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Joana Alexandra Rodrigues da Silva Tradução e comunicação multimodal e multilingue da ciência: experiência profissional no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia UM i n h o | 2023 Joana Alexandra Rodrigues da Silva Tradução e comunicação multimodal e multilingue da ciência: experiência profissional no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia abril 2023
Joana Alexandra Rodrigues da Silva Tradução e comunicação multimodal e multilingue da ciência: experiência profissional no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia Relatório de Estágio Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Sílvia Lima Gonçalves Araújo Professor Doutor António Abel Vieira de Castro abril 2023
II DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
III AGRADECIMENTOS Antes de mais, gostaria de dar os meus mais profundos agradecimentos à minha família. À minha mãe Marta e ao meu irmão André por serem o meu pilar, chão e fundação. À minha melhor amiga, Catarina, pelas gargalhadas incontáveis, pelas histórias vividas inesquecíveis, pelas palavras amáveis nos momentos de maior inquietação e pelo apoio sem fim. Muito obrigada. À Patrícia Barroso, por ser constantemente incansável e pela sua contínua disponibilidade em ajudar. O meu muito obrigada pelo teu tempo e valiosa ajuda ao longo de todo este processo. Aos cientistas e a toda a equipa do INL , que me marcaram com a sua contribuição. Sem vocês este projeto não seria possível. Obrigada. A todos os docentes do Mestrado de Tradução e Comunicação Multilingue, o meu obrigada por me transmitiram os conhecimentos, competências e valores certos que me permitiram concluir esta etapa com sucesso. À Universidade do Minho por ser a minha casa há 5 anos, por me ter proporcionado os momentos mais extraordinários e as amizades mais memoráveis. Vou ter saudades. Por fim, aos meus orientadores, Professora Sílvia Araújo e Professor António Castro, pela sua orientação exímia, pela sua disponibilidade, por toda a sua criatividade e por toda a ajuda prestada. Estou-lhes muito grata.
IV DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
V Resumo Nas últimas décadas, ocorreu uma evolução tecnológica sem precedentes que proporcionou a criação de novos meios de comunicação e divulgação. A comunicação digital, um conceito recente, assume um papel importante relativamente à divulgação de qualquer tipo de conteúdo através da presença da multimodalidade. Neste contexto, a ciência, mais propriamente a nanotecnologia, apresenta-se como uma área importante que deve ser comunicada através de uma grande diversidade de canais de comunicação, de forma que a ciência seja disseminada por toda a população e que, consequentemente aumente a literacia científica. O presente relatório apresenta não só a componente teórica, mas também a componente prática da experiência adquirida no decurso do estágio curricular, no âmbito do Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue da Universidade do Minho no International Iberian Nanotechnology Laboratory ( INL ), um centro de investigação que se foca no desenvolvimento da Nanotecnologia. Realizado em parceria com o projeto PortLinguE e o INL , o estágio curricular teve como principal objetivo desenvolver um recurso digital, designado de NanoTool , que resultou da criação de conteúdos multimodais e multilingues para a comunicação digital da ciência. Palavras-chave: Comunicação digital; Multilinguismo; Multimodalidade; Nanotecnologia; Simplificação; Tradução
VI Abstract In the last decades, an unprecedented technological evolution has occurred that has provided the creation of new means of communication and dissemination. Digital communication, a recent concept, assumes an important role in the dissemination of any kind of content through the presence of multimodality. In this context, science, more specifically nanotechnology, presents itself as an important area that should be communicated through a wide variety of communication channels, so that science is disseminated to the entire population and, consequently, increases scientific literacy. This report presents not only the theoretical component, but also the practical component of the experience acquired during the curricular internship as part of the Master's in Translation and Multilingual Communication at the University of Minho at the International Iberian Nanotechnology Laboratory (INL), a research center focused on the development of nanotechnology. Carried out in partnership with the PortLinguE project and the INL, the main goal of the internship was to develop a digital resource, called NanoTool , which resulted in the creation of multimodal and multilingual content for the digital communication of science. Keywords: Digital communication; Multimodality; Multilingualism; Nanotechnology; Simplification; Translation.
VII Índice DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS .............. II AGRADECIMENTOS .................................................................................................................. III DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ............................................................................................... IV Resumo ..................................................................................................................................... V Abstract .................................................................................................................................... VI Índice ...................................................................................................................................... VII Índice de Figuras .................................................................................................................... VIII Índice de Tabelas ................................................................................................................... VIII 1. Introdução ........................................................................................................................ 1 1.1. Identificação do problema ......................................................................................... 1 1.2. Objetivos do estágio .................................................................................................. 2 1.3. Estrutura do relatório de estágio ................................................................................ 2 2. Enquadramento Teórico .................................................................................................... 4 2.1. Multimodalidade na comunicação digital .................................................................... 5 2.2. Comunicação digital da ciência .................................................................................. 9 2.3. Importância da literacia científica ............................................................................. 17 2.4. Tradução aliada à simplificação da ciência ............................................................... 20 2.5. Multilinguismo na tradução da ciência ..................................................................... 27 3. Atividades Desenvolvidas no Estágio Curricular ................................................................ 31 3.1. Breve contextualização ............................................................................................ 31 3.1.1. International Iberian Nanotechnology Laboratory ( INL ) ...................................... 31 3.1.2. Projeto PortLlinguE .......................................................................................... 33 3.2. Recurso digital - NanoTool ....................................................................................... 35 3.2.1. Podcast - Entrevistas aos cientistas do INL ....................................................... 35 3.2.2. Mapeamento multimodal da investigação realizada no INL ............................... 50 3.2.3. Glossário INL ................................................................................................... 58 3.2.4. Pré-visualização da plataforma Lang2Science ................................................... 61 4. Considerações Finais ...................................................................................................... 64 Referências Bibliográficas ....................................................................................................... 66
6 Devido à evolução tecnológica, o ato de comunicar com qualquer pessoa, a partir de qualquer lugar e hora, tornou-se possível. A comunicação digital elevou a comunicação a um outro nível, permitindo que o texto, o visual (imagem, vídeo), o áudio (música, voz), os gráficos e os dados existam simultaneamente no mesmo suporte (Porfírio et al., 2015). Sendo que a sociedade se encontra num estado de evolução constante, é fundamental referir que a tecnologia ocupa um lugar cada vez mais relevante. Há cada vez mais uma maior necessidade de a humanidade estar sempre conectada. Consequentemente, há uma crescente procura por novas formas de comunicação. Logo, é esperado que tudo o que envolva a comunicação digital continue a expandirse, com o intuito de responder às necessidades da população. Grami (2016) concorda com esta informação, quando refere que a tendência desta procura é emergente, no sentido da criação de aplicações multimédia de baixo custo, com alta velocidade e alto desempenho, que sejam totalmente seguras, altamente personalizadas, de acordo com o contexto, sensíveis em termos de localização e críticas no que toca ao tempo. Ou seja, é necessário que as várias aplicações de comunicação digital sejam cada vez mais eficientes e mais acessíveis em termos de preço. Por outro lado, as inovações tecnológicas proporcionam a existência simultânea de diversas modalidades comunicativas, presentes em redes sociais, websites , aplicações móveis, programas de televisão, entre outras. Adicionalmente, estas modalidades de comunicação apresentam variados recursos, desde gestos, textos com tamanhos e cores diferentes, imagens, fotografias, animações, áudios, desenhos, etc. Este fenómeno da comunicação é denominado de multimodalidade. O conceito de multimodalidade é alvo de investigações científicas desde o século 4. No entanto, só em meados dos anos 90 é que o termo foi definido e estudado com mais exatidão (Jewitt et al., 2016). Segundo Kress (2010), um famoso estudioso deste tema, a multimodalidade no seu sentido mais básico é uma teoria de comunicação e semiótica social, que descreve as práticas de comunicação em termos de recursos linguísticos, auditivos, gestuais, espaciais e visuais - ou modos - utilizados para compor mensagens. Gunther Kress (2010) traça a origem dos modos na adaptação do enquadramento de Halliday (1984) para outros modos que não apenas o diálogo e a escrita. Posto isto, os modos referem-se a um conjunto de recursos social e culturalmente moldados para fazer sentido, ou seja, define-se como um “canal” de representação ou comunicação. Neste sentido, a Figura 2 apresenta cinco
7 modos compostos por vários elementos que integram cada forma de comunicação, nomeadamente o modo linguístico, que faz referência ao vocabulário, à estrutura e à gramática da linguagem oral, falada ou escrita; o modo sonoro, que faz alusão à música e aos efeitos sonoros; o modo espacial, que integra espaços ambientais e espaços arquitetónicos; o modo gestual, que é composto pela linguagem corporal e pelo comportamento e o modo visual, que representa as imagens, os layouts das páginas e os formatos de ecrã. ( The New London Group , 1996, p. 28) Figura 2. Diferentes modos de comunicação Isto significa que a multimodalidade combina diferentes recursos semióticos verbais e não verbais presentes em textos ou fenómenos comunicativos (Adami, 2016). Como tal, toda a linguagem é, sempre foi e sempre será, multimodal e acaba por ser um estado normal da comunicação humana (Kress, 2010). Então, qualquer uso da comunicação, seja feita de modo Fonte: The New London Group, 1996.
8 presencial ou a distância, de modo síncrono ou assíncrono, online ou offline , depende de mais do que um meio de comunicação. Nos últimos anos, a produção de texto tornou clara a noção de que os textos são multimodais devido ao impacto social das tecnologias digitais, evidenciando que, mais uma vez, só e apenas o uso da linguagem não é suficiente para clarificar o significado dos textos (Adami, 2016). Atualmente, devido ao crescimento exponencial das tecnologias digitais, a internet acabou por facilitar a comunicação e publicação de textos multimodais, tais como páginas web , animações, filmes, música, dança, drama, narração de histórias, imagens em movimento ou fixas, etc., bem como a sua respetiva distribuição a públicos bastantes diversificados e com necessidades diferentes. Consequentemente, esta forma de comunicação acaba por ter um impacto na mente do público-alvo, uma vez que o mesmo é exposto a uma realidade onde a informação foi e é difundida à velocidade da luz, a apenas um clique de distância. Como resultado de um mundo cada vez mais digitalizado, os textos multimodais aliados à comunicação acabam por ter um papel importante no que toca à literacia e ao combate da desinformação, uma vez que a multimodalidade facilita a assimilação da informação exposta (Araújo & Hannachi, 2021). Torna-se claro que nem todos os recursos multimodais têm o objetivo de ensinar algo. No mundo digital atual, a internet não só ensina, como entretém e vende e, como tal, os recursos multimodais disponibilizados têm os mais variados objetivos, dependendo do seu conteúdo. Apesar de ser evidente que a multimodalidade apresenta inúmeras vantagens e finalidades, é importante adotar uma perspetiva focada na multimodalidade como meio para aumentar a literacia.
9 2.2. Comunicação digital da ciência Apesar do conceito de ciência ser bastante amplo e complexo no que toca ao desenvolvimento do conhecimento, a definição da mesma ainda não é clara e é algo bastante discutido entre os estudiosos do tema. Ruão et al. (2015) apresentam diversas perspetivas de vários cientistas sobre esta noção. Segundo Einstein (2005), por exemplo, o mesmo sugeriu que a ciência, como um todo, não é mais do que um refinamento do pensamento comum. Feynman (1998) revela que vê a ciência como uma compreensão da natureza. O conceito de ciência também incorpora perspetivas experimentais (Oppenheimer, 1954), visões sociais (Morin, 1994), paradigmas metodológicos (Burns et al., 2003) e tendências de livre pensamento. Segundo Burns et al. (2003), por exemplo, a American Association of Physics Teacher (1999), propôs uma definição de ciência que apresenta uma visão mais concreta da ciência: “ Science is the systematic enterprise of gathering knowledge about the world and organizing and condensing that knowledge into testable laws and theories. The success and credibility of science is anchored in the willingness of scientists to: (1) expose their ideas and results to independent testing and replication by other scientists; this requires the complete and open exchange of data, procedures and materials; (2) abandon or modify accepted conclusions when confronted with more complete or reliable experimental evidence. ” (p. 659) Burns et al. (2003) referem ainda que há muitos dicionários que amplificam esta definição, em que se destaca a utilização do método científico como forma de identificar qualquer atividade como parte da ciência. Mencionam ainda que o relatório Science for All Americans identifica o facto de que a ciência é realizada no seu contexto social e, consequentemente, influenciado pelo mesmo. Apesar da importância de estabelecer o conceito e os limites da ciência, os seus métodos, regras, rituais e línguas são difíceis de serem compreendidos pelos cidadãos comuns (Ruão et al., 2015). Desde os anos 60, a relação entre a ciência e a sociedade tem vindo a sofrer alterações. A ciência começou a ser percecionada de um modo mais negativo, a partir do momento em que algumas das suas descobertas influenciaram negativamente a sociedade, como foi o caso de
10 Chernobyl. A verdade é que para a ciência funcionar e para o mundo beneficiar das suas descobertas, erros têm de ser cometidos. Contudo, as consequências desses erros não são bem vistos universalmente, mesmo que os mesmos tragam benefícios após terem sido corrigidos. Nos últimos anos, o cenário não tem melhorado. A ciência aliada à tecnologia evoluiu de tal forma que há uma preocupação cada vez maior sobre o impacto negativo que este desenvolvimento pode ter em vários aspetos da vida humana. Segundo Jucan e Jucan (2014): “ Pollution and physical harm continue to be among the unintended consequences of many beneficial technologies such as electronics, pesticides and vaccines. The increasing dependence on fossil fuel based technologies is changing the planet’s climate, with very serious implications for future generations. ” (p. 462) Para além destes fatores, segundo a Comissão Europeia (2010), a maioria dos cidadãos europeus acham que “ scientists cannot be trusted to tell the truth about controversial scientific and technological issues ” (p.19) . Devido à necessidade de financiamento, a ciência acaba por ter laços estreitos com a indústria e iniciativas privadas, o que pode pôr em causa a objetividade da ciência, bem como a sua abertura em termos de comunicação. Em adição, Ipsos MORI (2011) revela que os elevados níveis de cobertura de imprensa no que toca aos principais tópicos científicos controversos como as alterações climáticas, a energia nuclear ou os alimentos geneticamente modificados levaram a um amplo grau de polarização e incerteza na opinião pública. Para além da cobertura de imprensa, a tecnologia permite igualmente um acesso ilimitado à informação científica por parte da sociedade. Apesar deste fenómeno ter inúmeras vantagens, também providencia informação errada, o que faz com que o cidadão comum se veja confrontado com um grande número de opiniões e “factos” e assim se coloque numa posição afastada da ciência, como o tão recente caso da Covid-19, que dividiu opiniões e confiança na ciência. Posto isto, segundo Bultitude (2011), há quatro fatores culturais que influenciaram a separação da ciência da sociedade, dos quais a perda de perícia e autoridade dos cientistas, a mudança na natureza da produção do conhecimento, a melhoria das comunicações e proliferação das fontes de informação e o défice democrático. Apesar desta crise entre a sociedade e a ciência, o International Council for Science (ICSU) , na sua revisão estratégica (2005), apresentou as mudanças mais importantes que têm
11 implicações para a comunidade científica internacional e concluiu que, a fim de reforçar a ciência em benefício da sociedade, os cientistas precisam de ser recetivos à evolução das necessidades e preocupações da sociedade e a sociedade, por sua vez, precisa de compreender e apoiar o papel positivo da ciência. É de notar, então, a importância de uma relação forte entre a ciência e a sociedade, visto que ambas são essenciais para a existência de uma e outra. Pois, tal como é sabido, a ciência tem uma forte influência em todos os aspetos do quotidiano da sociedade, desde a nível tecnológico, cultural, ambiental e económico. Deste modo, é necessário que haja uma maior compreensão da ciência por parte da sociedade e uma maior e melhor comunicação da parte da ciência, com o objetivo de criar uma relação mais sólida e profunda que seja baseada na confiança entre ambas. Para tal ser possível, é essencial que todos os aspetos que remetem à ciência não sejam apenas confinados ao espaço em que a mesma é produzida. A Comunicação da Ciência é, então, a chave para alcançar esse objetivo, pois vai conectar a produção dos conhecimentos científicos ao público em geral. Tradicionalmente, a Comunicação da Ciência evoluiu através da divulgação de resultados de investigação em teses, em periódicos especializados ou através de apresentações orais em seminários académicos ou conferências. Contudo, o interesse e a disseminação da ciência a públicos não especializados aumentou ao longo do último século. Tendo em conta um relatório divulgado em 2001 do “ Office of Science and Technology and the Wellcome Trust” , o mesmo indica que o termo comunicação da ciência engloba a comunicação entre grupos dentro da comunidade científica, incluindo os do meio académico e da indústria; a comunidade científica e os meios de comunicação social; a comunidade científica e o público; a comunidade científica e o Governo, ou outros em posições de poder e/ou autoridade; a comunidade científica e o Governo, ou outros que influenciam a política; a indústria e o público; os meios de comunicação social (incluindo museus e centros científicos) e o público; o Governo e o Público. Os resultados deste relatório revelam, então, que para a comunicação da ciência ser feita corretamente, a mesma tem de passar por um grande número de participantes importantes, de modo a chegar a todos.
12 Burns et al. (2003) definiram a Comunicação da Ciência como a utilização de competências, meios de comunicação, atividades e diálogo apropriados para produzir uma ou mais do que uma das seguintes respostas pessoais à ciência, a partir de uma analogia das vogais (AEIOU): • Awareness : Consciencialização, incluindo a familiaridade com novos aspetos da ciência; • Enjoyment : Desfrutar ou outras respostas afetivas, por exemplo, apreciar a ciência como entretenimento ou arte; • Interest : Interesse, evidenciado pelo envolvimento voluntário com a ciência ou a sua comunicação; • Opinions : Opiniões, a formação, reformulação ou confirmação de atitudes relacionadas com a ciência; • Understanding : Compreensão da ciência, do seu conteúdo, processos e fatores sociais. Esta analogia das vogais é um rótulo conciso que personaliza os objetivos impessoais da consciencialização científica, compreensão, alfabetização e cultura e, deste modo, define o objetivo da comunicação da ciência (Burns et al., 2003). Segundo Burns et al. (2003), a criação da analogia das vogais foi baseada em quatro conceitos diferentes, mas que se encontram interligados: • A consciencialização do público para a ciência visa estimular a sensibilização e atitudes positivas (ou opiniões) em relação à ciência. • A compreensão pública da ciência (o seu conteúdo, processos e fatores sociais); • Literacia científica, quando as pessoas estão conscientes interessadas e envolvidas, formam opiniões sobre a ciência e procuram compreender a mesma; • A cultura científica é um ambiente que abrange a sociedade, que aprecia e apoia a ciência e a literacia científica. Ou seja, para além da comunicação da ciência envolver profissionais da ciência, mediadores e outros membros do público em geral, tal como já foi mencionado, ainda abrange aspetos relativos à forma como a sociedade pode percecionar a ciência para melhor compreendê-la. A comunicação da ciência pode ocorrer através de várias formas e métodos, e, como tal, apresenta várias abordagens e opiniões. Por exemplo, Rowe e Frewer (2005) apresentam uma abordagem composta por três vertentes, que consiste na Comunicação (fluxo de informação do
13 “patrocinador” – organização científica – para os representantes públicos), Consulta (direção da viagem da informação dos representantes públicos para o patrocinador) e Participação (comunicação entre o patrocinador e os representantes públicos). Bucchi (2008), apresenta um quadro multimodelo idêntico, no qual envolve Transferência, Consulta e Coprodução de Conhecimento. Apesar destas abordagens captarem os principais tipos de métodos de comunicação, Bultitude (2011) refere que as mesmas podem encorajar para a tendência de colocar todas as atividades dentro de um ou mais “silos”, ou seja, completamente separadas umas das outras. Entretanto, foi desenvolvida uma abordagem pelo Science for All (2010), em que foi criado um triângulo (Figura 3) que apresenta três abordagens importantes na comunicação: Transmitir, Receber e Colaborar, que estão igualmente presentes nas abordagens mencionadas anteriormente (Rowe & Frewer, 2005 e Bucchi, 2008). Contudo, esta abordagem reconhece que cada método de comunicação não atua de modo isolado, mas que envolve a mistura destas três abordagens, de acordo com as necessidades do(s) público(s) e dos cientistas envolvidos (Bultitude, 2011). Figura 3. Abordagem Triangular da Comunicação da Ciência Fonte: Science for All, 2010.
14 Para além das várias abordagens, existem igualmente várias formas de comunicar a ciência. Segundo Jucan e Jucan (2014), a mesma pode ocorrer através de jornalismo tradicional (tanto impresso como transmitido), eventos ao vivo ou presenciais, nomeadamente palestras públicas, debates, diálogo, centros de ciência, museus de ciência, etc. e interações online, ou seja, jornalismo online, websites , blogs, wikis , podcasts , Facebook, Twitter, outras redes sociais, etc. É notório que todas as formas de comunicação da ciência supracitadas são importantes. Contudo, o ambiente de informação online diferencia-se do ambiente de informação offline devido à sua amplitude de alcance e à grande quantidade de utilizadores, ou seja, é uma ferramenta poderosa que não só permite uma constante criação de novos canais de comunicação entre a ciência e a sociedade, como também um maior alcance de um público não especializado. Atualmente, a internet é a principal fonte de informação para quase 70% do público que procura informação sobre temas científicos (Alper, 2016), pois a mesma possibilita a publicação, bem como a partilha de textos, imagens, vídeos ou dados que podem ser acedidos, lidos e processados por outros utilizadores da internet, independentemente da sua localização. Isto proporciona oportunidades significativas que podem ser usadas pela ciência para melhorar e disseminar a compreensão científica. Tendo em conta os dados apresentados num artigo de Fontaine et al. (2019), cujo objetivo era descrever as estratégias da Comunicação da Ciência e os canais de comunicação utilizados, foram identificados um total de cinco tipos de canais de comunicação online: plataformas sociais online (por exemplo, Twitter); plataformas de partilha de conteúdos (por exemplo, Youtube); comunidades de investigação digital (por exemplo, ResearchGate ), blogues e websites pessoais (por exemplo, WordPress ) e plataformas de agregação e discussão de notícias sociais (por exemplo, Reddit ). A instituição The Royal Society (2022) foca-se com uma maior minúcia sobre este assunto. Um relatório realizado por esta mesma instituição aborda a forma como a internet molda a relação entre as pessoas e a informação científica. Segundo o relatório, existem três inovações que a internet proporcionou que são especialmente transformadoras para a compreensão coletiva das questões científicas: o hipertexto, wikis e o conceito de ciência aberta. The Royal Society (2022) revela que o hipertexto é um texto online que redireciona os utilizadores através de links para outros conteúdos quando clicados. Estas ligações, conhecidas como hiperligações, estão presentes por toda a internet, acabando por fornecer uma rota de
15 navegação online. A partilha de hiperligações permite aos utilizadores consultar outras fontes externas. Isto ocorre frequentemente na literatura online, nos posts das redes sociais e plataformas de mensagens diretas. O hipertexto acaba por ser um mecanismo simples que acrescenta credibilidade a um argumento feito online, por exemplo, um indivíduo é capaz de convencer alguém a seguir o seu conselho médico se existir uma ligação para uma página oficial da internet de uma autoridade de saúde respeitada que o confirme. O mesmo relatório, The Royal Society (2022), indica que um wiki é um tipo de website que permite aos utilizadores editarem o seu conteúdo de uma forma colaborativa. Os wikis são muitas vezes constituídos por uma estrutura que apresenta um hipertexto e não têm proprietários definidos. Enciclopédias online, Wikipédia e WikiLeaks são alguns dos exemplos de wikis que existem. Os wikis permitem que a informação sobre um determinado assunto seja atualizada regularmente e de forma transparente, podendo ser comentadas e revertidas por outros utilizadores. A Wikipédia, por exemplo, contém 56 milhões de artigos e 1,6 mil milhões de visitantes por mês e apresenta informações sobre temas bastante controversos, como a Covid-19, que é objeto de bastante escrutínio, com milhares de utilizadores a reverem o que é partilhado. A terceira inovação que a The Royal Society (2022) considerou indispensável para a compreensão da ciência foi o conceito de ciência aberta. A internet, através de práticas de acesso aberto, permitiu que os trabalhos de investigação científica se tornassem públicos e disponíveis para serem descarregados. Esta prática representa uma mudança em relação à publicação tradicional de artigos que só podiam ser adquiridos através de meios financeiros, como frequentar uma instituição, a assinatura de um jornal ou o pagamento de artigos individuais. Contudo, existe uma divisão de opiniões na comunidade académica no que toca ao livre acesso de artigos. Alguns argumentam que este acesso permite uma maior divulgação da investigação de resultados e outros referem que, como consequência, pode levar a que seja publicada uma investigação de menor qualidade. Perante os resultados evidenciados em ambos os artigos (Fontaine et al., 2018; The Royal Society , 2022), é possível revelar que a ciência utiliza simultaneamente múltiplas estratégias de comunicação, com uma grande variedade de propósitos. Isto demonstra que, com o crescimento dos meios digitais e sociais, o papel que a ciência tem na comunicação é cada vez mais importante. Comprova também que quanto maior a diversidade dos canais de comunicação, mais informação científica se torna disponível, o que consequentemente cria uma maior ligação entre a sociedade
22 necessárias para uma definição completa da tradução: texto, ato de comunicação e atividade cognitiva. Posto isto, Albir definiu a tradução como “ un processo interpretativo y comunicativo consistente en la reformulación de un texto con los medios de otra lengua que se desarrolla en un contexto social y con una finalidad determinada. ” (p. 41). Albir (2001) afirma ainda que qualquer reflexão sobre a tradução não pode perder de vista quatro pressupostos básicos, nomeadamente, que a razão de ser da tradução é a diferença entre as línguas e as culturas, que a tradução tem uma finalidade comunicativa, que a tradução é dirigida a um destinatário que necessita da tradução porque não conhece a língua e cultura em que o texto original é formulado e que a tradução é condicionada pelo objetivo que serve e este objetivo varia de caso para caso. Vários estudiosos dos estudos de tradução e da linguagem apresentam diversas, categorias, procedimentos, métodos, classes e modalidades de tradução que não só auxiliam o tradutor antes, durante e após o processo de tradução como permitem classificar e dividir a tradução de acordo com o método, o modo, a natureza do processo tradutório ou até de acordo com o campo socioprofissional, por exemplo. Para além desta variedade de classificações, a tradução, tal como foi possível evidenciar, apresenta várias teorias, estudos, perspetivas e posições. Posto isto, é necessário referir que, ao longo da evolução dos estudos de tradução, houve um esforço para descobrir as caraterísticas gerais presentes num texto traduzido. Como tal, Baker (1993) introduziu um aclamado estudo em que apresentou várias caraterísticas consideradas comuns a todos os tipos de textos traduzidos, mais propriamente caraterísticas que determinam as diferenças entre traduções e textos originalmente escritos na língua de chegada. Estas caraterísticas foram denominadas “ Universals of Translation ”. Segundo Baker (1993), as caraterísticas universais da tradução são “ features which typically occur in translated text rather than original utterances and which are not the result of interference from specific linguistic systems. ” (p. 243). Estas caraterísticas dizem respeito à explicitação, à simplificação, à normalização, à tendência para evitar repetições presentes no texto original e à lei da interferência, criada por Toury (2012), que diz respeito à transferência do discurso, bem como à distribuição idiossincrática dos itens lexicais da língua de chegada. Apesar de todas estas caraterísticas serem importantes, a simplificação é o foco principal devido ao seu destaque ao longo do enquadramento teórico. Como tal, a simplificação, é definida por Baker (1996) como “ the idea that translators subconsciously simplify the language or message or both ” (p. 176). Toury (1995), citado por Pym (2008), descreve a simplificação de um modo
23 similar, revelando que a simplificação é provisoriamente definida como a tendência para simplificar a língua utilizada na tradução. Pym (2008) explica também que este conceito inclui fenómenos tais como a utilização de frases mais curtas na tradução, a preferência por formas finitas em vez de não finitas, a resolução de ambiguidades, a remoção de pontuações que sejam invulgares e a produção de textos com uma densidade lexical mais baixa. Laviosa-Braithwaite (2001) explica os fenómenos supracitados abordados por Pym (2008) através da identificação de três tipos de simplificação, nomeadamente a simplificação lexical, sintática e estilística. Muito resumidamente, a simplificação lexical faz referência ao processo de redução da complexidade das palavras, substituindo-as por palavras mais simples (Kim et al., 2016); a simplificação sintática possui casos em que a sintaxe complexa é simplificada pela substituição de formas não finitas por formas finitas e pela supressão de elipses (Vanderauwera, 1985, citado por Laviosa-Braithwaite, 2001); a simplificação estilística apresenta várias formas de se expressar nas quais se exclui a modificação de frases e palavras, a mais comum é a tendência de substituir frases elaboradas por frases mais curtas, ao mesmo tempo que se reduz e omite repetições e informações redundantes e se encurta circunlocuções demasiado longas (Vanderauwera, 1985, citado por Laviosa-Braithwaite, 2001). De acordo com Simensen (1987), citado por Crossley et al. (2007), os textos simplificados são textos escritos “ (a) to illustrate a specific language feature, such as the use of modals or the third-person singular verb form; (b) to modify the amount of new lexical input introduced to learners; or (c) to control for propositional input, or a combination thereof. ” (p. 16). Além disso, os textos simplificados são muitas vezes utilizados como valiosos auxiliares da aprendizagem, porque os mesmos refletem precisamente o que o leitor já sabe sobre a língua e tem a capacidade de alargar esses conhecimentos (Davies & Widdowson, 1974, citado por Crossley et al, 2007). Visto que a simplificação pode auxiliar o leitor a compreender mais facilmente o texto em questão, este processo de simplificação do texto original pode também ser uma preciosa contribuição para a assimilação de conhecimentos científicos. Ou seja, simplificar os textos de caráter científico pode reduzir significativamente a barreira entre línguas de especialização científicas e o cidadão comum (Ermakova et al, 2022). É de conhecimento geral que o acesso à informação científica está disponível a todos. Contudo, a leitura e a compreensão de textos científicos podem ser difíceis de compreender para cidadãos sem muitos conhecimentos relativos à ciência e, como tal, os mesmos tendem a evitar
24 as fontes de acesso primárias (como publicações, artigos, teses) devido à complexidade da linguagem e à falta de conhecimentos anteriores nos temas em questão. Muitos textos científicos são desnecessariamente complicados e poderiam ser simplificados e tornados mais fáceis de aprender, compreender e utilizar, sem sacrificar o seu poder e utilidade (Wood, 2016; Ermakova et al., 2022). Logo, é necessário simplificar os textos de modo a melhorar a compreensibilidade do texto, bem como a sua adaptação a diferentes públicos de modo a tornar a compreensão da ciência acessível a todos. Atualmente, devido aos avanços tecnológicos, a informação está em constante crescimento. Como tal, torna-se difícil para a sociedade gerir esta quantidade de informação. De forma a lidar com este volume de dados, é necessário ter em conta uma visão geral do que está a ser mencionado, isto é, um sumário. De acordo com Ermakova et al. (2021), as pessoas preferem ler um documento curto a um documento longo. Deste modo, a sumarização de um único documento científico é um passo no que toca à simplificação do texto. A verdade é que a sumarização, mais propriamente o realce das partes mais importantes do documento, pode simplificar a compreensão de documentos científicos e assim reduzir os esforços do leitor. Para além disto, Ermakova et al. (2021) referem ainda que o jargão técnico deve ser evitado se os leitores de um texto científico forem um público-alvo não experiente. Wood (2016) aborda a questão do jargão, afirmando que o mesmo é um problema frequente e que, por vezes, é demasiado complicado, dado que não tem qualquer relação com o quadro de referência do público. Contudo, na maioria dos casos, “ the names of the objects are not replaceable in the process of text transformation or simplification due to the risk of information distortion ” (Ermakova et al., 2021, p. 3). Neste caso, é notoriamente importante explicar estes conceitos de modo que o leitor perceba o seu significado. Ainda no que toca à sumarização, Ermakova et al. (2021) afirmam que a compressão de frases pode ser vista como um meio termo entre a simplificação e a sumarização do texto. O objetivo é remover as partes redundantes ou menos importantes do texto, de modo a preservar a sua componente gramatical e o seu significado original. Ermakova et al. (2021) abordam igualmente a importância da compreensibilidade. Afirmam que a falta de conhecimentos básicos pode tornar-se uma barreira à compreensão da leitura. Como tal, a simplificação aliada à componente da compreensibilidade pode fornecer conhecimentos de base relevantes para ajudar o leitor a compreender um texto científico complexo.
25 Os mesmos autores fazem também alusão à legibilidade, ou seja, a facilidade com que um leitor pode compreender um texto escrito. Tendo em conta a simplificação da ciência, organizar o texto com frases mais curtas e palavras mais frequentes faz com que o leitor compreenda melhor o texto. Desta forma, a simplificação permite reduzir o vocabulário e a complexidade sintática sem distorcer a informação, mantendo, ao mesmo tempo, o respetivo conteúdo do domínio científico (Ermakova et al., 2021). Wood (2016) afirma que é óbvio que quanto mais simples o conhecimento, melhor, desde que a versão simples seja pelo menos tão boa como a versão simplificada. Porém também alega que, por vezes, a versão simples pode ser de qualidade inferior. Wood (2016) acrescenta que a “ over-simplification is certainly a problem ” (p. 9). Mas logo de seguida refere que há uma necessidade de simplificação porque a versão original é demasiado complicada para fazer sentido ao cidadão comum, então não há outra opção senão obter uma simplificação ponderada e sensata do tema científico em questão. Apesar de ser notório que a simplificação da ciência proporciona numerosas vantagens ao cidadão comum, é também relevante referir que a simplificação do conhecimento científico ainda não é acessível a todos devido aos poucos recursos existentes. Atualmente, já existem ferramentas, recursos e websites que permitem simplificar qualquer tipo de texto, que possibilitam a compreensão simples de qualquer tema que contenha um tipo de linguagem especializada e até mesmo glossários referentes a vários domínios científicos e não científicos. Todavia, tal como já foi referido, os recursos continuam a ser poucos, alguns deles requerem um valor monetário e a sua existência ainda não é do conhecimento de todos. Consequentemente, estas barreiras afetam o acesso a domínios especializados por parte das pessoas ditas leigas. Para além destes obstáculos, a maioria dos recursos e conteúdos relativos à simplificação estão apenas disponíveis em inglês. Consequentemente, isto cria um problema de acesso por parte de quem não domina a língua inglesa. Ou seja, só um nicho da sociedade é que tem a possibilidade de aceder a este tipo de conteúdos. Posto isto, a tradução tem um papel importante no que toca a reverter esta situação, pois vai permitir que todos os recursos, conteúdos e ferramentas mencionados anteriormente estejam disponíveis num grande número de línguas e consequentemente haja uma maior disseminação e conhecimento destes recursos entre a população. Esta necessidade de introduzir mais línguas aliada à criação de mais ferramentas de simplificação vai fazer com que todas as pessoas tenham
26 acesso aos conteúdos científicos de uma forma percetível independentemente da idade, da língua, do grau académico, da profissão e do conhecimento de cada um.
27 2.5. Multilinguismo na tradução da ciência O multilinguismo é um fenómeno muito comum e complexo que tem sido alvo de bastante atenção nos últimos anos. Pode ser visto como um fenómeno interdisciplinar que pode ser estudado a partir de diferentes perspetivas em disciplinas como a linguística, psicolinguística, sociolinguística e educação (Cenoz, 2013). Dada a existência de diferentes perspetivas, teorias e descrições, é difícil chegar a uma definição de multilinguismo que seja aceite por todos os estudiosos deste termo, logo, o mesmo apresenta muitas definições. Li (2008), por exemplo, afirma que um indivíduo multilingue é qualquer pessoa que consiga comunicar em mais do que uma língua, seja de forma ativa (através da fala e da escrita) ou passiva (através da audição e da leitura). Tendo em conta a definição apresentada pela Comissão Europeia (2008), o multilinguismo é a capacidade das sociedades, instituições, grupos e indivíduos se envolverem, regularmente, com mais do que uma língua no seu dia-a-dia. Estas definições concentram o conhecimento geral das diferentes dimensões do multilinguismo. Como tal, as mesmas são relevantes para discutir algumas das suas dimensões: a dimensão individual em contraste com a societal, a dimensão relativa à proficiência em contraste com a utilização e a dimensão referente ao bilinguismo em contraste com o multilinguismo (Cenoz, 2013). Relativamente à dimensão individual e societal do multilinguismo, Cenoz (2013) afirma que o “ multilingualism is at the same time an individual and a social phenomenon. It can be considered as an ability of an individual, or it can refer to the use of languages in society ” (p. 5). Arorin (2018) refere que o multilinguismo individual diz respeito à esfera pessoal e abrange a aquisição e utilização de várias línguas incorporadas por um indivíduo. Foca-se na capacidade de um indivíduo de dominar e utilizar adequadamente duas ou mais línguas e inclui as capacidades físicas relacionadas com a língua e os processos neurológicos que ocorrem no cérebro. A mesma autora demonstra que o multilinguismo social está associado aos contextos, circunstâncias, ordem, modo e rotinas de utilização das línguas em diferentes tipos de comunidades, organizações e grupos. No que diz respeito à dimensão relativa à proficiência e à utilização do multilinguismo, Cenoz (2013) revela que “ scholars interested in individual multilingualism often consider the level of proficiency in the different languages ” (p. 6). Além disto, uma pessoa multilingue dita equilibrada
28 é fluente em duas ou mais línguas e uma pessoa multilingue dita “desequilibrada” tem diferentes níveis de proficiência nas diferentes línguas (Cenoz, 2013). Quanto ao domínio da utilização do multilinguismo, esta dimensão é frequentemente considerada como a principal caraterística na definição de indivíduos multilingues, pois vai permitir que, devido ao uso da língua, um indivíduo seja capaz, quando necessário, de mudar de uma língua para outra sem grande dificuldade (Lüdi & Py, 2009). Atualmente, o multilinguismo é considerado um fenómeno que se encontra presente por todo o mundo. Como tal, existem vários fatores que contribuíram para o aumento do valor do multilinguismo, bem como para a sua visibilidade atual, nomeadamente a globalização, a mobilidade transnacional da população e a difusão de novas tecnologias (Cenoz, 2013). De acordo com a mesma autora, as pessoas multilingues podem ser falantes de uma língua indígena minoritária que têm a necessidade de aprender a língua dominante do local onde se encontram. Noutros casos, as pessoas multilingues são imigrantes que não só falam a sua língua materna como também a língua do país ou região onde vivem. E também existem casos em que as línguas são aprendidas à medida que se espalham internacionalmente, em que as mesmas são vistas como formas de abrir portas a novas oportunidades económicas e sociais. Este é atualmente o caso do inglês, que para além de ser a língua mais difundida no mundo, é também muito comum como disciplina escolar e como língua de ensino nas escolas e universidades de todo o mundo (Cenoz, 2013). Esta disseminação e aprendizagem global da língua inglesa permite que, independentemente da nacionalidade, qualquer pessoa com conhecimentos de inglês possa comunicar com outra através de uma língua em comum. Para além desta língua ter um papel predominante nas escolas e universidades, o inglês também é cada vez mais visto como um instrumento de comunicação necessário para estudar e trabalhar, ou seja, como uma competência básica a que todas as pessoas aspiram (King, s.d.). De acordo com Sekar (2014), a (neo)colonização, o imperialismo económico, os avanços epistemológicos e a estabilidade política têm contribuído para o aumento da população que fala inglês. Refere ainda que o inglês é a primeira língua de cerca de 400 milhões de pessoas em 53 países e que é a segunda língua de cerca de 1,4 bilhões de pessoas. Por conseguinte, a hegemonia da língua inglesa começou a estar cada vez mais presente numa grande variedade de domínios e setores, principalmente na ciência. Como tal, em 1967, o inglês foi reconhecido como a língua
29 internacional da ciência (Gordin, 2015) e continua a ser a língua dominante da ciência até aos dias de hoje. Enquanto a utilização de uma “língua universal da ciência” facilita bastante a disseminação do conhecimento além-fronteiras nacionais e culturais e permite aos cientistas comunicar ideias livremente e ter acesso à literatura científica global, a língua inglesa atua frequentemente como “guardiã” do discurso científico e a prevalência da mesma faz com que o conhecimento científico esteja muitas vezes indisponível nas línguas locais (Márquez & Porras, 2020). Isto pode criar barreiras para aqueles que não falam inglês como língua materna, bem como desafios e lacunas na transferência de conhecimento científico entre comunidades (Amano et al., 2016; Tardy, 2004). Isto significa que para um indivíduo ou entidade, o desconhecimento do inglês limita o seu acesso à informação científica e, consequentemente, contribui para maiores desigualdades sociais e científicas em todo o mundo (Amano et al., 2016). Posto isto, há uma necessidade de produzir conteúdos científicos em cada língua, de modo que a ciência seja acessível a cada cidadão, pois um discurso científico realizado na língua nativa de um público-alvo produz uma maior participação, motivação e otimismo e conduz a conexões mais fortes relativamente à cultura nativa (Manzini, 2000). Porém, atualmente, a maioria dos cientistas sentem pressão em publicar os seus artigos em periódicos ingleses influentes ou mundialmente reconhecidos, porque geram mais citações e têm um impacto maior do que qualquer outro periódico numa outra língua (Bortolus, 2012; Di Bitetti & Ferreras, 2017). De modo a reverter este fenómeno, Márquez e Porras (2020) fazem algumas recomendações com o objetivo de aumentar o multilinguismo na comunicação científica. Começam por recomendar a expansão do acesso ao conhecimento científico nos meios de publicação tradicional e em meios de comunicação social, de seguida aconselham a formação de profissionais e comunicadores de ciência, tecnologia, engenharia e matemática ( STEM ) e, por fim, propõem o encorajamento de esforços básicos. Relativamente à primeira recomendação, Márquez e Porras (2020) sugerem tomar medidas em periódicos científicos, nomeadamente traduzir os resumos presentes em artigos e investigação, de modo a torná-los disponíveis noutras línguas; recomendam também que, em meios de comunicação de sociedades anglófonas, se dê um maior destaque aos cientistas que trabalham em ambientes onde o inglês não é a língua nativa; aconselham que, em meios de
30 comunicação social de sociedades onde o inglês não é a língua nativa, se aumente a cobertura científica local e, por fim recomendam que se criem mais conteúdos culturalmente relevantes. No que diz respeito à segunda recomendação, Márquez e Porras (2020) focam na importância da formação de profissionais e cientistas de forma a se envolverem e se relacionarem com públicos diversos e evidenciam a necessidade de um maior incentivo e apoio a estudantes e profissionais de ciência, tecnologia, engenharia e matemática ( STEM ) de modo a procurarem oportunidades de falar sobre o seu trabalho na sua língua materna. Em relação à terceira e última recomendação, Márquez e Porras (2020) sugerem que se tire partido da ubiquidade e acessibilidade das plataformas de redes sociais para alcançar uma maior diversidade de audiências e que se crie comunidades onde comunicadores científicos possam interagir uns com os outros em diferentes línguas. Face ao exposto, é possível verificar que para transcender as barreiras linguísticas, é necessário que existam mudanças a nível social, institucional e individual, pois é evidente que existe um preconceito linguístico no atual panorama científico global que deixa em desvantagem os que não falam inglês e os impede de participar ativamente no processo científico, não só como cientistas, mas também como cidadãos (Márquez & Porras, 2020). Segundo Márquez e Porras (2020), o preconceito linguístico da ciência estende-se para além das palavras impressas em periódicos de elite apenas em inglês. Manifesta-se também na forma como a ciência é relatada nos meios de comunicação social e nas redes sociais, nos investigadores representados nos meios de comunicação e frequentemente na falta de contacto entre as comunidades e os seus cientistas locais. Torna-se, então, evidente o papel crucial do multilinguismo na tradução da ciência. Para além da necessidade da tradução de conteúdo científico, é fundamental implementar o multilinguismo de forma que a ciência chegue à língua materna das pessoas que não dominam o inglês, para que, deste modo, possam participar no processo científico e beneficiar dos seus resultados, seja a nível pessoal ou profissional.
31 3. Atividades Desenvolvidas no Estágio Curricular O presente capítulo apresenta uma breve contextualização das entidades envolvidas no estágio curricular e descreve a componente prática do mesmo. Nele encontram-se apresentadas, de modo mais pormenorizado, todas as tarefas inerentes à criação do recurso digital que resultou da colaboração entre o PortLinguE e o INL . As tarefas conducentes à realização desse recurso digital foram desenvolvidas em três etapas: edição, transcrição e tradução das entrevistas realizadas aos cientistas do INL com o objetivo de criar podcasts de disseminação da investigação levada a cabo neste importante relatório; divisão, simplificação e tradução da informação referente às áreas e respetivos grupos de investigação com vista à realização de um mapa transformacional e finalmente a elaboração de um glossário que reúne a principal terminologia associada à nanotecnologia e que poderá ser consultado de forma interativa. Todo o trabalho desenvolvido contou com a supervisão da Drª Patrícia Barroso do Departamento de Comunicação, Conferências e Marketing do INL . É de notar que ao longo do estágio recorreu-se a diferentes ferramentas e recursos de apoio à tradução, bem como ferramentas para edição e criação de conteúdos, que se tornaram fundamentais para o desenvolvimento deste projeto. 3.1. Breve contextualização Durante a breve contextualização, são apresentadas e descritas as entidades envolvidas no estágio curricular, designadamente o projeto PortLinguE e o INL e é evidenciada a relação existente entre as mesmas. 3.1.1. International Iberian Nanotechnology Laboratory ( INL ) Situado em Braga, o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia 1 ( International Iberian Nanotecnology Laboratory - INL ) é uma organização intergovernamental fundada pelo governo português e espanhol. Este laboratório foi criado com o objetivo de impulsionar e desenvolver a investigação na área da Nanotecnologia e da Nanociência, tornando-se assim uma organização de renome internacional no que toca às áreas científicas mencionadas (Figura 4). 1 Website oficial do INL : https:// INL .int/
38 Na Tabela 1, é possível observar algumas informações relativas aos cientistas que participaram, nomeadamente o respetivo o nome, a nacionalidade, a língua falada ao longo da entrevista, bem como o método escolhido de gravação e a data da mesma. Tabela 1. Informação dos cientistas entrevistados do INL Nome do(a) Cientista Nacionalidade Língua Falada Método de Gravação Data da Gravação Pedro Salomé portuguesa português Presencial 24/02/2022 Jana Nieder alemã inglês Presencial 24/02/2022 Manuel BañobreLópez espanhola espanhol Presencial 24/02/2022 Elvira Paz espanhola espanhol Microsoft Teams 25/02/2022 Rosana Dias portuguesa português Microsoft Teams 25/02/2022 Paulo Ferreira portuguesa inglês Microsoft Teams 22/03/2022 Leonard Deepak Francis indiano inglês Microsoft Teams 22/03/2022 Marta Prado espanhola inglês Microsoft Teams 22/03/2022 Jennifer Teixeira portuguesa português Microsoft Teams 22/03/2022 Martin Lopez-Garcia espanhola inglês Microsoft Teams 23/03/2022 Catarina Gonçalves portuguesa português Microsoft Teams 24/03/2022 Marília Santos portuguesa inglês Microsoft Teams 25/03/2022 Elisabete Fernandes portuguesa português Microsoft Teams 29/03/2022 Sara Abalde-Cela espanhola inglês Microsoft Teams 30/03/2022 Nuno Peres portuguesa português Microsoft Teams 4/04/2022 Raquel Queirós portuguesa português Microsoft Teams 14/04/2022 Fonte: Elaboração própria. Finalizada a tarefa, é importante afirmar que foi possível obter um recurso multilingue, dinâmico e inclusivo, dado que os utilizadores com deficiência auditiva podem, deste modo, aceder às transcrições e traduções das entrevistas em formato visual e auditivo. É igualmente relevante referir que esta tarefa, no que toca à sua vertente ligada ao mestrado, permitiu não só desenvolver competências no âmbito da tradução como também de comunicação, através da realização das entrevistas aos cientistas do INL , bem como a criação dos restantes conteúdos. No que diz respeito à vertente científica e técnica, esta tarefa permitiu tornar a nanotecnologia mais acessível ao cidadão comum, através do uso de um tipo de linguagem simples por parte dos cientistas. Para além destas duas componentes bastante importantes, os ouvintes destes podcasts têm a possibilidade de ouvir e ler cada entrevista em três línguas diferentes, o que torna esta tarefa multimodal, multilingue e inclusiva. Nos próximos pontos, é apresentado o perfil dos cientistas inquiridos, bem como as informações mais relevantes provenientes das respostas dadas pelos cientistas no decorrer da entrevista.
39 3.2.1.1. Análise quantitativa e qualitativa dos dados referentes aos cientistas entrevistados e ao INL Após a conclusão dos podcasts , houve a necessidade de realizar uma análise quantitativa e qualitativa dos dados obtidos dos cientistas em comparação com os colaboradores do INL . Esta análise foi dividida em cinco variáveis: participação, nacionalidade, idiomas falados ao longo da entrevista, comparação entre o género masculino e feminino e comparação das funções desempenhadas no INL . Relativamente à participação dos cientistas nesta tarefa, participaram 16 dos 24 cientistas que foram convidados, ou seja, houve uma taxa de adesão de 66% (Figura 10). Figura 10. Percentagem de participação dos cientistas Fonte: Elaboração própria. Em relação à nacionalidade de cada cientista entrevistado, é possível constatar que 9 dos cientistas são portugueses, 5 são espanhóis e os 2 cientistas restantes são provenientes, respetivamente, da Alemanha e da Índia (Figura 11). Tendo em conta que o INL é constituído por 30 nacionalidades diferentes, maioritariamente por portugueses, espanhóis e brasileiros (Figura 11), é de referir que os cientistas entrevistados não apresentam uma grande diversidade em termos de nacionalidade. Importa, pois, assinalar que a escolha dos cientistas para a realização das entrevistas tinha como base a sua investigação e o seu respetivo grupo de investigação e não a sua nacionalidade. Não Participação 34% Participação 66%
40 Figura 11. Comparação das nacionalidades dos colaboradores do INL e dos cientistas entrevistados Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos do website do INL em julho de 2022. É de notar que cada cientista tinha a opção de escolher entre o português, inglês e espanhol como língua de comunicação da sua investigação no âmbito da entrevista. Dos 9 portugueses entrevistados, 7 escolheram fazer a entrevista em português e os restantes 2 preferiram falar em inglês. O português foi, pois, a língua predominante. O contrário aconteceu com os cientistas de nacionalidade espanhola, pois dos 5 entrevistados, 3 escolheram comunicar em inglês e os restantes 2 optaram pela sua língua materna, o espanhol (Figura 12). No caso dos restantes cientistas, tanto a cientista de nacionalidade alemã como o cientista de nacionalidade indiana, elegeram o inglês como língua de comunicação da sua investigação. No caso dos cientistas portugueses e espanhóis que preferiram falar em inglês, a razão da sua escolha deriva do facto de já terem as respostas previamente preparadas em inglês. No caso da cientista cuja língua materna é o alemão e o cientista cuja língua materna é o indiano, a única língua de comunicação possível entre os mesmos e a mestranda era o inglês, dada a incompreensão dessas duas línguas por parte da entrevistadora. Na figura abaixo, é apresentada a distribuição das línguas de comunicação mobilizadas pelos cientistas no decorrer das entrevistas. 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% INL Cientistas Entrevistados Portugal Espanha Brasil Índia Itália Alemanha Japão China Rússia França Irão Reino Unido Suécia Turquia Ucrânia Argentina Bélgica Chile Cuba Dinamarca Egito Estónia Grécia Indonésia México Nova Zelândia Paquistão Porto Rico Taiwan Tunísia
41 Figura 12. Comparação dos idiomas falados com base na nacionalidade de cada entrevistado Fonte: Elaboração própria. No que diz respeito ao género de cada cientista, é de notar que 10 das 16 pessoas entrevistadas eram mulheres e as restantes eram homens, ou seja, foram entrevistadas mais mulheres que homens (Figura 13). Porém, tendo em conta que o INL é composto por 265 colaboradores, é de notar que esta organização é constituída por 156 homens e 109 mulheres (Figura 13), o que significa que o género masculino se encontra em maioria. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 Portugal Espanha Alemanha Índia português Inglês espanhol
42 Figura 13. Comparação entre o género masculino e feminino referente aos colaboradores do INL e aos cientistas entrevistados. Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos do website do INL em julho de 2022. Por fim, no que diz respeito à função desempenhada por cada cientista entrevistado, é possível referir que 8 deles ocupam a função de Staff Researcher , 7 desempenham o cargo de líder do seu grupo de investigação, Group Leader e apenas uma pessoa exerce a função de Associate (Figura 14). Tendo em conta as funções desempenhadas por todos os colaboradores do INL , é possível verificar uma grande variedade de cargos, nomeadamente 22, sendo que as funções que apresentam um maior número de pessoas é respetivamente o cargo de Research Fellow , Officer , Staff Researcher , Research Engineer e Group Leader (Figura 14). Estes resultados revelam que, apesar de existirem mais pessoas com funções de Staff Researcher do que de Group Leader , o número de pessoas entrevistadas que ocupam ambas as funções se encontra equilibrado. Também é de notar que não foram feitas entrevistas aos cientistas que se encontram no cargo que apresenta o maior número de pessoas, nomeadamente o Research Fellow . A razão desta escolha prende-se com o facto dos cientistas com funções de Group Leader e de Staff Researcher se encontrarem em cargos superiores no seio do seu grupo de investigação, o que facilitou a recolha de informação necessária para entender melhor o que consiste esse grupo. 156 6 109 10 020 40 60 80 100 120 140 160 180 INL Cientistas Entrevistados Feminino Masculino
43 Figura 14. Comparação das funções desempenhadas pelos colaboradores do INL e pelos cientistas entrevistados Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos do website do INL em julho de 2022. 3.2.1.2. Análise de alguns dados obtidos das entrevistas feitas aos cientistas do INL Concluído o tratamento das entrevistas, surgiu a ideia de analisar algumas das respostas escolhidas do guião de perguntas. Esta análise tem como objetivo comparar as semelhanças e as diferenças encontradas na resposta a cada questão. As questões selecionadas para a análise foram as seguintes: • “Teve alguém que influenciou a sua decisão de trabalhar na ciência?” • “Quem é o seu cientista favorito e porquê?” • “Porque é que a sua área científica é importante ou relevante para a sociedade?” • “Qual é a coisa mais fixe em relação ao seu trabalho ou pesquisa?” • “Quais são as partes mais difíceis relacionadas com o seu trabalho?” • “Quais foram os maiores obstáculos que teve de ultrapassar? Alguma vez teve a impressão de que seria mais fácil ou difícil se fosse homem?” • “Que mudanças são necessárias no sistema científico para tornar a ciência mais atraente para as mulheres e para as possíveis futuras cientistas?” As perguntas selecionadas para análise foram escolhidas com o propósito de compreender o lado “humano” dos cientistas, que muitas vezes é esquecido em detrimento do seu trabalho. 0 50 100 150 200 250 300 INL Cientistas Entrevistados Director General Deputy Director General Science Communication Officer Corporate Expert Operations Officer Executive Assistant Chief Operations Officer Research Laboratory Assistant Cleanroom Technician Chief Financial Officer Associate Ph.D. Student Cooperation Associate Chief Officer Manager Facility Manager Assistant Group Leader Research Engineer Staff Researcher Officer Research Fellow
44 Esta decisão partiu da intenção de mapear as suas motivações, preferências, opiniões e obstáculos encontrados ao longo das suas carreiras. De seguida, serão exibidas cinco tabelas compostas pelas respostas a cada questão feita. A primeira questão, “Teve alguém que influenciou a sua decisão de trabalhar na ciência?”, apresentou 4 tipos de respostas diferentes (Tabela 2). A maioria dos cientistas nomearam uma ou várias pessoas que, de facto, os influenciaram, desde professores, a colegas e familiares. Outros cientistas fizeram alusão à sua curiosidade como a forma de influência de trabalhar na ciência. A Jana revelou que não se sente influenciada pelas pessoas em si, mas pela forma como as mesmas trabalham, dando o exemplo de Jean-Henri Fabre como uma figura que a inspira. Por fim, a Raquel afirma que não teve quaisquer influências que a levaram a trabalhar na ciência. Tabela 2. Pessoas que influenciaram os cientistas inquiridos a trabalharem na ciência Cientista Influências destacadas Pedro Salomé Professora Celeste do Carmo Jana Nieder Jean-Henri Fabre. Manuel Bañobre-López Familiares, colegas e professores. Elvira Paz Os pais. Rosana Dias Professor Luís Rocha. Paulo Ferreira Curiosidade. Leonard Deepak Francis Professor CNR Rao. Marta Prado Marie Curie. Jennifer Teixeira As pessoas que a acompanharam e ainda acompanham hoje. Martin Lopez-Garcia Cientistas, professores, colegas. Catarina Gonçalves Curiosidade e saber o porquê das coisas. Marília Santos Vários investigadores e professores. Elisabete Fernandes Curiosidade e querer contribuir para um mundo melhor. Sara Abalde-Cela Professor de biologia. Nuno Peres Dois professores. Raquel Queirós Não. Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos das entrevistas. A respeito da pergunta, “Quem é o seu cientista favorito e porquê?”, a maioria dos inquiridos escolheram a Marie Curie ou o Galileu como os cientistas favoritos (Tabela 3). Contudo, o Pedro refere que o Alex Zunger é apenas o cientista de que fala mais e que não é o seu favorito por ser uma pessoa antipática. Por ser lado, a Jennifer afirma que não tem nenhum cientista favorito, apenas tem alguns investigadores da sua área que costuma seguir. O Martin defende também que não tem cientistas favoritos, tem sim momentos favoritos na história da ciência. Por fim, a Jana e a Raquel não referem qualquer cientista.
45 Tabela 3. Cientista favorito e a respetiva razão de cada cientista inquirido Cientista Cientista Favorito Razão da Escolha Pedro Salomé Alex Zunger. É um dos físicos mais citados vivos, cujo trabalho teve um impacto em todas as áreas científicas. Jana Nieder Não tem. - Manuel Bañobre-López Galileu. Na época em que viveu, foi um intelectual do seu tempo e porque foi precursor do método científico. Elvira Paz Richard Feynman. Sabia explicar muito bem a ciência, era curioso e um grande professor. Rosana Dias Marie Curie. Enfrentou muitas dificuldades e alcançou muito sucesso num mundo basicamente masculino. Paulo Ferreira Richard Feynman e John Goodenough. Richard Feynman por ser um grande comunicador da ciência. John Goodenough pelo seu intelecto e atitude sempre positiva. Leonard Deepak Francis Michael Faraday. Inúmeras descobertas que influenciaram muito a vida de todos. Marta Prado Lynn Margulis. Estabeleceu uma teoria que foi um passo no que toca à compreensão da vida. Jennifer Teixeira Uwe Rau. Investigador importante na sua área. Martin LopezGarcia Galileu. Mudou a ciência através do método científico. Catarina Gonçalves Marie Curie. Foi uma mulher que revolucionou a medicina com a descoberta da radioatividade e a sua aplicação. Marília Santos Marie Curie. Enfrentou muitas adversidades e foi a 1ª mulher a ganhar um Prémio Nobel e a única a ganhar dois Prémios Nobéis. Elisabete Fernandes Galileu. A sua ousadia e persistência em questionar ideias já formuladas. Sara AbaldeCela Professor Luis LizMarzán. Introduziu a nanotecnologia na vida da Sara. Nuno Peres Philip Anderson. Contribuiu bastante para a física da matéria condensada. Raquel Queirós Não tem. - Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos das entrevistas. No que concerne à questão, “Porque é que a sua área científica é importante ou relevante para a sociedade?”, é possível observar que todos os cientistas do INL procuram soluções para problemas atuais, como a criação de alternativas que não prejudiquem o planeta, formas de diagnosticar precocemente e tratar eficazmente doenças e vírus e manter a qualidade, a segurança e evitar o desperdício da água e dos alimentos (Tabela 4). É, então, possível afirmar que o trabalho destes cientistas influencia a vida de cada pessoa para melhor, permitindo manter a segurança e o bem-estar da sociedade.
46 Tabela 4. Importância da área científica de cada cientista inquirido para a sociedade Cientista Importância da área científica na sociedade Pedro Salomé Criação de aplicações e novas soluções para a sociedade que permitam manter o estilo de vida sem prejudicar o planeta. Jana Nieder Possibilidade de identificar doenças a nível molecular e desenvolver ferramentas que sejam mais eficientes do ponto de vista energético. Manuel Bañobre-López A área da saúde tem um grande impacto na sociedade pois é um tema que engloba o bem-estar de toda a gente. Reduzir o consumo de energia da computação. Rosana Dias Melhorar as soluções tecnológicas já existentes e resolver problemas específicos. Paulo Ferreira Permite compreender a constituição de um vírus ou uma doença através de microscópios eletrónicos. Leonard Deepak Francis Resolver problemas e abordar soluções que estão no cerne de muitas tecnologias atuais e futuras. Marta Prado É necessário garantir que todos tenham acesso a alimentos seguros. Jennifer Teixeira Desenvolvimento de novos conceitos que permitam alargar a capacidade da tecnologia de transição energética. Martin LopezGarcia Transformar os componentes tóxicos de objetos do dia-a-dia por componentes não poluentes. Catarina Gonçalves É uma forma de verificar a segurança do que se produz no laboratório sem recorrer a animais. Marília Santos Os sistemas de monitorização de água permitem manter o controlo, a monitorização e a qualidade da água. Elisabete Fernandes Criação de ferramentas que permitam diagnosticar e detetar doenças a tempo. Sara AbaldeCela Desenvolvimento de dispositivos médicos que podem ajudar a melhorar a saúde das pessoas. Nuno Peres Faz aumentar o conhecimento científico na área (matéria condensada), treina estudantes para se tornarem cientistas e há o desenvolvimento de dispositivos que podem vir a ser usados por todos. Raquel Queirós Controlo e monitorização da qualidade da água para que possa ser consumida por todos. Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos das entrevistas. Em relação à pergunta, “Qual é a coisa mais fixe em relação ao seu trabalho ou pesquisa?”, é possível verificar que a maioria dos cientistas destacaram o facto do seu trabalho proporcionar uma aprendizagem constante, terem a possibilidade e a liberdade de explorar e criar coisas novas e poderem conhecer e trabalhar com muitas pessoas diferentes (Tabela 5). Outros cientistas revelaram que o melhor do seu trabalho é perceber que o que criaram tem potencial para ser realmente aplicado e fazer a diferença. Por fim, alguns cientistas indicam que o que mais gostam do seu trabalho é, de facto, o seu trabalho, no sentido de poderem fazer ciência todos os dias.
47 Tabela 5. A melhor parte do trabalho ou pesquisa de cada cientista inquirido Cientista Resposta destacada Pedro Salomé O momento em que se apercebe que o trabalho correu bem e que se está a mover a fronteira da ciência. Jana Nieder Como o brainstorming e a colaboração desencadeiam novas ideias e experiências. Manuel BañobreLópez A possibilidade de explorar, de criar e de inovar. Elvira Paz Obter sensores magnéticos que obtenham muito boa resolução. Rosana Dias Quando se está a trabalhar em alguma coisa que se sabe que tem potencial e que desperta o interesse da indústria. Paulo Ferreira Ser capaz de controlar os microscópios eletrónicos avançados e perceber como é constituído cada material. Leonard Deepak Francis O facto de haver sempre novas ideias a serem exploradas e novos problemas a serem estudados. Marta Prado A oportunidade de aprender todos os dias, conhecer pessoas inteligentes de todo o mundo e poder viajar. Jennifer Teixeira A oportunidade de uma aprendizagem contínua no sentido de desenvolver e otimizar uma tecnologia que tem um propósito muito abrangente. Martin LopezGarcia O facto de poder combinar o estudo de um organismo vivo com física. Catarina Gonçalves O desafio diário e ter muita liberdade. Marília Santos Proporcionar a mudança, aprender coisas novas, trabalhar com todos os tipos de pessoas diferentes e ter o poder de fazer a diferença no mundo. Elisabete Fernandes Ser um trabalho muito multidisciplinar que envolve o desenvolvimento de um biossensor. Sara Abalde-Cela Ir a conferências e debater com investigadores importantes e usar os microscópios gigantes que há no INL . Nuno Peres Liberdade de pensamento. Raquel Queirós Quando é possível ver que os sistemas que se desenvolveram funcionam e que têm uma aplicação real. Fonte: Elaboração própria com base nos dados extraídos das entrevistas. Quanto à questão, “Quais são as partes mais difíceis relacionadas com o seu trabalho?”, a grande maioria dos cientistas afirmou que este é um trabalho que lhes ocupa uma grande quantidade de tempo e, como tal, há uma maior dificuldade em geri-lo (Tabela 6). Além disto, a frustração é também algo difícil de lidar, devido à incerteza ou ao insucesso dos resultados. Também é de destacar que alguns cientistas sentem que não têm tempo para fazer investigação devido ao grande volume de trabalho de gestão e administrativo. Ademais, alguns cientistas evidenciam que o mais difícil é depender do funcionamento das máquinas e dos limites físicos de fabrico, ou até mesmo a dificuldade em acompanhar todo o processo de um dispositivo. Para a Sara, o mais difícil é ter de comunicar às pessoas que as mesmas não podem usar a tecnologia que é criada no grupo por ainda não ser legal usá-la.
54 Tabela 8. Tradução da descrição do grupo de investigação de Water Quality Texto de Partida Texto de Chegada em Português Texto de Chegada em Espanhol The Water Quality research group aims to overcome some of the most important issues regarding water through the use of nanotechnology. O grupo de investigação da Qualidade da Água tem como objetivo resolver algumas das questões mais importantes relativas à água através da utilização da nanotecnologia. El grupo de investigación de Calidad del Agua pretende abordar algunos de los problemas más importantes relacionados con el agua con la utilización de la nanotecnología. The research group focuses in three main activities: O grupo de investigação centra-se em três atividades principais: El grupo de investigación se centra en tres actividades principales: nanotech-based sensors for water quality monitoring, nanotechnology for cleaner water and environmental risk assessment of nanomaterials. sensores baseados em nanotecnologia para monitorizar a qualidade da água, nanotecnologia para água mais limpa e a avaliação dos riscos ambientais dos nanomateriais. sensores basados en la nanotecnología para el control de la calidad del agua, nanotecnología para un agua más limpia y evaluación del riesgo medioambiental de los nanomateriales. Fonte: Elaboração própria. Após a conclusão da simplificação e respetiva tradução de cada texto, os mesmos foram colocados num documento Excel para facilitar a organização. Depois, foi necessário recolher imagens, publicações e vídeos para cada tópico. As imagens foram todas provenientes de bancos de imagens gratuitos devido à existência de direitos de autor e todas as publicações e vídeos foram em inglês devido aos poucos recursos que existem noutras línguas, nomeadamente em português e espanhol. De referir que os recursos encontrados em português eram maioritariamente do português do Brasil, o que automaticamente não se adequa à língua alvo pretendida. Para completar o documento Excel, cada entrevista foi associada ao grupo de investigação do cientista entrevistado e foram também criadas palavras-chave para cada tópico para facilitar a procura do utilizador para determinado assunto. Após toda a informação recolhida, foi criado no Figma , um protótipo no qual é proposta uma estruturação em círculo de toda a informação mapeada até ao momento. Tal como é possível observar na Figura 16, a apresentação começa com uma pequena descrição do INL , bem como os seus respetivos recursos multimodais: uma imagem do laboratório, uma breve descrição do mesmo, assim como um artigo relativo à história e futuro da nanotecnologia e, por fim, quatro vídeos alusivos à nanotecnologia, nomeadamente dois relacionados ao INL e os restantes ao conceito de nanotecnologia. Esta página principal permite aceder a diferentes tipos de informação: o logótipo do INL , ocupa, tal como é possível observar, o centro da estrutura radial, ao passo que
55 as restantes camadas informacionais ocupam o nível hierárquico superior. A atividade científica levada a cabo no INL surge, no nível 1, dividida em seis áreas, designadamente Foodture , Clean Energy , Sustainable Environment , Smart Digital Nanosystems , Advanced Materials and Computing e Precise Personalized Healthtech . Figura 16. Página principal do mapeamento multimodal elaborado no Figma Fonte: Elaboração própria a partir do Figma. A título de exemplo, é possível encontrar, no primeiro nível da estrutura radial, a área Precise Personalized Healthtech , que se procurou descrever através de um pequeno texto descritivo e uma imagem ilustrativa. É de notar que o mapa se expande à medida que se clica nos elementos dispostos neste primeiro nível. Ou seja, como se pode ver abaixo, na Figura 17, após ter sido dado a conhecer, no nível 1, a área Precise Personalized Healthtech , é possível descobrir, no nível superior, quais são os grupos de investigação pertencentes a essa área específica:
56 Figura 17. Área Foodture (nível 1) do mapeamento Fonte: Elaboração própria a partir do Figma. Com base nessa organização visual da informação, é possível perceber através da Figura 18, que o grupo de investigação Nanodevices , por exemplo, se inscreve na área Precise Personalized Healthtech . Este grupo de investigação surge, por sua vez, representado por via de uma ilustração, assim como uma pequena descrição, acompanhada de um podcast criado a partir da entrevista realizada a uma das cientistas pertencente ao grupo. Para completar a informação disponibilizada neste podcast , foi fornecido igualmente um artigo referente aos nanodispositivos e vários vídeos representativos da investigação conduzida neste grupo. De referir que todas as publicações e vídeos expostos tentam apresentar uma explicação simples e pouco densa do tema que abordam, por forma a reduzir a dificuldade de apreensão dos conceitos mobilizados nesta área de especializada.
57 Figura 18. Grupo de Investigação Nanodevices (nível 2) do mapeamento Fonte: Elaboração própria a partir do Figma É de notar que todos os grupos de investigação do INL trabalham geralmente com áreas diferentes, ou seja, não ficam cingidos apenas a uma. No caso do grupo de investigação de Nanodevices , por exemplo, o mesmo atua nas áreas Foodture , Sustainable Environment , Smart Digital Nanosystems e Precise Personalized Healthtech . É igualmente necessário evidenciar que todos os recursos multimodais presentes no mapa apresentam links que direcionam para páginas web de modo a que cada pessoa possa obter mais informação. Ou seja, todos os artigos são direcionados para o pdf em questão, todos os vídeos são direcionados para o Youtube, todas as entrevistas feitas a cada cientista ( podcasts ) são direcionadas para o SoundCloud e todo o conteúdo referente ao INL é direcionado para o website oficial do INL , mais propriamente para a área e o grupo de investigação em questão. Posto isto, é possível afirmar que esta tarefa, tendo em conta a vertente relacionada com o mestrado, permitiu, tal como a tarefa anterior, desenvolver competências no âmbito da tradução, da simplificação, bem como na utilização de um editor online destinada à criação de interfaces gráficas, o Figma . Relativamente à vertente científica e técnica, esta tarefa possibilitou um maior acesso e compreensão da nanotecnologia, através da exposição e simplificação das áreas e grupos
58 de investigação do INL , como também através da criação de recursos multimodais que sustentam a informação apresentada. É igualmente relevante referir que, para além deste recurso se encontrar presente em inglês, também está disponível em português e espanhol, o que amplia consideravelmente o leque de potenciais utilizadores deste recurso. 3.2.3. Glossário INL Na terceira e última tarefa relativa ao Estágio Curricular foi desenvolvido um glossário multilingue a incluir no recurso digital mencionado anteriormente. Os termos incluídos neste glossário correspondem aos termos mais importantes que foram extraídos do website do INL , bem como das transcrições das próprias entrevistas feitas aos cientistas. Cada termo é acompanhado, mais uma vez, de uma definição e uma imagem e/ou vídeos ilustrativos que facilitam a compreensão da rede de conceitos associada à nanotecnologia por parte de um público não especializado. Com o objetivo de proporcionar um melhor entendimento do processo de elaboração do glossário, é apresentado um esquema (Figura 19), que retoma todas as etapas inerentes à criação deste segundo recurso de comunicação da ciência: Figura 19. Processo de elaboração do Glossário Primeiro, foi necessário recolher todas as palavras relevantes provenientes das entrevistas, bem como de toda a informação referente às áreas e respetivos grupos de investigação do INL . Após a obtenção dos termos, foram pesquisadas as definições para os mesmos e, de seguida, •Recolha dos termos mais importantes •Pesquisa das definições dos termos Recolha e Pesquisa •Termos •Definições dos termos Tradução •Exemplos •Imagens •Vídeos Aquisição Fonte: Autoria própria.
59 todas as palavras e respetivos conceitos foram colocados num documento Excel. Na Tabela 9, é dado a conhecer um exemplo desta primeira etapa a partir da palavra Biotoxin . Posto este exemplo, é de evidenciar que a definição complexa apresenta termos que são normalmente desconhecidos pelo cidadão comum, como mycotoxins , zootoxins e phytotoxins . Já a definição proposta, apesar de não ser tão completa, procura fornecer a informação mais relevante acerca do conceito. Tabela 9. Termo e simplificação da definição do mesmo Termo Definição complexa Definição simples Biotoxin Biotoxins are substances which are both toxic and have a biological origin. They come in many forms and can be produced by nearly every type of living organism: there are mycotoxins, zootoxins and phytotoxins. A toxic substance produced by a living organism. Fonte: Elaboração própria, Na verdade, poderia ser interessante incluir no glossário as duas definições, a mais resumida e a mais especializada, para que possam corresponder a um público com mais ou menos literacia científica. Em segundo, procedeu-se à tradução dos termos e respetivas definições para português, inglês espanhol. Na Tabela 10 e tendo em conta o exemplo anterior, é possível observar os termos e as definições relativas às duas línguas de chegada. É de referir que a técnica de tradução utilizada neste caso específico foi a tradução literal, dado que se procurou manter a ordem sintática. Tabela 10. Tradução do termo e respetiva definição Línguas Termo Definição Língua de Partida - Inglês Biotoxin A toxic substance produced by a living organism. Língua de Chegada - Português Biotoxina Uma substância tóxica produzida por um organismo vivo. Língua de Chegada - Espanhol Biotoxina Una sustancia tóxica producida por un organismo vivo. Fonte: Elaboração própria. Por fim, foram adquiridos exemplos igualmente multilingues para cada termo, bem como uma imagem e um vídeo. Contudo, não foi possível encontrar um vídeo para todos os termos dada a inexistência dos mesmos para todos os temas. Tendo por base o termo exemplificado anteriormente, é de notar que a Tabela 11 evidencia o exemplo usado para o termo Biotoxin , bem como uma ilustração que visa uma melhor compreensão desse conceito.
60 Tabela 11. Exemplo e ilustração do termo “biotoxin” Língua Termo Exemplo Ilustração Inglês Biotoxin Biotoxins that are a threat to human health are classified as biological hazards. Português Biotoxina As biotoxinas que constituem uma ameaça para a saúde humana são classificadas como riscos biológicos. Espanhol Biotoxina Las biotoxinas que suponen una amenaza para la salud humana se clasifican como riesgos biológicos. Fonte: Elaboração própria. Tendo em conta o exemplo supracitado, encontra-se apresentada, na Figura 20 abaixo, a interface que reúne toda a informação referente a um conceito, neste caso para o termo biotoxin em inglês. Fonte: IPMA, s.d. Fonte: Elaboração própria a partir do Figma.
61 Esta atividade inteiramente voltada para a compilação da terminologia associada a uma área científica permitiu desenvolver competências referentes não só à tradução, mas também à simplificação, tal como na tarefa anterior. Esta tarefa proporcionou igualmente um maior acesso e compreensão da nanotecnologia, através da criação de um recurso multimodal que permite aceder aos termos mais importantes alusivos à nanotecnologia, bem como a sua explicação. Dada a inexistência de glossários de nanotecnologia acessíveis em português, este recurso vai permitir alcançar um público-alvo mais alargado e aumentar o conhecimento sobre a área. 3.2.4. Pré-visualização da plataforma Lang2Science Importa apresentar a estrutura de visualização que estará disponível na plataforma Lang2Science e que permitirá aos utilizadores navegarem, de forma interativa, nos diferentes conteúdos mono e multimodais que criámos no âmbito deste estágio curricular no INL . No âmbito do Projeto PortLinguE , o mapeamento de uma área de especialidade consiste na visualização, em formato radial, da hierarquização dos domínios de uma área e na criação de um glossário ligado a essa área, que exibe igualmente um formato radial (Azevedo et al., 2023). Todos os conteúdos mono e multimodais criados no âmbito do estágio curricular no INL serão integrados nessas estruturas de visualização exploratória de conhecimento que estarão disponíveis para uma exploração interativa na plataforma Lang2Science . Abaixo encontra-se apresentada uma representação visual do mapeamento multilingue da investigação realizada no INL (Figura 21), que apresenta, no primeiro nível, as seis áreas de investigação do INL , e no segundo anel, os diferentes grupos de investigação que atuam em cada uma dessas áreas. Figura 20. Termo "Biotoxin" presente no glossário em inglês
62 Figura 21. Pré-visualização do mapeamento multimodal da investigação realizada no INL Fonte: Plataforma Lang2Science Na figura abaixo (Figura 22), é apresentado o mapeamento terminológico, igualmente multilingue, com cerca de 200 termos relacionados com as áreas de investigação do INL : Figura 22. Pré-visualização do glossário multilingue do INL Fonte: Plataforma Lang2Science
63 Quer o mapeamento, quer o glossário exibem uma estrutura radial que se organiza em níveis e subníveis a partir de um tópico central. No mapeamento (Figura. 21), é possível ter vários níveis de ramificação, ao passo que o glossário (Figura 22) apenas permite dois: as letras do alfabeto no primeiro nível e os termos associados a cada letra no segundo nível. Ao clicar nos nodos de cada (sub)nível visível em cada uma das estruturas, surge uma barra lateral direita que fornece conteúdos adicionais de diversa ordem (tais como vídeos, imagens, podcasts relacionados com a nanotecnologia). Estes mapeamentos servem para criar plataformas de comunicação efetiva entre a academia e os agentes externos que foram incluídos nas estruturas de visualização.
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