D. José Maria de Sousa, Morgado de Mateus, e o arquivo de José Anastácio da Cunha: L[p]istas para a compilação de uma obra matemática
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D. José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos, 5oMorgado de Mateus, e o Arquivo de José Anastácio da Cunha L[P]istas para a compilação de uma obra matemática1 Abel Rodrigues Fundação da Casa de Mateus Ângela Lopes Escola Secundária da Lixa Maria Elfrida Ralha, Maria Fernanda Estrada CMAT2Universidade do Minho José Anastácio da Cunha (1744-1787) - doravante JAC - foi, mercê da sua própria vida e das condições políticas do seu tempo, uma figura emblemática, como de resto costumam ser as pessoas vanguardistas, que não viu, em vida, publicada qualquer obra sua. Mercê da insistência e a expensas de amigos e discípulos, fomos conhecendo e apreciando os dotes matemáticos do nosso autor em obras como os Principios Mathematicos para instrucção dos alumnos do Collegio de São Lucas, da Real Casa Pia do Castello de São Jorge (1790), os Principios da Mechanica (1807), a tradução francesa nos Principes Mathématiques (1811) 3e na sua Carta Physico-Mathematica (1838). O curso do tempo desvaneceu o rasto ou, tão somente, a memória dos que se haviam tornado fiéis depositários da sua obra e, volvidos dois séculos após a morte de JAC, Luís Saraiva testemunhava4nos investigadores um misto de desalento e esperança: Infelizmente estes escritos [os de JAC] continuam inéditos e, até hoje, não se descobriu o seu paradeiro. 1Investigação desenvolvida no âmbito do projecto “MAT2: Mateus e Matemática. Manuscritos de Matemática na Casa de Mateus”. 2A investigação que conduziu ao presente trabalho foi parcialmente financiada pelo FEDER através do “Programa Operacional Factores de Competitividade - COMPETE” e por fundos portugueses da FCT - “Fundação para a Ciência e a Tecnologia” - através do projeto PEst-C/MAT/UI0013/2011. 3Principes Mathématiques de feu Joseph-Anastase da Cunha, par J. M. D’Abreu. Esta obra teve uma re-edição, em 1816, já depois da morte do próprio discípulo João Manuel d’Abreu. No prefácio desta tradução o discípulo de JAC aproveitaria para listar algumas outras obras (exatamente 6) do mestre. 4Saraiva, L., “Discípulos de José Anastácio da Cunha”, in José Anastácio da Cunha (1744-1787), Matemático e Poeta, Catálogo 23, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1987, pp. 57-60. Suplemento do Boletim da SPM 67, Outubro 2012, pp. 19-21
20 5oMorgado de Mateus e José Anastácio da Cunha Anos depois - partindo de manuscritos apógrafos encontrados no Arquivo do Conde da Barca, do Arquivo Distrital de Braga - foi possível recuperar e publicar o Ensayo sobre as Minas (1994)5e, em 2006, demos também a conhecer sete dos escritos/artigos “perdidos”6de JAC. Nessa ocasião, já confrontávamos os detalhes destes sete manuscritos com os títulos e os comentários que lemos, em particular, nas listagens7do discípulo João Manuel d’Abreu (1757-1815). Conjecturámos, então, que o Arquivo da Fundação da Casa de Mateus poderia acolher um espólio relativo a JAC e foi, agora, possível ultrapassar, em larga medida, as nossas melhores expectativas. Nas incursões investigativas já feitas neste Arquivo, impressionantemente conservado, identificámos um acervo raríssimo, intimista e quase sigiloso, ainda inédito e guardado por um dos mais leais discípulos de JAC: D. José Maria (1758-1825), 5oMorgado de Mateus8. A recolha da produção científica de JAC, por D. José Maria, decorreu em várias fases e ao longo de mais de trinta anos (provavelmente entre 1778 e 1816), com o claro objetivo de dar à estampa as obras completas do seu Mestre, Mentor e Amigo, o que, por motivos ainda desconhecidos, não veio a suceder. Perante novos documentos, muitos deles autógrafos de JAC, pareceunos oportuno retomar/desencadear um projeto de estudo da sua produção científica. Começámos por comparar listas (4 já conhecidas e 3 “novas”, encontradas em Mateus) para daíretirarmos conclusões: - De quantas (mais) obras estaremos a falar? Quais os seus títulos? Quais as suas datas de produção? - Quais as razões que teriam levado, por exemplo João Manuel d’Abreu, a preterir/preferir a indicação de algumas das obras e quais as vantagens/inconvenientes de uma ordenação temática? 5Estrada, M. F., Ensaio sobre as Minas, por José Anastácio da Cunha, Arquivo Distrital de Braga, Universidade do Minho, Braga, 1994. 6Ralha, M.E. & al. (Ed.), José Anastácio da Cunha, O Tempo, as Ideias, a Obra... e os Inéditos, Braga, 2006. 7Veja-se, para além do prefácio da tradução francesa anteriormente reportada, o texto de uma missiva dirigida pelo próprio João Manuel d’Abreu a D. João VI no Códice 8998, da Biblioteca Nacional. 8D. José Maria de Sousa Mourão e Vasconcelos, moço fidalgo da Casa Real (1765.10.23), nasceu no Porto, filho de D. Luís António de Sousa Botelho Mourão e de D. Leonor Ana Luísa José de Portugal. Em 1761 chega a Lisboa, a casa da avó materna, onde inicia - com os primos Sousa Coutinho - o estudo das primeiras letras (ensinado pelo mestre William Belling) e, depois, é aluno do Real Colégio dos Nobres. Destinado, desde cedo, para seguir a carreira militar, na senda da tradição familiar, licenciou-se em Matemáticas, na Universidade de Coimbra onde entabulou com JAC uma relação (em 1773/74), que haveria de perdurar até ao fim da vida. Afirmando-se como diplomata, viria, no entanto, a alcançar posteridade com a célebre edição ilustrada de “Os Lusíadas” (Paris, 1817). Suplemento do Boletim da SPM 67, Outubro 2012, pp. 19-21
A. Rodrigues, A. Lopes, M. E. Ralha, M. F. Estrada 21 - Quais os principais intervenientes no projeto inicial, à data da morte de JAC, da publicação9, das suas obras? das recolhas, dos envios, etc.? MAT2 (MATeus & MATemática: Manuscritos de Matemática na Casa de Mateus) foi o nome escolhido para o projeto, multi e interdisciplinar, que neste âmbito já coordenamos. Engloba as Matemáticas, a História (incluindo a da Matemática e a das Mentalidades), a Arquivística, a Física, a Informática, a Filosofia, a Literatura e os Estudos Militares. Visa a recolha de informação, bem como o estudo das conexões e da aplicabilidade, da beleza e dos valores das ciências portuguesas setecentistas. Centra-se nas figuras ímpares de JAC e de D. José Maria. Reúne cerca de duas dezenas de investigadores nas diferentes áreas do saber anteriormente referidas, e oriundos de universidades nacionais (Minho, Coimbra, Porto, Aveiro e Lisboa) e estrangeiras (do Brasil, do Reino Unido e da Bélgica). No âmbito do projeto MAT2 faremos o estudo das obras de JAC agora descobertas em Mateus, enquadrá-las-emos com as previamente conhecidas e retomaremos as buscas de outros elementos explicativos das redes científicas, pedagógicas e de sociabilidade criadas em torno de um dos nossos maiores vultos setecentistas. Daremos, ciclicamente, conta dos nossos passos e dos resultados que formos alcançando. Aspiramos, no final desta caminhada que prevemos relativamente longa, à tão almejada publicação/divulgação das obras matemáticas mais emblemáticas de José Anastácio da Cunha. Referências [1] Ferro, J. P. (Ed.), O processo de José Anastácio da Cunha na Inquisição de Coimbra, 1778, Palas editores, Lisboa, 1987. [2] Gallut, A., Le Morgado de Mateus, Éditeur des Lusíadas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1970. [3] Queiró, J. F., “José Anastácio da Cunha: Um Matemático a recordar, 200 anos depois”, Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática,29 (Setembro 1994), pp. 1-18. [4] Silva, A. M.-D., Portrait d’un homme d’État, D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conte de Linhares (17-55-1812), Vol. 1, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, Paris, 2006. 9Esta intenção precoce, de fazer publicar os trabalhos do mestre, é expressa frequentemente na correspondência trocada no círculo dos seus discípulos mais fiéis. Este grupo incluía, pelo menos, o próprio D. José Maria, João Manuel d’Abreu, os irmãos Rodrigo e Domingos de Sousa Coutinho e João Paulo Bezerra de Seixas. Posteriormente esta intenção transforma-se em verdadeiro projeto editorial com a recolha (por D. José Maria) de maços documentais contendo “os papéis” de JAC que chegaram até à Casa de Mateus. Suplemento do Boletim da SPM 67, Outubro 2012, pp. 19-21