As fontes de informação sobre o dia do fogo na Amazônia: estudo de caso luso-brasileiro
Abstract
Objetivou-se identificar as fontes de informação no discurso jornalístico da Folha de S. Paulo (Brasil) e do Público (Portugal) sobre o dia do fogo na Amazônia e compreender como foram acionadas. Recorreu-se à hermenêutica de profundidade como suporte teórico-metodológico. Utilizou-se a análise de conteúdo como técnica para classificar as fontes de informação com base em canais de produção rotineiros e não rotineiros. Observou-se que o discurso dos dois jornais se apoiou principalmente em fontes de informação rotineiras, entretanto, as diferentes práticas jornalísticas evidenciaram temas científico-ambientais e políticos, na Folha de S. Paulo, e um tema internacional, no Público.
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1 ID: 2543 DOI: https://doi.org/10.30962/ec.2543 Recebido em: 26/07/2021 Aceito em: 04/10/2021 As fontes de informação sobre o dia do fogo na Amazônia: estudo de caso luso-brasileiro Thaís Braga Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Braga, Portugal Sandra Marinho Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Braga, Portugal Resumo Objetivou-se identificar as fontes de informação no discurso jornalístico da Folha de S. Paulo (Brasil) e do Público (Portugal) sobre o dia do fogo na Amazônia e compreender como foram acionadas. Recorreu-se à hermenêutica de profundidade como suporte teórico-metodológico. Utilizou-se a análise de conteúdo como técnica para classificar as fontes de informação com base em canais de produção rotineiros e não rotineiros. Observou-se que o discurso dos dois jornais se apoiou principalmente em fontes de informação rotineiras, entretanto, as diferentes práticas jornalísticas evidenciaram temas científico-ambientais e políticos, na Folha de S. Paulo, e um tema internacional, no Público. Palavras-chave: Amazônia; Hermenêutica de profundidade; Fontes de informação; Folha de S. Paulo; Público. News sources about the day of the fire in the Amazon: a Portuguese-Brazilian case study Abstract It was aimed to identify the news sources in the journalistic discourse of Folha de S. Paulo (Brazil) and Público (Portugal) about the day of fire in the Amazon and understand how they were triggered. Depth hermeneutics was used as a theoretical-methodological support. Content analysis was used as a technique to classify news sources based on routine and non-routine channels of production. It was observed that the discourse of the two newspapers was based mainly on routine news sources, however, the different journalistic practices highlighted scientific-environmental and political themes, in Folha de S. Paulo, and an international theme, in Público. Keywords: Amazon; Depth hermeneutics; News sources; Folha de S. Paulo; Público.
2 Fuentes de información sobre el día del fuego en la Amazonía: un estudio de caso portugués-brasileño Resumen El objetivo fue identificar las fuentes de información en el discurso periodístico de Folha de S. Paulo (Brasil) y Público (Portugal) sobre el día del fuego en la Amazonía y comprender cómo se desencadenaron. Se utilizó la hermenéutica profunda como soporte teórico-metodológico. El análisis de contenido se utilizó como técnica para clasificar las fuentes de información en función de los canales de producción rutinarios y no rutinarios. Se observó que el discurso de los dos periódicos se basó principalmente en fuentes de información rutinarias, sin embargo, las diferentes prácticas periodísticas destacaron temas científico-ambientales y políticos, en Folha de S. Paulo, y un tema internacional, en Público. Palabras clave: Amazon; Hermenéutica Profunda; Fuentes de información; Folha de S. Paulo; Público. Introdução “Precisamos mostrar para o presidente que queremos trabalhar e único jeito é derrubando. Para formar e limpar nossas pastagens é com fogo” (PIRAN, 2019). Segundo o periódico Folha do Progresso, da cidade de Novo Progresso, no Estado do Pará, no Brasil, esta foi a sinalização de agropecuaristas do entorno da BR-163 (rodovia longitudinal, também chamada de rodovia Santarém-Cuiabá, que conecta a Amazônia às regiões sul e centro-oeste brasileiras) para o presidente Jair Bolsonaro (2019-atual) – este que, desde o início do mandato, implantou medidas favoráveis à destruição ambiental (TUFFANI, 2019). Por meio de um grupo de WhatsApp, 70 pessoas organizaram o dia do fogo na Amazônia: arrecadaram dinheiro para a compra do combustível e para a contratação de “motoqueiros” para espalhar o líquido inflamável pela floresta. Num único dia, 10 de agosto de 2019, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou uma explosão de focos de incêndio nas cidades de Novo Progresso e de Altamira, no Estado do Pará (CARMARGOS, 2019). Algum tempo depois, a queima espalhou-se para outros biomas brasileiros: Cerrado e Pantanal. Neste artigo, admite-se o dia do fogo na Amazônia como um caso. Em concordância com Orozco e González (2012), estudos de caso consistem em investigações densas com finalidade comparativa em que deve ser possível captar outros elementos do contexto maior, sem necessariamente ser representativo dele. Na explicação de Noor (2008), um caso refere-se a um acontecimento, uma entidade, um indivíduo ou uma unidade de análise. Trata-se de uma
3 pesquisa empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real. Para tanto, utiliza várias fontes de evidência, bem como preocupa-se com como e por que as coisas acontecem. Partiu-se da pergunta: quais foram as fontes de informação predominantes no discurso jornalístico da Folha de S. Paulo (Brasil) e do Público (Portugal) sobre o dia do fogo na Amazônia e como foram acionadas? Não existindo maneira única de desenvolver um estudo de caso, optou-se por compreendê-lo por meio do discurso jornalístico. De acordo com Charron e Bonville (2016), enquanto prática de comunicação pública, o discurso jornalístico implica ostensivamente numerosos interlocutores acerca de uma parte da realidade que interessa a todos. Prática esta mais ou menos institucionalizada, porque as convenções que a regem têm relativa coerência no tempo e no espaço; mas sempre organizacional, pois situa-se dentro ou em torno de uma organização permanente (a redação), que regula as relações entre os agentes da comunicação. Selecionaram-se os jornais Folha de S. Paulo e Público como os interlocutores deste estudo, dado que, desde julho de 2020, ambos ofertam assinaturas digitais conjuntas, sob argumento de que compartilham não apenas a língua portuguesa, mas também uma cultura e um código de valores, nomeadamente o compromisso com a democracia, o Estado de direito e os direitos humanos (CARVALHO; DÁVILA, 2020). Em certa medida, os periódicos refletem o que afirma Franklin (2012): os jornais não mais se limitam à produção de notícias em papel, pois têm se adaptado editorial e financeiramente para acomodar inovações em tecnologias mediáticas e mudanças nos requisitos do mercado. Outrossim, a comparação internacional visa à identificação de similaridades e diferenças entre as nações, evitando banalidades e estereótipos. Consoante Livingstone (2003), trata-se de um meio útil para determinar o que é diferente em um país, ou seja, consiste numa estratégia para se “ver melhor”, em vez de tirar conclusões comparativas mais gerais. Como suporte teórico-metodológico, recorreu-se à Hermenêutica de Profundidade (HP). Desenvolvida por Thompson (2011), a HP oferece orientações concretas para a investigação sócio-histórica, uma vez que associa métodos particulares de análise “como estágios parciais dentro de um enfoque metodológico mais abrangente” (THOMPSON, 2011, p. 33). Também, evidencia que as construções simbólicas estão inseridas em contextos sociais
4 e históricos de diferentes tipos, por isso, estão estruturadas internamente de várias maneiras. São articulados três procedimentos principais: 1) análise sócio-histórica, que investiga as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das construções simbólicas; 2) análise formal ou discursiva, que examina a estrutura complexa e articulada das construções simbólicas; 3) reinterpretação, que explana por síntese criativa o que foi dito ou representado pelas construções simbólicas. Este artigo, que entende o discurso jornalístico sobre o dia do fogo na Amazônia como uma construção simbólica, em concordância com a HP, estrutura-se da seguinte forma: na análise sócio-histórica, contemplam-se (1) o entendimento do dia do fogo na Amazônia a partir da disputa territorial decorrente das políticas desenvolvimentistas do governo federal brasileiro, (2) a importância das fontes de informação na produção do discurso jornalístico e (3) a caracterização dos jornais Folha de S. Paulo e Público; na análise formal ou discursiva, apresentam-se (1) os procedimentos metodológicos (desenho de estudo, técnicas/instrumentos de recolha e de tratamento de dados) e (2) as fontes de informação identificadas no corpus, com base na tipologia proposta por Wheatley (2020), de canais de produção rotineiros e não rotineiros; na reinterpretação, explicam-se os padrões e sentidos observados no objeto de análise. Análise sócio-histórica (1) A expansão da fronteira amazônica Na avaliação de Klanovicz (2019), o dia do fogo na Amazônia materializou o manifesto dos agropecuaristas do Estado do Pará contra o que o governo de Jair Bolsonaro chama de “inimigos do Brasil”: ambientalistas, organizações não governamentais (ONG), europeus, cientistas, universidades, mulheres, povos indígenas, negros e pobres. Para compreender a motivação alegada pelos agropecuaristas, de que “queriam trabalhar” para “desenvolver” a Amazônia, é preciso observar os movimentos da fronteira, no último século. Fala-se em fronteira amazônica, porque se percebe a floresta não apenas como uma fonte de biodiversidade, mas também como um espaço socialmente produzido pelas dimensões ecológica, econômica, lúdica, funcional, bem como pelas representações simbólico-culturais (TRINDADE JR., 2013). Outrossim, porque, em vez de uma linearidade histórica, na Amazônia
5 há o (des)encontro de temporalidades, visto que os diferentes sujeitos que a ocupam têm concepções de vida e visões de mundo díspares. Segundo Bueno (2002), a Amazônia entrou no rol de preocupações governamentais com Getúlio Vargas (1930-1945), que propôs a integração nacional a partir de rodovias com base na ideia de “vocações regionais”. Para o então presidente, as regiões brasileiras deveriam se complementar em prol do desenvolvimento do país. Vista como um “espaço vazio”, por conta da baixa densidade demográfica, e com vocação extrativista, o governo federal objetivava atrair pessoas para ocupar a fronteira amazônica. Em Becker (1996), vê-se que as políticas governamentais se intensificaram a partir do golpe de 1964, pois os militares argumentavam pela defesa da soberania nacional, pela modernização da indústria brasileira e pela redistribuição territorial de investimento de mão de obra, sob forte controle social. Estabeleceuse, assim, uma mudança fundamental na organização sociopolítica e econômica da Amazônia. Schmink e Wood (2012) explicam que os incentivos fiscais possibilitaram a apropriação de terras pelas elites regionais, bem como o investimento em atividades agropecuárias – as quais, em determinados locais, competiam com as atividades extrativistas. Além disto, os comerciantes passaram a cobrar de seus clientes o pagamento de dívidas, apropriando-se de suas terras como forma de pagamento e, então, cobrando renda ao produtor pela continuidade no uso da terra ou sobre os seus produtos. Segundo os autores, a nova elite econômica que se formou na Amazônia buscou garantir direitos legais sobre vastas áreas, consolidando imensos latifúndios e defendendo-os com violência, quando necessário – tanto para vincular os trabalhadores aos patrões, quanto para proteger-se dos ataques dos povos indígenas. Igualmente, a atividade mineradora (impulsionada a partir de 1970, sobretudo nas cidades de Santarém e de Itaituba, bem como em Serra Pelada, garimpo próximo à cidade de Marabá, todas no Estado do Pará) consolidou a formação de um grupo social distinto, que vive em enclaves isolados do resto da população: os garimpeiros. Tal como os pequenos agricultores, os garimpeiros também se envolveram nas disputas fundiárias e no confronto com os povos indígenas e com as tropas federais. Dada a ausência de organizações sociais pré-existentes capazes de resistir às novas apropriações, tornou-se a fronteira amazônica palco de vários conflitos fundiários e ambientais.
6 Castro (2005) aponta que o Estado do Pará faz parte do Arco do Desmatamento, isto é, uma área que soma as maiores taxas de queimada da floresta amazônica em função, maioritariamente, da atividade pecuária seguida da atividade de grãos (soja). Neste cenário, destacam-se de forma negativa São Félix do Xingu (e Terra do meio) e BR-163, entre os municípios de Santarém e Novo Progresso. Além das alterações ambientais, as queimadas na Amazônia também revelam outros problemas sociais, nomeadamente a violência. Castro (2005, p. 12) afirma que os conflitos e as tensões territoriais, por conta da disputa de terra e de recursos naturais, acabaram por associar à Amazônia a ideia de “um lugar de pistolagem, de trabalho escravo, de mortes políticas anunciadas e de chacinas”. Observa-se, portanto, que o dia do fogo na Amazônia insere-se numa ambiência de disputa territorial. Na visão de Souza (2018), é da natureza do território repercutir relações de poder, ou seja, de dominação e/ou influência em determinado espaço social, cujas motivações para podem estar relacionadas a questões culturais ou econômicas. Para Gutsche Jr. e Hess (2019), o território revela os significados atribuídos a determinado lugar reivindicado por diferentes atores sociais. O comportamento social, em um ciclo de manutenção pelas forças institucionais, restabelece o território como a maneira correta de se apropriar desta parte do espaço. Segundo os autores, é na capacidade de mediar os discursos entre os diferentes públicos, bem como moldar valores, regras e práticas ritualísticas, que se estabelece a relação entre território e jornalismo. (2) O discurso jornalístico e as fontes de informação De acordo com McNair (1998), o discurso jornalístico, como construção social que resulta da produção centrada na redação, envolve rotinas e limitações estabelecidas pelos prazos e pelas pressões competitivas. Neste ambiente, um regime de práticas se forma a partir de procedimentos regulares, repetidos cotidianamente, de forma a estruturar e organizar rotinas, bem como determinar o que fazer. Na definição de Ahva (2017), além de ser uma manifestação reconhecida, regular e personificada, a prática consiste numa encenação que combina atividade (movimentação, manuseio), materialidade (coisas, objetos) e reflexividade discursiva (descrição, compreensão). Por isso, o jornalismo, que se caracteriza por atos de rotina, envolve
7 práticas centrais regulares de seleção, produção e distribuição de informações para um público não conhecido previamente. Neveu (2005) observa que, ao dominar o imprevisto com a ajuda de rotinas, o jornalista demonstra capacidade intuitiva e eficaz em matéria de triagem do fluxo de informação, ou seja, em detectar o valor da informação e transformá-la em notícia. Em concordância com esta ideologia profissional, que reflete acerca dos procedimentos que os jornalistas aplicam para realizar o seu trabalho, Berkowitz (2009) afirma que o trabalho do jornalista consiste numa tarefa cotidiana de agendamento 1 : as fontes de informação são o que deve ser agendado. Alguns casos, por conta do prazo limitado ou da disponibilidade da fonte, revelam-se mais complicados do que outros, no entanto os repórteres necessariamente precisam encontrar fontes de informação que possam ser prontamente programadas e que sejam capazes de fornecer os dados procurados de forma concisa e gerenciável. Somente após esta etapa, opera-se um novo modo de trabalho, isto é, de interpretação das informações recebidas. Pinto (2000) define fontes de informação como vestígios na forma de falas, de documentos e/ou de dados produzidos por pessoas, grupos ou instituições sociais. Da mesma forma, remetem a posições e a relações sociais, a interesses e a pontos de vista, bem como a quadros espaço-temporais. Lopes, F. (2016) afirma que as fontes de informação são fundamentais para a compreensão dos discursos jornalísticos e, por conseguinte, para o conhecimento do espaço público que os media constroem. Segundo Berkowitz e Beach (1993), a interação entre os jornalistas e as fontes de informação consiste numa força importante que molda o discurso jornalístico, dado que boa parte das notícias resulta dos esforços de comunicação das próprias fontes para que sejam ouvidas. Em Neveu (2005), reconhece-se a profissionalização das fontes de informação, isto é, a capacidade que têm de desenvolver uma racionalidade estratégica na antecipação das rotinas e das práticas jornalísticas com objetivos os mais diversos: controle, sedução ou mesmo aproveito das debilidades de uma publicação. Para controlar a influência dessas fontes que fornecem, de pronto, materiais para divulgar, são necessários meios materiais, financeiros e humanos com vistas à recolha de informações originais. Pinto (2000) concorda que, ao longo do tempo, foram1 Agendamento (scheduling) é aqui empregado no sentido de marcação de entrevistas, de contato com as fontes de informação. Não confundir com a teoria do agendamento (agenda-setting).
8 se constituindo instituições diversificadas com o objetivo de se posicionar estrategicamente no raio de ação dos media para lhes oferecer informações privilegiadas, por exemplo, as diversas formas de comunicação institucional. Trata-se de uma associação delicada, esta entre os jornalistas e as fontes profissionais de informação, uma vez que os objetivos de ambos obedecem a lógicas díspares. O autor reitera que o discurso jornalístico advém da habilidade do jornalista em construir um “patrimônio” de fontes confiáveis – que é do próprio jornalista, e não do periódico para o qual trabalha –, porém distanciando-se criticamente delas. Sundar e Nass (2001) lembram que o conceito de fonte serviu como alicerce para vários modelos, teorias e variáveis nas Ciências da Comunicação, no entanto, de alguma forma, as fontes ainda precisam ser mais bem investigadas, sobretudo quando se considera a produção de notícias on-line, em que se revela tênue a linha entre o que ou quem é a fonte de informação. Para os autores, do ponto de vista psicológico, a fonte consiste naquilo que a audiência imagina que ela seja (neste sentido, o computador ou a internet podem ser considerados fonte). Porém, do ponto de vista ontológico, fonte é aquilo que ela faz. Tiffen et al. (2014) defendem a compreensão do discurso jornalístico não apenas segundo o valor das informações, mas também consoante quais informações chegam ao conhecimento dos jornalistas e por meio de quais canais de produção. Zhang e Li (2019) discutem a consolidação dos media sociais e dos canais digitais como um tipo específico de fontes de informação, principalmente quando os jornalistas têm dificuldade para acessar uma situação mais recente em determinado local, em tempos de crise ou durante eventos de última hora; ainda, quando se faz necessário ampliar a diversidade de vozes dos informantes sobre celebridades ou políticos. Segundo os autores, torna-se particularmente desafiador para os jornalistas o processo de verificação deste enorme conjunto de informações que circula on-line. Outrossim, as agências de notícias têm aumentado consideravelmente suas bases de clientes e usuários, evidenciando seu papel como fontes de informação – pois os jornalistas tendem aceitar, sem verificação, o conteúdo que recebem das agências de notícias (ao contrário do que acontece com as outras fontes de informação). Boyd-Barrett (2012) lembra que, tradicionalmente, as agências de notícias fortaleceram-se sob o viés da neutralidade em relação a seus clientes, o que contribuiu positivamente para sua imagem como fontes de informação.
9 Na avaliação de Bielsa (2008), as agências de notícias produzem certa homogeneização de notícias internacionais ao impor: de maneira indireta, o que é digno de ser noticiado, também de maneira direta, ao fornecer produtos jornalísticos aos seus assinantes. Boumans et al. (2018, p. 1772), afirmam que, pelo fato de os jornalistas habitualmente incorporarem conteúdo subsidiado de agências de notícias, outros media ou profissionais de relações públicas em suas notícias, há um declínio na diversidade de pontos de vista, já que vozes com menos recursos não conseguem se fazer ouvir. Wheatley (2020) reavalia alguns elementos da rotinização do trabalho jornalístico, visto que tendências diferentes – por exemplo, comunicados à imprensa “agitados”, a canibalização de conteúdo de outros media ou a divulgação de eventos programados – têm vários requisitos e são afetados por diferentes fatores, restrições e motivações. No contexto das organizações profissionais convencionais (locais ou nacionais), o autor desenvolveu uma tipologia de análise da rotinização das notícias e das práticas jornalísticas diárias, cuja estrutura compreende oito categorias de fontes de informação a partir de dois agrupamentos primários: canais rotineiros e não rotineiros. Cada um deles, compreendem quatro subcanais (figura 1). Por meio dos canais rotineiros, são fontes de informação: promocionais/comunicados de assessoria de comunicação; materiais não promocionais; outros media; e acontecimentos previsíveis. Pelos canais não rotineiros, são fontes de informação: acontecimentos inesperados; vazamentos; empreendimento; e relatórios especiais.
16 presidentes francês e brasileiro, Emmanuel Macron (2017-atual) e Jair Bolsonaro, nesta ordem, e no Instagram, tais os do ambientalista e filantropo Nick Rose, da cantora portuguesa Mariza e do humorista português António Raminhos, além dos jornais brasileiros Estadão, O Globo, Folha de S. Paulo, El País (Brasil), Folha do Progresso, o portal G1, a revista Época, o jornal britânico The Guardian, as agências de notícias Lusa, BBC Brasil, Reuters, AFP e Associated Press. Já as fontes de informação não promocionais predominaram em oito textos. O Inpe, o Ipam, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia e o Greenpeace foram referência nas explicações sobre o dia do fogo Amazônia, bem como pesquisadores que tiveram seus trabalhos publicados em revistas científicas. As fontes de informação promocionais evidenciaram-se em sete textos, tais como o comunicado assinado por 42 associações e coletivos portugueses; a nota emitida pela ONG Earth Alliance, impulsionada pelo ator Leonardo DiCaprio; a comunicação sobre a iniciativa “Uma Dança Pela Amazônia”, realizada em Lisboa, em agosto de 2019; o vídeo divulgado pela Associação Articulação dos Povos Indígenas do Brasil; os dados do relatório independente encomendado pelo governo francês ao economista ambiental Stefan Ambec, além da declaração oficial do presidente português Marcelo Rebelo de Sousa (2016-atual). Igualmente em sete textos, prevaleceram as fontes de informação relacionadas a acontecimentos previsíveis. As declarações do primeiro-ministro português António Costa (2015-atual), dos eurodeputados portugueses e de representantes de partidos políticos – nomeadamente, o Partido Socialista, o Partido Social Democrata, o Bloco de Esquerda (BE), o Partido Comunista Português e o Livre – são exemplos, uma vez que as informações foram coletadas a partir da relação com o parlamento português e/ou parlamento europeu. Destacaram-se, ainda pelos canais previsíveis, representantes do Pessoas-Animais-Natureza, do Partido Ecologista “Os Verdes” e da Coligação Democrática Unitária, que participaram de um protesto no Largo Camões, em Lisboa, em agosto de 2019. Por sua vez, entre os canais não rotineiros de fontes de informação, reconheceram-se os subcanais empreendimento em apenas um texto, que tratou da experiência da investigadora holandesa Fronika de Wit, da Universidade de Lisboa, quando esteve na Amazônia Legal, entre 2011 e 2016. Os relatórios especiais foram identificados em nove textos, como os artigos assinados pelos jornalistas Manuel Carvalho (atual diretor do Público) e Ricardo Garcia; pelo
17 parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares; pelo fundador do partido Livre, Rui Tavares; e pelo pesquisador Marcos Colón. Da mesma forma que na Folha de S. Paulo, as fontes de informação relacionadas a acontecimentos inesperados ou a vazamentos não foram identificadas. Reinterpretação A figura 2 mostra que os jornais Folha de S. Paulo e Público consultaram fontes de informação sobre o dia do fogo na Amazônia a partir dos mesmos canais de produção, ou seja, maioritariamente canais rotineiros. Entretanto, cada periódico utilizou mais um ou outro subcanal de acordo com os recursos disponíveis, o que resultou discursos distintos sobre o caso. Em geral, os dois periódicos pouco utilizaram fontes de informação promocionais, o que vai ao encontro da postura crítica com que se apresentam e que faz de ambos jornais de referência em cada país. Os comunicados emitidos por entidades quaisquer, como ONG ou coletivos, bem como os anúncios do governo brasileiro, foram aproveitados pelos periódicos dentro de uma perspectiva maior, de tentativa de compreensão do dia do fogo para além dos incêndios florestais em si. Com base nas fontes de informação não promocionais, por exemplo, as instituições científicas brasileiras e internacionais, Folha de S. Paulo e Público produziram um discurso que evidenciou as mentiras do presidente Jair Bolsonaro acerca da gravidade do desmatamento na Amazônia.
18 Figura 2: Canais de produção rotineiros foram predominantes em ambos os jornais Fonte: Dados da investigação Segundo o jornalista Phillippe Watanabe, a Folha de S. Paulo possui um correspondente em Manaus, no Estado do Amazonas: o jornalista Fabiano Maisonnave. Foram deste as primeiras notícias sobre o dia do fogo na Amazônia. Porém, da sede da redação, em São Paulo, os demais jornalistas aprofundaram o assunto, produzindo textos apoiados em dados do Inpe e de outras instituições científicas. Na visão de Watanabe, as fontes de informação não promocionais contribuíram para elucidar que o dia do fogo na Amazônia não se tratou apenas de um debate de opinião entre opositores e defensores do presidente Jair Bolsonaro, mas sim de um grave problema socioambiental: Algumas coisas são invariavelmente opinativas. Em questões políticas, principalmente, há conflitos ideológicos e partidários nos quais dificilmente é possível afirmar que um lado está completamente certo e o outro completamente errado. Mas em ciência há pouco mais de facilidade. Minha tentativa é sempre não transformar em um debate de opiniões, senão a gente corre o risco de colocar lado a lado coisas que são impossíveis de serem pesadas igualmente. É uma pessoa falando que a terra é plana e outra pessoa falando que não faz sentido. Eu acho importante apresentar os dados e mostrar de onde esses dados vieram, além, claro, de opiniões e de estudos científicos feitos por pessoas que dedicam a vida a isto. (informação verbal) 0 5 10 15 20 25 30 35 Promocionais Não promocionais Outros media Acontecimentos previsíveis Empreendimento Relatórios especiais Canais de fontes de informação sobre o dia do fogo na Amazônia Folha de S. Paulo Público
19 As fontes de informação não promocionais evidenciaram questões científico-ambientais e políticas no discurso produzido pela Folha de S. Paulo, em concordância com a sua trajetória pós-ditadura militar, de se colocar como defensora da sociedade brasileira e de oferecer resistência aos governos autoritários. Atualmente, o periódico brasileiro está atento aos desgovernos do presidente Jair Bolsonaro, porém é importante lembrar que, segundo Silva (2019), apesar do seu posicionamento político contemporâneo ser de centro-esquerda, foram recorrentes as críticas aos governos do Partido Trabalhista, que estiveram à frente do executivo nacional entre 2003 e 2016. Na avaliação de Paixão Marcos (2018, p. 92), a Folha de S. Paulo afirma ser apartidária, independente e pluralista, porém, “na prática, mostra-se parcial na cobertura de determinadas questões”. Watanabe explicou que, amiúde, os jornalistas da Folha de S. Paulo participam de treinamentos para manusear bancos de dados diversos. Isto é importante porque o Inpe, uma das principais fontes de informação não promocionais sobre o dia do fogo na Amazônia, possui um vasto banco de dados ambientais, com destaque para o programa Queimadas 7 , que monitora a ocorrência do fogo no Brasil por meio de imagens de satélite. Contudo, nem sempre essas informações são fáceis de serem interpretadas por não pesquisadores. O periódico brasileiro apropriou-se das informações científicas com perícia, incorporando-as aos textos, mas também as utilizando para produzir infográficos. Por sua vez, o Público acompanhou o caso à distância, apoiando-se principalmente no trabalho dos media brasileiros, como a própria Folha de S. Paulo, mas também nos textos da agência Lusa. De acordo com o jornalista Ricardo Cabral Fernandes, o periódico português destacou o dia do fogo na Amazônia, inicialmente, por conta de uma oportunidade: os incêndios florestais ocorreram em agosto, quando parte da equipe do Público estava de férias. Portanto, os desdobramentos puderam ser acompanhados sem grandes alterações na rotina da redação: Eu tentava, das mais variadas formas, entrar em contato com as pessoas – pelo Facebook ou por e-mails pessoais ou institucionais. Nem sempre dava para ter acesso às fontes de informação, dependia do prazo que os editores davam. Se me dissessem ao meio-dia para escrever um artigo, dependendo do tamanho ou do ângulo que era pedido, era difícil falar com alguém. Principalmente por causa da diferença de fuso horário. Mas, se me dessem dois ou três dias, ou dissessem, por exemplo, numa terçafeira, para começar a preparar duas páginas para a edição do fim de semana, então já conseguia trabalhar de forma mais aprofundada, mais devagar e mais focada. Numa tarde, se eu quisesse falar com pessoas, nunca podia garantir que conseguiria antes do 7 Ver.: https://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal
20 fecho da edição. Portanto, tornava-se mais complicado. Havia pessoas que respondiam na hora, outras pessoas que respondiam dois dias depois. (informação verbal) Apesar de contar com jornalistas especializados em ciência e ambiente no quadro do jornal, o discurso produzido pelo Público sobre o dia do fogo na Amazônia teve cariz internacional. Segundo Joaquim Fidalgo, o jornalismo internacional trata-se mesmo de uma das características do Público, que faz dele um jornal cosmopolita, “que olha para o mundo como um todo, que faz noticiário local também, embora lhe interesse mais a perspectiva nacional e internacional” (informação verbal). No entanto, o jornalista explica que o Brasil não é exatamente o país que mais chama a atenção do jornal, pelo menos não do ponto de vista político-econômico (neste aspecto, interessa mais o que se passa nos demais países europeus e, também, nos Estados Unidos): Como as novelas brasileiras foram marcantes, em Portugal, depois do 25 de abril, acabava por o plano cultural ter um bocadinho mais de exposição, e não apenas o plano político. Atualmente, no Público, há muito mais contato e proximidade com o Brasil do que havia naquela altura. O facto de haver cada vez mais brasileiros em Portugal acaba por criar um interesse maior, não por ser o Brasil, mas por ser o que está mais presente na vida cotidiana dos portugueses. (informação verbal) A representatividade brasileira foi importante para que o Público incluísse no seu discurso sobre o dia do fogo na Amazônia as fontes de informação relacionadas a acontecimentos previsíveis, por exemplo, as mobilizações e os protestos realizados nas principais cidades portuguesas (Lisboa e Porto). Embora tenha havido manifestação semelhante em São Paulo, em função das maiores distâncias físicas, não se observou tanto destaque deste tipo de fonte de informação na Folha de S. Paulo – o que reitera a característica de isolamento da Amazônia, explicada por Paes Loureiro (1995). Ainda por meio do subcanal acontecimentos previsíveis, a Folha de S. Paulo destacou a participação de Jair Bolsonaro em fóruns internacionais, porém o fez com viés crítico: os discursos apresentados nas Assembleias-Gerais da ONU foram contextualizados, em função das informações falsas ou imprecisas ditas pelo presidente. Este ângulo não se repetiu no Público, que priorizou os partidos políticos portugueses como fontes de informação previsíveis dada a ameaça de alguns Estados-membro da União Europeia, como França e Holanda, de não ratificar do acordo comercial com o Mercosul. Neste jogo de interesses político-econômico, em
21 que o presidente Macron opôs-se diretamente ao chefe do executivo brasileiro, o governo português tentou acalmar os ânimos dos dois lados – o que lhe rendeu críticas internas. Não obstante o Brasil e o ambiente serem temas caros ao Público, Cabral Fernandes afirmou que não costuma haver treinamento para os jornalistas: Não há grande formação, no Público – nem para temas ambientais, nem para os assuntos do Brasil. Pelo menos eu não vi e duvido que haja. No máximo, o que os jornalistas podem fazer – de sua espontânea e livre vontade, para se informar em certas temáticas – é ir a workshops e eventos, até mesmo para cultivar fontes. Portanto, parte muito do jornalista em si. Depois, é a leitura de livros, é acompanhar, é fazer a seleção de certos órgãos de comunicação social, mais dedicados a esta temática ou outra, revistas científicas etc. Ou seja, referenciar fontes bastante credíveis e ler muito. E, aos poucos, ir aprendendo. É um trabalho muito autodidata, muito de interesse do próprio jornalista, e não tanto como uma estrutura do jornal, uma preocupação mais formal da redação em termos de preparação do jornalista para aquela temática. (informação verbal) Convém mencionar que as agências de notícias se destacaram como fontes de informação no subcanal outros media em ambos os jornais – o que reforça o entendimento de Boyd-Barrett (2012). Em especial, a Reuters forneceu a maior parte das fotografias aproveitadas pela Folha de S. Paulo e pelo Público. Isto mostra que os dois periódicos não investiram em recursos humanos, para além do que já existia. Ou seja, usaram os jornalistas que tinham e compraram fotos de agência de notícias. A predominância das fontes de informação rotineiras corrobora esta interpretação, pois, para produzir o discurso sobre o dia do fogo na Amazônia, Watanabe e Cabral Fernandes não precisaram se deslocar da redação. Já, para obter as fotografias, ou os jornais poderiam enviar profissionais para a Amazônia, ou poderiam contratar profissionais locais como freelancers. Uma terceira opção, conforme identificada no corpus, seria comprar imagens de agências de notícias. Em todo o caso, há um investimento que nem sempre se quer ou se consegue dispor, e entre o texto (no sentido estrito) e a imagem, claramente os recursos próprios dos jornais foram alocados para o texto. Ainda no subcanal outros media, Folha de S. Paulo e Público mostraram que a busca por fontes de informação nos media sociais está plenamente consolidada como prática jornalística contemporânea – conforme apontado por Zhang e Li (2019) –, dado que ambos recorreram em diversas oportunidades ao Twitter e ao Instagram. Entretanto, o periódico brasileiro distinguiu-se não apenas por reproduzir o pronunciamento das fontes de informação sobre o caso, mas também por submeter certas afirmações à verificação, por exemplo, a do
22 jogador português Cristiano Ronaldo e mesmo a do presidente francês Emmanuel Macron, que compartilharam imagens falsas sobre o dia do fogo na Amazônia pelo Twitter. Ademais, reconheceu-se maior esforço da Folha de S. Paulo em produzir textos que mostrassem diferentes pontos de vista sobre o dia do fogo na Amazônia para além das fontes de informação não promocionais ou mesmo das agências de notícias. Novamente, o trabalho dos vários correspondentes que o jornal mantém pelo Brasil, não apenas Maisonnave, foram fundamentais para ampliar as fontes de informação pelo subcanal empreendimento. Por fim, tanto Folha de S. Paulo quanto Público qualificaram seus discursos sobre o dia do fogo na Amazônia com base nos diversos artigos de opinião produzidos não apenas por jornalistas, mas também por políticos e investigadores, conforme apontado no subcanal relatórios especiais. Considerações finais O artigo procurou mostrar quais foram as fontes de informação predominantes no discurso jornalístico da Folha de S. Paulo e do Público sobre o dia do fogo na Amazônia e como foram acionadas. Observou-se que os dois jornais se apoiaram principalmente em fontes de informação consultadas por meio de canais rotineiros, com destaque para fontes de informação não promocionais, na Folha de S. Paulo, e outros media, no Público. Percebeu-se que o discurso produzido pelo jornal brasileiro tocou em questões científico-ambientais e políticas, o que condiz com sua trajetória contemporânea de resistência a governos autoritários (ainda que, no passado, tenha apoiado a ditadura militar), mas também reflete o investimento em treinamento e capacitação dos jornalistas para interpretar bancos de dados e informações científicas diversas. Da mesma forma, o discurso produzido pelo Público acerca de um tema internacional foi coerente com sua natureza de estar atento ao que se passa em vários locais do mundo, entretanto, dependendo do país e dependendo do assunto, a cobertura é feita sem correspondentes e resulta mais do esforço individual dos jornalistas. Destaca-se que o discurso jornalístico produzido pelos dois jornais sobre o caso acompanhou a complexidade das relações sociais contemporâneas, principalmente, a interface com a internet. Isto refletiu-se no apoio, cada vez mais consistente, em perfis dos media sociais e em bancos de dados on-line como fontes de informação. Em geral, na Folha de S. Paulo, as fontes de informação foram importantes para combater o negacionismo do presidente Jair
23 Bolsonaro diante dos incêndios florestais; enquanto, no Público, as fontes de informação mostraram que o desmatamento na Amazônia afeta o mundo todo. Numa perspectiva mais ampla, ainda que os discursos produzidos pela Folha de S. Paulo e pelo Público não representem a totalidade dos sentidos que circularam no espaço lusobrasileiro acerca do dia do fogo na Amazônia, a observação de como as fontes de informação foram acionadas pelos dois periódicos forneceu pistas sobre a prática jornalística contemporânea no Brasil e em Portugal. Ao que tudo indica, questões que envolvem a floresta amazônica pouco contemplam o olhar local, pois o discurso jornalístico (como produto de uma atividade rotineira por excelência) concentra-se sobretudo nas decisões tomadas por um governo federal que está não apenas distante espacialmente da Amazônia, mas também, em referência específica ao presidente de Jair Bolsonaro, dissonante ideologicamente. A ideia de destruição ambiental e do desmatamento, incorporada pelos agropecuaristas do Estado do Pará que iniciaram os incêndios, em 10 de agosto de 2019, é contrária ao que se espera de governos democráticos e comprometidos com o combate às alterações climáticas. Entretanto, com mais ou menos atrocidades, a política exploratória do governo brasileiro está em curso desde o início do século XX e, de alguma maneira, esta é uma problematização que o jornalismo de referência luso-brasileiro ainda não se mostra capaz de fazer, uma vez que não coloca o outro amazônico como participante ativo do diálogo social. Mais: o enfrentamento político ao presidente Jair Bolsonaro, ainda que válido, parece ser mais importante do que, de fato, compreender as questões ambientais também pela ótica da população nativa. As instituições de pesquisa acabam por se tornar as fontes de informação legítimas sobre a Amazônia. Com poucas fontes de informação locais, soa como se a Amazônia fosse mesmo um “espaço vazio” ou que se trate “apenas” de uma grande floresta. A perspectiva de quem vive na fronteira amazônica e sofre as consequências das decisões governamentais praticamente não é contemplada (não à toa, este estudo demonstrou a menor tendência em acionar fontes de informação não rotineiras). O Brasil continua a olhar para Amazônia pelas lentes dos centros econômico e político (São Paulo e Brasília, nesta ordem) e Portugal, dividido entre a língua portuguesa e a União Europeia, limita-se a reproduzir o olhar das elites brasileiras.
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