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Universidade do Minho Escola de Psicologia Cindy Rego Sá Jogo Social Simbólico e o Efeito Preditor da Sensibilidade Materna: um estudo com crianças prematuras em idade pré-escolar Junho de 2020 UMinho | 2020 Cindy Sá Jogo Social Simbólico e o Efeito Preditor da Sensibilidade Materna: um estudo com crianças prematuras em idade pré-escolar
Cindy Rego Sá Jogo Social Simbólico e o Efeito Preditor da Sensibilidade Materna: um estudo com crianças prematuras em idade pré-escolar Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação da Doutora Ana Raquel Marcelino Mesquita e da Professora Doutora Joana Isabel Soares Baptista Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2020
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos Por cada objetivo alcançado, devemos sempre olhar para trás e reconhecer e ser gratos por todos aqueles que nos ajudaram a chegar à meta. A todos aqueles que fizeram, de alguma forma, parte do caminho, o meu sincero obrigada! Agradeço à Doutora Ana Mesquita e à Professora Doutora Joana Baptista por toda a orientação, pela disponibilidade, confiança e ajuda ao longo da realização deste trabalho. Dz dz comentários ao longo desta caminhada, que fizeram deste trabalho um trabalho melhor. À Vanessa Moutinho que partilhou comigo o seu conhecimento e permitiu que me sentisse mais à vontade com os temas que abordo. Agradeço à Carolina Toscano por toda a ajuda, momentos de partilha e amizade ao longo de todo este tempo. Obrigada por teres sido um suporte e me incentivares sempre a fazer melhor. Aos meus pais por fazerem de mim aquilo que sou hoje, por me incutirem sempre que o sucesso se alcança com trabalho e por, acima de tudo, me transmitirem os melhores valores. Obrigada por tudo o que fizeram e fazem por mim! À minha família que sempre foi um apoio. Obrigada por torcerem sempre por mim e por terem acreditado sempre que era capaz de alcançar tudo aquilo que mais desejava. À Natália por ser a melhor prima do mundo. Obrigada por seres uma inspiração e por me fazeres querer ser sempre melhor. Obrigada por todos os momentos e conselhos! À Ana (Pereira) por tudo. Obrigada por me ajudares sempre, por me dares a tua mais sincera opinião sobre tudo. Acima de tudo, obrigada pela tua amizade, por todo o teu apoio e por todos os teus conselhos. Fizeste deste percurso um percurso mais leve. Obrigada! Ao Marcos, à Ana (Pinto), à Cristiana, ao Tiago e à Daniela por serem a minha família de coração. Obrigada por me aquecerem sempre o coração e por estarem lá em todos os momentos, os bons e os menos bons. Obrigada por todos os momentos que passámos juntos, por toda a partilha, mas, acima de tudo, por todo o amor que se sente em cada segundo passado convosco. Serei eternamente grata por vos ter na minha vida!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 04/06/2020 Assinatura:______________________________
v Jogo Social Simbólico e o Efeito Preditor da Sensibilidade Materna: um estudo com crianças prematuras em idade pré-escolar Resumo Este estudo pretendeu analisar a relação entre a idade gestacional e a competência de jogo social simbólico, em crianças prematuras, bem como o efeito preditor da sensibilidade materna. A amostra foi constituída por 83 díades mãe-criança com crianças com idades compreendidas entre os 40 e os 46 meses. A competência de jogo social simbólico foi avaliada através de duas sessões de jogo estruturado, cujas pontuações quando combinadas numa equação refletem a capacidade de a criança integrar as sugestões de jogo do investigador. A sensibilidade materna foi avaliada através de uma interação mãecriança com dois episódios cotados de acordo com a Escala de Sensibilidade Vs Insensibilidade de Ainsworth. Os resultados revelam não haver uma associação significativa entre a idade gestacional e a capacidade de jogo social simbólico, mas indicam que maior sensibilidade materna está associada a maior competência de jogo social simbólico. Contudo, através da análise de regressão, verificou-se que a sensibilidade materna não se constitui como um preditor significativo de jogo social simbólico, controlando o QI da criança, o risco neonatal e o nível de escolaridade materno. Os resultados ressaltam a necessidade de se continuar a explorar o jogo social simbólico e o impacto da qualidade da interação mãe-criança no desenvolvimento de competências sociocognitivas de crianças prematuras, em idade pré-escolar. Palavras-Chave: prematuridade, jogo social simbólico, sensibilidade materna
vi Social Symbolic Play and the Predictive Effect of Maternal Sensitivity: a study with preterm children in preschool age Abstract This study aimed to analyse the relationship between gestational age and the competence in social symbolic play in preterm children as well as the predictive effect of maternal sensitivity. The sample was constituted by 83 dyads mother-child with children who were about 40 to 46 months old. The social symbolic play was assessed through two structured play sessions whose scores, when combined in an equation, ǯ ǯǤ through a mother-ǯ Sensitivity Vs Insensitivity Scale. The results doǯ ǯ maternal sensitivity is associated with greater competence in social symbolic play. However, through the regression analyses, it was found that maternal sensitivity is not a ǡǯǡ maternal educational level. The results highlight the need to continue to explore the social symbolic play and the impact of the quality of mother-child interaction on the development of socio-cognitive skills of preterm children, in preschool age. Keywords: prematurity, social symbolic play, maternal sensitivity
vii Índice Geral Parte I: Enquadramento Teórico .......................................................................................................... 8 Prematuridade ............................................................................................................................................. 8 Jogo Social Simbólico .............................................................................................................................. 10 Qualidade da Interação Mãe-Criança ............................................................................................... 11 Parte II: Estudo Empírico ....................................................................................................................... 12 Método ........................................................................................................................................................ 12 Participantes .......................................................................................................................................... 12 Instrumentos ......................................................................................................................................... 13 Procedimento de Recolha de Dados ............................................................................................. 16 Procedimento de Análise de Dados .............................................................................................. 17 Resultados ................................................................................................................................................. 18 Estatísticas Descritivas ...................................................................................................................... 18 Associações entre variáveis ............................................................................................................. 18 Predição do jogo social simbólico ................................................................................................. 19 Discussão ................................................................................................................................................... 21 Referências .................................................................................................................................................... 26 Anexo ................................................................................................................................................................ 32 Índice de Tabelas Tabela 1. Caracterização da amostraǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǤǤǤǤǤ. 17 Tabela 2. Caracterização das variáveis em estudoǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǤǤǤ 18 Tabela 3. Associações entre as variáveis em estudoǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǥǤǤ20 Tabela 4. Modelo de Regressão Linear Hierárquico para o Jogo Social SimbólicoǥǥǥǤǤǥ.21
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 14 gestacional, do valor do peso ao nascimento e do valor estandardizado do somatório das 10 condições de risco neonatal, com valores mais elevados a refletir maior risco. Escala de Inteligência de Wechsler para a Idade Pré-Escolar e Primária (WPPSI-R; Wechsler, 2003; versão portuguesa por Seabra-Santos, Simões, Rocha, & Ferreira, 2003). Esta escala é um instrumento que visa avaliar a inteligência de crianças com idades entre os 3 anos e os 6 anos e 6 meses e é composta por duas subescalas, a subescala de Realização e a subescala Verbal. No presente estudo foi utilizada uma versão curta que permite aceder ao QI total através das provas Quadrados e Informação (Sattler, 1992). No subteste Quadrados, é pretendido que a criança reproduza, dentro de um tempo estipulado, desenhos previamente apresentados com recurso a quadrados de duas cores. Na prova Informação, a criança deve responder a um conjunto de questões relacionadas a factos ou objetos do seu meio. Através do somatório dos resultados padronizados obtidos nas provas Quadrados e Informação calculou-se o QI Total. Escala de Sensibilidade Materna (Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978). A sensibilidade materna foi avaliada através de uma interação mãe-criança, dividida em dois episódios: (1) mãe e criança brincam com um brinquedo desenvolvimentalmente desafiante para a criança (5 minutos); e (2) a díade brinca com brinquedos adequados à idade da criança (2.5 minutos), seguindo-se uma tarefa de arrumação dos brinquedos, sendo que a mãe pode ajudar, mas não o pode fazer pela criança (2.5 minutos). Em todos os episódios se procedeu à gravação audiovisual para posterior cotação com recurso à escala Sensibilidade vs. Insensibilidade de Ainsworth et al. (1978). Esta escala permite avaliar a competência da mãe em perceber e interpretar corretamente os sinais da criança e, dessa forma, responder prontamente e adequadamente a esses sinais. Trata-se de uma escala de nove pontos, em que 1 é altamente insensível e 9 é altamente sensível. Para o cálculo do acordo inter-observadores, 28 casos foram aleatoriamente selecionados e cotados a par. O acordo inter-observadores foi elevado (୰୧ୡ= .91) e os desacordos foram resolvidos em consenso. Jogo Social Simbólico (Meins & Russell, 1997). Esta tarefa visa aceder às competências ao nível do jogo social simbólico de crianças em idade pré-escolar, nomeadamente, à capacidade da criança para atender e compreender as perspetivas de outras pessoas num contexto de jogo. Para isso, são apresentados às crianças dois tipos de objetos Ȃ dois objetos representacionais (um carro de brincar e uma boneca) e nove
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 15 objetos sem qualquer tipo de representação (uma caixa de cartão, uma tira de cartão, uma tampa de frasco, um tubo de papel higiénico, legos, uma caixa de plástico, uma tampa de garrafa de água, uma tira de papel alumínio e um guardanapo azul). A tarefa começa com uma sessão de jogo introdutória para que a criança se familiarize com os objetos e com o investigador. Esta primeira sessão inicia-se assim que a criança estabelece o primeiro contacto ocular com os materiais. Após a sessão introdutória, é iniciada a sessão de jogo estruturada, que é constituída por duas condiçõesȂ elicitada e instruída. Neste momento, apenas dois objetos são deixados em cima da mesa: um objeto representacional e um objeto não representacional. Na condição elicitada não são dadas indicações específicas às crianças. O investigador apenas questiona a criança sobre o que esta pode fazer com os ȋDzǫdzȌǤ× ação ou resposta verbal (ou ausência das duas) por parte da criança, o investigador convidaa a realizar uma ação específica com os dois objetos (por exemplo: boneca e tampa de garrafa de água Ȃ DzdzȌǤ parte do investigador, insere-se já na condição instruída. Os restantes pares de objetos foram apresentados à criança de forma randomizada. A codificação desta tarefa é feita através da adaptação de Meins e Russell (1997) dos critérios de Lewis e Boucher (1988). Ambas as condições foram avaliadas numa escala de Likert de 5 pontos (de 0 a 4), em que resultados mais elevados representam maior sofisticação simbólica. Além disso, será também registado o número de estágios pelos quais a criança pode avançar de modo a atingir a pontuação máxima na condição elicitada. Estas pontuações permitem calcular a pontuação geral da capacidade executiva da criança, que reflete a sua capacidade para compreender e integrar as sugestões simbólicas do investigador (Meins & Russell, 1997). Esta pontuação geral é obtida através da seguinte equação: െ À Quanto maior a pontuação geral, maior a capacidade de as crianças integrarem as sugestões do investigador no jogo simbólico. Aproximadamente 36% dos casos foram cotados em acordo com um segundo observador. O acordo inter-observadores foi elevado (୰୧ୡ= .94) e os desacordos foram resolvidos em consenso.
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 16 Procedimento de Recolha de Dados O presente estudo enquadra-se num estudo mais amplo com crianças prematuras e respetivas mães. Para a sua realização, foi obtida a autorização da Comissão de Ética da Universidade do Minho (SECVS 011/2015), da Comissão Nacional de Proteção de Dados (processo nº 489/2014), e das Comissões de Ética dos hospitais que participaram no estudo. Todos os procedimentos decorrentes do processo de investigação tiveram em consideração os princípios éticos vertidos na Declaração de Helsínquia, na Convenção de Oviedo, na Legislação Europeia e no Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses. O primeiro contacto com as mães, para a sua participação no estudo, foi efetuado por médicos e psicólogos dos hospitais onde as crianças estavam a ser acompanhadas, sendo que, inicialmente, foi solicitado às mães o preenchimento do consentimento informado, autorizando a sua participação e da criança no estudo. A investigação mais ampla, na qual este estudo se insere, incluiu três momentos de avaliação - aos 12 meses de idade (momento 1), aos 24 meses (momento 2) e aos três anos e meio (momento 3), centrando-se o presente estudo apenas no terceiro momento. Foram necessárias duas sessões para a realização do protocolo de avaliação, o qual implicou a aplicação do questionário sociodemográfico, da versão curta da Escala de Inteligência de Wechsler para a Idade Pré-Escolar e Primária (WPPSI-R; Wechsler, 2003; versão portuguesa por Seabra-Santos, Simões, Rocha, & Ferreira, 2003) e a realização da tarefa de avaliação de jogo social simbólico e da interação estruturada mãe-criança para avaliação da sensibilidade materna. As sessões de avaliação decorreram no local mais conveniente para a família, sendo que 41 (49.4%) dos participantes foram avaliados no Hospital Senhora da Oliveira, 33 (39.8%) no Hospital de S. João, 6 (7.2%) em casa e 3 (3.6%) na Escola de Psicologia da Universidade do Minho.
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 17 Tabela 1 Caracterização da amostra Nota. DP, desvio-padrão. Procedimento de Análise de Dados Para o tratamento e análise de dados utilizou-se a versão 26.0 do software Statistical Package for the Social Science (SPPS). Realizaram-se análises descritivas para a caracterização das variáveis em estudo, nomeadamente o jogo social simbólico, a sensibilidade materna, o QI e o risco neonatal. Posteriormente, foram analisadas as associações entre as variáveis de interesse, tendo sido utilizadas correlações de Pearson, de Spearman ou Qui-quadrado, consoante o tipo de variável. Por último, realizou-se uma M±DP Crianças Sexo (% do sexo masculino) 67.5% Gémeos (%) 19.3% Idade cronológica 42.47 ± 1.19 Idade gestacional 32.59 ± 3.08 Peso à nascença 1836.53 ± 617.50 Mães Idade 36.35 ± 4.47 Estado Civil Solteira 7.2% Casada 62.7% União de facto 25.3% Divorciada 4.8% Número de filhos (%) Um filho 44.6% Dois filhos 48.2% Três filhos 7.2% Nível de escolaridade (%) ζͻ 22.9% 11º ano 1.2% 12º ano 26.5% Ensino Superior 49.4% Estatuto profissional (%) Empregada 91.6% Desempregada 8.4%
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 18 análise de regressão linear hierárquica para avaliar o impacto da sensibilidade materna no desenvolvimento de competências ao nível do jogo social simbólico de crianças prematuras, em idade pré-escolar, controlando o efeito do QI e do risco neonatal. Resultados Estatísticas Descritivas No que concerne ao jogo social simbólico, a amostra apresentou pontuações que variaram entre -.08 e .84 (M = .37, DP = .18). A sensibilidade materna variou entre 1 e 8, sendo a média de 4.80 (DP = 1.85). Relativamente ao funcionamento cognitivo, obteve-se uma média de 106.13 (DP = 15.30), com um mínimo de 73 e um máximo de 147. Por fim, a amostra apresentou uma média de -.02 para o risco neonatal (DP = .96), tendo este variado entre -1.50 e 2.08. Na tabela 2 são apresentadas as medidas descritivas relativas às variáveis em estudo. Tabela 2 Caracterização das variáveis em estudo Nota: a existem várias modas, mas apenas o valor menor é apresentado Associações entre variáveis Na tabela 3 são apresentadas as correlações entre as variáveis em estudo. Verificou-se uma correlação positiva e estatisticamente significativa entre o jogo social simbólico e a sensibilidade materna, r = .22, p = .045, pelo que crianças cujas mães eram mais sensíveis revelavam maior competência na tarefa de jogo social simbólico. Adicionalmente, o jogo social simbólico apresentou correlações estatisticamente significativas com o QI, r = .40, p < .001, com o risco neonatal, r = -.26, p = .017, e com o nível de escolaridade da mãe, ݎ୮ୠ= .24, p = .029. Assim QI mais elevado, menor risco neonatal e maior nível de escolaridade da mãe estava associados a maior competência de M Mdn Mo DP Min-Máx Jogo Social Simbólico .37 .38 .38 .18 -.08 - .84 Sensibilidade Materna 4.80 5 5 1.85 1 Ȃ 8 Q.I. 106.13 106 100a 15.30 73 Ȃ 147 Risco Neonatal -.02 -.33 -.1.50a .96 -1.50 Ȃ 2.08
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 19 jogo social simbólico. A sensibilidade materna apresentou também correlações significativas e positivas com o funcionamento cognitivo da criança, r = .23, p = .041, e com o nível de escolaridade das mães, ݎ୮ୠ= .37, p = .001, pelo que as mães eram mais sensíveis quanto maior fosse o seu nível de escolaridade e o QI da criança. Emergiram ainda, correlações estatisticamente significativas entre outras variáveis em estudo. A variável número de filhos revelou uma correlação positiva com ser gémeo, rpb = .50, p< .001, e com a idade da mãe, r = .37, p = .001. Por fim, verificou-se que maior idade gestacional estava associada a menor risco neonatal, r = -.96, p< .001, e a menor idade cronológica da criança, no momento da avaliação, r = -.22, p = .050. Predição do jogo social simbólico De modo a avaliar o efeito preditor da sensibilidade materna na competência de jogo social simbólico, conduziu-se uma análise de regressão linear hierárquica. Esta análise foi executada tendo por base princípios teóricos bem como associações significativas previamente descritas. No primeiro bloco, foram inseridos o QI, o risco neonatal e o nível de escolaridade da mãe como variáveis de controlo. No segundo bloco, introduziu-se a sensibilidade materna. O modelo de regressão mostrou-se significativo no primeiro bloco, F (3,79) = 8.52, p< .001, explicando 24% da variância. O QI da criança, o risco neonatal e o nível de escolaridade da mãe revelaram-se preditores significativos do jogo social simbólico Ȃ QI mais elevado estava associado a maior competência de jogo social simbólico, Ⱦ = .34, t = 3.46, p = .001, maior risco neonatal estava associado a pior competência de jogo social simbólico, Ⱦ = -.22, t = -2.25, p = .027, e níveis mais altos de escolaridade materna encontravam-se associados a melhor desempenho na tarefa de jogo social simbólico, Ⱦ = .20, t = 2.06, p = .042. O modelo de regressão foi também significativo no segundo bloco, F (4,78) = 6.51, p< .001, explicando 25% da variância. Neste modelo, o nível de escolaridade materno, Ⱦ = .18, t = 1.65, p = .102, e a sensibilidade materna, Ⱦ = .08, t = .77, p = .443, não se verificaram como preditores significativos do jogo social simbólico (cf., Tabela 4).
20 Tabela 3 Associações entre as variáveis em estudo 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 1. Sexo da criança 2. Idade cronológica da criança b -.06 3. Idade gestacional b -.04 c -.22* 4. Ser gémeo a .22 c -.04 c .15 5. Q.I da criança b -.20 c .12 c .11 b .00 6. Compósito de risco neonatal b .00 c .16 c -.96** b -.03 c -.13 7. Idade da mãe b -.07 c -.10 c .14 b .14 c .07 c -.15 8. Escolaridade da mãe a 2.43 c .00 c -.07 a 1.88 c .13 c .03 c -.02 9. Número de filhos b .21 c -.14 c .10 b .50** c -.04 c -.04 c .37** b-.04 10. Jogo Social Simbólico b .02 c .04 c.20 b-.14 c .40** c -.26* c .13 b.24* c .04 11. Sensibilidade Materna b .04 c -.08 c-.01 b.10 c .23* c .00 c -.06 b.37** c .09 c .22* Nota: a ߯ଶ; bݎ୮ୠ; c r *p<.05; **p<.01
21 Tabela 4 Modelo de Regressão Linear Hierárquico para o Jogo Social Simbólico ܀ ܀ Ajustado F Ⱦ Bloco 1 (df 3,79) .24 .22 8.52** QI .34** Risco Neonatal -.22* Nível de escolaridade da mãe .20* Bloco 2 (df, 4,78) .25 .21 6.51** QI .33** Risco Neonatal -.22* Nível de escolaridade da mãe .18 Sensibilidade Materna .08 *p< .05; **p< .01 Discussão A literatura tem reportado que o nascimento antes das 37 semanas de gestação acarreta várias consequências, nomeadamente ao nível da cognição social, na qual se insere a competência de jogo social simbólico (Nadeau et al., 2003; Stephens & Vohr, 2009; You et al., 2019). Crianças prematuras envolvem-se menos neste tipo de atividades devido a um possível atraso no desenvolvimento da linguagem, que compromete a sua interação com os pares (Ungerer & Sigman, 1983; Irwin et al., 2002). Este conhecimento prévio, guiou-nos até à nossa primeira hipótese de que baixa idade gestacional estaria associada a menor capacidade de jogo social simbólico, ou seja, menor capacidade executiva. No entanto, os resultados não confirmam a nossa hipótese, não tendo sido verificada uma associação estatisticamente significativa entre a idade gestacional e a capacidade de jogo social simbólico. Contudo, apesar de a idade gestacional, uma das variáveis de risco neonatal, não estar associada à capacidade executiva das crianças da amostra, o compósito de risco neonatal surgiu como preditor significativo de jogo social simbólico, o que poderá indicar que, embora a idade gestacional não influencie a capacidade das crianças prematuras integrarem sugestões de jogo simbólico do investigador, outras variáveis de risco neonatal, incluídas no compósito, poderão ter
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 22 maior impacto no desenvolvimento desta competência. No entanto, mais investigação é necessária para se conhecerem quais as variáveis de risco, associadas ao nascimento prétermo, que poderão ter maior impacto no desenvolvimento sociocognitivo destas crianças. A par disto, outros fatores poderão explicar os resultados obtidos. Youngblade e Dunn (1995) encontraram diferenças na capacidade de jogo social simbólico consoante o tipo de relação que a criança mantinha com o colaborador no jogo, tendo verificado diferenças no jogo entre irmãos e mãe-criança. Nesse sentido, não sabemos se alguma associação significativa teria surgido se a tarefa de jogo social simbólico tivesse sido realizada com alguém que tivesse uma relação mais estreita com a criança, como a mãe, um irmão ou um amigo. Além disso, sabendo-se à partida que menor envolvimento em tarefas de jogo simbólico pode resultar de um atraso do desenvolvimento da linguagem e havendo evidência de que existe uma forte associação entre o jogo simbólico (solitário) e a linguagem expressiva e recetiva (Charman et al., 2000; Lewis, Boucher, Lupton, & Watson, 2000), torna-se pertinente controlar esta variável. No entanto, no presente estudo não o foi possível, dado que, aproximadamente, 39% (n= 32) da amostra faltou à segunda sessão de avaliação, na qual eram aplicadas as provas através das quais se obteria o QI verbal. Nesse sentido, em investigações futuras, poderá ser relevante controlar a variável da linguagem, utilizando, por exemplo, um instrumento que avalie tanto a linguagem recetiva como a linguagem expressiva, dada a sua forte associação com a competência em estudo. Este estudo tinha também como objetivo avaliar o possível efeito preditor da sensibilidade materna na competência de jogo social simbólico, uma vez que consta na literatura que a qualidade da interação mãe-criança se reflete em outcomes mais positivos no desenvolvimento de crianças prematuras e que maior sensibilidade materna, em contexto de jogo, se pode traduzir em maior capacidade de a criança atender a sugestões de outras pessoas (Meins, 1997; Arpi & Ferrari, 2013; Wolke et al., 2013; Rahkonen et al., 2014). Assim, a nossa segunda hipótese era de que maior competência de jogo social simbólico, em crianças prematuras, poderia ser, em parte, explicada pela sensibilidade materna. Contrariamente às nossas expectativas, a sensibilidade materna não se mostrou ser um preditor significativo de jogo social simbólico, mesmo quando controladas variáveis como o funcionamento cognitivo da criança, o risco neonatal e o nível de escolaridade materno. A literatura retrata o jogo simbólico como sendo um fenómeno sociocultural e desenvolvimental, que é influenciado tanto pelas interações sociais como
JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 23 pelo contexto (Morrissey, 2014). Assim, para além da sensibilidade materna, outros domínios da parentalidade poderão ter maior impacto no desenvolvimento de competências sociocognitivas da criança, como é o caso do scaffolding materno, que diz respeito ao suporte providenciado pela mãe para que a criança alcance objetivos que de outra forma estariam aquém das suas capacidades (Vygotsky, 1978). Num estudo de Brown e Remine (2004), esta competência materna refletiu-se em níveis mais elevados de jogo simbólico em crianças. No entanto, falta ainda evidência na literatura que retrate qual o papel desta e de outras competências maternas no desenvolvimento do jogo social simbólico, nomeadamente em crianças prematuras. Além desta possível explicação, outros fatores relativos à metodologia do estudo poderão explicar, em parte, os resultados obtidos. Cerca de 58% dos participantes deste estudo eram prematuros moderados ou tardios (32-37 semanas de gestação). No entanto, estudos anteriores que encontraram efeitos positivos da qualidade da interação mãe-criança no desenvolvimento de crianças prematuras tinham, essencialmente, na sua amostra crianças nascidas extremamente prematuras (<28 semanas de gestação) e muito prematuras (28-32 semanas de gestação) (Wolke et al., 2013; Rahkonen et al., 2014). Apesar de ainda existir pouca evidência na literatura que relate diferenças entre crianças prematuras quanto à sua suscetibilidade à qualidade da interação mãe-criança, sabe-se que a prematuridade se constitui como um fator de suscetibilidade, podendo, num contexto favorável, refletir-se em melhor funcionamento social e, em crianças muito prematuras, em outcomes cognitivos mais positivos (Shah et al., 2013; Gueron-Sela, Atzaba-Poria, Meiri, & Marks, 2015). Não se tendo verificado associações significativas entre a idade gestacional, a sensibilidade materna e o jogo social simbólico, não foi possível, neste estudo, constatar se existiriam diferenças na suscetibilidade, consoante o grau de prematuridade, que se manifestassem ao nível da competência de jogo simbólico, pelo que investigações futuras poderão caminhar nesse sentido. Além disso, também a forma como a sensibilidade materna foi avaliada pode influenciar os resultados obtidos. Segundo Bozzzette (2007), o facto de a avaliação se ter realizado num ambiente diferente ao que espontaneamente a interação mãe-criança ocorre pode refletir-se nos valores de sensibilidade das mães em estudo. Uma vez que se procedeu à gravação audiovisual da interação, a perceção da mãe aos sinais da criança e a forma como esta atende a esses sinais pode ter sido influenciada no decorrer da avaliação. A par de todas as possíveis explicações já enunciadas, também o design do estudo pode limitar a confirmação desta hipótese. Estudos que pretendam
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JOGO SOCIAL SIMBÓLICO E SENSIBILIDADE MATERNA EM CRIANÇAS PREMATURAS 32 Anexo Comprovativo do parecer da Subcomissão de Ética para as Ciências da Vida e da Saúde