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A música no jardim de infância e na creche como elemento de aproximação intergeracional

Silva, Marcela Catarina Vieira; Pacheco, António

Abstract

O projeto A Música no Jardim de Infância e na Creche como Elemento de Aproximação Intergeracional foi desenvolvido no âmbito de Creche e Jardim de Infância e integrado no ciclo de estudos do Mestrado em Educação Pré Escolar do Instituto de Educação da Universidade d o Minho. Este trabalho surgiu do interesse das crianças pela música e pelo facto da instituição onde foi realizado o estágio pedagógico possuir uma valência de C entro de D ia com a qual se faziam atividades conjuntas. Neste sentido pretendi que fossem desenvolvidas relações entre crianças e idosos utilizando a música como elemento de aproximação. Os objetivos foram os seguintes: ( avaliar o papel da música nas relações intergeracionais; ( aproximar crianças e idosos através da música, detetando pontos de interesse comuns; ( promover a convivência intergeracional e a interação entre crianças e idosos; ( estimular a partilha entre grupos intergeracionais; e, ( sensibilizar as crianças para a música No que concerne à metodologia de investigação, foi utilizada a Investigação Ação tendo como instrumentos de recolha de dados a observação, o registo fotográfico e vídeo e a entrevista. Quanto aos resultados obtidos, foi possível aproximar crianças e idosos, ambos os grupos ficaram a conhecer um pouco mais da sua cultura. Confirmou se, ainda, existirem pontos de interesse comuns proporcionados através da música, tais como o gosto de ouvir música, cantar e dançar, assim como a partilha de momentos de diversão. Durante o projeto, ambos os grupos intergeracionais mostraram se participativos, entusiasmados, motivados e envolvidos nas diferentes atividades, demonstrando interesse na proposta de trabalho. A música possibilitou assim, o despertar de novas relações imbuídas de afetos, sentimentos e carinhos promovendo a socialização entre os grupos.

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Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 466 doi.org/10.51891/rease.v9i4.9231 A MÚSICA NO JARDIM DE INFÂNCIA E NA CRECHE COMO ELEMENTO DE APROXIMAÇÃO INTERGERACIONAL MUSIC IN KINDERGARTEN AND NURSERY SCHOOL AS AN ELEMENT OF INTERGENERATIONAL APPROXIMATION LA MÚSICA EN LOS JARDINES DE INFANCIA Y GUARDERÍAS COMO ELEMENTO DE APROXIMACIÓN INTERGENERACIONAL Marcela Catarina Vieira Silva 1 António José Pacheco Ribeiro 2 RESUMO: O projeto A Música no Jardim de Infância e na Creche como Elemento de Aproximação Intergeracional foi desenvolvido no âmbito de Creche e Jardim de Infância e integrado no ciclo de estudos do Mestrado em Educação Pré-Escolar do Instituto de Educação da Universidade do Minho. Este trabalho surgiu do interesse das crianças pela música e pelo facto da instituição onde foi realizado o estágio pedagógico possuir uma valência de Centro de Dia com a qual se faziam atividades conjuntas. Neste sentido, pretendi que fossem desenvolvidas relações entre crianças e idosos utilizando a música como elemento de aproximação. Os objetivos foram os seguintes: (i) avaliar o papel da música nas relações intergeracionais; (ii) aproximar crianças e idosos através da música, detetando pontos de interesse comuns; (iii) promover a convivência intergeracional e a interação entre crianças e idosos; (iv) estimular a partilha entre grupos intergeracionais; e, (v) sensibilizar as crianças para a música. No que concerne à metodologia de investigação, foi utilizada a InvestigaçãoAção tendo como instrumentos de recolha de dados a observação, o registo fotográfico e vídeo e a entrevista. Quanto aos resultados obtidos, foi possível aproximar crianças e idosos, ambos os grupos ficaram a conhecer um pouco mais da sua cultura. Confirmou-se, ainda, existirem pontos de interesse comuns proporcionados através da música, tais como o gosto de ouvir música, cantar e dançar, assim como a partilha de momentos de diversão. Durante o projeto, ambos os grupos intergeracionais mostraram-se participativos, entusiasmados, motivados e envolvidos nas diferentes atividades, demonstrando interesse na proposta de trabalho. A música possibilitou, assim, o despertar de novas relações imbuídas de afetos, sentimentos e carinhos, promovendo a socialização entre os grupos. Palavras-chave: Música e Gerações. Intergeracionalidade. Educação de Infância 1 Mestre em Educação Pré-Escolar, pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho. Licenciada em Educação Básica pela Universidade do Minho. 2 Mestre em Estudos da Criança – Especialização em Educação Musical pela Universidade do Minho. Licenciado em Ensino de Música pela Universidade de Évora e Doutorou-se na Especialidade de Educação Musical, em Estudos da Criança, na Universidade do Minho. Leciona no Conservatório do Vale do Sousa, Lousada, e no Instituto de Educação da Universidade do Minho. É membro integrado do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC). https://orcid.org/0000-0003-3413-8473. Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 467 ABSTRACT: The project Music in Kindergarten and Nursery School as an Element of Intergenerational Approximation approach was developed within the scope of Kindergarten and Day Care Centre and integrated in the study cycle of the Master's Degree in Preschool Education of the Institute of Education of the University of Minho. This project arose from the children's interest in music and the fact that the institution where the pedagogical training period was carried out had a Day Centre with which joint activities were carried out. In this sense, i intended to develop relationships between children and elderly people using music as an element of closeness. The objectives were as follows: (i) to assess the role of music in intergenerational relationships; (ii) to bring children and older people closer together through music, by detecting common points of interest; (iii) to promote intergenerational coexistence and interaction between children and older people; (iv) to encourage sharing between intergenerational groups; and, (v) to raise children's awareness of music. With regard to the research methodology, action-research was used with observation, photographic and video recording and interviews as data collection tools. As regards the results obtained, it was possible to bring children and the elderly closer together, and both groups got to know a little more about their culture. It was also confirmed that there are common points of interest provided through music, such as the taste for listening to music, singing and dancing, as well as sharing moments of fun. During the project, both intergenerational groups were participatory, enthusiastic, motivated and involved in the different activities, showing interest in the work proposal. Music thus enabled the awakening of new relationships imbued with affection, feelings and care, promoting socialization between groups. Keywords: Music and Generations. Intergenerationality. Early Childhood Education. RESUMEN: El proyecto La Música en el Jardín de Infancia y en la Guardería como Elemento de Aproximación Intergeneracional se desarrolló en el contexto del Jardín de Infancia y de la Guardería y se integró en el ciclo de estudios del Máster en Educación Preescolar del Instituto de Educación de la Universidad de Minho. Este trabajo surgió a partir del interés de los niños por la música y del hecho de que la institución donde se realizó el período de formación pedagógica disponía de un Centro de Día con el que se realizaban actividades conjuntas. En este sentido, pretendía desarrollar relaciones entre niños y ancianos utilizando la música como elemento de proximidad. Los objetivos eran los siguientes: (i) valorar el papel de la música en las relaciones intergeneracionales; (ii) acercar a niños y mayores a través de la música, detectando puntos de interés común; (iii) promover la convivencia e interacción intergeneracional entre niños y mayores; (iv) estimular el intercambio entre grupos intergeneracionales; y, (v) sensibilizar a los niños hacia la música. En cuanto a la metodología de la investigación, se utilizó la Investigación-Acción con la observación, la grabación fotográfica y de vídeo y las entrevistas como herramientas de recogida de datos. En cuanto a los resultados obtenidos, se consiguió acercar a los niños y a los ancianos, y ambos grupos conocieron un poco más su cultura. También se confirmó que existen puntos comunes de interés proporcionados a través de la música, como el gusto por escuchar música, cantar y bailar, así como compartir momentos de diversión. Durante el proyecto, ambos grupos intergeneracionales se mostraron participativos, entusiastas, motivados e implicados en las diferentes actividades, mostrando interés por la propuesta de trabajo. La música permitió así despertar nuevas relaciones impregnadas de afecto, sentimientos y cariño, promoviendo la socialización entre los grupos. Palabras clave: Música y Generaciones. Intergeneracionalidad. Educación Infantil. Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 468 1 Enquadramento teórico 1.1 A importância da música no processo de aprendizagem A música acompanha o Homem desde os primórdios da sua existência, está presente em todas as culturas, no quotidiano das pessoas e pode integrar aspetos afetivos, linguísticos, cognitivos e possibilita a interação social. «A música é a linguagem que se traduz em formas sonoras capazes de expressar sensações, sentimentos e pensamentos» (MOURÃO; SILVA, 2005, p. 57). A música pode, ainda, ser um fator importante no desenvolvimento das capacidades anteriormente referidas e do desenvolvimento motor. A interação do ser humano com a música pode ser encontrada em diversos contextos sociais como: cerimónias religiosas, teatro, televisão, nos diversos meios de entretenimento e nos sentimentos patrióticos. Ao longo de toda a história da humanidade a música sempre esteve presente como forma de expressão, comunicação, protestos, festividades e é um elemento essencial da cultura dos povos. A criança tem contacto com a música desde muito cedo, uma vez que esta faz parte da sua vida desde a sua nascença, e é através da música que a criança faz a sua leitura do mundo, utilizando a linguagem verbal e corporal para apresentar os diferentes modos de perceber o ambiente que a envolve. A música contribui, desta forma, para o equilíbrio, expressão, enriquecimento educacional, socialização e desenvolvimento cognitivo das crianças. Ao expressarem-se de forma oral e corporal, as crianças sentem-se livres e desinibidas para deixarem transparecer as suas emoções, sensações e fantasias mostrando as suas diferentes maneiras de perceber, sentir e agir no mundo que as rodeia. «[…] as crianças expostas a um ambiente musicalmente rico se desenvolvem mais rapidamente do que aquelas que não têm um ambiente favorável nesse sentido» (MOURÃO; SILVA, 2005, p. 60). Nestes ambientes, musicalmente ricos, as crianças podem fazer as suas próprias interpretações face à música, ou seja, estes contextos podem despertar nas crianças diferentes formas de conhecer, interpretar e sentir através da música, dependendo da criatividade de cada uma. A expressão musical é caracterizada, dos zero aos três anos, por aspetos intuitivos e de exploração sensoriomotora. As crianças a partir dos três anos cantam com maior entoação e reproduzem ritmos. O papel do educador é importante nesta fase, uma vez que deve explorar a expressão, a produção de sons com a voz, a expressividade através do corpo e a socialização no trabalho de grupo. Dos quatro anos em diante, as crianças são capazes de Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 469 compreender os elementos da linguagem musical, participar em jogos e brincadeiras que envolvam a dança e utilizar um repertório mais alargado de músicas (MOURÃO; SILVA, 2005). A Educação Musical permite desenvolver a coordenação motora, psicomotricidade, captação visual e auditiva, memorização, raciocínio, linguagem, expressão corporal e afetiva. Durante o processo de aprendizagem musical as crianças desenvolvem o gosto pela música e é possível adquirirem saberes através de letras (de canções) significativas, tendo em conta aspetos lúdicos da relação ensino e aprendizagem. Não se pode esquecer que a música é mais que a arte de combinar sons, é uma forma de expressar sensações, sentimentos e interagir com o outro (MARTINS; RIBEIRO, 2022). A música e o movimento são atividades sociais e, quando aliadas, ajudam as crianças a sentirem-se parte do grupo e possibilitam a aprendizagem musical e a apreciação musical. A música e o movimento ajudam no desenvolvimento de competências como: participação em grupos, competências sociais, expressão de emoções, reforço do seu autoconceito ao dançar músicas de outras culturas, redefinem as suas capacidades para identificar conceitos de tempo e ritmo, apercebem-se do movimento e posições corporais, desenvolvem a criatividade e imaginação, aprendem novas palavras e conceitos, expressam situações de causa/efeito, desenvolvem capacidades de motricidade global, melhoram o balanço, a coordenação e o ritmo através de atividade de movimento e dança e melhoram a motricidade fina através de movimentos de dedos tocando instrumentos. «[…] a música insere-se como elemento criativo, subjetivo, emocional e interdisciplinar, fazendo parte da educação, pois a música é veículo pedagógico sempre presente desde os primórdios da humanidade …» (CORREIA, 2010, p. 140). A linguagem musical no processo educacional, apresenta-se como instrumento metodológico e pedagógico de significativa relevância, pois além das vantagens supra mencionadas, a música tem a interdisciplinaridade através da qual se dinamiza o processo de aprendizagem (CORREIA, 2010). A música é um elemento capaz de proporcionar a transversalidade característica da educação infantil, uma vez que a música faz parte de uma cultura é possível conhecê-la através de músicas que foram marcando a história de um país; pelas letras das canções é possível conhecer a língua, perceber as suas dinâmicas como as rimas; ao dançar diferentes tipos de músicas as crianças desenvolvem a psicomotricidade, coordenação motora e motricidade global. Sendo a música capaz de aproximar pessoas e expressar sentimentos, as crianças desenvolvem competências para trabalharem em grupo, de respeito Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 470 pelo outro, e são capazes de expressarem diferentes sentimentos e emoções. A música, assim, torna-se, para o educador, um elemento pedagógico de grande valor, por todas as potencialidades supra mencionadas e por ser um elemento interdisciplinar capaz de abranger diferentes áreas do desenvolvimento da criança. 1.2 Música e sociedade Nos dias atuais, a demografia portuguesa depara-se com a problemática referente ao envelhecimento da população. Cada vez mais a população idosa aumenta e, em contrapartida, nascem cada vez menos crianças. Mas será que não existem benefícios nestes dados? Esta característica da demografia atual pode ser a base da potencialização de troca de experiências e conhecimentos intergeracionais, em que as crianças aprendem com os idosos e vice-versa. Partindo desta questão é fundamental perceber como pode ser feita esta partilha de saberes. Segundo Mead apud Coelho (s/d, p. 20), existem três tipos de formas através das quais o conhecimento pode ser transmitido, sendo «Pósfigurativo em que as crianças adquirem conhecimentos maioritariamente com adultos; Configurativo em que as aprendizagens são resultado do relacionamento com os pares, quer adultos-adultos, quer crianças-crianças; ou Prefigurativo em que os adultos aprendem com as crianças.» Nestas relações intergeracionais, importa perceber e esclarecer que a animação intergeracional promove o «desenvolvimento de actividades que aumentam a interacção, cooperação ou intercâmbio entre, pelo menos, duas gerações e estimulem a partilha de competências, conhecimentos e experiências» (MEAD apud COELHO, s/d, p. 16). Usar a música na animação de atividades intergeracionais pode ser uma mais-valia, quer para crianças, quer para idosos, uma vez que a música é algo intrínseco às sociedades e através dela podem ser partilhados saberes, experiências e cultura. «Ouvir música, moverse ao seu som e fazer música são experiências vitais que permitem às crianças expressar-se e participar nos rituais das suas comunidades» (HOHMANN; WEIKART, 2011, p. 656). Desta forma, é possível verificar que a música se torna importante para que a criança se insira na sua própria cultura e interiorize ritos comunitários participando em casamentos e festividades, romarias, entre outros momentos. Segundo Merriam (1964) existem dez categorias das funções da música sendo elas: Função de expressão emocional; Função do prazer estético; Função de divertimento, entretenimento; Função de comunicação; Função de representação simbólica; Função de reação física; Função de impor conformidade às Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 471 normas sociais; Função de validação das instituições sociais e dos rituais religiosos; Função de contribuição para a continuidade e estabilidade da cultura; Função de contribuição para a integração da sociedade. Deste modo, é possível concluir que a música é um meio de fazer interagir gerações distintas, e que pode ser utilizada como meio de partilha de conhecimentos. A música adquire a capacidade de identificação de grupos quando atribuída a um e é muitas vezes apresentada sob a forma de herança, memória ou património (CARVALHO, 2014). Este património pode ser partilhado entre os mais velhos e os mais novos, servindo de exemplo disso os grupos de folclore em que explicam e transmitem aos mais novos o conhecimento que possuem, de modo a que esta tradição tão característica da cultura dos povos não se perca. 1.3 O papel dos Centros de Dia na sociedade de hoje A realidade demográfica em Portugal é cada vez mais envelhecida, ou seja, há cada vez mais pessoas com mais de 65 anos de idade, uma vez que é esta a idade em que as pessoas são consideradas idosas no nosso país. A esperança média de vida à nascença na última década (período 2001-2003 a 2011-2013) aumentou cerca de 3 anos situando-se agora nos 80 anos para ambos os sexos (INE, 2014). Esta situação levou à criação de respostas sociais para os mais velhos. Isto significa que nas famílias existem cada vez menos membros que possam cuidar dos mais velhos, uma vez que trabalham e não conseguem conciliar os seus horários de forma a poderem acompanhar o dia-a-dia dos seus familiares: pais ou avós. Neste ponto de vista, as soluções existentes estão ao nível das instituições oficiais e particulares, sendo os Centros de Dia cada vez mais procurados porque respondem às necessidades das famílias portuguesas. O Centro de Dia é definido por «(…) uma resposta social, desenvolvida em equipamento, que consiste na prestação de um conjunto de serviços que contribuem para a manutenção dos idosos no seu meio scio-familiar» (BONFIM; SARAIVA, 1996, p. 7), e tem como objetivos: a «prestação de servios que satisfaam necessidades bsicas; prestao de apoio psico-social; fomento das relaes interpessoais ao nvel dos idosos e destes com outros grupos etrios, a fim de evitar o isolamento» (BONFIM; SARAIVA, 1996, p. 7). Com o aumento da esperança média de vida e com a falta de tempo, devido ao trabalho dos familiares mais próximos dos idosos, foi necessário criarem-se respostas sociais de forma a colmatar as falhas existentes no seio familiar das pessoas mais velhas. Surgiram, Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 472 assim, os Centros de Dia, que ao mesmo tempo que mantêm o idoso no seu seio familiar, perto do que é seu, ocupam o seu dia com diversas atividades de forma a que se mantenham ativos física e mentalmente e possam conviver com outras pessoas, combatendo a solidão, ou seja, tendo um envelhecimento ativo. 1.4 A música nas relações intergeracionais A população idosa, como já foi referido, tende a ser cada vez mais crescente e compete à sociedade proporcionar aos mais velhos uma vida saudável e ativa de modo a combater o isolamento, a falta de relações interpessoais e a solidão que muitos idosos sofrem e que leva a um aumento da vulnerabilidade, ao aparecimento de doenças físicas e psíquicas. Para isso, cabe aos mais jovens promover a inclusão dos idosos na sociedade como seres competentes e interventivos. « no relacionamento interpessoal e intergeracional, traduzidos na construção das memórias individuais e colectivas que est o essencial para a inclusão e dignidade da pessoa humana nas suas dimensões juvenis e idosas» (CORTEZ ; SOUSA, 2012, p. 12). Neste sentido, «(…) é fundamental que diferentes gerações criem laços de interdependência, onde a troca de saberes e experiências ganhem um valor preponderante» (CORTEZ; SOUSA, 2012, p. 15). Assim, é necessário, desde cedo, abordar com as crianças o estatuto do idoso de forma a que a velhice seja vista como parte do processo da vida humana e seja aceite e compreendida, pois todos iremos envelhecer. O primeiro contacto intergeracional dá-se no seio familiar onde muitas vezes coabitam avós, filhos e netos, contudo, nem sempre isto acontece. As dinâmicas familiares têm vindo a mudar, acompanhando as mudanças sociais, sendo que o contrário também acontece, ou seja, a sociedade também acompanha as mudanças que vão surgindo no seio das famílias (BARROS, 2006). No que respeita ao relacionamento entre gerações, esse é muito variável. É mais forte a solidariedade entre as gerações quando existe coabitação de um dos pais de uma geração com um dos filhos da seguinte. Stella (2010) apresenta o modelo da Solidariedade Intergeracional que consiste em seis dimensões: Solidariedade Afetiva; Solidariedade Consensual; Solidariedade Estrutural; Solidariedade Associativa; Solidariedade Funcional; Solidariedade Normativa. Todas estas dimensões do modelo de Solidariedade Intergeracional mostram que as relações entre avós e netos e vice-versa são muito Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 473 importantes no seio familiar, uma vez que apoiam os pais na educação dos seus netos, assim como os netos apoiam os avós quando estes necessitam de cuidados ou apenas de companhia. A música é uma atividade intrínseca à cultura de qualquer comunidade, esta possibilita a comunicação entre pessoas de diferentes línguas, culturas, estratos sociais e gerações, tornando-se num elemento que pode construir uma ponte entre grupos intergeracionais. As canções da nossa tradição oral, são um exemplo vivo desta realidade, canções que foram transmitidas de geração em geração, que continuam presentes no nosso repertório de músicas de ouvido, continuando este processo de transmissão intergeracional até aos dias de hoje e que continuará nas gerações seguintes. Levitin apud Monteiro (2012), refere que todos temos uma capacidade inata para aprender qualquer música do mundo. A aproximação entre as pessoas e a música está relacionada com a indução e/ou com o aparecimento de sentimentos. Deste modo, as formas como usamos e apreciamos música variam de acordo com uma combinação de crenças pessoais aliadas ao grupo social no qual estamos inseridos mostrando, assim, que a música exerce um papel importante nas relações interpessoais (ILARI, 2006). Cantar para e/ou com as crianças e idosos não é necessário ter técnicas vocais, contudo, esta atividade conjunta, apesar de simples, ajuda no estreitamento de relações desenvolvendo afetos mútuos. No âmbito de um grupo de indivíduos que gostam de um mesmo género/estilo musical podem ser encontradas pessoas das mais variadas idades; o caso do folclore é um exemplo particular, que é um género/estilo muito ligado à cultura popular, onde é possível diferentes gerações gostarem deste género/estilo de música que transmite muita alegria e recria tradições antigas e representativas da cultura de um povo. Folkestad (2002) refere, que a identidade musical não depende somente de idade, sexo ou gosto musical, mas é o resultado dos contextos culturais, étnicos, religiosos e nacionais em que as pessoas se movimentam. 2 Metodologia de investigação A realização de um projeto de investigação necessita de uma determinada abordagem investigativa. Este trabalho foi elaborado com base na investigação-ação, isto é, «a investigação-acção consiste na recolha de informações sistemáticas com o objectivo de promover mudanças sociais» (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 292). A investigação-ação é aquela em que o investigador se envolve ativamente na causa da investigação. Existem na investigação-ação cinco caracteristicas fundamentais: participativa e colaborativa, prática e Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 474 interventiva, cíclica, crítica e autoavaliativa (COUTINHO; SOUSA; DIAS; BESSA; FERREIRA; VIEIRA, 2009). A investigação-ação tem como propósito compreender, melhorar e reformar as práticas sociais e educativas . Os dados obtidos nesta investigação foram recolhidos atrvaés das seguintes técnicas de recolha: observação, registo fotográfico e vídeo e a entrevista. Estes dados, após análise avaliativa, conduziram às interpretações e conclusões finais. 3 Tema e objetivos A observação das crianças nos contextos de Creche e Jardim de Infância evidenciou um grande interesse pela música; a participação numa atividade intergeracional onde as crianças e idosos se mostraram muito alegres e entusiasmados, por fazerem parte de uma atividade conjunta, impulsionou a temática deste trabalho. O projeto, então, desenvolvido, intitulou-se A Música no Jardim de Infância e na Creche como Elemento de Aproximação Intergeracional e foram delineados os seguintes objetivos: (i) avaliar o papel da música nas relações intergeracionais; (ii) aproximar crianças e idosos através da música, detetando pontos de interesse comuns; (iii) promover a convivência intergeracional e a integração entre crianças e idosos; (iv) estimular a partilha entre grupos intergeracionais; e, (v) sensibilizar as crianças para a música. 4 Atividades e reflexões 4.1 Atividades realizadas em contexto de Creche 1ª Atividade: Exploração de instrumentos musicais portugueses A primeira atividade a ser implementada debruçou-se sobre a Exploração de instrumentos musicais portugueses e as crianças tiveram a oportunidade de conhecerem e fazerem uma experimentação deste instrumentos: conforme ia mostrando os instrumentos perguntava se sabiam o seu nome e depois deixava que as crianças os experimentassem. Os instrumentos usados foram o cavaquinho, as castanholas, a concertina e a harmónica. Todas as crianças se mostraram divertidas e curiosas com os novos instrumentos. De seguida, fomos até ao Centro de Dia ter com os idosos para uma exploração conjunta. Quando lá chegamos, e depois de uma enérgica saudação de bons dias, perguntei às crianças o que tinham ido lá fazer, o que foram mostrar aos idosos e o que é que algumas delas tinham ido pedir aos idosos no dia anterior, ao que responderam acertadamente a todas Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 481 cada um com a sua experiência, conseguindo alcançar os objetivos do projeto. No final as crianças cantaram uma canção, como forma de se despedirem dos idosos. Esta atividade permitiu às crianças desenvolverem experiências-chave como: construir relações com as outras crianças e adultos, ao conversarem entre si e com os idosos e na participação das rotinas do grupo; a linguagem oral foi, também, desenvolvida ao conversarem e responderem às perguntas; o saber ser e saber estar foi determinante uma vez que o respeito pelos outros e por si foi importante: ao esperarem pela sua vez para falar, ao ouvirem os avós e o que eles tinham para dizer e, ainda, o manter respeito pelas opiniões de cada um. CONSIDERAÇÕES FINAIS A utilização de música como elemento de aproximação intergeracional surgiu da observação dos contextos, Creche e Jardim de Infância, onde as crianças mostraram um grande interesse cantando ou dançando quando ouviam música. Durante o tempo de observação, pude verificar que eram feitas atividades conjuntas com o Centro de Dia, cujo edifício se encontrava (e encontra) ao lado do edifício onde está inserido o Jardim de Infância e a Creche. Juntar estas valências pertencentes à mesma instituição utilizando a música como ponte para essa ligação foi o mote para a realização do Projeto de Intervenção. Este projeto, considerando a conjuntura, prendeu-se, também, com a designação de cada vez mais, no nosso país, existirem Instituições Particulares de Solidariedade Social que se mostram preocupadas, não só, pela educação das crianças, mas, também, pelo propósito de apoiar as famílias que necessitam de cuidados relacionados com as pessoas idosas. As diversas atividades desenvolvidas ao longo do estudo permitiram observar que esta aproximação intergeracional, utilizando a música como elemento de ligação, foi uma mais valia para ambas as gerações participantes do projeto. Os idosos mostraram-se muito entusiasmados por poderem partilhar um pouco das suas histórias de vida, que são histórias de uma geração marcada pelo trabalho árduo nos campos, e das músicas das suas juventudes ligadas à tradição oral e à ruralidade. As crianças, por sua vez, estavam sempre muito empolgadas quando se dirigiam para o Centro de Dia, porque, desta forma, partilhavam um pouco das suas pequenas vidas e das suas músicas, também elas da tradição oral e da ruralidade, com os seus avós emprestados, reiterando princípios culturais. Esta convivência consubstanciou-se, para além da presença física, na transmissão e vivência de emoções, Revista IberoAmericana de Humanidades, Ciências e EducaçãoREASE Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. São Paulo, v.9.n.04. abr. 2023. ISSN - 2675 – 3375 482 conhecimentos, afetos, carinhos e na partilha de diferenças culturais afetas aos grupos. A música desempenha para os intervenientes um papel relevante nas suas vidas, na medida em que ambos os grupos gostam de ouvir música, dançar, cantar e gostam de músicas antigas e modernas que representam momentos importantes das suas vidas. A música funciona, ainda, para os dois grupos, como forma de divertimento social. Durante o projeto, foi possível avaliar que a música tem um papel relevante na aproximação intergeracional, na medida em que ao serem partilhadas músicas de diferentes gerações, estas conhecem-se melhor, conhecem melhor a sua cultura, uma vez que a música é parte integrante do património cultural de um país, marcando momentos cruciais da sua história. De facto, com este projeto, pude verificar que, através da música, crianças e idosos foram capazes de se aproximarem, criarem relações entre si, partilharem experiências, ideias, momentos de socialização e conhecimentos; a música apresenta-se como um extraordinário veículo de ligação entre as pessoas: os objetivos inicialmente traçados para este projeto foram atingidos. REFERÊNCIAS AFONSO, Natércio. Investigação Naturalista em Educação - Um guia prático e crítico. Porto: Edições ASA, 2005. BARROS, Myriam Lins de. (Org.). Família e gerações. Rio de Janeiro: FGV, 2006. BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigação Qualitativa em Educação – Uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora, 1994. BONFIM, Catarina de Jesus; SARAIVA, Maria Eugénia. Centro de Dia (condições de localização, instalação e funcionamento). Lisboa: Direcção-Geral da Ação Social Núcleo de Documentação Técnica e Divulgação, 1996. CARVALHO, João Soeiro de. 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