de Guimarães”; ▪ “Trazer até nós um pouco do que se vai fazendo noutras paragens, percebendo que ao conhecermos outras realidades melhoramos o conhecimento da nossa própria”. 3.1.1.2) Topónimo Um aspeto que desperta grande curiosidade é o nome da instituição que remete para um topónimo - Vaca Negra - pelo qual este local sempre foi conhecido. Esse topónimo tem origem numa lenda local (Anexo 2), conhecida pela comunidade da freguesia de Urgezes. Este curioso nome acompanha o logótipo d’A Vaca Negra (Anexo 3) com o slogan “escolhe as tuas asas e voa”. 5 Entrevista escrita realizada via e-mail no ano de 2018. Paulo César Gonçalves, Ex-Diretor Artístico d’A Vaca NegraCentro para Criação, Arte e Cultura.
20 3.1.2) Definição do projeto Nos últimos tempos, “A Vaca Negra” viu diminuir drasticamente o seu número de eventos e, consequentemente, o número de participantes, visitantes e espectadores, pela ausência de uma programação regular estabelecida, nem pensada, justificada pela inexistência de um Diretor Artístico. Pode perceber-se que este Centro, projetado para a arte e cultura, está a enfrentar uma fase de algum desânimo e falta de estruturação de pensamento criativo. O antigo Diretor Artístico, Paulo César Gonçalves 6 , considera que a instituição está, neste momento, “[…] muito aquém daquilo para que foi projetada”. Após uma ampla revisão e análise ao Centro, considerando as condições e problemas que enfrentam de momento, surgiu a ideia de criar um projeto que renovasse o seu espírito, as suas atividades e a sua presença na comunidade. Apropriando-me desta necessidade do Centro e do facto de querer desenvolver um projeto de intervenção para o presente ano letivo, foi desenvolvido, no decorrer do mês de setembro até final do mês de dezembro do ano de 2018, a definição do projeto, o seu processo e o tipo de intervenção a realizar para este ano. Como já anteriormente mencionado, “A Vaca Negra” foi sujeita a um Plano de Comunicação renovado, desenvolvido em contexto académico. Neste Plano, A Vaca Negra Vai seria uma das atividades a inserir na programação do Centro. A fim de conservar o vínculo pretendido com a comunidade, a ideia inicial para este projeto de mestrado consistia no desenvolvimento de workshops, das várias áreas artísticas, no espaço d’A Vaca Negra, permitindo ao centro ser um local para a arte e cultura, disponibilizando de forma gratuita estas práticas à comunidade. Simultaneamente a isto, com o objetivo principal na inclusão dos jovens da própria freguesia nas atividades do Centro e como forma de impulsionar “A Vaca Negra” no seio comunitário, inicialmente seriam efetuadas intervenções artísticas escolares, realizadas por artistas que usufruíam do espaço para ensaios, permitindo que o Centro funcionasse como uma residência artística. Devo admitir que propus inicialmente um projeto demasiado complexo, considerando a dimensão, tempo e recursos que dispunha. Era necessário adaptar a algo exequível para este ano de 2018/2019, podendo considerar-se estas ideias a longo prazo com os recursos necessários. 6 ibidem
21 Por idealizar o uso das artes performativas neste projeto, decidi inverter a ideia tradicional de ser o público a dirigir-se à arte, mas sim a arte a dirigir-se ao público. Desta forma foi desenvolvida a ideia de um espetáculo portátil, uma intervenção artística em contexto escolar, dentro da sala de aula dos próprios alunos. Aliando o trabalho anterior desenvolvido para o Centro, foi reformulada e aplicada a atividade A Vaca Negra Vai, dirigida às escolas. O nome remete para a agilidade do projeto, em que a Vaca Negra vai a qualquer lado, leva a arte consigo de forma flexível, escolhendo “as suas asas” 7 , asas estas que se relacionam com as mais variadas vertentes das artes performativas, desde a dança, música e teatro. O conceito portátil desmistifica o conceito de sala de aula, no sentido em que a Arte pode ser vista e percebida em qualquer lado, indo em contra a dicotomia entre a Arte e a Educação percebidas como áreas que não se cruzam. A mobilidade deste conceito, que permite o transporte do ato performativo para qualquer lado, facilita o alcance do público. O projeto não requer grande logística por parte das escolas, considerando que os alunos já estão no espaço onde se realiza a performance e que o projeto pode ainda aproveitar os recursos físicos e materiais, eventualmente necessários, já existentes. A motivação para o desenvolvimento deste projeto foi a criação de um vínculo entre dois pontos de interesse pessoais: a arte e temáticas sociais atuais. O uso da arte como ferramenta aliada ao currículo de ensino, pode permitir uma inovação no paradigma formal, entendendo esta prática pedagógica numa perspetiva ampla. De acordo com Pereira et al. (2014, p. 12) a educação surgiu devido a uma sociedade composta na pessoa humana como humana, numa civilização baseada na cultura, na relação e no encontro entre os indivíduos. Considerando esta ideia e na tentativa de defesa da junção das duas áreas – arte e educação – seria de grande apreço que este projeto contribuísse para reforçar a importância e potencialidade da educação artística. 3.2) Produção da Ação Antes de continuar, é importante assinalar que “A Vaca Negra” foi a escolha para o desenvolvimento deste projeto por três razões. Primeiro por ser o Centro onde foram desenvolvidas algumas atividades artísticas a solo e com colegas, permitindo um crescimento próprio a vários níveis. 7 Slogan do Centro “A Vaca Negra”
22 Em segundo lugar, por acreditar no seu potencial como um Centro que pode efetivamente descentralizar a arte e permitir um impulso a vários jovens artistas. Por último, pela convicção inicial que este projeto aliado a uma instituição teria mais força, oferecendo credibilidade e aceitação deste conceito, pelo menos, a uma escala local. Ao longo da etapa da definição do projeto, foram várias as reuniões com o presidente d’ A Vaca Negra como forma de tentar obter algum apoio financeiro e logístico, assim como da Câmara Municipal de Guimarães, da qual o mesmo também é membro. Entre o tempo que passava sem resposta de ambas entidades, o desenvolvimento do projeto continuou com os recursos disponíveis, mantendo motivação própria e desvinculando-me da expetativa deste possível apoio. Este fator permitiu concluir que a necessidade que avistava inicialmente em aliar-me a esta instituição, de forma a facilitar o acesso às escolas, não era necessária, pois consegui a aceitação de dois estabelecimentos de ensino para a realização da performance, através do contacto e reuniões com a direção de ambos. 3.2.1) Instituições envolvidas Avanço para a explicação da escolha da equipa, a logística envolvida na produção da intervenção e as instituições envolvidas neste processo. “A Vaca Negra” - Centro para a Criação, Arte e Cultura é a principal estrutura envolvida, considerando que este projeto foi desenvolvido na tentativa de ajudar a renovar e renascer este Centro, agora em declínio quanto a atividades artísticas. A Escola Básica 1/Jardim de Infância de Nespereira e o Centro Escolar de Urgezes foram as instituições de ensino que aceitaram a realização do projeto. O pedido de adesão das escolas implicou a definição prévia da faixa etária para quem seria realizada a performance. Foram colocadas duas hipóteses para esta experiência piloto: a criação de uma performance adequada às diferentes idades, considerando os alunos do 1º ciclo, 2º ciclo e ensino secundário, filtrando posteriormente quais as instituições mais recetivas; ou considerar apenas alunos do primeiro ciclo, com a faixa etária dos seis aos nove anos, por serem alunos que estão a iniciar o seu percurso escolar. Tem sido atribuída uma importância cada vez maior à participação das crianças na sociedade. A sociologia da infância estuda esta participação e atribui-lhe cada vez mais ênfase e,
23 tal como Tomás (2007, p. 48) defende, as crianças são atores sociais que podem expressar as suas ideias e aspirações. Apropriando-me desta noção e daquilo que a mesma pode acrescentar ao meu projeto, foi considerada a segunda opção, permitindo que as crianças do primeiro ciclo possam crescer como cidadãos ativos e com voz, preocupados e sensibilizados com temáticas sociais. A primeira hipótese pode ser considerada para execução em anos posteriores com os recursos e apoios financeiros, materiais e logísticos necessários. Geograficamente, as escolas localizam-se em freguesias próximas entre si. Ambas num meio mais periférico da cidade, o que justificou a relevância do meu projeto, uma vez que, comparativamente a escolas do centro da cidade, as que se localizam na periferia têm, segundo o Professor Alexandre Martins 8 , “menos acesso a oferta cultural e artística”. O Centro Escolar de Urgezes foi a primeira escolha devido à sua localização ser a mesma d’A Vaca Negra, a três minutos de distância desta última, sendo uma escola conhecida na freguesia, em que as crianças tinham por hábito frequentar, participando nas suas atividades. Quanto à Escola Básica de Nespereira a seleção foi uma sugestão de um dos membros da equipa docente de teatro da escola, que considerou interessante e inovador receber este tipo de projeto na instituição onde leciona. Este membro funcionou, assim, como uma porta de acesso ao contacto com a mesma. Após a primeira reunião com as instituições para explicar o projeto, em que consistia e como seria realizado, ambas se demonstraram disponíveis e recetivas quanto ao uso do espaço escolar e a participação dos seus alunos para a intervenção. Tal como o Professor Alexandre 9 , docente do Centro Escolar de Urgezes, justificou na sua entrevista, a própria escola e os professores esforçam-se na organização de atividades extracurriculares com os alunos, de forma a promover uma aproximação maior a atividades culturais e, inclusive, tentar promover a importância destas atividades junto dos encarregados de educação de cada criança. O grande entrave na concretização destas atividades é a falta de tempo para realizá-las, devido ao plano de estudos lotado com disciplinas e matérias para lecionar. Assim como afirmou a Professora Alice 10 “o programa do primeiro ciclo é extremamente intenso”. 8 Professor Alexandre, docente do 2º e 3º ano, do Centro Escolar de Urgezes, Guimarães. Entrevista realizada a quatorze de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino. 9 Ibidem 10 Professora Alice, docente do 3º ano, da escola básica 1/Jardim de Infância de Nespereira, Guimarães. Entrevista realizada a dezasseis de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino.
30 Embora as salas estivessem equipadas com material de som básico, os músicos e o produtor musical disponibilizaram a sua aparelhagem e colunas para projetar uma melhor qualidade de som e, sendo assim, não foi necessário requisitar este tipo de material. Relativamente à gravação da performance era imprescindível equipamento de vídeo e fotografia para registar a primeira intervenção deste projeto. Paralelamente a isto, foi utilizado um foco de luz, colocado no meio do palco, de forma a criar uma envolvente teatral. 3.3) A construção do espetáculo performativo Desde o primeiro rascunho deste projeto até à sua definição final, o conceito portátil esteve sempre presente. A possibilidade de transportar o espetáculo para outros locais é o que diferencia este projeto de outras atividades artísticas, a que as escolas se habituaram, como a ida ao teatro ou ao cinema. Paralelamente a esta distinção, este projeto foi construído de forma colaborativa e pretende continuar a sê-lo. O guião da performance já estava definido, mas todos os artistas envolvidos contribuíram com o melhor das suas artes para uma performance e um projeto mais personalizado. Cada parte da ação foi pensada detalhadamente, possibilitando a correlação das diferentes artes e das diferentes estórias representadas. Foi criada uma envolvente interpessoal, através de quatro elementos que pretendiam captar a atenção do público: a roupa, as cores, os autocolantes e uma lanterna. É importante acrescentar que, em todo ato performativo, existiu o cuidado em manter contacto direto com as crianças, através do olhar, para criar uma sensação de proximidade entre os artistas e o público. Foi pretendido projetar várias emoções desde felicidade, surpresa, medo, ira, determinação, desgosto, desprezo e dor, para alcançar um misto de emoções nas crianças. Relativamente ao guião da performance (Anexo 6), o mesmo foi desenvolvido com as três artes envolvidas: a dança, o teatro e a música. 3.3.1) Dança De acordo com Sousa (2003, p. 165), o objetivo da dança educativa não é o ensino de dança, mas sim a educação, permitindo o desenvolvimento da personalidade da criança. Esta linha de pensamento encontra-se sincronizada com o projeto A Vaca Negra Vai.
31 Manteve-se em consideração a idade do público e, dessa forma, uma coreografia muito elaborada não era o objetivo. O foco era o sucesso na transmissão da mensagem e não a transmissão de técnicas de dança específicas (Figura 2). A coreografia foi desenvolvida com passos simples dando ênfase à expressão facial e corporal. Os temas racismo e bullying foram os representados por esta arte. FIGURA 2 - BAILARINAS, INÊS E CATARINA, MOMENTOS ANTES DA PERFORMANCE NO CENTRO ESCOLAR DE URGEZES Ficou decidido, em reunião com as bailarinas, utilizar o preto e o branco na cena do racismo, por serem cores facilmente reconhecidas como opostas, na tentativa de representar, simultaneamente à coreografia, a diferença e a igualdade das coisas e pessoas. Na cena do bullying , o ambiente da ação era escolar e, de modo a transmitir uma ação realista, foi utilizada roupa jovem/infantil. A intenção era que as crianças revivessem momentos que já passaram, que já fizeram alguém passar ou que já viram a acontecer, funcionando, quando aplicável, como efeito de espelho. 3.3.2) Teatro Considerando que na parte teatral foi representada a guerra e as suas vítimas, o guião foi inspirado em casos reais, em crianças de oito anos que vivenciaram o terrorismo. Optou-se por fazê-lo para que transmitisse a ideia de que existem crianças que efetivamente passam por situações iguais ou semelhantes. De acordo com a Professor Alice 12 , os alunos “ficaram 12 Professora Alice, docente do 3º ano, da escola básica 1/Jardim de Infância de Nespereira, Guimarães. Entrevista realizada a dezasseis de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino.
32 preocupados com a questão da guerra […] e perguntaram se “é mesmo assim?”. A partir dessa questão desenvolveram um diálogo sobre o tema, esclarecendo algumas ideias sobre o mesmo (Figura 3). FIGURA 3 - ATOR, ZACARIAS, MOMENTOS ANTES DA PERFORMANCE NA ESCOLA BÁSICA 1/JARDIM DE INFÂNCIA DE NESPEREIRA Outro exemplo sobre o impacto deste tema nas crianças foi no Centro Escolar de Urgezes, onde a Professora Odete 13 referiu que, numa atividade escrita, alguns alunos “foram buscar a situação da guerra”. A roupa verde escura e terra fizeram parte do figurino, de forma a associar diretamente ao tema em questão. A execução da ação foi atenciosa com a utilização das palavras, adaptando-se à faixa etária, considerando que o público foi mais jovem, mais sensível e com menos conhecimento em determinadas questões relativas ao tema. 3.3.3) Música Em reunião com os músicos e produtor musical, ficou decidido incluir música ao vivo para criar mais dinamismo na performance. A abertura foi composta por uma banda sonora com ritmo crescente, representando o mistério, curiosidade e atenção. De acordo com um artigo publicado pela Ham & High Education (2019) a prática de um instrumento desenvolve a coordenação, criatividade e capacidade motora nas crianças. Estas 13 Professora Odete, docente do 3º ano, do Centro Escolar de Urgezes, Guimarães. Entrevista realizada a quatorze de maio de 2019. Objetivo principal na recolha de perspetivas sobre a relação entre as artes e o ensino.
33 conseguem obter um melhor desempenho académico por reconhecerem as recompensas existentes que advém do esforço, da prática e da disciplina. No ato performativo não existiu envolvimento das crianças na prática de instrumentos, apenas a sua observação. Apesar disso, o projeto pretende incentivar a sua prática pelos benefícios que promove, reconhecidos também pelos próprios professores dos alunos. 3.3.4) Elementos comuns da performance Foram desenvolvidos alguns elementos em comum utilizados durante toda a performance, ao longo dos três tipos de arte. Primeiramente, para uma maior interação, ficou decidido associar cada tema da performance a uma cor, através de autocolantes de papel amarelos, azuis e verdes (Figura 4). A turma foi dividida em três grupos e, a cada grupo, distribuída uma cor. Cada artista tinha na sua roupa a cor correspondente a cada tema e foi explicado aos alunos que os círculos de papel lhes permitia associar cada tema a uma cor. FIGURA 4 – AUTOCOLANTES ATRIBUÍDOS AOS ALUNOS, CADA COR REPRESENTA OS TEMAS BULLING, RACISMO E GUERRA, RESPETIVAMENTE Este detalhe teve como objetivo criar um elo de ligação com as crianças e os artistas, permitindo uma performance mais dinâmica. Desta forma, as crianças estariam atentas a qual cor pertencia o seu tema, facilitando a associação e interpretação para o mesmo. Outro elemento comum durante a performance foi o uso de uma lanterna. Em cada tema, a lanterna representava um objeto diferente: no bullying era um brinquedo, na guerra era uma arma e no racismo jogou-se com as luzes entre o escuro e o claro. Toda a performance foi contínua, não houve uma quebra nos momentos, criando assim uma ligação entre todas as estórias e permitindo um misto de emoções contínuo nas crianças. A VACA NEGRA VAI 2018/2019 A VACA NEGRA VAI 2018/2019 A VACA NEGRA VAI 2018/2019
34 3.3.5) Escolha dos temas da performance e a sua importância Como já referido, este projeto teve como objetivo retratar temas de cariz social através das artes performativas. A intenção era tentar demonstrar que esta técnica, inserida no ensino como uma estratégia para a aprendizagem nas crianças, se torna dinâmica para os mesmos e pode proporcionar uma maior noção das suas próprias atitudes e comportamentos. Trabalhar estas noções implica não só o envolvimento da criança, mas também dos adultos, nomeadamente a família e os professores, que são agentes transmissores de informação aos mais novos. A escolha dos temas para este ano não foi aleatória. Na primeira visita aos respetivos estabelecimentos escolares, foram entregues questionários informais às crianças para que as mesmas escolhessem temas que consideravam interessantes abordar em sala de aula. Como foram recolhidas preferências de escolas diferentes, obteria, certamente, resultados diferentes. Assim sendo, antecipou-se a seleção com temas que já tinham sido projetados para este ano. Estes questionários serviram para analisar a eleição dos alunos frente a diferentes tipos de temas. Mais à frente, neste relatório, na secção “metodologias”, encontram-se relatados, detalhadamente, os resultados obtidos com esta técnica de recolha de informação. Os temas escolhidos para a performance foram o racismo, o bullying e a guerra, com inclusão do tema das crianças vítimas de guerra. Retratar estes temas junto a crianças mais novas foi um desafio e a forma como foi transmitida a mensagem implicou um trabalho conjunto de toda a equipa, para que não fosse ultrapassado nenhum limite de sensibilidade. A ideia deste projeto não é promover a noção de algo que as crianças ainda não sabem, mas sim tentar prevenir atitudes que acontecem ou podem acontecer.
35 PLANO DE ORÇAMENTAÇÃO, PRODUÇÃO E COMUNICAÇÃO A etapa de orçamento do projeto foi desenvolvida da forma mais realista quanto possível para este ano piloto. Foram desenvolvidas algumas adaptações, mas a ideia base manteve-se. Para conseguir desenvolver A Vaca Negra Vai, foi concebido um plano fundamental que serviria de guia para manter o foco no essencial. Como supracitado, foi elaborado um Plano de Orçamentação, enviado à Câmara Municipal de Guimarães, com objetivo de conseguir algum apoio ao projeto. O Plano de Produção foi desenvolvido simultaneamente ao Plano de Orçamentação. Desta forma, facilitava a perceção dos custos que envolviam cada ação, consoante a necessidade incluída na produção da performance. Por dar-se demasiado foco à parte da produção e conceção da performance, o Plano de Comunicação não foi prioritário, sendo uma parte do projeto a desenvolver com mais relevância nas próximas edições do projeto. Foi desenvolvido o cartaz da intervenção (Figura 5), colocado nas escolas, no próprio dia da performance. FIGURA 5 – CARTAZ DO PROJETO A VACA NEGRA VAI, EDIÇÃO 2019
36 Foi desenvolvida uma apresentação do projeto para o blog do curso Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura (Anexo 7), possibilitando o acesso e conhecimento do projeto a todos os colegas e docentes da Universidade 14 . Além disso, foi enviado um press release ao jornal e rádio local da cidade, Guimarães Digital (Anexo 8). O objetivo foi partilhar iniciativas e ações que, embora com dimensão mais pequena, aconteceram em escolas da cidade. 14 Texto disponível em: https://comartecultura.wordpress.com/2019/07/18/as-artes-performativas-de-maos-dadas-com-a-educacao
37 PARAMETRIZAÇÃO DOS RESULTADOS Para este ano de experimentação, o objetivo d’A Vaca Negra Vai era testar a sua viabilidade e adesão por parte das escolas. Este ano permitiu explorar o interesse das mesmas neste tipo de atividades, incluídas no seu espaço escolar, melhorar diversos fatores, desde a forma como se captura o interesse do público-alvo, assim como a nível de produção e verificar as melhorias necessárias para a próxima edição. Depois de toda a execução prática, é então necessária uma avaliação dos resultados, comparando o que foi planeado com o que foi executado, incluindo os imprevistos que aconteceram. Começo por expressar a minha avaliação positiva em relação ao projeto. Apesar de não obter as condições financeiras e logísticas planeadas inicialmente, tudo o resto aconteceu dentro do previsto. 5.1) Relatório dos acontecimentos Foi desenvolvido um conjunto de normas respeitadas por todos os membros da equipa (Figuras 6 e 7) no dia da atuação, tais como: • A chegada ao recinto escolar aconteceu uma hora antes da hora agendada na escola; • Os artistas levaram todo o equipamento, roupa e maquilhagem que necessitaram para a performance; • O pré-ensaio na sala de aula foi realizado no dia da atuação, no início dessa hora; • Ao integrarem o seu personagem, foi obrigatório a verificação do uso dos autocolantes com as cores correspondentes aos temas; • O sound-check, o teste de câmara e vídeo e a verificação do funcionamento do foco de luz, foram efetuados nesse espaço de tempo.
38 FIGURA 6 – PREPARAÇÃO DOS ARTISTAS E DO ESPAÇO PARA A PERFORMANCE NO CENTRO ESCOLAR DE URGEZES FIGURA 7 – PREPARAÇÃO DOS ARTISTAS E DO ESPAÇO PARA A PERFORMANCE NA ESCOLA BÁSICA 1 / JARDIM DE INFÂNCIA DE NESPEREIRA Assim que os alunos entraram na sala de aula, foi pedido que, de forma alinhada, se sentassem em formato da letra “U”, encostados às paredes, para que o palco dos artistas fosse o centro da sala, com o objetivo de facilitar a divisão da turma em três grupos. A cada aluno foi distribuído o círculo de papel com uma cor, correspondente a cada tema. No final da performance iniciou-se um diálogo com as crianças. No intervalo de tempo entre quinze a vinte minutos, os alunos foram questionados sobre a percetibilidade das histórias que observaram. Em cada escola obteve-se um dinamismo diferente por parte dos mesmos, alguns foram mais introvertidos e outros mais dinâmicos. Foi pedido aos alunos que, de parte em parte, explicassem as mensagens transmitidas pela performance. De uma forma geral, conseguiram perceber que a utilização do preto e do branco
39 não estava diretamente associada ao racismo, apesar de conseguirem entender que as atitudes representadas estavam relacionadas com o tema (Figura 8). Conseguiram também reconhecer algumas atitudes que acontecem diariamente entre colegas, tais como o julgamento, a não partilha e a falta de entreajuda. FIGURA 8 – PERFORMANCE DINÂMICA PRESTADA PELSO ARTISTAS NA ESCOLA BÁSICA 1 / JARDIM DE INFÂNCIA DE NESPEREIRA Posteriormente a esta conversa, aconteceu um momento inesperado quando as crianças questionaram o tipo de instrumentos que os músicos utilizaram. Admiradas com os instrumentos - cajón 15 e bombo - pediram aos músicos para os experimentarem. A turma foi dividida em três grupos e durante cerca de quinze minutos deu-se início a uma atividade improvisada. Enquanto alguns alunos praticavam dança, outros executavam exercícios de expressão facial e outros experimentavam os instrumentos. No final todos se juntaram, dançando ao ritmo da percussão improvisada pelos músicos. Foi uma experiência enriquecedora para as crianças e para os artistas, mas devido a uma falha técnica no equipamento de vídeo, por motivo alheio, não foi possível registar estes momentos. Quanto à experiência na Escola Básica 1/ Jardim de Infância de Nespereira, foi notória uma maior perspicácia dos alunos, quer nas suas perguntas como nas suas respostas. Questionaram 15 Cajón: instrumento de percussão original do Perú, utilizado em várias partes do mundo, inclusive na Europa. É composto por madeira com formato em caixa.
46 O questionário permitiu avaliar a eficácia do próprio exercício. Procuramos aferir se os objetivos que conduziram ao exercício foram alcançados e se os efeitos produzidos junto dos alunos corresponderam aos efeitos previstos e desejados. Relembramos que o exercício visou estimular nos alunos um pensamento de reflexão critica a temas atuais pertinentes e identificados pelos próprios alunos, ao mesmo tempo que articulados com os conteúdos programáticos, desenvolvidos pela professora, em contexto de aula. Relativamente à conclusão sobre as respostas fechadas, as mesmas foram equilibradas apontando apenas uma diferença na questão 4 (“Percebeste a mensagem que cada cor quis transmitir?”), na turma do Centro Escolar de Urgezes, por transparecer uma maior dificuldade na compreensão da relação entre a cor e o tema, comparativamente às restantes duas turmas. Quanto às respostas abertas, as mesmas tinham como objetivo entender até que ponto as crianças, com oito anos de idade, conhecem os temas abordados, percebendo também que tipo de reflexão desenvolveram em relação aos mesmos. No anexo 14 encontram-se descritas as respostas dos alunos. A Questão 2 pedia às crianças que selecionassem a parte da performance que mais lhes agradou. A opção “todas as partes” foi a mais selecionada nas três turmas e em seguida a opção “música”. Uma minoria de alunos preferiu dança e teatro. O destaque atribuído à opção “música” em relação às outras áreas artísticas, poderá relacionar-se com o facto de, durante a performance, terem sido apresentados instrumentos, ritmos e intensidades diferentes do seu habitual. Relativamente à Questão 5, a mesma pretendeu perceber a sensibilidade de cada um perante uma situação como uma criança que presenciou a guerra e de que forma conseguiam ajudar. Podem encontrar-se respostas menos afetivas e mais relacionadas ao materialismo, refletindo, possivelmente, a sociedade materialista em que nos encontramos. Algumas respostas como “dava-lhe roupa, calçado e um bocado de dinheiro, um emprego e uma casa”, “tirava-o dali com um helicóptero” ou “eu dava-lhe um milhão de euros” podem ser exemplos deste materialismo, ainda que não consciente. Outras respostas como “pegava no menino e levava-o para a minha casa para cuidar dele”, “ajudaria a aquecer e a proteger-se”, “eu adotava-o, ele ia esquecer-se da tragédia que aconteceu e ele ficaria numa local onde se sentiria mais seguro” ou “iria chamar ajuda”, sugerem a preponderância de uma dimensão afetiva, expressa na resposta que aponta no sentido de uma solução de caráter emocional. Algumas respostas à Questão 8 permitiram concluir que as crianças associam o conceito bullying a uma ação que eles consideram ser negativa, através de respostas como “eu sei que o
47 bullying é muito mau”, “é chamar nomes e tirar coisas”, “é violência por palavras e físico” ou “é a maldade que fazemos aos colegas”. Estas respostas permitem-nos eventualmente equacionar a hipótese de que poderá existir uma certa banalização ou indefinição do conceito bullying no contexto do universo inquirido, uma vez que o conceito parece ter sentidos muito amplos e imprecisos. Com a Questão 9, relativa ao racismo, é possível concluir que as crianças têm uma noção menos aprofundada do tema. Apresentam uma ideia vaga sobre o que possa ser o racismo, relacionando maioritariamente com a cor de pele, sendo que outras crianças demonstraram desconhecimento sobre o tema. Fizeram parte deste item respostas como “gozar com a pele das pessoas, com a língua e com o corpo”, “é quando uma pessoa diz “és preto”. Também se obteve algumas respostas que transpareceram pouco conhecimento em relação à definição do conceito, tais como “gozar por qualquer coisa”, “é igualdade de género”, “racismo quer dizer que somos todos iguais”, “o racismo quer dizer que podemos ser brancos ou pretos, mas somos todos amigos”. O objetivo da Questão 10 foi o de saber o que as crianças aprenderam ou não através da performance. Algumas crianças não expressaram especificamente o que aprenderam, afirmando apenas que aprenderam “muitas coisas novas”. A maioria dos alunos referiu o que conseguiu aprender com a representação do bullying e do racismo, através de respostas como “consegui aprender que a guerra, o bullying , o racismo são coisas más e morrem pessoas, perdem-se pessoas que podiam ser novos amigos “, “aprendi que não posso maltratar os meus amigos e colegas “ ou “aprendi que a violência não resolve nada “, sendo este um ponto positivo que se adequa ao objetivo do projeto na já referida “sensibilização das camadas mais jovens” que se pretendia. Paralelamente a isto, acredito que, em muitos casos, a performance permitiu a confirmação de valores que os mesmos já conhecem, reforçando alguns dos seus princípios éticos. A questão semiaberta, Questão 12, pretendeu perceber que parte da performance foi de maior interesse para as crianças, entre a dança, a música e o teatro. Os resultados divergiram de turma para turma. No Centro Escolar de Urgezes, turma do 3º ano, a maioria preferiu a música, seguido da opção dança e em terceiro, a dança e a opção “tudo”; na mesma instituição, na turma do 2º e 3º ano, a preferência foi a dança, seguida da opção teatro e música; e na Escola Básica 1/Jardim de Infância de Nespereira a maior preferiu a dança, seguida da opção “tudo”.
48 Além da reflexão dos questionários e do que foi possível concluir, a apreciação desta intervenção foi positiva, tanto por parte dos alunos como dos professores. Todos estes envolvidos se demonstraram recetivos à repetição da atividade.
49 CONCLUSÃO E REFLEXÕES Com a fase final do projeto, surgem as reflexões e considerações para as próximas edições. O objetivo principal foi cumprido, apesar dos contratempos e imprevistos. O resultado desta intervenção foi positivo. Mais do que representar ou transmitir arte, este projeto também pretende responder a uma lacuna reconhecida por docentes das instituições de ensino. O desafio irá sempre centrar-se na falta de disponibilidade das escolas para integrar outras atividades de natureza artístico-cultural no plano de ensino, devido o abundante programa a lecionar. Acredito que, a seu tempo, tornar-se-á possível uma inclusão ainda mais frequente de atividades artísticas junto dos alunos. Para a realização do projeto, o envolvimento de todos os membros da equipa e o tempo que cada um dedicou ao mesmo, foram imprescindíveis. Alguns deles ofereceram o seu testemunho, descrevendo as motivações para a sua participação (Anexo 15). Algumas dificuldades enfrentadas incluíram a conciliação das vidas pessoais e profissionais da equipa de artistas voluntários, sendo, por isso, apenas possível realizar a performance em duas escolas. Paralelamente a isso, todos os imprevistos permitiram, de alguma forma, melhorar o sentido de resiliência, responsabilidade e organização considerando o meu compromisso com entidades escolares. Um dos maiores desafios enfrentados terá sido a falta de suporte financeiro e material por parte da Câmara Municipal de Guimarães e, principalmente, por parte d’A Vaca Negra. Apesar desta falta de apoio, o objetivo em aliar-me ao Centro não era somente motivado por razões financeiras e materiais, e assim sendo, acredito que este projeto com a sua potencialidade de envolvimento comunitário, pode ajudar “A Vaca Negra” a reerguer-se quanto à sua atividade. Este projeto foi implementado com o objetivo de contribuir, num dado microuniverso, para aproximar o público mais jovem a atividades artísticas e culturais. Pretende-se que a longo prazo este jovem público tenha uma natural predisposição para frequentar este e outros tipos de atividades culturais. Por considerar fundamental a existência de uma oferta artística variada junto desta população, o envolvimento da Câmara Municipal de Guimarães a este projeto poderá ser importante para a criação de novos públicos. A cidade de Guimarães é, naturalmente, uma cidade histórica e cultural que dispõe de equipamentos culturais, com uma variada programação cultural. Para que o desenvolvimento desta programação se justifique, é necessária a existência de uma política de públicos incentivada
50 a participar nestas atividades culturais, daí a importância em formar jovens cidadãos, motivandoos para a importância de se pensar a arte e a cultura como exercício de pensamento crítico e de cidadania, na sua ligação com a realidade contemporânea. Este projeto alinha-se com a defesa da educação artística, justificando o pedido de financiamento à Câmara Municipal de Guimarães. Pretende-se que em edições futuras o projeto tenha outro tipo de suporte financeiro e material que permita melhores condições de trabalho aos seus integrantes, de forma a desenvolver um trabalho mais consistente, a nível de divulgação e continuidade, sendo assim necessário um investimento que o permita. Uma das maiores aprendizagens destes meses de trabalho são os ressaltos que tive de solucionar, a organização logística, desde material, ensaios e reuniões. Numa futura edição o projeto poderá ser sujeito a alterações que reconheço necessárias, devido à experiência que este ano piloto proporcionou. Algumas das alterações a serem inseridas consistem a um nível visual, na melhoria dos figurinos e cenário, assim como um melhoramento no guião da performance, incluindo uma maior interação com os alunos, envolvendo-os na ação. A repetição frequente da intervenção é um fator a desenvolver, projetada não só para um dia, mas durante o ano letivo, em mais escolas. Este primeiro ano permitiu-me concluir que as escolas são recetivas a atividades artísticas, mas o planeamento curricular encurta o tempo para o desenvolvimento das mesmas no espaço escolar. Pelos estudos já desenvolvidos sobre o tema, tidos em conta ao longo deste relatório, acredito que, a seu tempo, a educação artística, paralela aos ensinamentos escolares, poderá ser mais incentivada e valorizada, sobretudo em meios menos favorecidos. A forma como pretendo que este projeto seja expandido, passa por um nível micro local ao municipal, envolvendo outras faixas etárias escolares, desde o ensino básico incluindo o secundário. Quanto ao patamar municipal, prevê-se a possibilidade de intervir em mais escolas da cidade, com uma equipa de artistas maior e residentes da mesma. A preservação da ligação ao Centro ainda está em consideração e isso irá, consequentemente, influenciar a continuação do nome do projeto como A Vaca Negra Vai. Esta decisão será influenciada pelo grau de envolvimento, no projeto, que o Centro deseje manter. Este projeto experimental permitiu ensaiar e aperfeiçoar um modelo que gostaria de desenvolver no futuro. Esta foi, de uma forma geral, a principal ideia a reter deste primeiro ano de implementação, acreditando que, no futuro, o projeto possa ajudar a impulsionar mais a arte e cultura no contexto escolar.
51 BIBLIOGRAFIA Carneiro, R. (2008). A Educação Intercultural. ATMF Lages, Portugal: percursos da interculturalidade: Desafios à identidade , pp. 49-120. Chiaro, S. d., & Leitão, S. (2005). O papel do professor na construção discursiva da agurmentação em sala de aula. Psicologia: reflexão e crítica, 18(3), pp. 351-357. Coracini, M. J. (2005). Interação e sala de aula, 3(3), pp. 199-208. Delors, J. (1996). Learning: the treasure within. Report to UNESCO of the International Comission on Education for the Twenty-first Century, pp. 1-43. Fazenda, I. C. (2008). O que é a interdisciplinaridade? Cortez Editora. Freire, P. (1981). Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Paz e Terra. Goleman, D. (1995). Inteligencia emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda. Nolte, D. L., & Harris, R. (2003). As crianças aprendem o que vivenciam. Sextante. Pelaes, M. L. (2010). Uma reflexão sobre o conceito de criatividade e o ensino da arte no ambiente escolar. Revista Educação-UNG-Ser, 5(1), pp. 5-13. Pereira, J. D., Vietes, M. F., & Lopes, M. d. (2014). As Artes na Educação. Chaves: INTERVENÇÃO. Rapanta, C. (2016). Professores como facilitadores da argumentação entre estudantes: uma necessidade emergente. Revista portuguesa de pedagogia, pp. 41-62. Sousa, A. B. (2003). Educação pela Arte e Artes na Educação (Vol. 2). Lisboa: Stória Editores, Lda.
52 Tomás, C. (2007). Participação não tem idade. Participação das crianças e cidadania da infância. Websites: Diário de Notícias. (2017). "É preciso mudar a Educação em Portugal. Escolas precisam de carinho". (A. B. Ferreira, Editor). https://www.dn.pt/sociedade/interior/e-preciso-mudar-a-educacao-em-portugal-escolasprecisam-de-carinho-8688827.html. Acedido a 23 de Julho de 2019. Ham & High Education. (24 de Julho de 2019). The benefits of playing an instrument. https://www.hamhigh.co.uk/education/why-kids-should-learn-to-play-an-instrument-16178597. Acedido a 4 de Agosto de 2019.
53 ANEXOS
54 Anexo 1 Entrevista escrita via e-mail, Ex-Diretor Artístico d’A Vaca NegraCentro para Criação, Arte e Cultura Entrevistador: Como surgiu a Vaca Negra? Fale-nos um pouco da sua evolução. Paulo César Gonçalves: A Vaca Negra surgiu da necessidade de a Junta de Freguesia de Urgezes estabelecer um projeto para um edifício icónico que havia fechado portas há cerca de um ano (a Escola da Vaca Negra, ou Escola Primária Francisco dos Santos Guimarães). A esse projeto, uma encomenda da referida Junta, foram, posteriormente, anexadas as linhas condutoras pelo seu “criador”, tendo por base, por vontade do próprio, a descentralização: *Aproximar a cultura e a arte da Comunidade, fazendo com que a mesma perceba que é dela própria que emana a identidade e dela é também que nasce o veículo a que podemos chamar ideia. A tradição não significa atraso, a tradição é respeito pelas raízes que moldam corpos e rostos; *Criar, fazer, construir a partir de ideias originais, do trabalho desenvolvido e da partilha; *Mostrar o que é desenvolvido. Expor, representar, atuar, com a ajuda de agentes culturais, parcerias e também protocolos levados a cabo no sentido de implementar uma dinâmica cada vez maior e mais envolvente; *Promover, potenciar, apostar nos jovens e menos jovens talentos de Guimarães; *Trazer até nós um pouco do que se vai fazendo noutras paragens, percebendo que ao conhecermos outras realidades melhoramos o conhecimento da nossa própria. A Vaca Negra tornou-se, assim, no primeiro projeto de descentralização cultural da cidade de Guimarães, o primeiro a ter apostado na criação e no VÍNCULO à comunidade onde estava inserido. E: Exercem funções desde quando? P: A Vaca Negra começou a exercer funções no dia 1 de Dezembro de 2012 (embora tenha começado a ser projetada em Julho do mesmo ano). E: O nome deste centro é algo curioso, poderia explicar-nos como surgiu esta ideia? P: O nome remete para um topónimo (Vaca Negra) pelo qual este local sempre foi conhecido. Esse topónimo tem origem numa lenda local. A Escola, inaugurada em 1931, acabou por absorver essa designação. E: Têm algum slogan definido? P: “Escolhe as tuas Asas e voa.” E: Qual é o principal objetivo deste centro? P: As cinco premissas mais acima referenciadas. E: Quais os valores que gostam de ver transmitidos no vosso trabalho? P: Como criador do projeto, julgo que a partilha, a cooperação, a curiosidade, a descoberta, a criatividade e o conhecimento estiveram na sua génese.
55 E: Que tipo de públicos costuma frequentar a Vaca Negra? Consegue dizer-nos mais ou menos quantas pessoas frequentam, participam e assistem a performances? P: Todos os públicos, com um critério de qualidade focado no vínculo à região sul de Guimarães, sem nunca cair no facilitismo, embora os cartazes fossem concebidos para serem ecléticos. E: Considera que ao longo dos anos a Vaca Negra aumentou o número de visitas? Diminui? Manteve? P: Diminui drasticamente: sem critério, sem gosto, sem exigência ou rigor. Não há uma programação regular, nem pensada. E: A equipa da Vaca Negra é constituída por quantas pessoas? Em que cargos? P: Enquanto fiz parte, havia apenas dois cargos: Diretor artístico/programador cultural e executivo da Junta de Freguesia de Urgezes (a entidade detentora); E: Têm eventos agendados? Se sim, por favor, diga-nos quais e quando. Seria importante termos essa informação para a calendarização de ações. P: Não sei responder, com certezas, mas penso que não. E: Como costumam anunciar os vossos eventos? Poderia nos fornecer alguns exemplares de flyer ou cartaz que tenham produzido? P: Poderei fazê-lo, do período em que lá estive. E: Para que possamos determinar um plano bem estruturas, pode dizer-nos que tipo de financiamento a Vaca Negra tem? Taxas de inscrição? Angariação de fundos? Doações? Performances remuneradas? P: A Vaca Negra depende, financeiramente, do orçamento da Junta de Freguesia de Urgezes e do apoio da Câmara Municipal de Guimarães. E: Para terminar, o que gostaria de ver realizado durante o próximo ano? Quais os objetivos para o centro? P: Tudo aquilo que a estrutura responsável deixou cair, e outras iniciativas novas. A Vaca Negra ficou muito aquém daquilo para que foi pensada/projetada.
62 Anexo 5 Composição musical
63 Anexo 6 Guião da performance Cena 1 • Músicos já estão em palco. Performance inicia-se com o som crescente da percussão (2’02’’) Cena 2 – Bullying (3’05’’) • Bailarinas entram. Lanterna entra em cena com a Bailarina 1 (brinca com lanterna – representada como um brinquedo – e interage com as crianças). • Bailarina 2 retira lanterna e empurra a Bailarina 1 (representação de tristeza, dor e confusão). • Bailarina 1 encontra outro brinquedo (outra lanterna). Nova interação com as crianças. • Bailarina 2 insatisfeita, demonstra o egoísmo e retira novamente o brinquedo da Bailarina 2 (gestos de desprezo e risos) • Bailarinas retiram-se simultaneamente à entrada da Cena 3 Cena 3 – Criança vítima de guerra (4’) • Descrição de um dia normal de uma criança • Acontecimento do bombardeamento • Pós bombardeamento (como ele se sente em relação ao que aconteceu, o que quer que aconteça, o que ele pensa sobre a guerra – usar a ideia de brincar com as armas – uso da lanterna como representação da arma e do jogo do mata-mata) • Excertos de texto: (música em ritmo crescendo consoante a progressão dos acontecimentos) “Eu estava a brincar com uma pistola (lanterna)”; “Estávamos no telhado a brincar, ouvimos os bombardeamentos (tambores surgem) e todos começaram a fugir. Acabei por ficar sozinho, num sítio onde não conhecia ninguém. Entretanto um dos meus tios encontrou-me. Escondemo-nos e ele disse que ia buscar ajuda. Eu vi que ele estava ferido numa das pernas. Prometeu voltar. Nunca mais o vi”; “Agora sou só eu. Tenho saudades de brincar”; “Porque nos bombardeiam? Porque podem? É só por isso?” (mudança do registo da música para entrada das bailarinas para a cena 4)
64 Cena 4 – Racismo (4’) • Coreografia das bailarinas (ritmos de músicas crescente, movimentos estáticos, ritmo estáticopercussão acompanha ao vivo) • Uso das tintas – Partilha de algo, convivência, tolerância. Cena 5 – Final (2’) • Artistas juntam-se, dão as mãos. Instrumental da música “we are one” (filme “o rei Leão”), com transmissão de uma mensagem: Da mesma forma que o dia se transforma em noite e o sol dá lugar à lua, a vida é feita de mudanças que não controlamos, que não planeamos… Na verdade, apenas sabemos que a vida é uma estrada que percorremos na incerteza do seu percurso, surpreendendo-nos a cada passo, a cada olhar, a cada raio do sol e toque da chuva… Contudo, irão perceber que nunca estão sozinhos, que a vossa família e amigos estarão sempre do vosso lado cheios de esperança e orgulho! (voz criança) Se há tantas coisas que eu preciso ser Posso continuar a ser eu? Do jeito que eu sou? Posso confiar no meu próprio coração? Ou sou apenas uma parte de um plano maior? (voz adulta) Mesmo aqueles que já foram Estão connosco à medida que seguimos em frente A tua jornada apenas começou Lágrimas de dor, lágrimas de felicidade Uma coisa que nada pode destruir É o nosso orgulho, pois lá no fundo Nós somos um.
65 (voz adulta + voz criança) Nós somos um, vocês e eu Nós somos como a terra e o céu Uma família sob o sol Todo o conhecimento para liderar Toda a coragem que tu precisas Irás encontrar quando vires que nós somos um.
66 Anexo 7 Apresentação do projeto para o Blog do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura
67 Anexo 8 Press Release
68 Anexo 9 Questionários informais aos alunos (fase pré-performance)
69 Anexo 10 Entrevista aos professores do Centro Escolar de Urgezes (fase pós-performance) 14 de maio de 2019. Cláudia: Antes de mais, bem-vindos. Para começar queria só dizer-vos que esta entrevista será uma entrevista normal, onde eu faço algumas perguntas sobre as artes performativas em contexto escolar e de que forma é que vocês acreditam que isso desenvolve competências nos alunos e eu ia começar precisamente por essa pergunta. Vocês consideram que as artes performativas desenvolvem competências nos estudantes, por exemplo, do primeiro ciclo, que é o ano que vocês lecionam? Odete: Sim, sim. Acho que são importantes mesmo a nível da concentração, motricidade, imaginação, criatividade. Acho que é muito importante. Alexandre: É um trabalho diferenciado daquilo que se faz nas outras partes curriculares. É acrescentar algo que os pode levar a estimular as emoções, a sensibilidade para certas e determinadas temáticas ou mesmo o exprimir a sua opinião perante uma temática de uma forma diferente. Pode um miúdo não ter tanta capacidade em exprimi-la por escrito ou na oralidade e conseguir exprimi-la através de gestos, através de um desenho, de qualquer coisa. C: E até mesmo ajudar a entender determinados temas. O: Sim, sem dúvida. A: Sim, desenvolver a capacidade de interpretar temas sem ser só a partir da audição ou leitura. Portanto, conseguir visualizar a caraterização de alguma situação e conseguir perceber a mensagem que está a ser transmitida, que foi aquilo que vocês fizeram. O: Exatamente. A maneira é diferente, mas para que para eles é mais atrativa. C: Exatamente. A: E é sempre mais atrativo porque é algo mais visual e auditivo em que eles trabalham essa sensibilidade. O: Como o professor Alexandre disse, mesmo a nível das emoções, é muito mais fácil quer eles exprimirem as emoções, quer captar também emoções. C: Sim, exatamente. Por exemplo, vocês já costumam ter artes performativas aqui, certo? A: Sim, temos aulas de artes performativas.
70 C: São atividades extracurriculares, certo? Odete e Alexandre: Sim, sim (simultaneamente). C: Quantas vezes por semana? A: Duas vezes por semana. C: E desenvolvem estas temáticas? A: As temáticas em si não sei precisar, mas têm acesso a vários tipos de artes performativas. Tanto música, como a audição. Não têm é a parte da música, tocar instrumentos, isso é que não têm. Tem a parte do teatro e a parte da dança rítmica, isso têm. E mesmo o acesso a espetáculos são aqui apresentados nas diversas plataformas que temos. No ano passado foi no Centro Cultural Vila Flor, este ano foi na Plataforma das Artes. Portanto tem essas deslocações e eles conseguem assistir a vários tipos de espetáculos. O: Eu lembro-me que no ano passado, na festinha de Natal, a professora de artes performativas estava cá e trabalharam um tema, que foi sobre o ambiente. Foi interessante, foi uma maneira diferente de eles verem as coisas. C: Exatamente. Qual é a vossa opinião se as artes performativas fossem inseridas no ensino regular? Ou seja, ser por exemplo, como uma matemática. A: Eu acho que mais cedo ou mais tarde isso vai acabar por acontecer porque até as provas de aferição já pedem. Ainda tivemos esta semana, por exemplo, os miúdos que assistiram ao vosso espetáculo, os do segundo ano que eu pedi para assistir, tiveram as provas de aferição das expressões. Portanto, expressões artísticas, plásticas e físico-motoras. C: Que interessante, não sabia que agora o faziam. O: Sim, sim. Agora fazem-nos. A: Nas artísticas tem a vertente exatamente dramática, musical que pede para retratar, simular e experimentar várias situações, várias sensações. C: Mas eles treinam durante o ano para essas provas? O: É assim, dentro da sala de aula vamos fazendo qualquer coisa. A: Dificilmente todo o nosso trabalho consegue ser tão efetivo como se fosse exclusivamente para essa área. Mesmo a nossa formação, eu vou ser honesto, não tenho a sensibilidade que a colega da área terá para trabalhar da melhor forma para apresentar e transmitir aquilo que se pretende com uma arte performativa. Não tenho essa sensibilidade nem essa capacidade.
71 O: Não e por vezes aquilo que nós fazemos dentro da sala de aula, relativamente a esse tema, por exemplo, eu falo por mim, é um texto. A partir do próprio texto nós podemos trabalhar a dramatização do texto, mas não algo muito direcionado. A: Lá está, não algo com uma base de trabalho que vocês da área terão. Não temas as técnicas ou a melhor forma de transmitir as técnicas a usar ou a melhor forma de as aplicar. C: Se calhar uma ideia, por exemplo, quando, e se, inserirem a parte da arte no ensino seria cada turma ter dois professores, porque no primeiro ciclo normalmente só tem um professor, certo? A: Sim, isso pode-se suceder como se sucede com o inglês em que vem uma colega dar o inglês curricular. O inglês já faz parte do currículo no terceiro e quarto ano. Nesse momento, tem uma colega a dar a aula, já não somos nós que damos essa aula. O: É como, por exemplo, aqui não se passa isso, mas há escolas que optam pela formação musical que também é uma vertente que nós comentamos. A: Exatamente. Todas essas ofertas que são diferenciadas são sempre bem-vindas. O: São bem-vindas. A: São bem-vindas porque é a forma de diversificar o acesso que os miúdos têm. C: Claro. A: Também temos de ser honesto e dizer que poucos deles, em contexto extraescolar, terão acesso a esse tipo de ofertas. Poucos são os que frequentarão a música, poucos são aqueles cujo os pais os levam a ver o teatro e assistir a uma peça de teatro. É essa vertente cultural ou mais cultural, que é muito escassa nas crianças hoje em dia. C: Sim, por isso é que vocês professores também tem um papel importante nesse sentido, porque nem sempre em casa se trabalham determinados aspetos. O: Sim, a Escola também. A Escola mais do que nunca. A: A Escola permite aceder a esse tipo de oferta diferenciada, a esse tipo de conhecimento, esse tipo de espetáculos. Para nós também é complicado porque muito deles exigem um financiamento e há poucos pais, ou é mais complicado, estarmos a solicitar esse contributo financeiro aos pais. C: Claro, claro. O: Embora eu acho que agora a própria câmara já tem um bocado a noção disso porque já fazem espetáculos mesmo direcionados para eles.
78 A: Sim, o trabalho da escola é esse. O nosso trabalho é uma utopia. O: Sim, é uma base. A: Uma base de que aquilo que nós fazemos será para um futuro melhor. C: Sim, mas por exemplo, no ensino básico, trabalham-se mais áreas. Não me lembro de haver o cuidado de ter, por exemplo, uma disciplina em que falavam destas coisas. O: Mas há. Há escolas que têm oferta complementar mesmo para a cidadania. C: Mas é recente? O: Já não é muito recente. Já há muitos anos que se trabalha esta área. A: Mesmo no seu tempo de escola. C: Não me recordo de falar em algo tão específico. Ou seja, fala-se em guerra e violência, mas é, por exemplo, em história ou na disciplina de religião e moral. O: Eu lembro-me que há uns anos atrás, na oferta complementar, nós tínhamos mesmo uma hora por semana para trabalhar só mesmo cidadania. Independentemente de depois articular com outras áreas. E isto mesmo em 5º, 6º ano continua, não pára aqui. A: Se calhar não falavam, ou na altura não entendiam como se fosse uma disciplina. Desde que eu estou no ensino e comecei a dar aulas em 2000, desde essa altura, antes também me lembro de trabalhar temas como a reciclagem, como sei lá, a participação na comunidade… O: Em outras comunidades, com etnias diferentes. A: Nas associações de voluntariado. Esse dinamismo em relação ao trabalho para a sociedade, ao bemestar da sociedade, acho que é feito na escola já há muitos anos. O: Na área de projeto. A: Sim, já para não falar que essa disciplina deixou de existir. O: Sim, deixou, mas era muito direcionada para isso. A: O novo decreto para o ensino introduz os novos domínios para a autonomia curricular que vão trabalhar temas da cidadania. Esses temas estão no decreto, estão no diploma do currículo e têm de ser abordados. Há temas que são abordados na turma, transversalmente, e há temas que são abordados a nível vertical, portanto, pelo agrupamento interno. Desde o primeiro ciclo, há temas só para o primeiro ciclo, há temas só para o segundo ciclo e há temas só para o secundário. E há temas que são transversais ao agrupamento,
79 portanto, são abordados em todos os anos do agrupamento. Nós aqui, por exemplo, em domínio de autonomia, temos apenas o 1º, o 5º e o 7º ano, que é o ano de arranque. Neste momento, há um tema para o 1º, 5º e 7º, com uma abordagem diferente para cada faixa etária. No próximo ano já será o 1º e 2º, o 5º e o 6º e o 7º e 8º, assim sucessivamente até estar o agrupamento todo. O: Mas isso já é feito há muito, muito tempo. A: E há escolas que trabalham essa temática, digamos assim, com o projeto educativo, já é feita há muito tempo. Não é de agora. O: Eu lembro-me no ano passado quando tínhamos a área de projeto, havia um tema, que era o tema do agrupamento, não é? A: Sim. O: Que era o tema que até fazíamos na altura um género de PT, onde fazíamos os registos todos. Havia um tema a nível de agrupamento, mas haviam vários subtemas. Por exemplo, cada ano, dentro do tema, escolhia-se o subtema. E trabalhava cada um. A: Sim, sim. Isso já não é de agora. Eu acho que a escola nesse aspeto já trabalha com a ideia de preparar cidadãos conscientes já há bastante tempo. Agora, claro que a operacionalização às vezes falha, os recursos muitas vezes falham. Isto é trabalhado, só que depois temos currículos nacionais para dar, temos planificações para cumprir e muitas vezes, uma coisa acaba por atrapalhar a outra. C: Não há tempo para tudo. A: Exatamente. C: Mas existe evolução no ensino. Há uns anos era de uma forma, agora é de outra. O: Ah sim, isso houve muita. A: Acho que sim, acho que tem sido. O: Muita. Até porque nós temos, por experiência própria, eu e o professor Alexandre podemos falar nisso, os pais agora olham para os programas que os filhos estão a lecionar e dizem “meu deus, isto mudou, eu já não sou capaz de ensinar o meu filho”. Ouvimos muitas vezes esta expressão. C: Sim, ouço isso também pela parte dos meus tios. Os meus primos têm mais ou menos a idade dos vossos alunos, andam no 3º ano, e eles também dizem o mesmo. Tanto que têm de nos pedir ajuda a nós porque não conseguem dar esse apoio.
80 O: Sim e a evolução foi em todos os sentidos. E claro que há uma preocupação muito maior agora ligada a essas áreas, para o meio ambiente, para tudo. C: Cada vez mais. Se surgisse oportunidade vocês permitiam a repetição da intervenção cá na escola? O: Sim, sim. A: Sim. C: Acham que os alunos são recetivos? O: Sim, eles gostaram muito. A: Têm é que depois, pronto, lá está, aquilo que sucedeu no final da vossa apresentação. À primeira eles podem não ter (…) C: Tem de se puxar por eles, não é? A: Exatamente. Tem de se explorar, tem de se puxar, tem de se questionar, porque eles depois acabam, e vocês viram perfeitamente, acabam por perceber… O: Entenderam que eles entenderam. A: Agora, consoante o tipo de apresentação, há umas que são mais explicitas e há outras cuja mensagem se calhar é mais difícil para eles de perceber. Porquê também? Porque eles, lá está, o acesso a este tipo de apresentação, é mais reduzido. Vamos ser honestos. Eles fora da escola não têm e a vontade deles em estarem a ver... Há apresentações que dão na televisão, não há ninguém hoje em dia que só tenha quatro canais de televisão. Todos ele tem uma panóplia de canais de televisão com temáticas diferentes em que podem perfeitamente escolher o tema ou a emissão que vão ver. Eles não vão deliberadamente, nem os pais vão deliberadamente, por exemplo, colocar numa RTP2. C: Exato, exato. A: Já nem estou a falar de outros canais, se só tivermos os quatro generalistas, não há ninguém que vá colocar na RTP2, que é se calhar aquela que em termos culturais se aproximará mais disto, com apresentações de espetáculos diferentes. C: Claro. A: Uma peça de teatro, uma peça musical, uma representação qualquer. Não há, vamos ser honestos. O: E a escola nisso é muito importante.
81 A: A escola nesse aspeto proporciona o acesso diferente em que em algum momento temos algo diferente na escola. Mesmo contar uma estória. Ainda há pouquinho tempo nós tivemos essa conversa. Eu recordome perfeitamente de ter, no meu tempo de escola, o contador de estórias. Não era alguém que vinha ler uma estória, era alguém que vinha contar uma estória. O: Nem trazia livro. A: Não, não. Ele contava a estória. E a estória tinha uma linha de pensamento e ele hoje contava de uma maneira e podia vir amanhã contar a mesma estória, mas contava de maneira diferente e hoje em dia não há. E acho que eles também perdem porque não têm acesso a essas coisas e nós falamos disso muitas vezes. Eles não têm a postura, ou não há o trabalho de base, para eles terem uma postura para verem ou para assistirem a isso. Sucede muitas vezes quando temos atividades desse género, a atividade está a decorrer, e um levanta-se “quero ir à casa de banho”, ou a meio já está a conversar com o outro porque já se desinteressou. C: Pois. A: E não têm a capacidade de estar ali durante algum tempo e só concentrar nisso. Hoje em dia o poder de concentração deles é muito reduzido. O: Por exemplo, naquilo que apresentaram cá, foi interessante porque eles tiveram ali… A: Tiveram vários estímulos. Tiveram estímulos visuais, auditivos, não é. O: E os temas, os próprios temas. A: Os próprios temas também. Mas lá está, estavam ligados a estímulos diferentes em que eles não estavam à espera e isso foi muito interessante. Eles ficaram cativados precisamente porque não sabiam o que vinha a seguir. C: Exato, pois. Isso é importante. E os miúdos são curiosos, ou seja, do género, estamos a ver isto, mas se calhar vai acontecer outra coisa. O: E eu acho que a escola dá cada vez mais essas oportunidades. Até porque, por exemplo, nós temos situações de alunos que se não fosse a escola, hum, por exemplo, o ensino articulado da música, nós sabemos que há alunos que agora estão direcionados para a música e vão seguir, de certeza absoluta, essa vertente da música, ou até um instrumento musical, porque foi a escola que incentivou. C: Exato. O: O tal ensino articulado que eu acho que é muito, muito importante. Eu continuo a dizer que a música é muito importante, mesmo em contexto de escola. Há pais que, se calhar, não têm essa noção, da vertente
82 da música, e se calhar nunca perguntaram o filho, ou nunca levaram o filho, “queres experimentar música?”, “queres experimentar tocar um instrumento?”, “gostavas?” e a escola deu essa oportunidade e eles até acabaram por gostar. C: Se calhar muitos seguiram música por causa da escola. O: E hoje em dia sabem tocar um instrumento por causa da escola. Por isso mesmo, porque a escola abriu o horizonte, foi uma janela que a escola abriu. C: Sim, acaba por ser importante. Pronto, não tenho mais perguntas para vos fazer (risos). O: Nós também não temos mais respostas para dar (risos). A: Sim, acho que já foi um momento bem partilhado. C: Sim, sim, foi para eu ter uma perspetiva também de quem ensina, já tenho a perspetiva de quem vê, neste caso as crianças. E obrigada por terem aceite que eu viesse cá. A: Nós, para nós, as vezes aquilo que conseguimos considerar, lá está, é como temos um currículo para…às vezes é complicado para nós encaixarmos a atividade, porque obriga a uma paragem, e depois não é só obrigar à paragem na hora, é obrigar depois, que acho que é esse trabalho que tem de ser feito, que é uma reflexão sobre aquilo que se fez. Não ficar só aquilo por ter sido feito. É tentar, por exemplo, com a vossa apresentação, depois de conversarmos, continuarmos a conversar ou a produzir outro trabalho. E a partir daí para. E esse trabalho é que depois exige que se ponha em pausa todo o resto. C: Exatamente. O: Até porque eu lembro-me que, a seguir, numa situação qualquer de uma “fichinha”, eles fizeram um texto e houve miúdos que me foram buscar a situação da guerra. Escreveram. A: Lá está, vem o depois. E isto é interessante acontecer. O: Foi aí que eles foram buscar. No texto eu estava a ver literalmente, alguns foram buscar. Foi noutro contexto diferente, eu não pedi para fazerem um texto sobre o que viram, nada. Foi um texto. Era um texto sobre uma estória e muito deles foram buscar a estória do menino. C: Muito interessante isso. Até gostei de saber, por acaso. O: Foram buscar a estória do menino. C: Se não vissem nem se iam lembrar de uma estória do género. O: Não, nunca lhes passava pela cabeça, C: Claro. Muito interessante, mesmo. E pronto, mais uma vez muito obrigada e para o ano veremos (risos).
83 A: Claro (risos). Igual já não digo. C: Não, também nunca seria igual. Até porque, por exemplo, este é um ano piloto, ou seja, testar o terreno, etc. Não tinha financiamento nenhum, o que também fez com que eu estivesse limitada, mesmo a nível de roupa, e estávamos a trabalhar com uma equipa que também tinha os seus trabalhos e tudo mais. Portanto acabou por ser um bocadinho difícil nesse sentido. O: Mas acho que correu bem. Criou impacto. Era o que nós pretendíamos. C: Exatamente, sem dúvida. Portanto só por isso já fico feliz. (risos)
84 Anexo 11 Entrevista à professora da Escola Básica 1/Jardim de Infância de Nespereira (fase pósperformance) Entrevista Escola Primária de Nespereira 16 de maio de 2019 Cláudia: Eu vou fazer algumas perguntas sobre as artes performativas em contexto escolar e de que forma é que a professora acredita que isso consegue desenvolver competências nos alunos, principalmente nos do 1º ciclo, neste caso no terceiro ano. E a primeira pergunta seria precisamente essa, a professora acredita que as artes performativas desenvolvem competências nos estudantes do 1º ciclo, nas crianças desta idade? Alice: Claramente. Eu vejo as artes performativas como uma, não é disciplina, mas um momento globalizante. Eu entendo as artes performativas onde os meninos podem trabalhar o corpo, a voz, o espaço. Vamos ser muito pragmáticos, o programa do primeiro ciclo é extremamente intenso e as expressões, todas elas, as quatro, que nós temos e estão contempladas no programa, são parente pobre porque estamos completamente estranguladas, espartilhadas pelo programa e não conseguimos e temos a sorte deste município ter apostado nas artes performativas, que é globalizante como acabo por dizer, não é, para complementar um bocadinho aquilo que nós muitas vezes fica pela rama e eu acho que os miúdos ficam muito mais enriquecidos ao ter noção do corpo, o trabalhar as emoções que é muito importante, e cada vez mais, trabalhar os valores, porque indo em conta ao que nós estamos a falar, hoje em dia a instituição família transferiu para a escola tudo e mais alguma coisa, só não transferiu a cama porque de resto, tudo o que seja educação, o trabalhar para os valores, o saber-estar, tudo o que é essa parte do que é ser um bom cidadão, tudo foi transferido para a escola e os pais desresponsabilizaram-se e eu acho que aí, nesse aspeto, artes performativas, acaba por pegar neles e dar-lhes um bocadinho daquilo. C: Como um complemento. A: Exatamente. Como um complemento. C: Sim, e por exemplo, os alunos são super recetivos até porque é uma coisa diferente. Eles verem determinados temas a serem representados por artes performativas é diferente da professora estar a falar, eles imaginam, mas se calhar não estão bem a ver a situação.
85 A: Não, eu lembro-me que por exemplo quando eles estavam no primeiro ano, eles tinham o professor Nuno, e estávamos a falar do medo. Havia medo nos miúdos, porque os miúdos ainda eram pequenotes, e havia ali um e outro caso que eu sabia que eles tinham pesadelos e era uma coisa que estava a incomodar os pais. Era uma coisa que está dentro das emoções também e o professor Nuno disse “olhem vou pegar nisso” e nessa aula eu estive presente. Claro que nós temos de fazer supervisão, mas aquela foi especificamente preparada para a minha presença e aí eu disse “eu também tenho medos, tenho muito medo do escuro” e os miúdos viram que é normal ter medo e eu acho que, acho que foi buscar… agora perdi-me (risos) qual era pergunta? (risos) C: Que artes performativas tem, ou seja, eles são muito recetivos às artes performativas. A: Ah são e viram que “ora a professora tem medo” C: É normal A: É normal. Então isto aqui sempre foi uma coisa assim, que acontece, e eles viram sempre as artes performativas, também nós explicamos não é, e não é só dramatizar, “isto é um teatro”, não. C: Exato, acontece mesmo com situações reais. A: Exatamente, eles têm a noção que artes performativas vai muito além do que é só a parte dramática. C: Exato, ou um espetáculo só porque sim. A: Exatamente só porque sim. É trabalhado muito coisa. Eu aliás acho que os pais, quando vêm cá, às aulas abertas, chamos nós, ficam com uma perspetiva completamente diferente porque acham que “ah é só mais uma pecinha de teatro que eles estão a fazer”. Não, eles vêm cá e fazem os exercícios que os seus filhos fazem. C: E integram-se também. A: Exatamente, vão com a ideia real do que aquilo é. É mais do que o dramático, aquilo é exploração do corpo, exploração de várias coisas. C: Sim. Por acaso eu ia tocar nesse ponto dos pais porque é assim, a escola tem, digamos, a função de ensino, como a professora disse, tudo acontece na escola e muitas vezes aquilo que vocês tentam ensinar aqui, se calhar, em caso acaba por se perder. A: Completamente. C: Então não sei qual é a opinião da professora, até que ponto os próprios pais também não podiam ser educados nesse sentido. Ou seja, aula abertas para eles estarem integrados de vários assuntos e se calhar serem ensinados a ensinar os filhos, digamos assim, porque muitos pais simplesmente não querem saber.
86 A: É, é. Eu acho que, agora nós estamos nesse ponto. Precisamente. C: Mais do que tudo hoje em dia, com a internet, o acesso fácil. A: Os professores chegaram a um ponto de rutura. Eu falo por mim. Eu acho que nós, na escola, temos de pensar seriamente, só que isso iria, mais uma vez, acarretar tempo aos professores e boa vontade dos professores que era aulas abertas, aulas com temas muito bem estruturados e muito bem pensados para aquele fim e eu acho que sim. Olhe, eu lembro-me que quando estive na faculdade, eu tive uma cadeira que se chamava literatura para a infância e essa cadeira quando, sai da escola, quando sai da faculdade e quando entrei no mundo do trabalho, eu disse “esta cadeira podia ser dada a todos os pais” porque de facto, antes de sermos pais, nós temos de ter a perspetiva de quais são as nossas responsabilidades e o que é que nos espera. Eu acho que agora as pessoas têm filhos porque sim, aliás agora a moda é nem ter, mas é uma opção que eu não discuto nem é este o objetivo, mas a verdade é essa. Os pais têm de ser chamados à escola para serem eles também instruídos porque nós vemos nitidamente que há miúdos aqui que manipulam os pais e os pais deixam-se manipular porque não dá trabalho porque dizer “não”, não dá trabalho, ter um miúdo agarrado a dizer “eu quero, eu quero” dá trabalho, é muito mais fácil de ceder. Muito mais fácil. C: Mesmo pelo próprio trabalho em si, estão tão cansados e a rotina de, enfim, “olha, pronto é só desta vez” se calhar deixam andar e os filhos apercebem-se, porque as crianças são muito inteligentes, a verdade é essa, são muito malandras e eu vejo também pelo caso que tenho na minha família, tenho imensos primos pequeninos e vejo isso porque também sei do que estou a falar. A: São, são, muito, muito. Muito negociadores, são ótimos. Há uma coisa que me está a assustar que é, o pouco que os pais agora fazem em casa, isto aqui eu sei que estou a ser muito radical, mas eu também sou mãe, o pouco que fazem, fazem mal que é instruir para “tu tens que ser o melhor”, cria pressão nos garotos e “tu tens que bater porque tens que mostrar que és mais forte” e é isto. E não dizem assim “tu tens de te impor pela tua inteligência, tens de te impor pelo teu trabalho, pelo teu empenho, porque tu podes ser muito inteligente, mas se não trabalhares, se não fores empenhado, não vais a lado nenhum”. Aquilo que nós assistimos aqui, e por experiência própria, tive uma mãe a chorar que me disse “professora ajude-me porque eu pressionei a minha filha e eu tenho a minha filha triste, não tenho a mesma filha em casa e eu não quero, eu quero uma menina feliz e as notas quando tiverem que acontecer acontecem”. C: Ou seja, tratá-los como adultos. A: É. C: Ou seja, dentro da idade deles, com as palavras certas, mas tratá-los como adultos.
87 A: Sem dúvida. C: Porque também é o hábito de os tratar assim. A: É. Repare, eu noto isto na minha turma e, de ano para ano está a piorar, os miúdos estão cada vez mais infantis. Eu falo nisto, eu tenho um filho que está no 6º ano, e a conversa nas reuniões é sempre a mesma, “os miúdos são infantis, não tem maturidade, não tem autonomia, não tem responsabilidade” e eu ponhome a pensar, os meus quando chegarem ao 5º ou 6º ano, o discurso vai ser muito pior porque, efetivamente, eles não são autónomos… C: Claro, tem de haver um trabalho em casa. A: E o trabalho que há é neste sentido, só. “Tens de ter prémios”, “tens que ser bom”, é o egoísmo ali alimentado, e tudo o resto, dos valores, da partilha, eu tenho miúdos que eles gostam de partilhar. Partilham e entregam, “queres a minha cola? Tu não tens” fazem isso. Eu tento incutir-lhes isso e tudo bem, mas eles quanto pior melhor. E dói-me estar a dizer isto, eu digo isto com mágoa e dói-me porque, eu enquanto professora, é uma coisa que eu não consigo, não é? C: Pois, claro. A: Eu todos os dias, vem do intervalo, “ah que fizeram…”. Eu passo metade do tempo letivo… C: A dar-lhes na cabeça. A: Eu já lhes disse “eu não sou padre”, todos os dias dou sermões. Eu digo “que vos fique alguma coisa na cabeça, vocês vão para o 5º ano, é uma selva, é um salve-se quem puder, se vocês criarem agora aqui laços, porque vocês são muito mais fortes juntos do que separados. Vocês têm que ser amigos, têm que se proteger uns aos outros porque assim vocês são mais fortes e ajudar em tudo. Há dias eu dizia isto ao meu filho: ele dizia-me, “mas o professor não explicou bem e eu pedi e ele disse “olha”, não teve tempo para mim.” E eu disse “oh Rodrigo, vais a uma colega que seja uma boa aluna e pede-lhe ajuda porque às vezes a vossa linguagem é diferente e vocês entendem-se melhor uns aos outros e não quer dizer que o professor seja mau ou seja bom, não tem nada a ver. Às vezes a forma como o professor explica, para uns é boa e eles captam, para outros não e entre vós, vocês têm sempre a mesma linguagem e isso é saudável” e é isto que eu tento transmitir aos meus alunos, mas é difícil. C: Pois é, sim. Eles não têm tanta noção também. E lá está também se for só a professora, de tanta gente que eles conhecem, se for só a professora a dizer, é mais difícil de eles conseguirem ter essa consciência. A: É, mas os miúdos dizem mesmo “a minha mãe quer que eu tire boas notas, que seja a melhor”.
94 São coisas que não é por ir, não é. Nós tentamos levar os garotos onde lhes acrescenta alguma coisa, culturalmente, em termos de conhecimento. C: Claro, é ótimo isso. A professora acha que deviam haver mais intervenções como, por exemplo, aquela? A: Ah sim, claro. Sem dúvida. Mas aí tínhamos um problema, não tínhamos tempo para dar o programa também. C: Pois, também. Mas digo eu, não precisava de ser mês a mês, mas se calhar com mais frequência, diversos tipos de intervenções, não só naquele âmbito que foi este. A: Sim porque eu acho que eles se colocaram numa posição que nunca se tinham colocado, que é do lado de lá. C: Pois, exato. O lado de interpretar a mensagem. A: Eles viram o espelho à frente deles, não é? E aquele silêncio que ai houve, porque eu tenho uma turma muito mexida e muito faladora, e houve ali algum silêncio. A Cláudia não conhece a turma, mas houve ali um silêncio anormal para mim. C: Mas positivo? A: Muito positivo. Eu interpretei aquele silêncio como uma reflexão. “Ui, eu sou aquele ou aquela que faz aquilo”, “eu sou assim para a minha colega às vezes”. E eles aperceberam-se, é o que eu estou a dizer, aquilo foi um espelho. Eles ficaram daquele lado e isso eles raramente fazem, não é? Ainda ao bocado tive que gerir um conflito de um miúdo com o 4º ano e eu disse “olha, eu não te vou castigar, não te vou tirar recreio. Mas vou-te dar um castigo pior, que é, vais ter de chegar a casa e contar à mãe tudo o que tu fizeste. Tu sabes que vieste para aqui para controlar o teu comportamento”, foi um menino transferido, “portanto, vais contar à mãe e a mãe vai saber que aquilo que acontecia na outra escola não era só porque os teus colegas te levavam, mas porque tu às vezes tinhas a iniciativa. Para já, a mãe vai-me ligar para contar o que tu disseste, que assim já vou saber se tu contaste a verdade, e toda a verdade, e depois, se tu não fizeres isso, vai ser muito simples, o colega a quem tu magoaste vai-te fazer exatamente o mesmo e aí tu vais ver o que é a humilhação de ser chamado de bebé, de se rirem da tua cara e ainda por cima ter a dor na perna de ter levado um pontapé”. Ele ficou muito sério porque tem de ser assim. Nós chegamos a um ponto de ter de fazer este tipo de coisas e o espetáculo foi isto. Foi eles reverem-se, não é. E eles nunca tiveram essa perspetiva, eles são sempre os atores, eles nunca se sentiram. C: Nunca se identificaram na situação ao vê-la. A: Eu acho que foi assim. E aquela parte do bullying foi, acho que foi a mais…
95 C: Impactante. A: Foi. Depois ficaram preocupados com a questão da guerra. C: Sim e falaram nisso? A: Sim falaram depois na sala. Falaram “oh professora, mas é mesmo assim?” e eu disse “não, é bem pior”. Aqui há tempos haviam miúdos a deitar comida fora. Isto de educar não há receitas. Às vezes não sabemos se o caminho que levamos é o mais correto, mas temos que experimentar e só experimentando é que sabemos se funciona ou não. E o que é que aconteceu, chegamos à sala e eu tinha projetado imagens de meninos a passarem fome, mesmo no limite da sobrevivência. E eles viram aqueles miúdos e disseram “oh professora aquilo é só ossos” e eu disse “ai é?” e depois reviram e reviram, e passei, e passei, e passei imagens diversas e houve meninos a chorar e eu disse “estes meninos não têm nada, nem uma gota de água, aqui vocês brincam com ela. Aqui deitam comida ao lixo. Pensem agora”. Nunca mais apareceu, é assim, pelo menos na minha sala, acho que houve uma diminuição porque nunca mais houve, quer dizer, também isto é mau porque quer dizer que os meus alunos deviam ser o foco desse mau comportamento que era desperdiçar comida, não ter respeito pela comida. Mas a verdade é que teve de ser esta medida mais drástica porque de facto não são imagens simpáticas de se passarem, não é e eles são pequenotes. Mas nós temos de mostrar que o mundo não é só cor-de-rosa. C: Exatamente, mas também já estão na idade de começarem a perceber determinados assuntos. A: De verem! E voltamos ao mesmo, nós temos que falar com eles como adultos. Não temos que infantilizar. Antigamente “vai ali o popó”, eu nunca disse “popó”. C: Mas isso eu sou de opinião total, acho que não faz sentido, se carro é a palavra não vamos ter de ensinar outra”. A: A primeira palavra que o meu filho disse foi carro. Quando foi para a escola primária, para o primeiro ciclo, eu acho simpático a palavra primária, não acho nada pejorativo a palavra. C: Sim, claro. Primária, primeiro ciclo. A: Pronto, primeiro ciclo. Então, às tantas vinha uma palavra que era popó e ele tinha de desenhar. E ele disse-me, no primeiro ano, “oh mamã o que é um popó?” ah e há o “piu piu”, a “pua”, a “pia” e por aí fora. E havia o “popó” e eu “popó? Oh Rodrigo popó é um carro. Diz ele “o quê? Popó é um carro?” Portanto, para ele foi uma novidade porque nunca esse termo foi dito em casa. Nós chamamos a esta linguagem “maternal” e que não deve existir. C: Sim porque depois mesmo eles a nível linguístico ficam limitados.
96 A: Ficam. C: Ou seja, há que ensinar as palavras consoante são. A: Por acaso aqui à dias, a discussão na sala dos professores era “bonecos”, estão a ver os “bonecos” e um colega disse “não, estão a ver desenhos animados” e o meu colega disse “bom, ainda há quem lhe chame pior, há quem lhe chame macacos”. C: É verdade, mas isso são as pessoas mais antigas também, por exemplo, os nossos avós têm essa tendência. Eu vejo isso pelos meus avós que diziam isso, enfim. Então a professora estava-me a dizer que tem por hábito abordar os temas do bullying e racismo. A: Sim, até porque na minha turma é impossível não abordar porque há todos os dias algum conflito para gerir. C:Claro. A: Porque “não quis brincar comigo”, “porque ela só quer brincar o que ela quer”. Gerir isto é desgaste emocional brutal. C: Imagino, até porque a professora é que está a ter o trabalho todo no fundo e depois em casa os pais nem sequer têm a noção cem por cento do que se passa aqui e o que a professora tem de fazer para conseguir solucionar, digamos, o problema. A: É isso e depois os pais têm a queixa do menino ou da menina em casa e depois dizem “oh professora veja se pode fazer alguma coisa”. C: Não têm noção que a professora já faz alguma coisa. A: E às vezes não têm noção que é o próprio filho que é o causador. C: Exatamente, exatamente. A: Geralmente, é assim. C: Qual é a opinião da professora em usar as artes performativas para abordar este tipo de temas? Que diferença vê nos alunos, mais interesse? Por exemplo, uma coisa é a professora passar fotos e falar. A: Vamos bater ao mesmo, este espetáculo foi… C: Um reflexo.
97 A: Sem dúvida, é isso. É a mudança de papéis. Eu acho que foi muito produtivo, foi muito eficaz, acho que sim, sem dúvida. Quando eu disse “o eles verem-se”, é o deixar de ser ator, mesmo. “Olha, aquele sou eu”. C: Exato. Acredita na importância de abordar estes temas da atualidade como forma de despertar o sentido de cidadania nas crianças? A: Sim, sim. Sem dúvida. Estou sempre a dizer “isto é cidadania”. C: No fundo, tudo faz parte da cidadania. A: Sim, é, mas sabe Cláudia… C: Só que há coisas mais específicas. Há quem considere mais específico falar sobre sustentabilidade, tem a ver com a cidadania; racismo, educar para evitar o racismo; educar para a igualdade de direitos, tem a ver com a cidadania. A: Sabe, nós tivemos a Sofia esta semana muito simpática, a apresentar o projeto “mais cidadania” e disse “eu vou ser muito clara consigo. Olhe, vocês gastam papel à toa e folhetos à toa porque deviam…” C: Intervir junto à sociedade e não tão teórico. A: E há mais uma coisa, repare: no hypatiamat tivemos que estar com eles nos tablets e passwords e não sei quê. E eu disse “olhe, o hypatiamat tem uma coisa boa e é uma boa plataforma de matemática, mas tem uma coisa que vocês deviam mudar. Se estamos a falar de má cidadania e vocês estão tão virados para a sustentabilidade ambiental, que eu acho bem, repare, vocês dão todos os anos um código diferente e este ano não entram. Aquilo tem tido erros todos os dias. Porque é que vocês não utilizam um código, que até mandar por e-mail, e a professora imprime, cola na caderneta, que é uma “coisinha pequenina”, em vez de fazer um desdobrável a cores, lustroso! Portanto, gastasse menos dinheiro, menos recursos e estamos a fazer bem ao ambiente, portanto, já estamos a trabalhar a cidadania. Depois ela mostrou, que era muito interessante, mas muito virado para o património, e coisas teóricas, muito interessante, sem dúvida, não ponho em causa nada, só que, este ano, eles tiveram: mais cidadania; literatos, que é um projeto de português; tiveram, no ano passado, o hypatiamat, que continuo este ano a utilizar porque é uma boa plataforma e é um meio de eles, a brincar, aprenderem matemática; e, nada semana passada, tivemos o projeto “Eco Afonsinho”, que é um jogo para eles acederem. Portanto, imagine a quantidade de coisas que estão a decorrer ao mesmo tempo, mais o projeto “pegadas”, onde este primeiro ciclo é, por excelência, chamado a colaborar. Agora, a cidadania, sim, sem dúvida nenhuma, mas nós todos os dias trabalhamos a cidadania. Ainda ao bocado, ia para a sala dos professores, um miúdo entornou um bocado de iogurte porque estava na brincadeira e eu disse “olha, duas coisas: estás a brincar
98 com comida; segunda coisa: aqui não há criados. Vais limpar o que acabaste de fazer”. Estava lá uma funcionária e diz ela “ouviste a professora?”. Eu acho que isto é educar para a cidadania. É saber que, os funcionários estão aqui para limpar, para ajudar, mas nós não podemos brincar também com, há limites. Eles têm de saber que não podem. C: Que existem limites, claro. Até porque em casa os pais fazem-lhes tudo, e é normal, não estou a dizer que não porque eles também só têm sete ou oito anos. A: Ah, mas os meus alunos, alguns não sabem apertar cordões, por exemplo. C: Pois exato, são pequenas coisas, mas é verdade. A: E isso, quando estamos a falar de dizer “sejam fortes, sejam amigos, ajudem-se”, eu acho que isso é mais importante, do que saber que existe não sei quantos mil habitantes no concelho. É importante, faz parte da cultura geral. Este distrito tem não sei quantos concelhos, mas acho que é mais importante saber que não têm que gozar, não podem deitar a pastilha elástica ao chão. Eu tenho a consciência que todos os dias trabalho a cidadania. Não tão virado para o património, tão virado para a sustentabilidade, isso também sim, há conteúdos em estudo do meio que nós, há interdisciplinaridade, não é, e eu aproveito isso tudo, mas aquelas coisas que eu acho que é mesmo virado para o cidadão, o ser um bom cidadão, uma pessoa com valores, o ir na estrada e ter a capacidade de ajudar um velhinho por iniciativa própria, o dizer “bom dia”, “boa tarde”, eu acho que isso, para mim, é muito mais importante. C: Claro, isso eu também concordo. A: Muito mais importante que, esse trabalho antigamente, era feito pelos pais e agora não é. As catequistas tentam fazer isso, que agora as catequistas, e bem, já nem andam lá “ave-maria” e “pai nosso” porque o meu filho não foi para a catequese aprender orações. Ele aprende isto, estes valores, que eu acho muito bem porque eu acho que isso foi uma evolução. C: Uma evolução e isso é muito bom, claro, até porque, porque exemplo, no meu caso, eu só fiz a primeira comunhão, mas eu não gostava da catequese porque falavam coisas que para mim não faziam muito sentido (risos). A: Porque era massacrada (risos). C: E pronto, enfim, não gostava daquilo. Não me interessava porque fazíamos uns desenhos sobre, não sei, só me lembro de fazer desenhos na catequese e de falar jesus cristo. Não me lembro de me falarem de temas como estes ou que me despertassem a curiosidade de alguma forma, não. Então nem sequer tive curiosidade em continuar.
99 A: Eles agora mudaram um bocadinho, até porque tinha de ser, senão eles iam ter miúdos desmotivados que não estavam para ouvi-los e é mais lúdico, agora é muito lúdico, eles fazem mais jogos, fazem até dobragens. O meu filho não foi lá aprender. No meu tempo havia o banco dos “burros”, dos “mais ou menos” e dos “inteligentes”. Tínhamos de saber o catecismo todo, aquelas orações todas que eu agora já nem me lembro: os mandamentos, os estados capitais, que não serve para nada. Eu acho que agora temos um sentido mais prático: o que é que eu quero para a sociedade, o que é que eu quero para o meu futuro? Queremos miúdos egoístas? Queremos miúdos que sejam úteis na sociedade? C: Professora, se surgisse a oportunidade, permitiam a repetição da intervenção? A: Sim, sim, sim. Desde que haja autorização dos meus superiores, sem dúvida. C: Professora e obrigada por disponibilizar o seu tempo e dos seus alunos.
100 Anexo 12 Entrevista com Miguel Oliveira, Presidente da Junta de Freguesia de Urgezes e Responsável pel’A Vaca Negra Susana 20 : Fale-nos um pouco sobre a cultura e História d’A Vaca Negra, por favor. Miguel: Ao contrário do que muita gente pensa, e poderá vir um dia a ser mas para já não é, pensam que é uma associação. A Vaca Negra não é. A Vaca Negra é um Pólo cultural da Junta de Freguesia de Urgezes, assim como a Biblioteca Raúl Brandão é um Pólo, é uma extensão da Câmara Municipal, portanto, não tem personalidade jurídica, está sob a alçada da da Junta embora a gente lhe tenha dado aquela roupagem, se assim podemos dizer, de tipo associação, uma forma mais aberta, mais para dar uma oferta mais aberta à comunidade, portanto, foi um bocado esse o conceito e aproveitando também daquela antiga Escola Primária que ficou devoluta, portanto, dentro daqueles projetos que a Junta de Freguesia tinha era a aposta na cultura, foi reaproveitar ou aproveitar esse edifício que ficou devoluto que até então era Escola Primária, aproveitá-lo para um Pólo Cultural e que era vulgarmente conhecido como Vaca Negra, embora seja um edifício Francisco dos Santos Guimarães, terá sido quem doou em tempos aquele edifício da Escola mas efetivamente era vulgarmente conhecido por Vaca Negra. É uma lenda que leva esse nome da Vaca Negra e pronto e adotámos a Vaca Negra como Pólo cultural de Urgezes mas queremos que seja muita mais aberto do que a própria Freguesia de Guimarães e independente. Vamos ver o crescimento que depois vamos ter com o Pólo Cultural. Susana: E quando começou qual era a sua Missão e filosofia? Miguel: Quando começou e ainda é agora. Ainda é muito à base muito do voluntariado. Primeiro porque parte dos recursos a isso obrigam. Eu acho que acabámos por ser um bocadinho loucos na altura em que o país estava em crise e estava em recessão e que se cortava em tudo e mais alguma coisa e o mais fácil talvez de se cortar é na própria cultura e nós fomos um bocado em contra ciclo, apostámos onde tínhamos um projeto cultural e temos, se calhar já teve momentos mais altos, momentos mais baixos mas isto é como tudo e nós um bocado em contra ciclo apostámos num projeto cultural que mesmo a nível de Freguesia não era muito normal, noutras Freguesias ainda viviam muito à volta das obras e à volta dessa desses projetos e nós quisemos criar projetos diferentes que achámos também que as novas necessidades assim nos obrigam e a apresentar novas ofertas para a comunidade. Portanto surgiu um bocado nesse sentido de, portanto, por um projeto nosso, é verdade, mas depois com um conjunto de voluntários de 20 Susana, colega de grupo de trabalho, do primeiro ano do Mestrado, no desenvolvimento do Plano de Comunicação renovado para “A Vaca Negra”, para a Unidade Curricular Comunicação, Média e Arte.
101 pessoas ligadas à cultura que também foram dando o seu contributo para que ela necessidade fosse uma realidade. Tem funcionado um bocadinho à base de voluntariado, não é uma associação, mas tem funcionado um pouco como uma associação porque não temos grandes fontes de receita, teremos de pensar no futuro se calhar em novas metodologias. Pode não ser associação, pode ser um formato, mas sei, por exemplo, uma vez a nível camarário se fizermos um plano de atividades podemos ter alguma comparticipação para esse efeito. (...) à parte da cultura. Eu também tinha uma ideia que era só as associações que eram apoiadas e não as Juntas de Freguesia também podem ter esse apoio com um projeto cultural, neste caso como a Vaca Negra, mas é uma situação a repensar porque eu acho que o edifício também está, há um projeto a nível de obras, embora não queiramos alterar muito, alterar muito não, aquela fachada, aquele bloco da frente será sempre para manter porque é um edifício centenário e com muita história mas temos um projeto, estamos a trabalhar com a Câmara no sentido de requalificação, pronto, chove lá, nos telhados e eventualmente um bloco novo atrás para dar mais condições do ponto de vista das oficinas que pretendemos criar e dos próprios espetáculos tem passado muito à base do voluntariado, um bocado o conceito de associativismo geral. Miguel: As pessoas não têm aqueles hábitos. E nós até nos sentíamos mal pelas pessoas que não tinham a venda que estavam à espera e daí nós começarmos a mitigar com produtos da terra que sabemos que tem muita venda e traz muita gente para as outras e nesta última edição também inovamos, fizemos a feira do livro que costumávamos fazer por si só e incluímos na própria feira que chamamos agora “feira de Urgezes”, portanto artesanato, produtos da terra e feira do livro e funcionou muito bem. A feira do livro por si fazemos durante 3 dias, com espetáculos, momentos musicais, teatro, apresentações de livros, declamações, tudo. Os momentos em si até tinham alguma adesão, mas depois alguns momentos tinham pouca gente. Aquilo também lá está, momentos culturais bem feitos, que depois não se tem a adesão. Isto é uma dificuldade da cultura também. Faz-se momentos bonitos e bem feitos e por vezes a adesão não é aquela que nós gostávamos de ter e isto desilude-nos um bocado e pensamos “desistimos ou não?”. Susana: Exato, desmotiva e tal. Miguel: Sempre se diz que a Cultura tem de se cultivar e tal, para as pessoas ganharem os hábitos para depois começarem a ir. Mas o que eu estava a dizer, os equinócios, o dia da criança que normalmente é no primeiro fim de semana de Junho, feira de artesanato que é em Julho, o aniversário que é sempre em Dezembro, havia a feira do livro que também foi variando. Era em Outubro depois passou para Maio e agora fizemos de forma diferente. a parte do livro passou para a feira de Urgezes e temos uma vertente da feira do livro que era a oferta pedagógica para as escolas, com oferta nas próprias escolas e a parte em que as escolas vinham à Vaca Negra e essa parte mantivemos de oferta só para as escolas e a parte ao público encaixamos na feira porque acho que faz todo o sentido e funcionou bem este ano. Feira de
102 Artesanato, momentos de apresentação ao ar livre. Funcionou bem este ano. Acho que esse conceito será para manter. A Cláudia também já lá foi fazer animação. Cláudia: Sim, na feira de artesanato. Foi à 2 anos. Miguel: Eras tu e um cantor de Barcelos. Sérgio Lomba, cantava mesmo bem. Eu conheci esse senhor num jantar qualquer da câmara e esse senhor foi la cantar e eu fiquei impressionado e lá está, mais um artista que passou ao lado de uma carreira. Cláudia: Sem dúvida. Eu até cantei com ele, chamou-me ao palco e foi espetacular. Miguel: Um à vontade fantástica. Foi mais um artista que passou ao lado de uma grande carreira e pronto, temos feito isso. Depois, qual é o projeto que nós queremos? Algo para mostrar, mas também manter linhas que temos desenhadas desde o início que serão para manter que é as oficinas. Não só residência artística, mas ter oficinas também. Claro que nós não temos capacidade para nós próprios fazermos as oficinas, se calhar fazer parceria com uma escola de música, que possa dar aulas de música e nós cedemos o espaço. Normalmente, o que exigimos em troca é que deem à Vaca Negra uma ou duas atuações como contrapartida. Susana: Nada de troca financeira. Miguel: Nada, nada. Cláudia: As oficinas seriam o quê? Teatro, dança, música? Miguel: Passaria por aí. Cláudia: Tudo o que seja artístico. Miguel: Tudo, tudo. Ate as vezes coisas que uma pessoa não se lembra. Cláudia: Mas chegaram a abrir as oficinas? Miguel: Já houveram várias reuniões, mas nunca foi mesmo para o terreno. A nível de residência artística, estava la até à bem pouco tempo, um grupo de teatro, que se designava “impro”, que entretanto não sei porquê mas não tem ensaiado. Tem lá umas miúdas da dança. Essas são lá da zona, e pelos vistos tem tido uma adesão fantástica. Elas próprias são Auto pedagógicas, têm feito os ensaios que, estamos nós a ponderar que eventualmente mereceria da nossa parte um esforço poder ir lá alguém profissional da área. Nem que fosse de 2 em 2 meses, ao sábado de manhã, ir lá e pudesse trabalhar com elas e dar-lhes alguns conceitos para elas continuaram a desenvolver. Esse grupo de dança, teatro, começaram também a ensaiar esta semana um grupo de estudantes da Universidade do Minho ligados ao Teatro, e acho que alguns estudantes vieram no ano passado de Erasmus e ligados ao Teatro, começaram a ensaiar esta semana e também, lá está, pediram as instalações para ensaiarem. Servir de residência artística, de certa
103 forma, para depois puderem apresentar um ou duas peças de teatro. Eles disseram-me os nomes, mas não fixei. E pronto, neste momento estão a iniciar os ensaios no sentido de depois apresentarem em vários sítios e apresentarão lá na Vaca Negra também. Portanto, passa muito por ai. Não só servir de residência artística de grupos de dança, teatro, o que aparecer, como lançar as oficinas, que não é fácil. Cláudia: Sim, sem dúvida. Miguel: Não é fácil, já tivemos reunião com a escola de música, teatro também acho que seria interessante, e depois o que pudesse aparecer. Isso nós não limitamos. Na teoria tínhamos projetos, sabíamos o que queríamos, eventualmente criar uma banda de qualquer coisa, em função também do que se ia fazendo nas oficinas, tentar criar uma banda que desse saída ao que se fizesse e criar uma coisa com alguma dimensão. O xadrez, a secção de xadrez é lá que também tem, também se encaixava bem ali. Agora às 6as feiras há campeonatos a nível de Braga ao fim-de-semana. Acho que sim, se encaixa bem a questão do xadrez. E depois há uma outra atividade que não se enquadra muito, como a ginástica dos idosos. Portanto o espaço está livre e utiliza-se. Neste momento, resume-se um bocado a isso. Susana: Eu agora queria perguntar a nível da nossa disciplina mesmo que é Comunicação, Média e Arte e eu queria perguntar na parte da estratégia de comunicação e no planeamento de media que na altura, e agora, embora agora não sei como esteja essa parte, mas como é que se processou? Falaram com rádio, jornais...? Miguel: Ah, a divulgação. Redes sociais, que é hoje em dia uma das coisas fundamentais. O próprio Facebook d’A Vaca Negra, os meios da Junta também porque faz todo o sentido, até mesmo no site da Junta. E depois através do envio para a imprensa local, sobre qualquer evento, qualquer iniciativa. Se quiser criar, a gente lança o comunicado para a imprensa e eles divulgam. Cartazes, nos locais da freguesia e fora, onde nos interessa. Quando é para a feira de artesanato até nas lonas colocamos em dois ou três sítios principais em Guimarães. Tem passado por aí. Estamos abertos a novas soluções. Cláudia: Não existe nenhuma parceria da Vaca Negra com a Casa da Criança? Ou seja, ações de caráter social. Miguel: Houve lá um, sim. Aliás, o último dia mundial da criança que nos também deixamos em aberto à comunidade, aos escuteiros, um grupo de jovens ligados à igreja que até deram a ideia de o dia da criança ter uma finalidade solidária em que se doou alguma coisa para a casa da criança. Foi no último dia mundial da criança. Cláudia: Mas só aconteceu isso? A vaca negra não tem nenhuma parceria com nenhuma instituição social? Miguel: Não.
110 Susana: Do que a Cláudia falou e daquilo que já vimos, deve ter sido lindo, agora reparamos que está mais parado, mas que pelo menos até… Miguel: Em Janeiro e Fevereiro normalmente não é tradição fazer nada, normalmente é agora. Susana: Pois, nós ainda vimos que ainda houve um evento dos reis no início de Janeiro. Miguel: Isso foi feito na Junta… Susana: Há, na junta (mostra cartaz) Susana: Este foi o que foi feito agora em Dezembro… Miguel: Nós um bocadinho contra, agora já há algumas juntas com está sensibilidade cultural também, mas acho que nós fomos das primeiras por aqui a adotar muito… Cláudia: Este livro esta à vende? Miguel: Podem levar esse… Susana: Isto é muito interessante… (Oferta de livros) Cláudia e Susana: Obrigada! Cláudia: Mas digo eu, esta à venda por exemplo na biblioteca? Miguel: Na biblioteca também tem lá. Cláudia: Tem? Miguel: Tem, mas à venda esta na junta de Freguesia. Na altura o livro, a ideia quando surgiu isto era sobre o património da juventude e também falar da Vaca Negra, foi sobre o património e personalidades da Freguesia. Na altura tinha visto um livro qualquer, mas era aquele livro stander, uma pessoa pega naquilo e tem ali o Vila Flor e ao lado o Vila Flor, é isto e aquilo e este acaba por ser mais artístico. Não é um livro para qualquer pessoa, que se calhar pega nisto e chega ao fim e percebe bem o livro, porque isto é uma peça de teatro na prática. (conversa paralela) Miguel: Acho que ficou uma coisa bem-feita, ficou uma coisa arrojada… Susana: Que bom, que sorte, obrigada! Miguel: Pronto, depois vamos falando. Não sei se as perguntas ficaram todas respondidas. Susana: Todas, daquilo que nós agora…. agora vamos tentar ter ideias para vos ajudar também.
111 Miguel: No geral, o que nós pretendíamos era que aquilo tivesse funcionamento diário, oficinas, teatro, os pais a ir buscar os miúdos às diversas aulas. Isso gostava, vamos ver o projeto como é que vai ficar e poderá ser dado o salto para aquilo que nós pretendemos, para já é improvisar que isto da cultura também obriga a isso, improviso, imaginação. Susana: é uma metamorfose, está sempre a transformar-se. Miguel: Vamo-nos adaptando. Esta bem? Susana: Sim, e se por acaso a nível de flyers ou cartazes do que tiver disponível que tenha guardado se tiver oportunidade de nos passar. Cláudia: Quem é que fazia os cartazes? Era o Paulinho? Miguel: Não, ele nunca fez. Nós até nisso foi um bocadinho… na altura foi a Marta fez um estágio profissional, já recorremos uma altura a um estágio profissional e que a Marta esteve um ano e qualquer coisa na junta. Nessa parte inicial, havia uma estagiária que normalmente era mais direcionada para a cultura da Vaca Negra e nessa altura durante um ano tínhamos essa pessoa, cartazes e aquela parte burocrática de preparar espetáculos, tudo o que fosse preciso, ela estava lá. Era o estágio profissional dela, comunicação também. Os cartazes muitos foram feitos por ela, depois desses mudou-se um bocadinho o conceito e outro pessoal colaborou e participou e fez cartazes, vai-se percebendo e no meio disto tudo há uns assim e outros de muita qualidade basta ir vendo no Facebook e estes últimos que se foi mantendo e alterava-se só as letras e aproveitava-se a estética, claro que há alguns com qualidade. Mas pronto, lá está há alguns que é na base do voluntariado. Miguel: Pronto, vamos falando. No que for preciso estamos cá. Susana: Agradecemos mesmo muito, para nós foi uma ajuda fundamental e tomamos um bocadinho a mais o seu tempo. Miguel: Não faz mal, isto é que nos faz felizes.
112 Anexo 13 Questionários aos alunos das Escolas Primárias Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura Questionários aos alunos das Escolas Primárias Olá. Antes de mais, obrigada por preencheres este questionário. Sempre que tiveres uma questão de Sim ou Não, seleciona com um x à volta da resposta que queres escolher. 1) Gostaste da apresentação de artes performativas realizada na tua escola? o Sim o Não 2) Que parte gostaste mais? o Dança o Música o Teatro o Todas as partes 3) Qual era a cor do teu círculo? o Azul o Amarelo o Verde 4) Percebeste a mensagem que cada cor quis transmitir? o Sim o Não 5) Se pudesses ajudar um menino como o que esteve na Guerra, o que fazias? _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 6) Gostavas que houvessem mais espetáculos como estes na tua escola? o Sim o Não o
113 7) Os temas que foram representados foram fáceis de perceber? o Sim o Não 8) Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre bullying _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 9) Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre racismo. _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 10) O que conseguiste aprender com este espetáculo? _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 11) Gostaste de ter um espetáculo como este na tua escola? o Sim o Não 12) O que mais gostaste de ver neste espetáculo? _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ 13) Gostavas que este espetáculo se voltasse a repetir na tua escola? o Sim o Não
114 Anexo 14 Respostas detalhadas aos questionários Descrição das respostas dos alunos Centro escolar de Urgezes, 3º ano, N=17 Questão 2: Que parte mais gostaste? Respostas: A opção “todas as partes” obteve quinze seleções e a opção “música” duas seleções. Questão 5: Se pudesses ajudar um menino como o que esteve na Guerra, o que fazias? Respostas: “Eu acabava com a guerra”, “pedia reforços”, “eu ajudava para outro país”, “tirá-lo dali com um helicóptero”, “eu escondia-me, ia para a beira dele e dizia para vir comigo”, “eu parava a guerra e levava o menino aos pais”, “eu ajudava o menino para fugir”, “eu emprestava o meu telefone para ligar a um familiar e pedir ajuda”, “eu ajudava o menino a esconder-se ou a sair do país”. Questão 8: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre bullying . Respostas: “Maltratar as pessoas, gozar com as pessoas e tirar as coisas”, “eu acho que uma pessoa quer fazer uma maldade”, “No bullying nós chamamos nomes feios e há muita luta”, “o bullying é gozar com o outro”, “o bullying é sofrer e a menina estava a brincar e a outra roubou as coisas”, “o bullying é maltratar as outras pessoas”, “o bullying é uma coisa muito má porque goza com os teus amigos e chama nomes aos colegas”, “eu sei que o bullying é uma coisa feia”, “Eu acho que bullying é violência”, “tratar mal, lutar, gozar, chamar nomes”. Questão 9: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre racismo. Respostas: Na resposta a esta pergunta, treze alunos responderam “Não sei o que é o racismo” e os restantes alunos responderam entre “pessoas que tem uma pele diferente”, “o racismo é muito, muito mau”, “eu acho que o racismo é quem tem pele diferente”. Questão 10: O que conseguiste aprender com este espetáculo?
115 Respostas: “Não aprendi nada”, “eu pude rir-me”, “consegui imitar jogar ao mata”, “eu aprendi muitas coisas novas”, “eu aprendi que não posso fazer maldade, ter pena das pessoas”, “temos de ajudar as pessoas, ritmo e a dança”, “aprendi a ser bom comportado”, “não importa a cor de pele dos outros”, “eu hoje vi muitas coisas novas”, “aprendi a tocar aquele tambor”, “eu aprendi a dançar e a tocar instrumentos”, “eu aprendi que não se deve fazer bullying ”, “aprendi ritmos novos e foi fixe”, “eu aprendi muitas coisas novas”. Questão 12: O que mais gostaste de ver neste espetáculo? Respostas: “Eu gostei mais da música”, “eu gostei da parte da música e de tocar”, “eu gostei dos senhores a tocar”, “da parte que pintaram a cara”, “ gostei da dança e de dançar”, “eu gostei quando o senhor contou a história”. Centro escolar de Urgezes, 2º e 3º ano, N=24 Questão 2: Que parte mais gostaste? Respostas: A opção “todas as partes” obteve dezasseis seleções, a opção “música” cinco seleções, a opção “dança” uma seleção e a opção “teatro” com duas seleções. Questão 5: Se pudesses ajudar um menino como o que esteve na Guerra, o que fazias? Respostas: “eu ajudava no que pudesse”, “eu levava para um lugar seguro”, “se eu pudesse ajudar o menino dizia-lhe para não pensar mais nisso e seguir em frente”, “pegava no menino e levava-lhe para minha casa e cuidava do menino”, “eu adotava-o e ele ia esquecer-se da tragédia que aconteceu e ele ficaria numa local onde se sentiria mais seguro”, “eu pegava numa faca, matava o inimigo e salvava”, “eu fugia para um sítio mais seguro”, “eu ajudava o menino na guerra”, “eu ia chamar ajuda e mudava de país”, “eu ia à beira dele e dizia para ele vir comigo, depois ele ia para minha casa que era fora da guerra”, “eu dava-lhe um abrigo”, “eu dava-lhe um milhão de euros”, “eu dizia-lhe para manter a calma que nada está perdido e que a família estava sempre com ele”, “eu dizia-lhe para ele correr até ficar num sítio seguro”, “ajudava-o a voltar para casa para ir para a beira da sua família”, “eu ajudava-o a encontrar a família”, “eu dava-lhe de comer”, “levava-o para a minha casa”, “desejava-lhe boa sorte”, “se eu pudesse ajudar o menino eu dizia-lhe para ele escavar um buraco enorme e meter-se lá dentro com os ouvidos tapados”, “eu ia ter com ele primeiro, dizia estás bem e depois ia chamar ajuda”, “eu dizia para ele ter cuidado e ajudar o menino a proteger-se da guerra”.
116 Questão 8: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre bullying . Respostas: “o bullying é quando gozam com uma pessoa ou muitas mais coisas”, “é agredir uma pessoa maltratar”, “é gozo, egoísmo”, “na minha opinião é maus tratos de amigos e até dos pais”, “para mim o bullying é lutar com pessoas que não fizeram nada”, “gozar com as pessoas e deixá-las de parte”, “gozar e bater nas pessoas”, “ bullying é gozar, bater, dar pontapés”, “gozar, ofender, agredir”, “o que eu sei é que é mau e feio”, “ bullying é chamar nomes”, “gozar com as pessoas, fazer troça deles”, “o bullying é pessoas que chamam nomes a uma pessoa e diz que ele não pode dizer a ninguém o que ele lhe faz”, “eu sei que o bullying não deve existir porque é muito mau”. Questão 9: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre racismo. Respostas: “É ser mau, maltratar os outros”, “gozar por qualquer coisa”, “o racismo é mau não devemos fazer o que não gostamos que façam sobre nós”, “é pessoas que não gostam de pessoas de outras cores”, “o racismo é quando alguém não gosta dos outros por eles serem diferentes”, “é gozar com um preto”, “o que eu sei sobre racismo é a cor das pessoas, serem diferentes e a língua”, “o que eu sei é que é feio dizer. Ex: que ele é preto, branco etc”, “gozar com a pele das pessoas, com a língua e com o corpo”, “é ter nojo de pessoas que são diferentes delas”, “é igualdade de género”, “é quando uma pessoa é diferente da outra (língua, pele…)”, “o racismo é o gozo da cor da pele”, “o que eu sei é que as pessoas são diferentes que têm a cor de pele diferente são gozadas”. Questão 10: O que conseguiste aprender com este espetáculo? Respostas: “Eu consegui aprender que não devemos ser maus uns para os outros”, “o que consegui aprender com este espetáculo foi que não se deve gozar com as pessoas que não se deve tirar as coisas e quando ficamos sozinhos há sempre uma pessoa para ajudar”, “eu aprendi lições preciosas”, “aprendi que não devemos gozar os que são diferentes de nós mesmos”, “aprendi que não se deve fazer bullying e racismo às outras pessoas”, “que não devemos maltratar as pessoas”, “aprendi que gozar é feio”, “que devemos ajudar as pessoas”, “aprendi que não se deve escolher as pessoas”, “que o bullying e racismo não resolve nada”, “consegui aprender que a guerra, o bullying , o racismo são coisas más e morrem pessoas, perdem-se pessoas que podiam ser novos amigos”, “aprendi que o racismo e o bullying não se deve fazer a ninguém”, “aprendi que não posso maltratar os meus amigos e colegas”, “aprendi a não tratar mal as pessoas”, “consegui aprender a não bater nos meus colegas”, “aprendi que nós temos de nos
117 importar com a nossa vida e não com a vida dos outros”, “que temos de ser amigos dos outros”, “que não devemos fazer coisas que nos fazem a nós”. Questão 12: O que mais gostaste de ver neste espetáculo? Respostas: “As meninas da dança”, “de ver as duas meninas a dançar (menina de branco)”, “foi a menina de branco a dançar”, “gostei de ver o racismo”, “gostei de ver a guerra”, “gostei de ver o teatro”, “o senhor a dizer coisas da guerra”, “gostei mais da guerra”, “o que mais gostei foi da música”, “foi os senhores a tocar música”. Escola Básica 1/ Jardim de Infância de Nespereira, 3º ano, N=17 Questão 2: Que parte mais gostaste? Respostas: A opção “Todas as partes” foi selecionada por treze alunos. A opção “Dança” foi selecionada pelos restantes quatros alunos da turma. Questão 5: Se pudesses ajudar um menino como o que esteve na Guerra, o que fazias? Respostas: “Se eu pudesse ajudar um menino na guerra eu faria dar-lhe bons tratos”, “eu ajudava-o e salvava-o”, “eu protegia o menino e ajudava-o em tudo o que fosse preciso”, “eu protegia-lhe para não ser morto”, “se pudesse ajudar um menino que estivesse na guerra eu dizia-lhe para sair do pais rapidamente e que deixasse as suas coisas todas”, “eu dava-lhe um sítio para se esconder e proteger-se”, “eu punha-lo em casa com tudo trancado”, “se eu pudesse ajudar um menino eu ajudaria a aquecer e a proteger-se”, “eu protegia e dava-lhe comida e várias coisas”, “se eu pudesse ajudar o menino eu corria com ele”, “dava-lhe roupa, calçado e um bocado de dinheiro, um emprego e uma casa”, “o que eu faria era ajudar a sair da guerra”, “quando ele estava magoado eu vou lá ajudar”, “iria chamar ajuda”, “eu dizia para ele fugir o mais rápido que pudesse”, “se eu pudesse ajudá-lo levava-o para minha casa e cuidava bem dele”. Questão 8: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre bullying . Respostas: “O que eu sei sobre bullying é que é feio e mau, pode até obrigar alguém a matar-se”, “é quando uma pessoa diz nomes sobre a outra”, “por palavras minhas o bullying é chamar nomes as pessoas de burra, feia e estúpida”, “o que sei é que não devemos praticar porque isso é ser má pessoa”, “ bullying
118 é tipo dança”, “ bullying é a maldade”, “eu acho que é quando fazemos maldade uns aos outros”, “eu diria que bullying é por exemplo chamar nomes, tirar as coisas”, “é a maldade que fazemos aos colegas”, “o que eu sei sobre bullying é as crianças ficarem à luta”, “eu sei que é violência entre amigos por palavras e por físico”, “é quando uma pessoa fica má para outra pessoa”, “é quando estamos em briga”, “por palavras minhas, é violência entre crianças”. Questão 9: Escreve, por palavras tuas, o que sabes sobre racismo. Respostas: “é quando uma pessoa goza com as pessoas”, “o racismo é uma pessoa que goza com a cor dos outros”, “racismo quer dizer quando algumas cores ficam zangadas se misturarem para dar a cor a outra cor”, “quer dizer quando chamam nomes. Por exemplo: tu és feio”, “o racismo quer dizer que as outras pessoas de tom de pele não importa de que raça somos”, “o que eu sei sobre racismo é que todas as pessoas são iguais não interessa se as pessoas tenham outras cores, nós somos todos iguais”, “racismo quer dizer que somos todos iguais”, “eu acho que é um sentimento entre todas as pessoas”, “por palavras minhas eu diria que o racismo quer dizer que podemos ser brancos ou pretos mas somos todos amigos”, “o racismo é magoar”, “racismo é tipo violência e sentimento”, “o que eu sei é que racismo é o sentimento de ser diferente e que pode levar à violência”, “por palavras minhas racismo é a cor das pessoas”, “é quando uma pessoa diz, por exemplo, “és preto”, “é um sentimento mau”. Questão 10: O que conseguiste aprender com este espetáculo? Respostas: “Aprendi que tudo se pode fazer em conjunto e que somos todos iguais”, “que temos de ser bons cidadãos”, “eu consegui aprender o bullying e o racismo”, “consegui aprender com este espetáculo que as guerras não servem de nada e que as nossas diferenças não importam”, “eu consegui aprender com este espetáculo que brincadeira não é igual a guerra séria”, “consegui aprender que as meninas fizeram amizade”, “aprendi que não devemos tirar nada uns dos outros e devemos brincar com todos de todas as cores”, “aprendi sobre o racismo, o bullying e também sobre a guerra”, “consegui aprender que sendo diferentes por dentro somos iguais e também que quando brincamos com alguma coisa não se tira”, “não devemos fazer mal a ninguém e que na guerra temos de nos proteger”, “eu consegui aprender que maltratar as pessoas é muito mau”, “aprendi que a violência não resolve nada”, “aprendi que nunca se pode julgar as pessoas”, “não se deve fazer nada de mau com as outras pessoas”, “aprendi que não importa o que nós somos por fora mas sim por dentro”.
119 Questão 12: O que mais gostaste de ver neste espetáculo? Respostas: “Parte do racismo”, “as meninas a dançar”, “foi a união das duas meninas na atuação do racismo”, “gostei mais de ver as meninas a dizer que não importa de que cor somos para brincar e temos de brincar com todos”, “as duas senhoras a pegar na tinta”, “gostei de ver as meninas a mostrar que não se deve tirar nada a ninguém”, “de tudo neste espetáculo”, “de ver a parte da guerra”, “a parte do menino que estava no meio da guerra”. Curiosamente, um dos alunos referiu que a parte que mais gostou foi o relato dos professores, referindo-se com isto, ao diálogo que aconteceu no final da performance.
126
127
128
129