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Representatividade e diversidade da comunidade LGBTI+: a construção discursiva das colunas opinativas na Folha de S. Paulo e na Mídia Ninja

Dall’Orto, Felipe Campo

Abstract

A presente pesquisa analisa como a comunidade LGBTI+ é representada nas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja. Para isso, foram selecionados colunistas desses dois grupos de mídia que trabalham com a temática LGBTI+, para responder ‘se’ e ‘como’ as narrativas produzidas por essas colunas, colaboram para um espaço plural de representações sociais da comunidade LGBTI+? Além disso, pretende-se com a tese, refletir sobre a participação da comunidade LGBTI+ na conquista de espaços de representação na mídia brasileira; Compreender a importância da comunicação na construção de narrativas que valorizam a representação da comunidade LGTBI+; Contextualizar a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja no cenário jornalístico brasileiro; E, mostrar como as narrativas opinativas podem ser um espaço plural de representações sociais e construção de identidades. Para alcançar esses objetivos, foi adotada a Análise Crítica do Discurso (ACD), tendo como base autores como Charaudeau (2008), Carvalho (2015) e Van Dijk (2008; 2017), para analisar os elementos do texto e do contexto das colunas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja, refletindo sobre os sentidos interpretativos provocados por elas, bem como, refletir sobre a importância da construção dessa opinião e as influências de poder no discurso midiático. Ao longo da tese falamos sobre características e lutas importantes da comunidade LGBTI+, a importância da participação e da representação na mídia, a contribuição da comunicação transmissiva e ritualística para a construção de histórias e os impactos no mercado da indústria midiática. Buscamos entender os papéis que o jornalismo tem ocupado na construção da sociedade brasileira e sua relação com os consumidores e consumidoras, além de investigar a produção de narrativas híbridas, na busca por compreender como o discurso opinativo é desenvolvido, envolvendo a racionalidade e o conhecimento do jornalista, e a expertise e a subjetividade do especialista, na busca por promover uma maior representação e visibilidade. Representação que está sendo construída pelo jornalismo opinativo, mas que ainda precisa ser estruturada e ampliada por esses dois grupos de mídia.

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Felipe Campo Dall’Orto Representação e diversidade da comunidade LGBTI+: a construção discursiva das colunas opinativas na Folha de S. Paulo e na Mídia Ninja Junho de 2022 UMinho | 2022 Felipe Campo Dall´Orto Representação e diversidade da comunidade LGBTI+: a construção discursiva das colunas opinativas na Folha de S. Paulo e na Mídia Ninja Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Instituto de Ciências Sociais Felipe Campo Dall’Orto Representatividade e diversidade da comunidade LGBTI+: a construção discursiva das colunas opinativas na Folha de S. Paulo e na Mídia Ninja Tese de Doutoramento Estudos Culturais Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Helena Sousa Junho de 2022 DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ AGRADECIMENTOS A escolha por fazer o doutoramento na Universidade do Minho em Braga, foi cercada de decisões importantes, que me fizeram sair da minha zona de conforto, em busca de conhecimento e uma incrível experiência de vida. A possibilidade de viver essa dualidade, conectando dois países, duas realidades, duas vivências diferentes, mas complementares, me fizeram ver o quanto o aprendizado é prazeroso, seja adquirido pela teoria ou pela prática. E, mais do que o resultado final, entender a importância do processo foi fundamental para valorizar meu lado racional, metódico, disciplinado, sem nunca abandonar minha subjetividade, afetividade e espontaneidade. Durante esse processo, foi fundamental também descobrir que a aprendizagem não precisa ser um caminho solitário, por mais que em alguns momentos isso pareça uma verdade. Sendo assim, não poderia deixar de agradecer algumas pessoas que foram essenciais para que tudo isso se tornasse uma realidade. Agradeço de todo meu coração a Hosana, Caio e Benjamin, que se permitiram viver comigo essa experiência, pela paciência nos momentos de ausência e também nos de presença, pelo afeto, parceria, suporte, enfim, por acreditarem junto comigo que era possível. A minha orientadora, a professora Helena Sousa, por sempre me mostrar o caminho, pela sabedoria que a acompanha e que me tranquilizou em tantos momentos, e por ser uma referência ao longo de toda a jornada. Ao professor Mário Manuel Lima Matos, por despertar em mim o desejo de me tornar um professor com o entusiasmo e a competência que ele tem. A professora Maria Rosa Soares Pedrosa Cabecinhas e ao professor Moisés Adão Lemos Martins por todo aprendizado. A Victor Mazzei, que incentivou meu lado pesquisador, estimulando e desconstruindo alguns medos. A Marilene Mattos e Maria Emília Manente, pelas trocas, conversas, leituras e esclarecimentos. A Orival, Mirna, Leonardo, Bruno e Henrique Campo Dall’Orto, por serem suporte. ii Aos amigos Nicolas Lopes, por ser meu eterno confidente, parceiro, ‘coach’..., Isabella Masiero, por ser nossa família bracarense e por tantas parcerias, Marcio Pinho, por ser serenidade, Franco Benites e Vanessa Cortez (e Tomás), pela amizade e cumplicidade, Sergio Denicolli e Davide Miguel Gravato, pelo carinho, Ivna Borges e Pablo Varela, por serem grandes parceiros dessa pesquisa. Aos amigos que contribuíram por ações, pensamentos, carinhos... Giuliana de Paula, Raíssa Rodrigues, Haroldo Vidal, Laís Sudré, Renata Moça, Carine Cardoso, Juliana Santos, Vanessa Torres, Emilio Aceti e Iorrana Pupa. Aos colegas de doutoramento e de copos, Luiz Adriano Daminello, Fabio Marques, Evandro Carvalho, Jacob Lussento, Ana Lia Rodrigues, Edson Oliveira, Tadeu Feitosa, Alberto Fernandes, Magda Andrea, Maria João Moreira, Erivaldo Fraga e Jorge de Faria. Aos alunos do meu grupo de iniciação científica ‘Diversidade: do preconceito ao consumo’, Ana Carolina Ruy Bragatto, Andriel Passamani Tolentino, Joaquim Maria Ferreira Mello, Luca Misse Moreno Silva e Nirvana Dulce Teixeira Nunes por levarem esse tema para outras perspectivas. Enfim, não foi um processo solitário e espero que daqui para frente, continue sendo assim, pois o conhecimento é contínuo e deve ser sempre compartilhado. Por fim, mas não menos importante, a comunidade LGBTI+ a quem dedico essa pesquisa, porque é necessário e urgente que consigamos construir uma sociedade mais respeitosa e plural. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Representação e diversidade da comunidade LGBTI+: a construção discursiva das colunas opinativas na Folha de S. Paulo e na Mídia Ninja. RESUMO A presente pesquisa analisa como a comunidade LGBTI+ é representada nas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja . Para isso, foram selecionados colunistas desses dois grupos de mídia que trabalham com a temática LGBTI+, para responder ‘se’ e ‘como’ as narrativas produzidas por essas colunas, colaboram para um espaço plural de representações sociais da comunidade LGBTI+? Além disso, pretende-se com a tese, refletir sobre a participação da comunidade LGBTI+ na conquista de espaços de representação na mídia brasileira; Compreender a importância da comunicação na construção de narrativas que valorizam a representação da comunidade LGTBI+; Contextualizar a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja no cenário jornalístico brasileiro; E, mostrar como as narrativas opinativas podem ser um espaço plural de representações sociais e construção de identidades. Para alcançar esses objetivos, foi adotada a Análise Crítica do Discurso (ACD), tendo como base autores como Charaudeau (2008), Carvalho (2015) e Van Dijk (2008; 2017), para analisar os elementos do texto e do contexto das colunas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja, refletindo sobre os sentidos interpretativos provocados por elas, bem como, refletir sobre a importância da construção dessa opinião e as influências de poder no discurso midiático. Ao longo da tese falamos sobre características e lutas importantes da comunidade LGBTI+, a importância da participação e da representação na mídia, a contribuição da comunicação transmissiva e ritualística para a construção de histórias e os impactos no mercado da indústria midiática. Buscamos entender os papéis que o jornalismo tem ocupado na construção da sociedade brasileira e sua relação com os consumidores e consumidoras, além de investigar a produção de narrativas híbridas, na busca por compreender como o discurso opinativo é desenvolvido, envolvendo a racionalidade e o conhecimento do jornalista, e a expertise e a subjetividade do especialista, na busca por promover uma maior representação e visibilidade. Representação que está sendo construída pelo jornalismo opinativo, mas que ainda precisa ser estruturada e ampliada por esses dois grupos de mídia. PALAVRAS-CHAVE: Comunidade LGBTI+; Folha de S. Paulo ; Jornalismo Opinativo; Mídia Ninja ; Representação Social. v LGBTI+ community representation and diversity: the discursive construction of the opinionated columns in Folha de S. Paulo and Mídia Ninja ABSTRACT This research analyzes how the LGBTI+ community is represented in the opinionated columns of Folha de S. Paulo and Mídia Ninja . In this regard, columnists from these two media groups, working with the LGBTI+ to answer ‘if’ and ‘how’ do the narratives produced by these columns contribute to a plural space of social representations of the LGBTI+ community? Besides that, the thesis aims to reflect on the participation of the LGBTI+ community in the conquest of spaces of representation in the Brazilian media; Understand the importance of communication in the narrative’s construction that valorizes the LGTBI+ community representation; Contextualize Folha de S. Paulo and Mídia Ninja in the Brazilian journalistic scenario; And show how opinionated narratives might be a plural space of social representations and identity constructions. To reach these goals, the Critical Discourse Analysis (CDA) was adopted based on authors such as Charaudeau (2008), Carvalho (2015), and Van Dijk (2008; 2017), to analyze the text elements and the columns’ context of Folha de S. Paulo and Mídia Ninja , reflecting on the interpretative meanings caused by them, as well as on the importance of forming this opinion and the influences of power in the media discourse. Throughout the thesis, we approach important characteristics and fights of the LGBTI+ community, the importance of participation and representation in society and media, the contribution of transmissive and ritualistic communication to the construction of stories, and the impacts on the media industry market, seeking to understand the roles that journalism has occupied in the Brazilian society construction and its relationship with consumers, besides investigating the production of hybrid narratives, looking for understanding how the opinionated discourse is developed, involving the journalist's rationality and knowledge and the specialist's expertise and subjectivity, in the search to promote greater representation and visibility. Reprresentation that is being built opinionated journalism, but that still needs to be structured and expanded bu these two media groups. KEY WORDS: LGBTI+ Community; Folha de S. Paulo ; Opinion Journalism; Mídia Ninja ; Social Representation. 2 O papel dos grupos de mídia (Birkinbine, Gómez, & Wasco, 2016) é um aspecto importante na construção das representações sociais da sociedade brasileira e a falta dessa representação pode provocar diversos problemas nas construções identitárias, visto que, a busca por representação influência nas construções simbólicas, parte importante da formação subjetiva, cultural e política do indivíduo. As representações sociais estão ligadas a sistemas de pensamento mais largos, ideológicos ou culturais, e a um estado de conhecimentos científicos. As instâncias institucionais, os meios de comunicação mediáticos ou informais intervêm na sua elaboração, por meio de processos de influência social. (Cabecinhas, 2004, p. 126) Dessa forma, a pesquisa busca compreender como as relações sociais e a representação se apresentam a partir dos grupos de mídia, especificamente, analisar como a comunidade LGBTI+ está (ou não) inserida nesse meio. Para isso, busca responder como os conteúdos produzidos pelas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja representam as temáticas da comunidade LGBTI+? A escolha por utilizar a sigla LGBTI+ ao longo da pesquisa se dá, pelo fato da mesma, ser adotada pela Aliança Nacional LGBTI no Brasil que contempla “a população lésbica, gay, bissexual, travesti, transexual e intersexual (...) o símbolo + foi acrescentado à sigla LGBTI para abranger outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero” (Reis org, 2018, p. 7). Sendo assim, falar de representação LGBTI+ é debater sobre diferentes lutas na busca por direitos muitas vezes negados na sociedade que se diz democrática e liberal, mas que não reconhece as diversidades em relação a identidade de gênero 1 ou de orientação sexual 2 , reforçando um pensamento heteronormativo, pois “as identidades de gênero e sexuais são compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas pelas redes de poder de uma sociedade” (Louro, 1999, p. 11). É falar também da minha própria vivência, como integrante da comunidade LGBTI+, que durante anos reproduzi o pensamento heteronormativo, reforçando o apagamento de uma identidade bissexual, por medo da violência 3 e do preconceito que oprime nossa comunidade, que venho 1 Identidade de gênero é a forma pela qual o sujeito expressa o gênero com o qual se identifica. 2 Orientação sexual é a atração ou ligação afetiva que o sujeito sente por outra pessoa. 3 O Brasil é considerado um dos países mais violentos contra a comunidade LGBTI+ no mundo. Os dados são apresentados ao longo da pesquisa. 3 desconstruindo nas minhas práticas diárias e na construção do meu lugar de fala. Além disso, na tentativa de gerar visibilidade, representação e protagonismo ‘com’ e ‘para’ a comunidade LGBTI+, tenho produzido artigos e palestras sobre o assunto, bem como, a criação do grupo de iniciação científica ‘Diversidade: do preconceito ao consumo’ no Centro Universitário Faesa. De acordo com Mesquita e Perucchi (2016), o pensamento ‘preconceituoso’ sobre a comunidade LGBTI+ é antigo, muitas vezes influenciado pelas igrejas, que exercia (e ainda exerce), um grande poder sobre a sociedade brasileira. Durante anos, a homossexualidade foi considerada uma doença e tratada de forma muito violenta, levando pessoas à depressão, traumas e/ou tendências suicidas, consequência dos métodos invasivos utilizados nesses tratamentos, só sendo retirada do quadro de doenças internacional pela Organização Mundial da Saúde em 1990. Apesar de algumas conquistas pelo movimento LGBTI+ nas últimas décadas, ainda é preciso evoluir muito, pois o lugar de fala, que garante uma perspectiva plural de visões do mundo (Ribeiro, 2019) não é uma conquista no Brasil, sendo assim, debatemos no primeiro capítulo sobre características e lutas importantes da comunidade LGBTI+, e a importância da participação para conquistar espaços de representação na mídia brasileira. Espaços importantes para legitimar o reconhecimento desta comunidade e, quem sabe, colaborar para reparar algumas discriminações históricas reproduzida pelo campo da comunicação, que quando não ignora os membros da comunidade LGBTI+, os retrata de forma estereotipada com trejeitos, reforçando clichês e características inferiorizadas ou desvalorizadas em novelas, filmes e programas humorísticos. Para compreender a importância da comunicação na construção de narrativas que valorizam a representação da comunidade LGTBI+, foi importante no segundo capítulo, destacar a comunicação como um componente essencial para formação da sociedade contemporânea, tanto nas relações pessoais, como profissionais, pois se faz presente nas situações cotidianas, na construção de identidades, na propagação de discursos, enfim, nos diversos campos ligados às atividades humanas (Van Dijk, 2017). Sendo assim, é preciso entender como as construções culturais e ideológicas mediadas pelos grupos de mídia são construídas, bem como, compreender os impactos gerados por eles, por isso, “os estudos culturais podem desempenhar importante 4 papel na elucidação das alterações significativas que têm ocorrido na cultura e na sociedade de nossos dias” (Kellner, 2001, p. 29). Ao longo da história, a comunicação serviu para expressar ideias, eternizar fatos e auxiliar na formação da sociedade, pois possibilitou que os indivíduos se estabelecessem em grupos sociais, definindo regras e valores próprios que contribuíram para a formação da cidadania, levando as pessoas às primeiras experiências de cooperação e conflito entre grupos, contribuindo de alguma forma para o crescimento pessoal e social (Dall’Orto e Dall’Orto, 2019). Ao mesmo tempo, a comunicação é um elemento determinante para o controle social e econômico na criação de uma indústria do entretenimento e da informação (Van Dijk, 2017). Ao ser apropriada por alguns grupos dominantes, assume, em determinados momentos, o centro das mudanças sociais, direcionando comportamentos e pensamentos, sem levar em consideração questões importantes dos direitos humanos em relação à diversidade sexual. Em um país como o Brasil, com uma população que ultrapassa 210 milhões de pessoas 4 , e que 96% dos brasileiros assistem a televisão aberta 5 , é importante observar como a comunicação é utilizada por grandes grupos de mídia para difundir um discurso heteronormativo. Sendo assim, observamos também como a comunicação transmissiva e ritualística (Carey, 1988) podem contribuir para a construção de histórias e de que forma o mercado da indústria midiática (Birkinbine et al., 2016) tem se transformado para buscar um espaço de conversação com o consumidor, na tentativa de desconstruir essa representação estereotipada ou se adequar diante das transformações tecnológicas. No terceiro capítulo, na busca por entender os papéis que o jornalismo tem ocupado na construção da sociedade brasileira e sua relação com os consumidores e consumidoras, foi preciso contextualizar a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja no cenário jornalístico brasileiro. Dentre os gêneros jornalísticos, “informativo, opinativo, interpretativo, diversional e utilitário” (Fernandes, 2019, p. 215), optamos por trabalhar com o jornalismo opinativo, que “realiza uma função (opinar, informar, interpretar, entreter). A função, ao invés de ser vista como ‘intenção’ do autor, deve ser 4 Disponível em https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/. Acesso em 24 de novembro de 2020 5 Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, disponível em www.ibge.gov.br 5 trabalhada como cumprimento dos poderes, papéis e estatuto implicado no contrato de leitura de determinada prática social discursiva” (Seixas, 2004, p. 3). Sendo assim, entre tantos grupos de mídia de destaque no mercado da indústria midiática (Birkinbine et al., 2016) no Brasil, a escolha pelas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja se dá pois, apesar de serem grupos de mídia que atuam em contextos diferentes, ambos surgiram de uma forma colaborativa de trabalho e têm como princípios o respeito à diversidade e a defesa da liberdade de expressão, na produção de um jornalismo, que segundo eles próprios, busca ser crítico e pluralista. Dessa forma, foi feita a análise sob a perspectiva histórico-diacrônica e comparativa-sincrônica (Carvalho, 2015) da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja , que é apresentada no terceiro capítulo, destacando o contexto e o posicionamento dos dois grupos de mídia. A Folha de S. Paulo surge no meio impresso, fundada em 1921 por um grupo de jornalistas, faz parte do Grupo Folha , um dos maiores conglomerados de mídia do Brasil e é um dos maiores jornais de circulação do país. A Folha de S. Paulo é composta por uma equipe de repórteres, editores, fotógrafos, correspondentes, colunistas, ilustradores, diagramadores, cronistas, que atuam em uma estrutura hierarquizada a partir da sistematização própria de um projeto editorial, tendo como atual presidente do conselho administrativo, o empresário Luiz Frias, cuja família comanda o grupo de mídia desde 1962. O jornal funciona com as redações impressa e digital unificadas, mantém um dos maiores institutos de pesquisa do país, o Datafolha , além de uma editora e uma agência de notícias, que contribuem com a construção da formação da opinião pública brasileira. Como contraponto narrativo, foi escolhido também o canal Mídia Ninja , um grupo de mídia que surge no meio digital em 2013 como um coletivo de comunicação que utiliza redes sociais como Facebook, Twitter, Youtube, Instagram , além do próprio portal de notícias, para levantar temas e debates, fortalecendo pontos de vista que não têm visibilidade nos meios convencionais de comunicação. O grupo é transdisciplinar, composto por jornalistas, fotógrafos, videomakers , designers , músicos, políticos, professores, produtores, ativistas de áreas diferentes, mas complementares, que trabalham no combate às múltiplas fontes de opressão e os enfoques da imprensa tradicional, além de contar com a participação de colaboradores com o envio de textos, 6 fotos e vídeos sobre protestos e assuntos abordados pela rede. A Mídia Ninja produz notícias e colunas opinativas para o próprio site, faz cobertura de eventos e manifestações com a produção de vídeos em tempo real pela rede, usando a tecnologia dos celulares e das câmeras digitais, atuando em colaboração constante com outros grupos, coletivos e movimentos sociais. Os coletivos de comunicação representam grupos de mídia que adotaram “novos arranjos econômicos do trabalho dos jornalistas (...) de forma alternativa e independente aos grandes conglomerados de mídia” (Fígaro, 2018, p. 15), e são definidos por práticas horizontalizadas de trabalho, com novas rotinas que unem a experiência do profissional e a disposição dos amadores em experimentar a vivência jornalística. A Mídia Ninja se define como um coletivo de comunicação que defende uma narrativa imparcial e que utiliza de elementos jornalísticos como ferramenta de luta política e social (Malini e Antoun, 2013; Foletto, 2017). Dentro das próprias particularidades, tanto a Folha de S. Paulo como a Mídia Ninja buscam estabelecer uma relação aproximada com os leitores e leitoras, pois numa época em que a informação tem sido tratada cada vez mais como uma mercadoria padronizada, foi preciso investigar se a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja buscam a diferenciação pela qualidade e variedade de conteúdo na tentativa de se comunicar com seus interlocutores. Neste contexto, é preciso entender de que forma a comunidade LGBTI+ é retratada pelos conteúdos produzidos por esses dois grupos de mídia. No quarto capítulo, com o propósito de mostrar como as narrativas opinativas podem ser um espaço plural de representações sociais e construção de identidades, abordamos a produção de narrativas híbridas, na busca por compreender como o discurso opinativo é desenvolvido, envolvendo a racionalidade e o conhecimento do jornalista, e a expertise e a subjetividade do especialista, na busca por promover uma maior representação e visibilidade. Diante deste recorte, a escolha se deu pela análise discursiva das colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja que trabalham com a temática LGBTI+, para entender ‘se’ e ‘como’ essas narrativas colaboram para um espaço plural de representações sociais, bem como, a busca por compreender a importância da representação na construção da identidade e na formação da opinião pública. Por isso, é importante falar sobre a construção dessa opinião, as 7 influências de poder no discurso midiático e a utilização de narrativas que valorizam a mistura de linguagens e a busca por conteúdos mais diversos e plurais. No decorrer da pesquisa encontramos algumas nomenclaturas que contemplam a fusão de elementos comunicativos, como sistemas híbridos de comunicação (Santaella, 2010; Chadwick, 2017), jornalismo pós-industrial (Anderson, Bell e Shirky, 2003; Henn, 2014), jornalismo de multidões (Malini, e Antoun, 2013; Lorenzotti, 2014; Bentes, 2015), ciberjornalismo (Barbosa, 2003; Pavlik, 2014), jornalismo participativo e radical (Peruzzo, 1998; Downing, 2002; Carpentier, 2019). São conceitos desenvolvidos na tentativa de entender as transformações vigentes e em busca de compreender as que ainda estão por vir. A nomenclatura adotada na presente pesquisa é a de sistemas híbridos de comunicação (Santaella, 2010; Chadwick, 2017), pois consegue contemplar linguagens que promovam a diversidade e representação na produção de conteúdo, bem como, a colaboração do especialista e do jornalista, a partir de narrativas que aproximam as perspectivas afetivas e racionais, na construção da opinião. Uma opinião que tem o objetivo de “lançar o debate, e esclarecer o público” (Gradim, 2000, p. 95). Além disso, foi feita a escolha por utilizar o termo ‘grupos de mídia’ (Birkinbine et al., 2016) para contemplar empresas/meios de comunicação e conglomerados de mídia, bem como, a opção pelo uso de ‘consumidor’, para representar espectadoras/es, ouvintes, público-alvo e usuárias/os, na tentativa de acompanhar os impactos provocados pela virtualização dos conteúdos na perspectiva da “dimensão mais social como lugar de presença, espaço de consumo e meio de comunicação” (Saturnino, Sousa & Qiu, 2021, p. 8), pois nos tornamos cada vez mais “indivíduosconsumidores” (Fernandes, 2019, p. 37) dos conteúdos dos grupos de mídia nas diferentes plataformas. Dessa forma, na busca por esclarecer aos consumidores como os grupos de mídia utilizam a opinião para representar a comunidade LGBTI+, é que se faz necessário recorrer aos estudos culturais, pois “os estudos culturais examinam os efeitos dos textos e da cultura da mídia, os modos como o público se apropria dela e a usa, além dos modos como imagens, figuras e discursos da mídia funcionam dentro da cultura em geral” (Kellner, 2001, p. 77) 8 É a construção de uma linguagem que proporciona a pluralidade de vozes no enfrentamento ao discurso heteronormativo, onde a mediação entre os diferentes atores sociais envolvidos é estimulada e influenciada diretamente pelos elementos tecnológicos e conteúdos multimidiáticos, que por sua vez, influenciam o fluxo de informações (Chadwick, 2015). Para atingir os nossos objetivos, “devemos nos mover do texto para o contexto, para a cultura e a sociedade que constituem o texto e nas quais ele deve ser lido e interpretado” (Kellner, 2001, p. 42). Senso assim, o percurso metodológico contribui para destacar os procedimentos intelectuais e técnicos utilizados que nos ajudaram a testar hipóteses e responder as perguntas que surgiram durante a pesquisa, bem como, a atingir os objetivos propostos, tendo como objetivo principal:  Analisar como a comunidade LGBTI+ é representada nas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja . E como objetivos secundários:  Refletir sobre a participação da comunidade LGBTI+ na conquista de espaços de representação na mídia brasileira.  Compreender a importância da comunicação na construção de narrativas que valorizam a representação da comunidade LGTBI+.  Contextualizar a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja no cenário jornalístico brasileiro.  Mostrar como as narrativas opinativas podem ser um espaço plural de representações sociais e construção de identidades. Para direcionar a pesquisa, foram utilizadas estratégias metodológicas que sustentassem a racionalidade científica, mas que não excluíram a reflexão crítica e a subjetividade afetiva do pesquisador na produção de um texto que visa unir essas perspectivas ao longo do percurso. 9 Percurso Metodológico Com a preocupação de traçar um percurso metodológico que contemple os desafios levantados ao longo da pesquisa, alguns procedimentos intelectuais e técnicos foram sistematizados e utilizados para que os objetivos desta pesquisa fossem alcançados, tanto para a construção do conhecimento, como para a contribuição prática que este estudo pode representar à sociedade, pois “para que um conhecimento possa ser considerado científico, torna-se necessário identificar as operações mentais e técnicas que possibilitam a sua verificação” (Gil, 2008, p. 08) O propósito da pesquisa é analisar como a comunidade LGBTI+ é representada pelos grupos de mídia, por isso, foi escolhido como recorte da análise, as colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja que abordam estas temáticas, tendo o cuidado de investigar ‘se’ e ‘como’ as narrativas produzidas colaboram para um espaço plural de representações sociais. A escolha por essas/es colunistas se deve ao fato das/dos mesmas/os se autodeclararem integrantes da comunidade LGBTI+ e assumirem em seus discursos, este lugar de fala. O delineamento do estudo se deu pelo método qualitativo e indutivo, explorando as particularidades e os traços subjetivos, considerando a interpretação dos pesquisados e o contexto das representações midiáticas analisadas. Desta forma, a abordagem parte de forma intencional de colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja que trabalham com questões relacionadas à diversidade e que servem de representação à um debate mais amplo, visto que, “o objetivo dos argumentos indutivos é levar a conclusões cujo conteúdo é muito mais amplo do que o das premissas nas quais se basearam” (Marconi e Lakatos, 2019, p. 86). Para Bacon (2002), a abordagem indutiva parte da racionalização do conhecimento sensível e natural, pois “toda interpretação da natureza começa pelos sentidos e, das percepções dos sentidos e por uma via direta, firme e segura alcança as percepções do intelecto, que constituem as noções verdadeiras e axiomas” (Bacon, 2002, p. 149). Este método dialoga com a pesquisa, pois une, na construção de uma linguagem híbrida, as abordagens subjetivas e racionais na construção do conhecimento, de forma metodológica, contribuindo assim para a escolha das unidades de análise do corpus . 10 A pesquisa tem o caráter exploratório, pois se caracteriza por desenvolver e esclarecer ideias, para “oferecer uma visão panorâmica, uma primeira aproximação a um determinado fenômeno” (Gonsalves, 2001, p. 65), levando a uma melhor compreensão do tema. O objetivo deste tipo de pesquisa é “proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições” (Gil, 2002, p. 41). Para isso, foi necessário realizar uma pesquisa bibliográfica sobre o tema, a partir de materiais já desenvolvidos, principalmente com fontes primárias como livros, artigos científicos e outras teses, mas também em bases secundárias, como sites acadêmicos, documentos, relatórios e jornais. Este tipo de pesquisa facilita o acesso a materiais já pesquisados e aumenta o acesso a conteúdo devidamente registrados, pois segundo Gil (2002, p. 45), “a principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. Esses procedimentos foram fundamentais para refletir sobre a importância da representação no campo midiático e as relações de poder (Foucault, 1999) que operam na construção discursiva. Para compreensão da linguagem textual utilizada pelas/os colunistas e suas estratégias discursivas, foi adotada a construção discursiva do ato de linguagem apresentada por Charaudeau (2008) e Van Dijk (2008; 2017). Sendo assim, a pesquisa se classifica como uma Análise Crítica do Discurso (ACD), onde foram utilizadas técnicas de análise dos elementos do texto e do contexto para refletir sobre os sentidos interpretativos provocados pelas colunas opinativas da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja, tendo como base autores como Charaudeau (2008), Carvalho (2015) e Van Dijk (2008; 2017), pois como afirma Carvalho (2015, p. 176), “a ACD tem como objetivo olhar além dos textos e ter em conta os contextos institucionais e socioculturais em que circulam”. A análise tem como pressuposto teórico os Modos de Organização do Discurso, desenvolvido por Charaudeau (2008) para investigação da construção textual e o quadro analítico desenvolvido por Carvalho (2015), como apresentado na figura abaixo: 11 Figura 1 – Quadro de análise do discurso noticioso desenvolvido por Carvalho (2015, p. 185). Essa escolha se dá, pois, além do texto e da fala, este tipo de análise envolve as demais estruturas sociais e culturais que compõem o discurso, visto que, “dá também conta das relações entre estruturas do texto e da fala, por um lado, e dos seus ‘contextos’ cognitivos, sociais, culturais ou históricos, por outro” (Van Dijk, 2017, p. 63). Sendo assim, fizemos uma contextualização e um breve histórico dos grupos de mídia analisados, sob a perspectiva da Análise Contextual, contemplando a análise comparativa-sincrônica e a análise histórico-diacrônica (Carvalho, 2015), como forma de determinar o posicionamento de ambas, além do suporte onde as colunas opinativas são veiculadas. Neste contexto, a análise se deu pela construção de significados do que está presente, mas também do que está oculto, investigando em um recorte espaço-temporal, os dois grupos de mídia, com destaque para as temáticas abordadas, os recursos utilizados nas capas e homepages , além do efeito de sentido discursivo, visto que, “o discurso se constrói, com efeito, em função de uma finalidade” (Maingueneau, 2001, p. 53), e este tipo de análise propõe “um confronto de representações alternativas da realidade que visa, principalmente, melhorar a leitura crítica do discurso noticioso e ajudar a identificar as características discursivas específicas de um dado órgão de comunicação” (Carvalho, 2015, p. 193). 18 Independente do veículo ou formato, a representação midiática precisa colaborar para qualificar os indivíduos, sem a necessidade de perpetuar estereótipos negativos, pois dessa maneira, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexuais, serão empoderados a construir seus próprios discursos, trabalhando com a participação, colaboração e diversidade desse consumidor, estabelecendo a narrativa como característica universal e atemporal da humanidade (Barthes e Todorov, 1972). Dessa forma, é preciso entender como a comunidade LGBTI+ é tratada e retratada na sociedade brasileira. 1.1. Um retrato do contexto brasileiro A Constituição da República Federativa do Brasil prevê no artigo 5º que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, o que nos indica que todas e todos devem ser tratados de maneira igual, independentemente de sua condição racial, religiosa e/ou sexual. No entanto, é possível perceber que a teoria se distancia da prática quando observamos o cenário que envolve a comunidade LGBTI+ no Brasil, vítima de diferentes tipos de violência, reflexo de uma sociedade que reproduz há anos, comportamentos homofóbicos, lesbofóbicos, bifóbicos, transfóbicos, na perpetuação de discursos conservadores e machistas. Importante destacar que muitos desses casos acontecem no ambiente familiar e nas escolas, impactando diretamente na formação desses indivíduos. Segundo Luiz Mott, a homofobia doméstica, na escola, no trabalho, ridicularizando o gay e a lésbica são formas encontradas para reprimir os LGBTT. A violência seja física ou psicológica faz com que LGBTTs passem por discriminações e tenham uma vida extremamente difícil com problemas de adaptação a esse mundo heteronormativo que ainda considera o gay como um marginal e pecador 7 . Este cenário de violência não é uma novidade no Brasil, durante décadas os homossexuais foram (e em alguns casos ainda são) rejeitados pelas famílias e tratados como depravados e doentes. A tolerância se dava a partir das manifestações fantasiosas e excêntricas em que se destacavam os trejeitos e a erotização dos gays de forma exótica durante as festas de carnaval, para divertir a população e vender uma imagem sensualizada do brasileiro no exterior, mas “quando as fantasias do carnaval são despidas e a vida retoma seu curso normal, surge um quadro um tanto diferente de tolerância em relação aos homossexuais no Brasil” (Green, 2000, p. 23-24). 7 Entrevista cedida a Revista Binacional Brasil Argentina, disponível em https://periodicos2.uesb.br/index.php/rbba/article/view/6587. 19 A violência contra a comunidade LGBTI+ é uma realidade ainda presente e recorrente no país, mesmo com as Nações Unidas lançando um relatório em que estabelece obrigações legais dos Estados, que prevê a garantia de proteger indivíduos de violência homofóbica e transfóbica; prevenir tortura e tratamento cruel, desumano e degradante de pessoas LGBTI+; descriminalizar a homossexualidade; proibir discriminação baseada em orientação sexual ou identidade de gênero; respeitar as liberdades de expressão, de associação e de reunião pacífica. (Reis org., 2018, p. 41) Uma pesquisa realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mostra que de 2015 a 2017 “foram registradas 24.564 notificações de violências contra a comunidade LGBT, o que resulta em uma média de mais de 22 notificações de violências interpessoais e autoprovocadas por dia, ou seja, quase uma notificação a cada hora” 8 Um dos problemas para enfrentar este quadro, segundo ativistas do movimento, é a falta de dados oficiais, pois sem esses elementos, é difícil mostrar para a sociedade como os integrantes da comunidade não têm os seus direitos respeitados. Isto posto, grupos que trabalham em prol da defesa da comunidade LGBTI+ têm produzido dossiês e relatórios na tentativa de dar visibilidade a essas situações. Há mais de 40 anos, grupos como o “Somos: Grupo de Afirmação Homossexual 9 ” e o “Grupo Gay da Bahia 10 ” tem coletado e divulgado informações sobre este retrato da sociedade brasileira. De 2017 a 2019, 1.194 gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, tiveram mortes violentas no Brasil, vítimas de LGBTfobia. O Brasil aparece também como o primeiro país em violência contra pessoas transexuais e diversas no Relatório Mundial da Transgender Europe 11 , que monitora crimes dessa natureza. Segundo o relatório, dos 350 assassinatos no mundo em 2020, 152 foram no Brasil, seguido pelo México com 57 casos e Estados Unidos com 28 mortes. Como esses dados não são sistematizados, não é possível estimar o número real de assassinatos que não são notificados. 8 Dados da pesquisa disponíveis em https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/07/15/negros-sao-alvo-de-metade-dos-registros-deviolencia-contra-populacao-lgbt-no-brasil-diz-pesquisa.ghtml Acesso em 24 de fevereiro de 2021. 9 http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/8528204/4225954/DossieLGBT1.pdf 10 https://grupogaydabahia.com.br/relatorios-anuais-de-morte-de-lgbti/ 11 https://transrespect.org/en/tmm-update-tdor-2020/ 20 Assim como, é difícil registrar as violências sofridas pelos integrantes dessa comunidade ao longo da história, mas que tem um marco importante no século XIX, quando surge o termo homossexual (Trevisan, 2018), impactando a percepção social que se tinha em relação às pessoas homossexuais, rotulando-as e instaurando um conceito estereotipado. Para Nunan (2015), a classificação e o discurso médico da época fizeram com que os indivíduos passassem a ser excluídos, identificados como ‘anormais’ e representados “como um produto da espécie humana (...) A sexualidade, que poderia representar a diversidade, acabou por se converter em um destino aprisionante, particularmente para aqueles que, tal como os homossexuais, apresentam uma sexualidade considerada desviante” (Nunan, 2015, p. 35-36). No Brasil do século XIX, essa segregação foi bem marcante, e “embora a homossexualidade em si não fosse tecnicamente ilegal, a polícia brasileira e os tribunais dispunham de múltiplos mecanismos para conter e controlar esse comportamento” (Green, 2000, p. 58). A visão marginalizada se perpetuou por décadas e as agressões à comunidade LGBTI+ eram recorrentes, não apenas como agressões isoladas, mas a partir da padronização de comportamentos, da construção de linguagens depreciativas e símbolos opressores, que fizeram com que muitas pessoas escondessem sua orientação sexual, sendo obrigadas ao silêncio ou a serem expostas de maneira ridicularizada na mídia sensacionalista (Peixoto, 2018; Trevisan, 2018). As décadas de 1960 a 1980, período da Ditadura Militar no Brasil, foi um período marcado por agressões, humilhações e perseguições políticas. É importante retratar esse período da história, pois frente à essa face intolerante da nossa sociedade, é também nesse período, que emerge uma característica importante da comunidade LGBTI+, a combatividade (Green, Caetano, Fernandes & Quinalha, 2018). A necessidade de romper com o sistema opressivo vigente, fez com que a militância homossexual da época começasse um movimento de organização em diferentes estados brasileiros, sendo influenciada por diversos fatores, mas tendo como inspiração a Revolta de Stonewall . Em uma época onde ser LGBTI+ não era socialmente aceito, Stonewall Inn era um bar em Nova Iorque muito frequentado pela comunidade LGBTI+, uma espécie de ‘refúgio’ para várias pessoas e que era alvo de arbitrárias e ameaçadoras batidas policiais (Figueiró et al., 2007; Nunan, 2015). 21 No dia 28 de junho de 1969, em mais uma dessas ações truculentas, os frequentadores do bar, cansados do tratamento que sofriam, reagiram em um protesto que durou dias em busca pela igualdade de direito aos homossexuais, chamando a atenção da mídia e da sociedade. No primeiro aniversário da rebelião, 10 mil homossexuais, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam, sobre as ruas de Nova Iorque, demonstrando que estavam dispostos a seguir lutando pelos seus direitos. Desde então ’28 de Junho’ é considerado o Dia Internacional do Orgulho GLBTT. (Figueiró et al., 2007, p. 90) Paralelo a isso, outros elementos contribuíram para que a militância se fortalecesse, com o próprio crescimento dos movimentos sociais, como o Movimento Feminista, a valorização de pautas alternativas ao cenário político vigente, a revolução sexual promovida pelo movimento hippie e o fim da Ditadura Militar. O fim da ditadura militar fazia surgir e reforçava um sentimento de otimismo cultural e social que atingia a todos. A abertura política possibilitava sonhar com uma sociedade mais democrática, igualitária e justa e, mais especificamente, trazia a esperança para o movimento gay de uma sociedade em que a homossexualidade poderá ser celebrada sem restrições. (Ferrari, 2004, p. 105) O desejo de construir uma sociedade mais democrática, permitiu a participação dos diferentes sujeitos na busca por novas formas de identificação e reivindicação, tendo conquistas importantes ao longo das décadas seguintes, como a criação do jornal “Lampião da Esquina” em abril de 1978, o primeiro jornal brasileiro que tinha como foco as questões sobre a comunidade LGBT; os protestos em junho de 1980 na cidade de São Paulo, que ficou definido como o “Primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais”; a retirada da homossexualidade da lista de distúrbios psiquiátricos pela Organização Mundial da Saúde em maio de 1990; e a definição do Dia Nacional da Visibilidade Trans, em janeiro de 2004. Estas conquistas, assim como a criação de grupos como os já citados “Somos: Grupo de Afirmação Homossexual” e o “Grupo Gay da Bahia” , são fundamentais para a construção de uma comunicação politizada dirigida para a consumidora e o consumidor homossexual (Green, 2000; Nunan, 2015), pois ajudaram a construir novos símbolos e códigos, que representassem a pluralidade e diversidade de vozes no ato de comunicar. 1.2. A comunicação popular como um espaço de representações A construção de uma comunicação democrática no Brasil vem da tentativa de participação cidadã da comunicação popular, que tem sua origem nas décadas de 1970 e 1980 e se caracteriza pelo 22 envolvimento de grupos e movimentos populares, que tinham como preocupação, servir de palco para uma população que não aceitou passivamente essa dominação e que criou novas formas de expressão com uma visão crítica muito fortalecida. A contestação aos formatos tradicionais era feita através de folhetins, pequenos jornais, boletins informativos, teatro, literatura de cordel e rádio poste, como alternativa aos conteúdos que eram transmitidos pelos grupos de mídia convencionais, mas que ficou condicionada a grupos específicos como sindicatos, grupos folclóricos, de teatro popular, as comunidades homossexuais, quilombolas e indígenas, que foram colocados à margem da sociedade. Tratava-se de uma forma de expressão de segmentos excluídos da população, mas em processo de mobilização visando atingir seus interesses e suprir necessidades de sobrevivência e de participação política. Numa conjuntura em que vinha à tona a insatisfação decorrente das precárias condições de existência de uma grande maioria e das restrições à liberdade de expressão pelos meios massivos, criaram-se instrumentos ‘alternativos’ dos setores populares, não sujeitos ao controle governamental ou empresarial direto. Era uma comunicação vinculada à prática de movimentos coletivos, retratando momentos de um processo democrático inerente aos tipos, às formas e aos conteúdos dos veículos, diferentes daqueles de estrutura então dominante, da chamada ‘grande imprensa’. Nesse patamar, a ‘nova’ comunicação representou um grito, antes sufocado, de denúncia e reivindicação por transformação. (Peruzzo, 1998, p. 114 – 115) Surge como representante da pluralidade e reforça a importância de ocupar os espaços públicos para que as reivindicações dos movimentos sociais populares da época fossem ouvidos, tendo como característica uma comunicação feita pelo povo e para o povo, aparecendo pela capacidade de resistência e de oposição ao regime ditatorial, depois se firmando como manifestação popular com competência para multiplicação de discursos variados. Diante desta efervescente variedade de discursos, alguns jornais de grande visibilidade como o “Última Hora” e o “Já” abriram colunas para conteúdos sobre o movimento gay, jornais alternativos como o “Gente Gay” , o “Gay society” e o “Mundo Gay” , ajudaram a divulgar a cultura homossexual, assumindo um papel importante contra a hegemonia da mídia tradicional e levantando importantes debates sobre os direitos humanos (Green, 2000; Nunan, 2015). Mas é com a produção do “Lampião da Esquina” , um jornal formado por jornalistas, intelectuais e ativistas, que apostava prioritariamente na escrita, a partir de uma linguagem que buscasse 23 identificação com o consumidor (Rodrigues, 2010), que a comunidade homossexual passa a dialogar e a ter uma participação mais ativa com o conteúdo produzido (Mariusso, 2011). É através deste tipo de comunicação que o povo realmente participa, tanto para reivindicar seus direitos, quanto para expressar seus anseios e desejos, “e assim os movimentos sociais populares, apesar de suas limitações, vão ocupando o seu lugar na sociedade, contribuindo para construir a cidadania” (Peruzzo, 1998, p. 37). A comunicação popular se torna uma opção enquanto fonte de informação, tanto pelo conteúdo que oferece, como pelo tipo de abordagem, mas também, pelas diferentes opções nos formatos como alternativas para substituir as notícias dos jornais convencionais. Os grupos de cultura popular, se apropriaram dos meios de produção cultural, para que os indivíduos pudessem interpretar e partilhar as próprias vivências (Geertz, 1989), assim como, os jornalistas alternativos buscaram outros enfoques e recursos de linguagem para noticiar os fatos (Kucinski, 2003). Ambos perceberam que era necessário democratizar o acesso a produção de informação, para isso, incentivaram a criação de jornais e revistas que experimentaram uma nova narrativa com reportagens e artigos de opinião contrários aos grupos de mídia da época, que se preocupavam em noticiar o “milagre econômico” (Kucinski, 2003, p. 77) defendido pela ditadura militar. Essa imprensa alternativa (Kucinski, 2003) tornou possível uma comunicação que privilegiava a participação popular com “a democratização interna, a formação de conselhos editoriais com a participação de representantes dos movimentos sociais” (Festa e Silva, 1986, p. 17), assim, a população tinha a possibilidade de produzir conteúdo jornalístico em defesa dos próprios interesses. Neste contexto, as cidadãs e os cidadãos passam a ter voz e vez na construção do discurso e têm a oportunidade de questionar o agendamento dos assuntos e a forma como são produzidos. “A voz é um direito de perguntar, criticar, de sugerir. Ter voz é isso. Ter voz é ser presença crítica na história” (Freire, 2001, p.131). Assim, o direito à comunicação democrática permite a liberdade de opinião e expressão dos indivíduos na esfera pública, tornando-se assim, um dos pilares de qualquer Estado Democrático de Direito. 24 Ao aceitar participar ativamente da construção da sociedade, se permite analisa-la, passando a ter uma melhor compreensão e assimilação das situações cotidianas. Através dessa percepção individual, do compartilhar experiências, é que o sujeito se permite aprender o conhecimento construído pelo outro. Segundo Ostrower (1977, p. 16), “ao se tornar consciente de sua existência individual, o homem não deixa de conscientizar-se também de sua existência social, ainda que esse processo não seja vivido de forma intelectual”, essa percepção em relação às experiências sociais, são resultados da vivência e dos hábitos construídos nos ambientes em que se desenvolve o ser humano. Dessa forma, aprende a expor a forma de ver o mundo, por isso a importância em difundir os meios de produção também deve ser voltada para dar significado ao que é sentido e vivido pela população, na tentativa de exteriorizar as necessidades vividas, construindo uma comunicação mais diversificada e representativa, pois “as representações sociais devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que já sabemos. (...) têm como objetivo abstrair sentido do mundo e introduzir nele ordem e percepções, que reproduzam o mundo de forma significativa” (Moscovici, 2003, p. 46). Para Mariusso (2011), o “Lampião da Esquina” se destacou justamente por contemplar essa pluralidade, levando em consideração a diversidade dos indivíduos, respeitando as particularidades individuais e servindo ao propósito de levantar o debate sobre as questões LGBTI+ da época. É preciso compreender as representações sociais como fenômenos plurais em constante transformação de ideias fluidas, resultado de uma sociedade contemporânea flexível e complexa, reflexo de mudanças nas áreas culturais, comunicacionais, econômicas e políticas. Na década de 1980, as mudanças sociais foram muito expressivas, possibilitando novas formas de organizações sociais, em que diferentes grupos da comunidade LGBTI+ buscavam o próprio espaço de identificação e representação. 25 O “Lampião da Esquina” não conseguiu acompanhar esse processo de transição, entrando em embates políticos com a própria militância e “a partir de um determinado momento a posição do jornal tornou-se francamente agressiva em relação aos grupos, e as manchetes e artigos publicados serviram para divulgar pelo país inteiro uma grande desconfiança a respeito de qualquer política homossexual” (MacRae, 2018, p. 159). O jornal não conseguiu se adaptar a uma linguagem que contemplasse diferentes formas de representação, atribuindo à comunidade LGBTI+, um padrão a ser alcançado, que durante anos foi propagado pelo discurso midiático dos grandes grupos de mídia, em produtos como novelas, filmes e nos próprios jornais tradicionais. Para Haroldo Vidal, “ao voltarmos nosso olhar para a desconstrução de estereótipos e a construção das multiplicidades do ser gay, percebemos que o Lampião da Esquina reproduzia discursos sobre o padrão gay marcados pela performatividade branca, jovem, classe média, atlética e hipersexualizada” (Vidal, entrevista pessoal, 20 de março, 2021). Essa visão estereotipada propagada pelos meios de comunicação, inclusive pelos grupos que pretendiam amplificar o debate, contribuiu para rotular comportamentos e reduzir os integrantes da comunidade LGBTI+ a algumas características padronizadas e generalistas. Para Ferrés (1998), a generalização é resultado do discurso estereotipado, produzido para que ideologias sejam reforçadas, a partir de um ponto de vista conservador, contribuindo assim, para que fatores como preconceitos e julgamentos sociais atinjam de forma mais intensa grupos como a comunidade LGBTI+, os movimentos feministas e a comunidade negra. O “Lampião da Esquina”, assim como outros jornais da imprensa alternativa das décadas de 1970 e 1980, deixa de existir, uma vez que, as narrativas trabalhadas não conseguiram provocar o sentimento de pertença, tendo o poder de engajamento muito restrito, dando lugar a uma nova forma de enfrentamento, mas deixando um importante aprendizado, a necessidade de envolvimento e participação das diferentes diversidades de quem faz parte do movimento. 1.3. A importância da participação na representação de vozes A participação é uma constante na vida cotidiana, seja em momentos privados ou públicos, o ser humano atua direta ou indiretamente na sociedade, tomando decisões individuais e coletivas que influenciam nos ambientes ao qual pertencem, colaborando, na maioria das vezes, para o 26 desenvolvimento social. Neste contexto, Demo (1988, p. 82) defende que “a participação precisa ser construída, forçada, refeita e recriada”, para isso, no contexto da comunicação democrática, é preciso que grupos diferentes de causas complementares unam forças para constituir uma prática conjunta, visto que, a participação é o caminho natural para o homem exprimir sua tendência inata de realizar, fazer coisas, afirmar-se a si mesmo e dominar a natureza e o mundo. Além disso, sua prática envolve a satisfação de outras necessidades não menos básicas, tais como a interação com os demais homens, a autoexpressão, o desenvolvimento do pensamento reflexivo, o prazer de criar e recriar coisas, e, ainda, a valorização de si mesmo pelos outros. (...) Em síntese, a participação é inerente à natureza social do homem. (Díaz Bordenave, 1994, p. 16 – 17) Essa participação dos indivíduos na construção de uma comunicação democrática, onde narrativas híbridas são planejadas, produzidas e distribuídas de forma estruturada é uma realidade em andamento, que pode ser melhor planejada para que funcione efetivamente, pois o que se vê na atualidade são diversos grupos buscando espaço, mas ainda circunscritos a pequenos nichos, estabelecendo diálogos segmentados e com pouco impacto, muitas vezes, criando ruído dentro do próprio movimento LGBTI+. O conteúdo produzido pelos coletivos de comunicação (Fígaro, 2018) está imbricado de sentido, provocando uma reação cultural no contexto social ao qual é inserido. Com a popularização dos meios de produção comunicacional, o sujeito passa a utilizar da própria linguagem para expressar sua interpretação da realidade, construindo novas narrativas midiáticas, uma vez que, “a cultura passa a definir-se mais por signos de envolvimento sensorial do que pelo apelo ao racionalismo da representação tradicional, que privilegia a linearidade da escrita” (Sodré, 2006, p. 19). As redes sociais têm possibilitado novas formas de contato entre membros da comunidade LGBTI+, sendo assim, novas comunidades virtuais são criadas no Facebook ou no Instagram , possibilitando que as pessoas troquem experiências, visto que, “uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se numa base com afinidades por intermédio das comunicações telemáticas. Os seus membros reúnem-se pelos mesmos centros de interesse, pelos mesmos problemas (...) (Lévy, 2001, p. 20). 27 Dessa forma, páginas como Homofobia não 12 , Universo LGBT 13 , são criadas nas redes sociais provocando o envolvimento de membros da comunidade LGBTI+ com uma abordagem mais emotiva, com a possibilidade de interação, onde os indivíduos conseguem efetivamente sugerir e produzir conteúdo para que a participação se consolide e gere resultados positivos, “mas que não se trata de uma linearidade, conservando elas suas capacidades de discernimento e suas identidades. É uma igualdade com diferenças e com pluralismo, mas de envolvimento nos movimentos e nos seus mecanismos de poder” (Peruzzo, 1998, p. 60), que se perpetua na atualidade, mas que teve seu estímulo nos grupos populares das de 1960, 1970 e 1980. Os indivíduos precisam se identificar com o grupo ao qual fazem parte, compreendendo as semelhanças e diferenças, para que possam se reconhecer enquanto sujeitos ativos do processo, tendo as necessidades compreendidas e os lugares de fala garantidos. Os cidadãos esperam uma comunicação participativa muito mais direta, e tentativas de justificar e fornecer fundamentos teóricos normativos para a participação dos cidadãos no discurso público são hoje muito mais centrais na maioria das sociedades do mundo (...) a teoria normativa é extremamente importante para a vitalidade das instituições de comunicação democrática e para a mídia que apoia e implementa a comunicação democrática. (Christians, Glasser, McQuail, Nordenstreng & White, 2009, p. 68) Ao longo dos anos, tendo como marco a ditadura militar, houve uma padronização dos conteúdos e abordagens das notícias no Brasil (Kucinski, 2003), em que alguns dos maiores grupos de mídia, como O Globo e o Jornal do Brasil , passam a atuar propagando o discurso do regime militar (Kushnir, 2004), e nas décadas seguintes, passam a priorizar editorias que valorizam o avanço econômico, como “ideologia dominante” (Barbosa, 2007, p. 244). Estes grupos de mídia contribuíram para a construção de um pensamento social alienante, onde o indivíduo é estimulado a permanecer à margem das decisões de poder, sendo mais facilmente, manipulado, destacando que Os meios de comunicação são fundamentais para a divulgação de cenários econômicos dominantes, desempenhando papéis estratégicos na naturalização ideológica da economia liberal de mercado, fabricando o consenso sobre a superioridade das economias abertas e insistindo que não há saída fora dos pressupostos neoliberais. (Barbosa, 2007, p. 224) 12 Disponível em https://www.facebook.com/hnao1?ref=ts&fref=ts 13 Disponível em https://www.facebook.com/yorrann2016 34 49%, com tempo médio de 300 minutos por dia, ou seja, o veículo mais usado pela população brasileira ainda é a televisão, mas o tempo de consumo já é a internet. Os grupos de mídia já entenderam que precisam se adequar a essa nova realidade, assim, a maneira de produzir e distribuir conteúdo tem se transformado, para atingir estes consumidores ‘multitelas’. Os grupos de mídia tradicionais têm migrado também para o universo online, criando conteúdos multimídia, qualificando e amplificando as mensagens, tentando recuperar a atenção do espectador. Do outro lado, os consumidores passam a buscar uma experiência mais personalizada, assumindo o papel de protagonistas das próprias histórias, criando uma comunicação que começa a circular de uma nova maneira, pois é gerada a partir de diferentes visões de mundo para várias direções, reforçando uma visão ideológica do jornalismo, a de servir a opinião pública, tendo as notícias, o papel de contribuir para o exercício democrático da cidadania. Segundo Recuero (2009), os processos de difusão das informações atrelados aos avanços tecnológicos são emergentes e resultam das interações, dos conflitos e da cooperação e competição existentes na rede. Entender a evolução tecnológica é importante porque, é a partir dela que as pessoas se organizam em coletivos digitais, utilizando o ciberespaço para debater temas, opiniões, produzir e divulgar conteúdos alternativos ao que se vê tradicionalmente na grande mídia. Grupos têm surgido na rede, se apropriando dos avanços tecnológicos no campo da comunicação para promover conteúdos colaborativos e possibilitar a participação de pessoas, que tinham um espaço muito restrito para se expressar. Alguns exemplos destes grupos são, o “Instituto LGBT+” de Brasília, que utiliza as redes sociais para valorizar, fomentar e difundir o patrimônio cultural e artístico da comunidade LGBTI+ brasileira; O “Nuances – Grupo Pela Livre Expressão Sexual” , uma organização não-governamental de Porto Alegre, que luta pelos direitos sociais de gays, lésbicas, travestis e transexuais, que tem nas redes sociais um espaço para discutir temas relevantes a essas questões, promover manifestações contra situações de discriminação e divulgar ações de intervenção política; E a “Casa 1” em São Paulo, que acolhe jovens LGBTs expulsos de casa pelas próprias famílias e 35 promove ações de crowdfunding (financiamentos colaborativos) e projetos de preservação da memória pessoal da comunidade LGBTI+ a partir do ciberespaço. Para Carpentier (2019), a participação de novos grupos e a democratização dos meios de comunicação está diretamente ligada à descentralização e equalização das relações de poder. Numa busca constante para que essa comunicação seja melhorada e se torne cada vez mais democrática. Como conceito, a participação é crucial para aprofundar nossa compreensão e conceitualização da mudança social, tendo em mente que a participação (e a democracia) não são apenas localizadas no campo da política, mas transgridem as fronteiras da política institucional e podem ser ativadas nos diferentes campos (...) que juntos formam o social. (Carpentier, 2019, p. 21) A construção participativa pode extrapolar o campo da comunicação para outras esferas sociais, transformando as relações de poder, a nível individual e coletivo, onde se valoriza a cultura do questionamento, onde o indivíduo tem a capacidade de processar e redefinir as mensagens da mídia de massa, desenvolvendo um pensamento crítico, que resulte em ações concretas de resistência, em busca de uma democracia da informação, que valorize a diversidade de vozes. É possível identificar grupos sociais reivindicando novos direitos, expressando novas demandas, ao mesmo tempo que outros consumidores utilizam as redes somente para reproduzir o que se vê nas mídias tradicionais ou para propagar discursos de ódio e violência contra a comunidade LGBTI+. A pluralidade de canais invariavelmente irá proporcionar este debate, pois mais conteúdos são postados, gerando novos desafios. A pluralidade e diversidade na comunicação são oportunidades de construção de uma comunicação afetiva, tendo alto poder de transformação, pois possibilita o desejo de participação, compreendendo que “a pluralidade é a ação da condição humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir” (Arendt, 2007, p. 16) A pluralidade e diversidade possibilitam uma maior participação nas sociedades contemporâneas ainda tão desiguais e excludentes. Por mais que a revolução tecnológica tenha proporcionado um maior acesso (Recuero, 2009), é preciso admitir que ainda há um desequilíbrio de poder entre os 36 grandes conglomerados de comunicação e os grupos independentes, mas que é um processo em transformação. A coletividade apresenta uma perspectiva de comunicação livre que contribui com novas formas de produção e distribuição de conteúdo a partir das novas tecnologias de informação, abrindo espaços para que a diversidade seja representada e debatida, pois “se não se nomeia uma realidade, nem sequer serão pensadas melhorias para uma realidade que segue invisível” (Ribeiro, 2019, p. 41). A comunicação colaborativa deve ser pensada em parceria à cultura da convergência (Jenkins, 2009), pois cria uma comunicação híbrida que abre um leque de possibilidades para a produção de uma comunicação individual e coletiva, de discussão e participação com produtores, emissores e colaboradores. Segundo Cardoso (1998, p. 20), “existe uma completa abertura para a alteração ou aparecimento de novas formas de relacionamento social, modos de vida e organização social”. É preciso que para isso haja uma democratização dos meios de produção cultural, que impacte diretamente na produção da notícia, para que os consumidores passem a interagir de forma efetiva, não substituindo a função do jornalista, mas atuando como um novo ator no processo informacional, pois o desenvolvimento das tecnologias e o aparecimento de novos meios cria possibilidades para uma cultura colaborativa. A participação é um conceito – e um conjunto de práticas incorporadas – que nos permite refletir e corrigir essas desigualdades, criando situações em que o poder é compartilhado e onde as pessoas que pertencem às partes mais desprivilegiadas da sociedade se tornem validadas e empoderadas. (Carpentier, 2019, p. 17) Ao se apropriar das narrativas midiáticas para se manifestar, o sujeito estabelece junto aos grupos de mídia um diálogo aberto e acessível, onde os problemas comuns da sociedade serão debatidos, numa igualdade de posições, promovendo a participação cidadã e política, onde os interesses coletivos devem ser priorizados, em prol da democracia. Para Arendt (2007, p. 15), “o fato de que homens, e não o Homem, vivem na terra e habitam o mundo” é determinante para compreender a pluralidade da sociedade. Sendo assim, os sistemas de representação precisam ser reflexo dessa pluralidade, para que os indivíduos que compõem a sociedade se sintam pertencentes a ela, tanto literal como simbolicamente. 37 Na construção dessas representações, as práticas sociais devem ser partilhadas com o intuito de gerar significado as diferentes formas de manifestação da linguagem a todos os interessados do processo de comunicação, uma vez que “a significação é uma manifestação linguageira que combina signos em função de uma intertextualidade particular e que depende de circunstâncias de discurso particulares” (Charaudeau, 2008, p. 35). A palavra é o primeiro elemento transformador do mundo de que se vale o ser humano. Por ela o mundo é ordenado num todo significativo. Com a palavra o homem organiza o real, atribuindo-lhe significados. Toda a massa de sensações e percepções é filtrada pela linguagem humana, e recebe uma significação. (Duarte Junior, 1983, p. 19) Dessa forma, é preciso que não só a palavra ou o texto sejam democratizados, mas também os modos de organização do discurso, o contexto e a situação em que são empregados, pois isso irá contribuir para a construção social e psicológica do ser humano junto à esfera pública. A esfera pública portanto, como o espaço que existe em função da pluralidade humana, como o espaço que se sustenta em função da diversidade humana, como o espaço que introduz a noção de transparência e ‘prestação de contas’, como o espaço que encontra sua forma de expressão no diálogo e na ação comunicativa, traz para o centro da nossa análise a dialética entre o Um e o Outro, e sublinha a importância das relações entre sujeito-outros sujeitosociedade para dar conta dos possíveis significados tanto da individualidade como da vida pública. (Guareschi & Jovchelovitch, 1995, p. 70) É através da representação das próprias realidades, com os indivíduos agindo em busca de um bem comum, que a pluralidade é essencial, pois a variedade de discursos, que procuram relatar acontecimentos, personagens e lugares reais, constroem o registro de histórias que eram contadas, mas não documentadas e propagadas de forma expressiva. A gente já está acostumado a se ver na mídia, mas como parte de estatísticas péssimas: número de violência, de falta de oportunidade, de sofrimentos. Agora o que se vê é o outro lado da moeda, são os exemplos positivos. Eu não quero crescer achando que ser gay é morrer na mão de homofóbicos. Eu quero ter perspectiva, pensar que posso ser rico, que posso ter família, vencer na vida, e isso só é possível se a mídia mostrar os exemplos positivos pra população. (diCastro, entrevista pessoal, 30 de março, 2021) O compartilhamento de pontos de vista, experiências e sentimentos diversos, contribui na qualidade da representação, quando vem associado a grupos de mídia, essa sensação é amplificada, pois tem um maior alcance e impacto na sociedade. A partir do momento que o pensamento social é construído permitindo o envolvimento dos membros da comunidade LGBTI+ na produção do 38 conteúdo, atribuindo aos indivíduos mais visibilidade ao longo deste processo, a tendência é estabelecer uma identificação junto aos demais sujeitos da comunidade. 1.5. Identidades híbridas A comunidade LGBTI+ engloba diferentes indivíduos, com processos identitários particulares, que precisam ser respeitados nas suas individualidades. Quando falamos de uma comunidade LGBTI+, podemos passar a imagem de que os integrantes de cada categoria (ou letra), formam um bloco homogêneo, sem levar em consideração as vivências e dificuldades que cada pessoa tem para se identificar com esse grupo. Dentro da própria comunidade temos dificuldade de lembrar como as identidades sociais e os enfrentamentos à diversas opressões e discriminações são atravessadas. Para o advogado Felipe Etinger, “o arco-íris está só na bandeira. Por mais que exista muito amor no meio, existe também, o lado difícil. Colocam regras na sexualidade alheia, querendo regular o outro. Eu me identifico como bissexual e eles devem respeitar, não julgar”. 19 Já para Deborah Sabará, fora o julgamento preconceituoso que existe na própria comunidade, há a necessidade de desconstruir a invisibilidade em relação às pessoas transexuais, pois “entre as letras LGBTI+ a população T sofre o maior tipo de estigma e, assim vive uma completa vulnerabilidade” (Sabará, entrevista pessoal, 30 de março de 2021), sem esquecer que o Brasil é o país que mais mata pessoas transexuais no mundo. Além da violência física, negar os desejos, opiniões, expressões, influencia na construção das identidades dos sujeitos, por isso, é importante que se estabeleça o diálogo entre as diferentes categorias da comunidade, sem reduzi-las a um formato, mas buscando o enriquecimento da diversidade humana, a partir de uma conexão que as aproxime, potencializando a troca de saberes e possibilitando vivências que fortaleçam uma comunidade mais representada, e não uniformizando os sujeitos em identidades ‘pré-moldadas’. 19 Disponível em https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/educacao/noticia/bissexuais-relatam-preconceito-dentro-do-meio-lgbt-somosinvisiveis.ghtml 39 A busca por uma identidade, perpassa pela necessidade de pertencer - no sentido de fazer parte de um determinado enraizamento territorial (comunidade, família); ou do pertencimento – em uma perspectiva mais abstrata, subjetiva. É a partir deste desejo de um vínculo emocional, de aproximação e identificação, que este sentimento particular impulsiona a construção do indivíduo. Onde quer que um indivíduo seja moldado por interesses culturais diferentes, a ligação desses componentes transculturais entre si se torna uma tarefa específica na formação da identidade. O trabalho na identidade de cada um está se tornando cada vez mais trabalho na integração de componentes de diferentes origens culturais. E apenas a capacidade de atravessar transculturalmente garantirá identidade e competência a longo prazo. (Welsch, 1999, p. 202) A identidade é compreendida tanto pelas igualdades, como pelas diferenças e na contemporaneidade passa a ser destacada pela fluidez, de acordo com a forma em que a representamos ou nos relacionamos em sociedade, uma vez que “a imposição de diferenças significa mais a afirmação da única identidade legítima (...) do que o reconhecimento das especificidades culturais” (Cuche, 2002, p.187). Essa transformação das sociedades e por consequência, das identidades, mostra que o sujeito previamente vivido, que tinha uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou nãoresolvidas, resultado de uma crise de identidade social, reflexo de “um tipo diferente de mudança estrutural que está transformando as sociedades modernas no final do século XX” (Hall, 2011, p. 09). O ser humano enquanto ser social, se classifica pela semelhança ou disparidade com o outro, a partir do conjunto de características próprias e exclusivas de um indivíduo. Esta primeira identificação social se dá quando recorremos a um nome para identificar alguém, passando a associar a pessoa ao nome, pois segundo Ciampa (2001) o nome é mais do que um rótulo que serve para confirmar e autenticar esta identidade, o nome se refere a nossa localização na sociedade, definindo inclusive nossa posição social: a qual família pertencemos. Mas, utilizar um substantivo para definir uma identidade não é o bastante, porque o nome não é a identidade, mas sim uma representação desta. 40 Com isso, outros fatores são utilizados para nos definir enquanto indivíduo. Recorremos a fatores como nacionalidade, profissão, descrição física, buscando nos adequar as semelhanças e diferenças para tentar classificar o indivíduo como único. Nessa busca por artifícios que nos definam acabamos por deixar de ser algo e passamos a ser definidos, por exemplo, pelo que fazemos. Cada indivíduo encarna as relações sociais, configurando uma identidade pessoal. Uma história de vida. Um projeto de vida. Uma vida-que-nem-sempreé-vivida, no emaranhamento das relações sociais. Uma identidade concretiza uma política, dá corpo a uma ideologia. No seu conjunto, as identidades constituem a sociedade, ao mesmo tempo em que são constituídas, cada uma por ela. A questão da identidade, assim, deve ser vista não como questão apenas cientifica, nem meramente acadêmica: é sobretudo uma questão social, uma questão política. (Ciampa, 2001, p. 127) O ser humano é uma interpenetração dos seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais, que podem servir para caracterizá-lo e identificá-lo, como também da representação simbólica desse indivíduo, que serve para expressar sua identidade. É preciso ver o indivíduo não mais como um sujeito isolado, mas sim como parte de uma sociedade. A construção da identidade é um fenômeno que se produz nas relações com os outros, através da aceitação, reconhecimento, credibilidade e também negação, diferença e conflito. “Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de existência” (Arendt, 2007, p. 17), dessa forma, a identidade pode ser vista como uma representação de um ser, e como seres humanos, somos mutáveis, nos transformamos inevitavelmente. A própria definição de identidade, como as formas de representação da mesma, é alterada conforme o contexto social e cultural, pois somos resultados de uma sociedade em transformação, em que vamos assumindo novas identidades à medida que tomamos novas posições sociais, e isso vai determinando nossa existência, fazendo com que essa existência seja uma unidade na multiplicidade. Há uma pluralidade de representações que define uma identidade social (Arendt, 2007). Para Bauman (2007b), na modernidade em sua versão líquida, tudo é volátil, as relações humanas e a vida em conjunto perdem consistência e estabilidade, visto que “as rotinas antigas e 41 aparentemente eternas começaram a se desintegrar; os hábitos antigos e convenções começaram a mostrar sua idade e os rituais, sua debilidade” (2007b, p. 100). Assim, a identidade se constrói, não como uma abstração, mas uma identidade em movimento de concretização de si mesma. A flexibilidade identitária não se dá apenas na dimensão temporal, mas na percepção de como as diferentes culturas podem contribuir para o conhecimento da identidade. Assim, assumimos identidades diversas em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentirmos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortável ‘narrativa do eu’ (Hall, 2011). A identidade depende tanto da subjetividade como da objetividade do indivíduo, porque o ser humano ao mesmo tempo em que é desejo, é trabalho, é um ser social. É na busca por se afirmar como um ser social, por perpetuar dogmas, por valorizar as memórias do passado, que o indivíduo se descobre capaz de expressar o seu potencial cultural, assim, a identidade deixa de ser única e passa a acompanhar as transformações que impactam as culturas nacionais, pois “as nações modernas são, todas, híbridos culturais” (Hall, 2011, p. 63). O hibridismo cultural está presente na evolução humana, impactando e sendo impactado pelas transformações biológicas, tecnológicas e socioculturais, resultando em uma representação social global que transpassa as barreiras físicas, étnicas e raciais, na busca por uma identidade que seja capaz de simbolizar o sentimento de pertença. Esta hibridação cultural trata do encontro do ser humano com as diferentes manifestações culturais e engloba elementos determinantes da oralidade, da escrita, da impressa, da cultura de massa e da cultura de mídia (Santaella, 2003, 2004, 2010), que resulta em um emaranhado de possibilidades para a expressão de identidades. A partir da hibridização de diferentes elementos culturais, é possível observar um intenso e conflituoso processo, em que as dualidades culturais são destacadas, tendo como resultado destes cruzamentos, a construção de uma sociedade em que as diversidades culturais coexistem, visto que, “encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir 42 figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (Bhabha, 2010, p. 19). Dessa forma, a procura por esta representação identitária é complexa e muitas vezes sofrida, pois “o caminho que leva à identidade é uma batalha em curso e uma luta interminável entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança, assombrada pelo medo da solidão e o pavor da incapacidade” (Bauman, 2007b, p. 44), provocando os indivíduos a se ocuparem na construção e reconstrução de suas próprias identidades continuamente. Esta constante busca por estabelecer uma identidade, perpassa também pela necessidade de afirmação e representação da comunidade LGBTI+, que muitas vezes sobressai a construções sociais estruturais, na tentativa de se conectar pelo sentimento de pertença, pelo qual são valorizados comportamentos, afinidades e valores imateriais. É preciso respeitar a singularidade de cada um, sem anulá-la, priorizando a subjetividade dos indivíduos sobre a lógica da racionalidade que dominou a sociedade durante muito tempo. Para Hall (2011) a construção de identidade do indivíduo na modernidade é consequência de diversas revoluções ideológicas ao longo da história, que perpassam pelo homem renascentista do século XIV, pelo ideal racional do século XVI, a valorização de uma maior liberdade, autonomia e emancipação do pensamento humano com o iluminismo, a centralidade do sujeito cartesiano por sua condição teórica e prática, até chegar no século XVIII com o impacto industrial na concepção social do sujeito, que se torna mais isolado e alienado, já que se apoia em estruturas cômodas para ele, não incentivando a buscar o conhecimento, contudo, respaldado de todo cuidado básico que se possa ter. Em consequência disso, o indivíduo passa por uma crise de identidade, em consequência da “descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos” (Hall, 2011, p. 9). Este deslocamento é descrito através de uma série de rupturas nos discursos apresentados no cotidiano, que são classificados como o ‘descentramento’ final do sujeito (Hall, 2011). Dentre os diversos fatores destacados na (des)construção social do indivíduo, é importante ressaltar cinco mudanças que acarretam os avanços na teoria social e nas ciências humanas 43 ocorridas durante esse período, que apontam o ‘descentramento’ do sujeito à medida que se torna um ser mais racional. A primeira refere-se ao pensamento marxista que propõe uma reflexão sobre as relações humanas, onde as instituições regulam a sociedade e “os homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas (Hall, 2011, p. 09)”. As sociedades humanas viabilizam assim suas relações a partir da distribuição dos bens de produção entre seus integrantes, o que acaba determinando como a cultura, o regime político, a moral e os costumes se configuram. A segunda transformação destaca a descoberta do inconsciente por Sigmund Freud e relata a origem contraditória da identidade, através da formação das estruturas de desejos, sexualidade e identidade, com base nos processos psíquicos e simbólicos que ocorrem no inconsciente. O ser humano começa a adquirir uma noção dos sistemas simbólicos, por compreensão da língua, cultura e diferença sexual, assim como, através da formação do eu, na perspectiva do outro, a partir de aprendizados que são construídos pelas representações simbólicas e sociais. Para Moscovici (2003, p. 38), “o poder e a claridade peculiares das representações – isto é, das representações sociais – deriva do sucesso com que elas controlam a realidade de hoje através da de ontem e da continuidade que isso pressupõe”. Assim, à medida que o sujeito vai se desenvolvendo e adquirindo uma massa crítica de pensamento, os sentimentos entram em conflito sempre que não fazem mais sentido, gerando um indivíduo dividido, mas que vivencia uma representação de identidade unificada. Contudo, as identidades não devem ser entendidas como resultado final de um processo (Hall, 2011), mas como algo em andamento, em transformação, uma vez que à medida que a sociedade avança, novos estímulos externos surgem para influenciar o interior, da mesma forma que o interior busca compreender e influenciar o que ocorre no exterior. A terceira mudança destacada por Hall (2011) ressalta o impacto causado pela linguagem como forma de expressão social e cultural, destacando o trabalho do linguista estrutural Ferdinand de Saussure, argumentando que o indivíduo não é dono, em nenhum sentido, das afirmações que faz, ou até mesmo dos significados expressados através da língua, uma vez que é um sistema 50 isso, adotam um discurso massivo, usando repetitivamente textos e imagens, para impactar os consumidores. Com a apropriação das tecnologias, há uma mudança importante em curso que provoca transformações nas formas de produção, onde o indivíduo se apropria das formas de produção cultural e assume um papel questionador em relação à cultura vigente dos meios de comunicação, assumindo um papel de acordo com suas necessidades de manifestação, construindo nos lugares de expressão, pelos quais expõe a própria voz. Para Renan Sukevicius “é preciso mostrar para a sociedade que as pessoas da comunidade LGBTI+ estão aí, ocupando lugares importantes, sendo referência para outras pessoas” (Sukevicius, entrevista pessoal, 30 de junho, 2020). Dessa forma, é preciso estar atento aos diversos elementos que compõem os espaços de representação e de construção de memória, pois não se deve confiar totalmente na fala de recordação de quem vive a história, sendo assim, o jornalista precisa lidar com a interpretação dessas lembranças, pois há sempre o “(...) risco da deformação, da redução e da instrumentalização da recordação” (Assmann, 2011, p. 19). Assim, o jornalista precisa mediar de forma estratégica o registro fiel e os atravessamentos das fronteiras entre recordação e realidade. O jornalismo se encontra em um momento de transformação importante, com as novas tecnologias, tem-se um impacto na estrutura de produção, na construção narrativa, e também nas formas de difusão, atingindo novos consumidores e auxiliando na propagação de histórias diversas por parte destes consumidores (Pavlik, 2014). Neste contexto, o desenvolvimento tecnológico e o aparecimento de novos meios têm possibilitado a criação de uma cultura híbrida, pois “longe de terem usurpado o lugar social dessas formas de cultura, os meios de comunicação foram crescentemente se transformando em seus aliados mais íntimos” (Santaella, 2004, p. 57). Dessa forma, não se pode separar os recursos tecnológicos das pessoas que interagem umas com as outras, ao mesmo tempo que não se pode ignorar as mudanças provocadas pelas tecnologias. Mais do que permitir a comunicação, a tecnologia ampliou a capacidade de conexão. 51 Essa transformação está em curso e tem provocado novos questionamentos, estabelecendo diferentes relações entre as possibilidades de registro e manifestação. O que não pode se perder é a capacidade de “recordação e reflexão, faculdade básica característica do ser humano” (Assmann, 2011, p. 442), mesmo que na atualidade, essa capacidade, esteja diretamente atrelada à influência das novas tecnologias. Para Arendt (2007, p. 107), “sem a lembrança e sem a reificação de que a lembrança necessita para a sua própria realização (...) as atividades vivas da ação, do discurso e do pensamento perderiam sua realidade ao fim de cada processo e desapareceriam como se nunca houvessem existido”. Neste contexto, esses espaços de representação das memórias estão relacionados à construção da diversidade na sociedade, a partir da escolha de narrativas que as perpetuem. Para Seibt (2017, p. 108), “as narrativas e os produtos de memória podem assumir papel importante na nova era de consumo, fragmentada, cheia de espaços em branco pulsantes de sentido”. Sendo assim, vale destacar que a forma de registrar histórias e produzir memórias pode ser entendida por polos de alternância e não, necessariamente, de permanência, auxiliando na construção de narrativas híbridas, que valorizam a diversidade de vozes dos sujeitos do discurso na produção da opinião, garantindo espaço de mediação entre os grupos jornalísticos e os representantes da comunidade LGBTI+. 1.7. Representações midiáticas Uma vez que o discurso midiático envolve identificação e vínculo (Van Dijk, 2008; Charaudeau, 2013) entre os grupos de mídia e a opinião pública, a partir de uma linguagem que estabelece afinidade pelas vivências e crenças pessoais, determinando a forma que os consumidores compreendem o mundo, a representação das histórias e das identidades retratadas deve ser garantida em sua pluralidade. Se “o controle se aplica não só ao discurso como prática social, mas também às mentes daqueles que estão sendo controlados, isto é, aos seus conhecimentos, opiniões, atitudes, ideologias, como também às outras representações pessoais ou sociais” (Van Dijk, 2008, p. 18), a construção da 52 opinião pública deve ser construída ‘no’ e ‘pelo’ discurso, com as diferentes vozes tendo visibilidade para se manifestar, sendo sujeito participante das várias etapas do processo comunicativo. A busca por uma mudança na influência que os media desempenham junto à sociedade contemporânea precisa partir do entendimento que criamos uma sociedade em que a cultura da comunicação é manipulada (Van Dijk, 2008), para isso, é preciso desconstruir essa realidade, procurando compreender criticamente, o poder exercido por esses grupos de mídia, para estabelecer uma conexão com os indivíduos que compõem e representam a nossa sociedade, pois a participação depende das condições de acesso. Segundo a pesquisa Digital News Report 2020 20 , do Instituto Reuters da Universidade de Oxford, o consumo por conteúdo jornalístico no Brasil aumentou nas diversas mídias, sendo a primeira vez, desde 2013, que o consumo de notícias pela internet ultrapassou a televisão. Porém, é importante destacar que a produção do discurso ainda está concentrada em poucos grupos de mídia, como as redes Globo, SBT e Record que juntas detêm 79% da audiência da televisão brasileira 21 , e que não têm representação expressiva em seu quadro de profissionais e colaboradores. Em pesquisa realizada em 2019 pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj), nos três principais jornais impressos do Brasil - O Globo, Folha de S. Paulo e O Estadão , O gênero masculino é predominante nos três jornais e perfaz, respectivamente, 74%, 73% e 72% do total de colunistas em cada um. Em relação à cor/raça a desigualdade é ainda mais severa, com os dados de colunistas de cor branca atingindo 91% para o jornal O Globo, 96% para a Folha de São Paulo e 99% para o Estadão 22 . O resultado é uma capa de invisibilidade das questões essenciais aos mais pobres, à população negra, às mulheres e, também, à comunidade LGBTI+, que repercute em todas as áreas e dimensões. Muitas vezes, este grupo homogêneo de colunistas ajuda a reproduzir velhos clichês 20 Disponível em https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2020-06/DNR_2020_FINAL.pdf 21 Pesquisa brasileira de mídia. Disponível em https://www.abap.com.br/wp-content/uploads/2021/06/pesquisa-brasileira-de-midia-2016.pdf 22 Disponível em http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/jornalismo-brasileiro-genero-cor-raca-dos-colunistas-dos-principais-jornais/ 53 e preconceitos, ignorando pautas importantes a outros grupos, afetando a circulação de novas ideias e empobrecendo o debate como um todo. Se os grupos de colunistas são formados por um só perfil, o de homens heterossexuais, brancos e pertencentes às classes mais ricas, as discussões sobre as grandes questões políticas, econômicas e comportamentais irão refletir essas visões, preocupações e abordagens. A Folha de S. Paulo não tinha até 2019, nenhuma mulher negra como colunista. Isso reflete diretamente na construção do discurso social, que atinge a população e contribui na formação da opinião pública, visto que, os discursos podem ser manifestados e “estruturados ao mesmo tempo por várias dimensões de poder, não apenas pelas dimensões institucionais, mas também por aquelas de gênero, raça e classe” (Van Dijk, 2008, p. 85). Importante destacar que essa estrutura excludente não se restringe ao quadro de colunistas. As Redações contemporâneas refletem a sociedade nas quais estão inseridas. No Brasil, por sermos uma sociedade ainda fortemente machista, racista e homofóbica, as Redações, mesmo que inconscientemente, acabam refletindo essas visões de mundo tanto no conteúdo do que produzem quanto na composição de suas equipes. (Lima, entrevista pessoal, 17 de julho, 2020) É preciso defender que não há democracia sem pluralidade, entendendo que, buscar essa representação é um ato político, pois “todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política” (Arendt, 2007, p. 15). Assim sendo, é preciso construir um espaço jornalístico e ativista ao mesmo tempo, espaço que garanta o lugar do debate e da informação, tendo na opinião, o lugar e a potência para trabalhar as parcialidades da comunicação, acreditando que “um enunciado neutro é impossível” (Bakhtin, 2003, p. 289). O jornalismo é feito tanto da informação, como da opinião. O conteúdo noticioso deve obedecer a técnicas jornalísticas, priorizando temas relevantes, a apuração rigorosa, a abordagem analítica e a pluralidade, refletida na disposição de ouvir os diversos lados. Além de investigar com a maior eficiência possível os fatos e os personagens nele envolvidos. Já a opinião tem um lugar separado da notícia, cabendo às colunas de opinião ou de análise, além dos editoriais, este papel crítico. E é importante que as narrativas não se misturem ao conteúdo noticioso propriamente dito, mas sim que sejam construídos de forma complementar. É deste jornalismo opinativo que traz “em si uma pretensão de validade se não universal, pelo menos intersubjectivamente alargada” (Gradim, 2000, p. 96), e que prioriza a subjetividade crítica que iremos abordar na pesquisa. 54 Dessa forma, a construção das parcialidades deve servir como resistência para garantir a pluralidade, utilizando da linguagem midiática como elemento da representação social, que nos permite conhecer o mundo e propor interpretações diferentes junto ao debate social. Os grupos de mídia precisam refletir a sociedade na qual estão inseridos, tanto nas redações como nos espaços destinados para os colaboradores e a participação dos consumidores (Carpentier, 2019). Mais diversidade, neste caso, significa abrir espaço nesses ambientes para profissionais e especialistas com diferentes vivências e orientações sexuais, o que refletirá na multiplicidade de pontos de vista dos conteúdos produzidos. É urgente que isso seja repensado, pois quanto menor a diversidade, menor a pluralidade de visões e de representações. Existe nesse espaço uma disputa de narrativa, mas ainda aquém do ideal por conta das barreiras institucionais que impedem o acesso de vozes dissonantes. Como expressar-se não é um direito garantido a todos e todas – ainda há a necessidade de democratização das mídias e rompimento de um monopólio (...). (Ribeiro, 2019, p. 86) O pensamento hegemônico e homogêneo recorrente nos grupos de mídia deve dar lugar para que outros sujeitos tenham visibilidade para expressar seu pensamento, rompendo essa narrativa até então instituída, pois o próprio consumidor mudou. Durante muito tempo, como já dito, o público-alvo dos grandes grupos de mídia eram homens, brancos e com alto poder aquisitivo. Com a ampliação do acesso às universidades no Brasil e diante da emergência de uma nova classe média, esse universo de consumidores se ampliou. Por exemplo, leitores mais jovens encontraram nas redes sociais fonte de informação e espaço para produção de conteúdo diversificado e pontos de vista variados. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2019 , divulgada pela Agência Brasil , são mais de 24 milhões de crianças e adolescentes conectados no país das diferentes classes sociais, destes, “76% das crianças e adolescentes dizem ter feito pesquisas para trabalhos escolares; 64% pesquisaram por curiosidade ou vontade própria; 55% leram ou assistiram a notícias na internet”. 23 Ou seja, ao mesmo tempo que o advento das redes sociais fez com que a imprensa tradicional perdesse uma fatia relevante de receita e consumidores, os grupos de mídia que se adaptaram ao 23 Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-06/acesso-internet-aumenta-entre-criancas-e-adolescentes 55 mundo digital, passam a encarar um novo consumidor e uma nova forma de linguagem, com diferentes sujeitos envolvidos. Não é mais possível ignorar os grupos que são considerados minorias sociais, destacando que grupos de minorias podem ser entendidos como uma voz qualitativa, cujo impulso de mudança os une, na busca por garantir uma representatividade democrática que funciona como “um dispositivo simbólico com uma intencionalidade ético-política dentro da luta contra-hegemônica” (Sodré, 2005, p. 11) e não apenas com uma menor representação numérica (Carvalheiro, 2006). Uma forma de dialogar com estes grupos é diversificando não só o conteúdo produzido, mas também os sujeitos que os produzem, repensando a forma como a sociedade é representada. Nenhuma mente está livre dos efeitos dos condicionamentos anteriores que lhe são impostos por suas representações, linguagem ou cultura. Nós pensamos através de uma linguagem; nós organizamos nossos pensamentos, de acordo com um sistema que está condicionado, tanto por nossas representações, como por nossa cultura. Nós vemos apenas o que as convenções subjacentes nos permitem ver e nós permanecemos inconscientes dessas convenções. (Moscovici, 2003, p. 35) A forma como os indivíduos são representados simboliza, em um recorte espaço temporal, quem é o sujeito e a imagem que ele provoca em si mesmo e no outro, pois é a partir das relações sociais, culturais e de representação construída socialmente que os sujeitos são humanizados (Moscovici, 2003; Book, 2011). Na construção de novas representações midiáticas, é necessário repensar as relações de poder (Foucault, 1999), pois a figura do representante que expressa os interesses de determinados grupos, precisa ter comprometimento para que o sentimento de pertença, a identidade e as subjetividades individuais sejam manifestadas junto aos conteúdos midiáticos, pois, se os indivíduos são moldados a partir das relações sociais, estas possibilitam “aos sujeitos elementos de identidade, o desenvolvimento de aptidões, aprendizado do uso de toda e qualquer ferramenta ou objeto cultural, enfim, é pela via das relações sociais que vamos criando nosso pertencimento à sociedade” (Book, 2011, p. 55). É preciso destacar que os indivíduos já são representados nos conteúdos midiáticos. A questão vem a ser, a forma como são representados. É preciso que as relações entre sujeitos e mídia garantam, como já dito, visibilidade aos indivíduos em suas especificidades, manifestando os 56 diferentes lugares de fala. Destacando que lugar de fala (Ribeiro, 2019) compreende um lugar social, onde o sujeito representa a pluralidade de pessoas inseridas na mesma realidade social, o que não necessariamente, coincide com a vivência e a origem de outras pessoas. O que ocorre com os grupos de mídia tradicionais é que o direito a fala é dado às pessoas com vivências, pensamentos e origens muito similares, tendo as mesmas histórias retratadas. A própria imprensa ajudou a normalizar o quadro de desigualdades raciais, sociais e comportamentais durante anos, e que perdura atualmente na sociedade. É preciso fazer uma autocrítica para superar essa narrativa e conseguir transformar essa realidade. Isso só vai ser feito com uma imprensa mais plural. Para Corrêa (2006), o processo de reformulação na esfera midiática jornalística, perpassa por uma mudança identitária, pois os grupos de mídia estão acostumadas a ser representados pela produção de informação e de opinião, entregando o conteúdo ‘pronto’ para a sociedade. Quando o processo se inverte, com o consumidor tendo espaço para interagir, opinar e expressar múltiplas vozes, os grupos de mídia passam a vivenciar “uma espécie de invasão em seu espectro de identidade (...) a reconfiguração da identidade do jornalismo passará pela mudança de papéis: de mediação social para a promoção de correlações entre fatos, ideias, memória, futuro e atualidade” (Corrêa, 2006, p. 59-60), e porque não de representação? Com a popularização das mídias digitais, as histórias podem ser contadas por diferentes atores sociais em busca de representação qualitativa e quantitativa (Sodré, 2006), seja pelos próprios grupos de mídia ou por blogs desenvolvidos por consumidores das redes digitais. A diferença é a forma como serão construídas e retratadas, possibilitando uma participação efetiva. Por isso, a necessidade de construir narrativas que aproximem os recursos técnicos e estéticos, do afeto e da sensibilidade, conectando pessoas com percepções diferentes do mundo, estabelecendo um diálogo na tentativa de humanizar as representações, buscando diferentes formas para contar histórias ‘no’ e ‘pelo’ jornalismo. 1.8. A construção de novas narrativas As narrativas midiáticas, assim como, o processo de produção da informação, têm passado por transformações para conseguir despertar o interesse humano e transmitir histórias, fatos e 57 acontecimentos cotidianos. Se para Benjamin (1985), o narrador encontra-se distanciado do sujeito com a desvalorização das experiências individuais, no formato atual do jornalismo, em contrapartida, essa participação de potenciais narradores tem sido provocada, a partir de pontos de vistas diversos, com diferentes perspectivas e experiências de vida. O estímulo à participação dos consumidores para contarem histórias colabora com uma visão de mundo da sociedade, pois o ser humano está habituado a propagação de conteúdo por outros, desde a antiguidade com as narrativas orais. (...) a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há, não há em parte alguma, povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas, e frequentemente estas narrativas são apreciadas em comum por homens de cultura diferente e mesmo oposta (...) a narrativa está aí, como a vida. (Barthes e Todorov, 1972, p. 19-20) Dessa forma, os grupos de mídia têm utilizado a participação do consumidor como estratégia narrativa para garantir a veracidade dos relatos, estreitando os laços entre a narrativa construída e o fato demonstrado, enfatizando que as narrativas midiáticas podem ser utilizadas como produtos culturais que mantêm elementos da realidade em que foram construídas. O discurso narrativo jornalístico tem se apropriado de elementos como a ironia, a crítica e a opinião, para se aproximar dos consumidores, buscando maior engajamento ao permitir que o indivíduo passe a fazer parte da história, se envolvendo com as narrativas, despertando pela vivência pessoal, um sentimento de pertença à informação. Alguns grupos de mídia passam a criar espaços de interação, onde o consumidor colabora com o tom narrativo, emprestando a familiaridade que possui com os temas abordados, para expor, mesmo que indiretamente, o posicionamento crítico da empresa, através do discurso analítico do ‘prosumidor’. Assim, “a figura do consumidor é reconceitualizada com a convergência; a partir dele, agora também um criador de conteúdo, as organizações de mídia orientam seus modos de produzir, disponibilizar e veicular a notícia” (Longhi, 2011, p. 195). Para Toffler (1980), o ‘prosumidor’ é o consumidor que produz conteúdo, contribui com a produção de informações, serviços e divide as próprias experiências, unindo os aspectos 58 emocionais e racionais. Neste contexto, é importante observar que o papel de quem narra, do fato narrado e de quem recebe a informação, é direcionado por interesses corporativos que permitem uma pluralidade de interpretações homogêneas, reafirmando discursos constituídos pelos grupos de mídia, na propagação controlada de diversas mensagens. Os grupos de mídia assumem o papel de articuladores dos discursos sociais, mediando o interesse público, os acontecimentos narrados e as interpretações e perspectivas sobre estes acontecimentos, sendo assim, “toda a comunicação que interessa à opinião pública é mediada pela instância jornalística, que confere uma aura de importância ao que é narrado, pressupondo um processo de seleção dos fatos, apuração e articulação de vozes” (Dalmonte, 2010, p. 216). Com as novas tecnologias da informação e da comunicação, abrem-se novas possibilidades para contar histórias, de forma mais complexa, com possibilidades de interferência, com opções de continuidade ou descontinuidade da narrativa, fugindo, por exemplo, da exigência de começar a matéria respondendo às perguntas básicas do lead . De acordo com Bentes (2015), as possibilidades de expressão e produção de conteúdo são cada vez mais diversas, gerando uma conversação que impacta na maneira de pensar a narrativa jornalística, visto que, há uma mudança em curso, na qual “não se trata de se ‘informar’ no sentido jornalístico, mas efetivamente experimentar uma prática dialógica, em que a conversação entre muitos, cria pensamento” (Bentes, 2015, p. 12). Provoca assim, uma ruptura do discurso hegemônico, dando lugar à vontade coletiva na valorização da multiplicidade, impactando na transformação de alguns princípios fundamentais da produção de notícia, pois segundo Gillmor (2005), há uma democratização na construção de conteúdo, onde se valoriza a participação dos vários envolvidos – jornalistas, consumidores, colaboradores e editores -, na produção de um jornalismo participativo. Isso não quer dizer que o formato tradicional deixa de ser relevante. O que não significa que deixe de haver lugar para os jornalistas profissionais, que terão sempre que existir – há a necessidade de que existam, para recolherem fatos, para fazerem perguntas com uma certa disciplina e para se dirigirem a um público mais vasto. O que tenho vindo a aprender é que este público, se tiver oportunidades, tem muito para dizer. (Gillmor, 2005, p. 119) 59 O que de fato, exige dos grandes grupos de mídia como a Folha de S. Paulo , a capacidade de aprender a ouvir, estabelecendo canais de diálogo efetivos e não a reprodução do formato “tudo é meu” (Malini e Antoun, 2013, p. 113), onde o consumidor produz o conteúdo gratuitamente para os grupos de mídia, seguindo as normativas editoriais e as agendas estabelecidas. É preciso entender que há uma comunicação colaborativa sendo construída, por várias ‘mãos e cabeças’, por “cidadãos multimídia, que atuam em iniciativas inspiradas na dinâmica do compartilhamento e na construção da cultura do comum” (Lorenzotti, 2014, p. 05), como é o caso da Mídia Ninja . Essa transformação reflete na dinâmica como os conteúdos são produzidos e consumidos, onde ainda há grande concentração da mídia nas mãos de poucos grupos de comunicação, que ainda exercem um domínio junto ao consumidor, pois mantém a reputação e credibilidade construídas nos formatos tradicionais, também nas plataformas digitais, mas que já têm proporcionado a construção de produtos jornalísticos colaborativos, unindo grupos de mídia tradicionais e digitais. Exemplo dessa construção colaborativa, o trabalho investigativo desenvolvido pela revista Veja , a Folha de S. Paulo e o The Intercept , tem gerado uma série de reportagens para as plataformas digitais e para o impresso sobre a crise política no Brasil, envolvendo o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro. O trabalho em conjunto tem possibilitado uma apuração minuciosa e um maior poder de análise, onde o compartilhamento de informações entre os grupos de mídia, tem reforçado a importância da ética e da transparência no trabalho jornalístico. Segundo Cabral (2015), a construção de um novo cenário impactado pelas novas tecnologias é possível, mas que ainda há muito a ser feito, pois é uma mudança que está em processo, em busca de definição sobre que narrativa midiática resultará deste modelo em transição, no qual a construção colaborativa aparece como principal alternativa para a mediação. Dessa forma, busca-se um diálogo para que os diferentes indivíduos sejam representados, pois cada história tem espaço para ser contada, a partir das percepções pessoais do mundo. Peruzzo (1998) destaca que a partir do momento que há uma percepção das demandas individuais e que estas, não estão isoladas, “passa de sua apreensão enquanto direitos individuais para sua compreensão como direitos da pessoa humana e de todos os que estão na mesma situação” 66 Neste contexto, a comunicação assume seu papel mais convencional, o de caráter transmissivo, no qual “a comunicação é um processo pelo qual as mensagens são transmitidas e distribuídas no espaço para o controle da distância e das pessoas” (Carey, 1988, p. 15), atuando em larga escala, amplificando a velocidade e o impacto junto ao consumidor. De acordo com Subtil (2014, p. 25), “a visão transmissiva da Comunicação é a que se encontra mais difundida nas culturas industriais, vinculando-se a noções como ‘enviar’, ‘transmitir’ ou ‘dar informação aos outros’”, sendo apropriada até hoje com a perspectiva de reforçar novas formas de controle político, comercial e social. A narrativa discursiva produzida pelos grupos de mídia “desempenha um papel de grande significado no nosso processo de socialização” (Sousa, 2009, p. 59), influenciando na linguagem, no comportamento e na forma de entender o mundo, ditando os assuntos que são debatidos e a ausência deles, como é o caso da comunidade LGBTI+. Essa influência dos grupos de mídia acontece de forma tão assertiva e há tanto tempo, que já está naturalizada na sociedade, o indivíduo passa assim, a legitimar o poder dos grupos de mídia, reconhecendo-o, sendo afetado, se apropriando do discurso midiático e reproduzindo como se ele (o indivíduo) o tivesse desenvolvido. A maior parte do nosso conhecimento social e político e das nossas crenças sobre o mundo deriva das dúzias de relatos noticiosos que lemos ou vemos todos os dias. Talvez não haja outra prática discursiva, para além da conversação quotidiana, que seja tão frequentemente exercida e por tantas pessoas como o são as notícias da imprensa e da televisão. (Van Dijk, 2017, p. 63) Ao assumir esse papel os media promovem o diálogo entre seus consumidores por meio de uma comunicação que os envolve e da qual eles participam ativamente (Christians et al., 2009), mas não relatam apenas os acontecimentos, pois buscam enriquecê-los e aperfeiçoá-los. Desta forma, os grupos de mídia direcionam o debate público, facilitam o processo de negociação sobre a agenda social, política e cultural, além de estabelecerem um diálogo no qual estimulam o envolvimento da sociedade pelos meios de comunicação na construção de uma visão social. Esta construção se dá a partir de orientações diversas e concorrentes, de acordo com a perspectiva da teoria normativa, os sistemas de imprensa brasileiros foram desenvolvidos de forma eclética, adaptando ideias de alguns outros países, de acordo com a cultura e o sistema político vigentes e funciona como “uma conversação contínua entre os principais atores sociais que buscam 67 compreender como o discurso público deve ser realizado em um determinado contexto sociopolítico” (Christians et al., 2009, p. 65). Os grupos de mídia desempenham um papel decisivo na definição de quem são os atores sociais, da mesma maneira que determinam os assuntos e a forma como os mesmos serão debatidos pela pauta pública. Para Haroldo Vidal, “a mídia leva para a casa de milhões de brasileiros/as os corpos LGBTs de forma objetificada, e esse lugar comum não nos representa e também não dá conta das nossas pautas” (Vidal, entrevista pessoal, 20 de março, 2021). Ao objetificar os corpos da comunidade LGBTI+, os grupos de mídia reforçam, a partir da produção simbólica, uma construção social estereotipada que dificulta aos indivíduos desenvolverem uma visão crítica para que possam produzir e comunicar as suas próprias representações (Moscovici, 2003). A garantia de representações diversas é um processo de tensão, onde há uma disputa implícita entre permanência e diversidade, pois o processo de transformação nas representações sociais (...) contêm em si tanto resistência à mudança como sementes de mudança. A resistência à mudança se expressa pelo peso da história e pela tradição, que impinge sobre os processos de ancoragem e objetificação. As sementes da mudança são encontradas no meio essencial das representações sociais, notadamente a conversação. (Jovchelovitch, 2000, p. 41) O espaço de conversação e envolvimento do cidadão, para que se sinta participante do processo, ainda precisa ser desenvolvido pois, tradicionalmente o indivíduo pode ter a possibilidade de interagir com a imprensa, mas não de influenciar ativamente na produção do conteúdo. Para Traquina (2005b), o processo de agendamento, seleção, definição dos critérios de noticiabilidade 25 e hierarquização dos temas, influencia diretamente a opinião pública, se o consumidor não faz parte desse processo, ele efetivamente não opina. Os grupos de mídia exercem um controle crucial de manutenção do poder social, e esse poder “é geralmente simbólico e persuasivo, no sentido em que estes têm principalmente o potencial de controlar, até certo ponto, as mentes dos leitores ou telespectadores, mas não o de controlar diretamente suas ações” (Van Dijk, 2017, p. 74). A partir do momento que o próprio sistema 25 Os critérios de noticiabilidade são o conjunto de valores-notícia que determinam se um acontecimento é apto para ser transformado em matéria noticiável. Os valores-notícia contemplam a relevância, novidade, proximidade, notoriedade e atualidade (Traquina, 2005b). 68 midiático se encontra em um processo de adaptação a novos recursos tecnológicos, estes níveis de influência se modificam de acordo com as narrativas e plataformas utilizadas para se contar histórias. O sistema de mídia é capaz de construir sentidos e ideologias para influenciar a formação da opinião pública e do imaginário social, estimulando comportamentos individuais e coletivos, visando a manutenção do discurso hegemônico, se apropriando muitas vezes de diferentes culturas, para criar um pensamento dominante, a serviço das próprias particularidades dos media . Esse poder é construído pelos grupos de mídia, ao mesmo tempo que precisam se adaptar à influência que sofrem pelos novos formatos digitais de circular a informação. Os grupos de mídia cumprem um papel essencial de entreter e informar a sociedade, já que “relatam fatos e acontecimentos que se produzem no mundo, fazem circular explicações sobre o que se deve pensar desses acontecimentos, e propiciam o debate” (Charaudeau, 2013, p. 252), exercendo a manifestação da cidadania de forma ética, enquanto repactuam sua importância no espaço público. A propagação de um discurso hegemônico contradiz um papel fundamental dos meios de comunicação, o de fornecer conteúdo para que os cidadãos desenvolvam o pensamento crítico e passem a participar ativamente da construção de uma narrativa social, pois ao assumir esse lugar de informar, analisar, comentar e exprimir opiniões, a comunicação desempenha uma função social fundamental, atrelando assim, poder a quem produz o discurso , de influenciar diversas áreas da sociedade, representando para a população o papel do exercício da democracia, da manifestação dos desejos da sociedade e de fiscalização dos governos. Segundo Ferin (2002, p. 11), “a comunicação, nas suas diversas dimensões de inter-relação e nas suas componentes institucionais e tecnológicas, se encontra no epicentro das alterações sociais e culturais da modernidade”, visto que, o comportamento, a linguagem, as relações cotidianas estão diretamente associadas à noção e ao impacto da comunicação às atividades humanas como um todo. Há muito relativismo em torno da comunicação, e também, uma busca para estabelecer uma definição específica, como bem apresenta McLuhan (2008, p. 21), “numa 69 cultura como a nossa, há muito habituada a fracionar e dividir todas as coisas para melhor as controlar”, é mais comum classificar as coisas do que compreendê-las. Para tanto, é preciso entender que “a comunicação perpassa toda a sociedade” (Oliveira, 2017, p. 24), enquanto um fenômeno social de linguagem, de expressão cultural e de mídia. Assim, a comunicação contribui para a produção e disseminação da linguagem como um código socialmente estabelecido, não estático, mas em contínua transformação e evolução, desempenhando o poder de orientação dos indivíduos na sociedade e da criação de laços sociais pela interação comunicacional (Recuero, 2009; Wellman, 2009). Desta forma, vale destacar a “comunicação não como um produto, mas um processo de troca simbólica generalizada, processo de que se alimenta a sociabilidade, que gera os laços sociais que estabelecemos com os outros” (Rodrigues, 1999, p. 22), buscando a partir da interação provocada pelo impacto e alcance dos media , a possibilidade de expansão do conhecimento que se tem do mundo. Esses impactos são variados, pois numa sociedade tão diversa como a nossa, as representações sociais criadas pelos grupos de mídia não atingem a todos da mesma maneira, principalmente quando buscam a padronização de comportamentos pelos conteúdos midiáticos. Para Morin (1997), a mídia desempenha um papel de controle e manipulação da opinião pública, uniformizando o pensamento coletivo, através da produção maciça de conteúdo em um formato industrial de informação, que visa impor uma cultura de massa a partir da criação e consolidação de estereótipos, uma vez que “a maior parte dos nossos estímulos simbólicos vem dos meios de comunicação” (Castells, 2007, p. 442). A comunicação de massa consegue influenciar na organização social do dia a dia, gerando junto ao consumidor um comportamento coletivizado através de uma experiência comum pela cultura mediada, estabelecendo um discurso simbólico capaz de facilitar a comercialização da informação, levando a reprodutibilidade em larga escala de conteúdos homogeneizados nos diversos formatos midiáticos. A produção e circulação das formas simbólicas nas sociedades modernas é inseparável das atividades das indústrias da mídia. O papel das instituições da mídia é tão fundamental, e seus produtos se constituem em traços tão onipresentes da vida cotidiana, que é difícil, hoje, imaginar o que seria viver num mundo sem livros e jornais, sem rádio e televisão, e sem os inúmeros 70 outros meios através dos quais as formas simbólicas são rotineira e continuamente apresentadas a nós. (Thompson, 1995, p. 219) Os grupos de mídia são estruturados enquanto produtoras de conteúdo e conhecimento para desempenhar uma relação de poder econômico, político e cultural junto à sociedade (Birkinbine et al., 2016), possibilitando uma visão ideológica construída a partir de interesses particulares, que variam de acordo com as características do mercado, mas que são oferecidos ao consumidor como um pensamento universal. Para Flávia Lima, os grupos de mídia ajudaram a “normalizar o quadro de desigualdades raciais, sociais e comportamentais e precisam compreender isso, contribuindo, a partir dessa compreensão, para superar essa narrativa. Isso não vai ser feito sem uma imprensa mais democrática, que dê lugar à multiplicidade de vozes” (Lima, entrevista pessoal, 17 de julho, 2020). É possível valorizar um outro formato comunicativo, que não privilegie apenas os grupos de mídia que detêm os processos industriais, tecnológicos e simbólicos, impondo e reproduzindo um mesmo formato, que não abre espaço para o diálogo com os consumidores. É importante destacar que alguns grupos de mídia têm compreendido que há uma transformação da comunicação de massa para a comunicação em rede, pois, o sujeito que tinha pouca, ou quase nenhuma, possibilidade de participação no processo comunicativo e dos conteúdos de comunicação, passa a ser um potencial colaborador. Christians et al. (2009), reforça que entender o papel facilitador da mídia é fundamental na relação de diálogo e interação com a sociedade, pois gera um espaço de debate, reflexão e cooperação entre pontos de vista diferentes, na tentativa de construir uma comunicação ampla e pluralista. Essa colaboração entre os diversos atores do processo comunicativo é também defendida por Wolton (2010) quando destaca a importância da teoria normativa, atrelada à dimensão funcional da comunicação, para que consigam contemplar a transmissão da informação e a necessidade de negociação para que haja uma convivência democrática na sociedade. Uma dimensão normativa, que, no caso da informação, remete à ideia de verdade e, no da comunicação, à de compartilhamento. E uma dimensão funcional, muito mais instrumental, ligada ao fato de que nas sociedades atuais, extremamente complexas, não é possível viver sem informação, contatos e interações. Repensar as relações entre informação e comunicação 71 significa tomar esses dois conceitos nas suas duas concepções, sem discriminação. Pois são essas dimensões normativas que fixam o horizonte: a verdade, para a informação, o compartilhamento, para a comunicação. (Wolton, 2010, p. 24) Por isso, é preciso compreender que a comunicação pode desempenhar outro papel fundamental nas sociedades, que vai além do caráter transmissivo de propagação do discurso de posse e poder. Wolton (2010) defende a necessidade do compartilhamento para administrar as diversidades que nos separam e Carey (1988, p. 18) a apresenta como a “visão ritual da comunicação”. 2.2. O caráter ritualístico da comunicação Essas ideias reforçam a necessidade do compartilhamento e da construção colaborativa do conhecimento ‘da’ e ‘para’ a sociedade, onde torna possível uma comunicação que estimula a informação e a opinião dos indivíduos, em um rito coletivo e dialógico, de compreensão da realidade social compartilhada, que valoriza também a interação com os media , uma vez que, “a visão ritual vê nas notícias não mera informação, mas um convite à participação na base do nosso assumir, frequentemente de forma vicária, papéis sociais dentro desse processo” (Subtil, 2014, p. 30). Alguns grupos de mídia já têm desenvolvido uma comunicação que valoriza a diversidade e a interatividade, estimulando o consumidor para que participe ativamente do processo comunicativo, onde determinados ‘atores’ ganham destaque, assumindo papéis importantes junto aos demais, pois exercem um efeito de influenciar na propagação de conteúdos, colaborando na criação de pautas que são apropriadas pela rede, para coletivizar determinados assuntos. Portanto, é necessária a presença de influenciadores entre os consumidores, que provoquem ou motivem a participação, como forma de colaborar para a continuidade criativa da comunicação. Quando os utilizadores inovam, deixam de ser os ‘utilizadores finais’, porque passam para o centro da própria cadeia de valor, ou seja, para a arena da criatividade. A criatividade numa abordagem centrada no utilizador, como a que presenciamos, depende da capacidade das pessoas de organizarem redes informais e depois serem capazes de atrair utilizadores que contribuirão para a definição da próxima fase. (Cardoso, Espanha e Araújo, 2009, p. 41) Os consumidores que se propõem a fazer parte desta construção coletiva, passam assim, a fazer parte do processo de produção da informação, levando os grupos de mídia a construírem uma comunicação realmente dialogada, de materiais diversos, com potencial de distribuição 72 espontâneo, pois o sujeito que participa, contribui para a propagação do conteúdo (Toffler, 1980). Assim, o foco no consumidor dá lugar à participação (Silverstone, 2007), na qual o mesmo interfere como distribuidor, inovador e curador da experiência. A Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja iniciaram a construção de uma cultura da inovação no fazer jornalístico, valorizando a diversidade de vozes e a possibilidade de contar novas histórias sob outras perspectivas discursivas, estabelecendo pontos de vista plurais, possibilitando a criação de uma comunicação coletiva, muitas vezes contraditória, mas acima de tudo, participativa. A interatividade permite ao indivíduo escolher os conteúdos que deseja consumir, em qual momento e de que forma, influenciando inclusive, na narrativa da história que será contada. A comunicação em rede coloca a interatividade como elemento fundamental dos novos sistemas de mídia, a diferença é a forma como essa interação acontece, se é mediada pelos grupos de mídia, ou se é o centro das relações interpessoais e coletivas. É possível identificar novos grupos de mídia que surgiram no Brasil como Jornalistas Livres , Quebrando o Tabu , Agência Pública , que trabalham em sistema de compartilhamento de informações e produção multimídia, com independência editorial, fazendo jornalismo investigativo e de causas particulares que incluem defesa dos direitos humanos, meio ambiente, povos indígenas, questão agrária, comunidade LGBTI+, empoderamento feminino, debatendo política e cultura, sob uma perspectiva independente dos grandes veículos de comunicação, mas não neutra. Ao mesmo tempo, é importante observar como o The New York Times , um dos jornais mais influentes e lidos do mundo já entendeu que precisa se adaptar a novas linguagens, “nosso jornalismo deve mudar para igualar e antecipar os hábitos, necessidades e desejos de nossos leitores, presentes e futuros” 26 , para tanto, tem apostado em abordagens mais visuais, com uma narrativa mais ‘conversacional’, buscando uma nova aproximação que envolva diretamente a participação dos leitores. Na busca por estabelecer um diálogo mais personalizado com o consumidor, utiliza diferentes plataformas para contar histórias sob ângulos diferentes e muitas 26 https://xn--monetizao-s2a7b.com/ny-times-2020-relat%C3%B3rio-traduzido-em-portugu%C3%AAs-dcc5a9b2b257 73 vezes complementares, com assuntos que perpassam diferentes mídias, impulsionando o compartilhamento dos conteúdos, pois a rede possibilitou que novas histórias fossem contadas, visto que, o impresso não comporta todas elas, observado os aspectos editorias e físicos. O estímulo para que os sujeitos assumam um papel mais ativo na produção de conteúdo é uma alternativa para estabelecer uma nova relação com o consumidor, valorizando essa participação com a preocupação de fazer um jornalismo mais democrático, favorável à cidadania e que assume a subjetividade em sua prática. Esse posicionamento se aproxima do jornalismo cívico, no qual Traquina e Mesquita (2003), destacam a valorização dos cidadãos como participantes ativos nos processos democráticos e os jornalistas precisam atuar como mediadores do debate, visando o bem público. Assim, o jornalismo cívico prioriza o ritmo dos indivíduos, colocando-os como foco das temáticas que serão debatidas, para que se sintam responsáveis pela democracia participativa e a vida pública (Merritt, 1995). Como dito, é possível observar que tanto a Folha de S. Paulo como a Mídia Ninja têm se apropriado de elementos do jornalismo cívico, alternativo, independente, na tentativa de valorizar a diversidade LGBTI+ e a participação do consumidor, como também o comentário analítico de jornalistas especializados, e a opinião de quem produz e é notícia, valorizando assim, a partir das narrativas híbridas e da multiplicidade de colunistas que os integram, um posicionamento crítico e cidadão. Neste contexto, a comunicação pode ser vista como um processo social e simbólico constituído que estabelece uma partilha de experiências, pensamentos e reflexões, pelas quais se busca uma visão crítica da sociedade na qual estamos inseridos. Essa forma de pensar a comunicação está em constante modificação, pois, com a maior utilização das tecnologias por parte da população, a comunicação é produzida, distribuída e transformada, crescendo enquanto mercado e indústria, pois “de uma forma ou de outra, todos somos consumidores de produtos culturais. (...) os media , em particular, e as indústrias culturais, em geral, fazem parte do nosso dia, do nosso mundo, de nós” (Sousa, 2009, p. 59). Ao mesmo tempo que possibilita a produção de uma comunicação descentralizada, fora das corporações jornalísticas, onde “os meios de produção cultural se disseminam e os meios de comunicação e 74 informação que estão sendo massificados - internet, câmeras digitais, celular, impressoras - servem a quem quer se tornar produtor de cultura” (Bentes, 2015, p. 59). É necessário assim, compreender as particularidades do mercado da indústria midiática atual e como ele tem se adaptado à essa nova realidade, visto que os grupos de mídia tradicionais continuam desempenhando um papel fundamental devido a experiência em comercializar informação, mas também o crescimento de novos grupos de mídia que tem se propagado pela interatividade proporcionada pelos avanços tecnológicos. 2.3. O mercado da indústria midiática em transformação O mercado das indústrias de mídia tem crescido nos últimos anos, apesar da crise econômica que atinge diversos países, reforçando a influência que os grupos de mídia têm na esfera pública, lembrando que estes grupos são em grande maioria, empresas privadas, que atuam sob a perspectiva dos interesses dos próprios grupos, em um dos negócios que gera mais lucro do que outros setores industriais (Birkinbine et al., 2016). Com o avanço tecnológico, esses grupos de mídia têm desenvolvido conteúdos mercadológicos cada vez mais impactantes, a partir da espetacularização do consumo, contribuindo para a manutenção de uma economia global mediada pela comunicação. A propriedade dos meios de comunicação se concentra cada vez mais em algumas mãos; os meios de comunicação dominantes são controlados por um pequeno número de poderosos que têm o poder de se dirigir a um grande número de cidadãos através do planeta. Nunca tantos homens foram mantidos em incomunicação por um grupo tão pequeno. O número daqueles que têm o direito de escutar e de ver não cessa de crescer, ao passo que se reduz vertiginosamente o número daqueles que têm o privilégio de informar, de se exprimir, de criar. (Galeano, 2006, p. 149) Com o desenvolvimento das novas tecnologias comunicacionais digitais, os grupos de mídia passaram a produzir conteúdos multimídia para impressionar seus consumidores, desenvolvendo produtos jornalísticos e de entretenimento, apostando no retorno financeiro para esses seletos grupos. Segundo a 18ª Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia 2017-2021 27 , devido as instabilidades econômicas e políticas há uma redução de investimentos no setor, mas que até 2021 o faturamento deve chegar a 2,23 trilhões de dólares, onde “os Estados Unidos seguem em 27 https://www.pwc.com.br/pt/sala-de-imprensa/noticias/pwc-mercado-global-midia-entretenimento-movimentar-17.html 75 primeiro lugar, seguidos pela China, Japão, Alemanha e Reino Unido (...) e o Brasil continua ocupando a 9ª posição no mercado global” 28 . Nos Estados Unidos, por exemplo, os valores de investimento em publicidade digital, ultrapassaram a receita em propaganda televisiva já em 2014 29 e esses números têm aumentado a cada ano, impulsionando o crescimento das receitas por conta dos gigantes da internet como Facebook e Google (Birkinbine et al, 2016), mas também sendo estimulados por grupos de mídia menores, que apostam em mercados segmentados. No Brasil, apesar do investimento nos mercados digitais estar em ascensão, o maior investimento publicitário ainda está concentrado na publicidade televisiva 30 . Deste modo, é possível observar que o mercado da indústria midiática tem sofrido alteração nos diversos países e que a produção de conteúdos segmentados pode gerar o fortalecimento de algumas empresas que investem na diversidade cultural, em segmentos econômicos e políticas, pois “a maioria das pessoas em todo o mundo prefere a maior parte do tempo ser entretida e informada por pessoas de sua própria cultura e nação” (Tunstall, 2008, p. 05), e que, segundo Tunstall, devido às diversas fontes de financiamento, o cenário financeiro varia drasticamente de acordo com a relação entre cada mídia e país destacado. Independente de qual mídia atrai maior investimento, é importante destacar que as sociedades contemporâneas são essencialmente midiáticas, e que as barreiras físicas não são mais tão determinantes em relação ao poder de influência econômica, política e social. Para Birkinbine et al. (2016, p. 01), “o poder das corporações de mídia tem aumentado de maneiras diferentes, complexas e, às vezes, contraditórias em todo mundo”, e que no mercado atual, há um processo de reconfiguração dos próprios grupos de mídia, que passaram a integrar os produtores de conteúdos tradicionais com as tecnologias de conteúdos digitais, levando ao surgimento de novos modelos de grupos jornalísticos. Para Campos-Freire, De Aguilera-Moyano e Rodríguez-Castro (2018), é preciso entender que o valor de mercado e a capitalização dos grupos tradicionais de comunicação estão em 28 https://www.pwc.com.br/pt/sala-de-imprensa/noticias/pwc-mercado-global-midia-entretenimento-movimentar-17.html 29 https://www.iab.com/news/global-mobile-advertising-revenue-hit-31-9-billion-e23-9-billion-in-2014-according-to-iab-iab-europe-ihs/ 30 http://www.digitalnewsreport.org/survey/2017/brazil-2017/ 82 de podcasts , newsletter diários e reportagens mais analíticas e opinativas, visto que, “a produção e distribuição de jornais impressos tornou-se inviável. E o impresso deixou de ser um meio eficiente de distribuição de informação atualizada” 42 , conforme afirma Café Lindenberg, diretor-geral da Rede Gazeta . A mudança no jornal impactou na estrutura da redação, na forma de produzir conteúdo e na relação com o consumidor, que poderá acessar a informação por diferentes plataformas, com “notícias acessíveis a todos os internautas, mas vamos aumentar a produção de conteúdo exclusivo para assinantes, como matérias especiais, notícias em primeira mão e opiniões dos colunistas” 43 . Outros jornais de expressão nacional do Brasil, como o Diário de S. Paulo , Gazeta de Alagoas , Diário do Comércio e Brasil Econômico também perderam capital e fecharam as versões impressas nos últimos anos. No mercado de revistas, a versão brasileira da Rolling Stone parou de publicar a versão impressa, assim como o grupo Abril , responsável por revistas como Veja , Superinteressante , Placar , Cláudia e Quatro Rodas , fechou 12 revistas da marca. A figura abaixo ilustra esse impacto nos grupos de mídia até 2018. Figura 2 – Ilustração dos grupos de mídia que acabaram com a versão do jornal impresso até 2018 no Brasil, elaborado pelo site poder360 42 http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/82410/rede+gazeta+do+espirito+santo+investe+em+portal+e+acaba+com+formato+i mpresso+diario+do+jornal+a+gazeta 43 https://www.agazeta.com.br/editorial/a-gazeta-em-transformacao-tire-duvidas-sobre-mudancas-no-jornal-e-no-site-0819 83 Durante a pandemia, o número de demissões de profissionais no mercado brasileiro aumentou, só na Fox Sports foram 150 jornalistas demitidos no início de 2021 44 , e os que se mantém empregados nessa ou em outras emissoras, trabalham com acúmulo de funções e, em muitos casos, redução salarial. No jornalismo, como em outros universos, a crise é complexa, multifacetada e dinâmica. Nas últimas décadas, ela tem se materializado na queda das tiragens dos jornais, extinção de revistas, diminuição das audiências na televisão, demissão de profissionais e o consequente enxugamento das redações. Observamos também o desaparecimento de veículos e a falência de empresas, o abandono de algumas práticas e o desvio de funções antes consideradas constitutivas do gesto de informar. Mas a crise do jornalismo não se restringe à míngua de dinheiro (Christofoletti, 2019, p. 16-17). Em contrapartida, é possível identificar no mercado brasileiro, grupos de mídia que têm obtido retornos lucrativos, com aumento de receita líquida, que envolve vendas, publicidade e serviços, como é o caso do Grupo Globo , que inclui a TV Globo , os veículos impressos - O Globo, Extra e revista Época , o mercado radiofônico - CBN e Sistema Globo de Rádio , o mercado de TV por assinatura com os canais Globonews , GNT , Multishow , entre outros e os serviços online – Globoplay, G1 e globo.com . O grupo uniu em uma mesma diretoria os setores de TV aberta e operação digital e caminha para a unificação de outros serviços que trabalham com tecnologia da informação, streaming , comercial e plataformas digitais, visando a convergência do cenário de mídia brasileiro, reformulando não só a área do jornalismo, mas as áreas de humor, esporte e dramaturgia, iniciando 2021 com uma nova identidade visual, que representa “os valores da empresa compostos por brasilidade, proximidade, diversidade, senso de comunidade, liberdade e criatividade” 45 . Importante observar como a diversidade passa a fazer parte do discurso de vários grupos de mídia, na tentativa de estabelecer uma aproximação com diversos consumidores. O Grupo Estado ou Estadão , responsável pelo jornal O Estado de S. Paulo , a Rádio Eldorado e a Agência Estado , tem conseguido recuperar investimentos e se manter estabilizado 44 Disponível em https://portal.comunique-se.com.br/como-ficara-a-fox-sports/ Acesso 20 de abril de 2021. 45 Disponível em https://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2021/01/04/globo-comeca-2021-com-nova-marca.ghtml Acesso em 10 de abril de 2021 84 financeiramente. Segundo relatório financeiro elaborado pela agência BDO 46 sobre a rentabilidade da empresa, “há projeção de retomada do crescimento no curto e médio prazo com recuperação da rentabilidade dos produtos atuais e também através do desenvolvimento de novos produtos voltados para o mercado digital”. Outro grande conglomerado que tem apresentado resultados positivos é o Grupo Folha, responsável pelo jornal Folha de S. Paulo, que começou a investir na diversificação de conteúdos jornalísticos em 1995, quando passou a produzir notícias na internet em tempo real, com o FolhaWeb . No ano seguinte, lançou o UOL – um provedor de acesso à internet, conteúdo e serviços online, que atualmente conta com mais de 98 milhões de visitantes únicos por mês 47 , além de lançar ferramentas de e-commerce , aplicativos e novas plataformas digitais. Essa diversidade de produtos e conteúdos tem garantido retornos lucrativos para a empresa, em um momento de preocupação do mercado da indústria midiática brasileiro. Nessa reestruturação do jornalismo brasileiro, startups jornalísticas que surgiram no ambiente digital, como The Intercept Brasil , Revista Piauí , Nexo Jornal , têm ganhado destaque como grupos de mídia e contribuído para a criação de narrativas colaborativas, utilizando as tecnologias digitais para produzir impacto em larga escala, reconquistando a confiança do consumidor a partir da transparência e do feedback em relação aos processos comunicativos, descobrindo junto ‘com’ o consumidor o tom de voz das plataformas. Deste modo, é possível afirmar que há um novo cenário de mídia, que apresenta modelos em transição, novas formas e formatos de trabalho, influenciados pela sociedade da plataforma (Van Dijck et al., 2018), que impacta diretamente no feed de notícias do consumidor e na seleção automatizada de conteúdos que serão acessados. Essas mudanças atingiram o mercado brasileiro que tem buscado uma nova forma de diálogo com o consumidor, pois os avanços tecnológicos e a popularização dos smartphones , levaram os grupos de mídia a pensar no consumidor ‘multitelas’, que mantêm TV, computador e celular ligados simultaneamente. 46 https://static.poder360.com.br/2019/04/grupo-estado-resultado-2018.pdf 47 https://sobreuol.noticias.uol.com.br 85 Com a diversificação das plataformas, o indivíduo tem mais possibilidades de consumo, levando os grupos de mídia a diversificar seus conteúdos para serem mais assertivos, repensando a forma de se conectar com o consumidor. Para Salverria 48 , “isso tem gerado uma mudança no processo de produção da informação”. Segundo Figueira Neto (2008), o consumo ‘multitela’ não é um fenômeno recente, pois o indivíduo já consumia ao mesmo tempo, rádio e televisão, mas o avanço das novas tecnologias colocou os dispositivos digitais no cotidiano das pessoas, desse modo, os grupos de mídia passaram a produzir novos conteúdos, priorizando a integração com o consumidor e os diferentes suportes. A apropriação tecnológica por parte dos grupos de mídia, não coloca o ser humano de forma subserviente à tecnologia, mas numa relação de parceria, onde o aparato tecnológico possibilita a amplificação do pensamento humano, caracterizado por uma relação de colaboração, modificando definitivamente as relações de consumo. Cabral (2015, p. 26), destaca também que “compreender o suporte da Internet e sua lógica comunicacional passa a ser um componente determinante no desenvolvimento de estratégias dos conglomerados de mídia”, pois não basta apenas produzir o conteúdo, é preciso desenvolver estratégias para distribui-lo. Essa forma de pensar comunicação é fruto da convergência dos meios, resultado de um processo tecnológico, social, cultural e mercadológico, visto que, A indústria midiática está adotando a cultura da convergência por várias razões: estratégias baseadas na convergência exploram as vantagens dos conglomerados; a convergência cria múltiplas formas de vender conteúdos aos consumidores; a convergência consolida fidelidade do consumidor, numa época em que a fragmentação do mercado e o aumento da troca de arquivos ameaçam os modos antigos de fazer negócios. (...) quaisquer que sejam as motivações, a convergência está mudando o modo como os setores da mídia operam e o modo como a média das pessoas pensam sobre sua relação com os meios de comunicação. (Jenkins, 2009, p. 325-326) A nova realidade conectiva causa um impacto na estrutura do sistema midiático, para Canavilhas et al. (2019), há uma redistribuição dos processos de notícia, onde o consumidor com seus dispositivos móveis, sugere pautas, interage, produz informação – fotografando, filmando, influenciando na forma de fazer jornalismo e pensar a sociedade, visto que, as sociedades 48 http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5560&secao=447 86 contemporâneas são altamente dependentes das instituições midiáticas, que muitas vezes, assumem a responsabilidade de mediar as relações sociais e culturais da sociedade. 2.5. Culturas midiáticas É necessário entender a cultura enquanto fenômeno social fluido, não estático, em busca de compreender as novas apropriações sociais, individuais e coletivas de cada população, visto que, em um mundo cada vez mais globalizado, o contato com diferentes formas de manifestações culturais tem se tornado comum. Para Hall (2003, p. 136), “a cultura não é uma prática; nem apenas a soma descritiva dos costumes e ‘culturas populares’ das sociedades (...) Está perpassada por todas as práticas sociais e constitui a soma do inter-relacionamento das mesmas”. Os indivíduos e as formas de interação estimulam a criação de um pensamento coletivo, ao mesmo tempo que a cultura estabelece regras e valores que organizam a sociedade e determinam comportamentos individuais, desta forma, há uma busca constante de analisar padrões, comportamentos e interações para compreender como isso impacta na construção de uma sociedade. Williams (1992, p. 13), reforça que “é um sistema de significações mediante o qual necessariamente (...) uma dada ordem social é comunicada, reproduzida, vivenciada e estudada”. O comportamento social depende dos diversos fatores que compõem uma sociedade, influenciando e evidenciando potencialidades e características particulares, pois “a cultura em seu sentido mais amplo, é uma forma de atividade que implica alto grau de participação, na qual as pessoas criam sociedades e identidades” (Kellner, 2001, p. 11). É importante entender a cultura como uma forma de representação da identidade de uma sociedade, em que são retratados os modos de convivência, comportamento e características de um povo, mas também como uma forma de autorreflexão coletiva, visto que, a cultura não apenas representa a sociedade; cumpre também, dentro das necessidades de promoção do sentido, a função de reelaborar as estruturas sociais e imaginar outras novas. Além de representar as relações de produção, contribui para sua reprodução, transformação e para a criação de novas relações. (Canclini, 2003b, p. 29) 87 Welsch (1999), defende que o conceito tradicional de cultura é muitas vezes ‘separatório’, e que não se aplica mais nas sociedades modernas, sendo assim, é preciso buscar o entendimento de uma cultura colaborativa, que se preocupa mais em englobar conceitos e diferenças, do que em classificá-los. É necessário perceber cultura como um lugar de mediação, que se manifesta tanto como produção de sentido, mas também como construção das experiências humanas, já que “os estudos culturais deveriam promover um ensino crítico da mídia para ajudar o público a resistir à manipulação ideológica” (Kellner, 2001, p. 111), ao colaborar com a construção de um pensamento crítico, onde o indivíduo aprende a analisar as imagens, narrativas e discursos dominantes criados pela indústria midiática, sendo assim, é preciso estabelecer uma ligação com a comunicação como forma de questionar o pensamento vigente, e assim, compreender a importância da comunicação como elemento constitutivo da construção do ser humano. Toda cultura, para se tornar um produto social, portanto ‘cultura’, serve de mediadora da comunicação e é por esta mediada, sendo portanto comunicacional por natureza. No entanto, a ‘comunicação’, por sua vez, é mediada pela cultura, é um modo pelo qual a cultura é disseminada, realizada e efetivada. Não há comunicação sem cultura e não há cultura sem comunicação. (Kellner, 2001, p. 53) Não é de hoje que a sociedade tem utilizado a comunicação como forma de controle social. Registros históricos mostram que o ser humano aprendeu a conviver em grupos, prova de que os antigos ancestrais já percebiam a importância e a necessidade da convivência mútua para garantir a sobrevivência. Antigamente, essa convivência era rudimentar, mas fundamental para a evolução. De acordo com Harari (2014), essa adaptabilidade e habilidade de convivência foram essenciais para que a espécie humana sobrepujasse outros seres. Com o passar do tempo, o ser humano buscou maneiras para compreender melhor essas relações sociais e assim melhorar o convívio, pois percebeu que era vital para a própria sobrevivência e das gerações futuras que essa cooperação desse certo. É possível entender que a sociedade é resultado das necessidades e demandas do indivíduo, numa busca constante pela colaboração, mas também consequência de diversos conflitos. Essas relações de cooperação e conflito são exploradas constantemente pelos grupos de mídia. 88 A comunicação se tornou uma ferramenta importante de controle social e econômico, influenciando na mercantilização da cultura, na criação de uma indústria do entretenimento e da informação, atuando na construção simbólica e cultural da sociedade. As formas simbólicas foram produzidas e reproduzidas em escala sempre em expansão; tornaram-se mercadorias que podem ser compradas e vendidas no mercado; (...) De uma forma profunda e irreversível, o desenvolvimento da mídia transformou a natureza da produção e do intercâmbio simbólicos no mundo moderno. (Thompson, 1998, p. 19) A cultura midiática faz valer do seu potencial discursivo para contribuir na construção de um pensamento hegemônico ligado a determinados grupos econômicos, que é difundido pelos meios de comunicação de massa como ‘único’, no qual são desconsideradas as especificidades de cada cultura particular, mas são promovidas características semelhantes de uma cultura socialmente aceita e, consumida. Segundo Eco (1993), os mass media são responsáveis pela propagação deste discurso homogêneo, a partir de uma visão acrítica do mundo, que se dirige ao consumidor para promover sentimentos, mas sem a necessidade de reflexão, onde os produtos midiáticos oferecem conteúdos, mas não permitem a participação. Para Bourdieu (2011), a cultura dominante legitima as outras subculturas para exercer mais facilmente seu domínio, pois reforça valores e desmobiliza a cultura das classes dominadas, produzindo desta forma, novas representações sociais. Sendo assim, “as representações sustentadas pelas influências sociais da comunicação constituem a realidade de nossas vidas cotidianas e servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nós nos ligamos uns aos outros” (Moscovici, 2003, p. 08). A indústria midiática tem se apropriado da cultura de uma forma muito natural, visto que, os grupos de mídia conseguiram assimilar os conteúdos culturais existentes e propagá-los com mais intensidade do que outros meios de informação. É preciso entender que essa construção de uma cultura da mídia é uma ‘via de mão dupla’, pois, consumidor e produtos midiáticos influenciam e são influenciados simultaneamente, visto que, a cultura da mídia é “a forma dominante e o lugar da cultura nas sociedades contemporâneas” (Kellner, 2001, p. 54). 89 Fica evidente que os grupos de mídia contribuem significativa e, simbolicamente, para a construção social, com a informação e o conhecimento sendo essenciais para a formação humana, tanto no campo pessoal, como no profissional. Assim, o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação proporcionam um acréscimo tecnológico que privilegia uma comunicação acelerada, cada vez mais multicultural, responsável pela utilização das ferramentas de mídia na construção de culturas midiáticas, onde determinados grupos, de diferentes ramos e serviços, se constituem e se estabelecem a partir de uma comunicação diversificada. Essa comunicação adquire um papel cada vez mais importante no contexto da globalização e das transformações mundiais que caracterizam nossa realidade de hoje. Com o desenvolvimento tecnológico, a globalização da economia e a superação das fronteiras, há uma migração generalizada da população e, consequentemente, um avanço do multiculturalismo. Faz-se necessário aprender a trabalhar em conjunto com culturas diferentes e enfrentar novas realidades nos mais diversos campos de atuação. (Kunsch, 2017, p. 341) Portanto, a influência da comunicação nas relações humanas, está diretamente relacionada aos interesses sociais e à expressão cultural de uma sociedade. Ter essa percepção não é tarefa fácil, visto que, cada experiência provoca uma interpretação particular dos fatos, mas isso não inviabiliza a possibilidade de comunicar, pois cada experiência humana representativa pode ser compartilhada, construindo assim, um repertório coletivo e plural, já que “cada um registra o que pode, constrói uma visão diferente e, portanto, parcial” (Canclini, 2003a, p. 21) da história. Se para Benjamin (1985, p. 197), “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente”, para Gramsci (1982), a capacidade intelectual e criativa do indivíduo está associada ao poder de agir em seu contexto social, pois “todo homem (...) participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar” (Gramsci, 1982, p.07-08). É preciso que os indivíduos se capacitem, desenvolvam capacidades críticas e criativas para que entendam a própria forma de pensar o mundo para saber interpretá-lo, desenvolvendo competências e potencialidades, se apropriando do poder dos grupos de mídia, para que realmente possam participar do processo como produtores de cultura e informação, para assim, conseguirem se expressar e colaborar com a construção de uma cultura midiática mais diversa. 90 Se a população aprende a utilizar as ferramentas e a compreender que tem direito à própria forma de representação, passa a defender não só as demandas sociais, como desenvolve uma percepção sensível do mundo. A partir do momento que domina a palavra - representando aqui os elementos da linguagem, compreendida “no sentido de práticas significativas que envolvem o uso de signos; no domínio semiótico, o domínio do significado e da representação” (Hall, 2003, p. 173), é capaz de conhecer sua capacidade individual de expressão, numa relação pessoal e particular, para assim, estabelecer a construção de diálogos com o outro. Palavras são símbolos. Para que um símbolo exista, é necessária a concordância dos interlocutores. Como quase tudo na vida social, também as palavras se tornam objeto de encarniçadas lutas. A etimologia mostra a correlação de forças da sociedade no momento em que fabricou uma palavra a fim de revelar – ou esconder – uma verdade. A semântica torna-se um campo de batalha em que todas as forças em conflito procuram, a cada palavra, atribuir-lhe o sentido que mais lhes convenha. (Boal, 2009, p. 69) Dominar esse processo é essencial, pois o ato da criação é muito mais produto de sentimentos, de intuições, do que de operações puramente lógicas. Para tanto, além do aprendizado das técnicas, o sujeito precisa compreender seu papel enquanto ser social, para que se veja em ação, interagindo criticamente com o imaginário, descobrindo novas possibilidades de interação. Dessa forma, é necessário estimular o envolvimento nas diferentes etapas do processo de produção dos conteúdos midiáticos, onde Peruzzo (1998) destaca a importância de se buscar um espaço de voz, para propor, debater, sendo sujeito ativo do processo, assumindo a participação democrática de forma representativa, pois “participação direta não significa que todos tenham que tomar parte de tudo durante todo o tempo, o que, em termos de comunicação, seria moroso, ineficiente e inviável” (Peruzzo, 1988, p. 87), mas entender a necessidade de participação na perspectiva de que se deve constantemente ser buscada, pois “não existe participação suficiente, nem acabada (...) participação é um processo de conquista” (Demo, 1988, p. 18-21). Neste contexto, o entendimento dos processos de comunicação, a apropriação das inovações tecnológicas pelos consumidores e a descentralização dos meios de comunicação de massa, possibilita uma desestabilização nas relações de poder, pois torna possível a colaboração e o compartilhamento de diferentes formas de expressão cultural e de um pensamento social. 91 Por isso que a circulação de informações pelas redes sociais tem os seus perigos, mas também a sua potência. O problema é a qualidade da informação que circula, principalmente numa sociedade que não é educada para ser crítica em relação as informações que recebe. Sendo assim, o impacto da internet é potencializado para a democratização das informações. A informação é poder. A comunicação é contrapoder. E a capacidade de mudar o fluxo de informação a partir da capacidade autônoma de comunicação, reforçada mediante as tecnologias digitais de comunicação, realça substancialmente a autonomia da sociedade com respeito aos poderes estabelecidos. (Castells, 2006, p. 231) A evolução tecnológica desconstruiu fronteiras, alterou a forma da sociedade se comunicar e impactou a indústria midiática, possibilitando novas formas de expressão e de manifestação cultural, ao mesmo tempo que reforça algumas relações de poder no sistema midiático, permite a construção de uma comunicação de resistência junto ao discurso uniformizado da sociedade da informação. Assim, é preciso entender o controle exercido ‘pelos’ grupos de mídia e ‘sobre’ os grupos de mídia, em um momento de tantas transformações. 2.6. Inluências de poder na construção do discurso midiático Para compreender as relações estabelecidas no sistema de mídia brasileiro, é importante observar como os grupos de mídia, como os grupos Globo, Record, Abril, Folha, Silvio Santos (SBT), RBS, OESP e Bandeirantes , se relacionam com os diferentes grupos sociais, desenvolvendo um discurso estruturado como instrumento de controle mercadológico e social, a partir da construção de comportamentos, hábitos e narrativas que impactam os indivíduos, mas que também podem ser impactados pelos mesmos. Com a virtualização e a apropriação de elementos constitutivos da cultura de massa, do campo jornalístico e da área do entretenimento, a indústria midiática se tornou um sistema complexo que envolve a produção de bens e serviços diversos, a convergência resultante das diferentes plataformas, a multiplicação no compartilhamento e distribuição de conteúdo, além de novas possibilidades multimídia controladas por poucos grupos de mídia, visto que, “os megagrupos midiáticos detêm a propriedade dos meios de produção, a infraestrutura tecnológica e as bases logísticas como parte de um sistema que rege habilmente os processos de produção material e imaterial” (Moraes et al., 2013, p. 21). 98 sociedade cada vez mais descartável, que “é percebida e encarada como uma matriz de conexões e desconexões aleatórias e de um volume essencialmente infinito de permutações possíveis” (Bauman, 2007b, p. 9), e que tem nessa flexibilidade uma potencialidade para deixar as relações virtuais mais atraentes, visto que, muitos grupos de mídia têm explorado essa característica como uma forma de valorizar sempre a busca pela novidade, que é efêmera. Por isso, a necessidade do planejamento para a construção de laços afetivos, onde os grupos de mídia se preocupam em estabelecer uma relação aproximada com o consumidor, em que as redes possibilitam a influência do consumidor, potencializando a interação, entendendo a mudança de hábitos e se apropriando dos diversos elementos tecnológicos, descobrindo assim, novas formas de contar histórias, dando personalidade para as narrativas que surgem individuais e se tornam coletivas. A sociedade contemporânea se apropria da tecnologia e a incorpora no dia a dia para criar “laços sociais” (Castells 2001; Recuero, 2009; Wellman, 2009), a partir de afinidades, identificações, enfim, interesses particulares que motivam a criar uma extensão das relações cotidianas, unindo os mundos ‘reais’ e ‘virtuais’. Lévy (1999) define o ciberespaço como “o espaço de comunicação aberta pela interligação mundial dos computadores e das memórias informáticas” (p. 95), mas é importante entendê-lo como algo além da conexão de equipamentos, o ciberespaço permite a conexão de pessoas, de objetividades e subjetividades. As pessoas a quem o indivíduo se conecta influenciam o modo de ver e compreender o mundo, e a rede altera os modos de conexão entre as pessoas, pois as distâncias mudaram, não há mais barreiras físicas, sendo possível interagir com pessoas e culturas em diversos lugares do mundo e no momento que se desejar. Essa possibilidade permite, por exemplo, uma maior abrangência de trabalho da ILGA ( The International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association ) 49 , uma federação mundial 49 Disponível em https://ilga.org/ 99 fundada em 1978, que atua em 168 países em prol da defesa de direitos da comunidade LGBTI+, que consegue, via ciberespaço, ampliar sua rede de apoio e estabelecer conexões para monitorar violações e violências contra pessoas da comunidade. Em seu último relatório anual 50 , a federação destacou países como a Arábia Saudita, Irã, Iêmen, Nigéria, Somália e Sudão que ainda punem com pena de morte pessoas por serem homossexuais, e outros como Afeganistão, Catar, Emirados Árabes Unidos, Paquistão e Mauritânia que perseguem homossexuais e condenam à prisão caso demonstrem ou expressem a orientação sexual em público. A federação acompanha também os avanços em relação à causa no mundo inteiro. Países como Alemanha, Austrália, Áustria e Malta que aderiram ao casamento igualitário e África do Sul, Bolívia, Equador e Portugal que incluíram na constituição menções explícitas contra a discriminação por orientação sexual, mostram que é possível evoluir. Esse trabalho é fortalecido justamente pela possibilidade de diálogo via ciberespaço, visto que, a ILGA é uma federação que reúne mais de 1.700 organizações espalhadas pelo mundo, que conseguem se apropriar da interação pelas redes para manter esse monitoramento do que acontece na realidade cotidiana, e que é disseminado pela virtualidade. Para Gabriel (2013), não há mais separação entre esses dois mundos, pois estar online ou offline simultaneamente já é uma realidade possível, permitindo que sejamos conectados integralmente. Na atualidade, mais do que estar conectado, é ser conectado, ou seja, não há mais a necessidade de se deslocar para um lugar físico para ‘entrar no mundo virtual’, hoje a conexão móvel faz parte do cotidiano, modificando definitivamente as relações humanas. Essa realidade começa a mudar no Brasil em 2010, com o barateamento e o aumento do acesso à internet doméstica, pois até então, grande parte da população precisava se deslocar para lan houses 51 para se conectar. Esse processo se prolongou por anos, pois o consumidor das classes D e E continuaram e em alguns lugares, continuam, a depender desses lugares físicos para viver a experiência virtual. “Com todos os limites, o espaço virtual tem sido um espaço de disputas de 50 Disponível em https://ilga.org/downloads/ILGA_World_Annual_Report_2020.pdf 51 Lan House é um estabelecimento comercial onde as pessoas pagam para usar um computador ou acessar a internet. 100 narrativas; pessoas de grupos historicamente discriminados encontraram aí, um lugar de existir, seja na criação de páginas, sites, seja em canais de vídeos, blogs” (Ribeiro, 2019, p. 85-86), assim, mesmo sem garantir a democratização ao acesso, o ciberespaço fortalece a possibilidade para que pessoas discordantes da mídia dominante, tenham um lugar para se manifestar. Dados do IBGE 52 mostram que atualmente, 82% da população brasileira está conectada à internet, e 94,6% dessa parcela conectada, utiliza o celular como principal ferramenta de conexão. Dessa forma, é preciso observar como a revolução digital tem impactado nas relações sociais criando novas formas de comunicação e interação, influenciando comportamentos e modelos de negócios, pois a mobilidade tem facilitado ao consumidor utilizar as redes para se expressar e influenciar opiniões e comportamentos. Devemos pensar o ciberespaço como uma possibilidade de um mundo globalizado, não apenas pelo viés tecnológico, mas também social, cultural e político, onde é possível a manifestação de liberdades, diferenças, igualdades, individualidades e coletividades, visto que, o ciberespaço, enquanto um lugar de trocas, de conexões, “está agora mais presente do que nunca, tão presente a um simples toque de dedos em levíssimos dispositivos sempre na palma de nossas mãos, que nem sequer nos damos conta de estarmos ao mesmo tempo no ciberespaço e fora dele” (Santaella, 2010, p. 88-89). O ciberespaço tem sido um ‘lugar’ em que as pessoas podem produzir conteúdos direcionados a determinados segmentos, facilitando a fidelização e a interatividade, assim como, os grupos de mídia têm se apropriado desta realidade para criar novas possibilidades midiáticas, ampliando a capacidade de propagação de culturas híbridas, onde culturas populares, elitistas, artesanais, industriais, são produzidas e consumidas, sem necessariamente serem dicotômicas, coexistindo à medida em que o consumidor escolhe como e quando consumi-las. Dessa forma, é importante observar se o desenvolvimento tecnológico representa uma evolução em relação aos meios de produção ou uma apropriação de tecnologias já existentes por parte dos grandes grupos midiáticos. Para Britto (2009), a virtualização da sociedade não contribui para a 52 Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, disponível em www.ibge.gov.br 101 democratização nos meios de produção, pelo contrário, apenas amplia a capacidade de imposição de conteúdo pelos grupos de mídia tradicionais, de um ponto de vista comercial e hegemônico. Assistimos a uma avalanche de informações que circulam intensamente através da comunicação de massa, mas que não são plurais socialmente e têm em sua referência um número reduzido de emissores. Apesar de muita informação, um conhecimento com capacidade de crítica vai sendo cada vez mais afastado e fragmentado. (Britto, 2009, p. 16-17) Para Martín-Barbero (1997), essa relação de influência advinda da cultura midiática não tem como ser desenvolvida de forma horizontalizada, pois isso é reflexo das relações de poder da própria sociedade, onde os que detém conhecimento, persuadem os que o ignoram. Assim, os grupos de mídia continuarão dominando a construção do discurso social, pois “(...) é impossível uma sociedade que chegue a uma completa unidade cultural” (Martín-Barbero, 1997, p. 59). Moraes et al. (2013) reforça esse pensamento, pois para o autor a multiplataforma representa a distribuição do mesmo conteúdo em diferentes suportes pelas corporações de mídia, com o intuito da comercialização de mídias digitais. A digitalização favoreceu a multiplicação de bens e serviços de ‘infoentretenimento’; atraiu players internacionais para operações em todos os continentes; intensificou transmissões e fluxos em tempo real; instituiu outras formas de expressão, conexão, intercâmbio e sociabilidade, sobretudo por meio da internet (comunidades virtuais, redes sociais); e agravou a concentração e a oligopolização de setores complementares (imprensa, rádio, televisão, internet, audiovisual, editorial, fonográfico, telecomunicações, informática, publicidade, marketing, cinema, jogos eletrônicos, celulares, redes sociais, etc). (Moraes et al., 2013, p.21-22) Essa perspectiva mostra uma ampliação na difusão de formatos, mas não na possibilidade de novos olhares ou saberes sendo produzidos por utilizadores diferentes. Outra linha de pensamento, mostra que a virtualização das relações viabiliza a livre circulação de ideias, onde as pessoas exercem diferentes níveis de influência, pois o ciberespaço contribui para uma mudança em relação a produção colaborativa de conteúdo. Para Castells (2001, 2009), o ciberespaço proporcionou a liberdade de expressão da população conectada das mais diferentes formas, visto que, a rede é reflexo da cultura produzida pelos consumidores, que utilizam de comunidades virtuais para expor pensamentos, reivindicações, comportamentos, assumindo diferentes lugares de fala, impactando no poder de decisão dos outros consumidores. Ao mesmo tempo, o lugar de quem assume esse poder é cíclico, sendo 102 adquirido por diferentes atores sociais, de acordo com os interesses vigentes daquele contexto em que é produzido, atingindo um número cada vez maior de pessoas. A evolução tecnológica facilita uma maior variedade de conteúdo, amplia a quantidade de consumidores e modifica o papel que assumem nessa comunicação, pois a rede dá a oportunidade de legitimarem o discurso produzido por semelhantes, pois “permite ao ator social influenciar de forma assimétrica as decisões de outro(s) ator(es) social (ais) no sentido do favorecimento da vontade, interesses e valores do ator com poder” (Castells, 2009, p. 41). É importante destacar que essa influência é fluida, pois a cultura da rede varia de acordo com o interesse do consumidor, que tem a possibilidade de interferir nos tipos de informação que passam a ser produzidas e que está constantemente em busca de identificação e de novos espaços de interação, portanto, a comunicação produzida pela rede assume o lugar de poder, “mas apenas enquanto o universo simbólico que está na base dos processos comunicativos for considerado útil para enquadrar as experiências quotidianas dos indivíduos. Quando essas condições mudam, o poder não é mais reconhecido pelos atores sociais envolvidos” (Cardoso, 2013, p. 197). A sociedade em rede provoca assim, uma mudança nos modelos de comunicação de forma global, pois os conteúdos passam a ser produzidos também pelos consumidores, que têm no ciberespaço o suporte para a criação de uma inteligência coletiva (Lévy, 1999, 2001), criada a partir da valorização das próprias experiências, que tem na diversidade de conhecimentos, competências e potencialidades, o diferencial necessário para produzir uma nova visão da realidade. Para Gabriel (2013, p. 44), “a evolução e as inovações sempre aconteceram em função da construção coletiva do conhecimento, e todas as grandes invenções da humanidade foram, na realidade, uma combinação ou aperfeiçoamento de ideias anteriores”, portanto, a construção coletiva de inteligências depende das pessoas que fazem parte desse processo criativo, que têm suas individualidades respeitadas, para contribuírem de forma democrática na produção de saberes colaborativos. A produção desses conteúdos depende tanto do avanço tecnológico, como do estímulo para criação de laços sociais (Recuero, 2009; Wellman, 2009), da diversidade de representações, da 103 participação efetiva e afetiva dos envolvidos, além da preocupação em construir algo positivo que impacte o mundo de forma construtiva. Assim, é possível identificar que há uma evolução no processo comunicativo, pois conseguimos enquanto sociedade passar “da inteligência coletiva ao coletivo inteligente” (Lévy, 2001, p. 112). Atualmente, com a liberação do polo de emissão, qualquer pessoa, a priori , pode emitir e receber informação em tempo real (Lemos, 2003). Com um smartphone conectado à internet o indivíduo consegue transmitir dados para toda a rede, o que possibilita ao coletivo Mídia Ninja , por exemplo, transmitir vídeos ao vivo de manifestações que acontecem simultanemante em diferentes lugares do Brasil. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode se tornar uma ‘estação de TV, um rádio ou um jornal’, pois o alcance das redes sociais possibilita que a mensagem, dependendo da interação dos internautas, chegue aos quatro cantos do planeta (Lorenzotti, 2014; Bentes, 2015). Além da liberação do pólo de emissão, Lemos (2003) define outras duas ‘leis’ que contribuem na configuração do que vem a ser o ciberespaço - o princípio da conexão em rede; e a reconfiguração de formatos e práticas sociais. Essas práticas criam novos hábitos e modificam a maneira como a sociedade se relaciona, visto que, a rede se expandiu para além das fronteiras do computador e a reconfiguração possibilita a modificação de estruturas sociais, de instituições e de práticas comunicacionais, pois a presença física já não é mais necessária para exercer algumas atividades ou ter acesso a certos serviços. Hoje, por meio dos diversos dispositivos eletrônicos, o espaço de lugar é complexificado pelo espaço de fluxo: relações estabelecidas online repercutem em encontros reais, compras e home banking interferem no dia-a-dia da cidade de concreto e aço, ativistas usam a rede para organizar manifestações políticas ou hedonistas como as atuais flash mobs . Na cidade-ciborgue, o espaço virtual está em sinergia com o espaço de lugar. (Lemos et al., 2005, p. 18) Podemos falar que as tecnologias modificam, ou até mesmo ampliam, os sentidos do ser humano, sendo assim, da mesma forma com que mudanças sociais vem acompanhadas de expressões da tecnologia, devemos pensar também os avanços tecnológicos como consequência cultural de uma sociedade cada vez mais conectada. Neste contexto, é preciso entender que a sociedade já passou por grandes evoluções tecnológicas ao longo dos anos, como a invenção da prensa e da eletricidade, mas nenhuma em um ritmo tão acelerado como a revolução digital (Gabriel, 2003). Esse dinamismo, possibilitado pelo 104 desenvolvimento tecnológico, reflete uma sociedade em que valores e símbolos são construídos e descontruídos constantemente, influenciando as práticas individuais e coletivas, atingindo de forma racional e emocional o meio social. Na contemporaneidade, com a influência da virtualização dos conteúdos, pode-se dizer que a produção e o consumo são facilitados pelo ciberespaço, onde há uma apropriação dos meios de produção dos mass media , para dialogar diretamente a partir das mídias digitais. Já não se trata apenas de uma difusão ou de um transporte de mensagens, mas de uma interação no seio de uma situação que cada um contribui para modificar ou estabilizar, de uma negociação das significações, de um processo de reconhecimento mútuo dos indivíduos e dos grupos via atividade de comunicação. (Lévy, 2001, p. 108) O ciberespaço possibilita uma nova percepção de sociedade, impulsionada pela informação e comunicação, impactando na noção de pertencimento, pois para fazer parte dessa sociedade é preciso estar, quase a todo o momento, conectado ao mundo, emitindo e consumindo informações. Se na era da modernidade industrial ser excluído significava estar fora do círculo do consumo de produtos, bens e serviços, na cidadeciborgue da era pós-industrial ser excluído significa não ter instrumentos materiais e/ou cognitivos para surfar o mundo do ciberespaço, para interagir de forma autônoma com o fluxo cada vez mais crescente de informações digitais em rede. (Lemos et al., 2005, p. 27-28) A conexão proporciona uma maior possibilidade de manifestação, mas para isso, é preciso conhecer a linguagem da rede e das mídias qua a compõem, visto que, há mídias que são digitalizadas e mídias que já nascem digitais, sendo assim, “na hibridização midiática, as linguagens de mídias previamente distintas juntam-se. Elas trocam suas propriedades, criam novas estruturas e interagem em um nível muito profundo. (...) Trata-se de uma nova metalinguagem combinatória das técnicas de todas as outras linguagens previamente distintas” (Santaella, 2010, p. 91-92), a hibridização é construída no ciberespaço, onde as linguagens adquirem novas propriedades. Na construção de uma linguagem capaz de contemplar os diferentes comportamentos socioculturais, diferentes espaços virtuais são criados para que essa comunicação flexível aconteça de forma harmônica, pois “é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meios dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo” (Lévy, 1999, p. 21). 105 Os grupos de mídia passam então a envolver o consumidor que se faz presente ativamente na rede, para a criação de uma linguagem colaborativa, originada pelas experiências pessoais destes consumidores, que perpasse pelas linguagens textuais, imagéticas, sonoras e das fusões dessas formas de expressão, humanizando os grupos de mídia, na tentativa de estabelecer laços entre elas e os novos consumidores a serem conquistados, pois segundo Cardoso (2013) os modelo de informação deram lugar ao modelo comunicacional, assim, é preciso dialogar ao invés de simplesmente informar. O ciberespaço colaborou para “a construção de um ambiente inovador adaptado à experimentação e interação entre as companhias de media , de telecomunicações e os utilizadores finais” (Cardoso, 2013, p. 19), aumentando a conexão entre os consumidores e os grupos de mídia, que têm agora o desafio de serem responsáveis pela democratização de um conteúdo plural e desmembramento do poder discursivo, ao mesmo tempo que precisam garantir um lugar no mercado. A mudança dos grupos de mídia não é exclusividade dos avanços tecnológicos, esse impacto advém também da aproximação com novos produtos midiáticos e a busca pela personalização de conteúdo junto ao consumidor, onde muitas vezes o jornalista assume o papel de mediador dessa grande conversação global, experimentando novas relações e linguagens. Dessa forma, as relações na rede são estabelecidas pelos interesses em comum, onde são ampliadas as formas de compreender o mundo, entendendo a necessidade de valorizar e provocar debates sobre diferentes culturas, visto que, “para mim, essas questões são naturais, mas percebi que era só dentro dessa bolha, a partir daí resolvi falar desses assuntos, para que não fique também só nessa bolha, para que outras pessoas leiam, ouçam e se vejam representadas” (Sukevicius, entrevista pessoal, 30 de junho, 2020). A mídia tem um importante papel de influenciar os debates e de trazer à tona temas sociais fundamentais para a sociedade, sendo assim, ao produzir informações sobre a comunidade LGBTI+, ou abrir espaço para que essas narrativas sejam compartilhadas, a comunicação contribui para a construção do conhecimento público, possibilitando uma mudança de pensamento e a busca por espaços mais representativos. 106 2.7.2. As possibilidades de convergência A diversidade cultural, aliada ao desenvolvimento tecnológico, possibilita uma comunicação mais acessível, contribuindo para a construção de uma sociedade que se apropria dos meios de produção dos mass media , para dialogar diretamente a partir das mídias digitais. (...) é a convergência das mídias, na coexistência com a cultura de massas e a cultura das mídias, estas últimas em plena atividade, que tem sido responsável pelo nível de exacerbação que a produção e circulação da informação atingiu nos nossos dias e que é uma das marcas registradas da cultura digital. (Santaella, 2003, p. 28) Atualmente, a sociedade vive a era da convergência, na qual diversas realidades dialogam, representando assim uma mudança cultural, na qual as pessoas são encorajadas a procurar novas informações e estabelecer conexões entre conteúdos dispersos. A convergência mais do que trazer novas possibilidades, gera um espaço de convivência do pensamento social. Jenkins (2009), propõe um conceito onde tenta definir as modificações na tecnologia, no mercado e na sociedade que impactam no cenário atual dos meios de comunicação. Para o autor, a cultura da convergência estabelece uma relação entre três ideias já em voga: a convergência dos meios de comunicação, a cultura participativa e a inteligência coletiva. A cultura da convergência permite e provoca a participação do consumidor “através de múltiplas plataformas de mídia” (Jenkins, 2009, p. 29), onde as experiências são compartilhadas, acompanhando a dinâmica do próprio indivíduo, que passa a definir por qual plataforma irá consumir determinado conteúdo. Para acompanhar esse comportamento do consumidor, os grupos de mídia passam a potencializar essa convergência transmidiática. Há uma preocupação com uma comunicação muito mais horizontal, do que vertical, ou seja, por conta das redes, os ativistas e as manifestações do movimento LGBTI+ têm conseguido um destaque global, visto que hoje em dia, a possibilidade de ser um emissor de comunicação, influencia as relações sociais e, consequentemente, propagam a construção de novos conteúdos. Essa construção se dá a partir de interesses específicos, em que diferentes grupos lutam por suas demandas particulares, mas contribuem na criação de um interesse coletivo. 107 Um exemplo da apropriação da rede que extrapola o mundo virtual, foi a eleição da digital influencer e ativista do movimento LGBTI+ Erika Hilton. Erika é a primeira mulher transexual vereadora na cidade de São Paulo. Ela foi eleita em 2020, com mais de 50 mil votos 53 e usou as redes para propor debates, promover lives e propagar suas propostas de campanha. Ao mesmo tempo que a rede proporcionou a ampliação das questões defendidas por Erika, também possibilitou que ele sofresse ataques virtuais, xingamentos e ameaças, que extrapolaram as redes, com a apoiadora da campanha Patrícia Borges sendo agredida fisicamente 54 enquanto fazia campanha e, mesmo depois de eleita, Erika Hilton foi perseguida e teve o gabinete invadido na câmara de vereadores de São Paulo 55 . É possível perceber que as tecnologias digitais ocupam um papel fundamental nas novas relações sociais, ampliando o que há de positivo e negativo na sociedade. Além disso, a convergência modifica a relação entre consumidor e produtor de conteúdo, pois, como já dito, na cultura digital cada um é potencialmente um emissor, produtor ou consumidor de informações. A frase do filósofo Marshal McLuhan, “os homens criam as ferramentas, e as ferramentas recriam os homens” 56 nunca esteve tão atual, pois o progresso tecnológico tem transformado as possibilidades de hibridização na comunicação. As possibilidades de interação influenciam a construção das narrativas jornalísticas (Pavlik, 2014), pois a velocidade com que as informações são disponibilizadas e acessadas amplificam os espaços da atuação jornalística e do próprio consumidor nesse processo, pois as narrativas individuais passam a ser compartilhadas diretamente por quem vivencia o fato, no instante em que ele acontece, seja pela postagem de uma foto ou de um comentário. Os novos aplicativos facilitam a propagação de conteúdo, descomplicando os meios de produção. Segundo Recuero (2009), as redes se tornam protagonistas, conectando mais do que computadores, elas conectam pessoas, criando assim, uma rede que prioriza essa interação. Uma rede é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores. A 53 Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2020-11-22/este-e-o-pais-dos-paradoxos-sem-fim-que-elege-mulheres-negras-e-tem-homensnegros-brutalmente-assassinados.html Acesso 01 de maio de 2021. 54 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/11/apoiadora-de-candidata-trans-e-agredida-com-mordidas-e-golpes-debastao-de-metal-na-avenida-paulista.shtml Acesso 01 de maio de 2021 55 Disponível em https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/01/28/vereadora-erika-hilton-registra-boletim-de-ocorrencia-por-ameaca-aposser-perseguida-dentro-da-camara-de-sp.ghtml Acesso em 01 de maio de 2021 56 Frase citada no documentário “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”. 114 No entanto, estabelecer uma relação com o consumidor é um desafio, para tanto, é importante entender o consumidor como um conjunto de pessoas que acessam os meios de comunicação, por meio da imprensa escrita, programas de rádio, televisão ou plataformas digitais, e que o fazem “para atender a necessidades ou desejos sentidos” (Papacharissi, 2008, p. 137). Parte-se assim, tanto das subjetividades individuais, como da inserção destes indivíduos na construção do espaço público. Segundo Martins (2017, p. 106), “em termos sociais, todavia, o espaço público designa a constituição de uma intersubjetividade prática, do reconhecimento recíproco como sujeitos, da ligação das pessoas e do encadeamento das suas ações na cooperação social”, priorizando tanto os espaços abertos - não reservados como propriedades privadas, como o lugar de conversação da vida coletiva, de manifestação do exercício livre da cidadania. Para Dewey (2004), o consumidor não assiste passivamente aos fatos, ele é constituído através de relações humanas que de alguma maneira provoquem reações entre as pessoas, direta ou indiretamente, na medida que afetam ou são afetados pelo outro no âmbito público, gerando um interesse comum ou suscitando consequências coletivas, de forma a estimular o compartilhamento de interesses ou sensações, sendo assim, o consumidor busca reagir, mas é direcionado pelos grupos de mídia que passam a assumir o papel de incitar “valores, modos de sentir e pensar que façam a diferença” (Dewey, 2004, p. 19) na construção de um pensamento coletivo. Pensamento criado a partir das interpretações que o indivíduo tem do mundo e das representações construídas, que para Lippmann (2010, p. 31) são constituídas pela “relação triangular entre a cena da ação, a imagem humana daquela cena e a resposta humana àquela imagem atuando sobre a cena da ação”. Assim, o pensamento coletivo não é um consenso das opiniões do consumidor em geral, onde são levadas em considerações as visões particulares de cada pessoa, mas a construção de uma opinião coletivizada a partir da difusão de pensamentos de grupos influentes pelos meios de comunicação, visto que, o consumidor é volátil e altamente dependente da mídia, pois estabelece uma opinião dominante, provocando no consumidor um entendimento sobre as imagens 115 constituídas como determinantes, construindo a partir dos interesses privados e estabelecidos pelos media , como um pensamento público. Os grupos de mídia têm mantido até então, esse frágil pensamento social trabalhando a partir das generalidades, deixando para o consumidor a função de legitimar o discurso, pensamento contrário ao que vem sendo feito pelos mercados de nicho na internet. Assim, enquanto os grupos de mídia, nativos digitais, agem para dar espaço aos interesses do consumidor, os grupos de mídia tradicionais têm construído durante anos, histórias na tentativa de estimular um interesse comum aos indivíduos na busca por informações. Entretanto, a crise no mercado das indústrias de mídia (Birkinbine et al., 2016) fez com que os grupos de mídia precisassem rever a forma de se relacionar com o consumidor, experimentando novos formatos e linguagens para (re)assumir esse papel de mediação na sociedade. Essa reconfiguração impacta na função do jornalista, uma vez que “o recrutamento para redacções digitais exige ao jornalista o domínio alargado de múltiplas capacidades, bem como a aptidão para trabalhar em ciclos de notícias de actualização permanente” (Bastos, 2006, 106); na forma como a informação circula, “que requer constante interação com seus usuários, contrastando com a relativa passividade que marca a relação do telespectador, ouvinte ou leitor com os meios tradicionais” (Alves, 2006, p. 95); e na junção de formatos tradicionais e digitais que contribuem para estruturar uma nova forma de comunicar, mais dinâmica e, ainda em construção, pois “a midiatização da transmissão e a interação não produzem necessariamente um sistema de comunicação” (Wolton, 2010, p. 31). Neste contexto, é importante destacar como o jornalismo, no caso, a imprensa, continua contribuindo para a construção de uma sociedade democrática, se atualizando por meios de novas técnicas e tecnologias (Fernandes, 2019), para distribuir conteúdos cada vez mais eficientes, que consigam cumprir as funções de noticiar e trazer reflexões ‘para’ e ‘sobre’ a sociedade, pois como afirma Lippmann (2010, p. 304), ”a função das notícias é sinalizar um evento, a função da verdade é trazer luz aos fatos escondidos, pô-los em relação um com o outro e fazer uma imagem da realidade com base na qual os homens possam atuar”. 116 Na busca por essa interseção, por um jornalismo que se assemelha a visão ritualística de Carey (1988), na busca por uma comunicação dialogada, o jornalismo híbrido se destaca em conteúdos que buscam uma maior compreensão entre causas e efeitos, em um ‘entre-lugar’ da interação, da autonomia, das disputas ideológicas e das relações de poder (Chadwick, 2017), pois oferece um meio de ver o mundo que destaca a complexidade, a interdenpendência e a transição. Ele captura a heterogeneidade e as coisas que são irredutíveis a essências simples e unificadas. Evita dicotomias simples e nos alerta para as coisas inusitadas que muitas vezes acontecem quando o novo tem continuidade com o antigo (...) o hibridismo está inevitavelmente associado ao fluxo, ao meio, ao intersticial e ao limiar. (Chadwick, 2017, p. 10) Sendo assim, é importante observar como o jornalismo brasileiro tem dialogado com esta construção híbrida de noticiar fatos, de desempenhar uma função social que garanta o exercício democrático, produzindo e distribuindo conteúdos em meio a diversas transformações, principalmente pelo olhar da Folha de S. Paulo e da Mídia Ninja . 3.1. O papel do jornalismo nas sociedades democráticas As tecnologias impactam diretamente no fazer jornalístico, desde a prensa de Gutemberg, passando pelo telefone, máquinas de escrever, internet, até chegar aos robôs que produzem ‘notícias’ automaticamente. Com a apropriação das tecnologias na prática jornalística, o profissional se torna ainda mais multifacetado, tendo que exercer mais atividades em seu cotidiano, desenvolvendo novas competências, tanto para apurar, como para transmitir a informação, visto que, O jornalismo é muito mais do que uma notícia impressa em papel. É uma prática, uma profissão, um campo de ação e de disputa de poder, uma construção social em constante mutação, um discurso. As mudanças têm acompanhado toda a história desta prática social, a tal ponto que hoje se tornou até difícil distinguir o jornalismo de outras ações mediáticas. Se em um passado não tão distante, até o final do século XX, havia poucos canais de informação, todos bem delineados e identificados, tanto impressos como eletrônicos, agora multiplicam-se os canais híbridos (Anderson, Bell, & Shirky, 2013), que difundem ao mesmo tempo informação, opinião, humor, boato, mentira. Tudo está ali, misturado e ao alcance de um clique, sem diferenciações claras. (Fernandes, 2019, p. 61) Inclusive, tendo muitos acontecimentos difundidos pelos indivíduos no momento em que os mesmos acontecem (Anderson et al., 2003), utilizando de smartphones , por exemplo, para disseminar imagens, fotos, áudios, propagando situações que podem afetar a sociedade, mas sem 117 a preocupação de transformar o fato em informação. Dessa forma, o papel do jornalista no panorama midiático se desloca, pois não é mais o ‘único’ a relatar os fatos, mas o que carrega a responsabilidade de transmití-los com eficiência e credibilidade. O professor e pesquisador Luiz Martins da Silva 62 afirma que “o cotidiano precisa de uma representação de si próprio, ainda que na aldeia todos já saibam o que aconteceu. A representação midiática é tão importante para a compreensão da realidade quanto a própria”. Assim, o jornalista, em alguns casos, deixa de ser responsável pelo ineditismo do relato, mas cabe a ele o trabalho de apuração, contextualização e produção de significado junto ao consumidor, isto posto, é possível destacar que “o jornalista não foi substituído – foi deslocado para um ponto mais acima na cadeia editorial” (Anderson et al., 2003, p. 43). É preciso ao jornalista encontrar uma forma de se adaptar a esse formato interativo, que já é uma realidade, pois o consumidor agora tem a possibilidade de se expressar, visto que, “o jornalismo deixou de ser privilégio dos jornalistas e os próprios meios de comunicação que entenderam isso estão convidando constantemente os seus leitores, telespectadores ou ouvintes a enviar suas contribuições” (Alves, 2006, p. 101). A facilidade que a sociedade contemporânea tem graças aos avanços tecnológicos, de produzir conteúdo, relatar fatos, impacta, mas não exclui a importância do trabalho profissional do jornalista. Para o professor Antônio Brasil “as novas mídias, a produção independente, a interatividade e as redes sociais não alteraram o maior e mais fundamental preceito do jornalismo: contar uma boa história baseada em fatos” 63 . Downie Jr. e Schudson também destacam que, mesmo que o cidadão comum informe, pesquise, produza conhecimento, a essência do jornalismo precisa ser mantida, pois algo mais seria perdido, e nós seríamos lembrados de que há uma necessidade não apenas de informação, mas de um julgamento de notícias orientado para uma agenda pública e uma audiência geral. Seríamos lembrados de que existe uma necessidade não apenas de notícias, mas de redações (Downie Jr e Schudson, 2009) 64 . 62 Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/5570-luiz-martins-da-silva Acesso em 11 de mai. de 2021 63 Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao447.pdf Acesso em 11 de mai. de 2021 64 Disponível em https://archives.cjr.org/reconstruction/the_reconstruction_of_american.php?page=all Acesso em 11 de mai. de 2021 118 É possível identificar uma preocupação em várias redações sobre a necessidade de uma reorganização, visto que, o impacto da novidade tecnológica tem provocado uma remodelação nas estruturas organizacionais “para responder ao desafio das novas mídias e que há um processo contínuo, estratégico e muitas vezes surpreendente de hibridização em jogo” (Chadwick, 2017, p. 30) que coloca em ‘xeque’ o modelo tradicional, na procura de uma nova configuração, mas, para isso, é preciso entender a importância do jornalismo nas sociedades democráticas. O jornalismo tem a responsabilidade de mediar os direitos e deveres sociais junto à população, colaborando para a produção de sentido e interpretação da realidade, auxiliando na capacidade crítica, reflexiva e cidadã dos indivíduos, desempenhando assim, um papel social fundamental, de fiscalizar os abusos de poder e representar os interesses da população, sendo necessária a “relação simbiótica entre o jornalismo e democracia na teoria democrática” (Traquina, 2005a, p. 23). Schudson (2008), reforça esse pensamento e destaca o quão essencial é o jornalismo para o exercício democrático e direito à informação confiável, “juntamente com o que veio a ser a importância evidente da liberdade de expressão em qualquer sociedade que afirma ser uma democracia liberal, faz o papel do jornalismo na democracia parecer óbvio” (Schudson, 2008, p. 11). Dessa forma, não basta ao jornalismo ser verossímil, é preciso se legitimar como fonte de informação essencial à democracia, com um discurso que represente à sociedade e os direitos sociais. É importante destacar que a relação entre jornalismo e democracia é antiga e indissociável, pois para Traquina (2005a, p. 22), “a democracia não pode ser imaginada como sendo um sistema de governo sem liberdade e o papel central do jornalismo, na teoria democrática, é de informar o público sem censura”. No Brasil, essa relação é permeada de avanços e retrocessos, reflexo de uma sociedade que tem na própria história avanços e retrocessos sociais e democráticos, visto que, já fomos colônia portuguesa, vivemos sob regime imperial, republicano, ditatorial, democrático (Beras, 2013), e de acordo com cada sistema vigente, a construção da noção de cidadania precisou ser refeita, assim como, a relação do jornalismo com a sociedade. 119 É difícil, olhando retrospectivamente, separar o conceito de jornalismo do conceito de criação de uma comunidade e mais tarde da democracia. O jornalismo é tão fundamental para essa finalidade que as sociedades que querem suprimir a liberdade devem primeiro suprimir a imprensa. (Kovach e Rosenstiel, 2003, p. 31) Por isso, a necessidade que a profissão do jornalista seja cada vez mais fortalecida, pois no momento atual da sociedade brasileira, os ataques à democracia e à imprensa são cada vez maiores, mesmo estando sob a égide de um regime democrático. Instituições como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) têm monitorado as agressões direcionadas aos profissionais jornalistas tanto pela internet, como fora dela, quando são atacados pessoal e profissionalmente. A Abert lançou o relatório sobre as “Violações à Liberdade de Expressão” 65 que mostra os ataques a imprensa brasileira sofreu. Só nas redes sociais, durante o ano de 2019, foram cerca de 11 mil ataques diários, vindos de perfis fakes , de membros do poder legislativo, incluindo o próprio presidente. A pesquisa mostra que dos “5.708 posts do presidente Jair Bolsonaro no Twitter, por exemplo, 432 continham críticas, insinuações e advertências sobre o trabalho dos veículos e jornalistas” 66 . Em 2021, os ataques contra os jornalistas brasileiros, aumentou 21,69% em relação a 2020, colocando o Brasil na ‘zona vermelha’ do Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa 67 . Além das agressões virtuais, o relatório da Fenaj 68 contabilizou também agressões físicas, verbais, intimidações, tentativas de censura e descrédito, inclusive em discursos oficiais. No relatório, a presidenta da Fenaj, Maria José Braga, destaca que “a maioria dos ataques de Bolsonaro foi feita em divulgações oficiais da Presidência da República (...) a postura do presidente da República – ou melhor, a falta dela - mostra que, de fato, a liberdade de imprensa está ameaçada no Brasil” (Fenaj, 2020, p. 04). Esse comportamento por parte do representante do país preocupa, pois estimula seguidores a não acreditar nos serviços prestados pelo jornalismo, como a também cometer ataques contra os 65 Disponível em https://www.abert.org.br/pdf/ABERTRELATORIOANUAL2021.pdf Acesso em 06 de maio de 2022 66 Disponível em https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/11/casos-de-violencia-contra-jornalistas-caem-pela-metade-em-2019-nacomparacao-com-2018-diz-abert.ghtml Acesso em 11 de mai. 2021 67 A organização Repórteres sem Fronteiras (RSF) monitora a liberdade de informação em 180 países. O Brasil ocupa atualmente o 111º lugar. 68 Disponível em https://fenaj.org.br/wp-content/uploads/2020/01/relatorio_fenaj_2019.pdf Acesso em 11 de mai. de 2021 120 profissionais. O jornalista Márcio Garoni, diretor da Fenaj responsável pelo levantamento das agressões, destaca que, vale lembrar ainda graves e lamentáveis episódios envolvendo o presidente neste primeiro trimestre, como as mentiras de cunho machista e misógino à jornalista Patrícia Campos de Mello, da Folha de S. Paulo, em fevereiro, o que incitou seus apoiadores a hostilizarem a profissional nas redes sociais. (Garoni, 2020) 69 Os ataques contra jornalistas representam uma violência contra toda imprensa brasileira, e como consequência disso, à democracia brasileira. O avanço tecnológico tem possibilitado um maior número de agressões, com estratégias sendo criadas para propagar discursos de ódio e a falta de investigação e penalidades acabam facilitando a impunidade, o que afeta diretamente o trabalho desses profissionais, que acabam virando alvo desses crimes. Para Flávio Lara Resende, presidente da Abert, O cenário brasileiro é, mais uma vez, bastante preocupante. (...) A violência sistemática contra o jornalismo crítico e independente tenta minar, sem sucesso, a credibilidade da imprensa profissional, barreira eficiente contra a propagação de notícias falsas e parte fundamental para as democracias. (Abert, 2022, p. 07) Neste contexto, é preciso destacar como os papéis desempenhados pelo jornalismo são essenciais para garantir o estado democrático de direito, levando conhecimento à sociedade, ajudando a formar a opinião pública, uma vez que as pessoas são reflexo daquilo que consomem. O jornalismo ao oferecer ao consumidor informações bem fundamentadas, preocupadas com a coletividade, contribui para uma sociedade mais consciente. Sendo assim, um levantamento realizado pelo Datafolha 70 , como ilustra o gráfico abaixo, mostra que grande parte da população brasileira em meio às adversidades, busca no jornalismo o lugar para se informar. A análise teve como foco investigar o nível de confiança da população em relação aos meios de comunicação e a procura por informações sobre a crise do Coronavírus e de acordo com a pesquisa “programas jornalísticos da TV (61%) e jornais impressos (56%) lideram no índice 69 Disponível em https://www.blogdolindenberg.com.br/fenaj-alerta-o-pais-para-perseguicao-a-jornalistas/ Acesso em 11 de mai. de 2021 70 Instituto de pesquisa pertencente ao Grupo Folha 121 de confiança sobre o tema, seguidos por programas jornalísticos de rádio (50%) e sites de notícias (38%)” 71 . Pesquisa Datafolha , realizada em março de 2020 A mesma pesquisa mostra que ainda há uma parcela da população (12%) que não acredita nos meios jornalísticos tradicionais como impresso e televisão, e se informam por WhatsApp e Facebook . Em meio à essa realidade, o jornalismo precisa continuar ajudando a sociedade a superar as desigualdades sociais e a garantir a representação e diversidade de vozes, cada vez mais plural, pois assim como não somos únicos, também “não há um jornalismo. Há “vários” jornalismos, porque também há vários órgãos jornalísticos, vários jornalistas, várias pessoas que podem ser equiparadas a jornalistas, vários contextos em que se faz jornalismo” (Sousa, 2001, p. 15). Para além do impacto tecnológico no fazer jornalístico, é preciso descobrir novas oportunidades para que o jornalismo se reconecte com o consumidor, construindo um caminho que não se prenda apenas ao formato, mas que valorize a essência jornalística, de levar as pessoas a pensar e refletir sobre o mundo. No contexto da pesquisa, pretendemos destacar que uma das possibilidades é a colaboração, onde os profissionais estejam preparados para garantir a representação, pois não adianta apenas 71 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/tvs-e-jornais-lideram-indice-de-confianca-em-informacoes-sobre-coronavirus-dizdatafolha.shtml?origin=folha Acesso em 11 de mai. de 2021 122 dar visibilidade, é preciso estabelecer uma conversação em que “a visibilidade, a representação e o protagonismo têm que andar juntos” (Sabará, entrevista pessoal, 30 de março de 2021), pois a visibilidade é importante, mas sem a preocupação de legitimar os diferentes envolvidos, este espaço pode apenas reforçar visões estereotipadas, por isso, “o jornalista precisa estar pautado também de acordo com as pessoas do movimento LGBTI+, que estão no dia a dia da luta, em defesa da militância” (Veiga, entrevista pessoal, 12 de março, 2021). Não adianta termos apenas mais canais ou grupos de mídia distribuindo conteúdo, é necessário que essa multiplicidade contemple à diversidade de representação da sociedade em diferentes lugares. É preciso chamar sempre pro diálogo, sempre para participar do debate, dar espaço de fala e mostrar que a travesti pode ser mãe, advogada, secretária... É mostrar as conquistas delas, dos atos heroicos mínimos, e dos grandiosos. Isso é a representação dessa população. É preciso dar visibilidade e possibilitar a representação. No meu caso, é quando chamam alguém para dialogar e essa pessoa é travesti. (Sabará, entrevista pessoal, 30 de março de 2021) A colaboração abre assim, espaço para a criação de produtos midiáticos que busquem este outro olhar, em que militantes, movimentos sociais, coletivos comunitários, sintam-se valorizados, pois independente da mídia desenvolvida, a preocupação é com a legitimação do lugar de fala, de quem é ator social destas narrativas. Além de informar a sociedade, o jornalismo tem como desafios, colaborar com a criticidade dos indvíduos, contribuir para a consolidação da democracia e representar a pluralidade da sociedade, a partir de narrativas que respeitem o ser humano em suas diversidades. Para Schudson (2003), é papel do jornalista produzir regularmente conteúdos relevantes e contemporâneos de interesse público, que envolvam a sociedade no debate coletivo, pois faz parte do ser humano a necessidade do saber. Dessa forma, a tecnologia que possibilita a disseminação de discursos de ódio, também pode ser usada para desconstruir essa realidade, tanto na produção de conteúdos específicos, como documentários e reportagens especiais, que servem para armazenar a memória social, mas também na produção do factual, não retratando a comunidade LGBTI+ apenas em datas comemorativas ou em matérias que mostram como vítimas de violência, mas colaborando para que essas histórias sejam contadas e distribuídas. 123 A partir do momento que os meios se apropriam do lugar de ‘contadores de história’, determinando uma forma de noticiar os acontecimentos, tem-se uma visão unilateral, com pontos de vista previamente determinados. “Os meios de comunicação eletrônica, que pareciam destinados a substituir a arte culta e o folclore, agora o difundem maciçamente” (Canclini, 2003a, p. 18). É preciso levar em consideração que existem outras formas de relatar os fatos, a partir de outros pontos de vista, pois o ser humano vem aprendendo a ter a sua própria interpretação de mundo. Para Cavalcanti (2002), essa visão torna o indivíduo mais sensível e crítico, desenvolvendo a necessidade de se expressar, em “paredes de cavernas ou em aparelhos de computação” (Cavalcanti, 2002, p. 13). Já Freire (1983), mostra que a versão de cada um, é resultado da vivência pessoal, das experiências e relações sociais, de interação com o outro e com o mundo, pois assim, se apropria da realidade para recriá-la. “(...) vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura” (Freire, 1983, p. 43). Faz notícia, opina e constrói a história. Sendo assim, abrem-se possibilidades para o jornalismo desenvolver trabalhos colaborativos, transmidiáticos, em que o profissional aprenda a ouvir, assumindo o papel de mediador, em que questões sociais fundamentais sejam debatidas de forma dialogada. 3.2. Relações midiáticas Vivemos em uma sociedade envolvida por um excesso de informação, em que a possibilidade de se expressar tem proporcionado a manifestação subjetiva dos acontecimentos por diferentes interpretações dos fatos, uma vez que, “são diversos atores que passam a produzir conteúdos, distribuí-los e, ao mesmo tempo, ter acesso a todos eles” (Lemos e Felici, 2014, p. 08). Na busca por novar forma de compartilhar essas informações, é preciso entender que há uma mudança de hábitos por parte do consumidor, pois com a expansão da banda larga, o indivíduo que consumia a notícia do dia anterior pelo jornal impresso, por exemplo, passou a acessar conteúdos em tempo real, de qualquer lugar e a qualquer momento. Sendo assim, desenvolver estratégias a partir do contexto do consumidor, pode ser uma solução interessante para construir narrativas que sejam direcionadas a determinados públicos (Cabral, 2015). Como vivemos em 130 amplo, das classes menos favorecidas. Com o novo jornal, pretendiam chegar a atingir até mesmo o operariado. Acabaram ficando restritos a uma faixa de classe média” (Capelato, 2003, p. 34). Entre as décadas de 1920 e 1960, o grupo passou por diversas transformações, com modificações do nome, dos donos, da diretoria, em busca pela profissionalização tanto estrutural, como na produção do conteúdo jornalístico (Paschoal, 2007). A estrutura mais próxima com o modelo atual aparece pela primeira vez na década de 1960, quando há a fusão dos três jornais Folha da Manhã , Folha da Tarde e Folha da Noite , resultando na Folha de S. Paulo , e da normatização de critérios jornalísticos que passam a determinar o trabalho das equipes. É importante destacar o ano de 1962, pois marca a compra do grupo de mídia pelos empresários Carlos Caldeira Filho e Octávio Frias de Oliveira, que passa a comandar a modernização do jornal até os anos 1980. Nesse período, a linha editorial mudou algumas vezes, adaptando-se as opiniões e posições da diretoria, com alguns episódios ficando marcados ao longo dos anos. Para Capelato (2003, p. 40), o jornal “atravessou o golpe de 1964, sofreu as consequências dele e pagou o preço de tê-lo apoiado”. O apoio da Folha de S. Paulo ao golpe militar é um assunto que reverbera até a atualidade, levantando questionamentos sobre o posicionamento do grupo de mídia junto à construção de uma comunicação efetivamente democrática. Segundo editorial da Folha sobre os 50 anos do golpe militar, publicado em 2014, às vezes se cobra, desta Folha , ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro. Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendose um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais. 76 Em meio a pressões políticas, o jornal passa por uma tentativa de valorização do jornalismo opinativo nos anos 1970, mas que é atacada pelo governo militar, fazendo com que esse processo não fosse à frente. Para Chaparro (1998), a posição do jornal pela redemocratização do país incomodava a ditadura, mas que ganhou força com alguns posicionamentos importantes naquele período, como a cobertura sobre o movimento sindical de São Bernardo do Campo, o lançamento 76 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/158906-1964.shtml 131 do editorial da Folha de 1983 e o envolvimento com o movimento Diretas Já! nos anos 1983/1984. O Diretas Já! foi um movimento democrático que mobilizou milhões de pessoas no Brasil contra o regime militar. A campanha era a favor de uma emenda constitucional proposta pelo então deputado Dante de Oliveira, que pedia a realização de eleições presidenciais no país em 1985 (Leonelli, & Oliveira, 2004; Nery, 2015). A campanha reuniu políticos, intelectuais, artistas, em comícios, manifestações e eventos em diferentes cidades, e contou com o apoio da Folha de S. Paulo somente oito meses depois do movimento ter iniciado. Otávio Frias Filho, filho de Octávio Frias de Oliveira, que assumiu a direção do jornal nesse período, justifica que “(...) se por um lado, isso pode ser visto como oportunismo, por outro lado, também com a mesma razão, eu posso chamar de fidelidade ao grupo social para quem a gente trabalha e a quem a gente está servindo” 77 . O posicionamento da Folha de S. Paulo a partir desse momento foi de estabelecer uma identidade organizacional assertiva, que trabalhasse com temáticas sociais, se distanciando do engajamento político, com uma visão apartidária e que firmasse o jornal como referência no mercado da indústria midiática brasileiro. De acordo com Silva (2005, p. 74) “(...) Frias pretendia também levar à Redação método e organização. Mas, por várias razões, isso só viria a começar de fato em 1984, quando seu filho assumiu a direção da Redação”. Esse novo modelo de negócios chega com a implantação do Projeto Folha , um documento desenvolvido pelo Grupo Folha que formalizou as diretrizes jornalísticas e os princípios editoriais a serem seguidos (Chaparro, 1998; Silva, 1988). O projeto editorial determina os compromissos do grupo de mídia com diferentes esferas da sociedade, estabelece um padrão de qualidade jornalístico a ser alcançado e assume, através de uma estrutura empresarial e comercial, o seu caráter mercadológico. O Projeto Folha deu origem também ao Manual da Redação da Folha , que teve lançamento nos anos 1984, 1987, 1992, 2001 e 2021, e é o livro responsável pela divulgação desses princípios, 77 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/campanha-pelas-diretas-ja-sintonizou-folha-com-anseio-por-mudancano-fim-da-ditadura.shtml Acesso em 29 de maio de 2021 132 que junto ao editorial 78 apresenta a história, a estrutura e os códigos do jornal, além de orientações sobre escrita e produção jornalística, preceitos éticos e profissionais. O projeto editorial propõe uma visão crítica e plural da sociedade, com a preocupação principal pela veracidade dos fatos, tendo como premissa o interesse público, valorizando o conhecimento e os direitos humanos, com os assuntos sendo abordados de forma autônoma e criteriosa, sem sofrer influências de partidos políticos, empresas comerciais ou grupos de pressão, combatendo a censura e garantindo a divisão entre os materiais noticiosos e opinativos (Manual de Redação, 2021). Para Silva (1988), o Projeto Folha marca o amadurecimento profissional do jornal, com uma valorização da qualificação técnica dos profissionais, tendo como características destacadas junto às equipes, a de ser um jornal moderno, crítico, pluralista e apartidário, além de ter como foco, a popularização do jornal junto à sociedade. Para Moretzsohn (2001) e Marcondes Filho (2009), esse movimento se destaca como uma jogada estratégica de marketing, inspirada no modelo norte americano de fazer jornalismo, em que não se estimula a criatividade do jornalista, mas uma padronização dos discursos que desvaloriza o trabalho dos profissionais, pois essa sistematização acaba “resultando no enquadramento ou na exclusão de repórteres e desencadeando uma busca obsessiva pela objetividade” (Moretzsohn, 2011, p. 08), tendo a preocupação de apresentar as notícias com uma ‘neutralidade’ que agradava ao mercado. E o mercado foi seduzido por esse formato. Um formato que desde sua criação, tem na estrutura de produção um viés mercadológico (Sodré, 1999), e é a partir dessa sistematização que a Folha de S. Paulo assume o posicionamento de fazer jornalismo com a preocupação mercadológica, um ‘jornalismo de negócios’, que se destaca com a administração da família Frias, tendo Otávio Frias Filho como o responsável pela modernização do jornal nesse período, comandando o grupo por 34 anos. 78 Disponível em http://temas.folha.uol.com.br/folha-projeto-editorial/projeto-editorial-folha-de-s-paulo/introducao.shtml 133 A construção da Folha enquanto um jornal de expressão nacional foi sendo firmada ao longo dos anos, marcada por ser um modelo de sucesso econômico, com criticidade, mas que envolve polêmicas em relação a comportamentos questionáveis e a veiculação de algumas reportagens tendenciosas e controversas. Casos como o editorial de 2009 sobre o governo venezuelano, do então presidente Hugo Chávez, em que o jornal chama a ditadura militar brasileira de ‘ditabranda’, causou protestos e reações, levando o grupo a se retratar. "O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis. 79 Outro exemplo significativo no jornalismo brasileiro também de 2009, é o erro do jornal em relação a uma ficha criminal vinculada à então ministra e candidata à presidência pelo PT, Dilma Rousseff. O jornal publicou na primeira página do jornal a reportagem "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto", com a reprodução de uma ficha criminal que afirmava a participação de Dilma Rousseff na organização do crime. Após ter a autenticidade da ficha contestada e o erro comprovado, a Folha se retratou em um texto sem o mesmo destaque 80 . Os exemplos ajudam a visualizar de que forma o jornal assume posicionamentos ao atacar, de forma equivocada, aliados do então governo do PT, visto que, nos dois casos, usam de informações errôneas para produzir e veicular conteúdos tendenciosos no ano em que os principais nomes à candidatura presidencial estão em evidência. A escolha por esse tipo de representação discursiva, polemiza o debate e demonstra a relação de poder entre mídia e sociedade, incitando reações ‘acaloradas’. Esses e alguns outros casos de menor expressão continuam a fazer parte da história da Folha de S. Paulo , que em maio de 2021, compartilhou em sua conta do Twitter uma hashtag pedindo a saída do presidente Jair Bolsonaro, durante as manifestações que pediam seu impeachment , tendo que ir a público pedir desculpas, conforme figura abaixo, mas não sem antes provocar a reação do leitor. 79 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0803200907.htm 80 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2504200915.htm 134 Figura 3 – Print do Twitter da Folha de S. Paulo Um grupo de mídia que atualmente se firma como um dos jornais de maior circulação e influência do país, tendo em 2018 uma média de circulação de mais de 100 mil exemplares impressos e batendo recorde de consumidores na versão online em abril de 2020, alcançando a marca de 176,9 milhões de visitas 81 , e que, de acordo com pesquisa realizada pela Comscore e IVC 82 a versão digital do jornal tem a maior audiência do primeiro trimestre de 2021, precisa se preocupar com o que diz, e também com o que escolhe não mostrar. Desde a morte de Otávio Frias Filho em 2018, a diretoria da Folha de S. Paulo enfrenta uma disputa judicial, tendo de um lado Cristina Frias e, do outro, o irmão Luiz Frias e Fernanda Diamant (viúva do ex-diretor Otávio Frias Filho) pelo comando da empresa. Atualmente, Luiz Frias assume a presidência e o cargo de publisher da Folha, além de ser acionista majoritário da holding Folha Participações S.A. que controla o jornal, administra a PagSeguro , e o Banco Brasileiro de Negócios. Como o embate do jornal com o presidente Bolsonaro pode minar as pretensões do empresário, desde março de 2021, quando o ex-presidente Lula se torna novamente elegível, começaram a ganhar destaque na Folha de S. Paulo reportagens em busca de uma ‘terceira via’, reproduzindo o discurso de polarização ‘Lula X Bolsonaro’ que reverbera nas redes sociais. Este discurso 81 Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/folha-bate-recorde-de-audiencia-pelo-segundo-mes-seguido-comcoronavirus.shtml 82 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/04/dados-de-audiencia-do-1o-trimestre-reafirmam-lideranca-da-folha.shtml 135 ideológico perpassa as divisões editoriais encontradas no impresso e no online, visto que, o grupo tem diversificado seus conteúdos com notícias e reportagens especiais, artigos de opinião, colunas, blogs, podcasts temáticos e conteúdos para Instagram , Linkedin e Twitter . Com o intuito da população se reconhecer e assumir a própria capacidade criativa, é preciso provocar a participação para renovar as ideias em voga, transformando assim o cidadão comum num idealizador de representações culturais, dessa maneira, a Folha de S. Paulo tem apostado na participação seletiva dos seus leitores na seção Erramos , o ‘mecanismo’ de controle interno com o Manual de Redação , e o posto de ombudsman 83 - que é encarregado de ‘criticar’ a própria Folha e acolher demandas dos leitores na tentativa de estabelecer uma comunicação plural. A ilusão da liberdade e diversidade pode ser uma das melhores maneiras de produzir a hegemonia ideológica que servirá aos interesses dos poderes dominantes na sociedade, incluindo as empresas que fabricam essas próprias tecnologias e seus conteúdos midiáticos e que, por sua vez, produzem tal ilusão. (Van Dijk, 2008, p. 21) Na construção de uma representação imaginária, a Folha de S. Paulo criou em abril de 2019 uma editoria de ‘Diversidade’, que tem como propósito analisar as reportagens produzidas para observar a diversidade nos conteúdos, mas também preocupada com uma nova narrativa, segundo a jornalista Paula Cesarino Costa 84 , “a intenção é trabalhar de modo transversal na Redação, atuando na discussão de pautas, na diversidade de enfoques, buscando ampliar as fontes ouvidas”. A possibilidade de promover a diversidade nos meios de produção, possibilitando que a comunidade LGBTI+ contribua ativamente da construção da vida coletiva, apresentando as próprias versões para fatos cotidianos, possibilita uma nova forma de representação perante a sociedade como um todo, estabelecendo uma grande conversa. Para Flávia Lima, “para que a imprensa se livre de representações estigmatizadas, preconceitos (...) a diversificação precisa ocorrer inclusive nos espaços ‘nobres’ dos jornais, habitados pelos colunistas” (Lima, entrevista pessoal, 17 de julho, 2020). 83 O ombudsman exerce a função de representar os leitores dentro do jornal, recebendo, investigando e encaminhando queixas dos leitores, além de produzir críticas internas à própria empresa e a imprensa de forma geral. É um profissional designado para o cargo temporariamente. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ombudsman/2014/09/1520973-o-que-e-o-cargo-de-ombudsman.shtml 84 Ombudsman e responsável pela editoria em abril de 2019. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/folha-cria-editoriacom-missao-de-estimular-diversidade-em-reportagens.shtml 136 Se a editoria de ‘Diversidade’ representa “mais diversidade nas Redações, significa abrir espaço nesses ambientes para profissionais com diferentes vivências, o que certamente vai se refletir na multiplicidade de pontos de vista daquilo que é produzido (Lima, entrevista pessoal, 17 de julho, 2020), porque a mesma não aparece no site da Folha de S. Paulo como as demais editorias? É possível ver na figura abaixo, que nem no menu de pesquisa, com os demais conteúdos exclusivos para assinantes a editoria é visível. Quando a palavra ‘diversidade’ é pesquisada no site do jornal, o conteúdo aparece diluído contemplando assuntos como ecologia, futebol, política, economia, educação, e também diversidade LGBTI+. Figura 4 – Print do site da Folha de S. Paulo – folha.uol.com.br A diversidade pode ser garantida pelo conteúdo produzido, pela forma como é apresentado e também pelas pessoas que o produzem e representam esse conteúdo, pois é preciso dar visibilidade, garantir a representação e legitimar protagonismos. E isso é o que observaremos na análise das colunas que trabalham com essa temática. Mas antes, na tentativa de apresentar outra perspectiva de comunicação, na qual a “audiência que interage, comenta, informa, analisa e dialoga” (Bentes, 2015, p. 15) se faz presente no processo de produção, é que a escolha para esse estudo se complementa pela Mídia Ninja, um coletivo de comunicação que produz e difunde conteúdos e pautas que eles consideram ‘invisibilizadas’ pelos grandes grupos de mídia. 137 O trabalho do coletivo é desenvolvido a partir da lógica colaborativa de produção que emerge da sociedade em rede, pois “a internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos para muitos em tempo escolhido e a uma escala global” (Castells, 2001, p. 16). 3.4. O coletivo de comunicação Mídia Ninja A Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), é um coletivo de comunicação que envolve jornalistas, ativistas, artistas, políticos, filósofos, personalidades de uma forma geral, que trabalham com a perspectiva interdisciplinar, na construção de uma comunicação horizontalizada, que produz conteúdos noticiosos e colunas opinativas para as mídias digitais. O grupo é resultado da experiência e da união de profissionais que, segundo Lorenzotti (2014), teve início com a Marcha da Liberdade em 1994, quando Cláudio Prado e Bruno Torturra buscaram uma forma diferente de fazer a cobertura do evento, e teve uma grande repercussão nas redes sociais. A partir dessa cobertura, outros eventos contribuíram para a criação da Mídia Ninja , que ‘nasce’ do coletivo Fora do Eixo , uma rede colaborativa e descentralizada de trabalho constituída por coletivos de cultura pautados nos princípios da economia solidária, do associativismo e do cooperativismo, da divulgação, da formação e intercâmbio entre redes sociais, do respeito à diversidade, à pluralidade e às identidades culturais, do empoderamento dos sujeitos e alcance da autonomia quanto às formas de gestão e participação em processos sócio-culturais, do estímulo à autoralidade, à criatividade, à inovação e à renovação, da democratização quanto ao desenvolvimento, uso e compartilhamento de tecnologias livres aplicadas às expressões culturais e da sustentabilidade pautada no uso e desenvolvimento de tecnologias sociais 85 . Segundo Morais (2013, p. 08), o Fora do Eixo representa “uma rede de coletivos culturais”, que atualmente conecta grupos culturais em todos os estados brasileiros e em 15 países da América Latina. Com a expansão da rede, foram surgindo novas demandas para atender às ações da rede, que além do foco em cultura, atua com questões políticas, sociais e econômicas, estruturada a partir das redes virtuais. 85 Disponível em http://foradoeixo.org.br/historico/carta-de-principios/ 138 Além da estrutura física, o Fora do Eixo , coordenado por Pablo Capilé, também é responsável pela organização ideológica desses grupos, como é o caso da Mídia Ninja (Foletto, 2017), que aparece com o propósito de desconstrução da linguagem midiática, fazendo cobertura ao vivo de acontecimentos culturais e de protestos, buscando uma mudança de linguagem ao não se preocupar com uma estética televisiva, mas por registrar a intensidade dos eventos, adotando a câmera subjetiva como forma de inserir o espectador nos acontecimentos. A câmera subjetiva é um enquadramento da linguagem cinematográfica em que a câmera simula o olhar de um personagem. No caso da Mídia Ninja , esse ponto de vista proporciona ao consumidor acompanhar o evento em ‘primeira pessoa’, sob uma perspectiva imersiva, principalmente em coberturas que não são pautas nos veículos tradicionais, assumindo um posicionamento crítico e tendencioso, como princípio do fazer jornalístico e pelo princípio colaborativo em produzir e distribuir conteúdo, posicionamento que esteve presente desde o início do grupo. A primeira aparição da Mídia Ninja é de um texto no Facebook , conforme figura abaixo, postado pelos criadores do grupo, Bruno Torturra e Pablo Capilé em 2013 (Lorenzotti, 2014). Figura 5 – Postagem do Facebook do perfil do Pablo Capilé Em nove anos de funcionamento, o coletivo “engaja mais de 2 milhões de apoiadores e cerca de 500 pessoas diretamente envolvidas com o suporte de casas coletivas pelo Brasil (...) e mais de 200 ativistas de comunicação em 21 países” 86 . O grupo conta com mais de 2 milhões de curtidas 86 Dados do portal Mídia Ninja, disponível em midianinja.org 139 no Facebook , tem 342 mil inscritos no Youtube , 3,5 milhões de seguidores no Instagram e mais de 2.700 seguidores no Twitter e a cada duas horas, em média, posta algum novo conteúdo na rede. Números expressivos para um coletivo que surge com a produção de vídeos ao vivo sobre alguns eventos no Brasil, e teve destaque com a cobertura das manifestações populares que ficaram conhecidas como Jornadas de Junho ou Manifestações dos 20 centavos . As manifestações aconteceram em mais de 400 cidades brasileiras em 2013, tiveram a participação de milhões de brasileiros com reivindicações contra o preço das passagens do transporte público, a corrupção, os gastos com as obras da Copa do Mundo e os recursos para a saúde e educação. Envolveram vários fatores de insatisfação da população brasileira e também marcaram uma série de ambiguidades. De um lado, os manifestantes levantaram diferentes discursos, com uma ampla variedade de temas, que em alguns casos eram controversos, como a identificação com diferentes partidos políticos e a maneira de estruturar os eventos. Do outro, parte da mídia rotulou os protestos pela radicalização de alguns grupos, e foi rechaçada dos eventos pelos manifestantes. Isso deu um grande destaque nacional e internacional para a Mídia Ninja , que acompanhou os protestos in loco , com uma postura engajada, pois, ao mesmo tempo em que cobria os fatos, manifestava, se comunicava, assumia um posicionamento de contestação. Paralela à insatisfação dos manifestantes com o discurso hegemônico dos grupos de mídia, a Mídia Ninja apareceu com um conteúdo que fugiu do lugar comum, apresentando outras perspectivas a partir de crônicas e da cobertura em rede, com o desafio de produzir narrativas plurais. A Mídia NINJA cobriu as manifestações antiCopa, foi para a linha de frente entender a linguagem da violência dos Black Bloc , mas também fez a etnografia reversa, mostrando os mundos fabulados pela Juventude católica que veio ao Brasil acompanhar a visita do Papa e se confrontou com outros valores, por exemplo, ao cruzar a Marcha das Vadias que fazia um uso erótico de cruzes e signos católicos, podendo (essa juventude) se deixar contaminar ou não por essas derivas. (Bentes, 2015, p. 16) Ao dar espaço para a manifestação de novas narrativas e de novos sujeitos, os Ninjas utilizam o potencial das tecnologias da informação para facilitar a participação de colaboradores que compactuam com seu posicionamento político, na produção de conteúdos diferenciados e 242 pessoa, representando quem fala e aquele de quem se fala, se tornando sujeito e objeto do discurso (Carvalho, 2015). Ao assumir esse posicionamento, reforça a importância do discurso, em busca de representar as vulnerabilidades de tantas pessoas inseridas nessa realidade, uma realidade que ‘normalmente’ é retratada por pessoas cisgêneras. As vulnerabilidades são descritas no sétimo parágrafo em situações cotidianas, onde é utilizado novamente o modo descritivo para qualificar e situar (Charaudeau, 2008) esses acontecimentos: “Mamãe ainda me chama de Bianca, erra os pronomes (...) me aciona pelo pronome feminino na frente de outras pessoas” (Gonzales, 2021c). As situações demonstram como essa realidade é muitas vezes solitária, por isso a importância da visibilidade, do compartilhamento, para que essa solitude, não se torne solidão. Solidão é vazio interior. Solitude é realização interior (...) a solidão é um estado emocional no qual o indivíduo experimenta um sentimento de vazio, de ter sido rejeitado, desconectado ou alienado de outras pessoas. (...) A solitude é o estado de estar sozinho e separado de outras pessoas e, frequentemente, está relacionado a uma escolha consciente e desejada de estar sozinho. (Tomei & Fortunato, 2008, p. 18) Nesse contexto, Bernardo Gonzales encerra a coluna no oitavo parágrafo, referenciando a importância da família no processo de transição: “Mamãe, papai, minha irmã, sobrinha, avôs/avós e tias, estando ou não nesse plano chamado vida, constroem esse legado ao meu lado” (Gonzales, 2021c). O colunista assume por fim, o papel de mediador entre a experiência vivida e o discurso público, legitimando a própria identidade como sujeito ativo de todo esse processo: “Construí essa energia com a certeza de que habitei duas identidades plenas, sólidas, inquietantes e revolucionárias e que ter sido Bianca e agora ser Bernardo é sobre compreender o significado de orgulho” (Gonzales, 2021c). Um orgulho que é destacado nos elementos simbólicos utilizados na construção da coluna, onde se apropria das imagens e falas para produzir o efeito da manifestação de gênero (Butler, 2018) e da construção de uma representação que não é estática, mas performativa e fluida. 4.2.4.4. Bernardo Gonzales 243 O conteúdo produzido nas colunas opinativas de Bernardo Gonzales perpassa por três dos quatro modos de organização do discurso, sendo que os modos narrativo e descritivo assumem o princípio dessa organização, e o modo enunciativo é apropriado para complementar o efeito desejado pelo colunista (Charaudeau, 2008). Nos apropriando da definição de Butler (2018) sobre gênero, podemos dizer que o discurso de Bernardo Gonzales se torna ‘performativo’ à medida que as colunas são produzidas, pois o colunista expõe gradativamente sua vivência e sua intimidade, buscando dialogar com quem as consome, levando as leitoras e os leitores a serem envolvidos pela confidência dos relatos pessoais, que de forma mais explícita ou implícita, perpassa todas as colunas analisadas. Assim, as questões levantadas por ele, tem como propósito gerar reflexões que perpassem o texto, impactando o contexto social. Acredito que uma representatividade efetiva nos conduzirá a um futuro de pluralidade nas escolas, nos sistemas públicos de saúde, nas empresas públicas e privadas, como atletas, nos movimentos sociais organizados e coletivos independentes, deixaremos de ser anexo ou pêndulo da diversidade para pautar uma mudança coletiva e estrutura. (Gonzales, entrevista pessoal, 02 de agosto, 2021) Na busca por compreender melhor essa reflexão sobre pluralidade, comportamentos sociais, visibilidade e representação social, que perpassa a sigla LGBTI+, temos a análise das colunas assinadas por Dríade Aguiar, como representante do símbolo +, visto que, a letra I não é contemplada em nenhum dos dois grupos de mídia analisado. 4.2.5. O símbolo ‘+’ Dríade Aguiar é uma das editoras e cofundadoras da. Trabalha como gestora de mídias alternativas, na Mídia Ninja e no Fora do Eixo 155 , produzindo pautas como a cultura afro, os direitos LGBTI+ e contra a gordofobia. Se autodeclara, conforme imagem abaixo, como ativista, feminista, articuladora social e pansexual, onde defende a atração sexual por “pessoas de qualquer gênero ou independente dele” (Aguiar, 2019) 156 . 155 O Fora do Eixo é um coletivo digital, um dos grupos responsáveis pela criação da Mídia Ninja. Disponível em http://foradoeixo.org.br/historico/carta-de-principios/ 156 Disponível em https://midianinja.org/driadeaguiar1/mitos-sobre-pansexualidade/ Acesso em 15 de março de 2022. 244 Assume uma coluna na Mídia Ninja em 2016, onde passa a debater questões relacionadas à própria vivência, como também assuntos ligados às temáticas que defende, partindo de acontecimentos sociais, para provocar reflexões a partir desses conteúdos. Até 2020 as colunas mantêm uma regularidade de publicação, mas em 2021 a colunista só produziu 3 colunas, que serão analisadas a seguir. Dríade Aguiar se apropria dos modos de organização do discurso (Charaudeau, 2008), para defender seu ponto de vista sobre os assuntos que são abordados nas colunas. 4.2.5.1. Feliz ano novo com velhos problemas (para as mulheres) 157 A coluna parte de postagens em redes sociais, como o Instagram e o Twitter , em que algumas mulheres compartilham situações de insegurança dentro de relacionamentos, conforme figura abaixo, para debater sobre as críticas e julgamentos que receberam, pelas atitudes que tiveram. Figura 17 – Print da coluna de Dríade Aguiar na Mídia Ninja 157 (Aguiar, 2021a) Publicada em 02 de janeiro de 2021. Disponível em https://midianinja.org/driadeaguiar1/feliz-ano-novo-com-velhos-problemaspara-as-mulheres/ 245 Dríade Aguiar se apropria da situação para levantar uma reflexão sobre o que levou essas mulheres a assumirem esse comportamento, propondo um debate sobre afetos e sexualidade, bem como, sobre os resultados de uma construção social baseada em “um relacionamento hétero monogâmico” (Aguiar, 2021a). A colunista constrói um texto com parágrafos curtos, com elementos simbólicos e linguagem informal, onde propõe um diálogo na ordem direta, em que questiona alguns ‘juízos de valor’, criando perguntas e respostas para exemplificar o próprio pensamento, destacando que o respeito a pluralidade deveria ser um dos objetivos da sociedade, visto que, “a pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir” (Arendt, 2007, p. 16). Dessa forma, utiliza o título para mostrar como as mulheres são expostas a determinados julgamentos a cada novo ano, e que esse tipo de julgamento vem sendo reverberado por padrões sociais excludentes: o que eu vejo são mulheres (em sua maioria brancas) adoecidas por séculos de heteronormatividade e monogamia compulsória + distúrbio de autoimagem que gera inseguranças + sociedade do espetáculo, entre tantos outros elementos que nos levaram à paranoia coletiva e permitida. (Aguiar, 2021a) A colunista elenca assim, alguns fatores, que segundo ela, são determinantes para essa construção social opressora, que perpassa por sexualidade, representações visuais, espetacularização midiática, uma vez que, Estamos cercados por imagens de feminilidade e estas constroem um discurso acerca do que significa ser feminino na nossa cultura, elas agem de forma a definir a essa feminilidade, isto é, implicam um processo social no qual são atribuídas ao sexo feminino qualidades e características específicas. (MotaRibeiro, 2003, p. 03) Ao não se adequarem a esses modelos estabelecidos, passam a não se encaixar nestes formatos, sendo classificadas por não serem: “‘normais’, que essa pessoa tem um ‘problema’ e que ‘precisa de tratamento’” (Aguiar, 2021a). A colunista assume na lógica argumentativa, o modo explicativo por silogismo, em que “remonta à cadeia de implicações” (Charaudeau, 2008, p. 216), para argumentar as consequências que esses comportamentos sociais padronizados têm nos sujeitos, nesse caso, no comportamento das mulheres em busca de se adaptar a determinados padrões. 246 Esses padrões são resultado da espetacularização de uma sociedade, em que as pessoas são provocadas a querer fazer parte, e para isso, precisam submeter os próprios comportamentos a determinadas representações visuais, pois “quanto mais se contempla menos se vive, quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seus próprios desejos” (Debord, 1998, p.24). Em busca do sentimento de pertença, se sujeitam a normatização de comportamentos que são estabelecidos ao longo da construção da própria identidade, compreendendo que “os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente condição de sua existência” (Arendt, 2007, p. 17). Sendo assim, as representações sociais podem legitimar comportamentos inclusivos ou excludentes, “pois quando o que deve ser excluído coincide tanto com as vidas das mulheres, ela começa a figurar como um dos mecanismos para manter as mulheres em seu lugar” (Philips, 2000, p. 291). Dríade Aguiar questiona qual é este ‘lugar’? No qual as pessoas que as julgam nas redes sociais, querem qualifica-las (Charaudeau, 2008): “Então todas as mulheres compartilhando esse conteúdo na internet são loucas? Suas mães, suas tias, irmãs, primas, melhores amigas – todas são doidas patéticas? E NADA DISSO É CULPA DA ENTIDADE HOMEM BRANCO?” (Aguiar, 2021a). Dessa forma, a colunista propõe pela encenação argumentativa o questionamento “de provocação” (Charaudeau, 2008, p. 243), em que incita as leitoras e os leitores a reagir, a sair do estado passivo de consumidor, colocando-os em causa, pois “colocar o indivíduo como agente implica reconhecer neste último um potencial de escolha de suas ações” (Jodelet, 2009, p. 689). Para sustentar os posicionamentos utilizados ao longo da coluna, recorre a uma citação da escritora e feminista Chimamanda Ngozi Adichie: Chimamanda Ngozi Adichie já perguntou: “Por que ensinamos as meninas a aspirar ao casamento, mas não fazemos o mesmo com os meninos?” Este é um dos resultados. Quer dizer que casar é bom? Não. Quer dizer que temos que acabar com a união estável monogâmica? Não também. 247 Mas não dá pra ver cenas como essas e não pensar que se o feminismo é sobre nos emancipar, é pra emancipar a todas nós. Nós e elas. (Aguiar, 2021a) O discurso utilizado questiona os valores heteronormativos impostos ‘na’ e ‘pela’ sociedade, pelo procedimento do “vai-e-vem” (Charaudeau, 2008, p. 245), para reforçar pontos de influência de determinados comportamentos sociais, utilizados para justificar um pensamento que: “É resultado do feat patriarcado + capitalismo + racismo” (Aguiar, 2021a). Assim, Dríade Aguiar expõe e defende pelo comportamento elocutivo, do modo enunciativo (Charaudeau, 2008) o seu ponto de vista, estabelecendo relações de causalidade na tentativa de influenciar quem a lê. Finaliza a coluna em terceira pessoa do plural, se unindo as mulheres que foram julgadas nas redes sociais, sem romper as diferenças que as distingue e as semelhanças que as une, pois “a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de seres singulares” (Arendt, 2007, p. 189): Não queremos ser mais estas mulheres, mas não também queremos criar um mundo onde elas sejam julgadas como “loucas anormais”. Normalizem nossos problemas – é o primeiro passo para uma solução coletiva. E esta é uma boa resolução do ano novo. (Aguiar, 2021a) O convite ao diálogo e a reflexão mostra a importância da valorização da pluralidade humana, em que “o duplo aspecto de igualdade e diferença” (Arendt, 2007, p. 188) são respeitados na formulação do discurso, pois a ‘unimultiplicidade’ 158 permite ao ser humano a capacidade de “comunicar a si próprio” (Arendt, 2007, p. 189). 4.2.5.2. Uma sentença, uma celebração, uma promessa 159 Na segunda coluna analisada, Dríade Aguiar se coloca de forma mais pessoal, utilizando os modos da organização do discurso, descritivo e argumentativo, para nomear e qualificar a própria experiência, assim como, para provocar o olhar de quem a lê, sobre o seu engajamento social (Charaudeau, 2008). 158 Unimultiplicidade é um neologismo que define aquilo que é único como processo individual de expressão e múltiplo pelo resultado das relações com outros sujeitos, linguagens, culturas e objetos. Retirado do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, disponível em https://www.museudalinguaportuguesa.org.br/wp-content/uploads/2017/09/mundo_lingua.pdf 159 (Aguiar, 2021b) Publicada em 21/01/2021. Disponível em https://midianinja.org/driadeaguiar1/uma-sentenca-uma-celebracao-e-umapromessa/ 248 O título exemplifica três momentos da história da colunista que são apresentados ao longo da coluna, estruturada em 16 parágrafos, bem como, a forma que ela encontrou para se posicionar diante deles, construindo a identidade e o propósito que a define na atualidade. A colunista utiliza os três primeiros parágrafos para contextualizar a relação dela com o próprio corpo, e como a obesidade a fez assumir determinados comportamentos, como forma de ‘esconder’ e “‘compensar’ o corpo que claramente decepcionava meus pais” (Aguiar, 2021b). Segundo DaMatta (1991) e Almeida (2007) a cultura familista no Brasil, é responsável por ditar comportamentos hierárquicos, com sistemas e normas muitas vezes opressores, onde as subjetividades dos indivíduos não encontram espaço para se manifestar. A manifestação dessa subjetividade, e a construção da própria identidade se dá, a partir do momento que os sujeitos passam a enfrentar as “paisagens culturais” (Hall, 2011, p. 9). No caso de Dríade Aguiar, esse processo acontece em diferentes momentos, perpassando pelo fato de se aceitar uma mulher gorda e se identificar como uma mulher negra: “Eu me entendi negra depois dos 20, mas até lá eu sabia que branca, eu não era. Meu cabelo não era liso como o da Nayara, meu nariz não era fino como da Ju (...)” (Aguiar, 2021b). Para Munanga (2019, p. 21-22), “a recuperação dessa identidade começa pela aceitação dos atributos físicos de sua negritude antes de atingir os atributos culturais, mentais, intelectuais, morais e psicológicos, pois o corpo constitui a sede material de todos os aspectos da identidade”. Uma identidade que é construída por um processo de ruptura a um padrão social estabelecido, pois segundo Souza (1983, p. 77), “ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro”. No quarto e quinto parágrafos, a colunista finaliza o momento ‘sentença’, destacando como o processo de construção da própria identidade se deu de forma gradual, pois a cada nova descoberta, outras visões estereotipadas socialmente buscavam classifica-la em algum padrão predeterminado: “Gorda e negra. Pra minha bolha atual parece que não, mas pra muitos lá fora a conta é ‘gorda + negra = masculina’” (Aguiar, 2021b). Essa visão estereotipada tem como propósito “ classificar as pessoas segundo uma norma e definir os excluídos como o ‘Outro’” (Hall, 2016, p. 192-193). 249 Então crescer “uma mulher masculina” me fez ter uma relação de amor e ódio com a feminilidade. Não podia gostar de rosa, de vestido, de cozinhar. Ao mesmo tempo que só poderia gostar e ficar com meninos que fossem viris, para validar que sou uma mulher, ou com mulheres muito femininas, para encaixar de vez no padrão da masculinizada. O resultado de tudo isso é muito trauma, fantasma e um montão de tempo coletivo gasto para superar. (Aguiar, 2021b) A colunista utiliza a própria subjetividade para demonstrar como o contexto em que esteve inserida influenciou na manifestação da sua orientação sexual, visto que, “as pessoas pansexuais podem desenvolver atração física, amor e desejo sexual por outras pessoas, independente de sua identidade de gênero ou sexo biológico” (Reis org., 2018, p. 23). Sendo assim, deixa claro como isso impactou também no seu processo de identificação. Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (Hall, 2003, p. 21) Dessa forma, a colunista destaca no seu discurso elementos que reforçam o que a difere dos outros, a partir de suas práticas sociais, iniciando no sexto parágrafo, o que intitula de ‘celebração’. O momento ‘celebração’ é destacado pela superação, onde Dríade Aguiar apresenta algumas mulheres, que, assim como ela, conseguiram ultrapassar diferentes opressões, tornando-se hoje, referência, como a jornalista e influenciadora Tia Má 160 e a atriz e apresentadora Lua Xavier 161 , pois: “é importante fazer conteúdo que poupe as novas gerações do mesmo desgaste” (Aguiar, 2021b). Dentre as mulheres referenciadas, a colunista destaca a cantora MC Carol e nos parágrafos seguintes destaca a letra de uma música da cantora que enaltece o poder feminino, questionando algumas normas estabelecidas: “cadê as gay, cadê as pretas, cadê as gordas na capa da revista” (Aguiar, 2021b). Nesse contexto, Dríade Aguiar se apropria da música para fazer um paralelo aos conteúdos produzidos na Mídia Ninja , destacando a importância das referências na representação social: “Volta e meia falo que o conteúdo que a gente faz na NINJA e que outros parceiros põem na roda, 160 Maíra Azevedo é jornalista e influenciadora digital, produz conteúdo sobre a cultura negra na internet e faz participações na Rede Globo como apresentadora e comentarista. 161 Luana Xavier é atriz e apresentadora na Rede Globo, produz conteúdo sobre cultura negra, religiões de matriz africana e racismo na internet. 250 são conteúdos que seriam referência para a pequena Dríade que teve como babá a TV aberta nos anos 90” (Aguiar, 2021b). A colunista utiliza novamente o modo explicativo da lógica argumentativa, para demonstrar as relações de causalidade (Charaudeau, 2008), que podem ilustrar “o que é ser mulher hoje e ser dona do seu corpo, desejo e poder” (Aguiar, 2021b). Nos últimos parágrafos, encerra o que apresenta no título, destacando o momento ‘promessa’, em que une as diferentes vozes que a influenciam, assegurando: “depois que chegamos aqui, ninguém tira. Por isso, levantar minas é uma sentença inescapável, uma celebração infinita e uma promessa” (Aguiar, 2021b). Dríade Aguiar escolhe, nesse caso, personalidades que a ajudam a expressar ativamente o seu lugar na sociedade, utilizando elementos cotidianos para explicar essa representação que ela assume. Ao compreender que lugar é esse e ao compartilhar esse entendimento, desenvolve um conhecimento “que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (Jodelet, 1989, p.36). 4.2.5.3. O padrão mata – porque pessoas como Liliane Amorim fazem lipo? 162 Na coluna publicada no final de janeiro de 2021, Dríade Aguiar parte da morte da influenciadora digital Liliane Amorim, para questionar padrões estéticos estabelecidos na sociedade brasileira, pelos quais as pessoas se submetem a diferentes tipos de tratamentos e cirurgias em busca de aceitação social. Para Jager et al (2017) o ‘corpo bonito’ representa vantagens em relação a aceitação de um padrão social para quem o conquista, resultado de comportamentos e atitudes estimulados pela família, pela mídia e pela sociedade em geral. Assim, a busca por atingir a determinados padrões, leva os indivíduos a acreditarem que “o valor pessoal está condicionado ao peso ou formato corporal. Quando estes não respondem às expectativas, o indivíduo acredita que nenhuma outra característica pessoal pode ser significante” (Jager et al., 2017, p. 44). 162 (Aguiar, 2021c) Publicada em 25 de janeiro de 2021. Disponível em https://midianinja.org/driadeaguiar1/o-padrao-mata-por-que-pessoascomo-liliane-amorim-fazem-lipo/ 251 Sendo assim, Dríade Aguiar assume o comportamento alocutivo, do modo enunciativo, para provocar os interlocutores a reagirem a uma “interpelação” (Charaudeau, 2008, p. 82). Ela demonstra pelo título, o poder assertivo da sua fala, ao afirmar categoricamente que o “padrão mata” (Aguiar, 2021c), mas envolve as leitoras e os leitores a terem uma reação sobre a situação apresentada, ao questionar a busca por esses padrões estéticos, comportamento que mantém ao longo da coluna em frases interrogativas e imperativas. Além disso, a colunista utiliza uma fotografia de Liliane Amorim, conforme imagem abaixo, para reforçar seu ponto de vista contra os padrões, como demonstra no primeiro parágrafo: “a influenciadora digital Liliane Amorim morreu aos 26 anos por conta das complicações de uma LIPOASPIRAÇÃO. Esta mulher da foto, magra, branca, lisa, tão próxima do padrão” (Aguiar, 2021c). Figura 18 – Print da coluna de Dríade Aguiar na Mídia Ninja A colunista apresenta no segundo e terceiro parágrafos, algumas informações sobre o risco de cirurgias estéticas e o comportamento da população brasileira em relação a esses procedimentos, na tentativa de se adaptar aos padrões estéticos: “O Brasil é o país que mais faz cirurgias plásticas do mundo. Nós, o país do carnaval, da mulata tipo exportação, admiradores da beleza cis-europeia, da bunda, do turismo sexual. Da gordofobia” (Aguiar, 2021c). 258 colaboram para um espaço plural de representações sociais. Além disso, as entrevistas possibilitaram conhecer um pouco sobre o processo e as subjetividades dos sujeitos que produzem esses conteúdos. Diante da análise feita, identificamos que das letras da sigla LGBTI+, a comunidade bissexual e intersexual não tem representação em nenhum dos dois grupos de mídia, apesar da Mídia Ninja ter em seu quadro de colunistas, três mulheres que se autodeclaram bissexuais, dando visibilidade à comunidade, mas que não contemplam as questões relacionadas à temática em suas colunas. Como já dito, as colunistas não têm a obrigação de escrever sobre o assunto, mas a partir do momento que se apropriam desse lugar de fala e se assumem como sujeitos dessa enunciação (Charaudeau, 2001), produzem significado para quem as lê, gerando expectativas sobre uma temática pouco debatida. Sendo assim, é importante destacar o apagamento desses grupos sociais e as consequências advindas dele, não só nas colunas opinativas, mas na sociedade (Yoshino, 2000). As demais letras da sigla LGBTI+ contempladas na análise, nos mostram que é possível as/os colunistas ao assumirem o lugar de fala, passarem a ser uma referência, com conteúdos relevantes para a comunidade LGBTI+ e para a sociedade como um todo, pois auxiliam no processo de identificação, aceitação e interação dos sujeitos pertencentes à comunidade LGBTI+, colaborando com as próprias individualidades para o bem coletivo, ajudando na desconstrução de estereótipos e visões preconceituosas, entendendo que as representações são sempre o resultado de um esforço constante de tornar real algo que é incomum (não-familiar), ou que nos dá um sentimento de não-familiaridade. E através delas, nós superamos o problema e o integramos em nosso mundo mental e físico, que é, com isso, enriquecido e transformado. (Moscovici, 2003, p. 58) Destacando, primeiramente, a coluna opinativa da Folha de S. Paulo que contempla a letra ‘G’, é possível observar a regularidade de publicações do jornalista Renan Sukevicius, que utiliza os quatro modos de organização do discurso (Charaudeau, 2008) para evidenciar o seu ponto de vista, sempre embasado por fontes, dados e reportagens, estabelecendo conexões e levando conhecimento a quem o lê. O colunista consegue ser uma importante referência, dando visibilidade e representação para a comunidade LGBTI+, agregando credibilidade aos assuntos tratados, mas 259 que representa apenas um dos grupos sociais da sigla, gerando um apagamento das demais representações. Dessa forma, a Folha de S. Paulo abre um espaço importante para reflexões sobre a comunidade LGBTI+, mas falta equidade. É importante que se criem outros espaços como esse, contando histórias produzidas com planejamento, envolvimento, para que outros profissionais ligados a comunidade de lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e intersexuais, consigam dialogar com seus pares, participando e produzindo novas opiniões sob diferentes perspectivas (Carpentier et al., 2019). Opiniões que buscamos defender ao longo da pesquisa, pois se “o poder nunca depende de um único indivíduo, mas da instância na qual se encontra o indivíduo e da qual ele tira sua força” (Charaudeau, 2013, p. 18), é urgente que um grupo de mídia com o alcance que a Folha de S. Paulo tem, repense a forma como a sociedade é representada, pois o que temos visto, é a reprodução de padrões ideológicos que influenciam o discurso social. Um discurso que envolve posições ideológicas como “um aspecto transversal ao texto e à sua produção” (Carvalho, 2015, p. 191). Das colunas opinativas produzidas na Mídia Ninja , por Ana Claudino, Bernardo Gonzales e Dríade Aguiar, que contemplam as letras ‘L’, ‘T’ e o símbolo ‘+’, é possível observar como essas posições ideológicas são manifestadas na defesa de valores e posicionamentos individuais, que perpassam o texto, buscando a identificação das leitoras e leitores. Apesar de usarem estratégias diferentes, como elementos de linguagem ou a forma como se colocam no discurso, as/os três colunistas utilizam da racionalidade e da subjetividade para engajar quem os lê, se apropriando dos modos de organização do discurso (Charaudeau, 2008), para provocar reflexões, questionamentos e gerar o sentimento de pertença. As/os três colunistas não têm uma regularidade de publicação, pois diferente de Renan Sukevicius que é contratado da Folha de S. Paulo , atuam como parceiros do coletivo Mídia Ninja , e quando escrevem, emprestam suas vivências na construção discursiva, um discurso que adota um caráter informal de comunicação, visando a aproximação com quem os lê, e que em alguns momentos 260 se aproxima mais de um diário pessoal, do que de uma coluna opinativa, como acontece em uma das colunas de Bernardo Gonzales, pois a falta do olhar do profissional de comunicação, pode transformar a coluna em um compartilhamento de confidências. E “quem escreve as colunas precisa ter algo importante para dizer” (Gradim, 2000, p. 96) para informar, convencer e/ou provocar reflexões. Por isso, a importância de se construir uma comunicação dialogada, onde os elementos simbólicos que compõem a narrativa jornalística são pensados, desenvolvidos, estruturados e criados a partir dos olhares colaborativos de quem está envolvido com o fato e do profissional que irá construí-lo socialmente, tendo ambos, a possibilidade de manifestar sua opinião e representar histórias. Essa visão da comunicação híbrida, pode agregar visões periféricas, transculturais, diversas, tendo como objetivo a colaboração de experiências de grupos sociais, tanto da comunidade LGBTI+, como de outras denominações, que visem a construção de sentido no contexto midiático, participativo e, sobretudo, democrático. As colunas assinadas por Renan Sukevicius na Folha de S. Paulo , e as colunas de Ana Claudino, Bernardo Gonzales e Dríade Aguiar na Mídia Ninja , possibilitam a construção de uma opinião que valoriza o envolvimento de atores sociais pertencentes a comunidade LGBTI+, que emprestam sua carga afetiva para retratar histórias que precisam ser contadas, para que os demais membros dessa comunidade, que não ocupam esses lugares nos grupos de mídia, consigam se identificar com essas histórias e sintam-se representados. Se o discurso midiático tem como uma de suas funções, propagar diferentes ideias e pensamentos vigentes na sociedade, (Castells, 2001; Van Dijk, 2008; Charaudeau, 2013) colaborando assim, com a percepção de mundo que as pessoas têm, a partir da representação de identidades, comportamentos e interpretação dos fatos narrados, acreditamos que esse discurso precisa ser, cada vez mais, colaborativo e inclusivo. Para isso, é importante que outros grupos de mídia abram espaços para que integrantes da comunidade LGBTI+ participem do debate público, na produção de conteúdos que sejam destacados em editoriais, colunas, crônicas, matérias e reportagens não factuais, que busquem 261 uma maior compreensão entre causas e efeitos, proporcionando uma comunicação onde a opinião fundamentada e a participação possam ser valorizadas. Uma participação que permite a construção de novas narrativas, onde a linguagem e a ideologia presentes no discurso atendam ao contexto contemporâneo cada vez mais plural, ditando novos olhares através do poder simbólico, visando como isso impacta a percepção e as representações sociais junto ao consumidor. Essa perspectiva não foi contemplada ao longo da investigação, de criar uma comunicação direta com os consumidores desses conteúdos, estabelecendo uma conexão entre jornalistas, especialistas e consumidor, o que pode ser explorado em outras pesquisas. Além disso, escolhemos refletir sobre a construção discursiva das colunas opinativas em busca de representação e diversidade, partindo de dois grupos de mídia específicos, o que nos dá uma visão parcial dessa realidade, mas que se mostra significativa, por dialogar com a Folha de S. Paulo e a Mídia Ninja , duas referências do jornalismo brasileiro. Acreditamos ser importante que outros estudos sejam desenvolvidos para contemplar essa visão crítica sobre outros grupos de mídia que valorizam o jornalismo opinativo, bem como, a abordagem do jornalismo na produção de conteúdos noticiosos em relação a forma como a comunidade LGBTI+ é representada. Acreditando que a representação é uma forma de legitimar a própria existência, foi importante observar, como a pesquisa científica - perpassando pelos autores, os entrevistados, as colunas, as análises, contribuiu para que eu pudesse compreender o meu lugar de fala na sociedade, me apropriando dessas informações para construir conhecimento, desenvolvendo assim, um aprendizado consciente e crítico. Por fim, conclui-se essa pesquisa, com o desejo e o desafio, de investigar sobre o apagamento da bissexualidade na mídia e na sociedade, estabelecendo um debate com outras áreas, como o audiovisual e a sociologia, na busca por construir uma comunicação mais representativa e diversa, e quem sabe, uma sociedade mais democrática e menos intolerante. 262 Bibliografia Aaker, D. (1998) Marcas: brand equity - gerenciando o valor da marca . 2ª ed. São Paulo: Elsevier, Negócio Editora. Abert. Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. 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As entrevistas feitas por e-mail seguem na integra, e as realizadas presencilamente e pela plataforma Microsoft Teams foram transcritas também na integra e inseridas abaixo: 282 ENTREVISTA 1 – Ana Carolina Amaral, jornalista, responsável pela coluna Ambiência da Folha de S. Paulo , que aborda temas como sustentabilidade, meio ambiente e feminilidade. Criadora do site Mulher e sustentabilidade. 1 – DE QUE FORMA A DIVERSIDADE DE COLUNISTAS PODE COLABORAR PARA QUE AS PAUTAS TAMBÉM CONTEMPLEM ESSAS DIVERSIDADES? R: Eu acho que essa diversidade tem que contemplar as colunas, mas também as outras áreas do jornalismo, não só o opinativo. É importante ver como o jornal, no caso a Folha de S. Paulo, tem aberto espaço para que essa diversidade aconteça. E isso acontece há muito tempo, lembro da Folha ser criticada por dar espaço para pessoas que estavam emergindo, como o Guilherme Boulos, do Movimento sem-terra, e as pessoas reclamarem porque ele estava ocupando esse espaço, que é tido por muitos, como um espaço nobre do jornalismo. Depois o Kim Kataguiri também foi atacado. Daí percebi que o espaço do colunismo é um reflexo do pensamento que emerge em uma sociedade. E você abrir esse espaço para pensamentos divergentes, é a melhor forma de entender a nossa sociedade. 2 – É POSSÍVEL HOJE, NO JORNALISMO, UNIR A RACIONALIDADE DA APURAÇÃO COM A SUBJETIVIDADE DA OPINIÃO? R: Eu bato muito na tecla da apuração, e você me traz uma reflexão que eu ainda estou construindo. Eu acho que é uma forma de ter esse reflexo para além da apuração racional, mas é preciso ter cuidado. Para ler a opinião é preciso ter algum nível de alfabetização midiática, principalmente para entender de que lugar as pessoas falam, que muita gente nem sabe o que é lugar de fala. Poucas pessoas têm esse privilégio de entender isso. De onde essa pessoa está falando? Que interesse ela tem? Porque ela tem esse ponto de vista? É um espaço que exige a leitura desse subtexto. E esse espaço precisa ser garantido não só nas colunas. Eu tenho muita liberdade para escrever no blog, mas poucas vezes coloquei a minha subjetividade em primeiro lugar, mesmo entendendo que ela faz parte da minha construção, pois tudo passa pela nossa subjetividade. Mas é preciso fazer um exercício para o jornalista, de desenvolver sua empatia. O jornalista precisa chegar nas pessoas com empatia e voltar para o lugar da interpretação. Eu tento responder sempre, o que está acontecendo? E esse exercício é contínuo. 3 – VOCÊ TEM A PERCEPÇÃO DO SEU ALCANCE COMO COLUNISTA? 283 R: Não. Você tá me fazendo pensar muitas coisas, eu nunca tinha parado para pensar nisso, quando alguém chega para comentar uma coluna que fiz há meses, isso sempre me surpreende. 4 – COMO O JORNALISMO OPINATIVO CONTRIBUI PARA UMA COMUNICAÇÃO MAIS DEMOCRÁTICA? R: Eu acho que o jornalismo é fundamental para a democracia e ter uma diversidade de pessoas produzindo esses conteúdos possibilita uma junção de olhares para produzir um quebra-cabeças mais montado para entregar pro leitor, que tem unido olhares complementares de áreas que até então eram distantes. 5 – QUAL O PAPEL DO JORNALISMO NA MEDIAÇÃO DO DEBATE PÚBLICO? R: O jornalismo tem a responsabilidade de entregar um diagnóstico. Investigado, analisado e interpretado, que dê condições das pessoas entenderem o que está acontecendo e a partir disso, tomarem decisões, numa sociedade democrática, coletivamente, de forma pública. Sem um diagnóstico claro, a sociedade não consegue tomar algumas decisões. E muitas vezes o espaço da reportagem não é suficiente para trazer esse nível de interpretação, a gente precisa ir para um olhar mais subjetivo de quem acompanha aquele assunto, do especialista. A reportagem tem suas reponsabilidades de trazer evidências, e o opinativo colabora com as visões fundamentadas, mais subjetivo. Acredito muito no espaço da análise, da interpretação do jornalista, que numa reportagem pode não dar conta. Para mim é sempre uma surpresa a liberdade que eu tenho na Folha. Trabalho desde 2016 aqui na Folha de S. Paulo e nunca tive um tipo de direcionamento ou censura prévia, tanto no espaço da reportagem, como na coluna. A única condição é: coloque o outro lado. 290 R: Eu nunca fui preocupada com a objetividade do jornalismo. Eu fiquei muito contente quando descobri que podia fazer jornalismo e me colocar. Eu acho que o ponto é achar o equilíbrio, entre a racionalidade e a subjetividade. Não tem como falar sobre racismo, por exemplo, sem que as minhas experiências venham à tona. Quando vou entrevistar algum negro, há o reconhecimento, a gente se identifica. Nossas histórias em algum momento se encontram, a gente se reconecta. Então, não tem como isolar, não tem como retirar as experiências, vivências, para contar histórias. 291 ENTREVISTA 6 – Deborah Sabará, coordenadora de ações e projetos da Associação GOLD (Grupo, Orgulho, Liberdade e Dignidade). Foi a primeira travesti a assumir o Conselho Estadual de Direitos Humanos do estado do Espírito Santo no Brasil, trabalha com a comunidade LGBTI+ em projetos voltados para saúde (testagem de HIV, hepatite e sífilis), educação, capacitação profissional, museologia social, combate ao preconceito e intolerância. 1 - QUAL A IMPORTÂNCIA DE TERMOS UMA REPRESENTAÇÃO EFETIVA DE PESSOAS DA COMUNIDADE LGBTI+? Para começar, eu Trabalho com a população LGBTI+, na área dos direitos humanos, coma saúde da população LGBTI+, com informação, ponto de memória, sistema prisional, parcerias com poder público, privado, projetos contra a violência da mulher, da comunidade LGBTI+, profissionalização, arte, enfim, tudo isso pela associação GOLD. Então, eu acredito que a representatividade é sim uma forma de valorizar as diversidades. E levando para a minha população de travestis, a representatividade, a visibilidade e o protagonismo têm que andar juntos. E como fazer isso? Primeiro, dando visibilidade às pessoas trans. E aí nesse guarda-chuva entra homens, mulheres, né travestis, transexuais pessoas não binárias, É preciso dar visibilidade as suas datas comemorativas, dar visibilidade aos atos positivos que acontece com as pessoas trans, desde cargos que elas ocupam, desde faculdade que elas conseguem cursar, desde atos heroicos que elas promovem e também denunciar o número de assassinatos contra essa população. Isso é dar visibilidade. Além disso, buscar reconhecimento político de políticas sociais para essa população também é dar visibilidade. E aí chamar sempre pro diálogo, sempre para participar de atividades como você está me chamando que é a representatividade desta população. Você já fez duas coisas, você está dando visibilidade e tá dando a representatividade, porque você chama alguém para dialogar e essa pessoa é travesti. E aí vem o protagonismo, que é que essa pessoa tem a capacidade de fazer qualquer coisa que tantas outras fazem. Ela tem condições de ser mãe, de ser trabalhadora sexual, de ser professora, advogada, delegada, agente de saúde, médica, secretária, caixa de supermercado. Isso é mostrar o protagonismo de pessoas trans. Por isso que eu acho que a representatividade é uma forma de valorizar. Essa representatividade pode estar dentro da câmara de vereadores, na mídia, no mercado de trabalho, isso tudo é importante, porque a gente precisa dessa representatividade. 292 2 – DE QUE FORMA A COMUNIDADE LGBTQIA+ É REPRESENTADA ATUALMENTE PELAS EMPRESAS DE MÍDIA? Eu acredito que essa diversidade no jornalismo é importante, porque ela dialoga diretamente com o público. E acredito que algumas coisas tenham mudado, então nós temos repórteres que hoje servem como representação, da população negra, como Glória Maria, que aparece na tela e desde criança, eu lembro de comemorar isso, porque foi muito bom para mim. Eu penso também que alguns padrões têm sido quebrados, de vermos pessoas negras, amarela, a pessoa gorda, com deficiência, isso tem possibilitado um jornalismo diverso que pode gerar uma visibilidade e diversidade enorme. Então termos essas referências, como um âncora que é assumidamente gay, isso traz muita visibilidade. Ainda falta mulheres assumidamente lésbicas, mulheres trans... eu sei que já temos mulheres trans estudando para serem jornalistas e isso é muito importante. É um bom começo, mas creio que podemos ampliar o debate sobre o universo trans, porque precisa contemplar também as pautas, porque precisa que os repórteres gays, as lésbicas, devem também assumir sua orientação sexual, ninguém é obrigado a assumir para o público, mas nas redações, precisam sugerir pautas, porque é muito difícil chegar até eles. A Associação GOLD tenta sugerir temas, mas são negados porque a coordenadora da associação é uma travesti, porque colocar essa travesti na televisão, não é legal para a emissora. Então, quando executamos algum projeto de arte, por exemplo, e isso vai ser coberto pela mídia, o assunto da arte é mostrado, mas não dão espaço para que a voz da travesti que organizou isso, que desenvolveu o projeto, apareça. Nós desenvolvemos vários projetos, em diversas áreas, mas não o espaço não é dado, e os repórteres LGBTs não assumem essas pautas, então precisamos unir forças para mudar isso. 3 - VOCÊ ACREDITA QUE UMA MAIOR DIVERSIDADE DE JORNALISTAS AJUDARIA A ESTABELECER UMA MAIOR IDENTIFICAÇÃO COM O PÚBLICO? Acho que sim, pois quando vemos artistas assumindo seu lugar, seu comprometimento com a causa, assumem o seu posicionamento, isso reverbera de forma positiva. Então, dentro do jornalismo, ao assumir essa diversidade, vai contribuir, para fugir dessa padronização que muitas vezes é uma armadilha na própria cobertura da mídia, que pode também reforça esse preconceitos e estigmas. É preciso ter pautas, ter o diálogo com os movimentos sociais durante a produção... há um movimento, de novos profissionais que trazem das faculdades, das universidades, uma visão preocupada com os direitos humanos, e isso é um começo importante. 293 4 – VOCÊ ACREDITA QUE A REPRESENTAÇÃO É UMA FORMA DE VALORIZA AS DIVERSIDADES? Eu tenho minhas dúvidas, e fico muito preocupada, se há um interesse mercadológico por trás dessas pautas ou se há um interesse real de valorizar as diversidades. Até que ponto essa visibilidade está contemplando pessoas que estão ligadas aos movimentos, uma pessoa ativista, ou uma pessoa trans que está se aproveitando dessa visibilidade para se promover, mas de qualquer jeito, sem ter o cuidado com a forma que aparece, não é só aparecer, por aparecer. É preciso pensar os papéis que ocupamos e como ocupamos esses papéis. Precisamos, juntos, jornalistas e movimentos sociais, pensar em como tratar essas realidades, fugindo da espetacularização. Por fim, espero de verdade, ainda ver uma jornalista trans apresentando o jornal, sendo referência para as demais, com compromisso nas pautas. 294 ENTREVISTA 7 – Fábio Veiga, militante do Fórum Estadual de Políticas para a comunidade LGBT do estado do Espírito Santo. Foi presidente do Conselho Estadual para Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travesti e Transexuais do Espírito Santo (2018/2020). 1 - DE QUE FORMA A COMUNIDADE LGBTQIA+ É REPRESENTADA HOJE PELAS EMPRESAS DE MÍDIA? R: O meu olhar ainda é muito tímido, para as questões de exposição dessa população. Tanto no viés mercadológico, quando a mídia expõe em um comercial uma pessoa LGBT, quando expõe de forma muito publicitária, expõe muito no comércio, no mercado, e não com o viés de expor pro mercado, com o viés de retratar o espaço de representatividade, o espaço político, um espaço aonde possa através desse momento mercadológico, fazer também uma política né, mais efetiva de exposição. Obviamente que não é a sua totalidade, 100%, porém ainda é muito pouco. Quando existe algumas empresas que o fazem, ainda é muito pouco. Quando a gente fala das empresas de mídia, na questão da comunicação de algum fato, em decorrência de alguma ação, onde a mídia vai querer por exemplo, falar sobre um dia de combate a LGBTfobia, que aí a mídia nessa semana, ou nesses dias, querem expor, fazem de forma muito momentânea, mas não fazem anteriormente ou em outro período além daquela data, e mesmo nesses dias, é muito pouco. E não acrescenta todas as letrinhas, geralmente é uma letrinha, acaba escondendo a letra L, a letra B, a letra T, e dá muita visibilidade para a letra G. E quando se trata da letra T, na sua amplitude, num assassinato, num homicídio, numa briga, um cliente que não quer pagar um programa, coloca o masculino, o nome de nascimento da pessoa, de batismo e não coloca o nome que a pessoa tem de social. Ou coloca, ás vezes, o nome e entre aspas ou entre parênteses o outro nome. É uma exclusão muito grande na mídia. Hoje, alguns canais de comunicação, alguns jornalistas, já têm essa consciência, de usar o feminino, de colocar só o nome social, mas ainda é muito pouco. A representatividade atual das empresas de mídia é muito pequena quando se trata da questão LGBT. 2 - QUAL A IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA REPRESENTATIVIDADE EFETIVA DA COMUNIDADE LGBTQIA+ NA MÍDIA? R: Eu acho que depende muito, porque nós temos até um número de pessoas que são LGBTS na mídia, o problema é a importância de termos essas pessoas ocupando espaços de direção nas 295 empresas de mídia, porque aí vão pautar, vão dar mais ênfase à realidade, de poder dar publicidade às questões LGBTQIA+. O negócio não é ter, é direção. É ocupar esses espaços para que a gente possa ter voz, para que a gente possa trabalhar capacitação. Nós do Fórum ( ) propusemos as redes de mídia do Espírito Santo, fazer uma formação com a direção, com as equipes sobre essas questões, só uma empresa topou. Então assim, é importante ocupar os espaços, mas espaços que deem condições de poder dar voz e visibilidade as nossas ações. 3 – VOCÊ ACREDITA QUE UMA MAIOR DIVERSIDADE DE JORNALISTAS AJUDARIA A ESTABELECER UMA MAIOR IDENTIFICAÇÃO COM O PÚBLICO? R: Ajuda, agora, esse jornalista ele precisa estar pautado com o que a militância, os movimentos, as pessoas LGBTs, que estão ali no dia a dia da luta, da defesa da nossa população está consciente. Eu conheço alguns jornalistas que não têm o pensamento da militância, têm o pensamento mais ‘quadradinho’, e não coloca na prática a nossa linguagem, a nossa forma de pensar. Agora, obviamente se a gente tem um número maior ocupando esses espaços, com certeza isso ajuda muito a dar uma ênfase na publicidade, e fazer com que esse linguajar aconteça. Então, um número maior, potencializa. 4 – PARA VOCÊ A PREPRESENTATIVIDADE É UMA FORMA DE VALORIZAÇÃO DAS DIVERSIDADES? R: Claro, eu tenho certeza disso. A representatividade valoriza e muito as questões das diversidades. Então eu acho que a gente tem que ter muita representatividade. E representatividade em todos os espaços, ter essa gama de ocupação, de participação, de efetivação, no mecanismo de disputa política, nos espaços de mídia, nos debates públicos... Eu acho é muito importante a representatividade para valorizar a diversidade. 296 ENTREVISTA 8 – Flávia Lima, jornalista, especialista em economia, graduada também em ciências sociais e direito, foi ombudsman da Folha de S. Paulo de maio de 2019 a maio de 2021. 1 – O QUE SIGNIFICA MAIS DIVERSIDADE NAS REDAÇÕES PARA O JORNALISMO CONTEMPORÂNEO? R: As Redações contemporâneas refletem a sociedade nas quais estão inseridas. No Brasil, por sermos uma sociedade ainda fortemente machista, racista e homofóbica, as Redações, mesmo que inconscientemente, acabam refletindo essas visões de mundo tanto no conteúdo do que produzem quanto na composição de suas equipes. É certo que isso vem sendo questionado e repensado. Temos visto avanços importantes ocorridos mais recentemente e que precisam ter continuidade. Assim, mais diversidade nas Redações significa abrir espaço nesses ambientes para profissionais com diferentes vivências, o que certamente vai se refletir na multiplicidade de pontos de vista daquilo que é produzido. A forma como a população negra aparece na imprensa é um exemplo clássico dessa falta de diversidade. Somos cerca de 56% da população e estamos quase ausentes da produção de conteúdo e das decisões acerca dos rumos das Redações. Quanto menor a diversidade, menor a pluralidade de visões e de representações. 2 – DE QUE FORMA A DIVERSIDADE DE COLUNISTAS DA FOLHA DE S. PAULO PODE COLABORAR NA FORMA COMO AS HISTÓRIAS SÃO CONTADAS? R: Cito como exemplo o que acontece nas periferias das cidades. As preocupações, os problemas dos lugares mais afastados, assim como as iniciativas no campo político e econômico e a produção artística originadas nesses lugares periféricos são acompanhadas a certa distância (física e emocional) pelos grandes jornais e seus colunistas. Como sabemos, é possível refletir com mais empatia sobre os problemas e lugares que conhecemos. Assim, para que a imprensa se livre de representações estigmatizadas, preconceitos ou mesmo da cegueira que ainda mantém ao abordar as periferias é preciso que ela se diversifique. Essa diversificação precisa ocorrer inclusive nos espaços “nobres” dos jornais, habitados pelos colunistas. Quem são eles? Os colunistas são pessoas que se destacam em diferentes áreas e são escolhidas pelos jornais para dar suas opiniões sobre os mais diferentes assuntos. Os colunistas ocupam esses espaços nobres dos jornais, são lidos e acompanhados com atenção pelos leitores e acabam estabelecendo 297 forte vínculo com o leitorado, pautando boa parte do debate feito em torno dos principais temas econômicos, políticos e comportamentais. Os leitores, de alguma forma, se identificam ou se reconhecem no jornal que leem também por meio de seus colunistas preferidos. Portanto, eles são peça fundamental. Se esse grupo de colunistas é formado por um só perfil (no caso da grande imprensa brasileira, homens, brancos e pertencentes às classes mais abastadas), as discussões sobre as grandes questões políticas, econômicas e comportamentais irão refletir as suas visões, preocupações e abordagens. Em 2019, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj) descobriu que, entre os três jornais de maior circulação no Brasil – Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo – os colunistas estavam divididos da seguinte forma: homens brancos (68% do total de colunistas), mulheres brancas (28%), homens negros (2%) e mulheres negras (2%). Note que, entre os colunistas, o percentual de mulheres brancas fica muito abaixo do de homens brancos. Homens e mulheres negros têm participação quase residual entre os colunistas. O resultado é uma grande capa de invisibilidade das questões caras aos mais pobres, à população negra, às mulheres e, também, à comunidade LGBTQI+, que repercute em todas as áreas e dimensões. Muitas vezes, esse grupo homogêneo de colunistas ajuda a replicar velhos clichês e preconceitos e ignorar pautas caras a outros grupos, afetando a circulação de novas ideias e abordagens e empobrecendo o debate como um todo. 3 – DE QUE FORMA O JORNALISMO OPINATIVO CONTRIBUI PARA A RECONFIGURAÇÃO DO JORNALISMO BRASILEIRO? R: Acredito que o jornalismo opinativo sempre foi um diferencial dos grandes jornais para atrair o leitorado. O brasileiro Paulo Francis, conhecido por sua agressividade, foi um dos grandes colunistas nas décadas de 1980 e 1990. Bastante disputado pela grande imprensa brasileira, chegava até a impulsionar a venda de jornais nas datas em que sua coluna era publicada (e aqui não vou fazer nenhum juízo de valor sobre elas). Com o advento da internet, e, também, da polarização política mais acirrada, o jornalismo opinativo parece ter ganhado ainda mais relevância. A opinião (teoricamente qualificada e balizada) traz audiência para os jornais e é uma forma relevante de diferenciar o conteúdo produzido pelos 298 jornais daquele produzido na internet. Se ela for diversificada, um novo mundo de possibilidades e audiência pode ser acessado pelos jornais. 4 – VOCÊ ACREDITA QUE A MAIOR DIVERSIDADE NO JORNALISMO AJUDA A ESTABELECER UMA MAIOR IDENTIFICAÇÃO COM O PÚBLICO? R: Acredito que sim, por algumas razões. Durante muito tempo, o público-alvo dos grandes veículos de comunicação eram homens, brancos e mais velhos. Isso mudou. Com a ampliação do acesso às universidades no Brasil e diante da emergência de uma nova classe média, esse universo de leitores se ampliou. Esses leitores mais jovens encontraram nas redes sociais fonte de informação (nem sempre de qualidade, é verdade) e espaço para produção de conteúdo diversificados e pontos de vista variados: mulheres, negros, comunidade gay, periféricos. Ao mesmo tempo, o advento das redes sociais fez com que a imprensa tradicional perdesse fatia relevante de receita publicitária (sobre a qual se assentavam esses negócios) para as grandes empresas digitais, passando a ter que encarar o seu universo de assinantes como fonte de receita principal. Na minha avaliação, não vai ser possível ampliar esse universo de leitores de modo significativo sem a inclusão desse novo leitorado. Não é mais possível ignorar jovens, mulheres, gays, pretos, pardos, periféricos. E isso é feito diversificando não só o conteúdo produzido, mas também as equipes nas Redações. 5 – É POSSÍVEL CRIAR UM JORNALISMO QUE UNA A RACIONALIDADE DA INFORMAÇÃO, COM A SUBJETIVIDADE DA OPINIÃO? R: O jornalismo é feito das duas coisas: informação e opinião. O conteúdo noticioso deve obedecer a técnica jornalística (a priorização de temas relevantes, a apuração rigorosa, a abordagem crítica e a pluralidade, refletida na disposição de ouvir todos os lados, além do reconhecimento de seus próprios erros), de modo a refletir com a maior acurácia possível os fatos e os personagens nele envolvidos. Já a opinião tem um lugar separado da notícia nos jornais: as colunas de opinião ou de análise, além dos editoriais. E não devem nunca se misturar ao conteúdo noticioso propriamente dito. É dessa convivência que é feito o conteúdo jornalístico. 299 6 – FALAR DE DIVERSIDADE É UM ASSUNTO MUITO AMPLO, POIS SÃO VÁRIAS AS DIVERSIDADES. É POSSÍVEL QUE O JORNALISMO NUM FUTURO PRÓXIMO CONSIGA GARANTIR ESSES LUGARES DE FALA DOS VÁRIOS PÚBLICOS? R: É preciso entender que lugar de fala todo mundo tem. Lugar de fala é compreender que o que você pensa ou fala supõe uma origem e uma vivência, que não coincide necessariamente com a vivência e a origem de outras pessoas. O que tem ocorrido com a imprensa tradicional é que o direito à fala é dado para pessoas com vivências, pensamentos e origens muito similares: geralmente são pessoas brancas e de classes mais abastadas. Escrevi em uma de minhas colunas que a grande imprensa brasileira tem sido feita por e para a elite e, portanto, sempre refletiu seus medos, preconceitos e preocupações. A imprensa ajudou a normalizar o quadro de desigualdades raciais, sociais e comportamentais e precisa compreender isso, contribuindo, a partir dessa compreensão, para superar essa narrativa. Isso não vai ser feito sem uma imprensa mais democrática, que dê lugar à multiplicidade de vozes. 306 ENTREVISTA 13 – Vítor diCastro, ator, influenciador e ativista digital. Apresentador do canal Quebrando o Tabu e criador do canal Deboche Astral , utiliza as redes sociais para debater temas como LGBTfobia, direitos humanos, política e astrologia. 1 - DE QUE FORMA A COMUNIDADE LGBTQIA+ É REPRESENTADA ATUALMENTE PELAS EMPRESAS DE MÍDIA? R: Atualmente a gente se vê muito mais do que antes. Parece que nos últimos anos descobriram que a gente é consumidor de conteúdo e de muito mais rs... ainda há muito equívoco porque a chefia não é diversa, então ainda vejo muita gente errando na hora de trabalhar a diversidade, mas existem produções específicas que acertam muito e servem de exemplo, então a tendência é que a nossa presença nas mídias seja algo muito natural daqui pra frente. 2 - QUAL A IMPORTÂNCIA DE TERMOS UMA REPRESENTATIVIDADE EFETIVA DE PESSOAS DA COMUNIDADE LGBTQIA+ NA MÍDIA? R: A gente já tá acostumado a se ver na mídia, mas como parte de estatísticas péssimas: número de violência, de falta de oportunidade, de sofrimentos. Agora o que se vê é o outro lado da moeda, são os exemplos positivos. Eu não quero crescer achando que ser gay é morrer na mão de homofóbico. Eu quero ter perspectiva, pensar que posso ser rico, que posso ter família, vencer na vida, e isso só é possível se a mídia mostrar os exemplos positivos pra população. 3 - VOCÊ ACREDITA QUE UMA MAIOR DIVERSIDADE DE JORNALISTAS AJUDARIA A ESTABELECER UMA MAIOR IDENTIFICAÇÃO COM O PÚBLICO? R: Acredito que sim, principalmente porque LGBT ainda são colocados numa caixinha de deboche pela sociedade, então acho que colocar a gente em lugares sérios também normaliza nossa existência. 4 - VOCÊ ACREDITA QUE A REPRESENTATIVIDADE É UMA FORMA DE VALORIZAÇÃO DAS DIVERSIDADES? R: Com certeza. Todo mundo sai ganhando com representatividade, pra quem está se vendo é ótimo e ao mesmo tempo é bom pra todos perceberem que vivemos num mundo muito mais diversos do que se imagina. [Document text truncated for crawler view.]