scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico em artes cénicas

Porteiro, Tiago Manuel Monteiro Mora

Abstract

O presente artigo alicerça-se numa experiência de formação em que o autor (ele próprio pedagogo e artista há mais de 20 anos) esteve envolvido de outubro de 2016 a maio de 2017. SITI-Conservatory (NY-EUA) é um programa de formação e intercâmbio artístico promovido pela companhia americana de artes performativas SITI. O relato contextualiza esta proposta de formação, ao mesmo tempo que expõe as razões pelas quais o autor-pedagogo decide entrar nesta aventura. Num gesto comparativo, coloca-se em diálogo as expectativas iniciais e a realidade concreta dessa vivência. O tom mais ajustado que se encontrou para realizar esta análise crítica foi o de testemunho. Estamos, pois, perante um contributo que não é senão um ponto de vista subjetivo que espelha a história e a experiência pessoal do seu autor

Full text

Um pedagogo em viagem SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico em artes cénicas A traveling pedagogue SITI-Conservatory – artistic training and exchange in the performing arts Tiago Porteiro* RESUMO O presente artigo alicerça-se numa experiência de formação em que o autor (ele próprio pedagogo e artista há mais de 20 anos) esteve envolvido de outubro de 2016 a maio de 2017. SITI-Conservatory (NY-EUA) é um programa de formação e intercâmbio artístico promovido pela companhia americana de artes performativas SITI. O relato contextualiza esta proposta de formação, ao mesmo tempo que expõe as razões pelas quais o autor- -pedagogo decide entrar nessa aventura. Num gesto comparativo, coloca-se em diálogo as expectativas iniciais e a realidade concreta dessa vivência. O tom mais ajustado que se encontrou para realizar esta análise crítica foi o de testemunho. Estamos, pois, perante um contributo que não é senão um ponto de vista subjetivo que espelha a história e a experiência pessoal do seu autor. Palavras-chave: Formação de formadores. Escola-companhia. SITI-Conservatory. Testemunho. Pedagogo. ABSTRACT The present article is based on a training experience in which the author (himself a teacher and artist for more than 20 years) was involved from October 2016 to May 2017. SITI-Conservatory (NY-USA) is a training program and artistic exchange promoted by the American company of DOI: 10.1590/0104-4060.56083 * Universidade do Minho, Licenciatura em Teatro - Centro de Estudos Humanísticos/Grupo de Investigação em Estudos de Performance. Braga, Portugal. E-mail: [email protected]. http://orcid.org/0000-0001-5052-9787 Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 21 performing arts SITI. The narrative contextualizes this experience, at the same time as it sets out the reasons why the author-teacher decided to embark on this adventure. In a comparative gesture, the initial expectations and the concrete reality of this experience are put into dialogue with each other. The most appropriate tone discovered to perform this critical analysis was the one of testimony. It is, therefore, a contribution that represents only a subjective point of view that mirrors the history and the personal experience of its author. Keywords: Training of trainers. School-company. SITI-Conservatory. Testimony. Teacher. Introdução Este ‘relato de um pedagogo em viagem’ apresenta o percurso por mim trilhado antes e depois de ter frequentado o programa SITI-Conservatory, entre outubro de 2016 e maio de 2017. Sendo um testemunho pessoal, oferece-me a liberdade de usar conceitos e termos, nomeadamente das Ciências da Educação, sem atender a definições contextualizadas das normas exigidas pelo rigor académico. A experiência passa-se na cidade de Nova Iorque (doravante NY), repleta de ilhas e de submundos, tal como o universo da companhia que me acolheu: um ensemble de artistas, cada um naturalmente com as suas singularidades. O primeiro passo que dei, antes de tomar a decisão de participar dessa formação e intercâmbio artístico, foi o de conhecer a história e a “família” artística onde essa companhia promotora do programa – a SITI – se enquadra. E isto porque “todo o ensinamento carrega em si um projeto teatral”1, como nos diz Banu (BANU, 2000, p. 92) e, não havendo, portanto, programa de formação que seja “neutro”. Conhecer o terreno As iniciais do nome da companhia – SITI – têm o seguinte significado: (S)aratoga corresponde ao nome da cidade, no Estado de NY, que acolheu a fundação da companhia e onde esta continua a realizar, ainda hoje, algumas das suas atividades; (I)nternational define a escala geográfica e o intercâmbio 1 Todas as citações em francês ou inglês foram traduzidas pelo autor deste texto. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 201822 cultural que se pretendia alcançar; (T)heater especifica a linguagem artística da intervenção; e (I)nstitute encerra a vertente de investigação, que visa aprofundar a procura por um outro teatro e por um outro ator. A companhia foi fundada em 1992 e liderada artisticamente por Tadashi Suzuki (1939-) e Anne Bogart (1951-) tendo, cada um deles, percursos já anteriormente firmados. O primeiro é um reconhecido encenador de origem japonesa que dirige, no seu país, a Suzuki Company of Toga (SCOT)2 e que, naquele período, procurava nos EUA um parceiro para partilhar e enriquecer a sua perspetiva, resultante do cruzamento dos ensinamentos das artes performativas tradicionais do Japão (essencialmente Noh e Kabuki) com elementos das correntes contemporâneas que emergiram naquele país pouco tempo depois da II Guerra Mundial. O treino que criou – método Suzuki – é a dimensão mundialmente mais reconhecida. Por sua vez, Anne Bogart, americana, mulher de constantes intercâmbios culturais, começou a afirmar a sua visão singular do teatro e da performance no início dos anos 80 e numa NY efervescente em dinâmicas artísticas contemporâneas. Scot Cummings define desta maneira o seu trabalho: “ela dirige peças com a mentalidade de uma coreógrafa, desenhando o movimento do corpo no tempo e no espaço; tudo é pautado pelo ritmo, pela imagem visual e outros princípios formais de composição” (CUMMINGS, 2006, p. 6). Compondo e colando fragmentos de diferentes “materiais”, Bogart cria a sua estética de narrativas disruptivas. Antes de mais nada, apresenta os componentes concretos da materialidade cénica (espaço, tempo, forma, …), e a formalidade visual dos corpos que põe em cena, primando pela intensidade da presença, pela concentração e pelo detalhe formal. Na primeira fase de exploração, usando metodologias de divising e site-specific, Bogart procura novas estratégias para criar uma outra relação com o público. A sua vertente experimental a conduz à pedagogia, e é nesse contexto, na Universidade de Nova Iorque (New York University - NYU), que conhece Mary Overlie, a criadora dos Viewpoints3, bailarina envolvida na corrente da dança pós-moderna americana. Extrai dessa abordagem a sua própria perspetiva, simultaneamente de treino e de composição cénica, e são esses os “instrumentos” que sugerem juntar ao treino proposto por T. Suzuki. A SITI cria o método Suzuki + Viewpoints, que é, atualmente, a “imagem de marca” dessa companhia norte-americana de vanguarda. Decididamente, não estaremos no território do teatro dito “psicológico”, nem no denominado “comercial”, mas antes no universo do contemporâneo e do experimental. Este projeto artístico necessita de um ator com um determinado tipo de competências, 2 http://www.scot-suzukicompany.com 3 http://sixviewpoints.com PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 23 e tanto Bogart como Suzuki acreditam que será por intermédio de um trabalho específico e preliminar de treino, intenso e diário, que esse ator vai adquirir as aptidões de base que lhe são exigidas. Entre outras, destacam-se: qualidade de presença ativa e intensa; acutilante consciência do espaço e do tempo; grande capacidade de concentração e de reatividade; consciência minuciosa dos movimentos (jogo entre equilíbrio e desequilíbrio/imobilidade e ação) na sua relação com o centro de gravidade; disciplina formal que lhe permita reproduzir formas e gestos com detalhe. O encontro e a “empatia” desses dois reformadores do teatro poderá prender-se com o fato de no “Ocidente nenhum treino [ser] unanimemente adotado, definido, rigoroso, ao contrário do que acontece no Oriente, onde se transmite formas complexas e codificadas por meio das quais o texto, o canto, a gestualidade e o movimento estão intimamente interligados”, devendo essas formas “ser memorizadas com precisão” (PICON-VALLIN, 2000, p. 5). Aquilo de que Bogart está efetivamente à procura é de vias concretas para poder combinar essas duas realidades culturais. Nos processos de acting, esse ator estará, enfim, bem mais próximo da “artificialidade consciente” do que do registo da identificação “naturalista” – o mesmo será dizer que ele fará mais apelo às técnicas “somatocêntricas”, baseadas na fisicalidade, do que às “psicocêntricas”, que privilegiam a convocação do aparelho psíquico, a modulação dos estados afetivos (PRADIER, 2000, p. 72). A mestria técnica que os dois diretores ambicionam que os seus atores atinjam desenvolve-se no seio de um trabalho em grupo, mas, nesse contexto, cada ator terá de encontrar a sua própria autonomia criativa, pois, no passo seguinte, nos processos de criação, propriamente ditos, ser-lhes-á pedido que contribuam ativamente. Parafraseando o título do livro de Matteo Bonfitto (2006), a SITI procura fundar um ator-compositor. Os artistas que deram corpo a essa aventura eram maioritariamente americanos, uns com anterior conhecimento e prática em Suzuki, e outros, poucos, com um percurso de experimentação em Viewpoints. Nos primeiros anos do projeto, os encontros foram regulares, mas não contínuos, e tiveram sobretudo lugar em Skidemor, em especial durante os períodos de verão. Durante esse período, paralelamente à prática do treino intenso, dos exercícios de composição e dos projetos de criação a companhia orientava um curso intensivo para jovens artistas de todo o mundo4. Alguns anos mais tarde, a SITI instala-se definitivamente na cidade de NY e, enquanto grupo, começa a realizar de forma mais regular tanto espetáculos como outros programas de formação. Suzuki segue à distância todo este processo e entre a SITI e a SCOT acontecem, com alguma 4 Curso com a duração de 5 semanas que até hoje é organizado e que reúne todos os anos cerca de 60 artistas de todo o mundo. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 201824 regularidade, processos conjuntos de experimentação e criação, ora no Japão, ora nos EUA. Passo a passo, a companhia adquire notoriedade. Nesse percurso, que leva hoje já um quarto de século (1992-2017), surge, há sete anos atrás, a ideia de criar uma formação mais longa: o SITI-Conservatory. A decisão de partir Nos materiais de divulgação da SITI encontrei as grandes linhas que estruturam o programa SITI-Conservatory5: – estabelecer vasos comunicantes com a atividade artística da companhia; – articular as valências de formação, criação e intercâmbio artístico internacional; – público-alvo: atores e encenadores com obra artística iniciada; – trabalho essencialmente prático e intenso (duração de 8 meses/média de 8h diárias); – organização das tarefas em áreas disciplinares. A classificação proposta por Josette Féral (2003) sobre diferentes contextos de formação em artes cénicas ajudou-me a situar este programa: escolas institucionais; escolas paralelas e particulares; escolas ligadas a companhias; laboratórios de investigação; universidades; e formações que se constroem com base na escolha voluntária de diferentes cursos breves, ateliês, oficinas. O programa a que equacionava candidatar-me ficaria algures na interceção de dois contextos: a escola ligada a uma companhia e os laboratórios de investigação. Enquanto a componente do primeiro estaria na atitude e na vontade expressa da SITI de partilhar e transmitir toda a experiência acumulada, a componente laboratorial poderia ser encontrada no espaço aberto de experimentação que o programa propõe aos participantes. Com um percurso com mais de 20 anos de prática pedagógica6, que razões terei eu encontrado para integrar o SITI-Conservatory? Vejamos os detalhes: – combater o lado pejorativo da institucionalização ˗ alimentar a minha atividade pedagógica com a minha intervenção artística é um dos instrumentos que utilizo para contornar esta situação, a que, algumas vezes, 5 www.siti.org 6 De 1996 a 2013 no Departamento de Artes Cénicas da Universidade de Évora e de 2014 até ao momento no curso em Teatro da Universidade do Minho. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 25 me sinto sujeito. Por uma ou outra razão, encontrava-me numa fase em que essa “força negativa” da instituição estava presente de uma forma mais premente, e em que também a dialética entre a prática artística e a pedagógica se tinha quebrado. Interromper a atividade pedagógica por um ano letivo7 fez parte da solução encontrada: o performer deveria sobrepor-se, durante este período, ao pedagogo. No universo do teatro nada disto é estranho, pois ter de recomeçar continuamente é parte constituinte da própria linguagem, como bem nos diz a conhecida frase de Beckett: “Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”, ou mesmo a também conhecida frase de Meyerhold : “Na arte, em cada nova etapa sentimo-nos sempre aprendiz”. E eu, deste lado, direi: perante um novo projeto, perante um novo grupo, tudo terá de ser novamente posto em questão como se da primeira vez se tratasse. Partilho, de igual modo, o facto de a “aula de teatro é [ser] um espaço onde, em tempo real, se joga com a potência dos afetos” (PICON-VALLIN, 2000, p. 47), e daí que momentos de interregno como este, de que senti necessidade, sejam fundamentais para que a “regeneração” possa acontecer; – expandir conhecimentos ˗ nos últimos três anos, confrontei-me com mudanças no contexto educativo onde atuava, e esse novo e desejado quadro profissional demandou-me novas e específicas competências, nomeadamente na área da interpretação. Expandir conhecimentos, aprofundá-los e, nesse campo, exercitá-los impôs-se-me. Faço parte daquele núcleo de professores que antes de partilhar não pode deixar de experimentar. Foi nesse contexto que prestei mais atenção aos objetivos do SITI-Conservatory, nomeadamente: aprofundar, através de uma prática contínua e diária, competências na técnica de treino e de composição, Suzuki e Viewpoints, e desenvolver processos de criação num espaço aberto de experimentação. Considerei, portanto, que estaria perante um programa que poderia ajudar-me a colmatar as necessidades pedagógicas do momento; – experiências no seio de um grupo intercultural ˗ o facto de o Conservatory enfatizar o objetivo de criar um ensemble internacional de trabalho foi outro dos aspetos que reteve a minha atenção. Depreendi, das entrelinhas, que, apesar de o trabalho em grupo ser considerado o “motor” fundamental das aprendizagens, isso não implicaria que não houvesse espaço para a “voz” singular de cada um. Sendo, para mim, a arte teatral iminentemente uma arte coletiva, este “ingrediente” também 7 Através do pedido de licença sem vencimento pelo período de um ano. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 201826 teve o seu eco. Além disso, ter a oportunidade de poder confrontar as minhas referências artísticas e culturais com outras visões do mundo e do teatro – e, por conseguinte, da formação – seria duplamente enriquecedor, mais não seja porque, em meu entender, formar um artista é, antes de mais, uma aventura humana, que não se separa das aprendizagens profissionais. Enfim, não sendo o SITI-Conservatory um programa de formação inicial, era expectável que os participantes que fosse encontrar tivessem já uma certa maturidade e um certo percurso artístico, se não firmado, ao menos iniciado; – apreender a articulação entre as partes ˗ participar num programa promovido por uma companhia em atividade permitir-me-ia descobrir, in vivo e em ação, as relações que se estabelecem entre técnicas, processos de criação, visão estética, métodos, pedagogia, ao que se acrescenta a possibilidade de poder vir a estar imerso na cultura, na atmosfera da cidade e em contato direto com os membros fundadores da SITI. De facto, a existência de companhias de teatro de referência que tenham interesse e credibilidade pedagógica para suportar um programa de formação com essas caraterísticas é uma realidade cada vez mais rara, e, portanto, no papel de pedagogo-artista-investigador, poder fazer este trabalho de apreensão de um todo seria, para mim, uma oportunidade. No universo do teatro, não deverá qualquer reflexão crítica sobre dispositivos de educação ambicionar tornar visíveis essas inter-relações? Atendendo a tudo o que aqui ficou expresso, estava perante a possibilidade de realizar uma “reciclagem”, ou formação de formadores, como é hábito ser identificada essa circunstância em que um pedagogo decide mergulhar num outro contexto, de forma mais ou menos temporária, para expandir e/ou interrogar, tanto os teus conhecimentos, como a sua forma usual de atuar. Esse hiato pode ainda, tão-somente, expressar uma necessidade de distância temporária de forma a esse pedagogo poder assumir um novo papel durante um determinado período tempo. Em mente, terá a promessa de que dessa interrupção possa nascer uma regeneração. A minha experiência no coletivo Que diálogo poderei hoje estabelecer entre as expectativas iniciais que criei para a frequência deste programa (construídas essencialmente com base no enunciado de divulgação do SITI-Conservatory) e a realidade concreta que vivi? PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 27 Em virtude do curto intervalo de tempo que me separa do final dessa experiência – os mistérios da memória criam as suas dificuldades e as aprendizagens nem sempre se expressam de forma clara –, esse balanço não pode ser senão provisório. O que parece certo é que o tempo seja um fator importante para dissecar de forma mais nítida o que em nós se integra. Assim se espera. Dirigindo a atenção para os elementos focados ao longo desta reflexão, a pergunta com que tive de me confrontar a partir do momento em que regressei foi a seguinte: reconheces em ti, e desde já, mudanças significativas? Considerando um privilégio poder dedicar-me à experimentação teatral de forma contínua, esta minha experiência não poderia ser senão regeneradora. Após o seu término, o que foi, para mim, mais “palpável” – uma impressão corpórea de “primeiro grau”, digamos – foi a sensação de “força”, “enraizamento” e “presença” que, no seu conjunto, mobilizam uma consciência de vitalidade existencial. E isto era o resultado de um trabalho que tinha realizado e que se misturava, paradoxalmente, com um cansaço físico considerável. Tudo foi intenso e exigente, desde a carga horária proposta pelo programa até à velocidade que a própria cidade imprime; e sempre houve escassos momentos para a integração. Quatro meses passados dessa experiência reconheço hoje que uma parte daquela sensação de “vitalidade”, a que antes me referi, se vai diluindo, aos poucos. Então, o que fica e como se inscreve esta experiência? Direi que, atualmente, a memória que reside em mim alimenta, antes de mais, o desejo e o impulso para retomar. Mas passemos do geral ao particular: Contacto com o espaço Coordenadas: Manhattan, muito perto de um dos corações do comércio e do divertimento da cidade, a Broadway. Edifício: grande arranha-céus onde seguramente mais de 3000 pessoas trabalhavam. SITI-Company: situa-se ao fundo do corredor num 3.º andar ocupado por escritórios e alguns estúdios de outras companhias que pertenciam à mesma aliança8. Recursos: espaços diminutos (bem diferente da imagem exposta na divulgação); uma sala de trabalho não muito grande (cerca de 65m2), um estúdio ainda mais pequeno (20m2), dois curtos foyers para alimentação e estar, e uma sala onde funcionava o secretariado e a direção e que os outros membros da companhia utilizavam. 8 http://www.art-newyork.org PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 201828 O que significa uma companhia mundialmente reconhecida, como a SITI, funcionar nessas condições? Como seria possível todos trabalharmos com aquelas limitações? Se fizesse apelo às minhas referências, diria que aqueles constrangimentos eram inaceitáveis, mas o certo é que o trabalho foi sendo realizado. Tudo é relativo, diziam-me, e para NY não era nada mau! Sim, reclamei, e sim, aceitei, porque estava aberto a descobrir outras formas de trabalhar. Que teatro seria aquele que se produzia naquelas condições? O que seria diferente se houvesse outras condições de espaço? Questões para podermos refletir e ponderar. O Grupo e sua composição Número: 18 pessoas, de 7 nacionalidades diferentes. Características: a maioria situava-se na casa dos 20-30 anos de idade, sendo eu o mais velho. Grau ou nível: grande parte dos colegas acabava de terminar o nível inicial da formação profissional e, portanto, não tinham propriamente percurso artístico iniciado. Que critérios teriam usado na seleção? Subliminarmente, acabei por perceber que escolher candidatos não tinha sido possível: temos de saber ajustar o que ambicionamos para o Conservatory com as necessidades e as expectativas concretas dos participantes que nos chegam – ouvi eu dizer. Feito o primeiro reconhecimento, descubro que aquilo que me diferenciava da maior parte do grupo era visível, mas, se ao nível das relações humanas essas diferenças se foram tornando mais fáceis de gerir ao longo do tempo, no domínio das cumplicidades artísticas tudo se revelou sempre mais complexo. As diferenças, neste domínio, expressaram-se sobretudo nos momentos em que começámos, “sem rede” e sem tempo, a desenvolver, em pequenos grupos, exercícios de criação. Se ao menos esse espaço colaborativo assentasse numa linguagem comum… Mas nem isso existia, pois alguns dos colegas chegaram sem nada conhecer das “ferramentas” de base que a SITI tem para partilhar. Criar um ensemble é um importante objetivo para a SITI, mas se para atingi-lo se ultrapassam as etapas necessárias, então deverá ter-se muito mais atenção e cuidado. Caso contrário, o conflito pode emergir e as diferenças de cada um podem não ser respeitadas. E não é contra tudo isto que o teatro também luta?... Ao longo do tempo, fomos, enquanto grupo, encontrando formas de trabalhar em conjunto, o que significa também que cada um de nós foi criando, por afinidades, os seus próprios grupos. Assim verificamos como, de facto, as descobertas e as interrogações sobre o ser e estar no mundo se ativam quando nos integramos como membros de um grupo. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 29 portamento de “submissão” que se instalou, comecei a aperceber-me de subtis tendências para controlar qualquer tipo de pensamento divergente que por ali pudesse despontar. Bem sei que não será sempre fácil de contrabalançar uma atitude de rigor, de exigência, de desafio e mesmo de pressão que uma prática pode suscitar, com uma atitude de abertura, diálogo e partilha que a formação artística requer, mas, em meu entender, nada justifica a falta de espaços onde toda a prática fosse contextualizada e colocada em perspetiva. Essa ausência terá contribuído para a emergência dessa atitude que pude constatar no seio do Conservatory. Além disso, comecei também a descobrir que muitos dos que ali estavam tinham, de uma forma ou de outra, uma leve esperança de poderem vir a integrar, no futuro, algum projeto da companhia, ou, pelo menos, de ficarem a fazer parte dos “amigos” da companhia e para os quais outras portas profissionais se podem abrir. Hoje a SITI procura criar redes de contactos espalhadas pelo mundo inteiro; é esta uma das estratégias que encontra para poder continuar a difundir a sua proposta pedagógica. Se o objetivo for o de partilhar as suas “ferramentas” e, ao mesmo tempo, cuidar e zelar eticamente pela autonomia e o pensamento crítico de cada um dos artistas, não vejo nada de pejorativo nessa ambição, pois considero, efetivamente, que são portadores de um conhecimento e de uma qualidade pedagógica que podem ser muito inspiradores por esse mundo inteiro. Caso contrário, caberá a cada um saber encontrar a “boa” distância para não se deixar cair, justamente, na utilização da “receita” pré-fabricada que recebe. É esse o desafio que tenho entre mãos agora que retomo a minha atividade pedagógica. Ver-se-á, no futuro, como é que esta “reciclagem” alimentou o meu eu performer. Uma última nota, e que nunca será demais salientar: a leitura que aqui deixo pode, em muitos pontos, não coincidir com as de um número significativo dos meus colegas. Cada um de nós terá tido uma experiência diferente de acordo com as suas expectativas, estádio, percurso, cultura, desejos e sensibilidade artística. Para mim, foi uma experiência seguramente enriquecedora, mas também diferente daquela que tinha previsto. Mas não será sempre assim?... REFERÊNCIAS Banu, G.; Vitez, A. (2000). l´École ou le lieu de l’origine. In: Alternatives Théâtrales 70-71. In: Banu, G. (Dir.) Les penseurs de l’enseignement. De Grotowski à Gabily. Bruxelles, p. 91-94. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 201836 Bonfitto, M. (2006). O ator compositor. 2. ed. São Paulo: Editora Perspectiva S.A. Climenhaga, R. (2010). Anne Bogart and SITI Company: creating the moment. In: Hodge, A. (Ed.). Actor Training. 2. ed. London and New York. Routledge. Cummings, S. T. (2006). Remaking American Theatre: Charles Mee, Anne Gogart and the SITI Company. New York: Cambridge University Press. Féral, J. (2003). Introduction. L’école: un obstacle nécessaire. In: Féral, J. (Dir.). L’école du Jeu. Former ou transmettre… les chemins de l’enseignement théâtral. Saint-Jean-deVédas. Entretemps ed., p. 11-25. Oida, Y. (2000). La stratégie du ninja. In: Muller, C. (Coord.). Le training de l’acteur. Arles: Actes Sud-Papiers, p. 115-127. Overly, M. (2016). Standing in Space. The six Viewpoints Theory & Pratice. Montana. Fallon Presse. Picon-Vallin, B. (2000). L’acteur à l’exercice: de quelques expériences remarquables. In: Muller, C. (Coord.). Le training de l’acteur. Arles: Actes Sud-Papiers, p. 31-56. Picon-Vallin, B. (2000). Teize questions pour une école. In : Banu, G. (Dir.). Les penseurs de l’enseignement. De Grotowski à Gabily. Bruxelles, p. 45-48. Pradier, J. M. (2000). Eugénio Barba: l’exercice invisible. In : Muller, C. (Coord.). Le training de l’acteur. Arles: Actes Sud-Papiers, p. 57-78. Texto recebido em 29 de outubro de 2017. Texto aprovado em 31 de outubro de 2017. PORTEIRO, T. Um pedagogo em viagem. SITI-Conservatory – formação e intercâmbio artístico... Educar em Revista, Curitiba, Brasil, v. 34, n. 67, p. 21-37, jan./fev. 2018 37