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145 Este texto corresponde à seguinte citação: Teixeira, José (2018) “Línguas e tecnologias digitais de informação e comunicação: uma questão de vida ou de morte? O caso da língua portuguesa” in Chulata, Katia De Abreu (Org.) (2018). Portoghese in azione. Strategie di insegnamento e apprendimento-Português em Ação. Estratégias de ensino e aprendizagem, Tuga Edizioni.pp. 145-169. (ISBN 978-8899321-18-5) Línguas e tecnologias digitais de informação e comunicação: uma questão de vida ou de morte? O caso da língua portuguesa. José Teixeira ILCH-Universidade do Minho “Hoje, uma língua que não se defende, morre” (José Saramago) 1 , 1. As línguas também morrem Segunda dados da UNESCO (outubro 2018) pouco mais de metade das línguas do mundo 2 (57,13%) é que, pelo menos para já, está fora de perigo. O fenómeno do desaparecimento (da “morte”) de milhares de línguas nos últimos dois séculos continuará nos tempos futuros entre a referida (quase) metade que está em perigo de extinção. E parece haver uma implicação direta entre a cada vez maior facilidade comunicativa global e o desaparecimento de muitas línguas, na medida em que a globalização parece ter contribuído para acelerar este processo, de tal modo que, mesmo sabendo-se da falibilidade de previsões a longo prazo, há quem arrisque prever um futuro de hecatombe na diversidade linguística. Assim, Steven Roger Fischer, em 2002 na obra Uma História da Linguagem, prognostica: Os dois séculos que se seguirão irão indubitavelmente assistir a uma substituição linguística sem precedentes; à homogeneização e ao nivelamento dos poucos dialectos e línguas que sobrevivem; e, finalmente, em última instância, a toda a gente a falar provavelmente o inglês, como primeira ou como segunda língua, à medida que a sociedade global se torna uma realidade, pelo menos a nível linguístico. 3 1 Em 3 de janeiro de 2003, num texto intitulado “Uma língua que não se defende, morre”, texto especialmente escrito para o Ciberdúvidas, sítio na internete dedicado à língua portuguesa (https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/) 2 Segundo o Ethnologue (16 outubro 2018) há 7097 línguas vivas conhecidas. 3 Steven Fischer, , Uma História da Linguagem, Temas e Debates, Lisboa, 2002, p. 197.
146 Ainda de acordo com o mesmo autor, “em termos de mero número de falantes, apenas três línguas (e as respetivas linguagens gestuais) irão possivelmente sobreviver daqui a 300 anos: o mandarim, o espanhol e o inglês.” 4 O processo do progressivo monolinguismo passa, segundo Fischer, pelo bilinguismo: sucessivas gerações bilingues em que a língua materna deixa de ter a importância social que tinha e onde se vai impondo a língua aprendida por razões práticas ligadas ao prestígio social e às oportunidades que proporciona: A Escandinávia, a Holanda, Singapura e um pequeno número de outras regiões do globo representam possivelmente já a situação linguística que em breve predominará por todo o mundo: populações adultas bilingues que falam a língua local (metropolitana) e o inglês. Depois disto, talvez lá para o final do século XXIV, só o inglês terá sobrevivido como a única língua do mundo [...]. 5 É evidente que previsões a tão longo prazo, distantes 3 séculos para o futuro, terão validade semelhante às hipoteticamente feitas há trezentos anos para os dias que vivemos. Não precisamos de saber quais as que foram feitas para termos a certeza que seria impossível terem qualquer probabilidade de acerto. No entanto, há dados que não podemos ignorar. Num mundo que se quer cada vez mais globalizado, que se autodesigna como “aldeia global”, a variação e multiplicidade das línguas funciona realmente (quase) como (a única) barreira comunicativa, já que praticamente desapareceram as distâncias geográficas e de interconexão a nível tecnológico. Os custos e dificuldades da comunicação recaem, agora, diretamente na variável da diversidade linguística. A União Europeia gasta, por ano, cerca de mil milhões de euros com o seu de multilinguismo e apenas para o respetivo funcionamento institucional, nas atividades de tradução de textos e na interpretação das comunicações orais. 6 E o que efetivamente se traduz é uma gota no oceano babélico das línguas da rica União Europeia, a qual se pode dar a estes luxos de permitir o uso de 4 Idem, p. 204. 5 Idem, p. 204. 6 António Branco et al.,. A Língua Portuguesa na Era Digital / The Portuguese Language in the Digital Age, White Paper Series, Berlin, Springer, 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (livro impresso); ISBN 978-3642-29593-5 (ebook), p. 1.
147 uma multiplicidade de línguas em determinadas situações oficiais, mas onde a quase totalidade da comunicação entre pessoas de línguas diferentes se faz, na prática, numa língua comum (quase sempre) utilizada, o inglês. Compreende-se, por isso, que seja grande a apetência para, numa dimensão económica, a longo prazo, se tentar reduzir toda esta babel a uma única língua. Até porque, argumenta-se, afinal, as novas gerações são, em grande parte, bilingues, com inglês. Todas estas vertentes tendem, por isso, a passar a ideia de que a globalização económica tende a acarretar a globalização linguística. 2. As chamadas “novas tecnologias” e diversidade linguística: veneno ou cura? O não desmentível bilinguismo atual, sobretudo dos mais jovens, que a comunicação global potencia, é, por vezes, visto como indício da provável homogeneização futura. Na verdade, historicamente comprova-se que o bilinguismo, em poucas gerações, pode levar ao desaparecimento das línguas originais, como aconteceu no processo da romanização, na substituição das línguas autóctones pelo latim na maior parte da zona geográfica do império romano. O aparecimento da internete começou por reforçar a ideia de que o inglês iria dominar a rede de modo absoluto e que todas as outras línguas estariam condenadas a desaparecer. Os primeiros conteúdos da rede eram praticamente todos em inglês. No entanto, quanto mais a troca global de informação se organizou e quanto mais as redes sociais se desenvolveram, mais as línguas nacionais se implementaram perante o inglês e de forma exponencial. É facilmente compreensível que quanto mais possibilidades tecnológicas o usuário tiver para usar a sua língua e não for forçado que recorrer a uma língua segunda ele irá usar cada vez mais essas ferramentas para a comunicação através da sua língua primeira. Ora as potencialidades tecnológicas aumentaram exponencialmente a partir dos anos 80 do século XX, mas sobretudo a partir do início do século XXI. A expressão “Novas Tecnologias da Informação e Comunicação” (frequentemente abreviadas no acrónimo TIC), ainda hoje tão utilizada,
148 aparece precisamente na viragem do século. A rápida e genérica aceitação da designação resulta da perceção de que a chamada sociedade industrial se estava a transformar vertiginosamente numa sociedade informacional, transformação essa permitida pelas novas tecnologias (“novas” nas duas últimas décadas do século XX). A globalização, no fundo, não foi mais do que a transformação do espaço em ciberespaço. Nos últimos vinte anos, no entanto, o adjetivo “novas”, aplicado às tecnologias, é pouco transparente, porque ele não pode designar o mesmo que designava no início do século XX. Parece-nos que hoje, no fim da segunda década do século XXI, não faz grande sentido continuar a chamar “novas” a tecnologias com 40 anos, misturando no conceito realidades como o computador de há 30 anos, os telemóveis inteligentes de hoje e o sistema global e permanente de acesso à rede (internete). E até porque para a última geração, nada disto é “novo”, porque tal geração já nasceu dentro deste sistema global de comunicação e dos respetivos processos. Será, por isso, mais acertado falar de “comunicação e informação digital”, focando “comunicação” e não “tecnologias” (e muito menos “novas”!). As tecnologias, hoje, são imensas e variadas, mas acabam todas no mesmo, na comunicação e informação digital. A tradicional diferença tecnológica entre, por exemplo, telefone, televisão e computador, hoje praticamente não existe: as smat tvs e os smart phones são (no que respeita ao uso da rede e da comunicação) computadores, apenas com ecrãs e teclados diferentes. A esta explosão tecnológica aliou-se, simultaneamente, a explosão das ligações interpessoais em redes sociais. “Comunicação” não mais pode ser identificada simplesmente com “informação” (como nos média clássicos), mas tem de abarcar, e muito, os processos de relações interpessoais e públicas através do envio de conteúdos comunicativos constantemente (re)construídos e reenviados. Ora este tipo de comunicação não busca a informação neutra, supostamente objetiva, “denotativa” na terminologia estruturalista, que vê como principal função das línguas a comunicação e a informação sobre a realidade das coisas e acontecimentos. É um equívoco partir da ideia de que a finalidade da comunicação linguística é a informação “denotativa”. É verdade que toda a linguística tradicional aponta como sendo a finalidade das línguas a informação, no sentido de transmissão de conteúdos cognitivos com os quais se retratam ou referem a realidade extralinguística. No entanto, como sublinham as ciências
149 cognitivas, a função das línguas não é, em primeiro lugar, a informação neutra 7 . As línguas são, antes de instrumento de comunicação de função meramente informativa, instrumento de construção comunitária, estruturas argumentativas e percetivas, emocionais e por isso ultrapassam a dimensão puramente comunicativa. E esta será a faceta que mais resiste à unificação linguística. Será sempre verdade que só na minha língua digo aquilo que quero; na língua dos outros digo aquilo que posso. O bilinguismo puramente simétrico é ilusório. Por isso, mesmo num indivíduo bilingue que possua L1 e L2 8 , não é indiferente a língua usada. Quando pode, ele acaba por optar por L1, sua língua materna. No entanto, dos milhares de línguas que ainda existem no mundo, é óbvio que nem todas terão a mesma hipótese e a mesma qualidade de sobrevivência. Se alguns milhares desapareceram no último século, talvez também mais alguns outros milhares desapareçam ou fiquem seriamente menorizadas no(s) próximo(s). 3. O português como língua pluricêntrica nos tempos atuais de comunicação e informação digital 3.1. Que “Língua Portuguesa” queremos que não morra? O texto de Saramago atrás indicado é interessante porque, entre outras razões, persegue uma finalidade que aparenta ser comum e inquestionável para quem a usa: defender a Língua Portuguesa (normalmente assim, com maiúsculas) e por isso ajudar a contribuir para que ela “não morra”: por isso é que o intitula como intitula (Uma língua que não se defende, morre). O texto é também sociologicamente interessante porque, com a autoridade publicamente reconhecida ao único prémio Nobel da literatura em português, representa a forma de pensar dominante em muitos meios ligados ao ensino da língua de pendor mais tradicionalista com enorme influência nas decisões e políticas linguísticas da língua portuguesa. E nesta perspetiva, que Saramago 7 Ver, por exemplo, a “Gossip Theory” de Robert Dunbar que focaliza a fofoquice, o querer saber que tipo de relações se estabelecem numa comunidade como a função prioritária que terá estado na origem do surgimento das línguas humanas no nível de complexidade que atingiram no homo sapiens. 8 Há bilingues que têm ambas as línguas como L1, apresentando, para as duas, os mesmos níveis de competência.
150 corporiza, o perigo vem da coexistência das línguas num mesmo espaço, perigo levado a limites inimagináveis pelas novas tecnologias de comunicação (“meios de comunicação de massa”, como refere): A convivência pacífica nunca foi a característica principal das coexistências linguísticas [...] Ora, as línguas hoje, batem-se. Não há declaração de guerra, mas a luta é sem quartel. A História, que antes não fazia mais que andar, voa agora, e os actuais meios de comunicação de massa excedem, na sua mais simples expressão, mesmo o poder imaginativo daqueles que, como o autor destas linhas, fazem precisamente da imaginação o seu instrumento de trabalho. 9 Mas que “língua portuguesa” quer Saramago que se defenda? Parece uma questão retórica ou simplesmente deslocada, já que quando se debate o tema habitualmente se parte do princípio que todos sabem a que é que nos referimos quando falamos de “língua portuguesa”. Mas não. O conceito é abrangente e plurirreferencial. Nem todos falamos do mesmo quando falamos (com ou sem maiúsculas) de “Língua Portuguesa” 10 . Saramago idealiza a língua portuguesa como a língua escrita, maximamente representada pelos grandes escritores do passado: é do actual estado da língua portuguesa que me propus ocupar. Ainda que, confesso-o, me fosse de grande gosto, além do proveito que me traria, saber que causas se congregaram para que o português escrito, e presumo que também o falado, atingisse um tão alto grau de beleza no século XVII, por exemplo, e que enfermidades o atacaram depois e o trouxeram, com algumas intermitências fulgurantes (Almeida Garrett em primeiro lugar), a esta outra crisálida em que se está preparando não sei que insecto, por todos os indícios, provavelmente, um mutante. 11 9 José Saramago, “Uma língua que não se defende, morre”, https://ciberduvidas.iscteiul.pt/outros/antologia/uma-lingua-que-nao-se-defende-morre/745 2003. (Consultado em 7/11/2018) 10 Veja-se, a este propósito, José Teixeira (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganadores sobre a língua portuguesa” (em processo de publicação), o constante equívoco que resulta da frase mil vezes citada de Bernardo Soares “Minha pátria é a língua portuguesa”, umas vezes tomando “língua portuguesa” como “a língua das pessoas que falam português”, outras vezes como “a língua falada em Portugal”, quando o que Pessoa/Bernardo Soares explicitamente identifica com a “sua” língua portuguesa é apenas o sistema de escrita anterior à reforma ortográfica de 1911. 11 José Saramago, “Uma língua que não se defende, morre”, https://ciberduvidas.iscteiul.pt/outros/antologia/uma-lingua-que-nao-se-defende-morre/745 2003. (Consultado em 7/11/2018)
151 Embora Saramago diga (conferir início da anterior citação) que “é do actual estado da língua portuguesa que me propus ocupar”, para Saramago, a língua do presente é um “inseto mutante” resultante de ter sofrido “maleitas do passado” e que está a ser “degradada” e “corroída”: Porém, muito mais do que saber que maleitas terão surgido nesse e noutros passados, importaria averiguar as causas, e propor os remédios, se ainda os há, para a acelerada degradação que está corroendo a língua portuguesa. 12 A língua real, a língua portuguesa que sobrevive e é hoje o que é, se equilibra em novos usos, embora diferentes dos usos dos clássicos, é uma língua que não lhe traz nenhum otimismo: Eu sei, ai de mim, que os optimistas são doutro parecer: dizem eles que a língua portuguesa não precisou de quem a cuidasse durante todos estes séculos e nem por isso se finou, que uma língua é um ser vivo e, como tal, eminentemente adaptável, que essa capacidade de adaptação é a própria condição da vida, e que, outra vez metaforicamente falando, depois de bem baralhados os naipes, sempre estarão na mesa as mesmas cartas, isto é, haverá língua portuguesa bastante para que os portugueses saibam do que estou a falar. Oxalá. Mas eu, se é preciso dizê-lo, por deformação original de espírito ou cepticismo que veio com a idade, não sou optimista. 13 Este autorreconhecido ceticismo sobre o presente e o futuro da língua resulta da aceitação de um modelo mental de “língua portuguesa” construído à volta de (essencialmente) quatro ideias estruturantes, como 1) a língua portuguesa ideal e mais importante é a língua escrita; 2) essa língua teve o seu apogeu em escritores do passado; 3) desde essa época dourada até hoje tem sofrido “enfermidades”, “ataques” e tem vindo a ser “corrompida”; 4) a língua portuguesa é dos portugueses. Bastará rever as palavras citadas de Saramago para saltar à vista esta ideia 12 Idem. 13 José Saramago, “Uma língua que não se defende, morre”, https://ciberduvidas.iscteiul.pt/outros/antologia/uma-lingua-que-nao-se-defende-morre/745 2003. (Consultado em 7/11/2018)
152 de língua. E para esta “língua portuguesa” o pessimismo de Saramago justifica-se. Esta “língua portuguesa” não tem futuro e só se pode dizer que “não vai morrer” porque... já não existe, já está morta. Confinar a língua portuguesa ao passado dos grandes escritores ou ao presente apenas dos portugueses é, isso sim, menorizar a língua. E repare-se, na última citação, como para Saramago a língua portuguesa é essencialmente assunto doméstico de Portugal: “haverá língua portuguesa bastante para que os portugueses saibam do que estou a falar”. Ora não pode ser esta a ideia ou o modelo mental representativo do verdadeiro e realístico conceito de língua portuguesa na atualidade. 3.2. Que entender por “Língua Portuguesa” para este século XXI? Por mais que seja evidente que o português hoje não é a mesma língua (linguística e geopoliticamente) que Camões usou, não é por acaso que tanta gente gosta da metonímia “a língua de Camões”. Ela remete para uma idealização mítica 14 de uma situação linguística hoje radicalmente diferente. Os quatro mitos atrás referidos deverão ser todos vistos como contrariados pela realidade. Assim, em primeiro lugar, a língua portuguesa (como todas) não assenta na língua escrita, mas na oralidade, no facto de ser usada atualmente por mais de duzentos milhões de falantes. É a oralidade que começa por dar subsistência a uma língua enquanto língua. Sem oralidade, não pode existir qualquer língua. A escrita é uma dimensão importantíssima... desde que exista uso oral. Língua escrita sem oralidade é língua morta. Em segundo lugar, o “apogeu” de uma língua não se pode medir apenas pela sua literatura do passado, mas por tudo aquilo que com ela se constrói comunicativa e culturalmente. E sobretudo depende da sua real imposição global (sim, aqui os números contam) perante as outras línguas como veículo comunicativo e cultural. Em terceiro lugar, as mudanças que o português aceitou (melhor do que “sofreu”, metáfora tendenciosa que sugere que toda a mudança é má porque implica “sofrimento”) não são “enfermidades”, “ataques” que a “corrompem”. São apenas adaptações a usos que os falantes consideram úteis, por muito que choquem quem vê no passado de uma língua castidades e purezas invioláveis. 14 José Teixeira (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganadores sobre a língua portuguesa” (em processo de publicação)
153 E por último (para abordarmos apenas os 4 aspetos atrás referidos), a língua portuguesa não é apenas dos portugueses, mas de todos os que a usam e que a escolheram como língua de comunicação. E é esta dimensão, sobretudo, a que lhe garante o futuro neste século XXI. Ser uma língua policêntrica, escolhida por vários centros políticos, espalhada por dispersas e variadas regiões do globo. E não é aceitável o argumento de que se o critério for o número de falantes então a única variante do português que interessa é praticamente só a do Brasil. As previsões são bem diferentes para o final do século XXI. Mantendo-se as atuais tendências demográficas, será em África que haverá a maior comunidade de falantes de português em 2100 (Tabela 1). País Habitantes % falant. pt Angola 97,34 22,96% Brasil 194,53 45,90% Cabo Verde 0,55 0,13% Guiné Bissau 5,63 1,32% Guiné Equatorial 2,42 0,57% Moçambique 111,02 26,43% Portugal 7,46 1,75% São Tomé e Príncipe 0,57 0,13% Timor-Leste 3,26 0,77% Total 423,77 99,96 Tabela 1: População, em milhões, dos países de língua portuguesa em 2100 (World Population Prospects) Se se confirmarem as previsões, Portugal terá, no final do século, menos de 2% do total dos falantes da língua portuguesa! Ou seja, o português será cada vez mais uma língua global, policêntrica e cada vez menos a língua apenas dos portugueses.
160 -“Trump tuítou com o seu exagero habitual” 26 : o dicionário conjugaria o verbo tuitar ou poderia explicar que *tuítou não pode ser assim acentuada porque é uma palavra aguda e não grave; -o absolutamente injustificável icebergue, que quase 100% dos jornalistas usa e que os dicionários em papel aconselham: terá que ser usada ou a palavra estrangeira iceberg, ou aportuguesada só pode ser aicebergue, nunca a primeira metade em inglês (ice) e a segunda metade em português (bergue); -a urgente fixação gráfica em português de palavras que vieram para ficar, como internet, link, email, download, blog, post e que, para já, pouca coragem há para grafar internete, linke/linque, daunloude, blogue, poste, etc... Um dicionário como este (como se disse, com a chancela da autoridade das academias dos países de língua portuguesa) poderia acudir à necessidade de mecanismos de orientação para a adaptação de neologismos, instrumento tão útil 27 para a defesa da língua num espaço e num tempo de fragmentação que em nada a ajuda perante as outras com instrumentos e mecanismos de união mais consolidados e aceites. 26 Ferreira Fernandes, um dos jornalistas mais conhecidos, no Diário de Notícias 8/11/2018) https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/america-2018-anuncia-um-mau-202010142223.html. 27 A necessidade de os falantes saberem se há uma forma normativa é grande e aparece frequentemente em debate público. Sobre como grafar “tuitar”, comprove-se como o debate público já tem cerca de dez anos: “No sempre útil site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, defendeu-se, em 2009, que não é necessário aportuguesar Twitter enquanto nome próprio (admitindo-se para a forma verbal o neologismo “twittar”), mas sugerindo, para um aportuguesamento feito a partir do verbo inglês, as formas “tuíter” (para o nome) e “tuitar” (para o verbo). No Brasil, onde a grafia “twittar” se tem vindo a tornar comum, o professor Cláudio Moreno rejeitou, na coluna que mantém sobre questões do idioma, a manutenção da letra “w” (ou “k”, ou “y”) na nacionalização linguística das palavras, argumentando que tal só deve ser feito quando os termos têm origem em nomes próprios de personalidades estrangeiras de relevo universal (“shakespeariano”, “keynesiano”, “wagneriano”, etc.). Recomenda a opção por “tuitar” — pela mesma lógica, distinta da que predomina em Portugal, que leva a preferir “saite” a “site” (José Queirós, 20/11/2011, Jornal Público/blogues online: http://blogues.publico.pt/provedordoleitor/2011/11/20/eu-tuito-tu-twittas-ele-escreve-no-twitter/) consultado em 8/11/2018)
161 3.3.2. O futuro de línguas como o português e as tecnologias digitais Para Fischer 28 , o futuro das línguas passa e muito pela respetiva ligação às tecnologias. Este é o dado que, segundo ele, fará com que o inglês seja a língua dominante nos dois próximos séculos: Oitenta por cento da informação na Internet é transmitida actualmente em língua inglesa. A julgar pelo índice de crescimento da utilização da Internet, este facto só por si poderá assegurar a posição do inglês como língua mais popular do mundo ao longo de quase todo o século XXI, senão até mais tarde. A população mundial está assim a ser “obrigada” a adoptar o inglês e prosperar, ou a ignorá-lo e declinar. No início do século XXI, a aprendizagem do inglês tornou-se uma questão económica básica: os empregos mais bem pagos do mundo exigem o domínio do inglês. Esta é a tendência que irá possivelmente determinar o perfil linguístico do planeta nos próximos dois séculos, pelo menos. O pressuposto de Fischer era o de que o inglês seria, na prática, a única língua com condições de sobreviver (“A população mundial está assim a ser “obrigada” a adoptar o inglês e prosperar, ou a ignorá-lo e declinar”, recorde-se da última citação). Só que Fischer não conseguiu adivinhar (alguém conseguiu?) a incrível revolução tecnológica das duas primeiras décadas do século XX e por isso parte de uma premissa falsa: de que o inglês seria a língua da internete de uma forma quase exclusiva. Quando Fischer dizia que (em 2002) 80% da informação da internete era em inglês, ele supunha que isto geraria um círculo vicioso: como quase tudo era (na altura) em inglês, quase tudo seria apenas acessível a quem usasse inglês, o que levaria a cada vez mais o inglês dos conteúdos implicar inglês por parte dos utilizadores. No entanto, apenas uma década e meia depois desta suposição, a realidade é bem diferente: em 2017, apenas 32% dos conteúdos eram em inglês (ver Tabela 2). 28 Steven Fischer, , Uma História da Linguagem, Temas e Debates, Lisboa, 2002, pp. 203-204.
162 LANGUAGE INTERNAUTS CONTENTS English 22.2% 32.0% Chinese 20.5% 18.0% Spanish 9.1% 8.0% French 5.6% 6.5% German 3.1% 3.8% Russian 5.0% 3.5% Portuguese 4.0% 3.5% Japanese 3.4% 3.5% Arabic 4.2% 3.0% Hindi 3.9% 3.0% Malay 2.6% 2.5% Polish 1.7% 1.8% Korean 1.4% 1.4% Bengali 1.5% 1.3% Italian 0.9% 1.1% Urdu 0.8% 0.7% Tabela 2: Uso das 16 línguas mais frequentes na internete em 2017 (fonte http://funredes.org/lc2017/) Isto desmente as previsões de Fischer: o inglês, em vez de aumentar a sua presença relativa na internete, vê-a diminuir a cada ano que passa. Já desde há uma década, o português tem sido uma das línguas mais usadas na rede: Um apanhado geral dos dados estatísticos sobre a língua portuguesa revela que esta é uma das línguas mais utilizadas na internet. De acordo com estimativas recentes, o português é a quinta língua mais usada na internet, sendo ultrapassada apenas pelo inglês, chinês, espanhol e japonês 29 . Esta pesquisa mostra que cerca de 82,5 milhões de utilizadores usam o português para navegar na internet, e que numa década, entre 2000 e 2010, o número de utilizadores que usam o português registou uma surpreendente expansão de 990%. O português está particularmente bem posicionado quando se trata da presença nas redes sociais. 29 Internet world users by language - Top 10 languages. Internet World Stats. Internet, 25/01/2012 - http://www.internetworldstats.com/stats7.htm
163 Um estudo semântico e quantitativo de 2,8 milhões de tweets, realizado pela Semiocast, revela que o português é a terceira língua mais usada no Twitter, depois do inglês e do japonês 30 . A língua portuguesa é a quinta mais utilizada na internet, onde registou um surpreendente crescimento de 990% na última década. Isto resulta do enorme aumento do acesso à internet no Brasil, particularmente entre os jovens. 31 E mais crescerá, adivinha-se, num futuro muito próximo. As facilidades tecnológicas do telemóvel atual (smartphone), funcionando como computador, estão a permitir saltar a etapa tecnológica do uso dos computadores pessoais. Se há 10 anos só uma pequeníssima parte dos africanos usava internete, hoje, através do telemóvel, a conexão nos países com menos recursos tecnológicos aumenta exponencialmente. Ora o português tem o seu maior campo de recrutamento de uso da rede na América do Sul e em África. Embora Fischer tenha apresentado uma previsão sobre o domínio do inglês na net nos próximos duzentos anos, não foram precisos mais de quinze para verificar como se enganou. As potencialidades comunicativas das novas plataformas fixas e móveis, o funcionamento das redes, o aumento global do uso, a tradução automática, têm permitido a comunicação nas várias línguas maternas. Não foram as pessoas que se adaptaram à internete: esta é que se adaptou às pessoas. A IA (Inteligência Artificial) promete fazer o resto, adaptando as máquinas aos humanos num processo que busca num futuro não muito longínquo uma interface comunicativa o mais parecida possível com o uso das línguas humanas. Para tal, as políticas linguísticas de uma língua como o português têm de perceber que o seu prestígio, pleno funcionamento e sobrevivência como língua com futuro passa por ser uma língua de tecnologias digitais. Para isso, é preciso também não esquecer a evidência de que as referidas tecnologias digitais implicam investimento e trabalho no campo tecnológico (este é comum a todas), mas também investimento e trabalho no campo linguístico, específico da língua. Esta tarefa não é possível sem a participação de especialistas da linguagem e da 30 Most Used Languages on Twitter. Semiocast. Internet, 17/02/2012 - www.semiocast.com/downloads/ Semiocast_Half_of_messages_on_Twitter_are_not_in_English_20100224.pdf. 31 António Branco et al.,. A Língua Portuguesa na Era Digital / The Portuguese Language in the Digital Age, White Paper Series, Berlin, Springer, 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (livro impresso); ISBN 978-3642-29593-5 (ebook), p. 14.
164 língua portuguesa, como terminólogos, lexicólogos, tradutores, etc. Numa obra bilingue intitulada A Língua Portuguesa na Era Digital/ The Portuguese Language in the Digital Age, António Branco, juntamente com uma série de outros colaboradores, procuram disponibilizar uma análise do estado de desenvolvimento da tecnologia da linguagem para a língua portuguesa, assim como das perspectivas que se oferecem, e das ações necessárias, para a consolidação do português como língua de comunicação internacional com projeção global, no quadro desta tecnologia emergente. 32 Ora o panorama que neste livro se apresenta sobre as ferramentas tecnológicas é revelador do quanto há a fazer. Usando a escala de bom; médio; fragmentário; pouco/ nenhum relativa ao apoio que 30 línguas europeias recebem para a tecnologia da linguagem, apresenta a língua portuguesa como uma das mais mal apoiadas e mal preparadas para as necessidades das interações tecnológicas, sendo apenas o inglês a referida como tendo bons apoios. Para o português, vemos referido: Tradução Automática, pouco/nenhum apoio; Análise do Texto, apoio fragmentário; Processamento da Fala, apoio médio; Recursos linguísticos escritos e orais, apoio fragmentário. Isto não pode implicar um baixar de braços com o argumento de que não há nada a fazer, até porque várias coisas têm sido feitas. Encontram-se, por vezes, sobretudo em Portugal e no Brasil, organismos e trabalhos que poderiam contribuir para, pouco a pouco, se constituir um real projeto de inserir a língua portuguesa entre as línguas tecnologicamente mais adaptadas à era digital: EUROTRA, ILTEC, LE-PAROLE, TagShare, corpus CINTIL, Corpus de Referência do Português Contemporâneo (CRPC), SemanticShare, Corpus de Extratos de Textos Eletrónicos MCT/Público (CETEMPúblico), TRADAUT, TECNOVOZ, projeto CLARIN, projeto DIRECT, projeto PLN-BR, projeto FAROL, estas instituições e projetos ligados a universidades e organismos estatais e instituições públicas e privadas parecem funcionar individualmente. Não seria altura de haver uma coordenação a nível da CPLP que aproveitasse 32 António Branco et al.,. A Língua Portuguesa na Era Digital / The Portuguese Language in the Digital Age, White Paper Series, Berlin, Springer, 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (livro impresso); ISBN 978-3642-29593-5 (ebook), p. III.
165 as sinergias de todos os projetos nas áreas de investigação e desenvolvimento no campo das tecnologias de informação e comunicação digital aplicadas ao português? A necessidade de fomentar investigação em língua portuguesa e de a coordenar parece ser urgente, como se confessa em A Língua Portuguesa na Era Digital: Os resultados deste livro apontam no sentido de que a única via de progresso consiste em se realizar um esforço substancial para se criarem recursos linguísticos para o português que permitam, por sua vez, impulsionar e fomentar a investigação, a inovação e o desenvolvimento de ferramentas e aplicações da tecnologia da linguagem. A necessidade de grandes volumes de dados e a extrema complexidade dos sistemas da tecnologia da linguagem tornam também cruciais o desenvolvimento de uma infraestrutura e de uma organização de investigação mais coerente, que fomentem uma maior cooperação e partilha de resultados. 33 Para complementar o diagnóstico feito por esta obra, parece-nos aqui pertinente apresentar os pontos de vista de quem é atualmente responsável e dirigente em empresas tecnológicas de ponta que têm por objeto a interface entre dados, processamento da linguagem e Inteligência Artificial. Sobre as principais vertentes que este texto aborda, colocámos a Daniela Braga, linguista de formação, CEO e fundadora da Defined Crowd 34 cinco questões sobre a relação entre tecnologias de informação e o futuro das línguas. E as respostas foram muito elucidativas: Questão 1: As TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) contribuem para o desaparecimento ou manutenção do uso de uma língua em tempos de globalização da comunicação? “Acho que as TIC contribuem para a manutenção do uso de uma língua na globalização da comunicação. Há uns anos, fiz parte de um projeto em que 33 António Branco et al.,. A Língua Portuguesa na Era Digital / The Portuguese Language in the Digital Age, White Paper Series, Berlin, Springer, 2012, ISBN 978-3-642-29592-8 (livro impresso); ISBN 978-3642-29593-5 (ebook), p. 35. 34 Empresa de processamento de dados criada pela linguista (de formação) Daniela Braga nos Estados Unidos, com delegações em Seattle, Lisboa, Porto e Tóquio. Sítio internete, https://www.definedcrowd.com/
166 criámos um TTS para Mirandês, em parceria com a CELGA-ILTEC, o Instituto Universitario di Studi Superiori, o Microsoft Development Center e o ISCTE. Esta é uma maneira de mantermos uma língua viva para sempre, que, de outra maneira, se iria extinguir inevitavelmente.” Questão 2: A cada vez melhor tradução automática contribuirá para a conservação ou desaparecimento das línguas e respetivo uso perante o inglês? “Creio que a tradução automática, que está em constante melhoria e expansão, contribui para assegurar a existência paralela de várias línguas, uma vez que existe investimento em cada vez mais línguas. Atualmente, já assistimos a cada vez mais empresas a criarem os seus próprios sistemas, em vez de utilizarem os genéricos já existentes, o que permite suportar o crescimento e melhoria dos sistemas nas mais variadas línguas.” Questão 3: Até que ponto as línguas que não tiverem processamento/uso da oralidade em TIC (corpora orais muito mais dispendiosos que os de escrita) poderão no futuro competir com as outras e preservar a própria existência como línguas plenas num mundo de comunicação cada vez mais global? “O processamento oral das TIC é muito importante. Ainda existe um grande domínio da escrita, mas num mundo cada vez mais rápido, escreve-se em menor quantidade e fala-se muito. Estamos perante aquilo que a Amazon denomina de voice economy – sabemos que o futuro é voice enabled, vamos interagir com os nossos eletrodomésticos, carros, e outros devices da mesma maneira que falamos com as pessoas. Posto isto, é evidente que as línguas que não investem no processamento oral na parte das tecnologias de voz (que é bastante dispendioso, sem dúvida), irão ficar em desvantagem. Num mundo futuro em que todas as interações serão por voz, é importante que, não existindo um investimento de um gigante tecnológico em determinado mercado, que o próprio governo tome conta deste desenvolvimento, mesmo que em cooperação com as empresas nacionais.” Questão 4: Em línguas pluricêntricas como o português, as TIC não favorecem a miscigenação linguística? Será esta uma das tendências do futuro ou antes o normatismo de Norma do PB, norma do PE, normas de Moçambique e Angola tenderão a cristalizar-se e afastar-se cada vez mais entre si?
167 “Com a globalização e o acesso à informação, acho que as normas se irão aproximar. Isto já se verifica com o inglês, sobretudo no domínio da escrita, o que acaba por ser uma questão de eficiência. Por outro lado, no caso dos dialetos, não creio que se irão aproximar. Num mundo rápido, há uma tendência para homogeneização e não para a separação.” Questão 5: Até que ponto uma língua, embora com uma grande literatura e com um grande passado, poderá sobreviver sem ser uma língua da comunicação nas redes sociais globais, Facebook, Twitter (atualmente exemplos de algumas, no futuro talvez outras). “A literatura, cuja relevância é inegável no contexto cultural, é sempre um património das elites e cultural, mas nunca será a linguagem utilizada nas redes sociais. No atual panorama de globalização tecnológica e linguística, uma língua que não seja de comunicação não poderá resistir -- não há forma de sobreviver no mundo atual sem se tornar uma língua das redes sociais. O facto de existir uma língua de comunicação nas redes sociais que é mais simples faz com que esta se torne mais apelativa aos não-falantes para a quererem aprender, o que ajuda a perpetuar a mesma ao longo do tempo.” 4. Conclusão: o melhor caminho para a sobrevivência esperada Confirmando o quadro mental em que a concebe, para Saramago (como para uma grande fatia dos portugueses—basta ver muita da argumentação antiacordo ortográfico), o futuro da língua portuguesa depende sobretudo de Portugal: a frente principal da luta pela sobrevivência da língua portuguesa está no próprio país de origem: se nele se perder, há muitas probabilidades de que venha a perder-se nos outros lugares do mundo que a falam. Não esqueçamos que as línguas se cercam umas às outras, não esqueçamos que a língua inglesa as cerca a todas e a todos nos cerca. 35 35 José Saramago, “Uma língua que não se defende, morre”, https://ciberduvidas.iscteiul.pt/outros/antologia/uma-lingua-que-nao-se-defende-morre/745 2003. (Consultado em 7/11/2018)
168 Com todo o respeito que um prémio Nobel de Literatura mereça, tem que se aceitar a evidência de que, felizmente, a língua portuguesa é muito mais do que a língua de Portugal. Como já foi apresentado na Tabela 1, calcula-se que no fim deste século o peso dos portugueses, entre os falantes da língua portuguesa, será menos de 2%! Se fosse apenas pelos números, o português só residualmente é que podia ser considerado a língua dos portugueses. Portanto, é capaz de ser um pouco megalómano pensar que, como diz Saramago, a “sobrevivência da língua portuguesa está no próprio país de origem”. Também está; mas não apenas, nem sobretudo. O português não se pode ver ou comportar como uma verdadeira língua internacional como o inglês (ou mesmo o espanhol), já que dificilmente funciona como língua comum entre pessoas que não a possuem como língua materna. Mas pode ver-se como língua polinacional ou multinacional 36 , como língua global 37 , cujo valor geopolítico não lhe vem apenas do número de falantes, mas sobretudo de ser uma língua usada em variados e estratégicos locais do globo. Por isso mesmo, não faz qualquer sentido pensar no futuro e sobrevivência do português num quadro mental, como faz Saramago, que inclua apenas a fala dos portugueses. Quem assegurará o futuro e a sobrevivência da uma língua com um passado cultural muito meritório não é esse passado, mas as potencialidades geográficas e populacionais (geopolíticas) que promete no futuro. É igualmente o facto de essas potencialidades indiciarem ser uma língua de poder económico. Mas tem também que ser uma língua de ciência 38 de molde a aliar a dimensão utilitária à dimensão de prestígio que qualquer uma das grandes línguas deve ter. Para todas estas dimensões, o português tem de acompanhar os desafios que a sociedade de comunicação e informação digital implica. É neste plano que se joga muito do futuro de todas as grandes línguas que queiram ter um papel com significado na era da comunicação e informação digital e da Inteligência Artificial. Por isso, o português tem de ser uma das línguas de Big Data, possibilitando trabalhar com cada vez maiores quantidades de informação analisável 36 José Teixeira, (S/D). “Decálogo de clichês mais ou menos enganadores sobre a língua portuguesa” (em processo de publicação) 37 José Teixeira, (Org.) O português como língua num mundo global - Problemas e potencialidades. Centro de Estudos Lusíadas da Universidade do Minho, Braga, 2016, (ISBN: 978-989-755-209-0); José Teixeira, “De todas as línguas se pode ver o mar: O Português e as línguas globais”, in Barroso, Henrique (2018). O Português na Casa do Mundo, Hoje. Editora Húmus, 2018, pp. 133-153. 38 José Teixeira, “Português, língua de ciência?” in José Teixeira, 2016, O português como língua num mundo global - Problemas e potencialidades. Centro de Estudos Lusíadas da Universidade do Minho, Braga, 2016b, pp. 175-190. (ISBN: 978-989-755-209-0) http://hdl.handle.net/1822/43639
169 computacionalmente. Hoje não é possível pensar no presente de uma língua sem acautelar o respetivo futuro, sobretudo de uma língua como o português, dispersa pelo globo e que está sujeita a variadas tensões de divergência, só evitáveis pela sua solidificação (não necessariamente uniformização), processo para o qual as ferramentas informáticas se afiguram imprescindíveis. Já chega, em vez de uma política de língua realista, de loas de muito amor à língua portuguesa que vão ter sempre ao seu passado glorioso e a Pessoa ou Camões. Como todos os seres vivos em movimento, uma língua que olhe demasiado para o passado deixa de ver os reais obstáculos que se lhe apresentam pela frente. E um dos obstáculos para a sobrevivência da língua portuguesa, enquanto língua global, pode ser, para muitos portugueses, o ainda não terem percebido que o português será cada vez menos apenas a língua dos portugueses e cada vez mais a língua de muitos outros povos; será não apenas a língua de um passado literário, mas de um futuro em que a comunicação não dispensa a informação digital. E, ao contrário do que Saramago pensava, são estas dimensões as que mais ajudarão na defesa perante as outras que a cercam, porque, como reconhecia o Nobel da literatura “hoje, uma língua que não se defende, morre”. Por isso, a melhor forma de defender o português de hoje talvez seja tentar perceber o que tem de ser o português de amanhã.