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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Anderson José Alves Siqueira Memética: A expressão de uma sociedade que se comunica através do humor e da informalidade. outubro de 2023 UMinho | 2023 Anderson José Alves Siqueira Memética: A expressão de uma sociedade que se comunica através do humor e da informalidade.
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ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
iv Para a minha avó Zilda, com amor, admiração, respeito e saudade.
v No mundo dos memes, tudo pode ser alterado, remixado, descontextualizado e reinterpretado. Essa é a lógica que alimenta a sua presença constante no nosso cotidiano. Até quem cresceu antes do digital passou a consumir memes e a compartilhar referências com os mais jovens, tornando a memeficação um fenômeno sem distinções de público-alvo. E, embora não seja possível prever o futuro, uma coisa já sabemos: com certeza os memes estarão por lá. (in Meme we trust, Consumoteca Globo, 2019)
vi RESUMO O Meme é um fenômeno cultural amplamente difundido na sociedade contemporânea, que ganhou destaque com a popularização da internet. Originado a partir do termo cunhado pelo biólogo e escritor britânico Richard Dawkins em seu livro "O Gene Egoísta", os memes se tornaram uma linguagem característica e popular da web. Eles podem ser entendidos como uma forma de comunicação que utiliza uma linguagem própria, composta por micronarrativas autoexplicativas, imagens, diálogos e textos bemhumorados, irônicos e sarcásticos, abrangendo uma variedade de temas, polêmicas e notícias. Os memes desempenham um papel relevante nas redes sociais, especialmente entre as gerações mais jovens, conectando-se diretamente aos nossos sentimentos e despertando reações positivas ou negativas. Eles permitem expressar ideias que, muitas vezes, seriam difíceis de comunicar de outra forma. Nesse contexto, este estudo tem como objetivo oferecer uma visão abrangente dessa nova forma de comunicação, explorando sua origem, evolução e os fatores culturais, participativos, informais e irreverentes que contribuem para sua disseminação. É importante ressaltar que a sobrevivência dos memes depende exclusivamente do compartilhamento e que seu significado é constantemente redefinido à medida que se espalham pelas redes. Ao longo deste estudo, será realizada uma análise comparativa entre a transmissão de informações pelos meios tradicionais e pela web através dos memes. Será dada ênfase à descentralização dos autores e a participação do público, com o objetivo de avaliar em que medida a informalidade e a irreverência na transmissão de informações por meio dos memes neutralizam e ou banalizam a importância dos temas abordados, ou se, pelo contrário, atuam unicamente como agentes facilitadores no entendimento e na disseminação de determinado acontecimento. Palavras-chave: Meme; Memética; Cibercultura; Comunicação Digital; Internet.
vii ABSTRACT The Meme is a widely spread cultural phenomenon in contemporary society, which gained prominence with the popularization of the internet. Originating from the term coined by British biologist and writer Richard Dawkins in his book "The Selfish Gene," memes have become a distinctive and popular language of the web. They can be understood as a form of communication that utilizes its own language, composed of self-explanatory micronarratives, images, dialogues, and humorous, ironic, and sarcastic texts, encompassing a variety of topics, controversies, and news. Memes play a relevant role in social media, especially among younger generations, connecting directly to our emotions and eliciting positive or negative reactions. They allow us to express ideas that would often be challenging to communicate otherwise. In this context, this study aims to offer a comprehensive view of this new form of communication, exploring its origin, evolution, and the participatory, informal, and irreverent cultural factors that contribute to its dissemination. It is important to highlight that the survival of memes depends solely on sharing and that their meaning is constantly redefined as they spread across networks. Throughout this study, a comparative analysis will be conducted between the transmission of information through traditional means and the web via memes. Emphasis will be placed on the decentralization of authors and audience participation, with the aim of evaluating to what extent the informality and irreverence in the transmission of information through memes neutralize or trivialize the importance of the topics addressed, or if, on the contrary, they solely act as facilitating agents in understanding and disseminating specific events. Keywords: Meme; Memetics; Cyberculture; Digital Communication; Internet.
viii RESUMEN El Meme es un fenómeno cultural ampliamente difundido en la sociedad contemporánea, que ha ganado relevancia con la popularización de internet. Surgido a partir del término acuñado por el biólogo y escritor británico Richard Dawkins en su libro "El Gen Egoísta", los memes se han convertido en un lenguaje distintivo y popular en la web. Se pueden entender como una forma de comunicación que utiliza un lenguaje propio, compuesto por micronarrativas autoexplicativas, imágenes, diálogos y textos humorísticos, irónicos y sarcásticos, abarcando una variedad de temas, controversias y noticias. Los memes desempeñan un papel relevante en las redes sociales, especialmente entre las generaciones más jóvenes, conectando directamente con nuestras emociones y generando reacciones positivas o negativas. Permiten expresar ideas que, muchas veces, serían difíciles de comunicar de otra manera. En este contexto, este estudio tiene como objetivo ofrecer una visión integral de esta nueva forma de comunicación, explorando su origen, evolución y los factores culturales participativos, informales e irreverentes que contribuyen a su difusión. Es importante destacar que la supervivencia de los memes depende exclusivamente de su compartición y que su significado se redefine constantemente a medida que se propagan en las redes. A lo largo de este estudio, se realizará un análisis comparativo entre la transmisión de información a través de medios tradicionales y la web mediante memes. Se hará énfasis en la descentralización de los autores y la participación del público, con el objetivo de evaluar en qué medida la informalidad e irreverencia en la transmisión de información a través de los memes neutralizan o trivializan la importancia de los temas abordados, o si, por el contrario, actúan únicamente como agentes facilitadores en la comprensión y difusión de eventos específicos. Keywords: Meme; Memética; Cibercultura; Comunicación Digital; Internet.
4 de expressão humana e aponta a importância de reconhecer e valorizar outras modalidades de comunicação. Ou seja, mesmo as formas não verbais de comunicação possuem conteúdos significativos que são comunicados e que influenciam a compreensão do mundo. Essa visão ampla da linguagem enfatiza a complexidade da expressão humana e a importância de reconhecer e explorar as diferentes maneiras pelas quais a comunicação ocorre. Benjamin (1992) assevera que a linguagem supera sua função de mera ferramenta para transmitir informações, sendo, ainda, um dispositivo para criar significado e compreensão do mundo. As palavras, para o autor, eram carregadas de semântica e, historicamente, sua utilização podia evocar diversos estratos de significado e experiência. Assim, a linguagem trata-se de um fragmento inerente da vida social e histórica, pois ela molda e é moldada pelas circunstâncias materiais e sociais de uma época específica. Esse pensamento está em linha com a pesquisa de Citelli (2008), que discutiu as conexões entre comunicação e linguagem, e sobre como a linguagem é uma prática socialmente construída que promove o consenso por meio de movimentos dialógicos. Para o autor, a linguagem não pode ser isolada de outros tipos de comunicação. Ressalta-se que, na visão de Benjamin (1992), a linguagem representa uma forma de expressão repleta de significado e narrativas que refletem as condições sociais e históricas de uma época. Desta forma, a linguagem molda a maneira como percebemos o mundo e influencia nossa compreensão das relações sociais, da cultura e da história. Nesse sentido, a linguagem é um meio potente para entender e transformar o mundo. Portanto, uma análise sociológica adequada deve levar em consideração o papel central da linguagem na construção e reprodução da sociedade. Além disso, Benjamin (1992) explorou a relação entre a linguagem humana e as coisas em si, pois a língua, por si só, não consegue expressar completamente a essência das coisas: A própria língua não é completamente expressa nas próprias coisas. Esta frase tem um duplo significado, segundo o sentido figurado e o sensorial: as linguagens das coisas são imperfeitas e mudas. O princípio formal, puramente linguístico – o som –, é recusado às coisas. Elas só podem comunicar-se, entre si, através de uma comunidade, mais ou menos material. Esta comunidade é imediata e infinita, como a de qualquer comunicação linguística; é mágica (porque também existe a magia da matéria). O incomparável da linguagem humana reside em que a sua comunidade mágica com as
5 coisas é imaterial e puramente espiritual e o som é disso símbolo (Benjamin, 1992, p. 185). O autor ressalta o aspecto único da linguagem humana ao afirmar que sua comunidade mágica com as coisas é imaterial e puramente espiritual. Ou seja, os seres humanos têm a capacidade de estabelecer uma conexão especial e simbólica com as coisas, e o som é visto como um símbolo dessa comunicação espiritual. As coisas, em si, não possuem uma linguagem no sentido humano, mas podem se comunicar entre si de forma mais material. Por isso, para Benjamin (1992), a linguagem humana é considerada especial por sua capacidade de estabelecer uma comunicação simbólica e espiritual com as coisas. “A linguagem não é apenas comunicação do comunicável, mas, simultaneamente, símbolo do não comunicável” (Benjamin, 1992, p. 196). Portanto, a linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas também um elemento constitutivo da realidade. Através da linguagem, conceitos e estruturas sociais são formados e internalizados pelas pessoas. Em relação aos problemas da sociologia da linguagem, o autor aponta a necessidade para uma análise crítica das transformações sociais e culturais que afetam a linguagem e sua relação com a sociedade. Já, para para Citelli (2008), a linguagem não é uma categoria universal, mas sim um sistema complexo de sub-linguagens que são moldadas por vários fatores contextuais, como normas culturais, tradições históricas e relações sociais. O autor afirma – baseado no Tractatus Logico Philosophico de Wittgenstein (1961), que os significados das expressões são aprendidos por meio dos diversos jogos de linguagem, que são alimentados pelos usos da linguagem, em determinados contextos, os quais, cercam cultural e historicamente os usuários: O conceito central de jogo da linguagem alcança expressivo âmbito de utilização, podendo ir dos movimentos entre o cá da linguagem e o lá do mundo, passando por funções diversas que incluem elementos performativos (ordenar, agir, solicitar, saudar etc.) e enunciados ou enunciações mais amplas como a resolução de um enigma, a formulação de um problema matemático, o sistema retórico de um sermão religioso. Dos jogos fazem parte não apenas as palavras, mas toda a seqüência contextual nas quais se incluem os participantes, os objetos, as circunstâncias várias afeitas à situação de uso. Isto é, os jogos se alimentam e são alimentados pelos usos da linguagem em contextos determinados que circundam cultural e historicamente os usuários.
6 É neste movimento de vínculos múltiplos que os sentidos das expressões, segundo um conjunto de regras de usos e referências contextuais, são apreendidos. Vale dizer, um enunciado não significa em si, mas se faz nas relações (jogos) que a linguagem permite em seus exercícios ordinários, cotidianos (Citelli 2008, p. 16). No jogo da linguagem, não são apenas as palavras que desempenham um papel, mas também toda a sequência contextual que envolve os participantes, objetos e circunstâncias relacionadas à situação de uso da linguagem. Os jogos da linguagem são influenciados pelos usos culturais e históricos que cercam os usuários, e, por sua vez, alimentam-se desses usos. É nesse movimento de conexões múltiplas que os sentidos das expressões são compreendidos. Seguindo um conjunto de regras de uso e referências contextuais, os enunciados adquirem significado (Citelli 2008). Ou seja, um enunciado não possui um significado fixo em si mesmo, mas é construído por meio das relações (jogos) que a linguagem possibilita em suas práticas comuns e cotidianas. Portanto, as regras do jogo não são fixas ou universais, mas são moldadas pelos vários fatores contextuais e culturais que influenciam o uso e o significado da linguagem. A linguagem e a comunicação não estão isoladas, mas estão indissociavelmente ligadas a outros tipos de comunicação e crescem com elas em um terreno comum da situação de produção (Citelli, 2008). A comunicação verbal é sempre acompanhada de atos sociais de caráter não verbal, como gestos ou atos simbólicos, que complementam a comunicação verbal e desempenham um papel auxiliar. Por fim, Citelli (2008) destaca a importância de entender a linguagem como uma prática socialmente construída que promove o consenso por meio de movimentos dialógicos, o que pode ser útil na promoção de uma comunicação efetiva e na resolução de conflitos. Alguns estudiosos de comunicação debateram ainda sobre como a comunicação foi influenciada pela tecnologia no decorrer de seu desenvolvimento, tema do próximo tópico. 1.2 A evolução da comunicação impactada pela tecnologia A evolução tecnológica impactou a forma como nos comunicamos atualmente de diversas maneiras. McLuhan (1995), abordou sobre como os meios de comunicação de massa afetaram profundamente a vida física e mental do homem. Já, segundo Fernandes (2016), a tecnologia desenvolveu recursos para agilizar a comunicação, como por exemplo, as quatro telas (cinema, televisão, computador e celular), que são exemplos de comunicação de massa.
7 Da mesma forma, os usuários também transformaram suas maneiras de interagir com esses meios e entre eles mesmos. A mobilidade da própria tela, que passa a acompanhar os interlocutores aonde quer que eles possam ir, também é um fator importante a se destacar no que diz respeito a evolução da comunicação. Cabe destacar uma das teorias seminais sobre a evolução da comunicação impactada pela tecnologia, que é o livro clássico: “Os meios de comunicação como extensão do Homem” de Marshall McLuhan, publicado originalmente em 1964, no qual o autor apresenta uma perspectiva única sobre a relação entre os meios de comunicação e a experiência humana. Segundo McLuhan (1995), os meios de comunicação não são meros instrumentos ou portadores de informação, mas sim extensões da própria humanidade. Ele afirma que a mídia molda nossa visão de mundo e tem um impacto profundo em nossos pensamentos, ações e interações com outras pessoas. A ideia central de seu livro é que a mídia serve como ampliação de nossos sentidos e habilidades. Entretanto, assim como cada mídia amplia e transforma nossas habilidades naturais, também pode levar à perda de contato com nossas próprias capacidades. Todo o meio de comunicação, da palavra escrita à televisão, tem o poder de expandir e transformar nossas capacidades inatas. Por exemplo, escrever aumenta nossa capacidade de nos comunicarmos oralmente ao nos permitir registrar e transmitir informações através do tempo e do espaço. Da mesma forma, a tecnologia da televisão amplia nossa visão e audição, permitindo que vivenciemos o mundo de maneiras inovadoras. No entanto, o autor adverte contra os efeitos negativos dessas extensões. McLuhan (1995) argumenta que nossa dependência da mídia pode fazer com que percamos o contato com nossas habilidades e sentidos naturais. Por exemplo, a televisão pode diminuir nossa imaginação e habilidades de interpretação visual ao nos entregar imagens pré-embaladas. Da mesma forma, a dependência excessiva de dispositivos eletrônicos pode levar ao isolamento social e prejudicar nossa capacidade de interagir face a face. Outro conceito-chave apresentado por McLuhan (1995) é o de “aldeia global”. Segundo o autor, na aldeia global a mesma experiência comunicativa é compartilhada por diferentes culturas: a linguagem televisiva, por exemplo, é a mesma em qualquer país, independente da língua falada ou dos costumes locais. Assim, ele previu que a mídia eletrônica, no caso a televisão, uniria o mundo em uma comunidade global onde as fronteiras geográficas seriam confusas e todos estariam interconectados. Como a televisão até então era a “nova” forma de comunicação em tempo real, essa mídia teria implicações de longo
8 alcance na forma como percebemos e nos relacionamos uns com os outros. Atualmente, a mídia que melhor se adequa ao conceito de aldeia global é a internet. De acordo com Fernandes (2016), a internet e as redes sociais são as mídias mais utilizadas pela população brasileira na atualidade. A internet impacta na comunicação contemporânea, sobretudo no cotidiano das pessoas devido a velocidade de transmissão e troca de informação, onde é possível falar com outra pessoa de qualquer parte do mundo, desde que esteja conectada a rede. Já as redes sociais possibilitam desde estar em contato com amigos e familiares, a disponibilização de vários recursos para empresas e comércio, desde publicidade, marketing e até vendas, por meio de marketplaces 1 , os quais suscitaram mudanças de comportamentos sociais. Portanto, a internet é um exemplo da aplicação do conceito de “aldeia global”, pelo qual McLuhan (1995) antecipou a união do mundo através dos meios eletrônicos, mas com riscos de perda de identidades culturais. Ao passo que a internet e as redes sociais são importantes na comunicação contemporânea por sua eficiência, rapidez e facilidade de uso, também se insere no alerta de McLuhan (1995) sobre os riscos da globalização, visto que pode corroer as identidades culturais e promover a homogeneização da sociedade. Para Fernandes (2016), houve uma evolução convergente das quatro telas (cinema, televisão, computador e celular), resultando em uma fusão e diversificação das possibilidades tecnológicas. Assim, essas mídias não se substituem, mas se complementam na comunicação atual, visto que os recursos correspondentes a cada uma das quatro telas convivem e se apresentam à sociedade como alternativas de comunicação, oferecendo diferentes possibilidades de interação e comunicação para os usuários. Fernandes (2016) percorre a história da comunicação, desde a invenção da imprensa até o surgimento da Internet e das redes sociais e discute o conceito de Comunicação 2.0, que se refere ao uso de mídias sociais e outras tecnologias digitais para criar e compartilhar conteúdo. Se faz necessário então, segundo esse autor, entender o cenário de mudança da comunicação e se adaptar às novas tecnologias e plataformas. No Quadro 1, a seguir, está um resumo sobre cada uma das quatro telas, as inovações na relação com o público e na forma de usar e suas contribuições para a comunicação. 1 Plataformas que permitem agregar em um mesmo ambiente de e-commerce diversos vendedores para todos os tipos de produtos.
9 Quadro 1 As quatro telas/ecrãs e suas inovações e contribuições para a comunicação: Tela Inovações (público e forma de usar) Contribuição para a comunicação Cinema (1895) O público ia ao cinema para fazer uma “viagem pelo mundo”, para conhecer lugares que não teriam a possibilidade de conhecer de outra maneira. Evolução tecnológica: imagem digital, sistema de som integrado e superposição combinada de imagens, proporcionando um maior envolvimento do espectador. Fundamental para construir um modelo único de comunicação, reinventando a indústria e difundindo valores culturais. É uma forma de mediação do processo e do fluxo de interação com a sociedade. A mensagem acontece por meio da apropriação de sentido pelo receptor, permitindo que o receptor repasse suas interpretações no espaço social. TV (1923) Trouxe recursos do cinema para os lares, aumentando o número de espectadores e programas transmitidos. Evolução tecnol.: combinações com fitas de vídeo e jogos eletrônicos, melhorias na resolução de imagem, sistema de TV a cabo e compatibilidade com outros sistemas de informação. A TV digital possibilitou melhor qualidade de som e imagem, alta definição, transmissão de múltiplos canais e interatividade através do controle remoto. Representou uma mudança de mercado e contribuiu para a padronização da resolução de imagem. A TV digital combina componentes de radiodifusão, telecomunicação e informática, oferecendo uma experiência social e colaborativa. A tecnologia digital na televisão baseia-se no processamento por computadores, convertendo informações em sinais binários para uma integração maior com os equipamentos de computação. Computador Mecânico (1890) O surgimento dos primeiros computadores mecânicos e eletromecânicos, evoluindo para computadores eletrônicos e digitais automáticos. Armazenamento e processamento de grandes quantidades de dados, como textos, fotos, vídeos e animações. A popularização dos computadores portáteis (laptops e palmtops) e a conexão em rede
10 Computador (1944) Evolução tecnol.: miniaturização dos equipamentos eletrônicos, desenvolvimento dos circuitos integrados, integração de múltiplas funcionalidades nos computadores, como fax, modem, secretária eletrônica, scanner e acesso à Internet, surgimento dos CDs-ROM e posteriormente dos DVDs, oferecendo maior capacidade de armazenamento e reprodução de vídeos. mundial (Internet), proporcionando acesso a recursos tecnológicos, informações e serviços diversificados. Celular, telemóvel (1990) Permitiu que as pessoas se mantivessem conectadas em qualquer lugar, transformando suas experiências em diferentes momentos. Evolução tecnol.: banda larga sem fio, download de músicas, display, bluetooth, videogames em 3D, SMS, GPS, mudaram a forma de se expressar e de interagir com o celular. Novas maneiras de contato pessoal, contribuindo para a comunicação em áreas de negócio e até mesmo no salvamento de vidas. A telefonia móvel alcançou um alto patamar na sociedade, permeando todos os segmentos e possibilitando uma linguagem técnica e em língua inglesa. O excesso de recursos e informações pode confundir e atrapalhar os usuários inexperientes, gerando problemas na utilização dos telefones celulares Elaborado pelo autor com base nos estudos de Fernandes (2016). Então, os principais aspectos sobre a evolução da comunicação vão desde a criação do cinema, em 1895, que, ao combinar teatro e fotografia em uma tela, trouxe uma nova forma de comunicação em massa e intermediação, representando um novo processo de comunicação e interação. Já, a televisão, criada em 1923, trouxe os recursos do cinema para os lares, aumentando o número de espectadores e programas transmitidos. A TV digital caminha em direção a uma experiência social e colaborativa, permitindo interação com a programação, compras, transações bancárias e acesso à internet (Fernandes, 2016).
11 O computador foi criado em sua primeira versão mecânica, em 1890, incorporando partes elétricas para viabilizar a criação da versão eletromecânica, em 1944, até que o transistor substituiu as válvulas e, a partir de 1947, aumentou a velocidade das máquinas até chegar aos computadores com circuitos integrados, que se assemelham aos computadores digitais dos tempos atuais. A informação na internet se tornou um recurso econômico e social, facilitando a satisfação das demandas por informações e serviços (Fernandes, 2016). A entrada da telefonia móvel no Brasil nos anos 1990 trouxe mobilidade e a possibilidade de conexão em qualquer lugar. Isso levou a uma mudança de comportamento, com as pessoas levando seus celulares para diversos ambientes. O número de usuários de telefonia móvel ultrapassou os da telefonia fixa em 2003, e houve um aumento significativo na teledensidade no Brasil. A popularização dos celulares impulsionou os negócios e facilitou a disseminação da informação. Os celulares pré-pagos tiveram um crescimento vertiginoso e se tornaram a modalidade dominante de assinatura. A utilização de recursos varia de pessoa para pessoa, mas a popularização de uma linguagem técnica e em língua inglesa é comum (Fernandes, 2016). A partir do ano 2000, as redes sociais virtuais popularizaram uma nova linguagem e forma de comunicação. Comunidades virtuais conectam pessoas com interesses semelhantes, permitindo interação e relacionamentos. Redes sociais como Orkut e Facebook transformaram a comunicação, oferecendo recursos como postagem de recados, fotos e interatividade (Fernandes, 2016). O Instagram é uma das redes sociais que se destaca pelo aumento em sua quantidade de usuários nos últimos anos, possui 2 bilhões de usuários ativos no mundo e 99 milhões de brasileiros acessam o aplicativo diariamente (D’Angelo, 2023). Atualmente, qualquer pessoa com acesso a um computador conectado à internet pode aproveitar uma variedade de recursos tecnológicos, como acesso a informações e serviços diversos. A internet disponibiliza um vasto conjunto de recursos que estão disponíveis a partir de um único ponto de acesso. Mas é a convergência entre diferentes telas, como filmes, TV, PC e celular, que possibilita uma experiência enriquecedora aos usuários. No futuro, as formas eletrônicas de comunicação e as tecnologias continuarão evoluindo, facilitando as tarefas do dia a dia. Assim, neste tópico pode-se conhecer, resumidamente, as tecnologias que mudaram a forma como nos comunicamos trazendo novas linguagens, tornando a comunicação mais rápida, eficiente e acessível. Além disso, cabe destacar que McLuhan (1995) nos desafia a repensar a forma como nos relacionamos com os meios de comunicação e a reconhecer seu poder transformador em nossas vidas. Sua análise crítica dos efeitos dos meios de comunicação e suas ideias sobre a aldeia global continuam
12 sendo relevantes até os dias de hoje, fornecendo uma base sólida para a compreensão das dinâmicas da comunicação na era digital. 1.3 Da cultura das mídias à cibercultura Conforme visto no tópico anterior, a evolução tecnológica impactou nos meios de comunicação e, atualmente, estamos rodeados de dispositivos conectados à internet, pelos quais podemos acessar vários tipos de conteúdo, com diferentes linguagens. Para Santaella (2003), o impacto das novas tecnologias da informação e comunicação mudaram todas as esferas da sociedade, incluindo a cultura em geral. Assim, o acesso aos dispositivos móveis transformou não apenas as formas de entretenimento e lazer, e incluíram mudanças no trabalho, na política, no consumo, na comunicação e na educação. A partir de seus estudos sobre comunicação e linguagem, Santaella (2003) propôs uma divisão das eras culturais em seis formações: cultura oral, cultura escrita, cultura impressa, cultura de massas, cultura das mídias e cultura digital. A autora enfatiza que essas divisões são baseadas na crença de que os meios de comunicação são apenas canais para a transmissão de informação e que as transformações culturais não são exclusivamente resultado de novas tecnologias, mas dos tipos de signos e mensagens que circulam nesses meios. Assim, esses fatores são responsáveis por moldar o pensamento e a sensibilidade das pessoas e por criar novos ambientes socioculturais. Segundo Santaella (2003), a cultura das mídias é diferente tanto da cultura de massas quanto da cultura virtual ou cibercultura. Trata-se de uma cultura intermediária, posicionada entre as duas mencionadas. A autora parte da ideia de que as mídias são os meios físicos nos quais as linguagens se manifestam e circulam. Os veículos de comunicação são apenas canais superficiais que transportam as mensagens. O estudo dos processos comunicativos e das formas culturais deve considerar as diferentes linguagens e sistemas de signos que se desenvolvem nos veículos, levando em conta o potencial e os limites de cada um. Além disso, ela observou que há misturas de linguagens em veículos híbridos, como a televisão e a hipermídia. Assim, as novas tecnologias de mídia geram seus próprios ciclos culturais, moldados pelos contextos econômicos e políticos em que emergem e são inseparáveis das formas sociais e culturais que criam, moldando novos ambientes sociais. Em função desse raciocínio, Santaella (2003) ressalta que a divisão de seis eras culturais também pode ser chamada de formações culturais, pois cada nova formação se integra e causa ajustes na anterior. O domínio das novas tecnologias de comunicação não sufoca os princípios semióticos das
13 formações culturais preexistentes, pois a cultura se comporta como um organismo inteligente e adaptável. Nas palavras da autora: Embora a divisão que estabeleço de seis eras culturais refira-se, de fato, a eras, prefiro também chamá-las de formações culturais para transmitir a idéia de que não se trata aí de períodos culturais lineares, como se uma era fosse desaparecendo com o surgimento da próxima. Ao contrário, há sempre um processo cumulativo de complexificação: uma nova formação comunicativa e cultural vai se integrando na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações. É certo que alguns elementos sempre desaparecem, por exemplo, um tipo de suporte que é substituído por outro, como no caso do papiro, ou um aparelho que é substituído por outro mais eficiente, o caso do telégrafo. É certo também que, em cada período histórico, a cultura fica sob o domínio da técnica ou da tecnologia de comunicação mais recente. Contudo, esse domínio não é suficiente para asfixiar os princípios semióticos que definem as formações culturais preexistentes. Afinal, a cultura comporta-se sempre como um organismo vivo e, sobretudo, inteligente, com poderes de adaptação imprevisíveis e surpreendentes (Santaella, 2003, p. 24-25). Há diferenças entre a cultura da mídia tradicional e a cultura digital, visto que na cultura digital há “convergência de mídias”, o que difere da “coexistência de diferentes tipos de mídia” como ocorre na cultura de mídia tradicional. Essa convergência levou a um aumento na produção e circulação de informações, que é uma característica definidora da cultura digital. A cultura da mídia tradicional se refere à cultura que se desenvolveu em torno de formas tradicionais de mídia, como televisão, rádio e jornais. A cultura digital, por outro lado, se refere à cultura que se desenvolveu em torno de tecnologias digitais, como internet, mídias sociais e dispositivos móveis (Santaella, 2003). Ou seja, a convergência da mídia na cultura digital se refere à forma como diferentes tipos de mídia estão se unindo e sendo integradas em uma única plataforma. Por exemplo, atualmente podemos acessar programas de televisão, filmes e músicas na internet por meio de serviços como Netflix e Spotify. Isso é diferente da cultura de mídia tradicional, aonde diferentes tipos de mídia existiam separadamente e eram consumidos por meio de canais diferentes. Ainda se deve observar que o aumento na produção e circulação de informações na cultura digital se deve à facilidade com que as informações podem ser criadas, compartilhadas e acessadas por meio de tecnologias digitais.
20 Sob esse aspecto, cabe mencionar Benkler (2006), que discutiu o impacto da revolução da informação na economia, na política e na sociedade e sua defesa para a flexibilização das leis restritivas de direitos autorais e o incentivo à produção comunitária como forma de minar o modelo proprietário atual de produção de informações. A economia da informação em rede é um novo paradigma de produção não mercantil de muitos para muitos, em contraste com o modelo de um para muitos da economia industrial da informação (Benkler, 2006). Para Benkler (2006), há uma produção social de informações, como o Software Livre, a Wikipedia e o Second Life, onde os indivíduos reúnem seu tempo, experiência, sabedoria e criatividade para produzir novas informações, conhecimentos e bens culturais. Os usuários também cooperam para criar capacidade de computação, armazenamento e comunicação, que são bens econômicos, como no caso do SETI @Home, o supercomputador mais rápido do mundo. Jenkins (2006) também examinou exemplos de comunidades online que se unem para resolver problemas complexos, como o movimento do software de código aberto e a Wikipédia, entrelaçando o conceito de inteligência coletiva com destaque para importância da colaboração e da solução coletiva de problemas na era digital. Para o autor, a inteligência coletiva tem o potencial de transformar não apenas a produção de mídia, mas também outras áreas, como educação, política e ciência. Outro teórico que abordou a inteligência coletiva foi Lévy (1994), que a define como a capacidade dos grupos humanos de pensar e agir juntos de forma inteligente e colaborativa. “É uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (Lévy, 1994, p. 28). O autor argumenta que a inteligência coletiva é um atributo emergente dos sistemas tecnológicos e sociais, e que o ciberespaço é um ambiente propício para seu desenvolvimento. Para o autor, a internet facilitou a troca de conhecimentos e ideias, destacando a capacidade de indivíduos e grupos de se conectarem e colaborarem além das barreiras geográficas e temporais. Assim, o ciberespaço oferece oportunidades únicas para a formação de comunidades virtuais e para o compartilhamento e criação de conhecimento coletivo, pensamento similar ao de Jenkins (2006). Mas sem pensar que a participação igualitária de todos com acesso a rede seja algo fácil, Lévy (1994) ressalta a necessidade de estabelecer estruturas de governança que permitam a participação efetiva e inclusiva de todos os usuários, evitando assim a concentração excessiva de poder e a exclusão de certos grupos. Ele defende a ideia de que a inteligência coletiva no ciberespaço requer um equilíbrio entre autonomia individual e cooperação coletiva, e que é essencial buscar formas de governança que promovam a diversidade e a liberdade de expressão.
21 Sob esse aspecto, Benkler (2006) defende a viabilidade de um modelo de produção por pares como uma alternativa ao atual domínio corporativo da economia da informação. O autor destaca que as novas plataformas de produção de conteúdo na internet oferecem aos indivíduos a oportunidade de expressar-se, questionar e investigar de forma autônoma, permitindo que deixem de ser espectadores passivos para se tornarem observadores ativos nos espaços sociais e, potencialmente, protagonistas do debate público. O modelo básico de observar os julgamentos dos outros sobre o que é interessante e valioso, juntamente com o exercício do próprio julgamento sobre quem compartilha os mesmos interesses e cujo julgamento parece ser sólido, criou um padrão de vinculação e uso da Web e da Internet que é substancialmente mais ordenado do que um cacofônico vale-tudo, e menos hierarquicamente organizado e controlado por poucos do que era o ambiente da mídia de massa. (...) Dada a liberdade de participar da criação de nosso próprio ambiente de informação, não descemos à Babel, nem replicamos as hierarquias das esferas públicas de mídia de massa para evitá-la (Benkler, 2006, p. 466). O autor sustenta que as pessoas estão utilizando sua liberdade expandida no ambiente digital para agir e colaborar com outros de maneiras que beneficiam as práticas democráticas, a justiça, o desenvolvimento humano, a cultura crítica e as relações comunitárias. Apesar de trazer bons esclarecimentos sobre a evolução da nova economia e seus impactos na sociedade, o argumento a favor da produção comunitária de Benkler (2006) não foi muito bem-sucedido. Assim como os demais autores que estudam sobre as transformações provocadas pela internet, Lévy (1994) examina as implicações culturais da inteligência coletiva no ciberespaço. Nesse sentido, as suas contribuições destacam que a interconexão global de informações e pessoas está levando a uma transformação na forma como o conhecimento e a cultura são produzidos, a exemplo do uso do “hipertexto”. Este se refere à estrutura não linear da informação no ciberespaço, a qual afetou a forma como acessamos e processamos o conhecimento. Diante do que foi abordado neste tópico, percebe-se que a convergência de mídias não abrange apenas uma mudança tecnológica, mas também cultural, pois transforma os métodos pelos quais as mídias são criadas, disseminadas e consumidas. A proliferação de tecnologias digitais e a conexão em rede permitiu a indefinição das fronteiras entre diferentes mídias e permitiu que os indivíduos se tornassem participantes ativos na criação e circulação de conteúdo, podendo formar tanto comunidades
22 para a troca de conhecimento e proporcionar a criação de uma inteligência coletiva como modificar o fluxo de informações entre empresas e indivíduos. Igualmente a participação para a produção de conteúdo é inerente à cultura dos memes, como será visto em maior profundidade posteriormente. 1.5 A crise da palavra Para D’Agostino (2007), a imagem passou a ter um privilégio sobre a palavra escrita na pósmodernidade, o que desafiou todas as formas de linguagens, desde a escrita à oral. As linguagens eletrônicas, informáticas e virtuais multiplicaram-se assustadoramente, mudando o eixo da palavra, enquanto signo da modernidade, para a imagem enquanto signo da pós-modernidade. A imagem préfabricada e sem autenticidade pode ter perdido a capacidade de pensar por imagens, o que pode ser uma oportunidade para aglutinar o potencial expressivo e original da palavra escrita com o potencial da imagem. Apesar da proliferação de linguagens de todos os tipos durante a passagem da modernidade para a pós-modernidade, a imagem passou a ter um privilégio sobre a palavra escrita (D’Agostino, 2007). Nesse sentido, cabe lembrar a teoria de Santaella (2003, 2007) acerca das matrizes da linguagem, que são a verbal, visual e sonora. A linguagem verbal notadamente era distribuída pelo papel impresso (livros, jornais, revistas), a visual, inicialmente por fotografia, sendo a imagem estática e a sonora tanto pode ser a fala como a música. Entretanto, o audiovisual tratou de trazer mais de uma linguagem, surgindo a união das linguagens, as quais com o advento das mídias digitais estão crescendo e se multiplicando. Convém ressaltar que dificilmente encontramos uma linguagem sozinha. Isso porque nenhuma revolução da linguagem humana surge sozinha, ela vai se misturando a linguagem anterior. Assim, apesar de D’Agostino (2007) sugerir que a substituição da imagem pela palavra escrita, gerando uma crise da palavra escrita, o que pode afetar a comunicação em geral, visto ser a língua um produto e condição da vida social, Santaella (2003, 2007) refuta essa ideia, visto que as linguagens se misturam e retroalimentam. Para D’Agostino (2007), a atividade social do ser humano, tanto no âmbito individual ou coletivo, expressa-se através de símbolos, emblemas, narrativas da tradição oral, escrita, pensadas ou imaginadas. O mundo depende da palavra, sem a qual se revela vazio de nomes, conceitos, explicações, fantasias e mitos. Portanto, a crise da palavra escrita pode afetar a capacidade de expressão e compreensão dos indivíduos e, consequentemente, a comunicação em geral.
23 1.6 Leitura de imagens Ao se pensar que possa haver uma crise da palavra, sendo elas substituídas por imagens conforme mencionado no tópico anterior, cabe trazer uma abordagem proposta por Silva & Neves (2016), que discutem a importância da leitura de imagens na educação e na vida cotidiana. Os autores exploram o conceito de imagem e sua evolução ao longo da história, desde as perspectivas de filósofos como Platão e Aristóteles até teóricos contemporâneos como Martine Joly e Jacques Aumont. Para Silva & Neves (2016) a leitura de imagens é válida para a compreensão de ideias complexas, lembrando a crença de Aristóteles de que as imagens eram válidas para instruir e ensinar porque se assemelhavam à realidade e permitiam ao espectador adquirir conhecimento por meio da contemplação. Destacam ainda que a leitura de imagens em nosso mundo, cada vez mais visual, é importante e pode ser usada na educação e na vida cotidiana. Por isso, eles propõem uma nova abordagem para a leitura de imagens denominada “Leitura Interdisciplinar Interpretativa”, cujo objetivo é contribuir para as leituras individuais e o desenvolvimento da interpretação de imagens nas escolas (Silva & Neves, 2016). Outras contribuições para desenvolver a abordagem “Leitura Interdisciplinar Interpretativa” foram apresentadas por Panofsky (2007) o qual advoga que a interpretação de imagens é parte da cultura e da história. Segundo Panofsky (2007 como citado em Silva & Neves, 2016), para entender uma imagem, é preciso entender a cultura na qual ela foi criada. As imagens podem expressar não apenas uma ideia, mas também toda uma visão de mundo, pois Panofsky vê as obras de arte e suas imagens como documentos históricos que são fontes importantes para entender e analisar a história. A proposta de Silva & Neves (2016) para a leitura de imagens ainda está em fase experimental, mas é baseada em quatro etapas: análise da forma, análise do conteúdo, análise das relações entre a imagem, autor, contexto e leitor e análise interpretativa pelo leitor. A primeira etapa, análise da forma, envolve observar a estrutura geral da imagem, como cores, linhas e volumes. Essa etapa é a mais objetiva e outro leitor provavelmente faria uma análise semelhante. A segunda etapa, análise do conteúdo, envolve descobrir o conteúdo temático ou o significado da imagem. Essa etapa requer um olhar mais perspicaz e algum conhecimento prévio, e leitores diferentes podem ter análises diferentes. A terceira etapa, análise das relações entre a imagem, o autor, o contexto e o leitor, requer uma análise ainda mais complexa, pois envolve pesquisar o contexto em que a imagem foi produzida, o autor e o público-alvo. A quarta e última etapa, a análise interpretativa pelo leitor, leva em consideração todas as análises anteriores e as próprias experiências e conhecimentos do leitor sobre
24 o assunto da imagem. Essa etapa permite que o leitor estabeleça uma relação mais profunda com a imagem e desenvolva uma análise mais individual e interpretativa. Santaella (2012) possui um livro dedicado a leitura de imagens, que investiga os meandros e a potência da comunicação e interpretação visuais. Nessa obra, a autora propõe uma abordagem de cinco fases para a leitura de imagens, diferentemente da abordagem proposta por Silva & Neves (2016), de quatro etapas, que inclui forma, conteúdo, contexto e interpretação. Inicialmente, a autora estabelece as bases teóricas da semiótica e da semiologia visual, para que se possa ter os conceitos necessários para realizar a análise e interpretação de imagens. São expostas as várias formas de leitura, incluindo a leitura icônica, que envolve entender e decifrar elementos visuais como cores, formas, linhas e texturas e Santaella (2012) examina a forma como esses elementos visuais interagem para criar composições visuais intrincadas que transmitem significados complexos. A leitura simbólica também é examinada, onde Santaella (2012) destaca como os símbolos podem ser construídos socialmente e como sua interpretação pode variar com base no contexto e na cultura. A autora enfatiza a importância de considerar o contexto histórico, social e cultural ao interpretar símbolos em imagens. Santaella (2012) aborda exemplos de investigação sobre a leitura de imagens publicitárias e comerciais, explorando como elas são cuidadosamente elaboradas para persuadir e influenciar o públicoalvo. A autora analisa as estratégias visuais e os recursos retóricos empregados pelos profissionais de marketing para provocar respostas emocionais dos espectadores. A interação entre texto e imagem também é explorada, onde a autora investiga como esses dois elementos da linguagem podem ampliar a compreensão e o significado de uma mensagem. São examinadas histórias em quadrinhos, cartazes políticos e outros exemplos de hibridismo entre texto e imagem. Um ponto de discussão destacado pela autora é a influência das tecnologias digitais na leitura de imagens. Santaella (2012) explica como a proliferação de dispositivos eletrônicos e a cultura digital remodelaram a forma como as imagens são criadas, distribuídas e consumidas. Ela discute o papel das mídias sociais, da realidade aumentada e da realidade virtual na transformação da experiência visual. 1.7 Gêneros híbridos na era da hipermídia Santaella (2014) discute a extensão da noção de gêneros discursivos para ocorrências em redes sociais digitais, chamando-os de gêneros híbridos devido às misturas do discurso verbal com todas as
25 formas de imagens fixas e em movimento, som, música, ruído e fala em multimídia. A autora destaca que houve crescimento dos gêneros discursivos à medida que as esferas da práxis humana se desenvolvem e se tornam complexas. O estudo dos gêneros discursivos se dá a partir da necessidade de compreender o hipertexto. O hipertexto é um tipo de estrutura de texto não linear e interativa. Diferentemente do texto linear tradicional encontrado em livros impressos, o hipertexto é composto de nós ou interseções que podem ser clicados para acessar conexões não lineares entre diferentes documentos. Isso cria uma estrutura semelhante a uma rede que é multilinear e interativa, permitindo que o leitor navegue pelas informações com um simples clique ou toque (Santaella, 2014). A estrutura do hipertexto também é caracterizada por sua interatividade, pois o usuário-leitor é capaz de manipular a estrutura escolhendo quais caminhos seguir e em quais nós clicar. Isso cria um sistema que está em constante evolução e mudança com base nas escolhas do usuário (Santaella, 2014). Foi com o surgimento da cultura digital que o hipertexto se destacou nas interações em rede, sendo que, para a autora, o hipertexto é a linguagem da internet e está longe de estar limitado a programas e produtos. Já segundo Simões (2009, p. 4): Na realidade, a Internet abriga um avançado sistema hipertextual desenvolvido pelos pioneiros cientistas da computação, como Vanevar Bush e Ted Nelson. Esses visionários habilmente conectaram a dinâmica não linear à forma como nossos pensamentos são organizados, utilizando essa abordagem para criar um vasto depósito de informações que está intrinsecamente interligado por meio do hipertexto. O conceito de hipertexto tem implicações significativas na maneira como pensamos sobre escrita e texto. Em um sistema de hipertexto, as fronteiras tradicionais entre diferentes formas de mídia e linguagem são confusas, pois o hipertexto permite a integração de diferentes formas de mídia, como imagens, som e vídeo. Isso é conhecido como multimídia, que é a mistura de diferentes idiomas, sistemas de sinais, códigos e mídias (Santaella, 2014). Para compreender o que é hipertexto, convém conceituar hipermídia, que é composta por conglomerados de informação multimídia (verbo, som e imagem) de acesso não sequencial, navegáveis por meio de palavras-chave semi-aleatórias (Santaella, 2014). Assim, a hipermídia envolve a organização
26 não linear da informação, a cartografia da navegação e a negociação interativa do usuário, transformando a escrita e destacando seu potencial. (Santaella, 2007). A hipermídia combina hipertexto com multimídia, permitindo estruturas não sequenciais e multidimensionais que permitem navegação rápida e associação de informações, semelhantes às ferramentas encontradas nas enciclopédias clássicas (Santaella, 2014). A autora ainda ressalta que a hipermídia quebra a linearidade textual em unidades modulares de informação conectadas por links, e que navegar por essas unidades requer formar um mapa cognitivo e seguir pegadas ou usar estratégias de busca. Assim, as redes facilitam a navegação pelos sistemas de busca, mas há risco de desorientação sem um mapa claro (Santaella, 2007). Caso o usuário seja incapaz de formar um mapa cognitivo do projeto estrutural do documento, ao navegar pela hipermídia, ele precisa encontrar e seguir as pegadas que atuam como sinais para o projeto. Isso leva à necessidade de criar rotas que possam orientar o usuário em seu processo de navegação. Essas rotas são funcionais em hipermídia ou jogos em suportes fixos, mas em redes as associações entre documentos são imprevisíveis (Santaella, 2007). Diante disso, a autora destaca que transitar por infocaminhos pode confundir ou frustrar o usuário quando não consegue ajustar as conexões aos alvos que procura. No entanto, as redes facilitam a vida do usuário por meio de sistemas de busca que tornam os procedimentos menos sujeitos a erros. Para a autora, há cinco estratégias de busca: escanear, navegar, pesquisar, explorar e passear. Ao passo que a hipermídia é um sistema não linear de unidades de informação interconectadas que podem assumir várias formas, com o texto desempenhando um papel significativo, a lógica do hipertexto cibernético requer exploração interpretativa em vez de dedução de verdades (Santaella, 2007). O design digital e a hipermídia são linguagens caracterizadas por modos de pensamento heterogêneos, convergentes semioticamente e não lineares. Isso significa que existem muitas formas diferentes de pensar sobre design digital e hipermídia, mas todas compartilham uma linguagem comum e não se limitam ao pensamento linear (Santaella, 2007). A autora sugere que essas linguagens têm importantes implicações mentais e existenciais para os indivíduos e para a sociedade, e que estamos apenas começando a entender essas implicações. À medida que o design digital e a hipermídia se tornarem mais prevalentes, eles provavelmente se tornarão uma segunda língua materna para muitos profissionais, e haverá uma necessidade crescente de habilidades e competências nessas áreas (Santaella, 2007). Já, os gêneros discursivos que estão mais presentes nas redes sociais são denominados de gêneros híbridos, por Santaella (2014). Na web, o discurso estritamente verbal vaza as fronteiras não
27 apenas da linearidade típica da linguagem verbal, no hipertexto, mas também da exclusividade do discurso verbal em suas misturas com todas as formas de imagens fixas e em movimento e também com som, música, ruído e fala, em multimídia. Por isso, a autora destaca a necessidade de expandir o conceito de gêneros discursivos para incluir os gêneros híbridos presentes nas redes sociais digitais. Já, o conceito de gêneros discursivos híbridos descreve as formas pelas quais o hipertexto e a multimídia transformaram a maneira como pensamos sobre linguagem e comunicação. Os gêneros híbridos são caracterizados por sua natureza multimídia, o que permite a integração de diferentes formas de mídia e linguagem. Isso cria uma nova forma de comunicação que está enraizada no passado, mas também exclusiva da era digital (Santaella, 2014). A experiência de interagir com interfaces digitais e a abundância de diferentes tipos de sinais móveis que aparecem na tela, sinais estes que são sensíveis às intervenções do usuário e dependem de sua interatividade se constituem da interação com gêneros híbridos. Quando o hipertexto se funde com a multimídia, ele se torna hipermídia, o que inclui não apenas nós textuais, mas também fotos, vídeos, músicas e outros tipos de mídia. Essa mistura densa e complexa de linguagens, incluindo símbolos matemáticos, diagramas, figuras, vozes, música e sons, cria uma nova forma de formar e configurar informações que não se limita à linguagem verbal, mas é construída por meio de relações e contágios de significados a partir de múltiplas possibilidades abertas pelo som, pela visualidade e pelo discurso verbal (Santaella, 2014). Segundo Santaella (2014), nas raízes de todas as misturas possíveis de linguagens, sempre há três matrizes fundamentais: a verbal, a visual e a sonora. A fusão do hipertexto com a multimídia cria uma nova linguagem tecida a partir de multiplicidades, heterogeneidades e diversidades de signos que coexistem na constituição de uma realidade semiótica distinta das formas de linguagem anteriormente existentes. Então ocorrem os gêneros híbridos, que se referem à pluralidade de gêneros discursivos que crescem à medida que as esferas da práxis humana se desenvolvem e se tornam complexas nas redes sociais digitais. O termo gêneros híbridos é usado para descrever o vazamento do discurso estritamente verbal além da linearidade típica da linguagem verbal no hipertexto e da exclusividade do discurso verbal em suas misturas com todas as formas de imagens fixas e em movimento e também com som, música, ruído e fala em multimídia (Santaella, 2014). A conceito de hipermídia, que é a fusão do hipertexto com a multimídia, cria uma linguagem distinta das formas de linguagem existentes anteriormente. Para entender a hipermídia, é preciso
28 mergulhar no interior de suas línguas, onde se encontram processos de signos de alta complexidade e misturas entre línguas de vários gêneros e espécies (Santaella, 2014). A hipermídia é composta por grupos de informações multimídia (texto, som, imagem) que podem ser acessados de forma não sequencial por meio de palavras-chave semi-aleatórias, criando um espaço heterogêneo que rompe com a ideia linear de um texto predeterminado e fixo. Várias aparências multimídia competem pela atenção do usuário e são acessíveis por meio de hiperlinks, criando um novo espaço visual. Então as páginas hipermídias chamam a atenção do usuário por meio da interpenetração, justaposição e multiplicação da página anterior na próxima página (Santaella, 2014). O controle das descontinuidades na hipermídia é feito pela mente do leitor imersivo, que desenvolve processos perceptivos e cognitivos únicos. O leitor imersivo pratica quatro estratégias de navegação e tem a liberdade de estabelecer sua própria ordem informativa (Santaella, 2014). Ou seja, o controle das descontinuidades em espaços hipermídia é feito pela mente do leitor, que desenvolve novos processos perceptivos e cognitivos exclusivos do mundo digital. Esse novo tipo de leitor é chamado de leitor imersivo e eles têm habilidades perceptivo-cognitivas distintas em comparação com leitores tradicionais de textos impressos ou espectadores de imagens ou cinema. O leitor imersivo pratica pelo menos quatro estratégias de navegação: escanear a tela, navegar seguindo pistas, procurando por um alvo específico e explorar informações em profundidade (Santaella, 2014). O leitor imersivo está imerso em um espaço informativo, movendo-se entre telas e programas de leitura, em um universo de sinais evanescentes e continuamente disponíveis. Assim, cognitivamente prontos, conectando-se entre nós e nexos, seguindo rotas multilineares, multissequenciais e labirínticas que o próprio leitor imersivo ajuda a construir interagindo com os nós que transitam entre textos, imagens, documentação, música, vídeo, etc. Através de saltos de um fragmento para outro, esse leitor tem a liberdade de estabelecer sua própria ordem informacional (Santaella, 2014). Cabe destacar que as redes estão cada vez mais preenchidas com aplicativos que entregam o que o leitor está procurando sem a necessidade de navegação. Assim, as descontinuidades se referem a quebras ou lacunas no fluxo de informações, que podem ocorrer ao se mover entre diferentes tipos de mídia ou ao navegar por espaços hipermídia. Hipermídia se refere ao conteúdo multimídia que está interligado de forma não linear, permitindo uma navegação não sequencial. A cognição se refere a processos mentais como percepção, atenção, memória e resolução de problemas. A percepção se refere à capacidade de perceber ou interpretar informações sensoriais (Santaella, 2014). A onipresença do leitor surgiu nos espaços de hipermobilidade, onde a mobilidade física e informacional se cruzam. Esse novo tipo de leitor está continuamente situado nas interfaces de presença
29 física e virtual, reinventando vários aspectos da vida. A linguagem da hipermídia é a linguagem de escolha desse tipo de leitor, que se torna cocriador de mensagens por meio da interação (Santaella, 2014). 1.8 Multimodalidade Para Schlemmer (2015) o conceito de espaços de vida híbridos e multimodais desafia as noções tradicionais de interações humano-ambiente. Os espaços híbridos são caracterizados pela mistura de diferentes elementos, incluindo natureza e cultura, e pela interação entre atores humanos e não humanos. Assim, os espaços multimodais incorporam várias modalidades educacionais, como e-learning e aprendizado baseado em jogos (Schlemmer, 2015). O conceito de “espaço de vida híbrido e multimodal” e como ele redefine a noção tradicional de espaço habitacional apresentada por Maturana e Varela (como citado em Schlemmer, 2015). De acordo com Maturana e Varela, a configuração dos espaços de vida ocorre por meio das interações entre os humanos e seu ambiente, o que leva à transformação dos humanos e de seus arredores. Varela enfatiza que é por meio da ação no mundo que a interpretação e o conhecimento emergem, e esses resultados dependem do contexto. A configuração do espaço vital, portanto, acontece no cotidiano e na coexistência do ser humano com seu ambiente, onde sujeito e mundo emergem juntos. A orientação enativa proposta por Varela sugere que sujeito e objeto se definem e são interdependentes. O conceito de espaço de vida híbrido e multimodal implica uma redefinição da noção tradicional de espaço de vida apresentada, e sua relação com os conceitos de híbrido e multimodal. Mudar a natureza do ambiente, de analógico para digital ou híbrido, leva a alterações na configuração do espaço habitacional. O termo “híbrido” se refere à combinação de diferentes elementos ou modos, enquanto “multimodal” se refere ao uso de vários modos de comunicação ou expressão (Schlemmer, 2015). Já, de acordo com Latour (1994 como citado em Schlemmer, 2015), híbrido se refere à mistura de diferentes elementos que resultam em um novo elemento composto. O híbrido é entendido como consistindo de múltiplas matrizes e uma mistura de natureza e cultura, o que significa que não há separação entre cultura/natureza, humano/não humano, etc. Ações e interações híbridas ocorrem entre atores humanos
36 Por fim, a característica da longevidade é um aspecto importante para Dawkins (2007), pois quanto mais tempo um meme sobrevive, maiores são suas chances de replicação. Ele classifica a longevidade em dois tipos: persistente e volátil. Memes que são replicados por um longo período de tempo são chamados de persistentes, enquanto memes voláteis têm uma vida útil mais curta e tendem a ser esquecidos ou modificados rapidamente, levando ao surgimento de novos memes. Memes voláteis também podem ser associados a memes que mudam de forma, onde seu desaparecimento não significa necessariamente o fim do meme, mas sim a sua transformação em uma nova forma. Para exemplificar algumas dessas características temos nas figuras 2 e 3 alguns memes com Richard Dawkins, o próprio criador do termo meme foi inspiração para a criação de memes. Isso demonstra o quão miméticos, fecundos e longevos podem ser os memes. Figura 2 Meme com Richard Dawkins Fonte: Museu de Memes (2019) Figura 3 Meme do meme com Richard Dawkins
37 Fonte: Museu de Memes (2019) O conceito de memes está em constante evolução e seus significados são atualizados, redefinidos e subvertidos ao longo do tempo. É comumente aplicado hoje em dia para definir um conteúdo ou uma linguagem de mídia específica, mas sua origem e o campo de pesquisa ao qual está ligado tentam responder a perguntas que há muito tempo são objeto das Ciências Sociais (Chagas, 2021). Atualmente, os memes fazem parte pulsante de uma cultura popular vinculada ao dia a dia das pessoas, através de uma forma de interação e expressão de sentimentos, não é preciso grandes conhecimentos técnicos de informática, diagramação ou programação para se criar um meme, inclusive, existem inúmeros sites intuitivos de criação e edição de memes como o memegenerator.net, makeameme. org, memecreator.org e imgflip.com/memegenerator. A acessibilidade na criação de memes, desprovida da necessidade de habilidades técnicas complexas, democratizou a participação nessa cultura digital. Como observado por Milner (2013, p. 2359), os memes são entendidos no contexto digital como “Artefactos simbólicos multimodais criados, colocados em circulação e transformados por incontáveis participantes”. Essa abordagem não apenas reforça o papel ativo dos usuários, mas também salienta a fluidez e evolução constante que os memes adquirem. Conforme afirmam Martino e Grohmann (2017, p. 97): Em seu sentido contemporâneo, a própria noção de meme não parece prescindir de uma atuação constante de todas as pessoas que entram em contato com ele para sua manutenção e sobrevivência. É necessário, se é possível manter a metáfora biológica original, que um número progressivo de indivíduos seja “contaminado” pelo meme para sua propagação. O fato é que os memes tomaram espaço nos ambientes digitais e até mesmo em organizações empresariais e portais de notícias e ultrapassaram os limites do humor para representarem os nossos afetos. Tornaram-se conteúdos populares e de alto alcance que, em tese, podem ser feitos por qualquer usuário da web , que se apropriam de determinada informação para transformá-la, pois anseiam por novos papéis mais ativos no processo de criação. Neste sentido, Martino e Grohmann (2017, p. 97) destacam:
38 Não por acaso, se apresentam como um índice dos mais explícitos da chamada “cultura participativa”: a perenidade dos memes na internet depende sobretudo dos processos de recriação feitas por outras pessoas, sem distinção alguma entre “produtores” e “consumidores”: ao que tudo indica, exceto em sua centralidade fenomênica mais estrita, memes tendem a borrar qualquer tentativa de se trabalhar com alguma definição estanque do processo de comunicação. Com a popularização do termo “meme” entre entusiastas da tecnologia e comunidades online, o conceito de memes foi redefinido como um modo de comunicação e não apenas uma ideia ou comportamento. Hoje, os memes são entendidos como uma forma de linguagem midiática e não apenas replicadores culturais ou unidades de transmissão de informações (Museu de Memes, 2019). Em outras palavras, os memes são representações de conteúdo que se propagam na internet, especialmente nas redes sociais. Originado da palavra grega “mimese”, que denota imitação, o meme tem como característica sua capacidade de viralização nas plataformas digitais. Apesar dessa capacidade de viralização, convém destacar o trecho do estudo “ In meme we trust ” (Consumoteca, 2019): Diferentemente do conteúdo viral, que repercute em seu formato original e ganha sobrevida por um tempo determinado, o meme é altamente reciclável e está em constante alteração, adaptação e reutilização. Ou seja: memes são virais, mas nem tudo que é viral é meme (para. 14). E o brasileiro, que sabe como ninguém rir de si mesmo, naturalmente encontrou no meme o veículo perfeito para representar o espírito do seu tempo (...). (para. 15). Haja vista que todos nós, ao acedermos qualquer rede social já nos deparamos em algum momento com algum meme, os quais basicamente se constituem de uma linguagem típica e popular da internet, podendo se apresentar como uma micronarrativa autoexplicativa composta por imagens, diálogos, textos (dos mais variados tipos, geralmente bem-humorados, próximos da ironia e do sarcasmo), que se encaixam com os mais diversos temas, polêmicas ou notícias. Os memes, difundidos principalmente pelas gerações mais jovens, estão relacionados diretamente com os nossos sentimentos e mobilizam naturalmente os nossos afetos, provocando reações positivas ou negativas com a propriedade de dizer coisas, que muitas vezes, teríamos uma certa dificuldade em dizer de outra forma.
39 Nesse sentido, a viralização dos memes como disseminadores de informações é um exemplo de como podemos absorver suas metáforas, mesmo quando elas não são muito apropriadas, visto que, na definição original de Dawkins (2007), os memes podem ser bons ou ruins e sustentar padrões culturais como folclore, moda, gastronomia e até racismo. Em síntese, a inserção dos memes na cultura contemporânea é inegavelmente marcante, permeando a vida cotidiana das pessoas com uma forma vívida de interação e de expressão cultural e emocional. Ao considerar o aspecto biológico dessa disseminação cultural, o conceito de meme introduzido por Dawkins (2007) ecoa a transmissão genética, enfatizando a capacidade de uma forma de evolução da cultura. Como observado por Dawkins, a cultura molda grande parte do que é singular no ser humano, e a transmissão cultural, assim como a genética, contribui para a dinâmica evolutiva da sociedade (p. 325). Apesar da ideia Dawkins (2007) de aplicar princípios biológicos à evolução cultural ser controversa, acabou se tornando amplamente aceita ao longo do tempo. Diante disso, percebe-se que os memes transcendem seu papel superficial como entretenimento na internet, emergindo como poderosas ferramentas de comunicação e expressão que moldam nossa cultura contemporânea e desempenham um papel fundamental na construção da narrativa social. Com sua reciclagem constante e sua capacidade de engajar e provocar reflexões, os memes se afirmam como um espelho multifacetado e em constante evolução da sociedade em que estão inseridos. 2.2 Memética, trolagem e os primeiros memes Na década de 1990, a psicóloga Susan Blackmore e o filósofo Daniel Dennett atualizaram o conceito de memes, estabelecendo as bases para o campo da memética (Museu de Memes, 2019; Chagas, 2020). A memética é o estudo atribuído a transmissão e evolução dos memes que tem sido frequentemente explorada em várias produções acadêmicas ou informativas. De acordo com Chagas (2020, p. 3), a memética é uma ciência centrada nas relações: “a memética (tal como a genética, no estudo das relações entre os caracteres herdados e os indivíduos; ou mesmo a cibernética, no estudo das interações entre os indivíduos e o meio) é uma ciência essencialmente relacional”. Dennett (1991; 1996 como mencionado em Chagas 2020), abraçou a memética como um paradigma teórico e o relacionou com a filosofia da mente. Ele via os memes como concorrentes em busca dos recursos das nossas mentes, os quais são limitados. Como há um número restrito de mentes disponíveis, essa competição é intensa.
40 Por outro lado, Susan Blackmore (1999) em seu livro “ The Meme Machine ” (A máquina de memes – não traduzido no Brasil), defendia o “determinismo memético”, afirmando que os memes não apenas complementam os genes, mas também podem originá-los. Na perspectiva de Blackmore (1999), os memes estão em constante disputa pela atenção e sobrevivência, e os seres humanos atuam como hospedeiros ou “dispositivos” adaptáveis para os memes. Portanto, a autora via a memética como uma abordagem não orientada pelo humano, mas sim pelos próprios memes, sugerindo que eles deveriam ser o foco principal de estudo na memética. Essa perspectiva deu à memética a chance de explorar novos territórios e compreender as condições adaptativas que moldam os memes. Ao considerar os memes como focos de estudo, a visão de Blackmore (1999) coloca a autonomia humana em segundo plano, enfatizando que os memes são conceitos ou comportamentos que dependem de apoio para se disseminarem. Isso inclui comportamentos adquiridos por meio de imitação social. De acordo com Shifman (2014), o campo da memética se desenvolveu a partir de três perspectivas: mentalista, comportamentalista (ou behaviorista) e inclusiva. A mentalista diferencia os memes de seus veículos, enquanto a comportamentalista considera os memes como ações, comportamentos ou artefatos indistintos de seus veículos. A perspectiva inclusiva alterna entre essas abordagens, admitindo memes como peças informativas copiadas por processos de imitação. Para Tarde (1899; 2011 como citado em Chagas, 2020, p. 6): São três as leis que nos possibilitam apreender os comportamentos humanos baseados em processos de imitação: as leis da repetição, que dão conta de iterações sociais; as leis da oposição, que regulam a concorrência e a inovação a partir da diferenciação; e as leis da adaptação, que apontam para a produção de variações e aptidões individuais. A partir das perspectivas apresentadas pelos estudiosos dos memes percebe-se que a memética se revela como uma exploração complexa das interações entre os memes, os indivíduos e sua disseminação. Os próprios memes e seu conceito têm passado por um processo significativo de evolução. Para Chagas (2020, p. 2), a evolução da compreensão conceitual “contribuiu para que o meme de internet fosse reconhecido como uma linguagem nativa do ambiente digital”. A primeira aparição da palavra meme na internet remonta a 1998, quando o site Memepool fez esse registro (Consumoteca, 2019). Contudo, foi somente dois anos depois que o termo começou a ser
41 empregado para descrever conteúdos difundidos pela internet (Horta, 2015). Na figura 4, a seguir, podese observar através de uma linha do tempo a evolução dos primeiros movimentos dos memes. Figura 4 Linha do tempo dos memes Baseado no estudo In meme we trust (Consumoteca, 2019) 2 O estudo aponta ainda que o primeiro meme a ser utilizado na internet foi, supostamente, criado em 1998 por Joshua Schachter que atuava num weblog chamado Memepool , onde inúmeros usuários postavam links que podiam ser compartilhados com outras pessoas (Consumoteca, 2019). A partir de então, o meme assumiu seu papel como essencial ao conjunto diário de instrumentos para que possamos nos conectar com o mundo. Os primeiros memes eram fruto de experimentações amadoras, nascidos do desejo de disseminar uma ideia de forma ágil, e foram amplamente reconhecidos em fóruns online . Isso levou à produção de memes de qualidade técnica reduzida, com um aspecto rústico que transmitia a sensação de terem sido deliberadamente criados de forma simples (Consumoteca, 2019). 2 In meme we trust trata-se de um estudo/pesquisa realizado em 2019 sobre a relevância dos memes nos dias atuais. Base: 1 mil entrevistados em todo o Brasil das classes A, B e C, sendo 53% mulheres e 47% homens.
42 Figura 5 Ui, eles vão explicar o meme Reproduzido de In meme we trust (Consumoteca, 2019) Segundo pesquisa do Wisconsin Octopus – um jornal universitário semelhante ao The Judge , a edição de 1921 da Judge Magazine possui um protomeme ou “O Primeiro Meme” (Mufson, 2018), reproduzido na figura 6, a seguir. A imagem traz os dizeres “O que você acha que parece versus o que você realmente parece”, que se assemelha muito ao meme “Expectativa versus Realidade” (ver figura 7), que se tornou popular após o filme (500) Days of Summer , esse formato se espalhou por quadrinhos na web , image macros e vídeos do YouTube e ainda tem engajamento em um subreddit dedicado (Mufson, 2018).
43 Figura 6 O primeiro meme – The Judge, de 1921 Reproduzido de Mufson (2018) Figura 7 Meme Expectativa versus Realidade Reproduzido de Zocchi (2018) Pode-se atribuir ao Facebook, por volta de 2012, as primeiras aparições dos memes próximos de como os conhecemos hoje em dia. Houve um boom de representações gráficas engraçadas – os chamados “Rage Comics ou Rage Faces”, como “Forever Alone”, que se trata de um sujeito que será sempre solitário e o “Trollface” (ver figura 8), indivíduo que gosta de trollar as pessoas. Foi nesse
44 momento que a multiplicação desse conteúdo começou a se espalhar exorbitantemente e outros tipos de memes foram criados com os mais diversos intuitos e nomenclaturas. Posteriormente, além de imagens estáticas, alguns vídeos e bordões viralizaram rapidamente pela web , alguns exemplos como os irmãos cantarolando “Para nossa Alegria (2012), Fadas do Deboche (2018), Giovana do Forninho (2013) , ilustram perfeitamente a força dos virais e armazenados na plataforma #MUSEUdeMEMES. Figura 8 Meme “ Trollface original ” Reproduzido de Wikipedia (2011) Segundo a Wikipedia (2011), o Trollface é um meme pertencente ao gênero Rage Comics , apresentando um personagem com um sorriso malicioso, frequentemente utilizado para simbolizar os trolls da internet. Entre as faces icônicas das Rage Comics , o Trollface destaca-se como um dos mais antigos e reconhecidos. Sua origem remonta a 19 de setembro de 2008, quando foi desenhado no Microsoft Paint por Carlos Ramirez, um estudante universitário de 18 anos residente de Oakland. Ramirez compartilhou a imagem em sua página do DeviantArt , intitulada Whynne, como parte de um Rage Comic intitulado Trolls , que explorava a natureza fútil do trolling na internet. Pouco tempo depois, ele postou a imagem no imageboard 4chan , onde outros usuários a compartilharam rapidamente. Nos meses subsequentes, o desenho de Ramirez ganhou impulso dentro da comunidade 4chan , transformando-se em um símbolo universal para representar trolls na internet e um personagem versátil nas Rage Comics . A popularidade do Trollface logo se expandiu para outras plataformas, como o Reddit
45 e o Urban Dictionary , ambos em 2009, e alcançou diversos sites de compartilhamento de imagens, como Imgur e Facebook. Com seu crescimento meteórico, o Trollface evoluiu para se tornar um ícone emblemático da cultura online . Segundo o Museu de Memes (2019), os memes Rage Comics (ver figura 9) são distintivamente caracterizados por rostos pálidos e desenhos com traços simples, formando um tipo de meme facilmente reconhecível. São figuras que apresentam expressões faciais exageradas, incluindo personagens como Derp, Derpina, Like a Boss, Trollface, Ok Guy, Forever Alone, Me Gusta , e outros. Comumente usados para ilustrar reações e emoções em narrativas do cotidiano, esses memes extraem humor de situações comuns. Surgiram em 2008 no 4chan com o meme “ FFFUUUU ”, inicialmente retratando circunstâncias que provocavam frustração. Em 2009, novos memes no mesmo estilo emergiram, abrangendo uma variedade mais ampla de situações cotidianas. Isso deu origem a plataformas para a criação de histórias por qualquer indivíduo (Borzei como citado em Museu de Memes, 2019). Figura 9 Memes Rage Comics Reproduzido de Museu de Memes (2019)
52 Em 1955, John Austin propôs que um enunciado pode ser empregado para realizar uma ação. Isso implica que ao falar, não apenas comunicamos informações, mas também executamos ações como assumir compromissos ou pedir desculpas (Grundlingh, 2017). Além disso, Austin destacou a importância do contexto na compreensão dos atos de fala, enfatizando que o sentido de uma declaração pode depender da situação em que é proferida (Silva, n.d.). Já Searle expandiu essa teoria ao propor a classificação dos atos de fala em três categorias principais: atos locucionários (o que é dito), atos ilocucionários (o que é realizado ao dizer algo) e atos perlocucionários (os efeitos causados ao dizer algo). Por exemplo, ao proferir a frase “Você pode me passar o sal?” (ato locucionário), o ato ilocucionário é um pedido, e o ato perlocucionário pode ser o fato de fazer o interlocutor passar o sal (Silva, n.d.). Grundlingh (2017) ressalta que Austin (1962) categorizou os atos ilocucionários, mas suas categorias foram elaboradas antes das de Searle, resultando em semelhanças entre suas abordagens. Para Austin, os atos ilocucionários podem ser classificados em: (1) Expositivos, que incluem afirmações, negações e correções; (2) Exercitivos, abrangendo advertências, conselhos e nomeações; (3) Comissivos, relacionados a assumir obrigações e expressar intenções, como prometer ou planejar; (4) Verdictivos, envolvendo julgamentos ao condenar ou avaliar; e (5) Behabitivos, como pedir desculpas, agradecer ou ordenar. Já a pesquisa de Searle (2002 como citado em Grundlingh, 2017) concentra-se nos atos ilocucionários, com ênfase em suas diferentes categorias. Searle argumenta que há cinco tipos fundamentais de atos ilocucionários: assertivos (comunicar fatos), diretivos (solicitar ações), comissivos (expressar compromissos), expressivos (expressar sentimentos) e declarativos (provocar mudanças no mundo por meio do discurso). Searle enfatiza a existência desses cinco tipos de ações linguísticas básicas, rejeitando a ideia de uma infinidade de usos linguísticos variados. A capacidade do destinatário em identificar o ato ilocucionário é essencial para uma comunicação bem-sucedida, pois essa identificação oferece as restrições adequadas para suas respostas. Shifman (2005 como citado em Grundlingh, 2017, p. 152) observa que “cada declaração cria expectativas conversacionais (implícita ou explicitamente) que nos ajudam a entender a conversa posterior”. Tais expectativas auxiliam na resposta apropriada e no reconhecimento de quando e onde a comunicação pode falhar. Nota-se então, que ao trazer a teoria sobre os atos de fala, Grundlingh (2017) propôs pensar uma forma alternativa de olhar para os memes a partir de um referencial teórico não apenas “memético”, mas comunicativo. A autora trouxe contribuições importantes ao analisar mais profundamente os memes
53 do tipo image macros e reaction shots mostrando como as escolhas desses memes são feitas em relação aos recursos semióticos específicos utilizados e como esses recursos são interpretados pelos demais usuários da internet. Os atos de fala são fundamentais para a comunicação. Toda vez que nos comunicamos com outras pessoas, nós (o falante/escritor e o ouvinte/leitor) estamos usando atos de fala para comunicar uma mensagem e entender a mensagem que está sendo recebida. Embora no passado os atos de fala tenham sido discutidos principalmente com referência à comunicação falada, os mesmos princípios podem se aplicar a textos escritos e memes (Grundlingh, 2017, p. 148). A autora assegura que, mesmo que os memes sejam compostos apenas por imagens, eles têm o potencial de servir como veículos de comunicação. Ela destaca os memes do tipo reaction shots , que transmitem as mensagens por meio de recursos visuais, como expressões faciais ou gestos, constituindo uma forma de comunicação não verbal análoga aos sinais não verbais que acompanham as conversas faladas. Apesar das diferenças na forma, a estrutura da teoria dos atos de fala pode ser adequadamente aplicada a diversos tipos de memes, incluindo os do tipo não verbal, visto que sob a visão semiótica, os sistemas de sinais verbais e não verbais se entrelaçam profundamente e a comunicação não verbal é processada de maneira análoga à comunicação verbal (Grundlingh, 2017). Por isso, na visão da autora, um meme “não verbal” (composto apenas por imagens) pode manter sua identidade como um ato de fala, desde que o destinatário compreenda as nuances contextuais incorporadas à mensagem não verbal. Destaca-se ainda o fato de que uma comunicação eficaz exige códigos compartilhados entre o autor e os possíveis leitores do conteúdo. Por isso, a interpretação de um meme depende muito do conhecimento dos memes, de suas funções e de seus usos por diferentes usuários da internet no contexto em que são usados nas redes sociais. Os memes do tipo image macro , que na visão de Grundlingh (2017) são exemplos claros dos atos de fala, são “imagens legendadas que normalmente consistem em uma imagem e uma mensagem espirituosa ou uma frase de efeito” (p. 155), podendo conter texto acima e abaixo da imagem. Uma image macro “se torna padrão quando a imagem ou a imagem e a frase de efeito são usadas repetidamente”, sendo que as image macro padrão, compostas por uma imagem estável com variações no texto são considerados pela autora como “os memes mais populares” (p. 156) que alcançam tamanho reconhecimento que são batizadas pelos internautas.
54 Um exemplo de image macro padrão é o meme do Chico Buarque Sincero (figura 14). Essa imagem já apareceu muitas vezes com diferentes frases e em diferentes contextos, tendo se popularizado para comunicar uma infinidade de temas e já foi usada até pelo próprio Chico Buarque (ver figura 15). Apoiado na ideia simples de algo bom/algo ruim, o meme utiliza a capa do álbum “Chico Buarque de Hollanda”, de 1966, e faz sucesso há anos – já ultrapassou, inclusive, as fronteiras brasileiras e foi compartilhado com legendas em inglês pela cantora Patti Smith e pela dupla de humoristas Cheech & Chong (O Globo, 2017). Figura 14 Chico Buarque Sincero Reproduzido de Consumoteca (2019) Em 2017, o renomado cantor e compositor usou seu próprio meme como recurso para revelar a inauguração de sua conta no Instagram. A publicação na rede social traz a frase “Não tinha Instagram oficial/Agora tenho”, acompanhada das icônicas expressões faciais, uma triste e outra alegre, que já se tornaram emblemáticas do músico (ver figura 15). Nota-se que houve um remix até nas imagens do meme, pois altera a sequência das expressões faciais, começando pela triste e, em seguida, vem a expressão alegre, quando na capa original do disco 3 é o contrário. 3 A capa do álbum de estreia de Chico Buarque, intitulado “Chico Buarque de Hollanda”, tornou-se um meme na internet devido às fotos do cantor sorrindo e sério. Em um vídeo viralizado em 2022, Chico revela que a capa foi resultado de uma tentativa de agradar tanto a ele quanto à sua gravadora. Ele desejava uma foto séria para se impor como compositor, enquanto
55 Figura 15 Chico Buarque publica meme de si mesmo no Instagram Reproduzido de Chico Buarque no Instagram [@oficialchicobuarque] (2017) Também é possível perceber na imagem acima que um dos comentários na publicação faz referência ao meme: “ME ACABO DE DAR CUENTA QUE ESTA FOTO ES DEL MEME AJSJKSKSKSUWSJ XDXD”, comprovando que se trata de um meme reconhecido por falantes de outras línguas, tendo se tornado internacional e compreendido como “ato de fala”, já que para Grundlingh (2017, p. 155): “(...) esses tipos de memes podem ser verbais ou não verbais e podem facilmente representar um ato de expressão ou um ato ilocucionário”. Ou seja, o orador pode afirmar, sugerir, exigir ou prometer algo a partir da imagem/meme. Já, na visão de Charaudeau (2010, p. 212), a construção de qualquer gênero de informação envolve três desafios: a) o desafio de visibilidade (atrair o interesse do público leitor); b) o desafio de inteligibilidade (tornar o conteúdo de fácil compreensão e cativante); e c) o desafio de espetacularização (gerar interesse e despertar emoções em relação ao conteúdo). Esses requisitos de visibilidade, inteligibilidade e apelo emocional são perceptíveis no meme do Chico Buarque, que conquistaram o público online até de outros países. Portanto, nota-se que se trata não apenas de um meme compreendido e compartilhado, mas que também consegue despertar o interesse de uma vasta audiência. a gravadora preferia fotos sorridentes, resultando na criação de uma capa que o próprio cantor considera absurda. Com humor, Chico brinca sobre o fato de as imagens terem se tornado piada nas redes, dizendo: “Cada vez que eu vejo, mesmo sem ser meme, eu vejo e digo “que absurdo isso aí”” (Queiroz, 2022).
56 Em suma, o que se compreende sobre a teoria dos atos de fala de Austin e Searle é que a linguagem não se limita a transmitir informações, mas desempenha um papel crucial na realização de ações, na interação social e na influência sobre a realidade. A compreensão dos diferentes tipos de atos de fala e seu contexto é fundamental para uma análise profunda da comunicação linguística. Por outro lado, a teoria dos atos de fala também se aplica para a análise dos memes, pois Grundlingh (2017, p. 159) observou que: (...) as image macro podem ser usadas para: fazer piadas sobre algo/alguém, expressar opiniões (concordar, discordar ou divergir), expressar um julgamento, expressar uma emoção, fazer uma declaração, fazer um comentário (sobre alguém/algo ou sobre você mesmo/suas circunstâncias), acusar alguém, fazer uma observação, apresentar um argumento, pedir desculpas, dar conselhos, fazer sugestões/sugerir algo, confessar algo, fazer previsões, fazer perguntas/questionar algo etc. Mas a autora destaca que não esgotou todas as potenciais funções das image macros , recomendando a condução de análises quantitativas para identificar todas as suas possíveis funções. Ela ressalta ainda que: “a comunicação por meio de memes é mais complexa do que se poderia esperar” (Grundlingh, 2017, p. 166), pois os memes não são meros artefatos midiáticos remixados de diversas formas; a interpretação correta do meme e seu contexto pelo leitor é necessária para a eficácia da comunicação, o que nem sempre ocorre. Apesar de possíveis mal-entendidos na comunicação via memes, a autora ressaltou que os usuários de redes sociais bem versados em memes parecem conseguir se comunicar com sucesso online , dado o fato de que fazer parte da cultura participativa. Sobre esse aspecto, vale resgatar o conceito de produsage , que se refere a uma forma colaborativa e participativa de produção de conteúdo que emergiu nas plataformas digitais como resultante da cultura participativa, esta última já mencionada no capítulo 1. O termo produsage foi criado por Axel Bruns em seu livro “ Blogs, Wikipedia, Second Life, and beyond: from production to produsage ” e se trata de uma combinação das palavras production (produção) e usage (uso), indicando que os indivíduos não apenas consomem passivamente informações, mas também participam ativamente na criação, modificação e compartilhamento de conteúdo.
57 Bruns (2008) argumenta que a produsage é um modelo alternativo de produção e compartilhamento de conhecimento, criatividade e cultura, mediado por tecnologias em rede e destaca que essa abordagem colaborativa e descentralizada é uma resposta aos modelos tradicionais de produção industrial. Essa mudança de um modelo tradicional de produção centralizada para um modelo distribuído, no qual a audiência se torna parte integrante do processo de produção e colabora na construção do conhecimento coletivo já foi abordado anteriormente e vai de encontro as publicações de Lévy (1994, 1999), Jenkins (2006) e Benkler (2006). Importante destacar que Bruns (2008) nomeia como “Geração C” os nativos digitais que estão ligados ao content (conteúdo), à creativity (criatividade), ao casual collapse (colapso casual), control (controle) e celebrity (celebridade). Em contraposição aos modelos industriais tradicionais, a produsage abrange processos de criação e inovação descentralizados liderados pelos participantes nas redes. No contexto dos memes, essa noção de produsage é perfeitamente aplicável, pois os memes são exemplos proeminentes de como a cultura participativa se manifesta na era digital. Os memes são produzidos e compartilhados em sua maioria por pessoas comuns, mas também podem ser criados por organizações e repercutidos pelas mídias tradicionais. O processo de criação de memes envolve a apropriação e transformação de imagens ou ideias preexistentes, combinadas com comentários, referências culturais e humor. Vale destacar, portanto, que o aspecto essencial de produsage nos memes é que o público não só consome memes, mas também os modifica e os reproduz de acordo com suas percepções, valores e experiências pessoais. A criação de memes é um exemplo claro de como os indivíduos se apropriam da informação disponível, a transformam através de sua criatividade e, em seguida, a compartilham com uma audiência ampla e diversificada. Isso ilustra o poder da cultura participativa, onde as fronteiras entre produtor e consumidor de conteúdo se tornam fluidas, permitindo a expressão individual e a construção coletiva de significados. 2.4 Classificação dos memes É importante ressaltar que a classificação e a teorização sobre cada uma das categorias de memes apresentadas nesta seção não são o foco deste trabalho, que serve apenas como uma forma de organizá-los tematicamente, afinal a classificação dos memes pode ser bastante extensa, dada a sua diversidade e algumas de suas características como a fecundidade e a longevidade (Dawkins, 2007).
58 Para ilustrar este estudo, foram selecionados, a partir do repositórium #MUSEUdeMEMES, alguns exemplares formando um tripé classificatório. Chagas (2014), questiona a natureza do meme quanto à sua definição, afirmando que o conceito não deve ser associado a uma unidade isolada de reprodução, mas sim a um fenômeno dinâmico de reapropriação e remixagem. Ou seja, os memes não são peças individuais, mas atuam como grupos, adquirindo significado em conjunto. Nessa linha de pensamento, Lehman, Rowland e Knapp (2016) argumentam que os memes devem ser estudados em grupos e não individualmente, pois são gerados de acordo com fórmulas definidas e fazem referência a outros memes. Também recomendam que seja criado um repositório de memes na internet com URLs duráveis, de forma a proporcionar estabilidade a esse meio volátil de conteúdo, o que facilitaria para os pesquisadores sobre o tema. Ainda se destaca que os memes se constituem de um novo gênero midiático na visão de Shifman (2014), ou uma nova linguagem, exigindo habilidades técnicas e culturais para sua interpretação (Knobel e Lankshear, 2007). Contudo, Chagas (2014, par. 11) ressalta que: “é preciso reforçamos o entendimento de Shifman sobre a necessidade de avaliarmos os memes não como unidades de conteúdo isoladamente apreensíveis, mas como conjunto semântico, coleção, sem o que não é possível alcançar seu significado.” Assim sendo, a opção deste trabalho foi em categorizar os memes como um mosaico ilustrativo que forma um tripé, dividido em três pilares baseados na forma, no conteúdo e na narrativa. Para esta classificação foi tido como referência Lohmann (2019). Independentemente da forma, conteúdo ou estrutura narrativa, o humor, incontestavelmente, os une. 2.4.1 Classificação baseada na forma Essa classificação agrupa os memes de acordo com sua forma de apresentação, como imagens estáticas, vídeos, GIFs animados, figurinhas ( stickers de WhatsApp), emojis, hashtags , desafios virais, entre outros. Essa classificação é importante para entendermos as diferentes maneiras pelas quais os memes são criados e compartilhados na internet. Optei por selecionar, em grande parte, os memes que se enquadrassem na categoria de image macro , que correspondem a imagens fotográficas ou desenhos acompanhados de uma ou duas frases, em geral de cunho humorístico, conforme já mencionado na definição de Grundlingh (2017), que analisou esse tipo de memes e suas mensagens como atos de fala (ver seção 2.3). A escolha foi também
59 motivada pela facilidade técnica de criar e compartilhar memes nesse formato, quando comparado com GIFs e vídeos. O termo “ image macro ” surgiu no fórum Something Awful em 2004 e se refere ao meme que consiste em uma imagem com uma legenda sobreposta. Sua popularidade decolou, no entanto, no 4chan e ganhou vida própria com os LOLcats em 2006 (Museu de Memes, 2019, par. 1). Importante ressaltar que nem todos os memes classificados como image macro seguem precisamente o padrão estético da imagem com texto sobreposto em tipografia Impact , no entanto, a lógica fundamental permanece a mesma – uma imagem complementada com texto. Dessa forma, na figura 16 estão ilustrados alguns dos tipos de image macros . Figura 16 Memes do tipo image macro Reproduzido de Museu de Memes (2019)
60 Importante ressaltar, que além da facilidade de criação e reprodução, os memes image macro costumam ser muito compartilhados como reação à publicação de outras pessoas nas redes sociais, muitas vezes como forma de fazer um comentário sarcástico sobre a publicação, como no caso do meme do Caetano com a frase: “Como você é burro, cara”. Sobre essa classificação baseada na forma, cabe destacar que há quem questione seu próprio status como meme, pois segundo Chagas (2014, par. 4): Mesmo, porém, aqueles que estão habituados a pensar os memes dentro de seu contexto e como gênero midiático, produções típicas da era digital, não raro avaliam estes conteúdos a partir de seu formato final. O resultado é uma leitura que costuma associar a ideia de meme a um subgênero específico, como os image macros , os exploitables , ou mesmo os look-alikes . Os macros se caracterizam pela presença de legendas sobrepostas à imagem. Exploitables são elementos destacados de uma imagem sobrepostos a outra. E os look-alikes são comparações entre dois atores e/ou dois personagens em painéis duplos. Em todos estes padrões, o pesquisador imediatamente associa o meme ao produto individual e com significação própria. Outro tipo de meme que viraliza com muita rapidez são os vídeos, tipos de memes que reutilizam e editam trechos de vídeos adicionando novos elementos ou legendas para criar humor. Os vídeos também podem servir como elementos para criação de image macros , a partir de alguns frames. O próprio meme de image macro do Caetano (mostrado na figura acima) se originou de uma entrevista em vídeo do compositor na qual ele responde com a frase que faz parte do meme. Outro meme que surgiu a partir de um vídeo que viralizou conhecido como “Mãe, o forninho caiu” ou “Eita, Giovana” (ver figura 17) é um clássico da internet brasileira (Museu de Memes, 2013).
61 Figura 17 Meme do tipo vídeo: “Mãe, o forninho caiu” Reproduzido de Museu de Memes (2013) O vídeo apresenta Geovanna dançando em cima de uma mesa, apoiando-se em um forninho, enquanto sua prima Wanessa filma. O forninho acaba caindo sobre Geovanna, levando a prima a correr para contar à mãe sobre o incidente (LeonardoS12, 2015). A versão original deste vídeo foi compartilhada em 2013 pela irmã mais velha de Geovanna, mas após o blog “Não Salvo” republicar o vídeo foi que teve maior popularidade. A partir de julho de 2014, Geovanna e seu episódio com o forninho ressurgiram na internet, solidificando-se como parte do repertório dos memes brasileiros. O meme de Geovanna teve várias manifestações, basta buscar no YouTube por quaisquer um de seus títulos que é possível encontrar diversas paródias do incidente, além de remixes que mesclam as falas do vídeo com músicas populares. Um dos exemplos de maior sucesso é o vídeo intitulado “Problem no Forninho”, do canal yanescudo no YouTube, que combina a música do meme com o sucesso Problem de Ariana Grande (Museu de Memes, 2013). Os emojis são pequenos símbolos gráficos ou ícones que são usados para transmitir emoções, sentimentos, expressões e contextos de maneira visual. São usados principalmente em mensagens de texto, chats, redes sociais e outras formas de comunicação digital para complementar ou substituir palavras. Na figura 18 são destacados os emojis mais usados durante a pandemia de Covid-19 segundo a Emojipedia, os emojis da esquerda correspondem ao mais usados em abril de 2020 e os da direita são do período pandêmico (CNN Brasil, 2020). O registro mostra uma forma de expressar emoções quando as palavras falhavam em descrever o estado do mundo.
68 Figura 23 Metamemes Reproduzido de Lohmann (2019) A autorreferência nesse tipo de memes ajuda a elucidar o significado dessa prática para os criadores de memes. Nesse tipo de memes há um exagero de referências à cultura pop, como as referências dos Simpsons e Titanic. Para Lohmann (2019) os metamemes exploram o desafio da criatividade em meio à repetição, abordam a solidão do palhaço e indicam certa falta de autoestima (considerando os memes como algo insignificante). O objetivo é provocar risos, e o fracasso ocorre se isso não acontecer. 2.4.3 Classificação baseada na estrutura narrativa Alguns memes seguem uma estrutura narrativa específica, como memes de reação – que retratam uma expressão, uma emoção ou resposta específica a algo, memes de formato fixo – que seguem um modelo pré-estabelecido como o meme do John Travolta Confuso ( #Confused Travolta ) que é um dos mais populares entre os memes de reação. Esse meme mostra uma imagem do John Travolta com uma expressão perdida, olhando para os lados, procurando por algo e foi incorporada a diversas
69 situações engraçadas. Ele é colocado em cenas de filmes como Star Wars, Titanic e Psicose, num videoclipe da música “Take On Me” da banda A-ha, na fila da Caixa Econômica Federal, na tela do Windows e até dentro de uma carteira vazia (ver figura 24). Figura 24 John Travolta Confuso Reproduzido de Verrone (2015) A cena original faz parte do filme “Pulp Fiction” (Tarantino, 1994), que mostra um breve momento onde o personagem Vincent Vega (interpretado por Travolta), ao entrar na casa de sua chefe Mia Wallace (interpretada por Uma Thurman), ouve a voz dela pelo interfone e fica perplexo. A expressão do ator e seu gesto de olhar para os lados em busca da fonte da voz foram transformados num GIF animado, que foram combinados com diferentes imagens de fundo, dando à expressão dele outros significados (Verrone, 2015). Segundo dados do KnowYour Meme (como citado em Lupinacci, 2017, p. 61) A “original” do GIF animado, sem modificações, teria sido utilizada pela primeira vez em 2012, quando um usuário do Reddit fez upload do trecho no
70 site Imgur a fim de utilizá-lo como reaction GIF, com a legenda “quando sou o primeiro a chegar em uma festa”. Mas foi em novembro de 2015 que o conteúdo ganhou notoriedade, quando outro usuário compartilhou uma versão em GIF em que o personagem de Travolta parecia perdido em uma loja de brinquedos lotada de bonecas, acompanhado da legenda “perguntei à minha filha o que ela queria de Natal, e ela disse: ‘Uma boneca’” (...) O GIF da loja de brinquedos atingiu rapidamente milhões de visualizações, e seu criador disponibilizou, em seguida, um tutorial para ajudar outros usuários a produzir suas próprias versões. Para Lupinacci (2017), o conjunto de remixagens desse GIF é considerado um meme devido não apenas à sua disseminação extensa, mas à sua base que foi imitada e adaptada pelos usuários em versões que compartilhavam características semelhantes. Isso resultou em um reconhecimento das diferentes variantes, formando um processo de experiência compartilhada. Outro meme que mostra um personagem confuso e pensativo e que faz sucesso em diferentes contextos é o da Nazaré Confusa (ver figura 25), porém esse meme exemplifica o tipo formato fixo, ou seja, de memes que seguem um modelo pré-estabelecido. O meme se originou de uma cena da novela “Senhora do Destino”, que estreou em junho de 2004 na Globo, tendo alcançado grande sucesso, principalmente por conta da vilã Nazaré Tedesco, interpretada por Renata Sorrah. A personagem se tornou um ícone, conhecida por suas falas cômicas e ações peculiares, incluindo assassinatos criativos. A cena específica que se tornou meme em 2016, mostra o rosto de Nazaré com expressão confusa, o qual foi transformado em GIF, e as montagens nos memes geralmente mostram legendas que ironicamente descrevem situações de confusão, geralmente com sobreposições de fórmulas, figuras ou cálculos matemáticos (Museu de Memes, 2016).
71 Figura 25 Nazaré Confusa Reproduzido de Museu de Memes (2016) Esse meme começou no Twitter e rapidamente se espalhou para o Facebook, chegando a alcançar o público internacional, onde Nazaré é conhecida como “ Math Ladie ” ou “ Confused Blonde ”. Essa personagem se tornou tão popular que foi associada a Hillary Clinton durante as Eleições Americanas e até a novele foi reprisada recentemente devido ao sucesso da personagem nas redes sociais (Museu de Memes, 2016). Outro meme do tipo formato fixo é o denominado “Por que você não amadurece?” (ver figura 26). Esse meme surgiu em um tweet em dezembro de 2015, com um diálogo irônico no qual alguém pergunta por que outra pessoa não amadurece, e a resposta zomba da pergunta usando uma fala infantilizada. O tweet ganhou mais popularidade em 2016 quando o usuário “dimitri” postou novamente o diálogo acompanhado de uma imagem de um menino com expressão de deboche, que levou a um aumento significativo de retweets e likes (Museu de Memes, 2015). 4
72 Figura 26 Por que você não amadurece? Reproduzido de Museu de Memes (2015) Em novembro de 2016, o meme migrou do Twitter para o Facebook, quando um jovem criou a página “Por que você não amadurece”, que rapidamente recebeu muitas curtidas e até teve o número de curtidas bloqueado pelo Facebook devido à alta demanda. O meme também se espalhou para outras plataformas, com variações que incluíam GIFs e image macros (Museu de Memes, 2015). Esse meme tem como característica a troca de vogais por “i”, imitando a fala infantil e conta com a participação de personagens como Aaron Bailey da série “Três é Demais”, Chloe, Suricate Seboso, Chaves e Seu Madruga, entre outros, além de referências da cultura pop e da internet (Museu de Memes, 2015). É comum que personagens conhecidos na cultura pop sejam também objeto de memes, como acontece com o personagem “Chapolin Sincero” (ver figura 27), que aparece em memes do tipo image macro . A personagem “Chapolin Colorado”, criada por Roberto Bolaños ganhou notoriedade quando Renan Schwarz, um estudante de Publicidade e Propaganda, criou uma página no Facebook em 2012 como portfólio profissional, usando o personagem para comentar com humor ácido temas do cotidiano. O sucesso foi imediato, e a página rapidamente alcançou milhares de curtidas. O meme costuma usar três imagens icônicas da personagem, cada uma com uma expressão diferente, acompanhadas por legendas satíricas sobre temas atuais. O sucesso da página oficial inspirou outras pessoas a criarem memes semelhantes em diversos formatos e plataformas (Museu de Memes, 2017).
73 Figura 27 Chapolin Sincero Reproduzido de Museu de Memes (2017) Um fato interessante sobre esse meme é ter despertado a atenção de marcas e empresas, proporcionando renda ao estudante criador. No entanto, por questões de direitos autorais, o Grupo Chespirito, detentor dos direitos das séries Chaves e Chapolin, pediu a suspensão das contas do meme nas redes sociais. Após uma mobilização dos seguidores e negociações com o Grupo Chespirito, a conta do Instagram foi restaurada (Museu de Memes, 2017). O meme representa um exemplo claro de como a criatividade e o humor da internet podem interagir com propriedade intelectual, levantando debates sobre direitos autorais e a relação entre cultura popular e redes sociais. Nesse ponto, cabe lembrar que Benkler (2006) defende a flexibilização das leis restritivas de direitos autorais e o incentivo à produção comunitária como forma de minar o modelo proprietário atual de produção de informações, o que poderia fortalecer ainda mais a cultura participativa para a criação de memes. Alguns perfis no Instagram têm alcançado bastante popularidade nas redes sociais, nos últimos anos, os quais poderiam ser classificados como memes de história em sequência, pois contam uma
74 narrativa em várias imagens ou vídeos. Um desses perfis é mantido pelo ilustrador de Moscou Gudim Anton, com as imagens de contradições “Yes, but” (“Sim, mas”) tendo alcançado 1.2 milhões de seguidores (ver figura 28). O perfil ganhou reconhecimento por produzir histórias em quadrinhos de curta extensão repletas de jogos de palavras visuais e elementos peculiares, que proporcionam uma visão inovadora do contexto contemporâneo. Figura 28 Yes, But Reproduzido Yes, But [@_yes_but] (2020) Um perfil do Instagram que não necessariamente era de memes, mas acabou por fornecer humor com certa crítica social é do artista Pedro Vinicio, que traz a frase de abertura: “Por trás de todos os desenhos ruins, existe uma pessoa que tentou fazer você sorrir” (ver figura 29). O jovem artista contava então com 15 anos quando suas ilustrações e frases de humor intrigante viralizaram, em 2020. Para muitos de seus seguidores essas imagens capturaram a atmosfera de crise pandêmica e política que o país enfrentava. Com uma mistura de humor, cultura pop, sinceridade, inteligência e muita criatividade, Pedro foi chamado de “guru do Brasil na pandemia” com apenas 15 anos. Como poucos, o jovem soube traduzir em desenhos e frases o momento sombrio pelo qual o mundo estava passando. O grande mal-estar da vida contemporânea – um coquetel de hiperconectividade, ansiedade e exaustão – foi vivido por todos. Em cores contrastantes, as ilustrações têm traços que fogem à estética normativa. Sinceridade, humor e extravagância são marcas registradas do artista (Reis, 2023).
75 Figura 29 Pedro Vinicio Reproduzido de Pedro Vinicio [@pedrovinicio80] (2023) Conforme visto até aqui, um ponto convergente no que diz respeito aos memes classificados conforme o tipo de estrutura narrativa é que sua criação é fortemente influenciada pela cultura pop e pelas situações cotidianas. A cultura pop, composta por filmes, séries, músicas, celebridades e referências da mídia, fornece elementos (imagens, GIFs, cenas) para a formação de peças humorísticas. Muitos memes são criados a partir de cenas icônicas de filmes ou programas de televisão, utilizando diálogos ou cenas memoráveis que são reinterpretados de maneira humorística. Além disso, personagens famosos e tendências da cultura pop frequentemente são incorporados aos memes, proporcionando um senso de identificação instantâneo para os espectadores que estão familiarizados com essas referências. Igualmente, as situações cotidianas são um combustível para a criação de memes. Os memes frequentemente satirizam situações corriqueiras pelas quais passamos. Assim, por meio do compartilhamento de experiências comuns, dilemas sociais ou momentos engraçados, pessoas de diferentes vivências e até origens ou línguas, podem se ver refletidas nas situações retratadas. Além disso, os memes muitas vezes exageram aspectos do cotidiano, ampliando características ou sentimentos para criar um efeito humorístico. A criação e o compartilhamento de memes é alimentado pela cultura pop e pelas situações cotidianas, assim como os memes acabam se tornando uma forma eficaz de comunicação e entretenimento nas plataformas digitais.
76 CAPÍTULO 3 - NEM TUDO SÃO FLORES ... 3.1 Da piada ao insulto No mundo digital é comum que determinada atitude ganhe grandes proporções, visto que determinado conteúdo humorístico, por ser engraçado, gera uma piada que viraliza. Mas nem sempre a piada contém apenas algo que apenas faz rir ou entreter, uma piada pode se tornar um insulto, a depender do seu conteúdo, caso seja dirigido a uma pessoa de forma negativa ou pejorativa. Igualmente, isso ocorre com as fake news , que podem motivar um linchamento ou cancelamento virtual, ou seja, um assunto de relevância pode ser reduzido à ofensas ou atitudes maldosas e prejudicar a imagem de uma pessoa na internet e até gerar consequências para sua vida pessoal e profissional. Desta forma, os memes podem refletir um lado obscuro e nem sempre inofensivo da natureza humana, pois o que é iniciado a partir de uma piada, que teria apenas a intenção de fazer rir, pode desencadear consequências desagradáveis para outrem, conforme mostrado na figura a seguir, que retrata o raciocínio desta seção. Figura 30 Do humor ao linchamento virtual Fluxo elaborado pelo autor Para Lohmann (2019, p. 89) “O humor não é uma qualidade obrigatória dos memes; no entanto, para o senso comum, é uma de suas características definidoras”. Já, Saliba (2017) ressalta que devido à sua ambiguidade e ampla aplicação, o humor não pode ser facilmente compreendido de maneira linear. O humor pode assumir várias formas, desde a simplicidade até a sofisticação, pode ser expresso de maneira verbal ou não verbal, servir como uma experiência subjetiva ou ser uma ferramenta de comunicação. Pode tanto encantar quanto provocar, surgir de maneira espontânea ou ser usado como uma técnica na interação pessoal ou profissional (Saliba, 2017). Não há limites específicos para os temas que o humor pode abordar, uma vez que podemos rir tanto de assuntos fúteis quanto graves, do profano ao sagrado, da felicidade à desdita. O humor nos permite rir de ilusões, enganos, amor, política, sociedade, outras pessoas e até de nós mesmos. Ele
77 abraça a vida e o sonho, mas também tem a capacidade de nos fazer rir da morte e de diversos outros medos (Saliba, 2017). O autor ressalta que são os usos sociais, e não o conteúdo específico das piadas, que moldam a cultura cômica de uma época. Ele argumenta que é essencial analisar esses usos, reconstruindo as práticas e as contínuas apropriações do humor que permeiam todos os aspectos da vida humana. Conforme Lohmann (2019), essa é uma justificativa importante, já que os memes surgem em grande quantidade e desaparecem rapidamente; apenas alguns permanecem na memória coletiva. Portanto, o foco não deve estar no conteúdo específico de cada meme, mas sim no fenômeno de maneira global. Para Saliba (2017) a tarefa do pesquisador é captar os dois principais aspectos da anedota: o efêmero, que está relacionado à compreensão imediata da situação, e o mais duradouro, que envolve as emoções do público e o conecta à compreensão das metáforas, personificações e elipses que compõem parte dessas “estruturas de sentimento”. Nas palavras do autor: Nenhuma piada, ou pelo menos a estrutura formal delas, continuará a ser transmitida a menos que tenha algum significado para a história naquele momento ─ e isso, mesmo que nem o falante nem o público consigam articular o significado delas por inteiro (Saliba, 2018, p. 32 como citado em Lohmann, 2019, p. 96). Ao estudar 100 piadas populares em inglês traduzidas para 9 idiomas, Shifman et al. (2014) examinaram o que eles denominaram de processo de “globalização gerada pelo usuário” e perceberam que a difusão de piadas traduzidas pela internet é comum, mas há diversas variações entre idiomas e piadas. Os autores destacam que as piadas não servem apenas como entretenimento despreocupado, mas constituem de áreas importantes onde as pessoas processam e negociam questões preocupantes. Os textos humorísticos refletem os símbolos, estereótipos, normas, aspirações, estruturas de poder e medos coletivos específicos do local e da época de sua criação. “As piadas são modos ambíguos de comunicação que permitem às pessoas invocar questões controversas sem as sanções que vêm com a comunicação “séria” sobre esses tópicos” (Shifman et al. , 2014, p. 728). A facilidade da disseminação internacional do humor, trazida pela internet, facilitou a disseminação de versões traduzidas de piadas, mesmo aquelas difíceis de traduzir, que são, em geral, aquelas que geram ambiguidade por serem baseada em trocadilhos e jogos de palavras específicos do idioma original da piada. Mas apesar dos desafios, as piadas populares na internet cruzam fronteiras linguísticas e culturais de várias maneiras. As versões traduzidas de piadas tendem a incluir apenas pequenas alterações culturais, como mudança de nome, preservando as mensagens originais. Diante
84 de 2020 e, em seguida, a jornalista recebeu uma enxurrada de xingamentos de diversas pessoas no Twitter levando ao seu linchamento virtual. Silva (2022) ressalta que a escassez de estudos sobre linchamentos virtuais e a cultura do cancelamento muitas vezes leva a uma interpretação subjetiva dos termos, que são frequentemente tratados como sinônimos em textos opinativos ou jornalísticos. Enquanto a cultura do cancelamento pode ter aspectos positivos, como combater a intolerância, como racismo, xenofobia, homofobia etc., também pode ocorrer por motivos triviais (Costa, 2020 como citado em Silva 2022). Ao contrário, Martins (2020 como citado em Silva 2022, p. 30) argumenta, que o linchamento envolve a ameaça real de morte física da vítima, “(...) Linchamento de verdade tem sangue”. Ambos os fenômenos têm sido amplamente discutidos na mídia e nas redes sociais, mas o cancelamento é caracterizado por ataques unilaterais à reputação, sem espaço para diálogo, o que pode resultar em danos psicológicos e financeiros para a pessoa cancelada. Isso inclui boicotes, perda de emprego e pressões para que marcas rompam contratos com os cancelados. O poder de julgamento recai sobre quem cancela, sem direito de defesa para o cancelado (Silva 2022). Contudo, os efeitos prejudiciais do linchamento virtual, tanto no âmbito profissional quanto pessoal de Campos Mello e seus colegas, são evidentes. As punições aplicadas e a intensidade das ações violentas afetam as futuras ações dela, levando-a a se autocensurar para evitar futuros ataques, como citado em seu livro: Mas a verdade é que linchamentos virtuais funcionam como uma censura informal. Toda vez que vou escrever uma reportagem investigativa que envolve o governo, respiro fundo e imagino o que pode vir do outro lado. Será que vão ultrajar pessoas da minha família ou fazer memes obscenos? Penso várias vezes se vale a pena escrever. E suponho que muitos jornalistas estejam experimentando a mesma sensação e de alguma maneira acabem se auto censurando. A máquina do ódio nos encara como meros factóides úteis. Mas o problema é que os danos colaterais dessa estratégia de diversionismo são pessoas reais, não avatares. É a nossa reputação que é assassinada, nosso rosto que está em milhões de memes, nosso nome que é enxovalhado (Mello, 2020 como citado em Silva, 2022, p. 41).
85 Como reforçado por Silva (2022), embora não haja danos físicos, o linchamento virtual destrói nomes, reputações e a imagem pública das pessoas. Há uma relação entre linchamentos físicos, linchamentos virtuais e cancelamentos na internet, destacando o elo subjacente entre essas manifestações de ódio. A anonimidade das interações online proporciona um ambiente propício para ações violentas na internet. A ausência de rostos e nomes identificáveis permite que os perfis se sintam livres para cometer crimes, invadir a privacidade das pessoas e ameaçá-las, como acontece nos fenômenos do linchamento virtual e do cancelamento. O ódio, que desempenha um papel fundamental em ambos os casos, é compartilhado e amplificado pelo sentimento de impunidade, o que atrai indivíduos a efetivamente buscar a aniquilação de outros. Em resumo, as práticas de linchamento virtual e cancelamentos na internet são alimentadas pelo ódio e tem consequências devastadoras, levando as vítimas, como Campos Mello, a se autocensurarem para evitar futuros ataques. Além disso, a cultura do cancelamento, pode ser bastante prejudicial, resultando em danos psicológicos e financeiros para os alvos. 3.3 Os memes no universo político Evidenciar determinados aspectos dos memes na esfera política foi pensado desde o início deste estudo como uma provocação intencional. Embora no que diz respeito à obtenção de informações, as investigações relacionadas ao universo dos memes ainda sejam tímidas e demandem análises críticas mais apuradas, através dos estudos de Chagas (2018), é notório perceber que os memes podem ser adotados como um novo gênero de comunicação política contribuindo para o desenvolvimento de novas abordagens de alfabetização e engajamento político, particularmente por meio do humor e da discussão pública. Mas apesar de seu poder de engajamento, o uso de memes políticos também pode ser controverso, pois a simplificação excessiva de questões complexas pode levar a mal-entendidos ou distorções. Portanto, enquanto os memes políticos podem oferecer uma maneira envolvente de participação do público no cenário político, é importante considerar seu contexto e alcance para uma compreensão completa das questões em jogo. A seguir são apresentadas compilações de memes relacionados a três momentos políticos brasileiros que exemplificam o poder dos memes em disseminar mensagens, expressar opiniões políticas e mobilizar ações coletivas. Por meio da análise desses casos, este estudo pretende explorar como os memes têm influenciado a dinâmica política e a construção da identidade política no cenário brasileiro. Ao investigar o papel dos memes políticos no contexto nacional, esta pesquisa busca contribuir para uma
86 compreensão do impacto das novas formas de comunicação digital na esfera pública e nas práticas políticas do Brasil, bem como compreender até que ponto o meme como fonte de informação de uma sociedade que se comunica através do humor e da informalidade pode chegar a banalizar a importância de uma determinada notícia. Em agosto de 2015, ocorreu um amplo protesto contra o governo brasileiro, conhecido como #CarnaCoxinha no Twitter. Durante essa manifestação, chamou a atenção um boneco inflável de 12 metros de altura, apelidado de “Pixuleko”, representando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O boneco vestia roupas de presidiário e exibia os números 13 171 no peito, fazendo referência a um termo usado para se referir a propina. A repercussão nas redes sociais foi imediata, gerando criações de montagens compartilhadas pelos usuários, como o perfil “Lula Inflado” no Twitter e a página “Lula Inflado” no Facebook com mais de 8 mil seguidores e 19 mil curtidas, respectivamente (Museu de Memes, 2015). Na figura 33 é possível ver algumas das montagens criativas em memes publicados na redes sociais, que retratavam o boneco “Pixuleko” em várias situações, como na lua, com os Minions, junto ao Papa, no planeta do Pequeno Principe, personagem do livro de Sain Exupéry e batendo panela (Museu de Memes, 2015). Figura 33 Case Governo Lula da Silva – “Pixuleco” Reproduzido de Museu de Memes (2015) Em março de 2016, uma conversa entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff foi divulgada através de um grampo telefônico autorizado pelo juiz Sérgio Moro. Nessa conversa, Dilma
87 anunciava a Lula que estava enviando um termo de posse para ele se tornar oficialmente Ministro Chefe da Casa Civil. A oposição interpretou isso como uma tentativa de proteger Lula de ações policiais e a expressão “Tchau, querida”, usada por Lula para se despedir de Dilma, tornou-se imediatamente popular nas redes sociais e foi replicada como deboche e ironia pela oposição, chegando a alcançar os trending topics do Twitter (Museu de Memes, 2016). A expressão “Tchau, querida” foi estampada em camisas durante manifestações de rua e o meme circulou como catchphrase e image macro (ver alguns exemplos na figura 34) expressando um comportamento coletivo de oposição política (Museu de Memes, 2016). Figura 34 Case Governo Dilma Roussef – “Tchau Querida” Reproduzido de Museu de Memes (2016) Após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, seus apoiadores mais radicais contestaram o resultado e ocuparam estradas no Brasil, fazendo com que surgisse o meme do “Patriota do Caminhão”, que emergiu de um vídeo onde um apoiador de Bolsonaro fica agarrado ao para-brisa de um caminhão que rompeu um bloqueio de manifestantes em Pernambuco. O meme debocha da situação e circulou principalmente no Twitter, sendo remixado em várias versões (ver figura 35). Chegou também ao Facebook, YouTube e Instagram, onde ganhou um filtro próprio para simular a cena. O meme foi usado principalmente por opositores do governo e ganhou destaque em notícias, virando até marchinha de carnaval. O meme é classificado como um dos melhores do ano e também teve versões imagéticas comparando-o a outros filmes e situações. O termo “Patriota do Caminhão” tornou-se um catchphrase (Museu de Memes, 2022)
88 Figura 35 Case Governo Bolsonaro – “Patriota Do Caminhão” Reproduzido de Museu de Memes (2022) Outro político que foi tema recorrente em muitos memes durante o período que antecedeu e durante o seu mandato é o ex-Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. Um desses memes, que se destacou para a comunidade da internet é o meme “Photoshop” que exibe diversos desenhos e rabiscos numa pasta aberta (ver figura 36). No entanto, essa pasta na realidade mostra a sua assinatura em uma ordem executiva datada de janeiro de 2017. A origem desse meme pode ser rastreada até uma publicação no Reddit que apresentava um GIF do Dickbutt. Logo após, diversos exemplos desse meme começaram a circular no Reddit, o que culminou na criação da conta bemhumorada no Twitter conhecida como @TrumpDraws. Essa conta compila e compartilha vários exemplos do meme, consolidando ainda mais a sua presença na internet (Willings, 2017).
89 Figura 36 Donald Trump – “Photoshop” Reproduzido de Willings (2017) Conforme foi apresentado nestes exemplos, os memes emergiram como um elemento significativo no cenário político contemporâneo, exercendo influência sobre a maneira como as mensagens políticas são interpretadas. Ao combinar humor, sarcasmo e elementos visuais, os memes políticos muitas vezes encapsulam críticas, observações sociais e pontos de vista de maneira concisa e acessível. Por meio de plataformas de mídia social, esses memes podem rapidamente se espalhar, alcançando um público amplo e diversificado, e muitas vezes desafiando as narrativas estabelecidas pela mídia tradicional. Eles têm o poder de transformar eventos políticos e debates em tópicos de discussão populares, angariar participantes para protestos e contribuem para moldar a percepção pública sobre questões importantes. No entanto, a influência dos memes políticos não se limita apenas à disseminação de ideias e opiniões. Eles também podem ser usados como ferramentas de mobilização e engajamento, convocando os cidadãos a participar ativamente de discussões políticas e até mesmo ações concretas. Esse foi o caso do movimento Occupy Wall Street (OWS), pesquisado por Milner (2013), onde os memes desempenharam um papel ativo na articulação de perspectivas entre os participantes que se engajaram criativamente no debate, facilitando a conversa entre as diversas posições, favoráveis ou contrárias ao movimento. O movimento OWS teve início com um grupo de ativistas associados à Adbusters tendo como objetivo protestar contra as injustiças sociais e econômicas. O movimento ganhou atenção nas redes
90 sociais Twitter e YouTube e a partir dos memes compartilhados nessas redes, houve uma enxurrada de argumentos populistas e comentários não convencionais que facilitaram o debate político nas redes de mídia participativa (Milner, 2013). Essa foi uma demonstração da capacidade dos memes para tornar temas complexos mais acessíveis e atraentes, devido ao seu potencial para captar a atenção de uma audiência mais ampla para assuntos políticos, incentivando o diálogo e a conscientização. Esse entendimento pode ser valioso para ativistas, movimentos sociais e campanhas políticas que desejarem utilizar memes como meio de interagir com o público e articular suas perspectivas. Chagas (2018), trouxe diversas contribuições para a compreensão dos memes da internet, demonstrando que se trata de um aspecto fundamental do processo político contemporâneo. Para o autor, o meme é uma categoria comunicacional capaz de abordar problemas multifacetados no debate político, tendo potencial retórico e persuasivo. A partir da análise de conteúdo de diversos memes políticos publicados no Twitter durante os debates presidenciais televisionados no primeiro turno das eleições de 2014, Chagas (2018) analisou como se deu a apropriação da linguagem dos memes pela propaganda política e pelas campanhas eleitorais na internet. Os resultados mostraram que a propaganda política pode ser feita por meio de memes a sua criação deve ser incentivada por parte de apoiadores e simpatizantes, desde que seja criada com a intenção específica de ganhar ampla visibilidade junto ao público, utilizando uma mensagem e/ou formato que facilite a sua disseminação. Esse formato pode ser visualizado de maneira midiática, como os pôsteres políticos online , embora também possa englobar outros meios, já que os memes não estão restritos apenas a elementos visuais. Além de peças visuais, podem ser considerados memes as mensagens que operam por meio de formas verbais ou não-verbais, canções musicais e padrões sonoros, ou ainda peças audiovisuais que seguem uma estrutura que promove a repetição ou que encoraja a sua propagação viral, como jingles , slogans , entre outros. A chave para que esses elementos se transformem em memes políticos, segundo Chagas (2018) depende da sua apropriação pelas audiências a que se destinam, ou seja, a forma como o público interage e compartilha essas mensagens, contribuindo para a sua disseminação.
91 4ITINERÁRIO METODOLÓGICO Ao longo deste estudo, buscou-se entender um pouco mais a peculiar relação entre os memes e o alcance de informações e notícias, bem como compreender as percepções das pessoas sobre esse fenômeno em diversos contextos sociais. Os estudiosos Quivy & Campenhoudt (1998, p. 44) ressaltam que “o investigador deve procurar enunciar o projeto de investigação na forma de uma pergunta de partida, através da qual, tenta exprimir o mais exatamente o que procura saber, elucidar, compreender melhor”. Desta forma e para buscar conclusões além do referencial teórico, foi empregada uma metodologia de coleta de dados fundamentada através de um inquérito exploratório e descritivo cuidadosamente elaborado, combinando questões de múltipla escolha com base na Escala de Likert e perguntas abertas optativas. A escolha dessa abordagem metodológica foi aplicada através do método Snowball Sampling (bola de neve): A amostragem em bola de neve mostra-se como um processo de permanente coleta de informações, que procura tirar proveito das redes sociais dos entrevistados identificados para fornecer ao pesquisador com um conjunto cada vez maior de contatos potenciais, sendo que o processo pode ser finalizado a partir do critério de ponto de saturação. (Vinuto, 2014, p. 205). As perguntas abertas optativas, abriram espaço para narrativas qualitativas, os participantes foram incentivados a compartilhar suas experiências pessoais, exemplos concretos e insights subjetivos o tema. Essas respostas, embora não sejam quantitativas, fornecem uma compreensão complementar e contextos valiosos que enriqueceram a análise. Essa abordagem mista, combinando quantificação e qualificação, permitiu chegar aos resultados que oferecem um panorama completo das percepções dos participantes. O critério de abordagem já mencionado foi baseado através de grupo de pessoas conhecidas que possibilitou investigar o proposto através das redes sociais, ou seja, pessoas confortáveis a compartilhar o inquérito com outra, objetivando uma saturação de 150 indivíduos brasileiros. A discussão proposta a partir de 16 questões aplicadas via Google Forms entre os dias e 4 e 5 de setembro de 2023 abordou o potencial dos memes para enriquecer a comunicação e ao mesmo tempo, destacou os desafios associados à sua informalidade. Teve como objetivo justamente, investigar
92 as expressões e atributos de uma sociedade que se comunica através do humor e da informalidade e o impacto gerado na percepção da importância das notícias, colocando à prova as hipóteses do estudo. O inquérito englobou padrões e motivações de compartilhamento de memes, assim como o papel dos mesmos na comunicação das redes sociais através de páginas de conteúdos populares e temas rotineiros, com um viés para a relação entre memes e o jornalismo e a propagação de fake News. É fundamental salientar que a coleta de dados constitui uma parte essencial das considerações finais e conclusivas. Vale destacar que as questões completas, juntamente com as respostas detalhadas, desempenham um papel fundamental na abordagem desta investigação. Sendo assim, a fim de proporcionar uma visão abrangente e permitir uma análise minuciosa dos dados obtidos, todo o material bruto foi incluído em anexo. Isso possibilita que outros pesquisadores, acadêmicos e interessados tenham acesso direto às informações completas e conduzam análises adicionais, se assim o desejarem. A decisão de apresentar os resultados no corpo do texto é motivada pela necessidade de destacar e discutir as descobertas mais significativas e oferecer uma visão holística das percepções e opiniões dos envolvidos. No entanto, encoraja-se a consulta ao anexo para uma compreensão mais abrangente e precisa dos resultados. 4.1 Questão de partida À medida que nos aproximamos da conclusão, é essencial revisitar a questão que norteou esta investigação desde o início: “Em que medida a irreverência e a informalidade da partilha de um meme é capaz ou não de banalizar a relevância de determinadas informações/notícias?” Essa pergunta nos guiou por entre as águas turbulentas da comunicação contemporânea, onde memes são como faróis que tanto podem iluminar, quanto obscurecer ideias e fatos. Ao longo desta jornada, os memes foram investigados como veículos de humor, entretenimento e surpreendentemente, como fontes de informações relevantes e agora, o resultado da pesquisa traz uma gama interessante de percepções. Vários insights valiosos revelaram-se através das respostas dos 150 participantes, no entanto, um ponto de destaque que será minuciosamente analisado adiante, é o seguinte: 47,3% dos participantes concordam parcialmente que os memes podem banalizar informações mais sérias, de grande repercussão e importância. O tom humorístico dos memes, muitas vezes, pode fazer com que as pessoas não levem a sério certos assuntos, levando a uma superficialidade na compreensão dos acontecimentos. No entanto, é importante ressaltar que essa tendência não se aplica
93 de maneira uniforme a todos os memes. Alguns deles, surpreendentemente, têm o potencial de despertar o interesse das pessoas por determinados temas. Além disso, 33,3% dos respondentes acreditam que os memes podem trazer um tom humorístico a determinados assuntos, mas não acreditam que eles banalizem completamente a importância das informações, ou seja, é fundamental que as pessoas saibam distinguir entre a natureza humorística dos memes e a seriedade das questões abordadas nas notícias. Estes e outros dados mais adiante, evidenciam o ponto de encontro entre a questão de partida, as hipóteses levantadas e o fato de que os memes não são meros elementos de humor, eles se tornaram uma linguagem própria, uma linguagem que é criada, compreendida e compartilhada por milhões de pessoas em todo o mundo, e embora levantem preocupações sobre a confiabilidade das informações transmitidas, não se pode negar o seu impacto na comunicação. Eles são um espelho da sociedade que os cria e consome, como será esmiuçado através da interpretação dos dados a seguir. 4.2 Inquérito e análise dos dados coletados 4.2.1 Perfil dos participantes A faixa etária predominante dos participantes está entre 25 e 35 anos, representando 39,5% do total, seguida por 30% na faixa de 35 a 44 anos. Observou-se a participação de indivíduos menores de 25 anos (10,5%) e acima de 55 anos (4,7%). Quanto ao gênero, 53,3% dos participantes se identificaram como masculino, 45,3% como feminino e 1,4% como outros gêneros. A escolaridade dos participantes variou, com 38% possuindo formação superior, 21,3% com especialização e 14% com mestrado ou doutorado. Participantes com ensino fundamental, ensino médio e técnico também responderam as questões propostas. 4.2.2 Comportamento em relação aos memes A análise comportamental dos participantes em relação aos memes revela que todos eles têm conhecimento e compartilham memes. Dentre eles, 32,7% compartilham memes sempre, 30,7% frequentemente e 23,3% às vezes. Os motivos para o compartilhamento variam, sendo que 43,3% citaram o humor como fator motivacional, 26,7% mencionaram uma identificação pessoal e emocional com o conteúdo do meme, e 18,7% destacaram a capacidade dos memes de transmitir mensagens ou opiniões de forma clara e rápida.
100 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Araújo, R. (2013). Rage Faces: memes e linguagem gráfica. Revista Triades , 2 (1), 1-6. https://triades.emnuvens.com.br/triades/article/view/34 Barbosa, T. D. A. F. (2021, March). Os memes e a pandemia de Covid-19 no Brasil: modos emergentes de viver e narrar. In ABCIBER XIII-Simpósio Nacional da Abciber 2020 . https://abciber.org.br/simposios/index.php/abciber/abciber13/paper/viewPaper/1333 Beggiora, H. (2018, December 23). Figurinha de meme para WhatsApp: veja como mandar stickers engraçados . TechTudo. https://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/2018/12/como-baixarfigurinhas-stickers-de-memes-para-whatsapp.ghtml Benjamin, W. (1992). Sobre arte, técnica, linguagem e política (pp. 177-196 e pp. 197-229). Relógio d’Água. Benkler, Y. (2006). The Wealth of Networks: how social production transforms markets and freedom . Yale University Press. 528 pp. Brandão, D. (2010). Cultura participativa. Resenha crítica sobre a obra Convergence Culture–Where Old and New Media Collide; de Henry Jenkins. Comunicação e Sociedade , 18 , 245-255. https://doi.org/10.17231/comsoc.18(2010).1004 Bruns, A. (2008). Blogs, Wikipedia, Second Life, and beyond: from production to produsage . Peter Lang Publishing. Camargo, I., Estevanim, M., & Silveira, S. C. da (2017). Cultura participativa e convergente: o cenário que favorece o nascimento dos influenciadores digitais. Revista Communicare , 17 , 96-118. https://static.casperlibero.edu.br/uploads/sites/5/2020/12/comunicare17-especial.pdf Carvalho, L. B. de. (2020). A democracia frustrada: fake news, política e liberdade de expressão nas redes sociais. Internet & Sociedade , 1 (1), 172-199. https://revista.internetlab.org.br/ademocracia-frustrada-fake-news-politica-e-liberdade-de-expressao-nas-redes-sociais/ Chagas, V. (2014). Problematizando o que é meme I: definições . #MUSEUdeMEMES. Consultado a 03 de 08 de 2023. https://museudememes.com.br/problematizando-o-que-e-meme-i-definicoes Chagas, V. (2018). A febre dos memes de política. Revista FAMECOS , 25 (1), 1-26. https://doi.org/10.15448/1980-3729.2018.1.27025 Chagas, V. (2021). Da memética aos memes de internet: uma revisão da literatura. BIB - Revista Brasileira de Informação Bibliográfica Em Ciências Sociais , 95 , 1-22. https://bibanpocs.emnuvens.com.br/revista/article/view/119 Chagas, V. (Ed.). (2020). A cultura dos memes: aspectos sociológicos e dimensões políticas de um fenômeno do mundo digital . SciELO-EDUFBA. https://books.scielo.org/id/ptm2d Charaudeau, P. (2010). Discurso das mídias . Contexto.
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107 7. ANEXO
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