Full text
Através dos contributos que integram este livro é possível, por um lado, identifi car os agentes empenhados na construção identitária da comunidade galega (em relação dialéctica, aliás, com outros grupos com programas diferentes ou até antagónicos) e envolvidos no relacionamento galego-português entre os séculos XVIII e XXI. Por outro lado, também é possível nos aproximarmos dos programas propostos, dos objetivos procurados e das funcionalidades atribuídas por esses agentes ao relacionamento de duas comunidades peninsulares com alegados vínculos geo-humanos, históricos, étnicos, culturais ou linguísticos. Com especial destaque para aqueles momentos e estados de campo considerados estratégicos para entendermos os modos e a função atribuída ao relacionamento galego- -português, o livro permite ver como Portugal (a sua mera existência como comunidade geo-humana) e as elites culturais, intelectuais ou políticas lusas contribuem para o reforço dos programas ideológicos e para as ações do galeguismo historicamente considerado. Roberto Samartim é professor no Departamento de Letras da Universidade da Corunha (UdC). Integra o Grupo de Estudos Territoriais da UdC e a Rede Galabra (grupos na USC e na UMinho). Estuda o funcionamento dos campos culturais e os processos políticos e ideológicos com eles relacionados. Entre outras responsabilidades, foi diretor da Agália. Revista de Estudos na Cultura (2010-2017), vice-decano da Faculdade de Filologia da UdC (2011-2013), Secretário Geral da Associação Internacional de Lusitanistas (2011-2014) e editor da www.plataforma9.com (2014-2018) [+ info: https:// redegalabra.org/membro/robertosamartim/]. Carlos Pazos-Justo é professor do Departamento de Estudos Românicos da Universidade do Minho e investigador do grupo Galabra-UMinho do Centro de Estudos Humanísticos da mesma universidade. A sua investigação tem-se centrado nos estudos da cultura e da literatura. É Vice-Presidente do Instituto de Letras e Ciências Humanas, Coordenador do Centro de Estudos Galegos da UMinho e membro da Comissão Executiva da Associação Portuguesa de Professores de Espanhol Língua Estrangeira [+ info: https://redegalabra.org/membro/carlospazos/]. 02 Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo ISBN 978-989-755-452-0 A COLEÇÃO HESPÉRIDES DESTINA-SE ESSENCIALMENTE À PUBLICAÇÃO DE MONOGRAFIAS E OUTROS TRABALHOS CIENTÍFICOS DOS INVESTIGADORES DO CENTRO DE ESTUDOS HUMANÍSTICOS. O Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho é uma unidade de investigação acreditada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), cujos objetivos prioritários são o desenvolvimento e a divulgação de investigação no domínio das Humanidades, em particular nas áreas dos estudos linguísticos, literários, culturais e artísticos. PORTUGAL E(M) NÓS. Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português 02 COLEÇÃO HESPÉRIDES CULTURA EDIÇÃO DE Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo PORTUGAL E(M) NÓS. Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português UNIÃO EUROPEIA Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional UID/ELT/ 00305/2019 CONSELLERÍA DE EDUCACIÓN, UNIVERSIDADE E FORMACIÓN PROFESIONAL
Através dos contributos que integram este livro é possível, por um lado, identifi car os agentes empenhados na construção identitária da comunidade galega (em relação dialéctica, aliás, com outros grupos com programas diferentes ou até antagónicos) e envolvidos no relacionamento galego-português entre os séculos XVIII e XXI. Por outro lado, também é possível nos aproximarmos dos programas propostos, dos objetivos procurados e das funcionalidades atribuídas por esses agentes ao relacionamento de duas comunidades peninsulares com alegados vínculos geo-humanos, históricos, étnicos, culturais ou linguísticos. Com especial destaque para aqueles momentos e estados de campo considerados estratégicos para entendermos os modos e a função atribuída ao relacionamento galego- -português, o livro permite ver como Portugal (a sua mera existência como comunidade geo-humana) e as elites culturais, intelectuais ou políticas lusas contribuem para o reforço dos programas ideológicos e para as ações do galeguismo historicamente considerado. Roberto Samartim é professor no Departamento de Letras da Universidade da Corunha (UdC). Integra o Grupo de Estudos Territoriais da UdC e a Rede Galabra (grupos na USC e na UMinho). Estuda o funcionamento dos campos culturais e os processos políticos e ideológicos com eles relacionados. Entre outras responsabilidades, foi diretor da Agália. Revista de Estudos na Cultura (2010-2017), vice-decano da Faculdade de Filologia da UdC (2011-2013), Secretário Geral da Associação Internacional de Lusitanistas (2011-2014) e editor da www.plataforma9.com (2014-2018) [+ info: https:// redegalabra.org/membro/robertosamartim/]. Carlos Pazos-Justo é professor do Departamento de Estudos Românicos da Universidade do Minho e investigador do grupo Galabra-UMinho do Centro de Estudos Humanísticos da mesma universidade. A sua investigação tem-se centrado nos estudos da cultura e da literatura. É Vice-Presidente do Instituto de Letras e Ciências Humanas, Coordenador do Centro de Estudos Galegos da UMinho e membro da Comissão Executiva da Associação Portuguesa de Professores de Espanhol Língua Estrangeira [+ info: https://redegalabra.org/membro/carlospazos/]. 02 Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo ISBN 978-989-755-452-0 A COLEÇÃO HESPÉRIDES DESTINA-SE ESSENCIALMENTE À PUBLICAÇÃO DE MONOGRAFIAS E OUTROS TRABALHOS CIENTÍFICOS DOS INVESTIGADORES DO CENTRO DE ESTUDOS HUMANÍSTICOS. O Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho é uma unidade de investigação acreditada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), cujos objetivos prioritários são o desenvolvimento e a divulgação de investigação no domínio das Humanidades, em particular nas áreas dos estudos linguísticos, literários, culturais e artísticos. PORTUGAL E(M) NÓS. Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português 02 COLEÇÃO HESPÉRIDES CULTURA EDIÇÃO DE Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo PORTUGAL E(M) NÓS. Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português UNIÃO EUROPEIA Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional UID/ELT/ 00305/2019 CONSELLERÍA DE EDUCACIÓN, UNIVERSIDADE E FORMACIÓN PROFESIONAL
PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português EDIÇÃO DE Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo
5 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) ENTRE OS SÉCULOS XVIII E XX A EUROPA ASSISTE AO PROCESSO DE ELABORAÇÃO INTELECTUAL, primeiro, e de institucionalização e naturalização, depois, da atual ideia de nação como sujeito coletivo de soberania política (Thiesse 1999). Com diferentes tempos e modos, graus e intensidades, materiais repertoriais ou recursos, e até propriamente com desenvolvimentos diversos (nomeadamente uma ideia mais orgânico-historicista e outra ideia mais liberal de nação, identificadas com os polos irradiadores alemão e francês, respetivamente), o sucesso na institucionalização e conseguinte naturalização desta ideia nas populações envolvidas é, também, variável. Para este relativo êxito ou fracasso contribui, de regra, a (pré-)existência e o envolvimento no processo de um Estado proselitista capaz de educar e, em última instância, impor (legitima[da]mente) o sentido comum nacional ao conjunto das populações administradas. Este corpus ideológico nacional(ista), construído da mão do empoderamento político da burguesia e da implementação do capitalismo industrial como modo de produção principal (as duas revoluções de que fala Hobsbawm [1996]), foi exportado pela Europa a quase o mundo todo e sujeito a apropriações e adaptações por classes sociais diferentes daquelas envolvidas nas suas primeiras formulações (aristocracia primeiro, proletariado depois).
6 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português Nestes processos de fabricação por elites locais de identidades diferenciais e diferenciadas a respeito de outras comunidades (Espósito 1998) – que, por sua vez, foram ou estão a ser também imaginadas (Anderson 1983) por elites diferentes noutros lugares –, nestes processos de construção nacional, então, são significativos os labores de apoio, suporte e assistência identitária realizados por agentes forâneos, quer através da transferência [1] de ideias previamente elaboradas por estes e depois apropriadas e socializadas pelas elites locais, quer através de tomadas de posição concretas em apoio de programas ou estratégias sustentados por algum dos grupos que intervêm na nacionalização dessa comunidade local (não raro utilizando para esses fins os campos culturais). No espaço geocultural ibérico, estes fenómenos concretizam-se tanto na concorrência pelo mesmo espaço social de projetos nacionais diferentes (apresentados como mais ou menos conciliáveis ou antagónicos em função de conjunturas, estratégias e programas), como nas diferentes funções referenciais que as elites envolvidas no processo de socialização da ideia de nação própria podem vir a atribuir aos restantes sistemas (Even-Zohar 1990) ou comunidades político-culturais peninsulares. Em concreto, no espaço social da Galiza coexistem desde o início destes processos dois projetos nacionalitários com diferente grau de institucionalização e, em maior ou menor medida, concorrentes, antagónicos, conciliáveis ou (ir)redutíveis: a nação espanhola, sustentada ao longo da prática totalidade do período em foco em regime de monopólio por um Estado caracterizado pelo centralismo no político e pela identificação (apenas ou sobretudo) com materiais castelhanos na sua vertente tanto jurídica como linguístico-cultural; e a nacionalidade galega, sustentada pelo sector das elites locais que trabalha para a sua institucionalização à margem do aparelho estatal (com aproveitamento variável das possibilidades abertas pelo ordenamento político-institucional em cada momento) e à qual esse mesmo Estado concede um certo grau de autonomia política só a partir da descentralização 1 O termo transferência é entendido nos trabalhos que integram este livro em que ele aparece como “todo o elemento que é importado de um sistema por um factor do sistema- -meta (vid Even-Zohar 1990)” [apud Torres Feijó 1999].
7 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo político-administrativa e do reconhecimento da pluralidade cultural da nação espanhola contemplado na constituição de 1978 [2]. Da mesma maneira, para os vários agentes envolvidos em provar e defender a existência da Galiza como comunidade político-cultural diferenciada Portugal funciona, em geral e na maioria do período, como histórico referente de reintegração [3] e reforço legitimador de estratégias e programas. No eixo cronológico, esta afirmação ajusta-se, em rigor, à funcionalidade atribuída pelo núcleo do galeguismo [4] a Portugal e às restantes comunidades de língua portuguesa até à década de setenta do século XX. Nesta altura inicia-se a transição da ditadura do general Francisco Franco para a monarquia parlamentar e a autonomia política 2 A distinção entre a nação (único sujeito de soberania política) e a(s) nacionalidade(s) (comunidades apenas culturais) é pertinente, ou até determinante, para compreendermos a questão nacional no ordenamento jurídico atual do Reino da Espanha: “a constituiçom espanhola referendada em dezembro de 1978 sanciona, dumha parte, a monarquia parlamentar e a descentralizaçom política como forma de governo e, por outro lado, a distinçom entre a “Nación española”, único agente de soberania conformado administrativamente por várias comunidades autónomas, e algumhas dessas comunidades perspetivadas como Nacionalidades”; por outras palavras: “a constituiçom hoje vigorante no Reino da Espanha sustenta a divisom entre umha única Naçom Política (Espanha) e várias Naçons Culturais (Galiza, Catalunha, Euskádi, ...) elididas no texto legal, por ele privadas do reconhecimento do direito à soberania política e às quais lhes é concedido um grau variável de autonomia” (Samartim 2017: 32; itálicos no original). Sobre nacionalismo espanhol veja-se Taibo 2007 ou Núñez Seixas 2018; para o nacionalismo galego veja-se Beramendi e Núñez Seixas 1995 ou Beramendi 2007. 3 Nos trabalhos que fazem parte deste volume o termo Referente de Reintegração (Beramendi 1991) designa “um agregado dos sistemas que se reconhecem utentes dumha mesma norma sistémica, [no caso galego] a língua portuguesa, que na actualidade, constituem um intersistema cultural (Torres Feijó, 2004: 442)” (apud Samartim e Cordeiro Rua 2009). Dessa maneira, é possível definir o reintegracionismo como “a ideia de (re)inclusom da Galiza num intersistema cultural compartilhado com os espaços do sistema lingüístico comum conhecido internacionalmente por Lusofonia (Samartim, 2005: 34n; itálico no original)” [apud Samartim e Cordeiro Rua 2009]. 4 Entendemos por galeguismo o “movimento de reivindicaçom da identidade diferenciada da Galiza com independência do grau de autonomia política proposto para a colectividade galega polos vários grupos ou agentes autoproclamados galeguistas, assi como o processo de fabricaçom de ideias que apoiam e justificam os vários graus desta reivindicaçom. Quando este movimento vise a reivindicaçom política da Galiza como ente nacional diferenciado dum referente de oposiçom identificado com o par Castela/ Espanha, estaremos falando em nacionalismo, umha das várias ideias possíveis de galeguismo (Samartim, 2005: 10)” [apud Samartim e Cordeiro Rua 2009].
8 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português que define o atual regime espanhol, no qual a Galiza é dotada de órgãos de governo próprios (dirigidos, de regra, por forças regionalistas de centro-direita que nem desenvolvem em todos os seus termos o quadro estatutário nem contemplam nos seus programas o carácter nacional da comunidade) e se produz o maior grau de institucionalização do Sistema Cultural Galego até à data. Neste processo de mudança de regime político e até à atualidade, o nacionalismo filológico que rege no Sistema Cultural Galego (pelo menos desde a criação das Irmandades da Fala em 1916) atribui à língua da Galiza a função de principal (ou até único) marcador etno-identitário diferencial imprescindível para a configuração, a identificação e a reprodução da comunidade política e cultural galega. Nesse momento de institucionalização político-cultural, a língua da Galiza atinge, quanto ao reconhecimento do seu estatuto jurídico, a consideração de língua própria e a oficialização dos seus usos na Comunidade Autónoma de Galicia de acordo com os termos fixados na Constituição espanhola (1978), no Estatuto de Autonomía de Galicia (1981) e na Lei de Normalización Lingüística (1983) hoje vigorantes: a cooficialidade subalterna, expressada no dever de conhecer e o direito de usar o castelhano, única língua nomeada na constituição de 1978, e em apenas no direito de usar o galego no âmbito da comunidade autónoma contemplado na legislação amparada nesse texto constitucional. Igualmente, será nesta mesma altura quando os grupos galeguistas ativos no Sistema Cultural Galego participem (com níveis de institucionalização variável) no processo de codificação e de construção das ideologias linguísticas propostas hoje para a língua da Galiza. Tal como veremos na continuação, este processo de construção ideológica e de seleção de materiais para a variedade padrão girará, em grande medida, em volta da relação da língua galega (metonímia da própria comunidade) com a língua portuguesa, com a tradição (bem medieval galego-portuguesa bem apenas moderna galega), com as falas populares, e com a presença social e o grau de diferença, coincidência ou concorrência com a língua castelhana (presente no espaço social galego e de obrigado conhecimento para a sua cidadania, com projeção internacional e suporte político, assim como fortemente institucionalizada e valorizada). Nessa conjuntura de (expetativa de) mudança de regime político, então, o Instituto da Lingua Galega [ILG] (criado no seio da Universidade
9 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo de Santiago de Compostela [USC] em 1971) consegue impor no polo mais institucionalizado do Sistema Cultural Galego da altura a ideia da autonomia da língua da Galiza em relação à de Portugal, validar como base para a língua standar as falas populares e a tradição literária moderna (fundada por Rosalía de Castro com a publicação dos Cantares Gallegos em 1863), identificar o galego com materiais linguísticos coincidentes com o castelhano (ortografia e determinadas soluções morfológicas e léxicas, sobretudo) e pactuar com a Real Academia Galega [RAG] (fundada por iniciativa do regionalismo etnicista e reconhecida pelo Estado Espanhol já em 1906) umas Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego (NOMIG 1982) fundadas nestes critérios e oficializadas em inícios da década de oitenta do século XX pelas autoridades políticas da Comunidade Autónoma de Galicia (Samartim 2005 e 2018b). Essa passagem de referente de reintegração para referente de oposição [5], verificado em início no campo da codificação linguística, alarga-se a partir dos anos oitenta do século XX desde os espaços com maior grau de institucionalização do Sistema Cultural Galego para a maioria dos âmbitos desse sistema em virtude do já apontado carácter eminentemente filológico que tem o galeguismo no século XX (Samartim 2017: 119 e ss.). Esta ideia de língua própria, elaborada na passagem do franquismo para o regime atual como diferente do português, é socializada na Galiza autonómica através do ensino, as administrações públicas, os meios de comunicação e, de forma maioritária, também através de uns campos culturais (principalmente do literário) relativamente heterónomos em relação com o poder político que sustenta a administração autonómica. No polo menos institucionalizado do sistema cultural galego, por sua vez, os principais grupos nacionalistas impugnam a autoridade de RAG e ILG para a fixação da língua da Galiza e promovem, até 2003, modelos linguísticos alternativos baseados nas propostas académicas prévias ao referido pacto da RAG com o Instituto universitário. Estas propostas partem do reconhecimento da unidade linguística galego-portuguesa (discutindo a utilidade normalizadora deste facto filológico), do questionamento da língua popular como modelo válido para o estabelecimento 5 O Referente de Oposição ou Referente de Negação (Beramendi 1991) é aquele “sistema do qual se pretende a emancipaçom e sobre o que se gera umha atitude de rechaço” (Torres Feijó 2004: 442).
10 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português da variedade padrão (em função do grau de interferência [6] castelhana verificado nas falas galegas), do recurso à tradição também medieval galego-portuguesa para a fixação de determinadas escolhas léxicas e morfológicas, e da seleção como provisórios de materiais constitutivos coincidentes com o castelhano e diferenciais em relação com o português (nomeadamente da ortografia). Além disto, as propostas colocadas no campo da codificação linguística desde 1980 por este nacionalismo galego localizado na esquerda política assentam (ao lado da já referida não atribuição de utilidade normalizadora ao facto filológico da unidade linguística galego-portuguesa) na identificação da natureza política do conflito linguístico, entendido como derivado da relação colonial existente entre a Galiza e a Espanha e como só resolúvel com o fim desta relação subalterna a favor das classes populares da nação galega [7]. 6 O termo interferência é entendido nos trabalhos deste livro, no sentido dado por Even-Zohar (1990), como “as relações [de transferência não voluntária] estabelecidas entre dous sistemas literários ou culturais” [apud Torres Feijó 1999: 290]. 7 Quanto à primeira ideia veja-se Rodríguez (1991: 39): “Se non hai que discutir que, desde unha perspectiva lingüística, galego e português son a mesma língua, é un consolo pouco convincente desde unha perspectiva sociolóxica e política. Hai que subliñar sempre que unha língua é fundamentalmente útil no contexto do povo que a fala”. Quanto à ideia de nação (re)elaborada pelo nacionalismo galego nos anos setenta do século XX repare-se no seguinte fragmento tirado da sua publicação Terra e Tempo (nº 37, 1976: 5): “neste intre da evolución do capitalismo a nación son as clases populares porque a nación adequire categoría revolucionaria contra o poder burgués, A NACIÓN NON SON TODAS AS CLASES, SONNO SOIO AQUELAS QUE ASUMEN A LOITA DE LIBERACIÓN NACIONAL que, nas circunstancias actuales, é unha loita de liberación social das clases asoballadas”. Sirva de exemplo no referido à relação apontada entre conflito político e conflito linguístico o trecho que citamos na continuação (AS-PG 1980): “Criticamos por isto todos os plantexamentos do problema da língua que desvinculen esta dos problemas políticos, económicos e sociais do noso país, porque nace deles e a eles se remite” (p.8); “O noso idioma ten problemas e graves, pero en nengun caso son a falta de unificación, a proliferación de escritas diferentes ou as normas diverxentes, porque estas son meras consecuencias da sua própria condición de idioma non normalizado. Os nemigos reais teñen outro nome: é a Constitución española, que deixa moi claro cales son os «direitos» do español frente aos das outras línguas, é a política española de hoxe, neocolonial e asimilista por via democrática” (p.9); “[...] O problema da escrita do galego, insistimos, non é tal problema, desde o momento en que se dispón dun «recetário» de convencións válidas, por claridade e por economía, para a ortografia do mesmo, discutíbeis como todas e provisórias como as de todas as línguas non oficiais, pero aptas para reproducir a nosa língua por escrito, que é do que se trata, en definitiva. […] estamos loitando para que a nosa língua recupere todas as suas funcións e sexa a língua normal dunha Galícia soberana” (p.10).
17 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo lusas contribuem para o reforço dos programas ideológicos e para as ações do galeguismo historicamente considerado; serão focadas, igualmente, as mudanças (de parcerias, estratégias, programas etc.) que é possível verificar nesse sentido no fim do período analisado. A estes efeitos, reunimos no presente volume um conjunto de oito trabalhos que surgem de projetos de investigação implementados por equipas de pesquisa ou por agentes individuais que fazem parte da Rede Galabra, integrada por pessoas e grupos de investigação presentes em universidades da Galiza, a Espanha, Portugal e o Brasil (vid. https:// redegalabra.org/; para a trajetória de Galabra veja-se Torres Feijó 2009 e Samartim 2016). Assim, o contributo de Raquel Bello Vázquez é resultado de um projeto de investigação por ela dirigido na USC sobre o período ilustrado na Galiza e os trabalhos referentes aos anos setenta do século XX (da autoria de Felisa Rodríguez Prado, Gonçalo Cordeiro Rua e Roberto Samartim) fazem parte dos resultados dos projetos POLULIGA/ FISEMPOGA, dirigidos na mesma universidade pelo professor Elias J. Torres Feijó [13]; já os textos assinados por Elias J. Torres Feijó e Carlos Pazos-Justo resultam das suas pesquisas particulares em volta do relacionamento galego-lusófono (no caso do primeiro trabalho achegado pelo professor Torres Feijó, este é parte da produção relativa à linha de investigação aberta com a sua tese de doutoramento já em 1995). Para além do texto inédito que encerra o livro, da autoria de Carlos Pazos-Justo, os restantes contributos foram publicados em atas de congressos ou revistas da área entre os anos 1999 e 2014. A somar à solvência científica para a que aponta tanto a inclusão nos projetos de investigação referidos como a sua avaliação por pares no momento de serem publicados, os textos agora divulgados mobilizam um alargado conjunto de ferramentas teórico-metodológicas procedentes do campo científico das humanidades e as ciências sociais, quer presentes nas 13 “Subsídios para o Estudo do período ilustrado na Galiza (1705-1820)”, financiado pelo governo galego entre 2007 e 2010 (INCITE08PXIB204051PR); “Portugal e o Mundo Lusófono na Literatura Galega das Últimas Três Decadas (1968-2000)” [POLULIGA], financiado pelo governo da Galiza entre 2001 e 2004 [PGIDT01PXI20414PR]; “Fabricação e Socialização de Ideias num Sistema Cultural Emergente durante um Período de Mudança Política (Galiza 1968-1982)” [FISEMPOGA], financiado pelo Ministerio de Ciencia y Tecnología do governo da Espanha entre 2009 e 2011 [FFI2008-05335]).
18 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português teórias sistémicas e sociológicas formuladas por Itamar Even-Zohar e Pierre Bourdieu (recurso habitual na produção ligada à Rede Galabra), quer elaboradas no âmbito da própria rede para sua aplicação ao entendimento do caso galego (e outros similares) [14]. Os trabalhos elencados (espalhados por várias publicações e, portanto, dificilmente acessíveis até ao de agora para o público geral) são agora editados sem qualquer revisão ou atualização relativa a conteúdos. Esta conservação propositada da datação dos textos previamente publicados tenciona dar conta do estado das investigações na altura em que os trabalhos foram dados a prelo, assim como também explica as repetições ou coincidências existentes entre alguns trabalhos (nomeadamente naqueles que abordam o mesmo período histórico) e 14 Para além dos conceitos já definidos e colocados em itálico nas nossas notas precedentes, os textos elencados remetem para o conceito de canonização estática vs. canonização dinâmica de Even-Zohar (1990) [apud Cordeiro Rua e Rodríguez Prado 2002], de campo cultural, campo do poder e espaço social (Bourdieu 1991) [apud Torres Feijó 1999] ou para os modos de funcionamento do estereótipo desenvolvidos por Pageaux e Machado (2002) [apud Torres Feijó 1999]. Igualmente, são definidos conceitos elaborados pelo professor Torres Feijó para o entendimento do caso galego, tais como défices projetivos, “elementos programáticos de um sector, aqui o galeguista, cuja prática pode ver-se dificultada ou impedida por motivos tácticos, políticos, económicos, sociais etc.” (Torres Feijó 1999: 274); normas sistémicas, “(materiais ou regras repertoriais da perspectiva analítica de Even-Zohar) som critérios delimitadores que actuam como princípios básicos que se activam nas práticas culturais dos espaços sociais, e de cuja interpretaçom e aceitaçom pola comunidade participante dependem as possibilidades e os modos de obter uso, posiçom e funçom nos sistemas culturais. As normas sistémicas, aliás, nom apenas determinam os nutrientes da estrutura do sistema mas os modos e efeitos de serem atingidos os seus pertencentes” (Torres Feijó 2004: 429-430) [apud Samartim e Cordeiro Rua 2009]; tendências subsistémicas, “práticas que, mantendo especificidades a respeito do sistema originário, nom pretendem impugnar a sua pertença a este (o que, provisoriamente e de forma insuficiente e esquemática, se pode fazer equivaler a «literaturas regionais» tal como entendidas, por exemplo, no contexto cultural ibérico)” (Torres Feijó 2004: 429) [apud Samartim e Cordeiro Rua 2009] ou enclave: “Elias Torres Feijó ([…] [2004: 429 e ss.]) e o grupo Galabra, por el coordinado, aplican a noción de enclave para estudiar o conxunto de actividades literarias desenvolvidas nun espacio social que se vincula a outro que actúa como metrópole, asumindo sempre a pertenza de ambos a un único sistema literario” (Equipo Glifo 1998: 71-72). Assim, por outras palavras, os enclaves som umha secçom do sistema cultural situada num território geograficamente afastado do da comunidade originária, configurando um espaço no qual as pessoas e as instituiçons presentes mantenhem relaçons específicas entre elas e com os seus homólogos da metrópole” [apud Samartim e Cordeiro Rua 2009: 179].
19 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo possibilita, aliás, uma leitura autónoma de cada capítulo. São realizados, contudo, alguns labores editoriais sobre os textos selecionados com o fim de facilitar a leitura e dar coerência e unidade ao livro. Nomeadamente, unificamos o modelo linguístico de todos os materiais aplicando o Acordo Ortográfico da língua portuguesa; agrupamos a bibliografia que acompanha cada texto em uma única secção no fim do livro, evitando assim duplicações; aliviamos quanto possível o aparelho de notas de rodapé de cada capítulo, com o intuito de favorecer a leitura mais fluída dos textos. Corrigimos também eventuais gralhas, lapsos ou castelhanismos e elaboramos um índice de instituições e eventos, um índice onomástico e outro conceitual. Quanto à natureza e conteúdos dos trabalhos concretos, o contributo de Raquel Bello Vázquez foi apresentado como comunicação no X Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL) celebrado em Faro, Portugal, no verão de 2011 e foi publicado no ano seguinte, prévia avaliação por pares, nos volumes temáticos resultantes desse encontro científico internacional. Neste texto são analisadas as vinculações com Portugal do produtor galego da segunda metade do século XVIII José Andrés Cornide. Estas relações, tracejáveis a partir de correspondência com vários ilustrados residentes em Portugal e das produções de Cornide que visam diferentes aspetos da cultura ou da geografia portuguesa, podem ser vinculados, segundo se desprende da análise de Bello Vázquez, com as próprias raízes do galeguismo do século seguinte. As conclusões do trabalho invitam a questionar alguns lugares comuns sobre a consideração da língua galega por parte das elites ilustradas do século XVIII, assim como também a questão identitária galega nesta mesma altura. Os dois capítulos da responsabilidade do professor Elias J. Torres Feijó abordam a função atribuída a Portugal pelo galeguismo em dois momentos determinantes na configuração da identidade diferenciada da comunidade galega. O primeiro dos textos da autoria de Torres Feijó foi publicado em 1999 na revista portuguesa ligada ao ISCTE-IUL Ler História e foi elaborado mobilizando parte da documentação levantada para a realização da sua tese de doutoramento (Torres Feijó 1995). Nele, o diretor do Grupo Galabra da USC estuda a função de referente de reintegração atribuída a Portugal pelo galeguismo no seu período fundacional, analisando as ações de assistência identitária
20 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português de agentes portugueses e como estas são valorizadas e utilizadas pelo regionalismo galego ao serviço da sua legitimação e do reforço do seu programa de autonomização político-cultural, ao tempo que elas são desvalorizadas e contestadas por grupos rivais (que trabalham para a subsistemização do galego no sistema espanhol). No texto seguinte, apresentado ao III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade celebrado no Porto e em Viana do Castelo em maio de 2008, Elias J. Torres Feijó estuda a trajetória e as diferentes utilidades político-culturais atribuídas à saudade pelos diversos grupos galeguistas, especialmente no momento em que este movimento se configura como nacionalista; Torres Feijó analisa neste contributo a incorporação deste material identitário originado em Portugal ao referente afirmativo da comunidade galega, evidenciando a função preeminente como referente de reintegração desempenhada pelo sistema português noutro período determinante para a configuração do Sistema Cultural Galego contemporâneo. Os quatro capítulos seguintes analisam a função atribuída ao sistema português pelos diferentes grupos ativos no Sistema Cultural Galego no período em que se produz a passagem do franquismo para a monarquia parlamentar no Estado espanhol. Quer a partir de abordagens de conjunto quer focando campos culturais concretos ou eventos históricos específicos, estes quatro trabalhos contribuem também para compreender, em boa medida, as posições atingidas por esses grupos e os programas desenhados para o relacionamento galego-português no atual regime autonómico. O texto que abre este bloco foi apresentado como comunicação ao I Congresso Internacional O pensamento Luso-Galaico-Brasileiro (1850-2000) celebrado no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa em outubro de 2007 e foi publicado nas atas deste evento científico dois anos depois. Da autoria de Roberto Samartim e Gonçalo Cordeiro Rua, o capítulo apresenta o projeto de investigação que está na origem tanto deste como dos três capítulos seguintes para, imediatamente, atender as continuidades e principais mudanças experimentadas no Sistema Cultural Galego quanto aos grupos atuantes e as ideias por eles promovidas através do campo editorial durante o tardofranquismo e a transição (1968-1978). Com recurso à Análise de Redes Sociais, o trabalho analisa um corpus composto por livros
21 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo e revistas da altura e identifica a posição de cada grupo em relação com um conjunto de ideias-força agrupadas em seis áreas temáticas: história, literatura, arte, cultura, língua e política. O capítulo seguinte está assinado por Gonçalo Cordeiro Rua e por Felisa Rodríguez Prado e foi apresentado como comunicação no VII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas celebrado na Brown University em inícios de julho de 2002. Disponibilizado pela AIL em 2017 através do seu repositório on-line, este contributo descreve em pormenor o funcionamento do Sistema Literário Galego no período final da ditadura franquista e o diferente papel que os vários agentes que nele participam atribuem ao referente português. Com especial atenção ao estado do campo político da altura, aos repertórios literários priorizados ou rejeitados por cada grupo e ao processo de codificação linguística iniciado nesse momento, Cordeiro Rua e Rodríguez Prado apontam já para a fratura existente entre uma tendência “popularista” e outra “culta”, verificada em relação tanto ao modelo de língua proposto e aos repertórios literários priorizados como ao labor atribuído à tradição por cada grupo com presença no Sistema Cultural Galego do tardofranquismo. O recurso ao labor legitimador do referente português será invocado ou rejeitado em relação com estes três elementos em função das diferentes posições e programas de cada grupo analisado. O texto seguinte foi apresentado por Felisa Rodríguez Prado no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais celebrado na Universidade de Coimbra em setembro de 2004. Nele, a investigadora de Galabra-USC aborda as estratégias de ação das novas gerações do nacionalismo galego de esquerdas, localizadas na resistência política ao franquismo e animadoras de campos culturais até esse momento praticamente desatendidos pelo galeguismo. Nomeadamente, Rodríguez Prado analisa as ações da juventude universitária galega em um campo musical que assiste na década de setenta do século XX ao surgimento do movimento da nova canção galega. No trabalho verifica-se que, para o reforço deste campo musical em construção, estes agentes da esquerda recorrem tanto à solidariedade das periferias estatais (sistemas catalão e basco) e a materiais procedentes do celtismo como a transferências de materiais repertóriais referenciados no folclore galego-português e nos sistemas lusófonos (Portugal e o Brasil).
22 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português O último trabalho que analisa o Sistema Cultural Galego dos anos setenta é da autoria de Roberto Samartim, foi apresentado como comunicação no Colóquio comemorativo dos 40 anos do 25 de Abril celebrado na UMinho em abril de 2014 e foi publicado na revista do CEHUM Diacrítica nesse mesmo ano. Neste contributo, para além de realizar uma sondagem na imprensa galega de abril a julho de 1974, Samartim analisa os impactos causados pela revolução iniciada em Portugal em 25 de abril desse ano nos campos cultural e político da Galiza a partir da análise das ações, os discursos e as relações dos grupos que ocupam uma posição de maior centralidade no Sistema Cultural Galego da altura. O percurso realizado confirma que é precisamente nos anos setenta do século XX quando são construídas as lógicas de relacionamento e as alianças galego-portuguesas ainda hoje vigorantes, nomeadamente no espaço da esquerda política. O volume encerra com um contributo em que Carlos Pazos-Justo aborda o relacionamento cultural entre Galiza e Portugal na atualidade. Em seguimento de estudos anteriores deste membro de GalabraUMinho e como segunda versão de um texto enviado previamente a uma outra publicação gorada, Pazos-Justo explicita neste texto as ideias e origens do quadro relacional em foco, problematiza os rumos atuais do relacionamento galego-português em função das lógicas políticas, endógenas e exógenas, e deteta o ruído que preside o contacto poliédrico e dinâmico neste espaço peninsular, tanto na sua dimensão institucional quanto identitária. O texto funciona como recolha bibliográfica e síntese do período abordado pelos textos precedentes e faz uma incursão na atualidade mais recente do relacionamento galego-português, toda a vez que levanta a rede institucional (de âmbito europeu, autonómico ou intermunicipal) que sustenta este relacionamento no século XXI e aponta para a eventual mudança de paradigma nos estreados vínculos institucionais; neste sentido, o tradicional relacionamento galego-português alegado por elites intelectuais de ambos os lados da fronteira política parece estar a ser substituído por um relacionamento GalizaNorte de Portugal, alicerçado na arquitetura político-institucional de origem comunitária europeia (com as questões que isto eventualmente levanta para os agentes planificadores, nomeadamente da parte galega). Para além de analisar os obstáculos atuais ao relacionamento (ruído identitário e institucional), Pazos-Justo aponta também dois novos eixos
23 PORTUGAL COMO TRAVE DO GALEGUISMO? (UMA INTRODUÇÃO) Roberto Samartim Carlos Pazos-Justo de relacionamento abertos neste século XXI: o institucional, desenvolvido no texto, e o relativo ao caminho português a Compostela, em estudo neste momento por vários membros de Galabra (Bello Vázquez 2015, Rodríguez Prado 2014). Com a publicação agora, por junto, dos textos que integram este volume pretendemos, enfim, colocar ao dispor do público geral um conjunto de achegas que julgamos referenciais para compreender o relacionamento galego-português na modernidade e contemporaneidade destas duas comunidades do ocidente peninsular.
241 ÍNDICES Índice de conteúdos 5 Portugal como trave do galeguismo? (uma introdução) Roberto Samartim / Carlos Pazos-Justo 25 Portugal como referente na Galiza do século XVIII. O caso de José Andrés Cornide Raquel Bello Vázquez 25 1. Antecedentes 26 2. Hipóteses 27 3. Seleção do caso e do corpus 29 4. Relacionamento de J. A. Cornide com Portugal: evidências 35 5. A defesa do Reino da Galiza: evidências 38 6. Discussão 39 7. Conclusões 41 Cultura portuguesa e legitimação do sistema galeguista. Historiadores e filólogos (1880-1891) Elias J. Torres Feijó 41 1. Propósito 42 2. A precariedade do sistema galeguista 42 2.1. Os cavalos de Tróia 44 3. À procura da legitimação: cultura, história e política no movimento galeguista, um sistema sitiado 47 4. A origem do perigo português: Teófilo Braga vs. Emilio Castelar (e um jovem Leite de Vasconcelos); primeiras consequências 53 5. Teófilo Braga, figura central no sistema galeguista. A crítica de Pardo Bazán 57 6. A linha galeguista liberal impulsionadora do reintegracionismo cultural
242 PORTUGAL E(M) NÓS Contributos para a compreensão do relacionamento cultural galego-português 58 7. 1888-1890: Intensificação das polémicas legitimadoras, também da reintegracionista 58 7.1. O debate linguístico 60 7.2. Galiza: entre enlace hispano-português e construto de um sistema luso-galaico 64 7.3. O caso Sánchez Moguel e o reintegracionismo de Manuel Murguía 73 7.4. As presenças de Leite de Vasconcelos 75 7.5. Alguns reflexos do Ultimato 77 7.6. A consagração galeguista de Oliveira Martins 80 8. O discurso de Manuel Murguía nos Jogos Forais de Tui (1891): os argumentos do reintegracionismo galeguista 85 A mais poderosa ponte identitária: Portugal e a Saudade no nacionalismo galego Elias J. Torres Feijó 103 O pensamento cultural galego em referência a Portugal: posição e função de ideias e grupos no Tardofranquismo e na Transição Roberto Samartim / Gonçalo Cordeiro Rua 107 1. Grupos e agentes no SCG de 1968 a 1978 117 2. Ideias e publicações no SCG de 1968 a 1978 123 Sistema literário galego e mundo lusófono nos primeiros setenta (1969-1974): Portugal para quê? Gonçalo Cordeiro Rua / Maria Felisa Rodríguez Prado 123 1. Quadro geral 124 1.1. O regime franquista 125 1.2. O panorama editorial 131 1.3. A questão da língua no protossistema literário galego 134 2. O mundo lusófono no protossistema literário galego 135 2.1. Língua 141 2.2. Literatura 149 3. Dimensões a considerar
243 ÍNDICES 153 Inovações repertoriais no campo cultural galeguista na década de 70 e as transferências do mundo luso-afro-brasileiro Maria Felisa Rodríguez Prado 153 1. Propósito 153 2. Contextualização 155 3. O papel da Universidade compostelana 160 4. O campo musical e a Nova Canción Galega 171 5. Conclusões 173 O 25 de abril na Galiza dos anos setenta: impactos e consequências Roberto Samartim 174 1. O estado de campo na Galiza: grupos e posições 175 1.1. O 25 de abril na resiliência 179 1.2. O 25 de abril na resistência 183 2. O impacto do 25 de abril através da imprensa (Faro de Vigo) 187 3. Síntese conclusiva 189 Confluências e ruídos. Contributos para o entendimento das relações culturais galego-portuguesas na atualidade Carlos Pazos-Justo 189 1. Introdução 190 2. Linhas de força do relacionamento cultural galego-português 192 3. O relacionamento cultural galego-português hoje 196 3.1. Galiza-Portugal vs. Galiza-Norte de Portugal 198 3.2. O ruído 198 3.2.1. O ruído institucional 202 3.2.2. O ruído identitário 205 4. Síntese conclusiva 209 Referências Bibliográficas