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“Os (Des)Conhecimentos dos alunos de letras à entrada na Universidade (em 1994)”

Teixeira, José

Abstract

Texto que apresenta e analisa os resultados de um inquérito sobre conhecimentos gramaticais e linguísticos feito em 1996 a alunos que entraram nos cursos de línguas na Universidade do Minho.

Full text

1 Os (Des)Conhecimentos dos alunos de letras à entrada na Universidade (em 1994) José Teixeira Universidade do Minho [email protected]inho.pt (Comunicação apresentada, em1996, nas I Jornadas Nacionais sobre a Língua Portuguesa, realizadas na Universidade do Minho, Guimarães.) Um tema como o desta mesa redonda, O Português no ensino, envolve duas realidades que é necessário distinguir: - O ensino da Literatura Portuguesa - O ensino da Língua Portuguesa. A mistura sistemática destas duas realidades é fonte de grandes equívocos. Por vezes, quando se fala do ensino do Português, ora se tem em mente quer uma, quer outra destas vertentes. Verifica-se que os programas da disciplina Língua Portuguesa são quase iguais aos de há vinte ou até quarenta anos atrás: predomínio da componente literária sobre a faceta Língua enquanto sistema de comunicação e expressão verbal. Ora não é difícil verificar que a sociedade de hoje é completamente diferente da de há umas poucas dezenas de anos atrás, sendo, a actual, dominada pelas técnicas e tecnologias de informação. Este facto implica, naturalmente, a necessidade de aprofundar e valorizar a componente informação/comunicação, ou seja, o Português-língua. Não se nega com isto que a Literatura seja importante: é uma parte especial da produção linguística, e como tal merece um tratamento adequado. Mas a língua, como fenómeno humano, não se esgota na Literatura: para se compreender a LITERATURA EM LÍNGUA PORTUGUESA, primeiro tem que se compreender a LÍNGUA PORTUGUESA. Daí a necessidade de uma formação que forneça um entendimento do que é, e de como funcionam as línguas. Não seria possível tentar que os programas de Português acompanhassem este percurso? O texto corresponde à seguinte citação Teixeira, José (1996). “Os (Des)Conhecimentos dos alunos de letras à entrada na Universidade (em 1994)”. Comunicação apresentada, em 1996, nas I Jornadas Nacionais sobre a Língua Portuguesa, realizadas na Universidade do Minho, Guimarães 2 Será possível não desprezar a componente análise linguística que na prática lectiva aparece quase sempre como um apêndice das interpretações dos textos literários? O ensino superior parte do pressuposto que os alunos que pretendem frequentar um curso de Letras têm conhecimentos mínimos sobre a língua como sistema de comunicação. O questionário que a seguir se apresenta acaba por nos fazer descer à realidade. Este teste destinava-se a verificar os conhecimentos gramaticais e, a um nível sumário, de cultura linguística que possuem os alunos que entram nos cursos de Letras. Foi realizado no início do ano lectivo de 1994/95 e aplicado aos alunos do 1º ano. dos cursos de letras da Universidade do Minho. Responderam ao questionário 131 alunos. Todas as questões, que procurámos representassem os aspectos essenciais dos conhecimentos básicos sobre a língua, se baseavam em matérias que fazem parte dos conteúdos lectivos do ensino secundário. A primeira questão destinava-se a testar os conhecimentos a nível morfológico. A alínea a) procurava que se detectassem palavras que mudam de forma ao mudarem de género gramatical: a) Marque um X no quadrado das palavras que possuem formas diferentes conforme o género: coelho rádio cozinha canto doente alegre cobra criança cantor menino testemunha cônjuge Como é evidente, só três destas palavras mudam: coelho / a; cantor / a; menino / a. No entanto, ainda houve 25,2 % de respostas incorrectas. A alínea b) procurava as palavras que se comportam inversamente: que mudando de género permanecem com a mesma forma: b) Marque um X nos nomes que ao mudarem de género mantêm a mesma forma, sendo a distinção (do género) feita pelo determinante ou artigo: coelho rádio cozinha canto doente alegre cobra criança cantor menino testemunha cônjuge Embora, em rigor, só duas palavras (rádio, doente ) sejam nomes que mantêm a mesma forma, admitimos também como certas as respostas que incluíssem alegre. Mesmo assim, apenas 17,5 % acertaram; ou seja, 82,5 % dos alunos não conseguiu identificar as duas ou três palavras invariáveis em género. 3 Em 2), procurava-se que os alunos identificassem, apenas, os nomes dos processos de formação de palavras, concretamente em 2.1) derivação por sufixação, em 2.2) derivação por prefixação e em 2.3) composição por justaposição: 2.1.- pobre -> pobrezinho ; 2.2.-fazer ->desfazer ; 2.3.-guarda +redes ->guarda-redes Como se denominam os processos gramaticais que permitiram construir 2.1____________________________________________________ 2.2____________________________________________________ 2.3.____________________________________________________ Quadro das respostas: RESPOSCERTAS TAS Completas Incompletas Total (Compl.+Inc.) Nº resp. % Nº resp. % Nº resp. % 2.1 14 10,7% 56 42,3% 70 53% 2.2 18 13,7% 57 43,3% 75 57% 2.3 23 17,5% 58 44,3% 81 61,8% Repare-se que a percentagem média dos que acertaram não chega aos 14%; ou seja, 86% dos alunos não soube sequer reconhecer e indicar correctamente os processos básicos de formação de palavras. Mesmo juntando as respostas incompletas, há uma percentagem média de 43% de alunos que nem sequer aproximativamente reconheceu processos tão simples como a composição e a derivação de palavras. A confirmação disto mesmo é bem visível se citarmos algumas das respostas dadas. Assim, em 2.1 (pobre + zinho -> pobrezinho ) o processo gramatical é denominado "preposição, diminuitivo, analepse, prefixo + sufixo, graus de comparação, acrescentação (sic) de diminuitivo". Em 2.2. (des + fazer -> desfazer ) apareceram respostas chamando ao processo de formação "prolepse, antónimo, sufixo + prefixo, composta por aglutinação, negativa, opostos, anulação, preposição ". Para 2.3. (guarda+redes -> guarda-redes ), houve quem propusesse os nomes de "assimilação, guarda + o sufixo redes, sobreposição de palavras ". Respostas houve onde aparecia a denominação "composição por prefixação / sufixação ou derivação por justaposição " , o que demonstra que se ignora a diferença entre a derivação e as composição. 4 A questão seguinte versava ainda aspectos morfológicos: 3. "Embora nunca se tenha descoberto para que servem, a verdade é que há parolos em todos os países do mundo, cada um com o seu paladar, com o seu chapéu típico e com o seu próprio jeito de falar" (Miguel Esteves Cardoso) a) Transcreva os adjectivos do texto __________________________________ b) Como classifica morfologicamente a palavra "com" ?______________________ c) E a palavra "de" ?_____________________________________ RESPOSCERTAS NÃO RESPONDERAM TAS Nº resp. % Nº % 3.a) 43 32,8% 2 1,5% 3.b) 78 59,5% 26 19,8% 3.c) 78 59,5% 29 22,1% Embora admitisse, além de "próprio" e "típico" o possesivo "seu" como adjectivo, repare-se que mais de 67% dos alunos não encontrou os dois / três simples adjectivos do texto! Vários alunos indicaram como adjectivos as palavras "parolos " (indicada por uma grande parte), "mundo", "paladar", "jeito", "nunca" e até o simples "chapéu" passou por adjectivo! Relativamente a "com" e "de", note-se que mais de 40% não conseguiu identificar estas palavras como preposições. É também significativo o facto de mais de 20% nem conseguir sequer elaborar qualquer resposta. Vejam-se algumas das respostas dadas e deduza-se daí o desconhecimento quase total relativamente à classificação morfológica das palavras: com de advérbio de modo (várias respostas ) conjunção (muitas respostas) advérbio de companhia pronome demonstrativo determinante proposição (sic) preposição de acompanhamento pronome circunstancial partícula do complemento determinativo advérbio complemento advérbio de lugar conjunção (muitas respostas ) advérbio determinante (muitas respostas ) artigo (várias respostas ) pronome demonstrativo advérbio de modo (várias respostas ) determinante possessivo pronome A questão 4. destinava-se a identificar as funções sintácticas básicas da oração (sujeito e objecto directo): 4. "Ó António, ninguém sabe responder ! " a) Escreva o sujeito da oração __________________________________________ b) Qual a função sintáctica de "responder"? ________________________________ 5 RESPOSCERTAS NÃO RESPONDERAM TAS Nº resp. % Nº % 4.a) 89 67,9% 4 3% 4.b) 85 64,8% 13 10% Veja-se que um terço dos alunos não conseguiu identificar, mesmo em orações tão pequenas, quer o sujeito quer o objecto directo. Aliás, para 4.a) foram inventados sujeitos como "ele", "António" (o vocativo foi indicado por muitos como sujeito); outros disseram que o sujeito era indeterminado, subentendido ou mesmo "eu". Para o objecto directo apareceram classificações como: • sintagma verbal • predicado (muitas respostas ) • afirmação • verbo • de um certo modo serve para dar sentido à frase • complemento circunstancial ou ainda respostas tão desenvolvidas quanto disparatadas como "responder é um verbo (Indicativo presente). Está como predicado na oração (faz parte) e é complemento indirecto." Igualmente aspectos sintácticos versava a questão 5.: 5. "Na cidade havia um homem que todas as pessoas gostavam de ver , já que ele era tão distraído que batia sempre com a cabeça nos candeeiros" a) Escreva o primeiro sujeito que aparece neste texto _______________________________ b) A oração que começa por "que " chama-se ____________________________________ Relativamente à alínea a), apenas 32% indicaram (mais ou menos) correctamente o sujeito. A maior parte indicou "um homem" como sendo o sujeito do verbo haver. Outras respostas foram "sujeito indeterminado", "cidade", "a cidade", "Na cidade" (muitas respostas), "sujeito indefenido" (sic) e até "narrador"! Para a alínea b) admitia-se como resposta certa, a classificação "relativa" ou "consecutiva"(já que há duas orações que começam por que). Apenas 54% classificaram correctamente uma destas orações. Quer dizer, 46% deram respostas como • subordinante • coordenativa • integrante 6 • causal • coordenada • complemento directo • preposição (sic) relativa • complemento indirecto • subordinante integrante • coordenada copolativa (sic) As perguntas 6. e 7. diziam respeito à interpretação de frases ambíguas. Perante 6. A frase "O João alugou uma casa" é ambígua? Sim Não mais de metade (56,5%) não conseguiu ver esta frase como uma frase ambígua. (Nem sequer se pedia qualquer interpretação.) Quanto à seguinte: 7. A frase "O João ouviu o ruído da janela" pode ter duas interpretações. Indique-as: I)___________________________________________________________________ II)___________________________________________________________________ Em 37,4% dos casos (ou seja, mais de um terço), ou não se respondeu (13 casos) ou se deu uma resposta confusa (36 casos) de tal modo que não se conseguia compreender o sentido dos conteúdos expressos: Exemplos • "O ruído pode ouvir-se da janela, ela própria" (O aluno queria dizer que o ruído podia ser feito pela própria janela) • "O ruído provocado por ele próprio" • "O ruído que foi ouvido pela janela, sendo esta a 'transportadora' do ruído" É de realçar que a dificuldade de expressão se notava no facto de uma grande parte das vezes só conseguirem transmitir os dois sentidos dando exemplos de comportamento e não a descrição do sentido da frase: • "O João espreitou pela janela ... " • "O João ouviu o ruído lá fora ... " • "Ouviu por exemplo a janela a ranger ..." Relativamente à parte fonética não foi com surpresa que se verificou que, na maior parte dos casos, os alunos não sabem reconhecer os sons da língua. Fazem uma enorme confusão entre som e letra. Vejam-se os resultados do exercício 8.: 8. [todos - comunidade - social - exame - sérias - extenso - estados - feroz ] a) Destas palavras indique (sublinhando a grafia correspondente) as que têm o som [ ∫ ] de chá ______________________________________________________ [ s] de só _______________________________________________________ [ z] de zero ______________________________________________________ 7 [ u] de tu _______________________________________________________ [ a] de fado ______________________________________________________ Respostas CERTAS COM UMA FALHA NÃO FIZERAM Nº resp. % Nº resp. % Nº resp. % [ ∫ ] de chá 23 7,5% 21 16% 5 3,8% [ s] de só 12 9 % 28 21,3% 0 0% [ z] de zero 108 82,4% 0 0% 3 2,3% [ u] de tu 5 3,8% 19 14,5% 3 2,3% [ a] de fado 24 18,3% 35 26,7% 3 2,3% O som que mais facilmente foi detectado foi o som [z]. Mesmo assim, ainda houve cerca de 20% que não o indicaram correctamente. Já relativamente à detecção dos outros sons, não houve uma indicação correcta entre 82% (para o [a]) e 96% (para o [u]). Relativamente à alínea b) pedia-se: b) Das palavras atrás, em 8., indique - as agudas __________________________________________________ - as graves ___________________________________________________ - as esdrúxulas _______________________________________________ Apenas 62,5% identificaram as palavras agudas; as esdrúxulas foram correctamente detectadas por 61% e as graves apenas por 46,5% dos alunos. Isto significa que cerca de metade dos alunos que entram para um curso de Letras não consegue identificar sequer as palavras quanto à acentuação! Houve quem indicasse como esdrúxulas as palavras comunidade, (muitos casos), social, extenso, estados, feroz, ... Houve também alunos que não tentaram responder à pergunta. Seguidamente, com o intuito de testar os conhecimentos gerais a nível de cultura linguística, apresentava-se um grupo de afirmações que o aluno teria de classificar como verdadeiras ou falsas. No quadro que à frente se apresenta, depois das respectivas afirmações, estão as percentagens das respostas erradas: 9. Assinale um X no quadrado V se a frase for verdadeira, ou no quadrado F se for falsa: 8 V F % de respost erradas - Os sons das vogais em português são mais que cinco. 29,7% - Em português, cada letra representa sempre o mesmo som. 0% - O H também é um som do português. 26,7% - "Avô/avó " têm a mesma acentuação (são ambas agudas). 34,3% - No século XVI, em Portugal falava-se latim. Depois o latim originará a língua portuguesa. 32% - A escrita começou, mais ou menos, há dois mil anos. 57,2% - A escrita começou, mais ou menos, há mil anos. 8,4% - A palavra "órgão" só tem um acento. 64,8% - Há poucas palavras portuguesas acentuadas na 4ª sílaba antes do fim. 65,6% - As pronúncias regionais são fenómenos individuais, resultantes de más aprendizagens da língua correcta. 20,6% Pelos resultados se confirma, por exemplo, a não distinção entre o plano gráfico e o plano fonético: cerca de 30% dos alunos diz que os sons das vogais são apenas cinco, e que o "H" também é um som do português! Mais de um terço dos inquiridos não sabe que tanto "avô " como "avó " são palavras agudas; 65% dos alunos acredita que a palavra "órgão " tem dois acentos! Que mais de 20% acredite que "as pronúncias regionais são fenómenos individuais, resultantes de más aprendizagens da língua correcta" não admira muito. Mas, pelo contrário, é surpreendente que mais de 57% acredite que o surgimento da escrita, ou seja, o fim da pré-história, se tenha verificada apenas há dois mil anos! E mesmo que mais de 8% defenda que a escrita só começou apenas há mil anos!! Igualmente de espantar é o facto de um terço dos alunos dizer que é verdade que no século XVI, em Portugal, era o latim a língua falada e que só depois é que esta língua originará o português!!! Finalmente, num pequeno texto, pedia-se que se corrigissem os erros ortográficos: 10. Se no texto que a seguir se apresenta houver alguma palavra mal escrita, primeiro sublinhe-a e depois escreva-a correctamente ao lado: "Lógicamente que tudo o que se disser ácerca dos próssimos anos, será uma profesía que não sabemos se se comprirá ou não. 9 Têmos que supôr, no entanto, que á mudanças rapidas a que assistímos, hoje e hontem, que merecem uma analise atenta." Percentagem dos alunos que não detectaram os erros Além destes erros não detectados, houve outros "inventados" que não estavam no texto, como por exemplo, "analize " por "análise ", "a cerca ", "àcerca", "àcerca " por "acerca ", "à " por "há ", "tudo o que se dizer " por "tudo o que se disser ", "profésia" por "profecia ", "não sabemos se comprir-se-á" por "não sabemos se se cumprirá", entre outros. Depois das questões apresentadas, perguntava-se sobre as dificuldades sentidas: 11. Para si este questionário deve ser considerado muito fácil, fácil, difícil ou muito difícil?__________________________________ As respostas foram as seguintes: muito fácil 2,3% fácil 56,5% difícil 38,2% muito difícil 3,0% Pedia-se, por fim, que o aluno dissesse 12. Em que ano(s) do Ensino Unificado é que adquiriu os conhecimentos gramaticais que lhe permitiram responder a este questionário? (Pode pôr mais que um X) Ciclo Preparatório 7º, 8º 9º anos Lógicamente 45,8% ácerca 15,3% próssimos 1,5% profesía 29% profecía 14,5% comprirá 35,9% Têmos 15,3% supôr 77,9% á ( por há) 8,4% rapidas 10,7% assistímos 44,3% hontem 0% analise ( por análise) 5,3%