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O lugar da poesia na infância: Projeto Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem

Machado, Rosiane Pinto

Abstract

Nesta presente “artesania” (tese) compartilhamos os achados analisados no Projeto Crianceiras, sobre o lugar da poesia na infância – o fio condutor das observações são as interações no território do Projeto Crianceiras e suas contribuições ao pulsar da poesia nas experiências poética e estética na/para circulação da produção literária – em destaque a poesia de Manoel de Barros (1916-2014). Assim, recorremos ao aporte teórico no campo da poesia (PAZ, 2012; SIMÉON, 2015; JEAN, 2002; AZEVEDO; CHAGAS; BAZZO, 2018; DEBUS, 2016; DEBUS, BAZZO; BORTOLOTTO, 2018), no campo da literatura, leitura, voz e performance (ZUMTHOR, 2005; CANDIDO, 2011), nos pressupostos do dialogismo (BAKHTIN, 2011, 2017a, 2017b; VOLÓCHINOV, 2013, 2019), e da Teoria Histórico Cultural (VIGOTSKI, 2009, 2004b, 1999). Nesta aventura pela busca de conhecer, compreender e enxergar o nosso objeto vivo, partimos de uma investigação que articula o todo orgânico do Projeto Crianceiras Poesias de Manoel de Barros musicadas por Márcio De Camillo, qual seja: Álbum Crianceiras, Projeto Poesia na Prática e o Espetáculo Cênico Musical. Os enunciados concretos que nos ajudaram a compor coletivamente esta reflexão foram compreendidos no grande tempo do Projeto Crianceiras, pelo viés das relações dialógicas, sociais e culturais. De modo particular buscamos conhecer a produção, circulação do Projeto Crianceiras (2012-2022) e sua recepção. Nesta arquitetônica, aliada ao cerne das ciências humanas, elegemos a categoria de análise dialógica do discurso (Bakhtin e seu Círculo) e os pesquisadores da contemporaneidade que se debruçam sobre essa teoria/conceitos (AMORIM, 2004; MIOTELLO, 2012, 2013, 2018; PONZIO; MIOTELLO, 2019; GERALDI, 2012, 2019; FARACO, 2009; GIOVANI, 2017, BORTOLOTTO; FIAD, 2017). Desse modo, o corpus discursivo constituiu-se das estratégias da coleta de dados: entrevistas com roteiro semiestruturado, registro das observações nas Formações no Projeto Poesia na Prática (Formação Literária) e Projeto Escola (Espetáculo Cênico Musical). O objetivo central proposto por esta pesquisa foi o de escutar as vozes desse Outro em suas ações, de modo particular no ensaio de percepções aproximativas do lugar que a poesia ocupa nas sucessivas manifestações/expressões artísticas do Projeto (poemas musicados, espetáculo cênico musical e formação literária) articuladas a infância. Entrelaçamos, o referencial teórico elegido, as vozes presentes nesse percurso. cotejando com a voz de Manoel de Barros que nesta investigação constituem um dizer sobre a linguagem poética e o abraçar da poesia no movimento da vida, na relação com a infância e com o ser criança. A participação efetiva dos/das envolvidos/as, assim como os dados obtidos no campo desta pesquisa mediante a escuta responsivo-ativa aos enunciados foram se constituindo, e cada elo/enunciação, dentro dessa cadeia discursiva, foi compondo a construção deste trabalho. Os resultados revelam ser o Projeto Crianceiras uma ponte entre a poesia e a infância, uma grande possibilidade para que professoras e professores reconheçam e valorizem a importância da poesia na educação estética e na formação humana, bem como observamos ser o Projeto Crianceiras um brincar poético que aviva o encontro com o poeta e sua obra no evento do existir pela poesia, pela música e pela arte.

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1 O lugar da poesia na infância: Projeto Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem O lugar da poesia na infância: Projeto Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem 2 i Universidade do Minho Instituto de Educação Rosiane Pinto Machado O Lugar da poesia na infância: Projeto Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem Tese de Doutoramento Doutoramento em Estudos da Criança Especialidade em Infância, Cultura e Sociedade Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Fernando José Fraga de Azevedo e da Professora Doutora Eliane Santana Dias Debus março 2023 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC By-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Aos fios de comunhão estabelecidos no diálogo com Márcio De Camillo, Izabella Maggi, Cibelle Rosa e Luiz André Cherubini, que gentilmente entrelaçaram suas vozes no enredo desta pesquisa, e que certamente em muito corroboram na arquitetônica deste trabalho. À artista Martha Barros, cujas iluminuras romperam as barreiras do vazio e do silêncio, ao longo desta trajetória. Ao Professor Fernando Azevedo, pela acolhida e acompanhamento na caminhada acadêmica. À professora Eliane Debus, pela confiança, e gentileza no aceite de orientar um trabalho numa fase tardia, cujo percurso foi marcado pelas intempéries de um tempo grotesco. À Universidade do Minho – Instituto de Educação, muito especialmente a todos/as os/as docentes que contribuíram com este estudo. Aos colegas de curso pela solidariedade e incontáveis respostas às dúvidas que surgiram ao longo deste estudo, pelas partilhas e palavras de incentivo. À Universidade Federal de Santa Catarina, ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Aos grupos de pesquisa LITERALISE, NEPALP e GEPILEd que, no movimento dos nossos encontros, instigaram-me por meio dos estudos, partilhas, diálogos, contribuições intelectuais e amizade. Às professoras Sara Reis, Lêda Tomitch e Lúcia Rocha, pelo incentivo e, principalmente por acolher esta pesquisa ainda no desabrochar do projeto. À minha família com quem partilho momentos de celebração, e os dissabores neste evento da existência. Agradeço também à família ampliada pela afetuosa presença. Ao Mauro, pessoa à qual me liguei pela palavra viva, o meu agradecimento pelas interlocuções que tornaram-me, a cada encontro, perseverante e “resistente” às peripécias do existir. Agradeço especialmente a amada Lila, pelo encontro que encarna poesia revelados nas agridoces vicissitudes da vida. Viva a poesia. Salve, Manoel Barros! iv DECLARAÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Declaro ainda, que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v O Lugar da Poesia na infância: Projeto Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem Resumo: Nesta presente “artesania” (tese) compartilhamos os achados analisados no Projeto Crianceiras, sobre o lugar da poesia na infância – o fio condutor das observações são as interações no território do Projeto Crianceiras e suas contribuições ao pulsar da poesia nas experiências poética e estética na/para circulação da produção literária – em destaque a poesia de Manoel de Barros (1916-2014). Assim, recorremos ao aporte teórico no campo da poesia (PAZ, 2012; SIMÉON, 2015; JEAN, 2002; AZEVEDO; CHAGAS; BAZZO, 2018; DEBUS, 2016; DEBUS, BAZZO; BORTOLOTTO, 2018), no campo da literatura, leitura, voz e performance (ZUMTHOR, 2005; CANDIDO, 2011), nos pressupostos do dialogismo (BAKHTIN, 2011, 2017a, 2017b; VOLÓCHINOV, 2013, 2019), e da Teoria Histórico Cultural (VIGOTSKI, 2009, 2004b, 1999). Nesta aventura pela busca de conhecer, compreender e enxergar o nosso objeto vivo, partimos de uma investigação que articula o todo orgânico do Projeto Crianceiras Poesias de Manoel de Barros musicadas por Márcio De Camillo, qual seja: Álbum Crianceiras, Projeto Poesia na Prática e o Espetáculo Cênico Musical. Os enunciados concretos que nos ajudaram a compor coletivamente esta reflexão foram compreendidos no grande tempo do Projeto Crianceiras, pelo viés das relações dialógicas, sociais e culturais. De modo particular buscamos conhecer a produção, circulação do Projeto Crianceiras (2012-2022) e sua recepção. Nesta arquitetônica, aliada ao cerne das ciências humanas, elegemos a categoria de análise dialógica do discurso (Bakhtin e seu Círculo) e os pesquisadores da contemporaneidade que se debruçam sobre essa teoria/conceitos (AMORIM, 2004; MIOTELLO, 2012, 2013, 2018; PONZIO; MIOTELLO, 2019; GERALDI, 2012, 2019; FARACO, 2009; GIOVANI, 2017, BORTOLOTTO; FIAD, 2017). Desse modo, o corpus discursivo constituiu-se das estratégias da coleta de dados: entrevistas com roteiro semiestruturado, registro das observações nas Formações no Projeto Poesia na Prática (Formação Literária) e Projeto Escola (Espetáculo Cênico Musical). O objetivo central proposto por esta pesquisa foi o de escutar as vozes desse Outro em suas ações, de modo particular no ensaio de percepções aproximativas do lugar que a poesia ocupa nas sucessivas manifestações/expressões artísticas do Projeto (poemas musicados, espetáculo cênico musical e formação literária) articuladas a infância. Entrelaçamos, o referencial teórico elegido, as vozes presentes nesse percurso. cotejando com a voz de Manoel de Barros que nesta investigação constituem um dizer sobre a linguagem poética e o abraçar da poesia no movimento da vida, na relação com a infância e com o ser criança. A participação efetiva dos/das envolvidos/as, assim como os dados obtidos no campo desta pesquisa mediante a escuta responsivo-ativa aos enunciados foram se constituindo, e cada elo/enunciação, dentro dessa cadeia discursiva, foi compondo a construção deste trabalho. Os resultados revelam ser o Projeto Crianceiras uma ponte entre a poesia e a infância, uma grande possibilidade para que professoras e professores reconheçam e valorizem a importância da poesia na educação estética e na formação humana, bem como observamos ser o Projeto Crianceiras um brincar poético que aviva o encontro com o poeta e sua obra no evento do existir pela poesia, pela música e pela arte. Palavras-chave: Poesia na infância; Manoel de Barros; Projeto Crianceiras; Dialogismo. vi The Place of Poetry in Childhood: Children Project, a bridge between Manoel de Barros and the aesthetic act of language Abstract: In this present “craftsmanship” (thesis) we share the findings analyzed in Crianceiras Project, about the place of poetry in childhood – the guiding thread of the observations are the interactions in the territory of Crianceiras Project and its contributions to the pulse of poetry in poetic and aesthetic experiences in / for the circulation of literary production – especially the poetry of Manoel de Barros (1916-2014). Thus, we have turned to the theoretical support in the field of poetry (PAZ, 2012; SIMÉON, 2015; JEAN, 2002; AZEVEDO; CHAGAS; BAZZO, 2018; DEBUS, 2016; DEBUS, BAZZO; BORTOLOTTO, 2018), in the field of reading, voice and performance (ZUMTHOR, 2005; CANDIDO, 2011), in the assumption of dialogism (BAKHTIN, 2011, 2017a, 2017b; VOLÓCHINOV, 2013, 2019), and Cultural Historical Theory (VYGOTSKY, 2009, 2004b, 1999). In this adventure in search of knowing, understanding and seeing our living object, we start from an investigation that articulates the organic whole of Crianceiras Project Manoel de Barros’Poems set to music by Márcio De Camillo, namely: Crianceiras Album, Poetry in Practice Project and the Musical Scenic Show. The concrete statements that helped us to collectively compose this reflection were understood in the great time of Crianceiras Project, through the bias of dialogic, social and cultural relations. In particular, we’ve searched to know the production, circulation of Crianceiras Project (2012-2022) and its reception. In this architectonic connection, allied to the core of the human sciences, we chose the category of dialogic discourse analysis (Bakhtin and his Circle) and contemporary researchers who focus on this theory/concepts (AMORIM, 2004; MIOTELLO, 2012, 2013, 2018; PONZIO; MIOTELLO, 2019; GERALDI, 2012, 2019; FARACO, 2009; GIOVANI, 2017, BORTOLOTTO; FIAD, 2017). Thus, the discursive corpus consisted of data collection strategies: interviews with a semi-structured script, recording of the observations in the Formations in the Poetry Practice Project (Literary Training) and School Project (Musical Scenic Show). The main objective proposed by this research was to listen to the voices of this Other in their actions, in particular in the essay of approximate perceptions of the place that poetry occupies in the successive artistic manifestations/expressions of the Project (poems set to music, musical scenic performance and literary formation) linked to childhood. We have intertwined the chosen theoretical framework with the voices present in this route, comparing with the voice of Manoel de Barros who, in this investigation, constitute a saying about poetic language and the embrace of poetry in the movement of life, in the relationship with childhood and with being a child. The effective participation of those involved, as well as the data obtained in the field of this research through the responsive-active listening to the sentences have been constituted, and each link/sentence, within this discursive chain, have made up the construction of this work. The results reveal that Crianceiras Project is a bridge between poetry and childhood, a great possibility for teachers to recognize and value the importance of poetry in aesthetic education and human formation, as well as we have noticed that Crianceiras Project is a poetic play that enlivens the encounter with the poet and his work in the event of existing through poetry, music and art. Keywords: Poetry in childhood; Manoel de Barros; Crianceiras Project. vii ÍNDICE GERAL INTRODUÇÃO: Tecendo os fios da história ............................................................... 1 Caderno 1 ......................................................................................................................... 7 Artesanias do poeta das infâncias: um convite aos despropósitos da língua de brincar ...... 7 1 NO ARREBOL DAS PALAVRAS INVENTADAS: QUASE UMA BIOGRAFIA POÉTICA ........................................................................................................................ 8 1.1 PARA ENCONTRAR O AZUL EU USO PÁSSAROS: O SER LETRAL NO VOO DA PALAVRA VIVA .................................................................................................... 18 1.2 CRIANÇAMENTO DAS PALAVRAS: A INFÂNCIA E O ABRAÇAR DA POESIA ........................................................................................................................... 28 Caderno 2 ....................................................................................................................... 37 Pelas veredas da Arquitetônica do Crianceiras ............................................................... 37 2 UM QUINTAL PARA COMPOR O AMANHECER: UMA POLIFONIA NO PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA ................................................... 38 2.1 PROJETO CRIANCEIRAS: ATO POÉTICO DO OLHAR .......................................... 46 Caderno 3 ....................................................................................................................... 84 Poesia em movimento: caminhos de experiências pela arte para “transver” o mundo ......... 84 3 COTEJO DAS VOZES NO BALANÇAR DO ACONTECIMENTO ..................... 85 3.1 PROJETO POESIA NA PRÁTICA: A RELAÇÃO EU-OUTRO NO ATO DA DOCÊNCIA .................................................................................................................... 87 3.2 ESPETÁCULO CÊNICO MUSICAL CRIANCEIRAS: UM ABRIDOR DE AMANHECER ............................................................................................................. 109 CONSIDERAÇÕES .................................................................................................... 132 4 DESVER PARA REVER O PERCURSO: HORIZONTES POSSÍVEIS DE POETICIDADE .......................................................................................................... 132 4.1 EPÍLOGO ...................................................................................................................... 139 REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 144 REFERÊNCIAS LITERÁRIAS ................................................................................ 152 ANEXOS ...................................................................................................................... 154 APÊNDICES ................................................................................................................ 190 2 da Mostra de Cinema infantil de Florianópolis 2 cuja edição de 2013 fez uma homenagem ao poeta ainda em vida, já que viraria passarinho em novembro de 2014. Assim, Luiza Lins – curadora da Mostra, destacou: Viva o poeta Manoel de Barros! [...] A poesia de Manoel de Barros retrata a criança e a natureza, as brincadeiras de pés descalços, as frutas tiradas fresquinhas das árvores e os animais. Os animais da terra dele, da nossa terra, do nosso Brasil. “Tudo o que a gente é mais tarde vem da infância”. Essa frase do próprio Manoel de Barros sintetiza muito o que a Mostra acredita: que todas as experiências da infância são determinantes para formar o adulto. É essa infância brasileira, e também a infância de várias partes do mundo, que a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis trará para as telas do cinema, para que todos conheçam. Homenagear essa grande personalidade será homenagear a criança e a cultura nacional (LINS, 2013, p. 01). Naquele inverno de 2013, fui aquecida pelo inesquecível Espetáculo Cênico Musical Crianceiras com Poesias de Manoel de Barros, Musicadas por Márcio De Camillo, no encerramento da 12ª Mostra de Cinema, na cidade de Florianópolis. Em meio ao movimento das luzes e cores dos poemas musicados por esse artista, surgia ali os primeiros desejos pelo tema poesia, como possibilidade de futura investigação e um encantamento pelos poemas musicados. A partir daquele encontro, fui em busca da intimidade necessária com a poesia e, naquele mesmo ano como professora em uma Instituição na cidade de Florianópolis, apresentei Manoel de Barros e o Crianceiras para o meu grupo na Educação Infantil 3 . Foram anos conhecendo a singularidade das palavras do meu/do nosso - “Fazedor de Amanhecer”. Desde então, é possível dizer que esta pesquisa começou a ser pensada, muito antes de avançar para o começo e atravessar o rio que “desabre o amanhecer”; foi assim que o tema poesia de Manoel de Barros no entardecer do encontro se fez meu abrigo. Outros invernos passaram, novas paisagens surgiram, até que a primavera desta artesania desabrochou em um projeto de doutorado submetido, no final de 2017, ao Programa de Pós-Graduação da Universidade do Minho, Instituto de Educação, Braga-Portugal. Como professora e pesquisadora, busquei pensar a constituição de meu tema de investigação - poesia e infância - entrelaçados às possibilidades de enriquecimento docente em comunhão com o “rio inventado no criançamento” das palavras de Manoel de Barros. Desse 2 Mostra realizada em 28 de junho a 14 de julho de 2013. Nesta edição a homenagem foi para um dos importantes escritores da literatura brasileira que completava 97 anos no ano da Mostra. Vide: http://www.mostradecinemainfantil.com.br/2013/. 3 Primeira Etapa da Educação Básica no Brasil de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - 9.394/96). 3 modo, as razões para a tessitura de minha investigação são de ordem profissional e pessoal, uma vez que seu fio condutor é a poesia que já fez em mim morada. O presente trabalho 4 intitula-se O lugar da poesia na Infância: Crianceiras, uma ponte entre Manoel de Barros e o ato estético da linguagem. O caminho investigativo trilhado no Curso de Doutoramento na Universidade do Minho tem seu aporte nos Estudos da Criança, na especialidade Infância, Cultura e Sociedade, e foi desenvolvido no âmbito da área de conhecimento em Literatura para a Infância. Destaco algumas questões que mobilizaram o percurso investigativo, a saber: Qual o lugar da poesia na Infância? Quais as contribuições do Projeto Crianceiras para a formação literária e estética dos professores e professoras e consequentemente para a formação das crianças? Quais os sentidos produzidos pela ação do projeto Crianceiras – Poesia na Prática e Projeto Escola na formação da(o)s professora(e)s? Para o desdobramento deste estudo foram elaborados os seguintes objetivos: Gerais: Investigar sobre o lugar da poesia na infância tendo como fio condutor análise dialógica do Projeto Crianceiras (2012-2022), evidenciando suas contribuições para a circulação da produção literária de Manoel de Barros musicada por Márcio De Camillo; Articular o todo orgânico do Projeto Crianceiras Poesias de Manoel de Barros, na compreesão dos sentidos produzidos pelo cotejamento das vozes nos enunciados concretos, investigando a gênese do Projeto Crianceiras, bem como a relação arte, infância e educação por meio da realização das ações do Crianceiras. Específicos: Apresentar o poeta Manoel de Barros por meio de suas palavras inventadas, e enveredar por suas obras articulados aos poemas musicados; Explicitar concepções e modo de ver e ser da poesia, cotejando com a voz de Manoel de Barros e com fios de outras vozes sobre a linguagem poética na relação infânciacriançapoesia; Descrever o processo de criação estética do Crianceiras identificando o repertório poético e como ocorreu o processo de seleção dos poemas de Manoel de Barros; 4 O texto está de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa adotada no Brasil e seguiu as orientações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT NBR 10520/2002 e NBR 6023/2018). 4 Analisar as diversas vozes dos participantes do Projeto Crianceiras mediante escuta atenta que revelam a expressividade e especificidade de cada um no movimento de relações, cruzamentos e junções dessas vozes no cotejamento dos textos (discursos produzidos) com outros textos visando desvelar e compreender os sentidos do Projeto; Compreender as interações no território do Projeto Crianceiras e suas contribuições ao pulsar da poesia nas experiências poética e estética na/para circulação da produção literária do poeta Manoel de Barros na relação educação e arte; Analisar o discurso das interações dialógicas sobre a produção, circulação e suas recepções do Projeto Crianceiras; Identificar a concepção do lugar da poesia na infância na realização das ações e desdobramentos do Projeto Crianceiras; Acompanhar, observar e registrar a formação oferecida pelo Projeto Crianceiras Poesia na Prática aos professores e professoras da Educação Básica; Relatar como surge o Espetáculo Cênico Musical por meio da interação de múltiplas linguagens; Descrever sobre a relação, imagem-poema-movimento no processo de criação da performance do “Espetáculo Crianceiras Manoel de Barros” ressaltando a concepção de brincar com as palavras e com as imagens; Apontar as contribuições do Projeto Crianceiras para a formação estética e poética dos professores e professoras na participação no Projeto formativo realizado; Investigar o Projeto Crianceiras Poesia na Prática analisando o trabalho proposto aos professores e professoras durante as formações; Analisar o processo da formação, Crianceiras Poesia na prática ressaltando a culminância deste trabalho no Projeto Escola Crianceiras; Registrar o processo da formação oferecida aos professores e professoras mediante o cotejamento de vozes dos participantes; Expressar o processo de criação estética para o Espetáculo Cênico Musical do Crianceiras; Narrar sobre a realização do Projeto Escola na “celebração” das crianças no teatro detalhando como acontece este ato. Como caminho metodológico escolhido para alcançar esses objetivos recorremos aos aportes das ciências humanas, com base na dialogicidade do cotejo de um texto com outros 5 textos (BAKHTIN, 1992, p. 404). O cotejo como encaminhamento metodológico no qual o fundamental é justamente desvendar o que se dá em/na relação. Relação do aqui e agora desde o ontem até o amanhã” (GIOVANI, 2017, p. 17-18). Assim no percurso da reflexão, que permeia o ato de pesquisa, estabeleci o acolhimento das palavras em um constante diálogo de sentidos e horizontes de novas possibilidades de mundo com o Projeto Crianceiras como um todo mediante entrevistas semiestruturadas com quatro integrantes do Crianceiras, que integram a parceria do Projeto Crianceiras (Márcio De Camillo, Izabella Maggi, Cibelle Rosa, Luiz André Cherubini), na compreensão de que as palavras, o discurso revelado proporcionou ir para fora dos limites do texto produzido, ouvindo-os, cotejando seus textos no movimento de desvelar e compreender os sentidos do Projeto. Nesta arquitetônica - aliados ao cerne das Ciências humanas elegemos a categoria de análise Dialógica do Discurso (Bakhtin 5 e seu círculo) e pesquisadores da contemporaneidade que se debruçam sobre essa teoria/conceitos) (AMORIM, 2004; MIOTELLO, 2012, 2013, 2018; PONZIO; MIOTELLO, 2019; GERALDI, 2012, 2019; FARACO, 2009; FIORIN, 2020; GIOVANI, 2017). Ressalto, que durante a pesquisa foi fértil a escuta das vozes dos integrantes entrevistados em suas ações particulares no Projeto, no sentido de ampliar as percepções aproximativas do lugar que a poesia ocupa nas sucessivas manifestações/expressões artísticas do Projeto (poemas musicados, espetáculo cênico musical e formação literária). O processo dialógico iniciou com um olhar desmedido pelo encantamento poético e, no decorrer das análises, transpassou o olhar investigativo, ampliando a visão de que conteúdo e matéria da poesia de Manoel de Barros são “escola de humanidade” (SIMEÓN, 2015), que atravessa a matéria da consciência da vida. E neste sentido afirmamos que a orientação teóricometodológica que discorre pelos pressupostos do dialogismo de Bakhtin e de seu Círculo, me possibilitou compreender a trajetória da pesquisa no processo de estudo e coleta de dados em que a investigação se revelava a cada passo no caminho. Os fios de diálogo, que despontam neste enunciado, discorrem sobre o meu encontro com Manoel de Barros e contam um pouco de onde parte o desejo desta investigação, o meu lugar de fala e o interesse de refletir sobre a importância da poesia nas nascentes da infância. 5 Círculo de Bakhtin segundo Faraco (2009) refere-se ao grupo de intelectuais russos constituído no período histórico entre os anos de 1920 a 1930; era constituído por pensadores de diferentes áreas do conhecimento - Filosofia, Biologia, Música, Literatura, Filologia, entre outras - que dialogaram em diversos espaços políticos, sociais e culturais. Era uma grupo com fortes laços de amizade que compartilhava ideais sociais, políticos e filosóficos entre outros. 6 Na sequência, três cadernos 6 serpenteiam o rio deste estudo que, no pulsar da poesia, viabilizam o encontro entre Manoel de Barros e o Projeto Crianceiras. O primeiro caderno - Artesanias do poeta das infâncias: um convite aos despropósitos da língua de brincar - sobrevém do próprio Manoel de Barros e, em seu decorrer, expressa sua didática da invenção. O segundo caderno - Pelas veredas da Arquitetônica do Crianceiras - apresenta o caminho investigativo da pesquisa que deságua nas singularidades do Projeto Crianceiras desde sua gênese. No terceiro caderno - Poesia em movimento: caminhos de experiências pela arte para “transver” o mundo alvoreceram os episódios da análise dos dados e fundamenta-se nos resultados que despontam dos diálogos no cotejamento de Manoel de Barros com os participantes - as vozes das narrativas são alicerçadores no percurso deste rio chamado Tese. 6 Peço licença pela escolha metológica na organização do texto em cadernos, e não em capítulos como procedimento usual na escrita de tese conforme as normas vigentes. 7 Caderno 1 Artesanias do poeta das infâncias: um convite aos despropósitos da língua de brincar Figura 1 - Para encontrar azul eu uso pássaros Fonte: Barros (2021a) 8 1 NO ARREBOL DAS PALAVRAS INVENTADAS: QUASE UMA BIOGRAFIA POÉTICA o poeta e o tempo, o poeta e a palavra, o poeta e a vida… Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores. (Manoel de Barros) 7 A matéria de poesia deste caderno é o próprio poeta e suas peraltagens manoelísticas. Os “despropósitos” destas linhas tortas são os de apresentá-lo por suas palavras inventadas, e enveredar por suas obras - o que ele afirma ser sua própria poesia - e empregar amor pelas palavras, pela poesia e pelo poeta. De acordo com a Fundação Manoel de Barros (FMB, 1998) - O conjunto de sua obra contempla um acervo de 25 livros em destaque - Poemas concebidos sem pecado (1937); Face imóvel (1942); Poesias (1947); Compêndio para uso dos pássaros (1960); Gramática expositiva do chão (1966); Matéria de poesia (1970); Arranjos para assobio (1980); Livro de pré-coisas (1985); O guardador de águas (1989); Concerto a céu aberto para solos de aves (1991); O livro das ignorãças (1993); Livro sobre nada (1996); Retrato do artista quando coisa (1998); Exercícios de ser criança (1999); Ensaios fotográficos (2000); O fazedor de amanhecer (2001); Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001); Memórias inventadas: a infância (2003); Cantigas para um passarinho à toa (2003); Poemas rupestres (2004); Memórias Inventadas: a Segunda Infância (2006); Poeminhas em língua de brincar (2007); 7 Ao longo do texto utilizamos entre aspas os poemas, versos e termos próprios do poeta e em itálico as referências aos títulos das obras. 9 Memórias inventadas: a terceira infância (2008); Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros (2008); Menino do Mato (2010); Memórias Inventadas para Crianças (2010); Poesia completa (2010); Escritos em verbal de ave (2011). O humanizador de paisagens e fazedor de frases Manoel Wenceslau Leite de Barros, mais conhecido como Manoel de Barros, publicou o primeiro livro, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. O caderno de rascunho em que escrevera Nossa Senhora da Minha Escuridão não chegou a ser publicado e perdeu-se pela/na escuridão da ditadura nas ruas do Rio de Janeiro. Contudo, o poeta ficou conhecido, para além de suas terras encharcadas do Pantanal de Corumbá, somente em 1980, quando recebeu a devida atenção da crítica. O poeta que era cismado e arredio, contemplava a quietude da solidão, sempre muito tímido e avesso às entrevistas, conseguiu por vezes ao longo de sua existência responder algumas questões por escrito 8 (BARROS, 1990). Revelou que aprendera com a gramática do povo Guatós a “essência das palavras'' e com os filósofos que “o fascínio poético vem das raízes da fala”. Disse o poeta em seus “Aprendimentos” sobre sua “segunda infância”: quem se aproxima das origens se renova. Ele assim menciona que: O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas dimenor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite! Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles — esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca (BARROS, 2010a, p. 129). 8 Conversas por escrito (Entrevistas: 1970-1989). 10 Em suas Memórias Inventadas, o menino que reverbera no poeta, ressalta além de seus “aprendimentos” que cresceu livre, e que seu “quintal era maior que o mundo” (BARROS, 2010a, p. 47). Ele diz: Aprendi [....] com os passarinhos a liberdade. Eles dominam o mais leve sem precisar ter motor nas costas. E são livres para pousar em qualquer tempo nos lírios ou nas pedras – sem se machucarem e aprendi com eles ser disponível para sonhar. O outro parceiro de sempre foi a criança que me escreve. Os pássaros, os andarilhos e a criança em mim são meus colaboradores destas Memórias inventadas e doadores de suas fontes (BARROS, 2010a, p. 147). Suas Memórias Inventadas dialogam com temas contemporâneos e expressam profundas análises sobre a existência humana, o abandono e a solidão, que assombram as fronteiras do mundo. Na “Arte de infantilizar formigas” (BARROS, 2002, p. 09) o“menino que pegou um olhar de pássaro – Contraiu visão fontana” (BARROS, 2004b, p. 11), na companhia de seus personagens que, por vezes, fazem alusão à “Terra do Nunca” 9 e nos remetem à memória dos meninos perdidos. Entre águas e pássaros, seu eu lírico nos revela o desejo de viver para sempre em seu mundo de terra molhada, sem esquinas, ao ocaso, em lugares esquecidos no mapa e sem nomeação. De forma que ele enxergava as coisas por igual: “As palavras eram livres de gramática, e podiam ficar em qualquer posição. Por forma que o menino podia inaugurar. Podia dar às pedras costumes de flor. Podia dar ao canto formato de sol” (BARROS, 2004b, p. 11). Diz o poeta: “Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore” (BARROS, 2010b, p. 30). “Por viver muitos anos dentro do mato moda ave” (BARROS, 2004b, p. 11), o menino poeta olhava com profundidade o ser das coisas, o olhar que faz comunhão com as grandezas do ínfimo, o olhar da simplicidade para com a natureza e as coisas miúdas. Manoel de Barros expõe a obliquidade no seu olhar telúrico a partir da comunhão com as coisas, do olhar para o chão, para o ínfimo e para as coisas miúdas e nos desvela uma certa vivacidade” (BARROS, 2010b, p. 30). Barros vive uma verdadeira intensidade com a palavra que se manifesta viva, ávida, imponente. A imagem de infância, que por vezes revela sua própria poesia, vai se tornando nítida na paixão pelas palavras. Barros revela que, ao tentar explicar a poesia, podemos cair no erro de talvez não ter compreendido “[...] que a poesia não é para entender, é para incorporar, [e completa] – Para 9 Referência ao livro do escritor escocês J. M. Barrie, intitulado Peter Pan, em que a Terra do Nunca é a ilha constituída como sendo dos garotos perdidos (Peter Pan, Sininho e outros). 11 entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade, que é o entendimento do corpo; e o da inteligência que é o entendimento do espírito. Eu escrevo com o corpo” (BARROS, 2007a, p. 37). Sobre a necessidade e função da poesia no mundo atual afirma Manoel de Barros, “[...] é a de promover o arejamento das palavas, inventando para elas novos relacionamentos, para que os idiomas não morram a morte por fórmulas, por lugares comuns” (BARROS, 1990, p. 310). Manoel de Barros define suas “raízes crianceiras” como uma “visão comungante e oblíqua das coisas” (BARROS, 2010b, p. 30). “Era uma visão, que destampava a natureza de seu olhar” (BARROS, 2010c, p. 14). Manoel de Barros gostava de fingir que pedra era lagarto, suas brincadeiras giravam em torno de molecar palavras. Em seu último poema publicado, Barros poemou o idioma. Assim: A gente foi criado no ermo igual ser pedra. Nossa voz tinha nível de fonte. A gente passeava nas origens. Bernardo conversava pedrinhas com as rãs de tarde. Sebastião fez um martelo de pregar água na parede. A gente não sabia botar comportamento nas palavras. Para nós obedecer a desordem das falas infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais. Bernardo fez um ferro de engomar gelo. Eu gostava das águas indormidas. A gente queria encontrar a raiz das palavras. Vimos um afeto de aves no olhar de Bernardo. Logo vimos um sapo com olhar de árvore! Ele queria mudar a Natureza? Vimos depois um lagarto de olhos garços beijar as pernas da Manhã! Ele queria mudar a Natureza? Mas o que nós queríamos é que a nossa palavra poemasse (BARROS, 2013a, p. 47). Para ele, o valor das coisas importantes há de se medir pela intimidade que temos com elas. Barros nos revela alguns vestígios de infâncias, vestígios das crianças que fomos. Em “Achadouros” ele nos apresenta as coisas de um cenário da infância: Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece 18 Neste sentido, Barros invade o universo da transgressão da linguagem e expressa a capacidade de arrastar a língua para um outro lugar, para a palavra viva. Em seus poemas há uma interpenetração das coisas que toma forma, força estética e construtiva da forma artística. Não há uma separação entre arte e sua própria vida. Barros faz de sua poesia um espaço das inconstâncias e nos convida a mergulhar nesse universo das incertezas, dos questionamentos e das magnitudes que é a função da arte. O poeta é um emissor que “transvê o mundo”, humanizador de paisagens. Assim, nos convida a olhar o chão, a olhar o entorno com esses olhos que “trans-veem”. Nos dá a chance de perceber os pequenos e grandes mistérios do movimento da vida como matéria da poesia, que nos propõe mergulhar em temas complexos, interroga sobre o valor do ínfimo, indaga sobre a vida, seus dilemas e limites, sobre a nossa existência nela e nos faz refletir sobre as relações humanas. Além disso, levanta diversas reflexões sobre a vida dos seres. Perpassa aspectos da vida em sociedade, da família e destaca inúmeros momentos da infância em meio à natureza. Sua poesia nos convida ao deslumbre, ao sublime ao resgate da originalidade humana. “Desse modo, a palavra poética é enriquecida pelos absurdos, pelo poder imaginativo, diferentemente do texto informativo, que exigiria certo grau de fidelidade com a realidade” (DEBUS, 2016, p. 152). A poesia é o espelho da emoção, da beleza, do medo, da tristeza. Barros, ao ousar pôr asas nas palavras, as fez alçar voos para o infinito da linguagem e assim desprendeu a linguagem poética da responsabilidade de ensinar, significar e decifrar. 1.1 PARA ENCONTRAR O AZUL EU USO PÁSSAROS: O SER LETRAL NO VOO DA PALAVRA VIVA Os cadernos de rascunho: o coração poeta, do menino e seu rio/tratado com as grandezas do ínfimo Eu sou dois seres. O primeiro é fruto do amor de João e Alice. O segundo é letral: É fruto de uma natureza que pensa por imagens. Como diria Paul Valéry. O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu e vaidades O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades frases. E aceitamos que você empregue o seu amor em nós. (Manoel de Barros) 19 O ser “letral” Manoel de Barros está para o poema como o orvalho para terra. O poeta era campeão em aumentar os “desacontecimentos” e “esticar os horizontes”; sua poesia desperta a palavra para novas paisagens, que se faz livre de conceitos gramaticais, pois não cabe na poesia “botar comportamentos nas palavras”, significar ou ensinar. Nas palavras de Houaiss, A poesia de Manoel de Barros, nesta nossa conjuntura, nacional e humana em geral, é um maravilhoso filtro contra a arrogância, a exploração, a estupidez, a cobiça, a burrice – não se propondo, ao mesmo tempo, ensinar nada a ninguém, senão que à vida (HOUAISS, 2015, p. 6). Manoel de Barros é considerado um dos principais poetas contemporâneos. Trilha pela terceira fase do modernismo no Brasil, chamada "Geração de 45”, embora o Barros não considerasse fazer parte desse período ou ter alguma coisa em comum com ela (BARROS, 1990) 10 . Ele não apreciava a “fase” em destaque, preferia que suas metáforas invadissem gerações e que o som inaugural do amanhecer atravesse sua poesia. Ao desejar que os floreios líricos de suas palavras “poemassem” no arrebol de versos e rimas, suas metáforas eclodiram e conquistaram importantes premiações, que irradiam sua arte poética e fazem um convite à essência da obra, àss riquezas do ínfimo, à sensibilidade e à beleza. Dos inúmeros prêmios, pelo conjunto de sua obra, destacamos: o Prêmio Nacional de Poesias; o Prêmio Jabuti (recebeu duas vezes); o Prêmio Nestlé de Literatura; o Prêmio Nacional de Literatura Brasileira e o Prêmio Cecília Meireles (ambos do Ministério da Cultura). Ressalta-se que cada uma das obras premiadas 11 , aspira a um horizonte da linguagem como acontecimento, como consciência de vida, num movimento de pensar a poesia, sentir o seu pulsar e ouvir o seu ruído. Os poemas e as ilustrações pulsam, dançam, brincam, saltam de dentro para fora e de fora para dentro do papel, escondem-se nos corredores das memórias de cada leitor. Lembra, Splengler (2017, p. 18): [...] no livro de Literatura Infantil a palavra, a imagem e a materialidade convivem juntas, se complementam e se completam, comunicam-se entre si, dialogam, de tal maneira que para a compreensão desse universo de linguagens devemos estar atentos não somente para a importância de uma ou outra linguagem. Afinal, a leitura do objeto 10 Entrevista a José Guizzo. Revista Grifo, Campo Grande, MS. 11 Para conhecer mais as obras, ver: Cronologia (Anexo 1). 20 livro configura caminhos de compreensão e interpretação não lineares e, portanto, exige olhar atento de seu leitor. Três obras foram premiadas pela Fundação Nacional do Livro Infanto Juvenil (FNLIJ), na categoria Poesia. A primeira - O livro Exercícios de Ser Criança (1999) da Editora Salamandra - foi premiado no ano 2000. Nesta escrita bordada, a infância é o entrelaçar dos fios que conduzem as nossas memórias afetivas a embarcar nos delírios verbais de Manoel de Barros. Entre linhas e cores, as mãos de Antônia e de suas filhas Ângela, Marilu, Martha e Sávia, bordaram, sobre os desenhos do menino Demóstenes, os prodígios do menino poeta e teceram juntas o imaginário infantil deste “rio inventado”. Figura 2 - Capa do livro Exercício de ser criança Fonte: Barros (1999b). Figura 3 - Bordados de ser criança Fonte: Barros (1999b). 21 O livro divide-se em duas prosas poéticas e traz em suas páginas um lugar mágico e duas histórias: os “despropósitos” de “O menino que carregava água na peneira” e as invenções de “A Menina avoada”. Figura 4 - O menino que carregava água na peneira Fonte: Barros (1999b). Figura 5 - A menina avoada Fonte: Barros (1999b). Cantigas por um passarinho à toa da Galerinha/Editora Record, a segunda obra, premiada em 2004 - propõe uma jornada poética de um passarinho que se aventura a explorar seu universo inventado e realiza o movimento fluido em seu voo pela palavra poética, num fio rítmico, que expressa a vida leve, contraditória, bela e livre. 22 Figura 6 - Capa do livro Cantigas por um passarinho à toa Fonte: Barros (2009a). Figura 7 - Idioma das árvores Fonte: Barros (2009a). Neste universo de encantamento, em que os leitores são convidados a adentrar no infinito da imaginação, numa poética da incorporação, em que cigarras, vagalumes, borboletas, andorinhas e figueiras nos embalam em cantigas das singularidades da infância. E assim, o mundo se apresenta numa brincadeira com palavras e imagens pelas mãos da artista Martha Barros 12 , cujos traçados são fios condutores ao universo infantil. “As iluminuras”, como o poeta chamava as ilustrações, da artista, nos convidam a visitar as obras dos artistas como Miró, Klee, Chagall, Kandinsky e muitos outros, que ampliam a visão e criam um belo repertório visual e poético. Esses artistas apresentam um traço que nos remete a pensar nas produções de crianças e refletir sobre a relação do traço e da palavra primitiva. Assim Barros redimensiona o ser das coisas, ao lhes dar voz, no rumor das palavras, na ação e manifestação dos seus desejos. Estar 12 Carioca, com raízes em Campo Grande (MS), suas “iluminuras” transmitem a atmosfera lúdica da poesia de Manoel de Barros, um trabalho muito próximo ao que ele faz com palavras, sem, no entanto, permitir que a ilustração se transforme em legenda para o texto. A artista utiliza texturas e materiais diversos que vão desde o papel e passam por tecidos, rendas e trapos, aplicados à técnica de tinta acrílica sobre tela. O resultado é um trabalho espontâneo de cores e grafismo direto e singelo. 23 “à toa” é estar em um puro ato irreverente, subversivo diante das amarras das coisas do mundo e de seus significados. Na terceira obra premiada, Poeminha em língua de brincar Manoel de Barros (2007b) mais uma vez brinca com a estrutura da língua e delimita um universo autêntico. A infância do poeta está na forma como ele expressa seus poemas e constrói seus enunciados. Nessa linguagem adâmica, muda o contexto da valoração ativa; em sua poesia é possível perceber o gosto pelas coisas simples, o ludismo da língua e, sobretudo, uma consciência criadora no interior da sua poesia. Figura 8 - Capa do livro Poeminha em língua de brincar Fonte: Barros (2007b) Figura 9 - Língua de criança Fonte: Barros (2007b) Barros se definiu como um “inventor de palavras”. Em sua poesia é possível perceber o gosto pelas coisas simples, o ludismo da linguagem e, sobretudo, um universo autêntico, uma consciência criadora no interior da sua poesia. A infância do poeta está na forma como ele expressa seus poemas e constrói seus enunciados. Manoel de Barros brinca com as palavras, 24 faz uma viagem ao imaginário infantil. Os três livros premiados ganharam novas edições, pela Companhia das Letrinhas. A nova edição (2021) de Exercício de ser Criança, agora com ilustrações de Fernanda Massotti e Kammal João concorreu ao prêmio da FNLIJ na mesma categoria. Barros é um “apanhador” de acontecimentos, sua “didática da invenção”, que cria palavreados no arvoredo, já teve lugar de destaque em interfaces com outros suportes e linguagens cinematográficas. Em 2002 foi tema do documentário Só dez por cento é mentira 13 , do diretor Pedro Cezar, exibido em 2010, o qual apresenta uma “desbiografia” de Manoel de Barros. É um original mergulho cinematográfico na biografia do poeta sul-mato-grossense. Este documentário alterna sequências de entrevistas inéditas do escritor, apresenta alguns versos de sua obra e depoimentos de "leitores contagiados" por sua literatura. A poesia voou fora da asa e viajou pelos horizontes do palco e da avenida do samba. Em 2002, na peça Inutilezas de Bianca Ramoneda com direção de Moacir Chaves, participação no elenco da própria Bianca e do ator Gabriel Braga Nunes. Em 2015, O Espetáculo Cênico Musical Crianceiras Poesia de Manoel de Barros musicada por Márcio De Camillo - Direção Luiz André Cherubini - chega ao Ibirapuera (São Paulo). Em 2017 o Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S). Império Serrano (Rio de Janeiro) levou para Marquês de Sapucaí o enredo “Meu Quintal é Maior Do Que o Mundo” com o qual obteve o título de campeão do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, Série A. Em 2019 foi a vez de subir ao palco a peça Meu quintal é maior do que o mundo (TEATRO-D, 2019), Direção Ulysses Cruz - com a atriz Cássia Kis no elenco. Em 2019, o Itaú Cultural promoveu a Ocupação Manoel de Barros, em que nesta homenagem estiveram reunidos alguns de seus apontamentos. Sua arte, que “transvê o mundo”, não foi esquecida e reverbera até os dias atuais. Consagrado como um poeta da linguagem, que leva leitores de todas as idades a encontrarem nas palavras novas coisas de ver. No amanhecer do dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos, virou passarinho na amplidão do silêncio em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Que as minhas palavras não caiam de 13 Direção e Roteiro: Pedro Cezar. Produtora: Artezanato Eletrônico. Produção Executiva: Pedro Cezar, Kátia Adler e Marcio Paes. Direção de Fotografia: Stefan Hess. Montagem: Julio Adler e Pedro Cezar. Direção de Arte: Marcio Paes. Música: Marcos Kuzka. Depoimentos: Manoel de Barros, Bianca Ramoneda, Joel Pizzini, Abílio de Barros, Palmiro, Viviane Mosé, Danilinho, Fausto Wolff, Stella Barros, Martha Barros, João de Barros, Elisa Lucinda, Adriana Falcão, Paulo Gianini, Jaime Leibovicht e Salim Ramos Hassan. 25 louvamentos à exuberância do pantanal. Que eu não descambe para o adjetival. Que meu texto seja amparado de substantivos. Substantivos verbais. Quisera apenas dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres. Quisera humanizar de mim as paisagens [...] (BARROS, 1999a, s.p). Os escritos os quais “quisera apenas dar sentido literário aos pássaros, ao sol, às águas e aos seres” (BARROS, 1999a, s.p) ultrapassaram as fronteiras do tempo, os fios de seus “delírios verbais” brincam no caleidoscópio de suas peraltagens e propõem desprender a língua num despropósito de fazer revolução com as palavras. “Como a luz que vegeta na roupa do pássaro” (BARROS, 2016a, p. 39). “Nesse caleidoscópio de razões e ignorãças, Barros semeou uma infância que escapa ao tempo como o vento se esquiva na peneira. Essa infância não é apenas a de um olhar. É a infância das palavras, esse limbo onde tudo pode ainda ser tudo” (COUTO 14 , 2019, p. 08). Podemos dizer, que a editoração Alfaguara realiza um valioso sobrevoo pelos “brilhos de Manoel” (BARROS, 2019) para que leitores de todas as idades possam enveredar por suas edições (mesmo aquelas que estejam indisponíveis em outras editoras). Neste cotejamento, que se veste de suas Memórias Inventadas, sob a curadoria de Italo Moriconi as novas edições de suas obras trazem na capa as iluminuras da artista Martha Barros desde a Antologia Meu quintal é maior do que o mundo, publicada em 2015, que “desabre” no horizonte este novo inaugurar do acontecimento. Nesse quintal de vozes que dialogam sobre vida e obra de Manoel de Barros - a maioria dos prefaciadores estiveram de braços dados com o poeta a caminhar pelas veredas das palavras esticadas no horizonte de sua imaginação. Por esses passeios verbais, Barros “ainda vivia uma infância na qual não havia limites para ser” (CASTELLO, 2015, p. 11). “A poesia do aquém de Manoel de Barros começa por onde termina [...]”. “Linguagem-invenção que subverte os limites do dizer” (MORICONI, 2016, p. 07). O além do aquém nos poemas de Barros: 14 Para melhor compreender a relação Barros e Couto ressalto a tese (2007) de Maria Auxiliadora Baseio intitulada “Entre a magia da voz e a artesania da letra: o Sagrado em Manoel de Barros e Mia Couto” em que possibilita dialogar com os autores seus projetos estético e político expressos em suas obras em que a autora evidencia raízes similares e marcas identitárias das culturas em que os autores estão imersos (Brasil e Moçambique). 26 [...] é o hiper-real da linguagem. Totalmente alheio a esta poesia é o sublime do empíreo, do celestial. Trata-se de uma poesia aferrada à terra, ao chão, ao corpo. Quando voa, é voo animal passarinho. Se “espírito” é uma palavra para imaterial, aqui o imaterial está no próprio material, no desdobramento infinito do material (MORICONI, 2016, p. 08). A matéria de poesia de Manoel de Barros está no olhar de recriar e humanizar as coisas do mundo em uma “[...] desabrida liberdade criadora” (MORICONI, 2016, p. 07). A poesia brota pelo olhar inaugural do poeta à frente do seu tempo, e amplia os sentidos inusitados numa poética da incorporação, que sente o poema no desbravar do corpo inteiro. “Olho para o meu olhar que olha o mundo. Meu olhar capta os detalhes esquecidos do mundo” (MORICONI, 2016, p. 07). Neste inaugurar das coisas e das pessoas “[...] observa tudo com olhos da infância, tão maravilhado que tem urgência em compartilhar suas experiências. Como uma criança ainda não contaminada pela razão” (RUFFATO, 2016, p. 07). Barros “é dono do que escreve”; o poeta plantava sementes de amanhecer. “Cada palavra entra como única nos seus versos e já só passível de ser igual a si mesma”. “As suas palavras adentram um idioma distinto ou idioma nenhum. São de outra liberdade” (MÃE, 2016, p. 09). Como um lápis na península, que revela “os sentidos surreais acionam, por sua vez, um movimento em que se avança para trás, uma espécie de rio que corre para a nascente” (WALDMAN, 2016, p. 08), e que seguramente “engrandece as miudezas da vida” (CARRASCOZA, 2017, p. 09). “O que Manoel de Barros cata no Pantanal só poderia haver sido catado no Pantanal, mas não estava no Pantanal. Estava na sua cabeça, o lugar infinitamente sapiente do que inventa” (MÃE, 2016, p. 7). Neste balançar onírico pelos arquissemas que se abrem ao poema e causam estranhamento e um novo olhar poético pelo tempo que retorna a infância. “Um encontro (para se guardar) com Manoel”, “a matéria líquida da vida – e de sua escrita” (CARRASCOZA, 2017, p. 09). “E assim, sem lonjura, na mesma água riscaremos a palavra que incendeia a nuvem” (COUTO, 2019, p. 9). Neste mergulho poético no arrebol deste cotejamento, a linguagem poética se eterniza no grande tempo: A principal razão por que a sua poesia continua atual, contudo, tem a ver com esse olhar atento e compassivo dirigido às margens do mundo. Manoel de Barros ajudanos a olhar os outros, os mais invisíveis de entre todos nós, e a encontrar neles a nossa própria humanidade (AGUALUSA, 2018, p. 09). De tudo cabe ao poeta o estourar das frases, que colorem o céu com sua poesia. “Para ver com os olhos da imaginação, há que se estar disponível para desver”, sua escrita é ‘Um 27 novo cristalino’ ‘uma aura de veracidade’ (RAMONEDA, 2021, p. 07-09). O lugar em que celebra a sua poesia é a realidade inventada “[...] ao Manoel de Barros a confirmação de que o bom da vida é colher palavras e inutensílios que se multiplicam [...]” (REZENDE, 2021, p. 10). “Dessa aspiração faz-se a poesia de Manoel de Barros, promessa de um mundo perfeito de harmonia e simplicidade” (ZILBERMAN, 2022, p. 13). Celebrar através de suas obras no tempo e espaço deste encontro de vozes “choveu no futuro” na palavra do acontecimento. 34 no mundo e a transgredir, na língua, através do gesto estético. O autor descreve ainda que a poesia é antes de mais nada um convite a esse esforço e a sua prática. Siméon enuncia que a poesia nos revela a realidade ilimitada num real imediato. O poeta tem, nos dedos, esse poder transformador de tirar as palavras do lugar e preencher lacunas com suas traquinagens metáforicas, que enriquecem a poesia. Sua poesia revela esse grau de autoridade de descolar a palavra de seu uso cotidiano. Para Manoel de Barros “o sentido normal das palavras não faz bem ao poema” (BARROS, 2009b, p. 63). Assim, o poeta deseja “que a palavra parede não seja símbolo de obstáculo à liberdade nem de desejos reprimidos nem de proibição na infância [...]” (BARROS, 2009b, p. 51). A poesia ressoa em nós, em nossas memórias afetivas e “[...] é a memória da infância uma possibilidade, embora efêmera, de acordar a criança guardada em nós” (CHAGAS, 2021, p. 21). Desse modo, aprendemos a entender a poesia como brincadeira, como música, polissemia, palavra que corre, salta e pula; a encontrar a ludicidade – inerente ao texto poético. Poesia - espaço para brincar, rir e criar e a infância, um caminho singular de transformação. Diz o poeta: “nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural que os poetas aprenderiam – desde que voltassem às crianças que foram” (BARROS, 2009b, p. 64). Essa concepção vai de encontro à racionalidade adulta que nos faz esquecer da “infância que nos habita, aquela que no espaço mais íntimo fez morada e ressurge, por vezes, num simples gesto, cheiro ou sabor de um tempo que se foi mais ainda está” (DEBUS, 2021). Manoel de Barros, que queria “fazer parte das árvores como os pássaros fazem”, se transfigura pelas palavras em sua poesia. É nas grandezas do ínfimo que o poeta vê a exuberância da natureza e ouve a riqueza da terra. Numa voz mágica, um ninar que desperta o escape de sensibilidade e de consciência da vida. Como aponta Paz (2012, p. 30): A palavra do poema não são pura e simplesmente pedra, cor, palavra: encarnam algo que os transcende e transpassa. Sem perder seus valores primários, seu peso original, são também pontes que nos levam a outra margem, portas que abrem para o outro mundo de significados inexprimíveis pela mera linguagem. Ser ambivalente, a palavra poética é plenamente o que é – ritmo, cor, significado – e, também, é outra coisa: imagem. A poesia transforma a pedra, a cor, a palavra e o som em imagens. A poesia nos arranca das atrocidades, da realidade do mundo. A poesia é a fabulação, que preenche o nosso vazio, nas metáforas que chamam aos questionamentos do mundo e da própria existência. A poesia nos convida à partilha, à liberdade e à inquietação (SIMÉON, 2015; PAZ, 2012). Nessa entrega ao telúrico dentro da palavra, que nos levará como um sopro a um 35 novo sentido. “Deixemos que a poesia nos desvie, nos desconcerte, nos faça sair dos nossos caminhos usuais” (SIMÉON, 2015, p. 43). A poesia purifica o nosso ser, nos embala na essência de nossas experiências. A fibra da poesia é o tecido desse destino. A poesia nos aquece do frio da maldade, da solidão da humanidade. A poesia é o nutriente da consciência humana, uma busca constante do alimento. A poesia é lugar do desassossego e nos faz sonhar (por vezes acordados); é companhia necessária para romper com as amarras dos que/daqueles que nos aprisionam. Como aponta Jean (1989, p. 21) Teremos de insistir energicamente nos poderes da viva voz e no facto de, em toda a poesia, mesmo sob a forma de escrita, permanecer a voz primitiva, a voz original. E para a criança, para o homem em geral, talvez seja necessário hoje em dia reencontrar, através da poesia, a voz para lá da língua, tanto mais que a linguagem poética foi, sem dúvida, a primeira tentativa humana de domesticação, se assim se pode dizer, da voz selvagem. A poesia é o verbo do amor; sua plenitude dá conta do que a palavra silencia, a sua metáfora responde a esse silêncio. A poesia é “um regresso inconsciente ao primeiro grito, uma recordação do primeiro fôlego” (JEAN, 1989, p. 99). Acrescenta ainda o autor que Desde a infância, desde as primeiras canções de embalar e as primeiras cantilenas, a linguagem poética revela ou deveria revelarqualquer coisa que torna cada ser atento ao mundo, à sua própria memória, à descoberta perturbadora do corpo e dos primeiros sentidos e ritmos organicos vitais que uma certa linguagem prolonga, modula, exprime. Pouco a pouco, a poesia proporciona à voz primitiva a possibilidade de usar a palavra como matéria-prima de uma invenção constante de si próprio. Que cada criança, que cada adolescente ou que alguns delesencontrem no dizer poético e na escrita nessas margens essenciais, razões para viverem ou sobreviverem afirmando, sugerindo ou mascarando o grito, o encanto ou o prazer! (JEAN, 1989, p. 242). O poeta rompe com estruturas, seu poder criador esculpe na palavra e perpetua a criação. Escreve com os traços da falta, tece, fio a fio, a contemplação da vida. A fantasia dá espaço ao deslumbramento, a poesia é volúpia que acorda os sentidos, revitaliza, liberta. A poesia desvencilha o nosso olhar inerte, apruma o corpo cansado, desperta a nossa consciência para as origens, para o começo e ressignifica nossas experiências. A poesia, quando explicada deixa de ser poesia “[...] o caráter mais constante da poesia é a sua inconstância, essa sede inextinguível de declinar até o infinito [...]” (SIMÉON, 2015, p. 20-21). A poesia é o lugar do assombro, do medo, das inquietações e do primitivo. “É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia se deixamos de conceber este último como uma forma capaz de ser preenchida com qualquer 36 conteúdo [...]” (PAZ, 2012, p. 22). Assim, afirma que “o poema é mediação entre uma experiência original e um conjunto de atos e experiências posteriores que só adquirem coerência e sentido com relação a essa primeira experiência que o poema consagra” (PAZ, 2012, p. 192). Como resultado desse cotejamento, a poesia prolonga a linha tênue do tempo, cala a nossa razão e ultrapassa os limites da lógica. O poeta tem esse poder transformador de lapidar palavras; suas elucubrações, sua sede, sua fome pousam as palavras em lugares em que somente a fantasia tem lugar. 37 Caderno 2 Pelas veredas da Arquitetônica do Crianceiras Figura 11 - Desenhos de uma voz Fonte: Barros (2021a) 38 2 UM QUINTAL PARA COMPOR O AMANHECER: UMA POLIFONIA NO PERCURSO METODOLÓGICO DA PESQUISA Figura 12 – Caminhantes Fonte: Barros (2013b) A Tela Caminhantes está aqui apresentada no intuito de promover um respiro de pássaros e ao mesmo tempo convidar para um sobrevoo no espaço tempo deste país 16 chamado Projeto Crianceiras, em que no lugar de pesquisadora sinto-me como uma verdadeira caminhante em terras estranhas, no silêncio da escrita da tese que, por vezes, nos leva por caminhos tão árduos e desafiadores da pesquisa. Também compartilho da ideia explicitada por Marília Amorim de que “o pesquisador pretende ser aquele que recebe e acolhe o estranho. Abandona seu território, desloca-se em direção ao país do outro, para construir uma determinada escuta da alteridade, e poder traduzi-la e transmiti-la” (AMORIM, 2004, p. 26). Assim, nos momentos de solitude para a tessitura da tese, o respiro de pássaros era a própria 16 Usamos país no sentido metafórico, em que se pode denominar “o lugar da estranheza do objeto de pesquisa” (AMORIM, 2004). 39 “companhia” do poeta Manoel de Barros, da artista Martha Barros e do Crianceiras. Entre a escuta, a análise, e a reflexão - olhar as imagens poéticas da artista, ler os inúmeros poemas de Manoel de Barros e ouvir os poemas musicados por Márcio De Camillo repetidas vezes me ajudavam a encontrar novamente o passadouro secreto de alteridade entre o eu (pesquisadora) e o outro. A bússola do pesquisador(a) segue o sentido das inquietações que movem, ou melhor, que são moventes da pesquisa. A minha bússola pessoal sempre foi as batidas do coração e a busca por um conhecimento que dialogasse com a Arte, Educação, Poesia e Literatura. Desse modo, esta pesquisa se circunscreve em uma polifonia de vozes que dialoga, sobretudo, no campo limítrofe, nas fronteiras da relação dessas áreas de conhecimento, revelando-se em suas especificidades e singularidades na constituição das pesquisas em ciências humanas, “[...] ciências que tratam do espírito e ciências das letras (a palavra que é ao mesmo tempo parte constitutiva e objeto comum de estudo)” (BAKHTIN, 1992, p. 404). Assim, a pesquisa em ciências humanas se faz por caminhos ignorados, se faz por escutas que revelam a expressividade do ser falante e produtor de textos. Texto entendido, como afirma Bakhtin: [...] no sentido amplo como qualquer conjunto coerente de signos, a ciência das artes (a musicologia, a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). São pensamentos sobre pensamentos, vivências das vivências, palavras sobre palavras, textos sobre textos [...] Independentemente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o texto pode ser o ponto de partida (BAKHTIN, 2011, p. 307). A pesquisa em ciências humanas revela o homem na sua maneira de se comunicar com o mundo diante de seus pensamentos e vivências; é a forma com que se relaciona, suas impressões, sua palavra acerca do movimento da vida. “O acontecimento da vida do texto, isto é, a sua verdadeira essência sempre se desenvolve na fronteira de duas consciências de dois sujeitos” (BAKHTIN, 2011, p. 311). Na pesquisa em ciências humanas o pesquisador não silencia, tampouco o objeto pode ser silenciado, pois o objeto é o ser social (que pensa, fala, age, modifica, com seus atos, suas palavras), interfere no mundo e na vida humana. “O objeto das ciências humanas é o ser expressivo e falante. Esse ser nunca coincide consigo mesmo e por isso é inesgotável em seu sentido e significado” (BAKHTIN, 2011, p. 395). Nesta linha de pensamento explicita Marília Amorim (2002, p. 10): 40 Não é, porém, o homem seu objeto específico, uma vez que este pode ser estudado pela Biologia, pela Etologia etc. O objeto específico das Ciências Humanas é o discurso ou, num sentido mais amplo, a matéria significante. O objeto é um sujeito produtor de discurso e é com seu discurso que lida o pesquisador. No movimento de relações, dos cruzamentos e junções de diversas vozes, como base teórico-metodológica, os estudos do Círculo de Mikhail Mikhailovich Bakhtin. Nesse caminho de reflexão, que permeia o ato de pesquisa, estabeleci o acolhimento das palavras em um constante diálogo de sentidos e horizontes de novas possibilidades de mundo, na compreensão de que “toda palavra (todo signo) de um texto conduz para fora dos limites desse texto. A compreensão é o cotejo de um texto com outros textos. O comentário. Dialogicidade deste cotejo” (BAKHTIN, 1992, p. 404). Nessa linha, o autor explicita que: Compreender é cotejar com outros textos e pensar num contexto novo (no meu contexto, no contexto contemporâneo, no contexto futuro). Contextos presumidos do futuro: a sensação de que estou dando um novo passo de que me movimentei). Etapas da progressão dialógica da compreensão; o ponto de partida - o texto dado, para trás – os contextos passados, para frente – a presunção (e o início) do contexto futuro (BAKHTIN, 1992, p. 404). Vale ainda relembrar que “[...] a palavra cotejo cujo significado dicionarizado é comparação feita entre uma coisa e outra, entre uma pessoa e outra, para buscar suas semelhanças e/ou diferenças tem um grande potencial no interior da obra bakhtiniana” (GIOVANI, 2017, p. 17). Nessa caminhada, estive em diálogo com quatro integrantes do Projeto Crianceiras, ouvindo-os, cotejando seus textos para desvelar e compreender os sentidos do Projeto. O exercício de pesquisadora foi o de escutar as vozes desse outro em suas ações, de modo particular no ensaio de percepções aproximativas do lugar que a poesia ocupa nas sucessivas manifestações/expressões artísticas do Projeto (poemas musicados, espetáculo cênico musical e formação literária). Segundo Ponzio e Miotello (2019, p. 22): A palavra tem que ser plural. Quando um sujeito participa de um diálogo, sua participação cobra uma escuta. Colocar-se na escuta é fundamental, pois cabe ao sujeito responder. Essa é uma das forças da palavra: ela tem potência pra me trazer o outro até mim. Ela é a ponte que liga o outro comigo. A força da palavra é que nela se fala, se diz quem somos, nela se diz o que pensamos [...]. Assim, o caminhante, nas pesquisas em ciências humanas, durante sua busca por vezes, precisa refazer o traçado, (re)planejá-lo, e no processo capturar as diversas vozes, e assumir-se 41 como ser único, de seu próprio lugar singular no espaço-tempo. Desse modo, nessa investigação, o caminho metodológico escolhido foi voltar-se para o outro, escutar com minha pessoa inteira e refletir sobre a arquitetônica entre os participantes nos desdobramentos do Projeto Crianceiras e encontrar as respostas possíveis nessas relações. E nesse dialogismo o espaço-tempo do Projeto Crianceiras poesia na prática (formação literária aos professores das escolas) e Projeto Escola (que culmina na ida das crianças ao Espetáculo Cênico Musical) se entrecruzam. O Projeto Crianceiras surge inicialmente em uma Coletânea poética e institui seus pilares na experiência estética, de fruição literária. Durante as formações expandem-se as fronteiras das vivências e experiências enriquecedoras por meio da palavra literária e da arte, se pode perceber a capacidade do ser humano de construir valores para o seu próprio crescimento afetivo e cognitivo, contribuindo com novas formas e propostas educativas. Neste percurso investigativo realizamos uma análise do discurso das interações dialógicas sobre a produção, circulação e suas recepções do Projeto Crianceiras. Este Projeto tece seus fios nas múltiplas poéticas no encontro da arte como expressão, na arte como conhecimento, na arte como jogo. O músico Márcio De Camillo 17 aceitou o desafio, o qual o poeta Manoel de Barros lhe propôs - conhecer toda a sua obra. A partir desse convite desafiador, o desejo de musicá-la foi semeado. Depois de passar cinco anos estudando suas obras, o nome Crianceiras despontou no horizonte do poema Manoel por Manoel (BARROS, 2018, p. 11). Podemos dizer que seu primeiro amanhecer poético foi há dez anos, idealizado por Márcio De Camillo, e sonhado ao lado de Izabella Maggi 18 . Camillo em sua primeira coletânea poética musicou no período de 2007 à 2009 um conjunto de poemas e alguns versos da vasta obra de Manoel de Barros, que cria por meio da sua poesia, um universo próprio, um discurso autêntico e autorreflexivo. Encontramos em nossa pesquisa a potencialidade da palavra cotejo e seu significado em Bakhtin no sentido de percorrer um “novo caminho para se fazer e/ou pensar a ciência: o cotejo como encaminhamento metodológico no qual o fundamental é justamente desvendar o que se dá em/na relação. Relação do aqui e agora desde o ontem até o amanhã” (GIOVANI, 2017, p. 17-18). Nessa fonte de sentidos (tese) a realidade se renovou e se renova dia a dia. Em cada 17 Um dos sujeitos-participante desta pesquisa. Será melhor detalhado nos capítulos vindouros. 18 Produtora-executiva do Projeto crianceiras/coordenadora da Criatto Produções - sujeito participante da pesquisa. 42 linha desta tessitura da linguagem poética, entrelaçaram-se linguagens de doação nos fios de vozes, memórias e experiências. Com a pesquisa de abordagem dialógica, realizei as entrevistas semiestruturadas com quatro participantes - Márcio De Camillo, Izabella Maggi, Cibelle Rosa, André Luiz Cherubini, que integram a parceria do Projeto Crianceiras. As cadeias discursivas deram-se por meio de áudios via WhatsApp e e-mail. A cada escuta das entrevistas era o/a outro/a na sua fala, o sujeito no seu pensamento, no seu ato responsivo. “O ser da totalidade, o ser da alma humana, o qual se abre livremente ao nosso ato de conhecimento, não pode estar tolhido por esse ato em nenhum momento substancial” (BAKHTIN, 2017a, p. 59). Neste primeiro momento ouvimos a fala sobre o Projeto Crianceiras, pelas lentes de quem acompanha o pulsar poético desde a sua criação. A narrativa do músico Márcio De Camillo, coordenador do projeto Crianceiras, teve como primeiro mote o discurso da Gênese do Crianceiras. A narrativa da coordenadora da Criatto Produções, Izabella Maggi, que traçou as primeiras linhas ao lado de Márcio De Camillo, discorreu acerca da composição do projeto Crianceiras. Por meio da narrativa da participante Cibelle Rosa, arte-educadora do projeto Poesia na Prática, buscamos obter conhecimento sobre o projeto pedagógico, assim como verificamos a relevância dessa formação. Bell Rosa descreveu sobre a difusão do Projeto Escola Crianceiras, que celebra o ciclo de aprendizagem do Projeto Poesia na Prática culminando a formação dos professores na ida das crianças das escolas ao Espetáculo Cênico Musical Manoel de Barros. Nesse evento do existir poesia e infância entrelaçam-se. A narrativa de Luís André Cherubini, em 2020, diretor teatral que idealizou e criou as cenas do Espetáculo Cênico Musical Crianceiras Manoel de Barros, na qual buscamos por revelações dos bastidores da composição das cenas, pensadas a partir do brincar dos intérpretes com as palavras de Manoel de Barros, musicadas por Márcio De Camillo; quiçá a interação com imagens físicas e projetadas a partir das iluminuras da artista Martha Barros. Na condição de professora/pesquisadora participei de encontros das oficinas de formação realizadas pelo Projeto Poesia na Prática no intuito de observar as interações de como se constitui o contexto que viabiliza a circulação dos poemas de Manoel de Barros, mediante essas oficinas de formação que objetivam possibilitar aos professores/as vivenciar experiências práticas e estratégias pedagógicas para incluir a poesia em sala de aula. Os encontros aconteceram em formato virtual/on-line em ciclo de diálogos, em ambientes da plataforma 43 Zoom 19 . Assim, foi possível acompanhar, observar e registrar a formação oferecida pelo Projeto Pedagógico Crianceiras Poesia na Prática aos professores e professoras da Educação Básica. Também foi possível realizar um minucioso levantamento no site oficial do Crianceiras (http://www.crianceiras.com.br), onde o cotejo com outros textos e vozes se fez, possibilitando dados complementares sobre o movimento do Projeto Crianceiras. Assim, a pesquisa foi se delineando neste encontro de vozes que foram estabelecidas nas relações dialógicas. No campo exploratório desta investigação foram recolhidos apontamentos, que evidenciaram o lugar fértil que a poesia pode ocupar na infância e, particularmente, quando consegue ultrapassar/atravessar os muros da escola. Esses achados aconteceram no ambiente do Projeto Escola - Espetáculo Cênico Musical Crianceiras Manoel de Barros quando observadas a participação das crianças na “plateia artista”, no contexto do Espetáculo Cênico Musical Crianceiras Poesias de Manoel de Barros musicadas por Márcio De Camillo. Partindo da singularidade do objeto e da multiplicidade das vozes, que foram ao encontro basilar da nossa investigação, delineamos para o propósito deste trabalho o discurso dos participantes da pesquisa, tomando como eixos principais a interação viva do Projeto Crianceiras. Neste estudo, analisamos em seu percurso o lugar da linguagem poética no cenário educativo, sob a égide da infância. A pesquisa foi realizada em três etapas. Na primeira, foi feito um levantamento inicial de material por meio do site e mídias digitais do Projeto Crianceiras, visando a obter dados já disponíveis, que possibilitassem uma primeira aproximação com a arquitetônica do Projeto, em particular a produção e divulgação das oficinas e espetáculos. A segunda etapa prosseguiu com a observação, de forma mais direcionada, estendendo a coleta de dados para a formação do Projeto Poesia na Prática, conseguinte Projeto Escola Crianceiras e Espetáculo Cênico Musical. A terceira etapa partiu do registro das observações do meu diário de campo. Realizei uma categorização para triangulação dos dados, assim como a Análise do Discurso nas diversas fases da estada no terreno - entrevistas, imagens/vídeos, site e aplicativo. De tal categorização surgiu uma lista de episódios, que foram analisados dentro dos contextos fundamentais, em respostas as minhas questões iniciais de investigação: Qual o lugar da poesia na infância? 19 Ressalta-se que no projeto inicial a proposta era acompanhar presencialmente as oficinas de formação do Projeto Poesia na Prática. Mas outro percurso precisou ser tomado devido à pandemia da COVID 19 (2020/2021). 50 musical, materializado no encarte do CD, juntamente chamaremos Álbum, quando nos referirmos à materialização da Coletânea Poética em CD. Com um CD que ilustra sonoramente os textos que os textos que o livro guarda e que permite a audição em contextos tão diversificados como o jardim-de-infância ou o quotidiano familiar/doméstico, por exemplo, ampliando, portanto as hipóteses de vivência da palavra poética, este é um recurso de utilização lúdica que constitui um meio feliz de contacto precoce com a poesia e com a música (SILVA, 2018, p. 49). Deste modo, os poemas que integram a Coletânea Crianceiras poesias de Manoel de Barros exploram as potencialidades sonoras, rítmicas e melódicas próprias de cada poema e, assim, salientam a brincadeira com as palavras presente em cada poema singular; o universo interior da criança, o nonsense e a reinvenção da língua próprios dos poemas de Manoel de Barros. Mésseder nos lembra que: [...] como se sabe também, desde as “rimas infantis”da tradição oral até à produção contemprorânea, a chamada poesia para a infância nunca deixou de tirar partido desta dimensão fónico-rítimica como forma de cativar a criança, de lhe falar, em simultâneo, ao ouvido, ao corpo, ao coração. A rima, o ritmo, o jogo linguístico ao nível das sonoridades, atraem os mais novos e continuam a ser estratégias utilizadas para os conquistar para a poesia e para sua fruição (MÉSSEDER, 2017, p. 80). Diante disso, podemos salientar que o contato, o acesso ao texto poético pode vir ao encontro das crianças desde muito cedo pela escuta das canções e dos poemas musicados e que “[...] o contato com a palavra poética contribui para um olhar atento e sensível para as pequenas e grandes coisas que nos rodeiam, para o eu e para o outro, para além do contato com a beleza da palavra escritas em diferentes tons (rima, ritmo, figuras de linguagem, entre outros)” (DEBUS, 2016, p. 152). Ao musicalizar os poemas, dirigidos preferencialmente, mas não exclusivamente às crianças, Márcio De Camillo musicou poemas de diferentes épocas, realizando um encontro com a poética da vida e da obra e com a música das palavras. Mésseder (2017, p. 78) compreende que a música das palavras é: [...] uma expressão de significado múltiplo. Por um lado, sublinha uma evidência: o caráter rítmico-musical de toda poesia, que lhe advém do facto de ser linguagem verbal com especial investimento no plano fónico-rítmico. Refiro-me a recursos poético-musicais como a própria disposição versificada, a rima, a métrica e o ritmo, as aliterações e assonâncias [...]. São apenas alguns dos muitos recursos que a escrita utiliza para, digamos assim, fazer música com as palavras. 51 Assim, Márcio de Camillo escuta a música das palavras e seguindo o “inventacionismo” poético de Manoel de Barros, seleciona os poemas e organiza a Coletânea Crianceiras, sempre a brincar com as palavras inventadas de Manoel de Barros. Para Silva (2018), “durante vários séculos, a música (o som) e os textos (a palavra) foram indissociáveis e, por isso, os escritos compostos em verso para as canções emitiam lirismo. Verifica-se, assim que a poesia, na sua origem, se encontra estreitamente ligada à musicalidade”. Nestas linhas delinearemos as paisagens dos poemas musicados que constituiu a coletânea poética, resultado do processo de estudo e imersão de Márcio de Camillo com a obra de Manoel de Barros, sem nos prender às análises das obras, uma vez que esse não é o objeto de investigação desta tese, mas damos importância e relevância as obras que foram a materialidade do músico para “compor o seu amannhecer”, no intuito de delinear o desenho, o traçado poético realizado por Camillo na relação com a obra no seu processo de criação e musicalização para os poemas. Mésseder (2017, p. 78) diz que “a música é uma companheira das palavras e vice-versa, e penso que os meninos compreendem isso – além de terem a oportunidade de ler mais e de ficarem a conhecer melhor a obra de um criador literário”. Partindo desse entendimento, consideramos importante apresentar as obras das quais os poemas e versos foram extraídos e musicados. Em destaque, um breve diálogo sobre as obras que deram vida ao que denominamos dessa primeira fase do processo de estudo, pesquisa e criação de Camillo - Coletânea poética Crianceiras. Tendo em vista, a relevância da apresentação no arrebol da poética de Manoel de Barros, que iluminou o músico Márcio De Camillo em sua arte. A Coletânea Poética No movimento de apresentar as obras de que os poemas foram musicados, iniciamos com o poema “Bernardo”, primeira canção da Coletânea Poética materializada no conteúdo do encarte do CD. Na sequência seguiremos no ritmo de apresentação dos poemas musicados cotejando com as obras de Manoel de Barros que foram a materialidade poética da musicalização. Assim realizamos uma apresentação das obras no intuito de tornar conhecido o processo de imersão de Márcio De Camillo em seu mergulho poético. Marcio De Camillo, constitui a seguinte sequência no que denominamos Coletãnea Poética Crianceiras, apresentadas seguindo o ritmo: Poema e obra onde o poema foi coletado. A saber: 52 Bernardo Figura 14 - Capa O fazedor de amanhecer Fonte: Barros (2017a) Bernardo Bernardo já estava uma árvore quando eu o conheci. Passarinhos já construíam casas na palha do seu chapéu. Brisas carregavam borboletas para o seu paletó. E os cachorros usavam fazer de poste as suas pernas. Quando estávamos todos acostumados com aquele bernardo-árvore Ele bateu asas e avoou. Virou passarinho. Foi para o meio do cerrado ser um arãquã. Sempre ele dizia que o seu maior sonho era ser um arãquã para compor o amanhecer. (BARROS, 2017a, p. 27). O poema “Bernardo”, que inicia este trilhar poético pelos poemas musicados da Coletânea Crianceiras, compõe a Obra O Fazedor de Amanhecer que coloriu os silêncios desde sua primeira edição em 2001 pela editora Salamandra (Editora Moderna). Essa obra recebeu o Prêmio Jabuti em 2002, como o Livro do Ano na categoria ficção. O Menino ilustrador Ziraldo não resistiu ao convite do Menino poeta Barros para ilustrar seu livro. Barros, que viveu em um eterno mundo do “inventacionismo”, declara: “na estrada ponho meu corpo a ventos. Aves me reconhecem pelo andar” (BARROS, 2017a, p. 22). Nessa obra, cada poema nos embala em memórias da infância. No fazer de conta que “sapo é pedra”, que menino é tatu... e tudo eras. O menino poeta anuncia os achados de sua existência: “Uma pequena manivela para pegar no 53 sono”; “Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas”; “E um platinado de mandioca para fordeco de meu irmão” (BARROS, 2017a, p. 13). O livro apresenta, nos elementos pós-textuais, uma breve descrição de Barros por Márcio Vassallo e do ilustrador por Pascoal Soto. E na contracapa Soto faz também uma breve apresentação do livro através da síntese de uma carta. Ainda nessa obra, a arte de Ziraldo dialoga com os “delírios verbais” de Manoel de Barros. As palavras andarilhas com ar de espanto despertam pedra, árvore e as brisas carregam borboletas para o paletó de Bernardo, que por sua vez, sonha em “ser um arãquã, para compor o amanhecer” (BARROS, 2017a, p. 27). Os “meninos maluquinhos” (Barros e Ziraldo) nos convidam à "amplidão" da imaginação, a ver com olhos da infância e fazer de conta que tudo “eras”. “Então é tudo faz de conta como antes?”, pergunta o poeta (BARROS, 2017a, p. 14). Sombra boa (Sonata ao Luar) e Se Achante Figura 15 - Capa Poemas Rupestres Fonte: Barros (2004b) Sombra boa (Sonata ao Luar) Sombra Boa não tinha e-mail. Escreveu um bilhete: Maria me espera debaixo do ingazeiro quando a lua tiver arta. Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro e atiçou: Vai, Ramela, passa! Ramela alcançou a cozinha num átimo. Maria leu e sorriu. Quando a lua ficou arta Maria estava. 54 E o amor se fez Sob um luar sem defeito de abril (BARROS, 2004b, p. 33) Se achante Era um caranguejo muito se achante. Ele se achava idôneo para flor. Passava por nossa casa Sem nem olhar de lado. Parece que estava montado num coche de princesa. Ia bem devagar Conforme o protocolo A fim de receber aplausos. Muito achante demais. Nem parou para comer goiaba. (Acho que quem anda de coche Não come goiaba.) Ia como se fosse tomar posse de deputado. Mas o coche quebrou E o caranguejo voltou a ser idôneo para mangue (BARROS, 2004b, p. 31). Estes poemas que foram musicados fazem parte do livro Poemas Rupestres, de 2004, em que Manoel de Barros tece suas memórias de infância com a inventividade que lhe é singular e nos apresenta o lugar onde morava quando menino. Aborda o cotidiano das crianças daquele local cheios de brincadeiras e traquinagens. Poemas Rupestres divide-se em três partes: em suas nascentes de “Canção do Ver”, “Desenho de uma voz” e “Carnaval”, estas enredaram os “desacontecimentos” que “causam distúrbios no idioma”. Nesse livro, “as palavras eram livres de gramáticas” e “podiam ficar em qualquer posição”. “Com aquela sua maneira de sol entrar em casa” em que Barros envereda pelos “vareios no olhar as coisas”. E assim, os poemas “Se achante” (p. 31) e “Sombra Boa”, com o título original no livro de Sonata ao Luar (p. 33), desabrem na Coletânea Poética Crianceiras “Sob um luar sem defeito de abril”. No segundo poema musicado foi a vez de apresentar na Coletânea Crianceiras “um caranguejo idôneo para flor” até se achar “idôneo para mangue”. Vale ainda dizer que nesse livro Barros, com a “pedra canora”, redescobre as infinitudes da palavra, na harmonia em seu lapidar estético e poético, e revela o ínfimo e as grandezas de quem “pegou um olhar de pássaro. O menino Manoel “contraiu visão Fontana” e enxergava “antigamentos” - Como se fosse a infância da língua”, naquele inaugurar das palavras. Na “carta-orelha ou orelha-carta”, Paulinho Assunção colore as palavras em tom poético numa “conversa quase em ararês” dirigindo-se ao poeta como amigo, transgride qualquer tipo de comentário analítico e os compassos de crítica. Assunção escolhe a trilha do afeto e o gênero carta para registrar memórias de lembranças, do sobressaltos e espantos que lhe acontece como 55 leitor da obra de Manoel e também com outros leitores. Algumas dessas lembranças são indagações que acontecia na redação ao receber os poemas de Manoel: [...] “quem era aquele capaz de flagrar os primeiros rumores da língua, da ‘infância da língua’?” [...]. E acrescenta Paulinho Assunção que é preciso dizer, deixar escrito que [...] todos nós nos desabrimos em outras pessoas diante da sua poesia Manoel. E muito mais eu aqui escreveria diante desses desenhos de voz e letra rupestres. Rupestres, pois gravados sempre na primeira-página rocha dos primeiros poetas; rupestres, pois concretos, sempre substantivos, já que não há nada mais substantivo do que a letra.[...] Rupestres, enfim, porque a sua poesia reencena, com a constância sempre necessária de um dia após o outro, de um livro depois do outro, os instantes em que as coisas nascem. Reencenações das pré-coisas. Hoje ou ontem; no Pantanal ou em Altamira e Lascaux. É como se o seu olhar travesso, moleque, peralta, movido pela “canção de ver”, bisbilhotasse o por detrás dos biombos onde as palavras trocam de roupa, mudam de pele, chocam seus ovos e saem da muda para o canto. Só que você avisa com sapiência: “Mas é pelo tato/ que a fonte do amor se abre” (ASSUNÇÃO, 2004, s.p). As iluminuras da artista Martha Barros pincelaram a capa e riscaram as apresentações de cada capítulo, como quem “pintava nas pedras a voz” (ASSUNÇÃO, 2004). Linhas tortas Figura 16 - Capa Livro sobre nada Fonte: Barros (2002) Linhas tortas (Poema sem título) 2. Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc ploc toc ploc. Ele era um destaque. Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc. 56 Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu (BARROS, 2002. p. 39). “Linhas Tortas", terceiro poema musicado da Coletânea Poética Crianceiras (no original o poema está sem título na p. 39), consta na obra O Livro Sobre Nada - 1ª edição, lançada em 1996 pela Editora Record. Antes dessa edição, a Record publicou nove obras do poeta Manoel de Barros. Apresentada por Lucia Castello Branco, tendo Pássaros na madrugada, de Wega Nery como ilustração da capa. O livro foi considerado um dos mais importantes trabalhos de Manoel de Barros, recebendo o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira em 1997, na categoria Poeta Consagrado. Os poemas nesta edição são encontrados em quatro partes: “Arte de infantilizar formigas”; “Desejar ser”; “O livro sobre nada”; “Os Outros: o melhor de mim sou Eles”. E no “Pretexto” do livro, Barros evidencia que o nada pode ser “[...] um alarme para o silêncio, um abridor de amanhece, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc., etc” (BARROS, 2002, p. 07). Quando decidiu escrever um Livro sobre nada Manoel de Barros bem sabia que as inutilidades, o vazio, o solitário, as insignificâncias da vida, têm lugar na poesia. A natureza ecoa nas frases de seus poemas, o ser andarilho reverbera em sua essência pantaneira. O desejar ser do poeta reorganiza-se e reestrutura-se de dentro para fora e de fora para dentro. Barros descobriu na infância um truque de fazer brinquedos com as palavras e tudo que use o abandono por dentro e por fora faz um chamamento para acordar-se para dentro. Lúcia Castello Branco, em sua apresentação (nas orelhas) assim destaca: [...] Trata-se, afinal, de um livro sobre nada. E nessa dimensão do nada não metafísico, do nada que é coisa nenhuma por escrito, esse sujeito que avança para o começo esbarra, inevitavelmente, numa espécie de umbigo da memória, em que toda significação estanca. Desse lugar nada mais se pode dizer, a não ser reiventado-o, ficcionalizando-o. Ou, quem sabe, reduzindo-o, através desse gesto de rasura que a segunda mão efetua, à sua face coisal, à peremptoriedade da coisa mesma, ou do nada a que a coisa, em sua coisidade se reduz (BRANCO, 2002, n.p. – grifos da autora). O livro é um convite a poética barreana em que o leitor vai se encontrar com aprender e “desaprender” a ler e desler as letras. Ele vai, como sugere Lúcia Castello Branco: [...] advinhar, diviná-las. Escrevê-las, quem sabe, como um escriba que não sabe ler, mas que se abandona às artes e ofícios de um estilete que sulca, no esquecimento e no abandono, o estilo, esse modelo anormal de expressão, estigma que o traço do poeta inscreve na pedra, na relva, na árvore – nas páginas de um livro sobre nada (BRANCO, 2002, n.p.). 57 Seguimos com o poema musicado “O Menino e o Rio”, que brinca com os versos dos fios de orvalho das obras de Manoel de Barros e nos convida a embarcar em uma viagem pelos “deslimites” poéticos das Obras: Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo; Memórias Inventadas para Crianças e Livro Sobre Nada. “O Menino e o rio” recebeu esse título do próprio poeta. Abaixo a compilação dos versos tal qual foram musicados: O Menino e o rio O corpo do rio prateia Quando a lua Se abre (BARROS, 2005b, p. 56). Passarinhos do mato gostam de mim e de goiaba (BARROS, 2005b, p.53). Uma rã me benzeu com as mãos na água (BARROS, 2005b, p. 53). Com fios de orvalho aranhas tecem a madrugada (BARROS, 2005b, p. 58). *** Era o menino e os bichinhos Era o menino e o sol O menino e o rio Era o menino e as árvores. Cresci brincando no chão entre formigas (BARROS, 2010b, p. 30). Meu quintal é maior do que o mundo (BARROS, 2010b, p. 13). *** Por dentro de nossa casa passava um rio inventado (BARROS, 2002, p. 11) Tudo que não invento é falso (BARROS, 2002, p. 67) *** Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores (BARROS, 2010b, p. 30). É a quarta canção da Coletânea e que dá uma ideia de ser um único poema, mas “na verdade é um mosaico de versos”, explica Márcio De Camillo. Para essa composição, o músico 58 selecionou três livro de Manoel de Barros, a saber: Tratado Geral Das Grandezas Do Ínfimo; Memórias Inventadas para crianças; Livro sobre Nada (já mencionado acima). Márcio selecionou versos de cada um desses livros e perguntou: “poeta posso juntar versos?” E Barros lhe disse: “Márcio a obra também é sua, só não invente palavras porque isso eu já fiz” (CRIANCEIRAS, 2012c). Acrescenta o músico que ele “cantou nesse mosaico de versos as raízes crianceiras de Manoel de Barros”. Revela o músico que sua influência musical para musicar esse conjunto de versos foi o ritmo da Bossa Nova, principalmente um artista que ele considera ser muito importante na Música Popular Brasileira – Tom Jobim. Márcio referese principalmente a canção intitulada Chovendo na Roseira 24 que o influenciou nesta composição musical. As obras aqui serão apresentadas na mesma sequência em que o poema foi musicado: Figura 17 - Capa Tratado geral das grandezas do ínfimo Fonte: Barros (2005b) Figura 18 - Capa Memórias inventadas para crianças Fonte: Barros (2010b) 24 Canção Chovendo na Roseira: Letrista: Antonio Carlos Jobim / Versionista: Gene Lees. Data: 1974. 59 Figura 19 - Capa Livro sobre nada Fonte: Barros (2002) O livro Tratado geral das grandezas do ínfimo é composto de duas partes: do próprio “Tratado geral das grandezas do ínfimo” e “O livro de Bernardo”. Os versos selecionados por Márcio De Camillo constituem essa segunda parte. O texto por Ana Miranda, que compõe as orelhas do livro faz o chamamento para realizar o voo no dorso de um passarinho e sentir sua pulsação no ritmo desse encontro poema, poeta, passarinho e leitor e encontrar “todo o sentimento do mundo” entre o real e o ficcional. Nos olhos do passarinho tudo está, e o que é visto lá do alto no voo explica tudo tanto que o mistério do mistério abrirá o seu coração por palavras que são chaves que abrem amores e lágrimas, e as palavras que ainda não nasceram e sâo todo o impossível da vida e são a vida em orvalho, rastros, ventos, sonhos. [...] depois de voar no voo deste passarinho você vai saber voar , você vai não saber o que sabe um passarinho mas ao menos vai saber o que sabe ser. Ele é tão inspirador, o nosso passarinho, que no convite da açucena a noite já estará pronta, prontinha, palavra por palavra, linha por linha. E você, em estado de passarinho (MIRANDA, 2005, n.p.). É preciso não fazer razão para ver “uma estrela pousada nas pétalas da noite”. No sobrevoo pelas grandezas do ínfimo é preciso descobrir “as insignificâncias”. E descobrir que para os “escutamentos” do Livro de Bernardo era preciso ouvir as inexistências: “ouvir as vozes do chão”; “ouvir o perfume das cores” e ver o “silêncio das formas” (BARROS, 2005b, p. 31). “E achei que esta história só caberia no impossível. Mas, não; ela cabe aqui também” (BARROS, 2005b, p. 31) “A gente só chega ao fim quando o fim chega! [...] Eu, por certo, não saberei medir a importância das coisas: alguém sabe?” (BARROS, 2005b, p. 33;35). “Poesia é uma graça verbal” (BARROS, 2005b, p. 23). A capa de Tratado geral das grandezas do ínfimo é composta pela poesia imagética de Martha Barros. 66 Figura 25 - Capa Para encontrar o azul eu uso pássaros Fonte: Barros (1999c) O silêncio branco. A elegância e o branco devem muito às garças. Elas chegam de onde a beleza nasceu? As garças dormem na beira da cor. Têm estes pernaltas a incumbência de enfeitar os brejos. Quem pode saber mais do êxtase destes sáurios do que as garças? A elegância da garça desabrochada no brejo (BARROS, 1999c, n.p.) Figura 26 - Capa Livro de pré-coisas Fonte: Barros (1997) A Elegância e o Branco devem muito às garças. Chegam de onde a beleza nasceu? (BARROS, 1997, p. 93). Os “Rios começam a dormir” e “O Silêncio Branco” finalizam este mosaico poético. A concatenação de elementos díspares como forma de expressão de um modo inédito e singular de ver o mundo. Duas obras são referências: Para encontrar o azul eu uso pássaros (1999c) e Livro de Pré-coisas (1997). 67 Na obra Para encontrar o azul eu uso pássaros neste encontro metafórico, pelas lentes de Asa Roy e Osmar Onofre, e atravessadas pela paisagem no arrebol poético de Manoel de Barros, promovem um chamamento ao universo ambivalente e transformador que reflete a poética barreana. Na sua matéria de poesia, “Terra e água se entram amorosamente” nesse encontro com cheiro de terra molhada, “borboletas desabertas em forma de pássaro”, cada palavra esculpida nas bromélias possibilitam a amplidão dos sentidos pela “ternura das águas”. O Livro de Pré-coisas faz uma incursão aos “deslimites de transfazer poético”. No acautelar do “anúncio” está escrito: “Este não é um livro sobre o Pantanal - Seria antes uma anunciação. Enunciados como que constativos. Manchas. Nódoas de imagens. Festejos de linguagem” (BARROS, 1997, p. 09). Neste amanhecer pelos mistérios das pré-coisas da poesia, “As ruínas dão árvores!”. Destaca Douglas Diegues que: O Livros de pré-coisas, onde o poeta Manoel de Barros nos entrega o Pantanal mais íntimo, essencial, invisível, anônimo, secreto e primordial, em seus momentos de alta irradiação poética é como uma cerimônia solar, anterior a toda leitura com fins e modos literários (DIEGUES, 1997, n.p.). Em um inaugurar polifônico as paisagens ganham “Cenários” de esplendores inominados. Nessa “existidura” sem limites a “grandura” da palavra se renova. “Quando os meus olhos estão sujos da civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves” (BARROS, 1997, p. 12). O processo de musicar os poemas foi realizado sem pressa, como foi também realizada a obra: sem pressa, como geralmente se pode perceber dos processos de construção/produção de uma obra. Assim foi o processo de criação do Projeto Crianceiras, um fazer com calma, na leitura profunda dos poemas, numa relação direta. Cada vez que uma música era criada, era apresentada ao poeta e se ficava à espera da sua aprovação ou não. Assim nasceu o Projeto Crianceiras 27 – Poemas Manoel de Barros, iniciado com um profundo trabalho de pesquisa e materializado na gravação de um álbum. O desejo desta homenagem também foi o mote desse primeiro trabalho. Salienta Márcio De Camillo que diz: “[...] ao mergulhar em sua obra eu percebi o quanto era lúdico aquele universo de encantamentos e descobertas vividas pelo poeta na sua infância pantaneira. Assim, surgiu a 27 O Crianceiras é um projeto de musicalização a partir da Obra de grandes poetas brasileiros, inicia-se com Manoel de Barros, posteriormente com Mário Quintana e conta com outros projetos em andamento. Mas neste trabalho, como já mencionado, abordaremos somente sobre o Projeto Crianceiras Manoel de Barros. 68 ideia de musicar para o público infantil a obra desse grande poeta. De criar uma ponte entre a melodia e a poesia”. O desejo de construir a “ponte entre a melodia e a poesia” possibilitou a Camillo tomar emprestado a voz do poeta (mediante seus poemas) e reuniu múltiplas vozes (do poeta, a sua voz como músico e ainda a do desejo do ouvinte). Explicita Oliveira (2016, p. 87) que O sujeito cancional só se permite ouvir no instante-já da canção. Ele amalgama a voz do compositor, a voz do sujeito da canção (a voz que “fala” a mensagem da letra da canção) e a voz do desejo do ouvinte. E se descola de todos estes quando permite a fruição, bem como a possível significação, pessoal e intransferível da canção. Assim, na sequência deste caderno, objetivamos apresentar o trabalho de musicar a palavra escrita acerca da materialização do Álbum Crianceiras, dialogando com as palavras de Camillo sobre seu processo de criação, entrelaçadas com suas conversas com Manoel de Barros. O Álbum Crianceiras Manoel de Barros bem desejou que suas palavras fossem desabertas na margem do rio e que fizessem parte do chão para que pudessem ouvir as origens da terra. Aqui nessa paisagem de palavras apresentamos o corpus selecionado, que compõe o primeiro Álbum Crianceiras – Poesias de Manoel de Barros Musicadas por Márcio De Camillo, com ilustrações de Martha Barros. Temos o propósito de compartilhar os achados dessa valiosa produção datada do ano de 2012 – lançado em compact disc de forma independente pela Criatto produções. No diálogo entre palavra escrita e palavra cantada, discorremos sobre o processo de composição do Álbum, o encarte do CD e a gravação no estúdio da apresentação dos respectivos participantes que assinam a autoria desse movimento. 69 Figura 27 - Álbum Crianceiras (Parte A) Fonte: Crianceiras (2011b) No Projeto Crianceiras, como já mencionado, Márcio De Camillo ao mergulhar na essência da poesia barreana torna suas canções ritmadas ao som da natureza e paisagens de encantamento, e beleza. O ato responsável e ético do musicista/cancionista 28 com a poesia perpassou todo o processo de composição do álbum. Foi necessário um trabalho muito cuidadoso com cada palavra, com cada verso, com cada poema. Izabella Maggi foi uma das responsáveis por revisar a primeira versão da Coletânea ajudando a obter um olhar atento às marcas de fidelidade no ato responsável e ético do trabalho coletivo e em parceria. “Foi um trabalho denso, difícil e ao mesmo tempo prazeroso cantar os poemas de Manoel de Barros”, assinalou Camillo em sua entrevista. Foi um trabalho que se objetivou e se realizou com muito cuidado, respeito desde a pesquisa e seleção dos poemas e versos para a organização da Coletânea - como primeiro processo de criação - até na sequência o álbum como um todo. Sobre seu trabalho de musicar os poemas, ele diz que “o mais importante é encontrar a métrica, porque (eu) jamais poderia mudar alguma coisa na obra do Manoel de Barros”. Assim Camillo encontrou a essência do poema, a sua forma, a sua musicalidade intrínseca. Desse modo, com o aval do poeta e com suas lembranças dos diálogos férteis com ele, Camillo musicou os poemas de Barros, traduzindo a linguagem verbal (os poemas escritos) em linguagem cancional. Tomamos esse termo pela explicação dada por Oliveira quando diz: 28 Utilizaremos em alguns momentos o termo cancionista como conceito usado para todas as pessoas ligadas à canção – o cantor, o instrumentista, até o ouvinte. Os cancionistas - peritos na técnica de integrar melodia e letra. 70 A canção só é no instante-já da emissão-audição, que é quando surge o sujeito cancional. [...] Por sua vez, a versão instrumental de uma canção é música, é trabalho do musicista, não do cancionista (que pode acumular funções), deixou de ser canção, já que suprimiu a voz de alguém cantando. Canção é performance vocal calcada na intencionalidade do emissor e na necessidade do receptor. Essa definição, obviamente, difere, por questões contextuais, sociais, éticas e estéticas [...] (OLIVEIRA, 2016, p. 89-90). Seguindo essa linha de pensamento, em nosso entendimento, Camillo acumulou as funções de musicista e cancionista e no diálogo intenso com Barros selecionou e musicou os poemas para o Álbum Crianceiras Manoel de Barros. Assim, também a canção, na perspectiva dialógica, pode ser entendida como enunciado ideológico que apresenta a materialidade verbal (constituída pela letra do poema) e a musical (concretizada pelos elementos musicais que a constituem: melodia, harmonia, ritmo, acompanhamento, entre outros) que se constitui numa interação. Diz Camillo: “[...] uma vez, quando eu estava fazendo a canção Sabastião, eu tinha ideia de cantar várias vezes, o que eu considerava um refrão. Eu perguntei: Manoel, o que eu posso fazer? Ele disse: A Obra é sua! Faça o que você quiser! Apenas não invente palavras, porque isso eu já fiz. Então, o Manoel me deixou muito à vontade. Eu tinha como meta, jamais, mudar a forma como o poeta havia colocado sua poesia no papel, porque eu tenho certeza de que ele havia pensado nisso. Eu não queria mudar nem a vírgula. O objetivo era sair do livro de poesia para o CD da maneira mais pura possível, da maneira mais correta, respeitando a obra do poeta”. Camillo menciona que no trabalho de pesquisa dos poemas, para musicá-los foi necessário “juntar” vários poemas, exemplo disso: “Silêncio Branco”, “O idioma das árvores”, “Os rios começam a dormir” e “O menino e o rio” (junção de vários versos). Sobre essa última canção, Camillo revela que: “[...] do retorno da Espanha, eu queria fazer uma música que fosse uma homenagem a Manoel. Era a décima canção. Já havia o desejo de fazer o CD com dez canções. Mas eu não achava a melodia. Até que um dia eu achei a melodia antiga que é a melodia do poema "O Menino e o rio”, que muitas pessoas acham que é um poema só. Mas, na verdade, são vários versos colhidos de vários livros e, para mim, eu traduzo o poeta nessa canção “O menino e o rio”. Percebe-se nessa fala de Camillo seu profundo trabalho de pesquisa dos poemas e, sobretudo, o trabalho de identificação do som da palavra poética, a sonoridade, subjacente em cada verso oriundo dos poemas de Manoel de Barros. Esse processo vai se constituindo ao 71 longo de seu trabalho de mergulho no estudo, de percepção, de sua prática de compor em diálogo com a obra. Com base em Oliveira (2016, p. 90), podemos arriscar a dizer que Camillo “encontra uma forma-canção ao capturar uma das possíveis dinâmicas vocais do texto”; em nosso entendimento: [...] localiza a abertura para a ponte que liga uma linguagem (palavra escrita) à outra (palavra cantada), posto que as linguagens estejam sempre negando suas autossuficiências. Nesse sentido, uma está sempre aberta à outra, puxando a outra, supondo a outra. Memória e imaginação são mecanismos utilizados pelo cancionista a fim de “melhor cantar”. [...] A canção é voz. Não saber sobre o que a letra trata também é um modo de ouvir canção. Dançar é outro jeito de ouvir. Viajar no som também. A palavra-som já basta. Não é preciso a palavra-sentido. Feito desse modo, o gesto de “musicar um poema” é, em si, uma teorização do próprio gesto, um ordenamento, uma posição ética, um investimento estético [...] (OLIVEIRA, 2016, p. 90). Reconhecemos que foi um imenso e profundo trabalho o de materializar a sonoridade na letra do poema, criando uma melodia que possibilitasse, por meio do Álbum Crianceiras, o acesso e o direito às diversas crianças de ouvir e cantar os poemas de Manoel. Assim, podemos também olhar para a canção como um gênero discursivo, levando em consideração seus elementos constitutivos: o conteúdo temático, o estilo individual, a construção composicional (forma composicional ou composição), a forma arquitetônica e autoria. Bakhtin explica que: Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciado, os quais denominados gêneros do discurso (BAKHTIN, 2011, p. 261-262). Explicita ainda que: Todo enunciado é um elo na cadeia da comunicação discursiva. É a posição ativa do falante nesse ou naquele campo do objeto e do sentido. Por isso cada enunciado se caracteriza, antes de tudo, por um determinado conteúdo semântico-objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros de discurso é determinada, antes de tudo, pelas tarefas (pela ideia) do sujeito do discurso (ou autor) centradas no objeto e no sentido. É o primeiro elemento do enunciado que determina as suas peculiaridades estilísticocomposicionais (BAKHTIN, 2011, p. 289). O conhecimento sobre a sonoridade na poesia, identificar o som da palavra, a melodia, o ritmo, tendo o cuidado de não deslocar a sílaba tônica das palavras de cada verso para não perder o sentido; tem a ver também com o sentimento provocado pela evocação da própria 72 palavra poética. Camillo encontrou a correspondência autêntica entre a musicalidade e os poemas sem perder o dizer do próprio poeta em sua poesia. E ao cantar os poemas entoa a palavra poética, estabelecendo o elo entre o falante e os ouvintes, na relação com a palavra viva, em movimento. A entonação é social. Diz Volóchinov (2013, p. 81) que ela “estabelece um vínculo estreito entre a palavra e o contexto extraverbal, a entonação viva parece conduzir a palavra além das fronteiras verbais”. É a palavra em contato direto com a própria vida. A entonação “parece bombear a energia de uma situação vital à palavra, e atribui a tudo o que é linguisticamente estável uma dinamicidade histórica viva e uma unicidade irrepetível” (VOLÓCHINOV, 2013, p. 86). Volóchinov também discute esse conceito, trazendo diferenciação da enunciação verbal artística - uma obra poética acabada – de uma enunciação cotidiana. Ele diz que: Desde o princípio está claro que em uma enunciação literária a palavra não se encontra, nem pode se encontrar, na mesma dependência estreita de todas as situações do contexto extraverbal, do todo imediatamente visível e conhecido como acontece na vida. Uma obra poética não pode se apoiar nas coisas e nos acontecimentos circundantes mais próximos como em algo subentendido, sem introduzir uma só alusão a eles na parte verbal da enunciação. Deste ponto de vista, à literatura se demandam, desde logo, solicitações muito maiores: muitas coisas, que na vida ficaram fora do cenário da enunciação, agora devem encontrar um representante verbal. Deste ponto de vista prático-objetal, em uma obra artística não deve haver coisas não-ditas (VOLÓCHINOV, 2013, p. 87). Com base nessa linha de pensamento, compreendemos que Camillo, no seu processo criador de musicar os poemas de Manoel de Barros, não desvincula a estrutura interna da obra artística de seu meio social. Ele captura a relação dialógica entre o interno e o externo da obra entrelaçada com o contexto na enunciação da vida. E, influenciado por todo esse movimento, gera uma resposta através do material formal como acontecimento da criação no elo da comunicação viva, na concepção de arte como indispensável no meio social. Salienta Volóchinov (2013, p. 88): [...] se pode dizer que uma obra artística é um potente condensador de valorações sociais não expressadas: cada palavra está impregnada delas. São justamente essas valorações sociais as que organizam a forma artística enquanto sua expressão imediata. Acima de tudo, as valorações determinam a seleção das palavras pelo autor e a percepção desta seleção (co-eleição) pelo ouvinte [...]. Salientamos que esse trabalho de musicar os poemas é sem dúvida um casamento difícil. Parafraseando Siméon (2015), exigiu intuição e domínio técnico e o resultado foi a produção 73 de uma obra rara e emocionante, que “contribui para promover aquilo com que sonhamos: uma poesia grande partilhada por todos” (SIMÉON, 2015, p. 129) ou, para também usar um termo bakthiniano, produziu um endereçamento, pois as canções pressupõem uma audiência, uma esfera de recepção em que o compositor, comprometido com um projeto discursivo concreto, materializa e executa as canções num espaço e tempo reais. O Álbum Crianceiras foi composto por dez poemas de Manoel de Barros. São eles: Bernardo; Sombra Boa; Linhas tortas; O menino e o Rio; Sabastião; O Idioma das Árvores; Um Bem Te Vi; Se Achante; Os Rios Começam a Dormir; O Silêncio Branco. São aproximadamente vinte e cinco minutos de poemas musicados de Manoel de Barros que apresentam personagens e histórias com possibilidades de identificação das crianças ao ouvirem os poemas. Assim, o Álbum ganha forma, tons e cores com as ilustrações da artista plástica Martha Barros 29 . “Em vez de mera tradução visual do texto, a ilustração que hoje se faz cria um ‘enredo’ paralelo, complementar, e cumpre, assim, o que lhe foi atribuído desde a origem da palavra – o de ilustrar, ou seja, iluminar aquilo que está escrito” (SOUZA, 2012, p. 19). O poeta Manoel de Barros definiu as ilustrações da filha como iluminuras e completou: “as imagens são palavras que nos faltaram”. Figura 28 - Álbum Crianceiras Capa e contracapa Fonte: Crianceiras (2011b) A “cara visual” do Projeto Crianceiras foi buscada na própria obra de Manoel de Barros. “Quem traduziu melhor em imagem as palavras de Manoel de Barros, senão a própria filha 29 É importante explicitar que não realizamos análise das iluminuras da artista, por não se constituirem a especificidade de nosso objeto de investigação. 74 do poeta, Martha Barros?”, questionou Camillo em sua entrevista. Assim, com as obras de Martha Barros, Camillo também leu e estudou como imagética e inventiva, como fez com as obras de Manoel e vê movimento na obra da artista plástica. Afirma também Camillo que a capa do Crianceiras é um quadro de Martha Barros e que muitos dos personagens dos poemas musicados, das canções visualizados no espetáculo foram criados mediante seu acervo – aquela que teve a atribuição de realizar a poesia na tradução do imagético. Camillo considera que no Projeto Crianceiras em sua unidade: “[...] Martha, o Crianceiras, o Manoel e o Marcio De Camillo se tornaram uma coisa só. O que ajudou que isso se efetivasse foi a proximidade com a família, o carinho que se constituiu nessa relação Márcio De Camillo e família Barros. O Crianceiras é o resultado disso. Para Manoel, Martha encontrou em imagens o que ele não havia encontrado em palavras”. Figura 29 - Capa (Formação - Memórias inventadas III) Fonte: Crianceiras (2011b) 75 Figura 30 - Encarte (Dentro do som) Fonte: Crianceiras (2011b) Figura 31 - Encarte (Desprezo) Fonte: Crianceiras (2011b) 82 Figura 37 - Sequência Estúdio (O Menino e o Rio, Sombra Boa e Linhas Tortas) Fonte: Arquivo Crianceiras O que se pode ainda perceber que está na essência do Álbum Crianceiras é a força do texto poético no seu caráter humanizador. A matéria da poesia de Barros é matéria para humanidade, é matéria de consciência da vida e o seu conteúdo está na terra, onde habita a riqueza da natureza. Vale ressaltar que “a significação, o sentido da forma não se refere [apenas] ao material, mas ao conteúdo” (VOLÓCHINOV, 2013, p. 89). Asim, “a escolha do conteúdo e da forma é um mesmo ato que estabelece a posição principal do criador. Neste ato encontra sua expressão uma mesma valoração social” (VOLÓCHINOV, 2013, p. 90). Assim, compreendemos que o Álbum Crianceiras pode ser aquilo que encontramos nas palavras de Silva (2018, p. 04) um “[...] relevante objeto no domínio fundamental da educação literária e, globalmente, na conformação de uma cultura artística”. Em que “o artístico representa uma forma especial da inter-relação do criador com os ouvintes, relação fixada em uma obra de arte” (VOLÓCHINOV, 2013, p. 76). Considero que essa inter-relação proposta pelo autor foi conseguida pelo Projeto Crianceiras que, com a ludicidade das palavras de Manoel de Barros, tem levado a palavra poética musicada ao público infantil por várias regiões do Brasil e para alguns outros lugares além-mar. A Rádio Miúdos de Portugal 34 elegeu o Disco do Mês de março (2020) – Crianceiras Poesias de Manoel. Crianceiras realiza significativos projetos que buscam levar a poesia às crianças de todas as idades. “A poesia voou fora da asa”. São muitos os desdobramentos e o desenvolvimento do Projeto Crianceiras: virou coletânea poética, clip de animação, Projeto 34 Esta é a primeira rádio portuguesa para crianças que iniciou as emissões experimentais em Novembro de 2015. É uma rádio exclusivamente on-line, com emissão 24 horas/7 dias por semana. Está destinada a todas as crianças, pais e educadores, portugueses, luso-descendentes ou falantes de português que vivem em Portugal e no estrangeiro. Vide: https://www.radiomiudos.pt/index.php?id=2086&cont=26&page=4. Também essa Rádio realizou uma divertida entrevista online com Marcio De Camillo. Vide: Canal Youtube Crianceiras. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AYJEa2Ax9w4&t=79s. 83 Poesia na Prática, Projeto Escola, Espetáculo Cênico Musical e Aplicativo, um material de qualidade artística contribuindo para a formação literária, leitora, estética do público de todas as idades. Abordaremos no caderno seguinte sobre esses desdobramentos do Projeto Crianceiras, sobretudo na especificidade do Projeto Poesia na Prática, Projeto Escola, Espetáculo Cênico Musical. 84 Caderno 3 Poesia em movimento: caminhos de experiências pela arte para “transver” o mundo Figura 38 - Flauta para solos de garça Fonte: Barros (2013b) 85 3 COTEJO DAS VOZES NO BALANÇAR DO ACONTECIMENTO Figura 39 - Imaginação Fonte: Barros (2013b) [...] Arte não tem pensa: O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo. (Manoel de Barros). Este caderno tem por objetivo enunciar o entrelaçamento das vozes do Projeto Crianceiras Poesia na Prática, que se utiliza dos movimentos e do bailado no arrebol da poética barreana nos poemas musicados por Márcio De Camillo, por meio do processo de formação para os/as professores/as da Educação Infantil e Ensino Fundamental I 35 . Ao considerar a relação que aspira a promover e potencializar o encontro das crianças com a obra do poeta Manoel de Barros, no Espetáculo Cênico Musical Crianceiras. No movimento dialógico do Projeto Crianceiras, foi possível observar e perceber que o encontro de Márcio De Camillo com o poeta foi o ponto de partida. A seleção de poemas a serem musicados gerou inicialmente uma coletânea poética, materializada no Álbum Crianceiras, e este ato deu vida a todo o movimento de criação do Projeto Crianceiras, como já explicitado no caderno 2 deste trabalho. Vale salientar, que estamos concebendo o conceito de “ato” na perspectiva dialógica, pois “ato responsivo” é um conceito usado por Bakhtin que “implica no agir como uma resposta responsável dada pelo sujeito que o coloca frente à alteridade” (CORSINO, 2015, p. 399). Deste modo, destacamos que o Projeto Crianceiras Poesia na Prática – um dos desdobramentos do Projeto Crianceiras - acontece em parceria entre os grupos Crianceiras, Diverte Cultural 36 e a Transformadoria Oficinas Criativas, esta última sob a responsabilidade 35 Ensino fundamental – anos iniciais: compreende do 1º ao 5º ano de acordo com Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - 9.394/96). 36 Cf. https://www.divertecultural.com.br/Institucional/sobre 86 da arte-educadora Cibelle Rosa 37 que, desde 2017 realiza oficinas de formação poética integradas ao Projeto Crianceiras. O Projeto Crianceiras Poesia na Prática visa promover uma imersão dos participantes no universo lúdico e poético de Manoel de Barros. É um convite a uma “capacitação em formato de Oficina” 38 para os/as professores/as que poderão vivenciar experiências poéticas e convidar os estudantes para o banquete poético do Espetáculo Cénico Musical Crianceiras como encerramento das oficinas (CRIANCEIRAS, 2012b). O que se quer com o Projeto Crianceiras, de modo geral, é: Apresentar aos estudantes um espetáculo cênico-musical que faz interagir literatura, música, teatro, cinema de animação e tecnologia digital, uma ponte da obra poética para a infância. Estimular o gosto do aluno pela Arte, despertando sua sensibilidade e senso crítico. Oferecer ricos ingredientes estéticos, alternativos à banalização da mídia, contribuindo com a formação de nossas crianças (CRIANCEIRAS, 2012b). No Projeto Crianceiras Poesia na Prática a ênfase é no trabalho com todas as linguagens de Arte, compreendendo-as como valioso instrumento mediador para a formação humana e para a formação dos sentidos. A Formação viabiliza experiências práticas para os/as professor/as se envolverem com a poesia em suas múltiplas formas. Compreende-se que é necessário criar condições para que a Arte impacte os sujeitos participantes (professores/as e as crianças) possibilitando-lhes transformações no seu pensamento, mediante o contato com a Arte, na concepção de que o ser humano é social e ser de relação e, portanto, pode se apropriar da cultura. “A arte é o social em nós” (VIGOTSKI, 2001, p. 315). Assim, nessa perspectiva ela nos educa e transforma. Ao abrir este caderno, discorro sobre as práticas de mediação literária e a circulação de poemas que acontecem nas Oficinas, com o encerramento mediante o Espetáculo Cênico Musical – Manoel de Barros, fazendo um cotejamento das vozes dos sujeitos da pesquisa sobre 37 Optamos por apresentar os sujeitos da pesquisa em breve nota nos apêndices deste trabalho. Assim, podemos descrever com mais detalhes a formação de cada um. Ao longo do texto utilizaremos a abreviatura do nome da arte-educadora, a seu próprio pedido, conforme o diálogo em sua entrevista. Assim Cibelle Rosa será mencionada como Bell Rosa. 38 O trabalho de Formação para Educadores com o Projeto Poesia na Prática, iniciado no segundo semestre de 2017, contabilizou, até o momento da entrevista realizada com Bell Rosa, 11 Formações (2017-2020.1), atingindo uma estimativa de 330 a 350 professores, em média, por formação (presencial). As cidades em que aconteceu (em formato presencial )foram: São Paulo – capital (2017 e 2019 em duas ocasiões); São Joaquim da Barra, São Bernardo do Campo (2018); Campinas, Piracicaba e Sorocaba. Posteriormente, expandiram a formação para outro Estado do Brasil – Mato Grosso do Sul – especificamente na cidade Campo Grande. Houve um hiato entre o segundo semestre de 2018 e primeiro semestre de 2019. 87 essas práticas entrelaçadas com a arte de cena, pelo Crianceiras, o campo da formação de professores/as e o campo da Didática. Com base na perspectiva dialógica do Círculo de Bakhtin, objetivamos trazer neste caderno, subjacentemente às reflexões sobre o fazer da oficina, a didática como “uma resposta responsável e não indiferente aos sujeitos a quem o ensino se dirige” (CORSINO, 2015, p. 319) e da arte na perspectiva histórico-cultural, ressaltando as muitas formas de criar experiências e vivências. 3.1 PROJETO POESIA NA PRÁTICA: A RELAÇÃO EU-OUTRO NO ATO DA DOCÊNCIA Este é um caderno de haver frases nele. Um rio passa perto. Estou sentado no barranco do rio Emas no pátio engolem cobras. Uma formiga está de boca aberta para tarde. As quatro patas da formiga tentam abraçar o sol Na verdade, não sei se são as patas da formiga que tentam abraçar o sol Ou se são minhas frases que desejam fazer este trabalho. Agora uma brisa me garça. E os arrebóis latejam. (MANOEL DE BARROS) Figura 40 - Poesia na Prática Fonte: Acervo Crianceiras 88 O Projeto Poesia na Prática floresce possibilidades de acolhimento da palavra viva do poeta no movimento de “brisar garças” e inaugurar arrebóis de novos sentidos latejantes com a poesia, promovendo, como já anunciado neste caderno uma imersão de professores/as no universo lúdico e poético de Manoel de Barros. Nas Oficinas Bell Rosa provoca os professores/as iniciando com a indagação: “E por que não colocar Poesia na prática?”. A partir desta reflexão sobre a questão também os convida a vivenciarem ações planejadas que passam por expressão corporal, jogos cooperativos e atividades manuais. Tudo para ensinar poesia enquanto se divertem (CRIANCEIRAS, 2019b) 39 . Trata-se de um convite específico aos professores/as da primeira e segunda etapa da Educação Básica 40 para conhecer e aprender sobre o universo do Poeta Manoel de Barros de forma participativa por meio de exercícios práticos oferecidos nas oficinas, no intuito de que estes também possam contribuir para alargar horizontes poéticos de professores e crianças, cantando e dançando os poemas musicados na sala de aula e ainda como plateia no espetáculo. Importante elucidar que A imersão das crianças na linguagem literária, em particular na poética, em espaços coletivos de aprendizagem, pressupõe a mediação do professor que, por sua vez, pressupõe que este tenha em seu repertório um acervo/enciclopédia de saberes que possibilite a ampliação dos saberes das crianças (DEBUS, 2016, p. 153). Igualmente se deseja que práticas de mediação literária contribuam para que os/as professores/as possam se apropriar de repertórios diversos, e contar histórias de forma mais divertida e mais lúdica. Destaca-se que: a ação cultural começa com uma oficina de capacitação para os professores/as que irá viabilizar experiências práticas para que o educador amplie suas possibilidades de trabalho em sala de aula de forma interdisciplinar passando por atividades nas áreas de música, expressão corporal e artes plásticas (CRIANCEIRAS, 2012b). Ao final deste encontro, com enfoque no universo poético, os professores/as recebem um material intitulado “Poesia na Prática: Sugestões de atividades para sala de aula” 41 . Explica 39 Voz Bell Rosa, 0:45 a 1:07. 40 Educação Básica no Brasil, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB - 9.394/96). 41 A apresentação deste material se encontra no Anexo II deste texto, e não se constituiu objeto de análise de nossos estudos. Contudo, torna-se um material fértil para novas pesquisas e pluralidades de vozes. 89 Bell Rosa que este material oferece outras atividades para além daquelas vivenciadas coletivamente na formação pedagógica, integrando várias áreas do conhecimento como Artes e Língua Portuguesa, com o objetivo de enriquecer “segundo a arte-educadora”, ainda mais a sala de aula. Destacamos que: a escola, como ambiente de trabalho do professor, constitui-se primordialmente como espaço social de aprendizagens; e inclusive para o professor, isto significa compreender que a docência conforma-se, para o professor, como sua atividade principal. A docência é uma profissão em movimento e de interação. Em movimento porque pressupõe que, aos conhecimentos estabelecidos, quaisquer que sejam suas naturezas, somam-se outros, pela ação humana. E é exatamente essa mesma ação humana que confere à docência a dimensão interativa: professor–aluno, aluno–aluno, professor–professor, professor–conhecimento–aluno. Na docência, dar-se-á o encontro de gerações, de experiências, de afetos, de valores, de saberes. Na docência, o professor realiza sua principal atividade (ARAÚJO; MOURA, 2003, p. 04). Assim, compreendemos que a escola é o lócus em que os/as professores/as têm o papel de possibilitar aos estudantes o acesso aos bens culturais produzidos pela humanidade. Não obstante, precisamos considerar que o Brasil é ainda um país onde grande parte de sua população tem pouco ou quase nenhum acesso aos livros, à Literatura, e que no Brasil ainda permanece latente a problemática da desigual distribuição de renda. Ainda é um dado de realidade que “quanto mais cresce a riqueza, mais aumenta a péssima distribuição dos bens” (CANDIDO, 2017, p. 171). Diante desse contexto social, embora não seja a escola a única instituição responsável para que os sujeitos se apropriem dos bens culturais produzidos pela humanidade, afirmamos ser mister compreendê-la como uma das instituições sociais responsáveis por criar o encontro da criança, do adolescente e do adulto com o conhecimento, com a Literatura, com a arte e a poesia. E, nessa linha de pensamento, Chagas (2006, p. 227-228) destaca que: [...] a mediação do professor torna-se imprescindível. Portanto, a finalidade do ensino é a apropriação dos conhecimentos acumulados historicamente e criar as condições necessárias ao desenvolvimento psíquico dos estudantes. O professor é o mediador desse processo e pode assumir também a postura de provocador, de problematizador; sua presença na sala de aula outorga sentido ao ato do ensino e, com todas as complicações que isso significa, quase sempre a mediação docente oferece diferentes tipos de “fios de Ariadne”, para depois se retirar. Ensinar é transmitir esse conhecimento e ampliar o acesso ao mundo da cultura e da sensibilidade mediante objetivos definidos, conteúdos concretos e operações realizadas conscientemente tendo por base as condições reais, objetivas na condução do processo de apropriação do conhecimento por parte dos estudantes. 90 A autora enfatiza que o campo da Didática é o campo de conhecimento em que as relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos (professor-estudante-conhecimento) precisam ser um ato intencional entre o ensino e a aprendizagem; assim a Didática precisa ser também entendida aqui como ato responsivo: “ato que se instaura cotidianamente na relação entre professores e alunos e que implica em tomadas de posição. Parte do pressuposto de que aquilo que ensinamos e o modo como ensinamos são sempre respostas ao nosso modo de apreender o mundo” (CORSINO, 2015, p. 400). Explicita ainda a autora que o campo da Didática nessa perspectiva: [...] – como ensinamos o que ensinamos – é um ato responsivo, uma resposta responsável e não indiferente ao outro – sujeitos a quem o ensino se dirige. Mas, como o campo da didática é multidimensional, as respostas também são multidirecionadas. São muitos os outros escutados e respondidos no ato de ensinar e aprender. Ato ético, estético, epistemológico e político no qual a não indiferença é o que move e dá sentido ao passo dado por sujeitos situados, que firmam o seu compromisso com o outro – os vários outros – pelas respostas que dão do seu lugar exotópico, único e sem álibi (CORSINO, 2015, p. 401). A poesia de Manoel é apresentada aos/as professores/as, na relação eu-outro, no ato responsável da docência, por meio de estratégias com expressão corporal, jogos criativos e atividades práticas. “Aqui a didática ingressa com sua complexa especificidade, colocando os conhecimentos próprios de seu campo ― os processos de como ensinar, o que ensinar e a quem ensinar” (CHAGAS, 2006, p. 222). Ou seja, o desafio para essa formação/capacitação está em como usar a palavra poética, metafórica e ao mesmo tempo convidar os/as professores/as a assumir a intencionalidade de apresentar a arte e a poesia na sua real função e circular o diálogo entre os três campos da cultura humana – a ciência, a arte e a vida –, incorporando-os na unidade dialética em seu ato de existir como docente. Nesse sentido, a formação oferecida aos/as professores/as constitui-se no movimento dialógico que visa também a pensar a escola com outro sentido, que possibilita a arquitetônica eu-outro, ou seja, o da participação daquele que assina o discurso pedagógico imbuído na relação amorosa com outro, contudo, pelo humanismo mediado pela alteridade, pela palavra poética. Assim, está posto o convite para a formação/capacitação no Projeto, cuja intencionalidade é realizar um “trabalho pedagógico”, provocando experiência estética com os participantes e consequentemente com as crianças. Nesse aspecto se evidencia o papel fundamental da educação escolar e as relações com a arte, em que se elucida a perspectiva de 91 uma criação humana em resposta à necessidade de preservação e socialização da cultura. Jean ressalta a escola da poesia e diz: [...] a escola da poesia é justamente uma escola deste tipo, em que o espetáculo da natureza, dos seres, invade os domínios do imaginário. Escapa (ou deveria escapar) a todas as restrições institucionais. Em contrapartida, é lá que se aprende no corpo, na sensibilidade, na inteligência bem como na imaginação, que a liberdade da linguagem se conquista, que a memória se cultiva e que a criança e o adolescente, ao se lhes defrontar a poesia, aprendem a concentrar-se na sua intimidade e a abrir-se aos outros na e através de uma linguagem que tanto oculta o que eles dizem como o revela. (JEAN, 1989, p. 14). Logo, é uma forma de familiarizar as crianças com a linguagem conotativa e metafórica, expandindo os conhecimentos culturais, por meio de um “mergulho” no grande universo da sensibilidade e dos afetos que a poesia pode provocar. O Projeto Poesia na Prática consiste em convidar os/as professores/as para um banquete literário, regado a alimentos estéticos e espaço de ludicidade poética. Proporciona reflexões acerca de seus planejamentos, da circulação e recepção da poesia, garantindo a interlocução entre escola, professores/as e as crianças. São “pistas de trabalho para a ação concreta na escola ou na família, de modo a que não se privem as crianças do encontro com o poema (CRIANCEIRAS, 2019c) 42 . Decididamente no coração do Projeto Crianceiras, “a poesia é uma palavra dirigida, uma interpelação; ela convida imediatamente à partilha, à transmissão. Ela é argumento de vida e de encontro” (SIMÉON, 2015, p. 45). Os poemas de Manoel de Barros são os pilares de toda a magia e encantamento desse encontro. O poema no corpo, no ritmo, na performance representa a poeticidade dos personagens, como se pode ver no poema “Um Bem te vi”, bailado pela arte-educadora Bell Rosa, quando todos esses elementos transpassam e dão vida aos enunciados poéticos de Barros. 42 Convite realizado aos professores para vivenciarem o encontro para o banquete poético. 98 Aqui se pode perceber claramente a correlação entre direitos humanos e arte, especificamente na Literatura. O encontro com os professores, nas realizações das oficinas, nas quatro horas [presenciais] 44 , é priorizado realizar uma primeira aproximação com a poética de Manoel de Barros, no sentido de contextualizar o poeta, obra e o Crianceiras. Como escreve Bakhtin (2011, p. 362): Quando tentamos interpretar e explicar uma obra apenas a partir das condições de sua época, apenas das condições da época mais próxima, nunca penetramos nas profundezas dos seus sentidos. O fechamento em uma época não permite compreender a futura vida da obra nos séculos subseqüentes; essa vida se apresenta como um paradoxo qualquer. As obras dissolvem as fronteiras da sua época, vivem nos séculos, isto é, no grande tempo, e além disso levam freqüentemente (as grandes obras, sempre) uma vida mais intensiva e plena que em sua atualidade. Explicita Bell Rosa: “[...] porque por incrível que pareça, todo início de formação eu faço uma enquete, e geralmente entre 30 pessoas, se duas pessoas levantarem a mão que sabe, ou se já leram, ou se conhecem Manoel de Barros, é muito. [...] Por incrível que pareça, é possível afirmar que a maior parte dos professores não estudou Manoel de Barros, mas quer estudar, não conheceu, nem de maneira informal, nem de maneira formal. Então, a gente faz essa aproximação de forma muito breve: quem foi o poeta, em que contexto da literatura brasileira ele surge, como surge o Crianceiras e na sequência a gente dá ênfase aos trabalhos práticos que são os que as crianças vão fazer no dia como plateia no dia do espetáculo do Crianceiras”. A Contextualização das obras de Manoel de Barros se constitui um conteúdo inicial e importante na formação, por se perceber que a falta desse conhecimento no percurso formativo da maioria das/os professora(e)s - o que Bell Rosa atribui à “falta de bagagem” - é uma lacuna que aparece de forma latente nas oficinas. Sabemos que quase não há leitura de poesia nas escolas. Poesia nas escolas brasileiras, de modo geral, conforme a fala de Bell Rosa “[...] nota do rodapé, é um quadrinho do lado, a poesia é sempre passada de forma pouco atrativa tanto para os pequenos como para os maiores”. Maria Antonieta Cunha explicita que: 44 Na Pandemia – COVID 19 o desenho das oficinas se alterou. Foram realizados encontros virtuais, a partir do ensino remoto. 99 Em todas as teorias da percepção-apreensão-fruição de uma obra de arte, é ponto pacífico que o mais importante é o contato com tal obra. Nenhum estudo teórico, nenhuma reflexão pode substituir esse momento especial do fruidor em diálogo com a obra. Com efeito, só nos familiarizamos em determinada expressão artística (música, teatro, cinema, literatura etc.) se temos oportunidades constantes de sua fruição – e aí ela começa a fazer parte de nossa vida (CUNHA, 2012, p. 109). Após estabelecer as relações na formação no caminho de familiaridade, intimidade entre o poeta, sua obra e o Crianceiras, a Oficina segue no exercício prático com a sensibilização para o movimento poético na experiência de vivenciar no corpo, no bailado, com a poesia musicada, visando superar a rigidez de corpos adultos, possibilitando que as/os professora(e)s dancem os poemas em uma concepção de que: Hoje em dia com poucas excepções, a poesia confina-se geralmente a livros, opúsculos e revistas confidenciais. É um murmúrio. Eu ia escrever: um murmúrio silencioso e imóvel. Todos os testemunhos e todas as investigações arqueológicas e históricas evocam o carácter salmodiado e dançado da declamação poética. Para citar apenas um exemplo, os elementos do coro do teatro grego não eram vozes imóveis, visto que o círculo se movia: eram simultaneamente dançarinos. Do mesmo modo, a poesia nos povos de cultura vernácula (da África Negra, dos países berberes etc., ou da América Latina) é uma declamação vocal que passa por todo o corpo e é acompanhada por gestos, por danças, por mímicas diversas, individuais e coletivas, como se as palavras investissem o corpo numa espécie de transe [...] (JEAN, 1989, p. 30). Desta forma, “para alcançar esse objetivo são utilizadas diversas “ferramentas de teatro”, a fim de que os professores se sintam capazes e mais confortáveis em viver essa experiência, porque constitui um desafio fazer o professor dançar o poema, criar movimentos corporais poéticos; essa relação é algo muito novo”, afirma Bell Rosa. Mas compreender ser, como explicita Siméon (2015, p. 129) “[...] um modo de aceder à poesia que deve ser assumido do mesmo modo que a leitura do poema ou o espetáculo poético”. Destaca Bell Rosa que a Formação é: “[...] perceber o quanto a poesia emociona pessoas que não tiveram contato com essa forma de escrita e eu sempre digo que a poesia, em meio a todos os nossos desafios de mudança de legislação, passando pela Nova Base Nacional Comum Curricular. de buscar fomentar que a criança seja mais colaborativa, para que a criança consiga ter uma experiência que também passe pelo corpo, que essa criança tenha uma consciência coletiva para um trabalho de cooperação, ou seja, para trabalhar sensibilidade... Todos esses objetivos que a gente hoje busca para as nossas crianças eles são mais resguardados na formação quando o grupo é menor, porque eu também consigo olhar no olho do professor, parar de trocar e perguntar qual é a experiência de cada um com isso e 100 assim é possível ouvir os professores durante a formação. Ou seja, é transformar a formação, num espaço que também possa ser cooperativo, que também possa ser de escuta e de sensibilidade e o que é o que depois vamos buscar fazer com as crianças”. Bell Rosa explica que “cada turma é organizada com o cuidado de toda a equipe, constituindo 30 professores por turma”. “É preciso fazer ver que a poesia é o oposto da cristalização dentro de uma forma: não existe ponto de chegada” (SIMÉON, 2015, p. 21). A definição desse número foi no sentido de se garantir a qualidade em cada oficina e possibilitar a experiência singular, sobretudo no momento dos exercícios de sensibilização propostos, na realização das técnicas de contação de histórias, no trabalho corporal, entre outros aspectos do curso. No dizer de Maggi em sua entrevista (2020): “em 2016, isso, quando nós chegamos em São Paulo e começamos a fazer show lá eu comecei a intensificar esse contato com a Diverte Cultural, convidava para o show eles chegaram a ir assistir, e em 2017 a gente fez nossa primeira reunião e em 2016 talvez... nossa parceria começou em 2017 e eles nos apresentaram pra Cibelle Rosa, que é da Transformadoria. E aí sim, a gente começou a pensar em formatar o material, porque a gente conversou, e contou tudo pra Cibelle, qual era a demanda e que essa demanda já vinha de um tempo atrás, e que a Secretaria de Estado e Educação já tinha feito um esboço de um projeto eu cheguei a mostrar para ela, e a partir disso ela começou a desenvolver o material para sala de aula, que é o guia de atividades práticas pra sala de aula. Então, ela pegou algumas poesias do CD é... não todas. Mas, a maioria e esmiuçou tudo que poderia ser trabalhado em cima daquela poesia, nas várias frentes/vertentes, da Educação infantil e nas várias disciplinas do Fundamental I, que é nosso público-alvo”. Tudo organizado para que as/os professora(e)s se permitam passar por essa experiência com os poemas de Manoel de Barros musicados pelo Márcio De Camillo. Vale ressaltar na fala de Bell Rosa que conseguir manter a definição de turmas com 30 participantes - mesmo tendo um grande impacto financeiro ao Projeto – é posição amplamente discutida com toda a equipe, apesar de contrariar o desejo das escolas de inscrever mais professora(e)s na formação. Afirma ainda Bell Rosa que a orientação dada às instituições educativas é a de que se a escola tem mais de três turmas de um mesmo ano participa um/uma professor(a) titular e um/a professor(a) auxiliar e serão esse(a)s professora(e)s que participarão e serão as/os multiplicadora(e)s na escola, pois o que se quer garantir é realizar com os 101 professora(e)s na formação uma experiência poética e não um curso de formação aos moldes “tradicionais” de aula. No momento da formação, para a realização do trabalho de sensibilização com as/os professora(e)s, para se criar mais intimidade na vivência poética, são formados grupos menores 45 . Bell Rosa explicita que: “[...] na formação quando o grupo é menor, [...] consigo olhar no olho do professor, perguntar qual é a experiência de cada um, com isso e assim ouvir os professores durante a formação. Ou seja, é transformar a formação, num espaço que também possa ser cooperativo que também possa ser de escuta e de sensibilidade – é o que depois vamos buscar fazer com as crianças”. E, neste encontro, com base na perspectiva dialógica Patrícia Corsino explicita: No ato de ensinar e aprender diferentes vozes constituem os sujeitos – vozes de muitos outros que participaram e participam do seu processo de subjetivação – e põem-se à escuta dos sujeitos a quem dirigem as ações. A partir das escutas, organizam respostas possíveis, conforme as condições que cada contexto enunciativo dispõe e possibilita. É possível planejar parte das respostas, pela natureza intencional da didática, entretanto, é no campo das interações, no espaço relacional que se institui em cada ato enunciativo, que são tecidos os sentidos e estabilizados significados partilhados (CORSINO, 2015, p. 402). Figura 42 - Projeto Poesia na Prática Fonte: Acervo Crianceiras Bell Rosa destaca que: “[...] durante a formação, eu fico muito feliz de ver os olhos das professoras brilhando, porque a questão não é a formação em si. Claro que a gente faz o nosso 45 Além de Bell Rosa, entra em cena uma Equipe Formadora, constituída por outros especialistas que, na condição de seus assistentes, realizam junto com ela esse trabalho. 102 melhor [...] já experimentei formatos diferentes, mudar a ordem dos exercício, substituir exercícios... mas em especial, para que o professor tenha um momento para que ele possa ouvir a poesia com ritmo, com emoção e não uma leitura de poema como se fosse uma bula de remédio que é para mim é um “assassinato” da poesia na escola, ou seja, se você tira a cadência, você tira o ritmo, se você não abrir espaço para perceber a humanidade dentro do texto”. Bell Rosa ainda enfatiza que, ao tecer mundos com a linguagem poética, ao apresentar a palavra sensível ao/a professor/a, é realizado o convite aos/as docentes a vivenciarem pela poesia, a palavra que toca, que emociona, que mobiliza o ser humano lhe possibilitando uma vinculação diferenciada consigo próprio, com o outro e com o mundo. Torna-se necessário realizar um trabalho de profundidade com a poesia na escola. Assim diz Siméon (2015, p. 84): [...] o poema é essencial, então, substituir os estereótipos da recitação e da explicação de textos por atividades múltiplas e coexistentes em torno da leitura, da oralização e da escrita de poemas, aliando sempre a apropriação individual e partilha coletiva. Considerar a poesia na sala aula, não apenas e somente como lugares de saberes culturais, mas antes de mais como um lugar de educação, de educação da consciência, da relação com o outro, do lugar do eu na sociedade....Se não considerarmos a poesia como um fator essencial, à semelhança das outras artes, de abertura da consciência, nunca faremos o que é necessário nas aulas, autorizar-se a não ter pressa, inscrever a poesia nas atividades normais e regulares da sala de aula com a convicção de que o poema é indispensável para si e, consequentemente, para a criança. Que a poesia seja um argumento de vida e de pensamento. Nessa linha de pensamento, durante a formação, são planejados momentos em que se compartilham trechos de poesia do Manoel de Barros por meio de leitura e atividades lúdicas, promovendo experiências intensas, vigorosas e profundas com os poemas. Contudo, se destaca que a formação de leitora(e)s podem ocorrer por diversos caminhos e um desses caminhos foram as leituras por fruição, objetivando romper nas oficinas com práticas impositivas e de cobranças, fazendo um convite à imaginação, à produção de sentidos e relações entre a palavra e o mundo. Na concepção de Siméon (2015, p. 84): Seria de toda a conveniência que os professores lessem poesia por sua iniciativa de forma livre, autónoma, e até despreocupada, a fim de acederem a essa emoção fundadora que ela procura, a par das outras artes. Esta frequência curiosa, regular, generosa da poesia permite ressentir um bem-estar em poesia. Até porque, afinal, todo o gesto pedagógico, de mediação, deverá emanar desta primeira experiência pessoal. 103 Destaca o autor sobre a importância da mediação para provocar o encontro do leitor com a poesia e esse encontro permite multiplicidade de sentidos e significados das palavras que pode ser ainda uma brincadeira com as palavras. No entanto, “ao contrário dos brinquedos, as palavras não se gastam, renovam-se na dinâmica da leitura” (OBERG, 2006 p. 148). Ler um poema, ler o texto literário é embarcar em uma experiência expansiva da realidade a nossa volta. Convém lembrar, como nos aponta Candido (2017, p. 178): [...] que ela não é uma experiência inofensiva [...] ela tem papel formador da personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade. Por isso, nas mãos do leitor o livro pode ser fator de perturbação e mesmo de risco. Daí a ambivalência da sociedade em face dele, suscitando por vezes condenações violentas quando ele veicula noções ou oferece sugestões que a visão convencional gostaria de proscrever. No âmbito da instrução escolar o livro chega a gerar conflitos, porque o seu efeito transcende as normas estabelecidas. A intenção é possibilitar as/os professoras(e)s em formação o mergulho nos textos poéticos, “encharcando-os” de palavra poética para ajudá-los na sua atuação com as crianças. A ideia é ampliar a percepção das/dos professora(e)s sobre a obra do poeta tratado nas oficinas, qualificando sua leitura e escuta na intencionalidade de também apresentar às crianças momentos prazerosos com a poesia, as canções abrindo-lhes portas à apreciação da palavra poética e da Literatura. Nas palavras de Averbuck (1993, p. 66): O preconceito, que atinge todas as esferas da vida social, estende-se à escola, motivando o professor uma atitude de desinteresse e até mesmo um certo mal-estar, ou culpa, quando ele ocupa suas aulas com o trabalho com textos poéticos. Esta postura liga-se igualmente, ao desconhecimento não só das possibilidades de exploração da literatura em geral, através da descoberta da poesia, como do próprio papel da arte no desenvolvimento da personalidade humana. Complementando essa orientação, podemos reconhecer em uma “didática da invenção” que a escola precisa criar espaços e tempo para a poesia na sala de aula. Como orienta também Siméon, é essencial: UM POEMA POR DIA. Os professores, qualquer que seja a matéria, são convidados a começar o dia ou a sua aula, com a leitura de um texto poético, sem qualquer comentário, a partir de um corpus que tenham fabricado dentro do vasto reportório poético. Seria necessário, concretamente, começar por leitura de poesias fundadas na diversidade, na frequência e na regularidade. Ler, desde o Jardim de Infância e desde o 1.o Ciclo, um poema por dia. Fazer apenas isso, já seria fazer o essencial, dando a ouvir um poema diferente de cada vez, de épocas diferentes, de naturezas diferentes, de formas diferentes... e solicitar todos os 104 tons e os registos explorados pela poesia. Essa leitura pode fazer-se com maior despojamento pedagógico dizendo às crianças que esse tempo é uma prenda, uma leitura sem discurso, nem antes, nem depois. Dizer o título do poema, de onde ele provém e o nome do autor, mas sem comentários, nem esperar reações por parte das crianças (SIMÉON, 2015, p. 103). Cabe ainda ressaltar que, nas palavras de Candido, a Literatura é “um instrumento poderoso de instrução e de educação”, faz-se necessário constituir os currículos, os programas de formação docente: [...] sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. Por isso é indispensável tanto a literatura sancionada quanto a literatura proscrita; a que os poderes sugerem e a que nasce dos movimentos de negação do estado de coisas predominante (CANDIDO, 2017, p. 177). A potencialidade lúdica da poesia materializa-se na sonoridade, na imagem poética e na visualidade das palavras. A poesia é jogo, é palavra que brinca, a poesia é lúdica, é brincadeira com palavras. É jogo de sentidos que se renovam a cada leitura, a cada escuta. Deste modo acontece na Formação. Bell Rosa revela: “E para mim o trabalho com as professoras só ganha esse viço, essa alegria, porque a experiência com a formação tem também esse objetivo de que não seja mais uma formação que o professor fica sentado vendo um conteúdo em Powerpoint. Apesar da primeira parte ser um pouco expositiva, a maior parte da formação também é de experiências. Então eu sinto que pósformação, para muitos ganha um novo sentido. Não vou dizer para todos, porque não teria como afirmar, mas pelo que posso observar ganha mais brilho, ganha essa dose de vida que é o que me encanta pessoalmente na poesia. Ou seja, quando a poesia é capaz de traduzir as nossas experiências. Eu brinco que o poeta é esse ser humano [...] que as vezes consegue colocar em palavras aquilo que a gente experimenta, mas nós não conseguimos expressar. Então, é quando o professor se reconhece com alguma emoção dentro da poesia, para mim é onde acertei assim na mira. E isso acontece em momentos diferentes da formação para pessoas diferentes, daí depende do contexto que está sendo trabalhado. E às vezes acontece e me encanta bastante quando eu tenho lá um professor sentadinho na formação, calado, observador que no final da formação destaca um trecho que lhe emocionou, que ele lembrou de tal momento [...] daí eu vejo que atingimos o objetivo, qual seja a poesia ser uma experiência para o professor também”. 105 Os recursos midiáticos no site do Crianceiras integram as ações que são importantes para se estabelecer uma relação com a palavra poética cantada, dita ou dançada, e que envolve o sujeito com seu corpo todo, pois se compreende que são muitos os caminhos que a poesia pode trilhar na escola. Diz Bell Rosa: “[...] esse material utilizado foi criado por mim. Tanto a parte escrita da apostila [...] quanto dos vídeos que foi eu mesma que desenvolvi esse trabalho. Esse material foi pensado ... para ser um complemento na formação. Ou seja, que os professores, eles aprendam esses exercícios para que eles se sintam mais à vontade para eles trabalharem em sala de aula que são os trabalhos corporais. Esses trabalhos ficam depois disponíveis em vídeo, mas são atividades [...] muito em quantidade muito menores em relação a quantidade de exercícios que você encontra no guia digital, que a gente envia depois da formação. No guia digital, o material foi pensado para que o professor tenha opções de exercício, dentro das quatro linguagens de arte. E a gente conseguiu compilar também algumas “atividades” – essa não é a palavra – mas anexos. Conseguimos, por exemplo, a partitura de uma música que pode ser trabalhada pelo professor de Música que nos foi cedida e colocamos como anexo e outros anexos que eu criei”. Seguem as imagens da arte-educadora Bell Rosa que expressam a coreografia de dois dos poemas musicado por Márcio De Camillo, mencionados em sua entrevista. Figura 43 - Os rios começam a dormir Fonte: Crianceiras (2017) 106 Figura 44 - O menino e o rio Fonte: Crianceiras (2012a) 46 Na voz de Bell Rosa se pode ainda destacar as contribuições do campo da Didática na formação das/dos professora(e)s. Após a realização das oficinas a vivência significou: [...] se valer da ambivalência dialética entre teoria e prática que lhe é constitutiva, assumir a imprevisibilidade, a eventualidade do processo de ensinar-aprender, entendendo que as respostas são contingentes e historicamente construídas e que elas aludem aos lugares de onde se dá o passo e ao porvir, já que cada passo desencadeia outros (CORSINO, 2015, p. 401). Bell Rosa relata que, na formação presencial são apresentados o Aplicativo Crianceiras e os vídeos que contemplam as coreografias com os poemas musicados que foram vivenciados nas oficinas. Afirma ser um material para as/os professora(e)s criarem intimidade com a poesia. Destaca ainda, que é sempre escolha do/a professor(a) afeiçoar para a sua realidade os materiais a que eles têm acesso na formação, para que possam potencializar a relação com a poesia. Deste modo é importante destacar que é a partir da vivência poética que se compreende a poesia na sua real função e na própria experiência de fruição poética. Sabemos que na rotina da escola, com a realização de um rol de atividades desenvolvidas com as crianças, a poesia pode se perder e o encontro poeta-leitor não se efetivar. Trata-se de se compreender o papel da arte na educação, pois a “arte constrói com efeito, um modo de compreender diferente, através do corpo, do gesto, da sensação, da emoção. Isso deveria estar no âmago do ensino tal como está, muito naturalmente, no âmago da vida” (SIMÉON, 2015, p. 43). Nessa linha de pensamento: 46 Projeto Crianceiras Poesia na Prática (O menino e o rio). Poesia de Manoel de Barros musicada por Márcio de Camillo. Produção executiva Izabella Maggi. 107 Nunca é demais ressaltar que a construção de competências para a leitura literária, que permitirão a apreciação da poesia, passa pela vivência, pela experimentação sensorial, afetiva, emocional – e não apenas cognitiva – da poesia. A poesia é feita para ser lida, cantada, recitada, lembrada em vários momentos de nossa vida, amada e até mesmo odiada. Mas nunca para ser recebida com tédio ou engolida como um remédio amargo e obrigatório (SIMÉON, 2015, p. 43). Bell Rosa explicita que o Projeto se utiliza de diferentes linguagens (oral, visual, motora, corporal, sonora, digital). Primeiro porque desafia as/os professoras(e)s a usarem o seu corpo à medida que na formação eles aprendem o movimento poético das coreografias. O desafio é realizar essa experiência sentindo o poema com o corpo todo. A provocação segundo Bell Rosa é que os participantes das oficinas possam tirar as couraças de seus corpos, e que se permitam movimentar, ler, cantar e incorporar os poemas. Indaga Bell Rosa: “se o professor não tem essa experiência corporal, como é que ele vai proporcionar isso para a criança? Utilizar essas linguagens, primeiro desafiar o professor de uma maneira leve e com uma experiência positiva e depois provocá-lo para que ele trabalhe com a criança na sua sala de aula”. Revela Bell Rosa: “[...] e a minha forma de ver muitas vezes nos exercícios voltados para a parte pedagógica é realmente desafiar a criança tanto pensando em um desafio corporal, buscar um ritmo que talvez para a criança vai ser desafiador sim, quanto em desbravar um poema de uma maneira mais desafiadora, de uma forma mais imaginativa, e sem buscar explicar muitas coisas nos exercícios, mas dar estímulos para as crianças fazer as suas conexões”. Nas oficinas as/os professora(e)s são convidada(o)s a terem um tempo de intimidade com a poesia, um tempo de preparo, de criação no ato que aproxima sujeito e experiência, pois: [...] a poesia exige, mais do que que qualquer outra leitura, um investimento extraordinário – intelectual, emotivo, afetivo, físico – e um investimento em tempo. Ela só se entrega se formos pacientes como o seixo é paciente com as ondas que o vêm desposar. É preciso muito, muito tempo até que o poema nos permita conhecer todas as suas facetas e se renda, por impregnação, por sugestão (SIMÉON, 2015, p. 43). Nesta linha de pensamento é mister afirmar uma educação literária e poética nas escolas contribuindo para pensarmos a utopia de um país literário, uma sociedade leitora, contradizendo os interesses da sociabilidade como as de um país desigual como o Brasil. 114 a obra numa poética corporal, em um ato amoroso de celebração, em uma peculiar manifestação social, superando a ideia de uma plateia como meros espectadores 51 . No movimento de ser e estar da existência, as crianças são tomadas pelas experiências vividas pela arte da palavra poética que, durante o Espetáculo Cênico Musical Crianceiras Poesias de Manoel de Barros, se as distanciam de sua rotina familiar, as deslocam do ambiente escolar e as transportam para a fantasia da musicalidade, encantamento e imaginação em um mergulho poético. Georges Jean (1989, p. 155) destaca que: “A imaginação e a sensibilidade estão implicadas tal como a inteligência. Além disso, a poesia mergulha as raízes, as próprias origens da linguagem nas profundezas do ser, do corpo e da alma. Por conseguinte, há que abordar esta linguagem de outra forma”. Desse modo, o Espetáculo Cênico Musical encontrou outros modos de apresentar a obra do grande poeta brasileiro às crianças de todas e diversas idades 52 , potencializando o encontro da criança com a poética de Manoel de Barros. O diretor Cherubini utiliza múltiplas poéticas, apresenta um movimento cinestésico, uma sincronicidade das vozes. Iluminuras e canções. Percebe-se que no Espetáculo Cênico criou-se uma encenação, em que a dimensão lúdica, estética e poética dão o tom para a plateia (crianças) vivenciarem uma experiência artística, poética, musical. Cherubini resume assim: “[...] uma encenação delicada, sofisticada, inusitada e bela concebida por artistas criadores, comprometidos com a estética contemporânea da arte feita para as crianças de todas as idades”. O repertório desse Espetáculo é composto pelos 10 poemas do Álbum Crianceiras Poesias de Manoel de Barros, como apresentamos no caderno 1, e da Coletânea poética que se materializa no Álbum que foram selecionadas em diferentes livros de distintas fases de criação, por meio de pesquisa cuidadosa, e com seu consentimento. No Espetáculo, além dos poemas cantados na voz do músico Márcio De Camillo, empregam-se também materiais e cenografias com um elenco de outros músicos e atores. Dessa forma, misturam-se literatura, teatro, cinema de animação, música e tecnologia digital criando a ponte necessária entre a poesia e as infâncias. Seguindo essa concepção, “torna-se cada vez mais relevante que as múltiplas infâncias sejam retratadas na literatura, entendendo que esse 51 É um espetáculo visto por mais de 500 mil crianças. Só em São Bernardo, a prefeitura contratou o Crianceiras para ser apresentado para 76 mil crianças (mil e duzentas crianças por período, duas mil e quatrocentas crianças por dia). Crianceiras tem hoje números muito expressivos. 52 O Espetáculo completo está gravado e disponível também nas plataformas digitais, inclusive em Libras. Vide: https://www.youtube.com/watch?v=4s23WqWiAGU&t=14s. 115 conceito é plural, multifacetado e se diferencia ao longo do tempo em virtude de estar diretamente vinculado às condições geográficas, históricas, culturais e sociais” (MACHADO; VAZ, 2021, p. 130). Ao brincar com as palavras e as imagens nas cenas criadas com as iluminuras que compõem o Espetáculo, observamos que as crianças são provocadas a vivenciarem experiências para “desembaciar a vida”, como Afonso Cruz define sobre o que acontece no encontro com a poesia, em seu livro intitulado Vamos comprar um poeta, pois a “poesia, diz-me ele, transfigura o universo e faz emergir a realidade descrita com a absoluta precisão da ambiguidade. Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade” (CRUZ, 2016, p. 86-87). Como escreve Afonso Cruz (2016, p. 87): O poeta dizia que os versos libertam as coisas. Que quando percebemos a poesia de uma pedra, libertamos a pedra da sua “pedridade”. Salvamos tudo com a beleza. Salvamos tudo com poemas. Olhamos para um ramo morto e ele floresce. Estava apenas esquecido de quem era. Temos de libertar as coisas. Isso é um grande trabalho. Sei que muitas mudanças na minha vida aconteceram graças a ele. Por isso, jamais deixarei de me sentar ao seu lado, com metáforas na garganta, a trocar inutilidades. E o Projeto Crianceiras é o acontecimento de que a “poesia é voar fora da asa” (BARROS, 2009a, p. 21) e ela voou. É liberdade de criação e imaginação, “na qualidade de atividade humana afetada pela cultura, pela linguagem” (SMOLKA, 2009, p. 10). O Espetáculo Cênico Musical Crianceiras poemas de Manoel de Barros cria a intimidade com o poeta, oferece a riqueza literária contida na obra de Manoel de Barros, e convida as crianças a adentrarem no universo de encantamento das diversas áreas de conhecimento e linguagens: Música, Teatro, Artes Cênicas, Literatura. Essas áreas de conhecimento, sobretudo a literatura, segundo Machado e Vaz (2021, p. 129), são “espaço privilegiado de apropriação do mundo na relação com as infâncias e possibilidade de (re)conhecimento de si”. Acordamos ainda com os autores, que “ao se dirigir a sujeitos que reconhecemos ativos no processo de apropriação do mundo, a literatura possibilita uma relação crítica das crianças com a cultura, num movimento de apropriação, representação e renovação dela” (MACHADO; VAZ, 2021, p. 129). O diretor brinca com várias camadas de comunicação da e na palavra que transcorrem ao longo das apresentações, como a música, o ritmo, a luz, as cores, os jogos de sombras que transpassam a tela e evoluem para coreografias, tudo isso alinhado ao ritmo, ao movimento, à linguagem poética que faz essa fusão, a linguagem na tela, nos poemas e no corpo dos artistas, 116 no próprio movimento cênico do palco. “A voz é presença. A performance não pode ser outra coisa senão presente” (ZUMTHOR, 2005, p. 83). Na materialidade da voz de Márcio De Camillo o tempo é preservado e a poesia preenche o palco, a plateia e, como aponta o autor, demarca a nossa percepção do tempo. A voz tem sua duração própria. Se eu escuto cantar durante três minutos, esses três minutos são vividos por mim numa intensidade que emana da presença do cantor, da materialidade de sua voz, atingindo meus sentidos de tal maneira que o efeito temporal se acha mais ou menos atenuado. Eu seria levado a dizer que o que é transmitido pela voz existe de forma espacial muito mais que temporal. O efeito vocal dá uma impressão de presença que se impõe, preenchendo um espaço tão material quanto semântico, em detrimento das impressões de fugacidade de renovação, de duração, que demarcam nossa percepção do tempo (ZUMTHOR, 2005, p. 82). Nesse encontro, no grande tempo, as encenações dos personagens dão vida aos poemas, numa espécie de prisma temporal; os efeitos que se entrecruzam pela intensidade da voz na fusão da plateia com os artistas no palco num grande acontecimento. A performance, a animação e a “brincadeira”, que são possíveis de se ver no Espetáculo, apresentando os poemas musicados, por meio de múltiplas linguagens. As iluminuras da artista plástica Martha Barros, já mencionada anteriormente, inspiraram as imagens dos personagens no Espetáculo. [...] a cena é construída a partir do brincar dos intérpretes com a palavra do poeta musicada em interação com imagens físicas e projetadas que, delicadamente, no desenrolar das intrigas caçam jeitos inesperados para a liberdade dos curiosos personagens Bernardo, Sombra Boa, Se Achante, Menino e o Rio e outros [...] (CRIANCEIRAS, 2014). Nessa concepção, o Espetáculo Cênico do Crianceiras cria uma encenação em que a dimensão lúdica, estética e poética é o tom para a plateia vivenciar uma experiência artística/poética/musical. São aproximadamente 45 minutos de poemas musicados, no movimento arquitetônico da arte, que se entrelaçam com a palavra outrem, que dançam com a polifonia dos sentidos que se alteram. A ideia de se ter uma tela no espetáculo com projeção de imagens em movimento, interagindo com os atores e músico foi concebida e discutida em conjunto por Márcio De Camillo, Luiz André Cherubini, Andréa e componentes do grupo. Uma tela retangular, com aproximadamente seis metros de largura por quatro de altura no centro do palco, era um elemento muito forte na composição dos elementos do palco. Além da ideia de se colocar essa 117 tela grande para todo o movimento das projeções do Espetáculo, foi pensada a criação de um praticável em uma área elevada, em que Márcio De Camillo também pudesse estar à frente da tela, iluminado por uma espécie de corredor de luz e pudesse realizar gestos, interagindo com as personagens dos poemas musicados. Várias técnicas foram utilizadas. Conseguiu-se também no Espetáculo articular o trabalho com desenhos em animação 3D e assim, em muitos momentos, são projetadas as personagens dos poemas musicados, luz e sombra dos atores e músicos em interação (relação de uma pessoa de fora com a sombra que é feita por traz de uma tela) 53 . Uma das dificuldades que se apontava sobre a cena era encontrar as possibilidades de configuração da interação projetada com a banda - os músicos que participariam do processo, integrando-os à encenação com tudo articulado e trabalhando em movimentos encadeados, como uma unidade poética criando uma espécie de brincadeira ou de jogo em cena. Segue a sequência das cenas na ordem de apresentação no Espetáculo - Poemas Musicados Espetáculo Cênico Musical: Figura 45 - Poema musicado Bernardo - Iluminuras Martha Barros Fonte: Acervo Crianceiras Bernardo Já estava uma árvore quando eu o conheci. Passarinhos já construíam casas na palha, do seu chapéu. Brisas carregavam borboletas para o seu paletó. E os cachorros usavam fazer de poste as suas pernas. Quando estávamos todos acostumados com aquele Bernardo-árvore 53 Na fala de Cherubini: “A decisão de incluir essa proposta no Espetáculo Crianceiras veio pela experiência de já se explorar esse recurso na montagem de “A cortina da babá”, um texto de Virginia Woolf, que virou um espetáculo do repertório do Sobrevento para os bebês”. 118 Ele bateu asas e avoou. Virou passarinho. Foi para o meio do cerrado ser um arãquã. Sempre ele dizia que seu maior sonho era ser um araquã para compor o amanhecer. Figura 46 - Sequência Poema musicado “Linhas Tortas” Fonte: Acervo Crianceiras Linhas Tortas Prefiro as linhas tortas, como Deus. Em menino eu sonhava de ter uma perna mais curta (Só pra poder andar torto). Eu via o velho farmacêutico de tarde, a subir a ladeira do beco, torto e deserto... toc ploc toc ploc. Ele era um destaque. Se eu tivesse uma perna mais curta, todo mundo haveria de olhar para mim: lá vai o menino torto subindo a ladeira do beco toc ploc toc ploc. Eu seria um destaque. A própria sagração do Eu. 119 Figura 47 - Sequência Poema musicado “O Menino e o Rio” Fonte: Acervo Crianceiras O Menino e o Rio O corpo do rio prateia Quando a Lua se abre Passarinhos do mato gostam De mim e de goiaba Uma rã me benzeu Com as mãos na água Com os fios de orvalho Aranhas tecem a madrugada Era o menino e os bichinhos Era o menino e o sol O menino e o rio Era o menino e as árvores Cresci brincando no chão, Entre formigas Meu quintal é maior Do que o mundo Por dentro de nossa casa Passava um rio inventado. Tudo o que não invento É falso Era o menino e os bichinhos Era o menino e o sol O menino e o rio Era o menino e as árvores 120 Figura 48 - Sequência Poema musicado “Os Rios Começam a Dormir” Fonte: Acervo Crianceiras Os Rios Começam a Dormir Os rios começam a dormir pela orla, Um dom de entardecer percorre as águas Nas entranhas destas lagoas Os sapos tocam viola A quinze metros do arco-íris O sol é cheiroso. A ciência ainda não pode provar o contrário. Figura 49 - Sequência Poema musicado “Sombra Boa” - Iluminuras Martha Barros Fonte: Acervo Crianceiras Sombra Boa Sombra Boa não tinha e-mail. Escreveu um bilhete: Maria me espera debaixo do ingazeiro Quando a lua tiver arta. Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro E atiçou: Vai, Ramela, passa! Ramela alcançou a cozinha num átimo. Maria leu e sorriu. 121 Quando a lua ficou arta Maria estava. E o amor se fez Sob um luar sem defeito de abril. Figura 50 - Sequência Poema “O Silêncio Branco” – Iluminuras Martha Barros Fonte: Acervo Crianceiras O Silêncio Branco O silêncio branco A elegância e o branco Devem muito às garças Elas chegam de onde a beleza nasceu? As garças dormem na beira da cor. Têm estes pernaltas a incumbência de enfeitar os brejos. Quem pode saber mais do êxtase destes sáurios do que as garças? A elegância da garça Desabrochada no brejo O poema “Silêncio Branco” necessitava de gestos que expressassem toda uma delicadeza. Levou-se quatro meses para compor os movimentos desse poema. Era necessário encontrar na obra de Martha Barros a personagem que trouxesse a “alma” para as suas iluminuras. E não era possível encomendar as telas. A garça que compõe o movimento desse poema foi assim encontrada, conforme fala de Camillo: “Um dia ela [Martha Barros] me liga e fala: Márcio eu achei o Silêncio Branco, eu achei a garça! E quando ela me deu o livro, era um livro que inclusive Manoel havia dedicado a Stella, esposa dele que hoje tem uns 98 anos(?) e estava lá [escrito] com todo meu amor para Stella. Eu escaneei em alta definição essa garça e devolvi [o livro] para Martha”. 122 Figura 51 - Sequência Poema “Se Achante” Fonte: Acervo Crianceiras Se Achante Era um caranguejo muito se achante. Ele se achava idôneo para flor. Passava por nossa casa Sem nem olhar de lado. Parece que estava montado num coche de princesa. Ia bem devagar Conforme o protocolo A fim de receber aplausos. Muito achante demais. Nem parou para comer goiaba. (Acho que quem anda de coche não come goiaba.) Ia como se fosse tomar posse de deputado. Mas o coche quebrou E o caranguejo voltou a ser idôneo para mangue. No decorrer do espetáculo Márcio De Camillo apresenta as vozes de quatro crianças convidadas a compor um mosaico de versos dos poemas de Manoel de Barros, em destaque: “Ontem Choveu no Futuro” – Voz Sofia Saiury (02 anos). “Em Casa de Caramujo Até o Sol Encarde” - Voz Guilherme (12 anos). “Eu escuto a cor dos passarinhos – Voz Ana Kiara (04 anos). “Eu Vi a Tarde Correndo dos Cachorros” – Voz Emanuella Gonçaves (09 anos). “As coisas que não tem nome são mais pronunciadas por crianças” – Márcio De Camillo. 123 Figura 52 - Sequência Poema “O Idioma das Árvores” - Iluminuras Martha Barros Fonte: Acervo Crianceiras O Idioma das Árvores Eu queria aprender O idioma das árvores. Saber as canções do vento nas folhas da tarde. Eu queria apalpar os perfumes do sol. Sentado sobre uma pedra no mais alto do rochedo aquele gavião se achava principal: mais principal do que todos. Tem gente assim. Figura 53 - Sequência Poema “Sabastião” Fonte: Acervo Crianceiras Sabastião Todos eram iguais perante a lua Menos só Sabastião, mas era diz-que louco daí pra fora - Jacaré no seco anda? – preguntava. Meu amigo Sabastião Um pouco louco 130 Nas palavras de Cherubini está subjacente também a crítica a uma produção teatral que infantiliza 54 a criança ou que apresenta uma função moralista, didatizante ou que visa a atender as expectativas do mercado de consumo, em detrimento da fruição estética, ou ainda que trata as crianças como um vir a ser, como alguém que ainda não está pronto, como alguém que está se preparando para uma vida futura. Mas a vida dela já está acontecendo, bem como seu desenvolvimento. Com base nessa concepção, explicita Cherubini: “Nós nos dedicamos ao teatro para bebês, por exemplo de seis meses a três anos, porque todo ser humano tem direito a cultura ao convívio social, à integração comunitária. [...] então nós discutimos muito isso, nós não podemos fazer concessões àquilo que seria uma ideia pré-concebida do que é uma criança. Esta foi a base do espetáculo [...]”. O teatro é uma combinação das vozes de muitos artistas. Cherubini “considera que o teatro tem que ser sempre mágico. E o que a gente busca com o teatro realmente é mudar o mundo, não é pouca coisa (risos), mas a... mesmo que isso pareça vaidade, e é porque tudo é vaidade, é... nós temos sempre essa ideia de mudar uma pessoa, de mudar o espectador e também de ser mudado por ele, ser mudado, transformado por esse espetáculo e transformar alguém por esse espetáculo”. Pela arte podemos redescobrir, reinventar, ressignificar o mundo, subverter estruturas fixas. O teatro, a arte em geral, tem essa capacidade transformadora. É também espaço sagrado, diz Cherubini: “[...] eu acho que o teatro também é sagrado, e isso é muito importante, [...] antes de começar o espetáculo, quando nos reunimos também com os atores, com os músicos nós falávamos muito sobre isso, deste espaço sagrado; estar sobre o palco é uma conquista, conquista de uma vida, de uma carreira de muita dedicação, de muito estudo, e isso é um privilégio que nós devemos e precisamos saber honrar. [...] Acho que o espaço do teatro nunca pode ser cotidiano, ele sempre é um espaço extraordinário, é um espaço do maravilhoso, do surpreendente”. E nesse espaço, é importante compreender a arte como mediação da cultura, como uma forma de apropriação da realidade e de conhecimento e seu efeito transformador no ser humano no processo de humanização. Conforme foi abordado nos cadernos anteriores, à medida que se proporciona o acesso à produção historicamente acumulada, mais se pode provocar o exercício 54 O termo infantilizar mencionados nas entrevistas não significa depreciar o infantil, mas sim evidenciar a necessidade de se oferecer uma produção artística, e de qualidade para infância. 131 da reflexão, o desenvolvimento das capacidades de penetrar nos problemas da vida, perceber a complexidade do mundo e dos seres e cultivar sentimentos e emoções na relação com o outro. Assim também reconsiderar as crianças, em diferentes contextos, buscando garantirlhes o direito à fruição artística, mediante o potencial de transformação da arte, pelo encontro delas com o poeta, com a poesia, com a literatura, por toda a experiência nos desdobramentos do Projeto Crianceiras (Poesia na Prática, Projeto Escola – Espetáculo Cênico Musical). Fechamos este último caderno para abrimos outros... 132 CONSIDERAÇÕES 4 DESVER PARA REVER O PERCURSO: HORIZONTES POSSÍVEIS DE POETICIDADE ... poesias, a poesia é - é como a boca dos ventos na harpa nuvem a comer na árvore vazia que desfolha noite raiz entrando em orvalhos... os silêncios sem poro floresta que oculta quem aparece como quem fala desaparece na boca cigarra que estoura o crepúsculo que a contém o beijo dos rios aberto nos campos espalmando em álacres os pássaros - e é livre como um rumo nem desconfiado... (Manoel de Barros) Este estudo acolheu persistentemente minhas indagações, lá quando este baú de memórias era apenas projeto e desejo quais sejam: Qual o lugar da poesia na infância? Quais as contribuições do Projeto Crianceiras para a formação literária e estética das/dos professora(e)s e consequentemente para a formação das crianças? Quais os sentidos produzidos pela ação do Projeto Crianceiras – Poesia na Prática e Projeto escola na formação das/dos professora(e)s. E foi no compartilhamento de ideias, trocas de saberes, no mergulho nos estudos, no processo da investigação, na imersão nos grupos de pesquisa 55 LITERALISE, NEPALP, 55 Os desafios na pesquisa são inúmeros, contudo, participar de grupos de pesquisa possibilita uma troca fértil de estudo e compreensão metodológica dos objetos de pesquisa. Escolhi os três grupos pela própria necessidade de compreender nosso objeto e o caminhar na investigação. O primeiro grupo, LITERALISE - Grupo de Pesquisa em Literatura Infantil e Juvenil e Práticas de Mediação Literária, pelas discussões sobre o papel da 133 GEPILEd, na relação dialógica com os participantes da pesquisa e, sobretudo, nas buscas de superação dos desafios da caminhada, que este trabalho amanheceu. Na tentativa de arrematar as considerações desta trajetória ouço as vozes, que serpenteiam o rio desta escrita (tese). O caminho traçado compartilha os achamentos sobre o lugar da poesia na infância, tendo como fio condutor a análise dialógica do Projeto Crianceiras (2012-2022), evidenciando suas contribuições para a circulação da produção literária de Manoel de Barros musicadas por Márcio De Camillo. Neste sentido, objetivamos especificamente articular o todo orgânico do Projeto Crianceiras Poesias de Manoel de Barros, mediante o cotejamento das vozes nos enunciados concretos que nos ajudaram a compor coletivamente esta reflexão. Os enunciados foram compreendidos no grande tempo do Projeto Crianceiras, pelo viés das relações dialógicas, sociais e culturais investigando e conhecendo a produção, circulação e recepção do Projeto. A escolha do cotejo como caminho metodológico bakhtiniano foi alargando minha própria compreensão sobre os percursos da investigação, constituindo um texto polifônico prenhe de palavras minhas e palavras outras. Logo, deste cotejamento na pluralidade de vozes entrelaçadas na pesquisa, eclodiu um novo dizer sobre meu objeto, uma contrapalavra. Com base na explicitação de Miotello (2018) sobre o entendimento do cotejo como proposta metodológica, compreendemos - que neste trabalho – seguimos, na elaboração de cada caderno exposto, uma busca por apresentar, como dizem os autores, “o cotejo ora por um viés mais teórico-metodológico, ora por um viés mais próximo do tema de pesquisa [...], ora por um olhar que se vai cotejando também com outros textos e outras formas de compreender a vida e suas relações” (MIOTELLO, 2018, p. 09). Seguindo essa linha de pensamento, podemos afirmar que neste momento em que se reserva um espaço para as considerações finais na tessitura deste texto reencontramos alguns enunciados que fundamentaram esta caminhada da pesquisa, como aponta Valdemir Miotello: [...] lançamos mais palavras em resposta às nossas leituras, às nossas discussões no[s] grupo[s], às nossas participações ativas-volitivas em cada relação humana que nos constitui. Não lançamos aqui nem a primeira, nem a última palavra acerca da literatura infantil e juvenil no cenário contemporâneo, em particular no que diz respeito à formação leitora; o segundo grupo, NEPALP - Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alfabetização e Ensino da Língua Portuguesa, pela proposta dos estudos bakhtinianos e seu Círculo; o terceiro, GEPILEd (NDI/UFSC) - Grupo de Estudos e Pesquisas Infância, Literatura e Educação, pelos estudos em temáticas de aproximação ao meu objeto de interesse de investigação e ainda pelas questões relacionadas à mediação de leitura e formação de leitores. Vale destacar o profícuo diálogo entre os três grupos expandido ao Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC/UMinho-Portugal). 134 temática por nós escolhida [...], mas uma palavra outra para compor a cadeia infinita e inquebrável dos sentidos [...] (MIOTELLO, 2018, p. 10). Assim, ao primarmos pelo compromisso assumido com nossa temática e com as vozes, os dizeres dos sujeitos envolvidos em nossa investigação, revemos alguns objetivos e confirmamos outros, ampliando assim nossas indagações iniciais sobre nosso objeto, e acolhemos o percurso escolhido em um ato ético, na compreensão de que este, salienta Castro (2018), “só se instaura quando o Outro entra em cena”. E complementa a autora “[...] não temos Álibi, não temos desculpas para não agir nem para não declarar nossas escolhas. E agir é sempre um inter-agir com o Outro, e é o Outro, do seu lugar também singular, que nos faz surgir, que nos confere significado” (CASTRO, 2018, p. 07). Desse modo, alargamos nosso olhar mediante a compreensão do Projeto Crianceiras buscando os sentidos múltiplos para o desenvolvimento de uma educação literária, proveniente do meu lugar de fala que é a Educação, com a clareza desse lugar singular em relação ao outro, em relação à arte. Castro (2018, p. 08) diz que: [...] e nesse exercício de definir e demarcar nossa relação com o mundo [...] E a possibilidade de religar cultura e vida reside na singularidade do ato, do qual não podemos nos eximir. É nesse conflito interminável que nos constituímos éticos, ainda que sempre marcados pelos limites que nos impõem o tempo e o território que habitamos. Dessa maneira, tivemos como objetivos gerais investigar sobre o lugar da poesia na infância tendo como fio condutor análise dialógica do Projeto Crianceiras (2012-2022), evidenciando suas contribuições para a circulação da produção literária de Manoel de Barros musicada por Márcio De Camillo. E também articular o todo orgânico do Projeto Crianceiras Poesias de Manoel de Barros, na compreesão dos sentidos produzidos pelo cotejamento das vozes nos enunciados concretos, investigando a gênese do Projeto Crianceiras, bem como a relação arte, infância e educação As questões de investigação possibilitaram refletir sobre o movimento do Projeto Crianceiras em sua unidade e dos/das interlocutores da pesquisa, que viabilizam não só as potencialidades da poesia, mas também a formação poética das crianças, na compreensão e defesa de que a poesia precisa germinar dentro e fora dos muros da escola. Assim, brinquei com as fontes de profundas invenções da carnavalização do ínfimo, na arquitetônica poética, no enunciado vivo desta tese que, na sua tessitura e no acontecimento da 135 minha vida, o Crianceiras, o poeta e suas obras fizeram milagrar flores. E nas trilhas deste estudo, no encontro com as teorias, provocaram algumas pistas que possibilitaram a morada da poesia no movimento da vida, e da escola. Compreendi que “Arte e vida não são a mesma coisa, mas devem tornar-se algo singular em mim, na unidade da minha responsabilidade” (BAKHTIN, 2011, p. xxxiii). Assim, na trama do acontecimento do existir-pesquisar, ouvi muitas vezes a voz que dia a dia me convidava a “superar a perniciosa separação e a mútua impenetrabilidade entre cultura e vida” (BAKHTIN, 2017b, p. 43). Constatou-se que a Educação e a Arte caminharam juntas, na ponte que ligou a poesia de Manoel de Barros ao Projeto Crianceiras, unidos em relação a um mesmo fio de diálogo - no ponto singular de um pensamento em que se acredita no encontro da poesia na infância e o defende. E que daqui, deste lugar chamado Projeto Crianceiras, compartilham das afirmações de Manoel de Barros de que são os poetas que “devem aumentar o mundo com suas metáforas” e que “os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto” (BARROS, 2005b, p. 23). É justamente isso, que queremos dizer quando defendemos a tese sobre a grandeza e profundidade da obra de Manoel de Barros e todo o cuidado estético e ético que o Projeto Crianceiras lançou em relação aos seus poemas e sua musicalização, colaborando para fazer circular a Obra de Manoel de Barros, seja mediante a seleção inicial dos textos para a coletânea, materializada no Álbum Crianceiras, seja no Projeto Poesia na Prática e no Projeto escola – Espetáculo Cênico Musical. Pode-se afirmar que o Projeto Crianceiras compreendeu que a “Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria” (BARROS, 2002, p. 71). Arriscamos realizar uma escolha audaciosa em nosso texto no intuito de exercitar o movimento de brincar com as palavras do poeta e deixar sua marca na escrita em cada caderno. Utilizamo-nos da liberdade de escrita mediante a licença poética e usamos suas expressões, transgredindo, em muitos momentos, como é uma qualidade da poesia, as regras convencionais da língua, adotando o estilo do próprio Manoel de Barros – poeta abordado em nossa pesquisa. Consideramos importante dizer das palavras inventadas de Manoel de Barros tanto nos títulos e subtítulos desta tese, como em uma afirmação aqui, outra acolá, usando das palavras do poeta sem modificá-las na amplitude “agramática” de seus escritos. Além disso, também seguimos a trilha de Márcio De Camillo que nos revelou em sua entrevista, como já mencionamos, que o poeta lhe pediu no momento de criar a música para os poemas: “não invente palavras, pois isso eu já fiz”. 136 Os diálogos que constituíram a trajetória deste trabalho foram elaborados em três cadernos constituídos no agir e no pensar juntos, que permearão no tempo e na memória de momentos únicos, traçados pelas minhas palavras/palavras nossas e palavras outras trocadas ao longo da pesquisa. A escuta da polifonia das vozes revelou que os participantes deste estudo são afetados de diferentes formas pela poesia, e pela arte. Cada voz presente neste estudo ecoa no tempoespaço e assumem o compromisso com a infância. Para o Projeto Escola – Espetáculo Cênico Musical, diferentes arranjos foram orquestrados, voltados para possibilidades significativas de vivências estética e poética desde o primeiro acorde da viola de Márcio De Camillo à luminosidade das ilustrações de Martha Barros, projetadas na tela tudo isso em comunhão com o olhar de Luiz André Cherubini. Neste jogo entre os enunciados, os poemas musicados pulsantes no movimento dos artistas no palco tudo harmoniosamente planejado, que parte de um princípio de produção colaborativa pelas relações dialógicas em constante transformação. Enveredar pela arquitetônica do Projeto Crianceiras é uma forma de acender a chama da importância da poesia de Manoel de Barros e um chamamento para o lugar único do existir da palavra como experiência e acontecimento. O poeta encontra, na poesia do menino e o rio, uma forma de brincadeira e uma maneira de criar e recriar o mundo. O Projeto Crianceiras realiza uma imersão nas relações dialógicas da produção, circulação e recepção do horizonte das palavras inventadas do poeta Manoel de Barros. Um grande lugar de diálogo, um espaço multidisciplinar, lugar de trocas, experiências, vivências, um evento de vida, uma arena de poeticidade, da história e no grande tempo. Reconhecemos a dimensão do Projeto Crianceiras sobre ato responsável de cada participante na sua singularidade. Neste sentido o ato poético de olhar desempenha a ponte entre a poesia e a infância. Acreditamos quão cara é a aproximação da poesia entre o ser professor e o ser criança e no relevante encontro da criança com a poesia no Projeto Escola - Espetáculo Cênico Musical, possibilitando conjuntamente que as escolas sejam “desabertas” neste ato poético de olhar, entoando/cantando as obras do poeta em cada poema musicado, sem a mera obrigação de decifrar/entender o poema. Mas possibilitando os plurissignificados das coisas do mundo. 137 Constituiu-se desafio e, ao mesmo tempo, imensa alegria compartilhar por meio dos achadouros deste estudo, tão profundo e significativo para mim/outros, neste ano de 2022 em que o Projeto Crianceiras completa dez anos. Nas colinas desta trilha poética foi possível contemplar a nascente da poesia no espelho d’água, na natureza do meu objeto que raiou no horizonte e que possibilitou compreender a linguagem como acontecimento. Nas palavras do poeta “Ontem choveu no futuro” (BARROS, 2009b, p. 33). Atrevemo-nos a dizer que seria impossível concluir por completo um trabalho com a grandeza do Projeto Crianceiras. Esse “conjunto” de vozes que eclodiram nas palavras desta tese oferecem um memorável trajeto, que demonstram o ponto de encontro entre a pluralidade de vozes que emanam do nosso objeto e suas ramificações: Poesia na prática; Projeto Escola no Espetáculo Cênico Musical. Importante rememorar que o Projeto Crianceiras estabelece seus pilares nos vetores estéticos das múltiplas poéticas, numa perspectiva polifônica, que perpassam as trilhas dos poemas musicados, imagens, vozes e arte cênica. Assim, a arte traduzida é revelada enquanto travessia da palavra para o voo da linguagem poética. A arquitetônica do Crianceiras ultrapassou as fronteiras do tempo e espaço encantando o público de todas as idades. Podemos considerar que o Projeto Crianceiras é um convite para o arrebol da linguagem poética. O Projeto Crianceiras abraça o poema, com a intimidade dos encontros verbais do poeta Manoel de Barros que é um fazedor de novos sentidos e nos faz um convite a “desver o mundo para encontrar nas palavras novas coisas de ver” (BARROS, 2010d, p. 09). É mister a presença da poesia no universo da infância, pois quanto mais cedo as crianças interagirem com esta forma de enunciado artístico serão maiores o grau de familiaridade e as possibilidades de se estabelecer uma relação prazerosa e fecunda com os textos literários e enunciação poética (AZEVEDO; CHAGAS; BAZZO, 2018; VOLÓCHINOV, 2013). Além disso, registramos que, na escrita desta tese, precisamos nos alimentar da mesma fonte de vida que sustentou este estudo: a poesia nos nutriu, a literatura nos salvou; por vezes a paisagem poética, a metáfora, as iluminuras de Martha Barros foram abraço e abrigo. Dedicarnos a escrever sobre Manoel de Barros, considerado um poeta da linguagem e um dos mais importantes escritores da nossa literatura, falar de sua poesia, sem violar “a armação de palavras com um gorjeio dentro”, foi no mínimo desafiador. Nesse caminho de reflexão, estabelecemos o acolhimento das palavras em um constante diálogo de sentidos e horizontes de novas possibilidades de mundo. Nessa fonte de sentidos 138 (tese) a realidade se renovou dia a dia, em cada linha desta tessitura da linguagem poética entrelaçam-se linguagens de doação nos fios de vozes, memórias e experiências. Assim como o poeta Manoel de Barros, além do mais “Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos” (BARROS, 2002, p. 70). O convite à poesia que registrou o canto dos pássaros nas páginas destes cadernos são relevantes resultados de nossa investigação “[...] no ato responsável unificante e singular” (BAKHTIN, 2018, p. 83). Nessa procura de abraçar os sentidos revelados pelos professores e pelas crianças na sua experiência com a palavra poética musicada, foi possível refletir e compreender acerca da dimensão do poder da Literatura, da poesia como ato poético livre e transformador. Com o mesmo olhar fontana do poeta deixaremos aqui algumas reflexões, e o convite ao leitor para o mergulho nas terras férteis da potencialidade do Projeto Crianceiras. Podemos dizer que o Projeto Crianceiras possibilita o encontro das crianças com a arte, os poemas e as memórias inventadas de Bernardo, do menino poeta e seu rio. Quiçá o adulto também, professores/as, pais e responsáveis, através do trabalho desenvolvido pelo Projeto, ampliem suas possibilidades de interagir com a realidade que os cerca. Por essa pesquisa atravessar o Atlântico 56 , consideramos importante registrar – como breve desvio em nosso texto, mas que para nós fez imenso sentido - as palavras do escritor português Valter Hugo Mãe que relata no prefácio ao livro de Manoel de Barros, intitulado O livro das ignorãças (BARROS, 2016b) uma conversa telefônica entre ele e o poeta: No ano de 1999 telefonei a Manoel de Barros. Expliquei que era um jovem editor de uma pequena chancela de poesia e queria publicar, pela primeira vez em Portugal, um livro seu. A sua voz, estupefata, queria saber que estranheza dera à minha vida para querer fazer algo que as grandes casas editoriais não haviam feito até então. Expliquei-lhe que o amava muito, que me comovia, que o editaria como quem beija. Ele riu e disse que sim. Que certamente a sua editora brasileira precisaria de saber do contrato. A verdade foi que fazendo tudo numa conversa pessoal, meio amadores, os dois. Ele exigiu que a antologia juntasse apenas trinta poemas. Eu queria um volume imponente, com todos os versos. Ele insistiu “poesia tem de ser pouca”. Como se fosse mais prudente convidar o novo leitor português a entrar devagar. Escolhi vinte e nove poemas e ele ofereceu um inédito. Fizemos um livrinho chamado O encantador de palavras. Hoje eu detesto a capa, detesto a cor da capa. Detesto a lombada tão magrinha, o texto ingénuo que escrevi nas orelhas. Só gosto do orgulho de haver estreado Manoel de Barros em Portugal. Para a seleção, ele enviou alguns livros que eu não tinha e umas raríssimas palavras escritas. Falámos ao telefone uma dúzia de vezes. Prometeu conceder-me uma entrevista para acompanhar a publicação do livro, mas em cima da hora, recuou. Era imprestável para entrevistas. Só sabia 56 Na construção deste enunciado poético sempre me vinha a imagem desse encontro para além-mar: um Doutoramento realizado em Portugal e uma pesquisa desenvolvida no Brasil. 139 falar sem compromisso. Não queria que os portugueses soubessem nada senão a poesia. Fiquei amorosamente furioso. Perguntou-me porque, afinal, eu gostava tanto dele. Respondi que ele punha passarinhos nos meus assuntos. Desligamos. Manoel de Barros entrou nas bibliotecas de muitos portugueses e, que eu tenha notícia, todos guardam por ele o mesmo afeto. Fico a pensar que se espalharam passarinhos pelos assuntos de toda a gente (MÃE, 2016, p. 08). Com as palavras de Valter Hugo Mãe, desejamos que se espalhem poesias, que reverbere o canto dos pássaros por meio dos poemas musicados de Márcio De Camillo. Entretanto, que o Projeto Crianceiras continue a levar o encantamento por meio das palavras inventadas de Manoel de Barros às crianças de todas as idades - deste lado e alémmar. E tomando emprestado a voz de Márcio De Camillo ao final de cada espetáculo: Viva a poesia! Viva Manoel de Barros. Ressaltamos, que desde recorte escolhido, Projeto Crianceiras Manoel de Barros que, devido as duas vertentes do Projeto Crianceiras - Manoel de Barros e Mário Quintana -, não seria possível abarcarmos nesta pesquisa o projeto realizado com os dois poetas em um único trabalho, o que reaviva o interesse para novas pesquisas. 4.1 EPÍLOGO A palavra minha (pesquisadora) no pedaço de mundo… Estou a olhar aqui de fora e encontro os detalhes que atravessaram e marcaram a pesquisadora. Gostaria de compartilhar pelo meu olhar, pela minha voz, pelo meu coração – a palavra que tem o poder para transformar a nossa desordem humana, quando tudo parece caótico e perdido. “Os delírios verbais me terapeutam” (BARROS, 2002, p. 49). Quando o tempo grotesco nos paralisa e adoece, somente a palavra da poesia administra o caos e é fonte perene daquilo que o ser humano não consegue ficar sem: a (AR)te. Diante das rupturas da escrita, quando a palavra busca pela matéria estética, Barros expõe os pedaços dessa condição humana: Preciso administrar esse caos. Preciso de imprimir vontade estética sobre esse material. Não acho a clave, o tom da entrada. Não acho o tempero que me apraz. O ritmo não entra. Há um primeiro desânimo. Aparecem coisas faltando. Um nariz sem venta. Um olho sem lua. Uma frase sem lado. Procuro as partes em outro caderno. Dou com aquele caracol subindo na escada. Era o mesmo do outro caderno que então passeava uma parede. Percebo que existe uma unidade existencial nos apontamentos. Uma experiência humana que se expõe aos pedaços. Preciso compor os pedaços. Meus cadernos começam a criar