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Casa mínima: métodos de otimização do espaço interior mínimo

Pinto, Catarina Isabel Vilas Boas

Abstract

Com, Casa Mínima: Métodos de Otimização do Espaço Interior Mínimo, pretendemos analisar a casa e o habitar, mais especificamente, a casa mínima. Num primeiro momento, percebendo através de bases teóricas, a forma como esta foi evoluindo, e como foi acompanhando o desenvolvimento económico, social e também do Homem enquanto ser evolutivo. A investigação será centrada de forma mais aprofundada no período temporal entre o século XX e XXI, dado ser a época compreendida entre a revolução do contexto doméstico e os dias de hoje, o que nos parece pertinente no panorama do estudo deste tema. Num segundo momento, pretende-se avaliar as dinâmicas internas de diversos casos de estudo, e a forma como estas contribuem diretamente para uma otimização sustentável do espaço habitacional mínimo, com base nos parâmetros de análise definidos no trabalho, procede-se à verificação e reflexão quanto aos vinte casos de estudo. O meio de repartição desta dissertação será em três capítulos, que vão aprofundando numa primeira fase, a casa mínima enquanto contexto histórico geral, a um nível global, num segundo capítulo, será elencado o tema das dinâmicas espaciais, num contexto generalizado, e no capítulo final, será então especificado o estudo das dinâmicas, através do recurso a casos de estudo, demonstrativos do panorama habitacional mínimo, com a sua respetiva análise individual e comparativa. Tencionamos, com este trabalho, refletir sobre as dinâmicas que se estabelecem na habitação mínima e a forma como estas contribuem para a flexibilidade e otimização dos espaços de dimensões reduzidas, nas suas diversas formas e contextos.

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Catarina Isabel Vilas Boas Pinto Casa Mínima: Métodos de Otimização do Espaço Interior Mínimo Catarina Isabel Vilas Boas Pinto junho de 2020 UMinho | 2020 Casa Mínima: Métodos de Otimização do Espaço Interior Mínimo Universidade do Minho Escola de Arquitectura junho de 2020 Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitectura Área de Cultura Arquitectónica Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Ana Luísa Rodrigues Catarina Isabel Vilas Boas Pinto Casa Mínima: Métodos de Otimização do Espaço Interior Mínimo Universidade do Minho Escola de Arquitectura Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Licença concedida aos utilizadores deste trabalho i Agradecimentos À professora Ana Luísa, por ter aceite fazer parte deste trabalho, a sua visão quanto ao tema foi uma grande ajuda. Obrigada por toda a dedicação e disponibilidade. Aos meus pais e irmã, pelo apoio e paciência ao longo de todo o processo. Ao Luís por ter estado sempre ao meu lado, e às minhas amigas por toda a motivação. ii Declaração de integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iii Resumo Com, Casa Mínima: Métodos de Otimização do Espaço Interior Mínimo, pretendemos analisar a casa e o habitar, mais especificamente, a casa mínima. Num primeiro momento, percebendo através de bases teóricas, a forma como esta foi evoluindo, e como foi acompanhando o desenvolvimento económico, social e também do Homem enquanto ser evolutivo. A investigação será centrada de forma mais aprofundada no período temporal entre o século XX e XXI, dado ser a época compreendida entre a revolução do contexto doméstico e os dias de hoje, o que nos parece pertinente no panorama do estudo deste tema. Num segundo momento, pretende-se avaliar as dinâmicas internas de diversos casos de estudo, e a forma como estas contribuem diretamente para uma otimização sustentável do espaço habitacional mínimo, com base nos parâmetros de análise definidos no trabalho, procede-se à verificação e reflexão quanto aos vinte casos de estudo. O meio de repartição desta dissertação será em três capítulos, que vão aprofundando numa primeira fase, a casa mínima enquanto contexto histórico geral, a um nível global, num segundo capítulo, será elencado o tema das dinâmicas espaciais, num contexto generalizado, e no capítulo final, será então especificado o estudo das dinâmicas, através do recurso a casos de estudo, demonstrativos do panorama habitacional mínimo, com a sua respetiva análise individual e comparativa. Tencionamos, com este trabalho, refletir sobre as dinâmicas que se estabelecem na habitação mínima e a forma como estas contribuem para a flexibilidade e otimização dos espaços de dimensões reduzidas, nas suas diversas formas e contextos. Palavras chave: Casa; Casa mínima; Dinâmicas internas; Função; Otimização. iv v Abstract With, Minimum House: Space Optimization Methods of the Minimum Interior , we intend to analyze the house and dwelling, more specifically, the minimum dwelling, at first, perceiving through theoretical bases, the way it has evolved, and how it has been following the development, economic, social and of the Man himself as an evolutionary being. The research will be more deeply focused on the time period between the twentieth and twenty-first centuries, given that this is the time between the revolution in the domestic context, and the present day, which seems pertinent to us, in the panorama of the study of this theme. In a second moment, it is intended to assess the internal dynamics, of several case studies, and the way in which they contribute directly, to a sustainable optimization of the housing space, based on the parameters of analysis, defined in the work, proceed the verification and reflection on the study of the twenty case studies. The partitioning of this dissertation, will be the division into three chapters, which will be deepened, in a first phase, the minimum house as a general historical context, at a global level, in a second chapter, will be listed the theme of the spatial dynamics, in a generalized context, and in the final chapter, the study of the dynamics will then be specified, through the use of case studies, demonstrating the minimum housing panorama, with their respective individual and comparative analisys. With this work, we intend to reflect on the dynamics that are established in the minimum housing and the way in which they contribute to the flexibility and optimization off small spaces, in their different forms and contexts. Key words: Function; Home; Internal dynamics; Minimum house; Optimization. vi 4 Metodologia Num primeiro momento, realizou-se um trabalho de pesquisa abrangente, com referências integradas nas temáticas não só do objeto Casa, e da Casa Mínima, em particular, como referências que relacionam o próprio objeto Casa com o seu habitante o Homem e o seu modo de vida. Apresentaram-se aqui temas relacionados com questões económicas, sociais e ainda ligadas à psicologia. Na mesma medida, foram ainda estudados os momentos históricos relevantes no contexto em causa e a sua influência. Estas informações foram posteriormente filtradas, de forma a resultarem numa base coerente para a escrita do primeiro capítulo, no qual se inserem, de forma pontual, algumas citações provenientes dessas mesmas fontes bibliográficas. De forma a permitir uma leitura fluída do texto, optámos pela tradução de todas as citações, tendo a referência ao texto original na nota de rodapé da página em que este está inserido. De referir que a tradução foi realizada de forma livre pela autora. Depois de condensada a informação teórica, iniciámos uma pesquisa ampla de projetos de habitação mínima, que foi sendo mediada de forma a selecionar os casos pertinentes. A extensão total dos casos analisados numa primeira fase está presente nos anexos deste trabalho, sob a forma de uma tabela Excel, na qual se referiram inúmeras informações, referentes aos casos em causa. O processo de seleção dos casos de estudo baseou-se em diversos parâmetros que delimitaram o grupo. Esta seleção teve como objetivo limitar o número de casos de estudo a vinte, tentando assim, não cair no exagero de analisar um universo de casos demasiado extenso. Dentro deste grupo de casos, fazia para nós sentido, manter exemplos de diversas variações nas dinâmicas internas juntamente com soluções de dimensões distintas, tendo sempre em conta o limite máximo definido, por nós, de 125 m2. Neste trabalho, encontram-se então os dois extremos dimensionais dentro desta tipologia, o caso maior de 123,9 m2, sendo que este é habitado por uma família numerosa, e o caso de 5 menores dimensões com 21 m2, tendo apenas um habitante. Não serão tidas em consideração, para esta seleção, as questões relacionadas com a localização geográfica, dado considerarmos que, não só, com a globalização, as soluções arquitetónicas e o habitar se tornaram mais semelhantes, entre o ocidente e o oriente, como também, será dado maior ênfase às soluções que estas construções introduzem no panorama da habitação mínima, independentemente do seu contexto. Depois de reunidos os vinte casos de estudo, foram definidos parâmetros de avaliação, apresentados e explicados no segundo capítulo, com recurso a exemplos de casos externos aos escolhidos para a avaliação. Cada um dos parâmetros definidos consiste num ponto, para nós, incontornável da definição de uma casa mínima, e cada um deles influência de forma direta o projeto e a sua vivência interna. Estes parâmetros foram depois utilizados ao longo do terceiro capítulo, e consistem na base para a análise mais pormenorizada dos casos de estudo. Na primeira parte do terceiro capítulo está presente a identificação individual de cada caso de estudo, na qual se tomaram decisões gráficas como a homogeneização da escala das plantas, baseando-nos em pontos dos projetos onde a medida é, à partida, padronizada, tentando equilibrar as dimensões com a sobreposição das plantas em Photoshop. Por uma questão de equilíbrio, foi ainda posicionado o momento de entrada da casa, sempre que possível, na parte superior do desenho. De referir que devido à ausência de plantas de piso do caso Tiny Madrid Ampartment, (19), estas foram desenhadas pela autora, recorrendo a uma axonometria encontrada, do caso em questão. A partir deste momento, os casos de estudo passaram a ser definidos através de um número que lhes foi atribuído na sua identificação. De forma a acompanhar a identificação e a análise comparativa, foram desenhados ícones representativos da forma base de cada planta, e ainda ícones representativos das diversas variações existentes dentro de cada parâmetro de avaliação. Na última parte deste trabalho, no final do terceiro capítulo, a comparação entre os casos estudados é dividida por cada parâmetro de forma 6 independente, com o recurso a imagens e texto. As imagens presentes neste trabalho provêm de duas fontes, uma, de plataformas digitais, e outra, de desenhos realizados pela autora. Estado de Arte Ao longo dos anos, o tema da Casa Mínima tem sido trabalhado por inúmeros autores, em especial quando relacionado com o conceito da Casa e do Habitar. No caso dos livros, “La vivienda racional: Ponencias de los congresos CIAM 1929-1930”, de Carlo Aymonino, “The CIAM Discourse on Urbanism, 1928-1960”, de Eric Mumford, e em “The minimum Dwelling”, de Karel Teige, aborda-se a temática da habitação mínima no desenrolar da revolução industrial, mais propriamente na exploração das unidades habitacionais para a classe trabalhadora, no seguimento dos CIAM, mais propriamente o CIAM II. Apesar de “Precisiones. Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo”, de Le Corbusier, fazer parte do universo temático dos casos anteriores, para além de este ser um caso anterior ao CIAM II, é incontornável a introdução do conceito da célula habitacional, e do desenvolvimento da obra depois presente no “Modulor” do autor. No livro, “CASA E MUDANÇA SOCIAL: uma leitura das transformações da sociedade portuguesa a partir da casa”, de Sandra Marques Pereira, explora-se de forma mais explicita o contexto português e a associação da casa às mudanças do contexto social, explora também uma prespetiva sociológica, focada no perfil do habitante. No que diz respeito a dissertações, em “Viver na Casa Mínima: Contextualização da Habitação de Áreas Reduzidas na Atualidade”, de Benedita Pinto, avaliam-se habitações mínimas através de ações quotidianas, atribuindo a cada ação um caso exemplar. Com este trabalho, no entanto, pretende-se explorar a casa mínima recorrendo a uma avaliação com o auxílio de parâmetros definidos por nós, aplicados posteriormente aos casos de estudo e percebendo as suas abordagens quanto às multiplas dinâmicas internas, juntamente 7 com caracteristicas da própria arquitetura. Este processo possibilita avaliar não só os casos de estudo em causa, como pode ser utilizado como método de avaliação de qualquer habitação, ajudando a verificar os padrões de soluções e métodos inovadores de projetar o espaço mínimo. No caso específico deste trabalho, esse método permitiu perceber as particularidades de cada caso, e também os parâmetros em que se encontravam similaridades, juntamente com as várias dinâmicas internas particulares. 8 9 1.1. A Origem da Casa Mínima Se por um lado Le Corbusier afirma: “ Uma casa: um abrigo contra o frio, a chuva, os ladrões, os indiscretos. Um recetáculo de luz e de sol. Um certo número de divisões dedicadas à cozinha, ao trabalho, à vida íntima. ”1 Já Pallasma refere: “ Existe uma identificação, uma ressonância e uma correspondência inconscientes e vívidas entre as nossas imagens da casa e o nosso próprio corpo com os seus órgãos sensoriais e as suas funções metabólicas. É uma correspondência de duplo sentido; a casa é a metáfora do corpo e o corpo é a metáfora da casa. ”2 É exatamente porque a casa tem uma correspondência com o nosso corpo, não só física como também psicológica, que varia de forma, não só ao nível das diversas culturas e países, como ainda à pequena escala, entre os diversos núcleos familiares. Ao analisar as casas primitivas, percebemos que “ o Homem primitivo, usava o próprio corpo como sistema de dimensionamento e proporção das suas construções (...)”3, e por isso, assume-se desde o início da construção, uma forte interdependência, entre o Homem, a Natureza e 1 Traduzido de “Una casa: un abrigo contra el frío, la lluvia, los ladrones, los indiscretos. Un receptáculo de luz y de sol. Un cierto número de habitaciones dedicadas a la cocina, el trabajo, la vida íntima.” Em LE CORBUSIER; hacia una arquitectura; p.89 2 Traduzido de “Existen una identificación, una ressonância y una correspondencia inconscientes y vívidas entre nuestras imágenes de la casa y nuestro propio cuerpo con sus órganos sensoriales y sus funciones metabólicas. Es una correspondencia de doble sentido; la casa es metáfora del cuerpo y el cuerpo metáfora de la casa.” Em PALLASMAA, Juhani; HABITAR; p.98. 3 Traduzido de “Primitive man used his own body as the dimensionig and proportioning system of his constructions.” Em PALLASMAA, Juhani; The Eyes of the Skin; p.64 1. A Casa Mínima 10 a Arquitetura. A relação entre estas três vertentes provém da evolução do Homem, e surge como consequência da sua necessidade de abrigo, em relação à Natureza enquanto contexto global, tentando combater as suas adversidades, nomeadamente intempéries, estabelecendo limites em relação ao exterior, contribuindo assim, para a sua proteção. “ O ambiente em que o homem vive não é apenas o da natureza, mas o da combinação deste com o por ele construído: a natureza transformada pelo seu trabalho e obras, que formam, no seu conjunto, uma segunda natureza com os seus equilíbrios e os seus desequilíbrios. ”4 À medida que a casa se foi consolidado e definindo, o conceito de habitar foi-se estabelecendo, proporcionado pelas diversas necessidades e atividades que passaram a ser integradas no espaço interior. O que inicialmente dava resposta a uma função de proteção, foi adquirindo um crescente sentido de delimitação não só entre o interior e o exterior, como ainda entre o que seria o carácter público e o carácter privado. “ O resultado desta separação era que – no que representava o mundo exterior – a casa estava a converter-se num lugar privado. Junto com esta privatização da casa surgiu um sentido cada vez maior de intimidade, de identificar a casa exclusivamente com a vida da família. ”5 Esta definição, poderá ter-se dado por diversos motivos, especialmente por fatores religiosos, culturais e sociais, fatores estes que se foram mantendo ao longo de gerações, consolidando tradições e formas de construir específicas para cada parte do globo. Nesse sentido, a casa representa, fisicamente, uma determinada sociedade, as mudanças e evoluções, ou regressões, que a mesma foi sofrendo desde o passado. “ A casa já não era só um refúgio contra os elementos, uma proteção contra os intrusos – embora essas funções se tenham mantido importantes – tinha-se convertido num contexto de uma nova unidade social 4 PORTOGHESI, Paolo; Depois da Arquitectura Moderna; p.32 5 Traduzido de “El resultado de esta separación era que – en lo que respectaba al mundo exterior – la casa se estaba convirtiendo en un lugar privado. Junto con esta privatización de la casa surgió un sentido cada vez mayor de intimidad, de identificar a la casa exclusivamente con la vida de familia.” Em RYBCZYNSKI, Witold; La casa: Historia de una idea; p.50 11 compacta; a família. Com a família veio o isolamento, mas também a vida familiar e domesticidade. A casa estava a converter-se num lugar e depois da intimidade e da domesticidade, estava aberto o caminho para a terceira descoberta: a ideia de conforto. ”6 Com a evolução da casa, vai-se verificando o surgimento de novas componentes que vão sendo adicionadas às habitações, mais propriamente ao nível programático. Tornando possível perceber a intenção de consolidar espaços diferenciados para as atividades do dia-a-dia, o que se associa ao movimento moderno, de relação entre a forma e a função, e que se relaciona, já na época, à crescente preservação da intimidade e espaço pessoal, nomeadamente entre membros da família. “ Ainda assim, a transformação da casa não é um assunto simples, tratando-se, aliás, não de “uma” transformação, mas sim de “múltiplas” transformações que se sobrepõem, umas de forma mais rápida e evidente, outras de forma mais lenta e impercetível: a evolução da casa resulta pois da conjugação da evolução das suas múltiplas componentes que vão mudando a ritmos muito diferentes. As componentes mais visíveis e, portanto, aquelas com maior potencial simbólico - quer do ponto de vista da produção, quer do ponto de vista da apropriação - são as que mudam mais rapidamente, as mais efémeras. ”7 Quando associamos o conceito casa ao conceito específico da “casa mínima”, deparamo-nos com uma aproximação à essência primitiva da casa, na qual escasseia a área, tendo em conta que editar ao máximo o que realmente é pertinente ao nível programático, de forma a explorar ao limite a noção de espaço, é essencial. A exploração do conceito da casa mínima, foi trabalhada por diversos arquitetos, desde o século passado, e é, ainda nos dias de hoje, um tema em constante desenvolvimento. 6 Traduzido de “La casa ya no era sólo un refugio contra los elementos, una proteccíon contra los intrusos – aunque esas funciones siguiron siendo importantes -, se había convertido en el contexto de una nueva unidad social compacta: la familia. Com la familia vino el aislamiento, pero también la vida familiar y la domesticidad. La casa se estaba convertiendo en un hogar y, tras la intimidad y la domesticidad, estaba abierto el caminho al tercer descubrimiento: la idea de confort.” Em RYBCZYNSKI, Witold; La casa: Historia de una idea; p.85 7 PEREIRA, Sandra Marques; CASA E MUDANÇA SOCIAL uma leitura das transformações da sociedade portuguesa a partir da casa; p.315 12 1.2. Revolução do Contexto Doméstico séc.XX O final do século XIX ficou marcado como um momento de transição, aquando do final da revolução industrial. Foram diversas as consequências desta revolução, resultando, em particular, numa crise clara do contexto doméstico. Com a crescente industrialização, é notória a grande evolução tecnológica e técnica, que promove, grandes mudanças e consequente desenvolvimento económico, urbano e social. Nesse momento são introduzidos novos materiais e técnicas em todos os sectores, em especial na arquitetura, onde o uso de materiais tradicionais entra em declínio, dando lugar a novos métodos construtivos, juntamente com a integração de materiais mais adequados ao género de construção que se realizava na época. Tendo em conta que esta indústria se foi materializando com uma escala mais significativa nas grandes cidades, e dado que a mesma dava a possibilidade de empregar um crescente número de pessoas, foi sendo cada vez mais percetível o grande fluxo humano que começou a abandonar os meios rurais e a mudar-se para os centros urbanos, com a intenção de procurar uma melhor qualidade de vida. “ O problema inscrito em ordem de urgência em todos os países, é o da construção de casas necessárias para alojar as multidões, que o fenómeno maquinista concentrou nas grandes cidades. É inútil fazer uma descrição. Os factos estão aí; o problema da quantidade está levantado. Além disso, impõe-se uma economia rigorosa e já se sabe porquê. ”8 Na realidade, tudo isto, passou a representar um grande problema a nível global, as cidades não tinham capacidade física para comportar o número crescente de novos habitantes que começavam a chegar, e as habitações disponíveis correspondiam, geralmente, a valores monetários incomportáveis para a classe trabalhadora. Como consequência, esta classe teve de se adaptar às contingências, vivendo em condições 8 Traduzido de “El problema inscrito en orden de urgencia en todos los países, es el de la construcción de casas necesarias al alojamiento de las muchedumbres, que el fenómeno maquinista las há concentrado en las grandes ciudades. Es inútil hacer una descripción. Los hechos están ahí; el problema de cantidad está planteado. Además, se impone una economia rigurosa y ya se sabe porqué.” Em LE CORBUSIER; Precisiones. Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo; p.107 13 precárias. Deste modo, este sector da população, vivia, em apartamentos que eram frequentemente divididos por várias famílias, nos quais não existiam condições sanitárias e de salubridade, ou privacidade, e os espaços livres possibilitavam mais um espaço de dormir. Todas estas condições de habitabilidade, fizeram com que o conceito de domesticidade se transformasse rápidamente. É no início do século XX, e como resposta à conjuntura da sociedade da época, que o Movimento Moderno se destaca, motivado pela necessidade de repensar a casa, o edifício, o bairro e a cidade e que pretende ser, “(...) portanto qualquer coisa de fundamentalmente novo e diferente, precisamente devido ao facto de ser condicionada por novas exigências sociais e por novos materiais de construção. ”9 O conceito “funcional”, torna-se um dos sinónimos da arquitetura Moderna, e que não só se relaciona com o sentido literal da palavra, mas também com a relação implícita entre a arquitetura, a funcionalidade, a inovação técnica e ainda a arte. “ Ao dizer arquitectura funcional pretendeu-se, portanto, indicar aquela arquitectura que consegue ou se esforça por conseguir unir o útil e o belo, aquela que não aspira apenas ao belo descurando o útil e vice- -versa. ”10 “(…) Louis Sullivan, exprime na famosa frase «form follows function» um princípio que haveria de influenciar durante várias décadas a nova estética arquitectónica. ”11 Com esta dualidade, a arquitetura passa a ser pensada de um ponto de vista analítico, em que se pensa no edifício inicialmente do ponto de vista da sua função, e no que isso possa implicar, seja do ponto de vista dos seus usuários/habitantes, seja do ponto de vista das atividades a decorrer no espaço, a partir daí é então delimitada a forma desse objeto arquitetónico. 9 DORFLES, Gillo; A Arquitectura Moderna; p.14 10 DORFLES, Gillo; A Arquitectura Moderna; p.14 11 DORFLES, Gillo; A Arquitectura Moderna; p.15 20 Um dos fatores de maior relevância para a habitação mínima, é o aumento da densidade populacional, que não só, em muitas cidades, está a tomar proporções alarmantes, como terá, segundo estudos, tendência a aumentar. Ao nível da arquitetura esta problemática terá especial influência na ocupação do território, e a solução que muitas cidades procuram adotar, passa por um lado pela construção de edifícios cada vez mais altos, de forma a suportar a carga populacional elevada, e, por outro lado, pela construção de habitações com dimensões mais reduzidas, de forma a corresponderem ao mínimo indispensável para o uso quotidiano dos seus habitantes. “ Os novos fluxos da globalização resultantes de um emergente sistema económico global, estão a originar, inevitavelmente, uma população cada vez mais flutuante, pela necessidade de sobrevivência. ”26 Com a significativa instabilidade atual, desaparece, parcialmente, a ideia de uma habitação fixa e para toda a vida, adotada ao longo de inúmeras gerações, e deixam de fazer sentido grande parte das tipologias de maiores dimensões, especialmente pelo facto de estes fluxos de pessoas acontecerem entre grandes cidades, cidades estas que frequentemente estão sobrelotadas e com uma massa construída limitadora para novas construções, o que significa que as cidades, se devem adaptar e rentabilizar o seu território. Os avanços tecnológicos constantes, e a cada vez maior dependência dessa mesma tecnologia pela generalidade da população, e dado ser de utilização transversal às diversas áreas da sociedade, constituem um ponto pertinente no estudo desta temática. A arquitetura tende a acompanhar essa evolução, e toma partido da tecnologia em seu favor, ao nível da construção, através de grandes evoluções técnicas e de materiais, que advém dela e que facilitam cada vez mais o processo construtivo e de projeto. Para além disso, o consumidor contemporâneo apresenta necessidades e exigências provenientes desta mesma sociedade tecnológica, que diferem significativamente das gerações anteriores. O habitante atual, 26 NAPOLEÃO, Pedro Araújo; As Sensações e as Emoções na Arquitetura; p.177 21 integra essa sociedade em que o consumo instantâneo de objetos e conteúdos online suscitam um feedback imediato quanto às necessidades funcionais, também em relação à arquitetura, em especial, da casa. De forma a acompanhar este meio, ela deverá ter a capacidade de se adaptar facilmente, sofrendo pequenas mutações e inserindo dinâmicas internas, que não necessitam, necessariamente, de espaços de maiores dimensões, mas sim de soluções interessantes de otimização dos mesmos, o que tem vindo a ser demonstrado por diversos estudos feitos em habitação mínima. O século XXI, ao mesmo tempo que veio massificar o consumo material e, consequentemente, dos recursos naturais, trouxe uma maior consciência ambiental, menos aparente no século passado, e que promove significativamente o ideal de consumo sustentável. Esta consciência está a causar, em escala significativa, uma mudança de parte da população quanto ao seu impacto no que respeita a esta temática, e que motiva cada vez mais pessoas fora desse grupo, a alterarem os seus hábitos quotidianos ou, pelo menos, a pensarem sobre o assunto. A este respeito, a casa mínima passa a cumprir parte dos ideais desta população mais sustentável e consciente, pois preenche inúmeros requisitos considerados como sustentáveis. Por um lado, a sua dimensão reduzida significa uma menor utilização de espaço e recursos materiais, uma vez que se exprime num dos pontos mais importantes da sustentabilidade, a utilização de recursos na sua quantidade mínima em relação à necessidade. Por outro lado, os habitantes de uma casa de dimensões reduzidas têm, à partida, uma menor quantidade de bens, em especial objetos supérfluos e desnecessários. Com a conjugação das temáticas anteriores, a imigração, a tecnologia e a consciência ambiental, é percetível, na sociedade, que esta se alterou, enquanto somatório de diversas culturas e tradições independentes e com caraterísticas específicas e únicas. Atualmente, vivemos numa sociedade que se está a tornar cada vez mais num sistema único em que se interrelacionam todas as tradições e costumes, de forma homogénea, numa cultura globalizada. Diversos fatores contribuem constantemente para este fim, mas o facto de a 22 tecnologia ter trazido uma forma imediata de comunicação entre os diversos pontos do globo, será sem dúvida a maior contribuição para a formulação da sociedade atual. A facilidade de mobilidade, não só motivada pela imigração, mas também por motivos turísticos, permite a propagação cultural de forma abrangente, o que constitui também um meio relevante de contribuição à globalização. No passado, ao percorrer diversos países, percebíamos a variação e diversidade da cultura dos mesmos, em grande medida, através da arquitetura singular e tradicional do lugar em questão. Esta, era adaptada não só àquela sociedade, aos seus costumes e tradições, como, nomeadamente, ao próprio clima, o que resultava de séculos de evolução dos métodos e formas de construção daquele mesmo povo. Nos dias de hoje, apercebemo-nos que este facto está em constante declínio, uma vez que, cada vez mais, observamos construções com uma identidade que não traduz um lugar específico ou cultura, e que entendemos como uma estética universal e passível de ser integrada em qualquer parte do mundo. “ Um dos aspectos mais salientes do mundo contemporâneo é, certamente, o da generalização progressiva da cultura europeia a todos os povos da terra; aos antigos e diferentes mundos separados por barreiras físicas e espirituais que pareciam intransponíveis, sucede-se um mundo novo, de escala completamente diversa, animado pela influência de uma cultura comum. ”27 1.4. A Casa Mínima (Conceito) “ Temos uma constante: o Homem, com a sua razão e as suas paixões – o seu espírito e o seu coração – e, nesta questão de arquitetura, o Homem com as suas dimensões. ”28 Tendo como ponto de partida a frase anterior, segundo Le Corbusier, o Homem é a base, não só as suas dimensões físicas, mas também as suas interações com o espaço, o seu quotidiano, as suas funções 27 TÁVORA, Fernando; Da Organização do Espaço; p.29 28 Traduzido de “Nos queda una constante: el hombre, con su razón y sus pasionessu espíritu y su corazóny, en este asunto de arquitectura, el hombre con sus dimensiones.” Em LE CORBUSIER; Precisiones. Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo; p.47 23 psicológicas, e as suas ações, estes são fatores que determinam toda a arquitetura, desde o seu dimensionamento, à sua formalização global. Se o facto de o Homem ser o meio de dimensionamento de grande parte dos elementos arquitetónicos é uma realidade, é especialmente verdade quando se aborda o tema da habitação mínima. Ao contrário do modelo de casa com dimensões reconhecíveis como sendo comuns no panorama da nossa sociedade, referente em particular no contexto ocidental, a habitação mínima, em vez de respeitar os padrões estigmatizados, segue as dimensões diretamente ligadas às necessidades do(s) habitante(s). Como abordado anteriormente, a habitação mínima surge com diversas linguagens e formulações e em contextos geográficos variados, mas as motivações principais são transversais. Atualmente provenientes de três motivos em especial, inicialmente, a vontade de experimentação quanto à tipologia, de seguida, as motivações culturais e de tradição, e, por fim, a que representa uma consequência quanto à falta de recursos, a diversos níveis, não só sociais como ambientais. O primeiro motivo surge com a busca pela dimensão ideal mínima, transversal a todos os compartimentos de uma habitação, e com a intenção de respeitar o seu dimensionamento em função da utilização e em função das necessidades do seu habitante. Ao longo dos anos esta questão foi sendo muito explorada por todo o mundo, e encontramos estudos de inúmeros arquitetos, e em particular de Le Corbusier, que dedicou grande parte da sua carreira à exploração desta temática, ao nível prático e teórico, na busca do expoente máximo da “ máquina de habitar. ”29 “ O que eu chamo de procurar “uma célula à escala humana”, é esquecer toda a casa existente, todo o código de habitação existente, todos os costumes ou tradição. É estudar com sangue frio as novas condições nas quais se desenrola a nossa existência. É ter a ousadia de analisar e saber sintetizar. É sentir atrás de si o apoio das técnicas modernas e diante dela a fatal evolução da construção através de métodos sensíveis. 29 LE CORBUSIER; hacia una arquitectura; p.73 24 E é aspirar saciar o coração de um homem da época maquinista, e não mimar alguns romancistas desatualizados que assistiriam, sem se darem conta, com a lira na mão, à degeneração da raça, ao desanimo da cidade e à sonolência do país. ”30 “ A forma criada pelo homem é o prolongamento dele - com as suas qualidades e com os seus defeitos. ”31 Neste caso, e por cada habitante ter necessidades diferentes, resultará no facto de cada núcleo familiar ser também ele requerente de uma habitação mais adaptada a si mesmo, e editada. Ao contrário dos casos em que não existem restrições dimensionais, nesta situação não existe a possibilidade de integrar espaços adicionais, que representem funções pontuais, e a nível geral representem espaços com utilidade limitada. No seguimento do ponto anterior, percebe-se que atualmente existe um confronto significativo entre a representação da casa mínima no contexto ocidental em relação ao contexto oriental, o que se traduz na justificação quanto ao segundo ponto abordado, o das motivações culturais e de tradição. Por um lado, no Ocidente, percebe-se que este tipo de habitação é utilizado mais amplamente num contexto urbano com a função de habitação quotidiana, por opção e por questões económicas, ou num contexto rural, para ser maioritariamente utilizada como segunda habitação, ou seja, casa de férias. Já no Oriente, as dimensões de uma habitação mínima em contexto urbano, para uso quotidiano, advêm de uma necessidade pela falta de solo disponível para a construção, e consequentemente por questões económicas derivadas do preço por metro quadrado, e no contexto rural, esta habitação mínima, é formalizada por opção, de forma a responder aos parâmetros tradicionais da habitação, e é também de utilização quotidiana. O que transparece a inter-relação 30 Traduzido de “Lo que yo denomino buscar “una célula a escala humana”, es olvidar toda casa existente, todo código de habitación existente, todas las costumbres o la tradición. Es estudiar con sangre fría las nuevas condiciones en las cuales nuestra existencia se desarrolla. Es tener la osadia de analizar y saber sintetizar. Es sentir detrás de sí el apoyo de las técnicas modernas y delante de sí la fatal evolución de la construcción hacia unos métodos sensatos. Y es aspirar a saciar el corazón de un hombre de la época maquinista, y no a mimar algunos novelistas caducos que asistirían, sin tan sólo darse cuenta, con la lira en la mano, a la degeneración de la raza, al descorazionamiento de la ciudad y al amodorramiento del país.” Em LE CORBUSIER; Precisiones. Respecto a un estado actual de la arquitectura y el urbanismo; p.124 31 TÁVORA, Fernando; Da Organização do Espaço; p.73 25 existente entre a dimensão mínima e a tradição japonesa, desde a antiguidade até aos dias de hoje. 1.5. A Casa Tradicional Japonesa Apesar de na contemporaneidade a globalização ter aproximado determinantemente todos os pontos do globo e, consequentemente, a sua arquitetura, como abordado anteriormente, entendemos que o Japão e, em particular, a casa tradicional japonesa, consiste numa base irrevogável do conceito da habitação mínima. Habitação essa na qual muitos arquitetos se fundamentam aquando da execução de projetos integrados na temática e, por isso, é incontornável a sua referência não só ao longo de todo o trabalho, como no caso, o estudo mais específico quanto à sua origem e tradição, nesta fase da investigação. Devido a inúmeros fatores intervenientes na evolução da sociedade japonesa, nomeadamente o seu posicionamento geográfico independente, e ainda por diversos acontecimentos na sociedade, economia, e política, o Japão, conseguiu, de certa forma, desenvolver uma cultura muito característica e única e que se conseguiu manter, em grande medida, estável. Mesmo tendo em conta os dias de hoje, em que apesar da intervenção globalizante estar presente por todo o mundo, este consegue, ainda assim, manter diversos pontos fundamentais pelos quais se regem os seus costumes e cultura. A cultura japonesa, introduz indiscutivelmente um pensamento aprimorado de todo o seu contexto, o que poderá ser reforçado ainda pela perceção de diversos ideais estéticos, observados em especial na sua forma de projetar a casa, são eles, Ma, Miyabi, Wabi, Sabi, que projetam “(...) os seus sentimentos em relação à natureza e que influenciam a sua arte e cultura. Cada uma destas estéticas representa um tipo de beleza diferente descrito geralmente na beleza encontrada de formas inesperadas. ”32 Estes ideais apesar de serem, todos eles, elementos relacionados 32 Traduzido de “(...) their feelings in regard to nature and its influence in their art and culture. Each of these aesthetics depicts a different kind of beauty, often describing beauty found in unexpected forms.” Em PRUSINSKI, Lauren; Wabi-Sabi, Mono no Aware, and Ma: Tracing Traditional Japanese Aesthetics Through Japanese History; p.25 26 com a sensibilidade japonesa e o seu conceito de beleza, têm, entre eles, significados diversos e representações também elas diversas na sua formalização. O conceito Ma, “(...) descreve a parcialidade no design japonês para espaços vazios, imprecisão, abstração, simetria e irregularidade. ”33, é ainda descrito como sendo a representação da beleza vazia ou sem forma34. Apesar disso, é um conceito fundamentalmente abstrato, e de difícil definição concreta, podendo ser observado na casa japonesa na sua ligação com a estratificação e diversos layers que compõem a casa, e que vão definindo filtros desde o interior ao exterior da habitação, em particular a referência existente entre Ma e o espaço Engawa. Os conceitos de Miyabi, Wabi e Sabi, estão amplamente relacionados, tendo significados próximos, mas específicos ao mesmo tempo. Miyabi, é a representação de elegância refinada35; Wabi, é o termo que essencialmente se refere ao gosto tranquilo; Sabi, representa a simplicidade graciosa. Wabi-Sabi, quando associados, representam um sentido diferente, representativo da essencia da beleza japonesa, e que sugere um gosto pela preservação do que é natural, da forma como a natureza posiciona os elementos de forma aleatória, e ainda a forma como a passagem do tempo naturalmente transforma e degrada os materiais, o que se reflete na escolha de materiais na sua forma mais orgânica, sem intervenção ou tratamentos de preservação.36 Este elemento estético pretende conferir tranquilidade sem exuberância. Pode ser observado em particular na Cerimónia do Chá, “(...) dos seus participantes em relação ao seu entorno (...) pequenos jogos de luz e sombra, ouvir a água que escorre pela chaleira, sentir o odor do chá e seus matizes, observar o coração que palpita e o corpo que, como um todo, é efeito-instrumento da ceri33 Traduzido de “(...) describes the partiality in Japanese design for empty spaces, vagueness, abstraction, symmetrical balance, and irregularly.” Em CHEUNG, Dobie; Tea room & Japanese Desan: Chasitsu & Japanese Design; Cap.7 p.I 34 PRUSINSKI, Lauren; Wabi-Sabi, Mono no Aware, and Ma: Tracing Traditional Japanese Aesthetics Through Japanese History; p.25 35 CHEUNG, Dobie; Tea room & Japanese Desan: Chasitsu & Japanese Design; Cap.4 p.I 36 CLAIR, Ericson Saint, RIBEIRO, João Vitor Viana; Wabi-Sabi, a arte da imperfeição: estética japonesa e alteridade cultutal; p.208 27 mónia que se dá. ”37 A casa japonesa, indo ao encontro de todos os conceitos inerentes à sua cultura, representa um dos casos de maior reflexão entre a forma de habitar dos seus ocupantes e as suas atividades interiores, refletindo ainda ações especificas do quotidiano tradicional japonês. Nesta casa, os momentos parecem reproduzir ações encenadas, provenientes da sensibilidade e refinamento pelos quais são conhecidos os japoneses. Apesar de existirem diversos tipos de habitação tradicional no Japão e de no panorama mais abrangente existirem claras diferenças, próprias da época e do local onde estas foram construídas, existem ainda algumas características pelas quais se regem a maioria destas casas, e que são representativas não só da arquitetura em si, como também da própria cultura. De facto, a forma de construir japonesa, representa numerosas intensões, que não são de todo casuais e que traduzem a organização da casa. Em primeiro lugar, a íntima relação existente entre o Homem e a Natureza, e que se reflete na permeabilidade existente entre o interior e o exterior. No Japão, em particular, esta relação pode ser interpretada de diversas formas simbólicas, baseadas nos ideais desta cultura, mas também enquanto consequência de um quotidiano impactado frequentemente por fenómenos naturais, que exigem especial preocupação. Esta relação pode ainda ser observada na forma como a casa vai por si só sendo estratificada através de filtros, no caso os shoji ou fusama, abordados de seguida, e que vão privatizando os espaços em relação à Natureza. Em segundo lugar, o refinamento que existe nos métodos construtivos, que se traduzem maioritariamente em sistemas pré-fabricados em madeira, com medidas standard e que são transversais a toda a arquitetura habitacional através da arte do encaixe. Em terceiro lugar, a forma como a própria organização da casa representa uma atenção aos fenómenos abordados anteriormente, mas tam37 CLAIR, Ericson Saint, RIBEIRO, João Vitor Viana; Wabi-Sabi, a arte da imperfeição: estética japonesa e alteridade cultutal; p.213 28 bém uma flexibilidade ínfima de funções em relação ao espaço interior da casa. A base da casa, o espaço central da habitação, é então um espaço amplo, ao qual vão sendo adicionados elementos de delimitação e estratificação em função das necessidades. O tatami é, não só, o revestimento tradicional de pavimento da casa tradicional japonesa, como representa ainda o módulo dimensional pelo qual se rege todo o edifício, inclusive a posição dos elementos estruturais e dos painéis shoji e fusama. Este revestimento consiste em painéis feitos de palha de arroz prensada e revestida por esteira de junco, que têm dimensões padronizadas de 90x180 cm e 5,5 cm de espessura, cada. O tatami é geralmente utilizado como pavimento em toda a extensão da casa, à exceção de espaços como a cozinha e o W.C., nos quais é utilizado um revestimento de cimento. A definição dos limites entre zonas revestidas por tatami e as restantes, afirma-se ainda pela variação de cotas, que no caso da cozinha consiste em 40 cm abaixo do nível do tatami. Dada a reduzida utilização de mobiliário, o tatami serve mais do que o propósito de pavimento e de circulação, sendo ainda o meio de base para a ação de sentar e dormir, entre outras atividades que assim exijam. O shoji é um painel ou portas de correr deslizantes, feito com folha de papel translucido, com uma moldura em madeira, utilizado desde o passado em detrimento da utilização do vidro, utilizado no ocidente, mas com as mesmas propriedades de permitir a passagem da luz, e é utilizado como parede de delimitação interior e exterior. O fusama, tal como o shoji, é um painel de papel translucido, com uma moldura de madeira, mas neste caso é utilizado um papel mais espesso. A sua utilização corresponde a funções interiores e tem a formulação de porta sendo ainda pensado enquanto delimitador de espaços, dado que a casa japonesa não tem paredes fixas. De forma a permitir a circulação de ar para fins de ventilação, estão presentes os ranma, que consistem em painéis que auxiliam ainda na passagem de iluminação, entre espaços e que estão situados geralmente acima do shoji ou fusama. Por motivos de segurança, não só ao nível de intrusões de ladrões, como também enquanto proteção contra fenómenos naturais, existe na 29 casa japonesa um sistema chamado de amado, que consiste em painéis geralmente em madeira ou metal que se encontram, na maioria do tempo, abertos, deixando apenas o shoji como limitação e revestimento exterior, mas que são então colocados, em especial à noite, enquanto salvaguarda, dada a sensibilidade e permeabilidade do shoji. Apesar da flexibilidade funcional da casa japonesa se refletir na escassez de divisões predestinadas a momentos específicos, como quartos, sala, entre outros, podemos observar que, ainda assim, existem alguns espaços aos quais é dada independência, e consequentemente uma função própria na vivência da casa. O tokonoma é referido de forma recorrente na definição dos espaços da casa e representa um dos locais fulcrais dessa organização, este é uma área ligeiramente elevada em relação às restantes zonas, com uma dimensão que corresponde ao módulo do tatami, e que pretende ser um local dedicado não só à recessão de convidados, como ainda enquanto momento simbólico onde se coloca a decoração, em especial peças de arte. Este espaço tem em si associada uma componente de relação entre a função e o simbolismo. O genkan, que corresponde ao espaço mais próximo da entrada de transição entre o interior e o exterior, e que por questões práticas, pela forma como é utilizada a casa japonesa, serve como local onde ficam os sapatos, não só dos habitantes da casa, como também dos próprios convidados. Este espaço encontra-se posicionado abaixo da entrada principal com a diferença de um degrau. Engawa corresponde ao nome dado ao espaço exterior, de transição entre o interior e o exterior, e que representa um pátio, ou varanda, coberto, que atua como corredor por toda a extensão do exterior do alçado da casa. Este espaço representa um meio não só funcional em relação ao seu uso, como também pelo facto de ser estrategicamente um meio de controlar a entrada de luz e chuva no interior da casa. Foi no século XX que diversos arquitetos começaram a ter um interesse superior em projetar casas no Japão, e foi aí que começou a ser desenvolvida a expressão contemporânea. Apesar de a habitação japonesa, ter sofrido algumas mudanças próprias da evolução até aos 36 que poderá interferir diretamente na dinâmica da casa. A cor e a textura de diferentes materiais atuam decisivamente na definição de um espaço, não só visualmente, como mesmo ao nível das questões térmicas e acústicas intervenientes no mesmo. Serão de destacar, nesta fase, não só os materiais que estão presentes nos diversos projetos, como os meios em que estes atuam na perceção do espaço. Quando se aborda o tema da materialidade relacionando-o com a arquitetura, existem inúmeros exemplos relevantes, contudo a motivação princípal de escolha de um, em detrimento de outro, é o cariz estético que este irá introduzir no projeto. No caso do “Loft Apartment”, o material que se impõe é a madeira, na sua cor natural na maioria da casa, mas com alguns elementos pontuais onde esta foi pintada de branco. Nesta casa percebe-se um contraste entre um elemento natural, a madeira, e um elemento não natural em relação às superfícies brancas. Este contraste acontece não só nos elementos horizontais, como verticais, dado que a madeira cobre não só o pavimento, como algumas paredes e tetos, fazendo ainda parte da materialidade do mobiliário que compõe a habitação. Os dois casos seguintes apresentam uma característica material semelhante, a cor, caracterizada pelo tom amarelo/laranja e que se impõe quanto às restantes superfícies que nos dois casos são brancas. Na casa “Functional Walls” o amarelo cobre as superfícies de diversas formas, na cozinha nos elementos negativos do armário, criando nichos coloridos, e ainda a totalidade da ilha, já no W.C. o amarelo cobre a maioria das superfícies tanto verticais como horizontais. O quarto é o único espaço totalmente branco desta habitação. Na habitação “Youth to Youth”, o elemento alaranjado funciona como um objeto escultórico, que define a formulação de um segundo piso, cobrindo de forma linear a superfície desde o início das escadas dos dois lados até ao encontro da mezanino. Este caso tem a particularidade de ter um elemento de iluminação integrado, que acompanha todo o seu movimento. Fig.8. Loft Apartment, Ruetemple, 2014 Fig.9. Functional Walls, Lookofsky Architecture, 2018 Fig.10. Youth to Youth loft, batlab, 2014 37 Organização “ A planta é o gerador. Sem planta, só há desordem e arbitrariedade. A planta leva em si a essência da sensação. Os grandes problemas do futuro, ditados pelas necessidades coletivas, apresentam de novo a questão da planta. A vida moderna exige, espera, uma nova planta para a casa e para a cidade. ”42 Neste parâmetro, interessa perceber de que forma é organizada a casa, em especial quanto à formulação em planta, no que diz respeito aos cheios e vazios criados pelos diversos espaços e as suas paredes ou momentos de delimitação. São diversas as configurações encontradas nas tipologias de habitação mínima, mas as mais recorrentes baseiam-se na ideia de um ou diversos núcleos, e na forma como estes se organizam e se relacionam com os restantes espaços. Através desta análise percebe-se a existência em particular da variação entre os núcleos cheios e os núcleos vazios, o que significa se estes apresentam um uso integrado ou, pelo contrário, se representam um espaço sem uso ou vazio. A partir desta definição, interessa diferenciar se existe um único núcleo organizador ou se, por outro lado, existem dois ou mais núcleos, e a partir daí definir como estes se enquadram no objeto total. Se estes estão posicionados ao centro da planta, se se localizam anexos às laterais da habitação, se estão organizados de forma aleatória e perceber se existe um padrão, entre outros. Por fim será importante, relacionar o posicionamento ao longo das diversas cotas do projeto, e se será de facto uma componente de relevar. No caso da “Chameleon House”, encontra-se um exemplo de organização nuclear, neste caso um núcleo único no centro, que atua en42 Traduzido de “El plan es el generador. Sin plan, sólo hay desorden y arbitrariedad. El plan lleva en si la esencia de la sensación. Los grandes problemas del futuro, dictados por las necessidades colectivas, presentan de nuevo la cuestión del plan. La vida moderna exige, espera, un nuevo plan para la casa y para la ciudad.” Em LE CORBUSIER; hacia una arquitectura; p.34 Fig.11. Chameleon House, Petr Hajek Architekti, 2014 38 quanto espaço organizador da restante habitação, e se desenvolve em diversos subnúcleos com dimensões e ângulos distintos. Neste núcleo estão inscritas as zonas comuns da casa e, em volta deste, todos os restantes espaços privados, como quartos e W.C. Conforme se percebe na imagem, o “Loft For” é um exemplo da questão abordada na introdução do parâmetro e que continua, de certa forma, a temática do caso anterior, a presença do núcleo como elemento de composição. Neste caso, em vez de o programa se desenvolver em torno de um núcleo, estão presentes dois núcleos, contidos num espaço no qual se faz a restante organização. Nestes dois núcleos, inserem-se as funções mais privadas da habitação e, fora destes, encontram-se os espaços comuns. Na sequência do estudo da questão associada à organização núclear, surge a temática da organização em altura, temática esta, amplamente explorada em particular na habitação mínima em centros urbanos. Neste caso, referindo que se trata de um protótipo, a “Slim Fit Micro House” utiliza diversas cotas para a composição dos vários compartimentos da habitação. Com esta composição, é favorável em particular a menor utilização de área de terreno, o que em muitos casos é o fator determinante para este tipo de construção em cidades densamente habitadas e com pouco terreno disponível. Para além da questão relativa à organização em altura abordada no caso anterior, existe outro exemplo de uma exploração diversificada desta temática, a casa “Ribbon”. Neste caso, apenas com a variação de cota entre dois níveis, esta casa é separada fisicamente entre as zonas de uso privado e as de uso comum, através de uma zona de interstício mais evidente no alçado da casa. No interior da casa este interstício é também percetível, apesar de menos aparente, sendo um espaço ao qual os habitantes têm acesso, e reflete-se em especial na própria organização dos espaços, inclusive ao nível do conceito interno da habitação. Arrumação Muito recorrente na maioria dos casos de habitação mínima, a arrumação é um ponto que poderá causar algum constrangimento, principalFig.12. Loft For, adn Architectures, 2013 Fig.13. Slim Fit Micro House, Ana Rocha, 2018 Fig.14. Ribbon, Komada Architects Office, 2011 39 mente nos dias de hoje, num século em que o consumo está na ordem do dia, a quantidade de objetos que cada pessoa possui, pode ser um grande problema na hora de habitar uma casa mínima. Procuram-se e criam-se meios de rentabilização do espaço, de forma a poder integrar a arrumação de forma funcional, e a produzir o menor impacto possível na ocupação de espaço útil. Encontram-se diversos exemplos pertinentes nestas tipologias mínimas, mas que cada vez mais vão integrando as soluções de design das habitações de dimensões generalizadas. Devido a se tratar de aproveitar espaço, naturalmente, parte desses exemplos consistem em exponenciar o uso de espaços que à partida não teriam qualquer utilização e, portanto, são introduzidos módulos de organização em espaços ocos de degraus, ou por baixo das escadas, criando um espaço de armário, também diversas formas de utilizar móveis ou elementos pontuais nas paredes ou no teto, e ainda a utilização do espaço de chão, se possível. A “House MJE”, trata-se de um exemplo que se relaciona em grande medida com o caso do “Domestic Transformer”, abordado no parâmetro da Circulação, pela forma como ambos tiram partido de elementos amovíveis como forma de otimizar a utilização de espaço. Apesar disso, neste ponto, é pertinente referir que a forma como os módulos, não só formalizam os espaços, como integram diretamente nestes não só, os objetos pertencentes a cada espaço, como o próprio mobiliário. Este método de arrumação, contribui diretamente para a dinâmica da casa e para a forma mais orgânica de a usar. O “Modulo Habitacional ODDA”, projeto desenvolvido por um atelier português, consiste no desenvolvimento de uma unidade de arrumação composta, que acomoda não só todas as funções necessárias para a habitação, como concentra todos os objetos e mobiliário necessários para o caso. Este módulo tem a forma de um cubo, que se posiciona, à partida, de forma central ao espaço, e pretende-se que possa ser integrado em projetos distintos e com bases também distintas, e que mesmo assim se integre sempre de forma homogénea. Em contraste com os casos anteriores, a “Dengshikou Hutong House”, é composta por um elemento de arrumação que acompanha toda Fig.15. House MJE, PKMN architectures, 2014 Fig.16. Modulo Habitacional, ODDA, 2014 40 a extensão da habitação, e que deixa apenas livre um corredor, que acompanha lateralmente todo o projeto. Este elemento acomoda todas as funções da habitação, em dois pisos diferenciados, que consequentemente se espandem lateralmente, ocupando parte do corredor, sempre que seja necessário. Esta habitação vai-se modificando constantemente, alterando frequentemente a organização da mesma. Transição Apesar de poder ser estabelecida uma conexão entre este parâmetro e o da Circulação, neste caso, e apesar de ser definido em parte pelos percursos que se criam na habitação, interessa perceber os momentos do projeto em que se recorreu a outro meio que não, por exemplo, uma parede, para se definir a transição entre espaços diferentes. Serão, ainda assim, integrados os momentos de variação entre pisos, uma vez que representam delimitações espaciais, mas, mais do que isso, serão aqui integrados os elementos dinâmicos introduzidos, por exemplo, cortinas, transparência ou até a diferença de revestimento como meio alternativo a uma barreira física. Todos estes meios permitem que o espaço interior seja exponencialmente rentabilizado, dado que se perde a interrupção visual, o que confere um cariz amplo e com continuidade visual. O “Sleeping and Playing” trata-se de um espaço único, no qual foram integrados dois quartos e, entre eles, um espaço de lazer, direcionado em especial para as crianças, como acusa o nome do projeto. A forma como os três espaços se relacionam é o principal elemento a analisar neste parâmetro, e é nele que se insere a característica fulcral deste projeto. A separação física dos três níveis não impede totalmente a perceção visual entre os espaços, o que é reforçado inclusive pelo uso de uma rede como elemento para sentar, como guarda das escadas e ainda como guarda do piso superior. O piso inferior, é não só o espaço correspondente ao quarto principal, como é também utilizado como espaço de estar. O caso da“Kofunaki House” representa diversos meios de transição num só projeto, e consegue estabelecer ligação entre eles em espaços Fig.17. Dengshikou Hutong House, B.L.U.E. Architecture Studio, 2016 Fig.18. Sleeping and Playing, Ruetemple, 2016 41 coincidentes. Através da variação de um degrau e da diferença de materiais de revestimento de pavimento, estabelece-se a diferenciação em relação ao núcleo da casa, esse mesmo núcleo é ainda diferenciado com a utilização de cortinas que permitem uma quebra visual em relação ao mesmo. Esse mesmo espaço é ainda complementado por escada e corredores que coligam o piso superior ao inferior. O apartamento “Architectural (Dis)order” é outro caso desenvolvido por um gabinete português e que estabelece através da variação de três degraus, a quebra entre o espaço privado e o espaço público. A pequena diferença de cotas permite não só a continuidade visual por toda a área da casa, como ainda um maior aproveitamento da luz natural proveniente da unica janela da habitação. Enquadramento “ Acredito que os edifícios só serão aceites pela sua envolvente se tiverem a capacidade de apelar às nossas emoções e mentes de diversas formas. Já que os nossos sentimentos e entendimento estão enraizados no passado, as nossas conceções sensoriais com um edifício devem respeitar o processo de relembrar. ”43 Dada a importância que o espaço exterior tem para com o programa interior, é pertinente analisá-lo não só em relação à forma como a própria habitação é configurada, quanto ao seu exterior, a forma como são compostos os alçados e como se afirma, ou não, quanto ao dimensionamento, como ainda a forma como esta se relaciona com o contexto preexistente, seja este urbano ou rural. Tal como foi abordado no capítulo anterior, o contexto geográfico em que estes casos se integram interfere na forma como estes se relacionam no seu enquadramento, e apesar de este não ser um fator a ter em conta na seleção dos casos de estudo, é ainda assim um parâmetro a referir num momento de análise específico. O caso da “House JJ & SM”, estabelece uma ligação estreita com a 43 Traduzido de “I believe that buildings only be accepted by their surroundings if they have the ability to appeal to our emotions and minds in various ways. Since our feelings and understanding are rooted in the past, our sensuous connections with a building must respect the process of remembering.” Em ZUMTHOR, Peter; THINKING ARCHITECTURE; p.18 Fig.19. Kofunaki House, ALTS Design Office, 2012 Fig.20. Architectural (Dis)Order, Corpo Atelier, 2018 42 sua envolvente, o que é favorecido pela componente natural da mesma. Esta casa tem uma linha simples e uma materialidade exterior que vai ao encontro da floresta que a envolve, a madeira. A forma como a casa se liga desde o interior com o espaço exterior, tira partido de um maior aproveitamento do local, resultando num enquadramento mais harmonioso. A “Scar House” localiza-se num meio urbano, fator este que é percetível não só pela forma como se integra na rua, como ainda pela própria construção em lote, tirando partido dos espaços em altura. A relação que esta estabelece com a rua é, de um ponto de vista exterior, próxima, uma vez que a antecede de forma imediata, tendo uma relação direta com o passeio pedonal, e apesar de não seguir exatamente a estética de fachada tradicional, cumpre parcialmente os conceitos base, através do uso de um material de revestimento comum, o tijolo. Por outro lado, ao contrário das restantes, desde o interior, esta possui apenas alguns momentos pontuais de contemplação quanto ao exterior. Relação com o exterior Neste último parâmetro, interessa perceber se existem momentos do projeto com relação direta com o exterior e que o integrem. Assim sendo, serão considerados para esta análise, os espaços de pátio, terraço, varanda e jardim, que interfiram com a vivência interna ou que de alguma forma se relacionem com a mesma. Por motivos de pertinência de análise, os espaços exteriores que pertençam à área da casa, mas que por algum motivo não estejam ligados diretamente com o programa desta, serão interpretados e analisados no parâmetro anterior, de Enquadramento, por nos parecer mais adequado. No caso da “House in Shinkawa”, existem dois espaços exteriores, e, apesar de ambos os casos serem espaços cobertos, no caso representado na fotografia, a ligação com o exterior é menor, interagindo de forma mais explicita com o interior. Este espaço, apesar de ser considerado exterior, tem um volume vegetal inferior, o que mais uma vez reforça a estreita ligação com as funções interiores. Já no que diz respeito à “House N”, o espaço exterior envolve toda Fig.21. House JJ & SM, Atelier MIMA, 2016 Fig.22. Scar House, Jager Janssen, 2016 Fig.23. House in Shinkawa, Yoshichika Takagi, 2015 43 a habitação, sendo percetível a forma como o próprio percurso da habitação é integrado neste, juntamente com diversas funções inscritas no programa da habitação. Este espaço exterior é totalmente coberto, dado que a casa tem uma segunda construção que envolve todo o perímetro. Apesar de este espaço ser parcialmente encerrado, está ligado ao exterior por grandes aberturas que pontuam o alçado da casa e que permitem uma ligação com as mudanças ao longo do dia, e mesmo ao nível climático, durante todo o ano. Fig.24. House N, Sou Fujimoto, 2008 44 45 3.1. Apresentação dos Casos de Estudo Na sequência deste trabalho, segue-se a análise dos casos de estudo selecionados, que não só abordam os parâmetros introduzidos no capítulo anterior, como representam exemplos pertinentes da exploração da habitação mínima, em diversos pontos do globo. De referir que a escolha destes mesmos casos de estudo, teve como critérios de seleção a sua dimensão reduzida, neste caso, que não excedessem os 125 m2, que fossem, exclusivamente, casos de habitações de utilização quotidiana, e que acrescentassem ao universo de casos de estudo, soluções relevantes da versatilidade do espaço doméstico de dimensão reduzida. A ordem pela qual estão organizados os casos de estudo não representa uma qualquer lógica concreta, pelo que se organizam de forma aleatória, a todos os níveis, tanto ao nível cronológico, como dimensional e ainda quanto à localização. A decisão de tornar aleatória a sua organização, vem reforçar a intenção de dar prioridade às características específicas do projeto, em detrimento de características, apriorísticas. 3. Casos de Estudo ImaI Localização: Okazaki, Japão Arquiteto: Katsutoshi Sasaki + Associates Ano de Construção: 2013 Área Construída: 69,5 m 2 2 Fig.34. 52 Construída em Okazaki, no Japão, e projetada pelo arquiteto Katsutoshi Sasaki + Associates, a ImaI afirma-se no panorama tradicional da rua, para além da sua forma geométrica, caracteriza-se ainda pelo alçado branco, distinguindo-se claramente na paisagem. Internamente, a casa organiza-se em três pisos, apesar de existirem poucas barreiras físicas ao nível independente de cada piso, este fator torna todo o interior num espaço único fluído. Fig.33. Fig.35. Fig.36. 53 Áreas Área do lote 42,6 m2 Nº de pisos 3 Nº de habitantes 4 Nº de divisões 6 Cozinha 10,9 m2 Sala de estar 11,2 m2 Quarto 7,2 m2 Espaço ambíguo - W.C. 5,7 m2 Escritório 10,9 m2 Arrumação - Entrada 4,1 m2 Espaço exterior 14,6 m2 Circulação Nesta casa a circulação acontece tanto de forma horizontal, dada a organização do espaço interior nos diversos pisos, pela sua forma longitudinal ampla, quanto de forma vertical, pelos momentos de acesso entre pisos que acontecem de forma pontual e compactada. No que diz respeito à dinâmica interna, percebe-se que devido à organização espacial, o piso intermédio é de facto o meio organizador e é nele que se situa a maior definição de uma circulação fluída, restringida apenas pela configuração estreita do projeto. Iluminação Dada a fluidez espacial desta casa, todo o projeto controla a luz de forma harmoniosa. Neste caso, a luz é trabalhada através de grandes janelas em diversos pontos da casa e orientações também elas diversas, que vão harmonizando toda a atmosfera da casa. Para além disso, é de referir em alguns espaços a utilização de janelas em cotas também diversas, em específico na zona de escritório. Materialidade Organização Fig.37. Fig.38. Fig.39. 54 Arrumação Transição A transição entre espaços acontece de forma fluída, especialmente nos espaços inscritos no piso intermédio, piso este responsável pela transição entre os restantes dois pisos. No que se refere aos momentos transitivos, são de referir não só as mudanças subtis de cota, através de pequenas variações, como ainda a forma como as peças de mobiliário vão formalizando e delimitando as diversas partes do projeto. A luz é também um meio de transição aparente, pela forma diversa como esta é trabalhada em função do espaço em causa. Enquadramento Tendo em conta a envolvente desta habitação, é possível verificar o impacto que esta apresenta em relação ao contexto da rua. Não só as habitações circundantes são de matriz tradicional, em confronto com a contemporaneidade desta casa, como é também impactante em função da sua cor, um bloco branco que se impõe no meio de inúmeras casas de cores e ornamentos diversos. É ainda importante referir a forma como esta se encaixa em função da sua escala reduzida comparativamente a grande parte das casas que a envolvem, como ainda pela relação que a mesma estabelece com a rua, através do prolongamento do acesso à habitação por um pátio em rampa e que permite uma aproximação entre o interior e o exterior. Relação com o Exterior Existem, nesta habitação, dois espaços de caris exterior, um no piso inferior, com as características de um pátio interior, mas que apesar disso pretende corresponder a um espaço com a experiência de exterior através, não só, da utilização de elementos vegetais, como pela presença de uma grande janela que ilumina o espaço e o faz destacar-se da cozinha anexa, que é um espaço por si só com um nível de iluminação muito mais reduzido. O segundo espaço, no piso superior, é um terraço que, apesar de ser exterior, é encerrado através de muros que o envol- 55 vem e que contribuem para a harmonização da cota de todos os alçados da habitação. Gorki Localização: Moscovo, Russia Arquiteto: Ruetemple Ano de Construção: 2016 Área Construída: 47 m 2 3 Fig.40. Fig.41. 56 Tendo em vista um espaço funcional para um jovem, o apartamento Gorki, projetado por Ruetemple, consolida o projeto com a utilização de um volume central que organiza não só o programa da casa, como intetvêm no mesmo. Tendo como base um volume de 47 metros quadrados com superfícies em bruto, foi integrado um volume de madeira, contrastante com a cor das superfícies circundantes, nas quais são concentradas as funções mais íntimas de quarto e armário, como ainda diversos elementos de arrumação. Este núcleo é aberto e permite uma dinâmica de luz importante às restantes partes do projeto. Fig.42. Fig.43. 57 Áreas Área do lote 47 m2 Nº de pisos 1 Nº de habitantes 1 Nº de divisões 6 Cozinha 6,2 m2 Sala de estar 19,4 m2 Quarto 4,0 m2 Espaço ambíguo - W.C. 3,3 m2 Escritório - Arrumação 1,7 m2 Entrada 7,0 m2 Espaço exterior 5,4 m2 Circulação Neste apartamento a circulação estabelece-se através de um percurso concêntrico em função do núcleo, que é correspondente ao módulo do quarto e ainda ao espaço de arrumação. Este movimento traduz-se numa quebra entre os diversos espaços da habitação, à medida que se percorre todo o espaço. O espaço global resultante, apesar de estar repartido em diversas funções é consideravelmente fluido, não só pela forma como todos os espaços se relacionam, como também pelo facto de o percurso interno ser contínuo. Iluminação Existem neste parâmetro dois fatores que intervêm na iluminação deste projeto, por um lado a fonte natural que consiste em duas grandes janelas coincidentes na mesma face de um dos alçados, e a luz resultante desta, que é a única fonte de iluminação natural deste apartamento. Por outro lado, a existência de aberturas nas superfícies verticais que formalizam o núcleo, e que permitem a passagem da luz para as restantes partes da casa, estas zonas posicionadas na parte oposta da habitação em relação ao alçado no qual se encontram colocadas as janelas, e o que faz com que sem esta possibilidade fossem espaços encerrados e sombrios. Fig.44. Fig.45. Fig.46. 58 Materialidade Uma das características que se revela à partida mais percetível nesta habitação é o destaque da madeira, que está presente não só no núcleo central correspondente ao quarto, e, nesse espaço, é o revestimento de todas as superfícies, como está presente na plataforma anexa a este e que consolida o espaço do quarto externo ao módulo do núcleo. De referir que as restantes superfícies, à exceção dos elementos decorativos, são brancas, apesar da variação de materiais, com a exceção ainda do teto que permanece em betão no seu carácter em bruto. Organização A composição deste projeto consiste num volume de base irregular, próximo de um quadrado, que define a volumetria interior do mesmo, no qual as funções programáticas comuns da habitação se desenvolvem. No centro deste volume é integrado um outro volume, no qual se insere o quarto, juntamente com o espaço de arrumação e ainda uma extensa prateleira na superfície exterior do volume. A restante área anexa ao quarto encontra-se posicionada numa plataforma com funções ambíguas complementares ao programa da habitação. Um ponto relevante é o posicionamento da cozinha e w.c. paralelos, ambos anexos ao alçado oposto ao das janelas, possivelmente por representarem os espaços com um menor tempo de utilização e uma menor necessidade de exposição solar direta. No caso da cozinha, dado ter uma relação direta com a sala, a iluminação acaba por se prolongar. Arrumação Transição Esta casa divide-se em duas cotas diferenciadas, correspondentes à zona de quarto, que se insere numa plataforma a um nível superior, com a diferença de três degraus, e abaixo desta estão todas as outras partes desta habitação. A escada entre as diferentes cotas estabelece um limite espacial, mas não interfere visualmente, dado não consistir numa barreira visual. Esta diferenciação é ainda reforçada pela diferença na materialidade dos elementos que a formalizam, no caso o contraste 59 entre a madeira e os elementos brancos. Enquadramento Relação com o Exterior ReSlope House Localização: Kobe, Japão Arquiteto: Tomohiro Hata Architects Ano de Construção: 2015 Área Construída: 123,9 m 2 4 Fig.47. Fig.48. 60 Como o nome indica, a ReSlope House, projetada por Tomohiro Hata Architects, em Kobe no Japão, foi pensada de forma a restabelecer a inclinação (slope) do terreno de implantação original. Assim sendo, a casa tem uma cobertura, que atua também como fachada, e ainda acompanha a inclinação da montanha. Para além disso, o seu interior dividido por níveis simula mais uma vez esta condição. Os planos internos são abertos, compostos por três plataformas que permitem a interação entre eles, acompanhados ainda de grandes janelas que permitem uma maior relação com a envolvente. Fig.49. Fig.50. 61 Áreas Área do lote 176,5 m2 Nº de pisos 3 Nº de habitantes 6 Nº de divisões 9 Cozinha 7,1 m2 Sala de estar 28,1 m2 Quarto 23,4 m2 Espaço ambíguo 17,8 m2 W.C. 10,6 m2 Escritório - Arrumação 4,4 m2 Entrada - Espaço exterior 24,5 m2 Circulação Dada a sua configuração com uma progressão em escada, a circulação desta habitação revê-se principalmente no modo como esta segue precisamente essa forma. Neste caso a escada é um vínculo de ligação entre os espaços, e é através da mesma que eles se desenvolvem. De uma forma direta, numa das laterais estão as divisões correspondentes ao piso em questão, e de forma indireta, a observação dos pisos inferiores e superiores na lateral imediatamente oposta. Os percursos são delimitados por uma perceção de diversos núcleos organizadores, relacionados com os níveis criados pela organização em escada já abordada anteriormente, e desenvolve-se de forma fluída no espaço central de cada piso, e lateralmente nos momentos de transição entre níveis. Iluminação Semelhante à organização programática, também a iluminação é trabalhada seguindo os diversos níveis, e acompanha os diversos pisos condicionados pelos mesmos. No piso inferior, a fonte de luz mais próxima é a janela que acompanha toda a extensão do alçado posterior, e que dá acesso ao pátio. Já no piso superior, a situação é semelhante, a luz provém do vão correspondente House in Fukawa Localização: Hiroshima-shi, Japão Arquiteto: Suppose Design Office Ano de Construção: 2010 Área Construída: 114,3 m 2 6 Fig.64. Fig.65. 68 A House in Fukawa, situa-se em Hiroshima-shi, no Japão, foi projetada por Suppose Design Office. Por se localizar numa zona onde é referido existir algum trânsito, foi determinado um encerramento para o exterior, apenas com algumas exceções, por via da necessidade de luminosidade, e também visibilidade. A forma desta casa é singular, o que se transpõe também para o seu interior. Um vão de escadas posicionado no centro da planta, adquire um cariz de núcleo, no qual inúmeros volumes de formas diversas e com ângulos singulares se vão conectando, formalizando o programa interno. 69 Áreas Área do lote 50,3 m2 Nº de pisos 3 Nº de habitantes 4 Nº de divisões 13 Cozinha 11,3 m2 Sala de estar 27 m2 Quarto 25,1 m2 Espaço ambíguo 14,2 m2 W.C. 8,1 m2 Escritório - Arrumação 3,6 m2 Entrada 3,6 m2 Espaço exterior 20 m2 Circulação Devido à presença de um núcleo central, que corresponde ao vão de escadas, a circulação nesta habitação caracteriza-se pela sua verticalidade. O núcleo em questão intervém ainda na forma como se processa a circulação no interior do próprio piso, dado que é ele o meio de organização dos núcleos externos correspondentes aos espaços e divisões contidos no programa da casa. Ainda em relação à circulação vertical, estão pontualmente presentes algumas mudanças de cota com a variação de alguns degraus, não só entre zonas com uma função comum, como também entre divisões com funções diferenciadas de forma a demarcar um limite entre elas. Iluminação Pelo facto de o núcleo interno desta casa se comportar de forma independente, é percetível não só a presença de momentos em que existe ligação direta com as paredes exteriores, e aí existem janelas, como também existem outros momentos em que através de janelas interiores nas laterais, se faz a ligação entre diversas divisões e daí advém parte da iluminação. Esta relação entre espaços, e a forma como as aberturas estão posicionadas, faz com que estes momentos funcionem como filtros de luz, dado que a incidência é casual e em diversos layers. Fig.66. Fig.67. 70 Materialidade É neste ponto que se volta a perceber a clara diferenciação entre o volume externo da casa, e o volume que compreende os diversos núcleos centrais, particularmente através do uso de diferentes materiais e ainda diferentes cores. O revestimento interior e exterior do volume externo é totalmente branco, e o pavimento do mesmo, que corresponde ao pavimento do piso térreo, é em betão. Por outro lado, o volume interior é totalmente revestido, nas superfícies exteriores, por madeira, apesar de estas superfícies serem pintadas de branco por todo o seu interior, desde as suas paredes interiores, às escadas e ainda pavimento. De certa forma, encontra-se uma relação das duas partes do projeto, ou seja, entre os dois volumes que estabelecem os núcleos, dado que apesar das superfícies em contacto serem em contraste de madeira e reboco, ambos os interiores dos núcleos são brancos. Organização Tal como foi sendo abordado nos parâmetros anteriores, esta casa caracteriza-se pela presença de dois volumes base independentes. Um deles correspondente ao volume exterior, com uma base pentagonal, e o outro, formado por diferentes núcleos, organizados em relação a um núcleo central no qual se situa o vão de escadas. O piso térreo resulta da subtração do núcleo interior e acompanha os limites do volume exterior, este piso contêm as funções comuns da casa. Já os restantes pisos, vão tendo cotas e ângulos variados e as suas funções são também elas diversas, sendo que, de modo geral, compreendem o programa privado da casa. Uma particularidade é a existência de espaços interiores de cariz exterior, no caso varandas que permitem a observação dos restantes espaços, e que correspondem à utilização da cobertura de módulos onde estão contidos os quartos. Arrumação Fig.68. Fig.69. 71 Transição Os pontos de transição desta casa são marcados por dois fatores, por um lado a quebra das cotas entre pisos e meios pisos, recorrente como forma de delimitação das zonas, o que cria parte da dinâmica existente. Por outro lado, a utilização de paredes ou limites que marcam a transição entre espaços, que podem resultar, do posicionamento destas barreiras, em termos de ângulo, que fazem com que sejam ainda momentos de limitação de percurso. Acrescenta-se ainda o momento entre o interior e o exterior, singular pela utilização de uma porta com uma altura próxima da totalidade da altura interior, intensificando esta transição. Enquadramento Esta casa localiza-se num meio envolvido por habitações tradicionais, o que faz com que ela se destaque, não só pela sua forma irregular, como também pelo facto de ser um volume encerrado, com apenas aberturas pontuais de contacto com o exterior, e impõe-se ainda, pelo facto de ser um volume branco, como uma caixa. O facto dela se encerrar para o exterior e de assumir uma barreira clara entre a vivencia externa e interna, deve-se também pela proximidade em relação à estrada, que traz não só o inconveniente do trânsito, como ainda alguma quebra de privacidade. Relação com o Exterior Fig.70. Fig.71. Broadview Loft Localização: Toronto, Canadá Arquiteto: Studio AC Ano de Construção: 2017 Área Construída: 51 m 2 7 72 O Broadview Loft, foi projetado pelo Studio AC, com vista a se adequar à vida de um jovem, no centro da cidade de Toronto, no Canadá. Apesar de ter uma matriz ampla e livre, este projeto tem a particularidade de distinguir o quarto, através da integração de um volume branco, com a diferença de cota de um degrau, que funciona como meio de transição em relação à zona mais pública da casa. Aliado ao volume, existe ainda uma estrutura, na qual circula uma cortina, que atua como meio de transição, e permite regular a permeabilidade entre as divisões do quarto e closet em relação às restantes, o que possibilita uma organização programática parcialmente mutável pela sua adaptabilidade. Fig.72. Fig.73. 73 Áreas Área do lote 55 m2 Nº de pisos 1 Nº de habitantes 1 Nº de divisões 8 Cozinha 10 m2 Sala de estar 18 m2 Quarto 5,6 m2 Espaço ambíguo - W.C. 3,5 m2 Escritório - Arrumação 6 m2 Entrada 5 m2 Espaço exterior - Circulação Por se tratar de um apartamento com conceito open space , a circulação é feita de forma fluída, sendo, no entanto, segmentada pelo acesso aos diversos cómodos parcialmente encerrados, localizados na zona da casa imediatamente anexa ao espaço de entrada. Este fator proporciona percursos muito imediatos e fluídos conjugando ainda com as reduzidas dimensões e a proximidade entre todos os espaços. Da mesma forma que a sua fluidez e dimensões reduzidas possibilitam a percepção de um espaço amplo, através do encerramento ou mudança de posição da cortina existente na zona privada da habitação, existe a possibilidade de esta dinâmica se poder alterar consoante as necessidades do habitante, ao longo da extensão do apartamento. Iluminação No que diz respeito à iluminação natural desta habitação, é percetível uma gradação, derivada do facto de existir apenas um alçado com janelas para o exterior, o que se reflete na iluminação mais intensa nos espaços de sala e cozinha, locais estes anexos às janelas em questão, e a progressiva diminuição da iluminação à medida que se percorre a casa em direção à porta de entrada, na fachada oposta, e onde se encontram o quarto e o W.C., zonas estas localizadas na parte mais Fig.74. Fig.75. 74 interior da casa. A utilização da cortina advém em grande medida desta contigência, dado que acompanha parte da casa, e que mesmo encerrada, por motivos de privacidade, possibilita ainda a passagem da luz natural. Ainda assim, existe uma entrada extra da luz para estes espaços, posicionada na parte superior das paredes do quarto e que resulta do facto das paredes do módulo terem uma cota inferior à do teto do apartamento. Materialidade Organização Este apartamento, apesar de, como abordado anteriormente, ter um conceito open space, faz, ainda assim, uma clara separação entre as zonas comuns e as zonas mais privadas, dada a dimensão do projeto. Visto que este será habitado apenas por uma pessoa, estas questões são pouco relevantes, contudo é de referir que a recepção da casa, ou seja o momento de entrada, é onde se encontram essas mesmas zonas ditas privadas. De referir ainda que a sala e cozinha são os espaços mais amplos da casa e os outros espaços encontram-se consecutivamente organizados de forma delimitada. Apesar de todos os espaços estarem interligados fisicamente e visualmente, o quarto é, ainda assim, um módulo independente, e assume-se no contexto global da habitação. Arrumação Transição Esta habitação, tem como ponto fulcral, não só estético como funcional, a utilização de uma estrutura onde circula uma cortina, esta cortina permite que seja estabelecida uma dinâmica interna entre os diferentes espaços, uma vez que se vai adaptando às diversas necessidades, ao mesmo tempo que altera a noção de encerramento, no caso do quarto e closet, como se fizessem parte de um momento único e privado. Ainda no que diz respeito ao quarto, é de referir a forma como este se define, fazendo parte de um módulo individual que é integrado no conjunto do projeto, contudo com a variação de cota de um degrau, que estabelece o limite do mesmo e um momento de transição. Este móduFig.76. Fig.77. lo assume-se como uma caixa branca, em contraste com as restantes superfícies, mas em harmonia com a cor da cortina, o que sublinha a sua estreita relação. Enquadramento Relação com o Exterior 75 Block Village Localização: Kaohsiung City, Tailândia Arquiteto: HAO Design Ano de Construção: 2015 Área Construída: 68 m 2 8 76 Fruto de uma renovação, o Block village, realizado por HAO Design, localiza-se em Kaohsiung City, na Tailândia, quebra a monotonia do seu programa anterior, de um apartamento comum, para se tornar um apartamento loft dinâmico. A planta é divida entre a zona comum numa das laterais de apenas um piso, e na outra lateral está presente a zona privada que se divide em dois pisos. A simplicidade e funcionalidade aliam-se num projeto compacto e, apesar da simplicidade dos materiais, é pontuado por uma tonalidade verde que complementa todo o espaço. Fig.78. Fig.79. 77 Áreas Área do lote 40 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 3 Nº de divisões 9 Cozinha 11,9 m2 Sala de estar 14,7 m2 Quarto 16,6 m2 Espaço ambíguo - W.C. 5,2 m2 Escritório 5,2 m2 Arrumação 5,6 m2 Entrada 1,8 m2 Espaço exterior 5,4 m2 Circulação Existem nesta habitação dois núcleos de percurso complementares, um no piso intermédio, no qual estão localizadas as zonas comuns da casa, e onde a circulação se processa com maior fluidez, e o outro núcleo, inserido nos restantes dois pisos, no qual a circulação se faz de forma transversal ao piso intermédio, com acessos verticais, com maior amplitude. No caso do piso intermédio e do piso inferior, pelo seu carácter ambíguo, existe um percurso amplo, delimitado consecutivamente pelas zonas destinadas aos cómodos da casa. No piso superior, o percurso é restringido por dois núcleos, um em cada extremidade, o quarto e o closet, que estão ligados por uma ponte, criando assim um circuito linear menos abrangente. Iluminação Esta casa contém diversas janelas colocadas pontualmente em posições diversas dos alçados e com dimensões também elas diversas, em todas as divisões, que contribuem para uma iluminação substancial de toda a extensão do projeto. Estas janelas localizam-se em especial no alçado anexo às zonas de uso mais privado, no caso os quartos e W.C., e no alçado correspondente ao espaço da cozinha, inclusive com a adição Fig.80. Fig.81. Duplex Batataes Localização: São Paulo, Brazil Arquiteto: Atelier Branco Arquitetura Ano de Construção: 2016 Área Construída: 60 m 2 10 Fig.91. Fig.92. 84 Este apartamento, localizado em São Paulo, Brasil, foi projetado pelo Atelier Branco Arquitetura, a partir de um apartamento base sem qualquer infraestrutura preexistente. A partir dessa base foi criado um segundo piso onde foram colocadas as zonas privadas da habitação, tem como acesso um vão de escadas que acompanha todo o apartamento, e que constitui não só um meio de circulação e interação, como tem ainda arrumação nos interstícios dos degraus. Outra particularidade deste apartamento é a simplicidade da cor branca que acompanha todas as superfícies do projeto, incluindo o mobiliário fixo, com a diferença no tipo de material, esta característica confere um ambiente mais iluminado e coeso a todo o projeto. Fig.93. Fig.94. 85 Áreas Área do lote 35 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 2 Nº de divisões 8 Cozinha 16,6 m2 Sala de estar 7,5 m2 Quarto 11,3 m2 Espaço ambíguo - W.C. 6,5 m2 Escritório 3,8 m2 Arrumação 3,1 m2 Entrada - Espaço exterior - Circulação A circulação, neste caso, processa-se na relação estabelecida entre os dois pisos do projeto, esta estará maioritariamente relacionada com as escadas, dadas as suas dimensões, e a forma como elas, articulam todo o espaço interior. Devido a este facto, o percurso torna-se maioritáriamente concêntrico, sendo o quarto o núcleo central, tendo em conta o circuito desde o piso inferior. Esta casa possui diversos recantos correspondentes a algumas divisões da mesma, o que resulta em alguns pontos de contacto com o percurso principal, com diversas direções. Apesar de interferências na sequência de percurso, estes estão visualmente correlacionados com os restantes. Iluminação Este apartamento possui apenas um alçado onde existem janelas, derivado da organização do conjunto total do edifício em que está integrado. Apesar disso, esse não será, à partida, um problema, dado que toda a solução é bem iluminada pelo facto de todos os cómodos em contacto com o alçado terem janelas grandes, e também por estes espaços estarem interligados visualmente. O facto de este ser um espaço de dimensões reduzidas torna-se também uma vantagem dado que pela Fig.95. Fig.96. 86 sua abertura, permite uma melhor circulação da iluminação existente. Para além disso, de forma a que a luz natural fosse rentabilizada, é importante realçar que todos os revestimentos são brancos, o que promove a reflexão da luz existente, propagando-se de forma mais eficiente aos restantes espaços. Materialidade Indo ao encontro do que foi já abordado no parâmetro anterior, um fator que se revela caracterizador desta habitação é a cor, e por cor entenda-se, o branco em particular. A forma como todas as superfícies são revestidas a branco, é não só, como referido, um fator importante para a propagação eficiente da iluminação natural, como confere ao espaço um carácter mais contemporâneo e minimalista. Apesar do fator da cor ser transversal a todas as superfícies, por outro lado é de notar a diferença de materiais existentes, desde os elementos cerâmicos que cobrem a superfície da ilha da cozinha, à madeira que reveste não só as escadas como também os pavimentos, e ainda o material semi opaco que dá lugar a duas das paredes do quarto, com a intensão de permitir uma passagem de luz controlada. Organização Arrumação Com o intuito de conferir uma maior utilidade ao espaço disponível, e de modo a rentabilizar a área existente, foi integrado neste projeto um sistema de arrumação, que utiliza diversas superfícies, incluindo os degraus das escadas, como espaço de organização e arrumação, espaços estes à partida sem utilidade, e que servem, deste modo, o propósito de arrumação de objetos dos seus proprietários. A forma como a arrumação é integrada no projeto, não só contribui funcionalmente para o habitar desta casa, uma vez que amplia a capacidade física de comportar um maior número de objetos pessoais, ou utilitários, como ainda se integra de forma harmoniosa na estética do conjunto e do conceito. Fig.97. Transição Ao longo do projeto, é de realçar a interdependência entre os espaços, esta relação advém não só da sua proximidade, como também da forma como eles estão maioritariamente conectados visualmente. Neste espaço existe uma clara dependência da escada como meio conector, e que vai acompanhando todo o projeto, sendo o meio de transição não só entre pisos, como entre espaços intermédios. Ela conecta o piso das zonas privadas ao das divisões comuns da casa, e é ainda de referir que no piso superior existe uma quebra, que resulta numa clara transição entre o que é o espaço de W.C. em relação ao quarto que se encontra ligeiramente mais elevado. Enquadramento Relação com o Exterior 87 Ant House Localização: Shizuoka, Japão Arquiteto: mA-style Architects Ano de Construção: 2012 Área Construída: 123 m 2 11 Fig.98. Fig.99. 88 A Ant House, projetada por mA-style Architects em Shizuoka, Japão, foi concebida de forma a conciliar dois caráteres opostos, pelo exterior, esta habitação impõem-se como uma caixa preta, apenas pontuada por uma porta escura robusta no alçado principal, e nos restantes alçados vão surgindo pequenos vãos que possibilitam a entrada de luz no interior. Em oposição, o interior funciona como um novo núcleo, uma casa dentro da própria casa, que contém materiais e revestimentos de cores claras e diversas aberturas que vão acompanhando todas as divisões, permitindo a visibilidade interna por todo o projeto. Fig.100. Fig.101. 89 Áreas Área do lote 241,13 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 5 Nº de divisões 9 Cozinha 16,4 m2 Sala de estar 20,8 m2 Quarto 36,1 m2 Espaço ambíguo 15,9 m2 W.C. 9,5 m2 Escritório 4,8 m2 Arrumação 2,9 m2 Entrada 8,9 m2 Espaço exterior - Circulação Em função do seu núcleo, esta habitação possui duas variações na circulação, dependendo do piso em causa. No piso inferior, como consequência de ter o seu núcleo encerrado, e com funções determinadas e fixas, a circulação realiza-se no espaço envolvente, sobrante, na forma de um percurso circular. Já no piso superior, a situação inverte-se, dado que o programa se encontra nas partes laterais, com um núcleo aberto e ambíguo, a circulação faz-se através desse mesmo núcleo central. O acesso entre os dois pisos é realizado através de escadas anexas lateralmente em relação ao núcleo. Iluminação Neste projeto a luz é limitada por inúmeros layers, o que resulta numa iluminação diferenciada nas diversas partes da habitação. Por um lado, e apesar da reduzida quantidade de janelas, e da sua também limitada dimensão, o volume exterior ao núcleo é o espaço que recebe uma maior iluminação, apesar de, já por si, ténue. O núcleo central, em particular no piso superior, possui a particularidade de ter filtros a luz, através de aberturas que não são coincidentes com as exteriores, resultando numa iluminação casual. Materialidade Fig.102. Fig.103. Fig.104. 90 Organização Este caso de estudo é fundamentalmente caracterizado pelo facto da sua organização interior ter uma configuração particular, que influência diretamente todas as restantes componentes da casa. Esta habitação divide-se em duas camadas, ambas interiores, uma externa, correspondente aos espaços anexos aos alçados, com a forma de um paralelepípedo, com poucas aberturas para o exterior, e uma outra com uma forma associada à imagem de casa, um paralelepípedo com um prisma triangular no topo. Esta organização resulta num núcleo limitado pela camada interior, que por um lado no piso inferior é fechado, uma vez que contém programação fixa, e no piso superior é aberto, dando lugar a um espaço ambíguo e amplo. Arrumação Transição Neste projeto, a transição entre espaços processa-se de duas formas, por um lado, através do recurso às escadas, que permitem não só o acesso entre o piso inferior e o superior, como formulam ainda, no caso do piso superior, pequenas variações de cota entre as duas partes, utilizando três degraus de diferença entre os dois níveis. Por outro lado, encontra-se ainda presente outro meio transitivo nesta casa, que estará, de certa forma, aliado à questão anterior, o facto de o núcleo não ser totalmente encerrado, o que, em função das suas diversas aberturas, contribui para uma relação pontual entre os espaços, que constitui uma barreira parcial, apesar da sua ligação física e visual. Enquadramento Pelo exterior esta casa assume-se como um bloco negro, com uma estereotomia de composição vertical, e totalmente encerrada nos alçados expostos ao panorama da rua e da sua envolvente, encontrando apenas a excessão da porta de entrada, que se posiciona de forma central no nível inferior da fachada. Como tal, tendo em conta a sua singularidade em função das casas que constituem a envolvente, esta afirma-se no seu contexto, que compreende a sua forma, cor e ainda composição. 91 A ligação com o exterior estabelece-se somente no espaço exterior privado, na parte traseira da habitação, dada a pequena quantidade de aberturas para o exterior, o que prolonga e reforça a intimidade da casa, inclusive em relação ao seu contexto. Relação com o Exterior House in Nada Localização: Nada, Japão Arquiteto: FujiwaraMuro Architects Ano de Construção: 2012 Área Construída: 63,3 m 2 12 Fig.105. Fig.106. 92 Projetada de forma a ser integrada num lote com o constrangimento de ser bastante estreito, a House in Nada, projetada por Fujiwara Architects, localizada na zona residencial de Nada, Japão, formaliza-se através de um volume longitudinal com quatro pisos, para conseguir responder às exigências programáticas do cliente. De forma a resultar num volume menos rígido e menos claustrofóbico, a casa vai sendo pontuada por diversas aberturas e interstícios, que dinamizam o espaço ao mesmo tempo que auxiliam na entrada de luz por todo o projeto. Fig.107. Fig.108. 93 Áreas Área do lote 37 m2 Nº de pisos 4 Nº de habitantes 4 Nº de divisões 8 Cozinha 9,2 m2 Sala de estar 6,7 m2 Quarto 11,3 m2 Espaço ambíguo - W.C. 5,8 m2 Escritório - Arrumação 6,2 m2 Entrada 2,8 m2 Espaço exterior 7,4 m2 Circulação O percurso interno desta habitação processa-se em torno de um núcleo posicionado no centro do projeto, que vai sendo marcado por diversas variações de cota ao longo dos diversos pisos, o que é percetível não só ao nível dos meios pisos, como ao nível do que corresponde aos pisos principais. Existem diversas quebras espaciais ao longo do programa, que conjugam tanto a circulação horizontal, como a circulação vertical, a última de forma mais evidente dada a área cúbica desta habitação. Iluminação O núcleo central da casa é o espaço que compreende o meio de iluminação mais significativo desta habitação. Apesar das aberturas existentes nos planos verticais, por sinal reduzidas, é através da clarabóia coincidente com o núcleo que se obtém a iluminação natural principal, numa escala superior em relação às restantes. Dada a organização espacial deste projeto e visto ser este composto por diversos pisos, a luz circula através do espaço do núcleo, este espaço direciona a luz através dos pisos propositadamente amplos, apesar disso resultar numa intensidade inferior e mais ténue no programa lateral ao mesmo. Azuma House Localização: Sumiyoshi, Japão Arquiteto: Tadao Ando Ano de Construção: 1976 Área Construída: 66 m 2 14 100 A Azuma House é um projeto icónico realizado pelo arquiteto Tadao Ando, em Sumiyoshi, na “cidade baixa” de Osaka, no Japão. Este é um projeto que se destaca na envolvente, pela sua pureza em relação ao alçado, pela sua materialidade, e também pela forma. A composição deste projeto pode ser interpretada de duas formas distintas, por um lado o seu alçado é formalizado por dois retângulos, um da forma geral do alçado e outro da porta, que está posicionada de forma central no plano da rua, por outro lado, em planta, ele divide-se em três partes, que intercalam o cariz de interior e de exterior, com o pátio no centro. Todo o projeto reflete a privacidade e isolamento em relação à cidade. Fig.120. Fig.121. 101 Áreas Área do lote 57 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 2 Nº de divisões 6 Cozinha 9 m2 Sala de estar 12,8 m2 Quarto 27,5 m2 Espaço ambíguo - W.C. 4,6 m2 Escritório - Arrumação - Entrada 1,3 m2 Espaço exterior 11,1 m2 Circulação A circulação é o ponto de destaque desta habitação, devido ao facto da sua organização se desenvolver em função dela e das suas dinâmicas, se organizarem em função desta. Assim, enaltecem-se duas características nesta circulação, em primeiro o facto de esta se encontrar posicionada no núcleo central da casa e o foco ser, nomeadamente, esse núcleo. Por outro lado, o facto de os percursos serem totalmente exteriores. As funções interiores dependem significantemente desta relação próxima com o exterior, uma vez que a sua dinâmica decorre justamente dela, é através dela que a casa se desenvolve. De referir que este espaço exterior acolhe não só a circulação de forma horizontal, como também vertical, através das escadas posicionadas no centro. Iluminação Esta casa encerra-se totalmente para o exterior, não existindo uma única janela ou abertura em nenhum dos seus alçados exteriores, apesar disso, é totalmente aberta para o seu núcleo exterior, que representa uma parte significativa deste projeto. Este facto representa uma estreita ligação com a arquitetura tradicional japonesa e que se formaliza na Fig.122. Fig.123. 102 intimidade que esta casa tem. A luz natural encontra-se presente através das grandes janelas e portas de vidro que se voltam para o exterior correspondente ao núcleo, e que dão permeabilidade entre o interior e exterior e ainda entre as duas partes interiores do projeto. Materialidade A simplicidade e o encerramento para o exterior são reforçados pela sua materialidade, o betão, que reveste todas as superfícies verticais, quer interiores como exteriores, apesar da sua diferente linguagem compositiva. Ele é colocado com a cofragem quadrangular aparente nas paredes, tanto no interior como no exterior. Já as superfícies de pavimento têm ainda casos com betão, mas são diversas, sendo de referir a madeira nos cómodos interiores. Organização Esta casa é composta por três partes, dois núcleos com funções interiores, que se localizam nas suas extremidades do terreno e que comportam todas as divisões privadas e comuns da habitação, e no centro um núcleo exterior, que serve de mediador entre o interior e exterior e no qual estão os acessos entre os módulos interiores. A composição geral desta habitação tanto ao nível da planta, como ao nível de alçados baseia-se na simetria axial simétrica, o que é percetível inclusive na posição do padrão do betão, posicionamento da porta de entrada, exatamente ao centro do alçado, e ainda a correspondência exata de módulos em altura, também do alçado. Arrumação Transição A transição é composta por momentos de passagem entre o interior e o exterior, o que acontece com regularidade, pela separação dos módulos interiores. A relação entre as partes da casa funciona de forma fluída, com uma dinâmica natural própria do projeto. Fig.124. Fig.125. Fig.126. 103 São ainda afirmados, a partir do vidro nos alçados do núcleo, os momentos de transição, pela permeabilidade entre os espaços. Enquadramento Esta casa é interpretada no panorama da rua como um volume de betão, e pelo seu encerramento e imponência, pode ser inclusive interpretada como um elemento escultório, até mesmo pelo seu material, que é por si só um elemento cru e rude. A sua implantação no limite com a rua, apesar de resultar de um constrangimento, para aproveitamento da totalidade do lote, traduz-se num enquadramento homogéneo, em função das casas próximas, também elas, em contacto direto com a rua. Relação com o Exterior Como forma de interligação com o exterior, afirma-se o pátio exterior, já abordado anteriormente, que é por si só um elemento imprescindível neste conjunto, é ainda a única forma de conexão interna, com relação direta com o exterior, de forma interdependente, à exceção da porta de entrada, de ligação com a rua. Este espaço define toda a organização da casa, pode ser interpretado de variadas formas e a sua utilização possibilita ainda várias dinâmicas e usos. Apesar de exterior, este pátio é totalmente revestido a betão, tanto nas paredes como no pavimento, o que impossibilita a existência de vegetação, à exceção de vasos, que encontramos presentes em algumas das imagens encontradas. Fig.127. Fig.128. House & Garden Localização: Tóquio, Japão Arquiteto: Ryue nishigawa Ano de Construção: 2011 Área Construída: 66 m 2 15 Fig.130. 104 Localizada no distrito comercial de Tóquio, Japão, e projetada pelo arquiteto Ryue nishigawa, esta casa é composta por uma série de níveis de betão que se sobrepõem e que vão, a cada piso, tendo uma configuração diferenciada, que não só vai contendo o programa da casa, como ainda espaço de jardim a cada nível. Este jardim apropria-se das zonas não ocupadas pelas divisões da casa, muitas vezes sem barreiras percetíveis, dado que muitas das transições entre o exterior e o interior são, ou grandes janelas de vidro, ou cortinas, diretamente em ligação com o exterior. Este edifício possui dois propósitos, por um lado a função de casa, e por outro, ser o escritório das duas proprietárias, escritoras. Fig.129. Fig.131. Fig.132. 105 Áreas Área do lote 32 m2 Nº de pisos 4 Nº de habitantes 2 Nº de divisões 8 Cozinha 9,1 m2 Sala de estar 7,9 m2 Quarto 5,5 m2 Espaço ambíguo - W.C. 4 m2 Escritório 4 m2 Arrumação - Entrada - Espaço exterior 33,8 m2 Circulação Se por um lado existe uma circulação maioritariamente vertical, dada a escala do projeto e a forma como a altura é utilizada para dividir as diversas partes do projeto, é ainda assim importante referir a forma como o habitante poderá circular entre o interior e o exterior, de forma homogénea e complementar. Todo o projeto vai sendo marcado por diversas quebras, que acrescentam uma dinâmica particular a cada momento da experiência de circulação, e que são passíveis de mutação, por serem sistemas amovíveis. Iluminação No que diz respeito à iluminação natural do projeto, é interessante perceber a forma como ela o atravessa. Este projeto não tem paredes opacas em relação ao exterior, e não só as superfícies existententes são translucidas, como ainda, no caso das cortinas, removíveis, e, portanto, a luz circula lateralmente sem interrupções visuais, à exceção dos edifícios imediatamente anexos às laterais. Para além disso, apesar da existência dessas barreiras, existe em compensação uma secção circular que acompanha alguns dos pisos, e que permite que a luz circule também verticalmente através dela. Materialidade Fig.133. Fig.134. Fig.135. 106 Organização A forma pela qual este projeto é organizado, é a reflexão do que são os espaços sobrantes de quatro intervenientes no mesmo, por um lado a forma do lote, onde o mesmo se inscreve, que se traduz numa forma base retangular, por outro lado o núcleo resultante do vão de escadas, que provoca uma secção nesse espaço, outro interveniente são os pilares estruturais que se afirmam no contexto estético, e por último os espaços resultantes do que é o espaço exterior, ou interior e que têm todos formas singulares. Arrumação Transição Esta casa, ao contrário das restantes habitações, utiliza os meios de transição não só como forma de diferenciar os momentos e espaços interiores, mas, neste caso em particular, como marcação entre o contexto interior e exterior. São diversas as formas pelas quais se estabelecem estes meios, entre eles, momentos de transição com o recurso a uma portada de vidro, a variação de textura/material, a variação de cotas, e ainda o uso da cortina que geralmente associa o espaço exterior que é privado e ao que é publico, numa estreita relação que é estabelecida com a rua. Enquadramento Este edifício estabelece uma relação clara de contraste com a sua envolvente, dada a sua localização ser numa zona central e movimentada da cidade. Tem como meio de envolvência edifícios de escritório com uma formulação estética à base de vidro e betão, que compreendem métricas regulares e que passam para a imagem da rua uma componente muito regular. No entanto, ao contrastar estes casos com a House & Garden, existem diversos pontos de confronto, pois, para além da visibilidade da sua planta dinâmica e orgânica, totalmente oposta aos casos envolventes, de base regular, as fachadas indefinidas e a sua componente vegetal fazem com que esta casa adquira um grande destaque no seu contexto. Fig.136. 107 Relação com o Exterior Neste ponto é importante realçar a relação existente com o exterior, que é não só a forma como a própria casa interage com este, como também a forma como a rua estabelece também ela uma relação com o mesmo. Não obstante de esta casa ser realmente um espaço privado, é, apesar de tudo, um jardim no meio da cidade, e as dinâmicas que se criam em torno desta são relevantes. No que diz respeito à casa em particular, não só essa relação é constante, como o próprio programa é dependente destes espaços exteriores, a dinâmica interna depende disso mesmo, e as funções interiores e exteriores são muitas vezes complementares. Belly House Localização: Kyoto, Japão Arquiteto: Tomohiro Hata Architect Ano de Construção: 2010 Área Construída: 123,5 m 2 16 Fig.137. Fig.138. 108 Esta casa, construída em Kyoto, no Japão, foi projetada pelo arquiteto Tomohiro Hata. Devido a diversas leis que regimentam as construções na zona em questão, o arquiteto optou por seccionar a casa em dois volumes diferentes, por um lado, o exterior, que preenche todos os requisitos obrigatórios pela legislação local, incluindo a cor, materiais e volumetria, enquanto por outro lado, no interior, se encontra um volume de madeira independente, com três pisos, localizado no centro do projeto, que organiza todo o espaço, conferindo uma forma livre às dinâmicas internas, funcionando como núcleo principal do projeto. Fig.139. Fig.140. 109 Áreas Área do lote 43,2 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 3 Nº de divisões 12 Cozinha 7,5 m2 Sala de estar 11,5 m2 Quarto 14,3 m2 Espaço ambíguo 6,4 m2 W.C. 5,8 m2 Escritório 6,4 m2 Arrumação 1,1 m2 Entrada 1,5 m2 Espaço exterior 5,9 m2 Circulação Tendo em consideração a forte presença de um núcleo preenchido, são percetíveis duas variações no carácter de circulação desta casa. Por um lado, apenas é possível atravessar o núcleo no piso inferior num sentido transversal, por este ter acesso entre as duas laterais. Ao contrário do piso inferior, nos restantes o núcleo é por si só uma divisão, e por isso em termos de circulação não é um interveniente direto. Por outro lado, a forma como o acesso entre os três pisos e os espaços integrantes é realizado, de forma circundante em relação ao mesmo núcleo, através das escadas presentes nas duas laterais do projeto. Iluminação Materialidade Observando o interior do projeto, percebe-se um paralelismo claro entre duas realidades em termos de utilização de cor e de materialidade. Por um lado o tom branco, que reveste as superfícies exteriores ao núcleo, e por outro lado a forma como o núcleo se afirma como volume individual, não só pela sua forma geométrica compacta, mas especialmente por ser um objeto revestido totalmente a madeira, o que permite um realce quanto ao seu módulo no contexto da habitação, e uma perceção da sua espacialidade. Yojigen Poketto Localização: Madrid, Espanha Arquiteto: Elii Ano de Construção: 2017 Área Construída: 33,6 m 2 18 Fig.151. Fig.152. 116 A casa Yojigen Poketto, projetada por Elii, arquitetos, foi fruto da reabilitação de um apartamento em Madrid, Espanha. Recorrendo a uma estrutura em formato de “L”, os arquitetos potenciaram não só espaços de arrumação na maioria dos intresticios e superficíes, como ainda permitiram a divisão do apartamento em dois níveis, fazendo desta diferenciação de cotas um meio de transição entre espaços, dividindo assim o espaço com funções privadas de quarto e W.C., dos restantes elementos de apropriação comum. Este projeto tem na arrumação o principal conceito, e é através dela que todo o apartamento se desenvolve. Fig.153. Fig.154. 117 Áreas Área do lote 33,6 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 2 Nº de divisões 5 Cozinha 9,6 m2 Sala de estar 5,8 m2 Quarto 4,5 m2 Espaço ambíguo - W.C. 2,4 m2 Escritório - Arrumação 2,7 m2 Entrada 1,6 m2 Espaço exterior 1,6 m2 Circulação A circulação é algo difícil de consolidar neste caso em particular, dada a reduzida dimensão desta habitação. A sua reduzida área é ainda aliada à forma circunscrita, que impossibilita, à partida, uma amplitude significativa de circuitos internos. É percetível que a dinâmica dos percursos se desenvolve em torno das duas zonas, a privada e a comum, que coexistem num espaço sem barreiras visuais, mas que encontra através das escadas entre os espaços, a transição e a dinâmica do percurso. Iluminação Materialidade Organização O espaço correspondente a este apartamento consiste num módulo com uma planta em “L”, que através da variação de cota com a variação de um pequeno número de degraus, estabelece uma dinamização espacial entre o quarto e W.C., em relação ao espaço de refeições, cozinha e sala de estar. Em função da disposição do edifício base, onde este apartamento se insere, é de percecionar a vantagem que existe ao nível da sua organiza- Fig.155. Fig.156. 118 ção, promovida pelo facto de este se localizar num momento onde são possibilitados dois alçados com janelas para o exterior. Arrumação Todo o projeto é desenvolvido em torno do fator da arrumação, dado que um dos pontos fulcrais desta habitação é a consolidação de módulos de arrumação suficientes para a agregação de todos os bens materiais dos seus habitantes. Neste caso foram pensados módulos que se integram ao longo de todas as superfícies, não só verticais como horizontais e tanto através de módulos de portas, como em módulos de gavetão. Todos estes elementos são complementados pela sua cor verde, característica esta homogénea por todo o apartamento, e que complementa o conceito destes elementos. Transição Como foi sendo introduzido anteriormente, este projeto divide-se em duas cotas distintas, cotas estas que se interligam através de quatro degraus, que são o suficiente para limitar as duas zonas, o espaço privado e o espaço comum. Esta transição é visível, mas integrada não só no método de módulos de arrumação, como é interpretada de forma útil na continuação para o móvel do balcão da cozinha. O facto de ser um espaço único, é favorecido ainda pela forma em “L” que permite acentuar o momento de transição para o espaço do quarto. Enquadramento Relação com o Exterior 119 Tiny Madrid Apartment Localização: Madrid, Espanha Arquiteto: MYCC Ano de Construção: 2012 Área Construída: 21 m 2 19 Fig.157. Fig.158. 120 Situado em Madrid, Espanha, o Tiny Madrid Apartment, projetado por MYCC em 2012, tem apenas 21 metros quadrados. Apesar da sua área ser limitada ao nível dos metros quadrados disponiveis à partida, foi determinante a exploração dos seus metros cúbicos, no caso 100, o que permite que este pequeno apartamento seja dividido em vários níveis, em plataformas distintas e com funções diversas, tirando o máximo partido do espaço existente e possibilitando uma dinâmica interna fluída e completa. 121 Áreas Área do lote 24,5 m2 Nº de pisos 4 Nº de habitantes 1 Nº de divisões 6 Cozinha 2,9 m2 Sala de estar 4,7 m2 Quarto 4,1 m2 Espaço ambíguo - W.C. 3,5 m2 Escritório 4 m2 Arrumação - Entrada 1,8 m2 Espaço exterior - Circulação A parte essencial deste projeto incide em particular no sistema de circulação que coliga os diversos níveis de cota existentes. Este sistema consiste num modelo estabelecido através de escadas que, não só são formalizadas por degraus, como num dos casos, por um sistema de escadote de acesso ao nível superior. Pela reduzida dimensão dos níveis dos pisos, estes acabam por ser parte integrante do próprio sistema de circulação. A circulação, apesar de ser circunscrita a este espaço reduzido, é ainda assim dinâmica, pela amplitude que esta possui ao nível do percurso. Iluminação Complementando a componente relativa à verticalidade deste projeto, é através da iluminação que esta é reforçada. Esta, estabelecida através de uma clarabóia numa das extremidades da casa, consiste no único ponto de iluminação natural existente, e que se mostra relativamente suficiente dadas as dimensões deste caso. Esta iluminação incide de forma mais intensa, naturalmente, na lateral onde se insere, contudo no contexto geral, propaga-se especialmente no espaço de circulação que apesar de disperso, é contido no núcleo central da habitação. Fig.159. Fig.160. 122 Materialidade Nesta habitação é imediatamente percetível a predominância de superfícies brancas, que cobrem todo o espaço. Os elementos coloridos, encontram-se apenas localizados nos objetos decorativos e, por isso, não são relevantes para esta análise. Apesar da cor branca, ser transversal a todos os elementos, é de referir que, ainda assim, existe variação no tipo de material utilizado dependente do espaço em causa. Organização Neste caso, o projeto desenvolve-se em quatro níveis com cotas distintas, que tomam partido da dimensão de área cúbica, de forma a aproveitar da melhor forma esta condição de proporção. Sendo assim, os níveis acondicionam diversas funções, sendo que cada um com uma função única, à exceção do piso inferior, em que apesar de separados espacialmente, e o acesso entre os mesmos ser distinta, partilham a mesma cota, no caso o W.C. e o quarto. Todos os níveis são conectados por escadas, como abordado no parâmetro da circulação, estas de diversos formatos e dimensões. Arrumação Dada a pequena dimensão deste projeto, a necessidade de arrumação exigia uma solução com maior eficiência, de forma a não utilizar espaços úteis, sendo assim, foram utilizados os espaços inutilizáveis funcionalmente, com a integração de um nicho de arrumação por baixo das escadas do piso intermédio e do seu patamar correspondente. Transição A transição processa-se sem o recurso a barreiras visuais, o que possibilita uma perceção de maior amplitude dimensional neste projeto. De forma a permitir não só um meio de estabelecer os limites dos compartimentos, como ainda estabelecer a sua conexão, existem então diversos pontos de escadas, que participam nessa ralação entre pisos e níveis. Fig.161. Fig.162. Fig.163. 123 A transição é ainda pontuada pelas diversas peças de mobiliário que delimitam os espaços em questão. Enquadramento Relação com o Exterior < Fig.164. Love House Localização: Yokohama, Japão Arquiteto: Takeshi Hosaka Ano de Construção: 2005 Área Construída: 38 m 2 20 124 Com um lote de apenas 33 m2, esta habitação, Love House, projetada pelo arquiteto Takeshi Hosaka, situada em Yokohama no Japão, ocupa na totalidade o espaço do lote. Apesar disso, ao observar a habitação, percebemos que, na realidade, ela se divide homogeneamente para lá do alçado, entre o cariz interior e o exterior, através de um recorte na cobertura que formaliza e define a sua organização. A transição entre os dois espaços não é rígida e coexistem harmoniosamente, não existindo um que se imponha em relação ao outro. Esta casa vive disso mesmo, da simplicidade das pequenas coisas da vida presentes na Natureza e da interação constante do habitante com ela. Fig.165. Fig.166. 125 Áreas Área do lote 33 m2 Nº de pisos 2 Nº de habitantes 2 Nº de divisões 8 Cozinha 3,5 m2 Sala de estar 6,9 m2 Quarto 4,3 m2 Espaço ambíguo - W.C. 4,4 m2 Escritório - Arrumação 4,6 m2 Entrada 1,4 m2 Espaço exterior 12,4 m2 Circulação Este caso integra, através do exterior, a circulação entre os dois pisos, fator que intercede como parte integrante do projeto. A forma como se estabelece esta relação afirma não só a proximidade com a componente natural, como a diferença clara entre o piso com as funções privadas e o piso com as de carácter comum. A escada em questão possui a particularidade de estabelecer uma diagonal clara desde o momento de entrada da habitação, até ao canto imediatamente oposto ao alçado concorrente. A sua forma estabelece uma geometria curva, acompanhada na lateral oposta à habitação em si, por vegetação. Iluminação Este caso é encerrado na totalidade para o exterior, atribuindo um carácter de intimidade reforçado. Apesar disso, em relação à iluminação, em particular a natural, esta é feita através do pátio exterior, que é caracterizado pelo recorte que tem, através de uma curva na cobertura, que acompanha as escadas integradas no projeto. O piso inferior tem duas janelas para o dito pátio, enquanto o piso superior tem portadas de vidro que permitem não só a passagem de luz, como ainda a total abertura de forma a existir permeabilidade entre Fig.167. Fig.168. 132 Entre núcleos laterais No caso da Imai (2), Compact Krast House (5), Block Village (8), All I Own House (9) e House in Nada (12), a circulação estabelece-se entre dois núcleos paralelos, o que se traduz em pontos de circulação transversais aos mesmos, nos casos (8) e (9) e com a possibilidade de se criarem percursos fluídos, como nos casos (2), (5) e (12). Em escada Neste tipo de circulação é possível observar que a mesma se processa acompanhando algum tipo de escada que segue ao mesmo tempo a própria organização da casa, tais como a Reslope House (4), Tiny Madrid Apartment (19), e a Love House (20) onde a escada entre os dois pisos é exterior. Circulação 1 2 4 5 6 7 89 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 133 Iluminação Quanto à Iluminação são percetíveis cinco modelos, que estabelecem diferentes abordagens quanto à apropriação e aproveitamento da luz, e que, por conseguinte, se traduzem em ambientes diversos dentro das respetivas habitações. Como descrito anteriormente, neste parâmetro serão tidas em consideração apenas as fontes de luz natural. Totalmente aberto ao exterior Dentro do grupo de casos de estudo analisados foi encontrado apenas um caso onde existia uma permeabilidade total para com o espaço exterior, no caso, a House & Garden (15), na qual o programa interior e exterior coexistem numa linha ténue no que é a sua definição, até porque em vez de paredes, a casa é definida por elementos de vidro, e portanto a luz circula de forma livre. Um alçado aberto ao exterior Nos casos do Gorki (3), Broadview Loft (7), Duplex Batataes (10), motivado pelo facto de serem apartamentos, a sua relação com o exterior, é apenas estabelecida por um dos alçados, o que faz com que estes apartamentos sejam, à partida, organizados de forma a que as fontes de luz sejam otimizadas. Dois ou mais alçados abertos ao exterior Quando analisamos os casos Reslope House (4), Block Village (8), Wengawa House (13), falamos de uma realidade diferente, uma vez que existem diversos alçados com pontos de entrada de luz, o que favorece a dispersão de programa no interior da casa. Iluminação zenital Quanto à iluminação zenital, podemos encontrá-la representada nos seguintes casos, Light Walls House (1), House in Nada (12), Azuma House (14), Tiny Madrid Apartment (19), Love House (20), todos eles com poucas ou nenhuma entrada de luz nos alçados, o que permite um maior encerramento para o exterior. 135 Iluminação pontual Nos casos Imai (2), Compact Krast House (5), House in Fukawa (6), Ant House (11), decidimos caracteriza-los como modelos de iluminação pontual, uma vez que as entradas de luz são posicionadas, como o nome indica, de forma pontual, e também com dimensões díspares. 136 Iluminação 1 2 3 4 56 8 10 11 12 13 14 15 16 19 20 137 Materialidade Neste parâmetro referente à Materialidade, foram identificados três tipos de materialidade que se afirmam nos projetos, e que, nesta fase de comparação, se repartiram por seis modelos, apesar de em termos práticos serem apenas três materiais, mas que em alguns casos se agrupam, o que influencia toda a estética dos espaços. Betão A Azuma House (14) é um incontornável caso de utilização do betão na totalidade das superfícies do projeto, e neste grupo de casos de estudo, é de facto o único no qual tal se verifica. A aplicação do material é transversal ao interior e ao exterior, o que, desta forma, acaba por resultar num prolongamento dos espaços e da sua inter-relação. Branco Apesar de o Branco não representar um material propriamente dito, este representa, nesta análise, a utilização da própria cor na totalidade das superfícies presentes nestas habitações, independentemente do material em si. Neste caso, podemos então associar o branco ao Duplex Batataes (10) e ao Tiny Madrid Apartment (19). Madeira Já no caso da House in Komozawa (17), o material transversal a todas as superfícies é a madeira, que confere a todo o ambiente da casa um cariz muito próprio, e que apesar de ser um único material, é utilizado de formas diversas e com intenções diferentes, como é o caso das escadas e da grelha do piso superior. Betão e Madeira Na Compact Krast House (5) existe um sentido de contraste entre a madeira e o betão, dado que a madeira acompanha as superfícies do núcleo, em relação ao betão que reveste toda a parte externa a este, incluindo o exterior da casa. 139 Branco e Madeira Ainda com uma componente de contraste, neste caso mais ao nível tonal, nas casas Light Walls House (1), Reslope House (4), House in Fukawa (6), All I Own House (9), e Belly House (16), existe a utilização do tom branco e da madeira, sempre com a intenção de realçar momentos específicos do programa interno. Betão, Branco e Madeira Dos casos de estudo analisados, o Gorki (3) é o único no qual é percetível a utilização dos três materiais/tons, aplicados, mais uma vez, com a utilização da madeira como elemento de destaque, e os tons claros, para a sua envolvente. 140 141 Materialidade 1 3 4 5 69 10 14 16 17 19 Organização Na análise realizada quanto à Organização de cada caso de estudo, percebemos a existência de sete variantes distintas, que traduzem as possibilidades de dinâmicas internas passíveis de se criar, independentemente de se tratar de habitação mínima. Open Space Associado ao conceito de open space, está o Broadview Loft (7), e a House in Komozawa (17), que pela liberdade e maior amplitude dos espaços, permitem não só uma visibilidade constante entre as diversas partes do projeto, como ainda uma maior liberdade de ocupação. Núcleo central No modelo correspondente à utilização de um núcleo como modo de organizar toda a habitação, existem duas variações, uma a de um núcleo central cheio, ao qual correspondem os casos, Gorki (3), Ant House (11), Wengawa House (13), Belly House (16), outra a de um núcleo central vazio, onde os espaços ocupam os momentos envolventes, como na House in Nada (12). Núcleo longitudinal O núcleo longitudinal pressupõe uma organização alongada do programa, e que no caso pode ter uma localização lateral ou centralizada em relação à planta, o que de qualquer das formas, pode ser encontrada nos casos, Block Village (8), All I Own House (9), Love House (20) Multinuclear aleatório Tanto na Light Walls House (1), como na House in Fukawa (6), existem diversos núcleos que acondicionam o programa interno da casa, com a particularidade de no caso (1) esta disposição se proceder no plano horizontal, ao contrário do caso (6), no qual estes diversos núcleos são organizados em altura. 143 Multinuclear em escada Quando falamos de um sistema Multinuclear em escada, pretendemos referir-nos à progressiva organização de espaços em vários níveis, e em que é percetível uma estratificação crescente, como é o caso da Reslope House (4). Multinuclear paralelo Na Compact Krast House (5) e na Azuma House (14), existem dois núcleos com funções programáticas, que se posicionam paralelamente entre si, resultando numa disposição que liberta o restante espaço para circulação, e para dar lugar a divisões da casa, no caso (14) o espaço livre resultante é o pátio exterior. Em altura Apesar de fazerem parte do mesmo modelo de organização, nos três casos seguintes, a utilização da altura surge de formas diferentes. Por um lado, na House & Garden (15) e no Tiny Madrid Apartment (19), recorre-se à rentabilização da área cúbica, de forma a exponenciar o espaço útil, dada a pequena dimensão da base em planta. Já no Yojigen Poketto (18), a organização em altura permite estabelecer um meio de transição entre o espaço de estar e o quarto. 144