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Carla Sandra Caetano dos Santos Paiva Contributos da EBR e do Ecomapa na construção do PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI´S abril de 2023 Contributos da EBR e do Ecomapa na construção do PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI´S Carla Sandra Caetano dos Santos Paiva Uminho|2023 Universidade do Minho Instituto de Educação
Carla Sandra Caetano dos Santos Paiva Contributos da EBR e do Ecomapa na construção do PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI´S abril de 2023 Dissertação de Mestrado Mestrado em Educação Especial Área de especialização em Intervenção Precoce Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Ana Maria Silva Pereira Henriques Serrano Universidade do Minho Instituto de Educação
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii AGRADECIMENTOS À minha orientadora, Professora Doutora Ana Serrano por ter aceite orientar-me e por me ter ajudado com a sua experiência e o seu conhecimento. A sua disponibilidade, paciência, compreensão, sugestões e palavras de motivação permitiram a conclusão deste trabalho. Às seis Equipas Locais de Intervenção que me acolheram e que partilharam comigo a sua experiência no terreno e me mostraram a importância do seu trabalho e como este marca a diferença na vida das crianças e das famílias. Um agradecimento especial às minhas amigas Daniela Lima, Graça Sousa, Fátima Louro, Conceição Nogueira e Lurdes Fernandes e ainda à D. Celeste Ferreira pelo seu precioso apoio e por terem estado presentes sempre que eu precisei. Aos familiares e amigos, cuja existência, me desafiou e levou a persistir nos meus objetivos. À minha mãe que sempre me apoiou para que eu finalizasse mais esta etapa. À memória do meu pai que sempre desejou que eu fosse mais longe mas partiu sem ver a conclusão deste trabalho. Por fim, ao meu marido que me acompanhou, mimou e compreendeu todas as minhas ausências. Sem ele, provavelmente, eu não teria percorrido este caminho. A todos a minha gratidão.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho
v Contributos da EBR e do Ecomapa na construção do PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI´S RESUMO O importante trabalho das Equipas de Intervenção Precoce é muitas vezes o primeiro e único suporte das famílias e das suas crianças. Diariamente, estas equipas procuram apoiar as famílias e criançasnos seus esforços de capacitação das famílias que atendem E fazem-no no sentido de sempre melhorarem as suas práticas. Como meio de instrumentos de trabalho conjunto entre a equipa e a família são usados, entre outros, o Ecomapa e a Entrevista Baseada em Rotinas (EBR). O objetivo deste estudo é compreender se estes instrumentos satisfazem completamente a equipa, na qual a família está incluída, ou se os adaptam às suas necessidades. Este trabalho evidenciará também alguns anseios e espectativas das equipas que aceitaram colaborar nesta investigação. Os resultados apontam para a utilização plena do ecomapa por parte dos profissionais das equipas, no entanto no que concerne à EBR os profissionais referem que dado a extensão da mesma, utilizam-na com pequenas adaptações. PalavrasChave: Desenvolvimento Profissional; Ecomapa; Entrevista Baseada em Rotinas; Intervenção Precoce na Infância.
vi The contributions of the "EBR" and the Ecomap in the construction of the "PIIP" and in the authentic evaluation centered on the family: perspective of Eli's professionals ABSTRACT The important work of the Preventive Intervention Teams is many times the first and only support for children and their families. These teams look to support families and children on a daily basis, by giving the participating families competencies so that they improve their practices. In order to do this, and for the teams and the families to work in conjunction, some of the tools used are ECOMAP and Routine Based Interview, among others. The target of this study was to understand if these tools are adequate for the work of the team within the family they were working with. This study was also meant to highlight some of the concerns and expectations of the teams that agreed to participate in this research. The results indicate that the full use of Ecomap by professionals is very productive, on the other hand, the Routine Based Interview, given its wide scope, is used with some adaptions. Key words: Childhood Preventive Intervention, Ecomap, Professional Development, Routine Based Interview.
vii ÍNDICE GERAL AGRADECIMENTOS ............................................................................................................................ iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ......................................................................................................... iv RESUMO ............................................................................................................................................. v ABSTRACT ......................................................................................................................................... vi INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................... 1 1. REVISÃO DA LITERATURA ................................................................................................................ 3 1.1. Intervenção Precoce na Infância ................................................................................................... 3 1.2. Modelos teóricos subjacentes à Intervenção Precoce na Infância ................................................... 6 1.2.1. Modelo da Ecologia do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner .................................... 6 1.2.2. Modelo Transaccional de Sameroff & Chandler (1975) ........................................................... 8 1.2.3. Teoria Sistémica .................................................................................................................... 8 1.2.4. Modelo do suporte social de Dunst ........................................................................................ 9 2. AVALIAÇÃO AUTÊNTICA CENTRADA NA FAMÍLIA ...........................................................................10 2.1. Ecomapa ....................................................................................................................................12 2.2. EBR ...........................................................................................................................................14 2.3. PIIP ............................................................................................................................................14 2.4. Dificuldades ...............................................................................................................................15 3. METODOLOGIA .............................................................................................................................16 3.1. Abordagem metodológica ...........................................................................................................16 3.2. Questão de investigação .............................................................................................................17 3.3. Objetivos do estudo ....................................................................................................................17 3.4. Participantes ..............................................................................................................................18 3.5. Procedimentos de Recolha de dados ..........................................................................................19 3.5.1. Guião da entrevista ..............................................................................................................19
5 beneficiando se estes forem enriquecidos, e em convivência com as figuras que lhe são significativas. O Conselho Científico Nacional da Criança em Desenvolvimento (2007), citado por Serrano e Boavida (2011, p.4) apontam a genética e a experiência inicial de um indivíduo como elementos que determinam uma “base forte ou fraca para toda a aprendizagem, comportamento e saúde subsequentes”. Estes autores chamam a atenção para “janelas de oportunidade” que se abrem “para o desenvolvimento de competências e adaptação de comportamento nos primeiros anos” que devem ser aproveitadas em todas as crianças, sobretudo nas que apresentam um desenvolvimento atípico. Serrano, Pereira e Carvalho (2003) consideram que a par das aprendizagens mais formais e documentadas realizadas pela criança, em contexto de creches e jardins-de-infância, existem outras aprendizagens extremamente ricas que designaremos de informais, habitualmente feitas no seio da família. Dunst (2001), citado pelas autoras supracitadas, refere que as experiências naturais de aprendizagem não funcionam de forma independente, logo não são estanques. Estas aprendizagens, ao contrário das formais, não estão documentadas e nem sempre são valorizadas. A realização de uma atividade em família, por muito simples e comum que pareça ser, envolve várias interações, pelo que devem ser valorizadas. As rotinas familiares são muito ricas e devem assim ser em si o contexto para o trabalho de Intervenção Precoce na Infância. Segundo Dunst (2010), ambientes naturais de aprendizagem do dia-a-dia e o envolvimento ativo e corresponsabilização da família são fatores de sucesso para aquisição de benefícios para as crianças. A ênfase nesta perspetiva permite a colaboração entre profissionais e pais, sendo que a família pode tomar decisões mais informadas (Almeida,2011). Os serviços e apoios de IP devem considerar e acontecer nas rotinas da criança e nos seus ambientes naturais. O brincar é reconhecido como um importante meio de aprendizagem e “quando acontece inserido nas rotinas permite um sentimento de segurança à criança, libertando-a para que possa aprender mais” (Almeida, 2011, p.84). O nível moderado da rotina, segundo Warren & Horn (1996), acontece juntando um elemento novo ao já previsível e torna-se num momento ideal para a aprendizagem de novas competências. Embora as rotinas façam parte da vida de todos McWilliam (2003), elas variam de individuo para individuo e de família para família. Por isso, torna-se necessário fazer uma avaliação individualizada de cada criança. É importante que tanto famílias como educadores compreendam que as rotinas são momentos importantes de aprendizagem (Almeida,2011) e que, por isso devem ser potencializadas. Devido aos
6 acontecimentos próprios da vida, as rotinas são dinâmicas pois podem alterar-se (Almeida, 2011). Assim, a intervenção baseada em rotinas deve ser flexível e adaptar-se a todas as circunstâncias (Almeida, 2011). 1.2. Modelos teóricos subjacentes à Intervenção Precoce na Infância 1.2.1. Modelo da Ecologia do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner O comportamento e o desenvolvimento humano pode ser explicado pela interação entre o sujeito ativo e o seu ambiente (Portugal, 1992). Contudo durante muito tempo o “processo de interação sujeito - mundo não foi devidamente valorizado na ciência do desenvolvimento. A perspetiva bio-ecológica proposta por Urie Bronfenbrenner é inovadora na relação biunívoca que propõe do desenvolvimento humano, enquanto dependente de um conjunto de variáveis proximais e distais que influenciam o indivíduo em desenvolvimento, propondo deste modo uma nova perspetiva - a bio-ecologia do Desenvolvimento Humano. Esta perspetiva, resume segundo Portugal (1992), a interação mútua entre um “indivíduo ativo” e as “propriedades em transformação dos meios imediatos”. Para Bronfenbrenner (1979, citado por Portugal 1992) o sujeito influencia os diferentes meios em que se move e é por eles influenciado. Bronfenbrenner (1979, citado por Portugal 1992) propõe quatro níveis - o microssistema, o mesossistema, o exossistema e o macrossistema. O indivíduo em criança começa inserido no seu microssistema (família, escola, amigos), mas o seu desenvolvimento vai sendo influenciado de forma direta ou indireta por um conjunto mais alargado de sistemas, onde pode estar ou não, diretamente envolvido. A teoria apresenta quatro aspetos interrelacionados: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo. O processo refere-se a um padrão de interação estável e recíproco entre pessoas e seus ambientes; A pessoa que interage constantemente com seu contexto e é produto deste processo de interação; O contexto é o ambiente em que a pessoa está inserida e finalmente, o tempo em que a pessoa se desenvolve e as mudanças que nele ocorrem. Todos estes fatores determinam os resultados últimos do desenvolvimento do individuo. (Prati et al, 2008). Para Bronfenbrenner (1979), que, neste estudo visitamos sobretudo pela mão de (Portugal, 1992), o
7 desenvolvimento integra a capacidade que o indivíduo adquire de ir encontrando estratégias para se adequar à realidade. Essas conquistas do sujeito têm que “persistir e evoluir ao longo do espaço e do tempo” para que possam responder ao que Bronfenbrenner, (1979, citado por Portugal, 1992) chama de “developmental validity ”. Consideramos que estas conquistas são mais evidentes, espontâneas, mais significativas e marcantes no contexto natural da criança pois é onde a criança passa mais tempo e onde ela desenvolve laços afetivos. A este ambiente, Bronfenbrenner (1979, citado por Portugal,1992) chama de microssistema e é seguramente neste ambiente que criamos os vínculos mais profundos. Dunst (2007) e McWilliam (2010), citados por Boavida, Aguiar e McWilliam (2018), consideram que as crianças têm dificuldade em aprender de forma descontextualizada e em generalizar as competências adquiridas a outros contextos. Contudo, o autor considera também outros contextos experienciados pelos sujeitos, dependendo dos objetivos que se buscam compreender. Para Bhering e Sarkis (2009, p.7), este modelo é especialmente importante na educação porque passa a considerar as pessoas inseridas nos contextos como “aspetos relevantes para os processos de desenvolvimento e aprendizagem da pessoa ao longo da vida”. Sabemos hoje, através do contributo de várias ciências como Psicologia e Sociologia que o contexto em que se insere o indivíduo é importante no estudo do desenvolvimento humano. A criança começa por interagir com as pessoas que lhe são próximas e vai alargando a sua rede conhecendo novas pessoas e novas situações. Para Bronfenbrenner (1979), citado por Bhering e Sarkis (2009), o desenvolvimento resulta das caraterísticas do indivíduo, do contexto onde está inserido e do tempo em que está exposto às diferentes situações. A participação do indivíduo em interações com complexidade crescente é importante e com “pessoas com as quais desenvolve apego forte, mútuo e irracional”. Bronfenbrenner (1989, p.47). E considera essencial que “haja padrões de trocas de informação estabelecidos e contínuos” entre os diversos contextos, além de “confiança mútua entre os principais ambientes nos quais as crianças e suas famílias vivem” Bronfenbrenner (1989, p.47). O contexto principal da criança é a família, mas este contexto é influenciado por outros contextos que a criança frequenta. Deste modo, as estruturas concebidas por Bronfenbrenner (1995) “não estão hermeticamente fechadas”. A perspetiva ecológica reconhece as diferentes estruturas como interrelacionadas e com influências mútuas. Uma mudança afetará todo o sistema que tenderá sempre para o equilíbrio.
8 (Delgado, 2009). 1.2.2. Modelo Transaccional de Sameroff & Chandler (1975) Desenvolvido por Sameroff & Chandler, este modelo considera que o desenvolvimento da criança é o resultado da” interação contínua, dinâmica e bidirecional entre a criança e a experiência fornecida pela família e o contexto social em que está inserida” (Xavier, 2008, p.120). O desenvolvimento da criança é resultado de um conjunto de fatores que incluem as caraterísticas da criança e dos seus cuidadores em vários momentos, as diferentes caraterísticas do ambiente, em momentos diversos, em que a criança se insere, a acumulação de experiências, as marcas da passagem do tempo, a leitura que se faz destes indicadores. Isto é, as oportunidades e riscos de uma criança relacionam-se com as caraterísticas individuais dessa criança e dos contextos em que está inserida. Quanto mais ricos forem os contextos que a envolvem, melhor será o seu desenvolvimento. Como referem Garbarino e Abramowitz, 1992, citados por Xavier (2008, p. 121), "os riscos estão relacionados quer com ameaças diretas, quer com a ausência de oportunidades para o desenvolvimento”. Xavier (2008) sugere que é urgente pensar a criança, a família e os contextos de desenvolvimento mais alargados. A sociedade deverá então “investir na prevenção, na ênfase sobre os pontos fortes e na robustez das famílias”. 1.2.3. Teoria Sistémica A Teoria Geral dos Sistemas surgiu com o biólogo austríaco Ludwig Von Bertalanffy, que publicou os seus trabalhos entre 1950 e 1968. Esta teoria considera que um sistema é constituído por um conjunto de elementos interdependentes em interação que compõem um todo organizado e, no caso de ser um sistema aberto, interage com o seu ambiente. A família é também considerada “como um todo sistémico onde se estabelecem relações entre os seus membros e o meio exterior”(Dias, 2011, p.141). Dias (2011, p.141) referese à família como um sistema dinâmico que desempenha “funções importantes na sociedade, como sejam, por exemplo, o afeto, a educação, a socialização”. A família
9 “contribui para a construção de soluções integradoras dos seus membros no sistema como um todo”. Esta perspetiva sistémica da família “acentuou um enfoque cada vez maior na família, situando-a num sistema amplo e complexo de interações e influências” (Pereira, 2009, p.27) que tem a sua base na comunidade em que está inserida. Para que seja adotada uma perspetiva sistémica, é necessária uma abordagem transdisciplinar pois só este tipo de abordagem irá permitir “cuidar da criança (e família) como uma globalidade”, vendo a “criança complexa, com o seu contexto”. Deste modo “permite cuidar da criança no seu todo, criança-família-contexto”, assumindo a intervenção “uma perspetiva global, sistêmica, contextual ou ecológica da Pessoa” (Franco, 2007, p.120). 1.2.4. Modelo do suporte social de Dunst Dunst e Trivette (1990) visitados por Ribeiro (1999, p.548), distinguem duas fontes de suporte social: informal e formal. O suporte informal é constituído por familiares, amigos, vizinhos, comunidade onde o indivíduo está inserido. As redes de suporte social formal abrangem hospitais, programas governamentais, serviços de saúde e profissionais, por exemplo, médicos, assistentes sociais, psicólogos que prestam assistência às pessoas que necessitam. Martins, Freitas, Carvalho e Pascoinho (2018, p.487) salientam que Dunst (2002) considera que os programas de IPI para terem sucesso devem conter alguns princípios, entre os quais “valorizar o sentido de comunidade, partilhando valores e necessidades comuns; respeitar crenças e valores na família; mobilizar recursos e apoios, construindo sistemas de suporte formais e informais”.
10 2. AVALIAÇÃO AUTÊNTICA CENTRADA NA FAMÍLIA Tendo por base também estes princípios desenvolvidos por estes dois modelos, a Intervenção Precoce na Infância vê a criança como indivíduo integrado na família e noutros contextos naturais pois só nestes contextos, a criança revela as suas conquistas e as suas dificuldades. A família “é entendida como fator e contexto central no processo de desenvolvimento infantil e, por isso, elemento fundamental da intervenção” (Franco, 2009, p.2) A forma como hoje se trabalha em Intervenção Precoce na Infância acompanha a investigação que tem surgido nesta área, ou seja, “o trabalho centrado na família, os contextos e rotinas naturais da família e da criança, a funcionalidade e a transdisciplinaridade” Boavida, Aguiar e McWilliam (2018, p.9) Espe-Sherwindt et al. (2017, p.123) consideram que “o desenvolvimento da criança ocorre no contexto do seu envolvimento em relações significativas com figuras de referência” que por responderem às suas necessidades imediatas se tornam únicas. Estas figuras são geralmente a sua família. A abordagem centrada na família é um conceito que já vem dos anos 50, como notam Pereira e Serrano (2010), e refere-se ao serviço e apoio que é prestado a famílias cujas crianças beneficiam desta abordagem e reconhece o papel essencial que a família tem no desenvolvimento da sua criança e no respeito que merecem as suas decisões. Durante longo tempo, considerou-se a família como sendo menos importante, menos conhecedora e até fonte de problemas. Contudo, na maioria dos casos e especificamente nas situações acompanhadas pela Intervenção Precoce na Infância, a família é quem conhece melhor a criança, quem se relaciona com ela e quem melhor sabe das suas necessidades. A família tem grande influência no comportamento da criança e revela-se como uma forte estratégia para levar as crianças a adquirirem novas competências, descrevem Pinto e Serrano (2015, p.1). De acordo com estas autoras, o apoio prestado, no terreno, pelos profissionais aos pais destas crianças é sobretudo um apoio domiciliário e que visa ajudar a família a “compreender, reconhecer e utilizar com os seus filhos as oportunidades de aprendizagem”. Deste modo, os técnicos da IPI devem fazer uso de estratégias e técnicas no sentido de promoverem e facilitarem o envolvimento e a participação das famílias nos progressos da criança. Pinto e Serrano (2015), invocando estudos anteriores, reconhecem que a participação das famílias depende de fatores pessoais e contextuais e que este tópico precisa ainda de mais investigação em Portugal para perceber até que ponto a participação das famílias nas Equipas Locais de Intervenção (ELI) é real e eficaz.
11 Um melhor conhecimento da realidade em Portugal no que concerne ao envolvimento da família contribuiria para guiar os profissionais e ajudar a encontrar e aprimorar estratégias para envolver ainda mais as famílias. Anteriormente, nos anos sessenta, era usado, sobretudo, o modelo médico que se focava nos deficits e nas patologias, ignorando o contexto psicossocial e cultural onde a criança se insere, o que não promovia a família, o seu conhecimento e a sua decisão, considerando-a pouco capaz. Os técnicos detinham o conhecimento e pouco espaço era deixado para a decisão da família. Como salientam Pereira e Serrano (2010, p.4), esta é uma abordagem mais exigente para os profissionais, pois exige continuamente uma reflexão sobre o seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional, em que devem “clarificar, definir, e refletir sobre um conjunto de práticas efetivas que se traduzem na forma como escutam as famílias, como as respeitam e caracterizam, como os serviços e apoios são obtidos/prestados, como as reuniões são conduzidas”. Esta atenção dada às famílias torna-as mais confiantes, mais colaborantes, corresponsabilizando-as e tornando-as mais persistentes e ativas na busca das melhores soluções para a sua situação. Em relação ao papel desempenhado pela família, também Espe-Sherwindt et al. (2017, p.122 e 123) defendem que “o seu envolvimento e participação no processo de apoio em Intervenção Precoce na Infância (IPI) é uma componente essencial para o respetivo sucesso, e uma chave no percurso para a inclusão educativa e social da criança”. Seguindo a linha de pensamento destas autoras, numa abordagem centrada na família em Intervenção Precoce na Infância (IPI), as perceções e experiências das famílias são parte integrante das práticas de IPI”. Para Gronita (2012), trata-se de fortalecer as famílias para lidarem com a situação problemática que estão a vivenciar, respeitar a sua cultura para que a intervenção não se torne uma fonte de stress. A abordagem centrada na família está incluída nas recomendações nacionais e internacionais para Intervenção Precoce na Infância. A adesão e participação da família são essenciais para o sucesso da intervenção, mas para que essa adesão seja efetiva, a família deve sentir que efetivamente a sua opinião e os seus sentimentos são respeitados e são realmente o centro de todo o plano. Os profissionais devem saber mediar e dar a estas famílias orientações e tempo e espaço para que possam tomar uma decisão esclarecida do caminho a tomar. Ajudar as famílias a compreender quais são as suas preocupações e expectativas, contribui para construir uma relação de confiança e autoajuda entre toda a equipa, da qual a família faz parte, o que
12 colaborará para um apoio desejado e efetivo. Estas autoras do seu estudo concluem, tal como nós a partir do testemunho recolhido dos profissionais das ELI’S, que as famílias reconhecem a importância da identificação das redes de suporte – formal e informal – nas suas vidas e das suas crianças. 2.1. Ecomapa O Ecomapa pode revelar-se um instrumento valioso para uma melhor identificação das redes formais e informais que envolvem a família. Desenvolvido em 1975 por Ann Hartman para ajudar o trabalho dos Assistentes Sociais nos EUA, Agostinho (2007, p.327), define este instrumento como “uma representação gráfica das ligações de uma família às pessoas e estruturas sociais do meio em que habita, desenhando, poderíamos assim dizer, o seu «sistema ecológico»”. Serrano (2019), explica que tradicionalmente, os profissionais e as práticas focavam exclusivamente a criança, mas, com o tempo, compreendeu-se que o foco tinha que estar também na família e, mais recentemente, que a intervenção teria que abranger igualmente a comunidade onde a família está inserida. Como sublinha esta autora, a família alargada e outros atores como vizinhos e amigos ajudam os pais nas suas tarefas parentais, providenciando suporte com que estes sabem que podem contar. Conceitos como sistema de apoio social e rede de apoio social são, agora, centrais em diversas áreas, nomeadamente em IP A existência deste tipo de apoio ajuda as famílias nos acontecimentos do seu quotidiano, nomeadamente nos acontecimentos que lhes provocam stress. O título deste artigo, “sei que possa o contar com…” traduz uma expressão muito usada pelas famílias e que é sinónimo do conforto que sentem quando sabem que existe elementos de apoio nas suas redes, mesmo que nem sempre os utilizem. O ecomapa é o instrumento que ajuda as famílias a tomarem consciência da presença destes apoios, da forma como estão distribuídos e dos seus sentimentos face aos mesmos. Este instrumento auxilia as famílias a organizarem ideias e a compreenderem que existem forças que podem cooperar para que alcancem os seus objetivos. Pierce et al. (1996), citados por Serrano referem que o apoio social pode ajudar a família a lidar com algum acontecimento causador de stress.
13 Com este apoio, a família sente-se apoiada e pertencente a uma comunidade que estará na retaguarda e que poderá ser acionada sempre que necessário. Focando-se especificamente no Ecomapa, Serrano (2019) neste artigo específica que qualquer elemento da equipa o pode utilizar, sendo um instrumento que será utilizado considerando sempre o envolvimento ativo da família. Segundo (Pierce et al., 1996), citado por Serrano (2019), “as relações de apoio referem-se às expectativas que um indivíduo tem acerca do modo como outros indivíduos irão reagir no caso da sua ajuda vir a ser necessária”. Também Dunst, Trivette & Deal (1988, p.28), neste estudo consideram o apoio social como sendo “a ajuda e apoio emocional, física, informativa, instrumental e material prestados por outros com o objetivo de preservar a saúde e o bem-estar, de promover adaptações a acontecimentos do dia-a-dia e de estimular o desenvolvimento de uma forma adaptativa”. O ecomapa permite, assim, às famílias consciencializarem-se das pessoas que existem à sua volta e refletirem sobre o que podem esperar de cada uma. De acordo com Agostinho (2007),e sintetizadas por Serrano (2019) as vantagens no uso do ecomapa são: “resumir e representar informação importante sobre a família e o seu meio num formato gráfico de fácil visualização e leitura por qualquer um dos elementos envolvidos no processo; ilustrar a natureza e o impacto das relações da família com o meio, permitindo verificar se são fonte de suporte ou não suporte; uma melhor compreensão das situações geradoras de stress e dos recursos disponíveis para responder a necessidades que identificamos com a família; uma consistente base de informação para planear, com o envolvimento da família, as decisões de intervenção; observar o progresso e resultado das medidas de intervenção, quer sobre a família, quer sobre a comunidade; Integrar, de uma maneira prática, os valores e os conceitos da Teoria Sistémica e mostrar e seu valor no trabalho com famílias em IPI. Mello et al. (2005, p.82) considera que o ecomapa “fornece uma visão ampliada da família” pois mostra as ligações que aquela família tem com o mundo e com a sua comunidade, que se constitui como um recurso. Estes autores consideram que o instrumento “ajuda a avaliar os apoios e suportes disponíveis e sua utilização pela família'' Há várias formas de construir o ecomapa mas todo o processo deve procurar evidenciar as fontes de suporte que envolvem a família e a criança (Almeida,2011). Este instrumento e outros que venham a ser usados, como é indicado no Guia para Profissionais, devem ser utilizados para ajudar a família a construir um plano de intervenção com o qual ela se identifique e se sinta confortável para utilizar.
14 O Ecomapa deverá ser usado de forma adequada para que a família não sinta este e os outros instrumentos como intrusivos. 2.2. EBR O Guia para Profissionais - Práticas Recomendadas em Intervenção Precoce na Infância (p.134) define a Entrevista Baseada nas Rotinas como uma “entrevista semiestruturada relativa ao funcionamento da criança e da família em rotinas diárias “que terá como objetivo principal encontrar os objetivos funcionais e os resultados que se pretendem atingir e que, construídos em conjunto com a família, ajudarão a estreitar a ligação entre a família e os técnicos e a construir uma relação de confiança. Os objetivos funcionais para a criança deverão ir de encontro às suas necessidades de participação ou envolvimento, independência e relações sociais (Almeida,2011). A EBR irá permitir o registo das observações que a família faz da criança ao longo do tempo e em diversos contextos e com as diferentes pessoas com quem se relaciona. Este registo ajudará a família a refletir e a tomar consciência das suas rotinas e a identificar os aspetos que sente como satisfatórios e os que que carecem de ser melhorados. De acordo com (McWilliam, 2010), citado por este Guia, a EBR permitirá identificar objetivos funcionais tendo como foco a criança e as suas necessidades “de envolvimento e participação, independência” e as suas relações sociais; traduzir as prioridades da família no plano de intervenção; aprimorar os objetivos para que sejam abrangentes (possam ser analisados de várias formas) e simultaneamente específicos, de forma a não permitir a dispersão; encontrar as estratégias e as ações adequadas ao problema funcional; alargar a intervenção a outros cuidadores da criança, além da família. Tudo isto, valorizando sempre a família e os seus pontos fortes e competências. 2.3. PIIP O PIIP é o Plano Individual de Intervenção Precoce e é o documento onde a equipa (família e profissionais), reunindo a informação que partilharam, irão reunir objetivos, estratégias, atividades e recursos que melhor se adequem às expetativas da família e ajudem ao desenvolvimento e participação da criança. A investigação aponta a necessidade de colaboração entre a família e os profissionais, que permitam estabelecer relações que colaborem para “alcançar resultados e metas mutuamente acordados que
21 3.7. Tratamento dos dados A análise e apresentação dos dados não é feita de forma individual, mas sim no conjunto das seis entrevistas realizadas, tendo-se focado nos aspetos comuns às Elis, mas também, em analisar as diferenças entre elas, com especial relevância no que concerne à utilização dos instrumentos Ecomapa e da EBR.
22 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO 4.1. Caracterização Sociodemográfica do respondente da ELI Este estudo tem como objetivo conhecer/caraterizar as ELI’S da Zona Norte. Para tal, recolheu-se através de um inquérito por entrevista, informação relativa a 6 destas unidades, que serão designadas por E1, E2, E3, E4, E5 e E6, sempre que tal se justifique. De seguida faremos uma breve caraterização sociodemográfica do Elemento da ELI que foi entrevistado. A idade de 5 dos entrevistados está compreendida entre os 44 e os 54 anos, e o outro tem idade compreendida entre 33 e 43 anos. Quanto à formação inicial, Figura 2, contabilizou-se um enfermeiro, um terapeuta da fala e 4 educadores de infância. Figura 2. Formação inicial do entrevistado Dos 6 entrevistados 5 afirmaram ter formação em Intervenção Precoce na Infância, destacando-se formações contínuas ministradas pela Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, Mestrado e/ou Doutoramento na área de Estudos da Criança da Universidade do Minho ou pós-graduação em Educação Especial. Há também que mencione formações ministradas pelo SNIPI. Apenas um dos entrevistados refere não ter formação específica, mas ter realizado formação contínua em IP. Quanto ao tempo a que trabalham em ELI’S, 4 entrevistados mencionaram entre 11 a 15 anos, um entrevistado mais de 15 anos e um exerce funções entre 1 a 5 anos (Figura 3). 1 4 1 Enfermagem Educadora de Infância Terapeuta da Fala
23 Figura 3. Tempo a que trabalha em ELIS Dos 6 entrevistados 5 trabalharam em Intervenção Precoce na Infância antes do Decreto-Lei 281/2009. O número de anos indicado varia entre 1 e 6 anos, sendo a moda 3 anos (Figura 4). Figura 4. Número de anos em que trabalhou em IP antes do Decreto-lei 281/2009 Todos os entrevistados mencionaram gostar de trabalhar da área da IP, e na Figura 5 apresentamos alguns dos motivos por eles apresentados. De notar que são apresentados motivos dos seis entrevistados. Em todos ressalta o gosto em trabalhar com crianças e famílias. É uma área exaustiva, que exige uma aprendizagem constante e se torna num desafio diário e, há quem refira ser uma área enriquecedora e gratificante, e também quem refira que gosta de ver a evolução e as pequenas/grandes conquistas das crianças e das famílias. 1 4 1 0 1 2 3 4 5 1 a 5 anos 11 a 15 anos Mais de 15 anos 01234 1 ano 3 anos 6 anos
24 Figura 5. Razões pelas quais gostam de trabalhar na área da IP 4.2. Caraterização da equipa Nas 6 equipas de IPI que participaram neste estudo, verificou-se uma constituição muito variável quanto aos profissionais que as compõem, e como tal, optamos por contabilizar quantas delas possuem os diferentes profissionais que geralmente compõem as equipas (Tabela 1). Assim, todas as equipas têm educadores de infância (o número de educadores variou entre 2 e 6). Há 5 equipas que possuem enfermeiros e também 5 equipas possuem psicólogos. Há 4 equipas que têm assistentes sociais, 3 equipas têm terapeutas ocupacionais, 3 equipas têm fisioterapeutas e três equipas têm terapeutas da fala. Há ainda equipas que têm um professor do 1º ciclo, técnicos e uma tem médico. •área exaustiva •enriquecedora e gratificante E1 Gosta trabalhar com crianças •gosta de dar consultoria a educadores •gosta de trabalhar com os diferentes membros da equipa •integração de vários saberes E2 Gosta de trabalhar com pais e cuidadores •constante aprendizagem •gosta sobretudo de ser, hoje, a família a conduzir as sessões E3 Gosta de trabalhar com crianças e famílias •preocupações da família são as preocupações da equipa •proporcionar coisas diferentes e possibilitar a descoberta •gosta de ver a evolução e as pequenas/grandes conquistas E4 Gosta de trabalhar com crianças e estabelecer uma relação de confiança com as famílias •gosta de trabalhar com criança muito novas (0-3 anos) E5 Gosta de trabalhar com crianças •desafio diário •aprendizagem diária E6 Gosta de trabalhar com crianças e famílias
25 Tabela 1. Elementos constituintes das 6 equipas Elementos da equipa Número de equipas que têm este elemento Enfermeiro 5 Psicólogo 5 Assistente Social 4 Terapeuta ocupacional 3 Fisioterapeuta 3 Terapeuta da fala 3 Educador de Infância 6 Professor do 1.º ciclo 1 Técnico Psicomotricista 1 Médico 1 Alguns dos entrevistados, acrescentaram que muitos dos seus elementos só integram a equipa em regime parcial, ou seja, estão dedicados algumas horas por semana à equipa. Os elementos que mais contribuem, em carga horária, são os Educadores de Infância. Relativamente à organização e funcionamento da equipa (Figura 6), praticamente todos os entrevistados referem que estão bem organizadas (5 das 6 equipas), no entanto um referiu que “a organização e constituição das equipas fica um pouco complicada porque os elementos são tutelados por Ministérios diferentes, com orientações diferentes”. Todos enaltecem o trabalho colaborativo e interajuda entre os vários elementos da equipa. Foram apontados alguns aspetos menos positivos, como a escassez de recursos quer materiais quer humanos (4 das 6 equipas), sendo necessária a integração de mais elementos principalmente da área da saúde (2 das 6 equipas). Também foi apontado como um ponto negativo as formações não serem gratuitas e serem no litoral (1 das 6 equipas).
26 Figura 6. Organização e funcionamento da equipa Ainda sobre a forma como a equipa desenvolve o seu trabalho foi sugerido na E1 que “a avaliação possa ser cada vez mais no contexto natural de vida da criança e que não seja baseado no modelo terapêutico. Que seja a equipa a ir ao encontro da família, aos contextos naturais de vida”. Outro entrevistado (E2) referiu que é necessário “… melhorar a aquisição de material de estimulação adequado para as avaliações na sede da ELI. O que dispomos são dádivas dos profissionais da ELI”. E outro (E4), “Gostaria que houvesse uma sede onde estivesse tudo concentrado. Deveria haver formação com os profissionais titulares”. 4.3. Processo de Intervenção precoce na infância com uma família No seguimento da entrevista, foi pedido que descrevessem de forma sumária e genérica o processo de IPI com uma família. Neste âmbito, obtiveram-se respostas muito detalhadas e outras muito pouco detalhadas, tendo-se elaborado o esquema apresentado na Figura 7 de forma a resumir o processo. O primeiro momento é a Referenciação da família, sempre com o conhecimento desta, e que pode ser feita pela própria família, cuidador, médico, professor, ama…De seguida há uma reunião de acolhimento entre alguns membros da equipa e a família, para posteriormente ser feita a avaliação. Aqui, pretende-se conhecer as preocupações da família e as suas necessidades. Posteriormente, a equipa define quem será o mediador/facilitador de caso e transformam-se as preocupações da família em objetivos construindo o PIIP. Bem organizadas (5) Trabalho colaborativo (6) Os profissionais completam-se (2) Há interajuda entre os vários elementos da equipa (6) Recursos são escassos (4) São necessários mais profissionais principalmente da área da saúde (2) As formações não são gratuitas (1)
27 Figura 7. Processo de Intervenção Precoce na Infância 4.3.1. O papel da Família (pergunta 7, 8, 9, 10) O processo de intervenção precoce na família sendo desencadeado pelas famílias, torna-as o centro de toda a intervenção (Figura 8). Assim, todas as ELI’S consideram a família como um elemento da equipa, pois é delas que veem as preocupações e as necessidades. Todo o plano de intervenção é decidido com a família e esta tem sempre a última palavra. Segundo E1 “… os objetivos são construídos com a família. Podem alterar o PIIP sempre que considerarem necessário…” De acordo com E2: “A família é o elemento principal para se efetuar o PIIP. Sem o envolvimento da família a intervenção não pode surtir efeito…” e ainda “… a família, …, é quem refere as necessidades, prioridades, recursos disponíveis, identificando também as suas expectativas relativamente à criança e intervenção”. E6 mencionou também que “…respeitamos as decisões das famílias. … Quem tem de mencionar as preocupações é a família e de acordo com as preocupações referidas são definidos os objetivos. Se a família não considerar algumas coisas como preocupações não serão objetivos, ela não os irá trabalhar.” É transversal a todas as equipas entrevistadas que o objetivo da intervenção é capacitar a família para melhor intervir junto das suas crianças. Segundo E6, “Nós não estamos na família para o resto da vida. …A partir do momento em que a família é capaz de tomar decisões de forma autónoma e os objetivos estão cumpridos, deixa de haver preocupações e a equipa sai”. Família é referenciada Reunião de acolhimento Avaliação Mediador/Facilitador PIIP
28 Figura 8. Papel da família 4.4. Instrumentos usados pela equipa As 6 equipas que participaram neste estudo referem utilizar sempre o Ecomapa. No entanto, nem sempre usam a EBR, ou se a usam, é em versões adaptadas, pois todas opinaram que a EBR no seu formato original é muito grande e demora muito tempo a aplicar. Mas, na prática a EBR é usada pois tudo é baseado na rotina da Criança. Também há equipas que usam documentos do SNIPI (ficha de referenciação, ficha de caraterização da criança e da família) e escalas de avaliação de desenvolvimento (ex: Mary Sheridan Guia Portage ), check list (ASQ3), “Currículo Carolina do Norte”. Segundo os entrevistados, com o Ecomapa as famílias conseguem ver de imediato as suas redes sociais e percebem que há sempre recursos que podem mobilizar (Figura 9). A EBR permite conhecer a rotina de cada membro da família e da criança em particular e conhecer a lista de preocupações da família, levando à sua priorização de forma a estabelecer os objetivos da intervenção da ELI. Família é um parceiro, um elemento da equipa Preocupações Necessidades Está sempre presente e tem sempre a última palavra Desenvolve-se um trabalho de co-construção, cujo objetivo é a capacitação de cuidadores para melhor intervir junto das suas crianças
29 Figura 9. Vantagens dos Ecomapa e da EBR Relativamente aos elementos da equipa que aplicam o Ecomapa (usado por todas as ELI’S), em algumas equipas trata-se do coordenador e assistente social (e têm formação para o efeito), e na impossibilidade destes, o psicólogo e um terapeuta também o aplicam. Há outras ELI’S onde todos os elementos aplicam esse instrumento, mas nenhum deles teve formação. Há uma outra ELI em que todos os elementos aplicam tendo formação, que é considerada escassa por parte do entrevistado. Todos os elementos que integram as 6 equipas em estudo veem utilidade no uso dos instrumentos, principalmente do Ecomapa que é o mais usado. Há uma equipa que refere que os elementos reconhecem a utilidade dos instrumentos, mas não criaram o hábito de usarem de forma formal por questões de tempo. As famílias reagem bem ao uso do Ecomapa, pois obriga-as a refletir, tomando consciência dos aspetos que correm bem e dos aspetos que têm de aprimorar, e dessa forma sentem-se envolvidas na promoção da participação da criança nas atividades. O tempo de aplicação dos instrumentos varia entre 1 a 2 horas e meia, sendo que a maioria das equipas apontou 1,5 horas. Ao longo do processo, todas as equipas referem que os resultados construídos a partir dos instrumentos são periodicamente revistos com as famílias. Essa revisão ocorre após a reunião de reavaliação dos objetivos do PIIP, sempre que a família o solicite ou sempre que haja alterações, de forma a indagar as (novas) preocupações da família ao longo do processo o que leva a redefinir os •As famílias conseguem ver de imediato as suas redes sociais, ligações/pontos de apoio •As famílias reconhecem que há sempre recursos que podem mobilizar ECOMAPA •Conhecer a rotina de todos os membros da família •Conhecer a lista de preocupações da família e priorizá-la possibilitando a definição dos objetivos a trabalhar EBR
30 objetivos. Há um entrevistado (E2) que narra: “Nada do que é construído/registado com as famílias assume um carater definitivo, pois todo o processo de intervenção tem por base uma dinâmica que se pretende ser o mais ajustada possível às necessidades, prioridades e recursos que as famílias nos apresentam”. Resumidamente: “Na abordagem centrada na família constata-se que esta tem um papel primordial na vida da criança. Logo o objetivo da intervenção precoce na infância consiste em criar as oportunidades, promover as capacidades através de um conjunto de medidas de apoio integrado e centrado na criança/família. Neste sentido, criança e família coexistem, isto é, não se pode separar este binómio. A criança faz parte da família e é nas práticas diárias desta que a criança pode desenvolver as suas capacidade e competências funcionais.” Para finalizar foi solicitado aos entrevistados que referissem algum aspeto que não tivesse sido abordado ao longo da entrevista. Obtiveram-se duas repostas (de E2 e E5, respetivamente): “No contexto da intervenção da ELI a pobreza e/ou doença mental colocam as famílias numa situação de grande fragilidade humana. No Universo das crianças/famílias que nos foram referenciadas, identificamos vários determinantes socioculturais que interferem muitas vezes nos resultados que desejamos serem eficazes…” A outra opinião vem no sentido de se avaliar o Processo de Intervenção Precoce. “Cada vez mais, a intervenção precoce, tem um papel de consultoria.” Assim, como trabalho futuro: “Perceber se os objetivos delineados com as famílias são atingidos a longo prazo” “Quantas famílias optam pela Intervenção Precoce e/ou pelos serviços da escola inclusiva (EMAEI)” “Quantas famílias poderiam ou tem “alta” porque já estão mais capacitadas” “Fazer o levantamento de quantos profissionais e áreas há na ELI e quanto tempo é atribuído à intervenção, e que evidenciasse esta realidade que é vital para o funcionamento cabal das ELI’S.”
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41 ANEXOS
42 Anexo I – Consentimento Informado Exmo. (a). Senhor(a). Vimos por este meio solicitar a sua colaboração no estudo intitulado “Contributos da EBR e do Ecomapa na construção dos PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI’S.” Esta investigação, conduzida sob a orientação da Professora Doutoras Ana Maria Serrano, surge no âmbito do Mestrado em Educação Especial – área de especialização em Intervenção Precoce na Infância, do Instituto de Educação da Universidade do Minho. O objetivo do presente estudo é conhecer – através do olhar dos profissionais de Intervenção Precoce na Infância (IPI) a relevância dos instrumentos referidos na construção dos PIIP e, em que medida os profissionais de IPI que dão suporte às famílias os valorizam e utilizam nas Práticas Centradas na Família. Para isso contamos com a sua importante colaboração. O seu olhar sobre estas questões será recolhido por intermédio de uma entrevista semi-estruturada cuja gravação áudio gostaríamos que autorizasse, através da assinatura do Consentimento Informado (em baixo). Os dados do presente estudo serão tratados, pela autora do estudo, de modo confidencial e salvaguardando a identificação dos seus participantes. Os dados gravados serão destruídos após o estudo. CONSENTIMENTO INFORMADO Eu, , profissional de Intervenção Precoce na Infância, mediante salvaguarda da confidencialidade dos dados, autorizo, para fins de investigação, a gravação – em registo áudio – e análise dos dados recolhidos no âmbito do estudo “Contributos da EBR e do Ecomapa na construção dos PIIP e na avaliação autêntica centrada na família: Perspetivas dos profissionais das ELI’S.” Data: / / Assinatura: A investigadora, Carla Sandra Caetano dos Santos Paiva (Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e Mestranda em Educação Especial - área de especialização em Intervenção Precoce, no Instituto de Educação da Universidade do Minho)
43 Anexo II – Guião de Entrevista às ELI’S Questionário sócio demográfico 1Situe a sua Idade. - 22 a 32 anos - 33 a 43 anos - 44 a 54 anos - 55 a 64 anos 2Qual a sua formação inicial? 3Tem formação em Intervenção Precoce na Infância? Caso afirmativo indique a formação realizada. 4 - Há quantos anos trabalha nas ELI’S? - 1 a 5 anos - 6 a 10 anos - 11 a 15 anos -Mais de 15 anos
44 5Trabalhou em Intervenção Precoce na Infância antes da data do Decreto-Lei 281/2009 Sim Não Se respondeu afirmativamente, indique o número de anos que trabalhou. 6 - Gosta de trabalhar nesta área? Porquê? Guião da entrevista 1A sua equipa integra a região do Porto ou de Bragança? 2Quantos são e quem são, no que respeita à função, os elementos que integram a equipa?
45 3Que pensa sobre o modo como está organizada a constituição das equipas e o seu funcionamento? Têm o número de profissionais suficiente? Desenvolvem um trabalho colaborativo? 4Que aspetos salientaria como positivos do trabalho desenvolvido na sua equipe? 5Há algum aspeto na forma como a equipa desenvolve o seu trabalho que gostaria de ver aprofundado e/ ou melhorado? 6Poderia descrever-me como funciona, sumaria e genericamente, o processo de Intervenção Precoce na Infância com uma família?
46 7 - Como considera ser o trabalho da equipa com as famílias? 8Na sua opinião, que tipo de contributo para as famílias traz o trabalho realizado pela Intervenção Precoce na Infância? 9De que forma os profissionais da sua equipa incluem a família, como mais um elemento da equipa? O que pensa sobre isto? 10A opinião da família é valorizada e tida em conta nas decisões tomadas para a elaboração do PIIP?