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Proposta de um modelo hidrogeológico para a área das Termas de Eirogo (Barcelos, Portugal)

Ferreira, Nuno Miguel Alves

Abstract

As águas minerais são um recurso com uma importância crescente em Portugal Continental, sobretudo no ramo terapêutico e qualidade de vida. Com este interesse crescente surge também a necessidade para um maior conhecimento do recurso com o intuito de garantir a preservação da sua qualidade durante todo o ciclo de exploração. A criação de um modelo hidrogeológico concetual disponibiliza a informação necessária e apresenta-a de maneira a que a sua interpretação seja facilitada. Isto torna-se vantajoso, quer para investigações futuras, quer para decisões de cariz técnico, como a abertura de um furo novo. A exploração das Termas de Eirogo, localizadas perto da cidade de Barcelos (Portugal), é de grande interesse para a região. A sua exploração está atualmente suspensa, mas há planos para retomar e reconstruir as instalações, o que motivou um estudo preliminar hidrogeológico e geoquímico da área termal. O interesse provém da fácies sulfuretada da água que a tornam ideal para uso no tratamento de doenças respiratórias, doenças músculo-esqueléticas, doenças de pele e até doenças ginecológicas. A área de estudo, que é a bacia hidrográfica de Ribeira de Pontes, é dominada por rochas graníticas intrudidas em rochas metassedimentares. Na área ocorrem, também, depósitos de idade Quaternária e uma camada regolítica com poucos metros de espessura, através da qual a água infiltrada circula superficialmente, sendo depois descarregada nos cursos de água. O fluxo de água subterrânea ocorre somente através de fraturas e falhas em profundidades mais elevadas seguindo caminhos de fluxo de médio e longo prazo. Após a realização deste estudo, concluiu-se que a área de recarga preferencial da água mineral Eirogo está localizada na zona NE da bacia hidrográfica de Ribeira de Pontes, a uma altitude de cerca de 300 m. A água flui principalmente através de uma falha extensa, com orientação NE-SW, que atravessa a bacia hidrográfica e passa próximo da área termal. A água mineral atinge profundidades de cerca de 3260 m e atingindo uma temperatura aproximada de 123ºC. Em seguida, volta à superfície através de uma área densamente fraturada, na qual a captação atual de água termal está localizada.

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Universidade do Minho Escola de Ciências Nuno Miguel Alves Ferreira Proposta de um modelo hidrogeológico para a área das Termas de Eirogo (Barcelos, Portugal) outubro de 2019 Proposta de um modelo hidrogeológico para a área das Termas de Eirogo (Barcelos, Portugal) Nuno Miguel Alves Ferreira UMinho | 2019 Universidade do Minho Escola de Ciências Nuno Miguel Alves Ferreira Proposta de um modelo hidrogeológico para a área das Termas de Eirogo (Barcelos, Portugal) Dissertação de Mestrado Geociências Valorização de recursos geológicos Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Professora Doutora Isabel Margarida Horta Ribeiro Antunes Engenheiro Joaquim Ferreira Guedes outubro de 2019 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. ii Agradecimentos Acima de todos, gostaria de agradecer aos meus pais por todo o apoio que me deram toda a minha vida e por sempre acreditarem em mim. Por sempre terem estado ao meu lado em todas as etapas, fossem elas fáceis ou difíceis. Por me terem ajudado a superar os obstáculos e por me levantarem após cada queda. Muito obrigado pelo esforço, paciência e dedicação que me tornaram na pessoa que hoje sou. Agradeço também ao resto da minha família, especialmente aos meus avós. Á minha avó Odete por todo o carinho e apoio constante, e á minha avó Teresa, que apesar de já não estar entre nós, me continua a dar forças para atingir os meus objetivos. Passo a agradecer aos meus orientadores. Á Professora Doutora Margarida, pela sua ajuda e paciência, durante todo o ano, e sobretudo na fase de escrita, pela correção dos inúmeros erros de distração. Sem a sua orientação, esta dissertação não seria possível. Agradeço também a coorientação do Engenheiro Joaquim Guedes e a disponibilização de uma grande quantidade de informação sem a qual seria quase impossível atingir o resultado final da dissertação. Muito obrigado aos dois pela ajuda imprescendível. Ao Professor Doutor Jorge Pamplona, devo a ajuda na realização do corte geológico e apoio na parte geológica estrutural. Agradeço também as suas dicas e sugestões para a melhoria na qualidade das imagens realizadas. Á Doutora Acacia Naves, da Universidade da Corunha, agradeço toda a ajuda e sugestões na parte do modelo concetual e na disponibilidade de alguma bibliografia que acrescentou informação essencial em falta. Por último agradeço a todos os meus amigos e colegas, sobretudo aos que passaram os dias na biblioteca comigo. As ideias e sugestões que surgiram das pequenas discussões casuais que ocorriam diariamente serviram para a melhoria de pequenos pormenores que juntos fizeram a diferença na qualidade da dissertação. Não teria conseguido atingir este patamar sem o vosso apoio. A todos vocês, muito obrigado. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Resumo As águas minerais são um recurso com uma importância crescente em Portugal Continental, sobretudo no ramo terapêutico e qualidade de vida. Com este interesse crescente surge também a necessidade para um maior conhecimento do recurso com o intuito de garantir a preservação da sua qualidade durante todo o ciclo de exploração. A criação de um modelo hidrogeológico concetual disponibiliza a informação necessária e apresenta-a de maneira a que a sua interpretação seja facilitada. Isto torna-se vantajoso, quer para investigações futuras, quer para decisões de cariz técnico, como a abertura de um furo novo. A exploração das Termas de Eirogo, localizadas perto da cidade de Barcelos (Portugal), é de grande interesse para a região. A sua exploração está atualmente suspensa, mas há planos para retomar e reconstruir as instalações, o que motivou um estudo preliminar hidrogeológico e geoquímico da área termal. O interesse provém da fácies sulfuretada da água que a tornam ideal para uso no tratamento de doenças respiratórias, doenças músculo-esqueléticas, doenças de pele e até doenças ginecológicas. A área de estudo, que é a bacia hidrográfica de Ribeira de Pontes, é dominada por rochas graníticas intrudidas em rochas metassedimentares. Na área ocorrem, também, depósitos de idade Quaternária e uma camada regolítica com poucos metros de espessura, através da qual a água infiltrada circula superficialmente, sendo depois descarregada nos cursos de água. O fluxo de água subterrânea ocorre somente através de fraturas e falhas em profundidades mais elevadas seguindo caminhos de fluxo de médio e longo prazo. Após a realização deste estudo, concluiu-se que a área de recarga preferencial da água mineral Eirogo está localizada na zona NE da bacia hidrográfica de Ribeira de Pontes, a uma altitude de cerca de 300 m. A água flui principalmente através de uma falha extensa, com orientação NE-SW, que atravessa a bacia hidrográfica e passa próximo da área termal. A água mineral atinge profundidades de cerca de 3260 m e atingindo uma temperatura aproximada de 123ºC. Em seguida, volta à superfície através de uma área densamente fraturada, na qual a captação atual de água termal está localizada. Palavras chave: Termas de Eirogo, Modelo Hidrogeológico, Norte de Portugal, Águas minerais v Abstract Thermal waters are a resource with increasing importance in mainland Portugal, especially in the therapeutic field and quality of life. With this growing interest also arises the need for greater knowledge of the resource in order to ensure the preservation of its quality throughout the exploration cycle. The creation of a concetual hydrogeological model provides the necessary information and presents it so that its interpretation is facilitated. This is advantageous for future investigations and technical decisions such as drilling a new hole. The exploration of the Eirogo Hot Springs, located near the city of Barcelos (Portugal), is of great interest to the region. Its exploration is currently suspended, but there are plans to retake and rebuild the facilities, which prompted a preliminary hydrogeological and geochemical study of the thermal area. The interest comes from the sulphide facies of water that make it ideal for use in the treatment of respiratory, musculoskeletal, skin and even gynecological diseases. The study area, which is the Ribeira de Pontes watershed, is dominated by intruded granitic rocks in metasedimentary rocks. In the area there are also deposits of Quaternary age and a regolithic layer with a few meters of thickness, through which the infiltrated water circulates superficially, being discharged in the watercourses. Groundwater flow occurs only through fractures and faults at higher depths following medium and long term flow paths. Following this study, it was concluded that the preferred recharge area of Eirogo thermal water is located in the NE area of the Ribeira de Pontes watershed, at an altitude of about 300 m. Water flows mainly through an extensive NE-SW oriented fault that runs through the watershed and passes near the thermal area. The thermal water reaches depths of about 3260 m, and na aproximate temperature of 123ºC. Then returns to the surface through a densely fractured area in which the current thermal water abstraction is located. Key words: Termas de Eirogo, Hidrogeological Model, Northern Portugal, Mineral waters. vi Conteúdo 1. Introdução ................................................................................................................................. 1 2. Águas minerais .......................................................................................................................... 4 2.1Enquadramento Legal ............................................................................................ 4 2.2Classificação das águas minerais ........................................................................... 4 2.3Caraterização Hidrogeoquímica ............................................................................ 5 3. Caraterização da Zona de Estudo .............................................................................................. 8 3.1Enquadramento geográfico ................................................................................... 8 3.2Geomorfologia e Geologia ..................................................................................... 9 3.3Hidrologia e Hidrogeologia .................................................................................. 13 3.4Clima .................................................................................................................... 16 3.5Uso e Ocupação do Solo ...................................................................................... 18 4. Termas de Eirogo ..................................................................................................................... 21 4.1. História das Termas de Eirogo ............................................................................. 21 4.2. Hidroquímica ........................................................................................................ 24 5. Hidrogeoquímica ..................................................................................................................... 31 5.1Espécies reduzidas de Enxofre............................................................................. 31 5.2Espécies oxidadas de Enxofre .............................................................................. 32 5.3Fluoreto ............................................................................................................... 32 5.4Amónio................................................................................................................. 33 5.5Cloreto ................................................................................................................. 34 5.6Carbono Inorgânico Dissolvido ............................................................................ 34 5.7Sódio .................................................................................................................... 34 6. Modelo hidrogeológico concetual .......................................................................................... 36 6.1Metodologia ........................................................................................................ 36 6.1.1Isótopos Ambientais .............................................................................................. 36 6.1.2Geotermometria .................................................................................................... 37 6.2Proposta do modelo concetual para as Termas de Eirogo .................................. 39 7. Conclusão ................................................................................................................................ 42 Bibliografia .................................................................................................................................. 43 Webgrafia .................................................................................................................................... 45 5 Figura 1: Distribuição das temperaturas das ocorrências termais em Portugal Continental (LNEG, 2010). A classificação da água baseada na mineralização total considera, também, a ocorrência de quatro categorias (Carvalho et al. , 1961): • Água Hipossalina – mineralização total inferior a 200 mg/L; • Água fracamente mineralizada – mineralização total entre 200 mg/L e 1000 mg/L; • Água Mesossalina – mineralização total entre 1000 mg/L e 2000 mg/L; • Água Hipersalina - mineralização total superior a 2000 mg/L. 2.3Caraterização Hidrogeoquímica A caraterização hidrogeoquímica permite distinguir as águas com base nas suas principais propriedades e composição química. Esta composição química está diretamente associada com a interação água-rocha que depende de fatores como o tempo de residência da água no sistema e o gradiente geotérmico (Calado, 1995; 2001). Para Portugal Continental, foram propostos nove tipos hidrogeoquímicos consoante as espécies químicas dominantes (Calado, 1995): • Água Sulfúrea Sódica • Água Gasocarbónica • Água Bicarbonatada Sódica • Águas Bicarbonatada cálcica e/ou magnesiana • Água Cloretada sódica • Água Cloretada sódica em ambiente metalífero • Água Sulfatada cálcica em ambiente evaporítico • Água sulfatada cálcica em ambiente metalífero • Água Oxidrilada 6 Curto Simões (1993), também propõe uma classificação para as águas minerais. Esta divide-se nas seguintes categorias: • Águas hipossalinas, cuja mineralização total é inferior a 200 mg/l; • Águas sulfureas, as que contêm formas reduzidas de enxofre; • Águas gasocarbônicas, caracterizadas por terem mais de 500 mg/l de CO2 livre; • Águas cloretadas, cujo ião dominante é o cloreto; • Águas sulfatadas, cujo ião dominante é o sulfato. Dos diferentes tipos de água apresentados, as mais comuns são as águas sulfúreas sódicas, com maior abundância na região Norte de Portugal, as águas bicarbonatadas, distribuídas pelo Norte, Centro e Sul de Portugal, e as águas cloretadas com dominância na Costa Ocidental; dependendo das principais unidades litológicas presentes (Figura 2) (LNEG, 2010). Figura 2: Distribuição do quimismo das diferentes ocorrências termais em Portugal continental (LNEG, 2010) 7 A água que ocorre nas Termas de Eirogo é uma sulfúrea sódica (Lima, 2006). Este tipo de água é pouco frequente a nível mundial, embora seja um dos mais comum em Portugal Continental, particularmente na Zona Centro Ibérica (Vasconcelos, 2017). Estas águas são preferencialmente designadas por sulfúreas alcalinas (Calado, 1995, 2001) e distinguem-se das restantes pela presença de formas reduzidas de enxofre, o que lhes confere o seu cheiro característico a “ovos podres”. A distinção das águas sulfúreas passou a ter, no final da década de 50, como base o valor de pH, em vez do catião dominante. Deste modo, passaram da designação de “sulfúreas sódicas” para “sulfúreas alcalinas”, devido ao seu valor de pH (Calado, 2001). Como principais características hidrogeoquímicas das águas sulfúreas alcalinas em Portugal podem ser indicadas (Calado, 2001): ➢ pH elevado (superior a 8) e valores de Eh reduzidos (geralmente negativos); ➢ concentrações elevadas de cloreto (geralmente < 80mg/L); ➢ condutividade elétrica elevada (CE ≈450-700 µS/cm); ➢ concentrações elevadas de fluoreto (entre 10 mg/L e 20 mg/L); ➢ concentrações elevadas de carbono inorgânico dissolvido (CID) (entre 100-125 mg/L); ➢ teor de sílica na ordem das dezenas de mg/L (37.5-45 mg/L); ➢ presença de amónio sem nitritos ou nitratos (˂ 0.01mg/L); ➢ concentrações apreciáveis de alguns elementos vestigiais ( ∑(Al, Mn, Be, Pb, Zn, Mo, W, B) ≈ 0.160-0.325 mg/L); ➢ mineralização total fraca. Posteriormente, foram introduzidas três subdivisões para estas águas sulfúreas alcalinas em alcalinas, neutras (correspondeste às águas da definição anterior) e hiper-alcalinas ou hidroxiladas. Estas divisões apresentam as seguintes caraterísticas (Calado, 2001): ➢ Alcalinas: pH>7,5, muitas vezes próximo de 9, geralmente têm SHsem H2S livre, redutoras, concentrações de sílica elevadas, fluoreto > 10mg/L, hipossalinas (200-600 mg/L) (As águas do Eirogo encontram-se incluídas nesta subdivisão); ➢ Neutras: pH ≈7, redutoras, SHe H2S, meso a hipersalinas; ➢ Hiper-alcalinas: pH>10. 8 3. Caraterização da Zona de Estudo 3.1Enquadramento geográfico A zona de estudo corresponde à área termal das Termas de Eirogo. Esta área está inserida na bacia hidrográfica de Ribeira de Pontes, no distrito de Braga, concelho de Barcelos, freguesia de Galegos (Santa Maria) (Figura 3). A bacia hidrográfica tem uma área aproximada de 54,88 km2 e um perímetro total de 37 km. O seu eixo mais alongado prolonga-se durante 13,1 km e tem uma A periferia da bacia é marcada pela presença de zonas montanhosas que atingem uma altitude máxima próxima de 450 m, na zona Oeste da bacia hidrográfica. Em oposição, a região central é aplanada com uma cota próxima de 40 m (Figura 4). Esta zona central corresponde à depressão de Barcelos (Teixeira e Medeiros, 1969). A zona das Termas de Eirogo, situa-se na depressão a uma cota aproximada de 33,5 m (Lima, 2006). Figura 3: Localização geográfica da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes (adaptado de CAOP, 2018) (Realizado em QGIS 2.18) 9 3.2Geomorfologia e Geologia A área de estudo localiza-se no domínio da Zona Centro Ibérica (ZCI). Toda a área é dominantemente ocupada por rochas graníticas que ocorrem intruídas em rochas metassedimentares, as quais estão representadas por algumas manchas (Figura 5). As rochas metamórficas da região são representadas pela Unidade do Minho Central (UMc), cujas litologias, presentes na área, pertencem ao Silúrico (Pereira, 1992). Nesta formação, ocorrem corneanas, nas zonas mais proximais ao contacto das intrusões graníticas, bem como xistos luzentes, andaluzíticos e granatíferos que incluem várias intrusões de filões de quartzo e filões aplito-pegmatíticos (Teixeira e Medeiros, 1969). A recristalização metamórfica é geralmente elevada e encontra-se associada à 3º fase de deformação Varisca. A xistosidade tem uma inclinação sub-vertical. Quanto às rochas eruptivas, é possível individualizar três tipos de granitos. O granito de S. Lourenço, sin-tectónico relativamente a F3, ocorre em apenas duas manchas situadas na parte sul da bacia hidrográfica. Este granito revela alguma alteração e deformação, associada à terceira Figura 4: Mapa hipsométrico da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes (Realizado em QGIS 2.18). 10 fase de deformação Varisca. A alteração meteórica está presente nos feldspatos e na biotite, a qual se encontra frequentemente cloritizada (Pereira, 1992). Apresenta uma textura hipidiomórfica granular e é constituído por microclina, plagióclase, frequentemente zonada, quartzo xenomorfo cataclástico e quartzo microgranular secundário. Como minerais acessórios, foi identificada apatite, esfena, rútilo e alguns minerais opacos (Pereira, 1992). O granito de Arcozelo e Franqueira (Barcelos) e de Coussorado, de idade semelhante, correspondem à série tardia da terceira fase de deformação (F3) ou podem mesmo ser posteriores a esta (Pereira, 1992). O granito de Arcozelo e Franqueira ocorre na zona central da bacia hidrográfica em contacto com os outros dois tipos de granitos. Trata-se, preferencialmente, de um granodiorito biotítico, com significativas concentrações de anfíbola, associada à biotite. A plagióclase é, geralmente, idiomórfica com zonamento, tendo o núcleo a composição de andesina e os bordos de oligoclase ou andesina-oligoclase. Como minerais acessórios, estão presentes a esfena, apatite, zircão e alguns grãos de minerais opacos (Pereira, 1992). O Granito de Coussorado, por sua vez, concentra-se preferencialmente na zona norte da bacia hidrográfica, contactando diretamente com a Unidade do Minho Central. Este granito tem uma textura porfiróide, de grão médio (Teixeira e Medeiros, 1969) e corresponde a um granito de duas micas, com predomínio de biotite, e apresentando, em lâmina delgada, uma tendência monzonítica (Pereira, 1992). É constituído maioritariamente por quartzo, microclina, plagióclase, moscovite e biotite. Como minerais secundários, observa-se clorite, apatite, zircão, turmalina e minerais opacos. A plagióclase encontra-se zonada e tem composição de oligóclase (Pereira, 1992; Teixeira e Medeiros, 1969). A apatite e o zircão encontram-se como inclusões na biotite e na turmalina (Pereira, 1992). Os filões aplito-pegmatíticos ocorrem apenas na região NE da bacia hidrográfica. Têm, aproximadamente, uma orientação NNW-SSE e encontram-se apenas nas rochas metamórficas. São filões graníticos, com ligeira tendência alcalina, e cujos minerais acessórios são dominados por moscovite, microclina e apatite (Teixeira e Medeiros, 1969). Por último, os filões de quartzo encontram-se alinhados com a estrutura principal, de orientação NE-SW. A sua espessura varia entre 5 m e 15 m e encontram-se tectonizados (Teixeira e Medeiros, 1969). 11 Os principais alinhamentos tectónicos que ocorrem na região coincidem com a estruturação regional e apresentam como orientações preferenciais: N-S e NE-SW a ENE-WSW (Figura 5). Para uma melhor compreensão das estruturas geológicas e sua influência na circulação da água superficial e subterrânea foi realizado o corte geológico ao longo da falha principal, com orientação NE-SW (Figura 6). A ocorrência hidromineral das Termas de Eirogo encontra-se situada em cima de uma interseção de estruturas tectónicas, com orientação principal NE-SW, que se considera como resultado da interceção de duas ruturas profundas. A orientação de uma destas ruturas seria N-S, prolongando-se desde a Galiza (Espanha) até à zona das Caldas da Saúde (Gerês, Portugal), e a orientação da outra seria de N50ºE (Lima 2001). Figura 5: Esboço geológico da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes. Detalhe adaptado da carta geológica 1:50000 5-C (Barcelos) e nomenclatura adaptada da carta geológica 1:200000 Folha 1 (Realizado em QGIS 2.18). 12 As falhas geradas por estas ruturas profundas, foram detetadas através da realização de estudos geofísicos na área de concessão, a fim de detetar potenciais zonas para a realização de uma nova captação, e serão o principal fator responsável pela ascensão de água hidromineral (Figura 7). Foram realizados 5 perfis, de orientação SW-NE com as configurações de SchlumbergerWenner, Dipolo-Dipolo e Polo-Dipolo que permitiram ver a geometria das falhas até 250 m de profundidade Figura 6: Corte geológico realizado ao longo da falha de orientação NE-SW. Figura 7: Falhas detetadas pelos trabalhos geofísicos realizados na zona das termas de Eirogo (Realizado em QGIS 2.18). 13 3.3Hidrologia e Hidrogeologia A nível hidrográfico, a área de estudo apresenta uma rede de drenagem densa e compacta, que resulta num valor de densidade de drenagem (Dd) igual a 3,28 km-1 (Lima, 2006). Na bacia hidrográfica, ocorrem cerca de 218 linhas de água, sendo a de maior ordem, segundo a classificação de Strahler, a Ribeira de Pontes, correspondente à ordem 5 (Figura 8). Todo o sistema resulta no comprimento total da rede de drenagem de, aproximadamente, 180 km (Tabela 1). Tabela 1: Número e comprimento das linhas de água da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes Elementos Comprimento (m) Ordem 1 167 113037.782 Ordem 2 38 34315.785 Ordem 3 8 11174.128 Ordem 4 4 8500.641 Ordem 5 1 7600.481 Total 218 174628.817 A bacia hidrográfica tem uma forma irregular, como pode ser comprovado pelo Coeficiente de Compacidade (Kc). Este coeficiente corresponde à relação entre o perímetro da bacia hidrográfica e a circunferência de um círculo de área igual à da bacia. É um coeficiente adimensional e indica a regularidade de uma bacia hidrográfica (Wanderley et al., 2010). Quanto maior for o valor do coeficiente, mais irregular será a bacia hidrográfica (Villela & Mattos, 1975). Calcula-se através da seguinte fórmula: Tabela 1: Número e comprimento das linhas de água da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes Elementos Comprimento (m) Ordem 1 167 113037.782 Ordem 2 38 34315.785 Ordem 3 8 11174.128 Ordem 4 4 8500.641 Ordem 5 1 7600.481 Total 218 174628.817 Figura 8: Rede hidrográfica da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes (Realizado em QGIS 2.18). 14 A bacia hidrográfica tem uma forma irregular, como pode ser comprovado pelo Coeficiente de Compacidade (Kc). Este coeficiente corresponde à relação entre o perímetro da bacia hidrográfica e a circunferência de um círculo de área igual à da bacia. É um coeficiente adimensional e indica a regularidade de uma bacia hidrográfica (Wanderley et al, 2010). Quanto maior for o valor do coeficiente, mais irregular será a bacia hidrográfica (Villela & Mattos, 1975). Calcula-se através da seguinte fórmula: Kc=0.28∗P √𝐴 Sendo: Kc – Coeficiente de Compacidade P – Perímetro da bacia A – Área da bacia O valor de Kc para a bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes tem um valor de 1,41, comprovando a sua forma irregular, como indicado por Lima (2006). Outro parâmetro que pode ser calculado, é o Fator de Forma (Kf), o qual representa a relação entre a área da bacia hidrográfica e o seu eixo mais alongado (Wanderley et al., 2010). Quanto menor o valor de Kf, menor será a tendência da bacia hidrográfica de alagar a sua forma (Villela & Mattos, 1975), o que indicará a maior ou menor probabilidade de ocorrência de cheias nesta bacia hidrográfica. O fator de forma pode ser calculado pela expressão: Kf=𝐴 𝐿𝑥2 Sendo: Kf – Fator de Forma A – Área da bacia hidrográfica Lx – Eixo mais alongado No caso da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes, o fator de forma tem um valor de Kf=0,32; o que sugere uma tendência moderada para a ocorrência de cheias e inundações (Lima, 2006). A zona de estudo encontra-se no domínio hidrogeológico do Maciço Antigo ou Ibérico de Portugal (Figura 9). 21 4. Termas de Eirogo 4.1. História das Termas de Eirogo Atualmente, as Termas de Eirogo encontram-se numa fase de atividade suspensa (Figura 13). As instalações são antigas e estão degradadas devido aos anos de inutilização, mas a sua história remete para tempos em que era um balneário conceituado e bastante ativo. Existem alguns registos históricos, através dos quais é possível reconstituir o seu percurso histórico. Figura 13: Entrada principal das Termas de Eirogo (Wikipédia, 2019) Os primeiros registos associados a esta ocorrência hidromineral indicam que, entre os anos de 1820 e 1823, terá ocorrido o primeiro aproveitamento das águas, pelo médico cirurgião Manuel Lopes Albuquerque (Barbosa, 2017). Mais tarde, em 1854, as águas foram analisadas, de uma maneira sucinta, por Pereira Caldas e, em 1867, foram novamente analisadas por Lourenço. Nesta altura, foi também efetuada uma descrição, pelo Engenheiro Schiappa de Azevedo, das três nascentes existentes no local: Mosqueiros, Castanheirinhos (Figura 14) e Quinta do Eirogo (Figura 15) (ICS Lisboa, 2002). 22 Figura 14: Furo “Castanheirinhos” Figura 15: Furo “Quinta do Eirogo” O primeiro alvará de concessão foi atribuído em 1894, após um curto intervalo de tempo da implementação da Lei de 1892, a qual exigia a existência de um pedido de concessão para a utilização de águas minerais. Esta concessão foi passada em nome de Crysogono Alberto de Sousa Correia (Barbosa, 2017). A realização do Relatório de Ordenamento e Conhecimento imposto pela mesma Lei foi atribuída ao Engenheiro Correia Melo (ICS Lisboa, 2002). Em 1885, as águas minerais de Eirogo começaram a ser utilizadas para fins terapêuticos, de acordo com a prescrição do Dr. Alheira, um médico de renome em Barcelos. Poucos anos depois, em 1889, no dia 10 de agosto, é publicado um artigo na Gazeta do Povo, que indica que as Caldas do Eirogo regiam o seu funcionamento pelas Caldas de Vizela (Barbosa, 2017). Os registos do equipamento existente no balneário, bem como, dos tratamentos realizados 23 pelo Dr. Terneiro Sarzedas datam do ano de 1907, nos quais é referido o bom estado das instalações e as atualizações efetuadas aos equipamentos. É indicado que os banhos de primeira classe possuíam 4 banheiras em mármore, os de segunda classe com 8 banheiras em azulejo e os de terceira classe, com sete banheiras em cimento (ICS Lisboa, 202). Quanto a tratamentos, existiam os banhos de imersão, duches de agulheta, duches vaginais, duches nasais e pulverizações (Barbosa, 2017). Mais tarde, em 1923, as instalações são visitadas pelo Engenheiro-chefe da Inspeção das Águas do Departamento de Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos, Luiz Acciaiuoli. Este conclui que a água das Termas de Eirogo não era captada da melhor forma e que os equipamentos de inalação e pulverização se encontravam inutilizáveis (Barbosa, 2017). Em 1924, o alvará da concessão é passado a Francisco de Sousa Correia, herdeiro do primeiro proprietário, e mais tarde, em 1939, passado novamente ao Dr. Aurélio Augusto de Queiroz (Barbosa, 2017). Este último, encontra as termas num estado avançado de degradação e inicia a sua recuperação (ICS Lisboa, 2002). O Engenheiro da Inspeção das Águas do Departamento de Direção Geral de Minas e Serviços Geológicos, Luiz Acciaiuoli, entre 1930 e 1940, elabora vários relatórios anuais sobre as Termas de Eirogo. No relatório de 1939, observa-se que as termas tiveram um aumento de utilizadores, rondando os 155 aquistas (Barbosa, 2017). Acrescenta, numa nota, a ausência de qualquer obra ou modificação às instalações e às suas condições iniciais (ICS Lisboa, 2002). No ano seguinte, em 1940, ocorre uma diminuição do número de utilizadores, para cerca de 115, que procuravam, maioritariamente, curas reumáticas e tratamentos para doenças de pele. É, também, neste ano que é imposta uma obrigação de renovação do espaço termal (Barbosa, 2017). Em 1941 e 1942, foram publicados dois relatórios, com o registo do aumento do número de utilizadores para 287 e 280, respetivamente. É, também, referido que ainda não tinham sido efetuadas nenhumas alterações ou modificações nas infraestruturas. É, ainda, no ano de 1942, que ocorre a morte do concessionário das termas, passando a concessão das Termas de Eirogo para o seu filho, o médico hidrologista, Mário Augusto Viana de Queiroz (ICS Lisboa, 2002). Os relatórios seguintes, dos anos de 1943 e 1946, são elaborados em conjunto e mostram que, no ano de 1945, o número de utilizadores aumenta para 304, sendo referido que a canalização foi totalmente renovada (ICS Lisboa, 2002). Em 1953, Luiz Acciaiuoli, publica o segundo volume do livro “ Le Portugal Hydrominéral ”, onde refere o atraso no desenvolvimento das Termas de Eirogo, classificando o estabelecimento como antiquado, embora exista um projeto de modernização (ICS 24 Lisboa, 2002). No ano de 1970, é publicada uma descrição detalhada das Termas de Eirogo, indicando que os balneários se encontravam bem equipados, continham uma “sala de mecanoterapia”, que mais tarde se passou a designar de fisioterapia, sendo um dos primeiros locais em Portugal a utilizar esta terapia (ICS Lisboa, 2002). No entanto, é também referido que nesta altura, o tratamento termal entra em deterioração e decrescimento devido à procura de cura farmacológica. As termas atravessam um período de decadência apenas com registo de entradas pontuais da população local (Barbosa, 2017). Em 1976, morre o concessionário das Termas de Eirogo, passando a concessão para o seu filho, o médico reumatologista Mário Fernando Viana de Queiroz (ICS Lisboa, 2002). No ano de 1990, é aprovado, segundo a Lei de 16 de março de 1990, a delimitação dos perímetros de proteção para as Termas de Eirogo, sendo as primeiras termas com perímetros de proteção delimitados (ICS Lisboa, 2002). É, também, neste ano que ocorre a maior perturbação no sistema hidromineral das Termas de Eirogo, com a construção de uma fábrica de fiação, com tinturaria, nas imediações das instalações termais, da qual resulta a criação de um processo judicial. O processo foi para tribunal em 1994, sendo a razão dada à fábrica (ICS, 2002). Nos finais dos anos 90, foi efetuada uma candidatura ao Fundo Europeu do Programa Thermaios, com o intuito de fundir o termalismo com o turismo rural. Contudo, o projeto não reunia os recursos necessários tendo sido cancelado (Barbosa, 2017). Atualmente, as termas encontram-se com um projeto de renovação e preparam-se para uma possível reabertura. 4.2. Hidroquímica Neste capítulo serão apresentados diversos resultados de análises físico-químicas das águas na área das Termas de Eirogo, realizadas ao longo do tempo na zona da exploração, entre os anos de 1883 e 2019. É relevante referir que, pelo facto de esta exploração se encontrar atualmente suspensa e de a sua exploração ter sido iniciada há bastante tempo, com início conhecido no ano de 1885, poderem ocorrer algumas dificuldades na interpretação dos dados disponíveis. Um dos principais problemas advém da localização exata dos pontos de amostragem sendo que, para alguns dos pontos, não é possível atribuir a sua localização exata por falta de registo desta informação aquando da amostragem. Uma outra situação resulta da variabilidade espacial e temporal dos pontos de amostragem e análises químicas das águas. Os dados mais antigos datam do ano de 1883 e, ao longo do tempo, ocorrem 25 significativas discrepâncias temporais entre algumas das campanhas de amostragem obtidas. Esta situação diminui o grau de precisão e aumenta o grau de incerteza das análises químicas utilizadas pois os procedimentos e metodologias laboratoriais foram variando ao longo do tempo, pelo que a precisão dos resultados obtidos nem sempre poderá ser a mais adequada. Neste sentido, ao longo do tempo foram efetuadas diferentes recolhas de água nas águas da região, tendo sido identificado um total de 24 períodos de tempo distintos (Geoestudos, 1981) (Tabela 5). Tabela 5: Amostras de água realizadas na região das Termas de Eirogo. Local Ano Tipo Castanheiros 1883; 1952; abr/77; jun/77; jul/77; fev/78; jun/78; mar/79; mar/80 Nascente N. Quinta ago/70 Nascente Mosqueiro ago/70 Nascente Mina para abastecimento ago/70 - Ribeira do Eirogo mar/79 Ribeiro Quinta do Eirogo mar/86; jun/86 Furo Castanheirinhos jun/86; out/92; 2004, out/2015, out/2016, abr/2017, out/2017, mar/2018, out/2018, mai/2019 Furo A amostra classificada por “Ribeira do Eirogo” representa as águas superficiais da região e poderá ser usada como amostra representativa dos valores “naturais” da zona (Tabela 6). Os restantes seis locais de amostragem correspondem a: “Castanheiros”, “N. Quinta”, “Mosqueiro”, “Mina para abastecimento”, “Castanheirinhos” e “Quinta do Eirogo” (Geoestudos, 1984; 1986; 1991; Lima 2001; 2006). As duas primeiras análises do ponto “Castanheiros”, devido à antiguidade das mesmas, não são consideradas como valores de confiança por falta de conhecimento sobre os métodos analíticos utilizados; pelo que não serão utilizadas na caraterização química das águas Termais de Eirogo. A água colhida no ponto de amostragem “Mina para abastecimento” apresenta as caraterísticas de uma água superficial de escorrência em rochas graníticas (Tabela 6), pois tem uma baixa mineralização (resídui seco = 50.8 mg/L) e um valor de pH ácido (pH = 5.8). A água do ponto de amostragem “N. Quinta” apresenta algumas caraterísticas de águas minerais, mas apresenta também sinais de mistura com águas superficiais, como é o caso da diminuição do resíduo seco, o que sugere diluição (Tabela 6). Estes dois pontos não serão então incluídos na caraterização das águas minerais da zona pois as suas caraterísticas não sugerem que sejam águas minerais. 26 Tabela 6: Resultados obtidos para os pontos de recolha “Mina para abastecimento”, “N.Quinta” e “Ribeira do Eirogo”. Nome Mina para abastecimento N. Quinta Ribeira do Eirogo Tipo - Nascente Ribeiro Data ago/70 ago/79 mar/79 Temperatura (ºC) 19 - 16 pH 5.8 7.3 6.3 Condutividade (µs/cm) - - 69 Sílica total (mg/L) 12.4 44.7 - CO2 (mmol/L) 0.93 0.19 - Resíduo Seco (mg/L) 50.8 302.8 55 Cl- (mg/L) 0.5 1.6 0.5 HCO3- (mg/L) 0.2 1.3 - SO42- (mg/L) - 1 0.06 NO3- (mg/L) - - 2 Na+ (mg/L) 0.5 3.9 - Mg2+ (mg/L) - 0.2 - Ca2+ (mg/L) 0.02 0.2 - A caraterização geral das águas hidrominerais das Termas de Eirogo será realizada tendo por base as análises químicas obtidas nas águas recolhidas nos pontos de “Castanheiros”, “Mosqueiro”, “Quinta do Eirogo” (Tabela 7) e “Castanheirinhos” (Tabela 8) (Figura 16) pois são as que apresentam caraterísticas de águas minerais, na totalidade ou apenas em algumas, como seja a condutividade elétrica (CE > 450 µs/cm), o valor de pH (≥7) e uma mineralização (ou resíduo seco >400mg/L) (Tabela 7). A variação dos valores médios para cada elemento químico obtido no conjunto destes quatro pontos de água, ao longo do tempo, é apresentada na Figura 17. 27 Figura 16: Localização dos pontos de amostragem “Mosqueiro”, “Quinta do Eirogo”, “Castanheiros” e “Castanheirinos" 28 Tabela 7: Dados obtidos das recolhas de água dos pontos “Mosqueiro”, “Quinta do Eirogo”e “Castanheiros” Local Mosqueiro Castanheiros Castanheiros Castanheiros Castanheiros Castanheiros Castanheiros Castanheiros Quinta do Eirogo Quinta do Eirogo Tipo Nascente Nascente Nascente Nascente Nascente Nascente Nascente Nascente Furo Furo Data ago/70 abr/77 jun/77 jul/77 fev/78 jun/78 mar/79 mar/80 mar/80 jun/86 Temperatura (ºC) - - - - - - - - - 18.6 pH 8.7 8.3 8.7 8.7 8.3 7.7 8.4 7.9 7 8.1 Eh - - - - - - - - - - Condutividade Elétrica - 650 660 637 637 700 - 832 512 556 Alcalinidade - - - - - - - - - - Dureza - - - - - - - - - - Sílica total (mg/L) 88 - - - - - 62.5 55.5 37.4 - CO2 (mmol/L) 0 - - - - - 0 - - - Sulfuração Total - - - - - - - - - - Resíduo Seco (mg/L) 345.6 424 475 460 446 494 422.2 457 288.6 - F- (mg/L) - - - - - - - - - 9.5 Cl- (mg/L) 3.2 2.7 2.7 2.7 2.3 2.9 2.5 2.2 1.3 63 HCO3- (mg/L) 2 - - - - - 1.5 2.5 1.6 90 CO32- (mg/L) 0.3 - - - - - 0.4 - - - HS- (mg/L) - - - - - - - - - - SO42- (mg/L) 1.5 1 1.7 0.8 1.5 1.8 1.2 2 1.3 56 NO3- (mg/L) 0 - - 6 - 0.33 0 0 0 1 NO2- (mg/L) 0 0 0 0 0 0 0 0 0 - Na+ (mg/L) 7.9 5.5 5.9 5.8 - 7.1 6 6.4 4.2 96 K+ (mg/L) - 0.07 0.1 0.2 - - - - - 2.6 Mg2+ (mg/L) 0.05 - - - - - - 0.02 0.1 0.97 Ca2+ (mg/L) 0.3 - - - - - - - - - Fe (mg/L) - - - - - - - - - 0.03 NH4+ (mg/L) - 0.5 0.6 0.8 0.67 0.4 - - - - 29 Tabela 8: Dados obtidos das recolhas de água do ponto “Castanheirinhos”. Local Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Castanheirinhos Tipo Furo Furo Furo Furo Furo Furo Furo Furo Furo Furo Data jun/86 out/92 2004 out/15 out/16 abr/17 out/17 mar/18 out/18 mai/19 Temperatura (ºC) 22.4 24.5 24.5 - 24 - - - - - pH 8.34 8.65 8.53 8.7 8.69 8.57 8.74 8.84 8.84 8.7 Condutividade 731 722 632 641 627 650 629 621 581 623 Sílica total - 64.2 73.3 65 70 78 72 65 68 73 Sulfuração Total - - 47.4 45 19 19 20 47 43 43 Resíduo Seco (mg/L) - - 440 442 430 430 370 444 434 430 F- (mg/L) - 15.1 14.3 20 14 15 15 15 17 17 Cl- (mg/L) - 81.7 73.8 81 80 79 69 68 88 79 HCO3- (mg/L) - 131.5 114 96 110 110 131 111 85 85 CO32- (mg/L) - 2.7 2.1 4.5 19 19 15 4.1 8 8 SO42- (mg/L) - 62.8 54 60 89 70 49 59 56 61 NO3- (mg/L) - 0.69 <0.3 5.6 5 8.6 <0.1 <0.3 <0.3 Na+ (mg/L) - 140 133 136 140 120 131 130 129 140 K+ (mg/L) - 4.5 4.3 5 3.6 4 3.2 1.1 3.5 4.3 Mg2+ (mg/L) - 0.1 0.14 0.12 <2.5 <0.1 <0.1 <0.1 0.16 0.15 Ca2+ (mg/L) - 6.4 5 5.2 5.5 5.2 4.7 4.1 5.1 5.6 NH4+ (mg/L) - 0.82 0.77 0.84 1 1 1 0.92 2 0.92 30 Figura 17: Composição média das águas minerais das Termas de Eirogo. Quanto às caraterísticas principais, as águas minerais das Termas de Eirogo possuem uma mineralização total média aproximada de 425 mg/L, sendo fracamente mineralizadas. A condutividade elétrica média é de 660 µS/cm e o valor de pH de 8,3. Estas enquadram-se no domínio hidrogeoquímico das águas sulfúreas alcalinas (Lima, 2006). A temperatura da água na captação mais recente - Furo dos Castanheirinhos - é de 24,5ºC. Nos outros pontos de água, mais antigos, a temperatura é próxima de 19ºC, o que não promove o seu aproveitamento como água mineral. As águas das Termas de Eirogo apresentam algumas diferenças composicionais comparativamente com as águas sulfúreas consideradas como típicas. Estas diferenças encontram-se particularmente ao nível do carbono inorgânico dissolvido (sob a forma de CO2, HCO3e CO32-), sílica total e amónio. O CID apresenta valores abaixo daquilo que seria esperado nas águas sulfúreas portuguesas, que é entre 100-125 mg/L. A sílica total apresenta valores acima do esperado, sendo que o intervalo comum varia entre 37,5-45 mg/L.. Por último, o amónio encontrase acompanhado de nitritos e nitratos o que não é esperado neste tipo de água, segundo Calado (2001). Esta água apresenta também elevados teores em Cloro, Fluor e Sulfuração Total (a soma entre as espécies reduzidas e oxidadas de enxofre na água). 67.07 35.43 15.19 41.32 76.51 7.55 33.14 2.47 74.66 2.81 0.20 4.71 0.87 0.00 10.00 20.00 30.00 40.00 50.00 60.00 70.00 80.00 mg/L Sílica total Sulfuração Total F- (mg/L) Cl- (mg/L) HCO3- (mg/L) CO32- (mg/L) SO42- (mg/L) NO3- (mg/L) Na+ (mg/L) K+ (mg/L) Mg2+ (mg/L) Ca2+ (mg/L) NH4+ (mg/L) 37 Tabela 9: Valores padrão para os isótopos 1H e o 16 O. Isótopo Razão % de abundância natural Valor de referência (razão de abundância) 2H 2H/1H 0,015 V-SMOW (1,5575×10−4) 18O 18O/16O 0,204 V-SMOW (2,0052×10−3) V-SMOW – Vienna Standard Mean Ocean Water. Estas diferenças advêm da existência de processos de fracionação que levam a que, dependendo de certos fatores, geralmente as águas tornam-se mais empobrecidas em isótopos mais pesados. O fracionamento ocorre pela diferença de massa dos isótopos (Guerra, 2015). Estes fatores, ou efeitos, são os seguintes (Gat et al., 2001): • Latitude: à medida que a latitude aumenta e a temperatura diminui, ocorre um empobrecimento em isótopos pesados; • Continental: à medida que o vapor de água de desloca para o interior, ocorre um empobrecimento em isótopos pesados; • Altitude: à medida que a altitude aumenta, ocorre um empobrecimento em isótopos pesados; • Sazonal: nas estações de menor temperatura, ocorre um empobrecimento de isótopos pesados; • intensidade da precipitação: quanto mais intensa for a precipitação, maior será o empobrecimento em isótopos pesados. Destes efeitos, o mais importante para este trabalho é o efeito da altitude pois é este que permite a delimitação da área de recarga (Guerra, 2015). 6.1.2Geotermometria A temperatura é uma das principais propriedades das águas hidrominerais. É esta propriedade que mais facilmente permite a sua distinção das águas comuns e que lhe confere outro tipo de usos, promovendo então o já referido interesse crescente nas mesmas. Neste sentido, consegue perceber-se que quanto maior for a temperatura da água captada, maior será a variedade de usos a retirar da mesma. O problema imposto é que as captações mais superficiais estarão a recolher água que já sofreu alguma perda de calor. Estas perdas ocorrem durante a sua ascensão por mecanismos de convecção, condução e radiação (Lopes, 2014). Para atingir o máximo de eficiência no aproveitamento, é necessário perceber o 38 potencial do recurso. O objetivo principal objetivo da geotermometria consiste na previsão da temperatura potencial de um fluido (Wei, 2004). Esta previsão é possível através da aplicação de geotermómetros. Os geotermómetros utilizados para água podem ser divididos em 2 categorias consoante se baseiam: (1) na variação da solubilidade de certos minerais, dependente da temperatura; (2) em reações de troca, dependentes da temperatura, que fixam as razões de certos constituintes dissolvidos (Fournier, 1989). No caso das águas hidrominerais das Termas de Eirogo, foram utilizados onze diferentes geotermómetros (Lima, 2001), cujos resultados se encontram na Tabela 9. Tabela 10: Geotermómetros utilizados no cálculo da temperatura da água das Termas de Eirogo e seus resultados. O uso de vários geotermómetros permite verificar se existe um consenso entre os diferentes valores obtidos. Neste caso, pode-se observar que existem várias discrepâncias entre os resultados. Estas variações de temperatura, especialmente entre os geotermómetros baseado na sílica e os geotermómetros baseados nos catiões, é um evidência de que deverá ter ocorrido um evento de mistura em profundidade (Gorgieva, 1989). Assim sendo, e como existe mistura de água, conclui-se que o sistema não se encontra em equilíbrio. De entre os geotermómetros utilizados, o que se baseia no rácio Li/Mg é o mais apropriado para sistemas que ainda não atingiram o equilíbrio e que são de baixa temperatura (<150ºC) (Kharaka, 1989), como é o caso do sistema das águas minerais de Eirogo. Geotermómetros Temperatura (ºC) Referência Qz 114 Trusdell, 1976 Calcedónia 85 Fournier e Trusdell, 1974 Na/K 91 Trusdell, 1976 Na/K 115 Tonani, 1980 Na/K 102 Annorson, 1983 Na/K 136 Fournier, 1979 Na/K 125 Nieva e Nieva, 1987 Na/K 156 Giggenbach, 1988 K/Mg 103 Giggenbach, 1988 Na-K-Ca 132 Fournier e Trusdell, 1973 Na/Li 202 Kharaka, 1982 Na/Li 138 Foulliac, 1981 Li/Mg 123 Kharaka, 1989 39 6.2Proposta do modelo concetual para as Termas de Eirogo O ponto inicial do percurso da água subterrânea é a zona de recarga. A determinação da mesma, ou de um local aproximado, é de extrema importância para o modelo hidrogeológico e delimitar perímetros de proteção da captação. Para a determinação desta área de recarga foram considerados os dados isotópicos disponíveis para a água mineral de Eirogo (Tabela 10) (Lima, 2001). Tabela 11: Dados isotópicos para as águas minerais de Eirogo (retirado de Lima, 2001). Ponto de Água Localização Tipo Captação Altitude (m) ẟ2H (‰) ẟ18O (‰) IE.61 Eirogo Mineral F 40 -27.7 -4.79 IE.62 Eirogo Circulação Epidérmica N 40 -28.3 -4.58 Com estes dados isotópicos e considerando a utilização de um gradiente para ẟ18O (‰) de -0.29‰, previamente calculado (Lima, 2011), obtém-se uma altitude média para a zona de recarga do sistema aquífero que deverá rondar os 300 m. Com esta informação, pode-se observar que a zona recarga se situará algures na zona periférica da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes, excluindo a região sul, pois são os únicos locais com uma altitude próxima da indicada pelos dados isotópicos. No entanto, esta informação não é suficiente, pois não permite ter uma ideia concreta do local exato onde ocorre a recarga do sistema aquífero. Assim sendo, de seguida, foram cruzados os dados isotópicos com a geologia estrutural da zona (Figura 20). Como é possível observar, a estrutura geológica de maior dimensão, a falha de orientação NW-SE, não só passa em zonas de altitudes superiores a 300 m, como passa por cima da zona de concessão. Este será, então, o percurso preferencial para a circulação da água mineral e a zona de recarga estará localizada próximo da falha, nas regiões que se encontram a uma altitude próxima de 300 m. 40 Figura 20: Mapa hipsométrico e estrutura geológica de maior dimensão da bacia hidrográfica da Ribeira de Pontes (Realizado em QGIS 2.18). A quantidade de água que servirá de recarga para os sistemas aquíferos equivale a cerca de 10% da precipitação anual (Samper et al., 2007), pelo que no caso de estudo equivale a cerca de 125 mm/ano. Após infiltração, a água poderá manter-se numa região superficial ou seguir para maiores profundidades, onde ocorrerá um aumento de temperatura e transformar-se-á em água mineral (Figura 21). A profundidade máxima de circulação da água mineral foi calculada tendo por base os dados de geotermometria e do gradiente geotérmico da área em estudo. A geotermometria indica valores de temperatura da água em reservatório na ordem dos 123ºC (Lima, 2001). De acordo com Calado (2001), o gradiente geotérmico médio universal ronda os 30ºC/km, ou seja, 3ºC/100m. Considerando que a temperatura inicial, isto é, a temperatura da água de superfície é de 24.5˚C, obtém-se uma profundidade de circulação próxima de 3260 m Possíveis zonas de recarga 41 Figura 21: Modelo hidrogeológico concetual para a área das Termas de Eirogo. ẟ ẟ 42 7. Conclusão No final deste trabalho foi atingido o principal objetivo com a proposta de um modelo hidrogeológico concetual para a zona das Termas de Eirogo, após organizada e interpretada a informação disponível sobre o sistema aquífero. As águas das Termas de Eirogo são águas de origem meteórica que se infiltram a uma altitude próxima de 300 m, como sugerido pelos dados isotópicos. Esta infiltração da água é promovida pela existência de uma falha de direção NE-SW, que também servirá como percurso preferencial, até á zona de emergência. As águas da região atingirão uma profundidade máxima de 3260 m, onde adquirem, através do gradiente geotérmico, uma temperatura de 123˚C. As caraterísticas físico-químicas da água da região resultam principalmente da interação água-rocha, embora se considere que provêm maioritariamente de uma origem mantélica. Como trabalho futuro, e de forma a esclarecer algumas dúvidas relativas a este recurso hidrogeológico, será necessária a realização de estudos detalhados e aprofundados, especialmente a nível das caraterísticas físico-químicas da água mineral, para a obtenção de um estudo de variabilidade temporal mais completo e, se possível, recorrendo ao seu tratamento estatístico. Com este estudo de variabilidade temporal será possível obter informações com uma maior certeza sobre a origem da mineralização da água, bem como, da sua profundidade de circulação. 43 Bibliografia A. Cantista (2008-2010) - O termalismo em Portugal. Anales de Hidrología Medica, vol. 3, 79-107 A. Lima (2001). Hidrogeologia de terrenos graníticos: Minho-Portugal. Tese de Doutoramento em CiênciasGeologia. Universidade do Minho. pp: 451 (Não publicado). A. Lima (2006). Plano de exploração das Termas de Eirogo. Concessão hidromineral HM-52. Relatório técnico (Não publicado). A. Lima (2011). Ocorrências bicarbonatadas sódicas associadas ao acidente de Gerês-Lóbios. Diversidade Composicional e Termalidade. Universidade do Minho. pp: 21. Annorson (1983). Chemical equilibria in iceland geothermal systems. implications for ghemical geothermometry invetigations. Geothermics, 12: 119-128. A.Takolander, Antti. (2018). 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