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Paula Barata Dias Wanessa Asfora Carmen Soares Allen Grieco (Coords.) volume ii DAS CULTURAS DA ALIMENTAÇÃO AO CULTO DOS ALIMENTOS
Série Diaita Scripta & Realia ISSN: 2183-6523 Destina-se esta coleção a publicar textos resultantes da investigação de membros da rede transnacional DIAITA: Património Alimentar da Lusofonia. As obras consistem em estudos aprofundados e, na maioria das vezes, de carácter interdisciplinar sobre uma temática fundamental para o desenhar de um património e identidade culturais comuns à população falante da língua portuguesa: a história e as culturas da alimentação. A pesquisa incide numa análise científica das fontes, sejam elas escritas, materiais ou iconográficas. Daí denominar-se a série DIAITA de Scripta - numa alusão tanto à tradução, ao estudo e à publicação de fontes (quer inéditas quer indisponíveis em português, caso dos textos clássicos, gregos e latinos, matriciais para o conhecimento do padrão alimentar mediterrânico), como a monografias. O subtítulo Realia , por seu lado, cobre publicações elaboradas na sequência de estudos sobre as “materialidades” que permitem conhecer a história e as culturas da alimentação. Paula B. Dias dedica-se às áreas da História, Sociedade e Cultura da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média. Wanessa Asfora investiga sobre História da Alimentação, da Medicina e das Práticas Intelectuais na Idade Média e no Renascimento. Carmen Soares atua nas áreas dos Estudos Clássicos e da História e Culturas da Alimentação, da Dietética e do Património Alimentar. Allen Grieco, Investigador Emérito de História na Villa I Tatti (Itália), publica sobre a história cultural da alimentação em Itália dos séculos XIV a XVI.
Série Diaita: Scripta & Realia Estudos Monográficos
Estruturas Editoriais Diaita: Scripta & Realia Estudos Monográficos ISSN: 2183-6523 Diretora Principal Main Editor Carmen Soares Universidade de Coimbra Comissão Científica Editorial Board Fabio Parasecoli New York University, EUA Maria Helena da Cruz Coelho Universidade de Coimbra, Portugal Paula Barata Dias Universidade de Coimbra, Portugal Cláudia Henrique Universidade de Algarve, Portugal José Cardoso Bernardes Universidade de Coimbra, Portugal Ana Paula Loureiro Universidade de Coimbra, Portugal Nuno Simões Rodrigues Universidade de Lisboa, Portugal António Apolinário Universidade de Coimbra, Portugal Isabel Drummond Braga Universidade de Lisboa, Portugal Todos os volumes desta série são submetidos a arbitragem científica independente.
Paula Barata Dias Wanessa Asfora Carmen Soares Allen Grieco (Coords.) volume ii DAS CULTURAS DA ALIMENTAÇÃO AO CULTO DOS ALIMENTOS
Título Title Das culturas da alimentação ao culto dos alimentos, Volume II From food cultures to food cults. Volume II Coords. Eds. Paula Barata Dias, Wanessa Asfora, Carmen Soares, Allen Grieco Contacto Contact [email protected] Vendas online Online Sales http://livrariadaimprensa.uc.pt Editores Publishers Imprensa da Universidade de Coimbra Coimbra University Press www.uc.pt/imprensa_uc Coordenação Editorial Editorial Coordination Imprensa da Universidade de Coimbra Capa - Desenho Cover - Picture Arquivo Fotográfico da Figueira da Foz Conceção Gráfica Graphics Rodolfo Lopes Infografia Infographics Nelson Ferreira Revisão Proofreading Isabel Gouveia / Daniela Pereira Impressão e Acabamento Printed by ,%1 ISBN 978-989-26-2401-3 ISBN Digital 978-989-26-2402-0 DOI https://doi.org/10.14195/978-989-26-2402-0 © Novembro 2022 Trabalho publicado ao abrigo da Licença This work is licensed under Creative Commons CC-BY (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/pt/legalcode) Imprensa da Universidade de Coimbra Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis http://classicadigitalia.uc.pt Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Série DIAITA Scripta & Realia
Coords. Eds. Paula Barata Dias, Wanessa Asfora, Carmen Soares, Allen Grieco Das Culturas da Alimentação ao Culto dos Alimentos, Volume II (DE ALIMENTORVM FACVLTATIBVS I) [From Food Cultures to Food Cults]. Volume II (DE ALIMENTORVM FACULTATIBVS I) Afiliação Affiliation Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Resumo A presente obra reúne estudos de especialistas de diferentes áreas do conhecimento que se dedicaram a refletir sobre fenómenos alimentares a partir de dois eixos de análise distintos, porém intercomunicantes: as culturas alimentares e o culto dos alimentos. Esses eixos organizam a obra do ponto de vista formal e conceptual, pois revelam o paradoxo expresso pelas culturas alimentares enquanto forças vivas, mas invisíveis participadoras da construção da cultura (volume I), e, ao mesmo tempo, pelo destaque de alguns alimentos enquanto objetos de formas diversas de culto, que emergem da invisibilidade para se destacarem enquanto signos dos discursos e das práticas culturais humanas – religiosa, ética, artística, gastronómica e medicinal (volume II). A riqueza de temáticas que atravessam tempos e espaços variados e de abordagens multie transdisciplinares fazem da obra mais um contributo importante para a área dos Estudos da Alimentação e das Humanidades, em geral. Palavras-chave História da alimentação; Património alimentar; Culturas da alimentação; Ambiente; Sociedade; Saúde. Abstract The present work brings together studies by specialists from different areas of knowledge that are dedicated to reflecting on food phenomena from two distinct but intercommunicating axes of analysis: food cultures and food cults. These axes organize the book both from the formal and conceptual point of view, since they reveal the paradox expressed by food cultures as living but invisible forces that participate in the construction of culture (volume I), and, at the same time, by highlighting some foods as objects of diverse forms of cult that emerge from invisibility to stand out as signs of discourses and human cultural practices - religious, ethical, artistic, gastronomic, medicinal (volume II). The richness of the themes that cross varied times and spaces and the multiand trans-disciplinary approaches make this work an important contribution to the area of Food Studies and the Humanities in general. Keywords Food history; Food heritage; Food cultures; Environment; Society; Health.
Coordenadores Paula Barata Dias é professora auxiliar da Universidade de Coimbra, do grupo de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras e investigadora integrada do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos. Tem desenvolvido investigação e publicado na área da História, Sociedade e Cultura da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média; Religião e Cristianismo Antigo. É docente do Mestrado Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade e do Doutoramento Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades. Leciona seminários e orienta dissertações de mestrado no domínio da simbólica alimentar nos discursos artísticos e religiosos e acerca da ética da alimentação. Destacam-se os títulos: “Quando o doce é corpo: antropomorfismo e antroponímia na doçaria tradicional portuguesa”; “A grande refeição: metáforas alimentares na descrição do transcendente religioso na cultura ocidental”; "De Spiritu Gastrimargiae – distopia alimentar e gula na representação do inferno na tradição moral ocidental. Wanessa Asfora é Historiadora formada pela Universidade de São Paulo, onde também concluiu mestrado e doutoramento na área de História Medieval. Foi investigadora de pós- -doutoramento do Departamento de História da Universidade de Campinas, com estágio de pesquisa no The Harvard University Center for Italian Renaissance Studies. Atualmente é investigadora colaboradora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra e coordenadora de área do Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Correspondente para América Latina da revista Food&History, os seus objetos de investigação são a História da Alimentação, da Medicina e das Práticas Intelectuais na Idade Média e no Renascimento. Carmen Soares é Professora Catedrática da Universidade de Coimbra (Faculdade de Letras). Tem desenvolvido a sua investigação, ensino e publicações nas áreas das Culturas, Literaturas e Línguas Clássicas, da História da Grécia Antiga e da História e Culturas da Alimentação e da Dietética e do Património Alimentar. É autora de traduções do grego antigo para português, de estudos vários de história e cultura helénicas e de livros e artigos sobre história da alimentação e da dietética antiga e portuguesa. Desempenha funções de Coordenadora Científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, de Diretora do doutoramento em “Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades” da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de membro do Conselho Científico do Instituto Europeu de História e Culturas da Alimentação (IEHCA, Tours, França) e de investigadora corresponsável do projeto DIAITA - Património Alimentar da Lusofonia (apoiado pela FCT, Capes e Fundação Calouste Gulbenkian). Allen Grieco é Doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales) e Investigador Associado Sénior (Emérito) em História na Villa I Tatti (The Harvard University Centre for Italian Renaissance Studies). Publicou extensivamente sobre a história cultural da alimentação em Itália dos séculos XIV a XVI. Actualmente é co-editor chefe de Food & History e também responsável por um projecto bibliográfico sobre a história da alimentação na Europa financiado pela Mellon Foundation e pela Bibliothèque Nationale de France. Foi professor em Harvard, bem como nas Universidades de Florença e Bolonha, e criou um programa de mestrado em língua inglesa na Università delle Scienze Gastronomiche, Pollenzo (Itália).
Editors Paula Barata Dias is an Assistant Professor at the University of Coimbra (Faculty of Arts and Humanities) and an integrated researcher at the Centre for Classical and Humanistic Studies (CECH). She has developed research and published in the domain of History, Society and Culture of Late Antiquity and High Middle Ages; Religion and Ancient Christianity. She teaches at the Master’s in Food: Sources, Culture and Society and at the PhD Food Heritage: Cultures and Identities, as well as seminars in that area, and supervises master’s and PhD dissertations on food symbolism in artistic and religious discourses and on the Ethics of Food. Some examples of her contributions: “When the sweet is the body: anthropomorphism and anthroponymy in traditional Portuguese sweets”; “The Great Meal: Food Metaphors in the Description of the Religious Transcendent in Western Culture”; “De Spiritu Gastrimargiae – Food Dystopia and Gluttony in the Representation of Hell in the Western Moral Tradition.” Wanessa Asfora is a Historian graduated from University of São Paulo where she also received her MPhil and my PhD in Medieval History. Between 2014 and 2018, she was a Postdoctorate Research Associate at the Department of History of the University of Campinas (with a period of research as a visiting Research Associate at The Harvard University Centre for Italian Renaissance Studies). Currently, she is a Research at the Centre for Classical and Humanistic Studies at the University of Coimbra and one of the coordinators of the Laboratory of Theory and History of Medieval Media of the University of São Paulo and The Federal University of Rio de Janeiro. Latin American correspondent member for the journal Food & History, her objects of interest include the History of Food, Medicine and Intellectual Practices in the Middle Ages and Renaissance. Carmen Soares is a Full Professor (Professora Catedrática) at the University of Coimbra (Faculty of Arts and Humanities). She has developed her research, lecturing and publishing in the areas of Culture, Literature and Classical Languages, History of Ancient Greece, Food History and Cultures, Dietetics History and Food Heritage. She has published several translations into Portuguese of Ancient Greek texts, books and articles on Greek history and culture and on ancient and Portuguese food and dietetics history. She is the Scientific Coordinator of the Centre for Classical and Humanistic Studies, Director of the PhD in “Food Heritage: Cultures and Identities” (Faculty of Arts and Humanities – University of Coimbra), Member of the Scientific Committee of the European Institute of Food History and Cultures (IEHCA, Tours, France) and co-responsible researcher of the DIAITA Project - Lusophone Food Heritage (supported by FCT, Capes and Calouste Gulbenkian Foundation). Allen Gieco is a PhD École des Hautes Études en Sciences Sociales) and Senior Research Associate (Emeritus) in History at Villa I Tatti (The Harvard University Centre for Italian Renaissance Studies). He has published extensively on the cultural history of food in Italy from the 14th to the 16th centuries. Currently co editor-in-chief of Food & History (Turnhout, Brepols), he is also in charge of a bibliographic project on the history of food in Europe funded by the Mellon Foundation and the Bibliothèque Nationale de France. He has taught at Harvard as well as at the Universities of Florence and Bologna, and has created an English- -language M.A. program at the Università delle Scienze Gastronomiche, Pollenzo (Italy).
307 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses da própria comida. Por sua vez, segundo esse autor5, no que toca às mensagens de alimentação divulgadas nessas publicações, elas oferecem, implicitamente, uma série de respostas relacionadas ao quê e como comemos. Segundo Rebelo6, dentre os papeis que ocupam as revistas de culinária está o de transmitir receitas, uma dinâmica que, no passado, ocorria mais oralmente. Por sua vez, no repertório dessas mensagens há as produções que se vislumbram como tradicionais. Mas, questiona-se: quais seriam as características de uma receita/ um prato para ser considerado como tradicional? Ainda, com o olhar voltado à cultura portuguesa, quais as características que acendem nas revistas de culinária para que um prato seja reconhecido como da tradicional cozinha portuguesa? No âmbito da tradição há vários pontos a serem tratados, dentre eles, se ela é transferida, ou seja, se circula ao longo das gerações, ou se é uma tradição inventada, a qual, segundo Hobsbawn & Ranger7, ela seria regulada por regras, as quais inculcam alguns valores e normas pelo exercício da repetição. Ao que se refere a Portugal, pode-se afirmar que um prato de bacalhau ganhe uma grande possibilidade de ser apresentado como tradicional na cultura lusa8, porém, como destaca Sobral9, ao se tratar de tradição culinária, há de se levar em conta os aspectos regionais, assim como os das classes sociais. Dado este trabalho ter como objetivo analisar as dimensões sobre a tradição no campo culinário português, para discorrer esse tema optou-se por ter o apoio de uma obra do gênero da culinária, a qual se destaca como uma referência no campo lusitano. Trata-se do livro Cozinha Tradicional Portuguesa (CTP), de Maria de Lourdes Modesto10, de grande sucesso editorial, a qual apresenta 244 fotografias e teve a sua primeira edição em 1982, chegando à 24ª em 2015, já tendo alcançado os 400 mil exemplares vendidos11. Além do estudo desse livro, foram selecionadas para este trabalho as revistas portuguesas de culinária com o maior número de tiragem no país, portanto, apresentam-se aqui dois títulos: Continente Magazine (CM) e Sabe Bem (SB), ambas a completar dez anos de vida. As duas exibem uma peculiaridade, pois são mantidas pelos dois maiores grupos de distribuição de alimentos em Portugal: o SONAE, da rede de supermercados Continente, e o Jerônimo Martins, vinculado aos supermercados Pingo Doce. Para este estudo, selecionamos como corpus essas duas publicações veiculadas nos anos de 2015 e 2018. Portanto, foram aferidas 5 Ibid. 6 Rebelo 2016. 7 Hobsbawn e Ranger 1997. 8 Luderer 2014a; Sobral e Rodrigues 2013; Sobral 2007. 9 Sobral 2007: 35 10 Modesto 1991. 11 Abreu, 2018.
308 Cynthia Luderer 36 publicações ao todo, dado a periodicidade da CM ser mensal, e a de sua concorrente bimestral. Os textos nelas contidos, no formato verbal ou imagético, foram analisados com o apoio metodológico da semiótica e da Análise do Discurso. Com um olhar atencioso, buscou-se conferir as mensagens que estivessem vinculadas ao trabalho de Modesto12, dado ter-se como propósito a busca nesse apoio bibliográfico dos signos que pudessem estar relacionados com o que se possa compreender como sendo características da comida tradicional portuguesa. A pesquisa de Abreu13 sobre o CTP oferece algumas pistas do que se possa considerar como tradição no contexto dessa obra, como ao que se reflete, por exemplo: no confronto com o outro, ou seja, nas propostas alimentares locais que se contrastam com as do estrangeiro; no gosto inerente de uma determinada população – o que está vinculado à determinada época e aos alimentos ali expostos; e ao próprio contexto da paisagem, a qual reflete uma nostalgia. Ainda se conjeturou sobre as considerações de Sobral14, quem defende que uma marca da tradição culinária portuguesa seja a abundância da doçaria e do bacalhau. Por sua vez, segundo exposto por Abreu15, dentre as 832 receitas divulgadas no CTP 312 são doces. Quanto ao bacalhau, diz essa autora16que uma das vertentes na qual ele se destaca é na cozinha de festas, como na ceia de Natal. Por sua vez, essa analogia do bacalhau estar tradicionalmente associado à ceia de Natal também foi conferida por análise em periódicos brasileiros que tratavam sobre a culinária portuguesa17. Essas pistas contribuíram para se ter a devida atenção aos signos replicados no CTP e nas revistas analisadas. Por sua vez, foi com base nesse processo que se conferiu os memes que se reproduzissem nesse conjunto de textos. Originariamente, o conceito de meme foi apresentado pelo biólogo Richard Dawkins, quem, de modo metafórico, aludiu o termo ao princípio de um gene, porém, resguardando ao meme a relação de réplica na cultura18. Nunes 19 contextualiza os memes sob a ótica da comunicação e explica que ele é “um replicador, uma unidade de transmissão cultural, uma unidade de imitação”. Para ela20, além da estabilidade, “é a fecundidade ou a velocidade de replicações que determinará o sucesso do meme, sob a forma de frequência de circulação”. Por sua vez, Dória21 12 Modesto 1991. 13 Abreu 2018. 14 Sobral 2008: 114. 15 Abreu 2018: 5. 16 Ibid.: 52. 17 Luderer 2014a. 18 Ibid.: 2014b. 19 Nunes 2013:48. 20 Ibid.: 49. 21 Dória 2009: 146.
309 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses explica que o meme pode ser entendido como um vírus, que “‘pula’ de cérebro para cérebro”, e no campo da alimentação defende que a receita culinária é um meme. Para ele: Os meios de propagação dos memes são inúmeros: a palavra escrita, falada, o exemplo e assim por diante […]. E do mesmo modo como os genes pulam de um corpo para outro por intermédio do espermatozoide e do óvulo, o meme viaja pelo cérebro que conseguiu atingir através das formas indicadas. Desse ponto de vista, [o chef francês Paul] Bocuse nos ‘passou’ vários memes em seu livro, e certamente tanto ele como nós fomos usados como hospedeiros […].22 A partir desses princípios, e tendo em vista as mensagens divulgadas no CTP, assim como nas 36 revistas usadas como corpus, este trabalho se desenvolveu em busca de reconhecer os memes que estão a se replicar dentro do contexto entendido como sendo da cozinha tradicional portuguesa. 2. A família e a tradição nas revistas de culinária dos supermercados portugueses Dada a tiragem aproximada de cem mil exemplares, pode-se inferir que as revistas de culinária aqui analisadas atendem a um público de massa. O fluxo das vendas ocorre nos supermercados, onde as publicações são disponibilizadas, normalmente, junto às caixas registradoras, e são oferecidas aos clientes que por ali passam com as suas compras. O custo de comercialização de ambas é módico: a CM é comercializada por €1 (um euro), mas os consumidores que possuem o cartão cliente Continente obtêm 50% de desconto desse custo, tendo esse valor disponível para ser usado numa próxima compra. O Pingo Doce isenta-se de estratégias assim e mantém o preço de capa de sua revista SB a € 0,50 (cinquenta cêntimos). Por sua vez, esses valores praticados por ambas não variam desde o lançamento, respectivamente, outubro de 2010 e maio de 2011. Outra característica reservada às duas revistas é o público que almejam. A partir da declaração de pessoas que atuam na equipa da CM, conferiu-se que o destinatário dessa publicação é o público feminino, entre a faixa etária de 25 a 35 anos. Levando-se em conta o exposto por Warde23, sobre o modo superficial em que os temas são tratados nas revistas femininas, pode-se conferir esse aspecto nessa publicação. As jovens mulheres são as protagonistas dos temas ilustrados na CM e esse quadro focal regula com os discursos do enunciador, que dialoga com um enunciatário que se ocupa do papel da figura materna e que é ativo no 22 Ibid. 23 Warde 1997: 44.
310 Cynthia Luderer seu dia a dia e, assim, diante o limitado tempo que lhe resta, o enunciador entra em sua vida para contribuir, ensinando-o como prover a saúde e o bem-estar de sua família, da qual se insere as crianças. Por parte da SB não houve um depoimento elucidativo a respeito do público por ela focado, mas adianta-se que o enredo apresentado nessa publicação pouco se difere do de sua concorrente. Porém, ainda que nenhuma das duas revistas explicite textualmente o gênero feminino em suas cartas do editorial, há outras mensagens que remetem a esse público. Um exemplo é a publicidade. Na SB, por exemplo, há produtos de beleza para mulheres, assim como cores e estampas tipicamente femininas nos cenários de produtos promovidos e alimentos industrializados destinados às crianças. Confere-se assim que os discursos dessas publicações apresentam uma hegemonia em torno de uma mulher, a qual ocupa o papel da maternidade, e está enfaticamente vinculada à família. Por sua vez, família é um vocábulo que surge com muita frequência nas duas publicações e, com isso, infere-se que seja este significante o ponto nodal dos discursos dessas duas revistas. Segundo Prado24, a expressão de “ponto nodal” - apresentada por Laclau ou “palavra de ordem”, quando dita por Deleuze -, trata-se de um conceito a partir do qual o discurso se totaliza e se torna hegemônico, apresentando-se como um paradigma explicativo de uma determinada realidade. Configura-se assim uma totalização imaginária no texto, a qual mostra uma verdade discursiva, explicando parte do real25. Posto isso, pode-se inferir que o conceito de família é o que radia os discursos nessas revistas e, assim o sendo, põe-se em questão a relação desse prisma com o foco que se coloca em causa neste estudo: a tradição. Os significantes “família” e “tradição” estão presentes nas duas revistas e, inclusive, são passíveis de estarem unidos no mesmo texto. Por certo, é relevante conferir o significado que eles apresentam nas mensagens, mas, a princípio, limitamos a discorrer alguns exemplos quantitativos com base nas edições de 2015 e 2018 da SB. Quando se trata de análise de revistas, é importante conferir as suas capas. Elas são objetos relevantes para conferir seus discursos comunicacionais, pois a imagem selecionada a ser ali exposta agrega-se aos conteúdos verbais, e esse conjunto é o primeiro contato comunicativo com o enunciatário e contribuirá para convocar o leitor a consumir o exemplar26. Nas capas das edições avaliadas da SB o significante “família” esquivou-se de lá estar, mas o vocábulo “tradição” marcou presença. Ele é expresso na capa da edição 2427, dedicada à Páscoa, na 24 Prado 2011. 25 Ibid. 26 Luderer e Carvalho 2019. 27 Sabe bem faz bem 24.
311 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses qual anunciava “a boa tradição do cabrito”; e no número 2628, quando se anuncia o ceviche como sendo a “simplicidade com a tradição dos andes”. Outro núcleo das revistas onde se podem conferir as intenções comunicacionais do enunciador é a carta do editor e, nessa seção verificamos que o termo “tradição” foi dali excluído. No entanto, o vocábulo “família” faz parte do corpo desses textos, o qual aparece: uma vez nas cartas das edições 2829 e 4330; duas vezes nas edições 2731, 4232 e 4633 e três vezes na 41ª34. Nesse cômputo verifica- -se que em 2018 a palavra foi usada oito vezes nessa seção, e apenas três em 2015. Se visto pela frequência do uso da palavra “família” no conjunto das edições verificadas de SB, confere-se que ela foi redigida 32 vezes em 2015 e 81 vezes em 2018. Ou seja, esse significante passou a ser muito mais empregado. Ainda que não tenha sido exposto nas cartas do editor, o significante tradição também passou a ser mais aplicado nos textos das revistas de 2018. Sem levar em conta os termos tradicional, tradicionais e tradições - os quais também aparecem-, o vocábulo tradição é citado 14 vezes no corpo das mensagens da revista SB de 2015, e 49 vezes no total das edições de 2018. Desse último cômputo, vale destacar que 21 dessas aparições foram conferidas na 45ª edição,35 quando a revista apresenta uma edição especial, dedicada aos produtos da marca Pingo Doce. Ao ter em conta ao que é exposto por Charaudeau36, que há numerosos entrecruzamentos entre os discursos e de suas representações produzidas numa dada sociedade, há de se ter atenção aos dados acima citados. Esse aumento do uso desses dois significantes e os devidos cruzamentos entre eles no corpo dessas edições pode estar relacionado a um movimento social contemporâneo vinculado a diferentes motivos. Uma análise futura, que trate esse tema de modo mais específico, poderá dar melhores pistas a esse respeito, pois, como dito por Charaudeau37, há uma ordem do imaginário, baseado nas representações de um grupo social, que leva a garantir o que é dito. Porém, a princípio, o que se consta é uma replicação desses dois significantes nas narrativas das revistas, um aumento de frequência que indica uma fecundidade se os entendermos como memes. 28 Ibid. 26. 29 Ibid. 28. 30 Ibid. 43. 31 Ibid. 27. 32 Ibid. 42. 33 Ibid.: 46. 34 Ibid.: 41. 35 Ibid.: 45. 36 Charaudeau 2009: 47. 37 Ibid.: 55.
312 Cynthia Luderer 3. Imagens que convocam à tradição Como dito por Charaudeau38, a construção da notícia é um texto filtrado e, assim como salientado por ele39, as imagens tornam-se a prova da verdade. Esse repertório também é constatado no processo de criação das revistas de culinária, para as quais as imagens ganham peculiar importância. Segundo Chiachiri40, com os recursos técnicos e artísticos aplicados a partir de uma imagem fixa, chapada, bidimensional, pode-se provocar reações sinestésicas no leitor quase ou tão mais forte do que a sua percepção do próprio prato. Diante disso, dedicamos mais atenção às imagens divulgadas nas revistas, levando-se em conta o apoio sobre o plano das 242 fotografias divulgadas no CTP. Além dos pratos relacionados às receitas, este livro apresenta as espacialidades dessas produções, nas quais se inserem as pessoas e as mãos que desenvolveram o ato culinário. Dado haver escolhas e seleções no processo da captação das imagens, presume-se que o olhar e as lentes dos fotógrafos Augusto Cabrita e Homem Cardoso, os profissionais que fizeram parte do projeto do CTP, contribuíram para esse resultado final. Para este trabalho, foram averiguadas 141 dessas imagens, as quais, mais especificamente, expunham apenas a composição do prato. Portanto, a princípio, as que prevaleciam a paisagem e os atores no contexto da composição fotográfica foram desconsideradas. Mais especificamente, respeitando a divisão das 11 regiões expostas no livro, foram selecionadas: 15 imagens do Douro e Minho; 13 de Trás os Montes e Alto Douro; 11 da Beira Alta; 17 da Beira Baixa; 10 da Beira Litoral; nove do Ribatejo; 19 de Estremadura; 20 do Alentejo; 12 do Algarve; sete da Madeira e oito dos Açores. Apoiado em Claude e Christiane Grignon, o estudo de Abreu41 apresenta justificativas no que se refere à importância dos dados quantitativos quando se trata das tendências dos consumos alimentares e, ao pensar na proposta deste trabalho, torna-se relevante respeitar essa afirmativa. Assim, dado o interesse de captarmos os memes que se reproduzem no contexto da comida tradicional portuguesa, foram buscados os ícones que se repetiam nessas 141 imagens selecionadas do CTP. Com isso, metodologicamente, com vista às composições fotográficas selecionadas e conferidas, organizou-se dez categorias estéticas para então se verificar aquelas que mais se repetiam (Tabela 1). Em termos quantitativos, dentre as características conferidas verificou-se o destaque de algumas delas, como: o modelo praticado da porção coletiva; o uso das toalhas brancas bordadas à mesa; e a falta de alinhamento na elaboração 38 Ibid.: 131. 39 Ibid.: 55. 40 Chiachiri Filho 2008. 41 Abreu 2018: 41.
313 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses estética do prato. Infere-se que essas características encontradas no CTP, e outras que também ganham efeito de repetição no livro, possam ser signos que se pode entender como parte das representações da cozinha tradicional portuguesa. Apoiados nessa base, buscou-se conferir quais dessas características se replicam na culinária portuguesa cotidiana. Para tanto, as revistas de culinária dos supermercados portugueses serviram como aporte para se desenvolver essa análise. Com essa interação entre as características conferidas nos pratos divulgados do CTP (Tabela 1) em relação às das revistas, pôde-se considerar o que defende Dawkins42, ou seja, que os memes propagam-se na cultura e que, no sentido amplo, podem ser chamados de imitação. Mais especificamente, com esse exercício foi possível conferir o efeito fenotípico, o qual estaria relacionado à permanência de algumas características na cultura culinária portuguesa. A partir de uma análise qualitativa, verifica-se a partir de uma observação sobre os dados da Tabela 1 e com vista à Tabela 2, que há continuidade de algumas características, as quais se confirmam por um padrão repetitivo ou por um caráter inovador, que tiveram como base as características originais. Para dar acabamento ao prato, por exemplo, há outros ingredientes para replicar a mesma estética da canela em pó, como o açúcar e as sementes. O uso da laranja, visto no CTP para decorar pratos salgados, se estende a outros ingredientes cítricos com o mesmo fim. Os grelosque no CTP era a verdura que ganhava destaque como acompanhamentodeixam de ser o centro das atenções e serão substituídos por outras folhagens verdes para ocupar o papel de acompanhamento do prato. A salsa também ganhou suplente, pois os pratos passaram a ser decorados com outros variados tipos de ervas. O tom azul das louças divulgadas no CTP, que remete aos tradicionais azulejos portugueses, continua a ser usado nas revistas, mas ganha relevância diante as propostas com pescados, transmitindo, com esse tom, a tonalidade do mar. As pesadas mesas escuras de madeira maciça passam a ser apresentadas nas revistas com um acabamento de pátina, expressando o modelo antigo, do usado, do gasto, mas por cores iluminadas-como do branco ou do azul/cinza claro. Seguindo os modelos contemporâneos ocidentais apresentados por Luderer43, as porções nas revistas são apresentadas em empratados, e as tigelas e os jarros de barro serão substituídos pela transparência do vidro. O vinho, tão caro à cultura portuguesa, é mantido sobre as mesas, mas as louças para servi-lo ganham transparência e mais requinte. As toalhas brancas mantiveram- -se em destaque e são elas que cobrem as mesas para os momentos festivoscomo a Páscoa e o Natal. Por sua vez, como já visto, é nas edições dessas datas que a tradição é pontuada com destaque e quando se busca os arquétipos de outrora, incluindo, as porções coletivas. Com essas propostas e mensagens (Tabela 2), as 42 Nunes 2011. 43 Luderer 2013.
314 Cynthia Luderer revistas passam a apresentar as novas marcas e memórias culinárias que poderão, inclusive, ser futuramente replicadas. 4. O destaque do rústico nas camadas mnêmicas Indo ao encontro dos interesses e controles higienistas e sanitários, as louças transparentes, brancas e lisas têm sido as mais divulgadas neste século quando se trata no universo da gastronomia ocidental44. Dado o exposto por Baudrillard45, que há um sistema relacionado ao uso e à aplicação dos objetos, pode-se inferir que essas louças resguardam características que atendem ao modelo de higienização, algo bastante caro à sociedade contemporânea. Nas revistas dos supermercados vê-se louças com essas características, porém é um estilo que escapa das ilustrações do CTP, as quais exprimem a tradição por meio de outros tipos de objetos. Na obra de Modesto46destacam-se as louças opacas, como as de barro e porcelanas coloridas ou estampadas, e muitas apresentam um tom encardido e, por vezes, mostram-se rotas. Também há no livro a divulgação de vasilhas feitas com outros materiais, como palha, madeira, lata ou ferro. As louças brancas ou as transparentes apresentam relevo em suas bordas e, assim como as tigelas ou bandejas de prata, são as escolhidas para apresentar propostas servidas em ocasiões especiais. Muitas peças deixam de ser vistas em detalhes por estarem forradas por panos ou repletas de alimentos até as suas bordas. Quanto ao panorama no qual estão inseridas, muitas são apresentadas num cenário campesino, ou com utensílios que remetem ao universo campestre. Ademais, prevalecem os contornos irregulares, arredondados, agregados ao excesso de informações na decoração dos pratos. Inclusive, percebe-se um conjunto que remete aos traços barrocos, sendo raro o uso das linhas retas nessas composições. Ainda, essa obra acaba por indicar uma comida tradicional portuguesa que exalta um conjunto de signos que remete ao estilo rústico. Em relação às revistas dos supermercados portugueses, conferiu-se que elas contemplam algumas características visualizadas no CTP quando apresentam as suas propostas culinárias relacionadas ao universo luso. As próprias instruções da receita, em relação ao uso de determinadas travessas ou decoração, indicam uma aproximação com o estilo rústico visualizado no CTP. Dentro do corpus selecionado, averiguou-se que a CM47 enunciou por duas vezes, no mesmo ano, uma tradicional iguaria vinculada ao norte de Portugal: 44 Ibid. 45 Baudrillard 1981. 46 Modesto 1991. 47 Continente magazine 90: 28; Ibid. 92: 71.
315 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses o Bacalhau à Gomes de Sá. O prato não está ilustrado no CTP, mas a receita é divulgada no livro48, onde indica “deita-se num tabuleiro de barro […] Servir com salsa picada e enfeita-se com rodelas de ovo cozido e azeitonas”, características essas materializadas nas imagens dos dois pratos apresentados nas duas edições da CM. Ao lado da página onde se exprime essa receita de bacalhau, o livro apresenta a imagem de outra produção com o pescado, um Bacalhau à Margarida da Praça 49, o qual é servido numa tigela de barro de formato oval, apoiada sobre uma toalha branca bordada. Na composição da mesa ainda há uma jarra de barro marrom, um copo de vidro cheio de vinho e pedaços de pães. O bacalhau está centrado na travessa e, à sua volta, há grandes rodelas de batatas cozidas até às bordas. A decoração fica a cargo de algumas azeitonas pretas inteiras, expostas de maneira desordenada sobre as batatas, e um arranjo de salsa inserido no centro da porção coletiva do bacalhau. Foi conferida uma produção com características estéticas semelhantes na CM 50, mas tratava-se de um borrego na panela. O formato oval da vasilha se repete, porém, por ser mais profunda, se confere a borda branca da cerâmica onde a produção é exposta. Assim como o prato do bacalhau, a proteína está no centro, porém, rodeada por cubos de cenourae não rodelas de batatas. As azeitonas pretas a decorar seguiram o mesmo padrão e, quanto às ervas, diferente do arranjo de salsa, se espalham alecrim sobre a porção coletiva da carne. Esse prato é exposto sobre uma mesa de pátina branca, onde há folhagens de alecrim na composição. Salienta-se que as características repetitivas expostas no prato do borrego podem ser entendidas como memes. Como ilustrado anteriormente (Tabela 1), o uso da salsa na decoração dos pratos é uma das marcas presentes nas propostas do CTP e salienta-se essa característica na ilustração dos famosos pastéis de bacalhau. Nesse livro51, eles são apresentados numa travessa oval, de barro marrom, desenhada com traços curvilíneos e pontinhos pintados em tom caramelo. A vasilha em formato oval é preenchida com próximo de 20 pastéis em formato ovoide. A composição é decorada com dois arranjos de salsa, expostas uma de cada lado da porção. A travessa é exibida sobre uma toalha cinza clara, na qual é aplicada tiras de tecidos estampadas coloridas, as quais remetem a um modelo patchwork, que se cruzam e formam grandes losangos. Na CM52 os bolinhos de bacalhau são sugeridos para serem consumidos com molho de ervas, e há semelhanças com os enunciados no CPT, pois apresenta uma porção de 15 bolinhos arredondados de modo coletivo, mas expostos separadamente sobre uma grelha de ferro preta. Nesse conjunto há uma pequena tigela 48 Modesto 1991:14. 49 Ibid.:15. 50 Continente magazine 90: 31. 51 Modesto 1991: 17. 52 Continente magazine 92: 17.
316 Cynthia Luderer branca com o molho de ervas, e no canto direito inferior da imagem é destacado um arranjo de salsa. Identifica-se no arranjo de salsa um ingrediente/signo que se repete na composição dos bolinhos e essa característica rústica se adere à grade de ferro preta, que remete a um utensílio que teria sido utilizado no processo da elaboração da cocção dessa proposta. Essa grade é mostrada apoiada sobre uma madeira em tom natural com veios aparentes, que toma um quarto da fotografia. Quanto ao molho de ervas, é visto que é heterogêneo, pois troços de salsa são visíveis nessa composição. Outro item que resguarda rusticidade e é comumente encontrado no comércio de alimentação do norte de Portugal é o pão de ló, uma iguaria apresentada no CTP na sua primeira seção, a do Douro e Minho. A receita ilustrada nesse livro é o pão de ló Margaride53, e tem o visual semelhante ao pão de ló tradicional. Ainda que a quantidade dos ingredientes apresentados nas receitas de ambos se difira54, verificam-se peculiaridades em comum, como: o uso do papel para forrar a forma com buraco no meio, a qual deve ser de barro e não vidrada; e a sugestão do uso dos fornos à lenha das padarias para cozer a iguaria. Esse quitute é posto para o consumo junto com o próprio papel no qual é cozido e, popularmente, é ingerido aos nacos, um exercício feito com as mãos, sem o uso dos talheres55. A CM divulga o pão de ló de Margaride na última página56, onde promove a seção Yammi 2nome relacionado a uma marca de robô de cozinha. Ali são impressas duas receitas em papel cartonado e brilhoso para serem colecionadas e a receita que faz par com a do pão de ló é um ensopado de borregoapresentado numa tigela de barro e com pedaços de pão. As duas iguarias foram ilustradas sobre uma madeira rústica, sendo o pão de ló apresentado com o tradicional papel no qual é cozido, ficando ao seu lado, no canto superior direito, três ovos inteiros e abaixo uma parte de uma faca de inox apoiada sobre um pano de cor bege com listras brancas. Se constrói um aspecto monocromático que se vincula aos tons terra. A receita está impressa detrás da imagem, e indica que a porção atende a dez pessoas, ou seja, é coletiva. Dado o uso do robô de cozinha para produzi-la, ela foi classificada como fácil, sendo necessário apenas 11 minutos para concluí-la – um tempo muito menor comparado à receita tradicional do CTP, a qual exigia de 30 minutos a uma hora só para bater os ovos. O uso do papel manteiga é indicado na receita e o enunciador alerta o leitor sobre o modo de preparo tradicional do 53 Modesto 1991: 36. 54 Ibid.: 37. 55 Há regiões que promovem receitas específicas dessa iguaria que contribui para esse bolo ter um resultado mais cremoso, e isso interfere na maneira de ingeri-lo. Um exemplo é o pão de ló de Ovar, que é menor e se usa colher para comê-lo. 56 Continente magazine 90: 99.
323 13. A cozinha tradicional lusitana e a replicação dos memes nas revistas de culinária de supermercados portugueses verificar um elo por outra cadeia de memes, reconhecendo que há outros argumentos que possam ser debatidos a partir desse breve empuxo, que também pode cercar as questões da tradição. Por sua vez, essas entre outras questões podem ser melhor debatidas e delineadas para se conhecer outros argumentos que permeiam o processo de criação e divulgação das imagens das produções alimentares. Bibliografia Fontes Continente magazine 2018 90 (mar.), Público, Lisboa. Continente magazine (2018) 92 (mai.), Público, Lisboa. Continente magazine (2018) 93 (jun.), Público, Lisboa. Continente magazine (2018) 99 (dez.), Público, Lisboa. Sabe bem faz bem (2015) 23 (jan./fev.), Plot, Lisboa. Sabe bem faz bem (2015) 24 (mar./abr.), Plot, Lisboa. Sabe bem faz bem (2015) 26 (jul./ago.), Plot, Lisboa. Sabe bem faz bem (2015) 27 (set./out.), Plot, Lisboa. Sabe bem faz bem (2015) 28 (nov./dez.), Plot, Lisboa. Sabe faz bem faz bem (2017) 35 (jan./fev.), Plot, Lisboa Sabe bem faz bem (2018) 41 (jan./fev.), Cofina, Lisboa. Sabe bem faz bem (2018) 42 (mar./abr.), Cofina, Lisboa. Sabe bem faz bem (2018) 43 (mai./jun.), Cofina, Lisboa. Sabe bem faz bem (2018) 45 (set./out.), Cofina, Lisboa. Sabe bem faz bem (2018) 46 (nov./dez.), Cofina, Lisboa. Estudos Abreu, Maria Margarida Sarmento Gomes Mota Pinto de (2018), Cozinha tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto: contributos para a construção das identidades e do património culinário português. (Dissertação de Mestrado, Faculdade Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa, Portugal). Aquino, Filipe (2015), A construção do imperativo verde: um estudo sobre publicidade e sustentabilidade, Appris, Curitiba. Atala, Alex; Dória, Carlos Alberto (2008), Com unhas, dentes e cuca: pratica culinaria. Senac, São Paulo. Baudrillard, Jean (1981), El sistema de los objetos, Siglo XXI, Ciudad de México.
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