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O processamento de género gramatical em português L2 por falantes de chinês L1

Zhang, Langruo

Abstract

O presente estudo visa investigar o conhecimento e processamento do género gramatical em português língua segunda (PL2) por falantes nativos de chinês. Para tal, foi desenvolvido um teste experimental online de leitura auto-monitorizada, aplicado a três grupos distintos de participantes. Os dois grupos experimentais são compostos por falantes de Mandarim L1, que se distinguem quanto ao nível de proficiência de Português, e o outro por falantes nativos de português europeu (PE). As frases incluídas na tarefa têm sintagmas nominais compostos por nomes e adjetivos, animados e inanimados, sendo que uma parte corresponde a nomes que também em chinês marcam o contraste de género. A outra parte corresponde a nomes que, em chinês, não marcam o género gramatical. Esta pesquisa tem como principais objetivos: (i) analisar os tempos de processamento do género gramatical em Português por aprendentes chineses de PL2 e por falantes nativos; (ii) identificar se as condições com género gramatical com diferenças entre Português e Chinês causam maior dificuldade de processamento ao aprendente de PLNM cuja L1 é mandarim; e (iii) observar a influência do nível de proficiência em Português no desempenho dos aprendentes chineses na identificação e processamento do género gramatical. Antes de mais, os resultados indicam que o desempenho dos aprendentes de PL2 é diferente do dos falantes nativos e que os tempos de leitura dos grupos experimentais são muito mais elevados do que os do grupo de controlo. Além disso, confirma-se o efeito da língua materna na aquisição do PL2. Os resultados mostram que a condição de nomes inanimados com adjetivo que não marcam o género em chinês foi a mais difícil de processar. Com base nos dados estatísticos, confirma-se também que nas condições inanimadas, os itens de estímulos com género masculino facilitam o processamento em português. Ademais, os resultados das análises realizadas demonstram que os participantes que viveram em Portugal pelo menos dois anos mostram melhor competência de processamento do género gramatical do que os alunos sem estadia em País lusófono.

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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Zhang LangRuo O processamento de género gramatical em português L2 por falantes de chinês L1 junho de 2022 Zhang LangRuo O processamento de género gramatical em português L2 por falantes de chinês L1 UMinho|2022 Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Zhang LangRuo junho de 2022 O processamento de género gramatical em português L2 por falantes de chinês L1 Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Cristina Maria Moreira Flores e da Professora Doutora Juliana Novo Gomes Dissertação de Mestrado Mestrado em Português Língua Não Materna – Português Língua Estrangeira (PLE) e Língua Segunda (PL2) ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii Agradecimentos A tese que aqui apresento não é simplesmente minha. A realização do presente trabalho foi facilitada pelo generoso auxílio e precioso contributo de muitas pessoas, às quais quero expressar os meus sinceros agradecimentos. Às excelentes orientadoras, uma gratidão profunda à Professora Doutora Cristina Maria Moreira Flores e à Doutora Juliana Novo Gomes, que me inspiraram sobre o tema da dissertação, me forneceram ajuda na realização do teste experimental e me deram sempre confiança; e que tão responsavelmente orientaram o meu trabalho, de forma sábia e positiva. Agradeço-lhes pela orientação cuidadosa, pela paciência, pelas sugestões e comentários e pelo acompanhamento e encorajamento constantes. Aos docentes do Curso de Mestrado em Português Língua Não Materna – Português Língua Estrangeira e Língua Segunda - pelos conhecimentos profissionais que me transmitiram e que me levaram a possuir as capacidades indispensáveis para a investigação profissional. A todos os 60 participantes que aceitaram colaborar neste estudo, pelo auxílio dispensado na recolha dos dados. Aos meus colegas e amigos, pela amizade e pelo apoio que me deram, especialmente o António, o Diogo, o André, e o Kai xu por me ajudar e acompanhar espiritualmente sempre. Aos meus pais pelo acompanhamento, pelo carinho e pelo apoio incondicional. Finalmente, um especial reconhecimento para todos os que estão a trabalhar nesse periódo do covid-19, vai ficar tudo bem e "virar a página" no ano novo! A todos um muito obrigado! iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. O processamento de género gramatical em português L2 por falantes de chinês L1 Resumo O presente estudo visa investigar o conhecimento e processamento do género gramatical em português língua segunda (PL2) por falantes nativos de chinês. Para tal, foi desenvolvido um teste experimental online de leitura auto-monitorizada, aplicado a três grupos distintos de participantes. Os dois grupos experimentais são compostos por falantes de Mandarim L1, que se distinguem quanto ao nível de proficiência de Português, e o outro por falantes nativos de português europeu (PE). As frases incluídas na tarefa têm sintagmas nominais compostos por nomes e adjetivos, animados e inanimados, sendo que uma parte corresponde a nomes que também em chinês marcam o contraste de género. A outra parte corresponde a nomes que, em chinês, não marcam o género gramatical. Esta pesquisa tem como principais objetivos: (i) analisar os tempos de processamento do género gramatical em Português por aprendentes chineses de PL2 e por falantes nativos; (ii) identificar se as condições com género gramatical com diferenças entre Português e Chinês causam maior dificuldade de processamento ao aprendente de PLNM cuja L1 é mandarim; e (iii) observar a influência do nível de proficiência em Português no desempenho dos aprendentes chineses na identificação e processamento do género gramatical. Antes de mais, os resultados indicam que o desempenho dos aprendentes de PL2 é diferente do dos falantes nativos e que os tempos de leitura dos grupos experimentais são muito mais elevados do que os do grupo de controlo. Além disso, confirma-se o efeito da língua materna na aquisição do PL2. Os resultados mostram que a condição de nomes inanimados com adjetivo que não marcam o género em chinês foi a mais difícil de processar. Com base nos dados estatísticos, confirma-se também que nas condições inanimadas, os itens de estímulos com género masculino facilitam o processamento em português. Ademais, os resultados das análises realizadas demonstram que os participantes que viveram em Portugal pelo menos dois anos mostram melhor competência de processamento do género gramatical do que os alunos sem estadia em País lusófono. Palavras-chave: aquisição de português língua segunda; o género gramatical; processamento; proficiência v vi The processing of grammatical gender in Portuguese second language by native Chinese speakers Abstract The present study aims to investigate the knowledge and processing of grammatical gender in Portuguese as a second language (PL2) by native Chinese speakers. To this end, a web-based selfpaced reading study was developed and applied to three different groups of participants. The two experimental groups are composed of Mandarin L1 speakers, who are distinguished by their Portuguese proficiency level, and the control group, by native speakers of European Portuguese (EP). The sentences included in this study have noun phrases composed of nouns and adjectives, animate and inanimate. Part of the sentences contains noun phrases with gender marking that match in both Chinese and Portuguese. The other part contains names that, in Chinese, there is no the gender assignment (no grammatical gender). This research has as main objectives: (i) to analyze the processing times of the grammatical gender in Portuguese by Chinese PL2 learners and by native speakers; (ii) identify whether conditions with grammatical gender with differences between Portuguese and Chinese cause greater processing difficulties for the NLP learner whose L1 is Mandarin; and (iii) to observe the influence of the level of proficiency in Portuguese on the performance of Chinese learners in the identification and processing of grammatical gender. First of all, the results indicate that the performance of PL2 learners is different from that of native speakers and that the reading times of the experimental groups are much higher than those of the control group. In addition, the effect of the mother tongue on the acquisition of PL2 is confirmed. The results show that the condition of inanimate nouns with adjectives that do not mark gender in Chinese was the most difficult to process. Based on the statistical data, it is also confirmed that in inanimate conditions, stimulus items with masculine gender facilitate processing in Portuguese. Furthermore, the results of the analyzes carried out show that the participants who lived in Portugal for at least two years showed better competence in processing the grammatical genre than the students who did not stay in a Portuguese-speaking country. Keywords: acquisition of Portuguese as a Second Language; the grammatical gender; processing; proficiency vii ÍNDICE Introdução...........................................................................................................................................1 I. O género gramatical em português ...................................................................................................3 1.1 Definição...............................................................................................................................3 1.2 Origem..................................................................................................................................4 1.3 Função..................................................................................................................................5 1.4 Género gramatical.................................................................................................................5 1.5 Número ..............................................................................................................................10 1.6 Concordância nominal.........................................................................................................12 1.6.1 O sintagma nominal.................................................................................................12 1.6.2 Mecanismos de concordância ..................................................................................13 II. Género gramatical em chinês.........................................................................................................14 2.1 Termos de género em chinês...............................................................................................14 2.2 Termos que denotam ciclos de vida.....................................................................................15 2.3 Termos de título..................................................................................................................16 2.4 A tendência do género em chinês........................................................................................20 2.4.1 A tendência do género em nomes próprios em chinês ..............................................20 2.4.2 A tendência do género em adjetivos em chinês.........................................................23 III. A aquisição de uma língua segunda (L2) .......................................................................................27 3.1 Aquisição da linguagem.......................................................................................................27 3.1.1 A definição de Língua Segunda.................................................................................27 3.1.2 O fenómeno da transferência linguística....................................................................28 3.1.2.1 Definição ......................................................................................................28 3.1.2.2 A Hipótese da Transferência Completa e do Acesso Completo........................29 3.1.2.3 Manifestação da transferência.......................................................................29 3.1.2.3.1 Transferência Positiva ........................................................................30 3.1.2.3.2 Transferência Negativa.......................................................................32 3.1.3 Aquisição de L2 em contexto de estudo no exterior...................................................32 3.1.3.1 Aquisição do género gramatical de L2 em contexto de estudo no exterior.......32 2 processamento de L2 (Grüter, Lau, & Ling, 2020). O que justifica a importância teórica e metodológica do trabalho proposto aqui, que visa investigar o processamento de género gramatical em português por falantes nativos de chinês, através de uma tarefa de leitura auto-monitorizada. Neste tipo de metodologia é possível obter os tempos de leitura segmento-a-segmento, enquanto o participante faz a leitura sequencial de uma frase completa. Permitindo que o investigador possa aventar hipóteses acerca do custo de processamento de um segmento específico, como, por exemplo, o verbo ou o seu argumento interno, cujo género viola ou obedece a gramática da língua em questão. Portanto, este é um trabalho preliminar de investigação sobre o processamento do género gramatical entre línguas com regras gramaticais diferentes acerca do parâmetro de género. Esta tese encontra-se organizada do seguinte modo: Após uma breve introdução ao trabalho, os Capítulos 1 e 2 fazem uma breve revisão da literatura sobre as teorias e estruturas género gramatical do Português Europeu e do Mandarim. No Capítulo 3 fazem-se as descrições teóricas sobre em particular a aquisição de uma língua segunda e o papel do género gramatical na aquisição de uma L2, além disso, clarificam-se as semelhanças e diferenças em relação à propriedades envolvidas. O Capítulo 4 é dedicado à descrição metodológica. São apresentadas informações detalhadas sobre os participantes e também descritos os procedimentos utilizados no estudo. No Capítulo 5 são apresentados os resultados dos testes de avaliação de proficiência do tipo cloze e de leitura auto-monitorizada aplicados. Por fim, o capítulo 6 descreve os resultados do teste e faz a sua discussão. 3 I. O género gramatical em português 1.1 Definição A língua portuguesa tem um sistema de género gramatical em que todos os substantivos pertencem a (pelo menos) um de dois géneros. É comum que nomes e expressões nominais e pronominais que se refiram a entidades masculinas sejam consideradas como pertencentes ao género masculino e o oposto se aplique aos nomes, expressões nominais e pronominais que se referem a entidades femininas, embora haja exceções. O género gramatical é uma categoria tipicamente associada aos nomes e pode ser categorizado de outras maneiras através de critérios semânticos e fonológicos. Nas línguas indo-europeias, a motivação semântica do género gramatical dá-se principalmente pela perceção de diferença de género (biológico ou social) em seres humanos e outros seres animados, cuja diferença sexual é percetível ou relevante para o observador humano (como animais domésticos, animais de criação e outros, cujo dimorfismo sexual seja evidente (Gouveia, 2006)). O que é questionável sobre esta categoria de motivação semântica é que, em línguas como o português, essa motivação só faça sentido para os nomes de entidades animadas, principalmente os seres humanos. Porém, embora estes nomes sejam em menor quantidade do que os nomes de entidades inanimadas, ocorrem com mais frequência no plano discursivo. As pessoas geralmente tendem a falar mais sobre humanos e ações iniciadas por humanos, ou seja, as pessoas falam mais sobre pessoas do que sobre qualquer outra entidade (Ribeiro, 2015). Como se referiu, a atribuição dos valores de género pode depender dos seguintes critérios: por um lado, o critério semântico, em que a marcação do valor de género está diretamente associada ao conteúdo referencial do nome e, por outro, o critério formal, dizendo respeito a regras do tipo morfológico e fonológico, associáveis aos valores de género (Ferreira, 2011). As regras pelas quais um substantivo é atribuído a um género podem ser baseadas na forma fonológica do substantivo ou na sua morfologia flexional. Por exemplo, a língua portuguesa tem dois géneros: masculino e feminino. O género do substantivo é marcado na forma fonológica, sendo que adjetivos, pronomes e determinantes concordam com este: substantivos terminados na vogal temática <o> (/u/) são geralmente masculinos e aceitam adjetivos e determinantes que terminam em <o> (/u/) (p. ex., o 4 meu tio bonito ), enquanto substantivos terminados em <a> (/ɐ/) são femininos e aceitam adjetivos e determinantes que terminam em <a> (/ɐ/) (p. ex., a minha tia bonita ). Contudo, em português também existem substantivos que não terminam em vogal temática (p.ex. mar ) e adjetivos que não têm marca de género (p.ex. amável ). O facto é que é uma tarefa muito difícil encontrar línguas que têm um conjunto de regras gramaticais de atribuição de género que sejam categóricas e sem exceções. Como tal, é necessário conhecer bem o sistema de género gramatical: as evidências de concordância. O conceito de classes de concordância representa a relação entre os substantivos e outras palavras: artigos, pronomes, adjetivos, numerais, etc. Numa dada expressão, pode haver concordância em género e número. Passo a citar a definição de Zalizniak ( apud Ribeiro, 2015): Uma classe de concordância é um conjunto de nomes tais que quaisquer dois membros deste conjunto têm a propriedade de sempre que (i) estiverem na mesma forma morfossintática e (ii) ocorrerem no mesmo domínio de concordância e (iii) tiverem o mesmo item lexical como alvo de concordância, então, seus alvos terão a mesma realização morfossintática. (retirado de Ribeiro, 2015: 37). Em relação à concordância, haverá uma explicação mais detalhada numa fase posterior deste trabalho. 1.2 Origem O termo “género” provém do vocábulo latino genus , sendo que o Latim possui traços de género masculino, feminino e neutro. Os três géneros existentes em Latim e em Grego, origem de toda a cultura gramatical ocidental, constituíam reflexos da relação vigente entre género e sexo (Abraham, 1981). O género neutro designava objetos e entidades consideradas inanimadas, mas essa 5 característica desapareceu no processo de evolução da língua, como se verifica no Português. Portanto, em Português, os substantivos, que designam seres animados dos sexos masculino e feminino e, até, seres inanimados sem sexo, passaram a ser apenas masculinos ou femininos. Originalmente, o indo-europeu possuía dois géneros gramaticais: comum (seres animados) e neutro (seres inanimados), e, posteriormente, o género comum dividiu-se, nos outros ramos do indo-europeu, em masculino e feminino (Luraghi, 2011). Esta é, atualmente, a teoria mais convincente e aceite na investigação. 1.3 Função A gramática de género faz parte da competência linguística dos falantes nativos e desempenha um papel importante no processo de formação de frases. Em primeiro lugar, pode ser usada para indicar a identidade de género do interlocutor e desempenha uma função muito importante, do ponto de vista comunicativo: a de manter a coesão discursiva, marcando os diferentes participantes do evento comunicativo (Corbett, 1991). Assim sendo, para se alcançar uma comunicação bem-sucedida, o género gramatical é substancialmente importante. Em segundo lugar, além da função principal de manter coesão discursiva, o género gramatical pode também indicar a atitude do falante para com o interlocutor, quer seja pela manifestação de respeito ou carinho ou pela identificação de diferenças de estatuto social (Ribeiro, 2015). 1.4 Género gramatical O género gramatical é uma categoria interessante, em particular no caso dos nomes próprios, sendo que o próprio nome pode refletir o género (p. ex., a Elvira , a Maria , o Henrique , o José , o Pedro ). O género do nome, por sua vez, determina os referentes a que se aplica: normalmente, os nomes masculinos aplicam-se a indivíduos do sexo masculino e os femininos a indivíduos do sexo feminino (Raposo et al. , 2013), embora haja exceções e combinações de nomes próprios masculinos e femininos (p.ex. a Maria João ). Os substantivos portugueses estão divididos em substantivos masculinos (m.) e femininos (f.). O género gramatical é um dos traços lexicais inerentes dos substantivos (Corbett, 1991). A Tabela 1. 1 6 lista alguns substantivos masculinos e femininos: TABELA 1.1 - Substantivos animados/inanimados substantivos animados substantivos inanimados De modo geral, a maioria dos substantivos que se referem a seres vivos (animados) são concordantes com o género natural dos referentes, enquanto o género dos substantivos que se referem a seres não vivos (inanimados) tem um nível completamente gramatical. A teoria linguística distingue entre género gramatical e natural, associando o primeiro a fenómenos estruturais ou formais da língua, e o último a fenómenos semânticos ou de conteúdo. Stanley (1977) explica a distinção entre os dois tipos de género na linguística. Género gramatical refere-se às três classes principais de substantivos, reconhecidas em Grego e Latim, a saber, "feminino", "neutro" e "masculino". Teoricamente, estas classes são independentes do sexo. O género natural, por outro lado, “refere-se à classificação de substantivos com base no sexo biológico, como feminino e masculino ou animado e inanimado” (Stanley, 1977), como os nomes masculinos cozinheiro e gato e os nomes femininos cozinheira e gata . Quanto aos nomes que se referem a entidades inanimadas e alguns substantivos que se referem a entidades animadas (como os nomes comuns)1, o "género gramatical" tem apenas significado gramatical e não tem relação com "sexo", como os nomes masculinos trabalho e dedo e os nomes femininos mesa e cadeira . 1 Entendemos aqui por “nomes comuns (genéricos)” aqueles nomes que denotam não um indivíduo em particular, nem um conjunto definido de indivíduos, mas uma classe de indivíduos (Ribeiro, 2015). masculinos (m.) femininos (f.) masculinos (m.) femininos (f.) pombo pomba livro porta gato gata tempo boca menino menina dedo mesa homem mulher trabalho cadeira amigo amiga sol lua 7 Para resumir, em português, podem ser encontradas duas regras de género gramatical no processo de atribuição de género aos nomes. Estas podem ser expressas através de duas regras semânticas simples (Ribeiro, 2015: 61): a) Nomes referentes a seres animados masculinos (humanos e outros animais importantes) são masculinos. b) Nomes referentes a seres animados femininos (humanos e outros animais importantes) são femininos. Já a atribuição de género a nomes que denotam entidades não-sexuadas é imprevisível e aleatória, de acordo com este critério semântico. Na verdade, nos substantivos inanimados, o género pertence ao nível gramatical, pelo que é aleatório, mas não pode ser mudado (Fu Liang, 2006). No que respeita à estrutura formal do nome, a atribuição de género aos nomes é relativamente transparente em português: por exemplo, substantivos que terminam na vogal átona <–o> (a vogal temática) carregam o traço semântico masculino e substantivos que terminam na vogal átona <–a> carregam o traço semântico feminino. Tal como se verifica nos exemplos "menino/menina", "amigo/amiga" e "filho/filha". No entanto, também existem, em português, nomes terminados em <-a> que pertencem ao género masculino e nomes femininos terminados em <-o>, como se pode observar na Tabela 2. O género é limitado por regras sintáticas e morfológicas, havendo, evidentemente, exceções, em que o género de alguns substantivos não tem nada a ver com a sua morfologia (Ferreira, 2011). TABELA 1.2 - As exceções dos sufixos típicos (<-a>/<-o>) Sufixo -a / Masculino Sufixo -o / Feminino o mapa, o problema, o dia, o telegrama, o cinema, o panorama a foto, a moto, a rádio, a tribo, 8 Além disso, existem muitas classificações de sufixos comuns aos nomes masculinos e femininos, que não estão associadas às terminações típicas <o> e <a>, como se pode ver na Tabela 3: TABELA 1.3 - Distribuição dos nomes em português quanto ao sufixos atípicos Sufixos Nomes do género masculino Nomes do género feminino -e o mestre, o teste a localidade, a sociedade, a mente -al o casal, o mal, o olival, o areal -ção a exceção, a impressão, a concessão, a inspiração, a presunção -dor o conservador, o gerador, o tradutor -ez a sensatez, a timidez, a embriaguez -ria a história, a alegria, a memória, a categoria, a assessoria, a teoria -nte o ouvinte, o servente, o assistente, o ajudante a ouvinte, a servente, a assistente, a ajudante -or o tradutor, o amor, o vigor Veja-se o Gráfico 1, que ilustra a distribuição (em percentagens) das ocorrências dos sufixos em função das classes temáticas e do género (retirado de Ferreira, 2011: 35): 9 Gráfico 1.1 - Distribuição em percentagem das ocorrências dos sufixos em função das classes temáticas e do género (Ferreira, 2011: 35) Alguns substantivos em português têm géneros especiais. Por exemplo, veja-se o caso do substantivo epiceno 1 . A maioria dos substantivos epicenos refere-se a animais e possui apenas um género gramatical, que nada tem a ver com o "género natural", mesmo que possa referir animais de ambos os sexos. Os substantivos epicenos podem ser desambiguados através da adição das palavras “macho” ou “fêmea”. Por exemplo, cobra é um substantivo feminino, sendo que cobra-fêmea é feminina e cobra-macho é masculina; esquilo é um substantivo masculino, já esquilo macho é masculino e esquilo fêmea é feminino. Ademais, há uma classe especial do substantivo, chamado de substantivo comum de dois géneros, aquele que apresenta somente um termo para os dois géneros (masculino e feminino). Neste caso, a diferença entre um termo e outro é o artigo que acompanha o substantivo. Por 2 CfCf . “substantivo epiceno”, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/substantivos-comum-de-dois-sobrecomum-e-epiceno/11238 [consultado em 04-03-2021]. 10 exemplo: o/um colega, a/uma colega; o/um cliente, a/uma cliente. Outra maneira de identificar o género do substantivo de dois géneros é por meio do adjetivo que o acompanha, por exemplo: o artista talentoso ; a dentista bondosa . 1.5 Número O número é um traço gramatical típico dos substantivos, pronomes, adjetivos, determinantes e verbos portugueses. No que diz respeito aos substantivos, há dois valores de número, o singular e o plural. O singular ocorre quando a palavra se refere a um só elemento. Diz-se que a palavra é plural quando se refere a mais do que um elemento. O número singular não tem nenhuma marcação especial, enquanto o número plural geralmente é indicado através dos morfemas /-s/ ou /-es/. Que morfema usar para indicar o plural depende das características do sufixo do substantivo. A Tabela 4 lista as situações regulares/irregulares de formação do plural nos substantivos: TABELA 1.4 - As situações regulares/irregulares de formação do plural nos substantivos os substantivos terminados em a forma singular a forma plural -o copo, gato copos, gatos -a porta, caneta portas, canetas -r bar, professor bares, professores -s português, freguês portugueses, fregueses -z capaz, rapaz capazes, rapazes -al animal, natural animais, naturais -el hotel, coronel hotéis, coronéis -ol/-ul azul, álcool azuis, álcoois -m viagem, imagem viagens, imagens -ão mão, impressão mãos, impressões 11 Além disso, existem algumas situações pontuais, relacionadas com nomes com acento agudo e paroxítono3: (1) Para os substantivos terminados em -il : (a) Caso sejam agudos, devemos trocar o -l por o -s : gentil - gentis hostil - hostis (b) Caso sejam paroxítonos, perdem o - il e acrescentamos o -eis : útil - úteis fértil - férteis (2) Para os substantivos terminados em -s ou -x : Caso sejam paroxítonos, mantêm a forma e o plural é indicado pelo artigo: o atlas - os atlas o tórax - os tórax Igoa et al. (1999: 165) indicam que “número” é uma generalização do termo “numerosidade”, que também pode ser chamado de "número nocional", sendo expresso por meio de afixos e independente de marcas fonéticas ou morfológicas. O traço sintático de "pluralidade" é apresentado na relação de concordância dos substantivos. Os determinantes e adjetivos que modificam o substantivo devem concordar em número com o substantivo. Por exemplo, na frase "um país remoto", país é um substantivo masculino singular, sendo que o artigo indefinido um e o adjetivo remoto manifestam a forma masculina singular; na frase "os teatros clássicos", teatros é um substantivo masculino plural, portanto, o artigo definido os e o adjetivo clássicos devem usar a forma masculina. “Um facto que chama a atenção, nessas comparações, é a presença, nas línguas ibéricas, de dois procedimentos que são extremamente familiares para os falantes de português e que servem para "converter" nomes masculinos em femininos, e vice-versa, e nomes singulares em nomes plurais”. Trata-se, evidentemente, da "troca de -o por -a (segundo o modelo amigo/amiga , feio/feia ) e do acréscimo de um -s (como em amigo, amiga / amigos, amigas ; feio, feia / feios, feias )” (Raposo et al., 2013: 52). 3 CfCf . "Singular e plural", https://escolakids.uol.com.br/portugues/singular-e-plural.htm [consultado em 05-03-2021]. 18 TABELA 2.3 - Os termos de título em termos de identidade Português Chinês Carácter sobrinho wai sheng/zhi zi 外甥/侄子 sobrinha wai sheng nü/zhi nü 外甥女/侄女 filho er zi 儿子 filha nü er 女儿 neto sun zi 孙子 neta sun nü 孙女 senhora nü shi 女士 senhor xian sheng 先生 esposa lao po 老婆 marido lao gong 老公 Além de "lao po" e "lao gong", há outros substantivos que podem ser usados para designar a esposa e o marido. Na Tabela 4 estão apresentados os termos mais formais que as pessoas usam para se referir aos casados: TABELA 2.4 - Os termos mais formais para se referir aos casados Chinês Carácter tai tai 太太 xian sheng 先生 nü shi 女士 nan shi 男士 qi zi 妻子 zhang fu 丈夫 nei ren 内人 wai zi 外子 19 Ao contrário dos termos de identidade, a maioria dos termos de ocupações não têm marcação de género, portanto, é muito importante indicar o género do interlocutor antes da comunicação, para que esta possa prosseguir normalmente. Com efeito, geralmente, utiliza-se as partículas que identificam o género (semelhantes a "nü" ou "nan") nas palavras de ocupações, para distinguir o género biológico, como p. ex., "nü lao shi" ("professora"), "nü mi shu" ("secretária"), etc. Em chinês, muitos substantivos comuns que se referem a pessoas de várias ocupações carregam implicitamente o traço semântico [+masculino], pelo que a referência feminina pretendida deve ser marcada com a partícula "nü" ("feminino"). A Tabela 5 fornece exemplos deste fenómeno. Num contexto discursivo, o afixo "feminino" só precisa de ser mencionado inicialmente, ou seja, como informação nova (Farris, 1988). TABELA 2.5 - Os termos de título em termos de ocupação Português Chinês Carácter cantor/a nan/nü ge shou 男/女歌手 secretário/a nan/nü mi shu 男/女秘书 professor/a nan/nü lao shi 男/女老师 cabeleireiro/a nan/nü li fa shi 男/女理发师 ator/atriz nan/nü yan yuan 男/女演员 contador/a nan/nü kuai ji 男/女会计 cozinheiro/a nan/nü chu shi 男/女厨师 A Tabela 6 poderia ser estendida a todos os títulos que se referem às ocupações habitualmente desempenhadas por homens. A partícula "nü" tem de ser sempre acrescentada, de forma a produzir o equivalente feminino. Veja-se, a título de exemplo, "ling dao" ("diretor"), que é simétrico com "nü ling dao" ("diretora"). Por outras palavras, "diretor" em chinês não é explicitamente marcado como masculino, no entanto, como, na China, a função de diretor é, na maioria, desempenhada por 20 homens, isto leva a que as pessoas não pensem automaticamente numa "nü ling dao" ("diretora"), quando se menciona um diretor. Trata-se, então, de substantivos com o traço semântico [+masculino] por defeito, como as palavras que designam um menino e um marido. Como tal, o termo "ling dao" carrega implicitamente o traço semântico [+masculino]. Greenberg (1966) explica que o traço semântico [+masculino] ocupa um estatuto canónico em chinês e esse facto é um reflexo da realidade social que ajuda a recriar essa realidade. TABELA 2.6 - As ocupações habitualmente desempenhadas por homens na China Português Chinês Carácter médica nü yi sheng 女医生 condutora nü si ji 女司机 diretora nü ling dao 女领导 engenheira nü gong cheng shi 女工程师 Muitas destas ocupações são orientadas apenas para o género, dando origem à denominada "segregação ocupacional de género". De acordo com Gross (1968), a segregação ocupacional de género define que os homens e as mulheres são associados a diferentes ocupações e atividades profissionais, com base no seu género biológico. As mudanças na segregação ocupacional de género, principalmente nas últimas décadas, consistem num processo complexo, que decorreu da profunda transformação social da China, sendo, ao mesmo tempo, afetado por uma sucessão de fatores económicos, culturais e sociais. 2.4 A tendência do género em chinês 2.4.1 A tendência do género em nomes próprios em chinês O nome é o primeiro “professor” do recém-nascido e também o afeta ao longo da sua vida. O 21 nome dado ao recém-nascido confere-lhe uma expectativa, um julgamento e uma bênção. Shih (1984: 217) aponta que os nomes que os pais, na sociedade chinesa, escolhem para os seus filhos, estão relacionados com as expectativas e as bênçãos que os progenitores têm para com eles e como essas expectativas são diferentes para meninos e para meninas. A atribuição do nome à criança depende de vários fatores, como a cultura, o agregado familiar dos pais e, até, a geografia e o clima. Ao mesmo tempo, a maioria dos pais considera que o género é uma referência importante, de modo que as pessoas, geralmente, conseguem distinguir o género da criança designada pelo nome à primeira vista. Abaixo, apresentarei algumas características dos nomes masculinos e femininos comuns: Nomes femininos: (1) O nome feminino é geralmente representado por flores agradáveis e joias preciosas, conforme exemplificado na Tabela 7: TABELA 2.7 - Distribuição de nomes femininos comuns Português Chinês Carácter lírio bai he 百合 rosa mei gui 玫瑰 jasmim mo li 茉莉 lótus yu lian 玉莲 (2) O nome feminino está, normalmente, associado às expectativas e esperanças das pessoas em relação à moralidade e às características das mulheres. Veja-se a Tabela 8: 22 TABELA 2.8 - Distribuição de nomes femininos comuns Português Chinês Carácter quieto jing 静 virtuoso shu 淑 jade yu 玉 beleza mei 美 delicado jiao 娇 joia zhu 珠 Nomes masculinos: (1) Em primeiro lugar, os nomes masculinos são muitas vezes o símbolo da força, como exemplificado na Tabela 9. Entre eles, o termo "pilar" é usado, principalmente, na China Antiga. Num sentido literal, os pais desejam que o filho possa ser um homem provedor, capaz de sustentar a família e o país, como os pilares sustentam um edifício. TABELA 2.9 - Distribuição de nomes masculinos comuns Português Chinês Carácter forte qiang 强 corajoso yong 勇 perseverante yi 毅 "pilar" “zhu zi” "柱子" (3) Em segundo lugar, os nomes masculinos são dinâmicos e positivos, como p. ex. "cai" ("bens"), "fu" ("rico"), "yu" ("universo"), etc. Veja-se, a título de exemplo, a Tabela 10. O nome de um menino não é para apreciação, como o nome feminino, mas expressa força, dignidade e confiabilidade. 23 TABELA 2.10 - Distribuição de nomes masculinos comuns Português Chinês Carácter bens cai 财 rico fu 富 universo yu 宇 pular yue 跃 voar fei 飞 2.4.2 A tendência do género em adjetivos em chinês Uma palavra tem geralmente vários significados no conhecimento do léxico. O conhecimento de género implícito no vocabulário é um fator muito importante, que denominamos de propriedade de género. O chinês difere do português, porque não tem uma propriedade gramatical de género explícita, ou seja, não existem palavras femininas e masculinas, a não ser que sejam associadas ao género biológico. A gramática de género é implícita em chinês, mas há muitos adjetivos chineses que têm uma tendência de género explíctio (Fu Chao, 2018). A seguir, definimos os adjetivos chineses com propriedade de género e tomamos como exemplo alguns adjetivos que serão usados na nossa experiência. (1) Adjetivos masculinos de limite, indicando que o adjetivo tem alta probabilidade de coincidir com o substantivo com traço masculino. A colocação no substantivo de propriedade masculino é significativamente maior do que no substantivo de propriedade feminino, como se pode observar na Tabela 11 abaixo (Fu Chao, 2018). Por exemplo, em português, a palavra "bonito" pode modificar homens e mulheres, sendo que basta trocar o afixo "-o" por "-a", para que a palavra passe de "masculino" para "feminino". Em chinês, a situação é totalmente diferente: a palavra para "bonito”/”bonita" modifica-se para expressar diferentes géneros em chinês, p. ex., "mei li de" significa "bonita" e é normalmente usada para descrever meninas/mulheres, mas transforma-se noutro adjetivo ("shuai qi de") se se referir a 24 meninos/homens. Uma expressão como "uma menina gao da de (alto)" parece estranha e ilógica, sendo que o adjetivo deveria ser "gao tiao de" ("alta"). TABELA 2.11 - Comparação do mesmo adjetivo português no caso do género masculino / feminino em chinês Adjetivos portugueses Adjetivos chineses no caso masculino/Carácter Adjetivos chineses no caso feminino/Carácter bonito shuai qi de/帅气的 mei li de/美丽的 alto gao da de/高大的 gao tiao de/高挑的 educado wen wen er ya de/温 文尔雅的 zhi shu da li de/知书 达理的 (2) Adjetivos masculinos relativos, indicando que o adjetivo tem probabilidade de coincidir com o substantivo de propriedade masculino ou feminino. O número de combinações com substantivos de propriedade masculinos é mais de duas vezes superior ao número de combinações com substantivos de propriedade femininos (Fu Chao, 2018). Veja-se a Tabela 12: TABELA 2.12 - Adjetivos chineses com média tendência do género masculino Português Chinês Carácter esperto tian zi cong ying de 天资聪颖的 puro qing xiu de 清秀的 gordo fei pang de 肥胖的 (3) Adjetivos femininos de limite, indicando que o adjetivo tem alta probabilidade de coincidir com o substantivo de propriedade feminino. A colocação no substantivo de propriedade feminino é 25 significativamente maior do que no substantivo de propriedade masculino. A Tabela 13 fornece alguns exemplos: TABELA 2.13 - Adjetivos chineses com alta tendência do género feminino Português Chinês Carácter bonita mei li de 美丽的 alta gao tiao de 高挑的 educada zhi shu da li 知书达理的 (4) Adjetivos femininos relativos, indicando que o adjetivo tem probabilidade de coincidir com o substantivo de propriedade feminino ou masculino, sendo que o número de combinações com substantivos de propriedade femininos é mais do dobro do que o número de combinações com substantivos de propriedade masculinos. Atente-se na Tabela 14: TABELA 2.14 - Adjetivos chineses com média tendência do género feminino Português Chinês Carácter esperta bing xue cong ming de 冰雪聪明的 pura chun jie de 纯洁的 gorda feng man de 丰满的 (5) Adjetivos neutros ( cfcf . Tabela 15) indicam que os adjetivos têm probabilidade de coincidir com o substantivo de propriedade masculino ou feminino, não havendo diferença significativa na distribuição da colocação nos dois, ou seja, esses adjetivos podem descrever homens e mulheres, sem que haja mudança de género. Por exemplo, as frases "Ela gosta desse jogador nu li de (esforçado)" e "Ela gosta desse jogadora nu li de (esforçada)" são frases corretas e que fazem 26 sentido. TABELA 2.15 - Adjetivos chineses sem mudança no caso do género masculino / feminino Português Chinês Carácter esforçado/a nu li de 努力的 honesto/a cheng shi de 诚实的 distraído/a fen xin de 分心的 Em relação ao adjetivo que modifica entidades inanimadas, este não apresenta qualquer diferença de género em chinês. 27 III. A aquisição de uma língua segunda (L2) O presente capítulo divide-se em duas secções: uma referente às descrições teóricas quanto à aquisição de uma L2, outra sobre as descrições do papel e da importância do género gramatical na aquisição da L2. 3.1 Aquisição da linguagem Segundo Taveira (2014), "o termo aquisição é utilizado para designar o processamento das estruturas de uma língua em fases precoces do desenvolvimento humano, que ocorre em contextos naturais e de forma espontânea, quase “automática”. Já a noção de aprendizagem se refere ao processo de assimilação de uma língua em fases tardias e está, tipicamente, circunscrita a um contexto formal" (Taveira, 2014: 22). É certo que vários fatores influenciam a aquisição de uma L2, tal como a idade de início de aquisição, a quantidade e o tipo de input, o nível de proficiência na L2, a influência interlinguística, entre outros. No entanto, no que toca aos aprendentes adultos de L2, em oposição à aquisição da L1, a aquisição da L2 está relacionada com o efeito do conhecimento linguístico prévio, em particular, a influência da L1 ou de outras L2 (Ellis, 1985). 3.1.1 A definição de Língua Segunda Uma L2 é qualquer língua aprendida após a primeira língua (L1) ou língua materna (LM). Refere-se genericamente a qualquer língua estrangeira, mesmo as que aprendemos por meio de educação formal em sala de aula. Geralmente, a L1 é um símbolo de identidade pessoal, pelo que o nível geral de proficiência tende a ser superior ao da L2, contudo há exceções. Há uma diferença entre a aprendizagem da L2 circunscrita ao contexto formal da sala de aula, por um lado, e a aquisição da L2 em contexto naturalístico, isto é, através da imersão no meio ambiente dessa língua, por outro lado. No primeiro caso, a língua é o objeto de estudo na sala de aula; no segundo caso, é um meio de comunicação imprescindível na socialização do falante e é nestes casos que a L2 se pode tornar mais dominante 34 3.2 O papel do género gramatical na aquisição de L2 O género gramatical pode não apenas refletir a informação semântica, como também influenciar a informação semântica. Muitos estudos exploraram a relação entre género gramatical e cognição, e os resultados mostram que a influência do género gramatical no processamento da linguagem é extensa e multifacetada (Bates & MacWhinney, 1989). Um aspecto chave da aprendizagem de uma língua está em determinar a importância de diferentes pistas morfossintáticas e semânticas no entendimento e interpretação de frases. O género gramatical não influencia apenas a classificação e a perceção dos objetos pelas pessoas, gerando diferentes resultados cognitivos, como também o seu processo cognitivo, nomeadamente a velocidade de processamento cognitivo. Além disso, o género gramatical desempenha um papel muito importante na aprendizagem e na memória da L2. Uma pesquisa interlinguística recente mostrou que essas diferenças linguísticas afetam a forma como os falantes nativos de diferentes línguas concetualizam o mundo. Estudos mostram que os aprendizes de L2 tendem, por exemplo, a confiar mais nas pistas que têm alta confiabilidade e validade em sua L1, do que os nativos de L1, que se amparam também em outros recursos (Liu, Bates, & Li, 1992). Foram encontradas diferenças em domínios como representações de tempo e espaço, perceção de cor e sabor e classificação de objetos e substâncias, conforme refletido numa variedade de tarefas linguísticas e não linguísticas, envolvendo perceção, memorização e classificação (Bassetti, 2007). 3.2 A influência do género gramatical na classificação do objeto Bassetti (2007) conduziu uma experiência em que se atribui uma voz masculina ou feminina (pronunciada por homem/mulher) a imagens de objetos e pediu a crianças bilingues de italiano e alemão para escolherem a voz adequada para cada objeto dependendo das suas preferências. Além disso, o estudo não fornecia informações de género gramaticais sobre os objetos. Todos os objetos que eram gramaticalmente masculinos/femininos em italiano, eram, respetivamente, femininos/masculinos em alemão, e vice-versa. Os tempos de reação também foram gravados para analisar. Os resultados mostram que os falantes bilingues realizaram as tarefas mais lentamente do que os monolingues. A razão pode residir 35 no facto de que o género gramatical existe tanto no italiano quanto no alemão, e o género gramatical no alemão inclui três tipos (masculino, feminino e neutro). Isto leva a que haja uma interferência de géneros gramaticais nas duas línguas, o que explica a dificuldade de as crianças bilingues classificarem objetos de acordo com um determinado género gramatical. Jijia et al. (2005) conduziram um estudo sobre género gramatical em chinês. Foi solicitado a um grupo de crianças chinesas do ensino básico que pontuasse os adjetivos dados numa escala de pontuação de 1 a 10, no qual 1 representa os adjetivos com tendência para género feminino, 7 representam os adjetivos com tendência para género masculino e 4 representam o neutro. O resultado demonstrou que, embora o chinês não possua género gramatical, as crianças demonstram uma tendência para a codificação de género na sua L1. Podemos retirar destes estudos que, no processo de aquisição de uma segunda língua com género gramatical explícita como o português, o género gramatical da L2 tem a possibilidade de influenciar a classificação e o processamento dos objetos pelos aprendentes chineses. 3.3 A influência do género gramatical na perceção do objeto O género gramatical não influencia apenas a classificação dos objetos pelas pessoas. Simultaneamente, influencia a perceção das propriedades dos objetos, levando as pessoas a priorizar o processamento das suas diferentes características. Konishi (1993) pediu a falantes nativos de espanhol e de alemão para avaliar 54 substantivos de objetos não animados, em função de três dimensões: avaliação, como "belo-feio" e "boa-má"; potência, como "forte-fraca" e "grande-pequeno" e, por fim, atividade, como "rápido-lento" e "mole-duro". Verificou-se que os participantes mostraram uma tendência para avaliar os objetos com base no género gramatical da sua língua materna. Estes avaliaram substantivos masculinos como mais poderosos, mais fortes e com uma caracterização máscula e substantivos femininos foram avaliados como mais frágeis, mais flexíveis e com uma caracterização feminina. A partir da discussão acima, pode ver-se que o género gramatical não influencia apenas a semântica dos substantivos, mas também a perceção das características das entidades por eles denotadas. 36 3.4 A influência do género gramatical no processamento cognitivo Muitos estudos mostram que o género gramatical não influencia apenas a caracterização concetual de objetos, como também a velocidade de processamento cognitivo dos mesmos. Em certas condições, o género gramatical pode promover o processamento cognitivo, no entanto, em outras condições, o processamento cognitivo também é passível de ser inibido. Com base nisto, os investigadores propõem o "efeito de concordância do género gramatical" e o "efeito de interferência do género gramatical" ( Cubelli et al. , 2011; Paolieri et al. , 2011) A promoção do género gramatical para o processamento cognitivo, proposto pelos investigadores, é o "efeito de concordância de género gramatical", que implica que, em casos de concordância do género gramatical, se possa completar tarefas mais rapidamente do que em casos de não concordância. Cubelli et al. (2011) recrutaram participantes ingleses, italianos e espanhóis e pediram-lhes que identificassem se os pares de fotos pertenciam à mesma categorização. O resultado mostrou que o género gramatical influenciou a reação de classificação em italiano e espanhol. Além disso, independentemente de pertencerem à mesma categoria ou a categorias diferentes, em casos de concordância de género gramatical, a reação foi sempre mais rápida do que em casos de não concordância. Lemhofer et al. (2003) também provaram esta hipótese, pedindo que os seus participantes bilingues descrevessem uma imagem através de substantivos ou locuções nominais na L2. Quando havia concordância de género gramatical entre a L2 e a L1, o tempo de resposta era menor do que quando não havia concordância, sendo que a taxa de erro também era mais baixa. Apesar da ideia de que "o género gramatical pode promover o processamento cognitivo" continuar a receber suporte empírico, alguns investigadores estavam em desacordo sobre isso. Os seus estudos mostraram que o género gramatical tem uma influência inibitória no processamento cognitivo, ou seja, um "efeito de interferência do género gramatical". O efeito de interferência do género gramatical significa que, quando dois sintagmas nominais ou frases têm o mesmo género gramatical, estes interferem na execução de tarefas como a classificação de linguagem e a identificação semântica, o que faz com que o tempo de reação seja mais longo do que quando não há concordância, e a taxa de erro também seja mais alta. Os estudos da produção de substantivos simples confirmaram este fenómeno ( cf. Cubelli et al. , 2005; Paolieri et al. , 2011). Nesta 37 experiência/Neste estudo, foi solicitado aos participantes que nomeassem os alvos das imagens, fornecendo substantivos simples. Os autores selecionaram dois conjuntos de fotos: 16 itens experimentais e 16 itens distratores. Um total de 96 palavras também foram selecionadas (64 palavras experimentais e 32 palavras distratores), com substantivos femininos terminados em -a e os substantivos masculinos terminando em -o. Em cada condição, dois tipos de palavras aparecem simultaneamente. Os resultados mostram que quando havia concordância de género entre palavras experimentais e distratores, as respostas (800 ms) foram mais lentas do que as de em pares não concordantes (783 ms). 3.5 A influência do género gramatical na aprendizagem de L2 Boroditsky, Schmidt e Phillips (2002) facultaram a participantes bilíngues de alemão-inglês e espanhol-inglês uma série de pares de “nomes de objetos-nomes de personagens” (“pêssego-Pedro”) na fase de aprendizagem. Os materiais experimentais foram apresentados em inglês, sendo que o género gramatical dos nomes facultados é exatamente o oposto em alemão e em espanhol. Na etapa de teste, foi pedido aos participantes que se lembrassem dos nomes dos objetos que correspondem aos nomes de personagens de diferentes sexos. Observou-se que tanto os falantes alemães como os falantes espanhóis mostraram uma taxa de precisão mais alta quando havia concordância de género entre o nome do objeto e o da personagem. Por exemplo, o resultado dos participantes alemães na memorização do par “pêssego-Pedro” (nome masculino) é melhor do que do par “pêssego-Patrícia” (nome feminino). Este resultado revela que o género gramatical da L1 pode influenciar a aprendizagem e a memória de longa duração4 da L2. Arnon e Ramscar (2012) revelam que falantes adultos ingleses têm melhor desempenho na aprendizagem simultânea do género gramatical de artigos e substantivos do que na sua aprendizagem separada. Isto indica que a ordem de aprendizagem do género gramatical da L2 também vai influenciar a aprendizagem e a memória dos falantes. 4 A memória de longa duração é responsável por armazenar todo o conhecimento de uma pessoa. O tempo de acesso para recuperação é muito grande. CfCf . “Os Tipos de Memória”, in Memorização , https://memorizacao.info/os-tipos-de-memoria.html [consultado em 15-03-2021]. 38 IV. O estudo Primeiramente, declara-se que todos os participantes do presente estudo deram o seu consentimento informado (ver anexos 1 e 2), antes da participação formal no teste experimental. O projeto obedece aos requisitos éticos exigidos e foi aprovado pela Comissão Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho em 19 de fevereiro de 2021 com a referência CEICSH 026/2021 (ver anexo 1) 4.1 Objetivos de investigação Tradicionalmente, a maioria dos estudos recorre à " hipótese do período crítico " para descrever a influência da idade do início de aquisição da língua segunda (L2), particularmente, na área de processamento da sintaxe (Dowens et al. , 2011). No entanto, há agora evidências crescentes da importância de outros fatores, como a quantidade e tipo de input , o nível de proficiência de L2, influência interlinguística, e fatores individuais, tal como aptidão para a aprendizagem de línguas estrangeiras, atitudes, estratégias de aprendizagem empregues, etc. De modo geral, os aprendentes de português que estudam apenas na China não comunicam muito com o professor. Se a aquisição ocorre apenas em contexto formal como a sala de aula, o aluno possui exposição muito limitada à L2. Pelo contrário, a aquisição da L2 dos aprendentes em Portugal é realizada num contexto natural. Uma das diferenças essenciais entre os dois tipos de aquisição é a diferença do tipo e da quantidade de input . Estes alunos têm uma proficiência de L2 mais elevada do que os aprendentes que não estiveram em país lusófono. Por agora, o contexto natural é o melhor para a aquisição da linguagem. Johnson (1989) indicou que no contexto específico formal como uma sala de aula, o conhecimento adquirido por alunos é menor do que o no contexto natural. Depois de comparar os dois, o conhecimento aprendido por alunos em ambiente de ensino é normalmente limitado e os professores muitas vezes não são falantes nativos da L2. Para além disso, no caso de uma segunda língua, sabe-se que a influência interlinguística também tem um papel importante na aquisição e processamento linguístico. Dependendo das características das línguas em contacto, há áreas em que a influência é mais evidente, por exemplo a 39 morfologia nominal e, mais especificamente, a área de género gramatical. No caso dos falantes chineses, isso é ainda mais evidente, se adquirirem uma L2 com género gramatical mais marcado. É este o fenómeno que pretendemos entender. Portanto, neste trabalho pretendemos estudar a influência interlinguística na aquisição de género gramatical para investigar se as duas línguas do aprendente interagem, nomeadamente se o processamento do género gramatical em português é determinado pela ausência de género gramatical em chinês e uma tendência particular para marcar o género biológico, como discutido na secção 3.1.2.3. Se verificarmos influência do chinês no português, pretendemos explorar a importância dos fatores extralinguísticos, como "proficiência", " input " e "contexto" de aquisição da língua portuguesa, a fim de correlacioná-los com os fatores linguísticos estudados. 4.2 Metodologia Aplicou-se aos participantes do grupo experimental, dois tipos de testes, um de preenchimento de lacunas do tipo cloze com objeto de avaliação de proficiência da L2 dos participantes, e uma tarefa psicolinguística de leitura auto-monitorizada (Jegerski, 2014). A leitura auto-monitorizada ( self-paced Reading - SPR ) refere-se a um método de pesquisa em psicolinguística através do qual se obtêm dados cronométricos (tempos de resposta) na leitura de frases, que são apresentadas divididas em segmentos isolados. Este tipo de teste permite determinar o tempo de leitura de cada um dos participantes em cada um dos segmentos da frase, havendo segmentos críticos (segmentos em análise) e não críticos (restantes segmentos da frase). Com base nesses tempos de leitura, é possível avaliar se houve ou não diferença nos custos de tempo de leitura dos segmentos críticos. A diferença entre os tempos de leitura pode ser interpretada como maior custo de leitura e consequentemente, maior dificuldade em processar aquele segmento. Uma vez que os participantes precisam de mais tempo para processar o segmento crítico (aquele investigado) pode-se associar esse custo/dificuldade a uma determinada propriedade linguística subjacente ao segmento alvo ( cf. Carpenter & Woolley, 1982). Na secção 4.4 será apesentada, com mais detalhe, a tarefa de leitura auto-monitorizada usada no presente estudo. 40 4.2.1 Participantes Esta investigação contou com a participação de 60 informantes que foram distribuídos por três grupos distintos. Os grupos experimentais subdividiram-se em Grupo 1 e Grupo 2, os quais incluíram um total de 40 falantes de chinês L1: - O Grupo 1 incluiu 20 informantes: Os estudantes estão a frequentar a universidade em Portugal e vivem há pelo menos dois anos em Portugal. - O Grupo 2 incluiu 20 informantes: Os alunos têm apenas aprendizagem formal da língua portuguesa na China e nunca estiveram num país lusófono. - Como grupo de controlo, foi incluído um terceiro grupo de falantes nativos de português. Os participantes foram recrutados na Universidade do Minho, através de pedidos de participação lançados nas redes sociais e através de contactos pessoais. Antes de realizarem o teste de leitura auto-monitorizada, os participantes preencheram um inquérito individual e fizeram um teste de proficiência linguística em PE (ver anexo 2). Esta etapa teve como finalidade verificar se as condições pessoais do participante correspondiam aos requisitos do estudo. Os critérios para recrutamento dos participantes foram os seguintes: (1) A língua materna dos participantes teve de ser PE (Grupo 3) ou CM (Grupos 1 e 2); (2) Os participantes são adultos e estudantes universitários; (3) Os participantes chineses são aprendentes de português L2 que residem em Portugal ou na China. Para além disso, deveria mostrar proficiência distinta em PE entre si. 4.2.2 Grupos experimentais Os 40 participantes chineses encontram-se divididos em dois grupos. O Grupo 1 tem 20 falantes adultos, 5 do sexo masculino e 15 do sexo feminino, com média de idades de 24,8 anos (DP5: 2,67). Frequentam a universidade em Portugal e vivem há pelo menos 2 anos em Portugal. 5 Desvio Padrão (SD) 41 O Grupo 2 tem 20 falantes adultos, 10 do sexo masculino e 10 do sexo feminino, com média de idades de 21,5 anos (DP: 1,43). Frequentam a licenciatura de língua portuguesa na China há aproximadamente três anos e nunca estiveram num país lusófono. 4.2.3 Grupo de controlo O grupo de controlo é composto por 20 falantes nativos de PE, 8 homens e 12 mulheres, com uma média de idades de 29,4 anos (DP: 9,27). Todos os participantes são estudantes universitários e frequentam cursos de mestrado de Braga, Coimbra, Lisboa etc. 4.2.4 Procedimento Tal como já foi referido anteriormente, o procedimento deste estudo dividiu-se em três fases, em duas plataformas distintas: um Cloze test na plataforma Cognition6 ; e um questionário e um teste de leitura auto-monitorizada na plataforma PCIbex Farm7 . Fase I: os participantes tanto chineses como portugueses entram na primeira tarefa, que é um texto com lacunas na plataforma Cognition , ao qual acedem pelo link enviado por email . Os participantes deviam completar as lacunas com adjetivos adequados para avaliar a sua proficiência de português e os conhecimentos de género gramatical. Fase II: começaram a realização da segunda tarefa da experiência, leram e deram seu consentimento informado, depois preencheram um questionário biográfico e linguístico na plataforma PCIbex Farm . Fase III: a experiência final corresponde à realização da última tarefa, o teste de leitura auto-monitorizada na plataforma PCIbex Farm . O objetivo deste teste é avaliar o processamento de género gramatical em frases. 6Peirce, J. W., Gray, J. R., Simpson, S., MacAskill, M. R., Höchenberger, R., Sogo, H., Kastman, E., Lindeløv, J. (2019). PsychoPy2: experiments in behavior made easy. Behavior Research Methods. 10.3758/s13428-018-01193-y 7Zehr, J., & Schwarz, F. (2018). PennController for Internet Based Experiments (IBEX). https://doi.org/10.17605/OSF.IO/MD832 42 4.3 Teste de proficiência linguística em PE O teste de proficiência linguística em PE (ver anexo 2) é construído com base na plataforma Cognition. O cloze test testa os falantes nas competências de compreensão da leitura e do género gramatical, e tem como finalidade a classificação da proficiência linguística em PE dos participantes chineses de acordo com o seu conhecimento do género gramatical. O teste é uma história fictícia em PE que inclui um total de 18 palavras de teste, as quais correspondem aos três tipos diferentes de adjetivo em chinês. Temos assim 3 condições: duas condições com contexto animado: 1. animado/com marcação de género em chinês 2. animado/sem marcação de género em chinês uma condição com contexto inanimado: 3. inanimado/sem marcação de género em chinês Cada condição inclui 6 adjetivos, distribuídos no teste aleatoriamente. Os participantes leram o texto com algumas palavras em falta, e deveriam preencher as lacunas com os adjetivos apropriados. 4.4 Teste de leitura auto-monitorizada O teste de leitura-automitorizada inclui um total de 204 itens: 12 de treino, 60 itens estímulos e 132 itens de distratores (45 de originais e 87 de repetição). Todos os itens, excepto os de treino, são distribuídos de forma aleatória em 6 listas (A, B, C, D, E, F); cada lista consiste em 10 itens de estímulos e 22 distratores. Todas as condições e frases podem ser encontradas no anexo 2. Os distratores foram classificados nas seguintes condições: DISTSIM: as frases fazem sentido. DISTNÃO: as frases não fazem sentido. As frases experimentais foram classificadas nas seguintes condições: ANIMIGFEM8: com adjetivos femininos animados/com correspondente marcação de género em chinês. 8 "IG" significa que as condições se assemelham no parâmetro Género às condições em chinês, e "IG" nas condições INA indica que os adjetivos aplicados na condição ANIMIG e INAIG são iguais. 43 ANIMIGMASC: com adjetivos masculinos animados/com correspondente marcação de género em chinês. ANIMDIFFEM: com adjetivos femininos animados/sem marcação de género em chinês. ANIMDIFMASC: com adjetivos masculinos animados/sem marcação de género em chinês. INAIGFEM: com adjetivos femininos inanimados/sem marcação de género em chinês. INAIGMASC: com adjetivos masculinos inanimados/seom marcação de género em chinês. A fim de evitar efeitos de habituação, os participantes foram atribuídos pelas 6 listas de A-F, aleatoriamente. Numa experiência de leitura auto-monitorizada, cada participante é instruído a ler as frases palavra a palavra/segmento a segmento. O participante é responsável por apertar a tecla ESPAÇO, a seu ritmo, para que cada palavra / segmento apareça no ecrã, um a um, até que possa ler toda a frase. Não é possível, neste paradigma de estimulação, retornar à palavra ou segmento anterior. A leitura é sempre para frente. Através deste tipo de estimulação é possível obter os tempos de leitura 9de cada segmento da frase. O objetivo principal é obter os tempos de leitura e reação e poder compará-los. Após a leitura de cada frase completa, os participantes responderam a uma pergunta de compreensão do tipo «A frase faz sentido?», podendo responder SIM (FAZ SENTIDO) ou NÃO (NÃO FAZ SENTIDO), que aparece de uma só vez para aferir a atenção com que liam os itens. O objetivo principal da pergunta de compreensão é garantir o entendimento da frase lida. Assim, pode-se eliminar participantes que não tenham interpretado corretamente um item. Além disso, a pergunta de compreensão tem a função de engajar os participantes e manter a atenção e foco executivo. Antes de começar a experiência, fizeram um treino para se familiarizar com a tarefa. Para responder SIM, prima a tecla C e, para responder NÃO, prima a tecla M do teclado, além disso, nunca foram informados de que haveria itens distratores no teste. 9 No presente trabalho, sempre que se falar em tempo de leitura, este deverá entendido como tempo de leitura dos segmentos críticos. 50 TABELA 5.4 - Distribuição geral dos resultados do teste experimental Condições Grupo G1 G2 GC TOTAL FEM TL(Média) 986,89 1309,52 595,96 917,68 DP 409,08 679,46 229,27 547,26 ANIMDIF MASC TL(Média) 1051,72 1632,55 550,13 993,35 DP 498,60 806,584 223,71 696,85 Total TL(Média) 1018,06 1465,98 572,55 955,15 DP 450,97 755,49 226,40 625,47 FEM TL(Média) 856,76 1279,67 509,71 828,59 DP 433,89 649,20 189,45 537,67 ANIMIG MASC TL(Média) 860,86 1066,77 615,73 806,84 DP 351,96 517,3 310,44 429,70 Total TL(Média) 858,81 1173,22 564,98 817,51 DP 391,58 591,80 263,74 484,63 FEM TL(Média) 1078,08 1732,78 550,87 1050,88 DP 463,819 929,31 251,45 776,29 INAIG MASC TL(Média) 873,46 1480,85 529,28 930,27 DP 358,424 1013,77 272,27 751,11 Total TL(Média) 973,76 1603,00 540,32 990,28 DP 422,10 974,54 260,54 764,26 FEM TL(Média) 968,44 1442,66 552,50 975,93 DP 439,56 784,44 226,01 616,83 TOTAL MASC TL(Média) 924,60 1399,59 566,69 908,78 DP 409,33 840,61 271,99 641,53 Total TL(Média) 946,66 1421,13 559,70 939,46 DP 424,05 811,15 250,04 630,71 51 5.1.3 Análise dos dados por condição Nesta secção, a análise dos dados por condição é feita contrastando os diferentes resultados produzidos dos diversos grupos na cada condição. A análise mais detalhada será feita posteriormente. Condição ANIMDIFFEM/MASC O gráfico 5.1 apresenta o tempo médio do processamento com diferentes géneros na condição ANIMDIF, correspondente aos três grupos. Gráfico 5.1 Resultados relativos aos tempos médios na condição ANIMDIF Para avaliar se as diferenças entre os grupos são estatisticamente significativas, efetuou-se um teste Kruskal-Wallis porque não se verificou distribuição normal entre os três grupos em comparação (pode-se ver os resultados dos testes de normalidade em anexo 3). Este revela que existe uma diferença muito significativa entre os três grupos no processamento na condição ANIMDIFFEM (χ2(2 ) = 37,050, p < ,001) e que uma diferença muito significativa na condição ANIMDIFMASC (χ2(2) = 37,050, p < ,001), conforme tabelas seguintes. 0 500 1000 1500 2000 ANIMDIFFEM ANIMDIFMASC RT - ANIMDIF Grupo 1 Grupo 2 Grupo C 52 TABELA 5.5 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição ANIMDIFFEM Chi-Square (χ2) 37,050 gl 2 Sig. ,000 TABELA 5.6 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição ANIMDIFMASC Chi-Square (χ2) 46,630 gl 2 Sig. ,000 Condição ANIMIGFEM/MASC O gráfico 5.2 apresenta o tempo médio do processamento com diferentes géneros na condição ANIMIG, correspondente aos três grupos. Gráfico 5.2 Resultados relativos aos tempos médios na condição ANIMIG Os resultados do teste Kruskal-Wallis mostraram que existe uma diferença significativa entre os três grupos no processamento na condição ANIMIGFEM (χ2(2) = 40,956, p < ,001) e que uma diferença significativa na condição ANIMIGMASC (χ2(2) = 22,712, p < ,001), conforme tabelas seguintes. 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 ANIMIGFEM ANIMIGMASC RT - ANIMIG Grupo 1 Grupo 2 Grupo C 53 TABELA 5.7 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição ANIMIGFEM Chi-Square (χ2) 40,956 gl 2 Sig. ,000 TABELA 5.8 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição ANIMIGMASC Chi-Square (χ2) 22,712 gl 2 Sig. ,000 Condição INAIGFEM/MASC O gráfico 5.3 apresenta os tempos médios do processamento com diferentes géneros na condição INAIG, correspondente aos três grupos. Gráfico 5.3 Resultados relativos aos tempos médios na condição INAIG O teste de Kruskal-Walli, com os seus resultados mostrados na Tabela 5.9 e 5.10, indicou diferenças significativas no processamento na condição INAIGFEM (χ2(2) = 43,643, p < ,001) e condição INAIGMASC (χ2(2) = 30,215, p < ,001) entre os três grupos. 0 500 1000 1500 2000 INAIGFEM INAIGMASC RT - INAIG Grupo 1 Grupo 2 Grupo C 54 TABELA 5.9 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição INAIGFEM Chi-Square (χ2) 43,643 gl 2 Sig. ,000 TABELA 5.10 - Resultados do teste de Kruskal-Wallis na condição INAIGMASC Chi-Square (χ2) 30,215 gl 2 Sig. ,000 5.2 Correlação entre Tempos e Proficiência Antes da análise dos dados da experiência de leitura auto-monitorizada para correlacionar as questões de investigação, é muito importante verificar o efeito da proficiência sob os tempos de leitura dos segmentos críticos através de um teste de correlação. Visto que a análise exploratória de dados mostra que as variáveis 'Proficiência' e 'TL'11 não seguem uma distribuição normal bivariada, para verificar a correlação entre o processamento do género gramatical e o nível de proficiência linguística de PE, aplicou-se um teste de associação não paramétrico, o Teste de Coeficiente de Correlação de Pearson. Foi utilizado para aferir se existe uma correlação entre a distribuição dos tempos médios de leitura nos segmentos críticos das todas condições e o nível de proficiência linguística dos falantes PL2 avaliado através do teste de cloze-test. Em primeiro lugar, aplicou-se a correlação com todos os aprendentes chineses e mais adiante correu-se o mesmo teste da correlação por grupo. 11 Tempo de leitura 55 TABELA 5.11 - Teste estatístico sobre correlação entre Tempos e Proficiência dos aprendentes chineses Como mostrado na tabela 5.4, o resultado de Correlação ilustra que, de facto, há uma associação muito significativa entre os tempos médios de leitura individuais de todas as condições pelos aprendentes chineses e o seu nível de proficiência (r = - ,560; p < ,001). O coeficiente de correlação de Pearson menor que 0 indica que à medida que o nível da proficiência linguística individual aumenta, a velocidade de leitura diminui, nomeadamente os menores tempos médios de leitura nos segmentos críticos de todas as frases, vice-versa, à medida que o nível da proficiência linguística individual diminui, o outro aumentará. Como tal, os dois são inversamente relacionados12. 12 Quando o valor de alguma variável é alto, o valor da outra variável é baixo. Quanto mais próximo você estiver de -1, mais clara será a covariação extrema. Se o coeficiente é igual a -1, nos referimos a uma correlação negativa perfeita. "Correlação de Pearson: de que trata esse coeficiente?", in https://www.questionpro.com/blog/pt-br/correlacao-de-pearson/ [consultado em 10-12-2021]. Aprendentes chineses Proficiência TL(Média) Proficiência 1 - ,560** TL(Média) - ,560** 1 **. A correlação é significativa no nível 0,01 (2 extremidades). 56 TABELA 5.12 - Teste estatístico sobre correlação entre Tempos e Proficiência dos dois grupos de estudo Além disso, este teste de correlação entre tempos de leitura e proficiência dos aprendentes também foi conduzido separadamente nos dois grupos de estudo. Pode-se observar na tabela 5.12 que os dados mostram que o G1 apresenta um coeficiente de correlação de Pearson r= - ,602; p= ,005; O grupo de estudo 2 apresenta um coeficiente de correlação de Pearson r= - ,530; p= ,016. Os resultados evidenciam que não há apenas uma divergência estatisticamente significativa, existe uma correlação muito distinta entre tempos de leitura e proficiência dos aprendentes, quer no grupo 1, quer no 2. Pode-se notar que os coeficientes de Pearson estão negativos, portanto, são inversamente relacionados. Grupo 1 (falantes L1 chinês/intermediários e avançados L2 português) Proficiência TL(Média) Proficiência 1 - ,602** TL(Média) - ,602** 1 Sig. (p) ,005 **. A correlação é significativa no nível 0,01 (2 extremidades). Grupo 2 (falantes L1 chinês/elementares L2 português) Proficiência TL(Média) Proficiência 1 - ,530* TL(Média) - ,530* 1 Sig. (p) ,016 *. A correlação é significativa no nível 0,05 (2 extremidades). 57 VI. Discussão O presente capítulo divide-se em duas partes, uma de análise dos resultados do teste experimental de leitura auto-monitorizada, apresentados por grupo, outra de discussão dos resultados à base dos dados analisados, para que correspondam às questões de investigação apresentadas na secção anterior. 6.1 Análise das questões de investigação Para efeitos de análise, foram excluídos os dados individuais que se afastaram muito da média, seguindo o seguinte cálculo: as médias que são > que a mediana dividida por 3 e < que a mediana vezes 3. As análises estão organizadas de acordo com as questões mencionadas na secção 4.2. Sendo assim, em primeiro lugar, apresenta-se os resultados dos aprendentes chineses e dos falantes nativos. A seguir, compara-se o desempenho do tratamento experimental entre si. Q 1. Como é o tempo de leitura do grupo de estudo, em comparação com o grupo do controlo? Os aprendentes mostram maior dificuldade (demoram mais) a processar o género gramatical em PL2 em adjetivos que não marcam o género em chinês? Antes de mais, a tabela 5.4 apresenta os tempos médios de leitura em cada uma das condições do estudo. Os dados apresentados correspondem à média dos tempos de leitura dos participantes chineses e dos portugueses nos segmentos críticos. 58 TABELA 6.1 - Média de Tempo de Leitura do segmento crítico no teste de SPR O grupo de estudo(CHINESES) O grupo de controlo (NATIVOS) Nota: RT=reading time; MS=milissegundo Os dados mostram que o grupo de estudo apresenta uma média de 1320,50ms de RT, com um desvio padrão (DP) de 237,49. Quanto aos dados do grupo de controlo, tal como esperado, os participantes custaram menos, com uma média de 558,61ms de RT, com um desvio padrão (DP) de 40,10. Nesta análise preliminar, pode-se verificar que, em média, os participantes nativos leram mais depressa os segmentos críticos. CONDIÇÃO RT(MS) ANIMDIFFEM 1360.05 ANIMDIFMASC 1541.86 DP ANIMIGFEM 1100.29 ANIMIGMASC 1036.02 237,49 INAIGFEM 1632.54 INAIGMASC 1252.30 Média 1320.509073 CONDIÇÃO RT(MS) ANIMDIFFEM 595,96 ANIMDIFMASC 550,13 DP ANIMIGFEM 509,71 ANIMIGMASC 615,73 40,10 INAIGFEM 550,87 INAIGMASC 529,28 Média 558,61 59 De forma de apresentar a relação de comparação mais claramente em relação aos tempos de leitura entre condições, organizamos os dados nos gráficos, tal como apresentado no gráfico 6.1 e 6.2. Gráfico 6.1 - Tempos médios de leitura do segmento crítico das condições dos participantes chineses. Gráfico 6.2 - Tempos médios de leitura do segmento crítico das condições dos participantes portugueses É de notar que a comparação dos dados do grupo chinês mostra um fenómeno: para os adjetivos animados, há uma pequena diferença dos tempos médios de processamento entre os adjetivos femininos/masculinos (dentro de 100ms); para os adjetivos inanimados, há uma maior diferença, pois o processamento dos adjetivos masculinos é muito mais rápido do que dos femininos. Na análise posterior, pretendemos verificar se existe estatisticamente diferença entre eles. 595,96 550,13 509,71 615,73 550,87 529,28 0 100 200 300 400 500 600 700 1360,05 1541,86 1100,29 1036,02 1632,54 1252,3 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 66 juntamos os resultados dos três grupos em todas as condições. Como a análise exploratória de dados mostra que a variável 'tempos' não segue uma distribuição normal nos três grupos (ver resultado do Teste de Normalidade em anexo 3), aplicaram-se testes não paramétricos neste trabalho, isto é, testes de Kruskal-Wallis , para verificar se haveria diferenças estatísticas significativas entre os tempos de leitura dos grupos nas condições. TABELA 6.7 Resultados dos testes de Kruskal-Wallis relativos aos tempos de leitura das seis condições nos três grupos Condição G1 (n = 20) Média (DP) (ms) G2 (n = 20) Média (DP) (ms) GC (n = 20) Média (DP) (ms) χ2(gl) ANIMDIFFEM 986,89 (409,08) 1309,52 (679,46) 595,96 (229,27) 37,05 (2) *** ANIMDIFMASC 1051,72 (498,60) 1632,55 (806,584) 550,13 (223,71) 46,63 (2) *** ANIMIGFEM 856,76 (433,89) 1279,67 (649,20) 509,71 (189,45) 40,96 (2) *** ANIMIGMASC 860,86 (351,96) 1066,77 (517,32) 615,73 (310,44) 22,71 (2) *** INAIGFEM 1078,08 (463,819) 1732,78 (929,31) 550,87 (251,45) 43,64 (2) *** INAIGMASC 873,46 (358,424) 1480,85 (1013,77) 529,28 (272,27) 30,22 (2) *** p < 0,05 ** p < 0,01 *** p < 0,001 ms: milissegundo Como se observa na tabela 6.7, os resultados mostram que há diferenças significativas entre os tempos de leitura e processamento em todas as condições entre os grupos em comparação. 67 Constatou-se que, tal como previsto, por apresentarem custos médios de processamento, os falantes nativos leem mais depressa os segmentos gramaticais. Importa destacar que o grupo 1 tem um comportamento bastante diferente do grupo 2. Este grupo demonstra uma preferência pela condição INAIGMASC, no entanto, ainda custaram mais do que as condições animadas. No entanto, ao passo que já sabemos a diferenças entre os grupos, não nos informa, através do teste de Kruskal-Wallis, a localização das diferenças encontradas. Aliás, de forma a explorar melhor o desempenho experimental dos participantes em relação ao efeito de proficiência de PL2, far-se-á uma análise a seguir comparando os resultados dos grupos G1 e G2. Segundo os resultados dos testes de normalidade Kolmogorov Smirnov, não apresentam distribuição normal no grupo 1 e no grupo 2, como tal, aplicaram se testes não paramétricos, nomeadamente o teste de Mann-Whitney. 68 TABELA 6.8 Resultados do teste de Mann-Whitney referente à comparação entre G1 e G2 nas seis condições Condição G1 (n = 20) Média (DP) (ms) G2 (n = 20) Média (DP) (ms) U ANIMDIFFEM 986,89 (409,08) 1309,52 (679,46) 334,000 ( ,098) ANIMDIFMASC 1051,72 (498,60) 1632,55 (806,584) 203,500 ( ,002) ANIMIGFEM 856,76 (433,89) 1279,67 (649,20) 264,000 ( ,010) ANIMIGMASC 860,86 (351,96) 1066,77 (517,32) 332,000 ( ,118) INAIGFEM 1078,08 (463,819) 1732,78 (929,31) 226,000 ( ,005) INAIGMASC 873,46 (358,424) 1480,85 (1013,77) 310,500 ( ,050) * p < 0,05 ** p < 0,01 *** p < 0,001 ms: milissegundo ns = não significativo Após a aplicação deste teste de Mann-Whitney , surgiu-se os resultados como mostrados na tabela 6.8. A fim de apresentar a relação de comparação mais esclarecidamente em relação ao processamento das condições entre grupos, organizamos os dados da Tabela 6.8 de uma outra forma, tal como apresentado na Tabela 6.9. 69 TABELA 6.9 Resultados de comparação dos tempos médios de leitura do segmento crítico das condições entre grupos Condição G1 G2 U ANIMDIFFEM ns 334,000 ( ,098) ANIMDIFMASC < *** 203,500 ( ,002) ANIMIGFEM < *** 264,000 ( ,010) ANIMIGMASC ns 332,000 ( ,118) INAIGFEM < * 226,000 ( ,005) INAIGMASC < *** 310,500 ( ,050) * p < 0,05 ** p < 0,01 *** p < 0,001 ms: milissegundo ns = não significativo Nota: Para melhor observação, mostrando a comparação, deste modo, no caso de “G1<G2” indica os tempos de leitura no processamento do Grupo1 inferiores ao Grupo 2. O teste de Mann-Whitney , com os seus resultados mostrados na Tabela 6.9, indicou diferenças significativas entre o Grupo 1 (falantes L1 chinês/intermediários e avançados L2 português) e o Grupo 2 (falantes L1 chinês/elementares L2 português) no processamento das condições seguintes: ANIMDIFMASC (U = 203,500, p = 0,002); ANIMIGFEM (U = 264,000, p = 0,010); INAIGFEM (U = 226,000, p = 0,005). Verificou-se diferença marginalmente na condição de INAIGMASC (U = 310,500, p = 0,050). Contudo, no que diz respeito às condições de ANIMDIFFEM (U = 334,000, p = 0,098) e ANIMIGMASC (U = 332,000, p = 0,118) não há diferenças significativas no processamento. Não obstante disto, consideramos que existe uma melhoria estatisticamente significativa quer nas 70 condições animadas, quer nas inanimadas na medida em que aumenta o nível de proficiência linguística dos aprendentes chineses. 6.2 Discussão relativa às hipóteses Em primeiro lugar, tenta-se discutir a hipótese 1: Há transferência linguística de chinês L1 para português L2. A transferência linguística é geralmente manifestada como transferência positiva e transferência negativa. Segundo Odlin (1989: 36) quando as semelhanças entre as línguas se dão ao nível fonético e gramatical, respetivamente, estes factos podem acelerar não só a aquisição da pronúncia e da gramática, como também o desenvolvimento da compreensão escrita do aprendente; no que concerne à transferência negativa, é um fenómeno mais comum no processo de aquisição de uma L2, quando há divergência entre as gramáticas da L1 e da L2 e é, em geral, igualada à noção de “erros de produção” (ODLIN, 1989). Conforme Kuperberg e Jaeger (2016, p. 32) argumentam, o nível de previsão em que um falante da língua se desempenhará provavelmente será “ uma função de sua necessidade, que, por sua vez, pode depender dos objetivos dos falantes e suas estimativas da relativa confiabilidade no seu conhecimento linguístico prévio e dos processos bottom-up ” (morfossintáticos e semânticos). A partir da discussão anterior, já sabemos que os alunos chineses demonstram uma tendência para a codificação de género, em função do estudo de Jijia et al. (2005). Ademais, o chinês difere do português, porque não tem uma propriedade gramatical de género explícita, ou seja, não existem palavras femininas e masculinas, mas há muitos adjetivos chineses que têm uma tendência de género quando são associadas ao género biológico. Pode-se dizer, portanto, que a gramática de género é implícita em chinês. (FU CHAO, 2018). Como tal, neste estudo pretendeu-se verificar se há algum fenómeno de transferência linguística entre as duas línguas no processamento do género gramatical. Conforme a Tabela 6.2 e o Gráfico 6.1. Em primeiro lugar, pode-se observar que a condição de INAIGFEM foi a mais difícil com um tempo médio de 1632.54ms, seguida de ANIMDIFMASC com um tempo médio de 1541.86ms. Com estes resultados pode-se aventar que os participantes 71 chineses têm muita dificuldade em processar estas duas condições, nomeadamente, os adjetivos que não possuem o género mais marcado em chinês. As condições ANIMIGMAS e ANIMIGFEM obtiveram os melhores resultados com tempo médio de 1036.02ms e de 1100.29ms, respetivamente. Porque essas condições se assemelham no parâmetro Género às condições em chines, ou seja, o parâmetro de género obedece à gramática da língua chinesa. Vice-versa, as condições em que os falantes têm mais dificuldade a processar as frases são aquelas em que o parâmetro de género gramatical na L2 não corresponde à gramática da língua chinesa. Organizamos separadamente os dados dos dois grupos chineses para observação mais esclarecidamente, como mostrados no Gráfico 6.3 e 6.4. Gráfico 6.3 - Tempos médios de leitura do segmento crítico das condições do Grupo 1 Gráfico 6.4 - Tempos médios de leitura do segmento crítico das condições do Grupo 2 Pode-se observar pelo gráfico 6.3, 6.4 e 6.5 que as tendências de processamento dos segmentos críticos entre os dois grupos são muito semelhantes. INAIGFEM é a condição mais difícil, ANIMDIF FEM ANIMDIF MASC ANIMIGF EM ANIMIG MASC INAIGFE M INAIGM ASC RT(MS) 1309,52 1632,55 1279,67 1066,77 1732,78 1480,85 0 500 1000 1500 2000 Grupo 2 - RT(MS) ANIMDIF FEM ANIMDIF MASC ANIMIGF EM ANIMIG MASC INAIGFE M INAIGM ASC RT(MS) 986,89 1051,72 856,76 860,86 1078,08 873,46 0 200 400 600 800 1000 1200 Grupo 1 - RT(MS) 72 tanto no grupo 1 como no grupo 2, enquanto ANIMIGFEM/MASC são, respetivamente, as condições mais difíceis. Em outras palavras, os aprendentes demoraram muito mais nas condições inanimadas/não com marcação de género em chinês do que nas animadas/com marcação de género em chinês. Esta conclusão coincide com os resultados de outros estudos nesta área. Segundo Chenjun et al. (2010), a tendência de codificação do género gramatical em chinês afeta estavelmente a aquisição do género gramatical do francês: A não concordância gramatical entre chinês e francês interfere no reconhecimento do género gramatical em francês L2 por falantes de chinês L1, mostrando transferência interlinguística. Por conseguinte, podemos afirmar que neste trabalho também se observa a influência da L1 no desenvolvimento de PL2 dos aprendentes chineses, especificamente, uma influência positiva no aspeto do processamento de género gramatical quando associarem aos objetos animados, por sua vez, uma influência negativa quando associarem aos objetos inanimados. Assim, o argumento lógico apresentado em Kuperberg e Jaeger (2016) pode ser estendido para além do nível da usabilidade. O falante empenha-se em mecanismos preditivos, baseados na natureza da informação , ou seja, deve haver uma hierarquia de parâmetros e pesos que o falante usará para criar predições e a transferência parece guiar este processo. Passando à hipótese 2: Há um fenómeno que adjetivos com género diferente influencia o processamento do género gramatical. Com base nos dados estatísticos mencionados na secção anterior, ao passo que não podemos confirmar que existe influência de género nas condições animadas, confirma-se que, é evidente, nas condições inanimadas cuja não marcam género em chinês, o processamento do adjetivo masculino é muito mais rápido do que do feminino, nomeadamente, facilitando o processamento em português. A fim de explorar a causa para essa diferença no processamento, uma investigação pós-experimento foi conduzida com alguns dos participantes. A questão usada é mostrada a seguir: Questão: Ao seu ver, por que o processamento dos adjetivos masculinos da condição inanimada é mais fácil (menos custaram) do que o dos adjetivos femininos no processo da experiência? 73 Depois de recolher e organizar as respostas, concluindo que as opiniões estão divididas em dois aspetos a seguir: 1. A maioria dos participantes pensa que o fenómeno está relacionado aos hábitos quotidianos, como maneira de aprendizagem e preferência de expressão linguística no processo de aquisição de L2. Por exemplo, quando os aprendentes aprendem algum adjetivo, eles atentam, muitas vezes, apenas para a sua forma masculina para o identificar; quando procuram o significado de uma palavra que não entendem no dicionário, quase sempre recorrem à sua forma masculina e ignoram a forma feminina, o que leva a usar mais frequentemente palavras masculinas no processo de expressão linguística. Por sua vez, o uso de palavras femininas é normalmente transformar sufixo /o/ em /a/, tornando-se assim, palavras femininas. Como tal, desta forma, haverá diferenças na aquisição e no processamento do género gramatical. 2. Em outras respostas, explicando que essa diferença pode ser influenciada pelo pensamento feudal chinês, isto é, as preferências tradicionais por filhos homens estão profundamente enraizadas na Ásia, particularmente nas comunidades agrícolas. Por este motivo, na China, é ilegal identificar o sexo de feto por meios técnicos antes do nascimento, é completamente proibido, pois a consequência pode ser um aborto espontâneo, o que não favorece o desenvolvimento social. No entanto, ainda não há estudos que possam confirmar esta afirmação. Na minha opinião, em relação à segunda explicação, prefiro considerar os hábitos de aprendizado como o principal motivo da diferença. Em suma, isso é apenas uma análise, ainda precisa estudos mais detalhados e mais profissionais para verificar essa hipótese. Em seguida, discutiremos a hipótese 3: Há uma influência de proficiência em PE no processamento do género gramatical. Já sabemos que o fenómeno de transferência linguística é um fator importante no processamento do género gramatical, mas a proficiência linguística de L2 é também muito relevante. A ideia de que os alunos que passam por períodos de estudo no exterior voltam para casa tendo melhorado evidentemente as suas competências linguísticas é amplamente aceite, na realidade, as experiências de estudo no exterior são consideradas um dos meios mais eficazes de se tornar 74 proficiente numa L2 (Serrano, 2010). Com base nos resultados obtidos na questão 3 anterior, confirmamos diferença significativa entre dois grupos chineses, o gráfico 6.5 apresenta a comparação dos tempos de leitura de condições por grupo. Gráfico 6.5 - A comparação dos tempos médios de leitura do segmento crítico das condições entre Grupo 1 e Grupo 2 Observa-se através do gráfico 6.5 que, ao longo do processamento em quaisquer condições, a velocidade de leitura do Grupo 1 (falantes L1 chinês/intermediários e avançados L2 português) é mais rápida do que a do Grupo 2 (falantes L1 chinês/elementares L2 português). Ainda que não apresentem diferenças estatisticamente significativas no processamento nas duas condições entre as seis, a diferença confirma-se nas outras condições. Consideramos, então, que a proficiência linguística de PL2 tem um papel positivo no processamento de género gramatical. Para além disso, importa salientar que, em comparação com o desempenho de processamento do grupo 2, o grupo 1 tende gradualmente a estabilizar, e a tendência é semelhante à do grupo do controlo (falantes L1 português). Isso mostra que, com a melhoria da competência de L2, os aprendentes chineses não só apresentam vantagens do processamento gramatical, mas também uma habilidade linguística mais estável. 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 RT(MS) Grupo 1 Grupo 2 Grupo C 75 Gonçalves (2011) confirma, de forma semelhante, que o nível de proficiência linguística dos aprendentes realmente é um fator relevante para que o processamento se dê de forma mais ou menos ágil e quanto maior o nível de proficiência maior a habilidade de processamento na L2. Como tal, sendo a resposta da hipótese 3 afirmativa, confirmamos que o processamento do género gramatical melhora na medida em que aumenta o nível de proficiência linguística de PL2 dos aprendentes chineses, e o processamento mais estavelmente. 82 Anexo 1 83 Inquérito individual e o Consentimento Informado 84 Anexo 2 Dados gerais sobre os participantes Grupo 1 Nome Sexo Idade Médio (DP) wudi feminino 25 Lishan feminino 24 Carla feminino 25 Li feminino 20 Ci feminino 23 Chen feminino 25 Zhang feminino 29 Andre masculino 23 Júlia feminino 23 Anne feminino 23 24,8 Li masculino 25 (2,61) Ma feminino 23 Bi feminino 24 Zheng masculino 26 Zhang feminino 23 Fernanda masculino 25 Wang feminino 24 Joana masculino 25 Xu masculino 34 Carol masculino 23 85 Grupo 2 Nome Sexo Idade Médio (DP) Chen masculino 24 Olívia feminino 20 Raquel feminino 21 Kyara feminino 20 Gao feminino 23 Wang masculino 23 Xu masculino 24 Yang masculino 23 Amélia feminino 23 Song feminino 24 51,5 Zhou masculino 21 (1,54) Wang feminino 20 Gou feminino 20 Wang masculino 20 Xie feminino 20 Rafael masculino 21 Zhang feminino 21 Yang masculino 21 Wu feminino 20 Ella feminino 21 86 Grupo de Controlo Nome Sexo Idade Médio (DP) Adriana feminino 50 Rita feminino 23 Duarte feminino 26 Sónia Ferreira feminino 39 Carmen feminino 43 Alberto feminino 40 Manuel feminino 24 Ana masculino 19 Telma feminino 23 Fábio feminino 24 29,65 Sara masculino 32 (9,11) Helena feminino 43 Mariana feminino 25 Júlio masculino 35 Madalena feminino 25 Magda masculino 23 Alexandra feminino 26 Susana masculino 33 Vasco masculino 20 Henrique masculino 20 87 Anexo 3 Dados estatísticos sobre os participantes: Resultados dos testes de normalidade de taxa de acerto dos grupo de estudo e de controlo Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra taxa de acerto Estatística do teste .200 Significância Sig. (bilateral) .000c c. Correção de Significância de Lilliefors. Resultados dos testes de normalidade dos tempo de leitura dos grupo de estudo e de controlo Resultados dos testes de normalidade dos tempo de leitura e da proficiência de PE Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra RT(MS) Estatística do teste .246 Significância Sig. (bilateral) .044c c. Correção de Significância de Lilliefors. Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra taxa de acerto TL(Média) N 40 40 Estatística do teste .159 .111 Significância Sig. (bilateral) .013c .200c c. Correção de Significância de Lilliefors. 88 Resultados dos testes de normalidade das seis condições do grupo de controlo Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra ANIMDIFF EM ANIMDIFM ASC ANIMIGFE M ANIMIGMA SC INAIGFE M INAIGMAS C Estatística do teste .157 .190 .252 .151 .213 .211 Significância Sig. (bilateral) .006c .000c .000c .010c .000c .000c c. Correção de Significância de Lilliefors. Resultados dos testes de normalidade das seis condições do grupo de falantes chineses Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra ANIMDIFF EM ANIMDIFM ASC ANIMIGFE M ANIMIGMA SC INAIGFE M INAIGMAS C Estatística do teste .120 .126 .171 .120 .122 .167 Significância Sig. (bilateral) .043c .026c .000c .031c .045c .001c c. Correção de Significância de Lilliefors. Resultados dos testes de normalidade de `TL´ do grupo 1 Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra TL Estatística do teste .106 Significância Sig. (bilateral) .000c c. Correção de Significância de Lilliefors. 89 Resultados dos testes de normalidade de `TL´ do grupo 2 Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra TL Estatística do teste .084 Significância Sig. (bilateral) .002c c. Correção de Significância de Lilliefors. Resultados dos testes de normalidade de `TL´ do GC Teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra TL Estatística do teste .155 Significância Sig. (bilateral) .000c c. Correção de Significância de Lilliefors. 90 Anexo 4 Teste de preenchimento de lacunas do tipo cloze com objeto de avaliação de proficiência da L2 dos participantes 91 Anexo 5 As frases-estímulo de tarefa psicolinguística de leitura auto-monitorizada Lista 1 Item Condition Grupo "Eu encontrei a menina bonita hoje.", 1 ANIMIGFEM A "Eles protegeram a aluna baixa durante o jogo.", 7 ANIMIGFEM A "Nós nunca vimos um rapaz tão puro na vida.", 16 ANIMIGMASC A "Ele gosta dessa jogadora esforçada em todos os jogos.", 25 ANIMDIFFEM A "Elas apreciam mulheres criativas na televisão.", 30 ANIMDIFFEM A "Ela criou um filho calmo apesar de tudo.", 34 ANIMDIFMASC A "Eles criticaram a atriz distraído da novela.", 39 ANIMDIFMASC A "Nós achamos a fotografia linda de imediato.", 43 INAIGFEM A "Nós admiramos a girafa formosa do desenho.", 48 INAIGFEM A "Eu conheci aquele prédio alto na viagem.", 52 INAIGMASC A Lista 2 Item Condition Grupo "Eu conheci aquela mulher alta no curso.", 2 ANIMIGFEM B "Nós admiramos a princesa formosa da história.", 8 ANIMIGFEM B "Eu encontrei o menino bonito hoje.", 11 ANIMIGMASC B "Nós nunca vimos uma rapariga tão honesta na vida.", 26 ANIMDIFFEM B "Ela gosta desse jogador esforçado em todos os jogos.", 35 ANIMDIFMASC B "Elas apreciam os homens criativos na televisão.", 40 ANIMDIFMASC B "Ela criou uma máquina esperta nessa época.", 44 INAIGFEM B "Eles comeram a carne magra de ovelha.", 49 INAIGFEM B "Nós achamos o quadro lindo de imediato.", 53 INAIGMASC B "Eles fecharam o portão baixo sem intenção.", 57 INAIGMASC B Lista 3 Item Condition Grupo "Nós achamos a rapariga linda de imediato.", 3 ANIMIGFEM C