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Solidariedade cultivada

Salles Oliveira, Paulo de

Abstract

Se presenta un estudio sobre la formación de la cultura solidaria en dos cooperativas brasileñas; una de ellas, compuesta por miembros de clases populares; la otra, por personas de clase social media con formación universitaria. Este trabajo trata de evidenciar, teórica y empíricamente, cómo la construcción de un emprendimiento colectivo – democrático y capaz de crear trabajo y riqueza – promueve la construcción de vínculos de solidaridad entre las personas. Esa ayuda mutua crea las bases para el cultivo y desarrollo de una cultura solidaria entre ellos, en nítido contraste con las determinaciones más amplias de la sociedad en que vivimos.

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© SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 35 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 SOLIDARIEDADE CULTIVADA Developing solidarity Paulo de SALLES OLIVEIRA1 Universidade de São Paulo (Brasil) RESUMEN: Se presenta un estudio sobre la formación de la cultura solidaria en dos cooperativas brasileñas; una de ellas, compuesta por miembros de clases populares; la otra, por personas de clase social media con formación universitaria. Este trabajo trata de evidenciar, teórica y empíricamente, cómo la construcción de un emprendimiento colectivo – democrático y capaz de crear trabajo y riqueza – promueve la construcción de vínculos de solidaridad entre las personas. Esa ayuda mutua crea las bases para el cultivo y desarrollo de una cultura solidaria entre ellos, en nítido contraste con las determinaciones más amplias de la sociedad en que vivimos. PALABRAS CLAVE: Cultura solidaria, solidaridad, cooperativas, alternativa, resistencia. SUMMARY: This study presents the development of solidary culture in two Brazilian cooperatives: one formed by the popular social class and the other by the middle class who have a university degree. This work attemps to show, based on the theoretical and empirical data, how the formation of a collective venture, democratic and capable of work and income, promotes the creation of solidarity among people. This kind of mutual help forms the basis for the development of a cultural solidarity despite the major differences of contrasting societies. KEY WORDS: solidary culture, solidarity, cooperatives, alternative, resistance. * Autor para correspondencia: Dr. Paulo de Salles Oliveira. Professor Livre-Docente do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Av. Prof. Mello Moraes, 1721, Bloco A, Cidade Universitária, Código Postal: 05508-030 – São Paulo (Brasil). E-mail: [email protected] * Paulo de Salles Oliveira © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 36 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 Poned sobre los campos un carbonero, un sabio y un poeta. Veréis cómo el poeta admira y calla, el sabio mira y piensa… Seguramente, el carbonero busca las moras o las setas. Llevados al teatro y sólo el carbonero no bosteza. Quien prefiere lo vivo a lo pintado es el hombre que piensa, canta o sueña. El carbonero tiene llena de fantasías la cabeza. (Antonio Machado) 1.Introducão Este estudo é um desdobramento de pesquisa realizada durante mais de três anos, concluída em 2004 e publicada dois anos depois, (Oliveira, 2006), com duas cooperativas na cidade de São Paulo, Brasil. Uma, aqui chamada Interativa, é formada por membros das classes populares, alguns analfabetos e outros com níveis de instrução primária e secundária. É composta predominantemente por mulheres, dentro de uma faixa etária que oscilava entre 31 e 49 anos de idade, e atua em trabalhos de jardinagem assim como em serviços de limpeza e manutenção de edifícios e residências. A outra, aqui denominada Coopera, é formada por jovens e adultos de classe média, recém-formados em Engenharia, Arquitetura, Ciências Sociais e Administração. Atua na construção civil, em obras que objetivam transformar antigos edifícios comerciais ou industriais em moradias para a população de baixa renda. Trabalham, também, na constituição de grupos solidários junto às classes populares de modo a gerar empreendimentos coletivos autogestionários. Em um contexto de grandes contrastes sociais e amplo desemprego, estas iniciativas visam a oferecer oportunidades de geração de trabalho e renda a esta população. Tais pessoas, ao se organizarem em grupos capazes de constituir um empreendimento conduzido por eles mesmos, acabam fazendo deste trabalho um meio de se reconhecerem e atuarem como cidadãos. A Coopera apresenta formação preponderantemente masculina, dentro de uma faixa etária que ia dos 24 aos 35 anos de idade. Um número variável, girando em torno de 25 pessoas, forma o contingente de sócios de cada uma dessas cooperativas. Ao longo da pesquisa, fiz 22 entrevistas com seus integrantes, buscando também observar e fazer registros de como se realizava seu cotidiano. É importante mencionar que as entidades e personagens aqui estudadas são reais, mas seus nomes são fictícios. Ambas cooperativas fazem parte do universo da economia solidária, conceituada por Singer, um de seus maiores ideólogos no Brasil, como um modo de produção e distribuição alternativo ao capitalismo, criado e recriado Solidariedade cultivada © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 37 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 periodicamente pelos que se encontram (ou temem ficar) marginalizados do mercado de trabalho. (...) A unidade típica da economia solidária é a cooperativa de produção, cujos princípios organizativos são: posse coletiva dos meios de produção pelas pessoas que as utilizam para produzir; gestão democrática da empresa ou por participação direta (quando o número de cooperadores não é demasiado) ou por representação; repartição da renda líquida entre os cooperadores por critérios aprovados após discussões e negociações entre todos; destinação do excedente anual (denominado “sobras”) também por critérios acertados entre todos os cooperadores. (Singer, 2001, p.13) Hoje existem mais de 19 mil empreendimentos solidários em marcha no Brasil, tais como cooperativas, clubes de troca e empresas autogeridas pelos trabalhadores, que neste caso, são também sócios. (Sofia, 2007). Quatro princípios básicos distinguem e diferenciam as iniciativas em economia solidária: cooperação, autogestão, viabilidade econômica e solidariedade. Minhas pesquisas se voltaram tão somente para as duas cooperativas focalizadas, mas creio que todas as que se colocam neste universo economicamente solidário não apenas oferecem uma alternativa à exclusão crescente de trabalhadores do mercado como produzem um modo de sociabilidade, que se afirma como contraponto às formas predominantes de interação entre as pessoas. A partir de ações concretas desenvolvidas por estes cooperantes nasce aquilo que chamo de cultura solidária, expressa por meio de gestos e pensamentos, nos quais a ajuda mútua, o afeto e a consideração ao outro são traços essenciais para auxiliá-los a conviverem cooperativamente. Ainda que não tenha encontrado o termo cultura solidária em literatura alguma, suponho que tanto cultura quando economia solidárias são faces de uma mesma moeda, a operar na formação de uma sociabilidade alternativa. Cultura, na acepção que é aqui mencionada, não se limita ao legado que recebemos das ciências, das artes e das tradições que a humanidade nos deixou. A noção de cultura vai além e nos inclui como seres capazes não apenas de assimilá-la como também de produzí-la (A.Bosi, 1987). Cultura é, assim, vida pensada (...). Em vez de tratar a cultura como soma de coisas desfrutáveis, coisas de consumo, deveríamos pensar a cultura como fruto de um trabalho. Deslocar a idéia de mercadoria a ser exibida para a idéia de trabalho a ser empreendido. (...) O ser humano será culto se ele trabalhar e é a partir do trabalho que se formará a cultura. É o processo e não a aquisição do objeto final que interessa (A. Bosi, 1987, p.38 e 40). 2. A solidariedade como contraponto à sociabilidade individualista Muitos supõem que viver solidariamente somente é possível em pequenas sociedades, entre pessoas que optaram por uma vida distanciada do mundo. Em parte isso se justifica, pois a sociedade, tal qual a conhecemos, se encontra inteiramente marcada por traços exacerbados de individualismo, pela indiferença em relação ao outro, pela competição sem limites e pela suspeita e reserva entre as pessoas. Haroche (2005) faz um reflexão sobre como este Paulo de Salles Oliveira © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 38 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 individualismo contemporâneo pode realçar sentimentos de fragilidade e de humilhação. Observa a pesquisadora que atualmente as pessoas não mais se atém ao consumo de objetos; atiram-se ao consumo de si mesmas. Nasce uma espécie de autodestruição nos relacionamentos, nos quais a figura do outro é transformada em objeto passível de consumo; formam-se, então relações enviezadas, nas quais seres humanos se enredam nas próprias teias que eles mesmos criaram, sem ter como se desvencilhar. Bauman (2004) também se deteve a refletir sobre os impulsos individuais nas interações sociais do mundo atual, assinalando que se mesclam dois momentos sucessivos: o desejo de consumo e o desejo de destruição. O primeiro impulso é o de buscar incessantemente um relacionamento para depois rechaçá-lo, deixando transparecer que aquilo que foi conquistado, exatamente por tê-lo sido, passa em seguida a não mais interessar. Tais procedimentos são o contrário do que ocorre com o amor, que representa a vontade de cultivar com carinho, cuidadosamente, zelando para preservar. Desta forma, a prevalecerem os sentimentos que nascem e se dissipam tão facilmente, a idéia de uma pessoa colaborar com outra parece ficar cada vez mais distante, como se as interações sociais devessem se restringir tão somente a uma espécie de cálculo entre custo e benefício: admite-se até ajudar o outro, mas apenas se o recebimento de algo em troca for realmente compensador. Argyle (1991) se propôs a desenvolver uma alternativa a esta sociabilidade contabilizada. Inicia sua argumentação na região fronteiriça entre Psicologia e Biologia, mostrando que o mundo animal nos fornece inúmeros exemplos de situações em que uns cuidam dos outros, assumindo muitas vezes riscos para proteger crias que não são suas, seja protegendo-as de animal predador seja dividindo o alimento. Kropotkin (1987) também se deteve a observar o que ocorre com os animais em suas reflexões sobre ajuda mútua. Para Argyle (1991), o raciocínio contábil, com base no cálculo entre custo e benefício, não é capaz de explicar a ampla tradição psicossocial de interesse comunitário, com estreitos laços emocionais voltados para o bem-estar dos outros, em que o mais importante é ajudar e não ser beneficiado. No caso de haver algum benefício é exclusivamente aquele que advém da sensação reconfortante de ter feito algo de bom para o outro, fazendo com que a pessoa doadora se sinta em comunhão com outros seres menos afortunados, a exemplo do que sintetiza a poética expressão inglesa “be at one with”, estar unido a alguém ou a uma causa. Outras formas de ajuda ou de compromisso ocorrem na adesão a campanhas de doação de alimentos, de objetos ou de dinheiro aos desprotegidos. Há ainda, aquelas que se manifestam através da dedicação de algumas horas de nossas vidas para auxiliar, animar e consolar pessoas que estão internadas, enfermas ou necessitadas de viver de forma assistida. Argyle (1991) lembra que ajudar comporta esta dimensão altruísta de favorecer às necessidades dos outros; é uma ação que pode ser exercida individualmente e, quando guiada por despreendimento, generosidade e sem intuito de receber recompensa (a não ser a felicidade de poder ajudar), não deixa de ser algo louvável, sensível e extremamente importante. Estas pessoas com seu modo de Solidariedade cultivada © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 39 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 agir oferecem manifestação concreta de que o gesto de se solidarizar não é, efetivamente, uma prática de outro mundo. “O que é a felicidade?” – perguntou-me certa vez um grande amigo. E ele mesmo respondeu: “felicidade é poder ajudar o outro”. Quem assim consegue fazer, despretensiosamente, experimenta através da alegria do outro a condição de ser feliz. Eis uma preciosa lição, para a qual nem todos somos receptivos ou estamos dispostos a por em prática. O ensinamento, entretanto, permanece, à espera de quem o possa torná-lo vivo. Ajudar e cooperar são, portanto, ações próximas, mas distintas. A ajuda tanto pode ser abnegada no afã de atender às necessidades do outro quanto pode comportar, às vezes, um ar de superioridade de quem a pratica, mesmo que discretamente. Esse lado sombrio relativiza o altruísmo daquele que se dispõe a ajudar, mas, para os necessitados, esta digressão chega mesmo a ser irrelevante: Uma coisa é você estar vendo de fora, outra coisa é você estar vendo de dentro, sentindo na pele, o que é muito diferente – mostra Marisa, da Interativa. Dizem (refere-se a alguns estudantes universitários que atuam na formação de cooperativas) que este projeto em que estamos inseridos é para gerar trabalho e renda: não para ser assistencialismo. Eu fico muito doída com isso, aqui dentro (leva a mão ao peito), fico possessa, fico mal mesmo porque eu acho que a visão destas pessoas está – e eles são novinhos, eu os considero como o futuro do país – muito longe dos problemas. Falam: “Porque o nosso projeto não é de assistencialismo; nosso projeto é geração de trabalho e renda”. Puxa! Mas como a pessoa vai trabalhar sem alimento, entendeu? (...) É muito fácil falar quando você tem o prato de comida que você está comendo ao invés daquele infeliz lá, que está longe, quilômetros de sua casa, passando fome. Acho que, pelo menos, temos que ajudar enquanto ele não gerar... (dinheiro para seu sustento). Mas eles estavam batendo o pé e dizendo que não. (...) Caramba! Eu fico doente, doente! (...) é muito fácil falar quando não se está sentindo na pele, quando não se está sentindo dor. Diferentemente da prática de ajudar, a cooperação requer uma dimensão que ultrapassa o âmbito da decisão individual para se situar num plano coletivo, quer dizer, busca ir além da ajuda, de vez que implica partição dos benefícios. Quem fala em cooperar refere-se a mútuo benefício: ajudo e sou ajudado. Assim, a ação não pode realizar-se apenas por vontade individual; a interação com o outro é necessária para que ambos possam se ajudar, reciprocamente. Nem sempre, todavia, a reciprocidade se dá num mesmo tempo e, assim sendo, a ajuda que hoje recebo só mais tarde encontrará ocasião para ser retribuída. Na Coopera, as pessoas ensinam e ajudam seus companheiros, dentro e fora das questões do trabalho, sem se preocupar que o outro possa conhecer mais, diferenciando-os nitidamente de quem vive dentro de empresas, nas quais impera a prática de competir diariamente com os colegas em busca de melhores metas de negócios realizados. Na Interativa, a ajuda mútua os acompanha desde o início, muito penoso, pois algumas vezes tiveram que escolher entre comer um lanche ou pagar o ônibus para comparecerem às reuniões formadoras da cooperativa. Marisa se recorda de quando Renata dividia o alimento em sua Paulo de Salles Oliveira © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 40 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 marmita entre ela e sua colega. Este tipo de ajuda prossegue, sobretudo quando alguém está passando por necessidade; nestas horas, “uma mão segura a mão da outra pessoa”, expressão que Marisa mesmo proferiu, não sem completar que a ajuda às vezes vem de quem menos se espera. Note-se que ela não disse, como é comum em relações sociais interesseiras, que “uma mão lava a outra”. Na solidariedade cultivada, a reciprocidade não nasce de uma relação de negócio e sim de um compromisso ético com o outro. O inesperado surge de repente na forma de orientação, como as conversas que Renata promove, chamando a pessoa num canto para falar coisas que muitas vezes ela não quer ouvir, mas que são necessárias. Não faltam situações em que dividem dúvidas e ensinamentos sobre este ou aquele aspecto da administração da cooperativa. Marisa se dispôs a estudar com Fernanda as atribuições do conselho fiscal, para o qual esta última havia sido eleita. Fernanda se dispôs a ensinar a Sérgio conhecimentos básicos de informática. Heloísa ensinou André a assinar o nome, coisa de que ele não se esquece. No início dos trabalhos de jardinagem, Marilda foi professora de muitos homens, que não tinham habilidade em manejar a enxada. Débora lembra uma pessoa – ela não diz, mas talvez seja Marisa – que a ajudou muito quando esteve doente. Revelou ter mais confiança em sua colega que em seu marido, naqueles instantes sofridos de tratamento de distúrbios mentais. Renata convida a colega para conversar em sua casa à noite com o intuito principal de lhe oferecer o jantar, sensível à situação vivida pela outra. Seria possível dizer, com A. Bosi (1983, p.14) que este grupo mantém interações “(...) livres, abertas, simpáticas aos colegas, aos vizinhos, aos conhecidos e até mesmo aos estranhos, pobres como eles, a quem ‘dará uma mãozinha’ nos momentos difíceis e de quem espera igualmente um gesto de solidariedade ”. Nunca é demais rememorar que existe uma ética na cooperação. Esta questão se coloca uma vez que “en la medida en que toda acción educativa se orienta a un sujeto – y no a un objeto -, los juicios de valor sobre la legitimidad ético-moral de lo que se hace, cómo se hace, para qué y en que condiciones son inevitables” Romero Pérez (2004, p.63). Quem atua cooperativamente acredita que o que faz é bom para os outros e também para si. Nem sempre, porém, os sujeitos escapam às contradições. O mesmo lado sombrio de superioridade, que às vezes incide sobre a ajuda, pode se fazer presente na cooperação quando, por exemplo, agentes formadores de empreendimentos solidários rejeitam sumariamente quaisquer práticas de assistência aos necessitados. A atitude pretensiosa, de quem já conhece a verdade, deixa antever que dificilmente um dia passaram por privação ou, se isto existiu em suas vidas, fizeram questão de não guardar o ensinamento. Marisa, da Interativa, novamente toca o cerne do problema ao contar que: Uma vez encontrei uma estudante e eu estava grávida. E pobre, assim, quando chega pertinho do vale, quando chega pertinho da retirada (nome atribuído à remuneração mensal de uma cooperativa), fica sem um centavo no bolso. Eu passei e ela estava entrando no restaurante da faculdade. Falei: ‘Ah! Compre um lanchinho para mim, que estou com fome’. E ficou. Quando ela passou pelo corredor, eu falei: ‘Você comprou o lanchinho para mim?’ ‘Não porque é assistencialismo’. Falei: ‘ Como é que é?’ Ela Solidariedade cultivada © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 41 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 cansou de entrar na sala (da administração da cooperativa), de tomar café, comer pão, comer bolacha, comer bolo quando a gente trazia... e vem falar para mim que aquilo era assistencialismo só porque era minha barriga e não a dela! Eu rodei a baiana: ‘Vem cá! Escute aqui, quando você entra aqui e toma café eu falo que estou sendo assistencialista com sua pessoa? Quando você come nosso pão, estou dizendo que é assistencialismo? Agora, só porque eu pedi um lanche para você é assistencialismo? Ela ficou tão furiosa que voltou lá, pegou cinco pacotes de bolacha, trouxe e me deu. E eu aceitei. Falei: ‘Olhe, você aprenda porque o inverso também acontece’. Aconteceu muitas vezes de alunos não terem dinheiro para ir embora para casa. E pediram para a gente. Mas, quando é assim, eles não vêem como assistencialismo. E isso me deixa doente! (Fala e bate os pés no chão, seguidamente). Só quando é para a gente!” Estas divergências de opinião deixam transparecer posicionamentos que não se restringem a dar ou não assistência aos necessitados como também indicam uma dimensão de classe. Ocorre ao admitir-se que as cooperativas poderiam ser uma alternativa, enquanto prática geradora de trabalho e renda, mas apenas para os pobres, aqueles a quem o mercado desqualificou. Para outras categorias sociais, a economia solidária seria, no jargão habitualmente utilizado, precarização das relações de mão de obra. Razões de natureza ética mostram a fragilidade de uma tal diferenciação: sob qual justificativa poderia propor a meu semelhante algo que não serve para mim? Ademais, a existência de cooperativas formadas por pessoas de classe média, caso da Coopera, voluntariamente constituídas como opção profissional coerente com as posições pessoais e políticas assumidas por seus membros, também ajuda a desnudar esta maneira de ver as coisas. As únicas cooperativas que poderiam recriar modos de exploração, e de algum modo promover precarização de mão de obra são as falsas cooperativas, ou seja, verdadeiras empresas que se aproveitam de brechas na legislação brasileira para atuarem sob o nome de cooperativas. No Brasil, grande parte destas organizações, sobretudo as maiores, são cooperativas apenas no modo pelo qual são chamadas; não são solidárias, no sentido aqui empregado. São meros disfarces sob o manto da cooperação. 3. Individualidade na coletividade Aderir a uma cooperativa genuína significa não somente encontrar um espaço para trabalhar e obter renda. Implica assumir a democracia interna e a igualdade de direitos e deveres. Nenhum sócio pode ter maior poder que seus companheiros e a luta que travam é por construir um projeto coletivo de trabalho e de vida, em que cresçam solidários entre si. Por isso, sempre que se cria uma organização nestes moldes abre-se, simultaneamente, um espaço para que estas pessoas construam cultura solidária em seu cotidiano, exercitando-se diariamente no cultivo da solidariedade. Ao fazê-lo, se colocam em contraste com as determinações mais amplas da sociedade em que vivemos. Uma prática importante para enfrentar e superar os impasses está na predisposição de conversar, de dialogar, de entender e de se fazer entender. É um momento que Paulo de Salles Oliveira © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 42 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 – se bem aproveitado – pode promover o crescimento da sociabilidade entre os pares. Um irá perceber no outro coisas que, a princípio, sequer poderia imaginar, caso não houvesse aquele encontro para esclarecimento de idéias e de práticas. Ambas as cooperativas preservam o hábito de chamar o colega num canto para conversar e passar limpo os pontos de divergência. Só excepcionalmente, este foco de conflito se generaliza nas assembléias. As cooperativas de que aqui se trata, por serem democráticas e autogestionárias, são por excelência o palco do diálogo, da argumentação e da busca do consenso. Por isso, pode-se imaginá-las como fontes de solidariedade, matrizes de cultura solidária. As pessoas cultivam solidariedade se colocando como iguais nos direitos, diferentes nos traços individuais e desejosas de construírem um caminho em comum com os outros; dispostas, portanto, a muitas conversas até que um entendimento seja possível - de preferência sem que este ou aquele sócio se sinta diminuído. Claro que isto é difícil e, em certas ocasiões, quase impossível de ser obtido, pois, ainda que os pactos sejam celebrados com base em argumentos sólidos, explicitando critérios para fundamentar as escolhas, sempre sobra a possibilidade de racionalmente estarem de acordo, mas emocionalmente não aceitarem aquilo que antes lhes parecia tão justo e razoável. Não raro, este movimento contraditório de concordar não concordando acaba por provocar idas e vindas, algumas das quais inconscientes aos sujeitos. Não obstante todos estes obstáculos para a busca de um entendimento coletivo, pode-se dizer que esta é a meta dos cooperantes aqui estudados. Para se comunicar – explica Konder (2000, p.15) – os indivíduos precisam ter algo em comum (algo de universalizável). Contudo, para se enriquecer humanamente, assimilando algo das experiências vividas por outros, é essencial que os indivíduos sejam diferentes, que sejam postos diante da alteridade, que é sempre perturbadora, mas os incita a não ficar se repetindo, quer dizer, os provoca no sentido de fazê-los sair da mesmice. Nas duas cooperativas esta proposta está dada, ainda que nem sempre todos a possam divisar com nitidez. A construção de uma cultura solidária é, ao mesmo tempo, um projeto e um processo e, como tal, não se desdobra da mesma maneira entre todas as pessoas envolvidas. Nem todos, por exemplo, se apossaram da condição de que, como cooperantes, são sócios; não são empregados. Podem e devem opinar, discutir apresentando argumentos, discernindo ao longo da vivência em comum que divergir de alguém não significar brigar ou cortar relações, mas aprender a conviver na alteridade. Aos sócios cabe, também, alertar os colegas para os problemas encontrados, ajudar os mais tímidos e desacostumados a participar em assembléias, aventar soluções para os problemas percebidos na cooperativa, assumir responsabilidades, antecipar-se aos problemas, participando ativamente do empreendimento. Quando conseguem este grau de adesão e atuação, podem inversamente perceberem-se inacabados (Lapassade, 1983). É o rico momento de distinguir na imagem do companheiro a possibilidade recíproca de crescimento e mudança. Vera narra que, na Coopera, esta abertura para você participar faz com que você mesma veja seu trabalho como algo importante. Não é como na empresa, em que eu vou pegar sua idéia e adeus. Isso me Solidariedade cultivada © SECRETARIADO DE PUBLICACIONES UNIVERSIDAD DE SEVILLA 43 Cuestiones Pedagógicas, 18, 2006/2007, pp 35-46 motivou a trabalhar (...) me incentivou a voltar a fazer faculdade, a voltar a estudar (Administração). Foi, em verdade, um estímulo para crescer. Trabalhar com a alteridade é viver a aventura do inusitado, sempre nos batendo à porta em ocasiões em que menos se espera. Aldo, também da Coopera, fala da necessidade de lidar com pessoas bem diferentes entre si, a exemplo do sugere Konder: “Conviver com os ultra-organizados e com os que são distraídos, como o colega que marcou reunião às nove e chegou às onze – reunião que ele próprio havia marcado!” Desrespeito para com os outros? Não é possível ser categórico neste caso. Trata-se de alguém que precisa, de fato, organizar-se melhor, mas, o próprio Aldo revela que, quando precisaram de um fiador para alugar a casa em que hoje estão, foi justamente aquele, distraído, que apresentou seus familiares. “Os pais dele” – arremata Aldo – “nunca viram a gente!”. No entanto, foram os primeiros... E bem nesta hora, em que quase sempre é muito difícil encontrar alguém que se disponha a confiar, correr o risco, colaborar. Esta pessoa distraída, por sua vez, procura mudar, crescer no contato com seus colegas: No início, tive muitos atritos. Eu estava muito vagabundo... Não é que eu quisesse estar nessa de vagabundo, mas é que eu estava fora de ritmo. Não estava acostumado com o ritmo disso aqui. Estava confuso... Estava acostumado com o ritmo do movimento estudantil, da universidade, em que as coisas se dão de forma muito diferente. No início, demorei a entender direito como é que funciona a coisa. Então, a individualidade, que assinala os traços peculiares de cada qual, esta não pode nem deve ser sufocada ao se construir solidariedade. O que precisa ser inibido são as formas mais pronunciadas de individualismo, presentes em pessoas muito mais voltadas para si que para os outros, pois reproduzem procedimentos que não têm lugar em um universo culturalmente solidário. O mesmo vale para as práticas autoritárias. Não se trata de dizer que atitudes mais individualistas ou mesmo autoritárias não ocorram nestas cooperativas, mas a própria atmosfera reinante, além da percepção individual e coletiva ali desenvolvidas, servem para atenuar e reduzir ao máximo tanto o egoísmo quanto manifestações mais ríspidas. Não é tarefa das mais fáceis conciliar o exercício da individualidade – que, repito, não pode nem deve ser asfixiada – com a necessidade de conter exageros, sejam os de natureza narcisística sejam os de feição autoritária. 4. A mediação da amizade no interior da competição em organizações solidárias Parte dos defensores da economia solidária opõe cooperação e competição. Os chamados jogos cooperativos, dinâmicas de grupo criadas para divulgar práticas de cooperação, também referendam esta subdivisão, acentuando a polaridade e tentando valorizar o lado cooperativo. De minha parte, desejo estar longe de qualquer polaridade porque em geral este tipo de raciocínio opera uma grande simplificação em cenários sociais