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As respostas da nova poesia brasileira ao bloqueio do sistema literário no ciclo do golpe de 2016

Martins, Manuella Bezerra de Melo

Abstract

O presente trabalho investiga a recente e importante produção literária brasileira, especialmente a poética, do período entre 2013 e 2018 no Brasil, seus desdobramentos e condições até as últimas consequências, com a eleição à presidência da república do candidato da extrema-direita Jair Messias Bolsonaro (PSL). Neste ciclo é possível perceber como a poesia nos conecta amplamente e com maior inteligibilidade ao presente histórico, quando sua relação circunstancial de reflexão dos tempos é ampliada para além dos acontecimentos e torna-se um olhar em perspectiva. No primeiro capítulo, abordamos as questões do direito a literatura à luz de Antônio Cândido enquanto corrente de enfrentamento da hegemonia cultural do sistema literário, hegemonia demonstrada pela pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagné, que revela o amalgmado perfil do escritor brasileiro aquém de uma representação coerente à realidade de diversidade brasileira. Nesta parte do trabalho, é explicado como a manutenção das vozes dissonantes na subalternidade e o controlo da narrativa são parte de um mais abrangente projeto sistêmico de manutenção do poder econômico. No segundo capítulo, é explicado como a narrativa pelo direito a existência - travada nas ruas com o avanço do fascismo no Brasil que negligenciou a palavra e questionou a dissonância – gerou espelhamento na produção poética da nova literatura, entre os mais importantes casos, as respostas à morte da vereadora carioca Marielle Franco, que ganhou estatuto de fenômeno sociológico e rendeu à produção estética. Por último, é realizada a análise de alguns exemplares desta poesia produzida, com vistas a demonstrar uma leitura transcendente no que diz respeito ao presente histórico, aos acontecimentos sociais que o envolvem e a importância deste ciclo para a literatura brasileira.

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DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/ 4.0/ ii AGRADECIMENTOS À Marielle Franco e Ágatha Felix, À Gustavo que não desistiu deste mestrado Ao meu filho Pedro que não fez silêncio nenhum dia A Portugal que me abraçou iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv AS RESPOSTAS DA NOVA POESIA BRASILEIRA AO BLOQUEIO DO SISTEMA LITERÁRIO NO CICLO DO GOLPE DE 2016 O presente trabalho investiga a recente e importante produção literária brasileira, especialmente a poética, do período entre 2013 e 2018 no Brasil, seus desdobramentos e condições até as últimas consequências, com a eleição à presidência da república do candidato da extrema-direita Jair Messias Bolsonaro (PSL). Neste ciclo é possível perceber como a poesia nos conecta amplamente e com maior inteligibilidade ao presente histórico, quando sua relação circunstancial de reflexão dos tempos é ampliada para além dos acontecimentos e torna-se um olhar em perspectiva. No primeiro capítulo, abordamos as questões do direito a literatura à luz de Antônio Cândido enquanto corrente de enfrentamento da hegemonia cultural do sistema literário, hegemonia demonstrada pela pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagné, que revela o amalgmado perfil do escritor brasileiro aquém de uma representação coerente à realidade de diversidade brasileira. Nesta parte do trabalho, é explicado como a manutenção das vozes dissonantes na subalternidade e o controlo da narrativa são parte de um mais abrangente projeto sistêmico de manutenção do poder econômico. No segundo capítulo, é explicado como a narrativa pelo direito a existência - travada nas ruas com o avanço do fascismo no Brasil que negligenciou a palavra e questionou a dissonância – gerou espelhamento na produção poética da nova literatura, entre os mais importantes casos, as respostas à morte da vereadora carioca Marielle Franco, que ganhou estatuto de fenômeno sociológico e rendeu à produção estética. Por último, é realizada a análise de alguns exemplares desta poesia produzida, com vistas a demonstrar uma leitura transcendente no que diz respeito ao presente histórico, aos acontecimentos sociais que o envolvem e a importância deste ciclo para a literatura brasileira. PALAVRAS-CHAVE Bloqueio; Brasil; golpe; poesia; sociedade. v THE REPONSES OF THE NEW BRAZILIAN POETRY TO THE BLOCKING OF THE LITERARY SYSTEM IN THE 2016’S COUP CYCLE The purpose of this analysis is to investigate the recent and essential Brazilian literary production, especially poetical production, from the period of 2013 to 2018 in Brazil; its outspread and conditions until the last consequences, with the election for Brazil's Presidency of the far-right candidate Jair Messias Bolsonaro (PSL). In this cycle, it is possible to observe how poetry connects us broadly and more intelligible to the historical present when the circumstantial relation of reflection of the times is expanded beyond the events and becomes a look into perspective. The first chapter addresses the right to literature in the light of Antônio Cândido as a path to confront cultural hegemony within the literary system. Hegemony that was documented in research coordinated by professor Regina Dalcastagné that reveals the amalgamated profile of the Brazilian writer well below a coherent representation of the reality of Brazilian diversity. This part of the analysis explains how the maintenance of dissonant voices as subalterns and the narrative control are part of a broader and systemic project to maintain economic power. The second chapter questions how the narrative about the right to exist - fought in the streets against the stride of fascism in Brazil, which neglected the written word and questioned dissonance - generated a mirror effect in the poetical production of a new literature; among the most important cases, are the responses to the murder of the legislator Marielle Franco, that have gained a sociological phenomenon status and have received aesthetical production. Finally, an analysis of some samples of this poetry is performed to demonstrate a transcendent reading of the historical present, the social events involved, and the importance of this cycle to Brazilian literature. KEYWORDS Blocking; Brazil; hegemony; poetry; society. vi Ao transferirmos essa lógica, exemplificada nos casos de Carolina Maria de Jesus ou da Carta Guarani Kaiowá, para a atual produção de poesia contemporânea, é natural concluir que nadar na contra mão dessa estrutura sólida significa enfrentar a noção sistêmica de educação e intelectualidade “somente para poucos notáveis”, estes, considerados os que têm poder para decidir e permitir ou não o fazer literário, para legitimar ou não o que é literatura e o que não é. Mas, quando Maria Carolina atreveu-se a sair do lugar que lhe foi destinado, para furar o bloqueio, fê-lo, individualmente, enquanto nesse ciclo do golpe esses rompimentos aumentam a fenda, porque são feitos na coletividade, por iniciativas que agregam esses indivíduos de forma que se entendem. Por isso, quando se trata da representação das minorias sociais na literatura, em Pode o subalterno falar?, Spivak explica que para o Sujeito Subalterno, a literatura começa de um ponto de partida muito anterior, com o reivindicar da literatura, como o de quem reivindica um território, para ocupá-la como quem ocupa um latifúndio. Já a visão da pesquisadora Judith Butler, nesse caso, ao tratar das questões das opressões de gênero, explica que as mulheres são colocadas como seres abjetos e excluídos da vida social: se certas vidas não se qualificam como vidas, ou, desde o princípio não são concebidas como vida dentro de certos marcos epistemológicos, então, tais vidas nunca serão consideradas vividas ou perdidas no sentido pleno de ambas as palavras (BUTLER, 2013, p.63). O mesmo raciocínio pode-se utilizar para todo conjunto da subalternidade tratado por Spivak. E, talvez, não por esta citação em específico, mas por este motivo, Spivak explica que por ser o sujeito subalterno aquele que pertence a grupos dominados e marginalizados que dificilmente tem direito a fala, sobre pela opressão e impedimento de desfrutar de direitos e acessos devido a imposições de um sistema político e cultural vigente que os exclui (SPIVAK, 2010, p.126). Assim, analisamos a condição de subalternidade e abjeção destes sujeitos na literatura brasileira, não de forma recortada ou seccional, mas sim pelos fundamentos do materialismo histórico dialético, método pelo qual é possível justificar as questões das opressões de cada um desses sujeitos subalternos na perspectiva da totalidade. Desta forma, consideram-se as subjetividades individuais, históricas ou sociais que os levaram à situação de opressão, porém promove-se uma articulação entre esses sujeitos, método de mais eficiência diante de um país cuja miscigenação é uma característica da formação do povo de maior população negra fora da África, com uma estrutura de estado cujas opressões são impossíveis de serem olhadas sozinhas, porque se articulam entre si como instrumento da manutenção de uma mesma ordem sistêmica. Elegemos esse método porque, diante da pluralidade nas relações de opressão do território brasileiro, é possível, a partir dele, termos a compreensão e ação sob a realidade que enxerga a existência dos seres humanos dentro de um contexto histórico e de acordo com as relações materiais, revelando13 nos que o que há hoje é herdado do passado e edificado em processos ancorados na lógica de produção da materialidade. De acordo com a concepção materialista da historia, o elemento determinante final na história e a produção e reprodução da vida real. Mais do que isso, nem eu nem Marx jamais afirmamos. Assim, se alguém distorce isto afirmando que o fator econômico é o único determinante, ele transforma esta proposição em algo abstrato, sem sentido, e em uma frase vazia. As condições econômicas são a infra-estrutura, a base, mas vários outros vetores da superestrutura....também exercitam sua influencia no curso das lutas históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de sua forma. (Retirado de: https://www.marxists.org/portugues/marx/1890/09/22.htm, em 28 de julho de 2019) Por isso, compreendemos cada um, mas, principalmente, todos esses exemplos de subalternidade de gênero, raça, classe, assim como suas especificidades e subjetividades, seu lugar de ausência na história literária bem como sua atual capacidade de enfrentamento dessas opressões através da resistência e contra-cultura às discriminações, que ampliem o campo de visão e inserem a escrita materialmente de forma que não haja hipótese de ignorá-la, ou, às palavras de Alfredo Bosi (2012): as relações entre literatura e resistência que argumenta quando a escrita resiste em emprestar voz aos fantasmas do sujeito, conseguindo mostrar o que há de mais obscuro em seus conceitos e rever seus dilemas, problematizando suas convenções.É nesse horizonte que o espaço da literatura, considerado em geral o lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade mais exigente (BOSI, 2012, p.135). Em um momento de crise, como é o vivenciado no golpe de 2016, a narrativa histórica não dá conta da dimensão do abstrato, das emoções e sensações atravessadas na luta pela sobrevivência e na dor de expectar a realidade de barbárie. É propícia, para o exercício da literatura, portanto, uma função psicológica segundo o professor Antônio Cândido. Em uma observação crítica da literatura, a partir de seus conhecimentos sociológicos, Cândido defende em sua obra que mesmo as sociedades mais primitivas precisam da fantasia, porque trazem os conhecimentos de forma livre, em que cada leitor decide e constrói seu próprio caminho, evolui e enriquece enquanto ser humano, assim como desenvolve a capacidade de integração em uma sociedade e contextualiza o homem no mundo. Ele explica que é aí que reside a força da literatura, na oscilação entre realidade e fantasia, sendo a fantasia a segurar a permanência da literatura em relação à realidade, a literatura é quem supre essa demanda da necessidade de fabulação. E, considerando a premissa de que a fabulação é uma necessidade e que é da necessidade que nasce o direito, portanto, a literatura é um Direito Humano. Mas, enquanto direito, está distante de ser acessível a todos. A maior parte da população brasileira nem mesmo lê e muito menos produz literatura, neste caso por acreditar na narrativa hegemônica de que isso seria um fazer para poucos notáveis. Porém, a manutenção desse distanciamento entre existir e criar é parte do projeto que deixa na mão de somente alguns o privilégio da leitura e, como 14 consequência, uma expressão literária instrumentalizada para o firmamento de uma narrativa ideológica hegemônica, provocando nos demais uma violência. Ao observarmos a cultura clássica como um exemplo é possível concluir que naquela altura foram imaginados seres e divindades com características humanas potencializadas, tornando-as mitos representativos idealizados dessas expressões emocionais: Júpiter e sua autoridade, Minerva e a sabedoria, Vênus e o sexo, Apolo e a clareza e harmonia, Dionísio com seu instinto entre outros, tudo isso não enquanto retrato fiel do mundo, mas enquanto representação abstratas e subjetivas dele. Assim, a cultura grega em sua obra criou alguns modelos universais com fim à representação como uma necessidade orgânica da própria noção de existência, uma necessidade ou direito inalienável. Para Cândido, que enxerga a literatura como um bem que se forma, um modo de humanizar o humano, a criação ficcional nos integra e passa a ser um componente da nossa visão do mundo e maneira de ser (CANDIDO, 2004, p 180). Deste modo, as manifestações literárias teriam papel humanizador na formação dos indivíduos gerando uma eficácia humana inter-relacionada a eficácia estética (CANDIDO, 2004, p 182). Mais didaticamente, foi necessário para o povo grego criar Marte para compreender mais profundamente a guerra, as coisas inexplicáveis da guerra, a sua fúria e força incansável. Foi necessário transpor todo o poder simbólico externo da guerra para o corpo interno de Marte e, assim, assimilar seu horizonte de recepção. Por isso e, por tanto, a sociedade ideal de Cândido deveria assegurar o acesso à literatura, tal qual outros bens primários, como saúde ou alimentação, já que quando estamos privados disto estaríamos mutilados. Para seguir a linha do que advoga, seu ensaio Dialética da Malandragem, sobre a obra Memórias de um sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é significativo porque opta pela observação naquilo que é o cerne de sua obra; a leitura do texto pelo contexto, e reflete sobre esse fluxo literário em direção a um conceito de representação que absorve e transmite o sentimento da época, e por isso mesmo é importante. O que a uma primeira leitura poderia ser considerado um romance confuso e difuso, é destacável, justamente, porque é nessa confusão abstrata onde está espelhada a sociedade daquele período e Cândido foi capaz dessa leitura. Um romance malandro com personagens malandras transita na esfera da ordem para a desordem e o contrário também. Nesse jogo de idas e vindas e de 15 livre circulação nos dois pólos é que os personagens suspendem o juízo moral das regras e da ótica da classe dominante, que dominavam também a literatura e almejavam com a literatura produzida na época fundamentar a ordem e a moral na sociedade. Sendo assim, o autor desvaloriza a lógica imposta a ser seguida sobre o mundo ou pelo processo de construção do sistema literário e que tem como maior aspiração funcionar como espelho para a nação. Mas, ao olhar a obra de Manuel de Almeida nessa perspectiva, Cândido revela um Memória do Sargento de Milícias importante por revelar um ambiente de cultura no Brasil diferente dos fixados nas narrativas da época; um país que é flexível, irreverente, sem puritanismos e falsa moral, que reacomoda valores invisíveis costumeiramente não tratados nas obras do período. Um dos maiores esforços das sociedades, através da sua organização e das ideologias que a justificam, é estabelecer a existência objetiva e o valor real de pares antitéticos, entre os quais é preciso escolher, e que significam lícito ou ilícito, verdadeiro ou falso, moral ou imoral, justo ou injusto, esquerda ou direita política e assim por diante. Quanto mais rígida a sociedade, mais definido cada termo e mais apertada a opção. (CANDIDO, 1970, p. 47/48). Quando diante desse quadro crítico brasileiro, a nova literatura ousa existir e enfrentar o intocável cânone literário objetivando-o, ela não somente ignora as regras previamente estabelecidas, como também as quebra para criar outras novas, onde essas iniciativas caibam. Usa o ponto de partida da igualdade e não discriminação, assimila o carácter dado pelo Cândido e faz o uso da atividade literária, enquanto bem indispensável para formação do ser humano que não se pode comprimir. Porém, ultrapassa o Cândido, avança-o para ir mais adiante quando não se acomoda na condição de folclorismo ou costumismos, e entra no jogo, desta vez, não para conformar-se com o lugar de literatura menor, para aceitar papel coadjuvante, mas para ocupar espaços importantes e disputar o cânone com a narrativa hegemônica. Para isso, vivencia e absorve esse grande tema do caos moral e ético e atreve-se a realizá-lo, desenvolvê-lo esteticamente em sua amplitude e diversidade, com a devida assimilação da sua complexidade, que se manifesta literariamente na origem da representação daquilo que é o essencial do Brasil, um essencial que diverge da palidez, que até então domina a narrativa, mas que agora ganha uma fendade corte no seu seio. Assim como quem era invisível passou a ser visto e a ocupar um assento do avião que jamais houvera sentado, a partir da política econômica implementada pela social democracia petista, assim como quem não existia nas universidades passou, portanto, a ocupar uma banca, a tirar boas notas e disputar as vagas de emprego com aqueles que sempre conseguiam os melhores postos, dessa mesma forma a literatura também foi ocupada, como se ocupa uma praça abandonada no centro da cidade, como um indígena ou quilombola a forçar sua demarcação, como os trabalhadores sem teto ocupam os 16 imóveis abandonados e endividados com a união a exigir uma moradia para a família bem no meio dos grandes centros urbanos, como um trabalhador do campo faz quando monta seu assentamento em um pedaço de chão onde havia uma cerca, mas não havia lá ninguém, um pedaço de chão que ninguém arava, mas que basta alguém o desejar que surjam os latifundiários a se dizerem seus donos. Assim, age a nova literatura brasileira, nascida e montada no fortalecimento democrático, que promoveu uma geração de novos alfabetizados e também intelectuais anteriormente excluídos desses postose insurgida e destacada neste primeiro ciclo do Golpe de 2016. O latifúndio vai sendo ocupado, mas não pacificamente. Reproduz-se neste terreno simbólico a batalha material, paralelamente ao povo negro que resiste contra o genocídio, aos LGBTS que teimam em existirem no país que mais mata homossexuais e transexuais, às mulheres historicamente violadas pelos índices devastadores da violência de gênero e a periferia, que congrega dialeticamente todos esses elementos de opressão na base da pirâmide econômica (infraestrutura) como uma comprovação de que os recortes vistos em separado são pouca coisa sem considerar as articulações, e não dão conta da materialidade em um país como o Brasil. Esse território tem cercas reforçadas, arames e latifundiários armados, a atirar e recusar a novidade desta produção que não deseja mais as margens do território, mas que agora quer entrar e apropriar-se da casa grande para tomar chá da tarde nela. A metáfora serve para lembrar que, a partir de 2012, diversos núcleos de produção literária nasceram e se fortaleceram. Autores e publicações anteriormente ignorados e jogados às margens alcançaram destaque e notoriedade, foram destacados nos maiores prêmios do país, ocuparam lugares nas grandes editoras, que com o olho no lucro, percebeu um novo nicho para atacar. Dezenas de editoras independentes surgiram e resistiram diante de um mercado de monopólio econômico. Esta é a primeira vez que uma fenda considerável ao ponto de ser visível abre-se no sistema literário brasileiro. Alguns investigadores que se debruçam sobre a formação da literatura brasileira contam que apesar das tentativas de mover-se no desejo de torna-se independente das fontes iniciais e de construir uma individualidade estética, as letras latino americanas nunca se resignaram de seu passado ibérico (RAMA, 2009) e por este motivo, considera este trabalho, seriam insistentes na produção de um cânone cujas obras narram um Brasil não correspondente ao país real, nem mesmo no período Romântico, onde se ensaiou um culto a independência cultural e ao imaginário de um país livre. Na altura da semana de arte moderna de 1922, priorizou-se ‘repensar o nacional’. Os modernistas vanguardistas criaram o herói Macunaíma. Para cima da bússola, o romance nordestino despontava seu manifesto regionalista que serve mais a cozinha do nordeste e a arquitetura dos mocambos do que as letras (RAMA, 2001p.251), para, desde então, termos uma literatura com alguma representatividade, 17 porém, a representatividade contada pela visão hegemônica, ainda branca, falocêntrica e burguesa, posto que a posse da caneta seguia no mesmo nome. Implicitamente e sem fundamentação, ficou estabelecido que as classes médias eram autênticos intérpretes da nacionalidade, conduzindo elas próprias o espírito nacional, o que levou a definir novamente a literatura por sua missão patriótico-social, legitimada em sua capacidade de representação. Esse critério, no entanto, foi elaborado com maior sofisticação. Já não se buscou no meio físico, nem nos temas, nem sequer nos costumes nacionais, mas foi investigado no ‘espírito’ que anima uma nação e se traduziria em formas de comportamento que, por sua vez, seriam registradas na escrita. Se, se tratava de uma superação da simplista proposta romântica, era, no entanto, o critério mais primário ou vulgar que o subterrâneo esboço da representatividade por meio da língua concebida pelas modernizadores dos finais do século XIX (RAMA, 2001, p. 244) Dentro da estrutura geral da sociedade latino americana, o Regionalismo acentuava as particularidades culturais que se haviam forjado nas áreas internas, contribuindo para definir seu perfil diferente e, ao mesmo tempo, para reinseri-lo no seio da cultura nacional que cada vez mais respondia as normas urbanas. Por isso se inclinava a conservar aqueles elementos do passado que haviam contribuído para o processo de singularização cultural da não e procurava transmitir ao futuro a conformação adquirida, para resistir as inovações vindas de fora. O componente tradição, que é um dos tracoes obrigatórios de toda definição de cultura era realçado pelo regionalismo... Tendia portanto a expandir nas expressões literárias uma formula historicamente cristalizada da tradição. Daí vinha a fragilidade de seus valores e mecanismos literários expressivos(...) (RAMA,2001, p. 254) O golpe de 1964 também esteve curiosamente aquém dessa expectativa de quebra desta hegemonia. Em um artigo recente que relaciona as poesias nos golpes de 1964 e 2016, Pádua Fernandes cita a posição da ensaísta Maria Simon, na conferência Poesia Brasileira e o Golpe de 1964. A investigadora analisou as revistas da época, defendendo que a produção do período deixou a desejar e revelou uma prudência excessiva dos poetas e o compartilhamento do imaginário do progresso desencadeado pelas iniciativas pró-capitalistas da ditadura militar, que seria um legado do mandato do presidente Juscelino Kubitscheck ou, em resumo, assumiu na totalidade da produção dessa época o discurso dominante com poucas exceções de relevância. Eu quero dizer que 1964 não é uma data da poesia brasileira. Nem o golpe gerou de imediato obras poéticas importantes e uma reconsideração dos fatos do passado e do presente, nem a poesia teve sequer um papel menor no momento do golpe. Não se conhecem folhetos clandestinos, livros subterrâneos, declarações ou bordões nascidos das declarações da época ou do momento. Pensemos por exemplo no humorismo do Febeapá de Stanislaw Ponte permanência do parlamentarismo em 1963, e o golpe civil-militar acabou ocorrendo no ano seguinte....logo nos daremos conta de que os poetas não responderam à altura do desastre. (FERNANDES, 2018, p 105). O pesquisador uruguaio Ángel Rama também explica o sistema literário latino americano e alcança aspectos da formação do cânone brasileiro, e é desse sistema que nasce o cânone, assim 18 comodidaticamente explica o professor Antonio Cândido na introdução de A Formação da Literatura Brasileira: um sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes de uma fase. Estes dominadores são, além das características internas (língua, temas, imagem), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização (CANDIDO, 2009, p.25) Nessa obra, o crítico brasileiro explica que o funcionamento desse sistema literário rege uma engrenagem em que produtores conscientes de seu papel, receptores e mecanismo transmissor funcionam sincronicamente para dar lugar a uma comunicação inter-humana, a literatura, um sistema simbólico de interceptação das esferas da realidade, que dão suporte a atividade de escritores que, a um dado período, vão integrando-se ao sistema e abrem espaço ao decisivo elemento da formação da continuidade literária. (...) espécie de transmissão da tocha entre corredores, que assegura no tempo o movimento conjunto, definindo os lineamentos de um todo. É uma tradição no sentido completo do termo, isto é, transmissão de algo entre os homens, e o conjunto de elementos transmitidos, formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento, e aos quais somos obrigados a nos referir para aceitar ou rejeitar. Sem esta tradição não há literatura, como fenômeno de civilização. (CÂNDIDO,2009, p 33) É justamente essa tocha citada por Cândido, que nunca foi passada a outras mãos, que agora tem um pedaço arrancado de quem as tinha em monopólio para, assim, iluminar outras existências outrora apagadas. Os latifundiários, detentores da tocha e do território, produzem ruídos de desconforto ao serem confrontados pelas novas vozes e modos discursivos apresentados. Durante muito tempo falou-se da necessidade de revisar o Cânone Literário Brasileiro, ou seja, passar a tocha citada por Cândido por outros cenários que refletissem mais a diversidade do país. Mas, a nova poesia decidiu não esperar por essa revisão ao perceber que ela não viria, e que só terá espaço nele – no Cânone - se ocupá-lo, como tem sido gradativamente feito, um ferimento inicial na lei de fundação da literatura brasileira. Cabe aqui a esta altura relembrarmos a pergunta da indiana Gayatri Chakravorty Spivak. Em sua obra Pode o Subalterno falar? Spivak questiona a condição do sujeito subalterno, aquele que pertence a grupos historicamente marginalizados que dificilmente tem direito à voz, aqueles que não participam, ou participam de modo muito limitado, sendo sujeitos mudos pelo imperialismo cultural e pela violência epistemológica. A autora desenvolve seu conceito de subalternidade articulada nas preposições anteriormente criadas cientista político Antônio Gramsci. Spivak, no entanto, trabalha com o conceito solidificado por pensadores da década de 70, que ampliam a lógica operária Gramsciniana da subalternidade para se referir a qualquer pessoa ou grupo de categoria socialmente inferior, seja pela raça, gênero, classe, orientação sexual, etnia ou religião, com 19 o objetivo de reconstruir cada um dos processos de expropriações a que foram submetidos de forma unitária. Por isso, não somente é dada a condição de subalternidade dos sujeitos produtores da literatura brasileira mais recente como também é nela, nesta condição, que é amparada a estética que encontra seu lugar no âmbito da resistência, do protagonismo e da capacidade de enfrentamento das opressões. No alto de suas privações em um sistema que os exclui, contudo, mantém sua subjetividade e abstração necessária para postular um campo discursivo, enfim, heterogêneo. O historiador também indiano Ranajit Guha, parte dessa geração de 70 que desenvolveu os estudos subalternos. Defende que este sujeito é idealizado como alguém que carece de poder e de autorepresentação, em uma perspectiva na qual seria incapaz de agir como sujeito ou interlocutor da própria história, um alheio ausente sem autonomia, submetido sempre a um outro grupo social: a ele é negado todo e qualquer reconhecimento de sujeito da história. Não há, nesta definição, a construção de uma história própria e singular, o projeto de sociedade e de futuro são restritos aos subalternos. (FIGUEIREDO, 2010, p.85). A pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagné citada no início deste trabalho é uma demonstração numérica dessa subalternidade adaptada ao Brasil, que perdurou e ainda perdura. A investigaçãochegou a números reveladores. Das principais obras publicadas no País, 72,7% das obras escritas por homens; destes, 93,9% brancos e a metade de origens do sudeste brasileiro, mais precisamente Rio de Janeiro ou São Paulo. O critério de eleição foi estabelecer um conjunto de obras dotadas de reconhecimento social e com certa penetração. Os principais dados utilizados são quanto aos romancistas publicados pelas maiores editoras brasileiras, principais fiadoras desse reconhecimento, como Cia das Letras, Record, Objetiva e Rocco. Mas a pesquisa considera também outros aspectos. De acordo com os índices divulgados, quanto aos personagens dos romances, 60% das obras são protagonizadas por personagens homens, sendo 80% destes brancos e 90% heterossexuais, números que correlacionam o perfil masculino também a outras normatividades sociais de fator-poder. Como, por exemplo, a branquitude simbolizando o racismo estrutural e a heterossexualidade, como apagamento da diversidade sexual e condição da homofobia; além da estável situação econômica destes, configurando uma literatura de médios para médios e ignorando a realidade de classe da maior parte da população. Em contrapartida, das poucas personagens mulheres citadas nas obras, mais de um terço exerce a ocupação de dona-de-casa, porque quando se cita a existência de uma mulher também é importante colocá-la em seu lugar devido. Quanto ao estrato sócio-econômico, entre 1965 e 2014, a representação 20 de personagens da classe pobre variou entre 33,60% e 23%, enquanto a classe média e rica ficou representada entre 69% e 94,7% dos personagens. Nesta pesquisa, é destacável a falta de mulheres e homens negros tanto na posição de autores (2%) como na de personagens (6%). As mulheres negras aparecem como protagonistas em apenas seis ocasiões, e outras duas como narradoras das histórias. Por sua vez, mulheres brancas, ocuparam essas posições 136 e 44 vezes, respectivamente. Os autores vivem basicamente no Rio de Janeiro (33%), São Paulo (27%) e Rio Grande do Sul (9%). A publicação dessa pesquisa torna-se importante quando correlacionamos os números com a realidade brasileira, um país entre os maiores em território, com 27 estados e uma federação e uma população miscigenada a partir de dezenas de nacionalidades europeias, africanas e indígenas, cuja maior parte da população vive fora destes eixos territoriais representados, assim como fora da margem econômica citada. A mesma pesquisa, que é um levantamento geral de mais de 40 anos de publicações praticamente sem alterações de perfil, também denota demonstrações de pequenas mudanças de cenário nos anos mais recentes. Os números mostram um aumento de 12 pontos percentuais na publicação de romances escritos por mulheres – fato que, por sua vez, não produziu um crescimento significativo na quantidade de personagens femininas. O silêncio dos marginalizados é coberto por vozes que se sobrepõem a ele, vozes que buscam falar em nome dele, mas também, por vezes, é quebrado pela produção literária de seus próprios integrantes. Mesmo no último caso, tensões significativas se estabelecem: entre a “autenticidade” do depoimento e a legitimidade socialmente construída da obra de arte literária, entre a voz autoral e a representatividade do grupo e até entre o elitismo do próprio campo literário e a necessidade de democratização da produção artística. (DALCASTAGNÉ, 2008, p.78) Há muitas contradições nesse processo, mas também muitas obviedades. Em meio à grave crise política brasileira, há uma crise econômica entrelaçada à intelectual. Há um abismo grave na educação que, apesar dos recentes esforços das gestões petistas, não avançaram o suficiente do ponto de vista estatístico, fatores que, historicamente, contribuíram à situação de subalternidade. De acordo com a 4ª edição da pesquisa ‘Retrato da leitura no Brasil’ desenvolvida em março de 2016 pelo Ibope por encomenda do Instituto Pró Livro, a média de livros lidos é de 2,43 livros lidos por brasileiro, sendo um dado relevante a ser citado na análise por gênero, onde a soma de Bíblia e livros religiosos atinge, em média, mais de 70% dos gêneros citados pela população com mais de 30 anos e mais de 80% na faixa acima de 40 anos. Além disso, a taxa de analfabetismo ainda é uma realidade concreta que atinge 11,8 milhões de pessoas segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sua pesquisa de alfabetização de 2017. Entre os alfabetizados, o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), que é uma pesquisa idealizada em parceria entre o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, indica que apesar do percentual 21 da população alfabetizada funcionalmente ter passado de 61% em 2001 para 73% em 2011, apenas um em cada 04 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Ou seja, o aumento da escolaridade média da população brasileira teve um caráter mais quantitativo (mais pessoas alfabetizadas) do que qualitativo (do ponto de vista do incremento na compreensão leitora).Um outro índice que merece destaque é que, entre os entrevistados, 30% afirmaram nunca ter comprado um livro sequer e, nos três últimos meses que precederam a pesquisa, somente 26% dos entrevistados informaram ter comprado algum livro, o que demonstra um mercado editorial movimentado e sustentado por cerca de um quarto dos brasileiros. Os números acima são influenciadores, também, da atual situação do mercado editorial do País e da dificuldade em romper a situação de subalternidade dentro do campo literário intelectual, mas não só isto. Outra consideração importante é que segundo o Relatório Anual da Frankfurter Buchmesse, que examina de perto alguns estudos de caso e tendências do mercado editorial, a crise chegou para quase todo mundo, graças aos novos hábitos de consumo, novos players e novos modelos de negócios. Por exemplo, enquanto um título desconhecido no Brasil custa, me média, R$40 a R$50, o equivalente a 10 ou 12 euros, o catálogo do Netflix disponibiliza 3 mil títulos de filmes e séries por R$19,90 mensais. Ao cabo de 2018 a ponta do Iceberg chocou com o barco. As gigantes redes de livrarias Cultura e Saraiva – responsáveis pela venda no varejo de 40% dos livros no país – entraram em processo de recuperação judicial, fechando lojas em dezenas de cidades, demitindo em massa e dando um calote de mais de R$ 300 milhões nas editoras. Bernard Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias, elencou para o Portal Nexo a recessão no contexto macro, o baixo índice de leitura dos brasileiros e o comércio eletrônico para leituras em dispositivos digitais como alguns dos elementos contribuintes para o encerramento das livrarias. O editor João Varela, da independente Lote 42, disse ao portal Nexo que acredita que há mais uma ‘impressão de crise’ devido a força simbólica do encerramento de empresas tão grandes. Chama atenção empresas varejistas de livros que ampliam para trabalhar com eletrônicos e eletro domésticos. Quando as empresas ficam muito grandes, às vezes acham que podem tudo...O livro é o segmento raro que trabalha com consignação. A editora empresta dinheiro em forma de produto. É uma dinâmica muito peculiar e confortável para o varejo: enquanto não vender eu não pago. E agora ficaram com o estoque mesmo com problemas de caixa. Isso causa pânico em algumas editoras que tem centenas e milhares de livros em consignação...As pessoas estão buscando este comércio a moda antiga em que a pessoa que está alí na mesa é a que está envolvida na produção. Às vezes é o próprio autor discutindo questões, escolhas de enredo, isto aproxima muito mais. Esse crescimento é muito curioso e parece uma reação à digitalização. Sinto que é nas pequenas e médias editoras que pode se consertar o que o grande mercado estragou.( Retirado de https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/10/31/De-onde-vem-a-crise-degrandes-redes-de-livrarias-no-Brasil em 02 de novembro de 2018) 22 1.2 A escrita do subalterno – Pode o subalterno falar? Já sabemos que uma parcela dos brasileiros esteve secularmente excluída da literatura desde o seu mito fundacional, excluída de todo acesso, da sua contemplação, da representação na narrativa e da sua produção. Sabemos que essa condição de subalternidade no sistema literário reflete a mesma no campo sócio-econômico, e que a literatura produzida no Brasil é uma distopia, porque foi feita sempre por homens brancos que falam sobre homens brancos para homens brancos lerem, e que essa realidade simbólicae paralela não representa nem condiz com a realidade material de um Brasil grande e diverso, multicultural e plurirracial, mas que é parte do projeto de manutenção do poder hegemônico para dominação através do controle da narrativa de país em função do monopólio do poder. Uma perspectiva de gênero revelada na pesquisa da professora Regina Dalcastagné (2017) apresenta a figura da mulher como um desses sujeitos subalternizados no sistema literário, e assim é porque a mulher está entre os mais antigos sujeitos padecentes da opressão em toda história da sociedade mundial. A dominação masculina e a invisibilização das mulheres, da sua existência e êxitos, faz parte desse projeto de poder do monopólio masculino das narrativas, como podemos observar nos temas abaixo abordados no artigo “A invisibilidade das mulheres na literatura brasileira enquanto projeto para legitimação da narrativa hegemônica centrada no homem”. Em A origem da Família e da propriedade privada e do Estado, uma obra histórica escrita já na modernidade, o alemão Friedrich Engels (1884) observa como a mulher foi conduzida a ser a mais importante das propriedades privadas masculinas tendo sua existência e a de seu corpo condicionada à manutenção e legitimação da ordem patriarcal, garantia de herdeiros legítimos do intocável patrimônio masculino; objetivando a dedicação em manter a mulher e aquilo que ela produz sob as rédeas. O primeiro efeito do poder exclusivo dos homens no interior da família, já entre os povos civilizados, é o patriarcado, uma forma de família que assinala a passagem do matrimônio sindiásmico à monogamia. Para Engels, a família monogâmica, que nasce no período de transição entre a fase média e superior da barbárie (ENGELS, 1984, p.66), é expressão da grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo (ENGELS, 1984, p. 61): Baseia-se no predomínio do homem, o qual tem como finalidade procriar filhos cuja paternidade seja indiscutível; exige-se essa paternidade porque os filhos, na qualidade de herdeiros diretos, entrarão na posse dos bens de seu pai... Agora, como regra, só o homem pode rompê-los e repudiar sua mulher. Ao homem, igualmente, se concede o direito a infidelidade conjugal, sancionado ao menos pelo costume... Quando a mulher, por acaso, recorda antigas práticas sexuais e intenta renová-las, é castigada mais rigorosamente do que em qualquer outra época anterior. (ENGELS, 1984, p. 66). Essa foi a origem da monogamia, tal como podemos observá-la no povo mais culto e desenvolvido da antiguidade. Foi a primeira forma de família que não se baseava em condições naturais, mas 29 econômicas, e concretamente no triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva, originada espontaneamente. A monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio. Pelo contrário, ela surge sob a forma de escravização de um sexo pelo outro, como proclamação e um conflito entre os sexos, ignorada, até então, na pré-história. Na literatura, de múltiplas formas, o objetivo do patriarcado tem sido cumprido à risca. Uma questão que não pode ser relativizada é que somente com a chegada do século XX, as mulheres obtiveram autorização oficial para acessar a escrita, mesmo assim, não em todos os países. Antes disso, em sua grande maioria, aquelas que podiam estudar ou o faziam às escondidas, ou precisaram de autorização prévia de um pai ou de um marido, sob pena de castigos severos familiares e civis. Ademais, tinham suas tarefas restritas a setores de cozinha e educação dos filhos. Essa situação levou a mulher a assumir papéis secundáriosou meramente coadjuvantes durante séculos, retirando a estas o direito à posição protagonistana história em todos os campos das artes, ciências, esportes ou trabalho e submetendo-as ao apagamento e marginalização da sua produção intelectual. Com algum direito conquistado e certo acesso à escrita, quando não tinham suas propriedades autorais apoderadas por homens, muitas tiveram que recorrer a artifícios para driblar os paradigmas da sociedade e do mercado. Não é difícil encontrar, com recorrência, em enciclopédias, obras ou até mesmo na internet textos assinados por Anônimo, uma mulher a tentar dizer algo e ser escutada. Entre os casos mais conhecidos do século XIX, os Irmãos Bell, que na realidade eram as Irmãs Brontë, fizeram sucesso na Europa com obras assinadas com pseudônimos masculinos. Jane Eyre foi o primeiro e mais famoso livro de Charlotte Brontë, a qual acabou seguida por suas irmãs Emily e Anne na prática iniciada, assim como a britânica EnidBlyton, autora de quase 800 livros infanto-juvenis, entre eles os populares As Aventuras dos Cinco e As Gêmeas, também iniciou sua carreira assinando poemas anonimamente a um jornal periódico da localidade onde morava. Muito mais recentemente, em 1997, a britânica Joanne Rowling lançou Harry Porter e a pedra filosofal. O Best-seller infanto-juvenil que conta a história de um menino bruxo foi um mais vendido do mundo – porém, assinado apenas com suas iniciais J.K. Rowling, ocultando seu primeiro nome por sugestão da editora Bloomsbury, a fim de contornar possíveis questões de gênero temidas pelo selo; e assim materializando a restrição às mulheres no mercado editorial. O que, por vezes, pode parecer histórias de um remoto passado mostra-se atual em toda sua concretude quando fazemos contagens simples na literatura mundial; entre os que conquistaram o Prêmio Nobel de Literatura, um dos mais consagrados da área, apenas 10,62% são mulheres. No total, são 115 anos de prêmio e 14 prêmios para mulheres. Já quanto aos livros classificados como 100 30 melhores do século XX pelo jornal Le Monde, apenas 12 deles são de escritoras, sendo 88 escritos por homens. No Brasil, o mercado literário se mostra disposto a ignorar as mulheres. Desde 1941, as mulheres receberam apenas 17% dos principais troféus oferecidos pelos oito maiores eventos literários do Brasil. Essa afirmação torna-se ainda mais clara na pesquisa da professora Regina Dalcastagné já citada na introdução deste trabalho, cujos resultados valem ser recordado; foram 692 romances analisados de 383 escritores publicados entre 1965 e 2014, sendo 72,7% das obras escritas por homens; destes, 93,9% brancos e a metade de origens do sudeste brasileiro, mais precisamente Rio de Janeiro ou São Paulo. Os índices apontam, ainda, para os personagens nas narrativas: 60% das obras são protagonizadas por personagens homens, sendo 80% destes brancos e 90% heterossexuais, números que correlacionam o perfil masculino também a outras normatividades sociais de fator-poder. Em contrapartida, das poucas personagens mulheres citadas nas obras, mais de um terço exerce a ocupação de dona-de-casa, porque quando se cita a existência de uma mulher também é importante colocá-la em seu lugar devido. Isso, sem dúvida, é reflexo da situação de segregação social própria do Brasil. O rótulo “literário” usado como elemento de exclusão: a produção dos escritores de fora da elite aparece como testemunho, documento sociológico, não como literatura. Há uma disputa política pelo reconhecimento de que determinadas expressões são “literatura”. Os setores mais conservadores da crítica acadêmica e jornalística, bem como muitos dos escritores da elite, são os principais defensores do status quo, alimentando a ideia de que o “literário” é um atributo sobrenatural e trans-histórico, em vez de ser uma prática social, que tem a ver com a produção de hierarquias que beneficiam alguns e excluem outros (REBINSKI,2018, p. 02) Em geral, a classe dominante é composta por homens brancos, indispostos a abrirem mão de seus privilégios e com interesses reais em manter onde está a produção literária brasileira, na tentativa de manter também onde está seu conveniente lugar social, tomando a forma que lhe for necessária para servir a seus interesses e se perpetuar este status quo. Em A Dominação Masculina, Pierre Bourdieu denota que, socialmente, esse comportamento de divisão entre os sexos está na “ordem das coisas” de forma natural, ao ponto de ter convencido ser inevitável, pois a condição de inferioridade da mulher em relação ao homem existiria no mundo tal qual o quente está para o frio. A função da mulher então seria servir o homem tal qual é função do gelo esfriar e do fogo esquentar. 31 Em todo mundo social e, em estado incorporado, nos corpos e nos hábitos dos agentes, funcionando como sistemas de esquemas de percepção de pensamento e de ação, essa experiência apreende o mundo social e suas arbitrárias divisões, a começar pela divisão socialmente construída entre os sexos, como naturais, evidentes, e adquire, assim, todo um reconhecimento de legitimação (BOURDIEU, 2013, p.17). As questões trazidas pela pesquisa da Universidade de Brasília (Unb) foram um importante fator de problematização das questões de gênero, principalmente porque revelam uma literatura masculina que seria espelho de um país também masculino. É aí onde mora a distopia. Em 2014, a última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entrevistou 362.627 pessoas que vivem em 151.291 residências de todas as unidades da federação e apurou uma população brasileira de 203,2 milhões de habitantes, sendo 98,419 milhões de homens (48,4% do total) e 104,772 milhões de mulheres (51,6%). E não somente as mulheres são maiorias da população como também representam 59% do total de leitores conforme revela a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em 2015; índices que comprovam falta de representatividade e motivação política de conservar invisível a produção literária de mulheres enquanto arma de poder. Desta questão, pode-se concluir que, ainda com a maioria da população feminina, o fator histórico de opressão poderia ter impedido as mulheres de produzir literatura. Na virada de 2012 para 2013 é possível observar o fluxo de reação a esse projeto secular com a primavera feminista brasileira insurgida da luta pela direito à existência devido ao caráter de crescimento fascista no ciclo do Golpe de 2016, um golpe com características de misoginia cuja insatisfação de ter o país gerido por uma mulher era um elemento marcante das manifestações de apoio ao golpe, em que a ex-presidenta Dilma aparecia em cartazes e adesivos com caricaturas em posições vulgares e de obscenidades violentas. Não somente a literatura assumiu a vanguarda artística da resistência, como foram as mulheres que trouxeram para si essa responsabilidade e carregaram no lombo a construção deste fluxo reativo tanto na produção quanto na ocupação dos espaços do mercado disponíveis no sistema literário. Neste movimento, surgem de dezenas de zines e editoras independentes lideradas por mulheres, que vem crescendo e publicando mulheres romancistas, prosadoras, poetas ou contistas de todo país. É, portanto, uma tentativa dequebrar as correntes invisíveis estabelecidas pelas preferências androcêntricas das maiores editoras brasileiras e estabelecer uma literatura mais representativa que ofereça um diálogo com a maioria da população, num esforço de ferir a continuidade da lógica postergada por séculos como observou Rama: 32 (...) Por um lado estabeleciam continuidade às vezes de séculos dos supostos traços nacionais dessas obras...enquanto por outro partiam de uma concepção de nacionalidade segundo fora definida por uma determinada classe de um determinado período, o que fixava um critério historicista móvel. Essa contradição corroía os fundamentos da nova visão de representatividade (...) (RAMA, 2001: 243). Em 2016, na Feira Literária de Paraty, uma conversa entre escritoras deu início ao Mulherio das Letras, grupo que surgiu a partir da iniciativa da romancista Maria Valéria Rezende – premiada com o Jabuti de 2015 nas categorias romance e livro do ano - e que reuniu mais de 600 escritoras na Paraíba, em 2017, com o objetivo de ser um movimento para ampliar a visibilidade de mulheres brancas, negras, indígenas, lésbicas, transexuais, travestis, moradoras das periferias, das zonas rurais de todas as regiões do País; desde que tenham as Letras como matéria comum. A atuação funciona como uma rede de apoio horizontal e sem hierarquias que pretende dar voz e protagonismo às mulheres no ofício de escrever, publicar ou distribuir, agindo conjuntamente em atividades, feiras, eventos e encontros que possam contribuir no processo de desenvolvimento das suas carreiras. Dessa proposta já foram geradas e publicadas pela Editora Mariposa Cantonera as primeiras coletâneas do Mulherio das Letras nos gêneros poesia, prosa, e há uma coletânea infanto-juvenil em processo de produção com previsão para segundo semestre de 2018, além da importante iniciativa que é a obra Um girassol nos Seus Cabelos – Poesias para Marielle Franco, uma antologia que reuniu poemas em homenagem a ativista negra Marielle Franco, assassinada por milicianospróxima a comunidade da Maré, no Rio de Janeiro. Marielle era vereadora eleita pelo PSOL e sua morte, apesar de não ter tido investigações concluídas, acontece no seio da polarização extrema do cenário político brasileiro. A antologia conta com textos de nomes como o da consagrada Conceição Evaristo e esta e outras respostas estéticas à execução de Marielle Franco são merecedora de um capítulo a parte neste trabalho, que virá mais adiante. Atualmente, além do Mulherio das Letras contar vários núcleos dentro e fora do País, o grupo dispõe de mais de seis mil participantes que atuam de modo organizado no circuito literário em diversas áreas e gêneros como poesia, romance, conto e infanto-juvenil; incluindo edição, revisão, tradução, produção e academia, em articulação constante para fazer circular esta literatura. Um componente extra que contribuiu efetivamente para essa ascensão da produção literária de mulheres no mercado foi a escalação da jornalista soteropolitana Josélia Aguiar para curadoria da Feira do Livro de Paraty de 2017, mais importante e credível evento do circuito de livros do Brasil. Josélia acabou se destacando como uma personalidade importante para a valorização de espaços para autores oriundos de pequenas e independentes editoras, e pela primeira vez na história da FLIP superou o número de convidadas mulheres em relação aos homens, respeitando o fluxo real numérico e qualitativo 33 da produção do ano antecedente, com um ponto alto na performance poética da escritora Adelaide Ivánova. Intitulada “Fruto Estranho”, que causou espanto ao cruzar o pensamento de Susan Sontag com histórias recentes de feminicídio relatadas pela mídia, dando destaque a forma com que estas execuções foram relatadas. Adelaide surpreendeu ao fazer isso sem projeção de imagens, fortaleceu as descrições com força aos detalhes. À leitura de um poema seu, soma-se um depoimento de Dora Lara Barcelos retirado do documentário "Retratos de identificação", de Anita Leandro. Na performance, Adelaide estrutura, com a leitura do poema, uma lista de mulheres assassinadas ou violentadas, finalizando sempre com as frases «a foto do corpo está online», ou «o vídeo está online». Ao fazer uso da figura epistrófica, conta como as mortes não são iguais eexplica suas particularidades, mas mostra como são – todas elas – partículas de uma estrutura de sustentação do patriarcado cujo elo é quando conduzir o corpo feminino a um lugar para o exercício de poder da violência masculina, e este fio condutor é o que une estas diversas violências, finalizando com a indexação do elemento contemporâneo, o advento da internet, que banaliza e “coisifica” as violências, expondo-as online para quem queira ver, participar, interagir ou opinar sobre estes corpos femininos que antes de pertencerem às próprias mulheres, pertencem aos homens, ao público, a toda multidão. Enquanto recita, a poeta cria uma narrativa onde corpos de mortos por feminicídio se entrelaçam a corpos sobreviventes, sejam de militantes de direitos humanos, sejam por guerrilheiras que lutaram contra a ditadura militar e foram submetidas a torturas sexualizadamente degradantes como introdução de ratos nas vaginas, assassinadas ou desaparecidas, a maioria delas estupradas pelos agentes da repressão; seja da violência pedófila contra meninas ainda sem corpo. Relaciona, portanto, violências aparentemente sem ligação alguma, noticiadas pela imprensa como casos isolados, como a tortura da ex-presidente Dilma Rousseff com o assassinato de Eliza Samúdio, esquartejada e enterrada pelo goleiro Bruno Fernandes de Sousa, mas que, no entanto, homogeneízam-se porque são corpos de mulheres feridos por mãos masculinas, e aí mora a potência estética da performance poética que transforma variadas e diversas micronarrativas que convergem em um retrato. A atuação de Josélia como curadora do principal evento literário brasileiro foi marcante do ponto de vista da representação de modo geral, e é destacável ainda, dente outros recortes, no quesito de autores negros, com papéis comumente secundarizados na FLIP, mas que desta vez tiveram espaços importantes de protagonismo do qual trataremos mais adiante. Outra iniciativa destacada é o ‘Respeita e pronto! Coalizão de poetas’, grupo formado por escritoras, pesquisadoras, tradutoras, editoras e performers, que publicou um manifesto em julho de 2018 e reivindica, dentre outras pautas, a organização das poetas como classe trabalhadora e o fim dos 34 privilégios androcêntricos no mercado editorial, assim como as violências promovidas nestes ambientes. O texto do manifesto, escrito por Adelaide Ivánova, Maria Isabel Iorio e Julia Klien, foi assinado por quase 70 trabalhadoras da literatura, entre elas Alice Ruiz, Simone Brantes, Carla Diacov, Regina Dalcastagné e Micheliny Verunschk. A iniciativa literária das mulheres gerou também um tipo de tendência comercial, que logicamente está comprovadamente distante de alcançar qualquer paridade no mercado editorial, mas que vale ser citada. Enquanto editoras grandes aproveitam a oportunidade para relançar autoras esquecidas que abordam questões de gênero – como Simone de Beauvoir, a qual nos últimos quatro anos vendeu 35% a mais que na década anterior inteira-, a maioria das editoras de pequeno e médio porte têm criado selos, que são projetos paralelos a linha editorial base da editora para destacar um nicho específico, neste caso, estimulam a publicação de mulheres, como o selo Macabéa da Editora Multifoco, o selo Fracisca Julia, da Editora Autografia ou o Perspectiva Feminista da Editora E-Galaxia. Vale lembrar que todas estas são editoras do grande mercado, não independentes. Além disso, diariamente anunciam-se novas editoras com linha editorial de literatura somente produzida por mulheres, além de selos e editoras específicos para mulheres negras, que tem números de publicação ainda mais irrisórios que os das mulheres brancas no sistema literário que sustenta o mercado editorial convencional. Alguns nomes fortes têm alcançado certa consolidação, com destaque para aqueles que produzem no seio da resistência. Poeta e tradutora do Rio Grande do Sul, Angélica Freitas é uma das que desfruta, dos resultados de seu “Um útero é do tamanho de um punho”, publicado em 2012 pela editora Cosac Naify. Foi a primeira de uma leva de novíssimas autoras que alcançaram notoriedade a partir deste processo conjuntural. A pernambucana Adelaide Ivánova, a qual já citamos sua performance na FLIP 2017, lançou “O Martelo” em 2016 pela editora portuguesa Douda Correria, para só depois lançar pela Editora Garupa no Brasil, e também foi um nome forte em 2017; observa em 2018 e 2019 os desdobramentos de seu trabalho com sua premiação na última edição do Premio Rio de Literatura, entre os mais credíveis do País. Carioca, a poeta Bruna Mitrano trata sobre temas espinhosos da vida cotidiana de uma mulher na periferia do Rio de Janeiro com seu Não, que foi publicado também em 2016 pela editora Patuá e venceu o Prêmio Off Flip deste mesmo ano. A autora cearense Jarid Arraes, que lançou em 2017 pela editora Pólen o seu Heroínas Negras Brasileiras em 15 histórias com literatura de cordel, também fortaleceu sua obra enquanto instrumento de valorização de sua própria ancestralidade. O Prêmio São Paulo de Literatura 2018 teve pela primeira vez na sua história a vitória de três mulheres nas três categorias; Ana Paula Maia, principal ganhadora com o romance Assim na terra como 35 embaixo da terra (Record), Cristina Judar, categoria +40 anos com sua obra Oito do Sete (Reformatório), e Aline Bei na categoria -40 anos por O Peso do pássaro morto (Nós). Ademais das obras, têm crescido iniciativas de Slams femininos – algo que funciona como as antigas batalhas de repentistas do nordeste do Brasil, já com formato similar adotado anteriormente pelo hip hop apropriado pela poesia. Cada vez mais fortes e disseminados em diversas cidades do Brasil, na intenção de valorizar a poesia produzida fora deste sistema literário, porém que fura este sistema, gerando um mercado próprio, com portais e revistas eletrônicas, como o Leia Mulheres, Mulheres que escrevem e o Leia Mulheres Negras. A pesquisa, portanto, revela que a literatura vendida no território brasileiro e fora dele não assimila a dimensão social como fator da arte; esquece-a enquanto forma de conhecimento e aprofundamento no mundo real, nem é capaz de trazer nova visão de mundo, e a crítica que absorve sem questionamentos não coopera para restabelecer um humanismo que compense os fatores de desagregação social e alienação pessoal (CÂNDIDO, 1993,p. 58). Ao contrário disso, induz a crença de um país onde as mulheres inexistem e que, quando existem, pouco importa o que fazem – desde que estejam fazendo o que a elas lhe foi demandado; servir o patriarcado e não invadir seu espaço.E quando elege prosseguir o silenciamento dessas mulheres, fazendo com que seja necessário que elas lutem por alguns hectares deste vasto território, captura o espírito de um tempo que dá marcha ré nos avanços civilizatórios. Normalmente, toda literatura apresenta aspectos de retardamento, podendo-se dizer que a média da produção num dado instante já é tributária do passado, enquanto as vanguardas preparam para o futuro (CÂNDIDO, 1993, p. 351). Nesse caso, presas a esses paradigmas, o sistema literário é o próprio retardamento, mas as mulheres têm sido a vanguarda. A invisibilidade da mulher na literatura brasileira, promovida pelo sistema patriarcal que refletiu durante séculos (e ainda reflete) o mercado, se articula de forma estratégica com o tema racial. Fica evidente a interlocução destas subalternizações em um país cuja formação de toda estrutura social advém de uma história secular de violência. Falar de opressões raciais no Brasil ficou condicionado a falar do povo negro afro-descendente. Isso porque a outra raça, a indígena, que vivia nesse território antes da colonização ocidental, foi praticamente exterminada, tendo sobrado raríssimos povos numericamente inexpressivos, a exemplo dos Guaranis Kaiowas, que lutam até hoje pela sobrevivência e seguem sendo mortos a ermo nas questões das demarcações de terras. No caso do povo negro afro-descendente, não são povos originários. Foram brutalmente arrastados de África aos milhões em porões de navios e mantidos em uma escravidão legalizada que durou de 1500 até 1988, tendo sido o último país do continente americano a abolir a escravidão em decorrência 36 somente do alto custo econômico da manutenção de um escravo mediante uma grande leva de imigrantes europeus refugiados que recém desembarcava no país como mão de obra barata. Em seguida, pós quase 400 anos de escravidão, uma multidão de homens e mulheres negras foram ‘libertados’, mas sem nenhuma reparação o inserção na sociedade, o que os condicionou desde então ao lugar mais vulnerável da cadeia econômica, sem oportunidades nem acesso aos direitos mais básicos como moradia, saúde ou educação, ainda hoje superlotando as periferias, amontoando-se nas ruas, nos trabalhos braçais e multiplicando a população carcerária. Tal e qual como um espelho, os negros estiveram para a literatura brasileira como estavam para sua posição fora dela, excluídos tanto da hipótese de escrever quanto de estar dignamente representado nas narrativas de modo que não estigmatizada. Raros casos e aparições, que quando ocorriam eram deslocadas ao exotismo ou ao branqueamento – como o conhecido caso de Machado de Assis, um dos maiores literatos do País que, hoje, sabe-se que era afro-descendente e teria sido branqueado no decorrer da história. O curioso é que isto ocorra no país com a maior população negra fora da África. Os dados do IBGE, vide PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2015, indicam que a população negra representa 54% do total do número de brasileiros, no entanto, o estudo da professora Regina Dalcastagné, indica que 93% dos romances entre 1990 e 2004 foram escritos por pessoas brancas (sendo que as mulheres nem alcançam um quarto deste total), contra 7% sem cor identificada, revelando uma homogeneidade racial absolutamente distópica da realidade do país em questão. Um outro dado relevante é que em 56,6% desses romances não há sequer um personagem não branco, enquanto isso, em somente 1,6% não há nenhuma personagem branca – dois livros sozinhos correspondem a mais de 20% das personagens negras de todo corpus da pesquisa. Complementarmente, no estrato socioeconômico e na observação quanto às ocupações dos personagens, mostra-se que os poucos negros que aparecem são quase sempre pobres e concentram-se em funções de contravenção, criminalidade e, na categoria feminina, serviços domésticos, enquanto os personagens de cor branca desenvolvem funções e ocupações variadas. Os números importam porque revelam uma opressão tanto material, no acesso ao direito de produzir literatura, quanto simbólico, na ausência absoluta na narrativa hegemônica, que invisibilizaquase sempre ou, quando revela, usa a imagem do negro para reforçar e naturalizar o conteúdo estereotipado e preconceituoso. Talvez a resposta esteja nas formas de preservação do preconceito na sociedade brasileira, e um dos mecanismos dessa preservação é justamente a legitimação do racismo no interior dos discursos artísticos. Assim, o preconceito pode continuar sendo veiculado porque a sociedade se mantém preconceituosa, e ela se mantém preconceituosa porque vê seus preconceitos se ‘confirmarem’ todos os dias nas diferentes representações sociais (DALCASTAGNÉ,2017, p.228 /229) 37 Podemos chamar de reviravolta o que vem ocorrendo hoje na nova literatura brasileira no que diz respeito à produção de afro-descendentes. Mas, antes de chegar aí, é importante ressaltar que a possibilidade de alcançar um diploma de graduação-licenciatura cresceu em quase 4 vezes para a população negra no Brasil nas últimas duas décadas, fruto das experiências das gestões petistas que priorizaram a implementação de ações afirmativas como o sistema de cotas no ensino superior. O percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2%, em 2000, para 9,3% em 2017 segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os O Censo do Ensino Superior elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) também evidencia o aumento do número de matrículas de estudantes negros em cursos de graduação. Em 2011, do total de 8 milhões de matrículas, 11% foram feitas por alunos pretos ou pardos. No último censo realizado em 2016, ano de consolidação do golpe parlamentar que depôs irregularmente a presidente Dilma Roussef, o percentual de negros matriculados tinha crescido para 30%. Esses números são essenciais pra compreendermos um movimento. Nos últimos 15 anos no Brasil, viabilizou-se a formação de uma geração inteira de intelectuais negros, e essa realidade contribuiu não somente para crescer a produção literária como também para dar legitimidade a esta produção (historicamente deslegitimada pelo sistema literário hegemônico); tanto àquela que advém do negro que se formou intelectual quanto a que tem origem fora da academia, por meio das pesquisas e investigações acadêmicas que passou a aprofundar as temáticas raciais, inclusive na literatura. Isso resultou num fluxo coletivo. Diferente do que ocorria nas situações anteriores, pontuais, quando um ou outro negro se destacava de forma individualizada, a proporção desta vez deu caráter mais sociológico ao advento. Obviamente, a periferia sempre produziu sua própria cultura, não buscava legitimação da academia para seguir produzindo. Dezenas de manifestações dessa cultura particular cuja identidade é estruturada na questão racial estiveram sempre alí. É o caso não somente das danças e coletivos advindos da religiosidade afro-brasileira – o afoxé, o próprio samba – como também de culturas mais marginais; o funk, que foi apropriado pela indústria cultural e ganhou aspecto de fenômeno da cultura de massas, e a cultura hip hop (que congrega a música rap a um conjunto de outros elementos artísticos, como a dança e artes visuais), dentre todas as citadas, a que mais obteve proximidade com a produção literária devido ao caráter rebelde, político e de movimento, mas principalmente pela estética das letras do rap, faladas e rimadas na sua música. Diversos letristas do rap chegaram a entrar na academia como corpus de estudos literários, é o caso do Mano Brow, do conhecido grupo Racionais Mcs, que se tornou uma espécie de cânone da literatura periférica brasileira, leitura obrigatória para exames de ingresso nas universidades de todo país. Em maio de 2018 a Unicamp (Universidade de Campinas), por exemplo, 38 sistema literário paralelo, sistema este que tem causado a fenda no funcionamento tradicional ao apostar na diversidade dos projetos editoriais que possibilitam não somente enxergar para além das propostas dominantes, como também a regulação do mercado livreiro, que reduzam os danos da invisibilidade que o poder do dinheiro e do capital simbólico forçam a ser critérios nas escolhas de quem será ou não publicado. A fenda está aí para ser vista. Algumas delas, e também outras, já estiveram na Festa Literária de Paraty em edições variadas, festa que incluiu em 2019 um Slam na programação oficial do evento porque já não tinha mais como ignorar a força, constância e importância deste movimento no Brasil. Fora do circuito de Slams, algumas autoras negras também obtiveram bastante reconhecimento da crítica neste período do ciclo do Golpe. Fora do circuito de Slams, porque, como já foi citado neste trabalho, é ainda uma exceção a presença de um negro ou negra de origem não periférica no Brasil. Carina Castro, Lubi Prates, ambas publicadas pela Patuá, Nina Rizzi, que iniciou sua trajetória na periferia de Fortaleza, no Ceará, e hoje tem poemas traduzidos para o espanhol, esloveno e inglês e quase dez livros publicados por editoras como Multifoco, Patuá, Lumme e Douda Correria, em Portugal, é hoje, sem dúvidas, uma das poetas negras mais atuantes do Brasil. Assim como Jarid Arraes, também negra e também cearense, tornou-se uma das autoras mais procuradas no circuito literário brasileiro. Originaria da Região do Cariri, interior do Ceará, a autora é neta e filha de cordelistas. Cordelistas são pessoas que produzem o conjunto das manifestações artísticas ligadas a literatura de cordel, uma tradição literária que remonta ao século XVI, período quem que o Renascentismo começou a imprimir relatos orais e os expor para venda pendurado em cordas ou barbantes em Portugal. A herança da tradição do Brasil Colonial ficou no nordeste brasileiro, celeiro dos maiores nomes do Cordel. Muitos poemas são ilustrados com xilogravuras e as estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações. Jarid em um dado momento viu seu avô e pai idosos e teve medo que a tradição familiar chegasse ao fim, então decidiu perpetuar este caminho. Começou a publicar os folhetos de cordel, atualmente o número ultrapassa 60. Em 2017, então, lançou seu Heroínas Negras Brasileiras pela editora Pólen, obra que conta em forma de poema de cordel a história de 15 importantes ícones da cultura afrodescendente no Brasil que tiveram sua história invisibilizada pelo racismo estrutural, entre elas Tereza de Benguela, Maria Carolina de Jesus e Laudelina de Campos. Com essa obra, Jarid conseguiu unir três campos da subalternidade, o gênero, a raça e o cordel, que é uma manifestação literária popular nordestina que ainda sofre claro preconceito por parte da academia para ser investigado enquanto um campo sério dos estudos literários. Heroínas Negras Brasileiras não foi seu primeiro livro. Antes deste ela já havia lançado, em 2015, Lendas de Dandara, que apresenta em formato de prosa 45 mítica o perfil de Dandara dos Palmares a esposa do líder contra escravidão, Zumbi. Porém, foi no seu segundo livro e justamente por tudo que ele reúne que ela alcançou um lugar cativo na nova literatura brasileira, recorde de venda na Blooks Livraria.É a partir de toda essa apreciação sobre a subalternidade e sobre a extorsão do lugar de fala dos grupos minoritários que se fundamenta o presente trabalho. 46 2. O DIREITO À EXISTÊNCIA E À REPRESENTAÇÃO 2.1 O sequestro da democracia – o “golpe de 2016” Para iniciar uma investigação cientifica que se baseia em estudar um momento histórico o qual lhe é atribuído nome de Golpe faz-se necessário, para além das orientações ou polarizações ideológicas, austeridade para fundamentá-la a partir da leitura dos fatos. Por quais motivos esse acontecimento brasileiro seria um golpe de estado contra a democracia brasileira? A primeira observação necessária é que a democracia no Brasil foi recentemente desenhada com um solo ainda desnutrido dos elementos pilares para construção de uma edificação. Em 1988, com a falência do período de ditadura militar e os traumas trazidos pelo também golpe de 1964, forças democráticas e também conservadoras do país conseguiram se aliar em um momento histórico em torno de um pacto regimentado pela Constituição de 1988. Ainda que a militarização autoritária e a violência de estado estivessem encarnadas na composição identitária brasileira e os cumprimentos dos direitos previstos por esta constituição na sua totalidade estivessem distantes de serem garantidos, foi este pacto que orientou as ações das instituições e poderes brasileiros assim como de sua sociedade civil desde então e até então, garantindo alguma estabilidade política e social ao país entre gestões opiniosamente melhores ou piores, e foi também este mesmo pacto que foi quebrado com as manobras políticas realizadas até ao ponto da situação atual. De forma eleita ou não, o poder do estado brasileiro esteve, por um largo ciclo, governado exclusivamente por forças mais ou menos conservadoras, ligadas aos setores da elite econômica e do capital financeiro brasileiro e internacional. A vitória de Luís Inácio Lula da Silva para presidência da república, um ex-operário e sindicalista de origem humilde e com forte apelo de marketing para essa identidade causou uma fenda no modus operandi vigente dos grupos que se revezavam no poder há décadas, e alterou algumas prioridades, costurando através da sua habilidade diplomática e da conciliação das classes, um acordo de alianças com estas mesmas forças conservadoras, que incluíam programas de distribuição de renda com rebatimentos de uma maior sensação de bem estar social e elevação nos índices sociais e econômicos, entre as principais marcas a manutenção da estabilidade, a retomada do crescimento do País e a redução da pobreza e da desigualdade social. O governo Lula registrou crescimento de 32,62% do PIB (média de 4%) e 23,05% da renda per capita (média de 2,8%). Lula assumiu com a inflação em 12,53% e entregou a 5,90%, ações que sanaram em algum nível o abismo abissal da desigualdade e ampliaram as hipóteses da sociedade de consumo para fim de aceleramento da economia. 47 Ainda que dentro do Partido dos Trabalhadores houvesse pequenos grupos identificados como esquerda radical que buscavam maior aproximação com um sistema mais socialista e menos conciliador, que tentaram forçar o governo ao máximo para as agendas mais populares, estes grupos sempre foram minoritários e a política econômica aplicada pelas gestões petistas seguia os programas de governo e estatuto disponibilizados desde 1989 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que não sugere nem orienta rompimento, e sim a ampliação das relações de classe, adequando-se, portanto, mais a uma gestão à Social Democracia. Ainda assim, certo estado de bem-estar social foi alcançado com a elevação do poder de compra, quando as classes D e E passaram a comer três refeições ao dia e foram apresentada a energia elétrica, e a Classe C alcançou acesso a pequenos bens de consumo como eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, assim como ao turismo nacional e ao acesso às universidades. Programas do Governo Federal como PROUNI e os sistemas de cotas incluíram a classe C na universidade e ações pontuais falavam sobre proteção e equidade às mulheres, negros, indígenas e a comunidade LGBTQ. Essas ações e programas unidos ao apelo popular da imagem emergente do Lula ampliava a sensação democrática no País. A classe trabalhadora não chegou a obter uma ascensão substancial, mas índices levaram-na a existir, deixar de ser invisível nos espaços públicos que, até então, não as pertencia, que eram de uso exclusivo da burguesia, como aeroportos e universidades, na disputa pelas vagas de trabalho; o suficiente para incomodar uma classe média herdeira dos eticamente duvidosos costumes escravocratas brasileiros que não ficaram congelados no período colonial. Porém, erros estratégicos do Partido dos Trabalhadores desde a concepção dos programas de governo como a negação a pautas históricas defendidas (a reforma agrária ou a democratização dos meios de comunicação, por exemplo) nas gestões de Lula e sua sucessora Dilma, unidas a uma guerra midiática que transformou a operação Lava-Jato num espetáculo onde a PT era o alvo e foi transformado em único culpado pela corrupção sistêmica do País, provocaram feridas nas bases populares do governo. Este afastamento foi sentido e instrumentalizado pelos opositores que precisavam de um momento de perda de força do projeto petista para começar, numa série de protestos convocados pelas redes sociais realizados em 2013 e, em seguida, na Copa do Mundo do Brasil, a manipular o ódio de classe com falsas notícias para serventia ao ódio a um ‘inimigo comum’, nasceu aí o fenômeno do anti-petismo. A campanha de 2014, que bancava o nome do candidato Aécio Neves (PSDB), neto do expresidente Tancredo Neves, abriu ofensiva contra a candidata que, contudo, foi eleita numa votação apertada; resultado boicotado antes mesmo de ser divulgado com tentativas de impugnação das eleições e sucedido de uma dezena de ações por parte dos antigos grupos no intuito de inviabilizar a 48 governabilidade da, então, presidenta após sua posse, levando-a a alargar o distanciamento com a base do seu eleitorado em nome da governabilidade quando abriu mais concessões às elites econômicas e aplicou a política econômica de Joaquim Levy que, na prática, resgatava as teses fundamentais do liberalismo de direita, defendido por Aécio Neves, o candidato derrotado. Com o governo da Dilma obstruído, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha - atualmente preso por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão fraudulenta de divisasacatou o pedido de Impeachment da advogada Janaína Pascoal fundamentado nas ‘pedaladas fiscais’, enquadrando-as enquanto crime de responsabilidade fiscal. As ‘pedaladas fiscais’, em essência, são práticas heterodoxas de fiscalidade que se baseiam em antecipações de financiamentos bancários públicos para o governo a fim de encaminhar os projetos de gestão, prática administrativa recorrente utilizada por todos os governos anteriores assim como pelo governo que a sucedeu, e que juridicamente não caberia processo de deposição de um chefe de estado não fosse o fato que os poderes brasileiros, executivo, legislativo e judiciário já não tinham mais interesse numa gestão de governo de conciliação e desempenharam uma série de manobras políticas e jurídicas para garantia do fim da era petista no país. A situação foi revelada e comprovada publicamente após o vazamento de um áudio divulgado nos principais meios de comunicação do País onde o atual Senador da República e líder do governo no Senado Federal, Romero Jucá (PMDB) – na altura, Ministro do Planejamento-, fala claramente ao telefone sobre o acordo de golpe com ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, ao citar a frase que tornou-se popular ‘Um grande acordo...com o Supremo, com tudo’, referindo-se aí ao pacto que iria frear a operação Lava-Jato, ação que incluiu os poderes não somente executivo e legislativo, como também o judiciário Brasileiro; de onde esperava-se, portanto, imparcialidade. O áudio também atribui ao então vicepresidente, Michel Temer (PMDB), presidente interino até o final de 2017 no papel de ser a imagem e figura para unificar o acordo de derrubada da presidenta, a face do golpe com real intuito de proteger o alto escalão da política; induzido e articulado por iniciativa da elite econômica e mais especialmente pelo capital financeiro – que mexeu nas regras do jogo da democracia vigentes até então, judicializou a política e partidarizou a justiça. Para finalizar o caráter golpista com fins políticos, o TRF-4 passou à frente de centenas de pautas o caso do suposto apartamento tríplex atribuído ao ex-presidente Lula na operação Lava-Jato, até hoje sem comprovação concreta, configurando um tratamento diferenciado, que conclui com a determinação de prisão considerada juridicamente ‘incomum’ e ‘atípica’ pela celeridade dada pelo Juíz Sérgio Moro ao caso. Isso porque o TRF-4 enviou o ofício ao juiz Sergio Moro considerando "exaurimento dessa instância recursal" e permitindo a execução da pena às 17h31 e as 17h53, o magistrado divulgou seu despacho 49 determinando que o ex-presidente se apresente à sede da Polícia Federal em Curitiba até às 17h do dia seguinte. Condenado a 12 anos e 1 mês de prisão pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso tríplex do Guarujá (SP), Lula teve que começar a cumprir a sentença em regime fechado sem que tivesse ainda esgotado todas as possibilidade de recursos em tribunais superiores, o que segundo a especialista em Direito Processual e Penal, Flaviane Barros, em entrevista a BBC, são “violações no mandado expedido por Moro” e “um desrespeito ao direito à ampla defesa que seria inconstitucional". Ao determinar a prisão de Lula sem observar o período limite para a defesa oferecer seus últimos recursos, o juiz, segundo ela, teria ferido a "presunção de inocência", que leva parte considerável da população a crer que o objetivo sempre foi retirar o ex-presidente e também candidato a presidência mais citado em todas as pesquisas realizadas da corrida eleitoral de 2018 para manutenção do bom andamento do plano do Golpe palaciano e parlamentar, que foi impedido de concorrer deixando o Partido dos Trabalhadores com o nome do professor Fernando Haddad como plano B de uma candidatura que tentou trabalhar na transferência de votos, mas não vingou o suficiente para vencer. Para selar o envolvimento e a parcialidade do julgamento da forma mais reveladora, a vitória de Jair Bolsonaro efetiva Sérgio Moro, o juiz responsável pelo caso do julgamento do ex-presidente Lula, no cargo de Ministro da Justiça do Brasil, e, em seguida, indica-o ao Supremo Tribunal Federal. Mais adiante, em 10 de junho de 2019, o portal The Intercept Brasil publica reportagens com troca de mensagens privadas entre Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol sobre o andamento da Operação Lava Jato onde Moro sugere que o procurador troque a ordem das fases da operação, cobra agilidade, antecipa decisões, dá conselhos estratégicos e pistas informais, sugere recursos ao Ministério Público em tom de ordens, como se fosse seu superior hierárquico, denotando interferência direta no órgão acusatório, assim como conversas reveladoras sobre o papel do Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, um pedido de moro para auxílio no caso do assassinato do ex-prefeito Celso Daniel (PT) assassinado em 2002 e uma suposta ‘articulação com americanos’. A investigação desmoraliza toda institucionalidade jurídica e coloca em xeque a imparcialidade do ministro quando era responsável pelo julgamento em 1ª instância de diversos casos de corrupção pela 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, dentre eles, o caso do tríplex no Guarujá, que levou à prisão sem provas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e inviabilizou sua candidatura a presidência da república. A Constituição brasileira estabeleceu o sistema acusatório no processo penal, no qual as figuras do acusador e do julgador não podem se misturar. Nesse modelo, cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alegações de acusação e defesa, sem interesse em qual será o resultado do processo. Mas as conversas entre Moro e Dallagnol demonstram que o atual ministro se intrometeu no trabalho do Ministério Público – o que é proibido – e foi bem recebido, atuando informalmente como um auxiliar da acusação, afirma o Intercept.(Retirado de https://theintercept.com/2019/06/09/chat-moro-deltan-telegram-lavajato/no dia 10 de julho de 2019) 50 Toda essa celeuma do ciclo do Golpe causa, desde então, não somente crise política e econômica pela via da ruptura democrática e violação da soberania popular, como o desmantelamento das noções éticas e morais, o descrédito nas instituições, a sensação de instabilidade social e vulnerabilidade dos indivíduos, assediadoras, por si só, assim como contribuintes do despertar emergente do fascismo como subproduto do liberalismo, fascismo este adormecido desde a criação da constituição de 1988, símbolo empírico da redemocratização do Brasil. A sequência de fatos calhou na ascensão e vitória de uma candidatura de extrema direita no País sob a liderança do ex-deputado e ex-militar reformado Jair Messias Bolsonaro (PSL), que ficou conhecido pelo advento das redes sociais por proferir temas de violência, compôs sua chapa a um general que defende publicamente a redação de uma nova constituição com participação apenas de ‘poucos notáveis’, sem dedo popular e executou uma espécie de dinastia das bananas, onde seus filhos e parentes circulam livremente pelos corredores e dão ordens no planalto central, onde o seio do governo mistura um falsário fundamentalismo religioso para abafar e proteger uma rede de poder oculta e marginal que relativiza os próprios crimes, age com naturalidade aos próprios desvios de conduta e ainda levará tempo para ser totalmente desmascarada. O novo presidente eleito e seu grupo formado por ultra-conservadores, militares e fundamentalistas religiosos instrumentalizado pelo capital financeiro internacional, assumiu seu mandato em 01 de janeiro de 2019, data que se iniciou um outro ciclo para o mesmo Golpe, que neste trabalho chamaremos de Segundo Ciclo do Golpe. A partir daí, é verdadeiramente revelada a priorização das agendas fascistas e anti-nacionais, entre elas a pauta de ‘desideologização’ da educação vide o projeto ‘escola sem partido’ que deseja acabar com um suposto marxismo cultural das escolas, aprovação das propostas armamentistas, da retirada de uma sequência de leis relacionadas aos diretos da maioria do povo brasileiro, como trabalhistas, fiscais e de previdência, como também ao cumprimento de uma agenda que inclui, ainda, posturas internacionais desastrosas com declarações perigosas sobre os países do oriente, intromissão inconsequente no conflito dos EUA pelo petróleo venezuelano interrompendo uma sequência histórica de paz internacional no território brasileiro, entrega de riquezas do patrimônio nacional a mãos estrangeiras e desmonte e corte de verbas para educação, principalmente para as Universidades e seus setores de pesquisa e bolsas científicas – inviabilizando, inclusive, a possibilidade de continuidade do trabalho de muitas instituições; tudo isso desaguou sob um Brasil que hoje definha e agoniza, pessimista por alternativa única, imoral e violento não somente do ponto de vista da segurança pública, mas do ponto de vista éticoe social, um país que demoniza seus professores, intelectuais e cientistas, inviabiliza a produção intelectual com corte de verbas, e torna artistas e produtores da cultura 51 os inimigos numero zero da nação, conduzindo a estes a imagem de vagabundos parasitas sugadores do dinheiro público. Nesse momento, vem a calhar buscar respostas para a pergunta: o que esperar do fazer literário e das leituras em lugares onde a crise é particularmente intensa, seja em contexto de guerra ou de repetidas violências, de deslocamento de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas? Em meio a toda esta problemática, o fazer literário mostrou-se potente e erguido, ignorou as mordaças e fez-se visível e vocal para questionar a nação a partir das suas margens e pare reivindicar na escrita o território vivo das vozes silenciadas. Por tudo isto, é prudente a investigação da recente e importante produção literária brasileira, especialmente a poética, deste período de Golpe entre 2012 e 2018 e seus desdobramentos até as últimas consequências, com a eleição do candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) a presidência da república. Dessa forma, será possível perceber como a poesia nos conecta com maior inteligibilidade ao presente histórico amplamente quando sua relação circunstancial é ampliada para além dos acontecimentos e torna-se um olhar em perspectiva e como reivindicar o território literário não está separado da reivindicação do direito à existência. Faremos isso a partir dos estudos aprofundados das obras em seus recortes temáticos de gênero, raça e classe que acompanharam as pautas e agendas da sociedade brasileira. Ainda que seja cedo para designar esta produção como um movimento, atrevemo-nos neste trabalho a agrupá-las pela primeira vez considerando as características que unem estas iniciativas estéticas; o poema em verso ou prosa, a voz subalterna e a ligação a este ciclo histórico brasileiro, sua utilidade simbólica e material. 2.2 As respostas poéticas na literatura brasileira contemporânea – caso Marielle O episódio da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) é um caso específico que precisa ser destacado e estudado como elemento único nas respostas poéticas de resistência da nova literatura brasileira. O espanto com o que viera a ocorrer na noite de seu assassinato, no Rio de Janeiro, causou uma comoção profunda, conduzindo a figura de Marielle a um poder simbólico da representação da ameaça a existência levada às últimas consequências. Marielle foi morta em 14 de março de 2018, ano eleitoral no Brasil em um período ainda nebuloso quanto à formação das frentes e coligações. A essa altura, o nome do deputado do PSL Jair Bolsonaro, atual presidente, já crescia nas pesquisas e apontava para uma polarização política ainda mais acirrada. Por outro lado, a Operação Lava Jato definia o destino do ex-presidente Lula que era pré-candidato, no sentido de dar impedimento ao prosseguimento de sua postulação a presidência. Socióloga feminista e 52 ativista negra, ela foi executada no Rio de Janeiro com três tiros na cabeça e um no pescoço dentro de um veículo de retorno de um evento na Lapa, no bairro do Estácio. Nascida na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, a vitima não somente era vereadora pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) - eleita em 2016 com mais de 46 mil votos -, como era uma das principais vozes na defesa dos Direitos Humanos do Brasil, atuando no combate contra o racismo e a violência policial contra a população negra nas comunidades periféricas cariocas, trabalho iniciado na Maré e expandido na sequência da ampliação de sua atuação política. Conhecida como nome de denúncia aos abusos de poder do Estado, atuou em organizações como o Centro de Ações Solidárias da Maré, Complexo de Favelas, Brasil Foundation e havia coordenado (ao lado do deputado estadual Marcelo Freixo, que já sofreu diversas ameaças por parte de milícias de dentro da polícia carioca), a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A vereadora havia sido eleita para relatora da comissão da Câmara organizadora de acompanhamento da Intervenção Militar, criada para monitorar as ações do interventor militar do Rio de Janeiro, atividade que coleta e análise de dados, avaliações, pesquisas para garantir o controle social da intervenção, fato que aumenta a suspeita de crime político com intenção de silenciar por definitivo a atenção da parlamentar para as questões complexas da segurança pública. As investigações concluíram, ainda, que a arma que matou Marielle era uma pistola 9 mm, e as balas identificadas como de um lote vendido para a Polícia Federal de Brasília em 2006, que segundo o Ministro da Segurança, foram roubadas em um assalto a sede dos correios na Paraíba em julho de 2017. O lote é o mesmo de parte das balas utilizadas em uma chacina em São Paulo, em 2015, e também nos assassinatos de 5 pessoas em guerras de facções de traficantes em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Para a polícia, os assassinos observaram Marielle antes do crime, porque sabiam exatamente a posição dela dentro do carro. Os criminosos fugiram sem levar nada. Oito dias antes de ser executada, Marielle havia recebido denúncias sobre o assassinato de dois homens na Favela de Acari, zona norte do Rio, que tiveram os corpos jogados num valão. Para os moradores, por causa da intervenção promovida por Temer, a Polícia Militar sentia-se com ‘licença para matar’. A vereadora compartilhou a notícia em seu perfil nas redes sociais com tom de denúncia: ‘Somos todos Acari! Parem de nos matar! Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari neste momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nesta semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje, a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre, com a intervenção ficou ainda pior”. (Marielle, 2018) 53 O Assassinato de Marielle tomou proporções de fenômeno histórico e sociológico no Brasil, com gigantesca repercussão internacional e mobilização dos movimentos sociais e entidades dos direitos humanos. Não somente pelo teor simbólico de sua morte; mulher, negra, lésbica e periférica que rompeu as barreiras do silenciamento e da representatividade pra se tornar voz potente na luta contra as forças hegemônicas de poder, como pela conjuntura e momento político que se dá esta morte e sua representação. Diante do cenário, a execução de Marielle foi um estopim simbólico para um movimento de novo fluxo literário que nasceu conjuntamente os episódios conjunturais desde 2013, uma primavera literária com respostas estéticas atentas às vozes que vem sendo silenciadas na tentativa de acrescentar a nova compreensão da realidade e disponível para reinterpretar o mundo a partir de uma ótica que fure os bloqueios do discurso hegemônico. Desde então e até então, foram publicados poemas em zines, blogs e afins, preparadas antologias, estudos científicos e revistas literárias com o tema ‘Marielle’, um fôlego para remar na contra-maré das estatísticas brasileiras já trabalhadas na fase introdutória desta dissertação. As iniciativas dentro da temática “Marielle” são relevantes porque respondem a um contexto histórico questionável, porém violento, utilizam a abstração e subjetividade literária pra contar uma história que, possivelmente, seria invisibilizada pelos meios de comunicação formais em uma tática de apagamento, e forçam a porta para inserir-se neste contexto, causando uma fenda necessária no sistema literário que trabalha confinando a produção a modos operativos, a concepções de vida e, às vezes, a recursos literários longamente recorrentes no desenvolvimento de uma literatura (RAMA, 2001, p.224) As respostas poéticas surgidas a partir da execução de Marielle tocam em assuntos silenciados, como racismo, misoginia, genocídio do povo negro pelas mãos do estado, violência, direitos humanos e questões de classe. Ultrapassam o episódio para experiências literárias atemporais agarrados a mortesímbolo de uma mulher que não aceitava ser silenciada porque estava fora dos padrões de cor, raça e econômico. A professora doutora Regina Dalcastagné, da Universidade de Brasília (UNB), defende que a literatura não deve caminhar a parte das críticas como se fosse uma arte superior ou intocável, e que é mais um discurso social para ser contestado e debatido: A perspectiva geral das obras é de classe média, e fala muito sobre como essas pessoas são vistas ou pouco vistas, porque no Brasil existe esse muro social. Convive-se pouco com pessoas de outras classes, e mesmo quando se convive, não se enxerga quem elas são (Retirado de https://revistacult.uol.com.br/home/quem-e-e-sobre-o-que-escreve-o-autorbrasileiro/ em 10 de junho de 2018) Em uma perspectiva hermenêutica acerca especificamente da natureza da linguagem poética, suas particularidades, suas formas de manifestação e suas possíveis relações com outros gêneros, é 54 3. RESPOSTAS POÉTICAS AO GOLPE 2016 3.1 Angélica Freitas Em 2012, Angélica Freitas lançou seu segundo poemário, Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Nayf, 2012), que foi alçado a responsabilidade de ser um abre alas da nova poesia produzida por mulheres no Brasil. A própria autora, que tem formação de jornalista, conta que encarou a produção do livro como uma investigação arquitetada para ser tratar da questão do feminino sob uma ótica e, principalmente, sob uma construção estética e de linguagem que não se teve conhecimento anteriormente no País. Angelica é a primeira e, possivelmente, a mais importante de uma geração de autoras nascentes da quarta onda do feminismo no Brasil, não somente porque seu trabalho abriu a porteira para as que vieram em seguida, como pela qualidade dos poemas alí trabalhados que, recentemente, foram alvo de uma monção de repúdio na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, numa tentativa de censura a adoção da obra enquanto leitura obrigatória aos candidatos ao ingresso nas universidades públicas deste Estado. Para este trabalho, elegi quatro poemas a serem estudados. Primeiro, uma sequência de três poemas curtos que compõem o primeiro bloco introdutório do livro intitulado “mulher limpa”, que tem um total de 14 poemas. Depois, o poema que dá nome ao livro, Um útero é do tamanho de um punho. porque uma mulher boa é uma mulher limpa e se ela é uma mulher limpa ela é uma mulher boa há milhões, milhões de anos pôs-se sobre duas patas a mulher era braba e suja braba e suja e ladrava porque uma mulher braba não é uma mulher boa e uma mulher boa é uma mulher limpa há milhões, milhões de anos pôs-se sobre duas patas não ladra mais, é mansa é mansa e boa e limpa (FREITAS, 2012, p 8) 61 Neste primeiro poema, que abre o livro, opta-se por quatro estrofes de 4 versos, dando uma sensação de homogeneidade ao texto. A repetição é eleita como recurso para dar ritmo forte a leitura e deixar clara a motivação de existir da obra, a mulher, cuja palavra aparece 9 vezes e abre o espaço para a sequência das outras palavras mais repetidas, boa, limpa, suja, braba, mansa, uma vazão aos estereótipos femininos que no mesmo poema são construídos e descontruídos pela autora. O poema defende um conceito de que é a mulher contemporânea atual e seu padrão de comportamento são uma construção social quando relembra que ‘há milhões de anos pôs-se dobre duas patas’ e que neste tempo ela era ‘braba e suja e ladrava’. Estabelece, ainda, contrastes para deslocar os significados do que é ser mulher como quando usa limpa – suja, braba – mansa. No poema não há a presença da palavra má, embora esteja alí a mulher má presente de diversas formas. E é com essa mulher mádiluída no texto que ela joga para questionar com ironia o conceito hegemônico do que é ser uma ‘mulher boa’ para a sociedade, que neste caso, é a mulher limpa. Agora observem o segundo poema da sequência: uma mulher muito feia era extremamente limpa e tinha uma irmã menos feia que era mais ou menos limpa e ainda uma prima incrivelmente bonita que mantinha tão somente as partes essenciais limpas que eram o cabelo e o sexo mantinha o cabelo e o sexo extremamente limpos com um xampu feito no texas por mexicanos aburridos mas a heroína deste poema era uma mulher muito feia extremamente limpa que levou por muitos anos uma vida sem eventos (FREITAS, 2012, p 9) Neste poema, foi eleito o esquema de quatro estrofes com alternâncias de quatro e cinco versos. Aqui, a repetição de palavras continua tanto como recurso rítmico como fortalecedor da ideia, porém, a presença da palavra ‘mulher’ já é drasticamente reduzida para duas, embora esteja implícita no poema em todos os versos. Pode-se observar a presença de, pelo menos, três mulheres distintas: a mulher 62 central, a irmã e a prima. A prima bonita limpava somente as partes principais, a irmã menos feia era mais ou menos limpa, e nossa protagonista, a mulher muito feia e extremamente limpa que passou uma vida sem eventos, ou seja, uma vida morna, mansa, sem surpresas. Mais uma vez os contrastes estão presentes em feia-bonita, mas desta vez a palavra ‘suja’ não é substituída por ‘mais ou menos limpa’. A mulher limpa é a chave, chamada de heroína no poema, cujo estereótipo social construído é citado e desconstruído com certo tom de ridicularização e sarcasmo. uma mulher sóbria é uma mulher limpa uma mulher ébria é uma mulher suja dos animais deste mundo com unhas ou sem unhas é da mulher ébria e suja que tudo se aproveita as orelhas o focinho a barriga os joelhos até o rabo em parafuso os mindinhos os artelhos (FREITAS, 2012, p 10) Para este poema, é trazida uma nova mulher, a ébria. Separado em três estrofes de quatro versos, o significado de ‘o que é ser mulher’ se amplia ancorado no estereótipo da mulher bêbada, que obviamente é suja, o contrário da sóbria, que é a nossa mulher limpa da vez. Mas diferente dos poemas anteriores, é a mulher suja a chave deste poema, e para muito além da ideia de desconstrução dos tipos de mulher, o texto desenha progressivamente uma imagem na cabeça do leitor, conduzido mentalmente por uma ponte que o leva da mulher ébria e suja até sua animalização, figurada pelos elementos da descrição de um porco, animal comumente utilizado enquanto simbologia de sujeira ou imundice reprovável, utilizado no texto como metáfora. Aqui a palavra ‘mulher’ é repetida cinco vezes, somado aos recursos de contrastes entre sóbria-ébria, limpa-suja, que provocam no leitor uma expectativa sobre estes estereótipos e como eles serão tratados no poema. Os três poemas sequenciados são visivelmente complementares. Não por acaso a temática da mulher limpa foi opção da autora. A limpeza e o asseio estão entre os principais padrões estabelecidos as mulheres, que segundo a estruturação social, deve não somente estar limpa, cuidar de sua limpeza, como de toda limpeza social. As mulheres são as responsáveis pela limpeza de sua casa, da roupa, sua e de toda família, devem estar banhadas, não conter pelos, livrar-se de pelos que são coisas de homens. 63 Angélica joga, portanto, com um dos mais fortes estereótipos, convencionados e estruturados no seio da sociedade patriarcal que gera as regras de condução dos comportamentos femininos. O quarto e último poema da Angélica Freitas a ser estudado é, como já foi dito, o que batiza a obra. Este poema já arremessa o leitor de uma temática simples, a da mulher limpa, para um assunto espinhoso e polêmico, a questão do abordo e dos direitos reprodutivos da mulher. O texto é imagético, nos transporta para o dia do aborto de uma mulher através de uma linguagem coloquial, mas também sofisticada. É longo e de estrutura ampla, por isto elegi comentá-lo de forma fragmentada, dividindo-o em três partes e comentando as estrofes que julgue necessário. PARTE I um útero é do tamanho de um punho num útero cabem cadeiras todos os médicos couberam num útero o que não é pouco uma pessoa já coube num útero não cabe num punho quero dizer, cabe se a mão estiver aberta o que não implica gênero degeneração ou generosidade ter alguém na palma da mão conhecer como a palma da mão conhecer os dois, um sobre a outra quem pode dizer que conhece alguém quem pode dizer que conhece a degeneração quem pode dizer que conhece a generosidade só alguém que sentiu tudo isso no osso, o que é uma maneira de dizer a não ser que esteja reumático ou o osso esteja exposto O poema abre com uma estrofe que sequencia 20 versos de uma só vez. Nos primeiros cinco versos usa quatro vezes a palavra ‘útero’, assumindo-se na repetição o recurso que dá a potência necessária para que o leitor não tenha dúvidas de qual tema se vai tratar no texto. O primeiro verso “um útero é do tamanho de um punho”, disse a autora, foi extraído de uma pesquisa técnica sobre corpo humano que fazia na internet. Esta comparação prática e material do estudo citado pela autora referente ao tamanho do órgão feminino foi transformado numa metáfora nesta obra, uma metáfora que diz respeito a luta das mulheres pelos seus direitos, e neste caso pelos direitos reprodutivos, comumente definido por homens que não tem útero, mas que gerenciam os úteros do mundo. O útero é um órgão restritamente feminino, e o punho está simbolicamente ligado a força e a luta. É frequentemente visto em materiais de propaganda relacionado a luta por direitos, sejam quais forem, é frequentemente usado 64 por activistas que ao erguerem transmitem a mensagem que seguem na luta, e não estão se rendendo. Quando o útero é do tamanho de um punho, a comparação traveste o órgão de punho, que ao mesmo tempo transforma o útero no símbolo de uma luta. Na sequência dos versos, o poema lembra que todos os humanos vivos já passaram pelo útero, incluso os médicos, os que fazem o aborto ou os que não fazem, e finaliza numa sequência de versos que tratam sobre alguém que conhece o assunto que está tratado, o aborto, porque já o sentiu na carne, no próprio corpo, no próprio útero. imitiri i ditiminhidiimpinhi quem pode dizer tenho um útero (o médico) quem pode dizer que funciona (o médico) i midici o medo de que não funcione para que serve um útero quando não se fazem filhos para quê piriqui se tenho peito tenho dois o mesmo vale pros rins tenho duas orelhas minis i vincintvingigh piriqui Nessa sequência de estrofes com formas variadas e versos livres, o poema utiliza recurso de linguagem contemporânea de internet para satirizar as pessoas que falam do que não sabem, contrapondo a primeira longa estrofe que tratava de alguém que tinha propriedade do tema. Nele, uma pergunta chave: ‘para que serve um útero quando não se fazem filhos’, um verso que aborda a normatividade social que conduz a mulher para maternidade compulsória como se ela estivesse destinada a isto pelo fato exclusivo de ter um útero. “piriqui” é uma linguagem extraída da internet e significa a ridicularização do que está sendo dito. úteros famosos: o útero de fridakahlo o útero de goldameir o útero de mariaquitéria o útero de alejandrapizarnik o útero de hilaryclinton [o útero de diadorim] 65 kahlo na sala de espera meir dos óvulos de ouro quitéria de modess na guerra pizarnik decerto tampax clinton não tem medo de espéculos na maca fria [mas diadorim nunca foi ao ginecologista] um útero expulsa os óvulos óbvios vermelho = tudo bem! istitidibim viciniistigrividi um útero é do tamanho de um punho num útero cabem capelas cabem bancos hóstias crucifixos cabem padres de pau murcho cabem freiras de seios quietos cabem as senhoras católicas que não usam contraceptivos cabem as senhoras católicas militando diante das clínicas às 6h na cidade do méxico e cabem seus maridos em casa dormindo cabemcabem sim cabem e depois vão comprar pão Nesta sequência são quatro estrofes, cada uma delas com versos diferentes; sete, oito, seis, dezesseis. São 37 versos que abordam, agora, a vigilância social para o útero da mulher. Começa fazendo referências de mulheres que sofreram com o tribunal em cima de seu corpo, incluso aí um personagem da ficção, Diadorim, um personagem de Grande Sertão Veredas, do escritor Guimarães Rosa, uma heroína donzela e guerreira que nega o feminino para viver na liberdade, e mantém-se viva quando se faz homem e esconde seu corpo, mas morta quando é possível ver sua nudez, simbologia potente do autor para demonstrar as relações de poder e da dominação de gênero que moram no corpo, e referência habilidosa da autora no poema. Os versos seguintes constroem a imagem das mulheres, uma ou muitas, ao ir ao médico, ou não ir, que é o caso de Diadorim, mas cuja mensagem principal é a do verso ‘viciniistigrividi’, ou ‘você não está grávida’ como quem zomba e ridiculariza esta informação. A última estrofe, a mais longa, trata agora da vigilância da igreja no útero feminino, e faz uma referência 66 biográfica de uma situação passada pela autora ao acompanhar uma amiga a um aborto na cidade do México. repita comigo: eu tenho um útero fica aqui é do tamanho de um punho nunca apanhou sol um útero é do tamanho de um punho não pode dar soco questões importantes: movimentação da bolsa sacas de soja reservas de água barris de petróleo voltemos ao útero: manhamanha pata de aranha quem manda nas entranhas de mamãe tirutiru lerolero ______ a-b-o-r-t-o-u eu não posso Nesta Parte I é finalizada com estrofes curtas de queriam entre um e quatro versos. É marcado pela repetição do tema e pelo fortalecimento do conceito de útero enquanto instrumento de luta pelos direitos reprodutivos. Passa por um momento de distração para falar sobre poder econômico – movimentação da bolsa, sacas de soja, reservas de água, barris de petróleo -como uma referência sobre quem manda nos direitos reprodutivos da mulher, conduzida a ser uma propriedade, meio produtivo e reprodutivo social. O último verso é também o marco da passagem do poema, que até então estava tratando diretamente do aborto através de versos livres, na transmissão de um momento caótico, desorganizado, doloroso, problemático, para uma divisão mais formal. O que vem agora, a Parte II, serão dez estrofes, nove delas seguidas de 4 versos cada uma, e a última com dois versos, numa sequência que demonstra uma passagem. 67 PARTE II cana-de-açúcar está na prisão batatinha quando nasce vai visitar um tiro para o ar e outro para o pé a menina que namora me deve um favor um biscoito te dei um biscoito pedi quem pediu um biscoito não está mais aqui o caminho é longo o cavalo é maduro comerei deste cavalo só se for no escuro a cigana leu-te a sorte disse que vais morrer como é que leu a morte se ela não sabe ler se a bunda fosse na frente e os peitos fossem atrás livros abundariam pra instruir o rapaz comprei doce à freira lá em quiriquiqui não tinha tiramissu entãomitiradaqui matei a minha porquinha lá na beira do rio o pato que não era bobo sumiu a menina que não estuda vai puxar carroça a égua foi à escola ficou do lado de fora vinividivici piriqui 68 Nestas 10 estrofes, nota-se a quebra de um texto fragmentário para uma fase de maior linearidade. Esta quebra acontece com a chegada das sequências de estrofes de quatro versos que vão gradualmente sendo mais rimadas e, em seguida, cadenciando para menos rimas. As duas primeiras estrofes não contém rimas, as duas estofes seguintes, há a construção de duas rimas. A estrofe do meio já está no esquema ABAB e as seguintes retornam as poucas rimas até novamente cessarem na nona estrofe. Esta divisão transmite uma sensação rítmica harmoniosa, como quem objetivamente tenta desenhar a chegada de um cenário mais suave e linear que o anterior, caótico, com rimas fáceis que beirariam o infantil caso não fosse fácil perceber o sarcasmo agarrado a esta linguagem, como quem desdenha falando o óbvio, como quem fala o óbvio didaticamente para uma criança. Nesta fase, a mulher que abortou foi presa. A polícia é outro elemento na vida da mulher, a mulher que se torna criminosa quando ousa decidir sobre seu próprio corpo. Outra vez os versos abusam da linguagem retirada dos memes de internet, num deboche constante da situação, também estão presentes ditados e cantigas populares, assim como onomatopeias usadas enquanto recurso para um humor ácido. PARTE III prezadas senhoras, prezados senhores, excelentíssimo ministro, querida rainha da festa da uva, amigos ouvintes, brasileiros e brasileiras: apresento-lhes o útero errante o único testado aprovado que não vai enganchar nas escadas rolantes nem nas esteiras dos aeroportos o único com passe livre nos estados schengen querida amiga, dicas para conservar melhor o seu útero: a gente nunca sabe quando vai precisar do nosso útero – em repouso é tão pequeno e precioso por isso é bom mantê-lo num lugar seguro longe da luz a uma temperatura de 36 graus se alguém insistir para vê-lo 69 diga: bem rapidinho não faça barulho caros alunos: hoje vamos dissecar o útero daquela que foi uma das maiores cantoras nacionais como já devem saber temos aqui, preservado em vinagre num frasco de fruta em calda o útero de carmemmiranda o útero de carmemmiranda o útero de carmemmiranda peguem as colheres e as cremeiras se necessitarem usem babeiros mas em nome da ciência não sujem os vestidos Uma nova quebra no poema pode ser observada, como se mais uma fase tivesse sido ultrapassada nesta corrida da vida de quem tem um útero. As estrofes de quatro versos e com rimas foram deixadas pra trás para dar lugar a três estrofes longas, duas delas com 14 versos livres e a uma com 16. As novas mudanças no estilo configuram o poema por definitivo como um texto de escrita imprevisível e pouco convencional. Seu experimentalismo na linguagem chega a ser tão subversivo quanto o tema abordado no poema. Nestas três novas estrofes, a autora joga com o imaginário da linguagem clássica de comunicação oral através de paródias. Na primeira desta sequência se dirige a supostos ouvintes como um radialista que apresenta um novo produto ao mercado, neste caso, o útero errante; a segunda resgata a linguagem das reportagens de revistas femininas com um verso inspirado nas listas de dicas de saúde muito comuns ‘dicas para conservar melhor seu útero; por fim, a última estrofe remonta uma sala de aula de ciências onde vão dissecar o útero da Carmen Miranda como quem disseca um sapo. Angélica não é direta em nenhuma palavra, mas diz tudo o que quer dizer deixando implícito no texto o problema do poema: ter um útero implica a ter um corpo que não é seu, que não lhe pertence. Parte IV apêndice: alguns fatos que rimam sobre o útero: o útero fica entre o reto e a bexiga 70 simbologia, e assim Adelaide remonta em sua obra uma maquete do funcionamento da sociedade através daqueles que compõem este sistema; a escrivã, a delegada, o médico, o inquérito, as vestimentas, os caroços de azeitona, o grupo de ajuda, o juiz; a máquina inteira social articulada de modo que garanta a manutenção da violência histórica e as humilhações cotidianas desta mulher. Mas nada disso é feito em linguagem direta. É a voz poética que nos conta seu fluxo de pensamentos, gera um jogo psicológico com o leitor e permite adentrar na sua cabeça, sentir suas emoções e passar pelos seus constrangimentos até que, afinal, o leitor conclui que para pensar em construir relações de gêneros justas será preciso redesenhar um outro modelo de sociedade da raiz, será preciso um novo sistema que não este o qual a voz se confronta em tantas instâncias. 3.3 Bruna Mitrano “Não” é o único livro da Bruna Mitrano. Foi publicado em 2016 pela editora Patuá. Nascida em 1985, é de uma região periférica do Rio de Janeiro muito distanciada do centro econômico e é de uma geração onde centenas de jovens de sua região puderam entrar em universidades federais graças aos programas sociais iniciados pelas gestões petistas. Não é uma recusa da derrota de alguém a quem só lhe resta resistir. A autora não recusa certo caráter biográfico nos poemas. O livro fala do que Bruna passa e observa passar num bairro pobre e violento. Diferente das autoras anteriores que estudamos neste trabalho, Angélica e Adelaide, ela não vê graça no que conta, nem acha nada ridículo. As feridas estão abertas, não há espaço para sarcasmos, ironia ou piada. No lugar disso, promove um diálogo entre os poemas e ilustrações feitas a punho, poemas desenhados que dão ao texto a condição ainda mais nítida da profunda melancolia e desamparo, o que torna a experiência da leitura ainda forte e consequente. O eu poético de Não é a própria Bruna, ou talvez seja uma vizinha da Bruna, ou ambas a criarem juntas uma poética sutil da selvageria. Para este trabalho, elegemos dois poemas. Não por acaso, estão sequenciados, porém, intercalados por ilustrações. Puta que pari um bicho morto risco indócil na coxa barulho oco dos coágulos esbofeteando a água da privada estilhaços imagens o enquadramento impreciso aparar as arestas até triturar os ossos do rosto as unhas perfuram lentas a boca grande calada é preciso fugir pelas beiradas sem alarde (MITRANO, 2016, p 16) 77 Este primeiro pequeno poema de uma estrofe com nove versos diz a que veio no primeiro segundo. A voz poética usa uma palavra vulgar como susto e, antes mesmo de terminar, emenda com a metáfora mais dolorosa do poema: um bicho morto, eleito pra representar o feto que ela expulsa em um aborto. Segue o texto a falar dos detalhes daquilo que viveu, o som do sangue na água da sanita, a técnica de curetagem a triturar os ossos do rosto do feto ou talvez ‘a triturar os ossos’ seja uma metáfora para o delírio nascido da dor. A voz poética não tem meias palavras, não romantiza o ato nem para o bem nem para o mal, apenas constata o aborto adicionando sutileza à experiência traumática. Mas o que ela, a voz, deseja com o poema é levantar uma questão: mulheres abortam, mas só as periféricas correm risco de morte por isto. Esta questão de classe está clara no segundo verso, “risco indócil na coxa”, ao conferir o perigo, e nos versos de sete a nove, em “a boca grande calada/ é preciso fugir pelas beiradas / sem alarde”. Aqui, a voz poética não pode gritar a dor física que sente, comete um crime, por isto precisa submeter-se a forma mais dolorosa de cometer aborto em silêncio. A mulher periférica não pode pagar uma clínica pra abortar em segurança, não tem direito a anestesia. As mulheres com dinheiro abortam na zona sul, pagam muito dinheiro pra ninguém falar sobre isso, a periférica se arrisca em métodos agressivos, arrisca a própria vida e a liberdade, e se morre é acusada ainda assim. É sobre isso que a voz poética quer falar, e para isso constrói um cenário clandestino, marginal, cujo conteúdo político ressignifica o mundo de desamparo ao redor. A ilustração amplifica, duplica a sensação imagética, leva o leitor a dar à mão a voz poética. Bruna toca no tema espinhoso não do ponto de vista dos direitos reprodutivos utilizados na poética de Angélica de Freitas, citada no começo deste trabalho, mas do lugar de mulher periférica. 78 estação infinita o filho podre a filha cerca viva meu útero arregaçado expelindo medo em sangue porque é meu horror que gero – sei me ferir. (MITRANO, 2016, p. 18) Este é o segundo poema eleito da Bruna Mitrano. É compacto, uma pequena estrofe de cinco versos. Não se caracteriza como haicai pela sua estrutura. Os versos são livres e a linguagem segue em aposta na dureza pra abordar o mesmo tema anterior, o aborto. A imagem está presente nos versos, mas desta vez a ideia do útero é mais forte, o útero que jorra ‘medo em sangue’ é o órgão que a leva ao horror, ao precipício. A ‘gestação infinita’ é a sensação de tempo, a espera da voz, o cansaço do aguardo de algo recorrente. A voz poética gera seu próprio horror e se castiga pela heresia. “Sei me ferir” é a voz da culpa, um castigo, uma autopunição. Na ilustração referente, um enforcamento, a corda que sufoca a mulher nasce do seu umbigo, o cordão umbilical que é símbolo da ligação materna com um filho é o mesmo que esgana nossa voz, um elemento sagrado profanado. As imagens que Bruna, a poeta, constrói nos poemas, escritos ou desenhados, constroem uma poética que devolvem a violência do mundo com violência política. Quando o poema fere o corpo da mulher quem fere é o estado, sua marginalidade, seu lugar no mundo. Nenhuma mulher fere a si própria ou a um feto, ela está sendo ferida desde aportou sua existência. 79 3.4 Pietá poeta Da periferia de Belo Horizonte, sabe-se pouco da biografia de Pietá Poeta. Começou na poesia ancorada na tradição da poesia oral, ingressando nos Slams em 2016, e não circula muito dentro do ambiente da literatura mais hegemônica ou acadêmica, com exceção da sua participação como convidada no primeiro Slam da Flip Paraty 2019. Ainda não foi muito estudada e não há muito conteúdo sobre ela disponível na internet. No entanto, foi a representante brasileira na Copa do Mundo de Slams em Paris de 2019. Segundo sua biografia na Wikipédia, teria nascido com uma distrofia neurológica que provocou dislexia e autismo. A informação não é confirmada, mas há presença de um forte deslocamento por parte da voz poética, que neste caso, tem muito de autobiografia. O poema abaixo é uma transcrição feita por mim a partir da audição e visualização de um vídeo da performance da slamer em Paris, no La Coup du Monde Grand PoetrySlam. Optei por transcrevê-lo com os versos seguidos em uma só estrofe baseada no ritmo acelerado que a autora o empregou à oralidade na ocasião. Eu tinha 10 anos de idade quando tive medo da policia pela primeira vez Minha mãe disse: se comporte ou eles vão te pegar. Era uma piada, claro, mas naquela noite eu não dormi As piadas das mães negras sempre escondem um fundinho de verdade Meu primo não soube se comportar, pegaram ele E mãe dele, uma mãe negra, costumava contar uma piada sobre a cabeça dele ser grande demais pra caber em chapéus no velório dele a piada morreu ele tomou cinco tiros no rosto e disseram que a cabeça dele estava a metade do tamanho Você já viu o tamanho do buraco que a policia deixa quando uma pessoa negra se recusa a baixar a cabeça¿ eu vi tem historias que não se contam na tevê naquela época eu tinha o peito vazio, eu tinha sede, eu bebi da água que a rua dava pra preencher o vazio de casa e não vi a enxurrada chegar, quando eu vi, estava fundo, afundando eu queria esconder, eu queria um disfarce Deus sabe o quanto eu quis usar um chapéu mas o clã dos cabeças grandes nem entra no céu eu nunca coube nos lugares nós éramos um monte de cabeções, e cabeças grandes fecha portas porta fechada faz você querer abrir a mente e o lugar bom pra se estar era onde respirar não doía mas o racismo é uma algema quanto maior a cabeça, mais fácil a mira da polícia é a cela ou a rua, a rua ou a cela a rua, a cela ou o caixão, eu escolhi o que eu pude aceitei o que me ofereceram, peguei a arma eu fui, falei em voz alta, fui a caça do que eu não queria ver pra crer 80 mas as mães negras contam piadas pra ensinar as crianças negras a sobreviver eu ouvi explosões e eu senti o gosto de ferro do meu próprio sangue ainda bem que eu só tinha mordido o lábio as minhas veias eram vielas, cocaína era como meu primo anda na noite por elas, meu coração era minha favela dava pra ouvir os tiros eu vim de uma família de cabeças grandes, eu não uso chapéus (Retirado de https://www.youtube.com/watch?v=2xl8cFAzcsU em 30 de julho de 2019) O poema ‘cabeça grande’ foi falado por Pietá em um só fôlego. Pouco mais de dois minutos em uma performance cujo corpo soma potência ao texto, porém, ater-me-ei a literatura. Na estrofe que construí a partir da sua oralidade, são 37 versos. A repetição é um recurso forte para trazer a tona a principal problemática levantada: o racismo. Há outros subtemas presentes no texto, a segregação econômica a partir da condição racial - que evidencia uma questão de classe-, a violência (local e de estado), a vida na periferia, a loucura. A palavra ‘Cabeça’ é a mais repetida no poema, com leves variações de plural e aumentativo, ‘Cabeças’ ou ‘Cabeções’. Das outras seis vezes, cinco vem acompanhadas de adjetivações; cabeça – grande demais, cabeça – metade do tamanho, cabeça – quanto maior, cabeças – grandes, alguns repetidos, uma vez cabeça vem antecedido de verbo, baixar a cabeça. Está aí a principal metáfora do poema, cabeça grande, uma metáfora inusitada criada pela piada da ‘mãe negra’, que evita que durante todo poema a violência que a sua família passa é pela cor da pela. Pietá cria uma família de cabeças grandes, onde não cabem nem mesmo chapéus, para justificar a condição de privação e segregação a qual vive. A mãe aqui terá um papel importante, mas não qualquer mãe, a mãe negra que precisa ensinar a criança negra a sobreviver desde muito pequena. Esta figura será repetida cinco vezes ao longo do poema. A palavra ‘piada’ é repetida cinco vezes, a referência à cabeça grande da família é vista pela voz poética com graça, mas a linguagem forte e mostra violência policial desde o primeiro verso, o medo da polícia induzido na menina desde criança, medo de quem teoricamente deveria proteger, mas num estado de exceção como é o que se vive numa comunidade periférica, quando se é negro, o medo é maior da polícia que do ladrão. Este medo é logo justificado. Seu primo, que segundo sua mãe negra, tinha a cabeça grande demais para usar chapéus, é morto pela polícia. Os versos ‘você já viu o tamanho do buraco que a policia deixa/ quando uma pessoa negra se recusa a baixar a cabeça¿” são usados como um argumento de que a tal cabeça grande ficou com a metade do tamanho, de que só assim esta cabeça tornar-se-ia pequena, afinal. Uma sensação de tragicomédia se acerca para quem ouve o poema, agora para quem o lê. ‘Cabeça grande’ é o recurso que Pietá usa para só precisar nomear a palavra ‘racismo’ uma só vez nos 37 versos. 81 Depois da tragédia, o miolo do poema, a partir do verso 14, passa por um momento de melancolia. As palavras ‘vazio’, ‘sede’, ‘enxurrada’, ‘fundo’, ‘afundando’, ‘esconder’, são usadas para despertar no leitor uma sensação de oco, de dor profunda, de desamparo. “Eu queria esconder / eu queria um disfarce / Deus sabe o quanto eu quis usar um chapéu” são os versos que demonstram o sentimento de inadequação, de não pertencimento, de falta de acolhimento. Aqui, a voz poética, a própria poeta, desejam não ser quem são para proteger-se, para viver, completa com “mas o clã dos cabeças grandes nem entra no céu”, criando esta relação com o Deus que permite a maledicência vivida pelo povo negro na periferia, como quem está resiliente em saber seu destino já que não há nada que mude sua condição de cabeça grande, neste caso, de negra, sua cor de pele não pode ser mudada constatado em ‘eu nunca coube nos lugares’. A partir do verso 22 inicia-se um momento catártico no poema. A loucura e desespero tomam conta do texto. Aqui, a voz poética já lamentou sua condição, já passou pela melancolia. Agora ela já entendeu que ela e sua família são uns ‘cabeções’ e que foi seu primo, mas ela pode ser a próxima. Na oralidade da poeta percebe-se a adição da raiva na tonalidade da voz, na pronuncia das palavras. Pela primeira vez, portanto, a palavra ‘racismo’ é pronunciada com ‘o racismo é uma algema’, não é possível fugir dela, mas a metáfora da cabeça completa no verso seguinte com ‘quanto maior a cabeça mais fácil a mira da polícia’. Esta é a terceira vez que a polícia aparece de forma direta no poema (há uma forma indireta no verso cinco com ‘pegaram ele’, que significa que a polícia pegou). A voz poética não tem escolha, ‘é a rua, a cela ou o caixão / eu escolhi o que pude / aceitei o que me ofereceram / peguei a arma”, em versos que demonstram a falta de escolha do povo negro na luta pela sobrevivência. Agora uma sequência de versos começa a construir a conclusão do poema. A figura da mãe negra retorna. Está nos versos introdutórios de forma recorrente para estruturar a piada da ‘cabeça grande’, e sua volta vai dar sentido ao fim do poema. A conclusão do poema acontece bem na vivência deste sentido catártico iniciado desde o miolo. O texto não amansa com o final. Agora é a hora da explosão, do gosto de ferro no sangue, uma metáfora que representa a arma, e da afirmação do sentido da identidade negra e periférica. A voz poética está de pé sustentada nessa voz que precisou criar para viver em meio à violência promovida pelo estado dentro da sua própria vida. Dentro do seu corpo ela sente ‘as minhas veias eram vielas’ e ‘meu coração era minha favela / dava pra ouvir os tiros’, como demonstração da vida sempre em risco, da ansiedade, do sentimento de alerta, as balas em recorrência tornam-se algo orgânico, que pode ser sentido dentro do coração, numa referência metafórica as batidas naturais do órgão. Finaliza como começou, na metáfora base do poema, mas agora já não mais se lamenta nem 82 deseja disfarce, ao contrário disto afirma-se: ‘eu vim de uma família de cabeças grandes/ eu não uso chapéus’. 3.5 Jarid Arraes Parte da crítica literária gosta de denotar a certas obras importância apenas de registro histórico. No passado foi o caso, por exemplo, da Maria Carolina de Jesus (Já citado neste trabalho), e é o caso também da Jarid Arraes e sua ‘Heroínas Negras do Brasil’. Porém, há dois elementos importantes na obra da autora que elevam o estatuto e lhe dá a devida relevância dentro do campo dos estudos literários. Um deles é que é justamente na literatura que ela se fundamenta e se estrutura para dar conta de algo rejeitado pela historiografia convencional, a história e os feitos importantes de mulheres negras brasileiras. O outro é que ela faz isso utilizando a literatura de cordel, numa antologia que une poesia popular (e considerada menor) e ilustrações em técnica de xilogravura, parte deste conjunto de elementos culturais tradicionalmente nordestinos e relativizados pela academia como mero folclorismo sem relevância estética e pelo sistema hegemônico de mercado. A ousadia de Jarid transfere a tradição do folheto de papel sulfite para o livro em publicação editorial. Desta forma e com tudo, consegue romper duas vezes o bloqueio hegemônico, utilizando a literatura pra ir além da história e ocupando o território da tradição literária com a estética cordelista, fazendo-a enfim alcançar o porto de literatura menor, mas não a menor inferior, e sim a menor revolucionária e potente de XX. ‘Heroínas Negras do Brasil’ foi um estouro de vendas. Nele, poemas em formato cordel contam as histórias de Aqualtune, Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Dandara, Esprerança Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos,Luisa Marrie, Maria Felipa, Maria Firmina, Mariana Crioula, Nagon Timé, Tereza de Benguela, Tia Siatá e Zassim Bagaba. Abaixo, elegi alguns framentos para observarmos as estrofes dos poemas: As tarefas femininas De limpar e cozinhar Não eram do seu feitio Que partia pra caçar E além da plantação Também sabia lutar. Aprendeu a capoeira Teve arma em sua mão Liderava mil batalhas Feito bravo furacão Era tal como Iansã Do africano panteão. (ARRAES, 2004, p 5) 83 Esta estrofe é sobre Dandara dos Palmares, entre todas, sem dúvidas, a personagem mais popular e mítica presente nos cordéis da Jarid. Com duas estrofes em sextilha, o poema destaca o caráter rebelde de Dandara, que na vida do Quilombo dos Palmares, recusava-se aos papéis oferecidos às mulheres, destacando-se como brava guerreira e tornando-se a principal liderança de Palmares ao lado de Zumbi. Recentemente o feminismo negro fez questão de revela-la em seu papel de líder, retirando a pecha de ‘esposa’ de zumbi, e Jarid abraça essa narrativa. As rimas simples na primeira estrofe trabalham com os enfrentamentos e a evolução da importância das tarefas exercidas por ela; cozinhar-caçar-lutar. Na segunda estrofe, as rimas simples são em ‘ão’, e os versos focam no fortalecimento dos elementos de ancestralidade negra, com a presença da capoeira como arte marcial do povo de quilombo e a de Iansã, a mitológica deusa africana, senhora dos ventos e da tempestade. Junto com outras pessoas Negras de muita coragem Aqualtune fez a fuga Mesmo com toda voragem Foi parar em um quilombo E falou de sua linhagem (ARRAES, 2014, p. 9) As estrofes acima são fragmentos do poema em cordel dedicado a Aqualtune, que teria sido uma princesa africana filha de um rei congolês trazida como escrava para o Brasil após uma guerra perdida entre seu povo e Portugal no período colonial, onde teria tido papel de protagonismo heroico liderando um exército. A sua história não é absolutamente conhecida, mas sabe-se que ela foi conduzida a ser escrava reprodutora devido ao seu porte físico, e que teria se rebelado com outros escravos e fugido para o Quilombo dos Palmares. Este pedaço de sua história está presente na primeira estrofe citada formatada em sextilha. Foi vendida como escrava Chamada reprodutora Imagine o pesadelo Que função mais redutora Pois seria estuprada De escravos genitora. (ARRAES, 2014, p. 3) Nesta sextilha o poema trata de uma questão dolorosa da escravidão. A condição da mulher negra sempre foi de humilhação. No caso de Aqualtune, estava fadada a ser estuprada sequencialmente e gerar muitos filhos que já nasceriam escravos de seus senhores. Por isto a decisão da fuga. Mas a sua importância Muito mais se mostraria 84 Não se sabe com certeza Mas pelo que se anuncia Aqualtune teve um filho E Ganga Zumba ele seria. Segundo essa tradição Foi avó doutro guerreiro De imensa relevância Para o negro brasileiro Era Zumbi dos Palmares Liderança por inteiro. [...] Quando penso em Aqualtune Sinto esse encorajamento A vontade de enfrentar De mudar nesse momento Tudo aquilo que é racismo E plantar conhecimento. (ARRAES, 2014, p. 5 e 8) Neste fragmento do poema, nas duas primeiras estrofes em sextilhas parte importante da história é contada. Aqualtune, que vinha duma linhagem de realeza africana, teria gerado um filho, Ganga Zumba, que foi o primeiro grande guerreiro de Palmares, sucedido pelo seu neto, Zumbi, o mais conhecido guerreiro da história do povo negro no Brasil. Além da importância ancestral, seus conhecimentos bélicos e de guerra teriam sido fundamentais para a consolidação do quilombo. Na última sextilha, é possível notar a chegada de uma voz poética nos versos. Desta vez, a voz de uma mulher negra toma conhecimento da história de Aqualtune e seu exemplo lhe rende inspiração e coragem para o enfrentamento do racismo e das estruturas de opressão do povo negro. 3.6 Conceição Evaristo De todas as autoras eleitas para compor o corpus deste trabalho, não há dúvidas que Conceição Evaristo é a mais destacável. A autora mineira de 72 anos é considerada hoje uma das mais importantes escritoras brasileiras vivas, mas foi nos últimos anos que sua literatura alcançou uma grande projeção, e este é o motivo de estar aqui. Porque apesar de ter publicado seu primeiro texto em 1990 (na 13ª edição dos Cadernos Negros), somente muito recentemente a autora conquistou espaço no mercado, efetivamente depois de vencer o Prêmio Jabuti de 2015 com o romance Olhos D’água. Em uma entrevista para a BBC News, a própria Conceição levanta a pergunta: É preciso questionar as regras que me fizeram ser reconhecida somente aos 71 anos. A conclusão da autora é o que conecta sua presença 85 nesse corpus. A primeira obra escrita por ela, Becos da Memória, ficou sem publicação por 20 anos, rejeitada em recorrência pelas editoras, segundo ela, por trabalhar a temática da identidade negra. Quando a temática negra trata do folclore, ou não é tão reivindicativa, aí interessa. Mas quando questiona as próprias relações raciais no Brasil, é quase um tema interdito. Principalmente se isso é colocado pela própria autoria negra. Até então, os brancos podiam dizer a nosso respeito. Mas quando a gente se apropria do nosso discurso, da nossa história, isso é motivo de interdição (Retirado de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43324948 em03 de novembro de 2018) No caso da poesia, o livro Poemas de recordação e outros movimentos foi publicado em 2008 pela editora Nandyada e republicado pela editora Malê em 2017, apostando na evidência a qual foi alavancada a autora. São 65 poemas no total, entre eles, 21 a mais que a primeira edição da obra, divididos em seis blocos por assuntos indicados em epígrafes. Para este trabalho, elegi um poema que esteve na primeira edição e foi modificado na segunda, vozes-mulheres, originalmente publicado na 13ª edição dos Cadernos Negros, e um outro da segunda edição que veio entre os 21 inéditos, Carolina na hora da estrela. Vozes mulheres A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si 86 HEGEL, G. W. F. (2011b). Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses. Petrópolis, RJ: Vozes. 6a Ed. HEIDEGGER, M. (1999). Língua de Tradição e Língua Técnica. Ed. T. M. Botas. Lisboa: Passagens. 2aa Ed. HEIDEGGER, M. (2007). A Origem da Obra de Arte. Trad. L. Moosburger. Curitiba: Dissertação de mestrado. HUTCHEON, L (1991). Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago. IBGE. (2014). Pnad - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Retrieved from https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2014/default.shtm acessado em 12 de janeiro de 2018. IVÁNOVA, A. (2017). O Martelo. 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